sábado, dezembro 01, 2012

Pierre Carnac A Atlantida de Cristovão Colombo 1

 

PRÓLOGO
O espírito sonha espontaneamente com a unidade. Aspira a ser ele próprio o artesão triunfante dessa
unidade onde quer que encontre as variedades da existência, as aparentes discordâncias das coisas e,
finalmente, toda a gama dos conflitos humanos. A ciência nasceu do entusiasmo intelectual desse sonho.
R. P. DOMINIQUE DUBARLE Science et
Synthèse
Baseia-se este livro numa hipótese que nos foi sugerida pela descoberta de estruturas
submersas com características, segundo tudo leva a crer, artificiais, nas proximidades da ilha
de Bimini, nas Baamas. Partindo daí, ele propõe uma explicação. Para chegar a ela, lança
mão de coincidências, estabelece ligações entre fatos aparentemente independentes uns dos
outros, alimentando-se com todas as interpretações e hipóteses susceptíveis de reforçar a
sua. Fique, entretanto, bem claro que só pretendemos alcançar uma verdade parcial, relativa,
como acontece, na maioria das vezes, com toda verdade histórica. Este livro, afinal de
contas, só se propõe a constituir um momento de interrogação quanto aos primeiros
movimentos da humanidade. Nosso objetivo estaria plenamente alcançado se ele pudesse,
por sua vez, se tornar objeto de análises ponderadas, e incitar a levar adiante a pesquisa no
sentido aqui adotado.
1 - O FIM DE UM MITO
Nesse espelho que é a história, nós vemos para além da estreiteza do presente e discernimos a medida
das coisas. Sem ela, perdemos o fôlego de nosso espírito. Se cobrirmos de véus nossa história, ela nos vem
surpreender à nossa revelia...
KARL JASPERS Initiation à la méthode philosophique
Em todos os tempos debruçou-se o homem sobre o seu próprio passado com fervor
idêntico ao da vidente que procura ler o futuro em sua bola de cristal. Durante muito
tempo, antes de ser uma ciência, a história foi tradição e ainda hoje nove décimos dessa
história pertencem integralmente ao domínio do mito, ficando assim explicado porque a
ciência só se interessou pelo período a respeito do qual possuímos "documentos válidos".
De modo que só conhecemos verdadeiramente 100.000 anos de história das técnicas,
50.000 anos de história da arte e apenas 6.000 anos de história política. Além disso, cada
disciplina constitui o campo de alguns especialistas que nem têm tempo, nem cuidam
realmente de voltar-se para os domínios vizinhos do conhecimento.
Antes de se transformar numa ciência susceptível de síntese, a história recebeu de
início a marca do racionalismo mais restritivo, em cujo altar foram sacrificados a mitologia e
todo o conjunto das tradições e das lendas. Nesse movimento, descartava-se imediatamente
toda fonte que não pudesse ser desde logo autenticada. Ao mesmo tempo, elevava-se à
categoria de dogmas um certo número de apriorismos, ou pelo menos de conclusões
apressadas. Dentre esses dogmas, um dos mais persistentes e dos mais perniciosos é
evidentemente o que está contido na célebre fórmula Ex Oriente Lux, e concretizado na
afirmação de que a história teria começado em Sumer, o que significa que a civilização toda
é produto única e exclusivamente do Oriente Médio. Outras pérolas da mesma água, os
exageros da teoria da fertilidade do Crescente, em nome da qual lançou-se um interdito
sobre tudo que pudesse contrariar essas construções teóricas.
Contudo, os fatos se vão acumulando, e falam. Não foi possível deixar de registrar a
descoberta de escrituras pré-sumerianas, como as de Tartária na Romênia, de Karanovo na
Bulgária, ou a "civilização urbana" de Lepenskivir, na Iugoslávia, que remonta a mais de
7.000 anos. Entre essas descobertas, insere-se hoje a do sítio de Bimini, que não foi a menos
espantosa, segundo demonstram cabalmente as controvérsias por ela provocadas.
Quanto a nós, depois de termos estudado durante muitos anos o problema dos
contatos entre o Velho Mundo e o Novo, antes de Colombo, publicado o resultado de
nossos trabalhos em livro editado em Bucarest em 1966, e trocado idéias com inúmeros
especialistas, acabamos por formular uma hipótese. Em nossa opinião, a descoberta do sítio
de Bimini, uma vez comprovado que se trata de uma construção artificial, é de molde a
derrubar definitivamente aquilo que, em síntese, designamos como o "mito de Sumer". Nós
hoje o sabemos, a história não começa em Sumer. Terá ela nascido em Bimini? Eis a
pergunta que propomos.
A HISTÓRIA COMEÇA EM BIMINI?
...Nassau (Baamas). — U.P. — Estranhas estruturas arqueológicas foram recentemente
identificadas nas proximidades da ilha de Bimini. De acordo com as primeiras informações recebidas,
tratar-se-ia de uma gigantesca muralha submersa, cujos construtores e cuja idade os especialistas consultados
ainda não podem indicar. As investigações submarinas estão prosseguindo.
Dos jornais, primavera 1970.
Muitos velhos índios falavam na muito poderosa ilha de Bimini, habitada por vários povos, e nas
grandes virtudes de sua fonte cuja água tinha o poder de transformar os velhos em adolescente...
JUAN DE CASTELLANOS Elegia de varones illustres de Índia
NO COMEÇO ERA A FONTE DA JUVENTUDE...
Bimini é uma pequena ilha do arquipélago das Baamas, situada a cerca de cento e
cinqüenta quilômetros ao largo da Flórida. Pormenor importante: é a ilha desse arquipélago
que fica mais próxima do continente americano.
Descoberta em 1512 por Ponce de León, ao que se supõe lugar-tenente de Colombo,
no decorrer de uma das viagens deste último, ela lhe valeu o título de "administrador
colonial de Bimini e da Flórida". A importância do título, a ordem em que são enumerados
os dois territórios, assim como o qualificativo prepotente — muito poderosa — conferido à
ilha pelo seu primeiro poeta, Castellanos, dão a medida do que foi o seu renome desde os
seus primeiros momentos de existência oficial.
Autores consagrados, como os ingleses E. Washburn-Hopkins, E. B. Taylor, Gould
ou o francês Eugène Beauvois empreenderam estudos profundos sobre a lenda relativa à
fonte, e narrada por Castellanos. O interesse por ela suscitado deve-se, antes de tudo, ao
fato de localizar na América, ou nas vizinhanças imediatas de seu litoral, uma das mais
importantes sedes do mito antigo e medieval.
A tradição da Fonte da Juventude, sob a sua forma mais pura de "fonte de vida", era,
com efeito, conhecida em toda a Europa medieval. Os especialistas de há muito se puseram
de acordo para apontar sua origem semita. Tratava-se, ao que parece, de uma água que
conferia imortalidade, água que só poderia jorrar de uma fonte localizada no paraíso, ou que
deveria ser colhida num rio que o atravessasse.
Fontaine de Jouvence (Fontane de Jovants), Jung-brunnen entre os germanos, água eterna que
fazia reviver os heróis dos antigos contos eslavos orientais, aqua vitae clássica dos Latinos,
apa vie (água viva e vivificadora) dos contos e lendas romenos... esta água tem sua verdadeira
fonte nas tradições dos povos semitas da Antigüidade remota.
Sua tradição estendeu-se depois para Leste, em direção ao Irã e à Índia, atravessando
a Mesopotâmia, assim como em direção às terras povoadas pelos antepassados das futuras
tribos da Arábia Pétrea que a transmitiram ao Islã. Mais tarde, durante o primeiro milênio
do cristianismo, os nestorianos a introduziram na China, de onde passou para a Indochina,
Indonésia e Malásia.
Da mesma forma, as invasões e migrações dos antigos povos da bacia oriental do
Mediterrâneo dirigindo-se para Oeste, levaram-na para a Itália, para o Atlas magrebino, para
as costas ibéricas e, transpondo as colunas de Hércules, até as ilhas Britânicas, Irlanda e
Escandinávia.
Observemos finalmente que o mito indiano associa-se ao simbolismo egeu das
primeiras eras para fazer jorrar uma ou várias fontes milagrosas no paraíso terrestre da idade
de ouro, tal como o descreve Hesíodo, quando o homem, imortal, ainda não estava sujeito à
enfermidade e à dor.
A presença no Oriente e a origem aparentemente asiática desse mito da Fonte da
Juventude são tão facilmente demonstráveis que não pode deixar de causar espanto o
espetáculo dos espanhóis desembarcando em Bimini, sob a bandeira de Juan Ponce de
León, para ali descobrir uma fonte de tradição local já existente. A partir de então, houve
um longo esforço visando a encontrar a chave deste duplo mistério.
Examinemos em primeiro lugar o que diz respeito à expedição espanhola. Juan
Ponce de León, futuro explorador do mar das Caraíbas e do litoral norte-americano, firma
com o reino da Espanha dois contratos de descoberta. O primeiro tratado foi assinado em
Burgos no dia 23 de fevereiro de 1512; o segundo, em Valladolid, a 26 de setembro do
mesmo ano. E embora em nenhum desses dois textos se faça menção a qualquer Fonte de
Juventude, os historiadores estão hoje convencidos de que Bimini era na realidade um dos
objetivos secretos da operação.
O historiador da época, Hernando d'Escalante Fontaneda que, vítima de um
naufrágio, permaneceu durante dezessete anos prisioneiro dos indígenas da Flórida (1551-
1568), narra uma coisa à primeira vista bastante estranha. Escreve ele, em 1574, que "Juan
Ponce de León, fiando-se nos relatos dos índios de Cuba e em outros de São Domingos, foi
procurar o rio Jordão na Flórida, quer para fornecer informes a esse respeito, para se fazer
valer ou para ali perder a vida, como realmente aconteceu, quer para rejuvenescer banhando-se
em suas águas, o que está de acordo com as práticas piedosas dos índios de Cuba, e de
todas aquelas paragens, os quais cumpriam um dever religioso ao se encaminharem para a
Flórida...”
Acrescente-se, aliás, que ao alcançar terra firme Ponce de León já estava
decepcionado pelos meses de navegação infrutífera, em busca não do rio, que se nos afigura
quase que um sucedâneo, mas sim da fonte, tal como narra com grande abundância de
pormenores um outro cronista da conquista, Francesco Lopes de Gomara. De acordo com
este último, Ponce "armou duas caravelas e partiu em busca da ilha de Boyuca, onde os
índios situavam a fonte que transformava os velhos em adolescentes; vagou durante seis
meses, esfomeado e perdido por entre uma infinidade de ilhas, sem encontrar o menor
vestígio da tal fonte. Entrou em Bimini e descobriu a Flórida em 1512, no dia das Páscoas
Floridas. Foi por isto que lhe deu esse nome".
De modo que as coisas seriam bem simples: os espanhóis tentavam localizar a fonte
fabulosa baseando-se nos relatos dos indígenas que também haviam-na procurado... com
idênticos resultados. Os franceses, cartesianos antes de Descartes, zombaram desses
"resultados" desde o século da conquista, numa quadra que se tornou célebre:
“Uma análise ponderada permite afirmar, sem perigo de erros, que, ao procurar
aquelas ilhas, Ponce de León obedecia a uma inspiração européia e que, por outro lado, a
"informação" dos indígenas de Cuba, das Antilhas ou da costa de Honduras a respeito da
fonte e do rio também era, por sua vez, de origem pré-colombiana e não americana.”
Essa inspiração européia chegara ao navegador vinda de Colombo, ou através de
Colombo. Ela reunia um conjunto de tradições e de dados históricos, e também certos
pormenores geográficos precisos, entre os quais o fato de que se tratava de águas pouco
profundas, muito claras, e de terras mais ou menos submersas. Prova-o o relato feito por
Antonio Herrera da navegação de Ponce:
“Não se pôde saber no começo o nome da Flórida segundo o sentimento dos que
faziam as descobertas; porque vendo que essa ponta de terra saía tanto ao mar, eles a
tinham como Ilha, e os índios como terra firme, e diziam os nomes de cada província. Mas
os Castelhanos imaginavam que eles os enganavam. Finalmente, depois de muitas
contestações a este respeito, os índios disseram que ela se chamava Cantio, que é um nome
que os índios Lucayos deram a essa terra porque os povos que a habitavam cobriam suas
partes pudendas com folhas de palmeira tecidas como a esteira de juncos. Eles saíram no
dia 25 de julho dessas ilhotas PARA IREM À BIMINI navegando entre duas ilhas que
pareciam submersas, e estando como que atolados, eles não sabiam mais por onde passar
com os navios. Jean Ponce ENVIOU O BARCO PARA RECONHECER UMA ILHA
QUE ELE ACREDITAVA SUBMERSA e aconteceu que era a de Baama. Quanto à
tradição local, é ela tríplice. Em primeiro lugar, uma lenda corrente entre os indígenas do
Haiti e de Cuba fala numa fonte milagrosa localizada na ilha de Bimini. Uma outra tradição
afirma a existência no continente — portanto na Flórida — de um rio de águas
rejuvenescedoras, o... Jordão, assim denominado antes da chegada dos espanhóis. São,
finalmente, várias lendas obscuras a afirmarem a presença, numa ilha, de um sítio milagroso,
cheio de aves maravilhosas e de fontes mágicas, um autêntico paraíso terrestre.”
Antes de levarmos adiante as interrogações quanto à origem desses três aspectos da
tradição, é preciso dizer que, indiscutivelmente, sua causa fundamental é a existência ali das
águas termais de Warm Mineral Springs, na Flórida, assim como a de fontes de água doce,
brotando geralmente lá mesmo, em Bimini. Isto, aparentemente, poderia bastar para reduzir
o maravilhoso ao natural; examinemos, porém, os aspectos peculiares dessas tradições.
Como vimos, Ponce de León tenta chegar a Bimini e a seu Jordão antes que mais
alguém os descobrisse. Fontaneda, Gomara e os outros cronistas são categóricos a este
respeito. Mas a Fonte de Juventude, o rio de águas rejuvenescedoras e o paraíso terrestre,
que aqui se confundem, constituem na realidade etapas distintas num conjunto de tradições
forjadas em épocas diferentes, em conseqüência das relações geopolíticas diretas entre o
Velho e o Novo Mundo. Dessas tradições, a primeira a se desenvolver foi indiscutivelmente
a do paraíso terrestre.
DEPOIS HOUVE O JORDÃO
Os irlandeses, que haviam chegado ao continente norte-americano muito antes dos
vikings, e ali haviam fundado a sua Ireland it Mikla — a Grande Irlanda além-Oceano —
foram os primeiros a ali difundir o cristianismo. Como batizavam os indígenas nos rios, eles
deram a estes o nome de Jordão, a fim de comemorar a tradição bíblica.
Aliás, logo nos primeiros tempos, fugindo aos vikings, e sempre por eles acossados,
os irlandeses se dirigiram para Noroeste. Foi assim que chegaram às ilhas Orkney.
Perseguidos pelos vikings, tiveram de passar para as ilhas Shetland, que foram igualmente
obrigados a abandonar para se refugiar na ilha de Ou, onde sua presença pode ser
identificada sem sombra de dúvida por volta do ano 725. Em 795, desembarcaram na
Islândia. Eram esses irlandeses monges pertencentes à seita cristã dos Ceilé Dé que exercera
uma influência acentuada, na Irlanda, muito antes da evangelização oficial de São Patrick.
Os Ceilé Dé, padres seculares que viviam em comunidades, celibatários e praticando a
penitência, defendiam quanto à virtude e à moral idéias que, muito estranhamente, podem
ser encontradas na filosofia moral inculcada aos Toltecas de Tollan (México) por seu
célebre rei-sacerdote, o deus Quetzalcoatl. Alguns especialistas chegam mesmo a ver na
pessoa histórica deste último um antigo monge irlandês que chegara até lá.
A doutrina dos Ceilé Dé continha inúmeros elementos pagãos de origem céltica, que
levaram o papado a condená-la. Sua destruição foi pregada em toda a Irlanda pelos
missionários católicos; e foi para fugir às perseguições que os monges se puseram ao mar
em busca de horizontes mais acolhedores, segundo esperavam — as terras insulares do
Norte e do Noroeste.
Ora, o abade Adamman, superior do monastério irlandês de Saint-Jonas de 679 até
704, relata que um certo Cormac (521-597) já fizera mais de três vezes a viagem entre a Irlanda
e a Islândia. Em suas descrições do mar do Norte, o monge irlandês Dicuil conta que
religiosos irlandeses já haviam permanecido durante mais de seis meses na "grande terra de
Thulé", no longínquo Norte. Os vikings ali chegaram em 874. Depois de uma inútil
tentativa de resistência, os monges fugiram para Oeste e atingiram a Groenlândia. Ali os
iriam encontrar, cento e oito anos mais tarde, os drakkars noruegueses.
Novamente expulsos pelos vikings, os irlandeses seguem ao longo da costa vizinha
do continente americano, em direção Sul, antes de se voltarem para Sudoeste, deixando-se
levar pelas correntes costeiras. O Libellus Islandorum, redigido por Ari, o Sábio (1067-1148),
relata que: "Os fundadores dos estabelecimentos escandinavos na Groenlândia encontraram
naquela região habitações humanas tanto a Leste como a Oeste, assim como utensílios de
pedra quebrados, e restos de embarcações, o que demonstra ter ali vivido um povo
qualquer..." Como naquela época os esquimós ainda não haviam atingido o Sul da
Groenlândia, e a presença de utensílios e de casas em ruínas não coaduna nem com os
costumes nem com o nível de vida esquimós, é realmente dos irlandeses que se trata.
Tendo seguido ao longo das costas da Terra Nova, os irlandeses se fixaram na região
que é hoje a Nova Inglaterra, onde estabeleceram sua colônia da Grande Irlanda, cuja
localização exata os historiadores e geógrafos ainda não conseguiram determinar. Em
seguida, avançaram ainda muito mais para o Sul.
Entre os vestígios indiscutíveis de sua passagem, contam-se particularmente as grutas
de North Salem (New Hampshire), cujos subterrâneos apresentam um plano análogo ao das
primeiras construções religiosas irlandesas da Idade Média. Foram igualmente identificados
vestígios de sítios irlandeses nas proximidades das localidades de Kingston e Raymond, no
New-Hampshire, perto do rio Thames, assim como em Lowell, Watterford, Leominster,
Harward, North Andover, Worcester, Hopkinton, Upton, Millis, Medway, Mendon,
Hopedale, Webster, Martha's Wineyard etc. Perto de South Windham (Maine), foram
descobertas escadarias sem começo nem fim, talhadas na rocha. A maioria dos especialistas
atribuiu esses vestígios aos irlandeses, assim como o de South Berwick (Maine), West
Shawshenn (Massachusetts) e Woodstock (Connecticut). Em Upton, encontrou-se até
mesmo uma construção típica, feita de pedra de abelhas, tendo à entrada um átrio lajeado,
que lembra a Irlanda.
Em 1960, as águas do oceano, revolucionadas pelo furacão Donna, atiraram a uma
praia de New Jersey os restos de uma antiqüíssima embarcação de madeira. Os métodos
radiativos de datação calcularam em mil anos a idade desse barco, de tipo irlandês arcaico.
Talvez tenha pertencido aos monges irlandeses da região de North Salem. Passado o
furacão, tendo Albert e Salvatore Marasinti, de Marascuan (New Jersey) içado o barco para
o alto da falésia, os especialistas que para ali afluíram verificaram que ele apresentava
vestígios de cobre no revestimento do costado, cuja espessura era de vinte centímetros. O
revestimento de cobre, constituído de finas lâminas fixadas por meio de pregos,
representava uma proteção contra os parasitas marinhos. Teoricamente, pelo menos, a
embarcação poderia muito bem enfrentar o mar.
Todavia, quando se trata de determinar a localização da Grande Irlanda num mapa
da América, confrontando os vestígios com os dados das tradições irlandesas e americanas
pré-colombianas, os especialistas ainda hesitam entre os territórios das Carolinas e da
Geórgia, e o da Flórida atual. Em 1819, o geógrafo americano J. Johnstons relatava uma
lenda por ele ouvida entre os indígenas da Flórida e da Carolina do Sul. Afirmavam estes —
por volta de meados do século XVIII — que séculos antes seu país fora habitado por
brancos que usavam armas e utensílios de ferro.
Seja como for, a explicação irlandesa para o personagem histórico que se encontra
nas raízes da lenda de Quetzalcoatl, parece comprovada pelos fatos. A tradição e as fontes
autenticadas da história dos Toltecas afirmam que o "Estrela da Manhã", também chamado
"Serpente de plumas", foi realmente seu chefe no século X. Era um homem de pele clara,
formalmente descrito como branco e barbado. Reinou em Tula entre 967 e 987, mas também
encontramos as datas 997-999 e 1010.
Vindo do Leste, o "deus" desembarcara em companhia de seus nonoalcas — homens
"mudos e surdos", pois não falavam nem compreendiam a língua dos indígenas. Ele
"organizou" os Toltecas, impondo-lhes suas próprias concepções religiosas, as quais
comportam inúmeras tradições de colorido nitidamente cristão, incluídas desde então nas
tradições ameríndias. Ao deixar Tula, o deus feito homem empreendeu a conquista do
império maia e se estabeleceu em Chichen-Itza, que recebeu assim um acentuado cunho
tolteca. Os maias, por sua vez, o divinizaram sob o nome de Kukulkan. Após vinte anos de
reinado pacífico, os homens "brancos e barbados" tornaram a partir. As tradições
ameríndias fazem-nos então viajar através do istmo de Darien-Panamá, até as costas do
Peru...
A maioria das fontes indica que o "chefe-deus" pregara a existência de um deus único
e universal, constituindo de fato uma trindade. Quetzalcoatl se referia também a um lugar de
lazer, onde os justos são recompensados após sua morte — um paraíso celestial — e a um
lugar de expiação transitória — um purgatório apresentado à maneira católica que, neste
ponto, não diferia da dos Ceilé Dé.
Os sacerdotes de Quetzalcoatl ensinavam além disso que o homem perdera a graça
divina em conseqüência do pecado de uma mulher-serpente. Quetzalcoatl recomendava a
piedade e as oferendas gratuitas. Chegava a afirmar, coisa estranha para um tolteca, que se
pode pecar por simples intenção. Assim é que, para o homem-deus de Tula, olhar
insistentemente para uma mulher já era com ela fornicar, idéia tipicamente católica dos
séculos VI a X.
A paz, o amor ao próximo também faziam parte dos ensinamentos de Kukulkan, que
pregava além disso um mistério religioso bastante próximo do da Encarnação no Novo
Testamento, e praticava a comunhão destinada a reconciliar o homem com Deus, graças a
pedaços de pão abençoado. Entre as outras tradições deixadas por Quetzalcoatl, encontrase
a do dilúvio segundo a variante de tipo cristão, colocando em ação um Noé local
denominado Cox-Cox. Finalmente, a idéia da ressurreição do ser divino e a lenda da
virgem-mãe estão presentes em toda parte.
O mais significativo, entretanto, sem falar na utilização da cruz como objeto de culto
— aqui designada como "árvore da vida" sobre a qual teria morrido um homem "mais
adorável que o sol" — ainda é o fato de ter Quetzalcoatl instituído em Tula, e depois em
Chichen-Itza, a cerimônia do batismo. Assemelha-se esta, sem tirar nem pôr, ao batismo
cristão. O oficiante a encerra com as seguintes palavras: "Recebe esta água abençoada, pois
sobre a terra que habitarás, onde nascerás e desabrocharás, é ela que oferece os princípios
necessários à vida. Recebe portanto esta água". E, pronunciando-as, o sacerdote asperge
com a água benta a cabeça da criança. O mesmo acontecia por ocasião das cerimônias
coletivas quando os batizados entravam num riacho.
Nessas circunstâncias, não nos deve causar espanto a cruz de mármore coroada de
flores e venerada pelos indígenas de Vera Cruz, que deu nome ao lugar por ocasião da
conquista espanhola. Assim como não nos deve espantar a existência, na costa leste da
América, de um Jordão pré-colombiano, designado, de fato, com esse nome.
W. Krikeberg, o célebre historiador alemão do mundo pré-colombiano, escreve num
estudo dedicado aos contos e lendas dos astecas, incas, maias e muiskas: "Acontece com
freqüência que o zelo religioso ou falsas interpretações tentam descobrir vestígios da
doutrina cristã na história antiga dos índios, e que se procura atribuir arbitrariamente às
tradições indígenas significados cristãos. Contudo, não se deve rejeitar inteiramente essa
idéia, dando como invenções espanholas — por se apresentarem sob roupagens cristãs —
lendas que associam os heróis das velhas civilizações índias, como Quetzalcoatl, Bochica ou
Viracocha, a certos aspectos dos apóstolos cristãos...
"Os impressionantes paralelismos existentes entre as tradições primitivas americanas
e o cristianismo antigo, correspondem em grande proporção às coincidências existentes em
outros campos entre as civilizações do Velho Mundo e do Novo, e que futuras pesquisas
talvez venham um dia a explicar."
Aí está, portanto, o que temos com relação à água de imortalidade e ao rio sagrado,
conhecidos dos índios das ilhas e por eles procurados no solo da Flórida. Da mesma forma,
decepcionados por não haverem encontrado nenhuma fonte, Ponce de León e os outros
continuaram a procurar o Jordão... Seu erro, entretanto, se explica, quando se reflete que a
nascente — ou fonte — se confundia com o rio. E deve-se esta confusão ao fato de terem
as duas lendas um fundo comum, referindo-se uma à regeneração do corpo (a nascente) e a
outra à regeneração da alma (batismo no rio).
Embora o mito da renovação corporal já fosse conhecido na remota antigüidade
babilônia, egípcia e grega, a tradição cristã da água que purifica não passou de um
complemento que contribuiu para que se criasse a tradição comum. Prende-se esta, ao
mesmo tempo, à lenda dos frutos de ouro e dos plátanos de Lethé, que poderiam ser encontrados
na fabulosa Merópida transatlântica dos Fenícios, e à dos pomos do jardim das Hespérides, assim
como às lendas celto-irlandesas das planícies de delícias, o Mag Mell, dos antigos gaélicos.
Os especialistas em história pré-colombiana e etnografia moderna ainda discutem as
inúmeras tradições entrelaçadas às lendas indígenas que, todas elas, localizam a fonte
milagrosa na ilha de Bimini. O que não impede que a Fonte de Juventude continue a
representar o ponto de partida para uma pesquisa que, muito provavelmente, há de colocála
um dia na origem daquilo a que habitualmente se dá o nome de história.


 

CABALA, COLOMBO E BIMINI
Esses nomes que designam as ditas ilhas e litorais, deu-os Colombo para que sejam conhecidos sob
esses nomes...
PIRI-REIS PAXÁ, 1513.
QUEM DEU NOME ÀS BAAMAS?
No decorrer de suas quatro viagens, aconteceu com freqüência dar Colombo um
nome aos lugares que ia descobrindo. Por esse motivo, consideram muitos autores que foi
ele quem deu nome às Baamas, que se chamaram de início Lucaias, segundo sua designação
indígena. Isto é indiscutivelmente verdadeiro quanto à ilha de Guanahani, rebatizada San
Salvador, mais inadmissível no caso de Bimini, da qual o almirante nem sequer se
aproximou.
O primeiro mapa que representa as Baamas, embora de maneira muito vaga, foi
traçado por Juan de La Cosa. Nele aparecem, ao norte de Cuba e do Haiti, algumas terras
que trazem os nomes conferidos por Colombo. Trata-se das ilhas Habacoa (Abaco), Yumey
(Exuma), Guanahani (San Salvador), Manana (Rum-kay), Samana (Long Island), Someto
(Crooked Island) e Yucayo (Caicos). Nenhum vestígio de Bimini. Em compensação, ali se
vêem ilhas "batizadas" por Colombo e que ele jamais abordou. O mapa acrescentado em
1511 (antes, portanto, da descoberta de Bimini por Ponce de León) ao trabalho de Pierre
Martyr, De Orbe Novo, já não atribui nomes específicos a essas ilhas. Em contraposição, uma
ilha grande como Cuba e designada sob o nome de Islã de Buemeini substitui ali a Flórida
atual.
Tal como no caso do "Jordão" pré-espanhol, aqui estamos, portanto, em presença da
existência do nome Bimini antes da descoberta propriamente dita daquela ilha. Se levarmos
em conta o fato de que Ponce — que se jactava da amizade de Colombo — havia
acompanhado o almirante por ocasião da segunda viagem, tendo desembarcado no Haiti,
pode-se admitir que ele já ouvira pronunciar o nome da ilha da Fonte de Juventude em suas
conversas com Colombo ou com os que o cercavam. O que, indiretamente, tenderia a
provar que foi, afinal de contas, Colombo quem deu àquela ilha o nome destinado a tão
prodigiosa carreira.
Além disso, a existência das Antilhas já era tida como provável na Idade Média.
Embora geograficamente mal localizadas, elas aparecem com efeito em numerosos
portulanos a partir do século XIII, designadas indiferentemente com os nomes de Antilha,
Antilla, Antillas ou Anticha. Designavam-nas também com o de Islã de Siete Ciudades — ilha
das Sete Cidades — na qual, segundo se dizia, sete bispos portugueses se haviam refugiado
em 711 para fugir à invasão árabe comandada por Taril el Mocsa.
Admitindo-se que este último episódio não passe de uma lenda, e que Antilla derive
de Anti-ilha, e portanto da necessidade lógica de contrapor às da região leste do oceano uma
terra situada a oeste, o pressentimento da existência dessas ilhas não fica por isto invalidado.
NO MAPA DE COLOMBO
O sábio russo D. Tzukernik demonstrou recentemente a existência de um mapa
redigido antes de 1492 e que dera a Colombo a possibilidade de controlar seu itinerário.
Sabe-se que imediatamente após a sua partida das Canárias, Colombo ordenara aos irmãos
Pinzon, seus subordinados diretos, que navegassem dia e noite 700 léguas em direção oeste.
O que significa que a navegação noturna deveria ser interrompida uma vez percorridas
aquelas 700 léguas. Para prever desta maneira a presença de uma terra àquela distância, o
almirante devia possuir um mapa.
Quando, nos dias 23 e 24 de setembro de 1492, aterrorizadas pela imensidão do
oceano, as tripulações quase que chegaram a se amotinar, o almirante acalmou os espíritos
mostrando aos comandantes dos dois outros barcos não somente as suas próprias
anotações e seus cálculos como também um mapa. Este fato é relatado por Don
Ferdinando Colombo, filho e biógrafo do almirante, e confirmado pelo historiador
Bartholomé de Las Casas, o qual chega a acrescentar que naquela ocasião o almirante teria
dado a Pinzon um mapa no qual se viam ilhas.
Naquele momento, uma discussão contrapõe Martin Alonzo Pinzon a Colombo.
Quando se reconciliam, os dois homens se entendem de modo a calcular e determinar de
comum acordo a posição real dos navios. Verificam então que se haviam afastado da rota
das ilhas representadas no mapa. No fim de setembro, Colombo ordena que as caravelas se
desviem para sudoeste, isto é, em direção às ilhas. Era a direção certa. E levava a ilhas que
realmente existiam e que os historiadores modernos da geografia negam que pudessem ter
sido conhecidas a priori por Colombo. De modo que este devia conhecer de antemão o seu
itinerário e o ter traçado num mapa fidedigno.
Por outro lado, no trigésimo terceiro dia após a partida da ilha de Gomere, nas
Canárias, calculou-se que a terra — no caso, uma das Baamas — estaria, ou deveria estar,
suficientemente próxima para tornar perigosa a navegação à noite. Esta observação foi feita
por Pedro Nino, timoneiro da Santa Maria, valendo-se do mapa que o almirante lhe havia
confiado. O timoneiro pediu então a Colombo autorização para não mais navegar à noite.
Esta lhe foi concedida, pedindo-lhe o almirante que ela fosse transmitida ao pessoal da
Pinta, embarcação que estava mais próxima da nau almirante. E isto, apenas algumas horas
antes que o tripulante Rodrigo de Triana finalmente avistasse a terra do alto do mastro da
Capitânea...
Todos os cronistas dos séculos XVI e XVII que escreveram sobre a descoberta da
América se referem à fábula do "piloto anônimo". De acordo com esta lenda, Colombo
teria acolhido em sua casa, em Porto Santo, um piloto que, impelido por uma tempestade,
teria realizado uma viagem involuntária até as Antilhas, de onde teria voltado exausto, para
morrer nos braços de seu anfitrião. Ele é quem teria legado o mapa, ou itinerário, a
Colombo. Falava-se mesmo em dois marinheiros de Palos, que teriam estado
acidentalmente nas Antilhas e delas teriam falado com o almirante. Teriam abordado aquela
terra que figurava de maneira bastante vaga no mapa de Toscanelli, entregue pelo rei
Afonso V de Portugal a Fernão Teles de Meneses em 1475.
A isto tudo, acrescente-se ainda um pormenor, o mais curioso de todos. Na viagem
de volta, enquanto todos se preocupavam com a ausência de ventos nas zonas equatoriais, o
almirante comportou-se como se conhecesse igualmente de antemão esse novo itinerário.
Essa volta se processa como uma corrida louca, de dia e de noite, a fim de percorrer o
trajeto dentro do prazo mais curto e valendo-se dos ventos oeste, que os impeliriam para a
Europa. Outra façanha impossível sem um bom mapa.
De resto, isto tudo serve apenas para reforçar a tese clássica, apresentada por M.
Beuchat, segundo a qual o almirante dispunha, já em 1483, de um plano sistemático para a
exploração da parte ocidental do oceano Atlântico. Ora, se Colombo estava de posse de um
mapa e se, nesse mapa, as ilhas apareciam em seu lugar exato, era perfeitamente possível
que ele conhecesse os seus nomes antes de as abordar, e nada o impediria de "batizá-las"
por sua vez.
Que esse mapa existiu, forneceu-nos uma prova cabal a descoberta feita na biblioteca
do palácio Topkapu, em Constantinopla, em 1929. Trata-se do famoso Mapa do Mundo —
na verdade, de sua metade esquerda — redigido em 1513, em Gelibolu (Galipoli) pelo
Capitão-Paxá — Piri Reis, almirante e cartógrafo turco de nomeada, para o sultão Selim.
Nas notas às margens desse mapa, que é indiscutivelmente a melhor representação da
América na primeira metade do século XVI, encontra-se uma inscrição árabe, referente a
Colombo e às ilhas por ele descobertas. Observemos desde logo que o almirante turco
declara sem rebuços haver utilizado um mapa de Colombo para redigir o seu. Mas aqui está
a nota V do mapa de Piri Reis:
"O presente mapa descreve essas costas, assim como as ilhas que nelas se encontram.
Essas costas se chamam o litoral das Antillya. Foram descobertas no ano de 890 da era
árabe. Conta-se porém que um infiel de Gênova, de nome Colombo, descobriu essas
paragens. Caiu assim nas mãos de Colombo um livro onde ele aprendeu que nos confins do
mar Ocidental, isto é, a oeste, existiam costas e ilhas, minas de toda espécie e também
pedras preciosas. Tendo lido do princípio ao fim o dito trabalho, ele enumerou esses fatos,
um após outro, aos Grandes de Gênova e lhes disse: "Dai-me dois navios para que eu vá
em busca desses lugares..." Eles responderam: "ó tolo, o mar Ocidental tem um limite ou
um fim? Ele está envolto em vapores das trevas." O dito Colombo viu que nada poderia
esperar dos genoveses e foi contar a coisa ao rei da Espanha. Também ele deu resposta
igual à dos genoveses. Mas Colombo mostrou-se tão insistente que o rei da Espanha lhe
deu dois navios, cuidou para que fossem bem aparelhados e armados e disse: "ó Colombo,
sendo como dizes, faço-te capitão desses sítios" ... e enviou-o para o mar Ocidental.*
* O historiador e geógrafo americano G. F. Nun comenta nos seguintes termos a
façanha do almirante: "Na realidade, Colombo não fez uma descoberta e sim três. A
descoberta das duas rotas oceânicas passou despercebida por ter sido eclipsada pela
descoberta da terra." Seja como for e como faz notar o seu grande biógrafo moderno
Salvador de Madariaga, Colombo "inventou num estalar de dedos o que os marinheiros
espanhóis do Pacífico levaram quarenta anos para descobrir desde 1520-1521, data da
expedição de Magalhães, até 1565, quando Urdanea descobriu o caminho de oeste para
leste" (Salvador de Madariaga: Christophe Colomb, Paris, Calmann-Lévy, 1952, p. 296).
O falecido Gasi Kemal possuía um escravo espanhol, o tal escravo costumava contar
a Kemal Reis que estivera três vezes naquele país com Colombo, e dizia: "Nós chegamos
primeiro ao estreito de Ceuta, depois tendo percorrido quatro mil milhas seguindo
justamente pelo meio..."
Agora, esses países estão abertos a todos e conhecidos. Os nomes que designam as ditas
ilhas e litorais, deu-os Colombo para que eles sejam conhecidos com esses nomes. Colombo era também
um grande astrônomo. Os litorais e ilhas que aparecem neste mapa foram tirados do mapa
de Colombo.
Todavia, desdenhando o mapa e a nota, outros historiadores da geografia
sustentaram que, mesmo que Colombo tivesse dado realmente nome às ilhas que acabara de
descobrir, sua inspiração devia ser puramente local.
Os indígenas de então eram Arawacs e Tainos. Destes últimos já não existe nenhum
remanescente. Felizmente, seus costumes e sua língua foram estudados antes que a
felicidade trazida pelos espanhóis a seus súditos das ilhas os houvesse a todos exterminado.
Os tainos ocupavam, sobretudo, a parte central da ilha de Haiti. O padre Raymond Breton,
missionário nas Antilhas, redigiu em 1656 um dicionário corrente da língua dos caraíbas do
Haiti, o qual na realidade é apenas um dicionário taino-francês bastante razoável. Um outro
francês, o padre de Charlevoix, autor de uma bela História da Ilha de São Domingos, chega
mesmo a considerar a língua dos tainos como língua sagrada que só teria sido falada
permanentemente pelos habitantes do centro da ilha, e apenas nas grandes ocasiões
utilizada pelos demais. Para Onífroy de Thoron, autor do século XIX, ela teria sido
transmitida pelas mulheres.
Seja como for, os nomes das diversas ilhas das Baamas apresentam indiscutivelmente
relações com a língua dos tainos, e cada um deles tem um sentido em taino. Assim: Habacoa,
a ilha Abaco. Em taino, Haba-cani significa aldeia e Habacoa, lugar elevado. Habacoa seria por
conseguinte a ilha da aldeia elevada, protegida. Ainda em taino, Buemen Buemiv = coroa, pico.
Mas também Bina, Binah, = muro velho, ruína; Bim = intervalo entre as pedras de um muro,
e Bein, Beine, Ebein = pedra de construção, marco. Bem traduzida, Bimini seria, portanto, a
ilha (coroa) do velho muro ou a Ilha da Coroa.
ESTRANHAS COINCIDÊNCIAS
Se tivermos presente em nosso espírito que Colombo não era apenas um navegador
profissional, mas também, um excelente conhecedor das Escrituras, um cabalista de mão
cheia e estudioso do hebraico por vocação, não podemos deixar de nos impressionar com a
espécie de ressonância hebraica de todos esses nomes. Ele próprio a deve ter sentido no
momento em que os consagrava perante a história. Vamos deixar bem claro. Trata-se
evidentemente do velho hebreu dos textos bíblicos, o qual não fica assim tão distante de
duas línguas irmãs, mortas há muito tempo: em primeiro lugar, o cananeu, mais próximo, e
depois o fenício. Todas três provinham, aliás, de uma mesma cepa semítica.
Colombo deve ter-se lembrado dos textos antigos. Por exemplo, que em cananeu e
em hebreu arcaico pode-se encontrar: para Habacoa: habak = lugar cercado; kani — moradia,
habitat; oba = pedra, mesa, mesa de pedra, laje; abakani = habitat. Da mesma forma para
Bimini: B'Mn' — lugar elevado, altar; Boum Hein = lugar (ou objeto) precioso; Banâ, Bina =
construção, edifício dominante. Ou seja, mais uma vez, a aldeia cercada para Habacoa, e a
construção que domina — ou altar — para Bimini.
Inútil continuarmos a nos estender sobre as aproximações possíveis. Sua verdadeira
explicação é infinitamente mais simples que as que poderiam ser imaginadas. Talvez seja até
mesmo preciso encarar duas explicações, uma das quais seria evidentemente a coincidência
pura e simples; a não ser que se admita uma presença semita muito remota, ou mesmo
fenício-cananéia, em algumas das orlas americanas.
Admitindo-se porém, que Colombo poderia ter conhecido os nomes das ilhas antes
de descobri-las, a surpresa que lhe teriam causado esses nomes não poderia deixar de nele
reforçar o propósito de "descobrir" essas terras estranhas. Especialista nas Escrituras, e
mais ainda na Cabala, da qual ele foi com toda a certeza um grande conhecedor, sem dúvida
considerava-se ele destinado a ser o primeiro a tirar partido de todas essas informações,
assim como, das lendas sobre a água de Juventude.
Entre os livros que pertenceram a Colombo e que revelam suas preocupações, está o
célebre Ymago Mundi do cardeal d'Ailly. A certa altura, d'Ailly escreve sobre o Eufrates: "Rio
da Mesopotâmia, cuja nascente está no paraíso; muito rico em pedras preciosas". À
margem, Colombo anotou simplesmente: "Eufrates". Em contraposição, nas páginas
consagradas às ilhas Afortunadas (as Canárias), ele observa: "O Paraíso terrestre é
certamente o lugar a que os autores dão o nome de ilhas Afortunadas". Confessa seu erro
em outra nota. Mais adiante, numa página do capítulo IV onde d'Ailly se refere aos quatro
rios do Paraíso bíblico, escrevendo que existe no Paraíso "uma fonte que banha o jardim
das delícias", Colombo comenta: "Uma fonte no Paraíso."
Talvez fosse esse o início de um capítulo de sua vida que ele não chegou a viver.
Capítulo que teria podido intitular-se Cabala, Colombo e Bimini...
QUANDO O AVIÃO VOA POR ENTRE AS ÁGUAS
...É preciso considerar que há cerca de 10.000 anos, as Baamas formavam um imenso
platô acima das águas, podendo perfeitamente abrigar milhões de homens... Os inúmeros
vestígios descobertos tornam evidente esta hipótese... Acontece porém que não sabemos
absolutamente nada sobre essa civilização. O problema é portanto arqueológico e não mais
geológico. É preciso levar adiante os trabalhos e as escavações para descobrir finalmente as
chaves desse formidável enigma.
Em 1970, quatrocentos e cinqüenta e oito anos após o seu ingresso na história dos
homens, Bimini irrompe pela segunda vez na atualidade. Propriedade da poderosa
companhia financeira Rockwell e desfraldando a bandeira inglesa, a ilha extraiu benefícios da
celebridade de dois indivíduos fora do comum. Um profeta e um poeta, um titã da visão e
um gigante da criação literária elegeram-na, cada um por sua vez. O primeiro foi o estranho
Edgar Cayce; o segundo, Ernest Hemingway.
Cayce, o visionário mimado pelos milionários americanos à cata de sensações,
associou o seu nome ao da ilha quando predisse a ressurreição da Atlântida do seio das
águas límpidas das Baamas. Ele também afirmava que, ao largo de Bimini, devia haver um
templo atlante, construído no cume de um dos grandes montes da Atlântida, submerso sob
as ondas... Ao que parece, mesmo quando se é profeta, um pouco de geologia não pode
fazer mal algum. Com efeito, Cayce deveria saber que o platô das Baamas, uma simples
plataforma, não comporta montanhas submersas, nem vulcões que deixam de funcionar
debaixo de alguns metros de água. Mas Cayce foi ainda mais longe, tendo chegado a garantir
que, nesses templos, os sacerdotes atlantes procediam a fabulosas experiências utilizando a
energia dos raios de luz, geradores de imprevisto. Uma espécie de laser atlante, antes do
verdadeiro. Mais realista, Hemingway nos deixou O Velho e o Mar, algumas páginas do qual
foram escritas num café da ilha.
Mas Bimini aspirava a uma glória muito diferente, a que sobre ela haviam lançado as
lendas dos tainos, os sonhos de Colombo e as ambições secretas de Juan Ponce de León.
Uma glória de final de ciclo, capaz de se emparelhar, até certo ponto, com as "histórias" de
1492 e de 1512.
TEM INÍCIO A VERDADEIRA EXPLORAÇÃO
O que a navegação a vela iniciou no tempo de Isabel, a Sábia, e de Joana, a Louca,
deveria ser completado pela exploração submarina na época em que são novamente
discutidas certas "verdades" estabelecidas. Robert Marx, Dimitri Rebikoff e Manson
Valentine acrescentaram seus nomes à lista dos que estão associados à ilha de Bimini.
Manson Valentine do Museu de Ciências de Miami, na Flórida, ex-professor da
Universidade de Yale e especialista em civilizações pré-colombianas, é na realidade o
verdadeiro "descobridor" do sítio de Bimini. Dimitri Rebikoff, explorador, engenheiro
especializado no campo da fotografia submarina e inventor do "flash" eletrônico, fundou
um instituto de tecnologia submarina que funciona em Cannes e Nova Iorque. Robert Marx
— célebre mergulhador submarino, apaixonado por pesquisas em torno das navegações
antigas e da arqueologia submarina — é o explorador dos sítios da ilha de Andros.
As descobertas de Bimini foram possibilitadas, a partir do mês de setembro de 1968,
graças ao engenho Remorra M-114-E, construído por Rebikoff, verdadeiro avião submarino
provido de câmeras automáticas que permitem tomadas com ângulo muito grande (em
diagonal, sob a água). Uma vez equipados, os pesquisadores concentraram seus esforços
numa estrutura submersa, cuja existência havia sido assinalada nas proximidades da costa
setentrional da ilha, precisamente a noroeste de North Bimini.
Cada um por sua vez, o doutor Robert Thompson, da Universidade York de
Toronto (Canadá); os professores John Gifford e Cesare Emiliani, da Universidade de
Miami; o doutor F. G. Walton Smith, também de Miami; e Tim Tealey, diretor do Instituto
tecnológico P. I. T. do Hidrospaço de Cocoa Beach; Sir Robert Marx, diretor do departamento
de pesquisas da Real Eight Co.; e o aviador baamiano Paul Aranha, tomaram parte nas
pesquisas. Ao cabo do primeiro ano, eles deram com uma estrutura de 70 metros de
comprimento e 10 de largura, construída aparentemente com grandes blocos de pedras
regulares, ligadas por uma espécie de cimento. Medindo os blocos com o auxílio de um
meio-decâmetro de agrimensor e de um estéreo-comparador geralmente utilizado para
traçar mapas aéreos em curvas de nível, Rebikoff sentiu-se bem depressa capacitado a
especificar que alguns deles chegavam a ter mais de 5 metros de lado, e que sua espessura
oscilava entre os 50 e os 150 centímetros. Seu peso chegava, portanto, a atingir por vezes
cinco toneladas, para uma densidade média do material rochoso superior a 2.
Concluídas em abril de 1971, as trincheiras de exploração escavadas na face leste do
muro oriental revelaram a existência de pelo menos uma segunda camada de pedras
similares, por baixo da primeira. Todas aquelas pedras são ajuntadas por uma mesma
camada de cimento de 5 a 6 centímetros de espessura. Verificou-se, além disso, que a face
externa do muro se alteia, reta e bem alinhada. Os cantos inferiores, protegidos contra a
erosão das ondas, podem ser verificados a esquadro em todos os seus três eixos. Aqui e ali,
julgou-se identificar na face interior dos blocos, marcas que poderiam ter sido feitas por
instrumentos.
Pesquisas ulteriores poderão determinar se aquilo constitui um muro único ou um
simples elemento de uma construção infinitamente mais vasta. Já alguns fatos novos,
sobrevindos em maio de 1971, parecem indicar que se trata de um antiqüíssimo porto
submerso, comportando cais e um quebra-mar duplo que se alarga em alguns pontos
simétricos.
Observe-se ainda que a horizontal da parte de cima do muro está perfeitamente
"nivelada" com a linha de superfície da água e em toda a sua extensão a uma profundidade
uniforme de cerca de 6 metros. O aspecto geral revela uma construção perfeitamente
assentada num embasamento preparado de acordo com regras técnicas devidamente
respeitadas.
Finalmente, todas essas estruturas artificiais permanecem virgens de vida marinha
fixa; esponjas, briozoários, corais madrepóricos, e até as algas estão inteiramente ausentes.
Esta situação talvez se explique pela circunstância de ter o edifício permanecido oculto na
areia durante milênios. Foram, com efeito, os violentos furacões destes últimos anos que
revelaram os contornos das estruturas por entre as águas límpidas e azuladas das Baamas.
Diga-se de passagem que, por ter resistido a tufões e furacões tropicais capazes de altear
ondas de 11 metros e de fazer soprar ventos de 210 nós, fica comprovada a solidez da
construção.
Ainda faltava um pronunciamento a respeito da idade das estruturas. A possível data
da construção, correspondente ao estágio de imersão propriamente dita, de um certo nível
do terreno não é de maneira alguma idêntica em toda parte e varia em função dos métodos
utilizados para determiná-la. Assim, o método de determinação da curva geral da subida das
águas acusa cerca de 6.000 anos de antigüidade. Procedendo-se à mesma medida com o
auxílio do radiocarbono 14 aplicado aos vestígios de turfeiras submersas nas vizinhanças,
dá-se a estas últimas uma idade de 4.700 anos (+ 10%) para uma profundidade de 3 metros,
e de 6.000 anos para 4 metros. A estimativa, calculada por extrapolação, dá 10.000 anos
para uma profundidade de 6 metros. Este valor corresponde ao nível atual das partes
superiores do muro, mas não ao de suas bases. Pode-se razoavelmente admitir uma
antigüidade variando entre os 8.000 e os 10.000 anos para as construções cuja base se
encontra atualmente entre 8 e 10 metros de profundidade.
Em todo caso, é preciso considerar que em época bastante recuada, a superfície do
platô das Baamas era suficientemente vasta para proporcionar uma região interior
indispensável ao desenvolvimento de uma civilização e ao desabrochar de uma vida social
fundamentada na pesca, na caça, possuindo até mesmo alguns rudimentos de agricultura e
permitindo o progresso de uma sociedade humana capaz de edificar construções
megalíticas. Aliás, a estrutura de Bimini não é a única do arquipélago das Baamas.
DESCOBERTAS NAS BAAMAS
Apaixonado pela arqueologia, o professor Manson Valentine foi também, com
Ernest Williamson, um dos pioneiros da fotografia submarina, com a qual esteve lidando
desde 1926. A partir de então, ele esteve sempre à procura de estruturas submersas por toda
parte no vasto platô das Baamas, concentrando suas tentativas sobretudo entre Nassau e
Bimini. Seu primeiro colaborador foi o piloto comercial Robert Brush, que sobrevoava
diariamente a região que se estende entre Bimini e a ilha de Andros. Foi naquelas paragens
que Brush descobriu e fotografou em 1968, ao norte da ilha de Andros, uma estrutura
aparentemente retangular. Comunicou-o imediatamente ao professor Manson Valentine e
foram ambos visitar aquele sítio, em companhia de Rebikoff; foram obrigados a fazê-lo
num hidroavião em virtude da pouca profundidade das águas. Tratava-se de um muro com
mais de 30 centímetros de espessura, inteiramente recoberto pela areia.
Esse muro, que dava a impressão de ser a base de um edifício retangular de cerca de
30 metros por 20, era feito de pedras cuidadosamente alinhadas a cordel. Somente a sua
parte inferior, revelada por uma pequena trincheira cavada à faca, havia sido preservada.
Estava assentada sobre um substrato horizontal de rocha calitrótica baamiana. A construção
ainda não foi explorada. Sabe-se, entretanto, que ela apresenta algumas divisões e até
mesmo duas câmaras de canto, o que a aproxima, do ponto de vista do plano, da célebre
casa das tartarugas de Uxmal, entre os maias.
Nas cercanias de Bimini, encontra-se ainda um outro recinto de forma retangular,
uma estrutura poligonal — mais ou menos pentagonal — e finalmente uma outra, com
várias dezenas de metros de comprimento e denominada, devido ao seu contorno geral,
sabre de abordagem. A lista, provavelmente, ainda não está completa.
Recentemente, durante uma breve exploração de uma gruta submersa nas
proximidades da ilha de Andros, Robert Marx descobriu outros vestígios. Tratava-se de
uma escavação bastante profunda, cujo interior continha resto de cerâmicas. Uma dessas
peças — feitas a mão — representava um rosto humano.
Os objetos revelavam um aspecto geral extra-americano. Os peritos que tiveram
oportunidade de examinar as fotografias, batidas naquele lugar pelo pesquisador, atribuíram
às peças nelas representadas uma origem nitidamente não ameríndia e as associaram ao tipo
mediterrâneo. Quanto à idade de sua fabricação, consideraram-na anterior à época
colombiana. Não muito longe desse mesmo local, o doutor J. Manson Valentine deu, por
sua vez, com algumas pedras discoidais, com um orifício no centro e diâmetro de cinco a
seis pés. Essas pedras, também identificadas por Robert Marx no decorrer de uma de suas
explorações, apresentam uma semelhança bastante estranha com alguns objetos descobertos
nas ilhas Yap, no Pacífico.
Assinalou-se igualmente, nas proximidades do sítio de Bimini, a existência de
pedaços de antigas colunas recobertas pela areia.
De início, as descobertas de Valentine e seu grupo não despertaram nenhum
entusiasmo. A explicação talvez esteja na própria celebridade de Bimini, assim como nas
previsões desse "Nostradamus adormecido"* que foi, aos olhos dos jornalistas, Edgar
Cayce, o qual havia anunciado para 1968-1969, a ressurreição da Atlântida em Bimini. De
modo que o professor Sears, do departamento de Arqueologia das Baamas, grande
pesquisador dos magros sítios dos antigos Arawacs, desprovidos de construções de pedra,
qualificou o "templo" situado ao norte da ilha de Andros de "viveiro de tartarugas".
Entretanto, um estudo mais aprofundado dos contornos dessa construção deveria levar
finalmente a salientar a semelhança entre o seu plano e o de muitas construções religiosas
da Antigüidade mediterrânea oriental.
*[Nascido no dia 18 de março de 1877, Edgar Cayce adquiriu grande fama na
América graças à extravagância e à ousadia de suas predições, pronunciadas em estado de
sono hipnótico. Profeta em sua própria terra, ele previu as duas guerras mundiais. Bimini
não escapou à sua incessante atividade. Em junho de 1940, Cayce teve uma visão segundo a
qual uma das ilhas da Atlântida de Platão iria voltar à tona. Tratava-se da ilha de Poseidon,
lugar sagrado dos antigos atlantes, situado na vizinhança imediata da ilha de Bimini, que
emergirá em virtude de um movimento muito lento e progressivo. Talvez se trate do Caiful
de exegetas imaginosos de uma Atlântida por demais prodigiosa para ser levada a sério até
mesmo por atlantólogos convictos. De resto, sempre de acordo com Cayce informações
extraordinárias sobre essa Atlântida atlântica poderiam ser encontradas num templo secreto
situado no Egito, soterrado pela areia, em baixo de uma das patas da Esfinge...]
Antes de concluir esta sucinta descrição das estruturas já conhecidas, devemos
acrescentar ainda um pormenor quanto à natureza petrográfica das enormes pedras que
constituem o quebra-mar do porto de Bimini. De acordo com os especialistas, e segundo
proclama o relatório dos geólogos da Universidade de Miami do dia 25 de fevereiro de
1971, o "muro" é constituído de blocos de micrite que não apresentam a menor semelhança
com as formações rochosas naturais por eles recobertas. Estas formações, constituídas de
calcarenitos (grão de material calcário, cimentado por cristais aciculares de aragonita) são
características das costas do norte de Bimini. Esses blocos, com pronunciado conteúdo de
micrita, têm baixa porosidade (30 a 50%) e sua massa contém inúmeras conchas e moluscos
fossilizados, aproximando-se assim das formações do facies lagunar da costa de South
Bimini.
De modo que o relatório é formal. Os blocos que constituem a estrutura artificial
próxima às costas setentrionais da ilha de North Bimini não têm o menor laço natural com as
formações naturais sobre as quais se encontram. Ainda mais: eles pertencem, do ponto de
vista geológico, a camadas encontradas apenas a uma distância de pelo menos 22 milhas, do
outro lado de uma outra ilha. E o relatório chega à conclusão de que se está diante de um
"enigma geológico". Mas para que uma "estrutura", emersa ou submersa, seca ou úmida,
num lugar qualquer do mundo, tenha o direito de ser incluída no imenso catálogo do
artificial, é preciso que se possa determinar a sua origem. Ora, o grande defeito das
construções de Bimini é que elas nada nos dizem a respeito de seus construtores. Nada
daquilo que sabemos da história do homem americano ou da pré-história européia de há
10.000 ou 12.000 anos nos autoriza a fazer qualquer atribuição. Quanto aos manuais
consagrados, a história propriamente dita das civilizações ameríndias pré-colombianas,
susceptíveis de realizar edifícios daquela natureza, remonta quando muito a 2.000 anos
antes de Cristo, com a cultura olmeca de San Lorenzo, do período antigo do pré-clássico da
América Central. Quanto à Europa, muito embora o período transcorrido a 12.000 ou
15.000 anos já tivesse presenciado o nascimento da arte de Lascaux e de Altamira, admite-se
que os aborígenes teriam sido incapazes de construir um muro ou um monumento
qualquer.
Teria sido, entretanto, possível proceder a certas aproximações, como as
apresentadas no quadro a seguir.
Chegou-se mesmo a perguntar, de início, se os espanhóis não haviam construído
fortificações e cais em Bimini, Andros e outras ilhas das Baamas. Ou, na pior das hipóteses,
os indígenas pré-hispânicos. Porém, no que diz respeito aos espanhóis, a história o teria
registrado. Quanto aos indígenas — Arawacs e Tainos imigrados — essas construções lhes
teriam sido inteiramente inúteis e eles só fabricavam cabanas de madeira.
De modo que os construtores de Bimini teriam de ser forçosamente desconhecidos,
fora de todos os esquemas históricos admitidos. Desconhecidos que seria melhor sufocar
ainda dentro da casca do ovo. Foi assim que teve início, em março de 1971, uma das últimas
guerrinhas da arqueologia: a guerra das estruturas rochosas das Baamas.


*[Recentemente, graças a uma datação feita por meio do rádiocarbono, P. R. Romero
chegou à conclusão de que esses vestígios, que ele considera olmecas, tinham 10.000 anos
de idade.]
HARRISSON VAI À GUERRA
Foi uma verdadeira "decepção para os amantes do maravilhoso" o artigo publicado a
9 de abril de 1971 por um jornal francês, reputado pela sua seriedade, e que afirmava: "Os
muros submarinos das Baamas são obra da natureza". Ficava ali demonstrado, com
referência à não menos séria revista inglesa Nature e a um "estudo" de um certo senhor
Harrisson, que os exames feitos in loco e as análises de laboratório estabeleciam de maneira
irrefutável o caráter realmente natural daquelas formações. Citemos: "Os blocos são todos
constituídos de calcário grosseiro, assentados sobre uma camada de calcário mais denso e
mais fino... De uma para outra, em todo caso, tudo combina: a disposição dos estratos e a
morfologia superficial..." Explicam-nos até "como se formaram aqueles blocos". O cascalho
proveniente da trituração grosseira das conchas de moluscos é que se teria depositado nas
águas então muito baixas. Mais tarde, por ocasião do pleistoceno, o recuo do mar teria
deixado aquelas formações entregues às águas doces do solo, e o material grosseiro teria
sido apanhado "num cimento" submetido a consecutivas fissuras (diaclases)
perpendiculares... Rebaixamento lento das costas, ressaca marinha, vagas impetuosas e
animais marinhos perfuradores aumentando as fraturas (sic)... e lá estão os blocos que
parecem realmente modelados e ali depositados pela mão do homem!
Como derradeira descarga desta barragem de artilharia pesada, um sinal de
comiseração para com os partidários da artificialidade. "Quanto ao engano, escreve
Harrisson, tanto mais compreensível por serem submarinas as formações, fica ele explicado
pelo fato de terem sido feitas as primeiras observações por indivíduos indiscutivelmente de
boa fé, mas que não são geólogos." Infelizmente para ele, ao pretender defender a
cronologia histórica que não poderia localizar Bimini em parte alguma sem se trair,
Harrisson se descuidou de maneira por demais manifesta da cronologia da descoberta.
Examinemos portanto as datas, em seu lugar.
Concebido durante o verão de 1970, "Atlantis Undiscovered — Bimini, Baamas" o
artigo de W. Harrisson, do Environmental Research Associates Inc., de Ashley Drive (Virgínia),
chegou à redação da revista Nature a 22 de outubro de 1970. De modo que Harrisson, ele
próprio especialista em questões do ambiente, enuncia julgamentos definitivos seis meses
antes da publicação do estudo de geólogos, perfeitamente qualificados, que vêem na
estrutura de Bimini um "enigma geológico"...
Longe de representar o Waterloo do muro das Baamas, o artigo de Nature contribuiu
para um início de esclarecimento das coisas, impondo novas investigações. Foi então que se
comprovou que o muro inicial de 1970 fazia parte de uma gigantesca estrutura retangular,
uma espécie de construção portuária cujo molhe, recurvado e enfrentando o Gulf Stream,
tinha mais de 600 metros de comprimento. Ainda mais: o exame desse molhe confirmou
não somente os pormenores de localização dos blocos, das pedras angulares dispostas em
esquadria e seu alinhamento perfeito, como também o fato de que a disposição das fileiras
de blocos simples inclui-se num modo de construção que a natureza de maneira alguma
pode imitar, a construção sobre pilastras.
As explorações empreendidas em maio de 1971 e levadas adiante a partir de então,
mostraram a posição exata das lajes gigantescas sustentadas pelas pilastras, e cuja superfície
inferior é rigorosamente paralela à superfície superior... Esse modo de construção sobre
pilastras lembra até certo ponto o dos molhes dos antigos portos mediterrâneos,
construídos pelos fenícios.
Acrescentemos também, sem nenhuma intenção de tocar num ponto sensível, que se
examinarmos a bibliografia do artigo de W. Harrisson, verificaremos que, além das duas
citações de artigos a respeito da geologia e da paleontologia datados de quatorze e quinze
anos atrás, e de duas referências aos autores da descoberta (Valentine e Rebikoff), ela nos
remete a obras sobre a Atlântida de Ferro, Berlitz, etc.
O espaço vazio entre as pilastras servia de quebra-mar. O molhe do porto de Biblos
é desse tipo.
O exame cuidadoso da disposição geral da estrutura de Bimini — onde é possível
que a passagem coberta chegue até o muro propriamente dito, espécie de molhe, e ao
terraço construído à maneira megalítica — permite identificar a diferença muito marcada
entre o natural e o artificial. O ridículo daqueles que atribuem a forma de certos
pormenores à atividade incessante dos animais marinhos torna-se, com isto, ainda mais
manifesto.
Em dezembro de 1971, Pierre de Latil escreveu após uma viagem àqueles locais:
"Nós ali compreendemos o que víramos claramente no filme apresentado em Paris, isto é,
que os blocos não assentam diretamente no fundo e sim sobre quatro pedras formando
pilares... E é isto, com efeito, o mais importante: o fundo arenoso continua por baixo dos
blocos, inclusive com suas ripple marks. Sob o teto de rocha plana, vê-se a luz do outro lado.
Os "pilares" por vezes se apresentam recobertos de uma crosta, mas são sempre quatro...”
Essa crosta, cuja espessura é de dois a três centímetros, é devida a um depósito de
esponjas calcárias, dissimula, indiscutivelmente, até certo ponto, a forma puramente
geométrica dos blocos, que sem ela surgiria de maneira muito mais evidente. E conclui
Pierre Latil: "Afinal de contas, quando se esteve in loco, torna-se difícil dar crédito aos
argumentos do geólogo Harrisson, de acordo com o qual se veriam, dos lados dos blocos,
camadas sedimentares que se reproduziriam em todos os blocos. Essas estratificações, se
existissem, estariam totalmente recobertas.”
Da mesma forma, John Gifford, ex-aluno da School of Marine and Atmospheric Sciences da
Universidade de Miami, e que dedicou sua tese às formações de Bimini, observou nos
materiais colhidos nos blocos vizinhos uma nítida diferenciação entre as camadas, que não
correspondiam umas às outras de um bloco para outro.


 
O caráter artificial das estruturas é, portanto, por demais manifesto para ser
contestado e, embora seja ainda muito cedo para se reconstituir o porquê e o como das
coisas, é sempre possível tentar, mediante um jogo de espírito, sair em busca dos
construtores. Para isto, convém em primeiro lugar interrogar-se a respeito da maneira
segundo a qual essas terras puderam se ver submersas. Nesse ponto, somente a geologia
nos pode ajudar.
A HABITAÇÃO INVADIDA PELAS ÁGUAS
Apparent rari nantes in gurgite vasto.
VIRGÍLIO, Eneida, I, 118.
A região de Bimini pertence ao platô pré-continental das Baarnas. Esta plataforma
antiqüíssima fazia outrora parte de um estreito no man's land, cuja largura era de apenas
algumas centenas de quilômetros, separando a terra americana que se tornará a Flórida, do
corpo propriamente dito da África. Isto, muito antes que o lento balé dos continentes
conferisse ao globo a sua fisionomia atual. Desde então, transcorreram longas épocas
geológicas, calculáveis em centenas de milhões de anos. Há 25 000 ou 30 000 anos, num
mundo que não diferia acentuadamente daquele que hoje conhecemos, as Baamas se
encontravam encravadas num grande platô continental de várias centenas de quilômetros.
De Bimini, podia-se ir então sem molhar os pés até Exuma Island, e o litoral oriental da ilha
de Andros cercava um vasto golfo interior que se abria para o Norte, verdadeiro paraíso de
águas cálidas onde imperava a mais fantástica vegetação tropical. Os gelos polares, ao se
derreterem, modificaram progressivamente o aspecto desse platô submerso milímetro por
milímetro. As curvas de nível, a vegetação soterrada, as formações geológicas das águas
doces tornam possível reconstituir o que foi cada uma das etapas dessa lenta imersão.
Sabemos assim que o nível atual de - 20 metros estava ao nível da água há 9.000 a 15.000
anos; que o de - 8 a - 15 metros correspondia ao da água há 6.000 ou 7.000 anos, e o de - 5
a - 8 metros, há 5.000 anos.
É preciso admitir que o platô tenha sido habitado 10.000 a 15.000 anos antes de
Cristo. O povoamento da vizinha América, data de pelo menos 80.000 anos atrás, como
ficou indiretamente demonstrado pelas descobertas feitas na Califórnia por Leakey em 1970
e 1971. Aquele último cálculo torna perfeitamente aceitável o primeiro. Por conseguinte, o
afundamento das Baamas teria sido testemunhado, pelo menos no início, pelos homens que
viviam naquela terra fértil, onde abundavam as plantas úteis e os animais, e em cujas águas
pululavam os peixes.
Seja como for, há pelo menos 8.000 anos, a submersão das terras deve ter sido
claramente percebida pelos seus habitantes. A eles se deve ter então proposto o problema
da evacuação — também ela progressiva — das "terras baixas", mais diretamente
ameaçadas. A retirada deve ter-se efetuado a princípio em direção às terras interiores, mais
altas, intervindo mais tarde a evacuação definitiva. De acordo com essa hipótese, é possível
imaginar que há cerca de 3.000 ou 5.000 anos ainda podiam ser vistas naqueles lugares
ruínas em processo de submersão.
No período final — o que vai do ano 1.000 até nossos dias — encontram-se entre as
terras que foram poupadas, zonas de águas baixas, não navegáveis, que valeram ao
arquipélago o seu nome espanhol de Baha Mar, transformado em Baamas. É a esta situação
que se devem igualmente certas tradições locais sobre ruínas submersas.
É preciso entretanto propor duas perguntas. A primeira refere-se a quem foram os
construtores dessas estranhas estruturas, contemporâneas das pinturas de Lascaux e de
Altamira, na Europa? Ou seja, de uma época em que a América ainda não havia sido
inteiramente povoada pelos asiáticos que para lá foram atravessando o estreito de Behring e
pelos polinésios levados pelas correntes do Pacífico. A segunda pergunta diz respeito ao
destino que eles tomaram depois de abandonar seus lugares de origem? Parece-nos que um
simples exame crítico do mapa do oceano Atlântico será suficiente para nos fornecer
respostas corretas.
ARRASTADOS PELO GULP STREAM E PELA CORRENTE DAS CARAÍBAS
Logicamente falando, os construtores de Bimini e das outras estruturas arquitetônicas
espalhadas nos recôncavos das Baamas não podem deixar de pertencer a um antiqüíssimo
povo de marinheiros que viviam do mar e possuíam uma cultura pré-megalítica. Justifica-se
a idéia de que esses homens, ao abandonarem suas "habitações" que eram efetivamente
"paradisíacas", devem ter-se deixado levar pelas águas tépidas do Gulf Stream a fim de
atravessar o Atlântico de oeste para leste. Pode-se imaginar que eles depois se estabeleceram
onde terminava o percurso da corrente, isto é, nas ilhas atlânticas situadas a Leste do oceano, as
Canárias e os Açores, nas costas da Irlanda, da Inglaterra, da Bretanha, assim como, a
Noroeste da Península Ibérica. Mas também nas orçadas, nas ilhas Shetland, nas costas
orientais do mar do Norte depois de atravessar a Mancha, naquele tempo muito mais
estreita, ou descendo entre a Escócia e a Noruega.
Do outro lado das Baamas, em direção ao Sul e a Oeste, esperavam-nos as costas da
Flórida, as grandes ilhas das Antilhas, as costas do Yucatan e de Honduras, as do istmo do
Panamá e do Norte da América do Sul, até a foz do Amazonas... Chegando, em pequenos
grupos, a paragens desconhecidas, esses homens para lá levaram necessariamente a sua
concepção do mundo, suas idéias mestras, seus conhecimentos e suas técnicas.
O HOMEM FÓSSIL DA FLÓRIDA
Nesta altura, somos obrigados a nos desviar e lembrar que, de acordo com os últimos
dados das pesquisas antropológicas, a Flórida e suas costas já eram habitadas naquela época.
Dispomos atualmente de informações seguras e, sob muitos aspectos, sensacionais, a
respeito do homem que lá vivia. Foram encontrados não apenas os seus ossos, seu crânio
(vários exemplares) ligeiramente alongado e acusando um prognatismo bastante
pronunciado, de índice cefálico superior a 74, mas também o seu cérebro intacto.
Esse homem da Flórida viveu provavelmente há cerca de 10.000 anos, nas paragens
de Warm Mineral Springs. Um afortunado processo de conservação, devido às mineralizações
das camadas de sedimentos que o protegiam, permitiu que se descobrisse o cérebro no
interior de sua caixa craniana. A seu lado, havia utensílios de pedra. Quanto a ele, o que
estaria procurando em companhia de alguns de seus semelhantes no ponto em que foi
encontrado? Os benefícios das águas milagrosas da Flórida?
Acrescentemos que além das habituais facas de sílex e das agulhas de osso
semelhantes aos artefatos descobertos em 1959 por Lewis e Kenberg em Eva (Tennessee),
o homem de Warm Mineral Springs também possuía utensílios cortantes feitos de dentes de
tubarão fósseis. Este último fato é um argumento bastante poderoso em favor de suas
atividades de pescador e marinheiro. Observe-se ainda que a descoberta da Flórida não foi a
primeira desta natureza. Em 1857, 1902 e 1911, Rivero no Peru, e Smith no Egito
descobriram múmias em cujos crânios ainda existiam fragmentos de cérebro. Idêntica
descoberta, de um cérebro romano, deve-se ao americano Oakley, em 1960.
A presença daquele marinheiro-pescador na Flórida, os restos dos homens que
habitaram as grutas de pedra calcária da região demonstram pelo menos que na época em
que foram construídas as estruturas hoje encontradas, aquelas paragens eram de há muito
habitadas. Quanto à natureza dos homens que povoavam o platô das Baamas, é lícito
perguntar se entre eles não se contavam alguns agrupamentos de Homo Sapiens, do tipo do
homem de Cro-Magnon. Neste caso, esse platô depois submerso pelas águas é que teria
presenciado sua infância, os seus primeiros desenvolvimentos. A partir dali é que se teriam
irradiado esses antepassados, implantando em toda parte, pelo mundo afora, a cultura dos
megalitos, sendo mais que provável a sua ligação com os cromagnonóides.
Examinemos, entretanto, mais de perto os argumentos susceptíveis de fortalecer
nossa hipótese.
a) Para admitir que o Gulf Stream pôde servir de veículo entre a América e o Velho Mundo,
é mister que nas costas americanas estejam as construções mais antigas e que os seus
habitantes tenham sabido navegar. Antes de terem sido encontradas essas construções, não
teria sido possível deixar nada disso estabelecido. Ora, nós sabemos que, desde o décimo
milênio antes de nossa era, as condições climáticas e a situação geográfica (nível mais baixo
dos mares) eram suficientes para tornar possível uma navegação desta natureza. Quanto aos
meios de transporte, eles já eram bem conhecidos. O Homo Sapiens do aurinhacense e do
solutreano (— 40.000 a — 18.000 e — 18.000 a — 15.000) já se valia habitualmente da
jangada. O do magdaleniano (— 15.000 a — 10.000) conhecia a piroga monóxila, escavada
num tronco de árvore.
Vamos ouvir portanto o historiador alemão Paul Hermann: "...Os indícios que
permitem concluir pela existência de relações antigas entre os dois mundos constituem um
conjunto compacto de caracteres muito variados. Até mesmo essa diversidade, o fato de
serem inteiramente independentes uns dos outros, e de se prenderem a regiões e atividades
humanas muito diferentes, tornam verossímil que exista neles um fundo de verdade. Foi
este o ponto de vista adotado, em conjunto, pelos sábios especializados. Com algumas
poucas exceções,- estão eles convencidos de terem existido essas relações, e de que elas são
inteiramente prováveis." Aliás, a própria história nos fornece um ensinamento do mais alto
valor sobre a época extremamente recuada das primeiras navegações que enfrentaram mar
alto com o auxílio das estrelas, das correntes e dos ventos de estações. Trata-se da
espantosa aventura do Cauri, concha utilizada como moeda até recentemente na Índia e no
Senegal. Conheceram-no inúmeras civilizações antigas, visto ser ele encontrado na China,
na África negra e berbere, na América, em quase toda a Oceania e até na França, onde foi
descoberto ao lado de restos humanos com cerca de 30.000 anos de idade, na gruta de
Grimaldi. Utilizavam-no de diversas maneiras. Importante peça de adorno das estátuas,
máscaras e trajes, é também símbolo da feminilidade em mosaicos e bronzes hindus e
chineses, assim como na Oceania e na África. Até aí, tudo normal, poderão dizer. Acontece
porém que o Cauri é originário de uma região perfeitamente determinada do oceano Índico
e apenas dessa região: as ilhas Maldivas.
b) A existência é, ainda mais, a dispersão pelo mundo dos homens que foram obrigados a
abandonar o platô das Baamas que estavam submergindo, podem ser relacionadas com o
destino final do homem de Cro-Magnon e com seu relacionamento com os primeiros
construtores de megalitos. Representante na Europa, ao lado do grimaldiano negróide de
porte mediano e do chanceladiano semelhante a um esquimó, do homem de tipo Homo
Sapiens que apareceu no decorrer da última glaciação, o homem de Cro-Magnon, idealizado
por alguns exegetas sob os traços de um grande ancião branco (de 1,80 m a 1,94 m),
inteligente e forte, também conserva alguns de seus enigmas, entre os quais, o menos
importante não é o de seu lugar de origem. "Clarim a tocar a ária da Arte com A
maiúsculo", como o designa num momento qualquer Jacques Brosse, esse ancião do início
dos tempos do homem, grão-mestre do ritual da tinta vermelha com a qual besuntava seu
corpo, nos deixou indícios de uma área de difusão susceptível de ser identificada graças a
vestígios típicos, mas deixou também as marcas de seu foco central, original.
Os seus vestígios podem ser encontrados na Europa Central e do Sudoeste até os
Açores e as Canárias (constituindo estas últimas uma etapa importante nas migrações
daqueles homens), e daí, passando pelo norte da África, até os túmulos egípcios prédinásticos
e Oriente Médio. A seu respeito, especifica Raymond Lantier: "Remanescentes
dos Cro-Magnon na Espanha, no Sul da França, na África do Norte, nas Canárias,
comprovam a importância desses grupos no povoamento dessas regiões, até os nossos
dias." Encontram-se assim restos de homens de tipo idêntico ao do Homo Sapiens desde a
ilha de Heligoland até Hoggar, da Grande Canária ao Nilo e mesmo em alguns lugares da
América Central e da América do Sul. Por volta de 1950, o explorador Homet descobriu ao
norte do Amazonas, sepulturas com urnas duplas contendo esqueletos banhados em ocre
vermelho entre os quais crânios revelando uma acentuada dolicocefalia, um índice cefálico
superior a 75-76 e estatura correspondente a um porte de 1,85 a 1,95 m. Aponta-se ainda à
presença desses homens no antigo jazigo humano de Lagoa Santa, no Brasil. Próximos do
homem de Eyzies, espécime extremamente arcaico enterrado numa massa de ocre
vermelho, eles pertencem a uma raça que não veio à luz em solo europeu.
As teorias referentes à origem do homem de Cro-Magnon são inferiores, em número
e em qualidade, às que tratam de seu aspecto em particular. Há alguns anos, Madeleine
Rousseau resumiu estas últimas nos seguintes termos: "Diante de tantas contradições e
incertezas, o leigo tem o direito de propor aos especialistas uma pergunta. O Cro-Magnon,
apresentado por vezes como primeiro espécime da magnífica raça branca com grande
capacidade craniana, seria branco, negro, como admitia Negri em 1895, ou apenas um negro
claro de tipo Hotentote-bochimano? Terá ele sido o autor das estatuetas da deusa mãe, ou
foram estas a primeira manifestação do aurignaciano que viveu cerca de 25.000 anos antes?"
(Le Musée vivant, 1953, pp. 135-136). Mas por que esse homem seria negróide ou — quantas
proposições estranhas somos por vezes levados a elaborar para defender nossas idéias! —
um "branco com pele negra"? Admitindo-se, com efeito, que era branco, continua-se sem
saber de onde fazê-lo vir sem correr o risco de cometer erros. É por isto que por vezes o
dão como vindo da Ásia onde teria embranquecido num meio favorável (frio gelos, etc.)...
As pesquisas dos sábios, particularmente as do professor R. Verneau, chamam a
atenção para a presença maciça de homens do tipo Cro-Magnon puríssimo na ilha da
Grande Canária, do arquipélago das Afortunadas. Seria preciso situar o seu primeiro berço
num lugar qualquer, nas proximidades dessas ilhas. Aliás, o seu aparente isolamento fornece
um início de explicação dirigida para a Europa. Esses homens que foram necessariamente
os primeiros ocupantes dessas terras — e por conseguinte os primeiros ancestrais dos
Guanches das Canárias — talvez sejam originários da Dordogne. Os da Dordogne ter-seiam
então desenvolvido a partir de agrupamentos humanos vindos das regiões dos gelos
setentrionais. Eles mesmos... Pode-se continuar.
Mas, como estabelecer essa migração da Dordogne para a África passando pela
Espanha e de lá para as ilhas Afortunadas? Ausência de vestígios nas terras "atravessadas",
povoamento cromagnonóide dos Açores — região excêntrica relativamente à suposta rota
— simples lógica enfim, tudo acaba invalidando essa teoria que não nos fornece, aliás,
nenhum esclarecimento quanto ao primeiro berço desses gigantes da pré-história.
Talvez esse ponto de partida possa situar-se espontaneamente desde que se pense no
papel de placa giratória desempenhado pelo platô das Baamas quando era ainda
suficientemente grande para alimentar e fazer com que uma raça desabrochasse.
c) A origem daquilo a que mais tarde se deu o nome de "civilização dos megalitos" também
continua obscura. Não se lhe conhece nem ponto de irradiação, nem origem definida. Em
parte alguma da Europa Ocidental ou Setentrional, nem nas regiões mediterrâneas onde
existem megalitos, foi possível descobrir o seu centro inicial ou sua "capital". Não obstante,
a especificidade do sistema de construção empregado impede que se atribua aos dólmens,
cromlechs e menires disseminados numa área geográfica muito importante, origens puramente
locais, fruto da invenção regional ou simples jogo de coincidências históricas.
Além disso, esta civilização parece ter-se desenvolvido em toda parte a partir do mar
em direção ao interior das terras, conservando-se não obstante marítima e até mesmo
estritamente litorânea. Fica com isto confirmada a origem exterior da concepção megalítica a
irradiar-se a partir de um centro ainda desconhecido. Desconhecido, salvo se se admitir a
existência de uma população nas Baamas na época pré-megalítica.
d) Argumento final, a existência no local — nas Antilhas e na América — de lendas précolombianas
relacionadas com o paraíso terrestre ou, mais freqüentemente, com uma Fonte
de Juventude.
Essas lendas foram amplamente comunicadas pelos indígenas aos primeiros
navegadores espanhóis. Ora, a região a que dizem respeito essas tradições abrange
precisamente a Flórida e as Baamas. Finalmente, as regiões em que no Velho Mundo essas
lendas são encontradas sob suas formas mais puras são igualmente notáveis pela abundância
de megalitos. É o que acontece particularmente com o Oriente mediterrâneo — sobretudo
Canaan — o Iêmen, o litoral ocidental da Índia, Ceilão, o Senegal, o monte Atlas, etc. Além
disso, quase todos os povos que surgiram após a construção dos megalitos e viveram
naquelas paragens, incluíram entre as suas tradições lendas que afirmavam a existência de
ilhas ou de uma ilha dos bem-aventurados, ou da felicidade, situada a Oeste do grande oceano.




Finalmente, uma das maiores lendas da mitologia — o mito de Osíris — se refere da
maneira mais explícita possível, se não a este enxamear de essência civilizadora, pelo menos
àquela primeira pátria abandonada da qual se lembravam como de um verdadeiro paraíso
terrestre.
O MITO DE OSÍRIS E O "LIVRO DOS MORTOS”
Salve, ó estrelas da Anca
Vós que brilhais no céu boreal
Em meio ao grande lago...
Livro dos Mortos (cap. XCVIII).
UM MITO QUE ATRAVESSA OS TEMPOS
É a Plutarco que devemos o conhecimento do único grande mito da antiga cultura
do vale do Nilo que chegou a íntegra até nós. Na ocasião em que foi transcrito por
Plutarco, esse mito já havia atravessado com êxito várias daquelas revoluções religiosas
peculiares à história do Egito antigo. Foi provavelmente o espírito democrático desse
dogma, que "garantia" a todos os fiéis a sua imortalidade futura independentemente de sua
categoria social, que tornou possível a sua sobrevivência.
Vê-se geralmente no mito de Osíris ou, melhor dizendo, na aventura terrestre e
celeste da família do deus — sua mulher, Ísis, e seu filho, Hórus — uma tradição
relacionada com dados religiosos. Os exegetas e comentadores sempre ali encontraram tudo
que quiseram, desde a noção do deus iniciador até a luta das forças da natureza, do culto
dos mortos ao da fecundidade, e da concepção do crime a clamar por vingança do mais
generoso dos perdões. Embora a religião egípcia tenha sido menos a expressão de um
dogma que um conjunto de práticas rituais, o conteúdo filosófico do mito de Osíris prestase
melhor à análise que a série de acontecimentos de ordem humana que acompanham a
sua trajetória.
Lembremos, entretanto, rapidamente, o que está em pauta. Conta o mito o conflito
que contrapõe Osíris — filho de Geb (a Terra), rei do universo e esposo de sua própria
irmã, Ísis — a seu irmão, Set, que os invejava. Sem de nada desconfiar, Osíris aceita
participar de um banquete oferecido por Set e seguido de um estranho concurso que não
passará de uma armadilha. Set oferece àquele dentre os seus convivas que conseguir
preenchê-lo, nele se introduzindo, um cofre magnífico. Chega a vez de Osíris. Assim que o
deus se introduz no cofre, seu irmão lança mão dele, fecha-lhe a tampa e atira tudo na água.
Ísis, em prantos, encontra o cofre na Fenícia. Ela o traz de volta para o Egito e o oculta
num pântano. Mas Set torna a encontrá-lo e para acabar com Osíris de uma vez por todas,
retira o cadáver e o corta em pedaços. Com a ajuda do deus Chacal, Ísis reconstitui o puzzle
macabro e mumifica o seu esposo. No segundo ato, Hórus vinga seu pai atacando Set,
ferindo-o e aprisionando-o, e depois levando-o à presença de sua mãe. Ísis perdoa e Osíris
chega ao reino dos mortos para oferecer a coroa a seu filho.
Mas nesta história não existe apenas amor e inveja, vingança e perdão: há também
geografia. Os autores modernos só vêem na Fenícia onde se encontrava o cofre, e no
pântano egípcio onde o oculta Ísis, dois sítios anódinos, indispensáveis à economia espacial
e temporal da narrativa. Quanto a nós, vamos dar ênfase à posição geográfica do reino dos
mortos.
Para os antigos egípcios, habitantes do vale do Nilo, esse reino dos mortos
localizava-se num ponto qualquer a Oeste. Imaginário ou não, para todos os povos da
Antigüidade clássica, o Oeste é a terra mais distante.
O PARAÍSO DO "LIVRO DOS MORTOS”
Esse Oeste lendário está sempre ligado à idéia de um perdido paraíso terrestre que se
procura recuperar no além. As alegrias prometidas por esse além são as que deviam ser
oferecidas por aquela terra abandonada. Essa idéia reflete ao mesmo tempo a convicção dos
egípcios de terem uma origem alheia ao seu próprio país.
É assim que no capítulo XXXII do Livro dos Mortos, Osíris se exprime nos seguintes
termos: O antigo Deus, o grande.../ Colocou em meu poder o país dos Mortos, / A bela Amenti /
Mais adiante (cap. LXII), na invocação que todo candidato ao paraíso deve
pronunciar, Osíris torna a especificar:
Pois meu nome é o que penetra vitorioso;
Que o domínio das águas me seja confiado
Pois eu já possuo o dos membros de Set!
Eis que atravesso o céu,
Sou o deus com cabeça de leão e sou Rá;
Sou o deus Smam; dentro de mim
Resplandece a constelação de Khpesh
Agora percorrendo os lados e caminhos
Dos campos dos bem-aventurados
Tomo posse de minha herança celeste!
No céu ou na terra — distinção difícil de ser estabelecida em virtude do importante
papel do sobrenatural na interpretação do cotidiano e dos indecisos limites entre o real e o
fantástico no pensamento dos antigos egípcios — a "bela Amenti" era uma região situada a
oeste, cheia de lagos e veredas, correspondendo não somente aos Campos dos bem-aventurados
como também a outras divisões bastante particulares, e que a tradição transmitia como uma
herança às gerações futuras. Domínio do além, a Amenti compreende com efeito duas
regiões: Sekht-Hotep — os Campos da paz divina — e Sekht-Ianru — os Campos de juncos.
Posteriormente, elas foram também denominadas Campos da paz e Campos dos bem-aventurados.
À Amenti conta, além disso, com uma capital, a cidade de Sekhem, onde se encontra um
santuário — o altar divino de Osíris.
No mito, Osíris aparece sob o aspecto do homem cósmico decaído, paralisado,
aprisionado, cujo corpo material é entregue às forças do mal. Corresponde assim,
estranhamente, ao primeiro homem dos gnósticos, confundindo-se aproximadamente com
o Adão Kadmon da Cabala, considerado como protagonista da tragédia cósmica inicial.
Prefiguração de Cristo, sua aventura, semidivina e semi-humana, é como que um mito
cristão às avessas, visto ser aqui o pai quem se sacrifica e o filho quem "restabelece" as
coisas em sua condição primitiva.
Sempre de acordo com a lenda, a cidade de Sekhem teve um destino trágico. Após
ter servido de palco para as lutas travadas por Hórus para vingar seu pai, ela foi destruída ...
"durante a terrível noite das tempestades e das inundações (Livro dos Mortos, cap. LVIII).
Consideremos porém essas duas regiões — os Campos da paz e os Campos dos
bem-aventurados — vistas do Egito. O mundo do "além" é portanto assolado por uma
tempestade e por inundações. A tempestade — que de acordo com alguns textos também
pode ter sido de fogo — fere sobretudo os Campos da paz, enquanto os Campos dos bemaventurados
são, por sua vez, vítimas de inundações, operação mais lenta. A Amenti é antes
de tudo a "morada" de Osíris ("Em verdade, eu sou Osíris e moro na Amenti" cap. VIII),
mas é também a região dos canais e das correntes pois o próprio deus é "o senhor das águas, do
ar, dos canais, dos rios" (cap. LXVIII). É lá finalmente que o sol se põe. Quanto aos
Campos dos bem-aventurados, sua descrição é ainda mais rica de pormenores naturais. Os
textos se referem aos caminhos que ali se encontram, mas também à abundância de vias
aquáticas e de circulação:
Ó vós que navegais entre os Campos dos bem-aventurados
Sabei que as oferendas que me são destinadas
Me devem ser trazidas ao longo deste canal...
(Cap. CVI.)
Uma invocação chega até a pedir:
Que sua morada seja no meio dos Campos dos bem-aventurados
Que ela possa usufruir das águas correntes dos Campos da paz
(Cap. CLXXXVIII.)
Por outro lado, o texto reconhece na Amenti o "portal do céu setentrional",
chegando até a iniciar uma descrição puramente geográfica:
Eu te conheço,
Tua parte meridional se encontra na terra de Kharu,
Tua parte setentrional é formada pelo canal Ersa
Na verdade, eu os conheço, os Campos dos bem-aventurados
Esse patrimônio de Rá...
(Cap. CIX.)
Aí está portanto um Éden ocidental, que... Não, nada disso. Tudo não passa de
teatro, de que dá conta o seguinte esquema:


 
 Ao nascer sobre a terra, o homem morre para a terra do além.
Assim, todas essas tradições, esses nomes, esses pormenores não corresponderiam a
coisa alguma na realidade. Entre os egípcios faraônicos, cada localidade tinha o seu
equivalente no além, na Amenti, e a famosa Sekhem não passa ela própria de um duplo de
Letópolis, cidade egípcia histórica. Admitir-se-á então que, para inventar isto tudo, de cabo
a rabo, com tamanho luxo de precisões sem nenhum fundamento, era preciso ter um
espírito dos mais estranhos. Esse espírito dos antigos egípcios, o grande mestre da
egiptologia alemã Adolf Erman o qualificava por volta de 1900, de Wahnsinn, Unsinn und
Aberwitz, isto é, de loucura, absurdo e desatino. Felizmente, porém, a história se incumbiu de
refutar o mestre alemão e seus pronunciamentos.
Mesmo que a terra do além do Livro dos Mortos — que é também um tratado prático do
ritual — seja uma terra das almas, ela teve um modelo qualquer, e esse modelo foi — deve
ter sido — perfeitamente real. Porta ocidental do além ou reunião dos Campos da Paz e dos
Campos dos bem-aventurados, a Amenti é alcançada depois de uma viagem que decorre
sob a orientação, ou mesmo proteção, de uma determinada constelação, é esta, pura e
simplesmente, a Grande Ursa, pertencente ao firmamento atlântico boreal, partindo do
Egito para Oeste (cap. LXXI e LXXIV). Esta ligação espiritual e material com o Ocidente
estava tão fortemente arraigada na tradição que, por ocasião dos funerais, os amigos do
morto acompanhavam o cortejo clamando: "Para Oeste! Para Oeste!”
Finalmente, em toda parte se trata do reino duplo de Osíris que é não somente senhor
do céu e da terra como também das duas terras:
Osíris, príncipe de Amenti...
Com o poder benfazejo do belo timão
Que resplandece no setentrião do céu;
Com o poder benfazejo do céu ocidental
Que completa os seus circuites e serve de guia para as duas terras...
Aos deuses da anca do céu...
(Cap. CXLI — CXLII.)
Ora, a "anca do céu" é a Grande Ursa, também denominada Khpesh (cap. LXII).
Aliás, uma outra passagem do texto é suficientemente explícita:
Salve, ó estrelas da Anca
Vós que brilhais no céu boreal
Em meio ao grande lago...
(Cap. XCVIII).
As duas terras são igualmente mencionadas como terra aquém e além do oceano no
capítulo CXLVIII:
Ó tu cumpridor dos circuitos e
Condutor das duas terras
Timão do Oeste...
Outra descrição, verdadeira "reportagem" sobre um sítio real visto por olhos
humanos, a invocação dirigida ao segundo Iat de Amenti:
Eis, a perder de vista se estendem minhas possessões
De Sekht-Ianru ó Campos de juncos!
Vossas muralhas são de ferro
O trigo ali chega a cinco cavados
Dois para a espiga, três para a haste;
A cevada mede ali sete cavados,
Três para a espiga e quatro para a haste
Na verdade eu conheço uma porta em meio a esses campos
Por ela sai Rá para o Oeste do céu
Ao sul se encontra um lago
Freqüentado pelas aves Kharu;
Ao norte situa-se um canal
Por onde andam as aves Rá...
(Cap. CXLIX.)
Mesmo deixando de lado essas descrições, evidentemente calcadas em modelos
outrora conhecidos, encontram-se igualmente minudências perturbadoras relacionadas com
a localização da cidade sagrada e a sua existência real. Quanto à sua destruição, é preciso
dizer que jamais, em religião alguma, se pode encontrar uma Sodoma ou uma Gomorra...
celestes. Por que destruir, e portanto castigar, uma cidade que se encontra no céu? Osíris
recomenda:
Constrói tua casa sobre a terra
Os fundamentos estão em Heliópolis
Os limites alcançarão Ku-aha
Seu santuário será em Sekhem
Oferendas: gado, cevada, trigo,
Levados de todos os cantos da terra!
(Cap. CLII.)
E acrescenta, mais adiante:
Minhas oferendas celestes, eu as encontro nos campos de Rá,
E minhas oferendas terrestres eu as encontro nos Campos dos bem-aventurados.
(Cap. CLXXX.)
Estou ao lado de Hórus
Quando na cidade de Sekhem
Ele arrebata aos inimigos
O braço esquerdo de Osíris, é
o que se lê no início do texto.
Aqui, nós nos encontramos evidentemente na alegoria; mas qual? O braço esquerdo
de Osíris representava com efeito... o Oriente. Um Oriente em direção ao qual embarcamos
abandonando uma primeira pátria, segundo indicam todos os textos egípcios antigos, e cuja
situação é infinitamente melhor descrita que a de todos os sítios a oeste do Egito. Ouçamos
mais uma vez Osíris:
Eu, entretanto, me tornei mais forte que os fortes
Mais vigoroso que os vigorosos.
Se, entretanto, embarcado, contra minha vontade fosse levado para o Oriente,
Pela terrível passagem dos dois cornos
Que não me agarrem os demônios
Nem me arrastem para o Oriente...
(Cap. XCII.)
Essa "terrível passagem dos dois cornos" situada no caminho que leva das ilhas do
poente do oceano para o Egito, não seriam simplesmente as futuras Colunas de Hércules?
O lugar devia ser então muito mais estreito e perigoso para os navegadores antigos.
Limitemo-nos, para concluir, a citar algumas passagens do capítulo CX, onde são
fornecidas as instruções indispensáveis para se chegar aos Campos dos bem-aventurados e
aos Campos da paz, e deles tomar posse a fim de aí morar e trabalhar realizando todos os atos
da vida terrena:
Salve, ó senhor das oferendas ...
Set capturou Hórus
Enquanto ele fiscalizava a construção das muralhas
Nos Campos da paz.
Dessa região, conheço as águas, as províncias, os lagos,
Nos Campos da paz.
... E enquanto vivo na paz, e avanço em paz
Meu amigo atrás de mim caminha.
Em meus dois braços trago o néctar dos deuses...
Ó soberano das duas terras.
O néctar em questão, evidentemente, é a própria encarnação do deus Huo Haoma
dos antigos iranianos e o Soma dos hindus — mas é também a água imortal, a fonte da
imortalidade dos deuses, sua fonte de juventude. E ela se encontra no Campo dos bemaventurados
...
Acrescentemos finalmente que o herói do texto, que sempre viaja de barco —
celestial ou não — sente-se feliz ao se ver ... em meio aos domínios Do deus da paz, senhor das
Duas Terras, antes de mergulhar, no fim de tudo, nas águas do lago sagrado.
A existência indiscutível de um modelo real desta terra de Amenti também se reflete
num dos aspectos peculiares ao mito de Osíris. Trata-se da luta encarniçada que contrapõe
Hórus e Set, e que podemos encontrar quase que em toda parte nas tradições mais antigas,
sob a forma egípcia da luta em que se defrontam o pássaro e a serpente... Hórus, sob forma
de um falcão representado por um disco alado, ataca o deus Set com forma de serpente. No
fim da luta, Set se transforma num ser subterrâneo, símbolo das águas do dilúvio que
correram para as entranhas da terra.
A VIAGEM DOS MESTRES DIVINOS
Falta ainda examinar a "migração" que levou os egípcios para o Egito. Para tanto,
deixemos um momento de lado as constantes referências feitas pelos textos antigos a esse
fabuloso primeiro país, e voltemo-nos para a chegada ao rico vale do Nilo desses "mestres
divinos do horizonte do Oeste" que dali partiram após a noite trágica que presenciou a
destruição de Sekhem.
Quem eram, então, esses "desaparecidos"? Como observou Marcelle Weissen-
Szumianska referindo-se ao capítulo XIX do Livro dos Mortos, é mais uma vez este que nos
vai esclarecer. Fala-se ali, com efeito, da "chegada ao primeiro país, em pequenos grupos
sucessivos, dos primeiros servidores de Hórus, vindos do Ocidente, na outra extremidade da
Líbia". O que nos permite determinar melhor as coisas, visto como o primeiro país depois da
pátria abandonada eram as Canárias, etapa necessária.
Esses servidores de Hórus, denominados Shemshou-Hor, pertenciam, segundo diz a
tradição, a um país submerso, situado a Oeste, do outro lado da Líbia, onde o sol se põe.
Eram homens de tipo e origem cromagnonóide, raça cujo berço só abrange regiões
atlânticas. Justifica-se a idéia de que tenham sido realmente eles que assinalaram o início da
cultura egípcia, e cujos remanescentes ainda hoje são desenterrados nos altos platôs
algerinos e tunisianos.
As migrações dos servidores de Hórus, cujos vestígios materiais podem ser
encontrados do cabo Juby até a Núbia, em direção ao Egito, trouxeram para esse país o
saber e a técnica que lhe iriam conferir poder e glória durante um período extremamente
longo. Entre os Shemsou-Hor encontravam-se com efeito alguns dos primeiros
metalurgistas da história, os Mesentiou, cuja lembrança ficou preservada nos textos e
inscrições do vale do Nilo.
Pode-se perguntar quais teriam sido as contribuições específicas desses primeiros
colonizadores que, misturando-se aos autóctones, lhes inculcaram necessariamente algumas
de suas tradições e conhecimentos. Independentemente dos mitos de ordem religiosa —
entre os quais o de Osíris — que desenvolvem à sua maneira uma "teoria" sobre suas
próprias origens, e das técnicas associadas à metalurgia ou ao trabalho da pedra, pode-se
admitir que eles tenham contribuído acentuadamente para fundar a cosmografia, a
geografia, a corografia e a ciência das medidas.
Apolônio de Rodes escreve em suas Argonáuticas:
"Conta-se que um homem saído do Egito (Sesós-tris) percorreu a Europa à frente de
um forte e corajoso exército. Conquistou uma infinidade de cidades, algumas ainda hoje
habitadas, outras despovoadas; pois decorreu desde então um número muito grande de
anos. Os descendentes desses homens conservam de seus ancestrais tabuinhas gravadas
onde estão traçados os limites da terra e do mar, as estradas e caminhos, de modo a
servirem de guia para todos os viajantes.”
Foram recentemente (1971) descobertas no Ural inscrições egípcias que confirmam
essas viagens.
Por outro lado, E. Jomard em sua Dissertação sobre o sistema métrico dos antigos egípcios, faz
notar que ainda restam outros testemunhos da antiga topografia do Egito: "São, escreve ele,
as distâncias, itinerários, tão conformes às últimas observações e esses números de estágios
tão exatos, transmitidos pelos egípcios a Heródoto, a Diodoro da Sicília e a Estrabão,
sempre que esses viajantes os interrogavam a respeito da distância a que ficavam os lugares;
é a precisão de várias medidas de Plínio, colhidas no Egito; finalmente, a dos antigos
itinerários adotados pelos romanos e sem dúvida por eles traduzidos e que hoje
conhecemos de maneira segura. Perguntarei como poderiam estar tão certas essas medidas,
que encontramos assinaladas em Diodoro da Sicília e em Heródoto se os egípcios não
dispusessem, segundo conta São Clemente de Alexandria, de uma corografia
pormenorizada e se não existissem mapas em que todas as distâncias estivessem exatamente
marcadas. As distâncias encontradas nos autores não são itinerários; mas estão em linha
reta: devem ter sido portanto medidas em linha reta. Como as teriam conhecido os egípcios
sem o auxílio de mapas, ou de observações trigonométricas? Aliás, o ponto de vista que
estou aqui adiantando a respeito da existência de cartas geográficas entre os egípcios foi
admitido por diversos sábios...”
"Pode-se perguntar qual teria sido o processo usado pelos egípcios para traçar e
desenhar suas cartas topográficas. Se não existisse nenhum monumento que nos pudesse
colocar na pista, uma pergunta desta natureza seria pelo menos ociosa: felizmente, porém,
nós possuímos um monumento criado pelos próprios egípcios; refiro-me aos quadrados de
redução (pantógrafo) que permitiam desenhar figuras de todos os tipos e em todas as escalas,
e transportá-las em seguida para o lugar que lhes era destinado. Seu tamanho era aumentado
ou diminuído seguindo-se o mesmo processo que, entre os modernos, é de uso corrente.
Esse processo se baseia no exame das relações entre as linhas, fundamento da geometria.
Os artistas egípcios traçavam quadriláteros desse tipo sobre todas as superfícies que deviam
pintar ou esculpir; e os lados eram adequadamente proporcionais aos do plano que servia de
modelo. Riscavam-se as linhas em vermelho; e no momento da execução, elas
desapareciam.”
E mais adiante: "Nas pedreiras exploradas pelos egípcios, encontrei também
quadriláteros de redução utilizados para os desenhos dos construtores. Os mais notáveis são
os de Gebel-Abufedah. Não é de duvidar que esses quadriláteros e esses traços tenham sido
transportados de um plano em tamanho menor para aquelas paredes erguidas de antemão e
na medida solicitada, para em seguida retirar os blocos e concluí-los fora da pedreira.”
Se insistimos tanto sobre o quadrilátero de redução, é porque ele se encontra
estranhamente representado — e este fato ainda não foi suficientemente observado — no
Peru, por baixo do queixo de uma cabeça colossal esculpida in situ em Marcahuassi, cabeça
essa de tipo negróide. É igualmente encontrado nas representações rupestres do Brasil, das
Canárias, da Numídia, no itinerário saariano dos Shemshu-Hor; assim como nas chamadas
figuras "mágicas" das grutas pintadas da Europa ocidental, em Lascaux, por exemplo.
Entre os ensinamentos de grande valor atribuídos pela tradição aos servidores de
Hórus, o mais insignificante não é o princípio da verdade única, da unidade indivisível —
essa mesma verdade única que foi para os egípcios o Verbo e a evolução do mesmo em sua
consciência — a que é preciso acrescentar uma outra idéia-força: a de que a forma é sempre
e apenas o símbolo de uma função. Se acrescentarmos também que a importância atribuída
aos números considerados como esteios da ciência unicamente, chega-se a uma outra
concepção, de ordem iniciática, também atribuída pela tradição aos servidores de Hórus —
a idéia do homem antropocósmico contida em Luksor, este templo do Homem.
Escutemos o Mestre-de-obras falando com seu discípulo: "Para conhecer os
Números, fica sabendo que a Unidade é de natureza tríplice, como o Verbo de Deus. O
Número todo se baseia nesta trindade do ponto e no triângulo de superfície: mas o volume
ternário é construído sobre as quatro colunas dos elementos ou Qualidades essenciais das
coisas. Só quem pode ir do ponto para o volume é o Criador que, do nada faz o Todo.”
"Mas tu, criatura, deves buscar o ponto a partir do volume: pois todas as coisas
perceptíveis são volume, espaço ou Espírito encerrado".
"A lógica do teu cérebro não tem nenhum poder sobre o Número. Este é o Verbo de
Deus e comanda a Inteligência. Deixa os algarismos que enumeram as coisas para a
inteligência da cabeça, e procura o Número Na Inteligência do teu coração.”
"A primeira superfície é o triângulo, e sua raiz é a Unidade incompreensível. Quando
essa Unidade-superfície — o triângulo — se desdobra há o macho e a fêmea, o par
procriador pelos quatro Elementos: é o quadrado cortado pela diagonal.”
"Os quatro Elementos são o quadrado do céu. Fica sabendo que o lado de um
quadrado é a base de todo triângulo retângulo. Traça no quadrado as diagonais: elas
formam quatro triângulos que são iguais entre si fazendo assim aparecer a lei essencial que
rege os triângulos retângulos, lei de toda ciência aplicada dos Números. Agora, conheces
apenas a sua função. Procura saber qual é a sua natureza e sobre essa base traça o Esboço
da Arquitetura do Mundo.”
"O primeiro Número é Três, o segundo é Quatro, o terceiro é Cinco; são os valores primeiros dos
lados do triângulo retângulo sagrado, cuja aplicação tem inúmeras conseqüências.”
"Toda superfície é curva, porque o mundo é um Devir e um Retorno; nele, tudo é cíclico. Calcula
como se essa superfície fosse plana, mas com os Números que retificam esse plano em curva: caso
contrário, hás de ser agrimensor e não geômetra do Templo. Não traces a curva a não ser
para o céu e para o que diz respeito a Osiris: o Devir e o Retorno. Nossos Números são
universais, e nossas medidas estabelecidas para retificar a reta em curva, os planos em volumes, o
comprimento em Tempo, o céu no homem, a gênese em vida. Deus é o modelo porque é o Senhor de
tudo em Tudo.”
"O homem é feito à imagem do céu, olha as imperfeições do corpo para conheceres
os erros que ele ainda terá de pagar, mas fica sabendo que ele é o Universo; eis porque o
tomaras como modelo na medida em que ele é reflexo do Deus criador. Toda a obra de
criação está no homem; põe o homem em seu lugar no Templo. Ele nasceu e há de morrer:
entre esses dois extremos, ele vive.”
"Sua face é a palavra de sua vida: a boca exprime seu pensamento, os olhos revelam
sua consciência. Sua voz pode reproduzir todos os sons da Natureza, todas as palavras
pronunciadas. Cada gesto do homem fala. É ele a encarnação completa do intangível e do
inaudível. Verbo que, através desta forma, se faz conhecer. Torna viva a estátua fazendo-a
exprimir a verdade do Neter.”
"Quando representares um corpo humano sobre a muralha, mostra apenas um dos
lados se o outro for idêntico; mostra-o de frente se houver desigualdade entre as duas
partes, pois o homem é uma dualidade em sua natureza decaída, mas a Unidade em sua
origem.”
"O lado oriental recebe, o lado ocidental dá (no homem). O Mal está no seu cérebro
que sempre separa: o Bem está em seu coração — ib hati — que sempre une.”
"Farás assim falar a imagem do homem".
Se tomamos a liberdade de reproduzir quase que na íntegra este longo trecho
referente à arquitetura do templo faraônico, publicado no livro de Schwaller de Lubicz, foi
menos por sua beleza excepcional que em virtude de uma de suas frases: "O lado oriental
recebe, o lado ocidental dá." Não será esta a assinatura dos Shemshu-Hor?
E como se não bastasse admirar o templo dos antigos egípcios, sendo porém preciso
lê-lo, decifrá-lo. O mesmo se pode, aliás, dizer dos monumentos erigidos pelos homens dos
megalitos na Europa ocidental. Tanto num caso como no outro, é preciso não desconhecer
o papel primordial e a força motora do símbolo. Tudo que nele fica dito já de há muito
havia sido formulado.
Assim, Marcelle Weissen-Szumlanska pôde escrever que se "do horizonte ocidental
veio, já evoluída, a assim chamada civilização egípcia, somente essa origem e o tempo de
que lhe fora dado dispor podem explicar o grau de perfeição e os conhecimentos aplicados
contidos nas obras e ensinamentos dos servidores de Hórus, e com eles implantados
diretamente, desde o início, sem transição, nas margens do Nilo.”
A isto — e muito embora as origens ocidentais da cultura egípcia e dos próprios
servidores de Hórus tenham ficado comprovadas por textos deles mesmos — a resposta
habitual busca desviar a questão procurando demonstrar que o Egito faraônico teve origens
exclusivamente africanas. Provavelmente porque o Egito atual pertence à África e esta, em
busca de sua própria história, reivindica as tradições antigas.
Muitos autores estão plenamente convencidos das origens meridionais — isto é, negras
e etiópicas — da cultura dos faraós. Baseiam-se eles, para confirmar essa sua convicção, no
mito de Osíris que identifica o deus ao Nilo salvador, enquanto Pífia, seria o vale fértil. Pífia
redução do mito dos "agricultores" com objetivos nacionalistas. Não basta porém, isto. O
país de onde vieram os antepassados civilizadores, trazendo o saber, a filosofia, a técnica,
passa a ser, de acordo com essa interpretação, o Kênia! Seguindo essa mesma ordem
de idéias, Osíris simboliza o princípio fértil, eliminado por Set, o deserto, etc.
Por certo, é inegável que por ocasião da chegada dos servidores de Hórus existia no
Egito propriamente dito um caminho que se dirigia de Sul para Norte. Entretanto, a
explicação para esse fato deve ser buscada na circunstância de terem os emigrantes seguido
a princípio para Leste, tendo sido apenas depois de se deterem na altura da Etiópia que se
encaminharam para o Norte. Nem todos, entretanto, outros foram encontrar o Nilo em
Ábidos.
É até possível que a confusão dos itinerários que hoje leva certos especialistas a se
manifestarem a favor de um país de origem centro-africano se deva às etapas etiópicas da
longa viagem continental dos Shemsu-Hor. Se escrevemos a palavra etiópicas no plural é
porque havia naquele tempo duas Etiópias. Uma delas — a Etiópia meridional — coincidia
com a que hoje conhecemos, ao sul da Núbia e do Sudão egípcio. A outra — a Etiópia
ocidental — situava-se precisamente em frente das Canárias, na costa ocidental da África.
Aliás, o texto da Odisséia é formal quanto a este ponto. Lê-se ali, com efeito: "Tinha ido o
deus em visita aos etíopes em seus distantes países, os etiópios que, situados nos confins do
mundo, se dividem em dois povos, olhando um para o poente, o outro para ocidente.”
Até mesmo um exame antropológico das múmias dos grandes reis e altos dignitários
egípcios se revela contrário a uma origem puramente africana e negra. Quanto aos
parentescos etíopes, ficam eles perfeitamente explicados quando se leva em conta, por um
lado, a distância e a tão prolongada duração do trajeto entre o cabo Juby e o sul do Egito, e
por outro lado a presença naquela época de elementos cromagnonóides originais entre a
população do oeste da África.
Foram feitas tentativas de reconstituição das vias de comunicação graças às quais os
servidores de Hórus puderam percorrer os milhares de quilômetros que medeiam entre o
Atlântico e o vale do Nilo. Apareceram várias: o caminho ao longo da costa norteafricana,
o que seguindo ao longo dos platôs da Numídia e da Mauritânia transpondo o
monte Atlas, ia dar nas Colunas de Hércules; o caminho que acompanhava o litoral até o
lago Tritoniano. Se considerarmos apenas as condições geográficas da época, diremos que
com toda a certeza o mais freqüentemente usado era o que passa pelos oásis de Dakhel,
Kargueh, Kufra e Merzug. Indo dos sítios dos amonianos até os dos atalantas, e seguindo
daí até o cabo Soloeis, esse caminho alcançava o oceano bem em frente das ilhas
Afortunadas, ficando isto tudo indicado nos dados geográficos que nos foram transmitidos
por Heródoto. Falta ainda examinar a data dessa migração. Abrindo um livro de história
lemos: "Superpondo-se às civilizações pré-históricas de Badari, Marimdé e Negada, erguemse
por volta do ano 3.000 a.C. dois reinos, o do Alto e o do Baixo Egito. Esses dois reinos
foram reunidos sob Narmer e Aha..." Fechemos o livro e voltemos aos servidores de
Hórus.
CRONOLOGIA E SHEMSU-HOR
De acordo com os velhos textos egípcios, o período anterior à instauração da realeza
às margens do Nilo como instituição duradoura e relatada, abrange cerca de 23.200 anos.
Foi a duração atribuída aos deuses e às sete "dinastias" que teriam vindo depois de Hórus.
No entanto, até mesmo Heródoto que, em geral, só refuta com a mais extrema
prudência os dados fornecidos pelos egípcios, hesita em confirmar essa duração e a reduz a
18.000 anos. Depois disto é que reinaram os servidores de Hórus propriamente ditos, e
durante 13.420 anos, tendo precedido os unificadores Menes e Aha.
23.200 + 13.420 = 36.620 anos
18.000 + 13.420 = 31.420 anos
São algarismos realmente assustadores e justificadamente contestados pelos
historiadores e egiptólogos modernos. Marcelle Weissen Szumlanska, que estudou
pormenorizadamente a viagem dos servidores de Hórus através da África, calcula que ela se
tenha "efetuado pelo menos quatro ou cinco milênios antes da história, isto é, antes das
mais antigas fontes escritas". É esta também a opinião de E. Drioton que estudou durante
muito tempo o Livro dos Mortos.
3.000 + 5.000 = 8.000 anos
Fiquemos com este ponto de vista.
Oito mil anos antes de Cristo, um grupo de Shemsu-Hor avançava penosamente pelo
continente africano em direção à terra que o pai da história — Heródoto — deverá um dia
qualificar de "dom do Nilo", para transformar uma região efetivamente propícia num
verdadeiro dom do grande rio.
Foi realmente erguida uma ponta do véu que ocultava a fundação do mundo egípcio;
persistem porém, ainda, algumas obscuridades. Entre elas, tudo que diz respeito aos
períodos anteriores e imediatamente subseqüentes à separação da primeira pátria e à
diversificação das direções adotadas por esses grupos de emigrantes. Tudo leva a crer, no
entanto, que eles tenham carregado bagagens diferentes quanto às tradições e às técnicas em
função do lugar e da ocasião de sua partida. Pode-se também pensar que depois de se terem
os Shemsu-Hor encaminhado para as Canárias, e de lá para o Egito, seguindo os grandes
caminhos naturais, "outros" navegaram em direção às grandes terras insulares a Leste do
oceano, impelidos pelo grande dragão líqüido: o Gulf Stream. Chegaram assim à Irlanda,
Inglaterra e Bretanha, assim que o clima o permitiu, tendo mesmo transposto as Colunas de
Hércules, a antiga Canaã. Quem sabe, talvez alguns, tendo partido na direção oposta,
chegaram às grandes ilhas do mar das Caraíbas, às costas do Yucatã, da Colômbia e do
Brasil até a foz do Amazonas. Durante esse tempo, as águas iam subindo, para lentamente
submergir Buêmen — a Coroa...
Há algum tempo, foi editado em Paris um livro cujo autor propunha a seguinte
pergunta: "Será mister situar no ventre, ou Van, das Américas, ou seja, na cavidade entre as
duas partes que as compõem, o lugar para os homens entre todos sagrado por ter sido o
berço da raça?" Intitulava-se esse livro La Couronne est au fond les eaux (A Coroa está no fundo
das águas). O próprio Osíris era designado como "o senhor da Coroa". A coincidência é,
pelo menos, sugestiva.
PLATÃO NA HORA DA VERDADE
São anfiguris como estes que explicam por que motivo os historiadores e sábios se
irritam com tanta freqüência à simples menção da Atlântida... De fato, os argumentos dos
atlantistas foram propalados durante tanto tempo e com tamanha convicção que muita
gente inteligente já não consegue separar os fatos da ficção.
RELER PLATÃO
Mais de quatorze mil escritos — manuscritos, livros, artigos — publicados depois
que os homens da Renascença releram Platão, com os olhos do sonho bem abertos,
representam uma produção de que se pode gabar a atlantologia. Entre essas obras — muito
mais destinadas a reacender o fervor dos crentes que a convencer os céticos — são
entretanto bem poucas as que apresentam o texto do filósofo grego ao lado de documentos
egípcios de modo a permitir um confronto. Assim, quando se procuraram vestígios dos
pretensos atlantas na história escrita da terra dos faraós, só se cuidou dos "povos do mar",
de seus saques e invasões, o que só contribuiu para emaranhar ainda mais uma situação que
bem poderia ter passado sem isto.
Se nos voltamos, por nosso turno, para a Atlântida, não é com o intuito de associá-la
de uma maneira qualquer ao platô submerso das Baamas. Pelo contrário: assinalando as
diferenças, nós nos propomos a mostrar que localizar uma velha civilização — talvez uma
das civilizações que geraram as demais — ao largo da Flórida não significa identificá-la com
aquilo a que se dá habitualmente o nome de Atlântida.
Deixando de lado a Atlântida de Platão, que desde então vem sendo colocada aqui e
ali, pelo mundo afora, transportada da Suécia para Creta, e do Saara para o Irã, nós nos
limitaremos a rever, em busca de certos, pormenores, os textos de Platão. E antes de mais
nada, o Timeu, que descreve ao mesmo tempo os sítios e a catástrofe: "... Naquele tempo,
podia-se atravessar aquele mar. Havia uma ilha, em frente à passagem a que dais o nome de
Colunas de Hércules. Essa ilha era maior que a Líbia e a Ásia reunidas. E os viajantes
daquele tempo podiam passar dessa ilha para as outras, e dessas outras podiam alcançar
todo o continente, na margem oposta desse mar que merecia verdadeiramente o seu
nome...”
Quanto à catástrofe: "Mas no tempo que veio em seguida, houve tremores de terra
assustadores e cataclismas. No decorrer de um único dia e de uma noite terrível, todo o vosso
exército afundou de uma só vez debaixo da terra e também a ilha Atlântida mergulhou no
mar e desapareceu. Eis porque, ainda hoje, o oceano é ali difícil e inexplorável, em virtude do
obstáculo dos fundos lodosos e muito baixos que a ilha, ao se afundar, depositou.”
Se procurarmos realizar essa descrição de acordo com o método policial do retrato-
falado, verificaremos que estamos diante de elementos profundamente diferentes uns dos
outros. Geograficamente falando, indo do nascente para o poente, nós temos em primeiro
lugar as Colunas de Hércules; diante delas, no oceano, uma ilha, depois várias outras terras
insulares de menor extensão, e finalmente um continente. O que nos dá: Platão se interessa
muito particularmente pelo estreito que separa as ilhas do continente, já que acrescenta: "De
um lado, no interior desse estreito a que nos referimos, parece que existe apenas uma enseada
com gargalo invertido; de outro, do lado de fora, há esse mar verdadeiro e a terra que o
cerca e a que se pode chamar verdadeiramente, no sentido próprio da palavra, um
continente." A enseada em questão não seria o golfo do México? Nesse caso, as ilhas do
texto passam a ser exatamente as que orlam as costas da América, da Flórida à Venezuela.
O estreito é o que separa a Flórida das Baamas e o "gargalo apertado" a distância entre
Cuba e a extremidade do Yucatã...


 
a) Imagem do sítio segundo a hipótese atlantidiana clássica.
b) Retrato-falado do sítio segundo a hipótese de uma presença humana no platô das Baamas.
Isto, evidentemente, não passa de uma hipótese, mas que começa a se tornar
interessante — ao que nos parece — quando a Platão acrescentamos alguma coisa de
Plínio. Escreve este, com efeito, no sexto livro de sua História Natural: "No lado oposto ao
do golfo Pérsico e frente à costa da Etiópia, situa-se a ilha Cerne. Não se conhecem ao
certo nem seu tamanho, nem sua distância.


 
Políbio situa esta ilha Cerne na extremidade da Mauritânia, frente ao monte Atlas, a
oito estádios do continente. Cornelius Nepos fala numa Cerne, à qual não atribui mais de
duas milhas de perímetro. Frente ao monte Atlas fica, segundo se diz, a ilha Atlântida, depois
da qual, a cinco dias de navegação, a terra firme só oferece desertos até a região dos etíopes
das Hespérides e o promontório a que demos o nome de pico de Hespéria, onde a costa
começa a arredondar-se, desviando-se tanto para o ocidente quanto para o mar Atlântico.
Diante desse promontório também se situam as ilhas Górgonas... Falam-nos ainda em duas
ilhas Hespéridas que avançam em pleno mar para além das Górgonas; é preciso, entretanto,
não se fiar excessivamente nessas relações e sobretudo na de Statius Sebosus que, levando
os navegadores a costear o monte Atlas para seguir das ilhas Górgonas até as Hespéridas,
indica para esse trajeto quarenta dias de navegação, sendo que leva apenas um para ir dali
até a terra firme do continente oposto.”
Aí temos, portanto, uma Atlântida de proporções bem modestas. Assinale-se, aliás —
e nosso intuito é reler o texto de Platão tendo presentes ao nosso espírito as linhas de Plínio
— que nem o próprio filósofo grego considera a Atlântida como um continente, visto
como para que uma terra faça jus a esse nome, "no sentido próprio do termo", é mister que
ela seja muito maior. Ele deixa bem claro que sua ilha era do tamanho da Líbia e da Ásia
reunidas: trata-se porém da Líbia e da Ásia de seu tempo, isto é, aproximadamente o norte
da África até o Egito e o litoral grego da Ásia Menor — a Ásia dos gregos. Além disso, para
os antigos, a Líbia, a Ásia, assim como a minúscula Europa que prolonga a Trácia em
direção ao Bósforo, representavam antes direções que referências a uma superfície
determinada. Podemos, portanto, reduzir ainda mais as distâncias e proporções, explicadas
também pelo exagero inerente a toda comparação entre termos mal conhecidos. De modo
que se confundem as duas Atlântidas, a de Platão e a de Plínio.
É preciso mencionar igualmente a afirmação de Sebosus relatada por Plínio. Muito
embora o enciclopedista romano ponha em dúvida as distâncias (e levando em conta o fato
de que, para os antigos, as Górgonas ou Górgadas, eram as ilhas do Cabo Verde, e as
Hespéridas as fabulosas ilhas dos pomos de ouro do oeste edênico para além do oceano), os
quarenta dias determinam com exatidão o tempo que levam os navegadores para ir das ilhas
do Cabo Verde às Antilhas setentrionais e centrais. Essas mesmas Antilhas só estão à
distância de um dia de navegação firme do continente no qual se deve localizar o pico de
Hespéria, a não ser que o situemos no pico do monte Pele, na Martinica.
Examinemos essas distâncias considerando as atuais rotas de navegação. Das ilhas do
Cabo Verde até as Grandes Antilhas, temos cerca de 6.500 quilômetros. O continente fica a
200 quilômetros de Cuba e a 100-150 quilômetros das Baamas mais próximas. Esta última
distância é aproximadamente quarenta vezes menor que a que medeia entre o Cabo Verde e
as Grandes Antilhas. Seja qual for a opinião de Plínio, fica comprovada a equação de Statius
Sebosus!
REPENSAR A CATÁSTROFE
O texto de Platão tem sido freqüentemente estudado quanto ao seu espírito, mas não
quanto à letra. Todavia, é isto que se deve fazer quando se deseja ficar sabendo algo mais
sobre a catástrofe que provocou a emigração.
Fala-se antes de tudo em diversos tremores de terra e cataclismas ocorridos durante
um dia e uma noite; trata-se porém apenas da submersão de um exército que atacava a Atlântida. Ora,
nas imediações das Antilhas, apontam-se inúmeras catástrofes naturais que, mesmo em
nossos dias, têm matado um número maior de pessoas que as que comportaria qualquer
exército da Antigüidade clássica. Citaremos apenas a erupção vulcânica do monte Pele, em
1902. Mais uma vez, portanto, é preciso não perder de vista as proporções.
"E, da mesma forma, a ilha afundou no mar e desapareceu", acrescenta de um só
fôlego Platão, depois de ter contado a submersão do exército. Quem for capaz de ler nessas
palavras algo mais que um acidente natural deve ser dotado de uma poderosa imaginação. A
ilha afundou... pronto. Lentamente ou não, não fica explicado. O que fica explicado, em
contraposição, é que depois de decorridos milênios ("agora", escreve Platão, que situa esses
acontecimentos 8.000 anos antes de Sólon), o fundo era lodoso e baixo, o que dificultava a
navegação naquelas regiões do oceano. Ora, há apenas uma região no Atlântico que
corresponde a essa descrição — a do platô das Baamas, em processo de submersão lenta e
permanente.
O Critias de Platão, embora forneça da ilha uma imagem bastante minuciosa, não
contradiz de maneira alguma as conclusões extraídas do estudo do Timeu. Por outro lado,
como escrevia o jornalista científico Demetri Ioakimidis "há ali uma abundância de
informações, mal justificada numa alegoria filosófica, sobretudo quando nela se vê apenas
um produto da imaginação. Não teria Platão colhido a seu redor alguns dados reais que teria
a seguir incorporado ao seu mito, conferindo-lhe assim um relevo suplementar"? O que nos
interessa é que, além de falar numa ilha que talvez tenha sido afetada por uma erupção
vulcânica, o texto do filósofo se refere a terras submersas que, decorridos milhares de anos
(8.000) são responsáveis por baixios, por regiões marítimas não navegáveis, inexploráveis...
Involuntariamente, o que Platão descreve é realmente o lento engolfar de terras submersas
pela incansável cheia das marés. Aliás, todos esses aspectos confirmam outros, já
conhecidos. L. Sprague de Camp descreve em seu livro, Les Enigmes de Varchéologie, que
excetuando-se a narrativa de Platão e os comentários por ele inspirados, não existe em toda
a literatura antiga, uma só palavra referente a Atlântida que tenha chegado até nós. Não nos
parece isto exato. O Livro dos Mortos dos antigos egípcios, refere-se, como vimos, à mesma
coisa. Em nessa opinião, seria um erro deixar de fazer uma aproximação entre certos
aspectos dos acontecimentos descritos no Timeu e seus correspondentes no Livro dos Mortos.
Eis por que, em última análise, o mito platônico da Atlântida, cuja super estrutura complica
a análise do fundamento real, não obscurece a aventura das terras submersas das Baamas
nos espelhos movediços da história. Aventura que difere do destino duvidoso da Atlântida
dos sonhos...
OS CRUZADOS DAS ESTACAS DE PEDRA
Somos muitos assim, diferentes dos outros, com uma enorme quimera às costas, mais pesada que um
saco de farinha ou de carvão; se nos perguntam para onde vamos, não sabemos responder, pois nada
sabemos, nem tu, nem eu, nem os outros ... Mas vamos evidentemente para um lugar qualquer já que nos
impele uma invencível necessidade de caminhar.
BEATRIZ DE CHAVAGNAC - Poème à celui, qu'on rencontre
SOBRE O MAPA DOS MEGALITOS
Vinte séculos transcorreram desde que Scymnos de Quio, que foi mais viajor que
filósofo, escreveu: "Na extremidade mais longínqua da terra dos celtas, encontra-se uma
coluna do setentrião, frente ao oceano de ondas revoltas. Os últimos celtas e os vênetos
habitam as proximidades." Essa "coluna do setentrião" é nada mais nada menos que o
grande menir de Locmariaquer.
Os megalitos... Imensas estacas de pedra, enterradas no chão, conjuntos de várias
pedras gigantescas, conjuntos geométricos de marcos de pedra. Encontram-se mais ou
menos por toda parte no mundo, mas freqüentemente sob forma de menires (pedras
erguidas isoladas), de cromlechs (recintos habitualmente ovais ou circulares de pedras
fixadas ao solo) ou de dólmens (mesas de pedra pousadas sobre pedras erguidas).




 
 Megalitos no mundo atlântico
É tão grande o número desses monumentos que seu estudo estatístico e comparativo
— ao tempo em que revela semelhanças indiscutíveis e sublinha suas diferenças — não
poderia deixar, afinal de contas, de aumentar consideravelmente o seu mistério. Jamais se
organizou uma estatística descritiva dos megalitos esparsos pelos seis continentes clássicos
com o intuito de submetê-la, por exemplo, a um computador. Mesmo na sua falta,
entretanto, impõem-se algumas conclusões gerais.
Primeira — o número encontrado é muito maior do que se esperava. Na Europa,
eles podem ser encontrados desde a Escandinávia até a Andaluzia, da Escócia à Grécia,
geralmente em regiões costeiras ligadas às antigas rotas marítimas. Na África, ao sul do
Egito, na Etiópia, assim como nas costas da Somália, do Senegal, da Gâmbia, do Magreb.
Na América, eles são encontrados onde deve ter sido outrora a Grande Irlanda das lendas
célticas, no litoral noroeste dos Estados Unidos, no Haiti, e finalmente na América Central,
na Colômbia e no Brasil. Também nos Açores e nas Canárias existem vestígios deles. O
oceano Índico, a Índia (costa do Decão, de Ceilão) também os conhecem, assim como a
Arábia, o Paquistão, a Indonésia e Madagascar. Na Oceania, nas ilhas Salomão, Nova Guiné
e Nova Caledônia, na Melanesia, nas Filipinas e até na Polinésia, pedras erguidas, círculos de
pedras são testemunhos da presença megalítica.
Por outro lado, se considerarmos um mapa da região dos megalitos, impõe-se
imediatamente uma constatação. Todos esses monumentos se encontram em regiões costeiras,
insulares ou próximas do litoral. Mais ainda: estão sempre em pontos que vão dar correntes
marítimas ou oceânicas, como se o traçado dessas correntes lhes houvesse proporcionado
vias de difusão nas grandes bacias oceânicas do mundo. A mesma observação é válida
quanto à difusão dos megalitos em bacias marítimas fechadas — Mediterrâneo etc. — e em
golfos profundos.
Não menos ostensivo é o laço entre a presença megalítica e as ilhas sagradas. O
astrônomo Bailly perguntou um dia a Voltaire: "Não vos impressiona verificar que tudo que
há de interessante na Antigüidade ocorre em ilhas?" O fato é que a tradição sempre atribuiu
a maior importância às ilhas, muitas das quais foram tidas como sagradas.
É o que acontece, no Báltico, com as ilhas Gotland e Seeland, Heligoland em frente
da foz do Elba, a ilha de Man no mar de Irlanda, Malta, as ilhas Afortunadas no Atlântico
oriental, Haiti, a ilha de Marafion no estuário do Amazonas, as ilhas Maldivas, a ilha
Amboina na Indonésia, a ilha de Páscoa, Vancouver, a célebre ilha Branca das Serpentes —
denominada outrora Aquiléia — no mar Negro, algumas ilhas do arquipélago grego, e
também ilhas situadas em rios ou lagos, como a antiga ilha de Ada Kaleh perto das Portas
de Perro do Danúbio, ou as ilhas do lago Titicaca, entre a Bolívia e o Peru. Todas elas têm
— ou tiveram — um nome que indica o seu caráter sagrado. Gotland é a ilha dos Godcs mas
também a do deus (Got); Seeland, terra do mar, mas também seeleland, terra das almas; Heligoland:
Heilliges, land, Holy land = terra santa; Marafion: Mar o = terra em quíchua, on = sufixo elogioso
indicando a força, a atividade, a nobreza, etc.


 
Megalitos no Pacífico
A ilha de Man, colocada sob a proteção do gênio Hon-Gadarn, expressão da força
demiúrgica, da natureza, é celebrada nos seguintes termos por Leconte de L'Isle:
Or Mona du milieu de La mer rude et haute
Dressait rigiãement les granits de sa cote...
Tels que les tourbillons presses, toujours accrus
Les ãieux Kymris, du fond de La nuit accourus
Abordaient File sainte, immuable sur Vonde,
Mona Ia vénérée, autel central du monde.
[Ora Mona de entre o mar rude e alto / Erguia rigidamente os granitos de sua costa... / ... / Como
turbilhões apressados, sempre acrescidos / Os deuses Kymris do fundo da noite acorrendo / abordavam a
ilha santa imutável sobre a onda / Mona a venerada, altar central do mundo./ ]
Seu primeiro nome foi Mona, que se deve aproximar do grego monos — único, do
celta — men — menhir — e até mesmo de grego — menos, força vital. Sem deixar de lado
Menes, Minos, Manu, Mani, Mane etc, que foram iniciadores lendários, para alguns povos.
Perpetuando para os celtas o antigo Manala, sítio importante das tradições
sententrionais aparecendo também na mitologia finlandesa, a ilha de Man desempenhava
um papel de primeira grandeza nas crenças célticas.


 
Os vestígios nela encontrados fazem de Malta (a antiga Myllita, um dos nomes da
deusa Deméter-Ceres) um dos pólos indiscutíveis do mundo megalítico mediterrâneo. A
ilha das Serpentes, no mar Negro, próxima da embocadura do Danúbio abrigou, segundo
consta, o mausoléu de Aquiles. Quanto à ilha de Ada Kaleh, no Danúbio, situada nas
proximidades das Portas de Ferro que separam os Bálcãs dos Carpatos, e hoje recoberta
pelas águas de um imenso lago artificial, foi ela o lugar sagrado de passagem dos bois de
Gerião tangidos por Hércules até a Sicília. Esses exemplos deixam bem claro que todas as
terras insulares onde existiam megalitos desempenharam em seguida um papel importante
nas crenças mitológicas dos povos que nelas viveram.
A ilha de megalitos não é uma ilha qualquer. Deve ser isolada, dar a impressão de
centro surgido das águas; nunca, entretanto, demasiadamente afastada de terra firme, de modo a
poder emitir radiações sobre as costas. É o que acontece com a ilha de Man, situada entre o
litoral da Irlanda e o da Inglaterra, ambos ricos em pedras antigas e lendas. É também a
situação das ilhas de Jersey e de Guernesey, na abertura do golfo de Saint-Maio, das ilhas
Faroer, das orçadas, das Hébridas e das Shetland perto das costas da Escócia e no mar da
Noruega. A ilha de Ibiza, aprisionada entre Majorca e o litoral de Valença, apresenta uma
posição semelhante, assim como a ilha Gotland, ao largo da costa sueca, a ilha de Kang-
Hoa no golfo de Seul e ilha das Serpentes no mar Negro. Observe-se finalmente a posição
comparável das ilhas de Malta, no meio do Mediterrâneo, e Amboina no mar de Banda, na
Indonésia. De resto, essa posição de anteporto insular do continente é também a das ilhas
Afortunadas, as Canárias, Açores, Cuba, Haiti, ilha de Maranon, Vancouver etc.
O que acabamos de dizer com referência às ilhas, aplica-se igualmente às penínsulas
que avançam para o mar à semelhança de mãos metidas nas ondas, como a Bretanha, a
Coréia, a Calcídica, algumas das pequeninas penínsulas lançadas pela Ásia Menor em
direção ao mar Egeu, a Itália entre o canal de Oranto e o Golfo de Tarento, a África em
direção ao cabo Bon, etc.
O estudo comparativo da posição geográfica das ilhas de megalitos põe em destaque
um fato essencial referente a uma relação dimensional. Nenhuma delas se encontra a mais de 150
quilômetros da terra mais próximas, da qual se afasta, as mais das vezes, apenas 10 ou 11 quilômetros.
As posições recíprocas de Bimini e da Flórida servem de excelente exemplo.
Quanto ao aspecto geográfico do enigma dos megalitos, o que há de mais curioso,
entretanto, é a não uniformidade de suas localizações.
Para nos fazermos melhor compreendidos, citaremos Fernand Niel, especialista em
megalitos, com o qual tivemos demoradas conversas a esse respeito: "É preciso reconhecer,
escreve ele, que são extremamente caprichosas as manifestações dos dólmens; que se saiba,
sua difusão não obedece a nenhuma condição "física". Podem ser vistos em todos os
terrenos graníticos ou calcáreos, em plena montanha, nas florestas ou nas charnecas, às
margens de rios ou de lagos, no fundo dos vales ou nos cumes. Nessa dispersão, nada
parece obedecer a leis hidrográficas, geológicas ou ortográficas. E quando a natureza dos
terrenos não permite encontrar in loco os materiais necessários, as pedras de que se precisa
são trazidas de onde quer que se encontrem, seja qual for a distância."- Exemplo clássico é
o das pedras "azuis" de Stonehenge, na Inglaterra, provenientes de uma pedreira situada nas
Prisely Mountains, no País de Gales, cerca de 280 quilômetros por terra. Evidentemente,
trata-se de uma distância tão grande que os blocos, pesando de vinte a vinte e cinco
toneladas não poderiam ser transportados sobre rolos de madeira. É preciso, portanto, que
o transporte tenha sido feito por via marítima, por indivíduos que lhe conheciam o segredo.
Megalitos na região do Mediterrâneo


 



 

Outro enigma dos megalitos: a sua autêntica despreocupação diante da teoria
histórico-materialista do móvel puramente econômico do progresso e dos movimentos
históricos. Com efeito, nós nos damos conta bem depressa de que existe uma mesma
densidade de dólmens nas regiões áridas e nas regiões férteis. Aos magníficos alinhamentos
de Carnac, na Bretanha, região de pastoreio, rica em produtos do mar e de forte densidade
demográfica, correspondem os não menos espetaculares de Mosna, no Iêmen, região de
extrema pobreza, escassamente povoada.
Em última análise, é esse caráter infinitamente particular dos megalitos que lhes
confere uma "atmosfera" comum a que nos obriga a recorrer, para compreendê-los, à idéia
de uma fonte de inspiração exterior às regiões onde eles são encontrados. É preciso, portanto,
admitir que essa inspiração sempre transitou por via marítima.
Mas, para que uma idéia transite pelo mundo afora, não lhe bastam os cruzados; é
preciso que ela tenha também um conteúdo capaz de lhe garantir uma sobrevivência
suficiente para cobrir toda a sua área de difusão. O que nos leva a perguntar quem foram os
indivíduos que difundiram os megalitos e por que o fizeram.
OS HOMENS DO POLVO
Tomemos, para começar, os menires. Quem é que não conhece essas autênticas vigas
quadrangulares de pedras enterradas no solo e com aspecto de losangos? Seja em virtude da
natureza particular do rochedo, seja em virtude de uma geometrização voluntária (é o caso
do menir de Malves, no Aude, que parece modelado por mãos humanas em forma de
paralelepípedo regular), eles apresentam com freqüência as formas mais inesperadas. Seja
como for, o que parece ter presidido à sua ereção é menos a idéia ou função de marcos que
a de pontos de referência no tempo (concepção muito mais sutil). Monumentos comemorativos
que se transformaram, por isso mesmo, em monumentos culturais e necessariamente
detentores das chaves do homem que os construiu, os menires ainda têm muitos segredos
para revelar.
Quanto aos cromlechs, a sua diversidade de formas também se impõe à observação.
A forma clássica, e a mais difundida, é o círculo. Em quase todas as regiões de megalitos,
deparamo-nos com esses contornos circulares, feitos de pedras plantadas no chão, sendo os
mais célebres os de Stonehenge na Inglaterra, o "Túmulo do Rei", perto do rio Senegal, os
de Do-Ring no Tibete, de Orkhon na Mongólia e de Sillustanni no Peru. Observe-se que
Stonehenge já representa um tipo completo de monumento megalítico.
Em princípio, os alinhamentos de pedras erguidas formam longas fileiras, por vezes
de mais de um quilômetro. Os mais representativos são, indiscutivelmente, os de Menec,
Kerlescan e Kermario, na Bretanha. Os dólmens, primeiros monumentos compostos
correspondendo a um plano "articulado" (mesas e suportes), e os dólmens reunidos em
passagens cobertas são categorias conhecidas cujas peças mestras constituem as variantes de
uma série inesgotável de formas semelhantes! Na realidade, o que serve de fundamento para
a sua unidade são as condições em que os encontramos.
Para explicar os monumentos simples, sempre se recorreu a motivos para a
localização, sem descobrir nada além de alguns princípios de orientação associados às
divisões solares do ano (posição do sol nos equinócios, nos solstícios, etc). Nos
monumentos complexos entra em jogo um outro elemento — a linguagem até agora raramente
decifrada, do próprio plano do monumento. Consideremos por exemplo, o caso do cromlech —
excepcionalmente retangular — de Crucuno, no Morbihan: O exame de suas dimensões —
além de seu aspecto geométrico evidente e da orientação de suas diagonais em direção às
posições do sol nos solstícios de verão e de inverno (seus dois lados se orientam
rigorosamente em obediência ao eixo norte-sul) — revela, como faz notar Fernand Niep,
que existe entre os lados do monumento e uma de suas diagonais a mesma reciprocidade
que entre os números 3, 4 e 5.
Ora, se no simbolismo dos números, que os misteriosos construtores deviam
conhecer, a julgar pelo número de pedras erguidas em cada quartel do conjunto, os
números 3, 4 e 5 têm significações particulares, o valor simbólico profundo da série 3, 4, 5 é
ainda mais determinante.
Os egípcios conheciam perfeitamente o triângulo retângulo de Pitágoras, cujos
símbolos e figurações podem ser encontrados proporcionalmente em seus edifícios,
começando pela Grande Pirâmide. É aliás de importância fundamental para se traçar no
solo um ângulo reto, sem o qual seria impossível orientar um templo, nem mesmo o
complexo megalítico de Crucuno. Dispondo-se, com efeito de uma corda com nós de
doze unidades, pode-se obter um ângulo reto por meio de três balizas correspondentes aos
comprimentos 3, 4 e 5. Observe-se de passagem que ao meio-dia, a sombra mais curta
dessas balizas indicava exatamente a direção do eixo Norte-Sul. Na Mesopotâmia, no Irã, as
cúpulas elíticas dos templos eram sempre realizadas com o auxílio do triângulo 3-4-5.
Contando o número de pedras no sentido dos ponteiros de um relógio, da esquerda
para a direita, e retrocedendo, temos com efeito 7, 3, 6 e 6 pedras (ou dois setores verticais
de 7 + 6 = 13, e 3 + 6 = 9 pedras, e dois setores horizontais de 7 + 3 = 10, e 6 + 6 = 12
pedras). Na simbólica dos números, 6 representa a vida e a beleza, 3 dá a noção de família,
trindade perfeição. 7 é, finalmente, o grande número dos astros móveis do céu dos antigos,
elemento fundamental da cronologia e número sagrado (assim, as sete estrelas das duas
ursas assinalam o setentrião), 9 é o alfa e o êmega do simbolismo dos números, a invenção
criadora. Nove é um, são as palavras que Goethe atribui a Fausto.


 
Foram encontrados indícios do conhecimento e da utilização das virtudes do
triângulo 3-4-5 no túmulo da rainha Chubat de Ur, na Mesopotâmia (início do 3º. milênio
antes de Cristo), assim como nos princípios que presidiram à construção da Grande
Pirâmide. Por outro lado, Matyla Ghika faz referências à escavações arqueológicas que
confirmam o emprego desse triângulo, tido como sagrado, desde a Idade do Bronze na
Europa Central. Era mister conhecer tudo isto para edificar o monumento de Crucuno.
Imaginemos o seu arquiteto manejando não somente o fio a prumo, a alavanca e o plano
inclinado, como também os números cuja lei, de acordo com a tradição antiga, preside aos
sentimentos e imagens e graças aos quais o exterior, na realidade, é o interior.
Muito se tem escrito sobre o mistério de Stonehenge. Em seu livro Stonehenge Decoded,
publicado em Londres em 1966, o americano Gerald S. Hawkins procurou demonstrar que
se tratava, na realidade, de uma espécie de "computador" (...) capaz de prever as
luminações, assim como os eclipses do sol, e indicando conhecimento que os gregos só
adquiririam graças aos esforços de Meton. Isto é ao mesmo tempo exagerado e mal
expresso. Assim como Crucuno, Stonehenge é obra de um espírito que construiu visando
menos à ação que à reflexão. Os megalitos complexos são veículos de uma idéia, de um
saber que, uma vez decifrado, contribui mais para o conhecimento que para os
empreendimentos.
Sob este aspecto, os círculos e o número de pedras do complexo inglês de Avebury
são igualmente interessantes. Examinando-se com atenção o plano do sítio, demarcado no
século XVIII (quando o estado de conservação dos vestígios permitia uma reconstituição
muito mais fácil), verifica-se que se trata de uma prefiguração gigantesca — praticamente
análoga aos effigy-mounds americanos — do disco alado, símbolo antiqüíssimo do deus Sol.
Em geral, vê-se erroneamente nessa figura uma antecipação (ou uma evocação) do
deus egípcio Hórus e, assim sendo, associa-se indiretamente o disco alado ao mito de Osíris.
Na verdade, ele é muito mais antigo do que se imagina e se o encontramos em toda parte
não é por estar associado ao Egito faraônico e sim a misteriosos "difusores" vindos da
antiga Amenti.






 
 O disco alado através do mundo
a. Assírio, b. Babilônio, c. Maia. d. Polinésio
Com efeito, se admitirmos que os habitantes do vale do Nilo cederam a seus vizinhos
mais ou menos próximos — hititas, assírios e babilônios — um símbolo que lhes era
familiar, impõe-se então que os façamos também viajar até alcançar os polinésios ou os
maias, entre os quais pode ser encontrado o mesmo símbolo...
Ao reproduzirem esse disco no solo de Avebury, os construtores tiveram o cuidado
de guarnecê-lo de algarismos — número de pedras erguidas — relacionados com o
calendário (mês lunar de 28 dias, ano de 52 semanas e de 12 meses, etc.) Basta contar as
pedras dos círculos e das alas para comprová-lo. O todo, finalmente, é dominado pelo
símbolo do algarismo 9, sendo o círculo maior constituído de 81 pedras fixadas no chão.
Outro conjunto importante: o de Carnac. Seu significado real não é conhecido. Os
alinhamentos comportam 2.934 menires distribuídos ao longo de mais de quatro
quilômetros, sendo possível que eles representem apenas metade do conjunto original.
Todavia, nossa atenção será dirigida sobretudo para os de Menec, Kermario e
Kerlestan, cujas estruturas retilíneas têm a precedê-las cromlechs semicirculares (Menec e
Kerlestan) ou um dólmen (Kermario). Em Menec, existem onze fileiras de menires; em
Kermario, dez; em Kerlestan, treze. E o que neles desperta nosso interesse é o fato de
terem correspondentes a milhares de quilômetros das costas da Bretanha, no rochoso e
árido lêmen, em Mosna. Aqui, o conjunto é menos impressionante porém mais regular:
quatro fileiras de menires, três das quais intactas. Desta vez, é o trapézio que domina a
geometria de um plano nitidamente traçado no solo, e a figura assim composta dá a
impressão de ser a do sol cujos raios fecundam a terra...
Se em Carnac ou Kerlestan, assim como no Assa, na Índia, dir-se-ia que o construtor
traçou as "linhas" de sua obra com o auxílio de uma régua gigantesca, noutros lugares temse
a impressão de ter sido o compasso o instrumento de seus sonhos pontilhados de altas
pedras. É o que acontece particularmente com os círculos ingleses de Boscowen, que nos
oferecem uma excelente lição de geometria.
Apontemos finalmente os conjuntos da Suécia (Braavalla), da Argélia, da Rússia, da
Livônia, (Aschenrade). Milhares de quilômetros separam esses sítios que se notabilizam
pelas mais estranhas combinações de círculos e de figuras quadrangulares, falando, todas
elas, uma linguagem comum: a do símbolo geométrico. Esse símbolo, por sua vez, não
pode deixar de conter uma mensagem, ainda não decifrada.


 
 Tamanha diversidade de formas e de localizações (sendo que não nos detivemos nos
megalitos que "evoluíram" para esculturas, gravuras, orifícios ou desenvolvimentos
secundários) nos leva necessariamente a investigar os objetivos que, segundo se supõe, essas
construções deviam preencher. Altares ou monumentos funerários, objetos rituais,
instrumentos de magia simples ou médica, de certa forma o seu mistério se iguala ao que
paira sobre as pirâmides egípcias. Não se trata aqui de utilidade material, nem de explicar de
uma mesma maneira a sua presença nos diferentes pontos em que são encontrados. Na
mesma medida em que o princípio e a idéia por eles expressos lhes são evidentemente
comuns, também na realização material chega-se a distinguir "escolas regionais". Cada uma
dessas escolas afeta um território restrito, levando a uma espécie de "regionalização" dessas
construções. No seio dessas escolas, foram até identificadas "correntes", por vezes
justificadamente.
Foi este aspecto, utilizado de maneira indevida, que permitiu fazer dos megalitos
americanos uma obra das tribos que jamais construíram com pedras (Arawacs), e
transformar os da França, da Inglaterra e da Irlanda em jóias de uma mesma civilização ...
céltica.
O que nem sempre se compreendeu foi que admitir a existência de escolas diferentes
eqüivale a defender a idéia do desenvolvimento variado e independente da concepção
megalítica entre povos diversos, ao longo de todo um período histórico, e a existência de
uma inspiração comum. Eqüivale a afirmar, por assim dizer, que os megalitos, essa expressão
da cultura, são como que uma vestimenta feita de tecidos e de cores diversificadas, tecida
por sábios costureiros mais ou menos em todas as partes do mundo, com material
fornecido pelo cliente e em casa dele. O "construtor" de megalitos passa então a ser um
indígena que executa esse trabalho depois que um ou vários estrangeiros, vindos de outros
lugares, o persuadem a fazê-lo e lhe ensinam a maneira de executar a tarefa. E esses
missionários alienígenas vinham sempre do mar, segundo prova a difusão de seus edifícios.
Aqui e ali, entretanto, esses peregrinos nos deixaram algo mais que a perturbadora
geometria de seus monumentos; de certa forma, eles os assinaram. Nem sempre,
evidentemente, mas com uma freqüência que nos permite tentar uma identificação a partir
dos signos gravados nas paredes dos dólmens ou esculpidos na pedra.
Em Luffang, Le Rocher, Pierres-Plates, e noutros lugares, bem protegido nas paredes
interiores de monumentos complexos, observa-se um desenho estranho, em cujas linhas se
descobre a imagem familiar da siba ou polvo. Ora, não nos esqueçamos de que o polvo há
de aparecer mais tarde nas cerâmicas da América Central e de Creta, nas ilhas do Pacífico,
assim como, em alguns rochedos do oceano Índico. Esse motivo, assim como os
serpentiformes, são os encontrados com maior freqüência nos remanescentes das mais
antigas civilizações marítimas. Por vezes, é até mesmo associado a serpentes entrelaçadas,
como acontece em Pornic. Estaríamos diante de um animal totem? Tudo leva a crê-lo.


 
 Ao lado do polvo, encontra-se por vezes uma figura estilizada ao extremo, na qual
muitos especialistas pretendem ver uma espécie de brasão ou escudo, e que revela o apego
daqueles homens ao símbolo, caracterizado entre eles por uma passagem do concreto para
o abstrato. Machados, arcos, todo tipo de atributos guerreiros e de desenhos ainda mais
obscuros completam esse inventário.
Os homens que difundiram pelo mundo afora relações matemáticas como as dos
números 3-4-5 não se limitaram a nos deixar essas lições de geometria aplicada, isto é, os
seus monumentos complexos. Dominavam e utilizavam, além disso, os principais
arquétipos clássicos da história das religiões, vale dizer: o sol — que representavam cercado de
raios; a lua, as pedras sagradas que plantavam no solo por onde quer que passassem; e a
mulher. O círculo do cromlech — imagem do sol e de seu ciclo aparente — era um espaço
sagrado, prefiguração do templo, que Stonehenge já realiza, à sua maneira. A espiral, às
vezes contida em alguma outra figura, como acontece com o polvo de Luffang, é por sua
vez o símbolo da fecundidade aquática e lunar.


 
Analisando-se esses símbolos e sua associação a representações derivadas e a
tradições comuns a todas as regiões onde existem megalitos, tem-se a impressão de que a
iniciação necessariamente inerente à idéia megalítica (a não ser que se esvazie a mesma de
todo conteúdo) devia ter como objeto algumas tradições, certas concepções de ordem
religiosa às quais somavam-se importantes conhecimentos científicos — referentes
sobretudo à geometria e à orientação.
Mas, que tradições? Em primeiro lugar, e até mesmo em virtude de suas origens
"exteriores", a de um remoto país dos antepassados e o culto destes últimos. Expressões desta
tradição e manifestações deste culto: as danças e a máscara. O rito solar e o culto dos
ancestrais se confundem na dança mascarada, encontrada em toda parte, na América pré e
pós-colombiana, na Oceania, Indonésia e África. Modificada e requintada pelas civilizações
que se desenvolveram e desabrocharam a partir de então no Sudeste da Ásia, assim como
entre as velhas civilizações mediterrâneas ou do Oriente Médio, voltamos a encontrá-la
entre os povos nórdicos da Europa antiga e na Sibéria.
A tradição do país dos ancestrais atua de tal forma sobre o espírito dos indígenas que
foi ela quem realmente preparou o terreno para o prodigioso desenvolvimento do futuro
mito das ilhas dos bem-aventurados e do paraíso terrestre. O próprio mito adâmico a ela se
prende por intermédio do "primeiro" ancestral do homem. Devemos a Madeleine Rousseau
uma interessantíssima observação a esse respeito: "Nos países onde se manteve intacto,
[escreve ela], esse culto dos ancestrais chama a atenção para alguns enigmas lingüísticos. O
nome que serve para designar o ancestral na Oceania representa variações em torno de uma
raiz comum: Tuma, Atua, Matua, Tamate, Tuma. Ora, no Egito, de acordo com os textos do
Primeiro Império, o primeiro ancestral seria Atum (ou Atoum), que os israelitas e depois
deles os cristãos teriam transformado em Adão. A palavra egípcia conservou-se inalterada na
Oceania (é preciso levar em conta a notação feita pelos pesquisadores ocidentais de
diferentes línguas)".
À essas tradições, prendem-se ainda certas lendas, certos contos que talvez tenham
tido uma expressão primitiva comum. Entre os elementos fundamentais que entram em
jogo, os mais freqüentes são a luta entre irmãos, o direito dos primogênitos, os trabalhos a
serem realizados, as façanhas do herói, o casamento como recompensa e a existência de
uma água milagrosa e vivificadora, que só pode ser obtida depois de longa e perigosa
viagem. Essa viagem é sempre empreendida em direção à noite, ao poente para os europeus e
africanos do Norte, e ao nascente para os chineses e hindus. São também as lendas dos reis,
filhos do Sol.
Em princípio, deviam ter não somente uma origem extraordinária,
independentemente de seu valor pessoal, como também possuir os atributos visíveis do
papel que lhes cabia. Carregavam, como insígnia de sua função sacerdotal ou de comando,
um bastão recurvado, o báculo. O mesmo acontecerá mais tarde com os bispos cristãos. Esse
báculo é representado nos dólmens de Ploemeur, no Morbihan. Osíris presidia ao
julgamento dos mortos segurando um báculo (cf. Livro dos Mortos). Os chefes africanos do
Daomé e os chefes de tribos da Amazônia utilizam com os mesmos objetivos idênticas
insígnias de soberania.
A partir desse conjunto de tradições, do culto dos ancestrais e dos ritos funerários,
somos forçados a chegar à conclusão de que esses homens difundiram por onde quer que
passassem uma religião de vocação universal que, em última análise e três mil anos antes de
Cristo, deu margem ao culto da Grande Deusa Mãe, guardiã das almas dos defuntos e de suas
sepulturas. As figurações encontradas em certos menires da França, Córsega, Sardenha, e
Guernesey e o próprio aspecto de certos menires-estátuas confirmam essa hipótese. De um
modo particular, não será possível evitar as aproximações que se impõem entre as pedras
perfuradas, símbolos da matéria divina e da regeneração pela ação do princípio cósmico
feminino e os dólmens furados, como o de Conflans, nos Yvelines, ou os do Dekkã —
índios. Símbolo também da fertilidade, onde quer que a descubram, a deusa constitui a
etapa final de uma evolução cujo primeiro termo pode ser visto nas estatuetas de mulheres
esteatopígias encontradas em diversos lugares do mundo, aquém e além Atlântico, e nas
ilhas do Pacífico.
Conceder a uma grande deusa o dom de fertilidade é suficiente para demonstrar o
interesse que esses homens, já hábeis geômetras, atribuíam à noção de ciclo. É mister
relacionar essa idéia com as suas observações e conhecimentos astronômicos, com a
importância por eles atribuída às estrelas da Grande Ursa, ao papel desempenhado pelos
solstícios e equinócios, isto é, pelas divisões solares do ano, em seu calendário — em suma,
ao nascimento do Zodíaco.
A tudo isto, convém acrescentar ainda as técnicas. Não as técnicas raras, como a
requintada escultura do sílex, conhecida ao mesmo tempo dos antigos egípcios e dos maias,
e sim as "grandes" técnicas graças às quais eles realizaram os seus espantosos monumentos.
Qualquer pessoa, ou quase, é capaz de conceber rolos de madeira para transportar blocos
de pedra, alavancas ou planos inclinados para erguer as mesas dos dólmens até o alto de
seus pilares. Qualquer pessoa, ou quase, é capaz de reconstituir o modo de construí-los
manuseando lajes de papelão e lintéis de gesso em cima de sua mesa de trabalho. As coisas
não são as mesmas quando in loco. As dimensões exigem a utilização de pesos exatos, o rolo
se quebra, a alavanca se inflama e o guindaste hidráulico nem sempre existiu.
Limitar-nos-emos a examinar um só caso, o do dólmen de Pépieux, no Aude. As
encostas do montículo isolado sobre o qual se ergue o dólmen impunham a construção de
uma verdadeira auto-estrada em plano inclinado, se é que se pretendia transportar lá para
cima as trinta e cinco toneladas da mesa que está sobre ele. Será preciso, portanto, imaginar
que, feito o seu trabalho, os construtores destruíram o seu plano inclinado, espalhando-lhe
todos os remanescentes de modo que ninguém pudesse encontrar nunca mais o menor
vestígio? Isto é pouco verossímil e o sistema deve ter sido outro. Não o conhecemos,
porém, e o que é ainda pior, nem sequer chegamos a imaginá-lo.
Esses homens vindo de "fora", talvez em embarcações semelhantes ao barco solar
representado no dólmen de New Grange, Irlanda, não guardaram, entretanto, só para eles
mesmos, os segredos de que eram depositários. Pelo contrário: eles até os divulgaram sem
restrições. A iniciação se processava no recesso misterioso da gruta, prefiguração do santo
dos santos dos templos vindouros, ou na concavidade dos dólmens. O oficiante, a exemplo
do velho guardião do limiar do dólmen de Pornic, tinha então como arma o machado duplo, o
labrys dos futuros cretenses.
Afinal de contas, esse segredo talvez seja apenas aquilo que se está começando a
vislumbrar hoje em dia: a origem setentrional de uma parte da civilização do continente
mais antigo, as fontes não mesopotâmicas da civilização ocidental.
Será agora conveniente debruçar-nos sobre as teorias históricas de data mais recente,
particularmente sobre a do doutor Colin Renfrew, professor na Universidade de Sheffield,
na Grã-Bretanha. O doutor Renfrew foi um dos primeiros a se atrever a considerar a
possibilidade de outras origens para a civilização ocidental, além das oficialmente admitidas.
A seu ver, ao contrário do que pretende o slogan ex oriente lux, a fonte oriental não teria sido
a única a presidir ao nascimento da civilização ocidental. Ele acredita, pelo contrário, que o
berço dessa civilização deve ser situado a noroeste do continente cujos indígenas exerciam
uma atividade criadora mil anos, pelo menos, antes do desabrochar das primeiras culturas
mediterrâneas. Sempre de acordo com o professor Renfrew, Stonehenge desempenhava um
importante papel religioso muito antes das celebrações de ritos de Micenas. Foi
naturalmente uma rebelião; e com o intuito de defender a idéia de uma civilização ocidental
filha das influências conjugadas do Egito, da Grécia, da Mesopotâmia e do antigo Israel,
firam sucessivamente mobilizadas a biologia, a história e a psicanálise. Resultado: ficando
comprovado, segundo Jung (que aliás nem todos acompanham neste ponto) o papel
desempenhado pelos arquétipos que governam o inconsciente, fez-se ressaltar o contato
mais direto dos primitivos com as fontes profundas de seus instintos e sua tendência a
harmonizar as leis de seu próprio inconsciente e as da razão. A conclusão que daí se extraiu
foi que as pessoas que vivem em condições sociais e geográficas sensivelmente idênticas
produzem, independentemente umas das outras, as mesmas técnicas e as mesmas artes,
assim como utilizam os mesmos símbolos.
De resto, isto se limita a parafrasear o que escrevia a respeito do homem primitivo J.
Murphy (citado por Arnold Toynbee): "As semelhanças entre as idéias e costumes do
homem podem ser atribuídas à similitude da estrutura do cérebro e à natureza de sua
inteligência ... Esta similitude de atividade mental... as operações similares do cérebro,
comum à raça... explicam o aparecimento de crenças e instituições como o totemismo... no
seio das populações e nas partes do globo mais distanciadas umas das outras.”
Já em 1920, o professor Gordon Childe enunciara uma hipótese, acoimada de
difusionista, mas que foi, entretanto, aceita graças à sua moderação. Childe afirmava a
existência de relações entre as civilizações mediterrâneas orientais (do Egeu) e o mundo
"megalítico" do ocidente europeu por volta de 2.500 anos antes de Cristo.
Isto é indiscutivelmente verdade em muitos casos, mas não se aplica ao dos
megalitos. Um número excessivo de problemas de espaço e de tempo interfere no interior desta
corrente civilizadora de modo que se faz impossível reduzi-los a fenômenos de invenção
local. Chegou-se finalmente a percebê-lo, e muitos especialistas hoje aceitam, ao lado de
uma evolução peculiar às diferentes zonas megalíticas, a existência de um impulso inicial
proveniente de uma zona exterior, de um centro localizado fora.
À PROCURA DO TEMPO PERDIDO
Descoberta correspondente ao céu nórdico, o zodíaco difundido pelos habitantes das
regiões limítrofes do Atlântico incluía-se, sem dúvida, no número dos conhecimentos
divulgados pelos portadores da concepção megalítica. Deveria, pelo menos, ver-se aí
incluído, se a cronologia o houvesse permitido. A maioria dos historiadores admite, com
efeito, que a astrologia surgiu há cerca de três mil anos, num ponto qualquer da
Mesopotâmia. Esta afirmação é perfeitamente exata quanto à prática astrológica
propriamente dita, mas não quanto à concepção do círculo zodiacal e suas primeiras
representações. Para afastar qualquer dúvida a este respeito, basta lembrar a recente
descoberta do americano A. Marshack, que encontrou representações astronômicas
gravadas em ossos do abrigo Blanchard e no osso do Lartet. O "conhecimento" do zodíaco
é fato de observação muito mais antigo que as interpretações e manipulações que o tiveram
como objeto.
Seria naturalmente errôneo afirmar que a astrologia já estava a postos ao lado do
berço do homem, ainda que, segundo escreveu M. Gauquelin, "seu primeiro pensamento
tenha sido mágico, e o céu a sua primeira magia". É todavia possível uma estimativa
cronológica. Para disporem de tão grande conhecimento das coisas do céu, os homens dos
megalitos contavam, sem dúvida, com uma experiência muito mais velha que eles.
Associada a um fato de ordem astronômica, essa constatação permite fazer o conhecimento
da faixa zodiacal remontar a cerca de 26.000 anos. Com efeito, é por volta dessa época que
os nomes dos signos correspondem com maior exatidão ao nome das constelações que
tinham à sua frente. Foi naquela ocasião que o jogo dos astros (astros fixos ou em
movimento aparente na abóbada celeste) impressionou a inteligência daqueles homens,
capazes de determinar com a maior precisão as variações estacionais do sol nascente, que
conheceram as divisões solares do ano e ergueram inúmeros monumentos à glória do astro
diurno e das vantagens que poderiam ser extraídas de seu "caminhar pelo céu". Esses
monumentos são os alinhamentos de Carnac, o sítio inglês de Avetaury, os círculos de
pedras erguidas de Orkhon na Mongólia e de Sillustani no Peru, o célebre Círculo da
Medicina — Medicine Wheele — do Wyoming, e Stonehenge.
Considerando o deslocamento tradicional dos astros a percorrerem os signos do
zodíaco, isto é, o fato do sol — por exemplo — sentir-se bem no signo do Leão (ele domina o
verão), e exilado no da Libra (sendo que o fim do mês de agosto assinala o início do
outono), alguns especialistas como o astrônomo francês Paul Couderc chegaram à
conclusão de que a astrologia surgira no hemisfério norte, já que ela corresponde aos movimentos
estacionais das constelações do céu setentrional. Evidentemente, esta observação constitui
um argumento mais favorável às regiões atlânticas que à Mesopotâmia.
Eusébio de Cesaréia atribui a invenção da astrologia aos egípcios e caldeus. E é fato
que, embora date apenas do início de nossa era, o famoso zodíaco de Dêndera é contudo
um veículo de conhecimentos muito mais antigos. Não se pode negar que é das mais
surpreendentes a maneira com que os animais e personagens representados nesse zodíaco
se voltam sempre para oeste. O problema é saber se o emprego da representação circular do
zodíaco é realmente assim tão antiga. Muitos egiptólogos admitem que ele só se tornou
conhecido dos egípcios por intermédio da Grécia, onde foram buscá-lo.
Para Schwaller de Lubicz, aliás, não imitado pela generalidade dos arqueólogos, o
zodíaco é um "monumento" da cronologia faraônica, e uma prova suplementar da
organização desse império "à imagem do céu". Chega a ser ainda mais explícito em seu belo
estudo sobre o Templo do homem: "O conhecimento que tinham os antigos egípcios das
doze seções, subdivididas em trinta e seis decanos na faixa zodiacal, não é contestado nem
contestável. Discute-se apenas se, e como, os Antigos empregavam as figurações
representadas em Dêndera nos zodíacos circular e retangular esculpidos durante o período
do baixo império. Ora, bastam dois exemplos para revelar como é que os velhos Sábios
entendiam esses signos e figuras.”
Para demonstrar o quão errôneo é atribuir aos gregos uma responsabilidade que na
realidade cabe aos egípcios (por intermédio dos servidores de Hórus) basta ter em mente os
zodíacos americanos pré-colombianos. A representação circular do zodíaco, tal como o
próprio zodíaco, é com efeito universal. É encontrada tanto na América do Norte como em
outros lugares, desde os cosmogramas mexicanos rodeados pela serpente — símbolo tão
universal quanto o zodíaco — e as rodas katúnicas particularmente associadas aos megalitos,
até as figurações circulares, uma das quais com doze signos e vinte e oito divisões ou casas e
a outra com vinte signos de treze dias. Só conhecemos os nomes de nove dos doze signos
do zodíaco acima citado (faltam os de Escopião, Sagitário e Peixes); será porém interessante
investigar os seus correspondentes "europeus", ou melhor dito, euro-asiáticos.
Há pouco tempo, Jacques de Mahieu, diretor do Instituto de Ciências do Homem de
Buenos Aires, considerando que o zodíaco sul-americano vinha de uma cepa européia
tardia, atribuiu-o aos vikings que para lá o teriam levado por ocasião de suas viagens,
acompanhando a trilha dos irlandeses. Infelizmente para essa teoria, sob outros aspectos
sedutora, os signos do zodíaco que aparecem nas pedras gravadas sul-americanas, são muito
mais antigos que a hipotética presença viking no Peru e no Brasil. Admitindo-se que os
vikings tivessem levado consigo alguns signos, com isto eles teriam apenas confirmado e
reforçado a existência independente dessas noções e representações no Novo Mundo.


 
Círculo zodiacal do ano entre os maias


 

O Zodíaco lunar da Tradição européia
Representação do zodíaco lunar europeu (Desenhos extraídos do estudo de A.
Volguine, sobre a astrologia dos maias e aztecas.)
Seja como for, aqui está o quadro dessas correspondências:
Esplendor do Cordeiro Carneiro
Macho potente (brilhante e inflamado) Touro
Os astros juntos Gêmeos
A cobra adormecida Câncer
Retorno da lâmina do leão oculto (e rastejante) Leão
Mãe divina Virgem
Escada Libra
(desconhecido) Escorpião
(desconhecido) Sagitário
Cervo ardente Capricórnio
Época das águas Aquário
(desconhecido) Peixes
Mas se esses dados referentes à existência da representação circular do zodíaco na
América pré-colombiana e colhidos em A. Volguine, refutam a sua invenção pelos gregos,
não fica anulada a objeção constituída pela idade mais recente desses elementos entre os
maias ou os mexicanos. Fique desde logo claro, para eliminar essa dúvida, que na América
foram encontradas figurações do zodíaco circulares ou ovais muito mais antigas que as até
agora consideradas. Como, por exemplo, a "Pedra pintada" brasileira.
Existe, com efeito, na Guiana brasileira, num dolmen da "Pedra Pintada", descoberta
por Kach-Grunberg e descrita por Homet em 1950, uma figura muito estranha que pode
ser considerada como uma representação zodiacal (ver figura abaixo). Basta um rápido
olhar para o círculo em questão para que nele se reconheça a "idéia cíclica", assim como
para aí se distinguir alguns signos do zodíaco, entre os quais o de Aquário sob a sua forma
clássica. Observa-se, além disso, no interior do grande círculo, a presença da serpente assim
como a de outras figuras relacionadas com a noção de viagem, como o carro com rodas (na
América do Sul), diversos animais mais ou menos fabulosos (3 e 4), um cavaleiro (7), um
barco (10), um cavalo muito estilizado (12), um carro muito provavelmente de guerra (13);
enfim, personagens e objetos diversos (6, 8 e 9).
É preciso ter em mente sobretudo a imagem da serpente "cósmica" — sem começo
nem fim — que além de confirmar o uroburos do Mediterrâneo oriental ao tempo em que
antecede o cosmograma maia regido pela serpente também prefigura de maneira realmente
espetacular uma das letras do alfabeto grego. Quem nos permite essa aproximação é
Eusébio de Cesaréia ao escrever: "Quando os egípcios representam o mundo, descrevem um
círculo aéreo ardente e em seu centro colocam uma serpente com aspecto de gavião, o que
forma o nosso O. Com esse círculo, eles designam o mundo, e com a serpente alongada um
gênio benfazejo...”
 
Permaneçamos na América onde temos ainda de acrescentar ao círculo da "Pedra
Pintada" pelo menos alguns desses tão pouco conhecidos embora tão dignos de nota
"Medicine Wheels": "Círculos da Medicina" — cujo protótipo pode ser o do monte Crow,
em Wyoming.


 
1 a 28 = raios formados com pedras - a b c d e = "altares" - marginais = altar central
O CÍRCULO DO MONTE CROW
Descoberto em 1887, o círculo do monte Crow foi exposto à atenção pública em
1903 pela revista American Anthropologist, por iniciativa de C. Sims, curador do Museu de
História Natural de Chicago. A partir de então, ele tem constituído o objeto de estudos e de
pesquisas que não reduziram de maneira alguma o seu mistério embora o tenham deixado
melhor descrito, e descoberto similares seus em terra americana. Recinto circular com 24
metros de diâmetro, e constituído de grandes pedras, o "monumento" comporta 28 raios
equidistantes, feitos também de pedras grosseiras. Apenas um desses raios ultrapassa em
cerca de 3 metros a circunferência do círculo. Rodeando-o, a intervalos regulares,
encontram-se cinco montes de pedras. Um outro, no meio do círculo, com um diâmetro de
mais de 4 metros e 90 centímetros de altura, é provavelmente um antigo altar circular. Sobre
uma das pedras, proveniente sem dúvida de uma pedreira bem próxima, descobriu-se um
desenho em que se distingue de um modo geral o traçado (impressão estilizada?) da planta de
um pé. O conjunto, realizado sem cimento intersticial, está situado num platô de 3.300 metros de
altura, em local dificilmente acessível e numa magnífica paisagem natural. O nome de
"Círculo da Medicina", dado pelos índios, relaciona-se provavelmente com práticas de
magia médica.
O monumento é anterior às mais antigas tribos locais; os índios Crow, Sioux e
Cheyennes o herdaram de predecessores desconhecidos. Suas linhas geométricas e a
presença de cinco montículos de pedras exteriores, dispostos nos ângulos de um pentágono
regular não podem deixar de evocar os observatórios solares dos antigos Ameríndios,
particularmente astecas e maias. Teríamos então ali um local sagrado onde os feiticeiros
comungavam com o Grande Espírito dos índios, ou um calendário cujos 28 raios
corresponderiam às vinte e oito divisões do zodíaco lunar conhecido de todas as velhas
civilizações? Não nos esqueçamos também do pentágono. A soma dos raios do círculo e
dos altares exteriores de Medicine Wheel dá como resultado 33 (28 + 5) submúltiplo de 99 e
múltiplo de 11. Ora, nós sabemos que, na simbólica dos números, este número sempre se
revestiu de importante significação mística.


 
Pode-se, além disso, comparar o círculo do monte Crow com o monumento de
Stonehenge. O diâmetro do círculo de pedras azuis da construção inglesa e o Círculo da
Medicina são sensivelmente iguais. Stonehenge também possui um altar central e "estação
exteriores" assinalados por montes de pedras ou altares. Finalmente, ali também se vê a
marca de uma planta de pé, sobre a célebre Hellstone, pedra situada fora das duas rodas
concêntricas. Abandonando a América para nos voltarmos para Avebury, na Inglaterra, ali
observaremos a presença de círculos de pedras com significação astronômica e astrológica
ao mesmo tempo, constituídos de doze pedras fincadas no chão. Ao que sabemos, ainda
não se organizou nenhum inventário geral dos círculos de pedras com demarcação
topográfica e determinação da orientação exata do monumento. Um trabalho desta natureza
teria, entretanto, a vantagem de determinar à sua maneira a idade dos monumentos em
questão. A presença em diversos lugares do mundo de representações zodiacais circulares
antes de sua reinvenção e de seu aperfeiçoamento pelos mesopotâmios e pelos gregos e,
ainda mais, o fato de quase todos esses lugares se encontrarem em zonas percorridas pelos
portadores da idéia megalítica, demonstram à saciedade que, numa época compreendida
entre o 25º. milênio e o fim das correntes megalíticas, a concepção cíclica do calendário e o
círculo zodiacal corriam mundo com esses homens.
Uma lenda local afirma que a marca "inglesa" é do pé de um monge que caminhara
sobre essa pedra quando o diabo pretendia esmagá-lo sob um rochedo. Trata-se na verdade
de algo muito diferente. A impressão de passos é um símbolo costumeiro dos homens dos
megalitos, simbolizando a tomada de posse de um lugar sagrado. '"Marcas" como essas
podem ser vistas na França sobre o dólmen do Petit Mont (uma dupla marca de passos), na
grande pedra submersa, na foz do rio Vie, assim como no rochedo sagrado de Sasliai, na
Lituânia, e no rochedo a pique de Cetateni, na Romênia (dois pares de marcas), no Val
Canônica (Vale das Maravilhas, nos Alpes) assim como em mais de noventa monumentos
mexicanos atribuídos aos olmecas.
Da mesma maneira, contam-se doze pedras nos doze pilares de Gilgal, na Palestina.
Foi nesse lugar que, tendo atravessado o Jordão, Josué ergueu os seus menires, símbolos
não somente das doze tribos de Israel como também das doze constelações do zodíaco.
Embora o estudo da difusão de uma idéia através dos vestígios por ela deixados
permita uma avaliação bastante elástica de sua idade, a datação por meio dos recursos da
física nuclear se revela muito mais precisa. Assim, o período que nos interessa poderia estar
incluído, aproximadamente, entre os anos — 5.000 e — 1.000. O radiocarbono permite,
com efeito, substituir as apreciações inteiramente subjetivas de outrora por indicações
seguras. A datação, através desse processo, de restos de madeira e de carvão do tumulus
Saint-Michel em Carnac lhes dá por exemplo 5.000 a 5.500 anos de idade. Como escreveu
Aimé Michel em 1967, "os resultados são assombrosos. Parte dos vestígios têm de 5.000 a
5.500 anos de idade, sendo que alguns deles têm de 8.500 a 9.000 anos".
Não há muito tempo, apontando uma data de — 3.390 para um megalito da ilha de
Carnac, Henri de Saint-Blanquat escreveu: "As datações obtidas para carvões de madeira
das antigas escavações do dólmen de Kerkado, em Carnac, indicaram igualmente uma data
de — 3.850." E acrescentou: "Para algumas câmaras do tumulus Saint-Michel, sempre em
Carnac, foram obtidas datas de — 3.750, — 3.100 e — 2.900. Por conseguinte uma idade de mais
de 5 a 6.000 anos. Trata-se de resultados de insignificante imprecisão, mas que confirmam as
datas "elevadas" obtidas noutros lugares".
Adotando-se esta cronologia, o melhor ponto de partida para a aventura megalítica
bem que poderia ser aquele velho porto cuja idade é de seis ou nove milênios, ou mais, e a
respeito do qual estão começando a chegar as primeiras informações reais... Basta pensar
naqueles homens do platô das Baamas, forçados a abandonar sua terra e a partir em busca
de regiões mais seguras...
"Impossível! dirão os eternos raciocinadores; eles não teriam podido manter-se sobre
as ondas. Que conhecimentos de navegação poderiam ter aqueles filhos de Cro-Magnon, os
americanos de há 6.000 ou 8.000 anos?”
Que navegaram, entretanto, é coisa que eles mesmos nos contaram ao gravar barcos
em seus dólmens, como por exemplo a barca solar do dólmen de New Grange, na Irlanda.
Alguns deles tinham até como animal totem um polvo como o encontrado, mais ou menos
estilizado, em Luffang, Le Rocher e em outros lugares.
MEGALITOS E ELDORADO
Se os portadores da idéia megalítica atravessaram o oceano para chegar à Europa e à
África, é muito mais plausível que tenham atingido a América, mais próxima. Por isto, não
nos deve causar estranheza o fato de encontrarmos no Novo Mundo monumentos cuja
origem índia é mais do que discutível e a respeito dos quais afirmam os arqueólogos que
eles "se parecem" com os menires e dólmens a ponto de nos fazerem pensar que são
menires e dólmens — o que é evidentemente "inconcebível".
O grande livro de pedra americano — antes de tudo sul-americano — abre-se com o
capítulo mais espantoso da misteriosa arqueologia do mundo pré-colombiano: a civilização
de San Agustin. Deixada de lado pelos grandes cronistas da invasão espanhola (nem Juan de
Castellanos, nem Cieza de León, nem o padre Pedro Simón dizem uma palavra sequer a seu
respeito), a atenção do mundo erudito foi pela primeira vez atraída para ela por Carlos
Cuervo Marquez, cujo melhor amigo, o doutor Miguel A. de Velasco a havia
apaixonadamente estudado in loco. Depois disso, a civilização de San Agustin ingressou na
história graças aos trabalhos do etnólogo alemão Konrad Theodore Preuss, que lhe
consagrou parte de seu livro, L'Art monumental préhis-torique.
As primeiras escavações verdadeiras só começaram mais tarde, em 1935. O Estado
colombiano criou naquela região o primeiro parque arqueológico do país e José Perez de
Barradas assumiu a direção dos trabalhos. Seu livro, Arqueologia Agustiniana, e os trabalhos
posteriores de Luis Duque Gomez revelaram ao mundo a existência de uma "cultura
megalítica setentrional andina" no alto vale do Rio Magdalena, na Colômbia.
As escavações empreendidas, e as datações até hoje feitas se referem a três períodos
de desenvolvimento dessa civilização, o mais antigo dos quais iria de — 555 até + 425. Os
túmulos com câmaras laterais ali encontrados pertenceriam a esse período; as estátuas
gigantescas, monolíticas, seriam posteriores. Seja como for, a civilização de San Agustin,
ponto culminante de uma corrente cultural proveniente da América Central —
provavelmente do México — ainda está longe de ter revelado todos os seus segredos,
inclusive os que dizem respeito à cronologia.
Francisco Fernandez Santos escreveu recentemente sobre esse assunto: "Quanto às
relações com as outras culturas americanas contemporâneas e às influências recíprocas,
trata-se de um problema ainda não resolvido e certamente de difícil solução. Por enquanto, só é
possível adiantar algumas hipóteses..." O que não se pode negar, entretanto, é que a parte
essencial dessa civilização seja constituída de construções megalíticas, algumas das quais são
nitidamente anteriores às datas estabelecidas por Barradas.
Entre esses monumentos, é preciso mencionar as construções subterrâneas e os ...
dólmens. Ouçamos ainda uma vez Carlos Cuervo Marquez: "... nas vizinhanças de Inza
encontram-se necrópoles muito estranhas, e vastas salas subterrâneas que ainda não foram
suficientemente exploradas". O doutor Miguel Q. de Velasco descreveu da seguinte maneira
uma dessas construções: "No sopé da encosta oriental de uma colina abre-se a entrada de
uma galeria subterrânea com três metros de altura e dois de largura, escavada na rocha
viva... A galeria tem quarenta metros de comprimento e comporta em toda a sua extensão
três fileiras de sarcófagos cortados na rocha e superpostos... No fim da galeria encontra-se
uma grande sala redonda (em forma de rotunda) cujo piso e cujas paredes são recobertos
com um revestimento negro, duro e polido... Nas paredes da rotunda, contam-se vários
nichos..." E comenta Carlos Cuervo Marquez: "A atenção não pode deixar de se ver atraída
pela extraordinária semelhança entre as antigas esculturas egípcias encontradas entre o Nilo
e o Mar Vermelho e descritas por Edoardo Todda em seu livro A travers Egypte, e as
esculturas dos túmulos encontrados em toda a Cordillera Central.
Naturalmente, o paralelo com o Egito pode levar longe demais; mas, pelo contrário,
com o intuito de evitar seja como for o pecado "difusionista" e para não inventar egípcios
sul-americanos", os arqueólogos parecem fugir a ver a realidade dessas semelhanças. Existe,
com efeito, um certo "ar de parentesco" aliás, perfeitamente explicável desde que se admita
que um povo há muito desaparecido tenha legado aos índios colombianos, que tudo
desconhecem com relação a essas ruínas às quais não se refere nenhuma de suas tradições,
esses vestígios, se não milenares pelo menos mais antigos do que se supõe.
Quanto aos "dólmens", citaremos ainda uma vez Francisco Fernandez Santos: "De
seu lado, a arquitetura se limita aos templos e sepulcros, tanto uns como outros constituídos
de enormes lajes de pedra. Curiosamente, certos templos (sic) se parecem de maneira espantosa com os
dólmens europeus". E trata-se com efeito de dólmens. Demonstram-no duplamente a sua
forma e a modalidade de sua construção — idênticas às dos dólmens clássicos — e o
anonimato de seus construtores. Limitemo-nos portanto, para concluir, a repetir com
Cuervo Marquez que "provavelmente à mesma época em que foram construídos os
subterrâneos pertencem as esculturas em forma de dólmens que podem ser encontrados em
profusão nas colinas do vale de San Bernardo, a leste de Ibague".
Acrescentemos que nas proximidades de Cuenco, no Peru, encontram-se menires,
blocos de pedra esculpidos, dólmens e câmaras subterrâneas recobertas de enormes pedras
análogas às de Locmariaquer na Bretanha, fortificações que evocam as Torres corsas e os
Nouraghis da Sardenha. Finalmente, os túmulos descobertos no vale de Urubamba (Peru)
são praticamente idênticos aos de Barnenez na França.
Quanto às origens "geográficas" desta civilização estranha no contexto sul-americano
— embora apresentem algumas relações com outras culturas pré-colombianas — não há
nada mais simples do que estabelecer a sua origem setentrional a partir das costas da
Colômbia do Norte. Com efeito, encontram-se ruínas iguais em toda a região do istmo da
América Central, desde Azuero e Chiriqui até a Nicarágua e El Salvador, onde o doutor
José Antonio Urrutia descobriu nas cercanais da cidade de Comappa, nas ruínas ditas
Cinaca Micallo, subterrâneos iguais aos de San Agustin.
Além dos que acabamos de mencionar, existem também monumentos que se
assemelham, sem tirar nem pôr, aos menires, assim como, criações artificiais que, para irritar
certos espíritos, imitam os cromlechs ou passam por alinhamentos. É o que acontece,
particularmente, com os círculos de pedras erguidas da península de Sillustani, no Peru. Por
sua vez, a célebre Puerta del Sol que, para os espíritos científicos, de megalítico só tem as
suas dimensões impressionantes, foi realmente um megalito, resto de um conjunto de
pedras erguidas e modeladas que lembra singularmente Avebury e, pelo tamanho, até
mesmo Stonehenge. Contanto, entretanto, que a tomem como parte de um conjunto, que
ao francês d'Orbigny ainda foi dado ver no início do século passado. Homet assinala ainda a
existência de dois menires gigantescos na Amazônia, denominados pelos indígenas Keri e
Kama — ou Kamo — e que para eles representavam a Lua e o Sol. Deixando de lado as
construções megalíticas (sobretudo muros) de Sachsahuaman, no Peru, as de Machu Picchu,
que devem ser pré-incaicas, ou as muralhas ciclópicas de Cuzco, a antiga capital dos incas,
não podemos diminuir a importância dos vestígios de construções gigantescas descobertos
em Caru-Tupera, na ilha de Maranhão. E poderemos encontrar muitos outros exemplos. A
América do Norte, por sua vez, também possui megalitos característicos. São vistos
particularmente nos Estados de New Hampshire e Massachusetts.
Se nos dispusermos a abandonar um instante a história para fazer uma breve
incursão na lenda, teremos de citar entre os vestígios do mundo megalítico sul-americano a
tradição da mais fabulosa cidade que se tenha construído naquela terra de mistérios: a
capital do maravilhoso reino de Ma Noa, cujo soberano era "o Dourado" — El Dorado.
No capítulo CXX de sua História Geral das Índias, Francisco Lopez narra
extensamente esta lenda que organizava os homens de Ma Noa mais ou menos como Platão
havia descrito a organização dos reinos e províncias da Atlântida. Retomada em 1536 por
George d'Espera e, mais tarde, por Fernand Denis em sua Histoire de la Guyane, a lenda fez
uma bela carreira. Alimentada de início pelas narrativas dos conquistadores menos
afortunados, como Orellana e Belalcazar, ela ainda alimentava os sonhos nos séculos XVIII
e XIX e mata, pura e simplesmente, no século XX. A lista de loucos, iluminados,
obcecados, que consumiram seu tempo e suas energias pretendendo descobrir as pretensas
ruínas de Ma Noa é cheia de nomes de gente ilustre, de brilhantes aventureiros. Antonio de
Herrera em 1535, Gonzalez Ximenes de Quesada em 1539, Don Antonio de Berrio em
1584, Sir Walter Raleigh em 1595, Apolinar Dias de Fuente em 1760, Bodovilla em 1764, H.
Schomburgk em 1840, Theodore Koch-Grumberg em 1908, Hamilton Rice em 1915...
Conquistadores, almirantes-piratas, guerreiros, sábios, exploradores, todos lá deixaram os
seus ossos. Vieram finalmente Fawcett e Maufrais. Imaginava o primeiro que encontraria
Ma Noa, a cidade fabulosa, na bacia meridional do Amazonas. Por lá se perdeu em 1925.
Vinte e cinco anos depois, Raymond Maufrais desaparecia por sua vez, milhares de
quilômetros longe dali, procurando Ma Noa nos montes Tumuc Humac perto da fronteira
que separa o Brasil da Guiana Francesa.
Procurada há mais de quatro séculos, em três ou quatro regiões bem distintas da
Amazônia e da América Central, Ma Noa recusa deixar-se descobrir. Quem sabe? Talvez ela
seja mesmo uma lenda... Mas, se existe, é com toda a certeza uma antiga cidade megalítica.
Aliás, é sob este aspecto que a descreve um documento de 1753. Trata-se de uma narrativa
de "bandeirantes" — caçadores de ouro — que retornavam de longa viagem de prospecção.
Foi essa narrativa que colocou Fawcett na pista de sua cidade perdida.
Mas, e se os bandeirantes houvessem tomado "uma formação peculiar de argila
corroída pela erosão que, vista de longe, se assemelha a velhas ruínas" por alguma cidade
antiga, inventando todo o resto da narrativa? E se as inscrições que eles afirmavam ter
identificado nos monumentos daquela cidade tivessem sido decifrados em alguns rochedos
das proximidades? Seja como for, Fawcett não partiu levando apenas as suas notas sobre
esta e outras narrativas. Levava consigo uma estatueta de pedra polida e negra que ele
acreditava ser proveniente de uma antiga cidade perdida.
Examinando bem esse objeto — reproduzido segundo Homet — não nos pode
deixar de impressionar o seu aspecto egípcio. Se for efetivamente sul-americano, ele talvez
possa estar ligado a uma série de outros pequenos vestígios e representações rupestres
atribuídos ao Egito pelo entusiasmo de seus descobridores ou por sua deficiência de
informações. Foi o que aconteceu particularmente no caso das gravuras (na realidade
semigravuras, semi-esculturas) que adornam certos rochedos às margens do Great Salt Lake
nos Estados Unidos, algumas das quais são figuras em tamanho natural, recortadas na carne
dura do granito azul, a cerca de 8 ou 9 metros de altura. Essas estátuas são efetivamente
produtos de uma técnica que os americanos pré-colombianos não dominavam, de fato,
mas...


Assim como a presença em solo americano de dólmens, menires, círculos de pedras
erguidas e outros megalitos, essas manifestações que lembram vagamente o Egito (sem,
entretanto, poderem ser associadas à viagens de egípcios até aquelas paragens interiores do
Novo Mundo) são muito mais provavelmente frutos de migrações muito antigas. Aquelas,
por exemplo, de maior ou menor envergadura, que teriam levado os homens que iam
abandonando o platô submerso das Baamas em direção às costas para eles situadas a
sudeste e a oeste, ou mesmo ao norte e a leste...


 
 Gravuras rupestres. Acima, figurações de San Benito, Antióquia e Boyaca, na
Colômbia. Abaixo, figurações de Eiras da Seixa na Espanha, nas proximidades do antigo
Tartessos.



 
 A ESCADA DO PARAÍSO
Estou convencido de que um dia o mundo erudito há de perceber que os homens da idade da pedra
antiga sabiam não apenas viver na fantasia de seus sonhos como também materializá-los, enchendo a
natureza dos lugares que habitavam com quadros complexos, muito antes de terem aprendido a pintar ou
esculpir em três dimensões...
DANIEL RUZO Carta endereçada ao autor em 1970
A arte é imaginação reconstituída. Sendo um meio de expressão, a arte é também
uma confissão. Quanto mais direta e simples é a sinceridade que provoca essa confissão,
mais probabilidades tem a obra de chegar ao grandioso. Nós nos deparamos, talvez, aí com
um dos motivos que fazem com que a arte primitiva se manifeste de imediato através de
suas produções mais sublimes para em seguida diversificar-se até se dispersar. Foi sem
dúvida o que valeu à gruta de Lascaux o nome de "Capela Sixtina da pré-história", e que
tornou os nomes de Altamira, Niaux, Vai Cammonica, etc. tão conhecidos hoje em dia
quanto os dos Museus do Vaticano ou do Prado, do Louvre ou do Ermitage. Mas isto nem
sempre aconteceu.
ESSE INCÔMODO MARCAHUASSI
Os descobridores ocasionais de desenhos estranhos ou de figuras coloridas nas
paredes interiores de certas grutas da França que, entre 1841 e 1849, tiveram a ousadia de
revelar os seus trabalhos, em lugar de conquistar recompensas ou elogios, viram-se as mais
das vezes acoimados de fantasistas. O mesmo se deu com a questão do Osso da Madeleine
sobre o qual alguns "falsificadores" — que aliás nunca foram descobertos — tinham
gravado um... Mamute. Após o que, em 1879, explodiu a assombrosa "história" de Altamira.
O marquês de Santuola, proprietário daqueles sítios, foi acusado de ter mandado pintar a
gruta por alguns comparsas com finalidades de lucro! E poderíamos continuar enumerando
durante muito tempo os nomes desses falsos falsificadores.
Ora, eis que nos vemos novamente na mesma situação com referência a Marcahuassi
e às coisas estranhas que podem ser vistas naquele pequeno planalto andino do Peru.
Notáveis pelo seu gigantismo, as esculturas realizadas in situ nos rochedos do cume das
montanhas, são ainda mais extraordinárias por sua coordenação espacial. Aqui, com efeito,
conjugam-se na perspectiva "aspectos vizinhos" de modo a formar quadros de conjunto. O
próprio estilo dessas esculturas revela técnicas especiais, como as que permitiram a
realização dos olhos dos personagens, o controle dos jogos de luz e sombras etc.
Finalmente, a utilização da perspectiva nesses "quadros" confirma que esses conjuntos
artísticos foram realizados para serem vistos num determinado momento do ano correspondendo a
uma de suas seções solares — equinócio ou solstício — e a partir de um determinado ângulo.
Descoberto em 1924, o Marcahuassi continua à espera de que o levem a sério. Dois
artigos publicados em 1956 e 1959 na revista L'Ethnographie, de Paris, em nada modificaram
o silêncio que paira sobre ele, e a julgar pelo que vem acontecendo até agora, esse estado de
coisas promete eternizar-se, em virtude sobretudo de um duplo bloqueio psicológico. Em
primeiro lugar, o seu descobridor, Daniel Ruzo, não é nem arqueólogo, nem historiador. É
"apenas" filósofo, advogado, poeta e fotógrafo. Mas, acima de tudo, ele teve a (infelicidade
de topar com uma cultura característica de um alto nível de civilização. Por enquanto, Ruzo
vem clamando contra a injustiça e exibe fotografias nas quais não se vêem apenas perfis
estranhos mas também quadrados pintados sob o queixo de cabeças colossais como a
"Cabbezza del Inca" e escadarias de degraus rigorosamente entalhados na rocha mais dura
do mundo. Está perfeitamente claro que a natureza, que não se vale de um esquadro para
trabalhar, nada tem a ver com esses resultados. E, no entanto, ouve-se interminavelmente a
resposta de que aquilo tudo é produto do acaso, de quedas de temperatura, da ação
conjunta dos ventos e da chuva... Isto, naturalmente, com um desconhecimento total do
clima em questão.
Entre aqueles, poucos, que se atreveram a tomar conhecimento do sítio de
Marcahuassi, está o professor russo N. F. Jirov, que escreveu em 1963: "Naquele pequenino
planalto de três quilômetros quadrados, situado a cerca de oitenta quilômetros de Lima, no
Peru, Daniel Ruzo descobriu uma série de esculturas gigantescas cujos criadores, artistas
que permaneceram desconhecidos nas trevas da pré-história, utilizaram em sua execução os
rochedos da montanha, ajustando-os na medida necessária às semelhanças que pretendiam
determinar. Algumas dessas "esculturas" representam animais, alguns de há muito
desaparecidos das Américas (o cavalo ou o gliptodonte) e outros que jamais habitaram o
Novo Mundo (leão, vaca, camelo). Entre as figurações descobertas em Marcahuassi
encontram-se também esculturas que lembram OS DEUSES DO EGITO ANTIGO (com
cabeças de pássaros ou de animais, como nos egípcios Thot e Anúbis). Além das esculturas,
foram também descobertos restos de construções ciclópicas. Segundo parece, o planalto foi
outrora um importante sítio sagrado, para onde eram levados também sacrifícios humanos.
Pode-se admitir que essa cultura foi amplamente difundida na América, pois vestígios da
mesma natureza estão começando a aparecer no México, no Brasil e em outros pontos do
Novo Mundo... De acordo com Jirov, a idade dessas esculturas é de mais de 10.000 anos.
Foi este texto que permitiu a Daniel Ruzo afirmar: "Estou convencido de que o mundo
científico será muito em breve forçado a admitir que homens pré-históricos posteriores à
época das pinturas rupestres trabalharam os rochedos daqueles lugares sagrados para
exprimir em suas obras as suas concepções de ordem religiosa.”
As viagens de estudos empreendidas por Daniel Ruzo na França, Inglaterra, Grécia,
Romênia, Egito, México e Brasil convenceram-no de que também existem nesses países
vestígios dessa mesma arte. Ele chegou até a apontar duas de suas características
fundamentais. Primeira: a escultura "em grandes dimensões" de rochas in situ (realizada com
o aproveitamento de rochas que já apresentavam silhuetas favoráveis àquele tipo de
trabalho); segunda: a criação de conjuntos de diversas esculturas destinadas a serem
agrupadas num mesmo quadro à maneira de elementos de um quebra-cabeça. Isto, graças
ao jogo da perspectiva e com a condição de se olhar o "quadro" de um determinado ponto,
habitualmente assinalado no terreno: rochedo central, "poltrona" de pedra, esculpida no
rochedo... Segundo Ruzo, essas criações podem ser encontradas na França, em
Fontainebleau; no Egito, às margens do Nilo; na Romênia, nos Carpatos, etc.
Sejam quais forem as aberrações da acusação e — é preciso reconhecê-los — os
exageros da defesa, o que nesta questão é profundamente aterrador é a cegueira, a falta de
curiosidade do mundo erudito com relação a uma cultura que teria atravessado os oceanos
há mais de 10.000 anos.
Se Jirov, que não é arqueólogo e sim engenheiro químico, voltou sua atenção para o
problema de Marcahuassi é porque as pesquisas empreendidas por outros sábios na própria
União Soviética trouxeram à tona, nos montes Urais, culturas arcaicas baseadas no mesmo
trabalho in situ, com rochedos e incluindo figuras gravadas de homens com cabeças de
pássaros, lembrando o Egito antigo.
Ainda mais próximos do tipo Marcahuassi estão os rochedos esculpidos in situ e
descobertos acidentalmente nos montes Sihote Alin, na Sibéria, pelo caçador Ephrem
Leshok. Nessa gruta, sustentando o teto, uma "estátua" lembra o gigante Atlas. Ali perto,
uma figura altaneira, cercada de estranhos rochedos, abre grandes asas azuis e, de braços
cruzados, contempla os intrusos. Na sala seguinte, uma estátua delicada e pensativa, de
traços nitidamente arcaicos, ostenta no meio da testa um terceiro olho, o olho pineal das
antiqüíssimas representações míticas da divindade. Este último fato é particularmente
perturbador, na medida em que esse olho também aparece — e da mesma maneira — em
gravuras rupestres sul-americanas que nunca foram verdadeiramente estudadas nem
explicadas e que, em todo caso, não se relacionam de maneira alguma com as civilizações
ameríndias conhecidas, nem mesmo arcaicas.
Quanto à estátua siberiana, a inclinação da cabeça demonstra suficientemente que o
artista seguiu a natureza, tal como os de Marcahuassi. E o que dizer das esfinges
descobertas nos montes do Kazakhstao, dos rochedos esculpidos também exatamente em
forma de esfinge, encontrados nos Carpatos (em Bratocéia, Busteni e Cerna) e todos
orientados do mesmo modo? O que dizer, finalmente, das grandes figurações de cabeças de
touros dos montes do Cáucaso? Em cada um desses casos, não estaremos em presença de
uma técnica de trabalho da rocha in situ?
QUANDO E COMO?
Não temos nenhum conhecimento exato a respeito do homem dessa cultura do
Marcahuassi. Dele, só nos falam ainda os vestígios de sua atividade; mas esses vestígios
indicam técnicas e criações que, por sua vez, têm equivalentes em muitas civilizações
americanas posteriores.
O doutor Antonio Pompa y Pompa, da Academia Mexicana, em comunicado
redigido em 1953, declarava-se habilitado a proceder a um corte relativo a esta cultura
arcaica em todo o continente americano. De seu lado, o doutor Peter Allan, da Smithsonian
Institution, escreveu após ter estudado in loco as esculturas de Marcahuassi: "Encontram-se
inegavelmente nesse planalto esculturas entalhadas diretamente no rochedo e representando
homens e animais. As esculturas revelam uma técnica de execução especial, permitindo que
certas representações se tornem visíveis ao observador apenas num determinado ângulo de
incidência da luz e, por vezes, de um ponto escolhido de antemão pelo escultor e
expressamente indicado no terreno. Em esculturas como a conhecida sob o nome de "Leão
Mexicano", a representação de maneira alguma poderá ser atribuída à imaginação ou a uma
erosão natural e fortuita. A mão do homem se faz perfeitamente visível nessa criação...”
E o professor vienense H. S. Bellamy: "Esses monumentos, únicos em virtude de sua
concepção, de suas linhas e de sua execução, têm a plasticidade como qualidade essencial,
pois nem todos se apresentam, na verdade, em relevo. O resultado, neste caso, é que a
escultura deve ser olhada a partir de um ponto definido, habitualmente indicado no terreno
e, conseqüentemente, num determinado ângulo de orientação. A maioria das esculturas põe
em destaque um certo efeito luminoso...”
Alexei Okladnikov, da Academia de Ciências da U.R.S.S., por sua vez, visitou as
esculturas in situ dos montes Sihote-Alin. Chegou mesmo a datá-las. Para ele, essas
esculturas são anteriores à cultura dos Tchiutchiens e dos Bohais, pertencendo, portanto,
a uma época situada entre 700 e 500 antes de Cristo. Aliás, essas datas foram contestadas e
continuam as discussões. Seja como for, a cultura dos montes da Serpente em Sihote-Alin
confirma a existência de uma técnica de escultura in situ em dimensões gigantescas e os
conjuntos ali encontrados constituem talvez a expressão relativamente recente de uma
tradição muito mais antiga. As obras de arte de Sihote-Alin foram fotografadas, aquele sítio
organizado e prosseguem as pesquisas de Okladnikov.
No que diz respeito a Marcahuassi, embora o método de construção não suscite
problemas de espécie alguma (foi "suficiente" amoldar os contornos dos rochedos
escolhidos justamente por causa da predisposição de sua forma natural ao tema escolhido),
estamos muito menos seguros quanto à sua data.
QUEM E POR QUÊ?
Entre os que viram fotografias das esculturas de Marcahuassi (ou outras semelhantes)
são muitos os que põem em dúvida que homens primitivos tenham sido capazes de esculpir
naquela escala. Por ocasião de um debate televisionado que sustentamos com o professor
Emile Condurachi naquela época diretor do Instituto de Arqueologia de Bucareste, tivemos
a oportunidade de ouvi-lo suscitar ingenuamente o problema dos andaimes, instrumentos
especiais e outros sistemas mecânicos de que teriam carecido os homens pré-históricos para
talhar e modelar os rochedos. Esquecia ele com isto que até hoje não sabemos, por
exemplo, com que luz trabalhavam os homens de Lascaux, e com que guindastes os
construtores de Stonehenge manobravam os seus blocos de pedra. E o que dizer então do
canal pré-histórico que liga o Amazonas ao Rio Negro pelo Rio Cassiquiare, ou da
construção dos effigy-mounds, colinas antropomórficas da América do Norte e... da Inglaterra,
dos alinhamentos do planalto de Nazca, dos blocos de 1.200 toneladas de Baalbek, no
Líbano, ou das construções ciclópicas da Sachsahuaman, no Peru?
Não será possível deixar de perceber, um dia, que as esculturas de Marcahuassi foram
realizadas sem recorrer a "técnicas milagrosas". O seu segredo todo está na ação — por
percussão ou atrito — de uma rocha mais dura sobre outra menos dura. A utilização da
natureza e o trabalho in situ, que consistiu em aperfeiçoar e modelar formas já existentes, e
em compor conjuntos a partir de peças esparsas no terreno, reunidas graças à perspectiva (o
que muitas vezes reduzia a tarefa a uma escolha criteriosa do ponto de observação) fazem
com que a execução dessas obras tenha sido muito mais fácil do que se desejaria imaginar.
Finalmente, o cálculo das probabilidades nos diz que a possibilidade de um
"americano" do décimo milênio antes de Cristo ter realizado a imagem de um camelo num
rochedo é da ordem de 1 para 20.000. Para que a natureza, por intermédio do vento e das
tempestades, da chuva e das alternâncias cotidianas de temperatura, tenha esculpido, uma
após outra, duas cabeças de camelos, duas focas a se olharem a 10 metros de distância de
um elefante, e a 15 metros de uma tartaruga, essas probabilidades passam a ser de 1 para 3
bilhões.
Quanto ao por quê? Todos os nossos conhecimentos sobre as relações entre o
homem primitivo e as forças naturais nos levam a supor que esses trabalhos tinham
objetivos rituais. E se os construtores de Marcahuassi — imitados depois no mundo inteiro
— devem ter uma identidade bem determinada, parece-nos que a única civilização capaz de
empreender, naquela época, uma obra dessa natureza era a do platô das Baamas.
Inegavelmente, até agora, esta última continua hipotética. Mas, caso tenha existido, não nos
esqueçamos de que ela já inscreve, no seu ativo, a construção de um gigantesco porto
submerso...











Se forem postos de lado um dia os preconceitos que relegam as esculturas de
Marcahuassi às antecâmaras da história, se forem empreendidas pesquisas sistemáticas,
estamos convencidos de que elas não se limitarão a explicar Marcahuassi e a maneira pela
qual a sua mensagem abriu caminho pelo mundo afora: elas poderão revelar uma aplicação
local do saber e das crenças daqueles que haviam colocado sobre quatro pilares as grandes
lajes do molhe de Bimini. Teremos então uma prova da dispersão sul-americana daqueles
grandes antepassados.
Em Marcahuassi, uma escadaria cortada na rocha sobe de parte alguma para lugar
nenhum. A dezenas de milhares de quilômetros dali, na Tchecoslováquia, uma outra escada
cortada na rocha de Quadersandstein do Paraíso Boêmio — o Cesky Raj — lança-se para o céu...
Escadarias do paraíso das lendas antigas, todas elas devem ser agrupadas numa mesma
interrogação como um dólmen da Índia e sua réplica das Hébridas.
UMA CERTA ESCRITURA
A escritura é parte tão integrante de nossa civilização que receamos, ao pretender defini-la, enunciar
truísmos. Vamos correr esse risco. A escritura é um processo de que nos valemos atualmente para
imobilizar, para fixar a linguagem articulada, fugidia em virtude de sua própria essência ... Na realidade, a
linha de desenvolvimento da escritura não é a única, nem reta. Ela foi demarcando ao mesmo tempo uma
série de progressos sobre os quais é desnecessário insistir, já que eles são por demais visíveis, mas também
toda uma seqüência de decadências; de meio de expressão autônomo, a escritura desceu à categoria de simples
substituto da palavra...
JAMES G. FÉVRIER Histoire de L'Ecriture
A exemplo do desenvolvimento ideal do homem, também o da escritura poderá ser
representado por um esquema. Amontoado irrisório de formas mais ou menos capazes de
gerar futuros desenvolvimentos, simples embrião de uma possibilidade maior do homem, a
escritura das origens foi, não obstante, um meio de expressão autônomo. Veio depois a
escritura ideográfica, com suas propriedades de síntese. E finalmente, pouco tempo depois,
a escritura de palavras.
Essas três fases essenciais correspondem ao próprio desenvolvimento do sistema de
comunicação entre os homens, e abrangem todo o mundo interior construído, e depois
desgastado, pelos gestos da vida. Inicia-se esse desenvolvimento quando se atribuiu pela
primeira vez à linguagem e encargo de proceder a uma notação qualquer que levou ao
manuseamento cotidiano do alfabeto. Eqüivale também à passagem do arbitrário para a
regra e para a razão, do valor momentâneo e individual de um signo para a utilização erudita
das letras. Fato lógico, a evolução da escritura teve de se submeter aos mesmos processos
de transformação que o homem, seu artífice. E talvez seja por este motivo que o mito da
evolução em catástrofe paira sobre a história da escritura tal como sobre a do homem.
Há dez ou quinze anos, admitia-se que o aparecimento da linguagem no homem
tivesse ocorrido muito depois que ele teve a idéia de colocar o fogo a seu serviço, há cerca
de 100.000 anos. A idade atribuída então ao homem era de 1 milhão de anos. Por
conseguinte, os 100.000 anos de retórica humana representariam apenas um décimo,
quando muito, de sua existência como espécie. Dentro dessa mesma cronologia, a escritura
teria apenas 5.000 anos de idade. O que eqüivale a dizer que o homem só teria começado a
falar e a escrever depois de ter vivido respectivamente nove décimos e novecentos e
noventa milésimos de sua história!
Ora, este cálculo está errado. E isto porque os dez últimos anos fizeram recuar a data
do aparecimento do homem no planeta alguns... milhões de anos. Cinco milhões, ou
mesmo mais, de acordo com o professor Bryan Patterson, que se refere aos homínidas de
Lotogam Hill, na África. Voltando ao cálculo anterior e aplicando as mesmas percentagens,
obteríamos 500.000 anos de elocução e 25.000 de escritura. É uma estimativa sem dúvida
exagerada, tendo em vista que manter proporções inalteradas quando o "cenário" explode e
se multiplica, constitui uma atitude mecanicista, que não pode deixar de servir de obstáculo
aos progressos do conhecimento. É preciso, portanto, abrir a cronologia da escritura, tal
como se abriu a do homem.
Isto só poderá ser feito com a condição de serem incluídas no quadro das escrituras
algumas que até hoje permaneciam fora do circuito oficial da história do pensamento e de
seus meios de expressão. Para tanto, nós teremos de nos voltar para uma outra história que,
muito embora comece com Sumer, não tem início em Sumer.



 
INVENÇÃO DA ESCRITURA
Se retomarmos a idéia de primeira civilização, associada ao estudo de Sumer,
verificaremos que o legado principal e de que se beneficiou toda a humanidade é a invenção
de uma linguagem escrita.
"A ESCRITURA, prólogo daquilo a que damos o nome de civilização, surge de
início como um desenho a representar certos objetos; mas esse sistema comporta limites,
limites da expressão do pensamento. A escritura se torna então mais abstrata e permite a
representação figurada da idéia."
(Fragmento da enciclopédia L'Univers de Vart publicada em Paris, em 1967.)
É bem conhecido o papel que ainda hoje se atribui a Sumer na história da civilização.
Tida como "Primeira civilização", é particularmente a ela que se julga devida a invenção da
escritura. Ora, na verdade, o estudo das formas embrionárias de escritura nos obriga a fazer
recuar para um passado bem mais remoto, até a idade da pedra, o momento em que
apareceram os primeiros modos de expressão e de comunicação do homem.
OS "CLICS" DOS PRIMEIROS ASTRÔNOMOS
Entre os acontecimentos científicos do ano de 1929, alinha-se a publicação do estudo
de Jacques Van Ginneken sobre os primórdios da expressão oral. Acompanhando a
evolução da linguagem em sentido contrário para melhor investigar as formas embrionárias,
Van Ginneken situa antes da linguagem articulada a dos gestos e dos "clics" — os mais
reduzidos de todos os fonemas, próximos dos sons inarticulados emitidos pelos recémnascidos
e pelos animais. Esses "clics" encontram-se ainda, aliás, na linguagem de algumas
povoações sul-africanas.
Mas — e é isto que se deve gravar — Van Ginneken sustenta também que a escritura
pode ter aparecido ao mesmo tempo, quando não antes da fase dos gestos e dos "clics", sob
forma de riscos traçados sobre vários suportes. Assim, por exemplo, o caçador da era
neolítica poderia ter anotado o número de pequenos animais abatidos durante um período
de caça. Por sua vez, James Février escreveu: "O signo é próprio do homem ... Talvez não
se tenha dado uma atenção suficiente ao papel que, sob este aspecto, pode ter cabido às
marcas sobre a neve, durante o paleolítico superior..."
Como seria de esperar, a teoria de Van Ginneken suscitou violentas polêmicas. Seus
adversários insurgiam-se particularmente contra a idéia de que, no caso de se continuar a
situar — como eles eram os primeiros a fazer — a invenção da escritura numa época que
remontava inabalavelmente a 5.000 anos quando muito, os sumerianos e os egípcios não
teriam passado de "quase-mudos gesticulantes"! Isto evidentemente não é verdade, mas é
preciso neste caso reconhecer que os sumerianos e os egípcios não inventaram a escritura.
Por outro lado, falando-se em "escrituras" antes de Sumer e independentemente da
aventura histórica dos indo-europeus, somos forçados a admitir igualmente que essas
"escrituras" existiram mais ou menos em toda parte do mundo. Teremos de reconsiderar
sob este aspecto alguns ossos célebres, sobretudo a plaqueta de osso do abrigo Lartet, o osso
do abrigo Blanchard e o osso de águia da gruta do Placard.
Tidos durante muito tempo como peças banais de museu, esses três pedaços de
ossos gravados anulam, com efeito, uma outra "descoberta" súmero-babilônia: a dos
calendários lunares. É perfeitamente certo que os sumerianos a isto se dedicavam com êxito
há quase 7.000 anos, mas o pesquisador americano Alexandre Marshack deixou
recentemente estabelecido, a partir dos três ossos em questão, que os homens do paleolítico
se haviam antecipado neste ponto aos sumerianos em 28.000 anos. Nós hoje sabemos que
os "quase-mudos gesticulantes" do abrigo Lartet, do abrigo Blanchard e da gruta do Placard
transcreviam, há 35.000 anos, as fases da lua valendo-se de um verdadeiro código, e que esse
código era mais ou menos difundido.
Um exame aprofundado dos fragmentos de osso mediante uma técnica de
investigação especial (microscópio binocular, x 10 a x 60) permitiu verificar que as marcas
ali gravadas constituíam na realidade um código perfeitamente elaborado de transcrição das
fases lunares. Quem nos explica o objetivo dessas notações abstratas é o próprio Alexandre
Marshack: "Essa realidade de componente temporal é feita necessariamente das
periodicidades da flora, da fauna, das estações e do céu e muito provavelmente também das
periodicidades mais sutis, porém, igualmente importantes da atividade humana: caça,
migração, educação, puberdade, menstruação, nascimento e morte. Aparentemente, no
centro desta conceitualização da realidade temporal encontram-se a periodicidade e a notação
lunar." E ele acrescenta: "Esta notação era possível antes do aparecimento da escritura e
talvez antes de um sistema numérico. ATÉ CERTO PONTO, ELA DEVE TER
LEVADO A AMBOS.”
A PROVA PELOS BÁLCÃS
Já ficou, portanto, assente que Sumer e o Egito devem parte de seu saber a fontes
tradicionais muito mais antigas. E o que é válido para a observação astronômica e para o
calendário lunar também o é para a escritura. Além disso, descobertas feitas recentemente na
Romênia e nos Bálcãs o vieram comprovar.
A primeira dessas descobertas — a da Romênia — é de 1961. Ocorreu nas
proximidades da aldeia de Tartária, na Transilvânia. Foram ali encontradas três tabuinhas de
argila com sinais que apresentam uma extraordinária analogia com a escritura sumeriana do
III milênio e com a escritura cretense do II milênio. A datação pelo radiocarbono indicou
5.500 anos de idade, ou seja, 1.000 anos mais que a primeira escritura sumeriana. Naturalmente,
alguns pseudo-especialistas acorreram contestando esses números e quiseram dar 1.500
anos menos às tabuinhas de modo a equipará-las às de Sumer. O que nada teria adiantado.
TRANSCRIÇÃO DAS NOTAÇÕES DO OSSO DE LARTET (Os sinais produzidos com o
auxílio de utensílios diferentes, ou dos mesmos com mudança de direção de incisão ou de ponta, concordam
com o ciclo lunar. O modelo lunar corresponde a um ciclo bimensal de 59 dias apresentando intervalos de 7
ou 8 dias entre a lua cheia e o último quarto.) (Segundo Science et Viex)


 Com efeito, alguns anos mais tarde — de 1969 a 1971 — as escavações de
Karanovo, na Bulgária, trouxeram à luz outras tabuinhas portadoras de escrituras locais que
já tornam possível extrair novas conclusões que refutam o mito de Sumer. Na superfície das
tabuinhas e placas de argila de Karanovo, os arqueólogos encontraram linhas completas de
sinais que representam muito mais que um simples esboço de escritura e datando também
de uma época mil anos anterior a Sumer. Os signos de Karanovo, encontrados na camada
VI desse sítio, demonstram de uma vez por todas que a invenção da escritura já não pode
ser atribuída a Sumer, onde só apareceu por volta do ano — 2.300.
Com essas descobertas cai igualmente por terra a concepção do papel civilizador
inicial das culturas egeanas. Não foi do Egeu nem de Tróia que os antigos balcânicos
receberam o bronze. Houve ali, tal como na Bretanha, na Inglaterra e na Espanha, esboços
de civilizações autônomas, que dispunham de uma "escritura" própria.
Finalmente, as descobertas de Tartária e de Karanovo voltam a suscitar o célebre
problema da escritura de Glozel. As circunstâncias do caso Glozel são por demais
conhecidas, dispensando-nos de voltar a elas. Lembremos, entretanto, que por ocasião do
encerramento das discussões, os que afirmavam a "falsificação" consideraram sua sentença
definitiva pois, para abalá-la, teria sido preciso ao mesmo tempo encontrar outras "escrituras"
análogas convenientemente distribuídas entre — 10.000 e — 2.500, e localizar essas novas
escrituras em lugares distantes de qualquer influência oriental. Acessoriamente, teria sido
necessário que aqueles signos tivessem permanecido praticamente inalterados desde o
paleolítico magdaleniano até a proto-história e o alvorecer da era dos metais. Impunha-se,
além disso, que numa mesma pedra polida ou tabuinha proveniente do neolítico,
coexistissem duas ou três escrituras de tipo radicalmente diferente, aparecendo traços
simples ao lado de impressões pictográficas e de signos alfabetiformes.
O exame das tabuinhas de Karanovo é suficientemente ilustrativo, sob esse aspecto.
Com efeito, essa escritura: — é pelo menos mil anos anterior às primeiras tabuinhas
sumerianas, — aparece em pleno mundo bárbaro sem justificar nem demonstrar qualquer
influência oriental, — comporta figuras esquematizadas (representação humana com o
braço fletido sobre o abdomen, braços erguidos, etc), traços retilíneos ou pontilhados e
outros lembrando certas letras do alfabeto latino, como A, L, M, Z.
Todos esses caracteres voltam a ser encontrados na escritura contestada de Glozel
que, por sua vez — sendo este um dos principais motivos das negações suscitadas — não
poderia em hipótese alguma ter menos de 6.000 — 10.000 anos.
SIGNOS ANTIGOS NO NOVO MUNDO
A indiscutível semelhança entre os signos de Karanovo e os de Glozel cria por sua
vez novos problemas, entre os quais o de saber qual a difusão dos signos de
tipo"glozeliano" (gravados ou incisos em placas, tabuinhas, ossos) pelo mundo afora.
Verifica-se bem depressa que placas e tabuinhas apresentando signos alfabetiformes
foram descobertas nas camadas arqueológicas de Alvão em Portugal, de Bunesti na
Romênia, de Petra Prisgiada na Córsega, de Puygravel na França, na Escandinávia, no Atlas,
nas costas do Noroeste da África e na América. E mais, sua presença é com freqüência
associada à dos vestígios megalíticos. Examinemos, por exemplo, os signos gravados na
cabeça de pedra de um dos colossos de San Agustin, na Bolívia. São idênticos ao
encontrados em Glozel pelo doutor Morlet.




 (As notações numéricas representam as posições desses signos nas pranchas do Corpus das
Inscrições de Glosel, publicado em 1969)
Encontram-se signos absolutamente iguais na Pedra Pintada, na Guiana brasileira.
(As notações em minúsculas representam a posição desses signos nas pranchas XII e XIII,
Silabário de Glozel, redigido pelo Br. Morlet’s.)


 



Encontram-se ao todo, na Pedra Pintada, 43 dos 111 signos do "silabário" de Glozel.
Entre as inscrições brasileiras "discutíveis" (tudo que não se pode explicar é passível de
"discussão") encontram-se também as seguintes, apresentadas há mais de vinte anos pelo
inglês Harold T. Wilkins:


 
Essas inscrições, descobertas num antigo manuscrito proveniente da Biblioteca dos
Arquivos do Rio, mais tarde extraviado, foram gravadas em rochedos numa região situada
no centro do Brasil oriental, no sertão, não longe do Rio Pequi. O traçado grosseiro e talvez
incorreto de 1753 comportando signos idênticos aos da Pedra Pintada (por sua vez
descoberta em 1910 e cujo primeiro traçado só foi publicado depois de 1950) e aos de
Glozel e outras inscrições "glozelianas" da Europa, é um argumento evidentemente
favorável à autenticidade desses signos.
Do conjunto de 22 signos das três inscrições, 20 são idênticos aos de Glozel. É
preciso acrescentar que foram encontrados alinhamentos e signos análogos em placas de
xisto, ossos, fragmentos de cerâmica em muitos outros pontos da Europa e da África. Em
Alvão, em Portugal, na Escócia, Morávia, Moldavia, Transilvânia, Bulgária, Grécia, França,
Espanha, regiões do Magreb, esses signos existem, e embora tenham sido por vezes
descurados nem por isto foram nunca tidos como falsos.




É importante salientar que eles sempre representam estágios locais de
desenvolvimento totalmente independentes do mundo oriental. Assim, pôde o arqueólogo
inglês Flinders Petrie escrever que se encontravam na Espanha e na Caria "alguns signos
que são desconhecidos do alfabeto greco-fenício". E acrescenta: "Para se apresentarem em
regiões tão distantes, é preciso que eles remontem a uma época muito antiga. Além disso,
uma dezena de signos da Espanha e da Caria se reproduzem nos alfabetos posteriores do
Norte da África, sendo porém desconhecidos dos fenícios; de modo que não foi por
intermédio dos fenícios que se fez a sua transmissão.”
Resumindo, pode-se, portanto, dizer que os sítios onde se encontram essas inscrições
ficavam fora das correntes civilizadoras de cepa oriental mas, em contraposição, sempre
assinalados por vestígios de homens dos megalitos. Na realidade, tudo se passa como se
esses signos tivessem sido difundidos por homens comparáveis aos que espalharam pelo
mundo a concepção dos megalitos. Resta ver se eles podem ter sido os mesmos.
Para tanto, examinemos o caso da Pedra Pintada. O que nos ajudará a encontrar uma
resposta há de ser menos o significado, para sempre perdido, dessas inscrições do que
algumas figuras aí representadas. São elas: o sol, a serpente, o sapo, o porco, o cavalo, o
barco, o navio, o carro sagrado, a espiral, o olho, a mão, a cruz gamada — sob suas duas
formas de Suástica e de Sauvástica — e finalmente o homem. Embora o sol seja
representado com seus doze raios como uma roda clássica, quando sem raios é ele ainda
que simboliza o ano com suas quatro estações, tão apreciado pelos construtores de
megalitos da Europa ocidental. A serpente preside tudo, sob duas formas, sendo que a mais
estilizada lembra estranhamente o Egito dos faraós. O papel desempenhado pela
serpente na civilização dolmênica é suficientemente conhecido. Lembremos apenas que o
encontramos num dos esteios do dólmen de Gavrinis, situado numa pequena ilha do
Morbihan, e num menir de Manio, em Carnac.



 Colocado no ângulo do duplo pentágono, pintado e gravado na parede, o sapo —
animal sagrado que rege as chuvas — evoca as relações entre o homem e a fertilidade dos
campos, o homem e as condições atmosféricas. Da mesma forma, a rã, que bota dez mil
ovos por ano, simboliza a fecundidade da água estagnada e até do pensamento íntimo do
homem. Associada ao ovo, a rainha dos pântanos talvez seja também o símbolo da Pedra
Pintada, que surge como um gigantesco ovo de pedra. Aliás, Laurence Talbot nos faz
lembrar que os deuses do Olimpo castigaram Latônia, filha de um Titã e mãe de Apolo,
transformando-a em rã, tendo sido isto que levou os naturalistas a criar o grupo das
latônias. Mas vale a pena analisar esse nome. Com efeito, se lat, como faz notar Laurence
Talbot, é o equivalente latino do grego Ias — pedra — (latônia = pedreira), através de
aproximações torna-se possível associar a rã ou o sapo ao ovo de pedra.
O porco constitui por sua vez o alimento vivo das grandes travessias marítimas da
Antigüidade. Logo em seguida vem o cavalo. Representado pelo menos três vezes, o da
Pedra Pintada, de aspecto nobre, representa um preciosíssimo elemento de datação pois
sabemos que ele desaparecerá da América pré-colombiana entre 8.000 e 1.500 antes de
nossa era.
São finalmente representados os utensílios do homem, o barco, o navio, a canoa...
Um dos cantos do pentágono sagrado ostenta provavelmente um barco, assim como, no
zodíaco de Pedra Pintada inclui-se uma embarcação de quatro lugares, vista de cima.
Ainda mais importantes para o nosso estudo são as representações altamente
simbólicas da espiral, do olho, da mão e da cruz gamada. Não se deve esquecer, com efeito,
o papel primordial da espiral na simbólica dos elementos da vida do primitivo e que são a
água, a mulher, a agricultura, os animais domésticos, a vegetação e a própria vida.
Exprimindo a relatividade e o devir, a espiral mantém constantemente presente no espírito
do primitivo que a desenha ou contempla a idéia de repetição na evolução, de renascimento
perpétuo e de renovação da natureza. Em última análise, ela é o símbolo do mito do eterno
retorno. Quem adora a espiral diviniza, ipso facto, a mulher em virtude de seus ciclos
menstruais, a rã semi-aquática e semiterrena, a serpente que é uma espiral viva e desaparece
em data fixa (hibernação), etc.


 Pedra Pintada (Guiana brasileira) O duplo pentágono copiado pelo Sr. Homet.
Símbolo marinho por excelência, o olho afirma a permanência do vigilante. Sua
presença ao lado da espiral reúne numa mesma imagem aquele que vigia e o que sabe.
Depositária da astúcia, a serpente completa o conjunto. A mão designa a participação.
A cruz gamada suscita um maior número de problemas. Admite-se em geral que ela
tenha sido criada pelos indo-europeus. Na realidade, embora a tenham efetivamente
conhecido, não foram eles que a inventaram. O próprio fato de lhe conhecermos duas
formas distintas já é significativo. Como mostra muito bem Pedro Astete, existem duas
categorias de suásticas, algumas lineares, outras espaciais. As primeiras representam os
centros de irradiação, o sol e a lua; as segundas, as suas irradiações, isto é, os seus efeitos na
qualidade de astros que comandam o destino e o comportamento dos homens. Este
símbolo de bom augúrio só tardiamente chegou a ser conhecido dos sânscritos, que lhe
deram o seu nome. Verdadeira cruz em movimento que se pode prolongar em duas
direções contrárias, a cruz gamada é sucessivamente Svasti-ka signo de vida e de
prosperidade, e Sauvásti-ka, signo de destruição e de morte.
Sempre que alguém se refere à suástica, é como se se tratasse de um símbolo ariano,
o que constitui uma outra maneira de atribuir à raça ariana uma realidade histórica que ela
não tem. Sua presença é em seguida lembrada como motivo ornamental no Egito e, mais
tarde, em toda a bacia mediterrânea, desde Creta até a Sardenha, e das colônias gregas às
cidades romanas da Líbia. Sabem os especialistas que ele pode ser igualmente encontrado
em cerâmicas peruanas antiqüíssimas, em pleno Pacífico (Novas-Hébridas e ilhas Salomão),
no Congo e em toda a África negra, nas escrituras da ilha de Páscoa, assim como entre os
bascos e bretões. Não nos esqueçamos, entretanto, de que o homem de Cro-Magnon foi
dos primeiros a dela se servir. Os magdalenianos utilizaram com efeito esse signo nas
representações que deles nos ficaram na Europa ocidental, e tudo leva a crer que eles lhe
atribuíam um significado idêntico ao da Índia, vale dizer o de movimento indizível que impele o
homem à alegria da perfeição realizada. Se, por outro lado, levarmos em conta o papel do sol e da
lua nas crenças pré-históricas, teremos, portanto, de considerar a suástica como símbolo da
própria vida.
Acrescentemos ainda que as suásticas encontradas no osso gravado de Isturitz, e em
Oxocelhaya, na região basca, poderiam sugerir um centro de difusão... europeu. Ao que
parece, entretanto, será preciso conformar-se e responsabilizar por esta difusão os homens
vermelhos e os homens dos megalitos. O que nos traz de volta ao homem da Pedra Pintada.
Quanto a esse homem, ainda não se sabe muito bem quem era ele, embora se
tenham descoberto em túmulos situados nas proximidades indivíduos de tipo
cromagnonóide, sepultados de acordo com a técnica do ocre vermelho e... acocorados. Por
outro lado, e mesmo independentemente das silhuetas mais ou menos estilizadas da Pedra
Pintada, ele cuidou de nos deixar o seu retrato. Esse retrato talvez corresponda ao de algum
primo irmão, que ele teria suplantado na marcha em direção ao progresso.




Essas silhuetas sempre nos mostram pessoas entregues a alguma atividade,
manejando instrumentos, e cujos gestos, já elaborados, não podem ser de maneira alguma
aproximados dos "clics" de Van Ginneken. Uma delas está mesmo ocupada a lidar diante
(ou com) um instrumento complexo que pode muito bem fazer pensar num "mecanismo".
Não nos deixemos tentar a propor uma interpretação qualquer, que seria criticada; mas se
esses homens conheciam a roda e o carro de guerra, não vemos porque a idéia de
confeccionar dispositivos de irrigação ou algum tipo de moinho rudimentar não lhes
poderia ter ocorrido. Mas ainda não se esgotaram as surpresas; os quatro retratos incluídos
no pentágono duplo ainda nos reservam muitas outras.



Os dois pares de retratos representam indiscutivelmente duas categorias de homens
diferentes. De resto, a própria economia do "quadro" o comprova. Seriam eles os homens
que ornamentaram a Pedra Pintada ou deveremos ver neles tipos neanderthalianos? Talvez
seja preciso levar ainda mais longe a comparação e imaginar, por exemplo, uma dessas
cabeças, vista de frente e colocada entre duas cerâmicas — uma esquecida, a outra tida
como falsa — de... Glozel.
A Pedra Pintada mostra finalmente magníficas imagens de "feiticeiro". Vemos ali
indivíduos travestidos usando máscaras feitas talvez de peles de animais e procedendo a
encantações. Essas duas imagens, identificadas em 1950 por Marcel Hornet, nos trazem à
mente o homem da gruta dos Trois-Frères (Ariège), também representado em atitude de
quem está a oficiar.



. 
Temos ainda, finalmente, os símbolos humanos representados praticamente da
mesma maneira numa área geográfica muito extensa, precisamente a que presenciou a
passagem ou a atividade criadora dos homens dos megalitos.
Se acrescentarmos ao que ficou dito os conhecimentos geométricos comprovados
pela Pedra Pintada, verificamos que ela fala com bastante clareza de homens que não se
limitaram a ali preparar túmulos e vias de comunicação no interior do rochedo, tendo
deixado também nas paredes do mesmo a prova formal de que já dispunham de um meio
de transcrever suas crenças e seus conhecimentos.


 















 
 Pormenor de uma das formações artificiais Bimini. Laje gigantesca do molhe, vista
dentro d'agua.
(Em baixo) "Elemento" de construção de Bimini. Pedra regular, tirada das estruturas.




 Equiparação entre duas figuras antropomórficas; cerâmica de Tiahuanaco (à
esquerda) cerâmica de Glozel (à direita).




 Representações humanas. Escudo ritual sul-americano da época pré-incaica (Chanci -
Peru), à esquerda e tabuinha gravada de Karanowo (Bulgária), à direita.
Descobertas de Mar-shack. Interpretação das gravuras sobre osso.

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