sábado, dezembro 01, 2012

Pierre Carnac A Atlantida de Cristovão Colombo 2



Tabuinha com signos de Karanowo (Bulgária)

 O autor em Glozel, em companhia do senhor Fradin



No alto: Escrituras desconhecidas da América do Sul.
Embaixo: Desenho de Pedra Pintada.
Concluindo, pode-se dizer, portanto, que desde aquela época o homem já havia
iniciado o processo intelectual que culminaria com a invenção da escritura muito embora
esta ainda permanecesse sem finalidade prática, tendo cabido talvez ao Oriente Médio a
tarefa de reinventá-la em outras bases. Vicissitudes históricas que desconhecemos seriam
então responsáveis pela interrupção daquelas primeiras tentativas, cujos autores só podem
ser aqueles mesmos homens que fizeram parte da primeira leva saída do remoto Oeste para
chegar ao Oriente.
ESTÁ FEITA A JUSTIÇA
A persistência, inalterada no decorrer de milênios, de signos idênticos aos de Glozel
sem dúvida alguma causou muito mais susto do que seria de direito. Com efeito, a suástica
não atravessou a história, vindo dos magdalenianos até Hitler? O signo do sol como uma
roda não subsistiu também pelo menos 6.000 anos? É verdade que, em 1930, ainda se
estava em pleno conservadorismo histórico. O homem tinha, no máximo, 500.000 anos de
idade, supunha-se que a América só tivesse sido povoada por asiáticos que atravessaram o
estreito de Behring durante os últimos 5.500 anos, etc. Era finalmente a época dos
brilhantes primórdios do "sumeranismo". Principal artífice do mito de Sumer, o arqueólogo
inglês Sir Athur Evans declarou no Times: "No caso de se admitir a autenticidade das
descobertas de Glozel, ficaria prejudicado todo o edifício dos meus conhecimentos." E ele
estava sendo perfeitamente sincero. Sincero também o sábio português A. Mendes Correia,
professor na Universidade do Porto, quando afirmava a contragosto, referindo-se ao "caso"
Glozel: "Futuramente, há de causar espanto a incrível leviandade com que o misoneísmo e
o orgulho buscaram imaginar argumentos para contrariar a evidência dos fatos.”
Considerado autêntico em 1930, Glozel teria convulsionado a ciência e constituído
um acontecimento na história da cultura européia. Posto de lado como falso, deixou campo
livre para outras descobertas que estão hoje colocando em xeque tanto a invenção da escrita
por Sumer como a prioridade do Egeu no nascimento da civilização ocidental. Essas
descobertas foram aos poucos fazendo o seu trabalho de reconstituição, devolvendo à
verdade e à lógica da história o lugar que lhes é atribuído pelos fatos, e somente pelos fatos.
"A idéia de ter a propagação da cultura acompanhado o carro do sol também teria sido repelida e os sábios
teriam sido forçados a procurar o berço da atual civilização muito mais a Oeste", escreveu em 1970 o
historiador romeno da escritura, Serban Andronescu. Todavia, Glozel não foi reabilitado. A
maioria dos especialistas, adotando a tese da falsificação, recusa falar a seu respeito. Outros
como Pierre Minvielle, condenam Glozel inapelavelmente. O Larousse arqueológico,
recentemente publicado, limita-se a mencionar as duas teses, apontando não obstante como
data possível dos objetos, a época galo-romana.
Mas, enfim, por que continuar a discutir? A "revolução" por ele anunciada realizou-se
apesar de tudo, graças às descobertas de Tartária e de Karanovo, que ninguém jamais
qualificou de falsas. Melhor ainda: o seu significado já agora é compreendido. Ouçamos, a
este respeito, o que diz Henri de Saint-Blanquat: "Isto tudo bem que poderia ter um sentido
e revelar como que uma escalada dessas sociedades em direção à escritura. Em alguns
lugares privilegiados, esse movimento teria sido bem sucedido: aí estão para testemunhá-lo
Gradechnitza e Karanovo.
Ao que parece, por certo, esse êxito não teve seguimento. Por que motivo as
sociedades do Egeu, cujo desenvolvimento começou bem mais tarde, como hoje se
reconhece, conseguiram ir mais longe? É o problema todo da origem das civilizações que se
vê suscitado por essa primeira tentativa de escritura, por essa façanha talvez
demasiadamente precoce, demasiadamente isolada. Houve na Europa, nos Bálcãs, na
Espanha, Bretanha, Inglaterra, esboços extraordinários de civilizações, movimentos
autônomos e que ainda chocam muitos arqueólogos..." E se esses "movimentos
autônomos" constituíssem não o começo e sim o final de uma corrente civilizadora que, por
falta de elos com suas bases iniciais, se se tivesse espontaneamente extinguido?
Os portadores da idéia megalítica levavam na bagagem muitos signos que, mais ou
menos sistematizados e adotados com algumas variantes pelas diversas populações com que
entraram em contato, puderam delinear os rudimentos de uma escritura. É essa mesma
escritura, difundida mundo afora por aqueles homens, sendo que alguns de seus exemplos
podem ser encontrados entre os egípcios pré-dinásticos. Os aspectos incongruentes dessa
"escritura" e a ausência de um sistema ficariam então explicados em grande parte pela
defasagem de tempo entre a partida desses homens e sua chegada nos países onde foram
encontrados, escritura essa que veio um dia a desaparecer também, com seus criadores...


ESCRITURAS "NÃO CONFORMISTAS”
Sigilos e "escrituras" de: 1. Glozel; 2. Alvão; 3. Montes Atlas; 4 Rupestres; Marrocos; 5.
Canárias; 6. San Agustin; 7. Pedra Pintada; 8. Maranhão; 9 Brasil (sertão); 10. Huari; 11.
Callao; 12. Ilhas de Páscoa; 13. hindus, 14. Grutas do Tibete; 15. Grutas da Austrália; 16.
Tartária; 17. Bunesti; 18. Karanovo.
O REFLUXO DA MARÉ ...
De tanto buscar mundos imaginários sob céus inexistentes, os sonhadores que lá se iam ao acaso, aos
tropeções, acabavam um dia caindo, sem que o tivessem feito propositalmente, num mundo real.
Nessa busca às escuras, as vagas lembranças das eras do paganismo confundiam-se facilmente com os
ensinamentos da religião. Esta, em todas as circunstâncias, rememorava as delícias perdidas do paraíso
terrestre e confirmava sua existência, sem insistir mais do que o necessário sobre sua exata posição
geográfica.
RENÉ THÉVENIN Les pays légendaires
À maré civilizada durante e graças à qual o Paraíso penetrou na tradição de tantos
povos sucedeu — como acontece em todo grande movimento histórico — refluxo da maré.
Durante milênios, ela levou os curiosos, os valentes, os sonhadores e os comerciantes para
as terras submersas daquela primeira pátria que, em tantas lendas, foi o paraíso terrestre.
Informação transmitida pelos servidores de Hórus, pelos homens dos megalitos ou colhida
nas narrativas destes últimos pelas povoações em cujas terras eles iam dar, mais tarde
difundida em todo o Oriente Médio pelos antigos egípcios, o mito do paraíso terrestre se
transformou, durante muito tempo, em motivador da corrida à civilização.
A grandeza da lenda exigia heróis de envergadura que ensinassem aos homens o seu
caminho e lhes mostrassem por onde voltar. Um deles é o próprio Hércules, tal como o
vemos em sua última façanha. A do jardim das Hespérides.
Gente de espírito prático, os fenícios — durante algum tempo senhores dos mares
— enfeitaram a lenda com o ouro e os metais preciosos que foram buscar no Novo
Mundo. Neste ponto, eles haviam sido precedidos aliás por seus irmãos cananeus (como
provam algumas inscrições recentemente encontradas na América) e seriam imitados pelos
cartagineses. Os romanos, por sua vez, lançaram-se na trilha dos cartagineses. Apesar da
persistente incredulidade, as inúmeras moedas romanas encontradas na América Central e a
extraordinária estatueta romana proveniente das escavações de Calixthuaca, no México, são
suficientes para comprová-lo. A seguir, os vikings perseguiram os irlandeses, para os quais o
célebre Brandan, o Navegador, havia aberto o caminho...
Vieram outros, depois. O sultão do Mali queria uma explicação para o Gulf Stream.
Madoc, príncipe bretão, só buscava a paz. Os irmãos Zeno punham a serviço de quem os
pagasse os seus talentos náuticos e militares. O cavalheiro Knutsson pretendia reconduzir à
fé verdadeira as ovelhas tresmalhadas. Alonzo Sanchez, o "piloto anônimo" desejava fugir,
custasse o que custasse, de um paraíso para onde fora contra sua vontade. Mas o maior de
todos esses sonhadores foi, indiscutivelmente, um certo Cristóvão Colombo, último herói
do refluxo da maré, a quem caberia finalmente fechar o ciclo.
UM POVO CRIADO PELA IMAGINAÇÃO: OS PELASGOS
Esses pelasgos ou ciclopes, tais como os evocam as lendas greco-romanas, civilizadores, comerciantes
(por terra e mar) monopolizam o tráfico do Helesponto, ao Norte com a Trácia, ao Sul com os povos da
Ásia Menor...
MADELEINE ROUSSEAU L'Art et L’Histoire de I'Homme
GARGÂNTUA, O PELASGO
Referindo-se aos pelasgos em seus comentários sobre a Eneida, Sérvius escreveu: De
his varia est opinio — "As opiniões divergem a seu respeito." Decorrente ao que parece, pelo
intermédio de lendas referentes aos construtores "gigantes", dos primeiros megalitos e
desenvolvida por assim dizer à sua sombra, uma técnica arquitetural peculiar invadiu por
sua vez o mundo sob o nome de "civilização megalítica". Como já acontecera no caso dos
menires, dólmens, cromlechs e outras pedras erguidas, admitiu-se que ela havia sido obra de
apenas um povo.
Seus monumentos: fortalezas como a de Sachsahuaman, no Peru, canais de irrigação
nas Filipinas, muros de defesa no mar Egeu, ruelas em degraus na América, falsas abóbadas
nas regiões mediterrâneas e no México, estranhas construções providas de alicerces de
pedra em San Agustin (U.S.A.), no sudoeste da Ásia, entre os Khmers do Camboja e nas
ilhas Marquesas. Mais tardiamente, essa mesma técnica há de se mostrar ainda viva em
Micenas e Mohenjo-Daro no vale do hindus, e em Biblos na Fenícia. Além disso, foram
encontrados túmulos construídos de acordo com uma mesma técnica entre os dórios, no
Egito, na Índia ocidental, (Pondicheri) etc. Assim como certos menires e dólmens são tidos
como obras de gigantes, sendo alguns megalitos hindus e coreanos atribuídos também a
gigantes como os pandus, heróis da Mahabharata indiana.
Gargântua, por sua vez, deixou-nos o seu túmulo (o dólmen de Corlay, nas Cotes du
Nord), sua pedra-marco (o menir de Péronne, no Somme), sua galocha e sua colher
(dólmens de Saint-Pierre-d'Oleron) e até o seu cascalho (menir de Croth, no Eure-et-Loir).
Hércules, os Ciclopes, e muitos outros gigantes mitológicos eram igualmente considerados
como construtores de toda espécie de muros e portas megalíticas. Os gregos, por exemplo,
viam nos Ciclopes vindos da Ásia Menor oito séculos antes dos filósofos jônios (século
XIV a.C.) os construtores das muralhas de Tirinta.
Seja como for, não se pode deixar de reconhecer que essa técnica efetivamente
caracterizada pelo gigantismo ainda conserva muitos segredos, a ponto dos especialistas
nem sempre saberem restaurar os monumentos megalíticos.
Naturalmente, não se perdeu muito tempo, antes de traçar um retrato imaginário
desses construtores. Eles teriam, necessariamente, penetrado em todas as regiões dotadas de
construções vindo do exterior, destituído de monumentos, sem deixar vestígios no interior
das terras. Tratava-se, portanto, forçosamente, de um povo marítimo. Deviam ser engenhosos
e comerciantes, bons construtores, intrépidos. Finalmente, como nada se sabia a seu
respeito, era preciso que fossem um povo antigo e periférico. Aos atenienses, em virtude da
existência de algumas muralhas enigmáticas em sua cidade, é que se deve imputar a criação
da lenda cuja difusão ficou garantida por Hacataios, historiador de Mileto. Essa lenda
atribui um nome aos construtores: são os pelasgos.
Ora, os pelasgos existiram efetivamente. Eram um povo das cercanias de Larissa, na
Tessália, e de Dodona, no Épiro. Podiam ser igualmente encontrados no litoral troiano da
Ásia Menor e em Creta. Hellanikos chega a afirmar que os tirsênios, descendentes dos
pelasgos, viviam na Itália entre Bruttium e a embocadura do Pó. Sua posição geográfica
bem depressa levou esses verdadeiros pelasgos a monopolizar o comércio do Adriático
entre, por um lado, a vertente oriental da Itália e o Épiro e, pelo outro lado, entre a Ásia e a
Europa (a Trácia), através do Helesponto. Sem falar em sua glória lendária — e gratuita —
eles bem cedo conquistaram também a reservada aos "civilizadores". Tendo, segundo
habitualmente se afirma, introduzido na Itália as artes e a escritura, construído "todas" as
velhas cidades gregas e navegado por todos os mares do "mundo", os pelasgos fizeram jus a
seis citações homéricas — cinco na Ilíada, uma na Odisséia.
A idéia que faziam os gregos desses não-gregos forneceu o material imprescindível a
todas as extravagâncias das modernas exegeses. Um sábio da categoria de Busolt neles vê
semitas; Hermann-Thumser os dá como eslavos e até como poloneses, antes do
aparecimento dos mesmos. Para Jean Cserep, eles são húngaros; para Gluje, antigos
finlandeses. J. A. R. Munro lhes atribui uma pátria que, do Adriático até a Criméia e dos
Carpatos poloneses até Creta, abrangia toda a península balcânica. Ainda hoje ocorrem
elucubrações desta ordem, e perpetradas por eminentes historiadores. O que dizer,
finalmente, do pobre E. D. Schneider, de Paris, que escrevia em 1894, dirigindo-se a seus
leitores franceses: "Os pelasgos, nossos antepassados!”
Os pelasgos foram, por outro lado, aliados dos troianos contra os gregos. Talvez se
tratasse de uma tribo indo-germânica... Foram mais tarde conhecidos com o nome de
lelegues, e depois com o de carianos quando desceram até as ilhas.
A realidade histórica dos habitantes da Caria — também pelasgos — é afirmada por
Tucídides, quando este nos fala de seu aparecimento nas Cícladas. Maiores navegadores que
construtores, eles dominaram as águas do Mediterrâneo oriental muito antes dos fenícios e
dos cretenses.
Acrescentemos que as narrativas da Antigüidade atribuíam aos pelasgos um bom
número de tradições e de lendas, entre as quais a da existência de uma perdida pátria
paradisíaca, num lugar qualquer em meio às ondas incansáveis, que rapidamente se transformou
num verdadeiro paraíso terrestre. Entrelaçada às tradições do mundo atlântico veiculadas
pelos missionários da idéia megalítica, às lendas relacionadas com a terra de Amenti dos
antigos egípcios, revivescida pelas sucessivas gerações de narradores, essa tradição adquiriu
força suficiente para obsedar a imaginação dos mais valorosos, compelindo-os a
empreender um perigoso retorno... Sonharam alguns retornar ao lugar em que nasce o
"dragão dos Sargaços", a "grande serpente do mar", Set, o irmão de Osíris, também
chamado Tifon e que, na realidade, é o Gulf Stream. Imaginaram encontrar as verdes
campinas aquáticas, que seriam descritas em 1555 pelo francês Lery, aquelas ilhas
paradisíacas, revestidas de árvores e ricas de nascentes e fontes onde, engolfando-se
lentamente nas águas e no tempo, aguardava-os uma muralha gigantesca. Os primeiros a se
disporem a retornar — se não de fato, pelo menos na imaginação de alguns sábios — foram
precisamente os carienses.
DA CARIA ÀS ANTILHAS
Na verdade, o crédito atribuído aos carienses pelos historiadores modernos já não é
tão grande. "Os autores antigos viam, na origem dos pelasgos, carienses e lelegas". Esses
nomes, para nós, não têm nenhum valor. Provém o primeiro da designação deturpada de uma
velha fortificação da Acrópole, o Pelargi-Kon, ou muro das cegonhas. Os outros dois são
encontradas na Ásia Menor; sugerem laços que de maneira alguma poderão ser
autenticados. É preciso dizer, entretanto, que esta nova atitude também revela uma certa
leviandade, na medida em que os carienses tiveram de fato uma existência histórica.
Os carienses de alguns milênios atrás viviam nas Cícladas, ilhas ensolaradas onde
floria o amor, e de onde partiam os piratas e navegadores de longo curso. A eles é que na
realidade devemos muitos costumes marítimos geralmente atribuídos aos fenícios. Foram
eles que ensinaram os gregos a pintar ou gravar insígnias em seus escudos. Chega-se até a
afirmar que foram eles os inventores das viseiras para os capacetes de guerra. E também
foram eles que transmitiram aos gregos a imagem convencional do deus Marte; que
inventaram alças para os escudos, tendo sido os primeiros a representar a cabeça de um boi
nesses mesmos escudos.
Grandes viajores, eles sofreram e retransmitiram as influências de todos os países que
conheceram: Egito, Sumer e todo o mundo mediterrâneo ocidental. Mais tarde, dois países
da Ásia Menor hão de ostentar o seu selo: a Caria — capital Halicarnassos — e Cara,
situada na Cilícia e dominada pela Caria. Aliados de Tróia, de Creta, dos jônios e dos
fenícios na Liga Cariense, eles se puseram mais tarde a serviço dos faraós que os instalaram
no Egito onde desempenharam um importante papel na unificação do país e em sua
organização depois da libertação do jugo assírio, conseguida com sua ajuda pelo faraó
Psamétik, da XXVI dinastia. Eles chegaram até a colonizar algumas cidades egípcias. Na
Bíblia, os carienses (Câr e Cârim) aparecem no segundo Livro dos Reis, no tempo de Atália,
entre os guardas do Templo e por ocasião da "época sagrada" eles se alinham entre os
mercenários recrutados pelos faraós. Por volta de 650 a. C. Psamétik instala esses "homens
de bronze" — como eram designados — nos chamados campos "estratopédicos", no delta
do Nilo. Por outro lado, os grafiti inscritos nas pernas da colossal estátua de Ramsés II era
Abu-Simbel confirmam sua presença no exército de Psamétik II durante a campanha da
Núbia (cerca de 570 antes de Cristo.)
Por volta do ano 1.000, na época das migrações que convulsionam os Estados
mediterrâneos da bacia oriental, os carienses "enviaram alguns de seus representantes para
fora da região do sudoeste da Ásia Menor com o intuito de fundarem Tartessos, entre
outras colônias." Que os nativos tudules estivessem ou não de acordo, pouco importava. Os
carienses, que serviam como mercenários nos exércitos dos faraós, eram guerreiros
perfeitamente capazes de impor sua vontade. Os pormenores dos conflitos, e depois os das
alianças cario-ibéricas, perderam-se para sempre. Mas no alvorecer da história grega — no
século VII a. C. — Tartessos se transformara na cidade mais rica do Ocidente, e sua
população, uma mistura de anatólios e de tudules, se entregava a um comércio literalmente
tentacular.
Assim, alguns nomes de lugares injustamente esquecidos nos fazem reportar
entretanto a um povo que indiscutivelmente teve a sua participação na história. Gades, a
atual Cadiz, aparece por exemplo entre as criações carienses, assim como todas as cidades
cujos nomes terminavam em — essos ou — assos, desde Halicarnassos a Tartessos, passando
por Salmidessos e outros. Temos porém ainda mais. Os carienses deixaram também
vestígios no mar Egeu, no Egito, em Creta, no Peloponeso — talvez da Tessália em diante
— e ainda mais longe.
Diodoro da Sicília escreveu que alguns homens, de longínqua proveniência, haviam
navegado pelo Atlântico e para lá das Colunas de Hércules, muito antes dos cretenses, dos
fenícios e de seus sucessores, os cartagineses. A época a que se refere Diodoro está tão
distante da dos carienses do faraó Psamétik quanto esta última de nossos tempos atuais, o
que a situaria por volta de 5.000 anos. O que não tem nada de inverossímil quando se
reflete que um pouco mais tarde — mais ou menos no final do II milênio — os povos
anatólios litorâneos, comandados por um certo Arzawa, praticavam a pirataria na região
sudeste do mar Egeu para contrabalançar a atividade comercial dos fenícios. E isto,
valendo-se de técnicas carienses e utilizando "conselheiros" carienses. Entrementes, as
navegações dos carienses de Tartessos — transformados após a sua fusão com os nativos
tudules em tartesienses — os haviam levado até as ilhas Britânicas, à Bretanha, e talvez
ainda mais longe ao Norte. De acordo com certas interpretações modernas, eles teriam até
mesmo atingido a América, mas este último ponto ainda não pôde ser controlado.
Vernhagen, Schwenhagen, E. O. de Thoron no século XIX, G. Barroso, Cândido
Costa, Harold Wilkins e outros, mais recentemente, interessaram-se pela presença cariense
na América, reportando-se sucessivamente a ruínas, inscrições e argumentos de ordem
lingüística. Thoron apontou o caráter estranho de alguns desenhos rupestres e de algumas
pinturas e gravuras feitas na rocha. Das tradições ameríndias locais ele chegou a extrair a
conclusão de que uma dinastia cariense havia reinado nas proximidades da atual cidade de
Quito, no Equador. Vernhagen, por sua vez, tratou dos vestígios da ilha de Maranhão,
situada na embocadura do rio Amazonas. Ele estudou particularmente as ruínas dos
gigantescos edifícios de Caru-Tupera, praticamente idênticos aos da civilização megalítica
colombiana de San Agustin que, por sua vez, prosseguem em direção ao Norte até Tierra
Dentro e, em direção a Sudoeste, até Guayaquil. Infelizmente, esses vestígios — tal como as
grandiosas ruínas descobertas por H. Lehman em Moscopan, onde se desenvolvera outrora
a civilização indígena dos carachos — só apresentam algumas vagas semelhanças
toponímicas com suas "origens carienses". Quanto às "provas" de natureza lingüística, isto
é, a presença muitas vezes inexplicável do prefixo car no nome de diversas tribos
ameríndias, os lingüistas modernos as contestam energicamente.
Entre os caraíbas de Honduras, alinha-se a tribo dos Caras. No centro e na parte
meridional de uma vasta região das cercanias vivem as tribos dos caricos, carihos,
caripunos, caraias, caras, carus, caris, carais, cauros, caribos, carios, caranas, caribocas,
cariocas, caratoperas, carabascos, caricoris, cararaporis, carararis, etc. Mas seus nomes
sempre derivam de suas origens ou parentescos caraíbas. É, portanto, aí que se devem
centralizar as pesquisas. De seu lado, Barroso acreditava que os atuais guaranis descendiam
dos caranos, originados fora do continente americano e descendentes, segundo
Schwenhagen, dos carienses. De acordo com outros autores, o mesmo aconteceria com os
acaraís do Brasil.
Embora do ponto de vista lingüístico nada disto possa servir de prova, não deixa de
ser estranho que em quase todas as línguas das tribos ameríndias cujo nome comporta o
prefixo car, os brancos (europeus) são chamados caras. Da mesma forma, por ocasião de sua
viagem de descobrimento ao Brasil, o navegador português Cabral teria observado que os
indígenas da região do Rio davam à sua terra o nome de Carioca, palavra que em guarani
significa terra dos homens brancos. Braghine, autor de uma obra de muito sucesso sobre a
Atlântida, completa a observação de Cabral fornecendo uma etimologia sui-generis, semigrega
semi-ameríndia, para a palavra Carioca. De acordo com ele, oica derivaria da palavra grega
oicos, residência, e cari ou cara seria a palavra índia que designava os brancos. Carioca
significaria então "residência dos brancos".
Uma outra tradição, anotada por Schwenhagen, conta que sete tribos antilhanas, que
se transferiram para o continente onde fundaram uma cidade localizada onde hoje se ergue
Caracas, foram em seguida levadas para o Brasil por navegadores vindos de longe. Uma
outra lenda, praticamente análoga, diz respeito às origens míticas dos chefes incas. Segundo
esta última lenda, misteriosos homens brancos vindos do Oriente via Antilhas — ou
diretamente das terras caraíbas do Norte se dermos crédito a uma variante — teriam
desembarcado, depois de transpor o istmo e navegar pelo Pacífico, no litoral do Equador
precisamente onde é hoje Santa Helena. Teriam como chefe o cacique Tumbes. Depois de
sua morte, Quitumbé e Otoia, seus herdeiros, se desentenderam. O primeiro abandona sua
esposa, Llyra, grávida, e se dirige para Leste, atravessando as terras montanhosas. O filho de
Llyra será Wallanay — a Andorinha — ancestral dos heróis peruanos. Após inúmeras
vicissitudes, Quitumbé funda a cidade de Tumbes, assim denominada em homenagem à
memória de seu pai. A conselho dos sacerdotes, Llyra se prepara para sacrificar seu filho no
altar do deus Pacha Camac. Salvo no último momento, o menino se vê numa jangada de
balsa que o leva a uma das pequenas ilhas do lago Titicaca. Adotado pela bela Ciguar, filha
do cacique local, Wallanay cresce e se transforma bem depressa num belo jovem, sadio e
robusto, e parte disposto a tentar a sorte no Amazonas. Casa-se. Seu filho Tome será por
sua vez pai de Atan e avô de Manco Copac, o lendário fundador da dinastia dos incas.
Essa lenda, transcrita por Anatello Oliva numa história do Peru, muito documentada
e publicada em Nápoles em 1631, contém infelizmente uma lacuna muito grave. Embora
procure estabelecer um elo entre os fundadores da antiga Caracas e os primeiros incas, aos
quais associava brancos que, para certos autores modernos, eram carienses (o que ainda está
por provar), a lenda não especifica o número de gerações que medearam entre a época do
desembarque e a de Manco Capac. Afinal de contas, essas duas lendas se limitam a ilustrar
os grandes movimentos dos povos de origem caraíba pelo norte da América, povos esses
que constituem uma realidade histórica.
De modo que os carienses nunca chegaram a atingir o paraíso terrestre. O único
deles que pode realmente ter efetuado essa viagem era cariense apenas em virtude de um
simples jogo de palavras. A história registrou o seu nome. Chamava-se Eufemos; era grego
e, para não ser confundido com seus inúmeros homônimos, ele havia acrescentado a seu
nome uma especificação: "de Caria". Por conseguinte, Eufemos de Caria é que teria,
segundo conta Pausânias, seu biógrafo ocasional, abandonado o mundo ensolarado do
Mediterrâneo para, ao sabor de uma tempestade e depois de transpor as Colunas de
Hércules, ir se perder nas sombrias brumas do oceano. Ao cabo de longa e perigosa viagem,
esse "cariense" foi ter numa grande ilha cujos habitantes tinham a pele vermelha, os cabelos
longos e espessos, penteados como rabo de cavalo. No meio de quais ameríndios teria ele, portanto,
abordado? Teria ele atravessado o "Golfo das Mulheres" para em seguida retornar das
Antilhas à Grécia? E quando? A história não conta nada disto.
O que se pode afirmar é que, embora nos primórdios de sua existência, mais fabulosa
que real, os pelasgos se tenham comportado como portadores da idéia megalítica com a
qual foram aliás confundidos, ao cabo de sua aventura histórica, tendo-se tornado carienses,
eles realizaram aquilo que, historicamente, deve ser imputado aos habitantes das Canárias e
aos fenícios, aos quais foram igualmente assimilados. Seja como for, o fato de serem
atribuídas a povos da bacia oriental do Mediterrâneo viagens bem sucedidas que
demandavam o Oeste, serve pelo menos para mostrar como era grande a tentação de
realizá-las.
OS FENÍCIOS EM BUSCA DO PARAÍSO
Teria tido a América contatos com as outras partes do mundo que se encontram para além dos
mares antes do descobrimento de Cristóvão Colombo? Eis a questão que, em minha opinião, deve constituir
o objeto de um estudo sério, intensivo e, acima de tudo, absolutamente objetivo por parte dos mais amplos
meios científicos. Para proceder a essas pesquisas, é também mister não tentar conturbar sistematicamente o
jogo das diversas tendências que se podem manifestar como, infelizmente, parece ocorrer com bastante
freqüência, inclusive nas escolas superiores. Nem os trabalhos atraentes em virtude de seu aspecto cômico
(como o de Robert Wauchope, conhecido professor da universidade Tulane, em Nova Orleans), nem as obras
polêmicas voltadas para um único sentido, realizadas na maioria das vezes por adeptos apaixonados da
teoria do contato, são de molde, como judiciosamente observa o velho mestre Paul Rivet, a levar adiante a
questão, sempre pendente, da história das populações americanas.
ALEXANDER VON WUTTENAU Terres cuites précolombiennes
NAS PEGADAS DE HÉRCULES
A caminho do Paraíso, o homem teria inevitavelmente de ser precedido, quando não
pelos deuses, pelo menos por semideuses. Paradisíacas antes de serem o paraíso, as regiões
do longínquo Oeste foram visitadas em primeiro lugar com objetivos utilitários. Hércules
foi o primeiro a de lá trazer uma recordação ao mesmo tempo deliciosa e simbólica — os
dourados pomos do jardim das Hespérides. Foi ele quem, dos portais da lenda, transmitiu
aos audazes marinheiros do Mediterrâneo a idéia de um caminho que levaria ao paraíso.
Não será talvez supérfluo deixar bem claro quem foi esse personagem. O homem
Hércules aparece bastante tardiamente. Certos especialistas o dão como nascido em Tebas
no século XIV a. C; outros, em Esparta por volta de — 1250. Era um pequeno rei como
outro qualquer, meio pirata, meio herói, mentiroso como todos os gregos, zombeteiro
como autêntico mediterrâneo, belo, inteligente e astuto. Da realidade ao semideus, percorrese
toda a gama das sucessivas atribuições ao personagem escolhido de proezas que, antes
dele, pertenceram a diversos heróis — meia dúzia, exatamente — todos pertencentes a
povos e países diferentes. Parece até — e quanto a isto a maioria dos especialistas está de
acordo — que Hércules tenha sido, em última análise, uma simples alegoria do sol,
correspondendo os seus doze trabalhos às doze moradas do ano visitadas pelo astro
durante o seu curso. A décima-primeira missão do semideus consistiu em trazer à Micenas
os pomos de ouro do jardim das Hespérides. Ora, Statius Sebosus situa essas Hespérides a
quarenta dias de navegação em direção ao Oeste do oceano, a partir das Górgonas, hoje
ilhas de Cabo-Verde. Aliás, o significado da lenda é perfeitamente claro.
As Hespérides — filhas da noite segundo Hesíodo; de Atlas, de acordo com outras
tradições — eram encantadoras "ninfas da tarde" que vigiavam um pomar onde abundavam
árvores milagrosas de frutos dourados. Nesta aventura, Hércules se valeu tanto de sua
astúcia quanto dos amigos que soube fazer. Nereu forneceu-lhe o itinerário. Prometeu, por
ele libertado do abutre que lhe devorava o fígado, recomendou-lhe que buscasse a ajuda de
Atlas, o gigantesco servidor dos deuses condenado a sustentar eternamente o mundo com
seus ombros por se haver revoltado contra o Olimpo.


Zodíaco dos trabalhos de Hércules
Astuciosamente, Hércules propôs ao gigante que este fosse colher os frutos de ouro,
oferecendo-se para substituí-lo durante sua ausência. Tendo conseguido arrebatar a sua
presa, Atlas muda de opinião e resolve apresentar-se ele próprio em Micenas com os
pomos. Hércules concorda, mas pede que, antes disso, o gigante soerga um instante o seu
fardo para que ele possa introduzir uma almofada entre a abóbada celeste e seu dorso
entorpecido. Enquanto Atlas faz o que lhe é pedido, Hércules se apodera dos pomos e
desaparece, deixando o gigante entregue ao seu castigo. Têm sido inúmeras as conjecturas a
respeito da natureza dos frutos de ouro. Tratar-se-ia de verdadeiros pomos, de laranjas ou
de romãs? O que se perdeu de vista é que não foi esta a única viagem de navegação de
longo curso empreendida por Hércules. Quando trouxera os bois de Gerião, rei de Erítia,
tendo alcançado o estreito que separa a Europa da África, Hércules já havia erguido duas
colunas, Calpe e Abila, no promontório de Ceuta, diante do rochedo de Gibraltar, e mais
tarde conhecidas com o nome de Colunas de Hércules. Lembremos finalmente que ele
também fizera parte da expedição dos Argonautas.
Quanto a esse jardim das Hespérides, como nos poderia ele deixar de recordar, por
sua vez, a região situada do outro lado do oceano que envolve o mundo, região cujas árvores
eram de lápis-lazuli com frutos de cornalina e na qual o primeiro a penetrar, depois do sol, foi
Gilgamesh, o semideus babilônio, o Hércules da Mesopotâmia? Em sua lenda, o Atlas é o
monte Mashu situado defronte aos escorpiões que guardam a porta do ocidente. Os guardas
do Mashu aconselham ao herói desistir dessa viagem. "Não existe nenhum caminho, -dizem
eles,- e ainda que chegasses à beira do mar como farias para atravessá-lo? Ninguém jamais
atravessou o mar, a não ser Shamos, o Sol!”
Originalmente, Atlas reinava sobre a Mauritânia. Seu irmão Hesper tinha uma filha
chamada Hésperis, que gerou as três Hespérides: Egle, Aretusa e Hiperetusa, cujo pai foi o
próprio Atlas. Pai prolífico, aliás, visto ter tido muitas outras esposas e filhas, entre as quais
as Híades e as Plêiades, isto é, as Atlântidas. Posteriormente, Atlas foi transformado em
elevada montanha, enquanto Híades e Plêiades sobem aos céus para fazer o papel de
estrelas. Hesper, por sua vez, desmorona no mar, levando consigo um pedaço do corpo de seu
irmão, sobre o qual tinha subido para esquadrinhar o horizonte. Órfãs e aterrorizadas por
tantas catástrofes, as Hespérides se refugiaram num jardim maravilhoso onde cresciam
macieiras com frutos de ouro. Esse jardim era guardado por um dragão de cem cabeças, no
qual nada nos impede de ver "o Grande Dragão dos Sargaços", nome que os
contemporâneos de Colombo usaram para designar o Gulf Stream.
Aí estão apenas dois exemplos colhidos em meio à infinidade de tradições referentes
à viagens a sítios maravilhosos, verdadeiros paraísos terrestres onde todos os frutos são de
ouro e não exigem nenhum trabalho. Dessa região, além disso, partiram um dia heróis
civilizadores que se espalharam pelo mundo todo. Os egípcios e os "bárbaros" da Europa
ocidental não foram os únicos que disso tiveram conhecimento. Este fato era conhecido de
todos os seus vizinhos, num mundo em que os mitos eram veiculados em todas as direções.
OS CANANEUS PÕEM MÃOS À OBRA
Em tais condições, bastava em suma ser bom marinheiro para aceitar o repto dos
semideuses e seguir em sua esteira. Foi o que fizeram os "Phoiniki" — os "Vermelhos" —
conhecidos nos primórdios de suas navegações com o nome de cananeus.
Sem falar nas migrações dos povos semitas do neolítico, cujos vestígios foram
encontrados pelos arqueólogos e etnólogos até na África ocidental e na Espanha, é fácil
acompanhar os cananeus propriamente ditos em cada uma de suas etapas dessa longa
viagem.
Lembremo-nos, por exemplo, do que dizia a seu respeito o historiador Procópio no
século V de nossa era: "Toda a costa marítima, a partir de Sidon até as fronteiras do Egito
tinha o nome de Fenícia, e todos os autores que escreveram sobre a antigüidade
dessa grande província concordam quanto a estar ela sujeita ao governo de um único rei. É
nessa extensa região que viviam diversos povos muito numerosos, cujos nomes são
encontrados na história dos hebreus. Os quais, vendo a impossibilidade de vencer aquele
general estrangeiro que os guerreava, entraram no Egito que confinava com seu país; não
tendo, porém, encontrado espaço suficiente para ali poder habitar, pois o Egito sempre fora
muito povoado; passaram para a África, que ocuparam integralmente desde o Egito, até as
Colunas de Hércules, que tornaram habitável construindo um grande número de cidades, de
modo que ainda hoje os africanos falam a língua fenícia. Construíram também uma praça forte na
Numídia, no local onde é hoje em dia a cidade de Tigisis. É lá que se vê, às margens de uma
fonte cuja água jorra abundante, duas colunas de uma pedra muito branca sobre as quais se
vêem escritas as seguintes palavras, em língua fenícia e com caracteres da mesma: "Nós
somos aqueles que nos salvamos da perseguição do famoso bandido Iessus, filho de Nave".
Entre as tribos expulsas de Canaã por Josué estavam também os heteus (hititas) e seus irmãos
os heveus ou cheveus, da vertente ocidental dos montes Hermon. Seu nome hebreu-fenício era
Chivi ou Hiri. Ora, lendo-se Pedro Mártir, fica-se sabendo que em Haiti, em taino, Hivi
significava "homens". Parece bom demais para ser verdade; lembremo-nos, porém, do
capítulo XXXIV do Gênese, no qual, (V, II), dirigindo-se a Moisés, Deus diz o seguinte:
"Expulsarei, eu próprio, à vossa frente, os cananeus, os heteus e os cheveus...”
Dito isto, temos agora de examinar a segunda etapa dos navegadores vindos de
Canaã por via transatlântica. No século XVI, Génébrand se referia à existência de um
túmulo com inscrição hebraica na ilha de São Miguel, nos Açores. Trata-se, na realidade, de
caracteres fenícios de Canaã, qualificados de hebraicos por aquele autor em virtude da
semelhança entre o alfabeto dos cananeus e o dos antigos hebreus. O deciframento do
texto, sempre controvertido, permitiu a Manasseh ben Israel, sábio hebreu do século XVII,
fornecer uma leitura bastante verossímil. A inscrição continha um nome, o de Mektabel
Suai, filho de Matadiel.
O ceticismo costumeiro dos teóricos do isolacionismo pré-colombiano esqueceu
Procópio, deixou de lado Josué e rejeitou Mektabel, declarando que "aquela gente" (e no
vocábulo "cananeus" eles só incluíam os hebreus, esquecendo os fenícios) não era um povo
de navegadores. Os próprios fenícios, de acordo com essa mesma interpretação, não tinham
condições para atravessar o oceano. Infelizmente, hoje em dia já não é tão fácil afastar a
priori qualquer possibilidade de presença dos cananeus e fenícios no Novo Mundo. Existem,
e vão se acumulando cada vez mais, as provas arqueológicas. Por outro lado, não há nada
mais inexato que a pretensa incapacidade dos antigos à navegação. Como escrevia o
professor americano Cyrus H. Gordon, especialista em deciframento de textos de línguas
semitas antigas, o homem da idade da pedra conhecia e fizera incursões em todos os
continentes, com exceção do Antártico. De modo que as viagens dos cananeus-fenícios
pelos mares que circundam a Ásia e em direção à América seriam tão-somente uma das
peripécias dessa penetração.
As tradições dos povos cananeus, confirmadas pelas inscrições encontradas há
algumas dezenas de anos em Ras-Shamra, na Síria, atribuem a esses comerciantes,
aventureiros e navegadores de grande envergadura, uma origem em região que se devia
situar entre o mar Vermelho e o Mediterrâneo, o Neguev e o Egito. Heródoto e, antes dele,
Sofônio (Século VII a. C.) atribuíam igualmente aos egípcios e aos cananeus se não uma
origem comum, pelo menos um estreito parentesco. Ora, isto está sendo atualmente
contestado pela maioria dos historiadores modernos. Um especialista do gabarito de
George Contenau chega mesmo a dizer que, diante das divergências surgidas, torna-se
necessário "suspender todo e qualquer pronunciamento". Todavia, será possível suspender
o pronunciamento dos fatos?
Essas "divergências", segundo escrevia Madeleine Rousseau em 1958, eram devidas
essencialmente ao susto provocado por tantas relações novas e, até então, insuspeitadas,
entre o Egito, o mar Egeu e a Ásia ocidental. Escreve ela: "Lança-se então um novo nome.
Os autores de todas essas civilizações são egeus, ou então huritas... Quem serão estes?
Afirma-se que os mitanienses constituem um de seus grupos... Como se percebe, é
realmente apenas na arqueologia moderna que aparecem divergências: é preciso deixar
estabelecido, a qualquer preço, que os aqueus arianos foram os responsáveis por todas as
civilizações..." O indiscutível é que, geográfica e historicamente, os fenícios eram realmente
cananeus. Aliás, eles próprios o afirmavam quando escreviam sobre suas esteias ou em
rochedos: "Nós, os cananeus de Sidon, cidade do rei mercador...”
- Quais eram, porém, as suas crenças, sua religião? As mesmas dos babilônios e dos
egípcios, visto serem monoteístas, a darmos crédito à Sanchoniaton. O ser supremo, entre
eles, chamava-se Baal, Bel ou El e personificava a energia universal, em si mesma invisível,
porém, materializada para os homens no sol. É Amon, e também o Baalim da Bíblia que até
os hebreus chegaram a adorar.
Inimigos dos hebreus, rivais dos egípcios, perigosos para os egeus, os cananeusfenícios
se tornaram bem depressa vítimas de sua própria história. Esses homens, cuja
escritura pode ser encontrada em parte nas fontes do Antigo Testamento, foram com
efeito, desde os primórdios de sua história, objeto de todas as conspirações. Dos judeus, em
primeiro lugar, os quais, não satisfeitos de lhes tomarem as terras, também adotaram sua
escritura e lhes criaram uma reputação de criaturas rudes, idolatras, sanguinárias, que
adoravam deuses, exigiam sacrifícios humanos, maltratavam as mulheres e as crianças das
quais o deus Moloc reclamava um verdadeiro holocausto. Mais tarde, o cristianismo lhes
arrebatou sua própria história. Eusébio de Cesaréia praticou as falsificações mais descaradas
e quando Pórfiro, no século III, redigiu sua História em quinze volumes onde restabelecia a
verdade histórica, sua obra teve o mais lamentável destino. Teodoro I e Valentiniano I,
imperadores demasiadamente cristãos para deixarem de ser conformistas, fizeram-na pura e
simplesmente desaparecer. Mas só aos ricos pode-se saquear com proveito...
Marinheiros, civilizadores, arquitetos, comerciantes, os cananeus-fenícios,
confundidos de início com gregos e pelasgos míticos, finalmente passaram a ser designados
apenas com o nome que, aos olhos dos gregos, lhes valera a cor de sua pele: Phoiniki, os
fenícios. Este nome não é, ele próprio, destituído de importância porque, sob o de
cananeus, viajavam indivíduos pertencentes a diversos povos semitas, fenícios propriamente
ditos (das cidades de Tiro e de Sidon), cananeus das terras interiores e das montanhas,
judeus, edomitas, moabitas, etc. — em suma, todos os semitas habitantes das regiões do
Líbano, da Síria, e da Palestina bíblica. É preciso lembrar também que três das doze tribos
de Israel — as de Asher, Dan e Zabulon — não eram apenas constituídas de pescadores,
mas também, de marinheiros. E se as inscrições cananeu-fenícias da América do Norte
(pedras gravadas de Mechanicsburg) são mais "fenícias", as do Brasil, devidas a marinheirosmercadores
saídos de Ezio-Geber, porto hebreu do mar Vermelho, são mais "judaicas".
Até agora, aliás, as inscrições fenícias fora da Fenícia e da costa noroeste da África,
não constituíram o objeto de nenhum estudo sério. É verdade que elas foram durante muito
tempo tidas como duvidosas. Já o mesmo não acontece atualmente e se continuam
obscuros alguns pontos é porque o essencial da história fenícia só chegou até nós por
intermédio das literaturas de outros povos mediterrâneos que, em geral, se limitam a
apontar a habilidade desses intrépidos marinheiros.
As navegações fenícias não tinham como único objetivo a florescente cidade ibérica
de Tartessos, importante centro metalúrgico e comercial. Velozes e bem projetados (além
da tripulação, um pentakontor podia conter quinhentos passageiros) os navios fenícios se
familiarizaram bem depressa com as regiões atlânticas situadas a Oeste da Espanha e a
Noroeste da África. Impelidos a princípio por motivos econômicos, eles em breve se
aventuraram no oceano. A presença fenícia, constante durante vários séculos, no
arquipélago das Afortunadas está associada a uma perceptível modernização da fabricação
da púrpura, problema econômico primordial naquela época. Os povos ribeirinhos do
Mediterrâneo fabricavam a púrpura seguindo um processo demorado e oneroso. Para obtêla,
eles utilizavam um extrato leitoso de certos moluscos, concentrado e quimicamente
modificado após inúmeras manipulações, entre as quais a exposição ao sol. Naquele mesmo
tempo, os fenícios, grandes exportadores de púrpura, a conseguiam de maneira muito mais
rápida e fácil empregando o sangue de lagarto extraído de sáurios que viviam nas Canárias,
assim como vários extratos vegetais, da mesma procedência.
Por conseguinte, o que determinou o silêncio dos fenícios quanto às suas navegações
não foi apenas a carência de poetas, característica de um povo de mercadores. A localização
e as vias de acesso às ilhas dos lagartos e vegetais raros representavam para eles segredos
econômicos e políticos que deviam ser preservados a qualquer preço.
Aventurando-se cada vez mais longe, eles chegaram às Antilhas atravessando o Golfo
das Mulheres e de lá passaram para o continente americano. Inscrições, ruínas e moedas
confirmam suficientemente essa presença que provoca uma confusão extrema entre os
partidários do isolacionismo cultural. Muito embora as galerias subterrâneas e os silos
ventilados de Niterói, Campos e Tijuca, no Brasil, não possam de maneira alguma ser
atribuídos aos índios, sendo impressionante a semelhança existente entre eles e as
construções do mesmo tipo que eram obra dos fenícios; embora entre as figuras gravadas
nas paredes de uma gruta artificial da serra de Mojado (Guiana brasileira) se encontrem
como observou Marcel Hornet, caracteres de tipo cananeu, a descrença pode ainda
perdurar. Mas foram descobertos vestígios muito mais conclusivos.
Num espaço imenso, de pequena ilha do rio Piauí, no Brasil, erguem-se as ruínas de
um edifício único. Certos muros têm mais de 25 metros de altura, uma das salas do
conjunto mede 150 x 45 metros, tendo sido descobertos também os restos de uma estátua
gigantesca. Ainda mais assombrosas são as ruínas de Pattee's Cave, e as do monte Show no
New Hampshire, Estados Unidos. Em Pattee's Cave descobriu-se um edifício cuja planta
em Y é idêntica à de outras construções nas regiões a Oeste da Irlanda e de Malta, estas
últimas de origem indiscutivelmente fenícia. Acrescentemos que ali também se encontram
dólmens (de implantação recente em sítio muito mais antigo), rampas e plataformas de
acesso, canais subterrâneos escavados na pedra e enormes pedras de sacrifício iguais às
encontradas também no monte Show. O complexo de Pattee's Cave compreende, além
disso, os vestígios de um cemitério, uma palissada protetora e um conjunto circular de casas
em cujo interior uma estrada pavimentada, com novecentos pés de extensão, leva a um
rochedo que sustenta as ruínas de um templo megalítico bastante deteriorado.


Este sítio, estudado por B. Goodwin, pertence provavelmente a uma cultura extraamericana
de tipo mediterrâneo oriental. O estudo de Pattee's Cave, a que se vêem
dedicando os arqueólogos F. Glynn e Irving House desde 1956, levou à conclusão de que
esses monumentos eram devidos a uma população do neolítico ali existente na era do
bronze e início da idade do bronze, o que ocorreu entre os anos — 3.000 e — 500 antes de
nossa era.
As inscrições e gravuras são igualmente eloqüentes. Aos vestígios "fenícios" da
América podem ser associadas com maior ou menor segurança as gravuras do rochedo de
Guilford (Connecticut) e as de Assamvompsettpond, as pedras encontradas pelo
arqueólogo Beistline nas proximidades de Mechanicsburg, as duzentas e cinqüenta
inscrições observadas em 1872 em vinte grutas da selva brasileira por Francisco Pinto, as
descobertas em 1874 na Paraíba por W. Netto (e a seguir consideradas, erroneamente,
como falsificações), a descoberta em 1870 por E. Ronan, etc.
Algumas, mais interessantes que outras, são hoje objeto de renovadas atenções em
virtude das controvérsias quanto à sua autenticidade. Consideremos, por exemplo, a
inscrição de Ronan que, traduzida, oferece o seguinte texto: "Depois de longa e perigosa
viagem, realizada com quatro navios, chegamos com nossos companheiros e trinta escravos
a este ancoradouro em [...] A alguns dias de caminhada em direção ao interior das terras,
encontramos a montanha rica em jazidas minerais. Ali trabalhamos durante dezesseis anos
tendo acumulado grande quantidade de ouro, cobre e gemas." A inscrição traz duas
assinaturas, a do grande chefe Eklton e a de seu escriba Nada.
Esta primeira inscrição é completada, por assim dizer, pela de Pouso Alto, "relida"
em 1970 por Cyrus H. Gordon. Desta vez, o texto é peremptório: "Somos cananeus de
Sidon, da cidade do rei mercador. Chegamos a esta antiga terra de Montanha. Sacrificamos
um adolescente aos deuses e deusas celestiais, no décimo-nono ano de nosso poderoso rei
Hiram e embarcamos em Ezion-Geber, no mar Vermelho. Éramos dez navios e
contornamos a Líbia durante dois anos, tendo-nos em seguida dispersado a mão de Baal e já
não estávamos com nossos companheiros. Viemos dar então aqui, doze homens e três
mulheres, neste novo litoral...”
Admitindo-se a autenticidade dessas inscrições, bem depressa se verifica que elas são
corroboradas por uma série de vestígios, de gravuras, etc, fornecendo provas
constantemente renovadas da presença fenícia na América. Foram assim encontrados num
rochedo de Guildford rosetas e uma coluna aórica inacabada, provável resultado da atividade
dos mesmos homens que gravaram silhuetas de navios nos rochedos de
Assamvompsettpond. Citemos também o punhal de bronze, de tipo fenício, encontrado em
Merimackport, no Massachusetts, a lança de bronze que nada tem de índia, encontrada em
Brentwood, o escudo de bronze de Windam (New Hampshire) e alguns objetos feitos de
ferro grosseiro e não identificados, descobertos nas proximidades de Pattee's Cave.
Finalmente, sempre nas vizinhanças de Pattee's Cave, foram encontrados no interior de
algumas grutas restos de cerâmicas e de tijolos que, segundo afirmam os especialistas, não
são índios. Acrescentemos ainda, para concluir esta enumeração, a espantosa semelhança
existente entre os machados dos cerimoniais dos arawacs e os dos antigos tirienses.
Quanto aos "signos" observados por Beistline, também eles são significativos. Tratase
de pedras pintadas cujos caracteres podem ser encontrados em todo alfabeto semita e que
serviam para indicar as pilhas nos entrepostos. São geralmente as quatro primeiras letras do
alfabeto fenício: Alef, Bejt, Gimmel, Daleth. Os estudos empreendidos depois de 1948 — ano
em que foram descobertos nas proximidades de Mechanicsburg — por especialistas das
universidades de Cornell (U.S.A.) e Haifa (Israel), confirmaram suas características fenícias.
Para Schwenhagen, as representações brasileiras foram gravadas com o auxílio de cinzéis
metálicos mais duros que a pedra, tendo sido a incisão praticada na rocha e depois
preenchida com um material avermelhado, muito resistente à ação do tempo. A análise a
que procedeu por sua vez o químico Juan Fábio revelou que esse material continha resinas
vegetais naturais e óxido de ferro. Mas, sobretudo, ele foi levado a concluir pela afirmação
da origem fenícia dessas inscrições devido à existência, naqueles rochedos, de signos
semelhantes à escritura sumeriana.
É preciso reconhecer, todavia, que essas inscrições brasileiras e sua história
dependem ainda de confirmação. E isto em virtude da personalidade de seu principal
descobridor — um certo Silva Ramos — e de suas observações e interpretações. Exseringueiro
autodidata, Silva Ramos extraiu, com efeito e um tanto apressadamente, de suas
conversas com diversos rabinos a conclusão de que esses signos eram... hebreus. E, pior
ainda, de acordo com a tradução por ele próprio oferecida, as duas mil inscrições eram,
todas elas, orações!
Posteriormente, quando a freqüência dos caracteres fenícios impôs a idéia da
presença desse povo na América, foi tão difícil acreditá-lo que se preferiu rejeitar
globalmente as inscrições de Ramos, tanto as verdadeiras — muito pouco numerosas —
como as falsas, que constituíam a maioria. Mais tarde ainda, as coisas voltaram a mudar e
foram reexaminadas cerca de dez inscrições, inclusive as da Gávea.
Cada um dos signos dessa inscrição (descoberta em 1836 no monte Gávea, perto do
Rio de Janeiro, a 840 metros de altitude) ocupa um espaço de pelo menos três metros de
comprimento, o que a torna visível de longe. Escavada no paredão de um rochedo a pique,
ela é redigida em caracteres cuneiformes que apresentam um sentido em fenício. Assim,
nela se pode ler: "Badesir de Tiro, em terra fenícia, filho de Jethbaal." Ora, esse Badesir
realmente existiu. Foi rei de Tiro entre — 835 e — 850, tendo sucedido a seu pai Jathbaal
(887 a 856 a.C.). A inscrição da Gávea teria por conseguinte 2.800 anos de idade. Calcula-se
que tenha sido gravada entre 887 e 850 antes de Cristo. Observemos por outro lado que
Schwenhagen também fala em inscrições referentes a reis de Tiro e de Sidon, cuja realização
ele situa na época compreendida entre — 880 e — 806.
A hipótese fenícia ficou recentemente reforçada pela descoberta de uma moeda
cananéia no Tennessee. O doutor Cyrus Gordon depois de a ter cuidadosamente estudado
garante a sua autenticidade. A isto tudo convém acrescentar ainda as recentíssimas
descobertas arqueológicas efetuadas no Sul da Flórida (Kaufman Island) e na região das
Baamas. Desta vez, o que está em pauta são objetos, cerâmicas decoradas, machados de
pedra polida que, isoladamente, podem ser relacionados com o universo americano mas que
se tornam muito mais eloqüentes quando colocados num contexto fenício. Isto se aplica
particularmente ao caso de uma certa cerâmica decorada com olhos voltados para os quatro
pontos cardeais e em cujo centro está representado o símbolo, tipicamente fenício, dos
círculos concêntricos — representação solar do grande deus único — assim como,
figurinhas humanas ostentando o penteado occipital característico das cerâmicas fenícias
encontradas em Chipre.
A esta série de descobertas somam-se os sinais gravados em algumas placas e
tabuinhas sempre controvertidas, mas, cuja "aventura" arqueológica não é destituída de
interesse. Estamos falando da tabuinha de Cave Creek (U.S.A.) e da placa de pedra de Quito
(Equador), pertencente à coleção Crespi.
Descoberta no século passado, a tabuinha de Cave Creek foi dada como falsa depois
de prolongadas discussões. Acontece, porém, que no decorrer dos últimos quarenta anos
foram descobertas na Síria inscrições cananéias comportando caracteres idênticos aos de
Cave Creek. O que eqüivale a dizer que se deve reexaminar essa tabuinha. Seria da mesma
forma conveniente proceder finalmente a uma análise científica das inscrições "fenícias" de
Davenport (Iowa) e de Taunton River. A primeira, gravada numa tabuinha de argila
betuminosa, representa uma cena funerária acima da qual se encontra um texto de várias
linhas, compreendendo 94 sinais, sendo 74 diferentes e 20 repetidos. A segunda é uma
baralhada de sinais "não índios" gravados no rochedo. Quanto às peças da coleção Crespi, o
interesse de que se revestem é muito grande mas sua história, ainda mal conhecida (não se
sabe com exatidão de onde elas provêm nem qual a sua situação por ocasião de sua
descoberta), as relega forçosamente a um papel subsidiário.
Antes de concluir, temos ainda de mencionar que Olaus Rudbeckius, autor
escandinavo do século XVII, chamou a atenção para a importância atribuída pelo grego
Fócios a seu compatriota do século I a.C. o escritor Antonios Diógenes. Em sua obra, As
Coisas incríveis que se vêem para além de Thulé, esse autor relata que, em seu tempo, tinham sido
descobertas em alguns túmulos de Tiro inscrições referentes às viagens empreendidas por
habitantes daquela cidade que chegaram até a Islândia (Thulé).
De modo que, tendo navegado em direção às regiões situadas a Oeste do Oceano, os
fenícios traziam de suas viagens descrições das terras exploradas. E isto, não nos
esqueçamos, entre os anos — 2.000 e — 300. Foram eles, evidentemente, que acentuaram o
caráter semita das tradições referentes à Fonte da Juventude. Foram eles que, ainda mais
temerários que o herói babilônio Gilgamesh, se atreveram de fato a atravessar o "grande
mar".


Comparação entre duas "escrituras fenícias": da Fenícia (em cima) e da América (embaixo).
Contudo, para nos tardarmos ainda no domínio do jogo do espírito, acrescentemos
mais um pormenor.
Sir Robert Marx, famoso mergulhador submarino americano, relatava desde
novembro de 1971 a descoberta de uma moeda fenícia nas proximidades do muro de
Bimini. Essa moeda datava do século V antes de nossa era. Declarando não ser
forçosamente necessário associar a descoberta dessa moeda às ruínas do sítio, ele publicou
não obstante a sua fotografia (Argosy, no. 373, novembro 1971, p. 46). Vivam as
coincidências!
O VERDADEIRO SEGREDO DO REI SALOMÃO
Eu proponho que, de vez em quando, deixemos de lado as nossas dúvidas, nossas angústias, nossas
preocupações de antropólogos e etnólogos e busquemos refúgio no mundo artístico da América précolombiana.
Mãos criadoras para nós se estendem do fundo dos tempos. Graças a elas, poderemos
demonstrar uma maior compreensão e, sobretudo, adquirir novos conhecimentos sobre esse mundo précolombiano
onde, desde tempos imemoriais, não somente o Oriente e o Ocidente como também, na verdade,
homens do mundo inteiro já aprazaram seus encontros.
ALEXANDER VON WUTTENAU Terres cuites précolombiennes
BÍBLIA + IMAGINAÇÃO = AMÉRICA
Um dos mais célebres atores reais da história do paraíso terrestre é, nada mais nada
menos, o grande rei Salomão, amante da rainha de Sabá. Ora, quando se fala em Salomão
pensa-se imediatamente na Bíblia, a respeito da qual dizia Paracelso que, para respeitar a
lógica ela teria de falar em duas criações de Adão, uma vez no Velho Mundo e outra vez no
Novo! A irônica observação do sábio suíço não suscitou nenhum eco durante muito tempo
e, desde o século XVI até o século XIX, de Arrius Montanus à Lord Kingsborough,
persistiu imperturbável o propósito de encaixar os americanos no esquema bíblico.
Para Arrius Montanus, os primeiros descobridores da América foram dois filhos de
Jektan, por sua vez bisneto de Sem, filho de Noé. O primeiro, Ofis, desembarcou na região
noroeste do continente, tendo em seguida passado para o Peru. O segundo, Jobal, atingiu
diretamente o Peru. Ficaria assim explicado, particularmente, o nome do Yucatan: Jektan =
Ioktan = Yucatan. Quanto ao Peru, seu nome não advém menos diretamente do segundo
livro das Crônicas, ou Paralipômenos da Bíblia (cap. III versículo 6) onde está escrito que
"Salomão ornou sua casa com belas pedras preciosas e ouro de Parvaim," Parvaim e Peru são
evidentemente uma mesma palavra e Salomão descobrira a América! O curioso é que
Colombo tivera as mesmas idéias, pois via nas minas de Veragua a fonte do ouro do rei
Salomão e considerava os haitianos como os derradeiros descendentes de Noé.
A partir de então — e com algumas variantes (povoamento da América pelas dez
tribos de Israel desaparecidas depois da conquista de suas terras pelos assírios;
estabelecimento no Novo Mundo dos cananeus expulsos por Josué, os quais emigraram
para o Ocidente, como afirma Procópio que se refere à sua presença nas vizinhanças de
Tanger) — as mais estapafúrdias idéias foram veiculadas, tanto por Lord Kingsborough
como pelo visconde Onífroy de Thoron. Por volta de 1900, B. de Rooreia ainda fala nos
descendentes americanos de Moisés e, em 1907, em Origem de los índios del Nuevo Mundo,
Gregório Garcia tenta demonstrar a todo custo a origem judaica de certas tribos ameríndias.
Entretanto, idéias como essas que desafiavam toda investigação científica, forçosamente
teriam tido uma origem qualquer e foi nos relatórios dos cronistas das conquistas que elas
nasceram. O que se explica, aliás, quando se pensa na onipotência da religião naquela época
que ainda forçava a se ver na Bíblia a fonte de toda verdade. De modo que vale a pena
manuseá-la.
3º. Livro dos Reis (cap. X, v. 11 e v. 22): "... Os navios de Hirão que trouxeram ouro
de Ofir e grande quantidade de árvores de almug (sândalo), e pedras preciosas..." No mar,
havia para Salomão uma frota de Tarsis com a frota de Hirão. Uma vez, de três em três
anos, vinham os navios de Tarsis trazendo macacos e pavões.
2º. Livro das Crônicas ou Paralipômenos (cap. III, v. 6 e cap. VIII, v. 17 e 18, e cap. IX, v.
10 e 21):
"Salomão adornou sua casa com belas pedras preciosas e o ouro era de Parvaim".
"Salomão partiu então para Esion Gaber e para Elat à beira do mar, no país de
Edom.”
"E com seus servos Hirão lhe enviou navios e homens que conheciam o mar. E
foram eles, com os servos de Salomão, para Ofir, de onde trouxeram 450 talentos de ouro
que ofereceram ao rei Salomão.”
"Os servos de Hirão e de Salomão que haviam trazido o ouro de Ofir, trouxeram
madeira aromática e pedras preciosas.”
"Salomão tinha navios de Tarsis que navegavam com os servos de Hirão; e de três
em três anos os navios de Tarsis chegavam trazendo ouro, prata, macacos e pavões.”
Acrescentem-se a isto as informações contidas no capítulo IX do terceiro Livro dos
Reis, segundo as quais Salomão teria mandado construir em Esion Gaber, perto de Elat, no
mar Vermelho, um "canteiro naval", tendo contratado como marinheiros os homens de
Hirão, o Fenício, conhecedores das coisas do mar e que lhe haviam trazido de Ofir 420
talentos de ouro.
Tarsis, Ofir, Parvaim: nomes mágicos que arrastaram para o terreno do fabuloso
todos aqueles que tiveram a pretensão de identificá-los... Os adeptos da situação peruana de
Ofir chegaram a fazer dos perus os pavões da Bíblia e a transformar os macacos Koph
(macacos trazidos de longe) em bugios amazônicos de cauda preênsil: Kapi, em língua
quíchua etc. Atualmente, chega-se a resultados ainda melhores e, antes de tudo, quanto ao
que diz respeito a Ofir.
Esse Ofir era, sem dúvida alguma, um país muito rico pois 420 talentos de ouro —
450 se dermos crédito aos Paralipômenos — representam nada mais nada menos que
quinze toneladas desse precioso metal! O terceiro Livro dos Reis (X, 13) nos afirma até que o
peso do ouro entregue anualmente a Salomão chegava a 666 talentos, isto é, vinte toneladas
de ouro. Quanto à localização dessa mina de ouro, várias teses se contrapõem. E. Harton
situa Ofir em Sopara, na Índia (Ofir = Sofir); W F. Albright o coloca na África (Ofir = Afir).
Aparentemente, aliás, os partidários da tese africana estariam certos, contanto, segundo
escreveu recentemente Francois Balsan, que o transportem da Somália ou da Rodésia para a
região etiópica de Sidamo, em Adola.
Ainda resta o Parvaim... Relendo com atenção os textos da Bíblia, verifica-se que
Esion Gaber é sempre mencionado ao lado de Ofir, o que não acontece com relação a
Tarsis. Aliás, este último sítio foi formalmente reconhecido como sendo Tartessos, a
florescente cidade ibero-atlântica. Por outro lado, o fato do nome de Ofir não aparecer no
capítulo X, terceiro Livro dos Reis, indica a existência de uma outra região fornecedora de
ouro. Em outras palavras: se o problema de Tarsis está resolvido e o de Ofir esclarecido, o
de Parvaim continua intacto.
Mesmo que não se cogite de retornar ao non-sens constituído pela assimilação Peru-
Parvaim, resta-nos ainda um comentário a fazer. Já dispomos, desde 1969, da tradução (feita
por Cyrus Gordon) de um texto cananeu-fenício descoberto, no Brasil em 1874 e
recentemente "reabilitado". Fala-se aí em navegadores e negociantes de Sidon que partiram
de Esion Gaber para chegar ao Brasil. Se este texto for autêntico, o que já está hoje fora de
dúvida, impõe-se um reexame da questão de Parvaim, onde já se torna possível ver pelo
menos uma região, um país, a caminho do qual Tartessos constituiria uma simples etapa.
De modo que a resposta à questão suscitada pelas navegações realizadas sob a
bandeira do maior de todos os reis de Israel passa pelos fenícios. Afirma-o a Bíblia, e a
história o confirma. Todavia, antes de seguir em seu caminho para a América os
marinheiros fenícios alugados a Salomão pelo seu poderoso aliado Hirão, é preciso eliminar
um certo número de provas falsas que servem apenas para obscurecer o problema.
Entre elas, alinham-se em primeiro lugar as "provas" de ordem lingüística. Assim,
para alguns, o nome da cidade de Tutóia, situada na embocadura do rio Parnaíba seria um
derivado de Toor Tróia — cidade de Tróia, em fenício e em hebreu antigo. Estamos, portanto,
diante de troianos que se refugiaram na Fenícia após a destruição de sua cidade pelos gregos
e que acompanharam os fenícios até o Brasil! Os mesmos "historiadores" prosseguem as
associações com as cidades de Torre e Turros, no Brasil, que teriam sido fundadas por
hebreus ou fenícios, pois seus nomes contêm a raiz... Toor! Trata-se de uma interpretação
particularmente delirante de um texto de Diodoro da Sicília segundo o qual alguns troianos,
efetivamente recolhidos pelos fenícios, teriam fundado noutros lugares algumas localidades
com nomes troianos. Aliás, é sempre possível fazer com que os textos antigos digam seja lá
o que for. Baseando-se nos Diálogos de Platão e nas Historiae Variae de Eliano, Onífroy de
Thoron, por exemplo, transforma as Méropes, descendentes míticas de Mérope, filha de
Atlas, em ancestrais dos índios sul-americanos.
Já o mesmo não acontece com os vestígios cananeus-fenícios descobertos pelo
lingüista inglês Mac Donald nas línguas dos atuais povoamentos da Oceania. O historiador
das Antigüidades judaicas, Flavius Josephus, escreveu que os navios do rei Salomão tinham
percorrido a parte oriental do "mar hindu", isto é, o que se estende para além da ilha de
Ceilão. Alguns autores, como o russo Alexandre Gorhovski chegam a afirmar que eles
teriam alcançado as costas da Malásia. Ora, todas as tripulações desses navios eram
constituídas de cananeus-fenícios; daí a hipótese de Mac Donald "explicando" o fato de
terem sido encontradas tribos de indivíduos de pele clara pelos primeiros navegadores
europeus que atravessaram o Pacífico.
Conjecturando se os fenícios não teriam podido chegar à América seguindo a rota do
Pacífico, A. Gorbovski escreveu: "O seu comportamento em outros lugares nos autoriza a
perguntar se eles não teriam seguido o seu caminho de ilha em ilha, sempre em direção
Leste, em busca do ouro, do ouro acima de tudo, e se, não o tendo encontrado, eles não
terminaram a sua viagem no Novo Mundo". Está tudo muito bem, mas será não obstante
conveniente lembrar que as únicas provas autênticas da presença fenícia na América se encontram, sem
exceção, na costa atlântica desse continente.
Quando o navegador grego Fitéas chegou às ilhas Shetland, quatro séculos antes de
Cristo, os indígenas lhe falaram numa misteriosa "Thulé derradeira", situada, diziam eles, a
seis dias de navegação, em direção Norte. V. Stefansson demonstrou que se tratava na
realidade da Islândia, que se encontra a 600 milhas de distância do lugar onde teria
desembarcado Fitéas. Os navios gregos daquela época percorriam cerca de 100 milhas por
dia. De modo que a informação obtida por Fitéas era exata. Não seria possível que os
fenícios tivessem recebido essa mesma informação, transmitida por esses mesmos índios?
Uma vez na Islândia, o caminho para a América, via Groenlândia, lhes estaria então
inteiramente aberto, tal como esteve mais tarde para os vikings.
TIPOLOGIA E HISTÓRIA
Outros documentos devem, entretanto, ser examinados com maior atenção. Entre
eles, as cerâmicas queimadas pré-colombianas encontradas em Guerrero, no México, assim
como, em outros pontos da América Central e cujo exame sugeriu ao professor Alexander
von Wuttenau, da Universidade das Duas Américas, no México, considerações a respeito do
tipo semita de inúmeras cabeças de personagens representadas nessas cerâmicas.
"É evidente, escreve o professor von Wuttenau, que os resultados realmente
inesperados dessas pesquisas podem lançar uma nova luz sobre os nossos conhecimentos a
respeito dos processos etnológico-históricos e das grandes migrações. Pois, a fisionomia
humana, com todos os elementos distintivos que caracterizam uma raça, é coisa que
ninguém pode inventar ou descobrir por acaso. E se há um problema que se mantém ainda
hoje cercado de mistério, e a fortiori durante os períodos pré-históricos, é indiscutivelmente
o das raças. De modo que a lógica mais elementar e a totalidade da experiência humana vêm
confirmar a nossa tese, que é a seguinte: não se pode imaginar que um índio reproduza
magistralmente a fisionomia de um negro ou de um branco, com todas as características
dessas duas raças, sem jamais ter visto um negro ou um branco. Deve-se, portanto, admitir
que os tipos humanos por ele representados se encontravam em solo americano e aí se
propagaram. Temos agora à nossa frente um material arqueológico em que aparecem os
sinais característicos das raças humanas. A análise desse material se reveste de um interesse
indescritível sendo, além disso, extremamente rica em ensinamentos. Um mundo novo, do
qual até agora nada suspeitávamos, abre-se à nossa frente.”
Foi justamente esta análise do material tipológico reunido nos museus que levou
ainda mais longe o sábio americano e o fez chegar à conclusão de que seria preciso
reexaminar certos elementos anteriormente postos de lado. E acrescenta: "No decorrer
destes últimos anos, os arqueólogos descobriram um número cada vez maior de terracotas
nas quais os traços distintivos da raça semita aparecem de maneira constante e convincente.
Eis porque parece-me difícil classificar desde logo entre as quimeras certas indicações
contidas no Livro de Mórmon, ou as tão precisas reflexões apresentadas por observadores dos
séculos XVI e XVII sobre os primeiros habitantes da América. Assim, o padre Diego
Duran (dominicano), nascido em Texcoco (México) por volta de 1540, dedica o primeiro
capítulo de sua crônica, redigida aproximadamente em 1580, ao problema suscitado pela
presença de elementos judeus na América pré-colombiana. A este respeito, aliás, ele fornece
uma série de informações referentes às técnicas rituais e à história das religiões. Em virtude,
inclusive, de nossos recentes conhecimentos, isto nos deveria levar a refletir. Deveríamos
igualmente estudar os escritos do dominicano espanhol Gregório Garcia (1554-1627) que, a
nosso ver, se revestem de um grande interesse, são substanciais e seguros.
"Paul Rivet, erroneamente, nele vê um indivíduo destituído de profundidade: De
maneira bastante estranha, o seu livro intitulado Origen de los índios del Nuevo Mundo, é muito
pouco conhecido. Constitui, entanto, um trabalho erudito composto em primeira mão por
uma testemunha ocular inteligente e disciplinada. De resto, Frei Gregório que tivera, como
sabemos, problemas com a Inquisição provocados pela sua atividade literária, conhecia o
México (e também o Peru, aliás) sem dúvida alguma melhor que Paul Rivet. Mas, acima de
tudo, ele o conheceu três séculos antes.
"Em todo caso, esses primeiros observadores nos fornecem informações sobre os
problemas históricos e étnicos. Ficaríamos, portanto, satisfeitos se, futuramente, se evitasse
contrapor-lhes uma recusa categórica de uma firmeza excessiva, ou acolhê-lhas com
mesquinho sorriso de compaixão, pelo menos sempre que se tratar de pesquisas científicas,
empreendidas com um espírito de liberdade ou de progresso e da maneira mais moderna.
Indiscutivelmente, nesse campo, é preciso avançar com extrema prudência, mas em
hipótese alguma os cientistas devem considerar uma tese como errônea sem dispor de
sólidos argumentos contra a mesma, ainda que as perspectivas abertas pareçam absurdas a
priori. Estou convencido, aliás, de que nos estão reservadas inúmeras surpresas para um
futuro próximo, quero dizer para quando as extraordinárias riquezas arqueológicas da
América estiverem sendo melhor pesquisadas e classificadas.
"A título de exemplo, podemos ainda citar a descoberta recentemente feita em
Tlatilco. Trata-se, desta vez, de uma pequena escultura representando um personagem
barbado. Essa cabeça (com apenas 4 centímetros de altura), muito antiga, é de origem grega
ou fenícia. Até certo ponto, ela pode ser condignamente emparelhada com a figura do
magnífico defumador proveniente da Guatemala e que se encontra no museu do Homem
em Paris. Ainda mais espantosa é a descoberta da "máscara de Silene" negróide, feita por
mão de mestre por um artista olmeca. Sei, de fonte absolutamente segura, que essa peça
também é proveniente de Tlatilco. Assinalemos, finalmente, a pequena terracota descoberta
em 1933 na pirâmide de Calixtlahuaca (perto de Tloluca), pelo arqueólogo mexicano José
Garcia Payón, e que também representa um personagem barbado. Ora, de acordo com o
professor Boehringer, do ponto de vista tipológico esse objeto deve ser considerado como
trabalho romano datando de cerca de 200 anos depois de Cristo. Pertence, portanto, à
categoria de achados misteriosos que nos compelem a buscar uma explicação científica para
suas origens."
Quanto ao que diz respeito ao tipo semita, é preciso lembrar que, nestes últimos dez
anos, os museus americanos vêm expondo peças indígenas que poderiam ser facilmente
qualificadas de "fenícias".
Em outubro de 1960, organizou-se em Mechanicsburg, Estados Unidos, o primeiro
seminário científico dedicado aos vestígios das navegações cananeu-fenícias em primeiro
lugar, e depois cartaginesas, descobertos na América. Homens como Alfredo Brandão,
Frederick J. Pohl, Alexandre Gorbovski, Charles M. Boland, W. B. Goodwin, V. Stefansson
ou Cyrus Gordon trabalharam nesse sentido. O que se deve porém salientar é que toda e
qualquer prova recém-encontrada dessas navegações confirma ipso facto, a viagem de
homens de raça semita em busca das fontes dessas lendas para cuja difusão eles tanto
contribuíram.
Congêneres e aliados, eles conjugaram seus esforços visando não somente a construir
um dos mais fabulosos templos da história — o de Jerusalém — mas também, para
consolidar uma das lendas mais perturbadoras de todos os tempos.
Terminando, vamos conjecturar quem teriam sido os soberanos que Jeremias tinha
em vista quando se dirigia "a todos os reis de Tiro e a todos os reis de Sidon e aos reis das
ilhas que se encontram para além dos mares".
Que ilhas? Que mares?
ACOMPANHANDO OS VESTÍGIOS DO INTERMINÁVEL RELÊ
Não nos é possível ir além da história mas, ao atravessá-la, por assim dizer, vemos que ela se vai
tornando transparente a uma luz vinda de algures.
KARL JASPERS Iniciação ao método filosófico
OS CARTAGINESES DESEMBARCAM NA AMÉRICA
As navegações prosseguiram. Depois dos fenícios e seus companheiros, entre os
quais talvez se contassem alguns egípcios, seguiram-se muito naturalmente os cartagineses.
Na primavera de 1963, a revista moscovita Vokrug Sbeta noticiou a descoberta de
uma inscrição cartaginesa num rochedo das montanhas da Virgínia setentrional, nos
Estados Unidos. As opiniões imediatamente se dividiram e a presença de alguns caracteres
não cartagineses levou à conclusão de que se tratava de uma falsificação. Ora, assim como
não se investigou quem teria sido o falsário, ninguém se preocupou também com a
evolução das descobertas de inscrições da mesma natureza ocorridas na Fenícia depois de
1932. Caso contrário, ter-se-ia sabido muito antes que os signos controvertidos pertenciam
a uma variante de língua silábica utilizada entre os séculos VII e IV antes de Cristo e que
foram igualmente encontrados no Velho Mundo. Observe-se que a reabilitação oficial dessa
inscrição nem sempre ocorreu.
Tendo-se desenvolvido a partir de uma antiga colônia fundada aproximadamente em
814 pela lendária Dido, a "Cidade" — assim a designavam os cartagineses — bem depressa
afirmou o seu poderio marítimo. Importante centro de comércio mediterrâneo, Cartago foi
também a mais ciosa dona dos caminhos marítimos da Antigüidade, percorridos por suas
galeras a uma velocidade cotidiana de 90 a 100 milhas (8 a 10 km/h). As célebres viagens de
Hanon e Himilcon são suficientes para mostrar a excelência da navegação cartaginesa.
Embora alguns historiadores atribuam ao primeiro um caráter mítico, é indiscutível a
realidade histórica do segundo — e de uma longa travessia atlântica.
Por volta de 320 a.C. os cartagineses já haviam tocado nos Açores. Sem dúvida, os
arqueólogos modernos que encontraram moedas cartaginesas na ilha do Corvo podem
discorrer sobre essa viagem mais demoradamente que seus próprios autores. Contudo, o
silêncio que cercou essa navegação durante séculos tem uma explicação, e nós já a
encontramos num texto antigo, o De Mirabilis, atribuído a Aristóteles. "Situava-se (a ilha) a
alguns dias de distância do continente. Mas... os sufetas de Cartago proibiram a viagem à
ilha sob pena de morte, para que não se tornasse conhecida a existência dessa terra insular."
Por outro lado, fontes históricas autênticas se referem à existência, numa das Canárias, de
um templo dedicado à deusa Tanit. Ainda em De Mirabilis, fala-se em embarcações a
navegarem ao longe, em direção Oeste a partir do "porto de Gades", a atual Cadiz.
A dar-se crédito aos textos, lá longe para além do oceano, os cartagineses encontraram
águas cobertas de algas. Pensa-se imediatamente no mar dos Sargaços, sobretudo levando-se
em conta que vários autores latinos escreveram sobre o Mare Vado sum que, para alguns
historiadores, é pura e simplesmente esse mesmo mar dos Sargaços. Acredita Richard
Hennig pelo contrário que, levando-se em conta que as extensões marinhas recobertas de
algas naquela época ficavam muito mais próximas das costas africanas, aquelas navegações
não tinham penetrado profundamente no Oceano. O que não o impede de concluir
afirmando, no capítulo XIX de suas Terrae incognitae que "em princípio não podemos negar a
possibilidade de que, na Antigüidade, alguns mediterrâneos tenham conseguido chegar à
América e ali exercido uma influência cultural".
Aliás, tendo-se aceito a navegação fenícia até a América, dela decorre
conseqüentemente a dos cartagineses. Para melhor nos convencer, eles se encarregaram de
ali deixar suas marcas, na maioria das vezes sob forma de inscrições. Assim, nos Estados
Unidos, foram encontradas inscrições cartaginesas na Pennsylvania, perto da cidade de
Harrisburg, nos distritos de York e Cumberland, nos rochedos da Virgínia e nos distritos de
Mecklemburg e Brunswick. A pátina dos traçados praticados na rocha (incisões com uma
profundidade de 1,5 a 3 cm), uma diábase triássica extremamente dura indica 1.800 a 2.700
anos de idade. O fenicólogo amador J. C. Ayoob, que decifrou essas inscrições baseando-se
em escrituras cartaginesas da África do Norte, afirma nelas ter lido nomes de centros
cartagineses mediterrâneos, assim como os de deuses e deusas e chefes cartagineses. Isto,
entretanto, ainda aguarda confirmação.
Essas inscrições são, aliás, incrivelmente numerosas. Somente na Pennsylvania, o
doutor W. W. Strong apontou mais de quatrocentas. As da Virgínia foram estudadas por
especialistas como o professor George C. Cameron, da Michigan University of Yale. Todos eles
confirmaram o caráter alienígena, não americano, dessas inscrições. A pedido de C. M. Boland,
membro da Sociedade Arqueológica do Massachusetts, o arqueólogo G. Radan, especialista
em escrituras semitas, procurou traduzir esses textos, tendo sido bem sucedido quanto ao
essencial. Embora as inscrições cartaginesas só tenham começado a ser descobertas a partir
de 1940 na América do Norte, sua existência no subcontinente era conhecida há muito mais
tempo. L. Schwenhagen, por exemplo, encontrara algumas em Campos, no Brasil. Da
mesma forma, desde 1837 haviam sido encontradas no Canadá algumas bolinhas de vidro
colorido e cerâmicas esmaltadas que não poderiam ser de origem índia. Em 1843, o
historiador americano H. R. Schoolkraft comparava essas bolinhas às encontradas em 1817
num túmulo muito antigo situado nas proximidades de Harrisburg, no Estado de Nova
Iorque. Será preciso lembrar que os americanos pré-colombianos desconheciam o vidro e o
esmalte? Mais tarde, em 1862, A. Morlot demonstrou que uma minúscula pérola de um
colar encontrado pouco tempo antes perto de Estocolmo era exatamente idêntica às pérolas
"americanas" e a uma outra vinda do Jutland dinamarquês. Ora, as pérolas da Dinamarca e
da Suécia foram formalmente reconhecidas como sendo de origem fenícia ou cartaginesa.
Provinham elas das relações comerciais estabelecidas desde o neolítico entre a Escandinávia
e os mediterrâneos que percorriam a Europa seguindo as "rotas do âmbar".
Sustenta Schwenhagen que os fenícios empreenderam suas primeiras navegações em
direção à América por volta do ano 1.100 a. C. e que o objetivo de suas expedições era a
busca do metal precioso. Afirma inclusive que encontrou vestígio dessas explorações
mineiras nos Estados brasileiros do Ceará e da Bahia. Quanto às "rotas" cartaginesas
propriamente ditas, C. M. Boland propõe para elas uma explicação não destituída de
originalidade. Em sua opinião, os cartagineses foram obrigados a se dispersar depois de
terem sido vencidos pelos gregos de Agatóclio em 310 a.C. Alguns de seus navios passaram
então para o Atlântico, e em seguida se dirigiram para o Norte, acompanharam as costas do
Labrador para finalmente chegarem ao golfo de Chesapeake. Ali chegados, subiram o rio
Susquehanna, deixando atrás de si as inscrições encontradas nas proximidades de
Harrisburg.
Os cartagineses talvez tenham sido perseguidos pela frota de Cipião Emiliano. O
historiador alemão Paul Hermann chega mesmo a sustentar que o único objetivo de Cipião
foi atirar os cartagineses aos abismos oceânicos para que eles nunca mais pudessem retornar
ao Mediterrâneo. Ficaria assim explicado, segundo Charles Michael Boland por que os
próprios romanos também se aventuraram a penetrar tão profundamente Oceano adentro
atrás de seus inimigos. Arrastado pelas correntes, um de seus navios teria sido lançado às
costas venezuelanas, tendo sido esta a origem dos pregos de navio de tipo romano, e as
moedas romanas encontradas naquelas costas. Isto tudo teria acontecido respectivamente
nos anos 260, 200 e 146, antes de Cristo.
MISTÉRIOS ETRUSCOS REVELADOS
Portadores de influências semitas e asiáticas, também os etruscos foram muito mais
longe, em suas viagens, do que se imagina. Examinando figuras de terracota, as divisões do
grande templo de Ife e alguns outros vestígios no território iyorubá, perto do Daomé, o
sábio alemão Frobenius chega à conclusão de que eram fruto de uma influência cultural
extra-africana, decorrente das viagens de navegadores não fenícios (e muito provavelmente
etruscos) no século XII antes de Cristo. Os trabalhos de R. Berthelot seguem esta mesma
direção.
Considera-se hoje possível a participação das tribos etruscas nas expedições dos
povos do mar contra o Egito, ocorridas por volta do ano 1.200 a.C. Por outro lado, em
apenas uma cidade etrusca — Volsci — foram encontradas mais de 22.000 cerâmicas
gregas, o que é suficiente para comprovar o intercâmbio comercial "intereuropeu" em que
os etruscos tomavam parte, as mais das vezes como predadores, sob o nome tristemente
célebre de piratas tirrênios. Todavia, o domínio por eles exercido sobre o Mediterrâneo
ocidental é bastante tardio, visto situar-se entre 535 e 477 anos antes de nossa era. Ora, foi
justamente naquela época que as navegações conheceram o seu maior desenvolvimento.
Diodoro, Timeu, Aristóteles e muitos outros autores da Antigüidade assinalam que entre a
batalha de Atália e a de Cumes, a frota etrusca fez inúmeras incursões no litoral oceânico da
África do Norte e da península Ibérica. Mas, em direção à América ou até a América?
Chegou-se bem depressa à conclusão de que tinha havido viagens etruscas até o
Novo Mundo. É bem verdade que não faltaram elementos: cimentação idêntica de uma
muralha pré-romana na Itália e de outra em Tiahuanaco na Bolívia; coincidências entre o
deus etrusco Charu e algumas divindades de Chavin, no Peru; analogias entre as górgonas
etruscas e certas figurações maias; idêntica significação simbólica do galo no México e entre
os etruscos; semelhança entre os sistemas de drenagem na Etrúria e no Peru; mesma
utilização da falsa abóbada em certas construções na Itália e na América etc.
Encontra-se, porém, a falsa abóbada em muitos lugares, e ela corresponde
simplesmente a um determinado estágio de desenvolvimento da civilização, o mesmo se
podendo dizer quanto à maioria dessas pretensas semelhanças. É entretanto indiscutível que
se pode comparar, como fez Frobenius, a técnica de trabalho dos metais em certas tribos
ameríndias e entre os etruscos, ou o processo de fabricação da cerâmica. Este último
paralelo dizia respeito à factura não americana das cerâmicas encontradas nas estranhíssimas
ruínas da ilha de Maranhão. Infelizmente, elas são de fato fenícias, o que não exclui, com
efeito, um certo "ar" etrusco.
O que houve realmente de comum entre os etruscos e os índios é algo muito
diferente, e tem uma explicação. São as correspondências lingüísticas bastante
surpreendentes entre os etruscos e os diversos idiomas do México e do Peru précolombianos.
Devemos esta descoberta ao professor Licínio Glori, de Milão, que a ela
chegou ao decifrar as cento e trinta palavras de uma inscrição etrusca encontrada em
Perúgia, Itália. Continuando suas pesquisas, Glori chegou a formular uma teoria audaciosa.
Declara ele ter conseguido uma prova da origem comum de parte das populações da América e da
Europa. Para ele, os iberos, os etruscos, os astecas e os antigos peruanos tiveram —
integralmente ou em parte — um mesmo berço. Em momento algum, entretanto, fornece-nos
ele o nome do antepassado comum desses povos. Ora, quando se verifica que as palavras e
expressões que revelam esse inexplicável parentesco são, todas elas, de ordem ritual ou
iniciática, as coisas adquirem imediatamente um aspecto diferente. Assim sendo, não há a
menor necessidade de transportar artificialmente os etruscos para a América, como fazia
outrora Rodrigo de Castro, ou o inverso como tentaram fazer Lewis Spence e Thajer Ojeda!
Basta lembrar os homens que saíram do platô das Baamas em via de submersão e que com
toda a certeza transmitiram às populações com que entraram em contato parte de seu
vocabulário religioso ou conceitual.
Para Lewis Spence, os etruscos seriam americanos que teriam emigrado para a
Europa. Em seu livro Problem of Atlantis (Londres, 1924), Spence atribuía uma importância
excessiva ao que diria Sileno, personagem mítico, a Midas, outro personagem lendário.
Sileno explica com efeito que outrora, em época há muito transcorrida, alguns povos
haviam atravessado o oceano para irem se instalar na Europa. E aí temos os nossos
etruscos!
O SEGREDO DA FROTA PERDIDA
Também dos gregos se disse que haviam tentado a aventura americana. Temos de
confessar que seriam precisos outros argumentos que não os propostos por Rodrigo de
Castro para disso nos convencer. Inegavelmente, a lenda de Xolotl, o deus com cabeça de
cão dos astecas que transportava os mortos e em cuja boca se introduzia uma lâmina de
ouro ou de cobre, nas regiões inferiores do mundo, nos faz pensar realmente em Caronte, o
barqueiro dos mortos, Cérbero, o Tártaro e o Estigemas, o que se poderia dizer além disso?
A presença dos prefixos Theo-, Thia-, Tia-, em nomes como Tiahuanaco, Teotihoacan é
igualmente pouco eloqüente, assim como certas semelhanças toponímicas relativas a rios e
cursos d'agua onde intervém o prefixo poti- (Poti, Potijuaro, Potiguara) que, entre os préhelenos
da Grécia significava "pequeno rio". Finalmente, as habituais citações de Claude
Ellien reproduzindo os dizeres de Sileno a Midas não nos fazem sair do terreno da anedota.
Plutarco se refere a um país governado por Mérope, sem entretanto especificar que país é
esse. Pode-se imaginar que se trata daquele em que Hércules encontrou o uso do grego, mas
seus habitantes desconheciam o ferro. E as eventuais alusões à América por parte de
autores gregos são por demais obscuras para merecerem alguma atenção, tanto mais que se
trata provavelmente de informações chegadas à Grécia por intermédio dos cartagineses.
Em La Geografia premediterranea (Valparaíso do Chile, 1927), o arqueólogo chileno
Thajer Ojeda procura demonstrar a existência de migrações de povos pré-históricos da
América para a Europa. Trata-se de um eco da teoria monogenista proposta por Ameghino,
segundo a qual a humanidade teria tido um berço único. O homem teria saído dos pampas
argentinos. Dai, mais tarde, ter-se-ia espalhado pelo mundo afora. Essas teorias nunca
conseguiram se impor.
Não obstante, existe algo que causou sensação e que ocorreu na época da 113a
Olimpíada. Como se sabe, por volta do ano 323 a.C. Alexandre, o Grande, reunira uma
numerosa esquadra na região do golfo Pérsico. Alguns autores chegam a falar em 800
navios e numa tripulação de 5.000 homens. Ora, de repente, por ocasião da morte do
grande rei, essa frota desapareceu. Na véspera da morte de Alexandre, os navios se haviam
aprestado para tomarem uma direção ignorada. Seja como for, é pouco provável que os
pilotos se tenham dirigido para Sudoeste para contornar a península arábica. Não lhes teria
sido possível, com efeito, encontrar no litoral árabe nenhum porto onde pudessem tocar
para se reabastecer de água. É por conseguinte muito mais verossímil que a frota se tenha
dirigido para o Oriente a fim de atingir os ricos portos das Índias ou da Indonésia e de lá...
"Não estaria aí a origem das velas latinas triangulares, peculiares ao Mediterrâneo e
encontradas pelo capitão Cook entre os indígenas das ilhas do oceano Pacífico e do Oeste
do oceano Índico?" pergunta o historiador russo A. Gorbovski. Mas a zona de difusão
desse tipo de vela se estende até muito além da Indonésia, indo até as Américas, seguindo
uma linha que passa pelas ilhas de Sonda, e pela Colômbia britânica antes de chegar ao
Peru.
Em seu livro As Duas Américas, Cândido Costa relata que em 1893 um fazendeiro
encontrou em Doris, perto de Montevidéu, um túmulo muito antigo, coberto por uma laje
de pedra sobre a qual ainda se distinguiam vestígios de uma inscrição quase apagada. Sob a
laje, abria-se um carneiro e neste havia uma urna contendo cinzas. Em volta da urna, armas
e um capacete metálicos completavam o conjunto. O sábio uruguaio R. P. Martins verificou
que a inscrição era em grego antigo e decifrou um início de frase: "Alexandre, filho de
Filipe, era rei da Macedônia durante a 113a Olimpíada. É aqui que Ptolomaios...”

Ao publicar a descrição dos objetos encontrados no túmulo, Martins especificou que
uma das espadas era ornamentada com a efígie de uma cabeça humana e que havia uma
cena de combate representada no capacete. Nessa cena, Martins via o episódio da guerra de
Tróia em que Aquiles arrasta o corpo de Heitor ao longo dos muros da cidade. Depois, os
objetos passaram a fazer parte de uma coleção particular antes de serem submetidos a um
verdadeiro exame científico.
Mais tarde, o professor Schwenhagen atribuiu uma importância exagerada a esse
achado que, afinal de contas, dependeria de muita confirmação. Por certo, se o túmulo
realmente existiu, deve ter sido associado à aventura da frota perdida. Isto significaria,
porém, que o tal Ptolomaios estivera a um passo da realização da viagem de Magalhães às
avessas. O que é muito passível de contestação e, para deixar essa hipótese confirmada, não
bastam as velas latinas do Pacífico nem esse hipotético túmulo.
O americano Lothrop e o russo Guleaiev buscaram descobrir, depois disso, por que
motivo não se havia encontrado nenhum indício dessa viagem nas ilhas do Pacífico
dispostas ao longo do suposto trajeto da frota. Sempre prontos a encontrar uma resposta,
os adeptos da viagem grega à América apresentaram um argumento. O da presença do
capacete grego entre os guerreiros do Pacífico, sobretudo do Havaí e nas cerâmicas
peruanas mochica ou mocica.

Cerâmica mochica: guerreiros
É um argumento fraco e que não leva em conta a mais elementar cronologia,
suficiente para esclarecer esse ponto. Os mochicas utilizaram com efeito esse tema de
ilustração na época do desenvolvimento máximo de sua cultura, nos séculos IV e VIII de
nossa era. Tinha-lhes sido transmitido pelos nativos das ilhas do Pacífico que tinham
realmente navegado até a América. De modo que se havia alguma conjectura a fazer, teria
de ser quanto à presença do capacete grego no Havaí e não no Peru.
Todavia, embora os gregos jamais tenham velejado em direção à América não se
discute que eles tenham enchido o mundo de mitos que — desde os trabalhos de Hércules,
sobretudo o do jardim das Hespérides, até as mais insignificantes lendas a respeito dos
campos Elísios — lançaram, alimentaram e ampliaram uma tradição que impeliu à
realização efetiva dos mais fantásticos sonhos.
OS CELTAS NA TERRA DO GRANDE SONHO
Depois dos cartagineses, os celtas. O problema celta, independentemente das crises
cíclicas de "celto-mania", já foi suscitado há muito tempo. Mylius, Charon e Postei —
autores citados por Hornius em suas Origens dos Americanos — já tinham voltado sua atenção
para as viagens dos celtas à América. Em seus comentários sobre a língua "bélgica" Mylius
afirma que uma série de sobrevivências célticas na toponímia americana comprova o
estabelecimento precoce dos celtas do outro lado do Oceano onde teriam até fundado um
reino. Jacques Charon declara em sua Histoire universelle que os antigos gauleses teriam
chegado à América antes de nossa era e que ali teriam criado a cidade de Temistitanam.
Ainda na opinião de Charon, o nome da Venezuela derivaria do dos vênetos, antiga tribo
gaulesa que lá teria abordado. Isto, infelizmente, não é verdade e Venezuela decorre de
Veneza. Com efeito: os indígenas do litoral viviam em casas de tipo lacustre e Venezuela
significa "pequena Veneza". Finalmente, Guillaume Postei se refere a uma "colonização"
celta do Novo Mundo.
O que há de verdade em tudo isto? O que se sabe é que, entre os séculos III e I antes
de nossa era, as robustas embarcações dos vênetos se dirigiam com freqüência para a costa
britânica da Cornualya e chegavam a atingir os portos mais distantes da península Ibérica.
Por outro lado, já de há muito ficou comprovada a descoberta, assim como a utilização, das
rotas marítimas do Atlântico oriental pelos celtas. Partindo daí, Alexandre Gorbovski
admite que os celtas se tenham aproximado cada vez mais de costas norte-americanas desde
o século III antes de Cristo. Chegaram assim a navegar costeando-as para em seguida
abordá-las. A praia onde desembarcaram não foi identificada com segurança, mas sabemos
pelo menos o seu nome: o Huitramanalanã, isto é, a "terra dos homens brancos".
Quanto às causas dessas navegações, teremos de buscá-las nas tradições e crenças
dos celtas, impregnadas pelo grande mito das ilhas dos bem-aventurados e situadas num
ponto qualquer para além do Oceano. O paraíso, o paraíso terrestre, seria necessariamente
uma região distante, de difícil acesso, fora do mundo conhecido e dele separada por algum
formidável obstáculo natural, montanhas ou oceano. E o que melhor poderia indicar seu
caminho se não o curso do astro que preside à atividade dos homens e da natureza: o Sol?
Tudo concordava, portanto: as tradições e a lógica. O paraíso só poderia situar-se no lugar
mágico em que o Sol se põe — a oeste.
Essa busca de um paraíso que se distancia à medida que os homens se esforçam por
atingi-lo explica em grande parte a longa viagem dos gregos em direção à península Ibérica
e, era seguida, na trilha dos cartagineses, em direção às ilhas Afortunadas. Os celtas fizeram
o mesmo ao passar das ilhas britânicas para as Hébridas por entre as orçadas e as Shetland,
encaminhando-se para a Islândia enquanto aquele maravilhoso sítio (mais tarde
denominado Flaith Innis eurogaélico) se distanciava cada vez mais em direção ao Oeste. A
princípio ilha sagrada, coube em seguida à Irlanda o mesmo papel de etapa que seria mais
tarde desempenhado pela Islândia, tanto mais por ser ela "uma terra onde o sol se põe e
nasce na mesma hora". O que significa que os celtas haviam localizado o paraíso terrestre
nas ilhas setentrionais do oeste oceânico. Foi assim que a própria Thulé foi denominada a
Ogygia do Norte, nome que Eugène Beauvois interpreta da seguinte maneira: Ogh -
significava "santo", mas og = jovem, cige = juventude. Por outro lado, a tradução de oig é
"herói" e a de oighe é "gelado". Fica assim explicado porque em língua celta uma mesma
palavra basta para designar as ilhas (de gelo) dos heróis que permanecem eternamente
jovens...
As narrativas gregas referentes aos celtas, tais como as encontramos particularmente
em Eufórico de Cumes, afirmavam não somente que estes adoravam o deus Cronos ao qual
sacrificavam jovens atirando-os ao mar do alto das falésias, mas também que eles haviam
atravessado o Oceano e fundado estabelecimentos tão distanciados uns dos outros como a
Ogygia das ilhas Britânicas. Certos autores favoráveis às posições celtizantes, entre os quais
Eugène Beauvois chegaram a sugerir que os celtas possuíram três colônias, uma das quais
na Groenlândia, outra na terra de Baffin ou no Labrador, e finalmente a terceira mais ao sul,
no litoral de um golfo maior que a Meótida européia e fazendo parte do continente norteamericano.
Segundo esses mesmos autores, a tradição antiga comportaria indicações sobre a
existência lendária dessa Meótida americana céltica, além de pormenores sobre a sua
organização. Assim, de trinta em trinta anos, os habitantes do país efetuariam uma
peregrinação à ilha de Cronos para consultar o oráculo. Alguns teriam ido até o
Mediterrâneo. Afirma-se mesmo que um deles teria chegado à África, às proximidades de
Cartago, quando Sila governava Roma e, tendo apresentado um relatório de sua viagem ao
ditador, este o expulsou imediatamente, convencido de estar diante de um mentiroso.
Acrescentemos finalmente que a descrição que nos é dada desta Meótida americana
concorda em boa parte com a do Canadá atual.
Se examinarmos as tradições dessas diferentes regiões, descobriremos além disso
duas lendas gregas — a de Hércules e a das Amazonas — transmitidas provavelmente pelos
celtas. Em ambos os casos, a tradição americana se apresenta como um pálido eco de seu
modelo mediterrâneo. A nordeste dos Estados Unidos, na região dos "mounds" (região das
colinas) onde serão mais tarde encontrados os Tuatha Dé Dannan originários da Irlanda,
existia até uma seita de adoradores de Hércules. A existência dessas tradições comprova
suficientemente a presença dos celtas na América, o que abriu as portas para a implantação,
a partir do século VII de nossa era, de seus descendentes irlandeses naqueles mesmos
estabelecimentos. Da mesma maneira, as influências gregas sobre a cultura céltica
permitiram que inúmeras lendas mediterrâneas atravessassem o oceano.
É possível, aliás, que os celtas tenham adotado apenas um caminho ao viajarem para
a terra dos bem-aventurados. Tratar-se-ia, neste caso, do grande itinerário nórdico que passa
pelas ilhas atlânticas ao largo da Escócia, as orçadas, as Hébridas, as Shetland, a Islândia e
depois a costa da Groenlândia, o litoral oriental do Labrador, a Terra Nova e, por fim, a
região das Colinas, a grande Celtia de além-mar. Esta corrente circulatória foi interrompida
pela conquista romana das Gálias. Daí por diante, os "colonos" perderam contato com seu
país natal, tendo-se fundido com as populações nativas.
Ficaram-nos, entretanto, inúmeros indícios de sua presença. Aí estão particularmente
as construções de tipo megalítico cujos vestígios podem ser vistos nos Estados Unidos, em
Massachusetts e New Hampshire, e que podem ser comparados aos de Cuenco, no Peru.
Assim também certas construções primitivas situadas nas vizinhanças de North Salem
evocam as habitações rupestres da Irlanda ocidental. Certos autores acreditam ter
encontrado vestígios da mesma natureza entre os maias do Yucatan a respeito dos quais
contam os anais que "tendo partido da região que habitavam em Nonoval, os quatro
Tutulxin (chegaram) a Zuiva, no Oeste, tendo vindo juntos de Tulapan, sua pátria".
Todavia, nada nos autoriza até agora a determinar a localização de Huitramanaland.
O qual, sujeito ainda às hipóteses, continua a se transportar da Virgínia para o
Massachusetts mesmo que aos indícios já mencionados nós possamos acrescentar algumas
tradições de que só compartilham os celtas e os ameríndios. Assim, tanto para os celtas
como para os algonkins, a história se divide em quatro grandes períodos, o primeiro e o
último dos quais são representados pelas mesmas cores: o branco e o negro. À Claude Lévi-
Strauss é que cabe o mérito por ter sido apontada a semelhança entre os mitos dos índios
que habitam as florestas das regiões do centro e leste da América do Norte, e as lendas célticas
do ciclo do Graal, assim como por a ter explicado através de uma filiação comum decorrente
de uma antiga cultura subártica. Para Claude Lévi-Strauss, todas as populações setentrionais,
da Escandinávia ao Labrador, e da Sibéria do Norte ao Canadá, mantinham relações muito
estreitas umas com as outras, tendo os celtas colhido algumas de suas lendas nessa cultura subártica a
respeito da qual não sabemos praticamente nada. As semelhanças existentes entre os
"documentos" arqueológicos do Sudeste asiático e da Escandinávia proto-histórica levaramno
até a escrever que as três regiões da Indonésia, do nordeste da América e da Escandinávia
constituíam, de certa forma, "os pontos trigonométricos da história do Novo Mundo".
Entre um e outro desses pontos, os celtas teriam portanto servido de agentes de ligação. Os
celtas, que não economizaram as imagens ao descrever a planície da alegria, o país da juventude,
a terra das promessas. Esses mesmos celtas que chegaram um dia a seu Huitramanaland, com
apenas uma remada, se dermos crédito à lenda, mas na realidade depois de longas etapas no
caminho do Norte, passando por Tule, a Derradeira.
DE ROMA AO MÉXICO
Perseguindo os cartagineses, prendendo em terra os navegadores celtas, os romanos
teriam fatalmente de pisar, por sua vez, o solo do Novo Mundo.
No entanto, quando nos séculos XVI e XVII, autores como Hornius, Tornielli,
Acosta, Goropius e outros sugeriram a idéia de uma antiga presença romana na América, o
que encontraram pela frente foi um ceticismo geral. Eles tomavam como base, em primeiro
lugar, a natureza e a qualidade da rede viária inca, com seus 6.600 quilômetros de estradas
pavimentadas, muito bem conservadas e cobrindo por vezes longas distâncias, assim como
as inúmeras obras de arte, túneis, rampas de acesso, escadarias terraceadas etc. Não foi
pequena a surpresa de Cieza de León ao encontrar a balança "romana" entre os incas. Hoje
em dia, especialistas como Maudley Osborne e J. A. Joyce observaram o aspecto estranho
do personagem representado na esteia de Quiriga, o qual ostenta uma face rubicunda e usa
uma vestimenta em forma de toga romana. Também não se deixou de apontar a existência,
no antigo México, de uma "casa das virgens", cuja função era idêntica à da instituição
romana das Vestais.
É preciso acrescentar que, do ponto de vista científico, isto não significa absolutamente nada. Ainda
que se some a tudo isto a informação de Statius Sebosus, reproduzida por Plínio, a respeito
do número de dias de navegação que separavam as Górgonas (ilhas do Cabo Verde) das
Hespérides (Antilhas); mesmo quando se tem em mente que Cícero afirmava não passar o
Império Romano de pequenina ilha se comparado ao continente ocidental. De modo que a
hipótese de uma viagem romana à América foi rejeitada a partir do século XVIII.
Ao que parece, faz-se mister reconsiderá-la atualmente. Já no século XIX encontrouse
uma moeda romana em uma das Antilhas. No início do nosso, foi encontrado, no istmo
de Darien, Panamá, um vaso de terracota cheio de moedas romanas datando dos séculos III e IV de
nossa era. A situação do vaso na camada arqueológica a que pertencia e o fato de se tratar
de moedas de emissão corrente, em bronze, excluem a possibilidade de um transporte póscolombiano.
Inútil dizer que essas moedas são perfeitamente autênticas".
Vieram em seguida outras descobertas. O número dessas moedas, sua localização,
assim como a circunstância de provirem de camadas arqueológicas virgens exigem que se
lhes dedique a maior atenção, o que naturalmente os arqueólogos oficiais nem sempre têm
feito. Contudo, em 1918, achou-se em Tennessee, a dois metros de profundidade, uma
outra moeda romária datando desta vez do século II de nossa era. No ano seguinte, outras
foram encontradas na Venezuela. Haviam sido emitidas entre o I e o IV séculos d.C. Em
1943, finalmente, James V. Howe achou às margens do rio Roanake, perto de Jeffries
(Virgínia) um antigo forno. As escórias espalhadas em torno revelaram o trabalho com o
minério de ferro. Após intermináveis discussões, estabeleceu-se finalmente um acordo dando
aqueles vestígios como remontando a quatorze ou quinze séculos antes da chegada de
Colombo.
As pesquisas continuam, embora de maneira dispersa. Foram ainda encontrados na
mesma região cerca de 300 quilos de materiais ferrosos com indícios de siderurgia e
dezesseis localizações de fornos para fundição do ferro, entre eles um forno metalúrgico
rudimentar feito de terra argilosa. O professor R. W. Brekenridge, depois de analisá-lo,
chegou à conclusão de que esse metal possuía uma microestrutura idêntica à do ferro
forjado na Antigüidade pelos ferreiros gregos. Por sua vez, E. P. Best determinou a
estrutura química do metal depois de microfotografá-lo. Daí resultou que o ferro
encontrado é um metal de tipo antigo obtido pelo processo direto, onde não existe
separação entre a primeira redução do minério no forno e a formação e trabalho do metal
por martelagem, sendo o minério e o combustível introduzidos no forno durante um
processo contínuo de agitação e insuflação de ar. A massa esponjosa que permanecia no
fundo do forno era então recuperada para ser imediatamente trabalhada e forjada à mão.
As escavações às margens do rio Roanake trouxeram também à luz pedaços de
bronze e uma taça metálica perfeitamente conservada que se revelou idêntica a outras seis
encontradas em Pompéia e que podem ser vistas no Museu da Antigüidade, em Nápoles.
Entre os objetos provenientes dessas escavações, há também um fragmento de fuso antigo,
de tipo romano. A análise química do bronze revelou uma estrutura não americana e muito
semelhante à do bronze mediterrâneo dos últimos anos anteriores à nossa era.
Será conveniente acrescentar a este conjunto as inscrições rupestres encontradas em
Dolphin (Virgínia) sobre dois enormes rochedos distantes 1,6 km um do outro. Esses
signos se assemelham estranhamente aos crismas dos primórdios da difusão do cristianismo
no império romano, estudados pelo sábio alemão Rudolf Koch em seu Livro dos Signos.
Cinco dentre eles merecem uma atenção particular: um octograma muito utilizado, mas de
origem pré-cristã (a), uma cruz dupla inserida num retângulo relacionado com a antiga
simbólica do número 4 (b); um monograma cujos compartimentos continham no Mundo
Antigo as iniciais da palavra Ichthys, palavra-senha dos antigos cristãos (c); e dois outros
signos um dos quais (e) de origem tipicamente grega.

A - América
B - Velho mundo Crismas (segundo Ch. M. Boland)
Os professores G. C. Camerion, Nelson Glueck e Michael Rostovtzeff estudaram
esses crismas. Suas conclusões diferem profundamente. Para Camerion, são incisões
grosseiras e indecifráveis; para Glueck, seria impossível relacioná-las com qualquer escritura
semita; para Rostovtzeff finalmente, são inteiramente destituídas de significado. Eles
concordam, entretanto, quanto a afirmar que sua origem não pode ser índia. Muito embora,
a bem dizer, esses crismas americanos sejam insuficientes para provar uma presença romana
na América do Norte, existem muitos outros indícios, bem mais concludentes.
O mais ilustrativo foi sem dúvida o achado de Clarksville, no rio Roanake. Em 1951,
por ocasião da construção de um dique, os trabalhadores depararam, a alguns quilômetros
da cidade, com uma necrópole contendo setenta e oito esqueletos humanos. Misturados aos
ossos, encontravam-se diversos objetos não índios e pedaços de ferro semelhantes aos que
foram trazidos à luz por Howe no início de suas escavações. Para os especialistas
consultados, também aquele ferro possui uma estrutura idêntica à do ferro utilizado pelos
gregos. Infelizmente, a exploração arqueológica do sítio sofreu um colapso quando foram
concedidos os meios e autorizações indispensáveis já era tarde demais. A necrópole fora
recoberta pelas águas do novo curso do rio.
O inventário nem de longe está concluído; temos ainda de mencionar os pregos e
fragmentos de utensílios de ferro fabricados segundo um método idêntico ao dos utensílios
europeus correspondentes, do século I antes de Cristo até o século IV d.C. No distrito de
York, na Pennsylvania, achou-se um amuleto de origem indeterminada, mas revelando uma
indiscutível influência romana. É preciso mencionar igualmente os três apitos idênticos a
apitos romanos, provenientes do vertical, a princípio no centro, adquirisse um aspecto
semelhante ao da perna do “q” moderno, para em seguida desaparecer do grego atual. No
século V a.C. esse signo correspondia à letra H.
Recentemente, C. M. Boland sugeriu a possibilidade de uma presença romana em
solo americano no século I, declarando-se convencido pelas descobertas de Howe —
particularmente pela dos crismas — e por certos rituais e tradições dos índios précolombianos
que comportavam referências mais ou menos numerosas ao cristianismo.
Boland acredita até que um pequeno contingente de cristãos informados da existência do
"continente do Oeste" por via fenícia, poderia ter vindo buscar refúgio na América a bordo
de navios mercantes romanos.
Observe-se, entretanto, que os vestígios romanos na América abrangem um período
excessivamente longo para que se possa atribuí-los a uma única viagem de um grupo
restrito, e portanto a uma única data. Além disso, alguns dos objetos achados são um ou
dois séculos anteriores ao cristianismo. Por outro lado, os "traços" de cristianismo que
Boland acredita ter identificado entre os pré-colombianos existem de fato, mas devem-se a
uma causa muito diferente e de que trataremos adiante.
Acrescentemos ainda, antes de terminar, que nos afrescos de Pompéia, pintados no
século I antes de Cristo, são representados o ananás e frutos de anonas-squamcsa, de origem
exclusivamente americana. Podemos, portanto, afirmar com toda a segurança que se os
romanos chegaram à América, isto não está de maneira alguma associado ao cristianismo
nem a seus adeptos.
Sem o saber, os poucos marinheiros e soldados que desembarcaram no Novo
Mundo deviam desempenhar com relação aos refugiados cartagineses o mesmo papel que
os vikings tiveram junto aos irlandeses, dez ou doze séculos mais tarde: eles os perseguiam.
Todavia, mesmo nessas circunstâncias, uma navegação desta ordem teria forçosamente de
confirmar as lendas correntes sobre as maravilhosas terras do Oeste.
BRENDAN, O SANTO DOS HORIZONTES PERDIDOS
Quem quiser saber o que pensar quanto a este livro, informe-se da opinião dos sábios. SIGISBERT
DE GEMBLOUX, o Lotaríngio (sobre o manuscrito das Peregrinations de saint Brendan).
Dentre os que buscaram o paraíso, Brendan é indiscutivelmente um dos que
inspiraram uma lenda das mais vivazes, difundida em diversos países ocidentais durante
séculos e alimentando incansavelmente contos, narrativas, poemas e canções populares. Por
certo, o paraíso era questão não poderia ser mais terrestre. Pertence à velha "terra dos
antepassados" que, depois de os inspirar e estimular, usufruiu dos esforços generosos dos
que tanto a haviam buscado. Trata-se porém ainda do Eliseu transatlântico, do Éden ocidental.
Esta terra, sempre sonhada, devia situar-se do outro lado do Atlântico, então denominado
"mar Croniano", e abrigar se não os deuses, pelo menos os heróis cuja felicidade e
imortalidade ficavam nela preservadas.
Para Demétrios de Tarso, grande viajor a respeito do qual fala Plutarco, os celtas da
Bretanha insular foram os primeiros a localizar a "terra dos bem-aventurados" na ilha de
Saturno, situada numa altura qualquer do mar Croniano. Nessa ilha, o deus Tempo Cronos,
cercado de gênios e servidores, era mantido prisioneiro por Briareu, o gigante dos cem
braços. Para a tradição céltica, é, portanto, ali que se deve situar a fonte geográfica da mais fértil
de todas as suas lendas.
A FUGA DO ÉDEN
Nos primórdios dessa fonte milenar, o paraíso era, na verdade, localizado ao Norte.
Píndaro, poeta do século V a.C. situava-o nas regiões dos "Hiperbóreos", motivo pelo qual
seu compatriota Teopompo, considerava esses homens como os mais felizes dos mortais.
Muito embora, mais tarde, certos autores partidários da teoria celta como Eugène Beauvois
aí tivessem visto uma influência excessivamente precoce dos celtas sobre os antigos gregos,
é forçoso reconhecer que o paraíso não se imobilizou durante muito tempo na região
noroeste da Europa.
Muitos autores romanos clássicos se transformaram em cronistas das perpétuas
mudanças que se iriam processar a seguir. Se Tácito e Claudiano ainda localizam esse
paraíso às margens do Reno, já Solin o coloca nas vizinhanças da Caledonia e Estrabão,
exegeta no que diz respeito a Homero, o vê num ponto qualquer do oceano Atlântico. Aí
está portanto o paraíso instalado na mais longínqua das ilhas visitadas por Ulisses, ilha por
ele abordada vinte dias depois de sua partida do litoral dos feacos.
Menos conservadores que os Antigos e dotados de imaginação mais viva, os gaélicos,
cujas crenças estão ligadas ao mesmo tempo à herança céltica e à tradição medieval oriental
eivada de vagas reminiscências de origem judaico-cristã, também conheceram o Paraíso
terrestre. Situaram-no em vários pontos diferentes, sob vários nomes. Foi sucessivamente a
Terra da Juventude dos poemas de Ossian intitulados Tir nan-Og ou Tir nah-Oge, a Terra das
Promessas (Tir Taingire), a Ilha dos Heróis (Flatihon Fiai th Innis), a Planície das Delícias (Mag
Mell), a Terra dos Vivos (Tirnam Beo), e a Grande Margem (Traig mar). Foi também por
vezes assimilado à Terra Elevada onde reinava o melhor rei do mundo e em cuja direção
navegaram, de acordo com certas lendas irlandesas do século IX, Snegdus e Macriagla.
Talvez não haja nada mais apaixonante que acompanhar, perlustrando os
manuscritos antigos, essas viagens em direção a um paraíso que se ia sempre distanciando,
Um desses manuscritos é o célebre Leabharna h-Uidtri, transcrito em 1.100 por Maelmuir,
filho de Ceile Achairmacc Conn, de acordo com as narrativas dos bardos galeses. Pelo
menos uma das lendas dessa coletânea merece ser relatada. É a que conta as façanhas de
Condia, o Belo, rei da Irlanda entre 123 e 157 d.C. segundo contam, na época em que os
insulares se achavam tão distantes do cristianismo quanto da América.
Certa manhã, estando o jovem Condia Ruad Cain — Condia, o Ruivo e o Belo —
em companhia de seu pai nas encostas do monte Usnech, chegou-se a ele uma fala que lhe
dirigiu as seguintes palavras: "Venho do país dos vivos onde não existe morte, nem velhice,
nem pecado contra a lei, onde todo mundo é virtuoso sem esforço, onde há perpetuamente
festa. É lá que vivemos, nós os homens e mulheres do povo das Colinas... Vem, Condia,
meu valente ruço de pescoço sardento, de belo rosto e faces coradas, pois, se me
acompanhares, conservarás juventude e beleza até o juízo final..." Apesar dos conselhos do
pai e das tentativas de "encantamento de desencantar" feitas pelos bardos, a fada levou-o
finalmente consigo. O herói resolve acompanhá-la e parte em seu curagh — frágil barquinho
de cristal — para a terra de Bradagh, situada no extremo Oeste do outro lado do oceano. Condia nunca
mais voltaria.
Se, no manuscrito, o paraíso é por vezes o Dintsid, sede florida das fadas, ou se
encontra simplesmente na bela planície de Trogaigi, sempre que se faz necessário cantar a
natureza paradisíaca do Mag Mell — a planície das delícias — o bardo salienta que cada uma de
suas árvores é capaz de alimentar com seus frutos trezentos homens famintos e que sua
vegetação está em perpétua floração. Além disso, depois de colocar o sol no alto da árvore
de prata, ele se alonga em descrições da fonte da abundância, cuba inexaurível cheia de hidromel —
o néctar dos deuses e sua água da juventude. Surgem, umas após outras, jovens de beleza
deslumbrante, e entre elas a mulher de Labraid, governador da ilha. Naturalmente, não se
deixou de estabelecer um paralelo entre esse nome Labraid e o do futuro Labrador.
Protegido pelo oceano, o Éden escondia-se sempre de seus vizinhos europeus mais
próximos, e isto para os provocar ainda mais. E as provocações assumiam as mais das vezes
uma feição de eterno "cherchez la femme". Com efeito, abandonada por Man Annan Mac
Lir, deus da Navegação (alusão tardia ao Netuno dos Antigos) a bela Fand resolveu unir-se
a um cônjuge mais fiel, isto é, à Cuchulain, príncipe de Cuailgua, no atual Ulster. Para tanto,
a bela tramou uma verdadeira conspiração, pondo em ação pássaros maravilhosos, sinais
mágicos e astúcias amorosas. Cuchulain é informado de que está sendo esperado do outro
lado do oceano, em Innis Labrada, para onde embarca e de onde volta. Fand o acompanha.
Quando retorna em companhia da nova esposa, a situação se complica para Cuchulain que
havia deixado em casa uma outra esposa. As mulheres entram imediatamente em choque.
Suas armas são a astúcia e a inteligência, travando-se a luta a golpes de generosidade
recíproca, cada uma das rivais gabando a outra e lhe oferecendo o seu lugar. Quem cede
finalmente é Fand — a "Americana" — e tendo ficado sozinho com sua primeira mulher,
Emer, Cuchulain recupera a felicidade depois de beberem juntos, o filtro do esquecimento
preparado pelos druidas.
A fabulosa viagem de Cuchulain preparou a seguinte, a de Loegaire. Esse filho de rei,
casado com a filha do senhor dos Sidhs (colinas das fadas) foi viver em Dun Mag Mell — a
Antiga Planície das Delícias — cercada por muralha protetora. Tal como o Innis Labrada de
Cuchulain, a Dun Mag Mell de Loegaire ficava do outro lado do Atlântico. Veio em seguida
o misterioso povo dos deuses — os Tuatha Dé Danaan — com o qual o célebre Oisin
(Ossian) velejou em direção ao mais distante dos países a bordo de uma embarcação
lançada ao mar não longe de Ben-Edar, antiga localidade nas proximidades de Dublin.
Outros vieram a seguir, e entre eles Fionn ou Osk'ar, o filho de Oisin. Mais afortunado que
os demais, Fionn adquiriu finalmente o direito de viver nas ilhas da Juventude, também
denominadas ilhas sempre verdes em virtude dos frutos magníficos que enfeitavam o ano todo
as suas árvores...
O EVANGELHO DAS BRISAS MARINHAS
Compreende-se facilmente que tradições desta natureza tenham conseguido inflamar
a imaginação dos jovens guerreiros e marinheiros irlandeses; não seria porém necessário
algo mais para que homens santos dedicados à vida monástica também se sentissem
tentados pela aventura? Na realidade, bastou para tanto que o duplo selo do saber e da fé se
imprimisse no fundo mítico irlandês. Foi o que sucedeu a um certo Brendan.
Conhecido sob diversos nomes na Inglaterra, na Bretanha e na Irlanda, esse
personagem que foi com toda a certeza abade de Clonfert, na Irlanda, nasceu em 484,
navegou e evangelizou antes de morrer em maio de 578. Venerado ainda hoje nas regiões
que presenciaram sua vida e conheceram sua lenda, ele usa alternativamente em cada uma
delas os nomes de Brennain Mac Finnloga, Brandanes, Brendan, Brandan, Brenan, e até
Brevalla, Brevara, Blevara. A capela de Botsorhel se denomina capela de Brevaro, existindo
em Lavnellec (Côte-du-Nord) um lugar chamado Crec'h(de) Blevara.
Em Ille-et-Vilaine, assim como em Jersey, o santo é venerado sob o nome de
Broladre; em Finistère ele passa a ser santo Brevalare. E não nos esqueçamos de
designações como Brangualadre, Brevalary, Branvalath ou Brevala. Mas de todos os nomes
que lhe são atribuídos em terra céltica o que é muito mais difundido é o de Brendans (ou
Brandanus).
Humilde e piedoso, Brendan recebera uma boa instrução religiosa, o que lhe permitiu
unir suas aspirações e seus conhecimentos celto-irlandeses à tradição judaico-cristã de um
paraíso, puramente imaginário, situado não obstante neste mundo. Confundindo essas
noções, Brendan agia como seus compatriotas que, tendo-se tornado cristãos, adaptavam as
tradições da terra dos Sidhs, da terra da Juventude e de Avalon e as confundiam com o paraíso
hebraico do Antigo Testamento. O que lhes era tanto mais fácil por não estarem os
próprios hebreus antigos muito distanciados da concepção irlandesa. Como faz notar o
historiador do século I, Flavius Josephus, a seita dos essênios foi a que mais influenciou a
concepção judaica do paraíso. Ora, sobre esse ponto os essênios tinham opiniões idênticas
às dos gregos antigos. Esse paraíso situado para além de uma vasta extensão marítima, num lugar
onde não havia chuvas, nem neves, nem calores excessivos, e agradavelmente embalado por uma
eterna brisa marinha.
Mas os irlandeses — assim como os gaélicos, os bretões e os galeses — embora
aceitassem a essência celestial do paraíso, rejeitaram as indicações geográficas da Bíblia que,
no Gênese, localizavam o Éden num ponto qualquer do Oriente. Com a maior segurança,
eles continuarão a colocá-lo a oeste do Atlântico. Aliás, a idéia de um paraíso terrestre atlântico
estava de tal forma difundida na Idade Média que santo Isidoro de Sevilha se viu obrigado a
criticar severamente todos aqueles que situavam o Éden nas ilhas Afortunadas, as atuais
Canárias.
Tudo inútil. Os irlandeses estavam tão perfeitamente convencidos da posição
"transatlântica" do paraíso que um de seus missionários, Virgílio, que pregara o cristianismo
na Baviera no século VIII, não titubeou ao difundir uma teoria sobre a origem e situação
ocidental do Éden; a conseqüência foi que o papa Zacarias determinou que ele se tornasse
objeto de "inquirição", no ano 748. Um dos principais argumentos de Virgílio era
justamente "a autoridade e os feitos, as narrativas e as observações" de santo Brendan. Esta
controvérsia suscitada por Virgílio, elevado a bispo de Salzburgo e canonizado em 1293, foi
o que valeu à Brendan a glória póstuma. Esta glória não deixa, aliás, de subestimar até certo
ponto as descobertas geográficas do santo navegador. Com efeito, embora a Igreja admita
que ele foi ao paraíso tendo mesmo de lá retornado, os historiadores só vêem em sua
viagem um dos inúmeros milagres a que são afeitos os santos de segunda categoria.
Todavia, como observa René Thevenin, "sempre que um problema é de difícil
solução, é mais cômodo simplificá-lo, suprimindo-o. Sob pretexto de que não existiu
nenhum santo com o nome de Brendan, negou-se a realidade das viagens realizadas no
século VI por um monge irlandês chamado Brennan." Ao que parece, a verdade deve ser
buscada entre o altar e o mapa, a fé e a geografia. Brendan realmente existiu e viajou de fato
para o seu paraíso e o de seus antepassados. Marinheiro e monge, lá se foi ele a reconhecer
as terras cuja rota ele decifrara no evangelho sempre aberto das brisas marinhas.
MONGES, MITENES E ICEBERGS
Possivelmente, entre as tradições de que Brendan, que muito viajou, tivera notícia em
sua juventude, estivesse incluída uma que os monges do convento de Saint-Matthieu, na
baixa Bretanha, cultivavam ardorosamente. Esses monges colocavam, com efeito, o paraíso
terrestre para além da Bretanha, na extremidade do mundo, na "terra do Éden". Ali, numa
ilha situada a oeste do grande oceano, viviam os profetas Elias e Enoque, cercados por
alguns anjos fiéis. Aliás, informações deste tipo eram muito correntes na Irlanda desde o
século VI, e seriam registradas no século XII num manuscrito dos atos dos apóstolos que
viria a constituir o tesouro do monastério de Saint-Matthieu, segundo nos informa
Godefroy de Viterbo.
É preciso convir que essas lendas eram de molde a impelir os monges a embarcar por
seu turno. Brendan, cujos méritos "científicos" não nos são desconhecidos, ilustrara-se
entre os monges da Irlanda a ponto de se tornar abade do monastério Llancarvan (Vallis
Carvanna), no canal de Bristol, onde bem depressa deu impulso a uma verdadeira escola
literária e religiosa. Empreendia-se ali o estudo direto da tradição e a transcrição das
Escrituras, dos autores da Antigüidade e das Glosas mais modernas. Não obstante, a
existência do sábio Brendan era monótona demais. De modo que ele ficou muito satisfeito
com certa visita que recebeu e que, despertando sua vocação de marinheiro, lhe abriu as
portas da glória. O visitante era um certo Mernoc, igualmente monge e discípulo piedoso de
seu mestre não apenas de assuntos religiosos como também na travessia do Atlântico: santo
Barint, o piloto do rei Artur. Com um patrono desta ordem, Mernoc não havia hesitado em
abandonar seu monastério para ir viver na Ilha das Delícias, em companhia de um pequeno
grupo de monges e discípulos, ausentando-se freqüentemente em escapadas que chegavam
a durar três semanas.
Voltava todas as vezes com as vestes impregnadas de um tal perfume que seus
companheiros admitiam facilmente que ele havia retornado do céu. O próprio Barint se
interessou pelo fenômeno. Mernoc lhe relatou então algo tão espantoso que o santo
intimou-o a levá-lo em sua companhia. O outro não se fez de rogado e ambos embarcaram
em direção ao oeste. Uma vez chegados, eles caminharam a princípio através de uma
paisagem árida para chegar, após quinze dias de marcha, ao centro da terra onde haviam
abordado, perto de um rio que corria de oeste para leste. Este último pormenor nos autoriza a
pensar que eles tenham navegado das Antilhas para o México, onde deve estar o rio em
questão e onde o pico das duas vertentes do país se encontra efetivamente a quinze dias de
marcha do litoral mais próximo. Calculando que tivessem atingido os limites do paraíso
terrestre, eles voltaram, tendo Barint retornado em seguida à Irlanda. Assim que chegou,
procurou Brendan para lhe contar minuciosamente tudo que vira e fizera.
Mal ouviu a narrativa de seu visitante, o jovem monge embarcou por sua vez,
acompanhado de vários cenobitas, para a Terra das promessas. Revelou-se bem depressa hábil
navegador, tendo ele próprio desenhado o projeto de um pequeno barco, denominado
curragh. Era uma embarcação cujo casco de madeira ficava recoberto de peles de boi
curtidas, costuradas e previamente impregnadas de banha. Carregaram víveres para quarenta
dias exatamente, como se Brendan tivesse lido Plínio e admitisse que sua rota seria
sensivelmente igual à indicada por Statius Sebosus. Foram dezessete a partir no dia 22 de
março de 551. No mar, encontraram o Monte de Cristal — provavelmente um iceberg — e
fabulosos monstros marinhos, que deviam ser baleias ou focas.
A FLÓRIDA ANTES DA FLÓRIDA
Para sermos exatos, será entretanto conveniente falarmos nesta viagem como segunda
grande viagem de Brendan. O que se explica em virtude das inúmeras variações em torno
da história de Brendan. Algumas apresentam o curragh do santo como uma embarcação feita
de carvalho, com amuradas de tábuas presas por cavilhas de madeira, e cuja vela havia sido
confeccionada com faixas de lã trançadas à maneira das futuras velas vikings. Outras
versões falam num curragh de peles de boi com tripulação de sessenta homens... Finalmente,
quer a própria tradição que Brendan tenha feito pelo menos duas viagens, a primeira das
quais em 543. Teria durado sete anos, e aventuras incríveis teriam quebrado sua monotonia.
Dir-se-ia, quando se analisam as diferentes versões, que Brendan teve como único
propósito nessa primeira viagem, atingir as ilhas Shetland. A segunda, em 551, teve um
objetivo muito diferente, as Ilhas dos Bem-aventurados, que os irlandeses daquele tempo
denominavam terra de Brasil.
Afirmou-se ainda, que, na última hora, Brendan tomara conhecimento do itinerário
seguido por um certo Fioon-Bar que teria navegado para oeste e encontrado Mernoc numa
ilha do Oceano. Seja como for, é possível acreditar que Brendan, seguindo para oeste, tenha
alcançado a atual Terra Nova. Renan, que não punha em dúvida a viagem do santo, faz
ressaltar as informações reais contidas na narrativa de Brendan: "Em meio a esses sonhos,
escreve ele, transparece com surpreendente veracidade o sentimento pitoresco dos
navegadores polares: a transparência do mar, os aspectos das banquisas e das ilhas de gelo
derretendo-se ao sol, os fenômenos vulcânicos da Islândia, a movimentação dos cetáceos...
o mar semelhante ao leite, as ilhas verdes coroadas de relvas que recaem nas ondas...


Crânio semita do México pré-colombiano (Chimaltenango, Guatemala, época pré-clássica).

Pedras de marcação de Mechanicsburg (Estados Unidos), ostentando signos fenícios.

A pictografia de Westford ou "o índio com o tomahawk" que não passava de um
cavalheiro europeu com armadura.

Codex Borbonicus. O feiticeiro se afasta, levado pela corrente oceânica que flui da base
do trono do deus Atlanteotl

Codex Borbonicus. O feiliceiro retorna nadando contra a corrente. (Bibli. Nac. — Col.
E.R.L.).

Fragmento do tríplico do "Jardim das delícias" de Jérôme Bosch. Representação do
paraíso no século XVI. (Col. Giraudon).

Signos alfabéticos e escrituras antigas: tabuinha de Karanowo (Bulgária) (em cima, à
esquerda); antiga escritura síria de tipo cananeu (em cima, à direita); inscrição descoberta em
Cave Creek nos Estados Unidos (no centro, em cima); inscrição glozeliana (em baixo). (Col.
Science et Avenir e Col. do autor).


Um dos mais prováveis retratos de Cristóvão Colombo de que podemos dispor.
René Thévenin especifica por sua vez: "Indubitavelmente, os pormenores fornecidos
por Brendan inclusive — sem levar em conta os exageros, o encontro com alguns
gigantescos cetáceos polares, conjugam-se para provar que o santo avançou bastante nos
mares do Norte, indo muito além do círculo ártico até o 72º ou 73º grau, tendo quase que
certamente descoberto a ilha Jan Mayen por ocasião de uma erupção.”
Um dos companheiros de Brendan morreu e foi enterrado nessa estranha região do
Oeste ou do Norte. Depois, os monges dirigiram o leme para o Sul, seguindo ao longo do
litoral e chegaram às vizinhanças de uma ilha cuja descrição leva a pensar que se tratava de
uma das Baamas. Depois do que, desembarcaram na vizinha costa da Flórida,
provavelmente perto da atual cidade de Santo Agostinho. Ali encontraram "uma terra
magnífica e muito florida". Evidentemente, essas identificações são contemporâneas e teremos
de reexaminá-las. Retomemos porém a leitura dos manuscritos. Após um período de ventos
favoráveis, os monges deram com uma zona de calmaria onde ficaram praticamente
imobilizados. Quando puderam finalmente retomar a sua rota, foi para chegar à ilha do
Diabo. Este lhes apareceu sob o aspecto de um "Etiópio" — isto é, de um homem de cor —
cuja magnífica residência foi por eles visitada. Pouco adiante, encontraram a ilha das
Ovelhas Brancas, do tamanho de bois. Até que ao fim, depois de outras peripécias
marítimas, desembarcaram numa ilha coberta de relva e de árvores, em cujo centro jorrava
uma "fonte admirável". Encheram imediatamente os odres com sua água que se revelou
soporífica. Partiram sem demora para a ilha de Albaeus e, após inúmeros incidentes, acabaram
retornando à Irlanda.
Têm sido discutidos e analisados indefinidamente os pormenores desta viagem, cujo
itinerário se sobrepõe em grande parte ao da realizada por outra celebridade da Igreja céltica
medieval — São Maio. Certas tradições irlandesas chegam a afirmar que o santo bretão teria
seguido na embarcação de seu homólogo irlandês, o que não deixou de lançar um
descrédito ainda maior sobre Brendan aos olhos dos historiadores. Afinal de contas, ainda
que se tenha realmente realizado a viagem deste último, fazia-se necessário um estudo
aprofundado para distinguir o mito da realidade.
O primeiro a se abalançar a tanto foi o professor George A. Little, de Dublin.
Seguido de Charles M. Boland, W. B. Goodwin e, a seguir, de vários autores mais ou menos
qualificados. Little conseguiu esclarecer muitos pontos atinentes à realidade dos périplos de
Brendan. No centro de suas investigações, assim como no das de Boland, surge
necessariamente uma fonte que, é preciso dizer, apresenta uma semelhança extraordinária
com a Fonte da Juventude situada lendariamente em Bimini e também, em virtude de certos
pormenores, com o lago da Flórida de águas milagrosas, o lago de Ponce de León.
Finalmente, a descrição das terras visitadas por Brendan e seus companheiros leva
irresistivelmente a pensar nas paisagens e no clima da Flórida. E, levando-se em conta que
as velhas histórias marítimas irlandesas adquiriram forma por volta do ano 700, chega-se a
admitir que a narrativa em questão teve de fato como autor alguém que realmente fez
aquela viagem antes do ano 600. Partindo desta constatação, e admitindo que os monges
tenham feito escala na Terra Nova, Boland põe de lado a permanência deles nas Baamas.
Em sua opinião, o texto deixa claramente estabelecido que os navegadores passaram da
Terra Nova para as Bermudas, e de lá para a Flórida, já que o itinerário descrito
corresponde aos oito dias que os monges afirmam ter levado para ir da Terra Nova a Santo
Agostinho.
Segundo Little, pelo contrário — e em nossa opinião é ele quem está com a razão —
a fonte de que se fala situar-se-ia numa das Baamas, isto é, para nós, em Bimini. Sob este
aspecto, é extraordinário o quão perfeitamente a tradição de São Brendan se harmoniza
com as antigas lendas toltecas registradas nas proximidades de Vera Cruz, no México,
Yucatan e Guatemala.
UM ULISSES IRLANDÊS
Divulgada por seu compatriota, Virgílio, bispo de Salzburg, a aventura do santo
irlandês chegou ao conhecimento de Cristóvão Colombo, a título de documento, por dois
canais diferentes. Retomada e anotada pela cartografia medieval, a navegação dos monges
aparece em quase todos os portulanos e mapas referentes ao Atlântico, traçados antes de
1500. É igualmente mostrada no globo de Martin Behaim, que data de 1492. Ao lado de
uma ilha, colocada da maneira mais arbitrária possível, lê-se com efeito: "No ano 565 d.C.
São Brendan chegou a esta ilha, que explorou, ali residindo durante sete anos antes de
retornar à sua terra". A segunda prova do conhecimento que teve Colombo da viagem de
Brendan é o célebre mapa desenhado em 1513 pelo almirante turco Piri Reis.
O almirante otomano cuja obra cartográfica, segundo as suas próprias palavras, é "o
produto de estudos dedutivos e comparativos empreendidos em vinte cartas e mapas-mundi,
entre os quais um desenhado na época de Alexandre, o Grande", declara ter-se igualmente
inspirado num mapa tomado aos espanhóis em 1501 e redigido por Colombo. Deste
último, Piri Reis reproduz uma ilustração em que aparecem um navio e um peixe enorme.
Acompanha esta ilustração a seguinte anotação, feita pelo almirante turco: "Conta-se que
um padre de nome Sanvolrandan fez outrora a volta dos sete mares. Tendo abordado um
peixe, tomou-o como terra firme e acendeu o fogo. Quando seu dorso começou a queimar,
o peixe mergulhou no mar e nossos homens, saltando num barco, fugiram para o navio.
Esses mapas são provados nos velhos mapas-mundi...”
É o quanto basta para demonstrar o conhecimento que tinham os geógrafos do
século XV das diversas transcrições das façanhas de Brendan, e o crédito que lhes era dado.
Não satisfeito por nos haver deixado uma teoria coerente da viagem de seu compatriota em
551, George A. Little reconstituiu também o seu itinerário. Ficou hoje claramente
estabelecido que Brendan, o qual não foi o primeiro nem o último irlandês a chegar ao
Novo Mundo, marcou realmente um ponto essencial na longa história do refluxo da maré.
Ele nos revelou o seu segredo a princípio sob forma de poemas. Referimo-nos a todos
aqueles que cantaram a sua lenda, isto é, um poema latino em tetrâmetros arcaicos, um
poema francês bastante tardio, um poema inglês, poemas em baixo e médio alemão, um
poema neerlandês e inúmeras narrativas e canções populares gaélicas, galesas, bretãs...
Poderão dizer: "Justamente, trata-se apenas de poesia!" Mas não é a poesia o último
refúgio da verdade sempre que a expulsam da história?
RELES ANTIGOS, NOVA SÉRIE
Os homens que exploram a terra e o mar obedecem a três mandamentos:
— primeiro, a ânsia de glória guerreira e de celebridade;
— segundo, o desejo de conhecer;
— finalmente, a cupidez.
Extraído do manuscrito Le Miroir au roi redigido na Escandinávia era 1250,
aproximadamente.
OS DRAKKARS ATRAVESSAM A BRUMA
Na caçada aos caçadores de paraísos, espreitando os que estavam à espreita, os
vikings sucederam aos irlandeses que tinham fundado na América do Norte uma "Grands
Irlanda". Muito embora com o correr do tempo e a evolução da sociedade européia os
fantasmas de um paraíso sobrenatural tenham começado a se desvanecer e ainda que, entre
os nórdicos, as motivações de ordem econômica tenham prevalecido sobre as demais na
aventura transatlântica, a imagem do paraíso ainda subsiste e continua a exercer o seu
fascínio.
Uma lenda escandinava, relatada por Saxo Grammáticus, o célebre cronista, conta
que alguns irlandeses descreveram um dia ao chefe dinamarquês Gorm as fabulosas
riquezas acumuladas na corte do rei Geruthus — em dinamarquês, Gerod ou Geirrod —
cujo reino luminoso situava-se do outro lado do oceano, numa região que só se poderia atingir
depois de haver deixado para trás todos os astros do céu e atravessado o "caos das grandes trevas".
Gorm mandou construir imediatamente três sólidas embarcações capazes de
transportar trezentos homens com armas e bagagens e se dirigiu para Oeste. Deixando para
trás a Noruega, eles chegaram ao fim da viagem, a uma terra mágica, povoada por gigantes,
mas que em virtude de uma inversão peculiar à lenda não era a região florida da eterna
primavera e sim a do frio perpétuo — o paraíso polar, correspondente às regiões da
extremidade Norte navegável do Atlântico.
A aventura de Erik, que partira em busca da terra de Odin, o maior dos deuses,
talvez represente uma prova ainda melhor, visto apresentar-se sob forma de um conto com
desenrolar enigmático. Pagão e corajoso, Erik se dirige a Constantinopla, para onde os
empreendimentos guerreiros já haviam muitas vezes levado os vikings. Ali, por insistência
do imperador, ele adota a fé cristã, recebendo ao mesmo tempo o conselho de fazer uma
peregrinação ao paraíso terrestre. Ao procurar saber onde fica esse lugar santo, respondemlhe
que deve ser "num lugar qualquer adiante da Índia". Terra exótica por excelência, o paraíso
teria forçosamente de estar adiante do mais exótico dos países conhecidos.
Erik partiu portanto, acompanhado de seus homens. Atravessaram de início uma
floresta acima da qual as estrelas brilham também durante o dia, e depois um rio cuja única ponte é
guardada por um dragão. Erik e os seus metem-se então na goela escancarada do monstro indo dar
finalmente na planície dos Bem-aventurados cujos rios são de mel. O ar ali é perfumado, os
objetos não projetam sombras e o sol domina tudo, do meio do céu. O anjo da guarda de Erik
aparece-lhe então em sonho, revelando-lhe a verdade. Erik e seus companheiros não se
encontram no verdadeiro paraíso e sim na terra dos vivos, outra denominação da terra das
promessas de seus predecessores irlandeses.
Tratemos de esclarecer a situação. As estrelas que brilham em pleno dia nos trazem à
mente o céu nórdico e o dragão, evidentemente, é nada mais nada menos que o Gulf
Stream. As terras que se estendem depois que se atravessa esse último correspondem, por
sua vez, à descrição céltico-irlandesa das Baamas e da Flórida.
Abandonando porém a lenda, temos de nos voltar para a história. Por volta do ano
1.000, tendo acompanhado todas as etapas da viagem transatlântica dos irlandeses, os
vikings chegam à América. O texto da história dos reis da Noruega, Heims Kringla, é
categórico quanto a esse ponto: "Leif, o filho de Erik, tinha passado aquele inverno na corte
do rei Olaf (o inverno de 999-1000, N. D. L. A.), cumulado de honrarias, e se fez cristão.
Mas naquele verão, tendo Gizur partido para a Islândia, o rei Olaf enviou Leif à
Groenlândia para ali difundir a religião. Ele partiu sem demora... e encontrou nas ondas do
mar homens que nadavam sobre pedaços de madeira provenientes dos navios e os ajudou;
foi então, aliás, que descobriu a rica Vinland...”
Descoberta por Leif, a América dos vikings foi batizada por um alemão com o nome
de Tyrker, companheiro de aventuras do filho de Erik, o Vermelho. Declarou, com efeito,
que havia encontrado "vinhas e uvas" e Leif "deu àquela região um nome adequado às
qualidades da terra e a denominou Terra do Vinho — Vinland". Na primavera seguinte, Leif
retornou à Groenlândia.
Seguiram-se outras expedições. Em 1002, o irmão de Leif, Thorwald Eriksson,
instalou-se com trinta homens em Leifsbudhir — o estabelecimento abandonado por Leif
— a fim de ali passar o inverno. Na primavera de 1003, dirigiu-se para o Sul em viagem de
reconhecimento, tendo em seguida voltado a Leifsbudhir para um novo inverno. Durante
uma exploração efetuada no cabo Kjalarnes (nome viking), Thorwald é morto por uma
flechada de índio. Foi enterrado no cabo Crossanes ("da cruz"), mais um exemplo de
toponímia viking na América do Norte. Em 1830, bem no centro da cidadezinha americana
de Fall River, foi descoberto um túmulo contendo o esqueleto de um homem de forte
compleição, cercado de adornos e roupagens metálicos. O poeta Longfellow lhe dedicou
um poema, e já em 1839 o americanista Charles Rafn se declarava convencido de que se
tratava do corpo de Thorwald.
Os vikings voltaram para a Groenlândia em 1005. Deviam ocorrer ainda outras
expedições. Foi durante uma delas que Gutride, esposa de Thorifin Karlsefni, deu à luz o
primeiro viking americano, Snorre. Depois as viagens foram se espaçando, e, a partir de
1050, as sagas se desinteressam da Vinland fabulosa. Apenas alguns indivíduos temerários,
de quando em quando, ainda se aventuram no oceano. Esqueceram porém a busca do
paraíso e este se vinga desvendando-lhes a sua foce infernal. Foi o que aconteceu
particularmente com Trond Halsdarsson, de Ringerike.
Ut ok vit ok thurba [Ao longe e ao largo]
Therm ok ats [Eles foram arrancados]
Vinlati à Isa [das plagas da Vinland]
i úbygd at komu [e colhidos nos gelos]
And ma Ut Vega [O diabo conseguiu] (at)
dovi-ar agarrá-los de tal maneira que foi ele
(Half dar son) [quem morreu primeiro.]
Finalmente, mais ou menos em 1121, Erik Gnupsson foi designado bispo da
Groenlândia e da Vinland in partibus infidelium pelo papa Pascal II, tendo ido viver em sua
diocese.
Indiscutivelmente, foram os vikings que deixaram o maior número de vestígios de
sua passagem na América. Escavações relativamente recentes, feitas na enseada de
Meadows na Terra Nova, permitiram a descoberta de fundações, de uma forja, de um forno
para minérios de ferro, e de uma roda de fuso com mais de 950 anos (datação pelo
radiocarbono), isto é, remontando provavelmente à época da presença de Leif e de seus
homens. Esta descoberta completou a dos machados de ferro encontrados em Tor Bay
(Nova Escócia) em 1886, East Orleans (Cape Cod) em 1914, Saunderstown (Rhode-Island)
em 1899, e Republic (Michigan) em 1778. É preciso acrescentar ainda os fornos para
minérios de ferro de Climax (Minnesota) e das vizinhanças de Detroit, as fundações de
origem misteriosa de Provincetown (Chapel Hill) e os restos de embarcações vikings
encontrados em 1958 em Procasset (Massachusetts).
Numa entrevista concedida à imprensa no dia 18 de novembro de 1948, na Fundação
América-Noruega, de Nova Iorque, o doutor J. B. Brônstedt declarou: "A descoberta feita
por James E. Dodd, prospector de metais em Port-Arthur, dos restos de um sabre de tipo
nórdico perto do lago de Nipigon, e de outros objetos, relaciona-se evidentemente com os
vestígios deixados pelos vikings, de objetos de metal, forjados há cerca de 950 anos".
Depois disto, a lista dessas descobertas tem crescido constantemente.
Depois de 1121, a história se cala sobre a Vinland e o destino dos homens que ali se
haviam estabelecido. Contudo, um mapa viking da América comprova formalmente esse
estabelecimento. Em outubro de 1965, com efeito, os pesquisadores da biblioteca da
universidade de Yale puseram as mãos num mapa de 40 X 27 cm, proveniente de um
manuscrito do Speculum Historiale de Vincent de Beauvais. Esse mapa representa o litoral da
Groenlândia e da Vinland — identificam-se facilmente os contornos do golfo de Hudson e
o estuário do São Lourenço — e especifica que a Vinland é uma ilha "descoberta por Bjarni
e por Leif". Redigido entre 1431 e 1439 segundo informações muito mais antigas, ele
suscitou a ira dos sábios italianos defensores da glória de Colombo. Foi, naturalmente,
tachado de falso. Esquecia-se, com isto, que antes de ser publicado ele fora objeto de um
estudo científico aprofundado e que aquilo que se dá como falso sem o ter suficientemente
examinado acaba se revelando quase sempre autêntico.
A INCURSÃO DA GRINÇANTE
Inaugurada pela viagem de Leif no ano 1000, a história da América viking termina
com a incursão da Grinçante, efetuada nos anos 1354-1362. Já não se trata da busca de um
paraíso qualquer e sim de trazer de volta as ovelhas desgarradas da Igreja.
"Desejamos fazer-vos sabedores de que o cavalheiro Paul Knutsson vai escolher os
homens que embarcarão na Grinçante, nosso navio mercante.
"Ele está autorizado a recrutar os homens de nossa guarda pessoal e entre os outros
homens livres que gostaria de levar consigo em sua viagem além-mar, tendo todo o direito
de engajá-los como pessoal de bordo, serviçais ou oficiais.
"Pedimos vossa aquiescência para o que bom nos parece com toda a complacência
necessária perante a melhor das causas possíveis porque acabamos de agir pela graça de
Deus, tendo altamente presente a lembrança de nossos predecessores que levaram a palavra
da religião à Groenlândia, tendo-a mantido até os nossos dias, a qual não abandonaremos.
"Tomai conhecimento de tudo isto com a fé na verdade das coisas e todo aquele que
se furtar a nos obedecer cairá em desgraça e ficará sujeito a castigo.
"Redigido em nossa cidade de Bergen, neste dia, segunda-feira segundo o Dia Santo
de Simão e Judas, no 36º. ano de nosso reinado, 1354, por Omar Oestersson, nosso
regente".
Foi esta a carta dirigida pelo rei da Noruega, Erik Magnusson aos seus notáveis para
lhes anunciar a expedição cujo propósito era chamar "à razão" os súditos dos
"estabelecimentos do Oeste", primeiro nome da Groenlândia. Sua causa primeira foi o
naufrágio de um navio que navegava em 1347 entre a Markland (Labrador) e a Groenlândia
e que soçobrara nas costas islandesas devido a um carregamento pesado demais de madeiras
de construção. Mencionado na monografia de Thorfaeus sobre a Vinland, esse
acontecimento prova que naquela época ainda existiam contatos entre a Islândia e a
Groenlândia.
Retornando de sua aventura, os marinheiros noruegueses contam ao regente da
Islândia, Jan Guthorsson, que os "homens" haviam desertado dos "estabelecimentos do
Oeste". O regente previne imediatamente o rei Magnus, o qual encarrega Knutsson de ir
verificar as coisas in loco. Administrador dos domínios da coroa norueguesa e dos bens da
rainha Dowagen da Suécia, membro do conselho real e juiz supremo de Gulathing um dos
mais importantes distritos do país, Knutsson era o homem de confiança do rei. Por ordem
sua, ele recruta o mais rapidamente possível uma tripulação entre os jovens soldados da
guarda real, originários do Gothland. Alguns ainda fazem ar de dúvida diante dessa
expedição de modo que provaremos rapidamente que ela realmente aconteceu e até se
transformou na primeira exploração séria e geograficamente extensa à América do Norte.
Em 1363, os anais noruegueses registram a morte de um certo Arni, bispo da
Groenlândia oriental. Como a única navegação datada, como veremos adiante, foi a efetuada
naquele mesmo ano de 1363 por Knutsson impõe-se a conclusão de que foi ele quem
trouxe a informação. Aliás, não se sabe de nenhuma outra navegação, nem mesmo de
nenhum outro projeto de navegação na rota da Groenlândia entre 1355 e 1380. Além disso
evocando essa época, em seu De Gentibus septen-trionalibus publicado em Roma em 1555,
Olaus Magnus escreve que "na Groenlândia vivem piratas que atacam os navios mercantes
e procuram submergi-los rasgando suas quilhas." Ora, como o único navio mercante de que
se tenha notícia naquela ocasião e naquele itinerário é o de Knutsson, mais uma vez é
preciso admitir que foi ele quem relatou esses fatos.
O que dizer porém da viagem propriamente dita? Tudo leva a crer que ele, de fato,
não encontrou ninguém nos estabelecimentos do Oeste da Groenlândia. Holand pensa
mesmo que os habitantes dos estabelecimentos orientais lhe devem ter fornecido um piloto
para continuar a viagem em direção ao oeste. Tendo decidido resolver o enigma, Knutsson
passou parte do inverno na Groenlândia, avançando em seguida para o Sul. Ia procurar os
"cristãos desaparecidos" entre a Groenlândia e a Vinland, isto é, na América.
Não se sabe exatamente onde aportou. O que se sabe é que, a 8 de novembro de
1898, Olaf Ohman, fazendeiro em Kensington, Minnesota, encontrou em seu jardim,
debaixo das raízes de um carvalho que havia acabado de cortar, uma pedra de cantaria em
forma de paralelepípedo, pesando 90 quilos e coberta de inscrições. É a célebre pedra rúnica
de Kensington que hoje pode ser vista no Museu Nacional de Washington. Pode-se ler, num
de seus lados: Oito Godos e vinte e dois Noruegueses a caminho de busca saídos da Vinland em direção
ao poente, nós nos ativemos na vizinhança de dois rochedos a alguns dias de distância desta pedra.
Saímos a pescar a um dia de distância, quando retornamos, encontramos dez dos nossos vermelhos
com seu próprio sangue e mortos.
A.V.M.
Salvai-nos!
E em outro lado:
Três de nossos homens se encontram no litoral. Guardam nosso navio a quatorze dias desta ilha.
Ano 1362.
O fato de cinco dentre as palavras empregadas terem um aspecto "anglo-saxão
alterado", e o acaso que determinou ser essa pedra, comprovando a descoberta da América
por "suecos", descoberta por um americano de origem sueca, em seu próprio jardim; e
finalmente que esse "sueco" tivesse um filho estudante de filosofia escandinava, levou o
mundo erudito a declarar que se tratava de uma "falsificação grosseira". Vencido, Ohman
utilizou seu achado e com ele pavimentou a frente de sua granja. Tendo provado sua
autenticidade após vinte anos de trabalho, ali a foi buscar o filólogo americano de origem
escandinava, Hjalmar Holand, para colocá-la no lugar que lhe cabia no Museu Nacional
americano. Pois, os vocábulos discutidos provinham de fato de um dialeto da Gothland
sueca. Os sábios é que ignoravam essa língua. O aspecto exterior da pedra e o talho das
letras indicavam de quatro a cinco séculos de antigüidade, e os caracteres rúnicos da
inscrição são runas pontilhadas correntemente empregadas nas inscrições dos túmulos
escandinavos dos séculos XIII e XIV. A pedra confirma, portanto, realmente a expedição
de Knutsson em 1354-1362. Melhor ainda: temos agora de admitir que, cento e trinta anos
antes de Colombo, cerca de trinta escandinavos percorreram 1.500 quilômetros de terra
americana.
A expedição deixou, aliás, ainda outros vestígios. Assim, no século XVIII, o francês
Pierre Gautier de Varennes de la Verrandrye encontrou no centro do Dakota do Sul uma
inscrição que fez parte da coleção do ministro Maurepas e mais tarde desapareceu. Citemos
também as "alabardas" descobertas no Minnesota em 1870 — armas minúsculas, ou mais
exatamente marcas honoríficas dos oficiais da guarda dos reis escandinavos no século XIV
—a pedra rúnica de Tholef encontrada em 1922 em Martha's Vineyard, os fornos para
minério de ferro da região dos Grandes Lagos e os Mooringstones, pedras que serviam para a
atracação das embarcações leves.
Porém, o mais interessante ainda é a célebre torre em ruínas de Newport Harbor, na
qual, contrariando toda verossimilhança, os defensores da virgindade pré-colombiana,
insistem em ver uma torre de moinho de vento construída (por quem?) no século XVIII,
"quando os brancos ainda não habitavam toda a região". Na verdade, construída no estilo
romano tão freqüente entre os séculos XII e XIV, mais que qualquer outra coisa, a torre de
Newport evoca a rotunda interior de uma igreja escandinava. Ali se descobriu, aliás, uma
inscrição rúnica e, inserida no cimento de uma junta entre duas colunas, a impressão
quadrada de uma bota militar sueca da época 1280-1530.
Como complemento, mencionaremos ainda os perus. Na catedral de Schleswig, na
Alemanha, existe de fato uma pintura que representa oito perus, desenhados com o maior
realismo possível. A catedral foi construída em 1280 e a pintura executada antes de 1380.
Ora, como se sabe, o peru é um animal de origem exclusivamente americana, e seus
primeiros espécimes foram introduzidos na Noruega meridional pelos navegantes
escandinavos.
Assim, tudo leva a crer que a torre de Newport vigiava a entrada da Grinçante, no
porto sem percalços. Bem perto dali, no velho porto submerso de Ocean Drive, foi
encontrada em 1886 uma embarcação nórdica com oito metros de comprimento. A incúria
dos descobridores impediu que ela chegasse até nós, de modo que Holand só conseguiu
oferecer uma descrição de segunda mão em seu livro sobre a expedição da Grinçante.
MADOC À PROCURA DA PAZ
Ao que parece, entretanto, a expedição de Knutsson foi apenas um eco tardio das
grandes navegações escandinavas e os marinheiros do ano 1000 encontraram substitutos
muito mais cedo do que se pensa.
Um dos que se incumbiram desse relê foi o príncipe gaélico Madoc.
Eu sou Madoc, filho de Owin Gwinn Edd,
Sou de forte compleição e de rosto agradável,
Nem as disputas do mundo, nem os bens do mundo
Conseguiram desviar meu espírito das coisas ocultas do oceano.
Esses versos, escritos por volta de 1477 pelo bardo gaulês Meredith, filho de Rhesus,
explicam perfeitamente as razões que impeliram mais um desses sonhadores despertos a
embarcar para a América. Sem dúvida melhor informado que Meredith, o bardo Jevam
Brechua conta que Madoc, "príncipe de Gales", teria descoberto num lugar qualquer, muito
além do Oceano, uma terra onde abundavam as pradarias e as florestas e que para lá teria
retornado a fim de se estabelecer definitivamente com alguns companheiros e animais
domésticos. No século XVI, Llwyd afirmou até que o "príncipe navegante", como também
era conhecido Madoc, chegara até a Flórida. Madoc teria realizado a sua viagem por volta
de 1170.
Associa-se também a essas mesmas navegações escandinavas o nome de Norumbega
(Cidade dos Normandos). Em suas Recherches sur les voyages et découvertes cies navigateurs normands
(escritas em 1539, mas, publicadas em 1832 pela primeira vez), o francês Pierre Crignon
escreve que os indígenas designavam com esse nome a região que se estende da Terra Nova
até a Flórida, na costa descoberta por Verrazano, o qual tendo ali encontrado ruínas
imponentes as tinha aliás batizado com o nome de "Cidade Normanda". É nesse mesmo
lugar que Champlain, em 1612, situa em seu mapa a aldeia de Norumbega.
A dúvida que ainda paira sobre a realidade da viagem de Madoc não impediu que
certos autores antigos e modernos nela buscassem uma explicação para a pele clara dos
índios Mandans e para as narrativas que afirmam a existência de gaélicos americanos até a
segunda metade do século XVIII. Essas narrativas eram difundidas por um capitão do
exército inglês chamado Abraham, o qual costumava contar a quem o quisesse ouvir que
dois soldados seus, de origem gaélica, podiam falar sua língua com os índios kaskasi. Um
certo Filson, autor de uma história do Estado de Kentucky, especifica que Abraham teria
encontrado, durante a guerra contra os índios, vestígios de fortificações e de túmulos de
tipo gaélico.
Postas em dúvida pelo conde Carli em suas Cartas americanas, as declarações
referentes aos gaélicos americanos tiveram um novo surto após a publicação de um artigo
na revista inglesa The Journal of Two Months. Nele se relatava a aventura de um metodista,
Benjamin Beatty o qual, prisioneiro dos índios do Kentucky, tinha se safado falando gaélico
com eles. Esse mesmo Benjamin Beatty declarou ter visto numa aldeia indígena um antigo
manuscrito cristão gaélico conservado dentro de um estojo de couro. Logo após a publicação do
artigo, os ingleses Oliver Humphreys e Thomas Herbert revelaram por sua vez a existência
de índios que falavam uma língua parecida com o gaélico. A esta categoria pertenceria
particularmente a tribo dos doegs, parentes próximos dos tuscaroras, que viviam no século
XVIII nas proximidades do forte Fair, na Carolina. Após a comprovação, verificou-se que
existiam ao todo onze palavras comuns às duas línguas, o que evidentemente não basta para
confirmar nem a viagem de Madoc, nem a origem gaélica dos mandans.
Em lugar de nos atermos a argumentos tão fracos, seria melhor que nos
interrogássemos sobre uma descoberta arqueológica que, ainda sujeita a uma autentificação,
seria infinitamente mais conclusiva que todas as coincidências lingüísticas ou fantasias de
metodistas à cata de milagres. Em 1908, Reuben F. Durrett relatava com efeito que, no
século passado, fora descoberto em Sand Island, no território de Louisville (Kentucky), um
sarcófago contendo esqueletos e armas. Estas últimas, de fabricação européia dos séculos
XII e XIII, ostentavam brasões representando uma sereia e uma harpa. Ora, esses elementos
heráldicos também aparecem no brasão de Madoc. O Sarcófago mostrava além disso uma inscrição
datada de 1186. Noticiada em sete publicações da época, a descoberta de Sand Island não
suscitou praticamente nenhum interesse, e o sarcófago, assim como o seu conteúdo, em
breve desapareceram sem deixar vestígios. No entanto, poderia talvez contar se Madoc
esteve ou não na América.
ALUGAM-SE ALMIRANTES
Na Grande Enciclopédia americana, pode-se ler no verbete Zeno: "Niccolo Zeno, nobre
veneziano que navegou em direção às costas americanas por volta do ano 1380... A
honestidade da narrativa de Zeno está fora de dúvida. O que ainda falta provar é se os
pescadores realmente viveram na região de Drogio os acontecimentos relatados na
narrativa, e sobretudo se esse último termo geográfico pode ou não ser identificado com a
América.”
A questão Zeno foi revelada ao mundo em 1558. Foi naquele ano que começou, a ser
difundido em Veneza um relato da descoberta das ilhas Frislande, Islândia, Engronelande,
Estotilande e Icária, pelos dois irmãos Zeno, Niccolo e Antônio, em 1390. A narrativa foi
publicada por iniciativa de um bisneto do Zeno que encontrara o manuscrito, acompanhado
de um mapa, entre os papéis e documentos da família.
Ali também se fica sabendo que depois da guerra que contrapôs Veneza e Gênova
em luta pela posse da ilha grega de Tenedos, Niccolo Zeno, irmão do chefe dos venezianos,
armou um navio para ir à Inglaterra. Uma tempestade determinaria outra coisa. O navio se
arrebentou contra os rochedos da ilha Frislande, ocupada naquele tempo por Zichini,
suserano também das ilhas Shetland e Orkney sob o seu verdadeiro nome: Henry Sinclair.
Tendo entrado em contato com ele, Zeno passou para seu serviço com todos os seus
homens e se tornou almirante-chefe da tropa de Sinclair. Em companhia de seu irmão
Marco Antônio que mandara chamar em Veneza, ele se dirigiu então para a Islândia e
Groenlândia, tendo porém morrido antes de lá chegar. O título de almirante passou para o
seu irmão que continuou a viagem. Percorreu em primeiro lugar o braço de mar que separa
a Groenlândia da Estotilândia ou Labrador e, seguindo a trilha dos escandinavos, continuou
em direção a Drogio. E isto por ordem expressa de Sinclair, que alguns pescadores haviam
informado da existência, naquelas paragens, de terras insulares muito ricas e povoadas. Eles
lhe haviam contado que "Vinte e seis anos antes, quatro embarcações arrastadas de seus
pontos de pesca por uma tempestade foram impelidas para muito longe, para as terras
ocidentais situadas a mais de mil milhas. Um dos navios teria abordado uma terra muito rica,
onde existiam tesouros fabulosos, magníficos edifícios e muito povoada. Uma região
enorme e como que um verdadeiro Mundo Novo. As pessoas têm uma pele avermelhada e
vivem da caça. Mais ao sul, encontra--se um maior grau de civilização em virtude do clima
mais ameno; ali se vêem cidades, templos, adoradores de ídolos. Os habitantes trabalham com
perícia o ouro e a prata.”
Embora algumas dessas características pareçam retratar realmente a América, o mapa
que acompanha a narrativa é extremamente confuso e mostra uma toponímia aberrante,
vinda em linha reta dos livros de orações cristãs. Trata-se evidentemente de uma falsificação
cometida pelo neto de Zeno, com o intuito de juntar um "documento" ao relato por ele
publicado. Inspirou-se, portanto, no mapa de Claude Niger mas, ignorando o dinamarquês,
fabricou ele próprio toda a sua toponímia! O texto em si mesmo, pelo contrário, é com toda
a certeza de alguém que viajara pelo menos até a Groenlândia. Aliás, uma descoberta
recente acaba de associar ainda mais esta narrativa ao solo americano. Trata-se de uma
pictografia descoberta num rochedo situado nas proximidades da cidade de Westford
(Massachusetts) e na qual certos arqueólogos viram um "índio com um tomahawk". Na
verdade, o que se deve ver ali é algo muito diferente. Os índios pré-colombianos de 550 a
600 anos atrás (idade unanimemente atribuída a essa pictografia), sem sombra de dúvida,
não usavam tomahawks idênticos ao longo sabre dos cavaleiros europeus do século XIV,
assim como não usavam elmos com viseira móvel, nem caçavam com falcões. E não se
compreende bem por que motivo teriam ostentado o brasão do duque de Shetland e de
Orkney, Henry Sinclair. É preciso, portanto, afirmar que os Zeno foram à Groenlândia e
que depois da morte de seu irmão, Marco Antônio passou para a América.
Henry Sinclair não foi o único pretendente anglo-saxão ao título de precursor de
Colombo. Foram encontrados vestígios de outra viagem num manuscrito da Idade Média
hoje desaparecido, mas cujos ecos se reproduzem nos mapas do holandês Reis e do alemão
Mercator (1507 e 1567). Neles se lêem, por exemplo, notas como as seguintes: "Aqui fica
uma ilha flutuante constituída de escórias" (escórias provenientes de erupções vulcânicas
submarinas), ou "Aqui o compasso deixa de funcionar", referindo-se evidentemente ao
desregulamento da bússola provocado pela aproximação do pólo magnético, o que nos
permite situar esse ponto ao largo da costa setentrional do Labrador. Temos igualmente
reproduções de um "mapa desconhecido" dessas paragens, representando evidentemente
trechos do litoral americano. Os especialistas atribuíram essa viagem ao sábio de Oxford,
Nicholas Llyn. Sua data seria então 1360 e, de acordo com o professor russo S. Warsarvski
("Voyageurs vers le pele d'il y a 600 ans", in Vorug Sbeta, nº. 2, Moscou, 1964), podemos
afirmar que "já não é possível duvidar que Llyn e seus companheiros tenham navegado
efetivamente na rota marítima setentrional entre a Europa e a América". Em 1956 E. G.
Taylor já demonstrara a realidade da viagem de Llyn.
PERSEGUINDO O ARENQUE
Como fazem para outros as riquezas e a glória, o bacalhau e o arenque lançaram os
pescadores das costas da Bretanha e do golfo de Gasconha nas rotas oceânicas.
É grande pena que Santo Arenque
Seja tantas vezes martirizado
Pois nesse santo tempo de Quaresma
Daqui até Angoulême
Se martiriza esse santo mártir
Pois muitas vezes o fazem assar.
Um mapa de pesca publicado em 1143 por Thierry, conde de Flandres, indica que o
bacalhau era a princípio procurado na Mancha. Foi aos poucos desaparecendo das
proximidades das costas européias e os pescadores se viram bem depressa arrastados por
suas próprias presas até as longínquas costas do Novo Mundo. A. Thomazi descreve esse
processo com as seguintes palavras: "Como eles só traziam de suas viagens peixe salgado,
óleo e barbatanas de baleias em lugar de pérolas e ouro em pó e como além disso não
desejavam tornar conhecidos os lugares onde faziam tão belas pescarias, com receio de
serem surpreendidos e acompanhados por muitos outros, os bascos se calaram e sua
descoberta permaneceu durante muito tempo ignorada.”
Uma vez chegados às costas americanas de Nordeste, os bascos e os bretões
organizaram nas ilhas estabelecimentos onde armazenaram o peixe, já que a pobreza e a
aridez das costas descobertas não os incitavam, por outro lado, a ali se fixarem mais
demoradamente. Em sua História do porto de Bayonne, relata Croisier que, de acordo com uma
crônica holandesa da época, vinte embarcações bascas e de Bayonne, equipadas para a pesca
da baleia, chegaram em 1412 a Grundefiord, no golfo de Grunder, o que não deixou
de provocar ali uma certa surpresa. A presença dos bascos na Terra Nova deixou marcas na
antiga toponímia local, que comportava nomes como Ulycicho (o Buraco das Moscas),
Oporportou (o Pote de Leite), transformado hoje, por aproximação fonética, em Port-au-Port,
Portuchua (o Pequeno Porto), hoje Port-au-Choix, etc. Data desta mesma época a introdução
de algumas palavras bascas no linguajar dos índios mrcmacs que viviam na embocadura do
São Lourenço, como verificou o historiador alemão E. Gelchich.
Igualmente antiga é a presença dos bretões nas águas e no solo da Terra Nova. O
historiador francês L. Vitet cita inúmeros exemplos em sua Histoire de Dieppe, publicada em
Paris em 1844. E Clérac escreve, referindo-se aos marinheiros de Capbreton: "Procurando
o refúgio habitual dos monstros, eles descobriram, cem anos antes das navegações de
Cristóvão Colombo, o grande e o pequeno banco de bacalhaus, as terras da Terra Nova, o
Cabo Bretão e a terra de Baccaleos (palavra que significa bacalhau em sua língua). Saliente-se
aliás que, em carta escrita ao rei Henrique VII da Inglaterra, era 1497, até John Cabot se
refere às ilhas de Baccaleos, usando o nome que lhes fora dado muitos anos antes pelos bascos.
E cinqüenta anos antes que a Santa Maria levantasse âncora uma carta do rei da França
outorgava à abadia de Kerity, perto de Paimpol o direito de cobrar in specie um imposto
sobre todos os produtos do mar e das regiões de além-mar. Clérac: Us et coutumes de la mer,
Paris, 1647, p. 326. Foi, entretanto, dessa terra de Baccaleos, pela qual também se
interessava Colombo, que saiu a lenda do piloto Alphonse que teria sido lançado por uma
tempestade ao litoral de São Domingos quando vinha da Madeira. Masein situa esse
acontecimento em 1448 (Essai historique sur la ville de Bayonne, Paris, 1792) e Marmontel em
1488... Esse fato foi associado à visita de Colombo à Bretanha antes de sua "descoberta".
Charles de La Roncière faz justamente notar, entretanto, que supor a possibilidade de ter
um bretão "vendido" a Colombo o seu itinerário é pura fanfarronada.
Temos ainda de acrescentar que nos primeiros mapas "norte-americanos"
representou-se no interior de uma terra das vizinhanças da Terra Nova o rio São Lourenço,
ali figurando além disso nomes já consagrados como Cabo Bretão, terra dos Bacalhaus, baía dos
Bretões, etc. Talvez esteja nisto, mais do que nas conseqüências da sempre discutida viagem
de Madoc a verdadeira explicação de certas palavras com ressonância céltica (isto é, no caso,
bretã) encontradas em alguns idiomas indígenas daquela época. Aqui vão dois exemplos:
Francês Gaélico Dakota Osage Quappe Narrangaset Bretão moderno
Ameríndio
maison Ty ti Téa Tea-tith tiah tih-tiah
os askorn askourn okan ocheguer uskon uskon
Numa obra publicada em 1582 e intitulada Les Trois Mondes, pode-se ler o seguinte:
"Os franceses, embora sobretudo normandos e bretões, sustentam ter sido os primeiros a
descobrir essas terras e ter desde a Antigüidade traficado com os selvagens no Brasil, perto
do rio São Francisco, no lugar depois chamado Porto Real. Mas, pouco avisados nisto
como em outras coisas, não tiveram a idéia ou discrição de deixar nem um só relato
publicado para garantia de seus intentos. Noutra altura, o texto se refere a Messire Jean
Cousin, célebre navegante francês do século XV, a respeito do qual se disse que navegara
em direção às Índias sete anos antes de Vasco da Gama. Originário de Dieppe, e pirata
audacioso, foi Cousin impelido para uma terra desconhecida pelas correntes equatoriais.
Lançou âncora e passou algum tempo diante do estuário de um grande rio. Antes de tornar
a partir, ele deu à terra que estava à sua frente o nome de Maranhão (Maragnon). Temos,
portanto, de admitir que Jean Cousin teria atingido o Brasil em 1488. Sem entrar em
maiores detalhes, é preciso salientar que o chefe da tripulação de Cousin era espanhol. Era
um certo Pinzon. Talvez não Martin Alonzo Pinzon, o futuro piloto de Colombo, mas pelo
menos um de seus parentes próximos. Muito embora a parte essencial dos arquivos de
Dieppe, Brest e Saint-Malo tenha sido destruída pelas sucessivas guerras, ainda sobrou um
número suficiente de documentos indiretos referentes às navegações de Cousin e seus
homens de modo a podermos afirmar que, depois de Knutsson e Llyn, Cousin foi de fato
um dos predecessores de Colombo. Já não se põe em dúvida hoje que no grande
reservatório de peixes que cerca a Terra Nova, onde se misturam as correntes frias vindas
do golfo de Baffin e as águas quentes do Gulf Stream, os escandinavos, os bretões, os
bascos, gascões e ingleses de Bristol, ao encherem seus barcos de peixes tenham
involuntariamente concorrido para abrir as rotas da América.
Todavia, temos ainda de esclarecer certas coisas referentes ao relacionamento dos
bascos com o Novo Mundo. A suposta presença de palavras bascas em determinadas
línguas ameríndias, e particularmente mexicanas, tem sido muitas vezes invocada como
prova de contatos pré-colombianos entre os bascos e as populações da América Central. E
é verdade que, não tendo a língua basca nenhum parentesco com qualquer outra língua
européia viva ou morta, o fato de existirem expressões a ela pertencentes no México e na
Guatemala, inclusive antes das primeiras navegações bascas do século XIV em direção à
Terra Nova, constituiria um enigma de grandes proporções. Acontece, porém, que os
estudos aprofundados desta questão invalidaram essas coincidências lingüísticas.
A EXPEDIÇÃO MISTA
Depois dos pescadores, e tirando proveito de sua experiência, os dinamarqueses e os
portugueses empreenderam por seu turno a travessia do Oceano e já agora, pela primeira
vez, em colaboração. Muito antes de Colombo, os homens de Don Henrique — o Navegador
— tinham velejado para a América, inaugurando assim a fabulosa corrida oceânica que se
travaria entre a Espanha e Portugal.
Segundo os especialistas, essa corrida se desenvolveu em dois períodos. As viagens
do primeiro, que durou cerca de sessenta anos, quase não deixaram vestígios. Ficaram-nos
entretanto, inúmeras provas indiretas. Examinando, por exemplo os dois mapas do
veneziano Bianco verifica-se que se o primeiro — datado de 1436 — representa apenas o
mundo antigo, o segundo — que é de 1448 — mostra, além das costas africanas que se
estendem a partir do Cabo Verde, o traçado de uma costa do outro lado do oceano. A legenda
declara que se trata de uma "ilha autêntica, situada a Oeste, a uma distância de 3.500
milhas", o que representa efetivamente a distância entre o litoral africano e as costas brasileiras. Tendo
sido redigido em 1447 em Lisboa, o traçado deste mapa só pode ser explicado por algum
relato, hoje perdido, de uma descoberta portuguesa.
O segundo período é melhor conhecido, pelo menos quanto ao que diz respeito a
três expedições. A primeira é a de Diego de Teive. Explorando o Atlântico setentrional
entre 1452 e 1472, Teive chegou a princípio a terras situadas a oeste da Islândia. Foi
somente quando ia voltando que avistou uma terra, cujas descrições por ele mesmo
oferecidas indicam que se tratava da Terra Nova. A segunda viagem realizou-se em 1472,
vinte anos antes da de Colombo. Foram encontradas referências a ela num manuscrito
redigido por um cronista que vivia nos Açores, Gaspar Fructuoso. Intitulada Saudades de
Tierra, esta obra só se tornou conhecida em 1590, tendo sido publicada pela primeira vez
em 1931. Pode-se ler ali, particularmente: "Chegamos (de volta aos Açores, N. D. L. A.)
após a descoberta da Nova Terra do Bacalhau (Tierra de Baccalau) por João Vaz Corterreal,
depois nomeado, por ordem do rei, governador da cidade de Agra, na ilha Terceira".
Por outro lado, informa-nos a Istoria Insularia, publicada por Antonio Cordeiro em
Lisboa, em 1717, que "dois nobres chegaram à ilha Terceira, de volta da terra do Bacalhau,
que haviam descoberto. Um deles se chamava João Vaz Corterreal, e o outro Álvaro
Martinez Omen." Ora, esse João Vaz Corterreal foi designado governador de Agra no dia 2
de abril de 1474, ficando assim provado que a terra do Bacalhau deve ter sido descoberta
muito antes dessa data, como demonstrou aliás L. Cordeiro em 1876. Seja como for, o fato
de figurar o Labrador num mapa marítimo proveniente de uma biblioteca de Florença e
datado de 1534, sob o nome de Terra de João Vaz contribui para a identificação da Nova
Terra do Bacalhau com o Labrador.
O que é menos sabido, é que essa expedição era muito pouco portuguesa. Trata-se na
realidade de uma expedição dinamarquesa que levava ao todo, dois observadores portugueses.
Produto de um acordo entre os reis Afonso V de Portugal e Cristiano I da Dinamarca, ela
tinha como missão descobrir uma passagem para a Índia, pelo Norte. A gente do Norte
conhecia, ou afirmava conhecer essa passagem. Afirmava, além disso, que o Atlântico se
juntava com outro oceano situado a Oeste, através do "Ginnuns gagap" — o golfo de Hudson.
Naquela época, os lusitanos estavam procurando abrir um caminho para as Índias.
Os dinamarqueses juntaram-se a eles. Nós o sabemos graças à carta enviada em 1551 por
Carsten Crip, prefeito da cidade de Kiel ao rei Cristiano III. Por meio dela, Carsten Crip faz
saber ao rei que acabara de ver em Paris um mapa no qual estavam representadas todas as
regiões da Islândia à Itália e indicadas as descobertas efetuadas anos antes pelos dois
navegantes Pinning e Porthorst que tinham participado de uma expedição às novas ilhas e
ao continente setentrional, financiada pelos reis da Dinamarca e de Portugal. Trata-se,
evidentemente, da América, corretamente localizada pelo autor da carta em questão.
Em seu livro A Descoberta da América do Norte vinte anos antes de Colombo, publicado em
Londres em 1924, Sophus Larsen forneceu argumentos decisivos quanto à condição de
simples convidado de João Vaz nessa expedição cujos verdadeiros chefes foram os
noruegueses Pinning e Pothorst. Ex-comandante da frota norueguesa, do mar do Norte, e
governador da Islândia, inimigo declarado da liga hanseática, Didrik Pinning era excelente
navegador; Pothorst era um piloto afamado, conhecendo melhor que qualquer outro
marinheiro de seu tempo as costas setentrionais do Atlântico. Formavam ambos uma
excelente dupla cujas proezas permaneceram durante muito tempo pouco conhecidas
devido à confusão provocada por um terceiro personagem, o "Dinamarquês" Johan Skolp.
A respeito de Skolp, que se tornou por sua vez governador da Islândia contava-se
que "no ano da graça de 1476, tinha ele tentado navegar do outro lado da Groenlândia".
Detido pelos gelos, ele tivera de retornar. Mencionado como piloto da expedição lusodinamarquesa,
houve um erro de ortografia na grafia de sua função (em latim) pilonus em
lugar de pilotus. A partir daí, passou-se bem depressa a ver nesse Johan Skolp de nome
báltico um polonus, isto é, um polonês. E começou-se imediatamente a gastar rios de tinta
para descrever a prodigiosa aventura de um polonês que foi descobrir a Groenlândia no
século XV. Skolp era, no entanto, um puro escandinavo de Sondmore (Suécia ocidental)
aparentado com a família real por seus antepassados Simar e Jon Skolp, genro do rei
Harold. Acima de tudo, porém, ele não existiu. Johan Skolp e Johan Pothorst são uma única e mesma
pessoa. Com efeito, por ocasião da expedição, esse personagem ainda não era o famoso
Johan Skolp Pothorst ou von Pothorst, título que adotou para agradar ao rei muito germanófilo
que pretendia fazê-lo nobre. Foi, portanto, sob a dupla direção de Pinning e de Skolp-
Pothorst (em latim simplesmente Scolvus) que a expedição — levando João Vaz como
observador — avançou para o Norte, atingiu o Labrador e penetrou no golfo de Hudson.
Em seu livro sobre as viagens de exploração das regiões setentrionais, F. Nansen
menciona um documento inglês da época, o qual indica que "para passar das águas do
oceano nórdico às do oceano meridional, é preciso navegar de 66-68º para 60º de latitude
Norte. Um piloto dinamarquês, Johan Scolvus, navegou ao sul dessa passagem em 1476."
Assim também, o globo terrestre de Gemma Frisius, realizado em 1537, em
colaboração com o geógrafo Mercator, traz ao norte de um estreito designado com o nome
de "Fretum Trium Fratrum", a seguinte inscrição: "Qui populi ad quos Johannes Scolvus parvenit
circa annum 1476", isto é "Os Quij, (os índios Crée?) povos entre os quais chegou Jean
Scolvus por volta do ano 1476". Existem pelo menos doze mapas que trazem menções
semelhantes, a última das quais data do século XVII.
Se os resultados dessa expedição não chegaram até o nosso conhecimento, a
responsabilidade deve ser atribuída aos dois reis que a financiaram. Eles os cercaram de um
silêncio absoluto de modo que sabemos apenas que as novas terras ficavam sujeitas, em
virtude de um acordo, à jurisdição dinamarquesa. Todavia, desta ou daquela maneira, essas
descobertas foram indicadas no globo de Martin Behaim, e dele Colombo tomara
conhecimento antes de partir. Ali se vêem, com efeito, e mostrados com bastante precisão,
os contornos da Nova Escócia, da Terra Nova e do golfo de São Lourenço. E Hjalmar
Holand faz notar que o globo de Behaim penetrou nos gabinetes dos sábios nos primeiros meses do ano
durante o qual Colombo iria "descobrir" a América.
O HOMEM QUE FUGIU DO PARAÍSO
A posse do paraíso, e a primeira permanência em Haiti foram apanágio de um jovem
piloto espanhol, Alonso Sanchez, que a história esqueceu à sombra de Colombo, dando-o
como um "piloto anônimo". Além de herói de uma aventura fantástica, ele foi também o de
uma fábula, difundida no tempo de Colombo, e referente à presença de espanhóis na
América antes da descoberta oficial.
Em sua História das Índias, escrita no século XVI, conta Las Casas que em 1480,
quando Colombo vivia na Madeira, uma embarcação entrou naquele porto depois da
incrível aventura marcada por duas tempestades terríveis. A primeira a fez desviar de seu
itinerário habitual que ia da Espanha às ilhas do Atlântico oriental, levando-a até as
Antilhas; a segunda, na volta, a havia atirado nas costas da Madeira. O piloto, único
sobrevivente da tripulação, morreu nos braços de Colombo, deixando-lhe suas notas de
viagem, seu itinerário e um mapa. Observe-se que o próprio filho do almirante, Don
Ferdinando Colombo, que foi também o seu biógrafo, é quem conta esta história.
Aliás, "o piloto anônimo" não constituiu a única fonte em que Colombo foi colher
informações durante o período preparatório de sua viagem. Ele se dirigira em primeiro
lugar à Bretanha para conversar com o velho navegador Coatelem que tomara parte nas
expedições de Cousin, nascido na cidade de Dieppe. Na Andaluzia, no monastério de La
Rabida ele tivera longas conversas particulares com um certo Pedro de Velasco, português
de Moguer, informando-se da viagem que este realizara sob as ordens de Diego de Tieve,
durante a qual eles se haviam dirigido para o Norte deixando "à direita" a terra da Irlanda.
Ele também sondara um simples marinheiro andaluz do porto de Santa Maria para saber
que terras eram aquelas que ele afirmava ter visto num certo ponto, a Oeste, por ocasião de
uma viagem pelo Oceano. Mostrara finalmente um intenso interesse pelas intenções de
Vicente Dias, português de Tavira, o qual afirmava ter avistado a sombra de uma costa em
direção ao Oeste, quando navegava entre a Guiné e a ilha Terceira.
"Mui altos e poderosos senhores, (eu) Alonso Sanchez (da cidade) de Huelva, capitão
da tripulação da caravela que Deus guarde e que tem o nome de Atlante[...] (venho)
informar-vos das terras por mim descobertas na viagem que empreendi pelo mar oceano...
Desembarquei numa ilha a que os indígenas dão o nome de Quisqueia... a qual se encontra
nas extremidades do Oceano ocidental, cercada de grande número de ilhas, que não são
conhecidas nem descritas pelos cosmógrafos que trataram desse oceano... Digo mais que
ouvi dos indígenas dessa terra que para além da mesma, em direção ao poente, existe uma
grande extensão de terra firme...”
Se for autêntica, esta carta publicada em 1962 por Manuel Lopes Flores, constitui
pura e simplesmente o relato da verdadeira descoberta da América pelos espanhóis.
Contudo, permanecem obscuras as condições dessa descoberta, impondo-se manter a
maior reserva possível com relação a esse documento. Só é indiscutível a navegação de
Sanchez. Não faltam referências a ele. Trinta e sete autores espanhóis, quatro portugueses e
cinco de diversos países escreveram a seu respeito no século XVI. Nascido em Huelva, ele
transportava mercadorias para as Canárias quando se viu desviado de sua rota e arrastado
pelas correntes oceânicas que o lançaram, depois de dezessete dias de navegação, nas costas
de uma terra desconhecida, que era provavelmente o Haiti.
Homem de caráter e marinheiro por natureza, Sanchez não se entregou às delícias de
uma estada cujo prolongamento só dele dependia. Assim que lhe foi possível, determinou
que se fizessem os reparos na embarcação e empreendeu o retorno à Espanha. Não trouxe
consigo apenas o itinerário de um novo percurso e sim o mapa da ilha a que os indígenas
chamavam Quisqueia.
A tripulação da caravela de Sanchez, a Atlante, teria sido composta de dezessete
homens. O navio deslocava vinte e cinco toneladas métricas. Deve-se notar igualmente,
como demonstrou Luis Astrana Marin, que Sanchez tinha ligações com Martin Alonso
Pinzon, o piloto de Colombo. Por outro lado, é de fato à viagem de Sanchez que Las Casas
se refere ao narrar que, entre as surpresas que aguardavam os espanhóis por ocasião de seu
primeiro desembarque em Cuba, uma das mais significativas foi a notícia dada pelos
indígenas da costa oriental da "presença, alguns anos antes, de homens brancos e barbados
no solo de uma ilha vizinha".
Teria sido Colombo informado da existência do mapa de Sanchez? Não temos
nenhuma prova formal desta circunstância, tudo porém a torna plausível, sobretudo a
própria navegação do almirante que seguiu sem hesitações, tanto na ida como na volta, as
duas únicas rotas possíveis — justamente as que haviam sido reveladas fortuitamente a
Sanchez pela intervenção das tempestades — como se estivesse seguindo um itinerário
previamente estabelecido.

Mapa dito de Sanchez representando a ilha de Quisqueia (segundo M. Lopes Flores)
Um dos cronistas que primeiro revelaram a coisa, o mestiço hispano-índio Inca
Garcilasso de la Vega, chamaria a atenção em sua célebre Primera parte de les comentários
reales..., publicada em Lisboa em 1609 que "homens brancos e barbados" tinham
desembarcado numa ilha perto de Cuba em 1481, data presumida da viagem de Sanchez.
De modo que tudo leva a crer que o descobridor oficial da América tenha sido diretamente
auxiliado pelo último de seus precursores. Com esse encontro, erguia-se o pano para a cena
final do grande relê do refluxo da maré.
É possível que tanto Gomara como Vega e Las Casas tenham colhido suas
informações nas declarações dos primeiros espanhóis desembarcados em Cuba. Em sua
peça, La Découverte du Nouveau Monde, Lope de Vega deixa demonstradas as mesmas relações
entre Colombo e Sanchez (cena II), e faz com que o almirante confesse ter dado abrigo a
um piloto agonizante, cujos papéis ele teria herdado.
OS NEGROS DO NOVO MUNDO
Guiado por esse desejo e animado pelo propósito de demonstrar a extensão de seus motivos, nosso
grande mestre e predecessor ordenou que se armassem algumas centenas de barcos e, provendo-os de ouro, de
alimentos e de água doce para atender durante muito tempo às necessidades das tripulações, pediu a todos os
chefes que não retornassem antes de haver atingido os limites do grande aceano... Partiram todos e ninguém
voltou, a não ser apenas um daqueles chefes...
Relato do sultão de MALI, MUSA, transcrito pelo cronista IBN FAD- LALLAH AL
OMART, do Cairo, século XIV.
SEGUINDO A TRILHA DAS MIGRAÇÕES
Um dos afrescos do tempo dos guerreiros de Chichen Itza inclui representações
típicas de cabeças de negros. O primeiro a assinalar esse pormenor foi Paul Rivet. Por sua
vez, o etnólogo alemão Max Schmidt tornara conhecidas duas cerâmicas descobertas em
Chimbote e Trujillo, no Peru, cujos desenhos sugeriam combates renhidos entre Brancos e
Negros.
Finalmente, já em 1880 Charles Wiener observara em cerâmicas encontradas em
Puno e em Santiago de Cao, no Peru, e pertencentes à cultura mochica, pedreiros negros e
brancos trabalhando lado a lado na construção de uma casa. A presença do elemento
humano negróide em solo americano antes de Colombo não constitui uma revelação
propriamente dita. Os trabalhos do professor von Wuttenau demonstraram cabalmente essa
realidade histórica. Certos antropólogos ortodoxos tentaram fazer prevalecer a idéia de que
teriam existido em germe alguns fatores genéticos negróides no patrimônio cromossômico
dos asiáticos que chegaram ao Novo Mundo via estreito de Behring. Entretanto, a teoria
clássica da migração proveniente do Nordeste asiático e as concepções recentemente
formuladas com referência à travessia do Pacífico por homens de tipo australiano são
inteiramente incapazes de explicar como puderam os negros chegar à América. E pensar
que, em virtude de não se sabe que mutação antropológica, esses "germes" tenham podido
levar os asiáticos transformados em mexicanos a gerar negros autênticos eqüivale
aproximadamente a admitir o povoamento da América por marcianos negros.
Voltemos porém aos vestígios existentes. Alexander von Wuttenau examinou
centenas de estatuetas pertencentes a culturas pré-colombianas e clássicas e encontradas, na
maior parte, nas proximidades da cidade de Vera Cruz. Seria preciso mencionar muitos
outros, entre os quais o enorme baixo-relevo maia de Tikal, na Guatemala, que data
aproximadamente de 750 d.C. representando um tipo humano autenticamente negróide. Ou
então a máscara singularmente africana descoberta em Tlatilco, no México e que remonta
ao ano 800 antes de Cristo; ou as figuras negróides representadas nas paredes do templo
maia de Copan, em Honduras e que são do ano 500 de nossa era.
Quando, há algumas dezenas de anos, sábios de reputação mais ou menos
consagrada como Le Plongeon ou Bancroft demonstraram não apenas a presença na
América dessas populações negras antiqüíssimas, como também, as suas representações nos
monumentos pré-colombianos mais antigos, a atitude geral foi, como era natural, um alçar
de ombros. Mal se começa a perceber que as conclusões eram precipitadas. A datação entre
1.600 e 300 a.C. da maioria dos vestígios negróides constitui, com efeito, um argumento a
favor do que se considerava uma afirmação arriscada do sábio alemão Leo Frobenius que
escrevera: "A América deve ter sido descoberta (também, N.D.A.) por homens vindos da
África." Em Palenque e Teohuacan, entre os maias e no sul do México, foram igualmente
encontradas estatuetas de tipo negro, e até uma cabeça "africana" gigantesca, talhada num
rochedo em Taxila (México). Foi a partir desta última que o etnólogo americano M. Stirling
conseguiu estabelecer um elo entre as cabeças de bronze descobertas por Frobenius em
Benin, África, e as imensas cabeças de pedra esculpidas pelos olmecas.
De resto, já de há muito não padecia dúvida a presença de populações negras na
América antes da viagem de Colombo. Os próprios conquistadores já a haviam constatado
tanto na América Central como na região nordeste da América do Sul. Quanto à sua
origem, ela poderia indicar tanto elementos negróides de cepa australiana ou melanésia
cujos antepassados houvessem atravessado o Pacífico, — como demonstrou Rivet — ou
então (o que não representa apenas uma alternativa e sim uma segunda origem) elementos
pura e simplesmente vindos da África. É o caso, por exemplo, dos "índios" saramaka, que
habitam a Guiana francesa. Os ancestrais dessa antiqüíssima tribo de homens livres vieram
da África muito antes de Colombo e falam aliás, uma língua muito semelhante à de seus
irmãos da Costa do Ouro. O historiador russo S. Warsawski oferece uma versão muito
verossímil de sua chegada à América. "Tendo desembarcado na costa oriental do continente
americano, [escreve ele], é provável que as tribos negras se tenham internado pelo subcontinente
e, que algumas, em busca de uma existência mais tranqüila, ao abrigo dos
perigos, tenham conseguido chegar às vertentes orientais dos Andes". Lembremos
finalmente que, ao desembarcar em Cuba, Colombo ali encontrou cães mudos pertencentes
a uma raça especificamente africana.
Em Tlatilco e ali perto, em Tlapacoya, às margens do lago Texcoco vêm sendo
encontrados desde 1962 muitos objetos de madeira, obsidiana, osso, argila, cozida ou seca,
representando figuras humanas de tipo claramente negróide, servindo ao que parece de
testemunhos da transição entre esse tipo e o dos íuturos olmecas do México.
Todavia, ainda subsiste uma incógnita nesta presença africana na América précolombiana.
Até hoje ainda não foi possível determinar com exatidão a época dessa
travessia, nem se os negros pré-colombianos vieram graças a seus próprios recursos ou
associados a outros navegadores.
MUSA PROCURA O GULF STREAM
Em compensação, conhece-se com segurança a história de certos marinheiros
africanos — negros e árabes — que efetivamente tentaram atingir a América. A primeira
dessas expedições foi a de Musa, sultão do Mali. Comprovada por um fragmento de
relatório redigido em nome desse sultão, cujo reino floresceu durante a Idade Média na
bacia do Niger, ela ocorreu provavelmente entre 1290 e 1300. Sua narrativa se deve ao
cronista árabe Ibn Fadlallah al Omari (1301-1348).
Musa havia sido informado por um sobrevivente de uma frota que se aventurara
oceano adentro da existência de uma corrente gigantesca, verdadeiro rio no meio do mar —
responsável aliás pelo naufrágio da frota em questão. Evidentemente, tratava-se do Gulf
Stream. O sultão equipou imediatamente dois mil barcos e partiu em direção ao Oeste à
frente de sua nova frota. Nunca mais haveria de voltar. Aliás, não se pode imaginar que os
frágeis faluchos do sultão conseguissem arrostar o oceano. O que importa é que antes de
1300 o sultão do Mali tenha admitido a possibilidade de possuir o Atlântico uma costa
ocidental e pretendido chegar até lá.
Resta saber de onde lhe teriam vindo essas informações. O mais provável é que os
africanos tenham conhecido, de longa data, a existência de um continente ocidental em cuja
direção os seus antepassados talvez tivessem navegado em melhores condições. Analisando
recentemente as coordenadas geográficas atribuídas às cidades pelo sábio Mohamed
Nasredin, nascido no Azerbaidjão, em manuscrito de 1271, o pesquisador russo J.
Mamedbeili verificou, surpreendido, que o primeiro meridiano utilizado por Nasredin
passava exatamente pelo ponto mais oriental da América do Sul. É portanto normal que
certos historiadores como o egípcio Zeki Paxá considerem a expedição do sultão Musa
como segunda tentativa islâmica para descobrir o Novo Mundo. E, a darmos crédito ao
grande geógrafo árabe Abu Abdallah al Edrissi (1099-1164), oito jovens árabes teriam
partido de Lisboa numa embarcação por eles aparelhada, dirigindo-se para Oeste, em 1125.
Possuímos, inclusive, o relato feito por um deles. Depois de navegarem durante vinte e três
dias, encontraram uma primeira ilha. A dez dias de distância da mesma, desembarcaram
num solo fértil, perto de uma resplandecente cidade, habitada por homens de pele cor de
cobre. Entretanto, embora a descrição dos sítios possa aplicar-se à América, a duração da
travessia (23 + 10 dias) não corresponde a nenhum dado real.
No momento atual, existem nada mais nada menos que quatro hipóteses sobre as
relações pré-colombianas entre a África e a América. É preciso reconhecer, todavia, que
além dos indícios de ordem etnográfica relativos à presença de negros africanos no México,
não se dispõe de nenhum fundamento sólido sobre o qual firmar uma teoria qualquer. O
professor americano Clifford Evans acredita, por sua vez, numa migração de tribos negras
que teriam navegado das costas da Guiné até a ilha de Maranhão, atravessando a península
mexicana depois de desembarcarem na América. Esta migração teria cessado por volta do
ano 1000 a.C. na região de Guerrero, cujas cerâmicas antigas representam de fato homens
com aspecto negróide.
Antes de concluir este capítulo, observemos que o Popul-Vuh, a "bíblia" dos maiasquichés
fala numa terra dos ancestrais situada fora da América, onde vivem "juntos, em boa
harmonia, homens brancos e homens negros". Embora o caráter lendário desse texto nos
impeça de apresentá-lo como prova autêntica, é todavia indiscutível que o refluxo da maré
também arrastou consigo, dez ou doze séculos antes de nossa era e em condições ainda mal
determinadas, homens pertencentes às populações da África negra.
A PROVA ÀS AVESSAS
Reaparecerá a aurora?...
... Pois eles partiram levando
A tinta vermelha e negra.
E os povos, como se entenderão?
E o país, o que será dele?
E da cidade?
Qual será a façanha?
Quem será nosso chefe?
Quem será nosso guia?
Quem nos mostrará o caminho?
Quem nos dará instituições e medida?
Quem será o exemplo vivo?
De onde seremos obrigados a partir e quem nos servirá de tocha e de luz?
Codex Azteca Ramires
Também os americanos atravessaram o oceano. Navegações fortuitas, o que não as
impede de constituir um argumento "às avessas" dos mais impressionantes a favor das
relações diretas entre o Mundo Antigo e o Novo.
O importante é deixar desde logo estabelecido que inúmeras tribos habitantes do
litoral leste da América possuíam lendas e tradições referentes tanto a antepassados orientais
como a um paraíso situado a leste do Oceano.
Os algonquins, os wapanachis e os lenapes acreditavam, por exemplo, na existência
de um senhor dos vivos, Glusgahbé, deus da idade do ouro, que chegara à América num
gigantesco barco de pedra coberto de árvores enormes para iniciá-los às técnicas da caça, da
pesca e da guerra assim como aos costumes sedentários. Ao contrário de Quetzalcoatl, o
rei-deus dos toltecas e dos maias, Glusgahbé tinha vindo do Leste do oceano.
Para os micmacs da Terra Nova e da Nova Escócia, o mesmo deus se chama
Glooskap e vem de uma terra oriental habitada por brancos. As crenças dos lenapes são
encontradas também entre os menominis, tribo de índios dos pântanos que esperavam a
volta de um deus branco e barbado cujo nome era Manabouch. Também denominados
"Grandes Brancos" os menominis tinham como totem um coelho branco. Foi entre eles que
apareceu inicialmente a "associação médica" dos xamãs, cujo papel iniciático lembra
estranhamente os costumes análogos dos primitivos do Velho Mundo. Finalmente, quando
irritado pelo comportamento de seus filhos espirituais, Manabouch decide voltar para sua
terra, atravessa o grande oceano em direção Leste, a caminho de uma região rochosa que tanto
poderia ser as orçadas, como a Islândia, a Irlanda ocidental ou o País de Gales inglês.
Os índios ojibos têm tradições análogas. Para eles os que se mostram virtuosos e
valentes durante toda a vida são recompensados passando a residir no paraíso terrestre,
situado no longínquo Leste, do outro lado do Oceano, na terra dos antepassados
superiores. Esta crença ao mesmo tempo contrária e simétrica às tradições célticas pode
muito bem ter servido de motivação comum para viagens nos dois sentidos. E justamente, é
até mesmo essa inversão que demonstra a validade do esquema como referência lendária a
uma situação geográfica real.

Além disso, encontra-se entre os lenapes e os leki-lenapes a tradição de um branco
benfazejo que teria subido ao céu depois de morto. Esses mesmos indígenas tinham uma
noção muito clara da existência de uma longínqua terra de origem, situada numa grande ilha
no meio do oceano, a Leste. Davam a esta ilha o nome de Wak-am-da. Não nos parece
necessário ver aí a Atlântida lendária, a Atzlan dos aztecas e nahuas; é bem possível que se
trate de duas tradições superpostas e alteradas com o correr do tempo. A primeira seria a do
platô submerso das Baamas; a segunda, a origem irlandesa de uma parte dos celtas que
chegaram à América e foram assimilados pelas tribos indígenas.
Eugène Beauvois chama a atenção para o fato de que no Waham Ohim, isto é, no
conjunto de figuras pintadas composto de acordo com as tradições dos lenapes do século
XVIII, existe uma referência a uma ilha misteriosa situada ora ao Norte, ora a Nordeste da
antiga região dos delawares, ora na direção da Islândia. Essa terra tem o nome de Tula e
sabe-se que a Islândia era para os antigos navegadores gregos e romanos... a Thulé derradeira.
Por outro lado, para os lenapes, Tula é de fato a terra dos antepassados que, expulsos pela
serpente, chegaram a sua terra antes de atravessar o oceano. É nessa altura, provavelmente,
que se confundem a velha tradição difundida pelos celtas e a outra, mais recente, trazida
pelos irlandeses perseguidos desde as orçadas até a Islândia pelos vikings, e de lá até a
Groenlândia e depois até a América, onde ocuparam os antigos estabelecimentos celtas do
Huitramanaland. Quanto à serpente, será provavelmente mister considerá-la como uma
reminiscência da figura de proa dos drakkars vikings.
O Popul-Vuh dos maias-quichés esclarece, como vimos, que os antepassados vinham
de uma região do outro lado do Oceano onde homens brancos e negros viviam em casas
(por oposição às cabanas dos índios).

Em determinada época, esses antepassados teriam partido para Tulan-Zuira, Vukub
Pek (as Sete Grutas) ou Vukub-Ciran (as Sete Falésias) à procura dos seus deuses.
Para os cakchiquels da região de Texpan, na Guatemala, parentes dos quiches, Tula
ou Tollan significava também fonte de luz e, por extensão, o nascente. É aqui, aliás, que entra
em cena a confusão das quatro Tollan. Pois não havia apenas o Tollan da partida e o da
chegada (Quetzalcoatl — o homem — foi rei dos toltecas em Tollan ou Tula): havia
igualmente o Tollan do paraíso e o do inferno. Assemelhando-se curiosamente ao mundo
céltico, o Tollan de partida exerceu durante muito tempo uma atração muito grande sobre
os ancestrais dos astecas, as tribos nahuas do México primitivo.
OS NÁUFRAGOS DE CORNELIUS NEPOS
Conta o historiador romano que, durante o seu proconsulado na Gália, Quintus
Metellus Celer teria recebido como oferenda do rei dos Boetes alguns índios atirados por
uma tempestade ao litoral da Germânia no ano 62 a.C. Plínio e o geógrafo Pomponius
Mella também relatam esta mesma anedota. Durante muito tempo, permaneceu-se preso à
letra do texto, admitindo-se que se tratava efetivamente de "índios", isto é, de habitantes da
Índia. A confusão fica ainda melhor explicada quando se sabe que se acreditava então na
existência de um caminho direto entre a Índia e a Germânia, passando pelo mar Cáspio. Essa
crença ainda subsistia na Idade Média e foi a causa de certas aberrações em alguns mapas
desenhados naquela época. Mas para os antigos, que alimentavam a idéia de que um mesmo
oceano banhava as costas da Índia e de Ceilão, da África "exterior" e das ilhas Britânicas,
aquilo parecia óbvio. É preciso não esquecer também que, tanto Cornelius Nepos como os
geógrafos da baixa Idade Média, consideravam que a palavra "Índia", em lugar de designar
uma área geográfica determinada, constituía um nome coletivo que englobava indiferentemente
tudo que apresentasse um caráter mais ou menos exótico. Finalmente, não foram as tribos
germânicas em cujas plagas tinham ido dar aqueles infelizes náufragos que os definiram
como índios, e sim os romanos a quem eles haviam sido oferecidos.
Na verdade, há duas explicações possíveis. De acordo com a primeira, aqueles
homens seriam esquimós ou índios da América do Norte. Com efeito, embora os "índios"
propriamente ditos não se aventurassem habitualmente a pescar em alto mar, existem
entretanto alguns exemplos de navegação ameríndia até a Europa. Assim, em 1153, durante
o reinado de Frederico Barba-Roxa, uma tempestade impeliu até Lubeck uma canoa de
ameríndios que se diziam vindos de um "grande país rico de peixes" — provavelmente a
futura "Tierra de Baccalaos" dos portugueses, a Terra Nova e o Labrador atuais, que se
encontram na mesma latitude que o litoral alemão do mar do Norte.
Aliás, os indígenas da Groenlândia, do Labrador e de outras regiões da América do
Norte, geralmente situadas acima do cabo Hatteras, naufragavam com freqüência em águas
européias. Entre 1150 e 1700, foram assim registrados trinta e sete casos de travessias
atlânticas, quase todas reveladas pela descoberta de caiaques vazios ou carregando cadáveres
de índios ou de esquimós nas costas da Noruega, das ilhas inglesas, do Oeste da Escócia,
das Novas Hébridas, da Islândia ou das Canárias. Ainda podem ser vistos restos dessas
embarcações, algumas das quais são indiscutivelmente pré-colombianas, no Museu
Etnográfico de Munique, no Museu de História Natural de Edimburgo, no Museu de
Aberdeen, na catedral de Trondheim na Noruega e na igreja de Bourre, em Orkney.
Primeiro em 1506, depois em 1509, pirogas monóxilas esquimós subiram o curso do
Sena até Rouen. Na segunda embarcação foram encontrados um indígena ainda vivo e
outros seis mortos. O único sobrevivente foi oferecido ao rei Luís XII que se encontrava
por acaso no Maine. Em 1562, outros indígenas foram lançados às costas da Bretanha e, em
1577, um caiaque esquimó vazio encalhou no litoral holandês. Humboldt menciona ainda
outros casos, um dos quais teria ocorrido em 1682 e o outro em 1684. Ele faz até
referência, nesta ocasião, ao caiaque esquimó intacto exposto, ainda no seu tempo, na sede
da Sociedade dos Pescadores de Lubeck.
Os cadáveres de ameríndios encontrados nas costas ocidentais dos Açores, antes da
viagem de Colombo, e a respeito dos quais o almirante ouvira falar, também comprovam a
possibilidade dessas navegações. O historiador espanhol Antônio de Herrera conta aliás
inúmeras aventuras do mesmo gênero. Contudo, embora os corpos atirados às costas da
Alemanha, da Holanda, da Noruega ou do estuário do Sena pertencessem todos eles a
esquimós, os corpos encontrados no litoral das Canárias eram sem dúvida de Peles-
Vermelhas, tal como o dos náufragos de Cornelius Nepos.
Com efeito, o "desembarque" de 62 a.C. teve não somente historiadores, entre os
quais Cornelius Nepos e Plínio, como também um ilustrador, na pessoa de um artista
anônimo, que compôs naquela ocasião uma sítula de traços extremamente característicos. É
pelo menos difícil explicar de outra maneira a não ser por esse acontecimento a estranha
forma do objeto que ostenta o número 826 na coleção de Edmond Durand, adquirida em
1825 pelo rei Carlos X para o Museu do Louvre. Aqui vai a descrição do mesmo, oferecida
por A. de Longpérier: "Busto de escravo com a cabeça toda raspada, orelhas grandes e
caídas. A parte superior do crânio se abre graças a uma articulação, formando tampa. Acima
das orelhas foram colocados anéis aos quais se ajusta uma alça móvel representando um
galho de árvore, com nós. Altura do objeto: 19,5 cm.
Por sua vez, Emile Egger e Ceuleneer, que se interessaram por esse bronze,
extraíram do mesmo as conclusões que se impunham. Ceuleneer escreve particularmente:
"Examinando-se (esse crânio), causam espanto os caracteres especiais que o distinguem. O
crânio é dolicocéfalo, a fronte é fugidia, as orelhas grandes e baixas com lóbulos aderentes;
as sobrancelhas são fortemente arqueadas, o nariz aquilino, as comissuras dos lábios são
ascendentes e os lábios grossos; o maxilar inferior é arredondado, e abaixo da região
occipital observa-se uma acentuada saliência. Várias destas características se tornam mais
visíveis quando a cabeça é examinada de perfil..." A idéia que tiveram Egger e Ceuleneer de
comparar esse objeto com os índios desenhados do natural pelo pintor e etnólogo
americano do século passado, S. Catlin, tornou possível deixar ainda melhor comprovada a
semelhança.
Todavia, o inventário definitivo dessas travessias deixa evidente que elas foram todas
inteiramente fortuitas. Existe entretanto, na América, um documento — e apenas um —
que fala à sua própria maneira de uma navegação voluntária para Leste. Estamos falando
das folhas 5 e 6 do Córdex Borbonicus dos maias-quichés que mostram em duas seqüências
sucessivas o vaivém transatlântico do "corajoso explorador de fontes". A despeito do excesso de
símbolos e figurações coloridas nessas duas imagens distingue-se claramente a grande
corrente que sai debaixo do trono do deus oceânico Atlanteotl. Na primeira imagem, o
herói, nu (isto é, ainda não adornado com as insígnias que sua façanha lhe há de valer),
deixa-se levar pela corrente. Na segunda, ele volta, remontando a corrente desta vez
ostentando todas as suas insígnias. Ora, descer com a corrente e depois tornar a subi-la — o
que indica que houve uma volta — significa utilizar o Gulf Stream. O nome do herói é
Chalchuilticué, o Explorador de Fontes.
Talvez seja também a esta luz que devam ser considerados certos esboços de
descobertas, como a que foi alvo durante algum tempo das atenções da imprensa em 1965.
Naquele ano, o americano Howard Sandotform se empenhou em provar que os nahuas,
antepassados dos astecas, tinham abordado diversas vezes as costas escocesas, no século
VII de nossa era. Mas as ruínas de Strechford, que serviam de fundamento para a sua teoria,
revelaram afinal que deveriam ser atribuídas, na verdade, aos homens dos megalitos.
Contudo, essas viagens transatlânticas têm, por sua vez, os seus paralelos — as
travessias, fortuitas e intencionais, do Pacífico.
HURONIANOS OCASIONAIS E INCAS VOLUNTÁRIOS
Em suas Cartas americanas, o conde Carli cita uma nota publicada em 1774 no Journal
des Sçavans cujo autor, o padre Charlevoix, relatava pessoalmente as palavras do abade
Crillon. Afirmava este último ter encontrado no Tibete uma huroniana da América do Norte que
atravessara o Pacífico. Ela tinha embarcado numa canoa com dois companheiros, igualmente
indígenas. Sobreveio uma tempestade que os atirou no litoral de uma ilha remota, a Oeste do
Pacífico. Após inúmeras aventuras, aquela mulher tinha finalmente chegado ao Tibete.
Por mais inverossímil que pareça de início essa história, é preciso observar que os
anais chineses se referem a muitas outras da mesma espécie, e multiplicam os pormenores.
Pode-se ler assim no capítulo IX do Y chien tchen Y, que no sétimo mês do ano 1150 do
calendário europeu uma embarcação estrangeira chegou a Fukien. Sua tripulação constava
de três homens e uma mulher, únicos sobreviventes de um naufrágio ocorrido ao longe, em
pleno oceano. A bordo de uma jangada improvisada, eles tinham chegado a uma ilha situada
a leste do oceano, onde haviam permanecido durante treze anos. Tinham então retornado
ao mar a bordo de uma nova embarcação, tomando o rumo de Fukien que um dos homens,
de origem chinesa, conhecia. Quando muito jovem ainda, esse chinês tinha sido arrastado por
uma tempestade até o litoral ocidental do Pacífico que finalmente tornara a atravessar. Sua
mulher e seus dois amigos eram índios da América. A travessia exigira sessenta dias, sem falar
evidentemente no interlúdio dos treze anos.
A embarcação tal como nos foi descrita (monóxila, sem balancim), a roupa dos
quatro viajantes (um simples pedaço de pano cobrindo o corpo), seu penteado (os cabelos
apanhados por uma fita que lhes cingia a fronte) o hábito de andar descalços, a cor da pele,
tudo finalmente parece apontar como ponto de partida da expedição o litoral do Canadá, a
ilha de Vancouver ou a costa sul do Alaska. De resto, os habitantes de Fukien que
navegavam com freqüência em direção à Nova-Guiné, ao Havaí ou às Carolinas, até então
nunca tinham encontrado "homens como aqueles" em suas viagens. Está fora de dúvida,
entretanto, que os chineses conheciam o caminho para Vancouver, pois foram ali
descobertas recentemente moedas, assim como um templo chinês da baixa Idade Média. R.
Hennig lembra que no século XIX, dez juncos japoneses haviam sido desviados de sua rota,
tendo ido dar na América. Kotzebue, em 1813, ouviu dos indígenas das Carolinas que
alguns dos seus tinham estado à deriva durante mais de oito meses antes de chegar
finalmente à ilha de Rabae.
Embora essas duas travessias tenham sido puramente acidentais, a história conserva
entretanto a lembrança de uma outra travessia do Pacífico, desta vez perfeitamente
deliberada, e que se inclui nas relações marítimas dos incas com a Polinésia. O primeiro
vestígio que chegou até nós é a cerimônia ritual a que se pode ainda hoje assistir na ilha de
Mangareva, do arquipélago das Gambier. Durante essa cerimônia guerreira, o lendário rei
Tupa dança com a cabeça coberta por uma máscara de madeira, no meio de homens
fantasiados, mascarados e armados de lanças. Segundo os anciãos, essa dança comemora a
chegada, há muito tempo, do rei Tupa e de seus companheiros nas fabulosas jangadas de madeira leve,
manobradas com o auxílio de tábuas que serviam de leme.
Fazendo um paralelo entre a cerimônia de Mangareva e certas lendas peruanas,
chegou-se a reconstituir o grande périplo inca. Verificou-se assim que o deus Tupa era na
realidade o Grande Inca Tupa Yupanqui (1450-1485) o qual, deslumbrado pelas narrativas
dos "mercadores e viajantes de mar afora" tinha organizado uma frota de quatrocentos
barcos e embarcara com alguns milhares de homens para uma viagem oceânica de nove
meses. A tradição inca nos fornece até o nome das ilhas que serviram de escalas: Acha ou
Achachumbi, Haguachumbi e Ninochumbi. Dessas ilhas, os incas trouxeram prisioneiros de
cor, ouro, prata, um trono de bronze, um couro e uma queixada de cavalo. O trono e as
relíquias do cavalo permaneceram expostos num templo de Cuzco até a conquista.
Existem ainda muitos outros vestígios das navegações ameríndias até a Polinésia.
Podem ser vistos, por exemplo, na ilha de Rapa, nas ilhas Marshall, Swallow, Marquesas, em
Mangareva e até nas Marianas ocidentais vestígios de construções terraceadas que lembram
singularmente os templos incas em degraus.
No Peru, esses lemes feitos de pranchas eram conhecidos como guarras. Girolamo
Benzoni (La Historia del Mondo Novo, Veneza, 1572), também descreve embarcações desse
tipo. Suas jangadas foram atualmente reconstituídas por Eric de Bishop. São perfeitamente
capazes de arrostar o mar, mesmo manobrando contra o vento.
De modo que vão transparecendo de maneira cada vez mais clara não somente os
talentos náuticos dos antigos como também a existência de um ir-e-vir permanente nas grandes
vias aquáticas do planeta, cujas diferentes seqüências se vão organizando até o desenrolar
completo do filme das grandes pulsões civilizadoras da história. Os mapas que
apresentamos a seguir visam a reconstituir com a maior clareza possível os momentos mais
importantes desse duplo movimento de onda de choque e de refluxo de maré.
A vaga de retorno. Navegações pré-colombianas em direção à América. (De um modo geral, os
périplos cuja realidade já não padece dúvida.) Os números entre parênteses indicam a ordem de antigüidade.



O Homem e o Paraíso

Os negros na América pré-colombiana

Navegadores da prova às avessas (de — 62 a 1500)

Os vermelhos na América. Hipótese de Ch. M. Boland

Supostas viagens de Brandan (século VI)

Os Vikings na América
A REALIDADE VEM DO SONHO
Isto tudo é certo. Deus, Nosso Senhor, deu-me a vitória, assim como a todos aqueles que seguem os
seus caminhos, neste empreendimento que parecia impossível. Embora outros tenham falado nessas terras,
faziam-no sempre hipoteticamente, sem jamais a terem visto; se bem que a maioria dos que ouviam falar
nesta questão tinham-na na conta de fábula.
CRISTÓVÃO COLOMBO Carta a Luís de Santangel, de 14 de fevereiro de 1493.
Lendas e tradições, narrativas ou testemunhos diretos, era tudo em vão. A América
continuava a não existir na consciência científica dos homens. Muito embora essa ausência
impedisse a realização da unidade geográfica do mundo, o pensamento europeu continuava
a ser governado por uma falsa unidade de princípio que os levava a só ver em regiões por
eles entretanto exploradas, como a Vinland viking, um prolongamento de seu próprio
mundo em direção noroeste, e não um continente isolado, radicalmente diferente.
A separação só se tornou concebível depois da integração oficial da América ao
universo conhecido e graças, particularmente, às observações de Vespucci. Contudo, para
transformar um conhecimento teórico em conhecimento prático, para fazer surgir a
realidade do sonho que a mantinha prisioneira há milênios, era preciso que um homem
vivesse aquele sonho de olhos bem abertos e o fizesse entrar na realidade dos outros. Eleito
pela história e a ela sabendo se impor, Cristóvão Colombo seria esse homem.
COLOMBO, O 23º. GRANDE PROFETA DE ISRAEL
"Não me vali nem da razão, nem de cálculos, nem de mapas-múndi. Realizou-se
simplesmente o que dizia Isaías".
CRISTÓVÃO COLOMBO Carta aos reis da Espanha
Colombo (Cristóvão), navegante genovês (1451-1506); chegou à América a 12 de
outubro de 1492.
Larousse de goche Paris, 1954.
O CARTÃO DE IDENTIDADE DE UM DESCONHECIDO
Navegador se não medíocre, pelo menos discutido, o homem que a 12 de outubro de
1492 chegou, não à América e sim a uma ilha do Atlântico situada a mais de 500
quilômetros do continente, ainda não esgotou as surpresas que reserva para quem quer que
resolva penetrar no labirinto incrível de sua biografia.
Provavelmente, pode-se lhe dar crédito quando escreve: "Achei o Senhor muito
propício a meu intento e, para isto concedeu-me ele espírito e inteligência. Fez de mim um
homem muito instruído em astrologia. Deu-me conhecimentos suficientes tanto em
geometria como em aritmética, assim como habilidade na alma e nas mãos, para desenhar
esta esfera e sobre ela as cidades, rios e montanhas, ilhas e portos, tudo em seu verdadeiro
lugar. Durante esse tempo, li e apliquei-me ao estudo de toda espécie de escritos dos
cosmógrafos, histórias, crônicas, trabalhos de filosofia e outras artes..." Não há aí nada que
nos possa esclarecer de verdade. Temos por isto de procurar elaborar um "cartão de
identidade" desse personagem enigmático.
Oriundo de família humilde, o descobridor da América tornou-se nobre por mercê
dos "reis católicos" Fernando de Aragão e Isabel de Castela, que lhe deram o nome com
que entrou na história. No relato da "descoberta" por ele enviado aos soberanos, o
almirante esclarece: "Neste mesmo mês de janeiro, ordenaram-me Vossas Altezas que
tomasse o caminho das Índias com uma frota suficiente; e para tanto concederam-me
grandes favores, tornando-me nobre e com isto autorizaram-me a me fazer tratar por Don".
Don Cristobal Colon. Ora, em Gênova nunca houve nenhum Colón. O homem que nasceu em
Gênova — e seus admiradores cruzariam espadas para sustentá-lo — chamava-se
Colombo, Christoforo Colombo. Além disso autores da época como Gonzalo Fernandez de
Oviedo y Valdés ou o português Barros chamam-no exclusivamente Colom. Deste último
nome, o grande biógrafo moderno de Colombo, Salvador de Madariaga, cita a forma
italianizada Colomo. Estamos portanto diante de quatro nomes para um único homem:
Colón, Colombo, Colom, Colomo.
Se nos voltarmos agora para seu biógrafo mais autorizado, seu filho don Ferdinando
Colombo, ficaremos sabendo apenas que: "Para adaptá-lo à pátria onde ia viver e tomar
novo estado, ele poliu o seu nome à maneira do antigo e se fez chamar Colón; o que me
leva a crer que, assim como quase tudo que ele fazia era cercado de mistério, também com
relação à sua mudança de nome e de prenome deve ter havido com certeza algum mistério."
De modo que não podemos deixar de registrar o nome que usava ao morrer: Don Cristobal
Colon.
Tendo chegado a esta altura, surge entretanto uma outra questão. Tratando-se de um
nome adotado, será conveniente, com efeito, perguntar se ele tem um significado e qual
seria. Ora, o cronista da época, Bartolomé de Las Casas, escreve a esse respeito que "para
cumprir o desígnio divino, o Almirante usava um nome que bastava para indicar a sua
missão". De fato: Christoforo = Christo Foros, "aquele que carrega o Cristo", por conseguinte,
o introdutor do cristianismo em novas terras e Colón = o colonizador. Colombo assinava-se
aliás, em latim, Christum ferens. Observe-se, de passagem, que Colombo fabricou esse nome
para si mesmo antes de partir, antes mesmo de tomar contato com os soberanos espanhóis, revelando
com isto uma fé inabalável em si mesmo e na sua missão. A data do seu nascimento é
igualmente enigmática. André Bernaldez, amigo de Colombo, capelão da expedição e, mais
tarde, seu cronista, a quem o almirante confiaria seu diário de bordo, dá preferência à mais
antiga das dezesseis datas possíveis quando escreve: "O dito almirante Don Cristobal Colón,
de maravilhosa e nobre memória, nascido na província de Milão, estando em Valladolid em
1506, no mês de maio, morreu senectude bonna, descobridor das Índias, com a idade de
setenta anos aproximadamente." Subtraindo, temos: 1506 — 70 = 1436.
Das declarações do próprio Colombo em seu diário de bordo, em 1492, e depois
numa carta de 1501, depreende-se que sua primeira navegação data de 1461. Mas em outra
carta escrita a Fernando e Isabel e enviada da Jamaica a 7 de julho de 1503, ele afirma que
acabara de completar vinte e oito anos quando entrou para seu serviço, em 1483. Teria
assim nascido em 1455. Mas como as suas primeiras atividades ocorreram aos quatorze
anos, temos também: 1461 — 14 = 1447. Data que tornaremos a encontrar se nos
lembrarmos das palavras do almirante segundo as quais em 1483 ele já teria vinte e três anos
de navegação, tendo sempre começado aos quatorze anos. Com efeito, 1484 — 23 = 1461 e
1461 — 14 = 1447. Contudo, outros extratos de sua correspondência demonstram que ele
tinha exatamente trinta anos quando chegou à Espanha. De modo que, 1483 — 30 = 1453.
Outros cálculos forneceram igualmente a data de 1451, que foi a adotada pela maioria de
seus biógrafos.
Tamanha confusão nos leva a perguntar se, tal como o nome, a data de seu
nascimento não teria sido escolhida com algum objetivo demonstrativo ou mágico. O que
teria sentido particularmente no caso da data mais geralmente aceita, entre 26 de agosto e 31
de outubro de 1451 — e muito provavelmente por volta do fim de setembro de 1451. O
almirante teria então nascido sob o signo de Libra que era, naquele tempo, interpretado da
seguinte maneira: "Aquele que nasce de meados de setembro até meados de outubro será
muito poderoso. Encontrará valor e honra ao serviço dos capitães. Caminhará por muitos
lugares desconhecidos e ganhará em terra estrangeira..." De modo que Colombo teria tido a
vantagem de ser designado pelo próprio céu para desempenhar aquela missão. Além disso, a
data de nascimento do navegador estaria assim em posição de equilíbrio — exatamente no
meio — entre as de seus empregadores Isabel (22 de abril de 1451) e Fernando (2 de março
de 1452).
Temos ainda de determinar o lugar do nascimento e a nacionalidade do almirante.
Escreve Oviedo: "Segundo me informaram pessoas de sua terra, era (ele) originário da
província da Ligúria, na Itália, onde ficam a cidade e a senhoria de Gênova; afirmam uns
que ele é de Savona, dizem outros que é de uma pequena aldeia chamada Nervi, que fica do
lado do nascente, no litoral marítimo, a duas léguas da costa de Gênova, considerando-se
porém mais certo que ele viera de um lugar chamado Cugureo..." Nas cartas de Pierre Martyr,
publicadas na Espanha pouco depois da descoberta, fala-se em Cristoforo, genovês..." e Las
Casas declara não estar muito seguro quanto ao lugar em que nasceu o almirante... Quanto ao
próprio Colombo, ele jamais escreveu alguma coisa de seu próprio punho que possa levar a admitir que fosse
originário de Gênova. Don Ferdinando Colombo, seu filho, é extremamente obscuro quanto a
este ponto. "Há pessoas, escreve ele, que de certa maneira pretendem obscurecer sua fama;
declaram assim que ele é de Nervi, outros dizem que de Cugureo; outros, de Bugiasco,
vilarejos costeiros das proximidades de Gênova; outros, desejosos de exaltá-lo ainda mais,
dizem que era de Savona; e outros, genovês; e outros, ainda menos temerosos da inexatidão,
querem que ele tenha nascido em Plasência, onde existem pessoas muito honradas de sua
família e túmulos com armas e epitáfios dos Colombo...”
Seis nomes em cinco linhas, depois de pesquisas in loco, e nenhum pelo qual se possa
optar, nem em Gênova nem na região, tornam mais do que improvável que se venha hoje a
descobrir a verdadeira pátria de um homem cujo próprio filho ignorava onde ele tinha
nascido.
A genealogia genovesa do almirante apresenta-se, entretanto, à primeira vista, com
muita clareza.

Giovanni Colombo era originário da aldeia de Moconesi, no vale de Fontavabuana e
viveu em Quinto, arrabalde de Gênova. Domênico Colombo, a princípio aprendiz e depois
mestre tecelão foi mais tarde guarda da torre da porta Deil'Olivella, em Gênova. Se
Colombo não é genovês, depreende-se que os documentos relativos à sua família são
apócrifos — o que não é impossível — ou que o Colombo nascido em Gênova não tinha
relação alguma com o que descobriu a América.
Existem inclusive algumas hipóteses relativas ao nascimento do almirante,
decididamente antigenovesas. De acordo com o Lorenzo Bradi, ele teria sido corso. Houve
até quem visse nele o filho ilegítimo do almirante corsário francês, Caseneuve-Coullon, ou
mesmo o próprio almirante. Finalmente, o exame de seus papéis demonstrou que ele
escrevia muito mal o italiano, e redigia suas notas as mais das vezes em latim à maneira de
alguém que pensasse em castelhano, o que levou a lhe atribuírem uma origem espanhola.
Na verdade, o que se pode afirmar é que a hipótese admite um número de contradições
superior à sua capacidade. Estamos com efeito, diante de um italiano que, como
demonstrou Salvador de Madariaga, lê italiano mas praticamente não o escreve, que sabe
espanhol muito antes de chegar à Espanha, e cujo latim, aprendido antes de sua
permanência em Portugal, é o de um espanhol autodidata.
Será preciso imaginar um Colombo italiano cuja língua materna seria o espanhol, um
Colombo espanhol nascido na Itália? Ou estaríamos lidando com dois Colombo ou com um
homem que se cerca de mistério por ter necessidade de ocultar sua origem judaica? M. Gaya y
Delrue, que propôs com estardalhaço a primeira dessas hipóteses faz notar que "todos os
biógrafos de Colombo observaram que o almirante, a partir de 1485 e de maneira ainda
mais precisa depois de 1492, dá a impressão de não conhecer muito bem o seu próprio passado
sobre o qual ele conta uma espécie de fábula muito mal decorada". Isto poderia sugerir,
com efeito, a hipótese de uma origem genovesa assumida por alguém que não era de modo
algum italiano. Ficariam assim explicadas a sua ignorância da própria "língua materna"
manifestada pelo almirante, assim como as grosseiras contradições entre as diferentes
reminiscências por ele evocadas sem se preocupar absolutamente com a coerência.
O próprio Colombo escreveu em carta dirigida à ama do príncipe Don Juan de
Castela: "Eu não fui o primeiro almirante de minha família".
Para seu amigo Bernaldez, Colombo era dotado da mais viva imaginação. Menos
complacente, o português Ruy de Pina o descreve como um indivíduo que "ia sempre além
dos limites da realidade no relato de seus próprios negócios".
A articulação entre os dois Colombo nos poderia ser fornecida pela história de um
naufrágio. Ainda muito jovem, aquele que iria descobrir a América toma parte numa
escaramuça naval. Promovido a almirante, ele a relata nos seguintes termos aos soberanos
espanhóis: "Certo dia o rei René, que Deus agora chamou para seu lado, me enviara à Tunis
para me apoderar da galeota Feráinanãine; ora, ao nos aproximarmos da ilha de Saint-Pierre,
na Sardenha, fiquei sabendo que havia duas naus e uma carraca com a galeota. A tripulação
então se agitou e decidiu não continuar a viagem. Vendo que eu não poderia modificar a
disposição de meus homens, concordei com seu pedido e, mudando a atração da agulha,
(isto é, alterando a indicação da bússola), nós nos fizemos à vela ao cair da noite e no dia
seguinte ao amanhecer estávamos perto do cabo de Cartagena..." A história é extremamente
ilustrativa, mostrando-nos um Colombo astuto, corajoso, bem marinheiro, e que, alguns
anos depois, sob as ordens de Caseneuve-Coullon, irá bater-se contra Gênova. Arrosta então,
perto do cabo Saint-Vicent uma tempestade da qual ele é ou não um dos raros sobreviventes.
Foi então que o falso Colombo, que estaria no mesmo navio, teria substituído o verdadeiro
— o genovês — de quem seria confidente, apossando-se de "seus papéis enquanto o
verdadeiro Colombo morria ou desaparecia de uma maneira qualquer. Nesse caso, o
homem que realmente se chamava Cristóvão Colombo teria morrido no dia 16 de abril de
1476, dezesseis anos antes da descoberta da América! Quanto ao almirante, tratar-se-ia de
um impostor cujas origens permanecerão sempre desconhecidas. Cinco, pelo menos, das
dezenas de historiadores que escreveram sobre Colombo nestes últimos cinqüenta anos
consideraram esta explicação para a dupla personalidade de Colombo.
A outra hipótese — tida por Salvador de Madariaga como muito mais séria e que lhe
foi apresentada pela primeira vez pelo historiador espanhol Don Vicente Paredes — é a da
origem judaica do almirante. De acordo com essa interpretação, teria ele nascido da ilustre
família de conversos (judeus convertidos) dos Santa Maria, a que se referiria o nome de sua
futura nau-capitânea. Para Garcia de La Roega, Colombo seria mesmo um judeu da Galiza
pertencente à família de "conversos" do Colon que abandonara a Espanha por volta de
1444 e cujo patriarca se chamava Domingo — como o italiano Domênico Colombo, —
sendo os dois filhos Cristobal e Bartolomé Colombo... Chegou-se mesmo a afirmar que a
família Colón teria deixado a Espanha muito antes, em 1391. A este respeito, observa
Madariaga: Um Colón judeu resolve o problema. Observe-se a sua extrema mobilidade,
assim como a de seu irmão Bartolomé. Este fato, em si, constitui uma simples indicação.
Naquela época, a Espanha e Portugal estavam cheios de genoveses que continuavam
genoveses. Colón foi português em Portugal e castelhano em Castela. Bartolomé, seu irmão,
demonstrará a mesma capacidade de adaptação”
Alguns escritos do almirante, certas notas à margem de leituras tornam entretanto as
coisas um pouco mais claras. O que há de mais importante é o Mayorazgo (Majorato) de
1498, em certo trecho do qual Colombo dá explicações sobre a sua assinatura: "Don Diego,
meu filho, escreve ele, ou quem quer que venha a herdar este majorato, depois de o herdar e
de obter a sua posse, há de assinar com a assinatura que utilizo agora e que consiste num X,
tendo um S por cima e um M, com um A romano por cima e ainda em cima um S, e depois
um Y com um S por cima com seus traços e vírgulas como faço agora... E só assinará o
almirante, ainda que o rei lhe conceda, ou que ele faça jus a outros títulos!”
Recentemente, o historiador argentino R. Pineda-Yanez julgou ter encontrado uma
explicação para a origem genovesa atribuída ao almirante numa observação de ordem
lingüística. Colombo teria sido um judeu convertido (yinoves em idioma da Galiza), filho de
um marinheiro galego. Ora, "ginoves" se aproxima bastante da palavra espanhola, que
designa os naturais de Gênova, genovês.
Os historiadores cristãos do almirante retranscreveram de maneira extremamente
incorreta a posição dessas letras e acrescentaram alguns pontos. O objetivo dessa
falsificação era estabelecer que as abreviações significavam:
. S Senor
. S. A. S
. Su Alta Senora
. X.M.Y. Excelente, Magnífico e Ylustre.
O alinhamento que acabamos de reproduzir era o dos títulos honoríficos nos
documentos da época e não explica de maneira alguma nem a figuração triangular que se
encontra no Maycrazgo, nem a seu texto (um M encimado de um A romano e também em
cima um S para a linha vertical do meio).
Na realidade, não se admite nenhuma dúvida. Na disposição que lhes era conferida
pelo almirante, essas letras reproduziam a Estrela de Davi e constituem, quanto ao sentido e
tal como demonstrou Maurice David, um Kaddish, inscrição benfazeja que o desconhecido
chamado Colombo talvez utilizasse para aplacar seus remorsos de "converso". O professor
de história judaica, J. R. Marcus propõe o seguinte texto para esse Kaddish:
SHADAI - SHADAI - ADONAI - SHADAI - YAHWH - MALE – CHESED, o
qual constitui uma invocação guerreira ao Deus santo e o único, o Deus dos exércitos do
Antigo Testamento.
Assim como em seus cálculos sobre a idade do mundo, Colombo confiava
exclusivamente na velha tradição judaica, ele jamais deixava de traçar em cada uma das
páginas mensagens que enviava a seu filho, e sempre no mesmo lugar, um monograma formado
pelo entrelaçamento das letras hebraicas Beth e Hai que é pura e simplesmente o Borush
Hashen, antiga fórmula de saudação e bênção judaica. Observe-se que o almirante só a
empregava em cartas de caráter confidencial.

Antes de concluir, mais um pormenor, descoberto pelo doutor Cecil Roth. A frota de
Colombo levantou ferros no dia 3 de agosto de 1492, antes do amanhecer. Ora, no
calendário hebraico, essa data corresponde à da noite de 9 ab — dia de luto e jejum,
aniversário da tomada de Jerusalém pelo imperador Tito. E se a frota não partiu no dia 2 de
agosto, quando já estava tudo pronto, foi sem dúvida porque quem trabalha no dia 9 ab não
tem direito à bênção, não podendo, portanto, contar com nenhum sucesso. E dessa bênção
tinha grande necessidade o almirante que, numa carta aos reis da Espanha, por um estranho
lapso, fizera coincidir o consentimento dado à sua viagem e a expulsão dos judeus da
Espanha.
Pretendeu-se, muitas vezes, ver no conhecimento profundo que tinha Colombo das
Escrituras e sobretudo dos textos hebreus apócrifos, assim como em seu grande interesse
pela Cabala, os indícios de um cristianismo ardente que o levaria a ingressar na ordem dos
franciscanos depois de sua volta a Cadiz. Mas isto representa apenas uma parte dos
conhecimentos de Colombo que também provinham de fontes tipicamente judaicas e não
exclusivamente religiosas, como demonstra a sua familiarização com a História dos Judeus de
Flavius Josephus, a que ele faz referências até em suas cartas aos soberanos.
Terminando, lembremos a jactância com que o almirante está constantemente a
chamar a atenção para o fato de que — a exemplo de Davi que serviu ao mesmo Deus —
saindo da mais humilde das situações sociais, ele adquiriu títulos que somente os reis podem
outorgar, e teremos de convir que ele difere singularmente da imagem apresentada pelas
notas biográficas habituais.
AS VIAGENS
Costuma-se afirmar que Colombo realizou quatro viagens transatlânticas, que se
sucederam de 1492 a 1504. Também isto é inexato. Na realidade, foram cinco as viagens
empreendidas pelo almirante, e a que se costuma esquecer foi justamente a primeira. Com
efeito, antes de navegar até as Lucaias em 1492, Colombo tinha ido quase que até a
Groenlândia, seguindo a trilha dos irmãos Zeno.
É aliás possível que a escolha pelo almirante do hábito dos discípulos de São
Francisco tenha correspondido ao pagamento de uma dívida de gratidão. Desta maneira
teria Colombo agradecido à ordem que lhe confiara muito tempo antes de sua partida, na
época em que ele estava reunindo a sua documentação, os mapas marítimos onde aparecia, o
traçado do "caminho perdido" que levava ao Novo Mundo. Devemos esta observação a C.
Bessonnet-Favre que, em seu livro Jeanne d'Arc, tertiaire de Saint-François (Paris, 1895), conta
que, "em seus arquivos, os franciscanos haviam encontrado os mapas náuticos que alguns
anos mais tarde foram confiados a Colombo".
A história oficial limita-se a apontar que, em 1476, Colombo saíra de Lisboa para
Bristol, na Inglaterra, porto ligado por rotas regulares a Gallway, porto irlandês. Por sua
vez, os pescadores de Gallway iam freqüentemente até a Islândia. Don Ferdinando
Colombo e Las Casas mencionam a seguinte afirmação do almirante: "Em fevereiro de
1477, eu naveguei 100 léguas adiante da ilha de Thulé. A parte meridional dessa ilha se
encontra a 73º de latitude N. e não a 63º como afirmam alguns. Essa ilha também não está
situada no meridiano que lhe foi atribuído por Ptolomeu e que encerra o nosso continente e
sim bem mais ao Sul. Para essa ilha, que é do tamanho da Inglaterra, dirigem-se
habitualmente os mercadores ingleses, sobretudo os de Bristol. Quando eu ali me encontrava, o
mar não estava gelado.
Na certa, as coisas teriam ficado por aí se, em 1961, A. Bernardini-Sjoestedt não
tivesse resolvido dedicar uma atenção maior que a até então concedida ao exemplário de
Colombo da Historia rerum ubique gestarum de Piccolomini (o papa Pio II), publicada em
Veneza em 1477. Ali encontrou, com efeito, à margem de uma nota referente aos chineses
(Seres, em latim) e escrito pelo próprio Colombo: Nota et de Seres multa nobis spectantibus; cuja
tradução e decodificação deviam dar: Vimos muitas coisas entre os chineses

De modo que o lugar onde Colombo "viu muitas coisas entre os chineses" situa-se a
7º de longitude Oeste da ilha Hiero, no arquipélago das Canárias, considerada como
meridiano zero, e a 78º de latitude, o que corresponde efetivamente a 849 y 8 ou 849,8
gnomons. [O gnomon é uma espécie de grande estilete de que se valiam os astrônomos
para avaliar a altura do sol, servindo também para calcular a latitude.] Quanto aos
"chineses", tratava-se simplesmente de esquimós.
Foi esta a primeira viagem de Colombo, e um de seus segredos. É até possível que
tenha sido o encontro com os esquimós que o tenha confirmado em sua disposição a
chegar à China navegando quase que em linha reta da Espanha para Oeste. A simples
viagem de ida dessa expedição comportava nada mais nada menos que 6.500 quilômetros
(sendo que mais de 3.800 de Bristol até a Groenlândia), vale dizer mais que a viagem de
descoberta, e em águas muito menos seguras.
Para conhecer o marinheiro que foi Colombo, o melhor é ainda dar-lhe a palavra, a ele
mesmo e a alguns de seus contemporâneos. Em carta dirigida aos soberanos em 1501, ele
escreve: "Li todos os livros de cosmografia, história, filosofia, e outras ciências, para que
Nosso Senhor abra minha inteligência com mão tangível de modo que eu possa navegar
daqui até as Índias e ao executá-lo apliquei toda a minha vontade..." E Miguel de Cuneo,
companheiro da segunda viagem: "Desde que Gênova é Gênova, jamais nasceu homem tão
magnânimo e douto na arte de navegar quanto o senhor Almirante. Quando navegava,
bastava-lhe ver uma nuvem ou estrela noturna para indicar a rota que devíamos seguir;
quando havia mau tempo, ele próprio comandava e segurava pessoalmente o leme". Não é
esta entretanto a opinião de um de seus pilotos, Martin Alonso Pinzon, para quem
Colombo não passou de um marinheiro insignificante e cartógrafo bastante medíocre. E é
indiscutível que se mostra com freqüência um esboço autografado pelo almirante,
representando a 15º costa setentrional do Haiti, desenhada de maneira muito pouco
rigorosa, mesmo para a época.
Samuel Eliott Morisson está entretanto convencido do "alto" saber do almirante em
questões de navegação astronômica. Para tanto, ele se baseia no Diário de bordo de
Colombo, no qual este não parece ter sabido determinar com exatidão uma simples latitude
valendo-se, como se costumava fazer, da observação meridional do sol, que os árabes
praticavam há séculos. Durante as suas duas últimas viagens, Colombo realmente procedeu
a muitas observações polares corretas; não acontecera porém o mesmo durante a viagem de
descoberta. Finalmente, diversos autores como Pereira da Silva, Lawrence Wroth, Alberto
Magnani, Chrichton Mitchell, S. de Ispizua, A. F. da Costa, E. D. Alberts etc. observam a
mesma ausência de conhecimentos marítimos em Colombo. Todavia, essa carência diz
respeito sobretudo ao sentido prático da navegação.
Nenhuma dessas críticas era de molde a preocupar o almirante. Não tinha ele
descoberto a América navegando "à sua maneira"? E compreende-se então que, para
Colombo, a inspiração viesse menos de cálculos ou, por exemplo, do mapa desenhado em
1474 por Toscanelli e de que ele tomara conhecimento pelo menos desde 1480, que da
Bíblia. E mais particularmente do livro apócrifo do profeta hebreu Esdras que ele conhecia
quase de cor, e que foi o verdadeiro guia de suas navegações.
Esdras tinha escrito:
41. No segundo dia, criastes o firmamento e lhe ordenastes que separasse as águas das águas; de
sorte que uma parte se elevasse acima do firmamento e que a outra parte se colocasse abaixo.
42. No terceiro dia, ordenastes que as águas se reunissem na sétima e deixastes a seco as outras seis
partes, e destinastes algumas delas a serem cultivadas por vossas próprias mãos.
E Colombo, que acreditava cegamente neste texto, baseara todos os seus raciocínios
na idéia de que estando o sétimo de água igualmente distribuído entre as duas metades do
globo, a distância que separava a Espanha da Índia constituía um sétimo da circunsferência
da terra, isto é, 368/7, sendo que um grau mede 50 milhas. O que dava:
51 X 50 = 2.550 milhas ou 6.375 léguas.
Ora, por incrível coincidência, e a partir de um cálculo errado, Colombo chegou a
determinar exatamente uma distância real. Acrescente-se que ele cometera até um segundo
erro calculando em milhas italianas, inferiores às milhas árabes de Toscanelli, o que fizera o
comprimento do grau passar de 56,66 para 55 milhas na altura das Canárias. "O fim da
Espanha e o começo da Índia não ficam distanciados demais" escrevia ele, atendo-se à
distância assim determinada. E de fato, ele iria encontrar ilhas exatamente onde imaginara que
encontraria as Índias.
Os membros da comissão real criada para examinar a proposta de Colombo lhe
haviam imposto alguns prazos, justamente em virtude do caráter pouco científico de sua
demonstração. E temos de realmente convir que, misturando de maneira tão ininteligível
quão apaixonada Toscanelli e Esdras, Marco Polo e Isaías, ele podia passar perfeitamente
por um iluminado. No entanto, descobrindo o Novo Mundo exclusivamente com a ajuda
de Esdras, Colombo iria provar o erro dos sábios. Quanto aos seus próprios erros, ele não
lhes atribuía grande importância, e escrevia aos soberanos espanhóis. "Gostaria de vê-los,
naquela viagem. Creio que os espera uma outra viagem exigindo conhecimentos diferentes.
Não existe outra, para os que participam de nossa fé". Como deixar de ver numa declaração desta
natureza a força indomável daquele que sabe que sabe, a verdadeira força dos profetas?
"AQUELE QUE CARREGA O CRISTO" ENTRE JAKIN E BOAZ
Pensa-se geralmente na descoberta da América como numa descoberta espanhola.
Mais uma vez, isto é uma simplificação excessiva da verdade. Para nos convencermos,
temos apenas de considerar a lista das três tripulações e o documento oficial relativo à
subscrição indispensável ao armamento da frota. Formadas com muita dificuldade, as
tripulações eram profundamente heterogêneas. Compreendiam bascos, andaluzes, alguns
"conversos" e certo número de estrangeiros; fidalgos arruinados e condenados à morte com
penas supensas com a condição de que eles se engajassem sob as ordens do almirante. Ao
todo, oitenta e sete homens, sendo que trinta e nove no Santa Maria, vinte e seis no Pinta e
vinte e dois no Nina. Tudo leva a crer que nem mesmo este número tenha sido escolhido
por acaso, considerando-se o apego do almirante pela Cabala e pela navegação astronômica.
Finalmente, Colombo levava um intérprete, também judeu "converso", Luís de Torres, que
falava hebreu, caldeu e árabe.
A nau capitânea era a antiga Gallega do capitão Juan de Cosa, que recebera um novo
nome. O capitão permanecera a bordo, na qualidade de oficial e Colombo se
responsabilizou pela devolução do navio. Ignora-se o primeiro nome do Pinta, cujo
comandante era Martin Alonzo Pinzon. O Nina, o menor dos três navios, sob o nome de
Santa Clara, pertencera aos irmãos Nino, de Paios, vindo daí o seu novo nome. Um de seus
ex-proprietários, Juan Nino, participou aliás da expedição em sua própria caravela, como
imediato de Vicente Yanez Pinzón. Por esses pormenores pode-se avaliar até que ponto
essa frota fazia efetivamente jus ao seu cognome de "Frota Aventureira".
O financiamento da expedição também suscitou problemas delicados e exigiu uma
grande soma de esforços individuais, sendo que alguns dos mais proveitosos foram
indiscutivelmente os de Pinzon. Os gastos foram finalmente divididos entre a coroa
espanhola e a cidade de Gênova. Mas, neste como em outros pontos, as coisas são menos
simples do que parecem. De certa forma, teria sido bom demais que soberanos servidos por
um "genovês" se associassem à pátria do mesmo, para pagar os dois milhões de maravedis
indispensáveis ao aparelhamento das três caravelas.
Na verdade, a parte que caberia à cidade de Gênova havia sido subscrita por
banqueiros "conversos" italianos, estabelecidos na Espanha. O que proporcionaria ao
almirante uma oportunidade para escrever, no dia 2 de abril de 1502: "Mui nobres senhores,
embora meu corpo aqui se encontre, meu coração permanece continuamente lá." "Lá", isto
é, em Gênova. A outra metade, a "da coroa", foi adiantada pelo banqueiro Luís de
Santangel, "converso" de pouco tempo, oriundo de uma família judaica da Espanha e que
ocupava o cargo de secretário do rei de Aragão. E, o que é espantoso, esse benfeitor
concedeu aos soberanos juros excepcionalmente baixos de 1,5%. Será mister ver aí uma
coincidência, ou o fruto de uma conivência mais profunda entre "conversos"?
Lendas das mais romanescas circularam naturalmente nos bastidores da expedição.
Uma delas chegava a afirmar que a rainha havia empenhado as suas jóias para levantar o
dinheiro necessário para equipar as embarcações. Na realidade, a coroa espanhola fez um
excelente negócio. O pouco dinheiro que aplicou na expedição lhe valeu a um só tempo o
ingresso em seu século de ouro e transformou a Espanha em grande país civilizador, a
despeito de todas as restrições que possam ser feitas aos métodos utilizados.
Quando, depois de 1515, os espanhóis avaliaram a extensão desse benefício, eles
passaram a celebrar a descoberta do Novo Mundo de diversas maneiras. Assim, em 1520,
ofereceram a seu jovem e poderoso soberano, o imperador Carlos V, um escudo
representando essa descoberta numa alegoria cujo personagem era o próprio Hércules
sustentando as suas duas colunas. Com toda a certeza, Colombo teria sorrido ao ver esse
escudo feito de ouro americano, pois sabia que, segundo a tradição, aquelas duas colunas
são o Jakin e o Boaz do Templo, desse Templo que, para ele Colombo, continuava à espera de
que o libertassem, o reconstruíssem. De resto, quem deveria ter sido representado pelo
artista não era Hércules e sim Colombo a substituir as duas colunas.
Essa declaração "genovesa" do almirante é ao mesmo tempo por demais tardia e
excessivamente circunstancial para que possa servir como prova da origem italiana de quem
a assina. Da mesma forma, o ato redigido em Sevilha a 22 de fevereiro de 1498 e que inclui
as palavras "tendo nascido em Gênova", é geralmente considerado apócrifo.
SHADAI, SHADAI, ADONAI
Costuma-se atribuir a Colombo duas descobertas: a do Novo Mundo (na realidade,
de ilhas situadas a uma distância relativamente grande do continente), e a do fenômeno da
declinação magnética. Essa última descoberta teve uma grande importância científica.
Observar que a bússola que geralmente indica uma direção ligeiramente a leste do pólo,
aponta o oeste ao mudar a direção do eixo do navio, representava uma observação
extraordinária. Explicá-la era uma audácia. Para aplacar as preocupações de seus homens,
Colombo teve de recorrer à sua genialidade. Explicou-lhes que a responsabilidade toda
cabia à estrela polar, que era ela que se movia e não a bússola. O essencial é que, de seu
lado, ele vira muito bem que a agulha imantada se volta para o pólo magnético e não para o
pólo geográfico. Historiadores e geógrafos maravilharam-se durante muito tempo com a
nota do diário de bordo do dia 30 de setembro de 1492, onde relatava essa descoberta. Com
isto, esqueciam simplesmente que os portugueses já conheciam esse fenômeno e até
dispunham de um pequeno instrumento que servia para fazer a correção.
É preciso, mais uma vez, procurar alhures a verdadeira descoberta de Colombo. O
que ele descobriu, e esse mérito foi todo seu, foi o caminho de volta que, somado ao itinerário
das Canárias às Lucaias, representa a chave da navegação atlântica. A este respeito, diria
Gonzalo Diaz: "Sem o almirante, as Índias não teriam sido descobertas. Foi ele quem
encontrou o caminho de volta pelo Norte. "Fazendo notar que Colombo realizara em
algumas semanas e de uma só vez aquilo que os espanhóis levariam quarenta e cinco anos
(que decorreriam entre a viagem de Magalhães e a de Urdanea) a fazer com relação ao
Pacífico, escreveu M. Nunn: "Na verdade, Colombo não fez uma descoberta e sim três. A
descoberta das duas rotas oceânicas passou entretanto despercebida por ter sido eclipsada
pela descoberta da terra.”
Destinado a grandes empreendimetos, o almirante soube escolher um deus capaz de
guiar seus passos em direção a uma glória eterna. Esse deus, era preciso que ele fosse não
somente santo e único: tinha de ser também poderoso. Foi o Deus dos Exércitos.
O TEMPLO E O PARAÍSO
Uma biografia tão "adulterada", com tantos pormenores essenciais mal conhecidos
explica por que motivo os verdadeiros objetivos de Colombo em sua viagem deixaram de
ser registrados de maneira mais completa pela história. Pode-se entretanto descobrir esses
objetivos nas Capitulações de 17 de abril de 1492, onde são estipuladas as condições do
empreendimento.
Conhecido com o nome de Capitulações de Santa Fé, esse documento traz duas
assinaturas: a de Colombo (aqui Colón) e a de Coloma, o alto funcionário da coroa que, em
março do mesmo ano, referendara o ato que expulsava os judeus da Espanha. Verdadeiro
auto em que ficavam especificados os direitos e deveres de ambas as partes, marcado no fim
de cada parágrafo pela fórmula "assim apraz à suas altezas" o texto se refere de fato a "ilhas
e continentes a serem descobertos", mas talvez não se tenha salientado suficientemente que
em momento algum se faz a menor referência às Índias. Por outro lado, como observa Salvador de
Madariaga, nele se fala em recompensas devidas ao almirante "pelo que descobriu em mares
oceanos e pela viagem que está agora empreendendo...”
Impõe-se portanto uma pergunta: o que teria descoberto o almirante antes de partir?
Sem dúvida, ele repetia em toda parte — e antes de tudo, para os oficiais espanhóis a fim de
melhor convencê-los — que navegando continuamente em direção ao Oeste, ele chegaria
forçosamente às Índias mas, como vimos, o seu "contrato" não faz a menor alusão a isto.
Temos portanto de nos convencer de que o objetivo visado era menos a Índia fabulosa,
constantemente presente nos sonhos da época, que o próprio paraíso terrestre, a terra dos
bem-aventurados a que sempre se referiam as velhas lendas.
Prove-o! Hão de dizer-nos. Vamos ouvir antes de tudo o almirante e acompanhá-lo
na gênese de sua inspiração visto como as suas relações com o paraíso precederam a viagem
de 1492 e lhe deviam sobreviver. Os primeiros indícios que encontramos são as suas
anotações à margem da Ymago Munãi do cardeal d'Ailly (Petrus Alliacus), incunábulo
impresso em Louvain entre 1480 e 1483. Ao lado do trecho em que d'Ailly descreve aquilo
que devia ser a terra ideal, especificando que "é provável que o paraíso terrestre fosse uma
região deste tipo e o mesmo deve acontecer com o sítio a que os autores dão o nome de
ilhas Afortunadas" podemos ler escrito pelo próprio punho do almirante: "O paraíso
terrestre é certamente o lugar a que os antigos davam o nome de ilhas Afortunadas". E,
mais adiante, quando o cardeal prova a impossibilidade de uma identificação entre essas
ilhas e o Éden, Colombo anota a contragosto: "Erro dos gentios que afirmavam serem as
ilhas Afortunadas o paraíso em virtude de sua fertilidade." Ainda noutra altura, a propósito
de um comentário de d'Ailly sobre os quatro rios do paraíso mencionados na Bíblia,
Colombo escreveu: "Uma fonte do Paraíso". Era um ponto de partida para a sua fonte da
Juventude. Mais adiante, porém, quando d'Ailly se refere às nascentes do Eufrates que
segundo constava saía do paraíso, Colombo se cala. Não faz mais nenhuma anotação.
De modo que Salvador de Madariaga pode fazer notar com muita justeza: "O silêncio
de Colombo quanto a este ponto de crucial divergência entre os fatos e a fé pode ser
interpretado como um estremecimento do seu sentido crítico". Porém, a explicação mais
provável para a reação de Colombo talvez se explique pelo fato de d'Ailly ter colocado o
paraíso na Ásia quando ele, Colombo, sabia que ele ficava do outro lado do mundo, a Oeste.
Se não, como explicar que, à margem de outra passagem referente a regiões situadas para
além do Capricórnio, ele tivesse escrito: "Para lá do Trópico de Capricórnio ficam as mais
belas paragens pois é lá que se encontram a parte mais nobre e mais alta do mundo, a saber
o Paraíso Terrestre." Na visão de Colombo, esse paraíso insular iria ressurgir para confirmar
a profecia de Sêneca, em Medéia, segundo a qual, "tempo virá, em séculos futuros, em que o
mar há de derrubar as correntes que fecham suas passagens; uma vasta terra se há de
desenvolver à nossa frente; o mar deixará ver novos mundos e, dos países conhecidos, o
último não há de ser Thulé". Estabeleceu-se sempre uma aproximação entre a "vasta terra"
de Sêneca e a Atlântida. Para Colombo, que saía à procura de ilhas de antemão conhecidas,
algumas das quais submersas, essa profecia tinha um significado muito mais preciso. As
ilhas que ele fez representar em seu brasão antes de as descobrir era a sua Atlântida pessoal.
Foi então que entrou em cena a viagem. O conhecimento nessa ocasião demonstrado
pelo almirante com relação às ilhas que costeou nas águas das Caraíbas não pode
surpreender a quem o imagina tomado mais pela sua paixão que pela necessidade de fazer
descobertas mais prosaicas em benefício de seus soberanos. Aliás, ele próprio o confessa,
quando mais tarde lhes escreve: "Digo ainda, sinceramente, que mais diligenciei em servir
vossas Altezas que em ganhar o paraíso..." É pouco provável que se deva ver nisso um
simples jogo de palavras. A sisudez habitual de Colombo ao se referir ao paraíso terrestre
exclui até, e por completo, essa possibilidade.
A viagem e suas descobertas não iriam encerrar a sua busca, como demonstra a carta
enviada aos soberanos, da Jamaica: "E o mundo é pequeno, seis de suas partes são secas e
somente a sétima está coberta de água; a experiência o provou, e eu o escrevi em outras
cartas apoiando-me nas Santas Escrituras, ao tempo em que escrevi o Paraíso terrestre, com a
aprovação da Santa Bíblia. Acrescentemos que, na verdade, Colombo sempre se preocupara
muito mais com o seu sonho do que com uma realidade que ele próprio havia tão
cuidadosamente disfarçado pois, acobertado pela Ásia e pelas miríficas terras de Catai e de
Cipango, ele jamais navegou a não ser para ilhas cuja posição ele já conhecia de antemão.
É verdade que nada disto nos conta para onde levaria o famoso caminho do paraíso.
Existe entretanto um elemento para nossa resposta. Aparentemente, uma aberração; esta
parece entretanto óbvia segundo a lógica peculiar a Colombo. Para ele, o caminho do
paraíso leva naturalmente... ao Templo de Jerusalém. Imbuído de textos bíblicos, embora
pretendesse chegar ao paraíso terrestre, o almirante também queria, e muito mais do que se
acredita, encontrar ouro. E com esse ouro... Mas será melhor ouvi-lo: "Sereníssimos, altos e
poderosos príncipes, rei e rainha, nossos soberanos. De Cadiz fui à Canária em quatro dias
e de lá fui às Índias. Minha intenção era apressar a viagem, estando as naus em boas
condições... é da ilha de São Domingos que escrevo o seguinte..."
Essas preocupações hão de persistir por ocasião da segunda viagem. Quando
abordou uma das ilhas Virgens, por ele batizada de "arquipélago das 11.000 Virgens", em
honra de Santa Ursula, o almirante iria declarar aos seus companheiros: "Eis o lugar de
onde veio um dos três Reis Magos" (segundo Cuneo). Tratava-se menos de uma alusão à
Índia propriamente dita, como se acreditou, que a uma terra fabulosa cujo solo ele julgava
estar finalmente pisando. Desta vez, como de costume Colombo estava vivendo o seu
sonho.
"Quando descobri as Índias, deixei bem definido que elas constituíam a possessão
mais rica e mais grandiosa do mundo. Falei em ouro, pérolas, pedras preciosas, especiarias,
comércio e feiras, e como estas coisas não apareceram num estalar de dedos, aviltaram-me.
"Esta lição impede-me de dizer mais do que ouvi dos lábios dos indígenas. Há
somente uma coisa de que me atreverei a falar já que são muitas as testemunhas: é que na
chamada terra de Veragua vi mais sinais de ouro nos dois primeiros dias que na Espanha
em quatro anos...
"Vossas Altezas são tão Senhor e Dama dessa terra quanto de Xerez ou de Toledo;
quando chegarem as naus, estarão em casa. De lá trarão ouro...
"Salomão recebeu de uma só vez seiscentos e sessenta e seis quintais de ouro, além
do que os mercadores e marinheiros lhe traziam e do que lhe era pago na Arábia.
"Com esse ouro, fabricou trezentos escudos e a cena que deveria ser erigida acima
deles, ele a fez também de ouro e ornada de pedras preciosas, e fez muitos outros objetos
de ouro, e muitos vasos, e muito grandes e ricos de pedras preciosas." Em sua crônica De
Antiquitatibus, Josephus conta tudo isto. Também o lemos nos paralipômenos e no Livro dos
Reis.
"Diz Josephus que esse ouro tinha sido encontrado em Áurea; se assim foi, afirmo
que essas minas de Áurea são as mesmas de Veragua que, como eu já disse, se estendem
mais de vinte dias para Oeste e estão à mesma distância do pólo e do equador.
"Davi, em seu testamento, deixou a Salomão mil quintais de ouro das Índias, como
contribuição para a construção do templo e, segundo Josephus, esse ouro vinha daquelas
terras...”
O almirante atordoa-se visivelmente com as precisões que ele próprio oferece quanto
à quantidade e à qualidade do ouro daquelas regiões, mas acima de tudo, o que ele ali
formula indiretamente é o verdadeiro objetivo de sua aventura, deixando transparecer
alguma coisa quando acrescenta:
"Jerusalém e o monte Sião devem ser reconstruídos por mãos cristãs tal como Deus
anunciou pela boca do profeta no décimo quarto salmo.
"O abade Joaquim afirma que tal pessoa virá da Espanha. São Jerônimo indicava à santa
mulher o caminho para lá. Há muito tempo, o imperador de Catai enviou seus sábios para
instruí-lo na lei de Cristo.
"Quem se há de oferecer para semelhante tarefa? Se Nosso Senhor me levar de volta à
Espanha, prometo levá-lo até lá são e salvo...”
Por conseguinte, além da busca do paraíso terrestre, tratava-se de fato de ir buscar o
ouro que permitiria a reconstrução do templo de Jerusalém. Com isto, que representava o
verdadeiro objetivo de Colombo, fica assim explicado por que tanto tempo após a sua
primeira viagem ele procurava incessantemente informar-se tudo que dizia respeito a
Jerusalém. Assim devia ele freqüentar a Cartuxa de Las Cuevas, nas vizinhanças de Sevilha,
onde travou amizade com o padre Gaspar Gorricio que se tornou seu conselheiro espiritual
e dedicou-se a esmiuçar a Bíblia e seus comentários para colher todas as alusões à
"recuperação da cidade santa de Sião" e à "conversão das ilhas das Índias". Contudo, ao que
parece, o Templo que constituía a obsessão de Colombo não era o templo cristão. O
codicilo de seu testamento, conjunto de sete letras que transmitia a seu filho para conserválo
para sempre como sua única assinatura autêntica era, como já dissemos, um Kaddish cuja
abreviação simbolizava a estrela de Davi. Isto seria suficiente para provar que, quer queiram
quer não, o "Genovês" de origem judaica, Cristóvão Colombo, antes de morrer voltara em
espírito, se não à sua fé primitiva, pelo menos à de alguns de seus antepassados.
Para deixar finalmente de lado esse aspecto pouco conhecido da vida do almirante,
vamos dar mais uma vez a palavra ao seu melhor biógrafo moderno, Salvador de Madariaga:
"Assim retornava o velho marinheiro à sua fé primitiva ao sentir a morte aproximarse.
Seus sonhos realizados e desvendada a vaidade dos mesmos, os esforços neutralizados
quebravam-se como vagalhões contra a muralha inexpugnável do Estado Real espanhol. A
libertação de Jerusalém, a abrir os braços em seu eterno apelo, continuava a esperar que
outro a ela se viesse consagrar. O que poderia fazer um velho almirante que teria armado
dez mil cavaleiros e cem mil soldados a pé para libertar a Cidade Santa, se o ouro a que ele
teria dado tão nobre emprego estava sendo esbanjado?”
De modo que é mister considerar dois elementos distintos: de um lado, a descoberta
da América; e do outro, o homem Cristóvão Colombo. Um novo mundo, um continente
duplo oferecido ao conhecimento da humanidade; mas também ao saque dos europeus.
Talvez haja algum simbolismo na circunstância de que a expedição que encerra o refluxo da
maré, tenha sido levada a cabo por um homem cuja origem, lugar e data de nascimento,
idade, laços familiares, aprendizagem profissional e até mesmo toda a juventude
permaneçam para sempre sujeitos a controvérsias. E como se, para melhor adequar o
homem à sua descoberta e a descoberta ao homem, o acaso e a necessidade houvessem
trabalhado à rédeas soltas.
Será então preciso ver em Colombo uma espécie de profeta? O fato — muito pouco
conhecido — é que ele redigiu um Livro de Profecias que, muito cautelosamente, não foi
publicado. Nesse livro, ele se propunha a coligir tudo que, nas profecias, diz respeito à
libertação de Jerusalém e à reconstrução do Templo. Seu objetivo, evidentemente, era
demonstrar que isto teria de ser feito pelos espanhóis graças ao ouro trazido da América.
Finalmente, Colombo predisse até mesmo o fim do mundo que ocorreria, segundo dizia,
em 1666. Esse número (666, o do Apocalipse, somado a 1.000, o ano do grande medo)
revela o seu domínio completo da magia dos números. Pormenor que, somado a outros,
inclui definitivamente Colombo na linhagem dos profetas.
Foram escritas centenas de obras sobre Colombo e sua aventura, muito poucas sobre
os seus senhores, os soberanos espanhóis. Contudo, a rainha, pelo menos, deve ter estado
envolvida em tudo isto de uma maneira ou de outra, mesmo que fosse apenas por
"expiação". Em todo caso, é o que faz imaginar o erro, talvez voluntário, cometido por
Colombo quando, em carta a ela dirigida, estabelece uma relação entre a sua partida e a
expulsão dos judeus da Espanha. Ao que parece, o almirante teria ficado profundamente
decepcionado pelo fato de que, após a sua descoberta, os soberanos deixaram de prestigiálo
tomando com ele o caminho de Jerusalém.
Um desenho da época — por vezes atribuído ao próprio Colombo — representa a
Santa Maria sob forma de uma nau muçulmana do Mediterrâneo oriental. Os trajes dos
personagens e, sobretudo, o que levavam na cabeça (turbantes, chapéus pontudos) são
característicos dos judeus das regiões mediterrâneas da África e da Espanha nos séculos XV
e XVI. É possível que, com isto, o desenhista tenha querido chamar a atenção para a
origem do almirante.
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1 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso
ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem
novas obras.
Se quiser outros títulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, será um prazer recebê-lo em
nosso grupo.

Descoberta de Hispaniola. Segundo carta de Colombo a Gabriel Sanchez, conservada na biblioteca de
Milão.
CONCLUSÃO
"Quando avança suficientemente, quando investiga o real até em seus últimos
redutos, quando não se limita a reunir documentos mas procura também compreendê-los, a
ciência se aproxima da metafísica.”
R. P. LEROY Science et Synthèse
Houve uma época, na história do homem, a que se pode dar o nome de era do berço,
ou dos berços, imediatamente posterior ao desaparecimento do homem de Neanderthal.
Um de seus focos, de onde saiu o ramo chamado de Cro-Magnon, está ligado de uma
maneira qualquer ao oceano Atlântico. No terreno da hipótese, a fuga dos habitantes do
platô submerso das Baamas é susceptível, a nosso ver, de preencher uma lacuna que até
agora ficara sem explicação. Ela nos permitiu, pelo menos, desenrolar algumas seqüências
de um filme que talvez se possa realizar na íntegra dentro de uns cinqüenta anos. Contudo,
já nos é dado imaginar o seu comentário.
Naquele platô condenado a uma lenta destruição — ali, haveriam de dizer — foram
os homens forçados a tomar a decisão de abandonar a terra que presenciara o nascimento
de sua raça. Eles então embarcaram e navegaram seguindo as grandes correntes atlânticas.
Atingiram em primeiro lugar a África, depois de longa etapa nas Canárias; depois, assim que
o permitiram as condições climáticas, eles se dirigiram para o Oeste e o Norte da Europa.
Mais "civilizados" que os autóctones, eles se comportaram a princípio como iniciadores e
depois como missionários de uma determinada idéia. Eles é que viriam um dia a se
transformar nos Shemsu-Hor — os servidores de Hórus — e em seguida em portadores da idéia
megalítica, no mundo mediterrâneo e na Europa ocidental e setentrional. Naquela mesma
época, e tendo também as Baamas como ponto de partida, migrações da mesma natureza
chegaram às duas Américas. No velho mundo, encontrando talvez uma terceira vaga que
saíra em direção leste, tendo visitado sucessivamente as ilhas sagradas do Mediterrâneo —
desde as Baleares até Chipre — essas correntes civilizadoras terminaram o seu percurso no
Oriente Médio mediterrâneo que, a partir de então, desempenhou as funções de um
cadinho.
Alguns milênios depois, as populações semitas desse mesmo Oriente se espalharam
por sua vez pelo mundo e isto para se dirigirem, à maneira de um verdadeiro refluxo de
maré, para um Oeste que se tornara lendário. Presenciou-se então à segunda fase dessa
imensa pulsação humana que pela primeira vez fazia bater o coração da história. Seus
móveis foram diferentes. Civilizador sobretudo para os Shemsu-Hor, espírito "missionário"
para os homens dos megalitos, econômico para os fenícios; porém o principal, o que
determinava todos os demais, no trajeto da maré que refluía foi, sem dúvida alguma, a
tentativa de encontrar um paraíso terrestre perdido, onde o cenário era de sonho e
abundavam as fontes de juventude e os metais preciosos...
Resumo gráfico da grande pulsação. Hipóteses de trabalho e cronológicas


EPÍLOGO
Um dia, eu fora à casa de Einstein para ler com ele um estudo no qual se erguiam inúmeras objeções
à sua teoria. De repente, ele interrompeu a discussão, apanhou um telegrama e o estendeu para mim
dizendo: "Isto talvez lhe interesse! É um telegrama de Eddington..." Ao lhe comunicar minha alegria por
ver que os resultados coincidiam com os seus cálculos, ele me garantiu, imperturbável: "Mas eu tinha certeza
de que a teoria estava certa!" Perguntei-lhe então o que teria dito se sua predição não tivesse sido confirmada.
E ele retrucou: "Bem, eu teria ficado aborrecido por causa de Deus; a teoria é certa"!
ILSE ROSENTHAL-SCHNEIDER Science et Synthase
Como dissemos de início, este livro se baseia numa hipótese; a da artificialidade das
estruturas imersas de Bimini. Poderão objetar-nos, entretanto: E se essa hipótese
desmoronasse, se se tratasse afinal de contas de um sítio natural, o que sobraria de todo o
seu desenvolvimento ?
Correndo o risco de provocar uma surpresa, diríamos que as coisas não sofreriam
uma alteração muito profunda. Em primeiro lugar porque defender uma hipótese constitui
sempre um mero exercício de inteligência; e quando um exercício de inteligência consegue
conferir uma nova vida à história e às velhas tradições, e seguir as trilhas de tantas viagens
não há, seja lá como for, motivo para se lastimar que se trate apenas de um exercício. Por
outro lado, estamos convencidos de que existe, em tudo que acabamos de demonstrar, uma
boa parte de verdade. Bimini faz incidir sobre as nossas reconstituições todo o peso de sua
realidade. Diante das descobertas e dos filmes produzidos pelos especialistas que se estão
entregando a esse trabalho, temos quase que a certeza de que o tempo se encarregará de
tudo esclarecer e completará a sua obra revelando a verdade.
FIM

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