terça-feira, agosto 21, 2012

Identidades Alienigenas / Richard Thompson PARTE 1




Identidades
Alienígenas

Richard L.
Thompson

O FENÔMENO UFOLÓGICO
MODERNO SOB A ÓTICA DA
SABEDORIA ANTIGA
Tradução de MÁRCIO POMBO
NOVA ERA
2002

Dedicado a Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta
Swami Prabhupäda que escreveu Easy Joumey to
Other Planets.
Sumário
Agradecimentos
Introdução
Epistemologia
Explicações para a origem do fenômeno ufológico
Literatura védica e choque cultural
PARTE 1Um rastreamento da literatura sobre
óvnis
1. A ciência e os objetos não-identificados
Relatos sobre óvnis por cientistas e engenheiros
Sobre cientistas que estudam óvnis
Estudos científicos recentes sobre óvnis
2. Contatos imediatos de diversos graus
Falsos relatos sobre óvnis
Sobre erros de percepção e falhas de memória
Um contato imediato bem corroborado
Um relato ao Congresso
Un disco volante
Marcianos, fertilizante e psiquiatria
Casos envolvendo crianças
Rastros e efeitos físicos
Efeitos eletromagnéticos sobre carros
Evidência fotográfica
3. O papel do governo
A CIA e a Comissão Robertson
O que estava acontecendo enquanto isto?
Exemplos de perseguições militares a óvnis
Casos envolvendo radar
O Relatório Condon
Mais eventos recentes
Conspirações sinistras
O desastre de Roswell
Alguns dos depoimentos filmados sobre o caso
Roswell
A vexaminosa questão dos corpos alienígenas
Desinformação e o MJ-12
4. Raptos por óvnis
O caso de Buff Ledge
Histórico e freqüência de casos de rapto
Características genéricas dos raptos por óvnis
Pequenos detalhes recorrentes
Ferimentos e doenças
Anatomia de uma alucinação?
Sobre a evolução dos humanóides
Sedução e genética
O elemento medo
Tempo perdido
O papel da hipnose
Avaliação psicológica dos raptados
O fator psíquico
5. Contatos, canais e comunicações
O caso Adamski
De raptado a contato
O contato completo
Filmes e fotografias
Pistas de pouso, sons e amostras minerais
Histórias confirmatórias
Discrepâncias sortidas
Extraterrestres bíblicos
A hipótese da trapaça alienígena
A qualidade das comunicações de óvnis
Geringonças técnicas
A teoria da intervenção genética
Desastres e mais genética
Conclusão
PARTE 2Paralelos védicos aos fenômenos
ufológicos
6. Contato transumano na civilização védica
Uma sinopse da visão de mundo védica
Vimãnas
Outros mundos
Humanóides
A alma
A hierarquia cósmica
Elementos egocêntricos
Origens humanas
Contato
Relatos védicos de fenômenos de contato imediato
O bombardeio aéreo a Dvãrakã
Invisibilidade e flechas sensíveis ao som
Levitação, ou Laghimã-siddhi
Desaparecimento e reaparecimento
Viagem corpórea através da matéria e do espaço
O rapto de Arjuna por Ulüpi
O rapto de Duryodhana
Paralisia induzida e hipnose a longa distância
Projeção de formas ilusórias
O fator Oz
7. A história dos vimãnas
Máquinas na Índia antiga e medieval
Robôs e outros autômatos
Aviões
O Vaimãnika-sãstra
Vimãnas na literatura védica
Vimãnas para todos os fins
A cidade voadora de Hiranyapura
Congressos aéreos dos devas
A mansão aérea de Rãvana
E os cavalos e quadrigas voadores?
Vimãnas de Vaikuntha
8. Observações modernas e antigas tradições
As fadas
Raptos e cruzamentos
Genética e origens humanas
Súcubos e íncubos
Visitas a outro mundo
Dilatação do tempo
Reinos paralelos e óvnis
A raridade das naves aéreas em tradições ligadas
a fadas
Fadas e nãgas
Os nãgas de Caxemira
Visões e milagres — o caso de Fátima
O milagre solar
Os seres vistos em Fátima
Fátima como um caso de contato com óvni
A estrutura dos céus
9. O caminho penoso
Casos de monstros peludos
Mutilações de gado
A ligação com o helicóptero
Pistas de solo em casos de mutilação
Relatos humanóides em casos de mutilação
Entidades ufológicas hostis aos humanos
O caso de Cimarron, Novo México
Incomum vestuário alienígena
Ataques diretos a seres humanos
Homens de preto
Hostilidade de humanóides védicos contra
humanos
Guerras nas estrelas e suas conseqüências
A trama do Rãmãyana
A trama do Mahãbhãrata
10. Energias grosseiras e sutis
EECs e óvnis
Os seres de manto branco
Forma física ou forma sutil?
Efeitos físicos posteriores aos raptos por óvnis
Experiências de quase-morte (EQMS) com gafes
administrativas
Óvnis e a reciclagem de almas
Reciclagem de almas e o governo
O físico, o sutil e o que está além
11. Óvnis e religião
Ãtmã, Brahman e a evolução da consciência
Transmigração e planos superiores
Panteísmo e impersonalismo
Compreensão de Brahman
O papel de mãyã
Apêndice 1 Casos de óvnis vistos pela Força Aérea
americana
Apêndice 2 Sobre a interpretação da literatura
védica
Apêndice 3 Casos indianos contemporâneos
A dama da varíola
A lança de Kãrttikeya
Encontro com uma Jaladevata
Óvnis sobre Mãyapura
Agradecimentos
O progresso no estudo da experiência humana
sempre dependerá do somatório de esforços de
muitas pessoas. Sou grato aos seguintes autores,
investigadores e testemunhas de óvnis por terem
me fornecido as importantes informações
utilizadas neste livro:
George Adamski, Maury Albertson, Orfeo M.
Angelucci, Thomas Bearden, Charles Berlitz,
Michael Bershad, Ted Bloecher, Howard Blum,
Charles Bowen, Lyle G. Boyd, Thomas E. Bullard,
Bill Chalker, Aphrodite Clamar, Edward U. Condon,
Ed Conroy, Gordon Creighton, William Curtis,
James W. Deardorff, Terence Dickinson, Paul Dong,
Barry H. Downing, Ann Druffel, George Earley,
BritElders, Lee Elders, Don Elkins, Lawrence
Fawcett, Edith Fiore, Raymond Fowler, Stanton
Friedxnan, John G. Fuller, Paul Fuller, Timothy
Good, Elmer Green, Barry J. Greenwood, Richard F.
Haines, Richard H. Hall, James Harder, Richard C.
Henry, William J. Herrmann, Charles Hickson,
Cynthia Hind, Budd Hopkins, Linda Moulton Howe,
Antonio Fluneeus, J. Allen Hynek, Philip J.
Imbrogno, David M. Jacobs, Donald A. Johnson, Carl
G. Jung, Parli R. Kannan, Gary Kinder, Alvin H.
Lawson, Meade Layne, Desmond Leslie, Coral
Lorenzen, Jim Lorenzen, Bruce S. Maccabee, Victor
May Marchetti, William Markowitz, James A.
McCarty, James E. McDonald, Eduard Meier,
William Mendez, Donald H. Menzel, William L.
Moore, Kanishk Nathan, Thornton Page, Ted R.
Phillips, William T. Powers, Bob Pratt, Kevin D.
Randle, Jenny Randles, Antonio Ribera, Franklin
Roach, August Roberts, D. Scott Rogo, Carla
Rueckert, Carl Sagan, John R. Salter, Virgilio
Sanchez-Ocejo, Ivan Sanderson, David R.
Saunders, Larry Savadove, Donald R. Schmitt, John
F. Schuessler, Berthold E. Schwarz, Frank Scully,
Michael Seligman, Margaret Shaw, Elizabeth
Slater, Sherle Stark, William S. Steinman, Wendelle
C. Stevens, Ronald Story, Whitley Strieber, Barry
Taff, Rolf Telano, Jacques Vallee, Jean-Jacques
Velasco, Ed Walters, Francis Walters, Travis
Walton, David F. Webb, Walter N. Webb, Roger
Wescott, George Hunt Williamson, Jennie Zeidman
e Lou Zinsstag.
Também sou grato a muitos outros autores,
inclusive os seguintes:
D. P. Agrawal, S. Maqbul Ahmad, Vaman S. Apte,
Santo Agostinho, Alice A. Bailey, Prithivi Bamzai,
Raja Bano, John Bentley, Bhaktisiddhãnta Saras-vatí Goswami Thãkura, Sua Divina Graça A. C.
Bhaktivedanta Swami Prabhupãda, Stephen E.
Braude, David H. Childress, "William R. Corliss,
Gustav Davidson, Ramachandra Dikshitar,
Theodosius Dobhzhansky, H. M. Elliot, Walter Y.
Evans-Wentz, Roland Mushat Frye, Kisari Mohan
Ganguli, Ronald Greeley, Robin Green, B. L.
Greene, Edwin S. Hartland, Hudson Hoagland,
Hridayãnanda Goswami, Francis Johnston, G. R.
Josyer, Walter Kafton-Minkel, Dileep Kumar
Kanjilal, Terence Meaden, Janardan Misra, F. W. H.
Myers, Christian O'Brien, Gustav Oppert, Satwant
Pasricha, J. S. Phillimore, Marmaduke Pickthall,
Papa Pio XII, Gary Posner, V Raghavan, IsaRashid,
LouisaRhine, Robert Rickard, Kenneth Ring,
William Roll, Steven Rosen, Michael Sabom,
Sanãtana Goswami, Bapu Deva Sastrin,
Satsvarüpa Dãsa Goswami, Hari Prasad Shastri,
George Gaylord Simpson, Zecharia Sitchin, M. A.
Stein, Ian Stevenson, Swami Tapasyananda, J. A. B.
Van Buitenen, Leonid L. Vasiliev, John A. Wheeler,
H. H. Wilson e Thomas Wright.
Eu gostaria de agradecer a Raymond Fowler e a
Jay Israel por suas críticas construtivas ao
manuscrito e a Michael Cremo pela minuciosa e
proveitosa análise do texto. Também agradeço a
Thomas Doliner pela revisão do texto, a
Christopher Beetle e a Dave Smith pela revisão e
fotocomposição, a Robert Wintermate pelo layout
e design, e a Hans Olson pela arte da capa. Outros
que contribuíram para a realização deste projeto
de diversas maneiras são Michael Best, Sigalit
Binyaminy, Austin Gordon, James Higgens III, Tricia
McCannon e Scott Wolfe.
Meus agradecimentos especiais a James
McDonough e ao Hawaii Vedic College por terem
investido na impressão do livro.
Introdução
Hoje em dia, se corremos os olhos pelas
prateleiras de uma livraria universitária,
encontramos muitos livros descrevendo os triunfos
da ciência. Estes livros abordam o estudo, pelos
físicos, das leis que regem a matéria e a
explicação da vida em termos de tais leis pelos
biólogos moleculares. Apesar de certos cientistas
ainda encararem a consciência como algo
desconcertante, eles nos dizem, mesmo assim,
que em breve este problema terá sido sanado
mediante o estudo do cérebro. A ciência moderna,
asseguram os livros, logrou compreender a
evolução das espécies, a origem da vida a partir
da sopa primordial e os processos formadores dos
planetas, estrelas e galáxias. Enquanto, por um
lado, recuaram a fronteira da física fundamental
para o big-bang, por outro, estamos a um passo do
avanço decisivo que nos propiciará a Teoria de
Tudo.
No entanto, estas mesmas prateleiras vez por
outra exibem livros a respeito de provas anômalas
que contradizem as teorias científicas aceitas.
Fenômenos psíquicos, experiências fora do corpo,
memórias de vidas passadas, criptozoologia (o Pé
Grande, por exemplo) e anomalias arqueológicas
estão incluídos entre as várias categorias de
provas anômalas.
Nos últimos anos, contudo, a categoria anômala
mais notável tem sido os óvnis — objetos voadores
não-identificados. Lemos contracapas de livros
afirmando que pessoas confiáveis viram algo
inexplicável voando pelo céu. Outras anunciam
visitas de alienígenas estranhos, além de sombrias
insinuações acerca de uma série de conspirações e
dissimulações misteriosas. Segundo estes livros,
faz décadas que se vêm observando objetos
voadores desconhecidos, os quais violam
drasticamente as leis conhecidas da física.
Declaram, também, terem algumas pessoas se
encontrado com seres de aparência humana a
pilotar naves estranhas e a ostentar poderes que
contrariam tanto a ciência quanto o bom senso.
Há anos tenho me interessado pela relação entre a
ciência moderna e a milenar visão de mundo
védica da Índia. Tenho me detido, em particular,
no contraste entre o modelo de vida mecanicista
desenvolvido pela ciência moderna e o conceito
anímico que constitui o alicerce da filosofia védica.
O modelo científico baseia-se em experimentos e
em meticuloso raciocínio — só que, ao reduzir a
vida a uma combinação de átomos, priva-a de
quaisquer propósitos e significados superiores.
Reduz os valores humanos a padrões de
comportamento produzidos pela evolução cultural
e física. Tais padrões de comportamento, sendo
dependentes de circunstâncias históricas casuais,
pouco têm a ver com a natureza fundamental das
coisas.
Em contraposição, a filosofia védica dá sentido à
vida, vinculando-a em um nível transcendental de
realidade; no processo, porém, introduz
fenômenos e categorias que não encontram
equivalentes no quadro teórico da ciência
moderna. Isto naturalmente leva-nos a questionar
acerca do paradeiro da verdade. Teria a ciência
moderna já nos proporcionado um esboço
completo dos princípios fundamentais da vida, ou
talvez apenas uma exposição meticulosa, mas
reduzida de certos aspectos limitados da vida?
Por conta desses interesses, é natural eu ter ficado
um tanto intrigado ao começarem a aparecer os
primeiros livros sobre óvnis nas seções de ciência
das livrarias universitárias. Era como se eles
tivessem surgido para elucidar algo sobre a
natureza da vida, já que relatavam contatos entre
seres humanos e outras formas de vida
inteligente. Mas haveria realmente, naqueles
relatos sobre óvnis, alguma verossimilhança?
Como tantas outras pessoas, eu sempre evitara o
assunto dos óvnis por considerá-lo algo
desacreditado. A primeira vez que vi fotos de seres
alienígenas em um livro popular (Intrusos, de Budd
Hopkins), tive a impressão de serem produtos
óbvios de um quadro psicopatológico, o que não
alimentou minha atração pelo assunto. No
entanto, lendo alguns desses livros com mais
atenção, dei-me conta de que pareciam conter
provas substanciais, embora anedóticas, de certas
ocorrências bastante insólitas. Em particular,
pareciam apresentar relatos contemporâneos de
testemunhas oculares sobre toda uma gama de
fenômenos vitais descritos em antigos textos
védicos. Isto me levou a investigar o fenômeno dos
óvnis mais a fundo e, por fim, a escrever este livro.
Este livro é um estudo comparado entre a
literatura sobre óvnis e a literatura védica da índia.
Nos cinco primeiros capítulos, faço um amplo
rastreamento do material sobre óvnis escrito
desde fins da década de 1940 até o momento.
Incluí este rastreamento com o intuito de dar ao
leitor uma visão global dos relatos sobre
fenômenos com óvnis. Muitos livros sobre óvnis
tendem a excluir quaisquer relatos que não se
enquadrem perfeitamente em algum sistema
teórico. Apesar de ser natural, esta prática pode
ser contra-producente, porque dados tidos hoje
como inconseqüentes ou simplesmente errôneos
poderão, mais tarde, à medida que for se
ampliando a nossa compreensão, passar a ser
significativos.
Os seis capítulos restantes introduzem a literatura
védica e apresentam comparações detalhadas
entre fenômenos relatados em textos védicos e
fenômenos correspondentes mencionados em
relatos sobre óvnis. O material védico foi extraído,
sobretudo, do Bhãgavata Purãna e do
Mahãbhãrata. Recorri, também, ao Rãmãyana e a
diversos textos medievais posteriores que seguem
a tradição védica.
Chamo a atenção dos indólogos para o fato de que
os Purãnas, o Mahãbhãrata e o Rãmãyana são
chamados de o quinto Veda no verso 1.4.20 do
Bhãgavata Purãna. Portanto, tomarei a liberdade
de usar o termo "védico" ao referir-me a eles,
muito embora alguns eruditos insistam que este
termo só pode ser aplicado corretamente ao Rg
Veda.
Apesar de não ser nova a idéia de comparar
relatos sobre óvnis com a literatura védica, até o
momento isto não foi efetuado de forma
acadêmica. A primeira tentativa neste sentido, de
que tenho notícia, é o livro de 1953, intitulado The
Flying Saucers Have Landed (Os discos voadores
aterrizaram), de Desmond Leslie e do famoso
contato George Adamski. Na primeira parte deste
livro, Leslie cita uma série de trechos do
Rãmãyana e do Mahãbhãrata descrevendo os
vimãnas, ou máquinas voadoras védicas, e uma
série de trechos descrevendo armas
extraordinárias usadas nos tempos védicos.
Infelizmente, foram feitas traduções sobremaneira
incorretas de muitos desses trechos, o que quase
invalida o relato de Leslie.
Outros trechos mal traduzidos do Mahãbhãrata
têm aparecido numa série de livros populares que
seguem os passos de Leslie. Eis um exemplo para
mostrar quão desorientadoras podem ser essas
traduções ruins. Leslie cita a seguinte passagem
do Karna Parva na edição de Pratap Chandra Roy
do Mahãbhãrata:
Karna ergueu aquela arma terrível e refulgente, a
língua do Destruidor, a Irmã da Morte. Ao verem
aquela excelente e ardente arma apontada para
eles, os Rakshasas ficaram amedrontados. (...) O
míssil resplandecente decolou penetrando o céu
noturno e confundiu-se com a formação estelar... e
reduziu a cinzas o vimana dos Rakshasas. A nave
inimiga caiu do céu, fazendo um ruído terrível.
Esta passagem aparece no Drona Parva do
Mahãbhãrata, e não no Karna Parva, e eis o que
ela realmente diz na edição de Pratap Roy:
(...) aquela arma aterradora que parecia a própria
língua do Destruidor ou a irmã da própria Morte,
aquele dardo terrível e refulgente, Naikartana, foi
então arremessado contra o Rakshasa. Vendo
aquela excelente e ardente arma, capaz de
perfurar o corpo de qualquer inimigo, nas mãos do
filho de Suta, o Rakshasa, atemorizado, saiu
voando em fuga. (...) Destruindo aquela ardente
ilusão de Ghatotkacha e perfurando-lhe
diretamente o peito, aquele dardo resplandecente
alçou vôo na escuridão da noite e penetrou numa
constelação cintilante no firmamento. Tendo
lutado... com muitos e heróicos guerreiros
humanos e Rakshasas, Ghatotkacha, proferindo
então diversos rugidos terríveis, caiu, sem vida,
com aquele dardo de Sakra.
Em vez de reduzir um vimãna a cinzas, a arma
matou o Raksasa Ghatokaca e, em vez de uma
nave inimiga cair produzindo grande estrondo, o
Rãksasa caiu enquanto proferia rugidos terríveis.
Eu não sei como Leslie foi aparecer com esta
versão tão mal traduzida, mas ela é típica de seu
livro e de outros do gênero.
Entretanto, há uma grande quantidade de material
na literatura védica sobre aeronaves, chamadas
vimãnas, as quais apresentam surpreendentes
semelhanças com os óvnis. Mais importantes
ainda são os relatos védicos acerca do
comportamento e dos poderes das raças
humanóides que fazem uso dessas aeronaves.
Existem muitos paralelos entre detalhes
específicos desses relatos e detalhes
correspondentes em casos de contato direto com
óvnis. Estes paralelos constituem meu ímpeto
principal para escrever este livro.
Jacques Vallee, em dois de seus livros, Passport to
Magonia (Passaporte para Magônia) e Dimensions
(Dimensões), explora os paralelos entre casos de
óvnis e o antigo folclore celta e germânico. Em
certo sentido, este livro é uma extensão do
método comparativo de Vallee para o domínio da
cultura indiana antiga. Contudo, visto ser muito
mais rica do que a literatura existente sobre o
folclore europeu antigo, a literatura védica pode
nos proporcionar maiores iluminações sobre a
natureza do fenômeno dos óvnis.
Epistemologia
Muitas pessoas encaram a pesquisa sobre óvnis
como algo intelectualmente pouco respeitável, e
neste grupo de pessoas estão incluídos muitos
daqueles que têm interesse pelo pensamento
védico, quer de um ponto de vista acadêmico,
quer de um ponto de vista religioso tradicional. Ao
mesmo tempo, muitos pesquisadores sérios dos
óvnis acham que a introdução de tão antiga
mitologia na discussão em torno dos óvnis não é
científica, podendo apenas acabar em inútil
especulação mística. Por isso, parece-me
importante justificar a minha intenção de escrever
sobre o tema dos óvnis e literatura védica.
Começarei fazendo algumas observações sobre as
deficiências das provas relacionadas a óvnis, e em
seguida demonstrarei como o estudo apresentado
neste livro poderia ajudar a superá-las.
Uma fraqueza notável deste conjunto de provas é
que parece não haver forma de realizar um
experimento reproduzível que nos dê informação
confiável sobre os óvnis. O fenômeno dos óvnis,
estando além do controle humano, parece mais
evasivo ainda do que muitos fenômenos
meteorológicos raros que podem ser observados
de modo sistemático sob condições apropriadas. O
físico Edward Condon insinuou jocosamente uma
possível razão para isto:
O enigma da veracidade sobre extraterrestres
(VET) seria desvendado em poucos minutos se um
disco voador aterrissasse no gramado de um hotel
onde estivesse acontecendo uma convenção da
Sociedade Americana de Física, e seus ocupantes
desembarcassem e apresentassem um documento
especial aos físicos presentes, revelando-lhes de
onde vinham e a tecnologia do funcionamento de
sua nave.
O problema é que os óvnis são relacionados, em
muitos depoimentos, a seres humanóides que
parecem ter poderes tecnológicos sobre-humanos.
Se isto é verdade, então só poderemos estudar
esses seres até o ponto em que eles estiverem
dispostos a se revelar a nós. Porém, como sugere
a observação de Condon, se "eles" existem, têm
mostrado pouca disposição para cooperar com os
investigadores humanos. Inclusive, há provas de
que podem chegar a tentar deliberadamente
manter as pessoas ignorantes quanto a suas
atividades e sua verdadeira natureza. Como esta
possibilidade não pode ser descartada a priori,
pode haver uma dificuldade inerente à intenção de
estudar fenômeno dos óvnis por métodos
científicos tradicionais.
Todavia, mesmo que um fenômeno seja de todo
imprevisível e incontrolável, ainda é de se esperar
que deixe alguma prova "concreta" de que pode
ser avaliado cientificamente. Onde estão as
fotografias e as marcações de instrumentos que
registram vôos de óvnis? Onde podemos encontrar
ferragens de óvnis ou provas físicas tangíveis de
aterrissagens de óvnis e outras atividades?
Por incrível que pareça, existem muitos relatos
com provas concretas da existência de óvnis, sob
a forma de marcas de aterrissagem (páginas 89-92), registros fotográficos (páginas 96-100) e
danos físicos sofridos por testemunhas (páginas
156-58 e 424-26). Além disso, há livros
argumentando que autoridades governamentais
detêm inúmeras provas de alta qualidade sobre
óvnis, que são mantidas ocultas como segredo
militar. Eu mesmo fiquei sabendo por intermédio
de um engenheiro envolvido com testes de
armamentos militares que, na década de 1950,
oficiais da equipe técnica, conhecidos dele,
costumavam tirar fotos de óvnis regularmente.
Porém, estas mesmas fotos jamais foram
reveladas ao público (páginas 46-48). Analiso este
assunto controvertido nos Capítulos 1 e 3.
Apesar de efetivamente existirem provas
concretas acerca dos óvnis, são pouquíssimo
expressivas as provas às quais o público tem
acesso fácil. E elas só passam a ter alguma
significação no contexto de toda uma história
envolvendo testemunhas cuja honestidade e
competência possam ser avaliadas.
Isto fica ilustrado pelo exemplo seguinte. Em 1987,
um mestre-de-obras chamado Ed Walters afirmou
ter feito um videoteipe de um óvni que voava
perto de seu quintal em Gulf Breeze, Flórida, que o
Dr. Bruce Maccabee, médico e investigador de
óvnis, fez a seguinte avaliação deste videoteipe:
Se a única informação sobre esta visão fossem o
depoimento de Ed e o registro pictórico contido no
próprio videoteipe, (...) eu iria seriamente
considerar a hipótese de falsificação, a despeito da
dificuldade demonstrada em se duplicar o
videoteipe. No entanto, considerando todo o
contexto da visão, com as outras testemunhas
asseverando terem visto Ed filmar o óvni, concluo
que Ed não produziu seu videoteipe usando um
modelo. Pelo contrário, concluo que ele filmou um
óvni de verdade.
Como em todos esses casos, o videoteipe, por si
só, poderia ser um embuste. Maccabee conseguiu
descartar esta hipótese, bastando-lhe, para isto,
entrevistar as pessoas envolvidas na filmagem e
avaliar o caráter e a motivação delas. Se a
avaliação dele está certa, então, a fita mostra-nos
a aparência de um óvni em particular, e deste
modo fornece-nos uma prova útil. Porém, estando
ele certo ou errado, a maioria das pessoas terá
que depender do relatório dele para apurar a
validade da fita. A única alternativa seria ir para
Gulf Breeze e realizar outra investigação
(conforme certas pessoas têm feito), mas, à
medida que o tempo passa, esta opção torna-se
cada vez menos viável.
Como podemos concluir, a maioria das provas
sobre óvnis já disponíveis assume a forma de
relatórios em que o depoimento de testemunhas e
investigadores é de importância crucial. Visto não
ser possível "providenciar" uma visão de óvnis
onde e quando se quer, e como as provas
concretas tornam-se inexpressivas sem o
acompanhamento de depoimentos, não há outra
alternativa senão confiar nesses relatórios ou fazer
novas investigações. E nossas próprias
investigações vão apenas redundar em mais
relatórios a serem lidos.
Neste livro, não me proponho a apresentar (exceto
para um ou dois casos) os resultados de
investigações pessoais de testemunhas de óvnis.
Ao contrário, usarei provas extraídas de uma
ampla variedade de relatórios disponíveis. Em
conseqüência deste procedimento, não terei como
provar a veracidade de nenhum dos relatórios
citados. A comprovação, tanto quanto seja
possível, só poderá ser obtida a partir da
investigação aprofundada de casos específicos.
Como não poderia deixar de ser, alguns dos casos
por mim apresentados têm sido amplamente
examinados e, segundo concluíram os
investigadores, são autênticos. Contudo, não julgo
ter autoridade para provar que eles estão certos
ou para demonstrar que suas investigações foram
de fato realizadas a cabo da maneira apropriada.
O objetivo de um amplo levantamento de dados é
revelar os padrões genéricos que permeiam a
prova registrada e, por este meio, elucidar as
causas subjacentes aos mesmos padrões. Algo
semelhante é feito no campo da arqueologia.
Alguns arqueólogos realizam investigações a fundo
de sítios em particular, enquanto outros
empreendem amplos levantamentos de muitos
estudos arqueológicos, sem se aprofundarem em
nenhum estudo específico. É com base nestes
levantamentos que em geral são formuladas as
teorias arqueológicas.
Por ser do meu interesse comparar os fenômenos
dos óvnis com os fenômenos descritos na
literatura védica, é necessário que se tenha uma
compreensão ampla de ambos. No entanto, não
procuro apresentar um panorama amplo da
literatura védica, uma vez que se trata de campo
tão vasto. Caso o tipo de estudo comparado
ensaiado neste livro seja digno de ser levado
adiante, seria proveitoso alguém fazer um
levantamento mais genérico dos textos védicos
com o objetivo de descobrir o que eles dizem a
respeito das origens, das faculdades, da cultura e
dos traços comportamentais de diferentes
espécies de seres vivos inteligentes.
Como o meu rastreamento do material relacionado
aos óvnis pretende ser amplo, é inevitável que
combine um tipo de material relativamente bem
comprovado com outro tipo que parece
particularmente duvidoso. Incluí algum material
duvidoso porque suprimi-lo resultaria num quadro
falso da prova da existência de óvnis. Um quadro
artificialmente saneado do cenário da ufologia não
seria realista, e devo advertir o leitor de que,
quando apresento provas para certas alegações,
isto não significa necessariamente que as
considero válidas. Em certos casos, meu objetivo é
alertar o leitor para o tipo de material falso que
pode ser encontrado.
Algumas declarações relacionadas aos óvnis, de
aspecto duvidoso, são decerto falsas. Todavia,
devemos ter cautela quanto à rejeição superficial
de coisas que consideramos falsas pelo simples
fato de parecerem absurdas. Uma informação que
a princípio soe absurda ou sem sentido poderá se
mostrar bastante significativa ao ser analisada
mais tarde, num contexto mais amplo. Uma prova
só é definida como absurda em relação a uma
visão teórica já aceita e, à medida que a
compreensão teórica se desenvolve, o status
absurdo ou anômalo a ela atribuído também pode
mudar.
Segundo costumam dizer, um pensador científico e
objetivo que dá ouvidos a "disparates" acaba
comprometendo sua credibilidade. Talvez sim,
mas prefiro sugerir ser essencial prestar toda
atenção a todo tipo de prova caso queiramos fazer
avanços verdadeiros no conhecimento científico. À
medida que a ciência avança, idéias antes tidas
como absurdas podem se tornar ortodoxas.
Exemplos disto seriam a idéia de que os
continentes singram pela superfície do globo ou a
idéia de que os elétrons atravessam barreiras
energéticas. Outras idéias há, é claro, que acabam
por se revelar realmente inválidas, inclusive
algumas das aceitas por cientistas convencionais.
Para que este livro não ficasse extenso demais,
não pude evitar a ênfase em alguns casos de óvni
em detrimento de outros. Dei o mesmo tratamento
ao material védico. Esperemos que o conjunto de
casos por mim escolhido seja representativo e que
os mesmos pontos possam ser ilustrados usando-se outro conjunto representativo de casos. Embora
certos casos sejam mencionados repetidas vezes,
isto não quer dizer que eu os considere
excepcionalmente significativos.
Como minha preocupação é rastrear padrões em
conjuntos de relatos modernos e antigos, este livro
pode ser considerado um estudo de folclore
comparado. Decerto que é válido o estudo do
folclore e, para muitos leitores, esta pode ser a
melhor forma de fazer uma abordagem inicial do
tema deste livro. No entanto, o pano de fundo de
qualquer estudo de folclore será sempre procurar
conhecer a verdadeira origem do folclore. Será o
simples produto de uma imaginação fértil
motivada por fatores psicológicos ou terá mesmo
um fundamento na realidade objetiva? Na próxima
seção, faço algumas observações preliminares
sobre este tema.
Explicações para a origem do fenômeno
ufológico
Diz o ditado que "pretensões surpreendentes
exigem provas surpreendentes". Esta criteriosa
idéia gera um problema quando se trata de
interpretar provas associadas a óvnis: o relato de
uma prova surpreendente é por si só uma
pretensão surpreendente a qual, por sua vez,
exige mais provas surpreendentes. O resultado
irônico disto é que um caso com provas
elaboradas poderá parecer menos crível do que
um caso com um número relativamente pequeno
de provas.
Suponhamos, por exemplo, alguém que afirme ter
visto um objeto voador diferente de qualquer
veículo conhecido, feito pelo homem. Esta é uma
pretensão surpreendente. Mas, se esta mesma
pessoa apresenta uma fotografia do objeto à guisa
de prova, tal fotografia representa outra pretensão
surpreendente. Podemos muito bem supor que a
foto não passa de um embuste.
Ao produzir uma série de fotos de alta qualidade
como provas, sua pretensão torna-se ainda mais
surpreendente, e nossas suspeitas de fraude
poderão tornar-se ainda maiores. Ed Walters, de
Gulf Breeze, Flórida, por exemplo, publicou um
livro contendo muitas fotos extraordinárias de
óvnis que ele afirmou ter tirado com uma Polaroid.
Estas fotos foram julgadas genuínas por um físico
ótico (Bruce Maccabee). Mas muitos leitores
reagiram, dizendo que a própria qualidade delas
pesava contra a sua autenticidade. Como declarou
um crítico, "isto me lembra a advertência muitas
vezes feita por detetives trapalhões: 'Se soa bom
demais para ser verdade, provavelmente o é.' O
caso de Gulf Breeze soa bom demais. (...)"
Para piorar as coisas, há provas sugerindo já ter
havido embustes de óvnis em massa numa escala
que exigiria uma soma considerável de dinheiro e
mão-de-obra. Um possível exemplo disto é o caso
do contato suíço Eduard Meier, que conta com o
apoio — entre outras coisas — de fotos e filmes de
alta qualidade, testemunhas oculares, fotos tiradas
pelas testemunhas, gravações de sons de óvnis,
pistas de óvnis e a análise profissional de
amostras de óvnis feita por um destacado
engenheiro da IBM (veja páginas 209-23). Tanto
quanto eu sei, embora ninguém tenha chegado
efetivamente a provar que este caso é um
embuste, é bem possível que o seja. Semelhantes
casos só fazem acrescentar mais peso à idéia de
que muitíssimas provas de alta qualidade são
motivo de dúvida, e não de confiança.
Se os relatos sobre óvnis tornam-se mais
duvidosos na medida em que há mais provas para
apoiá-los, por que, então, deveriam ser levados a
sério quaisquer relatos desta espécie? O motivo
parece ser a existência de uma grande quantidade
de relatos sobre óvnis, relatos aparentemente
independentes e oriundos do mundo todo que
tendem a ser muito semelhantes em conteúdo.
Costumam ser feitos por pessoas respeitáveis que
parecem não ter qualquer motivo óbvio para
inventarem uma história bizarra e se exporem ao
ridículo. Grosso modo, geralmente são
apresentados cinco possíveis explicações para
justificar isto:
1. Relatos sobre óvnis resultam de ilusões naturais
ou percepções errôneas. Por exemplo: muitas
pessoas confundem estrelas, planetas ou balões
meteorológicos com óvnis.
2. Há casos de aberração mental que fazem as
pessoas relatarem experiências com óvnis, muito
embora não sejam verídicas. O conteúdo das
histórias dessas pessoas provém de informação
transmitida por meios normais (como a imprensa)
ou de processos mentais ilusórios.
3. Existe um número considerável de pessoas que
às vezes têm lapsos de desonestidade, apesar de
terem reputação de honestas. Durante esses
lapsos, elas criam histórias de óvnis, orientando-se
por fontes normais de informação.
4. Há um embuste organizado que opera em
escala mundial. Seus perpetradores induzem as
pessoas a relatarem experiências com óvnis,
valendo-se de métodos que abrangem desde
suborno até o uso de elaborados efeitos especiais
de Hollywood e técnicas de controle mental.
5. Mesmo sendo verdade que existem mentirosos,
fraudadores e lunáticos, muitas pessoas que
relatam contatos com óvnis experimentam
fenômenos verdadeiros, os quais vale a pena
observar e analisar com atenção.
É amplamente reconhecido o fato de a explicação
1 aplicar-se a muitos (mas não a todos) relatos
sobre óvnis envolvendo objetos ou luzes vistos a
uma longa distância no céu. Entretanto, não se
pode aplicá-la a relatos de contato imediato, nos
quais as pessoas vêem uma nave estranha e seres
mais estranhos ainda, de perto. Se estes relatos
não se tratam de mentiras, a única explicação
convencional para eles é que envolvem estados
mentais anormalíssimos.
A explicação 2 peca pelo inconveniente de muitos
relatos sobre óvnis, inclusive os de contato
imediato, serem feitos por pessoas normais as
quais são tidas como sãs e responsáveis por seus
semelhantes. Em muitos casos, pessoas que
relataram contatos bizarríssimos com óvnis foram
testadas por psicólogos ou psiquiatras, que quais
as julgaram livres de qualquer doença mental
(páginas 83-85 e 183-87). Para mim, este é um
dos argumentos mais fortes a favor da realidade
dos óvnis. Uma boa quantidade de afirmações
simples e diretas de pessoas normais e
equilibradas pesa muito mais do que umas tantas
fotos fantásticas.
Para contestar isto, pode-se argumentar quanto à
possibilidade de haver um tipo especial de
insanidade em que uma pessoa funciona
normalmente a maior parte do tempo, mas
apresenta lapsos de alteração da consciência em
circunstâncias especiais. Neste estado alterado, a
pessoa se submete a experiências alucinatórias,
das quais se lembra mais tarde como se fossem
reais. Por algum motivo, muitas dessas
experiências envolvem contatos com óvnis e seus
estranhos ocupantes.
Embora seja válido considerar semelhante
hipótese, é muito importante que os
pesquisadores demonstrem com nitidez o fato de
que tal forma de insanidade existe antes de ser
invocada para explicar as experiências das
pessoas. Caso contrário, estará aberto o
precedente para pessoas que ocupam posições de
autoridade se valerem de acusações de insanidade
de modo a perseguirem adeptos de crenças
indesejadas.
Visto ser este um perigo gravíssimo, vale a pena
analisá-lo mais detidamente. Tomemos a seguinte
declaração do Dr. Gary Posner do Maryland
General Hospital, numa carta ao Skeptical Inquirer:
Embora se possa atribuir muito do pensamento
piegas de muitos para-normais à mera
ingenuidade, (...) somos obrigados a considerar a
possibilidade de que algumas dessas pessoas
poderiam ser não apenas ingênuas como também
atormentadas por certo distúrbio mental que se
manifesta por um sentido falho da realidade, entre
outros possíveis sintomas. A "esquizofrenia
ambulatória" é uma entidade em que o paciente,
em geral livre de sintomas, os desenvolve apenas
sob certas circunstâncias (classicamente, sob
estresse).
Dá para imaginar uma pessoa com visões
"paranormais" sendo isolada ou ridicularizada
como esquizofrênica ambulatória, muito embora
"em geral isenta de sintomas". O fato de coisas
ainda piores poderem acontecer é demonstrado
por um documento intitulado Abuso político da
psiquiatria na União Soviética, no final se afirma:
Os princípios estabelecidos pelo Instituto Serbsky
de Psiquiatria Legal em Moscou ocupam lugar de
destaque no método psiquiátrico soviético.
Particularmente relevantes para o abuso
psiquiátrico são as teorias do Dr. A. V
Snezhnevsky, eminente psiquiatra do Instituto e
membro da Academia de Ciência da União
Soviética. O conceito do Dr. Snezhnevsky para
"esquizofrenia apática" — uma doença mental sem
sintomas visíveis — tem sido usado em diagnoses
psiquiátricas que vêm assegurando o
confinamento compulsório de inúmeros
dissidentes conhecidos desde a década de 1960.
O ponto-chave é o fato de a esquizofrenia apática
ou ambulatória não apresentar outros sintomas
senão as crenças indesejadas — políticas ou
paranormais — para cuja supressão é invocada.
Apesar de também podermos usar esta tática para
invalidar algum testemunho associado a óvnis,
devemos evitar tal coisa, por ser tão não-científica
quanto injusta.
Também devemos evitar a tentação de rotular
alguém como sendo fraudador ou mentiroso com
base no simples fato de tal indivíduo ter feito uma
afirmação que nos soe absurda ou pouco plausível.
No transcurso deste livro, apresentarei muitos
depoimentos que soarão absurdos para muitas
pessoas (inclusive para mim). Qualquer desses
depoimentos poderia ser fraudulento, porém, só
entrarei no mérito desta questão em casos em que
conheço provas concretas da fraude.
Não existe um só caso citado neste livro em que
eu possa provar que o depoimento não tenha sido
fraudulento. Isto é inevitável considerando o fato
de eu estar apenas examinando relatos escritos
por outrem. Embora imagine que um percentual
do material citado seja falso, não tenho como
precisar qual poderia ser tal porcentagem. Apenas
posso dizer que não encontrei prova de fraude
suficiente para justificar a explicação 3, segundo a
qual os relatos sobre óvnis feitos por pessoas
aparentemente responsáveis são em geral (ou
sempre) mentiras.
Jacques Vallee advoga a explicação 4 — a teoria
do embuste mundial — para muitos incidentes
envolvendo óvnis. No entanto, alguns casos de
óvni, pensa ele, envolvem fenômenos paranormais
genuínos. Quanto a mim, ainda não deparei com
provas que me justificassem levar a explicação 4 a
sério. Todavia, há motivos para se pensar que
certos documentos sobre óvnis elaborados por
autoridades militares e pelo serviço secreto dos
Estados Unidos, façam parte de uma campanha
organizada de desinformação (páginas 137-42).
Resta-nos a explicação 5, a hipótese segundo a
qual muitas experiências com óvnis são devidas a
um fenômeno verdadeiro, mas desconhecido.
Conforme já mencionei, uma das razões mais
convincentes para adotarmos esta explicação é
que muitas pessoas aparentemente sãs das mais
diversas partes do mundo têm feito relatos sobre
óvnis. Apesar de esses relatos parecerem surgir de
modo independente, um certo padrão repetitivo de
características comuns estabelece um elo entre
eles.
Pode-se argumentar, é claro, não ser possível
provar que os relatos feitos em anos recentes
sejam independentes, porque muitas são as
formas pelas quais informações sobre óvnis podem
se propagar de uma pessoa para outra. E neste
contexto que se tornam úteis as comparações
entre relatos sobre óvnis e a literatura védica.
Acontece que existem muitos paralelos
pormenorizados entre típicos relatos sobre
contatos imediatos com óvnis e certos relatos dos
textos védicos. A maioria dos contatos com óvnis
que estarei examinando ocorreu em países
ocidentais, onde a grande maioria das pessoas não
tem a menor noção das idéias védicas. Assim
sendo, podemos descartar a possibilidade de a
maioria dos relatos sobre óvnis ter sido
influenciada de alguma forma significativa pela
literatura védica. Da mesma maneira, como foi
escrita muito antes do período moderno de relatos
sobre óvnis, a literatura védica não poderia ter
sido influenciada por este material.
Literatura védica e choque cultural
Até aqui tenho defendido o estudo do fenômeno
ufológico, mas pouco disse para justificar a
introdução da literatura védica neste estudo.
Agora darei algumas sugestões sobre como os
leitores deste livro poderiam abordar o material
védico. Além disso, faço algumas observações
adicionais sobre a interpretação dos textos védicos
no Apêndice 2.
São muitas e diferentes as perspectivas sobre a
literatura védica, mas, já que este livro foi escrito
nos Estados Unidos, devemos analisar a típica
reação americana ou européia à visão de mundo
védica. Para ser sucinto, esta reação costuma ser
de choque cultural. Isto é conseqüência da
esmagante estranheza do pensamento védico
para a mente ocidental, aliada a objeções
específicas procedentes de considerações
religiosas, étnicas, políticas e científicas.
As objeções religiosas e étnicas se baseiam,
infelizmente, em exclusivismo e acusações de
exclusivismo. Como resposta, tudo o que posso
recomendar é uma abordagem imparcial das
idéias religiosas e étnicas de outros povos. Talvez
o estudo do fenômeno ufológico nos ajude a
superar barreiras firmadas em diferenças culturais
no âmbito da sociedade humana, visto que estas
diferenças podem ser atenuadas pelas diferenças
entre sociedades humanas e aquelas de seres não-humanos inteligentes.
Talvez a melhor forma de superar mal-entendidos
baseados em diferenças étnicas e religiosas seja
discutir abertamente todos os aspectos das visões
de mundo de diferentes povos. Para tal, seria
necessário fazer um maciço estudo intercultural.
Tal estudo, segundo minha própria convicção,
resultaria num panorama unificado das culturas
humanas mediante o qual seria possível atribuir
uma realidade muito maior à visão de mundo de
cada cultura do que permite a ciência moderna.
Semelhante estudo ultrapassa, e muito, o escopo
deste livro. Mas, apenas a título de começo, eu
poderia pedir ao leitor para comparar as idéias
aqui apresentadas com as de Barry Downing, um
pastor cristão com doutorado em ciência e
religião, que tem escrito amplamente sobre os
óvnis e a Bíblia. Uma questão levantada por
Downing é a de que os óvnis podem fornecer
provas que corroboram a realidade de certos
fenômenos bíblicos, tais como as visitas dos anjos,
que parecem mitológicas do ponto de vista de
nossa perspectiva moderna.
Algo semelhante pode ser asseverado quanto à
literatura védica. Segundo relatos védicos, os
povos antigos costumavam manter contato regular
com seres avançados de outros mundos. Se isto é
verdade, e se os relatos contemporâneos sobre
óvnis nos parecem estranhos, não deveríamos,
então, achar a visão de mundo védica igualmente
estranha? Não se deveria encarar a estranheza da
visão de mundo védica como um motivo imediato
para ser descartada e tachada de mitologia?
Isto nos transporta às objeções científicas à visão
de mundo védica. Elas se originam de diversas
áreas da ciência, inclusive a física, a biologia, a
arqueologia e a cosmologia. Não tenho como
examinar todas essas objeções neste livro, mas,
pelo que observei, algumas objeções científicas à
visão de mundo védica também se aplicam aos
relatos sobre óvnis. São objeções às ações
"fisicamente impossíveis" tanto dos óvnis quanto
de seus ocupantes. Acontece que muitas dessas
ações são paralelas a correspondentes ações
impossíveis descritas em relatos védicos.
Estas observações vêm em defesa da realidade da
visão de mundo védica. Porém, assim como o
leitor poderá considerar folclóricos os relatos sobre
óvnis, ele também poderá achar a literatura védica
folclórica. Os paralelos salientados neste livro
podem ser estudados a partir de um ponto de vista
estritamente literário. No entanto, é natural
indagar se haveria algo de verdadeiro por baixo
destes paralelos. Minha sugestão é que, assim
como os óvnis podem ser mais reais do que nosso
condicionamento científico e cultural nos tem
permitido acreditar, o mesmo poderia se aplicar à
visão de mundo apresentada na literatura védica.
PARTE 1
Um rastreamento da literatura sobre
óvnis
1
A Ciência e os Objetos Não-Identificados
Em setembro de 1967, o Dr. John Henry Altshuler
trabalhava como patologista no Rose Medical
Center, em Denver, Colorado. Ele ouvira falar de
visões de óvnis ocorridas naquele estado — em
San Luis Valley, para ser mais exato. De modo
que, certo dia, por curiosidade, passou uma noite
no parque do Great Sand Dunes National
Monument para ver se conseguia observar algo.
Por volta das duas da manhã, vi três luzes brancas
e muito brilhantes movendo-se lenta e
simultaneamente abaixo dos cumes da montanha
Sangre de Cristo. Eu sabia que não existiam
estradas na parte superior daquelas montanhas
escarpadas, de forma que as luzes não podiam ser
de carros. Por certo, aquilo não era fruto da ilusão
do movimento das estrelas. Aquelas luzes estavam
abaixo dos cumes da cadeia de montanhas e se
movimentavam num ritmo lento e constante. A
certa altura, achei que estavam vindo na minha
direção porque ficaram maiores. Então, de
repente, elas dispararam para cima e
desapareceram.
Altshuler foi abordado no parque por policiais que,
ao ficarem sabendo que ele era hematologista,
levaram-no para ver um cavalo estranhamente
mutilado, encontrado dez dias antes, não muito
longe dali. Após ajudar os policiais com a
investigação sobre o cavalo, ele se despediu em
estado de grande ansiedade.
Implorei que ninguém revelasse meu nome ou de
onde eu era. Estava incrivelmente amedrontado.
Não conseguia comer. Não conseguia dormir.
Estava morrendo de medo de ser descoberto,
desacreditado, demitido e de perder minha
credibilidade na comunidade médica. Aquela
experiência de 1967 foi tão incrível para mim que
eu a negava para todos, inclusive para mim
mesmo. Era uma questão de auto-preservação, na
tentativa de dar a mim mesmo uma apólice de
seguro na profissão médica.
Subitamente, o Dr. Altshuler passou a correr o
risco de ser publicamente vinculado a um assunto
condenado pela sociedade. A reação dele pode
parecer extrema. Porém, o ridículo e o ostracismo
são castigos muito eficazes, e todos conhecem a
inclinação das pessoas para fazerem uso deles.
Altshuler visualizava a iminente destruição da
carreira médica cuja conquista lhe custara anos de
muito esforço. O mesmo temor, assombrando
diversas profissões científicas e acadêmicas, pode
exercer um forte impacto sobre a publicação e o
estudo de toda espécie de anômalos dados de
observação.
Stephen Braude, professor de filosofia da
Universidade de Maryland, salienta como o medo
da rotulação social negativa afeta o estudo de
fenômenos psíquicos. Os parapsicólogos, observa
ele, tendem a evitar o estudo da psicocinese de
grande alcance (PGA), na qual objetos pesados
como sofás e mesas são vistos em movimento e
levitando. Após enumerar alguns motivos teóricos
e ideológicos para esta levitação, ele acrescenta:
Outros, acredito eu, ficam simplesmente
embaraçados com a natureza extrema de muitos
dos fenômenos relatados, e temem que seu
interesse por eles venha a ser julgado como não-científico, tolo ou carente de sentido crítico. E tal
medo tem fundamento. Historicamente, de fato,
sérios investigadores de PGA têm sido muito
maltratados por colegas cientistas.
É natural a nossa tendência para ridicularizar
coisas que não se enquadram em nossos sistemas
familiares de pensamento. Mas, infelizmente, um
dos efeitos do ridículo é o fortalecimento dos
limites impostos por tais sistemas. Ao dissuadir-nos de estudar a fundo os assuntos proibidos, o
ridículo restringe nossa oportunidade de aprender
algo sobre eles. A PGA, por exemplo, pode vir a ser
realidade ou não passar de disparate, mas,
enquanto as pessoas tiverem medo de investigá-la
com mais minúcia, continuará sendo uma
desconhecida duvidosa e vergonhosa para elas.
Outro efeito do ridículo é que ele dá margem ao
florescimento de versões absurdas ou,
irresponsáveis de determinado assunto. Sempre
haverá pessoas inescrupulosas decididas a
distorcer a verdade pelo simples desejo de
enganar os outros ou de ganhar dinheiro fácil. Ao
passo que tais pessoas não se deixam vencer pelo
ridículo, o mesmo não se pode afirmar de eruditos
sérios preocupados com sua reputação e posição
intelectual. Deste modo, o ridículo tem o efeito
perverso de estimular histórias ridículas ao mesmo
tempo em que inibe a séria erudição.
Por muitos anos, o público em geral tem encarado
o tema dos óvnis, ou objetos voadores não-identificados, como algo vergonhoso. Se este
assunto vem à tona numa conversa informai, é
bem possível que alguém comece a cantarolar a
música tema do filme Zona do crepúsculo e faça
alguma referência sarcástica ao National Enquirer.
Esta é de fato uma arena propícia para se
ridicularizar tudo que seja tachado de absurdo.
Isto poderia explicar parte do medo do Dr.
Altshuler em ficar conhecido como uma
testemunha de fenômeno ufológico. Naturalmente,
ele jamais iria querer se sujeitar às chacotas de
pessoas desinformadas. Mas que reação poderia
Altshuler esperar de seus colegas cientistas e de
pesquisadores cientificamente treinados dedicados
ao estudo objetivo dos fenômenos naturais? Estas
pessoas também não tenderiam a reagir a sua
história com intolerância?
Acontece que o papel da ciência na história dos
óvnis é de urna complexidade surpreendente. Em
certas ocasiões, cientistas respeitados têm
argumentado com veemência que os óvnis
envolvem tecnologia e mesmo princípios físicos
desconhecidos da ciência. Nem todos os cientistas
descartam o estado dos óvnis pelo simples fato de
julgá-los um assunto marginal e insignificante.
Estudos científicos sobre óvnis têm sido
financiados pelo governo, enquanto conferências
científicas têm sido realizadas e jornais científicos
têm sido fundados no intuito de criar um fórum
para se discutir provas deste fenômeno. Mas,
mesmo assim, o ridículo desempenha um papel
muito poderoso na postura dos cientistas quanto
ao assunto.
Entre 1967 e 1969, o eminente físico Edward U.
Condon liderou um estudo científico sobre óvnis
sob os auspícios da Universidade do Colorado. O
estudo foi financiado por uma verba
governamental de 523 mil dólares e produziu um
relatório final de bem mais de quinhentas páginas.
Conforme mostrarei no Capítulo 3, este relatório —
comumente conhecido como o Relatório Condon —
contém fortes provas sugerindo que alguns óvnis
podem ser veículos portadores de tecnologia
desconhecida. Contudo, na conclusão do relatório,
Condon diz que, provavelmente, os estudos sobre
óvnis em nada contribuirão para o avanço do
conhecimento científico.
É interessante conhecermos como esta conclusão
foi comunicada à comunidade científica. Vou
primeiro apresentar um editorial do prestigioso
jornal Science, escrito por Hudson Hoagland em
1969, logo após a publicação do Relatório Condon.
Na época, Hoagland era presidente emérito da
organização Worcester para Biologia Experimental
e membro do conselho diretor da Associação
Americana para o Progresso da Ciência (AAAS).
Em seu editorial, Hoagland compara os relatos
sobre óvnis às pretensões, por médiuns
espiritualistas, em produzir ectoplasma e
movimento em objetos. Conta, também, uma
anedota sobre como ele e o mágico Harry Houdini
haviam desmascarado um falso médium. Tendo
instalado este pano de fundo, Hoagland faz as
seguintes observações sobre os óvnis:
A dificuldade básica inerente a qualquer
investigação de fenômenos tais como os da
pesquisa psíquica ou dos óvnis é que a ciência
jamais terá como provar uma negativa universal.
Haverá casos que ficarão por explicar em virtude
de falta de dados, falta de evidências contínuas,
relatos falsos, imaginação fantasiosa,
observadores iludidos, boatos, mentiras e fraude.
Um resíduo de casos por explicar não justifica que
se dê prosseguimento a uma investigação após
provas esmagadoras terem refutado hipóteses
sobrenaturais, tais como seres do espaço exterior
ou mensagens dos mortos. Casos não
comprovados jamais poderão servir de prova para
hipótese alguma. A ciência lida com
probabilidades, e a investigação de Condon
acrescenta maciço peso adicional à já esmagadora
improbabilidade de visitas de óvnis guiados por
seres inteligentes. Conforme salienta com
propriedade o relatório Condon, posteriores
investigações sobre óvnis serão mero desperdício.
É de se esperar que, com o tempo, os alienígenas
acabem sendo esquecidos, da mesma forma que
aconteceu com o fato de o ectoplasma ser prova
da possibilidade de comunicação com os mortos. É
possível antever, contudo, que muitas pessoas
continuarão a acreditar por seus próprios motivos
psicológicos, os quais nada têm a ver com a
ciência e as regras de evidência.
Hoagland estava convencido de que todos os
relatos sobre objetos voadores não-identificados
são produto de sentidos defeituosos, mentiras ou
delírios. Estas contribuições negativas têm sido
apresentadas em tantos casos que, segundo o
argumento dele, é possível concluir que elas estão
em todos os casos. No entanto, como a "ciência
não tem como provar uma negativa universal",
não é justo solicitar dela uma prova.
Só poderemos apurar se esta conclusão é válida
ou não examinando com minúcia as provas da
existência de óvnis. Mas a tática de Hoagland de
vincular os estudos sobre óvnis às momices de
médiuns espíritas farsantes é, sem dúvida, uma
deliberada estratégia de ridicularização. Ao afirmar
que algumas pessoas continuarão a crer por
motivos psicológicos, ele exclui os estudos sobre
óvnis do âmbito da ciência: se você estuda essas
coisas, não é um cientista. Você é de fato um
crente cujas declarações revelam crenças
irracionais ao invés de hipóteses científicas.
Edward Condon também misturou os estudos
sobre óvnis com espiritualismo e pesquisa
psíquica, tachando-os de pseudociência. Logo após
concluir o seu Relatório, ele teceu os seguintes
comentários num artigo intitulado "Óvnis que amei
e perdi", publicado no Bulletin of the Atomic
Scientists (Boletim dos cientistas atômicos):
Discos voadores e astrologia não são as únicas
pseudociências que contam com um considerável
número de seguidores entre nós. Já existia o
chamado espiritualismo, agora existe a chamada
percepção extra-sensorial, a psicocinese e
inúmeras outras...
Em tempos antigos, o futuro era previsto de
muitas maneiras que caíram em desuso, tais como
o exame das entranhas de animais sacrificados ou
presságios baseados no estudo do vôo de bandos
de pássaros... Antes de se pôr a rir, lembre-se de
que estas visões, tanto quanto os relatórios sobre
óvnis, jamais mereceram de fato tanto estudo
científico assim. Talvez precisemos de uma
Agência Nacional de Magia para empreender um
estudo amplo e caro de todos esses assuntos,
inclusive o futuro estudo científico sobre os óvnis,
se é que vai haver algum.
Onde a corrupção das mentes de crianças está em
jogo, eu não acredito em liberdade de imprensa,
nem em liberdade de expressão. Na minha
opinião, editores que publicam ou professores que
ensinam qualquer das pseudociências como
fazendo parte da verdade estabelecida deveriam,
ao se constatar sua culpa, ser publicamente
açoitados e banidos para sempre do direito de
continuar atuando no âmbito dessas profissões
habitualmente honradas.
Condon estava certo, é claro, ao dizer que não se
deve ensinar algo como fazendo parte da verdade
estabelecida, ao menos que seja algo já
demonstrado de forma substancial. Porém, no
âmbito da ciência, sempre haverá opiniões
variadas a respeito do que seja verdade, e o fato
de não ser possível discutir livre e abertamente
toda a gama de possibilidades só faz retardar o
progresso científico. Ao que parece, Condon tinha
suficiente confiança em sua capacidade de
reconhecer o que é pseudociência para estar
convencido de que a rígida exclusão da mesma
não atrapalharia a livre busca de conhecimento.
Para entendermos a razão de os cientistas serem
tão categóricos em rejeitar e tachar de falsa
ciência as investigações sobre óvnis, devemos
procurar nos transpor para a perspectiva teórica
sobre a qual eles encaram o fenômeno ufológico.
De modo a aprofundar este entendimento, vou
examinar al¬guns pontos levantados por William
Markowitz num artigo sobre óvnis publicado em
Science em 1967 e reimpresso em 1980 num livro
intitulado The Quest for Extraterrestrial Life (O
enigma da vida extraterrestre).
Para Markowitz e muitos outros cientistas, o ponto
inicial da dúvida é teórico. O problema com
referência aos óvnis é que, em muitos dos casos
relatados, as pessoas não os percebem como
meros fenômenos naturais. Pelo contrário,
parecem ser veículos controlados por alguma
forma de inteligência, mas não construídos por
seres humanos. Se tais veículos existem, então,
têm que proceder de algum lugar. Como a ciência
não pode aceitar nada de etéreo,
supradimensional ou sobrenatural, os veículos
precisam originar-se como objetos sólidos e
tridimensionais. Não sabemos da existência de
instalações próprias para a fabricação de coisas
semelhantes na Terra, além do que os demais
planetas do sistema solar, segundo se pensa, não
são habitados. Se os óvnis são veículos de
verdade, isto quer dizer que devem ser visitantes
de estrelas distantes. Esta é a chamada hipótese
extraterrestre (HET).
Em seu artigo, Markowitz identifica-se como um
perito em matéria de vôo espacial interestelar e
aborda diversos esquemas para se realizar tal
façanha. Todos esses esquemas baseiam-se no
princípio do foguete, segundo o qual a matéria é
expelida da traseira de uma nave, a qual, por sua
vez, é propulsionada pela reação resultante. A
viagem interestelar, conclui ele, não é possível
pelo uso desses métodos, e por isso os óvnis não
poderiam ser naves extraterrestres.
Os relatos publicados sobre óvnis, ressalta ele,
costumam descrever objetos de cinco a cem
metros de diâmetro que aterrissam e decolam.
Argumentando que esses objetos teriam de voar
na base da propulsão de foguete, ele diz: "Se fosse
usada energia nuclear para gerar propulsão, então
deveria resultar a cauterização do solo por conta
de temperaturas de 85.000°C, e seriam
detectados produtos da degeneração nuclear em
quantidade equivalente à produzida pela
detonação de uma bomba atômica." A partir disso,
conclui ele, os objetos relatados não poderiam ser
naves espaciais extraterrestres, a menos que as
leis da física estejam erradas. Todavia, ele diz:
"Não discordo dos relatos de óvnis avistados,
tampouco tentarei invalidá-los com minhas
explicações. Concordo em que existem objetos
não-identificados."
Ele aventa a possibilidade de conciliar os relatos
sobre óvnis com a hipótese extraterrestre,
atribuindo "diversas propriedades mágicas aos
seres extraterrestres". Entre elas, incluem-se as
faculdades de telecinesia e anti-gravidade, mas
ele as rejeita logo. Também considera as
"hipóteses semi- mágicas" que se baseiam em leis
físicas conhecidas, mas incluem aspectos
impraticáveis, tais como a conversão totalmente
eficaz de matéria em energia. Ele também rejeita
estas.
A hipótese extraterrestre é insustentável, conclui
Markowitz, por ser fisicamente impossível fazer
efetiva viagem entre as estrelas. Em contraste a
esta conclusão, no simpósio da AAAS sobre óvnis
em 1969, o astrônomo Carl Sagan sustentou a
remota possibilidade de desenvolvimento de
algum método de viagem interestelar. Porém,
segundo sugeriu também, são mínimas as
possibilidades de que outra civilização nesta
galáxia venha a lançar uma bem-sucedida
expedição para atingir a Terra.
Argumentou ele que, de 10
10
"lugares
interessantes" nesta galáxia, no máximo 10
6
serão
sistemas solares com civilizações que enviem
expedições interestelares. Isto significa dizer que,
para cada lugar interessante ter uma boa
probabilidade de ser visitado em determinado
espaço de tempo, pelo menos dez mil expedições
por civilização precisam partir em média nesse
período. Para a Terra receber em média uma visita
por século, por exemplo, seria necessária uma
taxa de dez mil expedições por século em cada
civilização. Isto significa cem expedições por ano
em cada civilização. Dadas as grandes dificuldades
envolvidas numa viagem interestelar, Sagan
concluiu não serem plausíveis semelhantes taxas
de expedição, e por isso improvável que os óvnis
sejam visitantes interestelares.
É interessante o fato de Sagan ter questionado o
motivo para as pessoas se aterem tanto à hipótese
extraterrestre em relação aos óvnis. Perguntou por
que elas não propõem serem os óvnis coisas tais
como projeções do inconsciente coletivo, viajantes
do tempo, visitantes de outra dimensão ou
auréolas de anjos.
Conforme veremos, as pessoas têm levado tais
hipóteses em consideração. No entanto, para os
cientistas conservadores, todas elas se enquadram
na mesma categoria biruta que os fenômenos
psíquicos. Com seu perfil conservador por
natureza, os líderes da comunidade científica
limitam-se a considerar hipóteses que pareçam
plausíveis no contexto de princípios físicos
consagrados. Como a idéia de as pessoas estarem
vendo veículos fabricados por alguma forma de
inteligência não-humana parece contrariar
abertamente estes princípios, os pontos de vista
de Hoagland e Condon acerca dos óvnis têm um
atrativo natural para muitos cientistas.
Relatos sobre óvnis por cientistas e
engenheiros
Contrariando a previsão feita por Hoagland em
1969, tudo indica que nos últimos anos os óvnis
não foram esquecidos por quantos têm inclinação
para as coisas da ciência. Apesar de a comunidade
científica em geral rejeitar a seriedade do assunto
em suas publicações formais, muitos cientistas
parecem levá-lo a sério em nível individual.
Em julho de 1979, por exemplo, a revista Industrial
Research Development publicou uma pesquisa de
opinião sobre as atitudes de "1.200 cientistas e
engenheiros de todas as áreas de pesquisa e
desenvolvimento". Em resposta à pergunta: "Você
acredita na existência de óvnis?", 61% dos
entrevistados disseram achar provável ou certa a
existência deles, e 28% disseram considerá-la
improvável ou incerta. A probabilidade de
acreditar na existência de óvnis foi pelo menos
duas vezes maior para os pesquisadores com
menos de 26 anos do que para os com mais de 65,
e constatou-se uma contínua oscilação em
percentagens de crença entre estas duas faixas
etárias.
No que concerne às visões individuais, 8%
disseram ter visto um óvni, e 10% disseram talvez
ter visto. Além disso, 40% disseram acreditar que
os óvnis originam-se do "espaço exterior", 2%
acharam que eles se originam de algum lugar nos
Estados Unidos, e menos de 1%, que eles são uma
criação de países comunistas. Na opinião de mais
de 25% dos entrevistados, os óvnis são fenômenos
naturais.
Embora os cientistas também estejam ativamente
empenhados em investigar óvnis, isto é feito fora
das instituições científicas oficiais. Em alguns
casos, eles realizam tais investigações
individualmente e, em outros, trabalham em
parceria com organizações dedicadas à pesquisa
de óvnis. Estas organizações, apesar de às vezes
estruturadas como se fossem associações
científicas, não gozam de prestígio junto à
comunidade científica. Exemplo disto é a Mutual
UFO Network (MUFON). Em 1989, a junta
consultiva desta organização contava com 96
membros. Destes, 65 tinham doutorado, a maioria
em ciências naturais, e 16 eram médicos.
Um motivo para este interesse contínuo é o relato
de muitas visões de óvnis por pessoas confiáveis,
inclusive cientistas e engenheiros. A título de
ilustração, vou começar apresentando uma visão
relatada pelo astrônomo Clyde Tombaugh, o
descobridor do planeta Plutão. Tombaugh discorre
sobre sua experiência numa carta, datada de 10
de setembro de 1957, a um investigador de óvnis
chamado Richard Hall:
Caro Sr. Hall:
Com referência à solidez do fenômeno que eu vi:
minha esposa achou ter visto um débil fulgor de
conexão atravessar a estrutura. Os retângulos
iluminados que eu vi mantiveram de fato uma
posição fixa e exata entre si, o que tenderia a
sustentar a impressão de solidez. Duvido que o
fenômeno tenha sido algum tipo de reflexo
terrestre, porque alguma semelhança a ele teria
que ter aparecido muitas vezes. Faço muito uso da
observação (tanto telescópica quanto a olho nu)
no meu quintal, e nada daquele tipo jamais
apareceu antes ou desde então.
Esta carta foi incluída em The UFO evidence (A
evidência dos óvnis), uma ampla coletânea de
relatos sobre visões de óvnis editada por Hall e
publicada em 1964 por uma organização
americana conhecida como Comitê Nacional de
Investigações sobre Fenômenos Aéreos (NICAP).
Eis outro exemplo, extraído deste documento óvni
visto por um astrônomo:
Em 20 de maio de 1950, entre 12h15 e 12h20, o
Dr. Seymour L. Hess, meteorologista, astrônomo e
perito em atmosferas planetárias, observou, do
pátio do Observatório Lowell um objeto brilhante e
pelo menos parcialmente esférico no céu. Segundo
seu relato do incidente, escrito uma hora após a
visão, por certo o objeto não era nem uma ave
nem um avião, já que não tinha asas nem
propulsores. Embora parecesse ser muito brilhante
quando visto contra o céu, ao passar entre Hess e
uma pequena aglomeração de nuvens a noroeste,
pareceu ser de cor escura. Com base na elevação
e diâmetro angular do objeto, segundo percebeu
com seu binóculo de quádrupla potência de
aumento, Hess calculou que ele media entre 1 e
1,5 m. A julgar pelo movimento das nuvens, que
vagueavam em ângulos retos em relação ao
movimento do objeto, avaliou que ele devia estar
se locomovendo entre um mínimo de 160 e um
máximo de 320 km/h. Contudo, ele nem ouviu
nem viu qualquer sinal de motor. Desde 1964, o
Dr. Hess tem dirigido o Departamento de
Meteorologia da Universidade Estadual da Flórida.
Talvez seja significativo o fato de nenhuma dessas
visões ter ocorrido no transcurso de observações
astronômicas profissionais. O Relatório Condon
continha uma declaração de Carl Sagan e cinco
outros cientistas, segundo a qual "nenhum objeto
não-identificado afora aqueles de natureza
astronômica foi jamais observado durante estudos
rotineiros de astronomia, a despeito do grande
número de horas de observação dedicadas ao
céu". Conforme salientaram eles, o Mount Palomar
Sky Atlas contém cinco mil lâminas com um amplo
campo de visão, o Harvard Meteor Project de
1954-58 inclui 3.300 horas de observação e a
Smithsonian Visual Prairie Network apresenta
2.500 horas. Não obstante, "em todas essas
lâminas e observações, não há um relato sequer
de que algum objeto não-identificado tivesse
aparecido ou sido visto".
O astrofísico Thornton Page reagiu à declaração de
Sagan e seus colegas, frisando que "os telescópios
astronômicos em uso praticamente não têm
capacidade alguma de fotografar um óvni
passando pelo campo telescópico". No entanto, a
Prairie Network, prosseguiu ele, cobriu 65% do céu
rastreando objetos brilhantes numa área de cerca
de 700.000 km
2
no centro-oeste. Era para ela ter
conseguido localizar óvnis, mas não o conseguiu.
Uma possível explicação para isto foi dada pelo
astrônomo Franklin Roach, que passou mais de
três décadas estudando o brilho do ar no céu
noturno. A rotina de seus registros fotométricos,
observou ele, não incluía o rastreamento de óvnis,
ou objetos brilhantes não-identificados. De fato,
não seria de se esperar que tais objetos
constassem naqueles registros porque quaisquer
fontes de luz parecidas com estrelas eram
deliberadamente "subtraídas" e deste modo
omitidas.
Contudo, à época do estudo sobre óvnis realizado
por Condon, foi realizado um experimento para
verificar o que aconteceria se não se omitissem as
fontes de luz brilhantes:
Durante o Projeto Colorado, Frederick Ayer
supervisionou o estudo minucioso de uma noite de
observações no Observatório Haleakala no Havaí.
Naquele caso, os analistas foram orientados no
sentido de não subtraírem quaisquer deflexões.
Todas as deflexões parecidas com estrelas foram
então comparadas com as posições de estrelas e
planetas conhecidos. Um tanto para nossa
surpresa, em dois dos registros verificados perto
da meia-noite foram constatadas deflexões
inconfundíveis que não eram devidas a objetos
astronômicos conhecidos.
Roach concluiu ser importante estabelecer uma
cuidadosa distinção entre falta de relatos e falta
de pesquisa sistemática de fenômenos anômalos.
Ele também percebeu que seus registros
mostravam que os óvnis, apesar de não serem
objetos conhecidos, não davam indicação alguma
do que eram de fato. (Apesar de não ter
mencionado meteoros, presumo que ele cogitou
esta óbvia possibilidade.)
O Relatório Condon citou um estudo de mais de
quarenta astrônomos contido no chamado
Relatório Blue Book N.° 8 de 31 de dezembro de
1952. Aparentemente, cinco dos quarenta
astrônomos tiveram visões de óvnis — uma
percentagem tida como superior ao que seria
verificado caso se considerasse a população como
um todo. O autor desta seção do Relatório Condon
observou: "Talvez isto seja de se esperar, já que,
afinal, os astrônomos vivem observando o céu. Por
outro lado, não é provável que eles se deixem
enganar por visões de balões, naves aéreas e
objetos semelhantes, como pode ocorrer com o
povo em geral." Em seguida, ele teceu
comentários sobre algumas discussões que teve
com os astrônomos:
Não me apressei em ter uma conversa bem séria
com alguns deles e em conscientizá-los do fato de
algumas das visões serem de fato enigmáticas e
nada fáceis de serem explicadas. Isto despertou-lhes o interesse, quase que imediato, de um
indício de que a letargia deles deve-se, em geral, à
falta de informação acerca do assunto. E, com
certeza, outro fator que contribui para eles não
terem o menor desejo de conversar sobre essas
coisas é o pavor de virarem notícia.
Portanto, na verdade, astrônomos vêem óvnis,
muito embora não serem apresentadas provas da
existência deles em estudos astronômicos. Poderia
o pavor da publicidade estar induzindo os
astrônomos a evitarem relatar suas observações
de óvnis e a evitarem estudar ou chamar a
atenção para as observações que são relatadas?
Esta e outras perguntas nos instigam ao lermos
como o investigador de óvnis Jacques Vallee
despertou seu interesse por eles:
Passei a interessar-me seriamente pelo assunto
em 1961, quando presenciei alguns astrônomos
franceses apagando certa fita magnética onde
nossa equipe de rastreamento de satélites havia
gravado onze dados de ocorrência sobre um objeto
voador desconhecido que não era avião, balão ou
alguma nave conhecida que estivesse em órbita.
"As pessoas ririam de nós se relatássemos isto!",
foi a resposta que me deram na ocasião. "Melhor
esquecermos tudo isto e não expor o observatório
ao ridículo."
Na época, Vallee trabalhava como astrônomo
profissional. Mais tarde, tornou-se cientista da
computação e entre suas atribuições acumulava a
direção de uma equipe de pesquisa contratada
pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada
nos Estados Unidos. Sua experiência no
observatório, além de estimulá-lo a encarar a
pesquisa científica a partir de uma perspectiva
bastante radical, lançou-o numa carreira de
pesquisa sobre óvnis que rendeu muitos livros
influentes sobre o assunto.
Apesar da notória tendência de suprimir dados e
divulgar relatos incompletos, as visões de
indivíduos responsáveis se tornam, sem dúvida,
contribuições significativas e, conforme vão sendo
divulgadas ou transmitidas oralmente, contribuem
para a geração de uma corrente informal de
interesse no assunto. Eis mais dois relatos de
engenheiros, constantes em The UFO evidence:
(1) Enquanto caminhava numa noite de meados de
outubro de 1954, o major A. B. Cox, formado pela
Universidade de Yale, membro da Sociedade
Americana de Engenheiros Mecânicos e da
Sociedade de Engenheiros Americanos, observou
um grande e acinzentado objeto discóide no céu
acima de sua fazenda em Cherry Valley, Nova
York. Em carta datada de 28 de dezembro de 1955
a Richard Hall, diretor assistente de
correspondência do NICAP, Cox descreveu os
incomuns padrões de vôo do objeto, que ele
avaliava ter cerca de 12m de diâmetro e 1,5 a 2m
de espessura. Movia-se como uma roda deslizando
lateralmente, mas sem rotação. A certa altura, o
objeto parou de repente para em seguida voar
para o alto em ângulos aproximadamente retos
em relação ao seu curso anterior. Isto despertou a
curiosidade do engenheiro Cox, visto que a virada
foi mais brusca e mais rápida do que ele achava
ser possível para um avião.
(2) Uma bem testemunhada visão de óvni ocorreu
em 24 de abril de 1949, por volta das 10h30, no
Campo de Provas White Sands da Marinha
americana no Novo México. Charles B. Moore,
aerólogo e engenheiro aerostático graduado,
avistou, com uma equipe de quatro recrutas do
Campo de Provas, um objeto branco cintilante e
elipsóide enquanto trabalhava para o
Departamento de Pesquisa Naval. Usando um
teodolito ML-47 acoplado a um telescópio com
potência de aumento 25, eles estavam rastreando
balões meteorológicos quando localizaram o
objeto cintilante, que subtendia um ângulo de
cerca de 0,02 grau e era duas vezes e meia mais
comprido do que largo. (Teodolito é um
instrumento de precisão para medir a direção
horizontal e vertical de um objeto visto através de
um telescópio.) A olho nu bem como com o
telescópio, eles avistaram o objeto não-identificado por aproximadamente um minuto,
após o que ele sumiu de vista ao subitamente
elevar-se de 25 graus acima do horizonte para 29
graus.
Moore lançou outro balão quinze minutos depois
para avaliar as condições do vento. Este balão
explodiu após atingir 28 quilômetros de altura e
viajar apenas 20 quilômetros em 88 minutos,
dando prova positiva de que o objeto não poderia
ter sido um balão movendo-se a uma tal
velocidade angular abaixo de 24 quilômetros de
altura. Naquele dia, Moore e seu grupo
identificaram, segundo a aparência e o ruído do
motor, cada avião que sobrevoou a plataforma de
lançamento. Nada passou por cima daquela área
que tivesse alguma semelhança com o cintilante
objeto branco que eles haviam visto mais cedo.
Por vir da parte de um engenheiro, a visão de Cox
é digna de nota, já que o comportamento do
objeto por ele descrito era diferente do
comportamento de qualquer fenômeno natural
comumente conhecido ou de qualquer dispositivo
feito pelo homem. Contudo, descrições
semelhantes surgem de quando em quando em
relatos sobre óvnis.
A visão no Campo de Provas White Sands é típica
de toda uma categoria de relatos procedentes de
engenheiros e técnicos vinculados à pesquisa
militar. Uma dessas pessoas é o Dr. Elmer Green,
da Clínica Menninger em Topeka, Kansas, que me
transmitiu pessoalmente suas experiências de
quando trabalhava como físico para o Centro
Experimental da Marinha em China Lake,
Califórnia, entre 1947 e 1957. Em 1954 ou 1955,
ele era presidente da Divisão de Sistemas Ópticos,
uma subdivisão do Grupo Interdisciplinar de
Instrumentação. Era uma organização de cientistas
e engenheiros profissionais, civis e militares,
empenhados em gravar dados sobre testes
armados em diversas bases militares. Eram testes
de foguetes, mísseis teleguiados, bombas e naves
aéreas. A Divisão de Sistemas Ópticos interessava-se especificamente por fotografia métrica, para o
que usava câmeras de rastreamento de alta-
resolução, bem como fototeodolitos para
determinar as trajetórias de foguetes e outros
objetos voadores. Muitos destes equipamentos
eram feitos por encomenda, atendendo aos mais
elevados padrões profissionais.
Em função de seu cargo de liderança, Green ficava
sabendo de freqüentes incidentes em que óvnis
eram fotografados ao passarem voando pelo
âmbito de visão das câmeras durante os testes
armados. Além de ter ouvido falar de filmes de boa
qualidade que haviam sido feitos a respeito dos
óvnis, ele próprio viu diafilmes de óvnis em preto-e-branco feitos por pessoas de seu grupo.
Conhecia uns quarenta ou cinqüenta profissionais
que haviam tido alguma espécie de visão de óvnis
durante os testes.
Em um dos casos de White Sands, um foguete V2
quase incendiou-se. Dois objetos de cerca de um
metro de diâmetro desceram, circularam o V2
diversas vezes e subiram de novo, sumindo no
céu. Como os fotógrafos gastaram todos os seus
rolos de filme com os óvnis, o vôo do V2 foi
cancelado até eles recarregarem suas câmeras.
O próprio Green viu um óvni na presença de Jack
Clemente, que foi, em certa época, o fotógrafo
chefe do Centro Experimental da Marinha em
China Lake. Os dois estavam esperando a chegada
de um bombardeiro AJ, que eles avistaram se
aproximando a cerca de 240 metros. Enquanto o
avião sobrevoava a área, eles viram um objeto
com cerca de cinco metros de diâmetro voando a
cerca de 120 metros abaixo dele. O objeto parecia
ser uma nave com estrutura mecânica. Tinha uma
dianteira semicircular marcada com o que
pareciam ser linhas de rebites, e uma traseira
semicircular de menor tamanho e da cor do âmbar
como um triângulo de artista. Num piscar de olhos,
o objeto saltou para a asa do avião. Ali ele
permaneceu como que sondando o avião por
alguns segundos, e depois voou para longe a
grande velocidade, sumindo de vista em 2,5-3
segundos. Com base em sua experiência com
foguetes, Green avaliou sua aceleração a 100-200m/s
2
. O objeto não fez ruído algum nem
apareceu no radar (embora outros óvnis tenham
aparecido). Contudo, foi fotografado, e Jack
Clemente escreveu um relatório sobre o incidente.
Mais tarde, Clemente pediu para ver uma cópia de
seu relatório e das fotos que o acompanhavam.
Mas disseram-lhe não haver vestígio algum de tal
relatório nos arquivos da base local. Segundo ele
disse a Green, todos os filmes e fotografias de
óvnis desapareceram, tendo sido presumivelmente
enviados a Washington.
Perguntei a Green se ele alguma vez recebera
ordem de guardar segredo das informações sobre
os óvnis. Ele respondeu que, apesar de ter acesso
a informações altamente sigilosas, nunca lhe
haviam dito para manter segredo sobre os
incidentes com óvnis. Tais incidentes nunca eram
discutidos por autoridades militares, explicou ele.
Não havia necessidade de ordenar sigilo sobre
fenômenos que simplesmente não existiam.
Green percebeu que, mesmo parecendo
mecânicos, os óvnis pareciam violar as leis da
física. Embora eles freqüentemente excedessem a
velocidade do som, nunca foram produzidos ruídos
sônicos. Suas manobras lembravam-no os
movimentos de um feixe de luz projetado sobre
uma parede por uma lanterna, e ele especulava
que aqueles objetos poderiam ser estruturas
projetadas de alguma forma em nossa massa
espaço-temporal contínua.
Segundo disse ele, as pessoas de seu grupo
experimentaram muito mais incidentes com óvnis
no começo dos dez anos iniciados em 1947 do que
no fim deles. Tão logo começou a trabalhar em
China Lake, observou, ele via com regularidade os
clarões das rajadas de ar expelidas por bomba
atômica no centro de testes nucleares de Nevada.
Conforme pôde notar, algumas pessoas
especulavam sobre uma ligação entre as
atividades dos óvnis e os testes nucleares. O
motivo para o aparente acobertamento dos óvnis,
segundo ele especulava, era o fato de as
autoridades governamentais não quererem admitir
sua incapacidade para entender os óvnis ou
impedi-los de voar com impunidade por nossos
céus.
Esta é uma história surpreendente que nos remete
outra vez a questões envolvendo credibilidade,
ridicularização e supressão de informação. Se a
história é verdadeira, então, sem dúvida, pelo
menos quarenta ou cinqüenta cientistas
profissionais sabiam da existência dos óvnis nos
primórdios dos anos 50. Sendo assim, por que os
óvnis não são reconhecidos abertamente por
cientistas e líderes da sociedade? Esta história
introduz um elemento novo, o sigilo do governo,
que será examinado no Capítulo 3. A eliminação
sistemática de provas "concretas" por parte de
autoridades governamentais aliada ao temor do
ridículo e à perda da carreira podem explicar o
motivo para que nenhum desses cientistas jamais
tenha feito apresentações públicas convincentes
de suas experiências, individuais ou coletivas, com
óvnis.
Sobre cientistas que estudam óvnis
Gerard Kuiper, do Laboratório Lunar e Planetário
da Universidade do Arizona, discorda da idéia de
poderem os cientistas se deixar controlar pela
pressão social. Numa reunião na Academia de
Ciências do Arizona em 29 de abril de 1967, ele
disse: "Sinto-me na obrigação de corrigir uma
afirmação que vem sendo feita quanto ao fato de
os cientistas se intimidarem com respeito aos
relatos sobre óvnis por temor ao ridículo. Como
cientista praticante, declaro que isto é puro
disparate." O cientista, salientou ele, "escolhe sua
área de investigação, não por causa de pressões,
mas sim por ver a possibilidade de promover
algum avanço científico significativo".
Sem dúvida, em parte Kuiper está certo. Talvez
alguns cientistas não tenham tido visões anômalas
envolvendo óvnis, e talvez acreditem
sinceramente que, se viessem a tê-las, haveriam
de relatá-las abertamente. Outros talvez já tenham
de fato avistado óvnis e mais tarde suprimido suas
observações ao depararem cara a cara com o
temor de perderem suas carreiras. Isto, por sua
vez, reforça a opinião do primeiro grupo, segundo
a qual não tem havido visões sérias de óvnis.
Alguns cientistas profissionais têm se dedicado
abertamente a investigações sobre óvnis.
Contudo, as histórias deles também envolvem os
temas da credibilidade e da supressão de dados. A
título de ilustração, vou primeiro abordar as idéias
de J. Allen Hynek, astrônomo e tarimbado
consultor da Força Aérea para assuntos
relacionados a óvnis. Com o passar dos anos, os
pontos de vista de Hynek acerca dos óvnis
mudaram bastante e, neste meio tempo, ele fez
uma série de afirmações aparentemente
contraditórias que geraram dúvida e confusão,
entre outros cientistas, quanto ao tema dos óvnis.
Num artigo sobre óvnis, William Markowitz cita
uma carta endereçada a Science na qual Hynek
declara que, embora se diga que cientistas jamais
fazem relatos a respeito de óvnis, na verdade,
"alguns dos melhores e mais coerentes relatos
têm-se originado de pessoas com formação
científica". Em seguida, Markowitz cita uma
afirmação de Hynek na Encyclopaedia Britannica,
na qual se refere ao "fracasso da contínua e
extensa vigilância de observadores treinados" no
sentido de avistar óvnis. Para Markowitz, estas
afirmações aparentemente contraditórias põem
em dúvida a confiabilidade dos dados sobre óvnis.
Markowitz também cita uma carta do Dr. William
T. Powers endereçada a Science em 7 de abril de
1967:
Em 1954, mais de duzentos relatórios do mundo
inteiro tratavam da aterrissagem de objetos,
muitos deles com ocupantes. Destes, cerca de
51% foram observados por mais de uma pessoa.
De fato, pelo menos 624 pessoas estiveram
envolvidas nestas visões, e apenas 98 das
mesmas estavam sozinhas. Em dezoito casos com
testemunhas múltiplas, algumas das testemunhas
não tinham conhecimento de que alguém mais já
tivesse visto a mesma coisa na mesma época e no
mesmo lugar. Em treze casos, havia mais de dez
testemunhas. Que fazer com relatos como estes?
Um fato fica claro: não podemos simplesmente
fingir que eles não existem.
Powers estava fazendo uma afirmação um tanto
forte. Houve de fato mais de cem casos nos
Estados Unidos em 1954 em que pelo menos duas
pessoas tivessem visto um óvni aterrissar?
Segundo Markowitz, em 1966, Hynek informou-o
não ter relatos confiáveis de aterrissagens e
decolagens de óvnis, tampouco registros de casos
em que uma testemunha confiável tivesse visitado
uma nave extraterrestre ou conversado com um
ocupante. Esta declaração também encheu
Markowitz de dúvidas.
No entanto, a declaração em si já era duvidosa.
Num simpósio sobre óvnis realizado sob os
auspícios da AAAS em 1969, Hynek disse o
seguinte acerca de contatos imediatos com óvnis:
Eu não seria um bom relator nem um bom
cientista se rejeitasse dados de forma deliberada.
Temos hoje registrados cerca de 1.500 relatos de
contatos imediatos, metade dos quais inclui
também a presença de ocupantes nas naves.
Embora faça anos que estamos recebendo relatos
sobre tais ocupantes, apenas poucos deles
encontram-se registrados nos arquivos da Força
Aérea. De modo geral, a equipe do Projeto Blue
Book categorizou tais relatos, sumariamente e
sem maiores investigações, como "psicológicos"
ou birutas.
Hynek, conforme se poderia sugerir, julgava esses
relatos duvidosos, muito embora não tivesse
expressado suas dúvidas ao mencioná-los perante
os membros da AAAS. Porém, em 1972, Hynek
escreveu acerca de seu encontro com Betty e
Barney Hill, duas pessoas que afirmavam ter
falado com alienígenas a bordo de uma nave
extraterrestre. Falando da "aparentíssima
sinceridade" deles, ele disse "não haver a menor
dúvida quanto à normalidade e sanidade dos dois".
Este encontro com os Hill ocorreu por volta de
1966, próximo da época da declaração feita por
Hynek a Markowitz.
As aparentes contradições nas afirmações de
Hynek podem talvez ser atribuídas à evolução
gradual de suas idéias acerca dos óvnis e à sua
cautela quanto a fazer declarações públicas que
viessem a prejudicar sua credibilidade. Por muitos
anos, Hynek foi professor de astronomia e titular
do departamento de astronomia da Universidade
Northwestern. Por cerca de vinte anos, a partir do
início de 1948, foi, também, consultor científico da
Força Aérea americana para assuntos relacionados
a óvnis, e mais tarde atuou como diretor de uma
organização civil de pesquisas sobre óvnis
chamada Centro para Estudos sobre Óvnis
(CUFOS).
Os pontos de vista de Hynek sobre óvnis mudaram
muito com o passar dos anos. A princípio, era um
cético declarado, para o qual os óvnis não
passavam de loucura ou farsa inteiramente
ridículas, fadadas a rápido declínio. Porém, por
volta de 1979, ele já dava crédito sério a idéias
que pareceriam ultrajantes para físicos
conservadores como Hoagland ou Markowitz. Em
sua introdução ao livro The Andreasson Affair (O
romance de Andreasson), de Raymond Fowler,
Hynek escreve:
Temos aqui "criaturas de luz" para as quais
paredes não impedem o ingresso livre em recintos
e para as quais é tão fácil exercer controle
excepcional sobre as mentes das testemunhas. Se
isto representa uma tecnologia avançada, então,
com certeza, incorpora o fenômeno paranormal
tanto quanto nossa tecnologia incorpora
transistores e computadores. De alguma forma,
"eles" se tornaram mestres no enigma da mente
sobre a matéria.
Poder-se-ia perguntar por que um professor de
astronomia publicaria semelhante declaração.
Estava ele dizendo o que as "criaturas de luz"
viriam a ser se existissem, e sustentando, ao
mesmo tempo, um ceticismo saudável acerca da
existência ou não das mesmas? Talvez, mas,
segundo ele também disse em sua introdução ao
livro, este representaria um forte desafio aos
céticos que tivessem a coragem de fazer um
exame honesto do texto, declarando, ainda, que o
mesmo não mostrava o menor sinal de embuste
ou artimanha.
Um resumo da posição de Hynek quanto aos
humanóides dos óvnis consta em seu livro The
UFO Experience, publicado em 1972:
Nosso bom senso, além de retroceder ante a
própria idéia da existência de humanóides,
provoca troças, ridicularização e piadas sobre
homenzinhos verdes. Estes induzem-nos a
desacreditar de todo o conceito de óvni. Talvez
óvnis pudessem realmente existir, dizemos, mas
humanóides? E se eles são mesmo fantasias de
nossa imaginação, os óvnis comuns devem sê-lo
também. Mas são defendidos por tantas
testemunhas respeitáveis que não temos como
encará-los como meras falhas de percepção.
Acaso, então, todos esses relatores de óvnis
seriam mesmo doentes?...
Ou será que tanto os humanóides como os óvnis
revelam uma "realidade" paralela que por algum
motivo manifesta-se para alguns de nós por
períodos muito limitados? Mas que realidade seria
esta? Há um filósofo em casa?
Muitas de tais perguntas e muitas das informações
a elas relacionadas são difíceis de compreender.
De fato, contudo, não se podem desconsiderar os
contatos com ocupantes: são por demais
numerosos.
Contudo, as idéias que Hynek estava disposto a
discutir em público, em 1966, eram muito menos
radicais. Por exemplo: numa audiência do Comitê
Nacional das Forças Armadas sobre óvnis em 5 de
abril de 1966, perguntaram a Hynek se os óvnis
seriam pilotados por seres extraterrestres ou não.
Ele respondeu:
Não sei de prova alguma que confirme isto,
tampouco conheço algum cientista competente
que o saiba ou que acredite no envolvimento de
algum tipo de inteligência extraterrestre. No
entanto, devemos manter em aberto a
possibilidade desta hipótese. (...) Mas não há, sem
dúvida, provas reais do comportamento inteligente
de ferragens.
Ao lhe perguntarem se procurava uma explicação
para os óvnis baseada em fenômenos naturais,
Hynek respondeu: "Sim." Conforme estas
declarações dão a entender, em 1966 Hynek não
achava que os óvnis fossem controlados por
alguma espécie de inteligência. Todavia, em seu
livro de 1972, ele diz que em primeiro de agosto
de 1965 ocorreu uma série de eventos notáveis
nas instalações da Força Aérea americana perto de
Cheyenne, Wyoming. Segundo declarou, estes
eventos chegaram ao seu conhecimento na época
por intermédio de sua ligação com o Projeto Blue
Book. Eis os relatos registrados:
1h30 — O capitão Snelling, do posto de comando
da Força Aérea americana perto de Cheyenne,
"Wyoming, ligou para informar ter a estação de
rádio local recebido de quinze a vinte telefonemas
a respeito de um grande objeto circular emitindo
diversas cores, mas nenhum som, avistado
sobrevoando a cidade. Segundo relataram dois
oficiais e um piloto-aviador da base de controle,
após ser avistado sobrevoando diretamente a base
de operações, o objeto passara a mover-se
depressa em direção ao nordeste.
2h20 — O coronel Johnson, comandante da Base
Aérea Francis E. Warren, próxima a Cheyenne,
Wyoming, ligou para Dayton informando que o
oficial comandante do posto de treinamento de
recrutas em Sidney, Nebraska, avistou cinco
objetos à 1h45...
2h50 — Nove outros óvnis foram avistados, e às
3h35 o coronel Williams, oficial comandante do
posto de treinamento de recrutas em Sidney,
Nebraska, relatou ter avistado cinco óvnis
rumando para o leste.
4h05 — O coronel Johnson fez outra ligação
telefônica para Dayton para informar que, às 4h, o
vôo Q registrou ter avistado nove óvnis: quatro
para o noroeste, três para o nordeste e dois
sobrevoando Cheyenne.
4h40 — O capitão Howell, do Posto de Comando da
Força Aérea, ligou para Dayton e para o escritório
do Serviço Secreto para informar que uma Equipe
Estratégica de Comando Aéreo no Sítio H-2, às 3h,
registrou um óvni branco e oval sobrevoando
diretamente a área. Mais tarde, o Posto
Estratégico de Comando Aéreo transmitiu o
seguinte: a Base Aérea Francis E. Warren relata
(Sítio B-4, 3h17) — um óvni 160 quilômetros a
leste de Cheyenne em alta velocidade e descendo
— oval e branco com linhas brancas em ambos os
lados e uma luz vermelha brilhante em seu centro,
rumando para o leste; registro de aterrissagem
dezesseis quilômetros a leste da área.
3h20 — Sete óvnis avistados a leste da área.
3h25 — Sítio E registrou seis óvnis agrupados na
vertical.
3h27 — G-l registrou um óvni ascendendo e, ao
mesmo tempo, E-2 registrou dois outros óvnis que
se haviam juntado aos sete, totalizando nove.
3h28 — G-l registrou um óvni descendo mais
distanciado, na direção leste.
3h32 — No mesmo sítio, um óvni decola e aplaina.
3h40 — Sítio G registrou um óvni a 70° do azimute
e outro a 120°. Em seguida, três vieram do leste,
agrupados na vertical, passando pelos outros dois,
para então todos os cinco rumarem para o oeste.
Para o espanto de Hynek, quando ele perguntou
ao major Quintanilla, o oficial responsável pelo
Blue Book, o que estava sendo feito para
investigar estes relatos, Quintanilla respondeu que
os objetos avistados nada mais eram do que
estrelas. Se isto parece improvável, que eram eles,
afinal? Tanto o comportamento ordenado dos
objetos quanto sua tendência a sobrevoar
instalações militares sugerem, de fato, uma
orientação inteligente. Além disso, formatos ovais
com luzes vermelhas brilhantes no centro são
sugestivos de um design inteligente.
Em seu livro publicado em 1972, Hynek deu, sem
dúvida, margem a que o leitor interpretasse estes
relatos recebidos em 1965 como prova de uma
inteligência desconhecida. Todavia, menos de um
ano após recebê-los, Hynek disse ao Congresso
que não "existem provas reais do comportamento
inteligente de ferragens".
Analisei o desenvolvimento das idéias de Hynek
com certa minúcia para ilustrar tanto o caráter
extremo dos fenômenos ufológicos relatados
quanto o impacto que isto exerceu sobre um
cientista conservador que tentava estudar e
entender estes mesmos fenômenos.
Aparentemente, movido pela necessidade de
proteger sua credibilidade, Hynek acabou fazendo
declarações contraditórias que minaram a
credibilidade das provas ufológicas em geral. Ao
mesmo tempo, é impressionante como se
acentuou a sua disposição para levar a sério os
fenômenos ufológicos mais extremos.
Considerando o fato de Hynek ter demonstrado ser
um pensador cuidadoso e criterioso, poder-se-ia
indagar o que o levou a adotar, por fim, uma
posição tão radical.
Embora em meados dos anos 60 Hynek
menosprezasse a idéia de controle inteligente dos
óvnis, um destacado cientista chamado James
McDonald a defendia com veemência. McDonald
era físico sênior do Instituto de Física Atmosférica
e professor do departamento de meteorologia da
Universidade do Arizona. Num depoimento público
preparado para editores de jornal, ele apresentou
o seguinte resumo de seus pontos de vista:
Concluo, após analisar a fundo centenas de
destacados relatos sobre óvnis e entrevistar
pessoalmente dúzias de testemunhas-chave de
casos importantes, que o problema óvni é de suma
importância científica. Longe de merecer ser
tachado de "problema disparatado", conforme o
tem sido durante vinte anos de desmando oficial,
ele tem merecido a atenção da ciência, da
imprensa e do público, não só dos Estados Unidos,
mas também do mundo inteiro, por ser
considerado um sério problema da maior
importância. [...]
Apesar de sua probabilidade a priori parecer
remota, a hipótese de os óvnis serem talvez
sondas extraterrestres é, segundo sugerem, a
menos insatisfatória para explicar as provas
ufológicas atuais.
O artigo de McDonald contém resumos de dezoito
análises de visões de óvnis, bem como um
comentário sobre a história da controvérsia
ufológica e do papel que nela têm representado a
ciência, o governo americano e as forças armadas.
A este respeito, ele discorda da tão difundida idéia
de que o governo esteja deliberadamente
acobertando informações sobre óvnis. Pelo
contrário, conclui ele, esta é "uma grande injustiça
desencadeada por pessoas de limitada
competência científica, que se sentem
apalermadas diante de um problema tão confuso e
constrangedor". Hynek também tendia à mesma
conclusão.
O desmascaramento científico dos óvnis é outro
tema abordado com certa minúcia por McDonald.
Neste caso, ele faz menção específica do trabalho
do Dr. Donald Menzel, astrônomo que foi em certa
época diretor do Harvard College Observatory e
escreveu livros atribuindo as visões de óvnis a
erros de percepção de fenômenos astronômicos ou
meteorológicos.
McDonald analisa a maneira como Menzel explica
a supramencionada visão de óvni do astrônomo
Clyde Tombaugh. Na concepção de Menzel,
Tombaugh viu as janelas iluminadas de uma casa
refletidas por uma pequena ondulação no limite de
uma camada de cerração. À medida que esta
ondulação avançava com seu movimento sinuoso,
teria parecido que a casa refletida se locomovia
como um disco voador. Os comentários de
McDonald a este respeito são sarcásticos:
Bem, pode ser que um leigo engula esta
explicação. Mas, para quem tem noção básica de
física da reflexão e, em particular, das
propriedades da atmosfera, (...) é simplesmente
absurda a sugestão de que há "camadas de
cerração" com gradientes com índices de refração
fortes o bastante para gerar reflexos visíveis de
luzes de janela. Porém, nas explicações de Menzel,
reflexos de luz originários de camadas de cerração
são de fato uma vista e tanto. E é isto que eu não
alcanço entender.
Apesar de o artigo de McDonald ter sido elaborado
apenas para editores de jornal sem jamais ter sido
publicado, ele chegou a escrever um artigo sobre
óvnis para o jornal Astronautics and Aeronautics
(Astronáutica e Aeronáutica). Trata-se do estudo
minucioso de um episódio de julho de 1957, em
que um RB-47 da Força Aérea, tripulado por seis
oficiais, foi seguido por um objeto luminoso e
altamente manobrável por cerca de uma hora e
meia desde o Mississippi, passando por Louisiana e
o Texas, até Oklahoma (veja páginas 225-26). Este
caso é significativo por ter envolvido a observação
do objeto simultaneamente pela visão humana,
pelos radares da base aérea e do avião e pelo
equipamento de alarme eletrônico do avião.
Lamentavelmente, a mesma edição que publicou
este artigo também anunciou o óbito de McDonald,
que parece ter cometido suicídio no deserto
próximo a Tucson em 13 de junho de 1971. Na
nota de óbito incluiu-se a seguinte declaração, que
nos remete ao tema de ridicularização, ciência e
óvnis:
A história do problema óvni tem sido marcada por
eventos incomuns e trágicos. Homens
responsáveis por admiráveis conquistas científicas
têm-se deixado levar por pontos de vista os mais
controversos. Outros têm-se tornado vítimas de
ataques mordazes ou, o que é talvez pior, do
ridículo. MacDonald foi um deles.
Estudos científicos recentes sobre
óvnis
Em anos mais recentes, tem persistido a tendência
da comunidade científica de desdenhar o assunto
dos óvnis. No entanto, em 1982, treze professores
de ciência de universidades americanas
renomadas fundaram a Sociedade para Exploração
Científica. O propósito explícito desta sociedade é
promover o estudo de fenômenos anômalos que os
cientistas tendem a negligenciar, e ela publica um
jornal técnico de referência intitulado Journal of
Scientific Exploration (Jornal de Exploração
Científica). Além de vir publicando uma série de
artigos sobre óvnis, este jornal também publica
artigos sobre fenômenos paranormais.
Um dos artigos publicados no Journal of Scientific
Exploration descrevia com bastante minúcia a
reação da NASA a uma recomendação, feita em
1977 pelo assessor de assuntos científicos do
presidente Carter, no intuito de se formar um
comitê de inquérito sobre os óvnis. O autor do
artigo, Dr. Richard Henry, fez algumas
observações acerca dos motivos para a NASA ter
rejeitado esta recomendação. O principal motivo
era o medo do ridículo. Conforme palavras do
próprio Henry, os óvnis são como um boneco de
piche e, "uma vez que um cientista toque no
boneco de piche, como é o meu caso, corre o risco
de ficar cada vez mais grudado nele. Eu não tenho
estômago para isto." Outro motivo importante era
o fato de os estudos sobre óvnis solaparem os
fundos já escassos destinados a outros projetos
científicos prioritários.
Em 1977, o governo francês criou uma comissão
civil de estudos científicos sobre óvnis. Esta
comissão, inteiramente subsidiada com recursos
federais, chama-se Grupo de Estudos de
Fenômenos Aeroespaciais Não-identificados
(GEPAN). A comissão produziu um relatório de
quinhentas páginas em cinco volumes, que em
1978 foi resumido da seguinte forma pelo
sociólogo Dr. Ronald Westrum:
A maior parte da obra foi dedicada a onze casos de
alta credibilidade e grande estranheza (...) [que]
foram estudados com bastante minúcia; apenas
dois deles mostraram ter uma explicação
convencional. Os outros nove dão a entender que
a distância entre as testemunhas e os objetos era
de menos de 250 metros. Dos cinco volumes do
relatório, três foram inteiramente dedicados à
análise desses onze casos, todos, exceto um são
anteriores a 1978. O mais antigo data de 1966.
Dois deles tratavam de visões de humanóides.
A análise e a investigação de cada caso foram
realizadas por uma equipe de quatro pessoas; a
equipe contava com um psicólogo, que aplicava
um exame psicológico paralelo, relevante para a
avaliação do depoimento das testemunhas.
Comparativamente, o esmero com que foram
avaliados distanciamentos, ângulos e fatores
psicológicos faz o grosso do Relatório Condon
parecer muito medíocre. Em muitos casos, as
investigações estabeleciam verdadeiros modelos
didáticos de como as mesmas devem ser levadas
a cabo.
A razão do número de casos sem explicação
convencional para o número total de casos
dependerá do processo de triagem utilizado para
se chegar ao conjunto inicial de casos. Se os casos
forem aceitos sem discriminação, então, esta
razão poderá ser muito baixa, fato que poderá ser
usado para argumentar que o "resíduo
inexplicado" de visões é insignificante. O Projeto
Blue Book, por exemplo, relacionou 10.147 visões
no período de 1947 a 1965, 646 das quais, ou seja,
cerca de 6%, foram tidas como inexplicadas. Em
seu depoimento perante o Congresso em 5 de abril
de 1966, o ministro da Aeronáutica Harold Brown
descartou este pequeno resíduo, dizendo que, com
efeito, devido às imperfeições contidas nos
relatórios, não é de se esperar que tudo tenha
explicação:
As restantes 646 visões relatadas são aquelas cuja
informação disponível não fornece uma base
adequada para análise, ou para as quais a
informação sugere uma hipótese, mas não se pode
provar que o objeto ou fenômeno que a explica
tivesse estado aqui ou acontecido naquele dado
momento.
Na França, os relatos sobre óvnis também foram
investigados pelo Centro Nacional de Estudos
Espaciais (CNES), o equivalente francês da NASA.
Em 1989, J. J. Velasco, em depoimento feito numa
conferência da Sociedade para Exploração
Científica, dos Estados Unidos, afirmou que 38%
dos casos de óvnis estudados pelo CNES
permaneciam não-identificados como fenômenos
naturais. Tudo indica, portanto, que o CNES
utilizou procedimentos de triagem mais rígidos do
que a Força Aérea americana, sendo que os casos
estudados pelo GEPAN foram avaliados com mais
rigidez ainda.
As conclusões do estudo do GEPAN contrastam
agudamente com as conclusões de Harold Brown,
ministro da Aeronáutica americano:
Para nove dos onze casos, concluiu-se que as
testemunhas haviam presenciado um fenômeno
material impossível de ser explicado como um
fenômeno natural ou um invento humano.
Conforme uma das conclusões da íntegra do
relatório, por trás do fenômeno como um todo,
existe uma "máquina voadora cujas modalidades
de sustentação e propulsão estão além de nosso
conhecimento".
Desta forma, ao invés de verem falta de provas de
uma explicação natural no "resíduo desconhecido",
os cientistas do GEPAN viram provas positivas de
uma máquina voadora inexplicável.
Em suma, o objetivo deste capítulo tem sido
demonstrar que a questão ufológica tem merecido
a séria atenção de um número razoável de
cientistas respeitáveis, além de ter sido tema de
debate em fóruns científicos oficiais. Isto sugere
não ser possível simplesmente descartar o
fenômeno ufológico como sendo algo disparatado
ou pseudocientífico. Ao mesmo tempo, muitos dos
fenômenos relatados parecem ser incompatíveis
com abalizados princípios científicos, enquanto
outros, de tão bizarros, violam as normas de bom
senso vigentes na sociedade moderna. Muito
embora alguns cientistas renomados tenham
argumentado que os relatos sobre tais fenômenos
deveriam ser estudados com seriedade, outros há
que os têm denunciado com muita veemência.
Isto, aliado à tendência natural das pessoas para
rejeitar histórias bizarras, tem rodeado o tema
ufológico com uma aura de ridicularização que
acaba dificultando o estudo sério do assunto.
2
Contatos imediatos de diversos graus
Nos Estados Unidos, costuma-se dizer que a
história dos óvnis teria começado com a famosa
visão de Kenneth Arnold, um homem de negócios
de Boise, Idaho. Pilotando seu avião particular no
estado de Washington, em 24 de junho de 1947,
Arnold avistou nove objetos brilhantes e chatos
voando enfileirados perto do monte Rainier, e
comparou o peculiar movimento daqueles objetos
ao de um disco ricocheteando sobre a água. Um
repórter, inspirado pela descrição, cunhou a
expressão "discos voadores", popularizada à
medida que assomavam ondas de relatos sobre
estranhos objetos vistos nos céus.
Surpreendentemente, com o transcorrer dos anos,
o número de relatos não diminuiu. Pelo contrário,
além de persistir em países do mundo todo, o
fenômeno prossegue até hoje.
Como já vimos, muitos desses objetos voadores
não-identificados, ou óvnis, não se enquadram
muito bem em teorias científicas consagradas, e
por isso têm mostrado ser motivo de embaraço
para os cientistas. Conforme se constatou, alguns
deles eram estranhos o bastante para escandalizar
a visão de mundo de praticamente qualquer
pessoa. Neste capítulo, apresentarei uma visão
geral dos típicos contatos com óvnis que as
pessoas têm relatado.
Para começar, tecerei alguns comentários sobre
minha forma de abordar as provas da existência
de óvnis. Todo este conjunto de provas consiste
em histórias narradas por testemunhas. Conforme
mencionei na Introdução, mesmo "provas
concretas" sob a forma de fotografias ou vestígios
de aterrissagem resultam insignificantes se não
vêm acompanhadas de algum testemunho
pessoal. Suponhamos que alguém apresente, por
exemplo, uma amostra de metal de composição
incomum e diga tratar-se de parte de um óvni.
Considerando ser este um testemunho válido, a
amostra de metal poderá revelar-nos algo sobre o
material com que o óvni foi feito. Mas, sem este
testemunho, a amostra não nos servirá para nada.
Deste modo, a evidência crucial, em se tratando
de casos de óvnis, é sempre anedótica — o que
simplesmente quer dizer que ela consiste em
testemunho humano.
Ao recontar as experiências das pessoas com os
óvnis, eu costumo apenas narrar os fatos como me
foram ditos. Entenda-se, contudo, que esta é, em
geral, a história contada pela testemunha ao
investigador. Em outros casos, trata-se daquilo
que um autor extraiu do relato feito por um
investigador sobre o que uma testemunha lhe
contou. Poucos são os casos em que a própria
testemunha me conta a sua história.
A abordagem segundo a qual confiamos no
testemunho de outrem é de uso universal no
âmbito da ciência. Por exemplo: o que sabemos do
que Michelson e Morley fizeram em seu famoso
experimento com o interferômetro depende por
completo do testemunho humano e da
transmissão deste testemunho por meio de relatos
escritos.
Poucos levantariam objeções à história de
Michelson e Morley. Contudo, no caso das bizarras
histórias associadas aos óvnis, é possível objetar
que o testemunho humano não é confiável e
salientar as muitas falhas da mente e dos sentidos
humanos. Mesmo levando em conta estas falhas, o
testemunho humano é tudo de que dispomos.
Sugiro ser errôneo fazer objeções a testemunhos
bizarros só por eles serem bizarros. Fazê-lo seria
legislar que apenas afirmações convencionalmente
aceitáveis podem ser admitidas como provas. Isto
seria correto se a natureza absorvesse nossas
noções do que seria aceitável, mas é bem possível
que a natureza não se comporte assim. Portanto,
prefiro adotar a estratégia de dar crédito ao
testemunho humano e reconhecer que as objeções
a este falível testemunho também dependem do
também falível julgamento humano.
Ao analisarmos relatos sobre óvnis, é importante
termos um entendimento claro do que vem a ser
um óvni. Este termo poderia ser usado para
referir-se a praticamente qualquer coisa vista no
céu, ou em terra, que pareça incomum ou
inexplicável. No entanto, com base no uso social
que remonta à época da visão de Kenneth Arnold,
o termo em geral se refere a algo parecido com
um veículo desconhecido e guiado por alguma
espécie de inteligência. "Desconhecido" neste
contexto significa que a manifestação observada
não se assemelha a fenômenos naturais
conhecidos ou a conhecidos objetos feitos pelo
homem.
A expressão "veículo guiado por alguma espécie
de inteligência" quer dizer que a manifestação ou
se assemelha a um objeto fabricado, ou se
comporta de determinada forma sugestiva de
inteligência. Por exemplo: se algo tem aspecto
metálico, suavemente curvo e simétrico, podemos
dizer que parece um objeto fabricado. Esta
impressão se acentua ainda mais se o objeto
parece ser dotado de janelas, portas ou trem de
aterrissagem. Em alguns casos, embora só se veja
uma luz distante, os movimentos da luz podem
sugerir uma orientação inteligente. Deste modo,
se a luz se movimentar em diferentes direções, as
testemunhas poderão achar que não se trata de
um meteoro ou um satélite. Se, além disso, a luz
parecer mover-se de unia maneira que não seria
de se esperar no caso de um balão ou uma nave
aérea, então, poderão chamá-la de óvni.
Como podemos ver a partir daí, sendo um óvni
considerado como qualquer coisa, menos algo
não-identificado, a expressão "objeto voador não-identificado" é uma designação errônea. Chamar
algo de óvni quer dizer que se trata de um tipo
específico de fenômeno, conforme definido acima.
Deste modo, por vezes encontraremos quem diga:
"Não era um avião nem uma estrela. Era um óvni
autêntico." Isto não significa que o fenômeno
observado era autenticamente não-identificado.
Significa, antes, que se deseja identificar o
fenômeno como uma manifestação desconhecida
que aparenta ser um veículo guiado por alguma
espécie de inteligência.
Algumas das visões de óvnis envolvem luzes
distantes vistas à noite, objetos de aparência
sólida vistos durante o dia ou objetos detectados
pelo radar. J. Allen Hynek classifica-as como luzes
noturnas, discos diurnos e casos de radar. Nesta
última classificação, incluem-se visões por meio do
radar em que, segundo se constatou, uma
observação visual se correlacionava fortemente
com observações de radar. Alem disso, há os
chamados contatos imediatos (CI), categorizados
por Hynek da seguinte maneira:
CI1: Objetos vistos em terra ou a uma distância
próxima do observador.
CI2: O mesmo que CI1, mas com nítidos efeitos
sobre o meio ambiente, os observadores ou os
instrumentos, tais como áreas chamuscadas,
ressecadas ou impactadas, paralisia temporária da
testemunha ou interferência com aparelhagem
elétrica.
CI3: Visão de entidades alienígenas, quer sozinhas,
quer acompanhadas de um óvni.
Os contatos imediatos do terceiro grau (ou CI3)
envolvem material estranhíssimo. É comum
histórias em quadrinho associarem discos
voadores a "homenzinhos verdes". Desde fins dos
anos 40, tem sido pouco divulgado o relato regular
da presença, junto com os óvnis, de seres
semelhantes aos humanos. Estes seres, dotados
de variados formatos e tamanhos, costumam ter
estatura baixa, mas raramente são verdes. Por
tenderem a ter formas semelhantes à humana,
são chamados de humanóides.
Em alguns casos, estes seres são apenas vistos, ao
passo que, em outros, segundo se diz, eles se
comunicam, quase sempre por telepatia. Na
maioria dos relatos de casos CI3, os seres não
fazem captura física das testemunhas, embora às
vezes as ensurdeçam ou paralisem-nas
temporariamente. Nos últimos anos, contudo, tem
havido muita publicidade em torno de um
subgrupo dos casos CI3 em que, segundo se
relata, alienígenas raptam humanos com
agressividade e os levam a bordo de seus veículos.
São os chamados raptos por óvnis ou contatos
imediatos do quarto grau (CI4). Examinarei os
casos CI3 sem rapto neste capítulo e deixarei os
raptos por óvnis para o Capítulo 4.
Em ainda outro tipo de contato com óvni, não
incluído nas quatro categorias de contato
imediato, a testemunha estabelece uma relação
amistosa com humanóides alienígenas, mantém
prolongadas conversas com eles e pode até ser
levada para passear em seus veículos. Estes
chamados casos de contato, tidos como infames
entre os investigadores de óvnis, costumam ser
rotulados como embustes. Muitos provavelmente o
são, mas, conforme argumentarei no Capítulo 5,
parece haver uma série contínua de casos
estendendo-se desde casos de CI4 até casos de
contato plenos. Por ser muito difícil traçar uma
nítida linha divisória entre esses dois tipos de
casos, é preciso levar ambos em consideração em
um estudo de provas da existência de óvnis.
As estatísticas sobre os números de visões de
óvnis são sobremodo variáveis. Conforme
mencionei no Capítulo 1, entre 1947 e o final de
1965, a Força Aérea americana acumulou 10.147
relatos sobre óvnis. É possível inclusive pensar que
isto dá uma boa idéia de quantas visões de óvnis
realmente acontecem. Contudo, até 1981, o
Centro para Estudos sobre Óvnis de Illinois já havia
reunido, em um arquivo computadorizado
chamado UFOCAT, cerca de sessenta mil relatos
sobre óvnis oriundos de 113 países. Este arquivo,
iniciado pelo Dr. David Saunders, após ele ter se
vinculado à equipe Condon de estudos sobre
óvnis, abrange o período de 1967 a 1981. Dentre
os sessenta mil casos arquivados no UFOCAT,
cerca de dois mil envolvem casos de CI3 e
duzentos são casos de CI4.
Evidentemente, o número de relatos sobre óvnis
em qualquer coletânea dependerá dos critérios de
seleção e do número de pessoas empenhadas em
coligir os citados relatos. Portanto, é muito difícil
avaliar o número total de visões de óvnis em
qualquer período de tempo determinado ou em
qualquer parte do mundo.
Escrevendo em 1990, Vallee avaliou poder oscilar
entre três mil e dez mil o número de casos de
contato imediato de que se tinha conhecimento
naquela época. Segundo argumentou ainda, a
média de casos de contato imediato realmente
relatados seria de um para dez. Tomando cinco mil
como uma estimativa do número de casos
conhecidos, isto significa dizer que poderão ter de
fato ocorrido cinqüenta mil contatos imediatos.
Como os casos conhecidos se concentram na
Europa, nas Américas do Norte e do Sul e na
Austrália, seria possível obter o dobro de casos,
sustentou Vallee, se fosse possível realizar um
rastreamento completo de casos no mundo inteiro.
Isto resultaria numa estimativa de cem mil
contatos imediatos.
Segundo constatou Vallee, os contatos imediatos
tendem a ser noturnos, atingindo um auge mais
significativo às 21h e outro menos significativo por
volta das 3h. No entanto, como as pessoas
costumam estar dormindo entre 21h e 3h, o
número de testemunhas em potencial é menor
neste período. Fazendo uso da estatística para
calcular o número de pessoas ativas fora de casa
em diferentes momentos do dia, pode-se computar
uma curva para contatos com óvnis por
observador disponível. Ela apresenta crescimento
regular a noite inteira e atinge seu auge por volta
das 3h. Conforme sugeriu Vallee, esta curva
poderia delinear um quadro fiel da atividade
ufológica em função do momento do dia, o que
implica um nível genérico de atividade quatorze
vezes superior ao nível de fato relatado. Ele
também observou que os casos de CI4 registram
um auge pronunciado entre 20h e meia-noite.
Falsos relatos sobre óvnis
Um aspecto notório da controvérsia em torno dos
óvnis é o fato de as pessoas tenderem a confundir
diversos objetos ou fenômenos conhecidos com
óvnis. Isto é bem analisado no Casebook of a UFO
Investigator (Histórico de uma investigação sobre
óvni), de Raymond Fowler, que salienta algumas
causas para falsos relatos sobre óvnis:
Objetos voadores feitos pelo homem: luzes de
aviões, aviões de propaganda com sinais
multiluminosos, o dirigível da Goodyear, exercícios
militares de reabastecimento, aeroplanos
amadores (asas-delta), pipas, fogos de artifício,
balões de gás de criança, balões meteorológicos,
balões de pesquisa de diversos tipos, lançamento
e regresso de foguetes, nuvens de sódio e bário
expelidas por foguetes para testes atmosféricos,
satélites (e o regresso deles) e chamas caindo de
naves militares.
Fenômenos naturais: miragens, relâmpagos, aves,
meteoros (bolas de fogo, bólides), estrelas (por
exemplo: Sirius, Capella e Arcturus no hemisfério
norte), planetas (Vênus, Marte, Júpiter e Saturno) e
a lua (freqüentemente quando cheia e próxima do
horizonte).
Para se ter uma idéia da freqüência com que se
fazem essas identificações equivocadas, comenta
Fowler, nos primeiros seis meses de 1978, o canal
receptor de informações do Centro para Estudos
sobre Óvnis recebeu 452 relatos sobre óvnis
atribuídos a objetos comuns. Entre estes, 210
eram de aviões, 127 de estrelas ou planetas e 54
de meteoros.
Devido à autocinese, um processo causado pelo
movimento dos olhos, pode parecer que as
estrelas estão se mexendo. Também pode parecer
que existem corpos celestes acompanhando um
carro em movimento porque, numa estrada reta, a
posição deles em relação ao carro permanecerá a
mesma. Um amigo meu, por exemplo, relatou ter
sido seguido certa noite por uma luz que pairava
sobre o Oceano Pacífico enquanto dirigia de San
Diego para Los Angeles. Mas Vênus, estando em
muito destaque no céu noturno àquela época, teria
estado visível à esquerda dele durante a maior
parte da viagem.
Talvez ele tenha visto Vênus e pensado que era
um óvni. Devo enfatizar, contudo, que o simples
fato de se poder dar uma explicação deste tipo
para determinado caso não significa que a mesma
seja necessariamente correta. Pode ser que dados
adicionais acabem por indicar que o objeto visto
era mesmo incomum.
Outras causas para relatos falsos sobre óvnis são
as alucinações provocadas por drogas, álcool ou
insanidade mental. Há, ainda, os embustes —
balões de gás, bumerangues e modelos
fotografados por crianças, bem como fraudes
requintadas criadas por adultos. Segundo salienta
Fowler, os embustes — na maior parte das vezes
travessuras de crianças em idade escolar —
representam uma percentagem mínima dos
relatos sobre óvnis.
As visões de objetos relativamente distantes
poderiam ser atribuídas a leves erros de
percepção ou a meros embustes. No caso de
contatos imediatos simulados, porém, parece ser
necessária alguma causa mais forte. Quando uma
pessoa relata ter visto um humanóide de perto,
fica parecendo que (1) ela realmente viu um ser
incomum, (2) viu uma ilusão de semelhante ser
projetada por uma causa desconhecida, (3) viu um
embuste tramado por algum ser humano, (4)
experimentou uma alucinação, (5) usou de má-fé.
Para avaliarmos as opções (4) e (5), é importante
termos condições para averiguar o caráter, a
saúde mental e as motivações pessoais das
testemunhas de casos de contato imediato.
Ao passo que as testemunhas de certos casos são
mentalmente desequilibradas, as de outros se
revelam vigaristas, dispostas a conquistar dinheiro
e influência explorando os ingênuos. No entanto,
há inúmeros casos de testemunhas sãs e
responsáveis que não lucram nem se tornam
famosas com suas experiências e que costumam
preferir o anonimato para evitar o ridículo. Nestes
casos, encontram-se algumas das provas mais
convincentes das experiências de contato
imediato. Mas pode-se alegar, mesmo assim, que
falhas de percepção e memória em pessoas
mentalmente sãs poderiam gerar relatos sobre
experiências bizarras. Discutirei esta possibilidade
com mais minúcia na seção seguinte.
É possível que os relatos de pessoas mentalmente
sãs também se devessem a embustes
requintadíssimos, que poderiam ainda contar com
um considerável apoio de verba e mão-de-obra.
Por alguma razão nefasta, certos seres humanos
poderiam raptar alguém e tentar transformar este
delito num rapto por óvni. Fantasiados de
alienígenas, os raptores poderiam não só alterar a
consciência da vítima com o auxílio de drogas e
hipnose, mas também levá-la para um cenário
alienígena de estilo hollywodiano.
Há, de fato, casos em que algo deste tipo pode
muito bem ter acontecido. Por exemplo: num caso
de rapto relatado por Jenny Randles, investigadora
de óvnis britânica, uma mulher parece ter sido
raptada, drogada e programada com sugestões
pós-hipnóticas. Ao passar a lembrar-se, mais
tarde, dos detalhes do episódio, ela repetiu o que
um de seus raptores comentou em tom divertido:
"Vão pensar que são discos voadores."
Neste caso, os raptores tinham aparência
inteiramente humana, e o local para onde levaram
a mulher parecia ser uma casa comum. Não
ficaram bem claras as intenções deste rapto. Por
que, por exemplo, dar-se ao trabalho de
representar um falso rapto por óvni, e estragar
tudo fazendo comentários diante da vítima?
Conforme veremos adiante, contudo, muitos casos
de contatos imediatos com óvnis apresentam
aspectos que seriam bastante difíceis de serem
simulados por seres humanos. Se conspiradores
humanos estivessem simulando contatos
imediatos com óvnis, seria necessário em geral,
um tremendo investimento secreto em mão-de-obra e efeitos especiais de Hollywood.
Parece improvável que se esteja levando a efeito
tamanho esforço. Contudo, devo mencionar um
possível motivo para se representarem ocasionais
embustes elaborados. Isto poderia estar sendo
feito para confundir as pessoas com histórias
falsas e — à medida que se expõem os embustes
— convencê-las da fraudulência de todas as
provas da existência de óvnis. Existe, também, o
método de desiludir as pessoas, começando-se
com um embuste crível para em seguida escalá-lo
até o ponto de completa incredibilidade. Faço
menção disto apenas como uma possibilidade a
ser levada em conta, e a examinarei com mais
minúcia no Capítulo 3 (páginas 137-43).
Sobre erros de percepção a falhas de
memória
O psiquiatra Ian Stevenson faz algumas
observações sobre erros de percepção e falhas de
memória que podem ser aplicadas à avaliação de
relatos sobre óvnis. Stevenson passou muitos anos
estudando o que ele chama de casos espontâneos
no campo da parapsicologia. São casos em que
uma pessoa relata alguma experiência
ostensivamente paranormal e fora do âmbito de
uma situação laboratorial controlada. Entre eles,
incluem-se impressões telepáticas e
premonitórias, experiências extracorporais,
lembranças de vidas passadas, casos de
poltergeist e aparições. Especializando-se no
estudo de memórias de vida pregressa em
criancinhas, Stevenson estudou a fundo o uso de
entrevistas com testemunhas como o principal
método de pesquisar estes casos.
Apresentarei um resumo de algumas
considerações tecidas por Stevenson quanto à
avaliação da evidência de casos espontâneos.
Apesar de ele não ter mencionado óvnis em sua
análise, suas observações são bastante relevantes
para a avaliação dos relatos sobre este fenômeno.
Segundo um de seus primeiros comentários, os
adjetivos "autêntico" e "comprobatório" aplicam-se
aos casos espontâneos. Um caso é autêntico se as
testemunhas e o material relatado são confiáveis a
ponto de se poder acreditar que os eventos em
questão aconteceram conforme o relatado. É
comprobatório se é autêntico e há justificativa
para se pensar que o caso apresenta aspectos
paranormais.
J. Allen Hynek expressa idéias semelhantes. Ele
fala de um índice de credibilidade e um índice de
estranheza. O índice de credibilidade mede a
confiabilidade das testemunhas de óvnis, de
conformidade com suas reputações, históricos
médicos, ocupações, agudeza de visão e outros
fatores. Casos de uma única testemunha, diz ele
também, não devem "merecer credibilidade
superior a um quarto de escala". O índice de
estranheza mede até que ponto os eventos
relatados parecem opor-se a explicações feitas
segundo termos físicos normais. Assim como
Hynek supõe existirem casos de óvnis de alta
credibilidade e estranheza, Stevenson supõe, da
mesma forma, existirem casos espontâneos que
são autênticos e comprobatórios.
Um defeito de muitos casos espontâneos, salienta
Stevenson, é o fato de só terem sido descritos
bem depois de terem acontecido. Isto também
ocorre com muitos (mas de forma nenhuma com
todos) casos de óvnis. Resulta que, em vista do
fato de as memórias humanas tenderem a
desgastar-se com o tempo, os relatos podem vir a
ser enxertados com reconstituições ou matéria
suplementar. Contudo, como frisa Stevenson, a
retenção de minúcias na memória depende da
intensidade emocional da experiência, da
repetição e da motivação para a lembrança.
Muitas experiências paranormais envolvem um
alto grau de intensidade emocional e motivação
para a lembrança. O mesmo é relatado por muitas
testemunhas de contatos imediatos com óvnis.
Stevenson prossegue destacando quatro casos em
que se poderia demonstrar o fato de testemunhas
terem retido boa memória de experiências para-normais, depois de transcorridos vários anos.
Conforme um dos exemplos, em 1909 um homem
escreveu um relato minucioso de um sonho,
aparentemente premonitório, que ele tivera em
1902. Oito anos mais tarde, a esposa dele
escreveu outro relato sem consultar quaisquer
anotações nem discutir o caso com ele. Este relato
diferia em apenas um único detalhe mínimo do
relato anterior. Em todos os quatro casos, salienta
Stevenson, havia não apenas pouca perda de
minúcia como também pouca elaboração de novas
minúcias.
Costuma-se acusar sensitivos, em casos
espontâneos, da tendência a embelezarem suas
memórias com o passar do tempo, o que
impossibilita descobrir mais tarde o que eles
experimentaram a princípio. Apesar de admitir tal
tendência, Stevenson diz: "Em minha própria
experiência, é muito raro alguém embelezar os
principais fatores de um relato." Ele diz ter
averiguado isto diversas vezes ao abordar uma
testemunha de surpresa, após um ou vários anos,
e entrevistá-la de novo acerca de suas
experiências. Não tenho conhecimento de alguma
característica de testemunhas de óvnis que as
fizesse mais propensas ao embelezamento do que
as testemunhas de eventos paranormais que não
envolvem óvnis.
Segundo observa Stevenson, o embelezamento é
mais suscetível de ocorrer em relatos feitos por
terceiros do que no caso de testemunhas
primárias. Contudo, mesmo estes terceiros nem
sempre embelezam o caso. Comenta ele: "Com
bastante freqüência, quando não quase sempre,
eles omitem detalhes importantes e, deste modo,
diminuem a comprovação do caso."
Estas tendências poderiam ter um sério efeito
sobre os relatos de óvnis apresentados em textos
secundários. Talvez os autores de livros sobre
óvnis estejam mais propensos a distorcer
depoimentos do que muitas testemunhas originais.
A única maneira pela qual alguém poderá se
proteger contra isto será estando ciente das
reputações de quantos escrevam sobre óvnis e
identificando as preferências de apresentações
específicas através do rastreamento de uma
ampla variedade de livros e relatos. Minha
impressão pessoal, após ter feito um amplo
rastreamento da literatura da área, é que
determinados autores populares tendem, de fato,
a inserir suas próprias preferências nos relatos
sobre óvnis. Eles costumam fazer isto omitindo
aspectos dos relatos sobre óvnis que não se
enquadrem em suas hipóteses favoritas.
Outro problema com referência a relatos de casos
espontâneos é a observação equivocada. Faz parte
de muitos estudos realizados por advogados e
psicólogos forenses dramatizar-se um evento
perante testemunhas, para em seguida contarem
o acontecido. Observa-se a grande freqüência com
que as testemunhas cometem erros ao relatarem
o que viram. Por exemplo: num confronto armado
simulado, elas talvez não logrem identificar
corretamente quem sacou a arma primeiro.
Segundo comenta Stevenson: "Apesar de tais
experimentos serem sem dúvida relevantes para o
nosso campo de pesquisa, eu me oponho mesmo
assim a usá-los como forma de rejeitar toda
espécie de testemunho humano em casos
espontâneos." Uma das razões que ele deu para
isto é o fato de testemunhas poderem confundir-se
com relação a detalhes que são cruciais num
tribunal, tais como quem sacou a arma primeiro.
Mas nada as confunde quando se trata do fato
básico de o evento em si ter ocorrido — neste
caso, a alegação de que sacaram armas.
Suponhamos, por exemplo, que um homem tenha
ido ao banco e, justamente enquanto espera na
fila para descontar um cheque, tenha ocorrido um
assalto. Ao relatar o acontecido durante o assalto,
é bem possível que ele se confunda a respeito de
uma série de detalhes.
Suponhamos, agora, que o mesmo homem tenha
ido ao banco, descontado seu cheque e voltado
para casa sem experimentar nenhum incidente.
Chegando em casa, ele não apenas diz ter ocorrido
um assalto enquanto estava no banco como
também insiste no fato de ter uma vivida
lembrança do mesmo. Na certa, o erro crasso
nesta história será muito mais evidente do que os
erros revelados pelos experimentos com eventos
simulados. Neste caso, ou o homem está mentindo
ou está padecendo de um grave distúrbio mental.
Pode-se usar o mesmo argumento no que diz
respeito a contatos imediatos com óvnis.
Outro detalhe: testemunhas que ouvem
afirmações enganosas sobre o que aconteceu
numa cena simulada podem se deixar influenciar
pelas mesmas, o que poderá fazer com que
prestem falso testemunho. Porém, isto tende a
limitar-se a minúcias sobre as quais as pessoas
provavelmente não teriam certeza, muito embora
estas mesmas minúcias sejam cruciais num
julgamento. Após um evento ter acontecido, por
exemplo, pode ser que uma testemunha não tenha
certeza da cor da camisa de um participante. Se
lhe dizem que era vermelha, ela pode até se
convencer de que isto é verdade, e assim poderá
imaginar que a camisa era mesmo vermelha.
Suponhamos, porém, que, após pacificamente
descontar um cheque no banco, um homem seja
repetidas vezes informado de um assalto armado
envolvendo seis homens mascarados e ocorrido
enquanto ele estava no banco. Acaso isto o
induzirá a lembrar-se do assalto, apesar de não ter
havido distúrbio algum no banco? Caso sim, ficará
parecendo que o homem padece de um grau
incomum de sugestibilidade, uma condição que na
certa teria sido percebida por seus amigos,
colegas de trabalho e familiares.
Conforme se argumenta às vezes, erros de
testemunho humano em casos espontâneos "são
quase todos no sentido de consolidar crenças
favoráveis já consagradas acerca de eventos
paranormais, por parte daquele que os percebe e
seus corroboradores". Logo, existe a tendência de
alegações bizarras serem feitas por crentes cujos
erros motivados ampliam uma experiência normal
a fim de que ela pareça paranormal.
Stevenson diz ter encontrado casos deste tipo de
ampliação. Isto é provável de acontecer,
especialmente em se tratando de pessoas que
buscam fama ou dinheiro mediante a divulgação
de suas experiências. Contudo, muitas pessoas
que relatam eventos paranormais, salienta ele, só
o fazem após muita relutância por temerem o
ridículo ou sugestões de insanidade. Além disso,
"muitos indivíduos insistem que, antes de suas
experiências, eles não tinham convicções
formadas ou conhecimento acerca das
experiências estudadas pela parapsicologia". Essas
pessoas, sugere ele, não tendem a transformar
eventos normais em paranormais, podendo,
inclusive, tentar fazer o contrário. Observações
muito semelhantes têm sido feitas por
investigadores de contatos imediatos com óvnis.
Um contato imediato bem corroborado
Passo agora a analisar a fundo alguns casos de
contato imediato. O primeiro caso, apesar de ser
um típico contato imediato com óvni em termos de
conteúdo, apresenta um número incomum de
testemunhas oculares, aparentemente
independentes, que prestam testemunho
corroborador. O investigador original deste caso foi
Budd Hopkins, pesquisador de óvnis da cidade de
Nova York, cujo relato resumo a seguir.
Em janeiro de 1975, George O'Barski, um astuto
nova-iorquino de 72 anos de idade, viajava de
volta a casa, em North Bergen, New jersey, após
ter fechado sua loja de bebidas em Manhattan e
ter contabilizado e reabastecido suas prateleiras.
Era por volta de uma ou duas horas da manhã. Em
North Hudson Park, vindo de Manhattan e
atravessando o Hudson, enquanto o rádio de seu
carro começava a detectar interferências, um
objeto de extraordinária luminosidade passou a
uns trinta metros à esquerda do carro. Emitindo
um zumbido discreto, parou numa área de
recreação à frente do carro. Incrédulo, O'Barski
aproximou-se da área e viu uma nave arredondada
de nove metros de comprimento que agora
pairava a três metros acima do solo. A nave tinha
janelas a intervalos iguais, medindo cerca de trinta
centímetros de largura por um metro de altura.
Tendo a nave baixado a uma altura de um metro
do solo, abriu-se uma porta entre duas das janelas;
então, de nove a onze pequenas figuras com
capacetes e vestes inteiriças assomaram à porta e
desceram usando uma espécie de escada. Tinham
entre 90 centímetros e um metro de altura e
pareciam crianças trajando roupas de inverno.
Enquanto O'Barski, aterrorizado, prosseguia
dirigindo devagar e observando tudo aquilo, os
seres, parecendo ignorá-lo, enchiam as bolsas que
traziam consigo de terra, colhida com ferramentas
parecidas com colheres. Após terem feito isto, eles
reentraram na nave depressa e ascenderam,
rumando para o norte. Segundo avaliou O'Barski, o
episódio inteiro durou cerca de quatro minutos. Ele
recordou-se do mesmo conscientemente, sem
recorrer à hipnose.
Na manhã seguinte, O'Barski retornou ao local, viu
os buracos feitos pelas entidades escavadoras e
tocou em um deles com a mão para convencer-se
de que eram reais. Diz ele: "Um homem da minha
idade narrando uma história assim — isto seria
caso de internação. Se você tivesse vindo aqui um
ano atrás e me contado a mesma história, eu
também não teria acreditado em você."
Acontece, porém, que Iiopkins conseguiu
encontrar outras pessoas que teriam visto o
mesmo objeto voador. Sua segunda testemunha
foi um homem chamado Bill Pawlowski, porteiro do
Stonehenge, edifício situado próximo ao sítio do
pouso em Hudson Park. Segundo o depoimento de
Pawlowski, ele estava de plantão no prédio às
duas ou três da manhã em certo dia de janeiro de
1975. Olhando na direção do parque adjacente,
avistou uma fileira de dez a quinze luzes
brilhantes, situadas uniformemente lado a lado e
que, rodeadas por uma massa escura, pareciam
estar a uns três metros do solo. Aproximou-se da
janela para poder ver aquilo melhor; virou-se,
então, para interfonar para um inquilino do prédio.
Naquela altura, foi surpreendido por uma vibração
aguda e um som de estampido. O vidro da janela
havia sido quebrado por algo que o atingira de
fora, segundo se constatou mais tarde.
Quando Pawlowski voltou a olhar para fora, as
luzes já tinham desaparecido. Ele relatou o
incidente à polícia de North Bergen, que veio
examinar a janela. Mas teve a discrição de evitar
mencionar as estranhas luzes avistadas no parque.
Mais tarde, contudo, relatou o incidente ao tenente
de polícia Al Del Gáudio, que morava no prédio.
Segundo Del Gáudio — disse a Hopkins, embora se
lembrasse de ter ouvido a história de Pawlowski
sobre a "coisa grande com luzes" —, ele a rejeitara
por considerá-la inacreditável.
Frank Gonzalez, outra testemunha localizada por
Hopkins, trabalhava como porteiro no Stonehenge
nas noites de folga de Pawlowski. Ele avistara um
objeto semelhante no mesmo lugar, entre duas e
três horas da manhã do dia 6 de janeiro, seis dias
antes da visão de O'Barski. Descreveu sua
experiência da seguinte maneira: "Sabe, vi algo
redondo e muito brilhante (...) com algumas
janelas. Ouvi um barulho (...) mas não era barulho
de helicóptero nem de avião. Algo diferente. (...)
Depois, vi aquela luz indo direto para o alto e
disse: 'Meu Deus!'"
Há também a experiência da família Wamsley.
Depois de Gerry Stoehrer, colega de Hopkins, ter
dado uma palestra sobre óvnis para uma
associação de pais e professores de North Bergen,
ele foi abordado por Robert Wamsley, doze anos
de idade, e sua mãe, Alice. Segundo os dois lhe
contaram, enquanto a família assistia à televisão
numa noite de sábado, em janeiro, Robert olhou
pela janela e viu uma nave redonda e iluminada lá
fora. Tinha janelas retangulares que emitiam um
brilho amarelado e flutuava a um metro ou um
metro e meio do solo. Quatro membros da família,
incluindo a sra. Wamsley descalça e com roupão
de banho, correram então para a rua e, por cerca
de dois minutos, seguiram o objeto a se mover
lentamente.
A família Wamsley morava a cerca de quatorze
quadras do edifício Stonehenge, em cuja direção o
óvni rumou ao sumir de vista. Isto parece ter
ocorrido no mesmo dia da visão de O'Barski,
menciona Hopkins; uma prova comprobatória da
data era que tanto O'Barski quanto os Wamsley
repararam no clima incomumente moderado para
o mês de janeiro. Logo, segundo tudo indicava,
O'Barski, Pawlowski e os Wamsley teriam visto a
mesma nave na mesma data. Gonzalez teria visto
a mesma nave ou uma semelhante durante outra
visita seis dias antes.
Esta história é típica de muitos relatos sobre
contatos imediatos com óvnis. Há a nave estranha,
parecida com uma peça de arquitetura voadora,
sem qualquer meio evidente de propulsão. A nave
produz um zunido e traz luzes brilhantes.
Pequenas figuras humanas com trajes peculiares
saem dela, fazem algo aparentemente sem
sentido e depois partem.
O óvni, não resta dúvida, parece ser controlado
por alguma espécie de inteligência. Ele não
funciona segundo princípios físicos conhecidos de
alguma maneira imediatamente óbvia. Ao mesmo
tempo, porém, a história não contém evidência
direta de que o óvni seja extraterrestre. Esta
conclusão poderia ser tirada apenas de forma
indireta ao se dizer que, se os "homenzinhos" não
vivem na Terra, eles na certa vêm de outro
planeta. Mas decerto esta não é a única
possibilidade.
Poderia a história ser um embuste, uma alucinação
ou uma percepção errônea de fenômenos
naturais? Parece fácil descartar a hipótese dos
fenômenos naturais. Quanto à hipótese de
alucinação ou embuste, a dificuldade está em que
diversas pessoas alegaram ter visto o estranho
objeto.
Seria possível argumentar que as testemunhas
influenciaram umas às outras, talvez em nível
subconsciente, de modo que todas apresentaram
histórias que se apóiam mutuamente. Este poderia
ser o caso no que se refere a Pawlowski e
Gonzalez, pois ambos trabalhavam no edifício
Stonehenge. Porém, os três grupos formados por
(1) O'Barski, (2) Pawlowski e Gonzalez, e (3) os
Wamsley eram supostamente desconhecidos entre
si. Se tivessem de fato se influenciado uns aos
outros, teriam que já ter se conhecido antes — e
isto sugeriria uma conspiração deliberada. Ou
então se poderiam propor que, ao visitar
Stonehenge, Hopkins influenciou Pawlowski e
Gonzalez a imaginarem suas histórias. Depois, a
palestra de Stoehrer influenciou os Wamsley a
inventar a sua.
Como está evidente que apenas O'Barski viu as
figurinhas em seus uniformes, seria o caso de se
perguntar se ele tinha um histórico de insanidade
mental. No entanto, Hopkins caracterizou-o como
inteligente, "vivido", reflexivo — além de estrito
abstêmio. E mais: ele não "acreditava" em óvnis
antes da experiência.
A escavação de amostras de solo feita pelas
figurinhas é intrigante. Esta atividade tem sido
relatada em um grande número de casos de óvnis,
tendo mesmo sido popularizada em filmes como
ET. Talvez O'Barski tivesse ouvido falar nisso, mas
por que iria se expor ao ridículo de alegar ter
pessoalmente visto semelhante coisa?
Mas acontece que há aspectos adicionais da
história do contato em Stonehenge que eu ainda
não abordei. Poderemos encarar esta história sob
outra perspectiva se nos voltarmos para o
depoimento do psiquiatra e pesquisador de óvnis
Berthold Schwarz:
Eu também estive com quatro dos protagonistas
de Stonehenge em rápidos levantamentos
psiquiátricos e paranormais. (...) E. U., porteiro
diurno e contumaz paranormal, tem tido atividade
mediúnica de alta qualidade a vida inteira: i. e.,
possível premonição — ele alegou saber da
atividade dos óvnis de antemão —, aparições e
telecinesia. Seu filho e sua esposa também tinham
experiências mediúnicas pouco comuns. E. U. e o
eletricista do prédio compartilharam uma visão de
óvnis, de perto, à luz do dia. Repararam que o
andar superior de seu prédio, sendo singular,
poderia assemelhar-se ao conceito estereotipado
de um óvni convencional, por seu formato circular
e pelas luzes paralelas cintilantes. E. U. perguntou-se: "Será que este prédio tem algum atrativo?"
Aparições e telecinesia? Quatro protagonistas?
Começa a parecer que o edifício Stonehenge era
um foco de atividades psíquicas e alienígenas. O
fato de diversas pessoas em Stonehenge se
interessarem por ufologia poderia contribuir para
que especulassem que toda a história da visão
havia sido inventada por pessoas dotadas de
imaginação fértil. Mas devemos levar em conta
que a primeira pista de Hopkins foi a história de
O'Barski, que — excluindo qualquer possibilidade
de conspiração — não tinha vínculo algum com
Stonehenge. Como, então, poderia a história ter se
originado em Stonehenge? E acaso a família
Wamsley foi levada a mentir ou ter alucinações
por histórias originárias daquele prédio?
A informação acrescentada por Schwarz ilustra
dois pontos importantes acerca do fenômeno óvni.
O primeiro é que, por mais que saibamos acerca
de determinado caso de contato com óvni, há
sempre a probabilidade de existirem informações
importantes a respeito das quais nada sabemos.
Em muitos exemplos, estas informações
simplesmente não vêm à tona durante a
investigação do caso. Em outros, o investigador
poderá acreditar em certos aspectos do caso e
relatá-los; porém, achará outros aspectos tão
incríveis que decidirá não mencioná-los. Ou poderá
não mencionar certos aspectos por temer que as
pessoas desprezem todo o caso ao ouvirem falar
deles.
O segundo ponto é que casos de contato com
óvnis tendem a estar vinculados a fenômenos
paranormais. Às vezes, as testemunhas, ou
pessoas ligadas a elas, têm um histórico pregresso
de experiências paranormais. Outras vezes, uma
pessoa passará a ter experiências paranormais
após o contato com o óvni, envolvendo telepatia,
fenômenos poltergeist ou cura psíquica. Esta é
uma observação empírica que tratarei de
documentar aos poucos, com uma série de
exemplos. Mais adiante, examinarei o que ela
poderia significar.
Um relato ao Congresso
A seguir, apresento um caso de contato imediato
com óvni, relatado ao Congresso em 5 de abril de
1966, durante as audiências sobre objetos
voadores não-identificados, pelo Comitê de
Inquérito das Forças Armadas. O relato sobre o
caso foi submetido ao Congresso por seu
investigador, Raymond Fowler, que foi identificado
como administrador de projetos e engenheiro do
programa de mísseis Minuteman. Este caso
envolve uma visão de perto do que parecia ser
uma estranha máquina voadora, tendo também
envolvido diversas testemunhas oculares. A
íntegra do relatório, segundo consta nos registros
do Congresso, ocupa cerca de 33 páginas.
A história se desenrolou perto de Exeter, New
Hampshire, durante as primeiras horas da manhã
de 3 de setembro de 1965. O primeiro sinal de que
algo estranho estava acontecendo veio à 1h30.
Àquela altura, o oficial de polícia Eugene Bertrand,
investigando um carro estacionado, encontrou
uma mulher atormentada (alguns relatos dizem
duas mulheres) que alegava que seu carro foi
seguido, no intervalo de uns vinte quilômetros, por
um objeto voador circundado por um brilhante
fulgor vermelho. Segundo afirmou ela, o objeto
mergulhou diversas vezes na direção de seu
automóvel em movimento.
Apesar de ter rejeitado esta história, Bertrand foi
logo solicitado por sua delegacia policial a
investigar uma história semelhante contada por
Norman Muscarello, 18 anos de idade. O
adolescente irrompera na delegacia entre 1h45 e
2h, quase em estado de choque. Enquanto
esperava uma carona ao longo da Rodovia 150,
declarou ele, um objeto cintilante com pulsantes
luzes vermelhas de repente veio flutuando por
sobre um campo próximo dali, na direção dele. O
objeto, prosseguiu ele, tinha o tamanho de uma
casa e se movia na direção dele em total silêncio.
Após ele se abaixar para se proteger, o objeto
retrocedeu e desapareceu por sobre as árvores.
Depois de bater em vão à porta de uma casa
próxima dali, ele fez parar um carro, que o levou à
delegacia de polícia.
Bertrand e Muscarello voltaram ao local e, entre
2h25 e 2h40, ambos viram o objeto erguer-se
silencioso por trás de um arvoredo. Conforme
descrição posterior de Bertrand, o objeto era do
tamanho de uma casa. Parecia comprimido, como
se fosse redondo ou ovalado, sem definitivamente
nenhuma saliência, tal como asas, leme de direção
ou estabilizador. O objeto tinha uma carreira de
quatro ou cinco luzes vermelhas ofuscantes que
piscavam ciclicamente, lançando uma outra luz
vermelho-cintilante, cor de sangue, sobre o campo
e uma casa de fazenda próxima. As luzes, disse
Bertrand, eram mais brilhantes do que quantas ele
jamais vira, dando a impressão de que ele e
Muscarello teriam se queimado se não tivessem
corrido do objeto à medida que este se
aproximava deles.
As luzes pareciam fazer parte de um grande e
sólido objeto negro. Enquanto os cavalos próximos
dali escoiceavam nos estábulos e os cães uivavam,
o objeto flutuava a cerca de sessenta metros
acima do solo, guinando de lado a lado com um
movimento adejante, como uma folha a cair. Ao
todo, a visão durou cerca de dez minutos.
Este depoimento foi confirmado pelo oficial David
Hunt, que chegou ao local a tempo de observar o
objeto por uns cinco ou seis minutos, antes de ele
partir na direção de Hampton. A polícia também
recebeu uma chamada telefônica de um homem
alvoroçado em Hampton que relatou ter visto um
"disco voador" — mas a ligação caiu antes que ele
pudesse identificar-se.
A certa altura, esta visão foi identificada num
jornal como sendo um avião de propaganda de
propriedade da Sky-Lite Aerial Advertising Agency,
de Boston. Contudo, após alguma investigação,
constatou-se que este avião, além de não ter
voado na noite em questão, carregava um sinal
feito de quinhentas luzes brancas — e não
vermelhas.
Conforme propôs a Força Aérea, a princípio,
Muscarello, Bertrand e Hunt haviam visto aviões
em vôo alto num exercício de reabastecimento. No
entanto, como a duração daquela visão
descartasse esta hipótese, os oficiais da Força
Aérea concluíram:
As primeiras visões de duas mulheres não
identificadas e do Sr. Muscarello são atribuídas a
naves em operação de reabastecimento. A
observação subseqüente, feita pelos oficiais
Bertrand e Hunt e ocorrida após as duas da
manhã, é considerada não-identificada.
A alta intensidade das luzes relatadas pelas
testemunhas parece ser crucial para a
interpretação desta visão. Ao que tudo indica, um
avião de propaganda ou aviões militares
praticando exercício de reabastecimento não
produziriam uma impressão tão esmagadora de
luz ofuscante para observadores em terra. E se as
testemunhas estavam vendo um fenômeno natural
desconhecido, por que haveriam as luzes de estar
dispostas em carreira e piscar em seqüência?
Un disco volante
A maioria dos casos bem divulgados, registrados
na literatura sobre óvnis nas décadas de 1940 e
1950, e no início da década de 1960, envolvia
visões de estranhos objetos voadores a distância.
No entanto, também se relatavam casos de
contatos imediatos durante essa época. Conforme
a declaração já citada do Dr. William Powers, na
Science, em 1954 registraram-se mais de duzentos
relatos de aterrissagens de óvnis, muitos com
ocupantes. O nível real de relatos pode até ter sido
superior. Tanto que Edward J. Ruppelt,
encarregado das investigações sobre óvnis da
Força Aérea americana em 1952, escreveu em The
Report on Unidentified Flying Objects (Relatório
sobre objetos voadores não identificados) que,
como se sentia importunado por relatos de
aterrissagens, sua equipe os eliminou
conscientemente.
Não se sabe ao certo por que os relatos sobre
óvnis tornaram-se muito mais numerosos após
1947 do que o eram antes. Apesar de haver
registro de relatos anteriores, estes somam um
número relativamente pequeno. Por exemplo:
Raymond Fowler, explicando a origem de seu
interesse por óvnis, salienta que em 1917 sua
mãe, ainda criança, tivera contato com um óvni
em Bar Harbor, Maine. Certa noite, relata Fowler,
sua mãe e a irmã dela voltavam para casa na
companhia de amigos após uma reunião na igreja.
Enquanto atravessavam um campo por um atalho,
um objeto enorme e silencioso apareceu
repentinamente acima de suas cabeças, e "tons de
vermelho, azul, verde e amarelo refletiram sobre
seus rostos assustados". Neste caso, as crianças
aterrorizadas correram para casa, e o incidente foi
dado por encerrado.
O que surpreende neste contato é o fato de
compartilhar características com as visitas a
Fátima, Portugal, também ocorridas em 1917, só
que muito mais elaboradas. Os eventos de Fátima
são descritos no Capítulo 8 (páginas 360-74), mas
os detalhes a seguir são relevantes para melhor
apreciarmos o contato de Maine:
Olhando ao nosso redor, reparamos uma luz
estranha que já havíamos visto e voltaríamos a
ver. Nossos rostos brilhavam em tons de rosa,
vermelho, azul — todas as cores do arco-íris. (...) O
solo estava dividido em quadradinhos, cada um de
uma cor diferente. Nossas roupas pareciam
também ter se transformado nas cores do arco-íris.
A semelhança entre estas histórias pode ser
superficial ou coincidente, mas as pessoas
experimentam com que freqüência luzes
multicoloridas refletindo-se em seus rostos e
originando-se de alguma fonte desconhecida no
céu? Por que teriam as pessoas alegado
experimentar isto em 1917, tanto em Bar Harbor,
Maine, quanto em Fátima, Portugal? Detalhes
estranhos deste tipo são mistificantes, porém
sugestivos, quando aparecem em casos
independentes. Observo, aliás, que, segundo está
registrado, as manifestações em Fátima foram
testemunhadas por milhares de pessoas, e muitas
delas prestaram depoimento, descrevendo um
extraordinário espetáculo de luzes vindo do céu.
Voltando a 1947, dizia-se ter ocorrido na Itália, no
dia 14 de agosto daquele ano, um clássico contato
com diminutos humanóides. Este relato é
interessante por antecipar todos os demais relatos
famosos de "homenzinhos" saindo de óvnis. Ao
mesmo tempo, ele nunca foi bastante divulgado,
sendo difícil, portanto, ver como o mesmo poderia
ter influenciado os muitos casos semelhantes
ocorridos depois dele.
A testemunha neste caso foi Rapuzzi Luigi
Johannis, um conhecido pintor e escritor de ficção
científica italiano. Seu contato ocorreu perto de
Villa Santina, ao norte de Veneza e perto das
fronteiras com a Áustria e a Iugoslávia. Johannis
disse ter primeiro confidenciado sua história a
duas pessoas, em uma visita aos Estados Unidos
em 1950. Em 1952, ao tentar publicar um relato
do ocorrido em L'Europeo, este foi recusado por
falta de provas. Por fim, publicou-o numa revista
italiana, Clypeus, n° 2-5, de maio de 1964, com o
título "Ho visto un disco volante". Eu menciono
estas datas para mostrar que Johannis poderia ter
inventado a história, baseando-se na literatura
sobre óvnis já disponível até 1964. Isto não quer
dizer, é claro, que ele de fato a inventou.
No dia do contato, Johannis, que se interessava por
geologia e antropologia, escalava uma montanha
pelo leito de um ribeirão à procura de fósseis. Ele
avistou, incrustado numa fenda transversal da
vertente da montanha, um objeto discóide
metálico, vermelho, com uma cúpula central baixa
e nenhuma abertura. Este objeto tinha uma antena
telescópica e cerca de dez metros de largura.
Segundo observou em seu relato, naquela época,
ele nada sabia a respeito de discos voadores.
Ao olhar à sua volta para ver se havia mais alguém
por ali, avistou dois "meninos" a uma distância
aproximada de cinqüenta metros. Ao aproximar-se deles, deu-se conta de que não eram humanos
e sentiu-se paralisado e enfraquecido. Não teriam
mais que 90 centímetros de altura e vestiam
translúcidos macacões azul-escuros, com golas
vermelhas e cintos. Tinham cabeças maiores que a
de um homem normal. Os rostos deles, prosseguia
Johannis, descritos em termos antropomórficos,
incluíam enormes e salientes olhos redondos, um
nariz reto e de corte geométrico e uma boca
fendida com o formato de um acento circunflexo. A
"pele" era de cor verde terrosa.
Após ficar boquiaberto de assombro por alguns
minutos, ele brandiu sua picareta geológica e deu
um grito. Em resposta, uma das entidades tocou
em seu cinto, emitindo um "raio" que deixou
Johannis prostrado no solo, sem a menor força
para se mexer. Ele conseguiu se revirar devagar, a
tempo de ver uma das entidades fugir com sua
picareta. Em seguida, as entidades regressaram à
nave, que logo alçou vôo, deslocando uma cascata
de pedras da vertente da montanha. Ele
testemunhou que o disco, adejando no ar,
diminuiu subitamente e desapareceu. Isto foi
acompanhado por uma rajada de vento que o
derrubou no solo.
Após umas três horas, Johannis, apesar de todo
dolorido, sentiu-se forte o bastante para regressar
à casa. Ele se recorda de ter resolvido nada dizer
acerca do incidente, já que não queria ser
considerado um visionário louco, ou algo pior. Ao
viajar para Nova York, dois meses mais tarde, ficou
sabendo pela primeira vez dos discos voadores
vistos por Kenneth Arnold. Naquela altura, decidiu
confidenciar sua história. Segundo também disse
ele, duas pessoas da região declararam ter visto
uma bola vermelha ascendendo ao céu e
desaparecendo por volta do momento do
incidente.
Este relato contém diversos aspectos que ocorrem
repetidas vezes em contatos imediatos com óvnis.
O raio paralisante é típico, tanto quanto o
desaparecimento abrupto do disco à hora de sua
partida. Em seu depoimento perante o Congresso,
em 5 de abril de 1966, J. Allen Hynek observou
que, se são mesmo objetos tangíveis, os óvnis
deveriam ser vistos voando de ponto a ponto ao
longo de distâncias consideráveis. Hynek achou
intrigante o fato de isto não ter sido observado. Ao
invés disso, os óvnis costumam aparecer de forma
abrupta, manobrar numa área restrita e depois
desaparecer também de forma abrupta. Após
examinarmos mais exemplos disto, analisarei
algumas idéias a respeito do que poderia estar
acontecendo.
Os homenzinhos vistos por Johannis também eram
típicos de uma série de maneiras. Os uniformes, a
estatura baixa, cabeças e olhos grandes e bocas
fendidas manifestam-se repetidas vezes em casos
de contato imediato. A pele verde, contudo, é
pouco comum — não obstante as piadas sobre
homenzinhos verdes.
O vento que se seguiu ao desaparecimento da
nave é um aspecto curioso. Johannis não
mencionou propulsores ou jatos no disco que
pudessem produzir uma rajada de ar, e mesmo
assim a rajada teve força suficiente para deitá-lo
no solo. Num relato independente, uma mulher
alemã, chamada Elsa Schroder, conta ter deparado
com um disco voador com um ocupante de
aparência inteiramente humana, no deserto entre
o Irã e o Paquistão, em 1975. Alienígenas com
aparência humana também são constantes em
inúmeros relatos. Neste caso, porém, me interessa
em particular a forma pela qual o veículo partiu:
Depois, o Disco ascendeu sem ruído algum e
sobrevoou quase que na minha direção. De
repente, algo parecido com uma força invisível
pressionou-me para baixo, fazendo-me cair e rolar
pela duna de areia. Ainda um pouco tonta,
levantei-me de novo e observei o Disco Voador
ascendendo devagar, para em seguida afastar-se
em disparada e se esvair no céu azul com um tom
estranho.
Neste caso, a testemunha não relatou o
desaparecimento abrupto do óvni, mas
mencionou, isto sim, um efeito de pressão
semelhante àquele descrito por Johannis.
Marcianos, fertilizante e psiquiatria
A validade do relato de Johannis depende por
completo da integridade do próprio Johannis. Sem
dúvida, ele era um indivíduo inteligente e
talentoso, mas aqui alguém poderia suspeitar de
excesso de talento. Teria ele simplesmente
inventado a história? Embora não esteja claro, por
que ele faria isto ou o que ele teria a lucrar com
isto?
Em contraste com o caso de Johannis, o Dr.
Berthold Schwarz conta também uma história
bizarra, testemunhada por alguém cujo caráter,
depois de avaliado com cuidado, não dá margem a
dúvidas. Como a credibilidade desta história se
baseia na reputação de Schwarz, é bom lembrar
que ele é um psiquiatra que tem escrito livros
tanto sobre psiquiatria infantil quanto sobre
pesquisa psíquica. Um desses livros, que trata dos
aspectos psíquicos do fenômeno óvni, é a fonte da
história que passo a apresentar.
Por volta das dez horas de 24 de abril de 1964, um
fazendeiro de 26 anos de idade, chamado Gary
Wilcox, espalhava esterco numa área de sua
fazenda em Newark Valley, Nova York. Vendo um
brilhante objeto branco acima da área, na margem
de um bosque, ele foi até lá com seu trator para
investigar aquilo. A princípio, pensando ser uma
fuselagem ou o tanque de combustível de um
avião, ele se aproximou e tocou no objeto. Então,
da parte de baixo do objeto surgiram dois homens
de um metro de altura segurando uma bandeja de
metal cheia de alfafa, raízes, terra e folhas.
Usavam roupas metálicas esbranquiçadas que não
deixavam nenhuma parte de seus corpos à
mostra.
Enquanto Wilcox, parado e aflito, imaginava que
tipo de truque era aquele, um dos homens disse:
"Não se alarme", em uma voz sinistra que parecia
emanar do seu corpo todo. Em seguida, eles
fizeram perguntas a Wilcox sobre lavoura e
fertilizantes, alegando ter vindo de Marte, que é
feito de substâncias rochosas inadequadas para a
agricultura. Fizeram comentários sobre a poluição
do ar em áreas congestionadas, e predisseram as
mortes dos astronautas Glenn e Grissom por
demasiada exposição à atmosfera do espaço.
Depois, os homens se abaixaram sob a nave e
desapareceram. A nave produziu um ruído como o
do motor de um carro em marcha lenta, deslizou a
uma distância de 45 metros e desapareceu no ar.
Em resposta à solicitação de um pouco de
fertilizante feita pelos homens, mais tarde Wilcox
trouxe um saco até o local. Na manhã seguinte,
reparou que o saco havia desaparecido.
Bem, que tipo de pessoa contaria uma história
dessas? Berthold Schwarz aplicou um exame
psiquiátrico em Wilcox e constatou que ele "não
tinha história pregressa de distúrbios neonatais,
doenças graves em seu período de crescimento,
traços de caráter neurótico, experiências
dissociativas ou amnésicas, fugas, comportamento
sociopático, problemas na escola, lesões na
cabeça, encefalopatia, cirurgia ou qualquer tipo de
comportamento aberrante". Ele gozava de boa
saúde e havia sido um bom aluno na escola. Não
tivera nenhum interesse anterior em óvnis ou em
assuntos exóticos, e se limitava a ler jornais e
revistas populares. Às vezes, participava dos
cultos de uma igreja batista local.
Schwarz examinou Wilcox, usando três conhecidos
testes de saúde física e mental (Cornell Medicai
Index Health Questionnaire, Rotter Incomplete
Sentences Test e Minnesota Multiphasic
Personality Inventory-MMPI). Os resultados
acusaram um bom estado de saúde física e
emocional. Segundo o MMPI, "uma busca
estrutural de traços e forças positivas mostrou
correlações suficientes para se descrever o
paciente como dócil, metódico, ordenado,
socialmente reservado e sincero".
Schwarz concluiu: "Seria muito fora do comum (...)
Gary Wilcox inventar uma história tão fantástica
sem que seu exame psiquiátrico ou as entrevistas
com seus amigos, conhecidos e familiares
indicassem pistas para isto." Ao mesmo tempo,
observou ele, não havia razão alguma para se
supor que os seres da história vieram mesmo de
Marte só porque assim o disseram.
Casos envolvendo crianças
Num rastreamento de casos, é importante atentar
para o fato de que crianças também narram
contatos com óvnis. A seguir, apresento três
exemplos de semelhantes relatos. É possível
objetar que, sendo as crianças propensas a mentir
e a fantasiar, o testemunho delas não pesa muito.
Contudo, como ficou demonstrado pela tradicional
história do menino que dava falso alarme, os
adultos têm meios de distinguir honestidade e
desonestidade nas crianças. Mesmo sendo difícil
detectar uma mentira, é improvável que uma
criança minta só uma vez — logo, os adultos que
estiverem avaliando uma criança acabarão
conhecendo seu padrão de comportamento
desonesto.
Embora as histórias que detalharei nesta seção
não sejam tão bem autenticadas como a do caso
Wilcox, acho que elas merecem ser levadas em
consideração. Como acontece com todas as
histórias de óvnis, elas não constituem provas
cabais. Porém, só se podem reunir provas de
autenticidade satisfatória entendendo-se o padrão
genérico de grandes conjuntos de dados, para
então se passar ao julgamento de casos
individuais, apurando-se até que ponto estes se
enquadram no padrão. Se deixarmos de considerar
grandes conjuntos de dados, poderemos perder
pistas importantes para a apuração do padrão.
O primeiro dos três relatos de crianças integra um
artigo intitulado "The londing at Villares del Saz",
de Antonio Ribera, famoso pesquisador de óvnis da
Espanha. A principal testemunha neste caso foi um
vaqueiro analfabeto de quatorze anos chamado
Máximo Munoz Hernáiz. Seu contato se deu
enquanto ele apascentava vacas no início de julho
de 1953, perto da aldeia de Villares del Saz, em
Cuenca, Espanha central. A seguir, vão trechos de
uma entrevista com o menino, realizada pelo
editor do jornal Ofensiva:
— O que você viu não existe. Como, então, pode
explicar isto?
— Eu vi sim. Eu vi os homenzinhos sim.
— Que horas você viu a máquina?
— A uma da tarde.
— Que estava fazendo naquele momento?
— Estava sentado, cuidando para que o gado não
se aproximasse da lavoura.
— Ouviu algum som antes da visão?
— Sim, mas bem leve. Por isso, nem me virei para
ver.
— Você estava de costas para aquela direção?
— Sim, senhor.
— Que ouviu?
(Máximo Hernáiz disse ter ouvido um assovio
débil, abafado, intermitente. Ao virar-se para
aquela direção, a máquina já havia aterrissado.)
— Que você fez quando a viu?
— Nada. Pensei que era um balão grande, um
daqueles que soltam em feiras. Só depois me dei
conta de que não era. Brilhava com muito fulgor.
— Brilhava o tempo todo?
— Quando estava parado brilhava menos do que
quando se movimentava.
— Qual era a sua cor?
(Segundo indicou o menino, o objeto tinha cor
cinza, cerca de 1,30 m de altura e formato
parecido com o de uma pequena jarra d'água.)
— Permaneceu ali no solo por muito tempo?
— Bem pouco tempo. Como eu pensava que era
um balão, andei na direção para pegá-lo. Antes
que eu tivesse tempo de atingi-lo, uma porta se
abriu e uns homenzinhos começaram a sair por
ela.
— Como eram os homenzinhos?
— Eram minúsculos. Assim (cerca de 65
centímetros).
— Tinham rostos como os nossos?
— Seus rostos eram amarelos, e os olhos,
estreitos.
(O pintor Luis Roibal, que estava com o editor do
jornal, fez uma série de esboços de homenzinhos
de acordo com a descrição do rapazinho.)
— Sim, assim, mas mais chaparrete.
(Os traços dos rostos são completamente
orientais.)
— Quantos homenzinhos desceram do balão?
— Três.
— Por onde saíram?
— Por uma portinha que a coisa tinha em cima.
— Como desceram?
— Deram um pulinho.
— Que fizeram depois?
— Vieram até onde eu estava.
— E falaram algo?
— Sim, senhor, mas não consegui entendê-los.
— Onde eles pararam?
— Um a minha esquerda, outro a minha direita, e
o que falava comigo ficou na minha frente.
— Eles lhe fizeram algo?
— Como eu não entendi o que aquele que estava
na minha frente me dizia, ele me deu um tapa no
rosto.
— E depois?
— Nada. Foram embora.
— Como subiram para a máquina?
— Agarraram uma coisa que estava no balão,
pularam e entraram.
Os homens, disse o menino, vestiam roupas de um
azul vivo como as de músicos numa feira, e
usavam chapéus chatos com viseiras. Embora
também usassem peças de metal nos braços, ele
não conseguiu descrevê-las bem. Depois que os
homens entraram, o objeto reluziu com muito
fulgor e decolou rapidamente, não deixando sinais
de exaustão e fazendo o mesmo som de assovio
que antes.
Segundo Ribera, o pai do menino foi até o local
com o delegado de polícia da região e, além de
pegadas, eles encontraram quatro buracos,
formando um quadrado com cada lado medindo 36
centímetros. Outras testemunhas, incluindo o
oficial da polícia de delegacia de Honrubia,
próxima a Villares, relataram ter visto uma esfera
voadora branco-acinzentada, vindo
aproximadamente do local em Villares del Saz à
hora do contato.
Por mais estranha que pareça esta história, ela é
semelhante a muitas outras contadas no mundo
todo. Se ela é mesmo oriunda de um rapazinho
analfabeto da Espanha central, é difícil entender
por que ele teria pensado em detalhes amiúde
relatados, tais como os rostos orientais, o som de
assovio, o fulgor do globo e seu vôo sem um rastro
visível de exaustão. Presumivelmente, ele teria
precisado de aulas particulares de alguém versado
no assunto, o que não parece plausível para um
menino analfabeto de quatorze anos, oriundo de
uma família de fazendeiros. Se a história é falsa,
então, é bem provável que toda a descrição do
menino e sua situação sejam falsas também.
Outro exemplo do testemunho de uma criança
vem de John Swain, filho de doze anos de um
fazendeiro morador perto de Coldwater, Kansas.
Ele teve contato com um óvni em setembro de
1954, e escreveu uma carta sobre o acontecido
para um certo reverendo Baller, em 3 de outubro
de 1954:
O senhor me pergunta sobre o disco que eu vi. Eu
estava arando o campo quando tudo aconteceu.
Tivemos problemas com o trator e já era tarde
quando finalmente o consertamos. Como estava
um clima ameno, trabalhei até às 20h. Depois
deixei o arado e vim para casa. Eu o encontrei a
cerca de 120 metros, mas não vi nada suspeito.
Fui dar num (...) [terraço?]. Ele estava agachado e
um pouco escondido. Deu um salto e olhou para
mim, meio flutuando. Saltou para dentro do disco,
que se acendeu e decolou. Sumiu de vista. Contei
o que tinha acontecido a minha mãe e meu pai e
conversamos a respeito. Depois, mamãe chamou o
xerife. Ele apareceu naquela noite e me fez
perguntas. Disse que viria de novo pela manhã
para ver se havia alguma pegada nas redondezas.
Havia e ele enviou os relatórios para Washington,
D.C. Assinado: John Swain.
As pegadas em questão, segundo disseram, eram
cuneiformes e diferentes daquelas feitas por
sapatos comuns. Além de entidades ufológicas
flutuantes serem relatados com freqüência, temos,
mais uma vez, uma referência a um objeto voador
que acende ou brilha ao decolar. Se isto é uma
fantasia, tem coerência com o padrão dos temas
ufológicos e não com rasgos de imaginação livre.
O terceiro exemplo de contato com óvni relatado
por crianças vem da África do Sul. Em 2 de
outubro de 1978, por volta das 11h15, quatro
estudantes adolescentes esperavam a mãe do
mais velho deles vir pegá-los num ponto isolado do
Parque Ecológico Groendal. Os meninos se deram
conta de um objeto prateado que se projetava
acima do bosque a algumas centenas de metros
de distância, do outro lado de um vale. Neste
momento, um dos meninos reparou que havia dois
homens vestidos com macacões prateados, a
cerca de 275 metros a oeste do objeto. Instantes
após, um terceiro homem juntou-se aos outros
dois, e os meninos repararam que eles tinham um
jeito peculiar de caminhar. "Caminhavam
movimentando apenas dos joelhos para baixo e
usavam suas pernas com se fossem
estabilizadores", disse um dos meninos.
Após o ocorrido ter sido relatado, uns dez dias
mais tarde, os meninos foram entrevistados em
separado e contaram histórias semelhantes.
Também em separado, eles fizeram desenhos
comparáveis dos homens.
Diversos investigadores, inclusive um major da
polícia, levaram cerca de noventa minutos para
abrir uma trilha por entre a mata densa que ia dar
no local. Encontraram "uma área com depressão
de 6x18m onde o bosque havia sido aplanado até
o nível do solo e, no perímetro externo da
depressão oval, havia nove marcas, cada uma
contendo três ou quatro impressões minúsculas".
Rastros e efeitos físicos
Nos casos recém-descritos, vimos diversos
exemplos em que óvnis aterrissaram e deixaram
rastros físicos de sua presença na terra e na
vegetação. Como podem ser avaliados num
laboratório, tais rastros fornecem uma das
principais séries de provas científicas da realidade
física dos óvnis.
Um caso envolvendo mensuráveis rastros no solo
foi investigado pelo grupo de estudos sobre óvnis
chamado GEPAN, instituído em 1977 pela CNES, o
centro de estudos espaciais francês (veja página
80). Este caso foi descrito da seguinte maneira
pelo chefe do GEPAN, Jean-Jacques Velasco:
Por volta das 17h do dia 8 de fevereiro de 1981, o
Sr. Collini trabalhava tranqüilamente em seu
jardim em Trans en Provence. De repente, teve
sua atenção atraída por um assovio baixo que
parecia vir de um dos extremos de sua
propriedade. Voltando-se, ele viu no céu, acima
das árvores, algo aproximando-se de um terraço,
no fundo do jardim. O objeto aterrissou de
repente. A testemunha aproximou-se e, escondida
atrás de uma casinha, observou o estranho
fenômeno.
Menos de um minuto depois, o fenômeno
ascendeu de repente e afastou-se na direção de
onde parecia ter chegado, ainda emitindo um
assovio baixo. O Sr. Collini dirigiu-se
imediatamente ao aparente cenário da
aterrissagem e observou marcas circulares e uma
nítida impressão em forma de coroa no solo. A
Gendarmaria chegou no dia seguinte para fazer o
relatório e, seguindo nossas instruções, colheu
amostras do solo e da vegetação circundante.
Trinta e nove dias após a visão, uma equipe do
GEPAN foi enviada ao local para fazer
investigações. Os primeiros resultados da análise
mostraram ser interessantes, acusando impactos
significativos às amostras de solo e vegetação, em
particular distúrbios bioquímicos na vida das
plantas.
Segundo demonstrou a investigação, a
testemunha, além de não apresentar problemas
psicológicos, foi de todo coerente em seu
depoimento. Também foram detectados, no local
da aterrissagem, sinais de aquecimento do solo,
entre 300° e 600°C, afora o provável depósito de
quantidades identificáveis de fosfato e zinco.
Uma análise bioquímica foi realizada pelo
laboratório de bioquímica do Instituto Nacional de
Pesquisa Agrônoma (INRA), na França, sob a
supervisão de um certo Prof. Bounias. Este estudo
analisou o teor de pigmento de clorofila e
carotenóide de uma espécie de alfafa silvestre
existente na área da aterrissagem. Trinta e nove
dias após a visão, observou-se uma redução, entre
30 e 50% dos pigmentos A e B da clorofila, sendo
que os rebentos das folhas apresentaram as
maiores perdas, além de sinais de envelhecimento
prematuro. O efeito reduzia-se visivelmente à
medida que se distanciava do centro da
aterrissagem. Contudo, não havia sinais de
radioatividade residual.
Segundo parece demonstrar esta investigação,
alguns fenômenos ufológicos são receptivos à
investigação científica séria. Neste caso, a
integridade da testemunha e as medições
empíricas no local de aterrissagem aliam-se para
indicar que algo desconhecido, porém fisicamente
real, aconteceu efetivamente. Talvez a hipótese
mais simples para se explicar os dados observados
seja que um tipo desconhecido de nave aérea
realmente aterrissou no jardim do Sr. Collini,
deteve-se por alguns minutos e em seguida
retomou seu vôo.
Casos de rastros deixados no solo por óvnis têm
sido estudados a fundo por Ted R. Phillips,
tarimbado investigador que tem participado de
diversos estudos científicos sobre óvnis nos
Estados Unidos. Em 1981, ele concluiu, após
quatorze anos, um estudo de 2.108 casos,
procedentes de 64 países, envolvendo
aterrissagem com rastro físico. Ele próprio
investigou mais de trezentos destes casos e
resumiu seu estudo dizendo:
1. Os casos apresentam relevantes padrões
estatísticos.
2. Os óvnis observados por testemunhas múltiplas
parecem ter sido veículos sólidos construídos sob
alguma espécie de controle inteligente.
3. Eles produziram rastros físicos que, em muitos
casos, não têm explicação natural ou
convencional.
4. Tem havido pouquíssima investigação científica
em torno destes relatos.
Phillips apresentou uma série de estatísticas sobre
relatos de aterrissagem com rastros físicos. Por
exemplo: nas quatro primeiras décadas deste
século, seus registros acusaram cerca de seis
casos de rastro físico por década. Este número
subiu para 43 nos anos 40 e, nos anos 70, houve
1.001 casos de rastro físico.
Do seu total de 2.108 casos, disse ele, cerca de
275 contaram com duas testemunhas e cerca de
430 com três ou mais. Houve relato de
humanóides em 460 casos, sendo que em 310
destes casos os humanóides eram pequenos se
comparados a humanos normais. Em 87 casos,
eles eram de tamanho normal, tendo sido
considerados grandes em 63 casos.
Phillips apresentou os seguintes dados sobre os
aspectos externos dos óvnis observados em seus
casos. Cada aspecto é acompanhado pelo número
de casos em que foi relatado:
som 214
portas ou janelas 207
luzes externas 207
ascensão vertical 184
feixe de luz 183
trem de pouso 159
abóbada 144
vapor 128
o óvni girava 125
antena 117
calor 117
Os rastros de aterrissagem foram descritos como
tendo formatos circulares, ovais ou irregulares. A
vegetação atingida pelos rastros estava queimada,
abaixada ou desidratada, havendo marcas
freqüentes em disposição simétrica, sugestivas de
marcas de trem de pouso.
Apesar de poderem nos dar alguma idéia daquilo
que é típico, as estatísticas não podem explicá-lo.
No entanto, a análise estatística pode revelar
alguns padrões interessantes, próprios dos dados
sobre óvnis. Por exemplo: os investigadores de
óvnis Coral e Jim Lorenzen compilaram, num livro
publicado em 1976, algumas estatísticas sobre
relatos de visão de humanóides. Numa coletânea
de 164 relatos datados entre 1947 e 1975, eles
classificaram os humanóides como pequenos
(abaixo de noventa centímetros) e grandes (acima
de noventa centímetros). Também dividiram os
óvnis relatados em diferentes categorias, incluindo
discos grandes e pequenos e formas ovais grandes
e pequenas.
Em relatos mencionando discos grandes, eram
apresentados em 24 humanóides grandes e
humanóides pequenos em cinco. Em relatos
mencionando discos pequenos, nove
apresentavam humanóides grandes e 28
humanóides pequenos. Deste modo, o tamanho
dos seres parece corresponder aproximadamente
ao tamanho dos discos. O mesmo padrão
manifestou-se nos casos de óvnis ovalados.
Embora eu desconheça a explicação deste padrão,
seria interessante averiguar se ele ocorre nos
casos de rastro físico de Phillips como uma
correlação entre o tamanho dos humanóides e o
espaçamento do campo de pouso.
Efeitos eletromagnéticos sobre carros
Além de produzirem efeitos físicos sobre o solo, os
óvnis também são famosos por produzirem efeitos
eletromagnéticos transitórios sobre veículos
automotores. Isto foi descrito da seguinte maneira
por Roy Craig, no famoso Relatório Condon:
De todos os efeitos físicos tidos como causados
pela presença de óvnis, o alegado enguiço de
motores de automóveis talvez seja o mais
intrigante. Trata-se de uma alegação freqüente, às
vezes em relatos que são impressionantes, por
envolverem múltiplas testemunhas independentes.
As testemunhas parecem ter certeza de que o
funcionamento de seus carros foi afetado pelo
objeto não-identificado, que só teria sido visto,
segundo os relatos, após a constatação do
enguiço. Não existe uma explicação satisfatória
para semelhantes efeitos, se é que eles de fato
ocorreram.
Casos de interferência em automóveis são
relatados em muitos países diferentes, no mundo
todo. Eis um exemplo da Austrália:
Em 20 de outubro de 1986, perto de Edmonton,
Queensland, uma mulher de 41 anos, nativa da
região, dirigindo de volta para casa, oriunda de
Cairns, ao longo da estrada Kamma Pine Creek,
começou a experimentar extrema dificuldade para
controlar seu carro. Ele tendia para o lado direito
da estrada. Cerca de quatrocentos metros adiante,
as lanternas e faróis quase se apagaram. Então, a
mulher ouviu um zumbido e o veículo perdeu a
força do motor. Olhando para o alto, a testemunha
avistou à frente do carro uma brilhante e oval luz
azul-esverdeada. Apesar de ela "ter dado uma
freada brusca", o motor pareceu apenas manter-se
em ponto morto e o carro continuou em frente a
uma velocidade bem baixa. Estes fenômenos
continuaram por cerca de quatro quilômetros.
Segundo disse a senhora, a experiência toda
demorou de oito a dez minutos e o óvni parecia
estar viajando em linha aproximadamente paralela
à estrada. Ao passar por uma ponte de mão única,
o óvni "de repente decolou" e, logo em seguida,
ela recuperou controle total sobre seu carro. O
carro, declarou ela, estivera funcionando bem
antes e depois do episódio.
Conforme uma explicação às vezes dada para
justificar tais incidentes, os mesmos seriam
causados por um fenômeno natural que envolve
um vórtice de plasma eletrificado. Esta idéia é
fruto de recente elaboração do meteorologista
inglês Terence Meaden ao tentar explicar os
célebres círculos em campos agrícolas ingleses, os
quais, segundo sugestão da pesquisadora de óvnis
Jenny Randles, poderiam estar associados a certos
relatos de fenômenos ufológicos. A "luz azul-esverdeada, brilhante e oval", que acompanhou o
carro da senhora australiana, poderia ser
interpretada como um plasma cintilante que
produziu um zumbido e interferiu no sistema
elétrico do carro. Mas, para que isto acontecesse,
seriam necessárias energias altíssimas dentro da
massa eletrificada, e é muito difícil descobrir que
processo natural poderia produzir semelhantes
energias e retê-las dentro de um volume limitado
de espaço, por mais que uma fração de segundo.
De um ponto de vista científico ortodoxo, é quase
tão difícil justificar um vórtice de plasma capaz de
interferir no funcionamento de um carro durante
oito minutos quanto o é justificar uma nave aérea
de origem não-humana.
Acontece que nem todos os casos de contato de
óvnis com carros são iguais. Eles naturalmente se
enquadram em diversos grupos distintos, dentre
os quais um grupo em que poderia haver o
envolvimento de algum tipo de plasma
eletrificado. É possível realizar esta divisão em
grupos mediante a análise estatística de uma
ampla coletânea de casos.
Semelhante estudo foi realizado pelo Dr. Donald
Johnson, psicólogo e estatístico que é diretor de
uma empresa de consultoria em administração de
New Jersey. Johnson empreendeu uma análise
sistêmica de duzentos casos de contato com
carros, com datas variando de 1949 a 1978. Esta
análise baseou-se nas três seguintes variáveis:
duração do evento, distância estimada do
automóvel para o óvni e tamanho estimado do
óvni.
Para cada caso, podem-se considerar estas três
variáveis como as coordenadas x, y e z de um
determinado ponto no espaço. (Na verdade,
Johnson usou os "desvios-padrão das
transformações logarítmicas de base 2" das
variáveis.) Podemos imaginar que os duzentos
pontos correspondentes aos duzentos casos
podem enquadrar-se numa série de conjuntos no
espaço. Os casos de determinado conjunto
compartilham algo em comum, diferindo dos casos
de outro conjunto. A análise sistêmica não revela
por que os casos deveriam enquadrar-se em
grupos distintos, mas pode ajudar os
pesquisadores a identificar semelhantes grupos
para estudos posteriores.
Segundo descobriu Johnson, seus duzentos casos
enquadravam-se nos sete conjuntos seguintes:
Conjunto 1: [19] Pequenos objetos (dois metros)
que aparecem durante um ou dois minutos a
distâncias bem próximas. Alguns são bolas de luz
vermelhas, brancas ou amarelo-alaranjadas que
poderiam estar relacionadas a relâmpagos. Oito,
porém, envolvem relatos de aterrissagem.
Conjunto 2: [48] Objetos maiores que a média
(doze a vinte metros de diâmetro), mantendo uma
distância de duzentos a trezentos metros.
Contatos duram em média de quinze a vinte
minutos. Mais da metade são discos abobadados,
sendo um terço deles descritos como metálicos.
Outras características destes casos são: flutuação
(58%), feixes de luz (21%), movimento de folhas
caindo (25%) e algum tipo de conserto, em que as
entidades surgem de um óvni pousado e parecem
trabalhar nele.
Conjunto 3: [33] Objetos ligeiramente menores
que o tamanho médio (seis metros), a uma
distância média (noventa metros), com uma
duração de contato normalmente inferior a um
minuto. Mais da metade deles são metálicos,
sendo típico deles a partida rápida de um pouso
(42%) ou de uma posição próxima ao solo.
Conjunto 4: [11] Objetos de tamanho médio, que
ficam a uma distância média de cerca de quinze
metros. A duração média do contato é de cerca de
uma hora. Muitos destes casos envolvem
perseguição (82%), aterrissagem (45%) e rapto
(27%). Quase 66% envolvem efeitos fisiológicos
tais como paralisia, choque elétrico, formigamento
ou calor. Há ruídos freqüentes (zumbido, por
exemplo) vindos do óvni (45%), um feixe de luz
(45%) e o óvni costuma ter cores múltiplas (45%).
Ao partir, o óvni sai em disparada ou desaparece
num estalo de dedos (64%), e 75% das
testemunhas experimentam temor ou pânico
durante ou após o evento.
Conjunto 5: [62] Objetos com nove ou dez metros
de diâmetro, com distância média de 25 metros e
tempo médio de contato de cinco minutos. Mais de
60% são clássicos discos abobadados, com 40%
descritos como metálicos e 58% como tendo cor
esbranquiçada ou tendo uma luz branca. Outras
características são flutuação (68%), aterrissagem
(40%) e partida a uma velocidade incrível (39%).
Metade das testemunhas expressam temor.
Conjunto 6: [12] Objetos grandes (tipicamente
com sessenta metros de comprimento), às vezes
com formato de charuto, que são vistos apenas
por alguns minutos a distâncias moderadamente
grandes (110 metros). Metade deles cintilam
vermelho ou laranja (e nenhum deles é verde).
Outras características são: bloqueio da estrada e
rápida partida ao serem detectados (30%),
flutuação (50%), aterrissagem (50%), partida em
disparada (50%) e vôo silencioso (75%). Em geral,
não deixam rastros físicos.
Conjunto 7: [5] Objetos pequenos (um metro ou
menos de diâmetro), a uma distância média de
150 metros, com uma duração média de contato
de 45 minutos. Não há efeitos eletromagnéticos, e
nenhum dos objetos é descrito como sendo
metálico. Estes, suspeitava Johnson, podem ser
fenômenos naturais.
Uma vez que uma série de conjuntos tenha sido
identificada com base nas três variáveis, pode-se
perguntar se os conjuntos diferem
significativamente de outras maneiras. Por
exemplo: acaso os relatos da evidência de discos
tendem a enquadrar-se, sobretudo, em certos
conjuntos e não em outros? Se isto ocorre, então,
é indicação de que os conjuntos são significativos.
Diferentes conjuntos envolvem diferentes espécies
de fenômenos.
Segundo a análise de Johnson, há de fato uma
série de características que tendem a marcar forte
presença em alguns conjuntos e não em outros. Ao
que tudo indica, existem diferentes tipos de casos
de contato de óvnis com carros, sendo que alguns
envolvem fenômenos naturais e outros envolvem
diferentes tipos de naves aéreas bem
estruturadas.
Johnson concluiu: "Aconselho a que tenham
cuidado com os ruidosos discos abobadados e
dotados de feixes de luz branco-azulados, por ser
provável que, se tiverem contato com um deles,
sofram no mínimo alguns efeitos fisiológicos. Isto
parece aplicar-se em especial ao caso de o objeto
estar pairando sobre a estrada em frente de seu
carro e interessar-se pelo rumo de sua viagem!"
Evidência fotográfica
Por ser vasta a evidência fotográfica em torno dos
óvnis, só poderei abordá-la de forma sucinta.
Segundo se alega, nos últimos anos se têm tirado
muitas fotografias de óvnis, havendo, também,
filmes e videoteipes. Em alguns casos, estes
registros fotográficos mostram apenas pontos de
luz, de forma que podem representar luzes de
avião ou fenômenos naturais. Contudo, há muitos
casos de fotografias ou filmes mostrando
claramente uma nave metálica bem estruturada.
Nestes casos, sempre há a dúvida quanto ao fato
de as imagens terem sido burladas ou não. É
lamentável ser praticamente impossível provar,
com relação a qualquer caso específico, que não
se tenha cometido um embuste.
No Relatório Condon, William K. Hartmann resume
o status de evidência fotográfica dos óvnis. Após
levantar diversos casos fotográficos, ele admite
que "uma fração mínima de casos fotográficos
potencialmente identificáveis e interessantes
permanece não-identificada". Com relação a estes
casos, ele diz:
1. Nenhum deles estabelece de forma conclusiva
a existência de "discos voadores", ou de qualquer
nave extraordinária, ou de algum fenômeno até
agora desconhecido. Quanto às observações de
qualquer um destes casos, por mais estranhos ou
intrigantes que pareçam, é sempre possível
"explicá-las", quer formulando-se a hipótese de
alguma circunstância extraordinária, quer
alegando-se um embuste. Logo, nenhum dos casos
fotográficos residuais aqui investigados é
convincente o bastante para ser conclusivo por si
só.
2. Para alguns dos casos, fica suficientemente
explícito que a escolha se limita à existência de
uma nave aérea extraordinária ou a um embuste.
3. Apesar de o grupo residual de não-identificados
não ser compatível com a hipótese de que naves
desconhecidas e extraordinárias tenham
penetrado o espaço aéreo dos Estados Unidos,
nenhum deles produz evidência suficiente para se
estabelecer esta hipótese.
Talvez casos que podem envolver ou uma nave
aérea desconhecida ou um embuste não sejam tão
raros quanto sugere Hartmann. É possível
encontrar uma grande coletânea de tais casos no
livro UFO Photographs (Fotografias de óvnis), de
Stevens e Roberts. Eis um exemplo daquele livro.
Em 29 de julho de 1952, George Stock, técnico em
consertos de cortadores de grama de Passaic, New
Jersey, estava em seu quintal trabalhando em uma
dessas máquinas. Por volta das 16h30 da tarde, ao
ver um objeto desconhecido voando no céu, ele
gritou para seu pai lhe trazer a máquina
fotográfica deles. Com a máquina, Stock tirou sete
fotos em preto-e-branco de um disco metálico de
aparência sólida com uma abóbada
semitransparente em sua parte superior. Este
objeto parecia ter entre 6 e 6,5m de diâmetro, e
viajava lentamente a cerca de sessenta metros
acima do solo. Após revelar as fotografias com um
fotógrafo profissional local chamado John H. Riley,
Stock as publicou no "Morning Call", Vol. CXLI, n°
28 de Paterson, New Jersey, em 3 de agosto de
1952.
George Wertz, do Escritório de Investigações
Especiais da Força Aérea (OSI), entrou em contato
com Stock e insistiu bastante para que este lhe
cedesse os negativos das fotografias. Estas
ficaram retidas na Força Aérea durante seis
meses, e então, depois de Stock reclamar muito,
cinco dos sete negativos foram-lhe devolvidos.
Investigando o caso, August Roberts descobriu que
uma mulher, que morava a três quadras e meia da
casa de Stock, também viu um objeto voador em
forma de disco por volta da mesma hora em que
Stock tirou suas fotos. Embora houvesse outras
testemunhas, estas silenciaram subitamente. O
próprio Stock, aparentando estar bastante
aborrecido, acabou entregando os cinco negativos
restantes a Roberts e arrematando: "Diga-lhes que
os tirou ou que eles são falsos. Nada disso me
interessa."
Que conclusões poderíamos tirar deste caso? Se
examinamos as fotos, fica claro que elas devem
ser farsas ou imagens de uma nave genuína da
típica variedade do disco abobadado. Tanto
Roberts quanto Wertz, o oficial do OSI, parecem
ter ouvido um boato sobre o fato de certo vizinho
ter visto Stock "lançando um modelo no ar". Mas
não lhes foi possível apurar este boato. Ademais,
Wertz, baseado em seu estudo das fotos, achava
que "o objeto em questão estava bem alto e por
isso teria sido preciso usar um modelo bem
grande, se é que era mesmo um modelo".
Segundo Roberts, Wertz, mesmo mantendo-se
evasivo quanto às fotos de Stock, tendia a ser
favorável à idéia de elas serem genuínas.
Uma característica tanto dos relatos sobre óvnis
quanto das fotografias de óvnis é que, apesar de
ser bastante reconhecido o fato de as formas de
óvnis se enquadrarem em geral em umas poucas
categorias básicas (tais como disco, esfera e
elipsóide), é grande a variedade de suas formas
em particular. Em conseqüência disso, são
relativamente poucos os casos de óvnis de
aparência idêntica fotografados
independentemente em locais diferentes. O caso
Stock exemplifica este fato, uma vez que, em
meados de 1952, fotografaram óvnis muito
parecidos com o de Stock em Chauvet, França, e
em Anchorage, Alasca.
Outro exemplo de duas fotos, aparentemente
independentes, de formas ufológicos quase
idênticas foi relatado pelo Dr. Bruce Maccabee,
físico da Marinha e presidente do Fundo para
Pesquisa sobre Óvnis (FUR), em Maryland. Durante
a noite de 7 de julho de 1989, o Sr. Hamazaki de
Kanazawa, Japão, filmou em vídeo um objeto que
passou quase por cima de uma casa. Segundo
descrição de Maccabee, o objeto tinha a forma de
um quadrado brilhante com um hemisfério escuro
estendendo-se abaixo dele, dando a impressão do
planeta "Saturno com um anel quadrado". Um
objeto virtualmente idêntico parece ter sido
fotografado por Michael Lindstrom no Havaí em 2
de janeiro de 1975. Segundo Maccabee, a única
diferença notável entre os óvnis de Hamazaki e
Lindstrom era que, enquanto o óvni de Hamazaki
tinha um anel brilhante com um hemisfério escuro,
o de Lindstrom tinha um anel escuro com um
hemisfério brilhante.
Minha última ilustração de evidência fotográfica é
extraída de outra categoria importante: fotografias
e filmes que alegam ser obra de oficiais militares,
mas não estão à disposição do público. No Capítulo
1 (páginas 46-48), apresentei o depoimento do Dr.
Elmer Green com respeito a fotos e filmes de óvnis
feitos em bases militares por cientistas e
engenheiros que eram membros da Divisão de
Sistemas Ópticos.
Eis um caso semelhante baseado no depoimento
do Dr. Robert Jacobs, primeiro-tenente reformado
da Força Aérea, hoje professor adjunto de rádio-filme-tevê da Universidade de Wisconsin. Segundo
alega Jacobs, em 15 de setembro de 1964 ele foi
encarregado de filmar um teste com o míssil Atlas
F na Base Aérea de Vandenberg, Califórnia. Alguns
dias após fazer o filme, diz ele, foi convocado por
seu oficial superior, o major Florenz J. Mansmann.
O major pediu a Jacobs para assistir ao filme,
chamando-lhe atenção para o que nele aparecia a
uma certa altura:
De repente, vimos um óvni navegando no filme.
Era um objeto redondo, claramente distinguível.
Ele voou bem na direção de nosso míssil e emitiu
um vivido clarão de luz. Em seguida, alterando seu
curso, pairou brevemente sobre nosso míssil (...) e
depois veio um segundo vivido clarão de luz.
Então, o óvni voou duas vezes ao redor do míssil e
lançou mais dois clarões de diferentes ângulos, e
enfim desapareceu. Alguns segundos mais tarde,
nosso míssil entrava em pane e tombava sem
controle no Oceano Pacífico, centenas de
quilômetros antes do alvo programado para ele.
Disse-lhe o major Mansmann: "Você não deve
dizer nada sobre esta filmagem. Quanto a você e a
mim, isto nunca aconteceu! Certo...?" Jacobs diz
ter esperado dezessete anos para contar a
história.
Segundo disse o Dr. Green, autoridades militares
comunicaram aos membros de sua divisão não
haver registro algum de que os incidentes com
óvnis por eles testemunhados tivessem alguma
vez acontecido. Porém, não receberam ordem de
manter sigilo sobre os mesmos. Conforme também
salientou Green, nenhuma das fotos e filmagens
de óvnis de alta qualidade feitas pela Divisão de
Sistemas Ópticos foi colocada à disposição dos
cientistas que prepararam o Relatório Condon.
Todas as supramencionadas conclusões do
Relatório Condon sobre evidência fotográfica
basearam-se em fotografias tiradas
ocasionalmente por civis com equipamento
fotográfico amador.
3
O Papel do Governo
O clamor público em torno dos "discos voadores"
que teve início em 1947 foi acompanhado de uma
crescente preocupação nos círculos militares
americanos. Dois anos após o fim da Segunda
Guerra Mundial, desenvolvera-se uma controvérsia
dentro da recém-formada Força Aérea americana
na tentativa de esclarecer se os óvnis constituíam
ou não uma ameaça à segurança nacional.
Segundo Edward Condon, havia uma acentuada
polarização de opiniões:
Dentro da Força Aérea havia quem acreditasse
enfaticamente que o assunto era absurdo e que a
Força Aérea não lhe devia dedicar atenção
alguma. Outros oficiais encaravam os óvnis com a
máxima seriedade e acreditavam ser bem
provável que o espaço aéreo americano estivesse
sendo invadido por armas secretas de poderes
estrangeiros, ou possivelmente por visitantes do
espaço exterior.
Neste capítulo, resumirei a história do
envolvimento do governo americano e suas forças
militares com a questão dos óvnis. Começarei com
a história oficial, conforme Edward Condon a
apresentou no Scientific Study of Unidentified
Flying Objects (Estudo científico sobre objetos
voadores não-identificados).
O primeiro esforço oficial no sentido de lidar com
relatos sobre discos voadores data de 23 de
setembro de 1947, por iniciativa do tenente-general Nathan Twining, chefe do Estado-maior
das Forças Armadas americanas e comandante-geral da Força Aérea. Twining escreveu uma carta
recomendando a formação de um grupo de estudo
para investigar o problema dos "Discos Voadores".
Nesta carta, ele aventurou opinar que:
1. O fenômeno relatado é algo real, e não
visionário ou fictício.
2. Existem objetos provavelmente com a forma
aproximada de um disco, parecendo ser de
tamanho tão mensurável quanto o são as naves
aéreas feitas pelo homem.
3. É possível que alguns dos incidentes sejam
causados por fenômenos naturais, tais como
meteoros.
4. As características operacionais relatadas — tais
como velocidades extremas de ascensão,
manobrabilidade (em particular em rolamento) e
ação indubitavelmente evasiva diante da visão ou
da tentativa de contato por naves aéreas
amistosas ou por radar — levam a crer na
possibilidade de que alguns dos objetos são
controlados manual, automática ou remotamente.
Twining prosseguia dizendo ser possível se valer
da tecnologia americana daquela época para
construir naves aéreas, só que um esforço nesse
sentido seria sobremaneira caro e consumiria
tempo demais. Ele aventou a possibilidade de os
objetos desconhecidos serem produtos de um
projeto secreto americano fora da alçada de seu
comando, além de também ter considerado a
hipótese de os mesmos terem sido produzidos por
alguma nação estrangeira.
O grupo de estudo recomendado pelo general
Twining foi alcunhado de Projeto Senha, tendo
continuado ativo até fevereiro de 1949. A
execução do projeto ficou a cargo do Centro
Técnico de Inteligência da Aeronáutica (ATIC) na
Base Aérea Wright-Patterson, perto de Dayton,
Ohio.
O relatório final do projeto parecia indicar uma
atitude ambivalente quanto à continuação das
investigações sobre óvnis:
Quaisquer atividades futuras relacionadas a este
projeto deverão ser conduzidas com o nível
mínimo de esforço necessário para registrar,
resumir e avaliar os dados recebidos sobre relatos
futuros, e para encerrar as investigações
especializadas empreendidas. Quando e se um
número suficiente de incidentes for resolvido a
ponto de indicar que estas visões não representam
uma ameaça à segurança nacional, poder-se-á
rescindir a atribuição do status de projeto especial
para a atividade.
Este tom de dúvida também se insinuou em dois
apêndices do relatório, escritos pelo Prof. George
Valley, Instituto Tecnológico de Massachusetts, e
pelo Dr. James Lipp, da Rand Corporation.
Argumentando ser a existência de discos voadores
improvável do ponto de vista teórico, estes
cientistas sugeriram que se deveria recorrer a
explicações psicológicas.
Conforme ambos comentaram, os objetos
voadores pareciam comportar-se de forma
disparatada, e Valley chegou a sugerir que eles
poderiam ser alguma espécie de animal, muito
embora admitisse jocosamente "haver poucos
relatos confiáveis sobre animais extraterrestres".
Era possível, salientaram ainda, que os óvnis
fossem pilotados por extraterrestres assustados
com nossos testes nucleares. Em seguida, Valley
fez eco a outro tema sobre o fenômeno óvni,
dizendo: "Em vista da história pregressa da
humanidade, eles devem estar alarmados. Não
surpreende, portanto, sobretudo na época atual,
que observemos semelhantes visitas."
Após 11 de fevereiro de 1949, o trabalho de
pesquisa sobre óvnis realizado no ATIC passou a
ser conhecido como Projeto Rancor. Esta fase do
estudo sobre óvnis parece ter criado certo rancor
entre os membros da equipe que dele
participavam. O astrônomo J. Allen Hynek, por
exemplo, responsável por uma série de análises de
casos para o projeto, disse mais tarde:
O fato de terem alterado o nome do projeto para
Projeto Rancor era indício da adoção de uma
atitude de descaso para com o problema ufológico.
O departamento de relações públicas passou a
fazer declarações sobre casos específicos, que
pouca semelhança tinham com os fatos dos casos
em si. Bastava um caso conter algum dos
elementos possivelmente atribuíveis a naves
aéreas, a um balão etc. para logo se tornar aquele
objeto no comunicado à imprensa.
Da mesma maneira, outro participante, o capitão
Edward J. Ruppelt, disse: "Esta drástica mudança
na atitude oficial é tão difícil de explicar como foi
difícil, para muitas pessoas que sabiam o que
estava acontecendo dentro do Projeto Senha,
acreditar nela."
O Projeto Rancor produziu um relatório em agosto
de 1949, com as seguintes conclusões:
Não há provas de que os objetos relatados sejam o
resultado de um avançado desenvolvimento
científico estrangeiro; portanto, não constituem
uma ameaça direta à segurança nacional. Em vista
disto, recomenda-se que se reduza o âmbito da
investigação e do estudo de relatos sobre objetos
voadores não-identificados. O quartel-general AMC
continuará a investigar relatos em que haja nítida
indicação de aplicações técnicas realísticas.
Obs.: É evidente que a continuação dos estudos
sobre esta área apenas confirmaria as descobertas
aqui apresentadas.
Além disso, o relatório concluía que todos os
relatos sobre óvnis se devem a (1) interpretação
errônea de objetos convencionais, (2) moderada
histeria em massa e guerra fria, (3) invencionices
e (4) personalidades psicopáticas. Ademais,
afirmava-se que a Divisão de Guerra Psicológica
deveria ser informada dos resultados do estudo, já
que este apontava o plantio sistemático de
embustes e histórias falsas, envolvendo óvnis
como um possível causador de histeria em massa.
Em 27 de dezembro de 1949, foi publicado um
comunicado à imprensa anunciando o término do
Projeto Rancor.
Quanto ao ponto (4), segundo o próprio Condon
afirmou, "apenas uma proporção ínfima de
testemunhas oculares pode ser categorizada como
portadora de psicopatia". Conforme salientei em
relação ao caso Gary Wilcox (páginas 84-85),
muitas histórias fantásticas de contatos com óvnis
são contadas por pessoas completamente sãs e
equilibradas. Discutirei este ponto com mais
minúcia no Capítulo 4 (páginas 183-87).
Seria de se pensar que este relatório marcasse o
fim do estudo sobre óvnis na Força Aérea.
Segundo Condon, porém, em 10 de setembro de
1951, foi cometido um erro no centro de radar do
corpo de sinaleiros do exército em Fort Monmouth,
New Jersey. Um objeto foi captado no radar a uma
velocidade muito maior que a de qualquer dos
aviões a jato existentes. Mais tarde, descobriram
que o objeto era um jato convencional; mas, antes
disso ser descoberto, o general C. B. Cabell, diretor
do Serviço Secreto da Força Aérea, reagiu ao
incidente reativando o Projeto Rancor sob forma
nova e ampliada.
Para um projeto que parecia ter sido ressuscitado
por uma casualidade, esta fase do Rancor mostrou
notável longevidade. Foi a princípio encabeçado
pelo capitão Edward J. Ruppelt, tendo sido
renomeado como Project Blue Book, em março de
1952. Manteve este nome até a publicação do
Relatório Condon em 1969, quando a Força Aérea
finalmente encerrou seu envolvimento oficial com
as investigações sobre óvnis.
A CIA e a Comissão Robertson
Num certo nível do governo, parece que os relatos
sobre óvnis, e não os próprios óvnis, eram tidos
como uma ameaça à segurança nacional. Deste
modo, em 24 de setembro de 1952, o diretor
adjunto do Serviço Secreto Científico, H. Marshall
Chadwell, escreveu um memorando para Walter
Smith, diretor da CIA. Segundo indicava o
memorando, afora um enorme volume de cartas,
chamadas telefônicas e comunicados à imprensa,
o Centro Técnico de Inteligência Aérea recebera
cerca de 1.500 relatos oficiais sobre óvnis desde
1947 e 250 relatos oficiais somente em julho de
1952.
A Força Aérea julgou inexplicados cerca de 20%
desses relatos. Contudo, Chadwell estava
preocupado com um assunto mais premente do
que a explicação dos relatos. Entre suas
prioridades, incluíam-se as seguintes:
1. O interesse do público pelos fenômenos,
refletido tanto na imprensa americana quanto na
pressão de inquérito sobre a Força Aérea, indica
que uma considerável proporção de nossa
população está mentalmente condicionada a
aceitar o incrível. Neste fato, jaz o potencial para o
desencadeamento da histeria em massa e do
pânico.
2. Apesar de a Rússia estar hoje capacitada a
lançar um ataque aéreo contra os Estados Unidos,
a qualquer momento poderá estar havendo uma
dúzia de visões oficiais não-identificadas, além de
muitas extra-oficiais. O ataque pode vir a qualquer
momento e estamos agora numa posição em que
não temos como distinguir de imediato unidades
bélicas de espectros. E, à medida que a tensão se
intensificar, correremos um risco cada vez maior
de alertas falsos e o perigo ainda maior de
falsamente identificarmos o real como sendo
espectral.
3. Deveria ser instituído um estudo para
determinar que utilização poderiam dar a estes
fenômenos os planejadores da guerra psicológica
americana, se é que se pode dar alguma, e que
defesas se deveria planejar, se é que se pode
planejar alguma, contra as tentativas soviéticas de
utilizá-los.
Que poderia ser feito? Era preciso arquitetar algum
método para fazer com que as pessoas parassem
de fazer relatos sobre óvnis, e é talvez por este
motivo que a CIA tenha convocado uma comissão
especial de eminentes cientistas, que se reuniram
para discutir o assunto ufológico de 14 a 17 de
janeiro de 1953.
A comissão foi nomeada em homenagem a seu
presidente, Dr. H. P. Robertson, diretor do Comitê
de Avaliação de Sistemas Bélicos, da pasta do
secretário de Defesa. Incluía o Dr. Luis Alvarez,
físico que trabalhou no projeto da bomba atômica
e mais tarde recebeu o Prêmio Nobel de Física; o
Dr. Samuel Goudsmit, físico da rede de
laboratórios Brookhaven; o Dr. Thornton Page, ex-professor de astronomia da Universidade de
Chicago e diretor adjunto da Agência Johns
Hopkins de Pesquisa Operacional; e o Dr. Lloyd
Berkner, físico e diretor dos laboratórios
Brookhaven.
Após deliberar por quatro dias (perfazendo um
total de doze horas), a comissão emitiu um
relatório secreto que foi finalmente tornado
público em 1966. O relatório apresentava as
seguintes conclusões:
2. Como resultado de suas considerações, a
Comissão conclui:
a. Que as provas apresentadas sobre objetos
voadores não identificados não mostram indício
algum de que estes fenômenos constituam uma
ameaça física direta à segurança nacional.
Acreditamos firmemente não haver resíduo de
casos que indiquem fenômenos atribuíveis a
artefatos estrangeiros capazes de cometer atos
hostis, e não haver provas de que os fenômenos
indiquem a necessidade de rever os conceitos
científicos atuais.
3. A Comissão conclui ainda:
a. Que, caso se continue dando ênfase ao relato
destes fenômenos nestes tempos perigosos, isto
resultará numa ameaça ao funcionamento ordeiro
dos órgãos de proteção do Estado.
Esta ameaça, segundo se pensava, envolvia o
bloqueio de canais de comunicação em função de
relatos sobre óvnis, o desconhecimento de sinais
reais de ação hostil e o "cultivo de uma mórbida
psicologia nacional em razão da qual uma hábil
propaganda hostil poderia induzir ao
comportamento histérico e à nociva desconfiança
da autoridade devidamente constituída". Como
conseqüência, a Comissão recomendava que "as
agências de segurança nacional tomem medidas
imediatas no sentido de privar os objetos voadores
não identificados do status especial que lhes tem
sido conferido e da aura de mistério que eles
infelizmente adquiriram". O método prescrito pela
Comissão para se erradicar esta aura de mistério
era o "desmascaramento", um termo definido por
Condon como "aquilo que desmitifica um assunto".
Eis a estratégia de desmascaramento da
Comissão:
O objetivo do "desmascaramento" seria reduzir o
interesse do público por "discos voadores",
assunto que hoje evoca uma forte reação
psicológica. Seria possível implantar esta
estratégia de educação através dos meios de
comunicação de massa, tais como televisão, filmes
e artigos populares. A base deste processo
educativo seriam as próprias histórias que teriam
intrigado as pessoas, a princípio, mas seriam
explicadas em seguida. Tal como no caso dos
truques de mágica, há muito menos estímulo se o
"segredo" é conhecido. Semelhante programa
tenderia a reduzir a atual credulidade do público e,
conseqüentemente, sua suscetibilidade a um hábil
esquema de propaganda hostil.
Robertson e seus colegas pareciam confiantes de
que, visto serem os insólitos discos voadores,
meras impossibilidades, os relatos sobre
semelhantes coisas decerto refletiriam processos
de pensamento irracionais. Instintivamente, eles
associaram os relatos sobre óvnis a truques de
mágica, tanto quanto Hudson Hoagland o fez, anos
mais tarde, ao associar os óvnis a médiuns
espíritas farsantes, nas páginas de Science
(Capítulo 1). A convicção subjacente a este
contexto é de que a ciência conhece a verdade;
logo, as pessoas só fazem declarações contrárias a
esta verdade por serem crédulas e fáceis de
manipular. Apesar de não serem necessariamente
loucas, em seu estado são e normal estão
propensas a acreditar em disparates
pseudocientíficos.
Não há motivo algum para se pensar que os
membros da Comissão eram manipuladores
cínicos. É bem possível que estivessem sendo de
todo sinceros em suas conclusões e estivessem
apenas tentando cumprir seu dever patriótico de
proteger os Estados Unidos ao tentarem ajustar a
volátil consciência das massas.
O que estava acontecendo enquanto
isto?
Enquanto se desenrolavam estas atividades dentro
da Força Aérea e do governo, oficiais militares
continuavam a relatar visões e contatos com
óvnis. Em 1964, o Comitê Nacional de Investigação
sobre Fenômenos Aéreos publicou uma
compilação de informações sobre óvnis intitulada
The UFO Evidence. Este documento incluía uma
tabela de 92 visões de óvnis por parte de oficiais
da Força Aérea americana, datadas de 1944 a
1961, com uma concentração maciça em 1952 e
1953. Esta tabela é reproduzida no Apêndice 1.
Há 92 casos nesta tabela. Estão incluídos 24 casos
de aviões da Força Aérea perseguindo óvnis,
sendo perseguidos ou repetidas vezes ameaçados
por eles. Em outros vinte casos, um óvni parecia
deliberadamente seguir um avião da Força Aérea
(mas não persegui-lo) ou fazer um vôo rasante
sobre uma base militar. É difícil conciliar estas
estatísticas com a conclusão oficial da Força Aérea
de que os óvnis jamais foram encarados como
uma ameaça militar. Se isto é mesmo verdade, é
de se supor que, volta e meia, os pilotos da Força
Aérea pensam estarem sendo perseguidos por
balões meteorológicos, meteoros ou o planeta
Vênus, além de volta e meia saírem atrás de tais
objetos aos trambolhões.
Segundo observou Richard Hall, editor de The UFO
Evidence, após a decretação do Regulamento 200-2 da Força Aérea em 6 de agosto de 1953,
diminuiu bastante o número de relatos de visões
oriundos da Força Aérea. Este regulamento
estabelecia as normas da Força Aérea para lidar
com provas sobre objetos voadores não-identificados. Um aspecto importante do
regulamento era sua norma de divulgação de
relatos sobre óvnis ao público:
9. Exceções. Em resposta a indagações locais
resultantes de se ter avistado algum óvni na
vizinhança de uma base da Força Aérea, a
informação relativa ao incidente poderá ser
divulgada à imprensa ou ao público em geral pelo
comandante da base em questão apenas se o
referido objeto tiver sido positivamente
identificado como um objeto familiar ou conhecido.
(...) Se a visão for inexplicável ou difícil de
identificar, por causa de informação insuficiente ou
inconsistências, só será permitido comunicar o fato
de que a visão está sendo investigada, e qualquer
informação relativa a ela será divulgada em data
posterior.
Isto poderia ser interpretado como um
procedimento perfeito para se evitar de histórias
cruas e desencaminhadoras serem levadas ao
público. Com certeza, se realmente não existem
naves aéreas desconhecidas, não se devem
publicar relatos sobre óvnis até que se possam
encontrar explicações convencionais. Porém, no
caso de elas existirem de fato, o efeito deste
regulamento é de suprimir provas importantes que
poderiam ajudar as pessoas a entendê-las
corretamente.
Exemplos de perseguições militares a
óvnis
Estão disponíveis muitos relatos de atividades
ufológicas consideradas ameaçadoras por pilotos
militares. Em 10 de fevereiro de 1950, por
exemplo, um certo tenente Smith, comandante de
avião de patrulha da Marinha americana, realizava
um rotineiro trabalho de segurança perto de
Kodiak, Alasca. A um raio de radar de nove
quilômetros, ele viu um objeto próximo ao nariz de
boreste de sua nave. Dentro de dez segundos, o
objeto sobrevoava diretamente o avião, o que
indica uma velocidade aproximada de 3.500
quilômetros por hora. Para Smith e sua tripulação,
o objeto apareceu sob a forma de duas luzes
alaranjadas girando devagar em torno de um
centro comum. Eis uma descrição das interações
de Smith com este objeto:
O tenente Smith ascendeu para interceptar o
objeto, tentando girar para mantê-lo à vista. Não
logrou fazê-lo, pois o objeto era por demais
manobrável. Além disso, como parecesse estar
abrindo seu raio de ação, Smith tentou fechá-lo.
Smith observou o objeto ampliando-se um tanto,
para depois virar à esquerda e atingir a sua
posição. Considerando este gesto bastante
ameaçador, Smith ligou todas as luzes da
aeronave. Quatro minutos depois, o objeto sumiu
de vista em direção ao sudeste.
Este é um de uma série de contatos com óvnis
descritos num relatório da Marinha americana.
Recorrendo à Lei de Liberdade de Informação, tive
acesso a este relatório ao consultar arquivos do
FBI. Conforme um comentário anexo ao final do
documento, os objetos avistados não poderiam ter
sido balões, visto que, segundo constava, antes
ainda da época das visões, não haviam começado
a lançar balões meteorológicos. Um comentarista
sugeriu que se tratava de "fenômenos
(possivelmente meteoritos) cuja natureza exata
não pôde ser determinada por este ministério".
Segundo disse outro comentarista, poderiam ser
aviões a jato.
Em 8 de março de 1950, o capitão W. H. Kerr, e
dois outros pilotos da TWA relataram ter visto um
óvni perto de Dayton, Ohio. Naquela ocasião,
surgiram mais de vinte outros relatos procedentes
da área, que ficava próxima à Base Aérea Wright-Patterson. Operadores da torre de controle e
oficiais do Centro Técnico de Inteligência da base
também avistaram o óvni na mesma posição, e
enviaram quatro interceptadores. Dois pilotos de
F-51 viram o óvni, descrevendo-o como sendo
enorme, metálico e de forma redonda. Quando se
acumularam nuvens no céu, os pilotos tiveram que
retornar à base. O suboficial que rastreou o objeto
no radar disse: "O alvo era um retorno bem
sólido... causado por um alvo bem sólido."
Segundo disseram testemunhas, o óvni partiu
voando verticalmente, céu acima, a uma grande
velocidade.
Outro caso envolvendo perseguição a um óvni
ocorreu no Japão. Em 15 de outubro de 1948, um
óvni viajando a cerca de 320 km/h entre 1.500 e
1.800 metros de altitude foi detectado no radar
por um caça noturno F-61 do tipo "Viúva Negra".
Toda vez que o F-61 tentava aproximar-se do
objeto, este acelerava para cerca de 2.300 km/h,
distanciando-se do interceptador antes de reduzir
a velocidade. Em uma de suas seis tentativas de
perseguição, a tripulação aproximou-se do objeto
o bastante para ver sua silhueta. Eles descreveram
o objeto como tendo entre seis e nove metros de
comprimento e o formato "da bala de um rifle".
Este caso foi relatado ao Projeto Senha original.
Com relação a estes contatos, o Dr. J. E. Lipp, um
dos consultores científicos do Projeto Senha, disse:
A falta de propósito aparente nos diversos
episódios também é intrigante. Apenas um motivo
pode ser atribuído: que os homens do espaço
estão "sondando" nossas defesas sem querer ser
beligerantes. Se é assim, com certeza já
concluíram há muito tempo que nós não temos
como alcançá-los. Parece infrutífero para eles
prosseguir repetindo o mesmo experimento.
Podemos deduzir disto que o Dr. Lipp decerto
examinou um bom número de relatos de
perseguição a óvnis. Com suas observações, ele
intenta lançar dúvida sobre a realidade dos
eventos relatados. Contudo, seu argumento de
que os "homens do espaço" teriam apenas um
motivo possível não é correto. Podemos pensar em
muitos outros motivos possíveis. Um motivo
poderia ser, por exemplo, fazer os humanos
voltarem repetidas vezes para casa com a
mensagem de que existem seres com tecnologia
superior à nossa.
Casos envolvendo radar
É significativo o fato de muitos contatos militares
com óvnis envolverem a observação mediante o
uso de radar. A Força Aérea parece ter levado
estes casos a sério, pelo menos nos anos 50, visto
que o Regulamento 200-2 da Força Aérea continha
instruções para lidar com fotos de óvnis tiradas
com o osciloscópio do radar:
(5) Radar. Encaminhar duas cópias de cada
impressão fotográfica. Intitular impressões
fotográficas (de fotos tiradas com o osciloscópio do
radar) de acordo com RFA 95-7. Classificar tais
fotografias de acordo com a seção XII, RFA 205-1,
de primeiro de abril de 1959.
O Relatório Condon contém uma seção sobre
casos envolvendo radar escrita por Gordon Thayer,
da U.S. Enviroment Science Services
Administration. Nela, encontramos uma típica
declaração ambivalente, a qual tenta explicar o
inexplicável para depois admitir o inadmissível:
(5) Parece haver alguns efeitos de propagação
muito incomuns, raramente encontrados ou
relatados, que ocorrem sob condições
atmosféricas tão raras que podem constituir
fenômenos desconhecidos; se este é o caso, eles
merecem ser estudados. Esta parece ser a única
conclusão sensata a que se pode chegar a partir
do exame de alguns dos casos mais estranhos. (...)
(6) Existe um pequeno, porém significativo,
resíduo de casos nos arquivos relativos a visões
detectadas por radar (i.e., 1482-N, Caso 2) que
não têm nenhuma explicação plausível como
fenômenos de propagação e/ou objetos feitos pelo
homem e interpretados de forma errônea.
Como o assunto radar é extremamente técnico,
não terei como examiná-lo em minúcias aqui. O
radar opera refletindo ondas de rádio de alta
freqüência sobre objetos, processo que pode ser
afetado por muitas condições atmosféricas
diferentes, as quais fazem com que as ondas se
refratem ou se reflitam de maneira incomum. São
os chamados efeitos de propagação anômala. No
entanto, segundo efetivamente indica a análise de
Thayer, num número significativo de casos tais
efeitos não podem explicar as visões de óvnis
envolvendo radar.
Os fenômenos desconhecidos por ele mencionados
são dignos de nota. Entre eles, incluem-se os
gradientes de temperatura atmosférica da ordem
de 10 a 15°C em um centímetro. Tais gradientes
inauditos são necessários para explicar certos
óvnis em termos de miragens e propagação
anômala de radar.
Um exemplo de visão de óvni limitada
estritamente ao radar ocorreu ao largo da costa da
Coréia, no outono de 1951. O tenente comandante
M. C. Davies teve um contato com um óvni
enquanto dispunha um esquadrão anti-submarino
a bordo de um porta-aviões. O incidente ocorreu
enquanto ele voava à noite, a 1.500 metros de
altitude.
Ele captou um alvo, que vinha circundando a frota,
no osciloscópio de seu radar. Ao afastar-se da
frota, o alvo assumiu posição por trás de um de
seus pilotos, voando cerca de cinco quilômetros à
popa, e manteve praticamente a mesma posição
relativa ao avião de Davies que o referido piloto. O
navio também registrou o alvo em seus radares.
Após cerca de cinco minutos, o alvo partiu a uma
velocidade de mais de 1.600 km/h e foi observado
no osciloscópio do radar por Davies até 380
quilômetros de distância, o alcance máximo de seu
radar. Depois de seu vôo, Davies ficou sabendo
que o alvo havia sido mantido por cerca de sete
horas nos radares do navio. Neste caso, parece
estranho que um efeito de propagação anômala
fosse primeiro parecer circundar a frota por horas
a fio, depois seguir o rastro de um avião por cinco
minutos, e então partir voando em alta velocidade.
Em outro caso envolvendo a combinação de
observação visual e por radar, a Base Militar de
Observação localizou um óvni sobrevoando os
céus orientais perto de Rapid City, South Dakota,
em 12 de agosto de 1953. O radar da base
começou a rastrear o objeto, juntamente com o F-84 que foi localizado pelo vetor em cima dele. O F-84 perseguiu o óvni por 230 quilômetros. Quando
o piloto abandonou a perseguição, regressando à
base, o óvni o seguiu. Quando outro F-84 foi
enviado à procura do objeto, perseguindo-o por
310 quilômetros, obteve um bloqueio de radar
(dispositivo que guia o avião de forma automática
na direção do óvni). Contudo, o piloto ficou
amedrontado e solicitou que rompessem o
bloqueio quando uma luz vermelha começou a
piscar na tela de seu radar, indicando haver um
objeto sólido à frente dele. O clímax da visão se
deu quando tanto o óvni quanto o F-84 foram
vistos com nitidez na tela do radar, e o piloto viu
uma luz branca e não-identificada correndo na sua
frente. Neste caso, fotografias automatizadas
suplementaram o depoimento do piloto sobre o
que ele tinha visto.
Em outro caso ainda, um avião da Marinha
americana, tendo decolado de um porta-aviões na
Coréia em setembro de 1950, rumava para um
ataque a um comboio de caminhões inimigos a
cerca de 160 quilômetros do rio Yalu. O operador
de radar do avião fez o seguinte relato:
Enquanto observava o solo abaixo de nós à
procura do comboio, fiquei assustado ao avistar
duas grandes sombras circulares aproximando-se
de nós, vindo do noroeste em alta velocidade. (...)
Quando vi as sombras, olhei para o alto e vi os
objetos que as estavam causando. Eram enormes.
Confirmei isto tão logo passei os olhos na tela do
meu radar. Também iam a passo rápido — cerca
de 1.600 ou 1.800 km/h. A tela do meu radar
indicava dois quilômetros entre os objetos e
nossos aviões, quando de repente os objetos
pareceram parar, retroceder e começar um
movimento de tremor ou fibrilação. Minha primeira
reação, evidentemente, foi atirar. Acionei minhas
armas, as quais acionaram suas câmeras de forma
automática. Contudo, quando eu estava pronto
para atirar, o radar enlouqueceu. A tela ficou
arroseada e depois muito brilhante. (...) Dei-me
conta de que meu radar havia sido bloqueado,
tornando-se inútil. Em seguida, liguei para o porta-aviões, usando meu código. Repeti o código duas
vezes, mas meu receptor estava desligado —
bloqueado por um zunido estranho.
Tentei duas outras freqüências, mas não consegui
fazer contato. Toda vez que eu trocava de
freqüência, a faixa ficava nítida por um instante,
mas em seguida o zunido começava.
Segundo descreveu a testemunha, os objetos
tinham a aparência de um espelho prateado e uma
circundante luz vermelho-cintilante. Tinham o
formato de chapéus de cule e portas oblongas.
Tinham um anel vermelho brilhante em volta de
sua parte superior e, quando manobravam por
cima do avião, dava para ver uma área circular
negra da cor do carvão.
Um aspecto muito curioso deste relato é o fato de
o óvni ter supostamente bloqueado o radar do
avião, logo quando a testemunha acionou suas
armas. Ora, como poderiam os pilotos do óvni
saber o momento exato em que seriam acionadas
as armas? Este aspecto poderia, portanto,
comprometer a credibilidade do relato. Mas
acontece que muitos relatos sobre óvnis
costumam envolver aparentes reações diretas dos
alienígenas aos pensamentos do observador. Para
outro exemplo militar, veja o caso do óvni no Irã
mais adiante (páginas 126-27).
Concluo esta seção com um contato tanto visual
quanto por radar, ocorrido perto de Lakenheath,
Inglaterra, em 13 de agosto de 1956. Extraí o
resumo deste caso do Relatório Condon.
Um alvo de radar foi a princípio observado
viajando a 7.500 km/h pelo radar do controle de
tráfego aéreo nas estações coligadas das forças
aéreas americana e inglesa (USAF e RAF) próximas
a Lakenheath. Além disso, segundo relataram a
equipe da torre de controle e a tripulação de um
avião C- 47 que sobrevoava a base, o mesmo alvo
foi visto como uma luz enodoada. Em seguida, foi
observado um alvo de radar que permanecia
estacionário por algum tempo para então
movimentar-se a uma velocidade constante de
cerca de 1.100 km/h para outro ponto, onde outra
vez permanecia estacionário. Sua velocidade foi
descrita como sendo constante desde o momento
em que se punha em movimento até o momento
em que voltava a parar. Nessa altura, um avião
interceptador da RAF foi lançado contra o óvni:
Logo após dizermos ao avião interceptador que ele
estava a um quilômetro do óvni, que estava a doze
horas da posição dele, ele disse: "Roger, (...)
minhas armas estão apontadas para ele." Então,
fez uma pausa e disse: "Aonde foi ele? Você ainda
o vê?" Nós respondemos: "Roger, ele parece ter
ido atrás de você e ainda está lá." (...) O piloto do
interceptador nos disse que tentaria abalar o óvni
mais de uma vez. Ele tentou de tudo — saltou,
mergulhou, circulou etc., mas o óvni agia como se
estivesse colado bem atrás dele, sempre à mesma
distância, bem próximo, mas sempre tínhamos
dois alvos distintos."
Segundo a conclusão do Relatório Condon sobre
este caso, "apesar de sem dúvida não se poderem
descartar explicações convencionais ou naturais,
parece pequena a probabilidade das mesmas
neste caso, ao passo que parece ser bem grande a
probabilidade do envolvimento de pelo menos um
óvni autêntico". O Relatório Condon também cita a
conclusão do relatório do Projeto Blue Book sobre
este caso:
As manobras do objeto eram extraordinárias; no
entanto, o fato de terem feito observações (por
radar e visuais — a partir do solo) de sua rápida
aceleração e suas paradas abruptas, com certeza
dá crédito ao relato. Segundo se acredita, estas
visões não teriam tido alguma origem
meteorológica ou astronômica.
Por último, na audiência sobre óvnis realizada no
Congresso, em abril de 1966, perguntaram ao
major Hector Quintanilla, diretor do Projeto Blue
Book, se constavam no mesmo relato sobre
objetos vistos por radar que não podiam ser
explicados de maneira convencional. Quintanilla
replicou: "Não temos casos de radar que não
tenham sido explicados." Porém, segundo
escreveu o Dr. J. Allen Hynek, existem casos não
identificados de radar nos arquivos do Blue Book.
O Relatório Condon
Após a formação do Projeto Blue Book e as
deliberações da Comissão Robertson nos
primórdios dos anos 50, continuaram a ocorrer
visões e contatos com óvnis. Por mais de uma
década, autoridades civis e militares não tomaram
nenhuma nova medida pública sobre a questão
dos óvnis. Então, em 1965, o major-general E. B.
LeBailly, chefe do Departamento de Informação do
Ministério da Aeronáutica, propôs que se
organizasse uma comissão de cientistas físicos e
sociais com o intuito de rever o Projeto Blue Book.
Segundo o raciocínio dele, dos 9.265 relatos sobre
óvnis processados pelo Blue Book, 663 ficaram
sem explicação. Porém, muitos destes "procedem
de indivíduos inteligentes e idôneos de cuja
integridade não se pode duvidar. Além do mais, os
relatos recebidos em caráter oficial pela
Aeronáutica incluem apenas uma fração dos
relatos espetaculares que são levados à público
por muitas organizações privadas envolvidas com
pesquisas sobre óvnis". Esta solicitação formal
resultou na formação do Comitê Ad Hoc para
Revisão do Projeto Blue Book, consistindo no físico
Brian O'Brian, os psicólogos Launor F. Carter e
Jesse Orlansky, os engenheiros elétricos Richard
Porter e Willis H. Ware, e o astrônomo e cientista
espacial Carl Sagan. Em suas conclusões, os
membros do Comitê enfatizaram não haver provas
de que os óvnis representem uma ameaça à
segurança nacional ou de que estejam claramente
fora da estrutura do que é hoje conhecido em
termos de ciência e tecnologia. Além disso, para a
maioria das visões não identificadas de óvnis, "a
informação disponível simplesmente não fornece
uma base adequada para análise".
Mas eles também salientaram que muitas visões
foram classificadas como identificadas sem
justificativa adequada. Portanto, uma forma de
revigorar o Blue Book, segundo recomendação
deles, seria negociar contratos de pesquisa
científica sobre óvnis com uma série de
universidades. Esta pesquisa precisaria talvez de
mil homens/dia por ano para cerca de cem visões
selecionadas. Seria coordenada por uma
universidade ou uma organização sem fins
lucrativos, que se manteria em contato constante
com o Projeto Blue Book, e seria publicada em
relatórios ampliados do Blue Book. Segundo ainda
recomendou o Comitê (por razões não declaradas),
"qualquer coisa que pudesse sugerir alguma
retenção de informação deveria ser suprimida"
desses relatórios. Segundo advogavam eles, tais
relatórios científicos ajudariam a fortalecer a
posição pública da Força Aérea quanto aos óvnis.
Logo após o Comitê Ad Hoc lançar seu relatório,
ocorreu, perto de Dexter, Michigan, uma
divulgadíssima série de visões de óvnis, explicadas
pelo Dr. J. Allen Hynek com sua famosa teoria do
gás de pântano. O congressista Gerald Ford,
fazendo objeções à notoriedade que Michigan
estava obtendo como o "estado do gás de
pântano", insistiu que se realizasse uma
investigação no Congresso. Isto culminou numa
audiência de um dia do Comitê Nacional das
Forças Armadas sobre o assunto óvni, em 5 de
abril de 1966.
Nesta audiência, Harold Brown, ministro da
Aeronáutica, recomendou a realização de um
estudo científico acerca dos óvnis de acordo com
as diretrizes estipuladas no relatório do Comitê Ad
Hoc, para o que recebeu o apoio de J. Allen Hynek.
Hynek expressou a urgência do problema dizendo:
Durante todo este período de quase vinte anos,
tenho procurado me manter tão imparcial sobre o
assunto óvni quanto permitiram as circunstâncias
— a despeito do fato de o mesmo parecer ridículo.
Além do mais, muitos de nós acreditávamos
piamente que, assim como algum tipo de moda ou
mania passageira, o referido assunto se acalmaria
numa questão de meses. Todavia, nos últimos
cinco anos, foram apresentados mais relatos à
Força Aérea do que nos primeiros cinco anos.
A despeito da aparente futilidade do assunto, eu
senti que, como cientista, estaria faltando com
minha responsabilidade para com a Força Aérea se
não salientasse a possibilidade de haver, no
fenômeno óvni como um todo, aspectos dignos da
atenção da comunidade científica.
O engenheiro Raymond Fowler também fez seu
depoimento sobre a visão de Exeter nas
audiências (páginas 77-79). Declarou ele: "Após
anos de estudo, estou certo da existência de
provas de observação de alta qualidade, por parte
de testemunhas habilitadas e confiáveis, para
indicar o fato de haver, em nossa atmosfera,
objetos sólidos parecidos com máquinas,
tripulados por alguma forma de controle
inteligente." Conforme sugeriu também, a Força
Aérea deve estar retendo informações importantes
que apóiam sua conclusão sobre esses objetos:
"Parece-me sensato deduzir que, se idôneos
cientistas e investigadores civis conseguiram
chegar a esta conclusão, então, a Força Aérea dos
Estados Unidos, apoiada pelos tremendos recursos
a sua disposição, já deve ter concluído o mesmo
há muito tempo."
Após a audiência congressual, o Departamento de
Pesquisas Científicas da Força Aérea (AFOSR) foi
incumbido da responsabilidade de implementar as
recomendações do Comitê Ad Hoc. Resolveram
que só uma universidade, e não várias, deveria
realizar um estudo sobre os óvnis. Assim, no verão
de 1966, o AFOSR solicitou a realização do estudo
à Universidade do Colorado e, para dirigi-lo,
convidou o eminente físico Dr. Edward U. Condon.
Para Condon, aquela foi uma tarefa difícil. Ele
estava acostumado ao erudito e racional mundo
da física, onde partículas subatômicas dançam
elegantemente em obediência a equações exatas.
No campo dos óvnis, porém, ele foi bombardeado
por bizarros disparates não-científicos. Por um
lado, os aspectos mais fantásticos do fenômeno
ufológico pareciam tanto repugná-lo quanto
fasciná-lo e, por outro, pareciam incentivá-lo a
dissimular sua atitude em relação aos óvnis em
geral.
Condon dedicou, por exemplo, uma página inteira
de seu relatório final a um exame do robô de Cisco
Grove. No fim de semana do Dia do Trabalho de
1964, três homens foram caçar com arco e flecha
perto de Cisco Grove, Califórnia. Um deles,
chamado aqui de "Sr. S" para proteger sua
identidade, perdendo-se na floresta ao escurecer,
acendeu fogueiras sinalizadoras para atrair
guardas florestais que pudessem lhe ajudar a sair
dali. Então, ele reparou em uma luz móvel de
aparência incomum e, amedrontado, subiu numa
árvore.
Reparou em um "negócio abobadado" a cerca de
350 ou 450 metros de distância, e então duas
figuras estranhas aproximaram-se da árvore e
olharam para onde ele estava. Elas tinham cerca
de 1,5m de altura, trajavam uma roupa com tecido
cinza-prateado e não tinham pescoço ou traços
faciais visíveis. Logo veio se juntar às primeiras
outra figura mais sinistra que pareceu ter chegado
cambaleando através dos arbustos, em vez de tê-los rodeado:
A terceira "entidade" era cinza, cinza-escuro ou
negra. Também não tinha pescoço discernível,
mas dois "olhos" laranja-avermelhados cintilavam
e bruxuleavam onde seria a sua "cabeça". Tinha
uma "boca" que, aberta, parecia "pendente",
formando um orifício retangular no "rosto".
Esta aparição tentou "gasear" a testemunha, que
se havia cingido aos galhos superiores da árvore,
emitindo "fumaça" de sua "boca". Esta fumaça
deixava o homem temporariamente inconsciente,
após o que ele despertava, abatido e com ânsia de
vômito, apenas para enfrentar outra rajada de
"fumaça". Após um ataque final de gás, ele
despertou cansado, com frio e enjoado, para
descobrir que as entidades haviam partido.
Um tanto consternado, Condon observou que esta
informação havia sido coligida por um profissional,
o Dr. James A. Harder, professor adjunto de
engenharia civil da Universidade da Califórnia, em
Berkeley. Contudo, histórias desta espécie eram
demais para Condon, que por isso se sentia
inclinado a rejeitar as histórias e o fenômeno óvni
em geral.
O meteorologista James McDonald criticou Condon
por isto, dizendo: "Não consigo entender como se
poderia justificar a repetida alusão do Dr. Condon
a casos birutas por ele examinados diante de seu
interesse aparentemente escasso em se
aprofundar nos aspectos sérios do problema."
No entanto, a abordagem de Condon ocasiona um
problema sério que afeta o estudo científico dos
óvnis. A história dos óvnis começa com relatos
sobre aeronaves desconhecidas que parecem
capazes de sobrepujar o desempenho de naves
militares. Embora tais relatos possam parecer
esquisitos para um cientista, o que ele poderia
descobrir na busca de maiores informações sobre
estas máquinas estranhas? Descobre serem elas
pilotadas por estranhos seres humanóides e isto é
pior ainda. Porém, se investiga a natureza destes
seres, descobre que eles são dotados de poderes
misteriosos que fazem lembrar as superstições há
muito rejeitadas pela ciência. Quanto mais avança
na investigação, mais ele se embrenha no
território do cientificamente proibido.
Logo, uma forma de encarar a posição de Condon
é que ele, reconhecendo no fenômeno ufológico
uma ameaça a seu sistema de crença científica,
teve o instinto de escolher fazer o que parecia ser
logicamente necessário para manter intacto
aquele sistema. De qualquer modo, em 1969,
Condon apresentou o Scientific Study of
Unindentified Flying Objects (Estudo científico
sobre objetos voadores não identificados). Suas
conclusões foram as seguintes:
1. Conforme nossa conclusão geral, nos últimos
21 anos, nada resultou do estudo sobre os óvnis
que tivesse contribuído para o conhecimento
científico. Pelo exame meticuloso do registro à
nossa disposição, concluímos não ser provável
poder justificar a continuação dos estudos
extensivos sobre óvnis, com a expectativa de que
eles promovam algum avanço para a ciência.
2. Resta saber o que o governo federal deverá
fazer, se é que deva fazer algo, a respeito dos
relatos sobre óvnis encaminhados pelo público em
geral. Sentimo-nos inclinados a achar que nada
poderia ser feito com eles esperando que possam
vir a contribuir para o avanço da ciência.
3. Não sabemos de razão alguma para questionar
a conclusão da Força Aérea, segundo a qual o
conjunto de relatos sobre óvnis até aqui
considerado não representa um risco para a
segurança nacional.
4. Portanto, recomendamos firmemente que os
professores se abstenham de dar crédito a seus
alunos por trabalhos escolares baseados na leitura
de livros e artigos de revistas sobre óvnis. Caso
encontrem em seus alunos uma forte motivação
neste sentido, os professores deverão tentar
canalizar-lhes os interesses para o estudo sério da
astronomia e da meteorologia, como também para
uma análise crítica dos argumentos constantes em
proposições fantasiosas, que têm contado com o
apoio do apelo a raciocínios enganosos ou dados
falsos.
Tenho citado o Relatório Condon em várias
ocasiões e, examinando estas citações, não me
resta dúvida de que há uma diferença substancial
entre o corpo principal do relatório, que é
sobretudo da autoria de membros da equipe de
Condon, e as conclusões do próprio Condon. Isto
tem sido constatado por diversas pessoas. Por
exemplo: um subcomitê instituído para investigar
óvnis pelo Instituto Americano de Aeronáutica e
Astronáutica disse o seguinte sobre o Relatório
Condon:
Assim como existem diferenças nas opiniões e
conclusões dos autores dos diversos capítulos,
também existem diferenças entre estas e o
resumo de Condon. Nem todas as conclusões
contidas no relatório em si estão plenamente
refletidas no resumo de Condon.
Da mesma forma, o Dr. Claude Poher, pesquisador
ufológico francês e um dos diretores do Comitê
Espacial francês, disse a J. Allen Hynek que passou
a se interessar pelos óvnis por causa do Relatório
Condon. A maioria das pessoas, replicou Hynek,
tinha uma reação contrária ao mesmo. Poher
respondeu: "Bem, se você realmente ler o relatório
de ponta a ponta, sem se deter apenas no resumo
de Condon, perceberá que há um problema ali."
Apesar de alguns cientistas terem identificado um
fenômeno verdadeiro nos dados sobre óvnis, a
opinião científica predominante tem sempre sido
que, se não é possível explicar tais dados em
termos científicos ortodoxos, então eles
simplesmente não têm explicação. Em alguns
casos, isto se dá por falta de provas adequadas.
Em muitos outros, porque as provas distoam da
visão científica vigente acerca do que é possível,
sendo, portanto, descartadas.
Um exemplo disto é o tratamento dado pelo
Relatório Condon a um caso de contato imediato
em Beverly, Massachusetts, em 22 de abril de
1966. Eis uma síntese do caso, conforme
apresentado no próprio Relatório Condon.
Na noite do dia 22, Nancy Modugno, onze anos,
avistou da sua janela uma brilhante luz
tremeluzente, logo após as 21h. Ao olhar para
fora, viu um objeto voador do tamanho de um
carro e com o formato de uma bola de futebol
americano, que produzia um zunido ricocheteante
e portava luzes coloridas intermitentes. Este
objeto se dirigia a um amplo campo que ficava
atrás da Escola Secundária de Beverly, próxima
dali. A menina alertou sua mãe, Claire, que estava
visitando suas amigas Barbara Smith e Brenda
Maria, num apartamento vizinho. Após avistarem a
luz intermitente perto da escola, as três mulheres
se dirigiram até a margem do campo, a cerca de
250 metros do prédio da escola, para averiguar
aquilo. Ali elas viram três objetos voadores
brilhantemente iluminados que circundavam,
paravam e outra vez circundavam o prédio da
escola e outros prédios próximos.
Achando que fossem aviões ou helicópteros, as
três atravessaram o campo para vê-los mais de
perto. Nessa altura, desenrolaram-se os seguintes
eventos:
Ainda achando que fossem aviões ou helicópteros,
uma das mulheres acenou para a luz mais próxima
com um meneio de braço, depois do que a mesma
veio bem na direção dela. Segundo disse ainda,
tão logo a luz se acercou sobrevoando quase à
altura de sua cabeça, ela pôde ver que se tratava
de um disco de metal, do tamanho aproximado de
um carro grande, com luzes cintilantes ao redor de
sua parte superior. Ela descreveu o objeto como
sendo de fundo chato e sólido, com um contorno
arredondado e uma superfície que parecia de
alumínio opaco. As duas outras mulheres saíram
correndo. Olhando para trás, viram a amiga bem
abaixo do objeto, que estava a apenas uns cincos
metros acima dela. Ela mantinha as mãos unidas
por sobre a cabeça como que para se proteger,
tendo mais tarde relatado ter pensado que o
objeto ia esmagá-la. O objeto inclinou- se de
repente e voltou a se posicionar a cerca de quinze
metros acima da escola.
Mais tarde, dois policiais observaram os óvnis.
Como disse um deles numa entrevista, apesar de
não ter visto "nem um avião nem um helicóptero,
ele não sabia do que se tratava. Pareceu-lhe que o
objeto tinha o formato de uma moeda de meio
dólar, com três luzes de cores diferentes em
reentrâncias de sua 'extremidade', algo
semelhante a luzes sobressalentes".
Na página seguinte do Relatório Condon, os
investigadores Roy Craig e Norman Levine deram
a seguinte explicação para estes eventos: em
primeiro lugar, "conforme indicou uma análise de
todos os relatos, todos os observadores, exceto a
menina e o grupo de três mulheres, haviam visto
algo parecido com uma estrela". Isto contradiz a
declaração, feita por eles na página anterior do
relatório, acerca das observações do policial;
contudo, não a mencionaram. Segundo disseram
eles, as cores mutáveis dos "objetos" poderiam
dever-se ao bruxuleio comum da luz das estrelas.
Quanto ao aparente movimento dos mesmos,
poderia ser devido à autocinese, segundo a qual
os movimentos do olho criam a ilusão de
movimento numa fonte de luz estacionária. A
estrela poderia ter sido Júpiter, visto que este
planeta, visível no céu àquela época, encontrava-se bem no campo de visão das testemunhas. Que
se deveria fazer com o depoimento das três
mulheres? Craig afirmou:
Mesmo sem os casos recém-investigados
produzirem, sequer em nível de teor narrativo,
provas residuais convincentes o bastante para
apoiar a hipótese da presença física de um veículo
alienígena, as narrativas de eventos anteriores,
tais como o incidente de 1966 em Beverly,
Massachusetts, (Caso 6), não se enquadrariam em
nenhuma outra explicação se o depoimento das
testemunhas fosse levado ao pé da letra.
Porém, podemos sempre optar por desconsiderar
tal depoimento se assim o desejarmos. Neste caso,
Craig fez isto ao rotular as provas de "anedóticas"
e dizer ser tarde demais para submeter as
testemunhas a testes psicológicos significativos.
Numa carta a Raymond Fowler, um dos
investigadores originais do caso de Beverly, Craig
comentou ainda: "Não vou especular, nem neste
nem em qualquer outro caso, a respeito do que as
mulheres teriam visto”.
Um comitê de revisão organizado pela prestigiosa
Academia Nacional de Ciências (NAS) contentou-se, é claro, com esta abordagem para as provas
sobre óvnis. Em seu Relatório Anual para o Ano
Fiscal 1968-69, a NAS endossa o Relatório Condon
da seguinte maneira:
Conforme nossa opinião unânime, tem-se
envidado um esforço dos mais louváveis no
sentido de aplicar, com objetividade, as técnicas
científicas pertinentes para a solução do problema
ufológico. O Relatório reconhece ainda restarem
visões de óvnis que não são fáceis de se explicar.
Contudo, com o mesmo Relatório sugerindo tantas
orientações razoáveis e possíveis para se poder
encontrar uma explicação, não parece haver
motivo para atribuir as referidas visões a uma
fonte extraterrestre, sem provas que sejam muito
mais convincentes.
Mais eventos recentes
Logo após a publicação do Relatório Condon, a
Força Aérea divorciou- se em caráter oficial do
estudo sobre alienígenas — no entanto,
continuaram a acontecer contatos de militares
com óvnis. Nos últimos anos, órgãos civis de
pesquisa sobre óvnis, recorrendo à Lei de
Liberdade de Informação, demonstraram que tanto
militares quanto diversas agências de serviço
secreto continuavam a documentar casos de óvnis
às ocultas. Em conseqüência, foram divulgadas
grandes quantidades de material relacionado ao
fenômeno, procedente de arquivos do governo —
material este analisado extensivamente em livros
como Above Top Secret (Além do Segredo), de
Timothy Good, e The UFO Cover-up (O
encobrimento do fenômeno óvni), de Lawrence
Fawcett e Barry Greenwood.
Também a China e a antiga URSS dispõem de
bastante material sobre visões e contatos com
óvnis. Parte deste material pode ser encontrada
em Above top secret, junto de relatos sobre óvnis
do Canadá, da Austrália e de diversos países da
Europa ocidental. Pode-se encontrar uma série de
relatos sobre óvnis da antiga União Soviética em A
Study Guide to UFOs, Psychic and Paranormal
Phenomena in the USSR (Um guia de estudo para
óvnis, fenômenos psíquicos e paranormais na
URSS), de Antonio Huneeus. Esse livro inclui
contatos de militares soviéticos com óvnis, bem
como contatos imediatos de civis com óvnis e
entidades humanóides afins.
Pode-se encontrar uma ampla coleção de relatos
de visões da China comunista em UFOs Over
Modem China (Óvnis sobre a China moderna), de
Wendelle Stevens e Paul Dong. Dentre outras
coisas, esse livro inclui histórias de uma séria
disputa de divisas entre a China e a União
Soviética, em 1970. Esta disputa, alega-se, teria
sido provocada por visões de óvnis em massa na
fronteira mongólica setentrional. Os russos teriam
interpretado os óvnis como sendo armas dispostas
pelos chineses, enquanto os chineses acharam que
se tratava de armas russas. Caso seja verdadeira,
esta história é uma confirmação prática de certos
temores do começo da década de 1950, quando
estrategistas militares americanos preocupavam-se com a possibilidade de visões de óvnis mal
interpretadas acabarem deflagrando guerras.
Voltando às informações sobre óvnis obtidas
através da Lei de Liberdade de Informação, eis um
exemplo fornecido por Raymond Fowler. Durante
outubro e novembro de 1975, declarou Fowler,
diversas bases importantes da Força Aérea
experimentaram visitas de óvnis, o que provou a
possibilidade de usar a Lei de Liberdade de
Informação para se obter documentos editados
pelo governo descrevendo estas incursões. Os
incidentes a seguir foram extraídos do diário de
bordo do diretor sênior da Base Aérea de
Malmstrom, Montana:
07 de novembro/1035 Z (5h35): Chamada
recebida do 341° SAC CP (Posto Estratégico de
Comando Aéreo), afirmando que as seguintes
localidades de arremesso de míssil relataram ter
visto um grande objeto, ora vermelho, ora
alaranjado, ora amarelo: M1, L-3, LIMA e L-6. A
localização aproximada do objeto seria de
dezesseis quilômetros ao sul de Moore, Montana, e
de trinta quilômetros a leste de Buffalo, Montana
Informou o Auxiliar de Operações.
07 de novembro/1203 Z (7h03): Segundo
informação do SAC, a Base de Controle de
Lançamentos em Harlowton, Montana, observou
um objeto emitindo uma luz que iluminava a
rodovia local.
08 de novembro/0635 Z (1h35): Uma equipe de
segurança acampada em K-4 relatou ter visto um
óvni com luzes brancas, com uma luz vermelha 45
metros atrás da luz branca. Oficiais de K-1 viram o
mesmo objeto.
08 de novembro/0645 Z (1h45): Operadores de
radar localizaram objetos a três ou quatro mil
metros. (...) Eram sete objetos.
08 de novembro/0753 (2h53): Desconhecido...
Estacionário/sete nós/ 3.600... Dois F-106...
notificaram.
08 de novembro/0820 Z (3h20): Contato de radar
perdido, aviões de caça sem comunicação.
08 de novembro/0905 Z (4h05): Aviões de caça e
objetos avistados em postos-L; aviões de caça não
alcançaram objetos.
08 de novembro/0915 Z (4h15): Do Posto de
Comando SAC: De quatro pontos diferentes:
Objetos e aviões de caça observados; quando
caças chegaram à área, suas luzes se apagaram;
quando se afastaram, as luzes se reacenderam...
É importante observar que mísseis nucleares
intercontinentais são distribuídos nestas bases de
Comando Aéreo Estratégico (SAC). Em função de
seu cargo de administrador do Projeto Minuteman,
Fowler alega ter recebido, de conhecidos
escalados para bases do Minuteman, informação
indicando que, durante a semana de 20 de março
de 1967, o lançamento de dez mísseis nucleares
se tornou inoperante na Base Aérea de
Malmstrom. Foi confirmada por radar a presença
coincidente de um óvni, que caças a jato tentaram
interceptar. Um incidente do mesmo tipo ocorreu
no começo da primavera de 1966. Em outra
ocasião, quando dez mísseis ficaram inoperantes
ao mesmo tempo, devido a uma falha em seus
sistemas de direção e controle, oficiais de serviço
relataram ter visto óvnis exatamente à hora da
falha.
Relatos como estes são inúmeros. No New York
Times de 17 de junho de 1974, o escritor científico
Barry J. Casebolt afirmou:
Em agosto passado [1973], a Força Aérea lançou
um míssil da Base Aérea de Vandenberg (...)
direcionado a um ponto próximo (...). Área de
Teste de Lançamento de Míssil Kwajalein. (...) A
ogiva já havia se separado da terceira etapa do
míssil e se dirigia a seu alvo a cerca de 6.500 m/s.
(...) A cerca de 120.000 metros, o radar localizou
um objeto, em forma de pires invertido, à direita e
acima da ogiva cadente. (...) Segundo se
descreveu, o objeto tinha três metros de altura e
cerca de doze metros de comprimento.
Segundo Casebolt, peritos em mísseis do Exército,
que pediram para não serem identificados,
garantiram a ele que o óvni, além de ter sido
rastreado independentemente por dois sistemas
de radar, não era produto de fenômenos naturais
(tais como inversões de temperatura), nem
pedaços das etapas do míssil.
Outro incidente, ocorrido no Irã em 1976, durante
o reinado do Xá, envolveu um contato entre um
óvni e jatos de caças da Força Aérea Imperial
iraniana. Trata-se de um exemplo de perseguição
de óvni, em que o piloto alega ter ficado com seus
sistemas de controle de armas bloqueados no
preciso momento em que tentava usá-los contra o
óvni. Eu já dei um exemplo destes, envolvendo um
piloto que sobrevoava a Coréia na Guerra da
Coréia (veja páginas 113-14).
O incidente foi descrito num relatório da Agência
de Defesa do Serviço Secreto, que é reproduzido
em Above Top Secret. Eis uma transcrição parcial
daquele relatório, começando do ponto em que um
jato de caça F-4 foi enviado da Base Aérea de
Shahrokhi, perto de Teerã, para investigar o óvni
relatado:
B. À 1h30 do dia 19 [de setembro de 1976], o F-4
decolou em direção a um ponto a cerca de 40 MN
[milhas náuticas] a norte de Teerã. Devido a seu
brilho, era fácil ver o objeto a uma distância de
130 quilômetros. Tão logo o F-4 se aproximou de
um raio de 25 MN, perdeu controle de toda sua
instrumentação e ficou sem contato (via UHF e
sistema de comunicação). O piloto desistiu da
intercepção e rumou de volta a Shahrokhi. Quando
o F-4 afastou-se do objeto, aparentemente
deixando de representar uma ameaça para ele, a
nave aérea recuperou controle de toda
instrumentação e do sistema de comunicação. A
1h40, um segundo F-4 foi enviado à mesma área.
O operador de radar da aeronave detectou um
bloqueio do radar quando eles atingiram as 27 MN,
a uma média de 150 MNPH [milhas náuticas por
hora]. À medida que o raio de alcance caía para 25
MN, o objeto se afastava a uma velocidade que era
visível no osciloscópio do radar e permanecia a 25
MN.
C. O tamanho do retorno do radar era comparável
àquele de um navio-tanque 707. Era difícil
discernir o tamanho visual do objeto por causa de
seu brilho intenso. A luz que ele emitia era como a
de estroboscópios intermitentes dispostos em
padrão retangular e alternando as cores azul,
verde, vermelha e laranja. A seqüência das luzes
era tão rápida que todas as cores podiam ser
vistas de uma vez só. O objeto e o F-4 perseguidor
prosseguiam rumo ao sul de Teerã, quando outro
objeto brilhantemente iluminado, cujo tamanho
aproximado era de metade ou um terço do
tamanho aparente da lua, saiu do objeto original.
Este segundo objeto rumou exatamente na direção
do F-4 a uma velocidade impressionante. O piloto
tentou lançar um míssil AIM-9 contra o objeto, mas
naquele instante seu painel de controle de armas
se desligou e ele se viu privado de todos os seus
recursos de comunicação (UHF e Interfone). Nessa
altura, o piloto iniciou um giro em mergulho
negativo para afastar-se dali. À medida que ele
girava, o objeto pareceu se retardar no rastro em
cerca de 3 ou 4 MN. Enquanto o piloto continuava
se afastando do objeto primário, o segundo objeto
emparelhou-se com o seu percurso para depois
regressar até onde estava o objeto primário e com
este reunir-se em fusão perfeita.
Um exemplo final envolve contatos de militares
com óvnis na Bélgica, em 1990. O relato seguinte
é de 5 de julho de 1990, extraído do jornal Paris
Match, e traduzido por R. J. Durant, no
International UFO Repórter (Relatório internacional
sobre óvnis) (15h23, julho/agosto de 1990):
Na noite de 30 de março, uma das pessoas a ligar
relatando um óvni foi um capitão da polícia
nacional em Pinson, e o quartel-general [da Força
Aérea belga] decidiu fazer um esforço sério no
sentido de averiguar os relatos. Além das
experiências visuais, duas instalações de radar
também viram o óvni. Um radar fica em Glons, a
sudeste de Bruxelas, que é parte do grupo de
defesa da OTAN, e outro em Semmerzake, a oeste
do Capitol, que controla o tráfego militar e civil de
todo o território belga. (...) O quartel-general se
determinou a fazer estudos bastante precisos
durante os próximos 55 minutos para eliminar a
possibilidade de se darem explicações prosaicas
para as imagens de radar. As condições
atmosféricas estavam excelentes, não havendo
possibilidade de ecos falsos devido a inversões de
temperatura.
(...) A 00h05 foi dada a ordem para que os F-16
decolassem e encontrassem o intruso. O líder dos
pilotos se concentrou na tela de seu radar, que à
noite é seu melhor órgão de visão. (...)
Subitamente, os dois caças localizaram o intruso
nas telas de seus radares — parecia uma
abelhinha dançando no osciloscópio. Usando seus
manches como em um videogame, os pilotos
deram ordens para que os computadores de bordo
perseguissem o alvo. Assim que o foco se fechou
sobre o alvo, ele apareceu na tela com o formato
de um diamante, significando que daquele
momento em diante os F-16 estariam rastreando o
objeto de forma automática.
[Antes de o radar focar o alvo por seis segundos] o
objeto aumentou sua velocidade dos iniciais 280
km/h para 1.800 km/h, enquanto descia de 3.000
metros para 1.700 metros... em um segundo! Esta
aceleração fantástica corresponde a 400 m/s
2
.
Causaria morte imediata a um humano que
estivesse a bordo. O limite suportável por um
piloto humano é de cerca de 80m/s
2
. A trajetória
do objeto era sobremaneira desconcertante. Ele
atingia uma altitude de 1.700 metros, depois
mergulhava rapidamente em direção ao solo, a
uma altitude de menos de 200 metros e, fazendo
assim, escapava dos radares dos caças e das
unidades de terra em Glons e Semmerzake. Esta
manobra aconteceu acima dos subúrbios de
Bruxelas que, de tão cheios de luzes urbanas,
fizeram com que os pilotos perdessem o objeto de
vista abaixo deles. (...)
Conforme tudo indica, este objeto era orientado
por alguma forma de inteligência a escapar dos
aviões perseguidores. Durante as horas seguintes,
a mesma cena repetiu-se duas vezes. (...)
Este fantástico jogo de esconde-esconde foi
observado do solo por muitas testemunhas, entre
elas vinte policiais, que viram tanto o objeto
quanto os F-16. O contato durou 75 minutos, mas
ninguém ouviu o estrondo supersônico que deveria
ter acompanhado o momento em que o objeto
ultrapassou a barreira do som. (...) Dadas a baixa
altitude e a velocidade do objeto, muitas janelas
deveriam ter se quebrado.
Estes eventos fizeram parte de uma onda de óvnis
na Bélgica, envolvendo centenas de visões bem
testemunhadas. No Simpósio Internacional sobre
Pesquisa Ufológica realizado em Denver, Colorado,
em maio de 1992, um relato sobre esta onda foi
apresentado por Patrick Ferryn, documentarista
que lidera a organização ufológica belga de
estudos chamada SOBEPS. Ele discorreu sobre
muitas visões de óvnis a pouca distância relatadas
pelos gendarmes (a polícia belga), e apresentou
um videoteipe da supramencionada detecção por
radar dos óvnis feita pelos F-16. Segundo disse
ele, o teipe foi colocado à disposição pela Força
Aérea belga, que tem cooperado abertamente com
os pesquisadores ufológicos civis da Bélgica.
É digno de nota o fato de nenhum estrondo sônico
ter sido relatado quando o óvni saiu do raio de
alcance dos F-16. No Relatório Condon, salientou-se o fato de haver muitos casos em que se
relatava um óvni locomovendo-se a velocidades
supersônicas, sem produzir um estrondo sônico.
Num capítulo dedicado a este assunto, William
Blumen observou:
Alguns fatores meteorológicos poderiam, de
quando em quando, reduzir a intensidade do
estrondo sônico ou, ainda mais raramente, impedir
que estrondos sônicos chegassem a atingir o solo.
Contudo, a relatada ausência total de estrondos
sônicos originários de óvnis em vôos supersônicos
e submetidos a acelerações rápidas ou a
manobras complicadas, particularmente perto da
superfície da Terra, não pode ser explicada com
base no conhecimento atual. Pelo contrário,
nessas condições é de se esperar a ocorrência de
intensos estrondos sônicos.
Segundo também observou Blumen, a Northrop
Corporation estava envidando esforços no sentido
de evitar estrondos sônicos, modificando a
corrente de ar ao redor do avião por meio de um
campo eletromagnético. Seria concebível que os
óvnis usassem alguma espécie de efeito de campo
para suavemente desviar o ar em volta do corpo
do avião.
Conspirações Sinistras
É comum o governo americano ser acusado de
omitir de forma maciça e injustificável as
informações sobre óvnis. Esta acusação tem sido
feita, com freqüência, no tocante ao material
processado pelo Projeto Blue Book, mas, segundo
sugerem J. Allen Hynek e James McDonald, o mau
uso se deve não a uma omissão, mas sim a um
grande estrago (páginas 54-56). A acusação de
omissão tem sido feita em relação a registros
sobre óvnis obtidos de agências do governo por
meio do uso da Lei de Liberdade de Informação.
Porém, pode-se argumentar que esta informação,
por mais intrigante que seja, reflete não uma
grande conspiração, mas sim um medíocre sigilo
burocrático. Da mesma forma, pode-se
argumentar que o sigilo militar vinculado aos óvnis
estaria apenas refletindo procedimentos militares
usuais, o que também poderia ser justificado por
considerações de segurança nacional bastante
comuns. Um filme de um óvni atacando um míssil,
por exemplo, pode revelar segredos relativos ao
míssil.
Porém, há tendências ocultas mais profundas na
controvérsia em torno dos óvnis. Desde o princípio
dos anos 50, tem havido alegações de óvnis
avariados, que teriam sido apreendidos pelo
governo americano juntamente com os corpos de
seus pilotos alienígenas, tanto vivos como mortos.
Além disso, existem histórias de projetos de
pesquisa instituídos para se aprender os princípios
operacionais dos óvnis capturados e histórias
sobre organizações governamentais secretas que
dirigem as pesquisas e as mantêm sob rígido
sigilo. Afora isso, há ainda histórias de acordos
clandestinos entre forças alienígenas e o governo
americano.
Estas histórias costumam ser bastante fantásticas,
e algumas delas tendem à paranóia extrema.
Muitas, sendo provavelmente falsas, constituem
ciladas às quais devemos estar atentos. Algumas,
porém, podem ser verdadeiras, sendo um fato
curioso que alguns relatos sobre discos avariados
pareçam de fato ter o respaldo de provas
respeitáveis. Na minha opinião, nada deste
material é essencial para a tese que desenvolverei
na segunda parte deste livro. Mas acho que deva
ser mencionado, já que representa um papel
importante na literatura ufológica atual.
O Desastre de Roswell
Que eu saiba, a mais substancial história de disco
avariado é a do famoso caso em que destroços
anômalos foram recolhidos, segundo se alega, por
militares americanos numa fazenda perto de
Roswell, Novo México, no início de julho de 1947.
Em primeiro lugar, resumirei esta história, para em
seguida analisar algumas das provas vinculadas a
ela.
Tudo começou quando o administrador da
fazenda, William "Mac" Brazel, encontrou
escombros metálicos espalhados numa ampla área
perto de Corona, cerca de 150 quilômetros a
noroeste de Roswell. Isto se deu um dia depois que
o povo da cidade alegou ter visto um objeto
discóide brilhante sobrevoando a noroeste de
Roswell. As autoridades militares foram por fim
acionadas, e parte dos destroços foi recolhida pelo
major Jesse Marcel, um oficial do serviço secreto
do 509° Departamento de Operações Secretas
com Bombas, em Roswell Field. Entre estes
destroços, havia pequenas vigas que eram
levíssimas, como pau-de-balsa, mas
extremamente duras e não-inflamáveis. Segundo
disseram, algumas delas traziam estranhos
escritos hieroglíficos consistindo em símbolos
geométricos. Havia também folhas de metal, leves
e finas, parecidas com papel de estanho, mas
impossíveis de dentear com uma marreta.
Um comunicado à imprensa relatando o
recolhimento de um disco voador avariado foi
divulgado pelo comandante da base de Roswell,
coronel William Blanchard, e os destroços foram
levados para bordo de um B-29 de modo a serem
transportados para Wright Field, em Ohio, onde
seriam examinados. Mais tarde, contudo, um
segundo comunicado à imprensa foi divulgado por
ordem do general Roger Ramey, o comandante da
8
a
Força Aérea. Segundo constava neste segundo
comunicado, os destroços eram de um balão
meteorológico avariado acoplado a um refletor de
radar, e foram publicadas, junto da história,
fotografias de oficiais da Força Aérea olhando para
fragmentos de balão. Esta continua sendo a
história oficial desde então.
O caso Roswell foi publicado pela primeira vez em
The Roswell Incident (O incidente Roswell), de
Charles Berlitz e William Moore, em 1980. Outros
estudos das provas de Roswell podem ser
encontrados em artigos de Stanton Friedman e
William Moore de 1981 e de William Moore de
1985. Um livro que analisa a mais recente
pesquisa sobre o caso foi publicado por Kevin
Randle e Donald Schmitt em 1991 com o título
UFO Crash at Roswell (Queda de óvni em Roswell).
O aspecto mais surpreendente do caso Roswell é
que várias testemunhas, oculares e indiretas,
permitiram que seus depoimentos sobre o caso
fossem gravados em vídeo e distribuídos
publicamente. Num videoteipe popular, "Óvnis são
reais", há um monólogo de Jesse Mareei que dura
cerca de dois minutos. Mareei confirma ter
observado destroços muito incomuns no local do
desastre em Roswell, e diz ter recebido ordem de
seu comandante para ocultar seu testemunho. Ele
fala do metal fino impossível de queimar ou
dentear com uma marreta e das vigas marcadas
com hieróglifos. Referindo-se a seu cargo de oficial
do serviço secreto, ele também diz: "De uma coisa
eu tinha certeza, familiarizado que estava com
todas as nossas atividades: não se tratava de um
balão meteorológico, nem de uma aeronave, nem
de um míssil."
O depoimento gravado em vídeo tem a vantagem
de fornecer provas diretas da iniciativa voluntária
das pessoas envolvidas para fazerem declarações
públicas. A única alternativa plausível é que
estivessem filmando atores contratados, mas seria
fácil desmascarar semelhante fraude.
Outro videoteipe contendo depoimentos sobre
Roswell, intitulado "Lembranças de Roswell", foi
patrocinado pelo Fundo para Pesquisa sobre Óvnis
de Washington, D.C. A tabela na página seguinte
relaciona algumas das pessoas que depuseram
nesta fita, além de breves resumos do que elas
disseram. Outras testemunhas depuseram em
respaldo à história geral contada pelas pessoas
relacionadas na tabela.
Alguns dos depoimentos filmados sobre
o caso Roswell
TESTEMUNHA
Major Jesse Marcel, ex-oficial do Serviço Secreto do
Exército que investigou o local do desastre. Seus
comentários sobre os destroços vistos por ele
foram semelhantes à seus comentários em "Óvnis
são reais".
Dr. Jesse Marcel (M.D.), filho do major Jesse Marcel
- Tinha onze anos na época e viu alguns dos
destroços quando seu pai os trouxe para casa para
mostrá-los à sua mãe. Havia uma viga em forma
de "I" com inscrição de tom violeta, composta de
formas geométricas de textura curva diferentes de
quaisquer símbolos que ele vira até então.
Segundo disse ele, não poderiam ter sido símbolos
russos ou japoneses "de forma alguma".
Lewis "Bill" Rickett, aposentado, Serviço de Contra-espionagem do Exército. Acompanhou Sheridan
Cavitt, oficial de contra-espionagem em visita ao
local do desastre. Confirmou que os pedaços dos
destroços eram extremamente duros e leves como
uma pluma.
William Brazel, filho de "Mac" Brazel. Tinha doze
anos na época, e seu pai lhe mostrou pedaços dos
destroços. Disse: "Parecia com pau-de-balsa, mas
não queimava nem era possível cortá-lo com uma
faca."
Loretta Proctor, vizinha de "Mac" Brazel.
Brazel mostrou-lhe um pouco dos destroços.
Havia algo parecido com um pedaço de fita
gravada com uma inscrição: "Não era o tipo de
escrita que conhecemos, nem tampouco era
escrita japonesa."
Robert Shirkey, ex-oficial auxiliar da Base de
Operações. Confirmou que o coronel Blanchard lhe
perguntou se um avião B-29 que havia sido
convocado estava pronto, ao que ele disse que
sim. Cinco ou seis pessoas carregando partes do
que ele entendeu ser um disco voador
embarcaram depressa no B-29 para voarem para
Fort Worth, e ele as viu passando pela base. Viu de
relance o pedaço de viga em forma de "I" com a
escrita incomum nela.
Conforme "Mac" Brazel relatou a Randle e Schmitt,
ele próprio encontrou alguns pedaços dos
destroços do acidente e mencionou o achado num
bilhar de Corona, a cidade próxima do local do
desastre. Segundo ele, assim que declarou, "olhem
só, aí vêm os militares", lhe pediram para entregar
o material. Disse também ter o desastre deixado
um rastro no local que levou um ano ou dois para
"se encher de grama novamente". Randle e
Schmitt disseram também que, segundo o major
Marcel, os destroços cobriram uma área de cerca
de 1,2 km de comprimento por sessenta a noventa
metros de largura. Esta área estava coberta de
fragmentos metálicos, havendo, ainda, uma área
estriada de solo de cerca de 150 metros de
comprimento por três metros de largura.
Randle e Schmitt apresentaram o depoimento de
um general-de-brigada da Força Aérea chamado
Arthur E. Exon. Em 1947, Exon era tenente-coronel
e foi designado para Wright Field. Confirmou ter
estado presente em Wright Field quando
trouxeram os destroços de Roswell para lá, e disse
também ter sobrevoado o local do desastre em
Roswell. Disse ter ouvido falar da análise dos
destroços do acidente: "O metal e o resto do
material eram desconhecidos para todos com
quem conversei. Jamais fiquei sabendo dos
resultados da análise do material encontrado. Dois
oficiais acharam que poderia ser algo da Rússia,
mas, pelo consenso geral, as peças eram do
espaço exterior."
Em termos genéricos, este depoimento dá a
impressão de que algo incomum espatifou-se na
Terra perto de Roswell, Novo México, em 1947. De
fato, soa esquisito que destroços de um balão, um
míssil ou um avião avariados parecessem tão
estranhos para as pessoas, inclusive para Jesse
Marcel, um oficial do serviço secreto das forças
armadas. Que era aquilo, afinal? Há quem tenha
sugerido a hipótese de ter sido um avançado
aparelho experimental feito pelo homem. Com
relação ao metal incomum, Jacques Vallee
afirmou:
O material recolhido no próprio local do desastre,
embora mantenha uma aura de algo fascinante,
não estava necessariamente além da tecnologia
humana de fins da década de 1940. O saran
aluminizado, também conhecido como saran
prateado, surgiu da tecnologia já disponível em
1948 para trabalhos em nível de laboratório. Era
fino como papel, não era denteado pelo golpe de
um martelo e recuperava seu acabamento liso
após ser comprimido.
Contudo, Jesse Marcel jurava não ser possível
queimar o material fino nem denteá-lo com uma
marreta. Isto não soa a saran aluminizado, que
seria um composto de alumínio e um tipo de
plástico. (O termo saran refere-se a qualquer uma
de uma série de resinas termoplásticas usadas
para se fazer tecidos, tubos resistentes a ácidos e
material transparente para embrulho.) É bem
possível que os destroços de Roswell viessem, de
fato, de algum dispo¬sitivo aéreo de origem não-humana.
A vexaminosa questão dos corpos
alienígenas
Segundo Randle e Schmitt, o general Exon
também disse: "Havia outra localidade onde (...) o
corpo principal da nave espacial parecia estar (...)
onde eles de fato disseram haver corpos. (...)
Aparentemente, foram todos encontrados fora da
própria nave, mas estavam passando bem." Esta
afirmação surpreendente é corroborada por uma
observação feita sobre o videoteipe "Lembranças
de Roswell" por Sappho Henderson, viúva de um
piloto da Força Aérea chamado "Pappy"
Henderson. Conforme relatou, seu marido lhe
disse: "Sou o piloto que transportou os destroços
do óvni para Dayton, Ohio." Ele mencionou corpos
de alienígenas mortos, tendo-os descrito como
sendo pequenos, com cabeças grandes demais
para o seu tamanho e usando roupas de um
estranho tipo de tecido.
Isto nos traz à controvertida questão dos corpos de
alienígenas que foram apreendidos. Faz anos que
correm boatos sobre óvnis avariados e
acompanhados de cadáveres de alienígenas. Pelo
que sei, no depoimento de Exon está o primeiro
exemplo de uma figura pública responsável que
teria abertamente confirmado tais boatos.
Uma história de corpos alienígenas que poderia
estar relacionada ao caso Roswell envolve um
funcionário do Departamento Americano de
Preservação do Solo chamado Grady L. "Barney"
Barnett. Em 3 de julho de 1947, a cerca de 230
quilômetros da fazenda de Brazel, nas planícies de
San Agustin, Barnett teria deparado com outra
nave que também teria se espatifado. Esta data é
próxima daquela do desastre de Roswell, o qual
teria ocorrido na noite de 2 de julho.
Barnett morreu em 1966 sem ter confirmado
publicamente a ocorrência deste caso, mas ele
chegou a comentar a respeito do mesmo com seu
amigo Vern Maltais. Eis um resumo do que Maltais
disse no videoteipe "Lembranças de Roswell":
Segundo disse o Sr. Barnett, enquanto regressava
de uma viagem de estudos práticos, ele deparou
com uma nave que se espatifara, e reparou haver
quatro seres no solo. Enquanto ele e um grupo de
quatro ou cinco arqueólogos da Universidade da
Pensilvânia se detinham a investigar o acontecido,
apareceu um grupo de militares dizendo-lhes que
fossem embora e mantivessem sigilo sobre o que
haviam visto por questões de segurança nacional.
Barnett disse não ter dúvidas de que os seres
vinham do espaço exterior. Os seres não eram
exatamente como seres humanos. Tinham cerca
de um metro de altura. Eram esguios e não tinham
cabelo, nem sobrancelhas, nem cílios. Tinham
cabeças com o formato de peras e com a parte de
cima maior que a de baixo. Tinham quatro dedos
nas mãos.
Esta versão da história distancia bastante os
destroços vistos por Barnett daqueles vistos no
desastre de Roswell. Contudo, segundo Randle e
Schmitt, Barnett não estava necessariamente a
230 quilômetros do local em Roswell. Os destroços
espalhados pelo campo próximo a Roswell
poderiam ter vindo de uma nave em desintegração
que acabou vindo pousar num segundo local a
quatro quilômetros de distância, e foram vistos
mais tarde por Barnett. Eles citaram o depoimento
de um anônimo mecânico do serviço secreto que
havia sido designado para o Campo de Aviação do
Exército em Roswell, em 1947, e que confirmou a
existência deste segundo local próximo.
Randle e Schmitt também apresentaram desenhos
de Glenn Dennis, que trabalhava como agente
funerário em Roswell, em 1947. Segundo disse
Dennis, seus desenhos se baseavam nos desenhos
feitos em sua presença por uma enfermeira que
participou das autópsias dos corpos alienígenas
em Roswell, um dia após estes terem sido
recolhidos. Segundo alega Dennis, a enfermeira
lhe contou que os corpos eram pequenos e de
compleição delicada, com cabeças incomumente
grandes e mãos de quatro dedos. Os olhos eram
grandes, e o nariz, orelhas e olhos, ligeiramente
côncavos. Ela disse também que os corpos
estavam parcialmente decompostos e haviam sido
roídos por predadores. Emitiam um forte mau
cheiro.
A história dos arqueólogos contada por Barnett
parece ter sido confirmada em outubro de 1989
por Mary Ann Gardner, enfermeira que havia
trabalhado no departamento de oncologia do St.
Petersburg Hospital na Flórida. Segundo ela, uma
paciente que estava morrendo de câncer disse
que, quando ainda estudava em fins da década de
1940, esteve envolvida num levantamento de sítio
arqueológico no Novo México. A mulher moribunda
prosseguiu relatando a descoberta dos destroços
de uma nave alienígena e dos cadáveres de sua
tripulação.
Hoje em dia, os pesquisadores que investigam o
caso Roswell discordam entre si sobre alguns
pontos. O físico nuclear Stanton Friedman, um dos
investigadores originais deste caso, sustenta ter
havido dois acidentes envolvendo óvnis na noite
de 2 de julho de 1947: um perto de Roswell e outro
nas planícies de San Agustin. Segundo argumenta
ele, foram recolhidos corpos de ambos os
acidentes, possivelmente provocados por uma
colisão aérea. Randle e Schmitt argumentam ter
havido apenas um acidente perto de Roswell.
Friedman apresentou provas em respaldo ao
depoimento de um homem chamado Gerald
Anderson, que escreveu para ele e Kevin Randle,
após assistir a um programa de tevê sobre o caso
Roswell, em 14 de janeiro de 1990. Anderson
testemunhou que, aos cinco anos de idade, esteve
presente no local de um acidente com seu pai e
seu tio Ted. Segundo disse ele, havia quatro
criaturas alienígenas ali, duas mortas, uma
moribunda e a outra ainda viva. Tinham cerca de
um metro de altura, pele acinzentada, olhos
grandes e braços e dedos esquálidos e compridos.
Num programa nacional de televisão narrado por
Tim White em 18 de outubro de 1991 e intitulado
The UFO Report: Sightings (O relatório sobre óvni:
visões), Anderson disse que, enquanto seu pai e
seu tio conversavam com o ser que ainda estava
vivo, "de repente ele se virou para olhar para mim.
E bastou isso acontecer para uma série de coisas
começarem a se processar dentro da minha
cabeça. Comecei a ter sensações de estar
tropeçando e caindo e a sentir uma estranha
solidão por não haver maneira de ele re¬gressar
ao mundo de onde viera". Logo depois disso, disse
Anderson, os militares chegaram, isolaram a área
e instruíram para que não falássemos sobre o que
havíamos visto. Segundo Friedman, Anderson fez
um teste poligráfico sobre sua história em 14 de
julho de 1991, e, conforme a conclusão do teste,
não há evidência alguma de fraude.
Desinformação e o MJ-12
Há quem alegue que certos agentes do serviço
secreto americano, buscando a desinformação,
propagam falsas histórias sobre óvnis — uma
técnica própria para desviar a atenção das
pessoas das linhas de pesquisa promissoras, mas
indesejáveis para o rastro de indicações falsas.
Howard Blum, por exemplo, jornalista premiado e
autor de Out Tbere, jura que a seguinte história é
verdadeira: Paul Bennewitz, presidente da Thunder
Scientific Corporation em Albuquerque, Novo
México, vinha fazendo filmes e gravando
transmissões radiofônicas de óvnis que pareciam
estar voando perto do complexo do Sandia
National Labs, uma agência secreta de energia na
Base Aérea de Kirtland. Enquanto isso, um famoso
pesquisador de óvnis chamado William Moore se
vinculara a certos agentes do Departamento de
Investigações Especiais da Força Aérea (AFOSI),
como parte de seu plano para ter acesso a
informações sigilosas sobre óvnis.
Segundo Blum, os agentes do AFOSI vinham
sistematicamente alimentando Bennewitz com
histórias falsas sobre óvnis com o intuito de
confundi-lo, desanimá-lo e difamá-lo. Valendo-se
de disfarces sofisticados de toda espécie,
liberaram falsos documentos oficiais para
Bennewitz. Estes "detalhavam o tratado secreto
entre o governo americano e os malévolos
alienígenas, a existência de bases alienígenas
subterrâneas, os intercâmbios de tecnologia, a
onda de implantes de cérebro e inclusive a lenda
sobre a nave espacial que se espatifara contra o
pico Archuleta".
Os agentes do AFOSI teriam recrutado Moore para
participar com eles da campanha de
desinformação contra Bennewitz. Jacques Vallee
não apenas confirmou esta história como também
salientou que Moore a teria revelado publicamente
numa conferência da Mutual UFO Network em Las
Vegas, em 1989.
Segundo conta Blum, após fazer amizade com
Bennewitz, Moore testemunhou como aquele
constante bombardeio de fantasias paranóicas
acabou levando-o à loucura e provocando-lhe um
ataque nervoso. Depois, Moore conseguiu o que
queria. Num certo dia de dezembro de 1984, Jaime
Shandera, amigo de Moore, recebeu um misterioso
rolo de filme não revelado pelo correio. Ao revelá-lo, obteve o famoso documento MJ-12.
Este documento parece ser um dossiê preparado
pelo almirante Roscoe Hillenkoetter para o
presidente eleito Dwight D. Eisenhower, em 18 de
novembro de 1952. Informa o presidente da
existência de um grupo secreto de doze cientistas
e altos oficiais do governo envolvidos na
apreensão de um veículo avariado e de quatro
corpos alienígenas perto da Base Aérea do
Exército em Roswell, em julho de 1947. Este grupo
deveria continuar a operar em regime de sigilo
absoluto durante a administração Eisenhower,
recomendava o documento.
A autenticidade ou não deste documento tem
suscitado muita controvérsia. Um dos principais
proponentes de sua autenticidade é Stanton
Friedman. Segundo argumenta ele, mesmo após
muito investigarem os registros do governo, não
conseguiram encontrar qualquer informação que
contradissesse as afirmações sobre pessoas,
épocas e lugares constantes no referido
documento. Ele também argumenta ser possível
confirmar inúmeros detalhes de estilo no
documento, comparando-os a outros documentos
governamentais do mesmo período.
Nada disso determina em definitivo a
autenticidade do documento MJ- 12. Mas pelo
menos parece demonstrar que, caso o documento
tenha sido forjado, então o foi por um perito
consumado — do tipo que se encontraria num
serviço secreto.
Comparando o documento MJ-12 a conhecidos
exemplos de escritos do almirante Hillenkoetter, o
professor Roger Wescott, um perito em lingüística
da Drew University, em New Jersey, concluiu não
haver razão convincente para se pensar que o
documento tivesse sido escrito por qualquer outra
pessoa que não o próprio Hillenkoetter. Contudo,
quando perguntei a Wescott se ele poderia
explicar os motivos desta conclusão, ele replicou:
"Duvido que alguém consiga chegar à prova cabal,
ou da autenticidade, ou da fraudulência do
documento."
Grosso modo, as alternativas com relação ao MJ-12
parecem ser as seguintes: (1) O documento MJ-12
é autêntico, e há uma alta incidência de
acobertamento, por parte do governo, de casos
envolvendo óvnis avariados e corpos alienígenas.
(2) O documento MJ-12 é uma falsificação
encomendada por altos oficiais do governo. Isto
implica uma política governamental de alto
escalão no sentido de propagar desinformação a
respeito dos óvnis. (3) O documento MJ-12 é uma
falsificação produzida por um pequeno grupo de
agentes do serviço secreto por suas próprias
razões. Talvez este grupo tenha sido responsável
pelo bombardeio de desinformação contra
Bennewitz, e nele poderiam também estar
incluídos os agentes do AFOSI envolvidos com
Moore. (4) O documento MJ-12 é uma fraude
perpetrada por pessoas não vinculadas ao governo
ou às forças armadas.
Quer o documento MJ-12 seja autêntico ou não,
existe, segundo parecem sugerir certas provas,
um alto esquema de acobertamento, por parte do
governo, de casos envolvendo óvnis. Um exemplo
disto é a seguinte carta, escrita pelo Dr. Robert
Sarbacher para o investigador ufológico William
Steinman. Sarbacher foi reitor da Escola Técnica
da Geórgia de 1945 a 1948, e consultor do
Conselho de Pesquisa e Desenvolvimento do
governo americano. Em 1983, era presidente e
diretor do conselho do Instituto Washington de
Tecnologia, Oceanografia e Física, em Palm Beach,
Flórida. Em 29 de novembro daquele ano, ele
escreveu o seguinte em resposta às persistentes
cartas de Steinman indagando acerca dos óvnis
avariados e apreendidos:
1. Com relação a minhas próprias experiências
relativas a discos voadores apreendidos, não tive
nenhuma ligação com nenhuma das pessoas
envolvidas nas apreensões, e desconheço quando
foram feitas. Se soubesse, lhe teria enviado tal
informação.
2. Quanto à confirmação de as pessoas
relacionadas pelo senhor estarem envolvidas
nestes eventos, tudo o que posso dizer é:
John von Neumann com certeza esteve envolvido.
O Dr. Vannevar Bush com certeza esteve
envolvido, e acho que o Dr. Robert Oppenheimer
também. Meu vínculo com o Conselho de Pesquisa
e Desenvolvimento sob a direção do Dr. Compton
durante a administração Eisenhower foi um tanto
limitado: na verdade, apesar de ter sido convidado
a participar de diversos debates associados às
chamadas apreensões, não pude comparecer às
reuniões. Na certa, eles teriam convidado o Dr.
von Braun. É provável que tenham convidado os
demais relacionados pelo senhor, os quais podem
ter comparecido ou não. Isto é tudo de que tenho
certeza. (...)
Praticamente a única coisa de que me lembro
agora é que determinados materiais tidos como
provenientes de desastres envolvendo discos
voadores eram levíssimos e duríssimos. Estou
certo de que nossos laboratórios os analisaram
com todo o cuidado.
Segundo constava nos relatórios, os instrumentos
ou as pessoas que operavam essas máquinas
também eram levíssimos, o suficiente para
suportar o tremendo impacto de desaceleração e
aceleração vinculado ao maquinário deles.
Conversando com algumas pessoas da agência,
lembro-me de ter tido a impressão de que esses
"alienígenas" tinham a compleição semelhante à
de determinados insetos observados na Terra,
motivo pelo qual o impacto da baixa massa das
forças de inércia envolvidas na operação desses
instrumentos seria bem reduzido.
Ainda desconheço o motivo do alto nível de sigilo
atribuído a tais fatos e por que se nega a
existência desses dispositivos.
Em apoio à autenticidade desta carta, Steinman
citou um boletim sobre óvnis, Just Cause,
publicado por Lawrence Fawcett e Barry
Greenwood. Na edição de 5 de setembro de 1985,
Greenwood escreveu que havia entrado em
contato com Sarbacher por telefone. Disse
Greenwood: "Em primeiro lugar, e o que é mais
importante, Sarbacher confirmou para mim o fato
de a informação na carta de Steinman se basear
em sua memória, e não num embuste." Não é
mais possível obter confirmação direta de
Sarbacher, pois ele morreu em 26 de julho de
1986.
Conforme indicam as observações de Sarbacher,
ele não teve envolvimento direto com as
apreensões dos óvnis avariados. Segundo me
contou Stanton Friedman, ele próprio havia
discutido esses assuntos com Sarbacher, e lhe
pareceu que este estava apenas relatando as
fofocas veiculadas pelos consultores científicos do
governo. Mesmo assim, é curioso que tais boatos
estivessem circulando naqueles círculos.
Victor Marchetti apresenta outro exemplo de
testemunho confirmando o cenário do
acobertamento de casos de óvnis por parte do
governo. Marchetti foi assistente executivo do
Diretor Adjunto da CIA, e foi co-autor de um
desmascaramento da CIA intitulado The CIA and
the Cult of Intelligence (A CIA e o culto da
inteligência). Num artigo intitulado "How the CIA
views the UFO phenomenon" (Como a CIA enxerga
o fenômeno Óvni), na edição de maio de 1979 de
SecondLook (Segundo olhar), Marchetti disse que,
apesar de ter ouvido boatos "entre os altos
escalões" sobre óvnis avariados e corpos
alienígenas durante sua passagem pela CIA, não
deparara com nenhuma prova definitiva da
realidade dos óvnis. Não obstante, sentiu-se
impelido a especular o seguinte:
Existem óvnis ou tem havido contatos — ou ao
menos sinais — do espaço exterior, mas a
evidência revela que o único interesse dos
alienígenas é de nos observar. (...) Porém, o
conhecimento público desses fatos poderia tornar-se uma ameaça. Se a existência dos óvnis fosse
confirmada em caráter oficial, seria possível iniciar
uma reação em cadeia capaz de provocar o
colapso da atual estrutura de poder da Terra.
Deste modo, as potências do mundo chegaram a
um entendimento secreto internacional — uma
conspiração— no sentido de manter o público
ignorante e confuso quanto aos contatos ou visitas
de além da Terra.
Seja qual for o status das especulações de
Marchetti, não resta dúvida de que o público vem
sendo submetido a muita confusão e ignorância
com respeito aos óvnis. A propaganda sinistra do
tipo supostamente inculcado a Bennewitz vem
sendo hoje difundida em todos os Estados Unidos,
tendo um efeito negativo tanto sobre a
credibilidade da pesquisa ufológica quanto sobre a
credibilidade das autoridades do governo. Pessoas
como William Cooper e John Lear (filho do inventor
do jato Lear) têm dado muitas palestras sobre as
relações alienígenas com o governo e outras
teorias de conspiração relacionadas a óvnis. Têm
sido distribuídos volantes descrevendo bases
alienígenas subterrâneas e advertindo para uma
dominação alienígena. Segundo escreveu a
pesquisadora Linda Howe, uma das agentes do
AFOSI ligada à história de Bennewitz, ele mostrou
sua documentação secreta detalhando contatos
entre o governo americano e os alienígenas.
Em 14 de outubro de 1988, um documentário de
televisão intitulado UFO Cover-up Live foi
transmitido para todos os Estados Unidos. Este
programa apresentava o depoimento de Falcon,
agente do serviço secreto que estaria envolvido
com o caso Moore/Bennewitz, e que falou, em voz
velada pelo computador, sobre as relações entre
os alienígenas e o governo. Num programa de
televisão intitulado UFOs: The Best Evidence
(Óvnis: a maior evidência) e narrado por George
Knapp, um físico chamado Robert Lazar fez
declarações extraordinárias sobre o fato de ter
sido empregado para reengenhos a tecnologia
alienígena, em mãos do governo americano, numa
base secreta em Nevada. São histórias sem fim.
Não é o objetivo deste livro tentar responder às
muitas perguntas envolvendo o papel
representado por agências secretas do governo na
questão dos óvnis. Meu único propósito é salientar
que, para certos relatos sobre óvnis, parece haver
o esforço, por parte de alguma fonte
desconhecida, no sentido de disseminar
desinformação organizada.
Para averiguar, em caráter definitivo, os boatos de
atividades de acobertamento por parte do
governo, seria necessário empreender um esforço
de contra-espionagem que exigiria recursos
disponíveis, em geral, apenas por governos
nacionais. É interessante o fato de Edward Condon
ter reconhecido este problema, ao qual reagiu de
forma pragmática:
Adotamos a expressão "hipótese de conspiração"
para o ponto de vista de que alguma agência do
governo — quer dentro da Força Aérea, da CIA ou
de algum outro órgão — sabe tudo a respeito dos
óvnis e mantém sigilo deste conhecimento. Sem
negar a possibilidade de isto ser verdade,
concluímos, logo no início de nossos estudos, não
ter como realizar com êxito alguma forma de
serviço de contra-espionagem em oposição a
nosso próprio governo, na esperança de solucionar
este problema. Portanto, resolvemos não lhe dar
atenção especial, mas, em vez disso, nos
mantermos alerta quanto a quaisquer indícios que
pudessem nos levar a alguma prova de que nem
todos os fatos essenciais conhecidos do governo
estavam chegando a nossas mãos.
Condon não acreditava que existisse um projeto
secreto do governo ligado aos óvnis, embora
admitisse não ter como provar isto. No entanto,
reconhecia que o governo guarda segredo do
assunto ufológico e deplorava isto, dizendo: "O
sigilo oficial também incentivou uma sistemática
exploração sensacionalista da idéia da existência
de uma conspiração do governo, no sentido de
camuflar a verdade."
4
Raptos por óvnis
Até aqui analisei relatos sobre contatos imediatos
com óvnis nos quais (1) objetos voadores
incomuns foram vistos de perto, (2) estes objetos,
segundo disseram, deixavam rastros tangíveis de
diversas espécies e (3) foram vistos seres
humanóides associados aos objetos. Os
humanóides, incluindo alguns que parecem saber
manobrar objetos desconhecidos com inteligência
e sem a menor dificuldade, constituem um
empecilho para muitas pessoas. Neste contexto, J.
Allen Hynek diz: "Seria proveitoso (...) se
pudéssemos demonstrar haver uma diferença
sistemática entre os contatos imediatos do
terceiro grau e as outras cinco categorias de
experiência com óvnis. Poderíamos, assim,
descartá-los com certo alívio." Ele prossegue
dizendo, contudo, não saber de critérios mediante
os quais se possa isolar estes casos do conjunto
geral de relatos sobre óvnis.
Os casos discutidos neste capítulo poderão
parecer ainda mais repugnantes para a nossa
sensatez do que os relatos sobre humanóides até
aqui abordados. Os casos a seguir referem-se a
seres de aparência estranha que, segundo consta,
intervém à força nas vidas de cobaias humanas.
As pessoas têm relatado experiências de terem
sido capturadas, levadas a bordo de óvnis e
submetidas a exames físicos humilhantes. Estes
casos chamam-se contatos imediatos do quarto
grau, ou raptos por óvnis.
Ao examinar estes dados, sugiro que suspendamos
tanto a crença quanto a descrença, e
simplesmente tentemos obter uma visão geral das
provas disponíveis. Todos os casos que passo a
mencionar baseiam-se em testemunhos humanos.
Sendo assim, não estabelecem provas. Neste
campo, somos forçados a nos valer do raciocínio
indutivo, segundo o qual o entendimento de um
fenômeno genérico origina-se de um estudo de
padrões repetidos numa grande quantidade de
exemplos. Na minha opinião, os relatos sobre
raptos por óvnis passarão a fazer sentido quando
forem encarados à luz de categorias mais amplas
dos fenômenos recentes e antigos por mim
apresentados no transcurso deste livro.
Cabe aqui um comentário sobre metodologia. Com
freqüência estarei salientando certos aspectos que
costumam vir à tona em casos de contato
imediato. Muitos destes aspectos são
interessantes por também constarem em relatos
védicos sobre contatos com seres humanóides.
Outros são de interesse por parecerem ajudar na
interpretação dos casos de óvnis, e ainda outros,
simplesmente me surpreendem. Ao avaliar estes
aspectos, farei referência freqüente a
determinados casos bem divulgados pela literatura
ufológica, que também os expõe. Como estes não
são os únicos casos em que estes aspectos
aparecem, outros exemplos ilustrativos também
poderiam ser utilizados. Logo, meu objetivo não é
de destacar estes casos em particular por achá-los
sobremaneira significativos.
O caso de Buff Ledge
Começarei a análise dos raptos por óvnis com um
exemplo clássico. Este caso foi estudado por
Walter N. Webb, tarimbado investigador ufológico
e diretor do planetário do Museu de Ciência de
Boston. O resumo do caso apresentado a seguir
baseia-se num relato feito por ele em 1988.
Segundo o relato, o contato se deu em 7 de agosto
de 1968, no lago Champlain, a norte de Burlington,
Vermont. As duas testemunhas primárias, Michael
e Janet, trabalhavam em Buff Ledge Camp, um
acampamento de verão para moças localizado às
margens do lago. Michael, com dezesseis anos na
época, trabalhava transportando os equipamentos
de esqui aquático de volta do lago para a doca, e
fazendo manutenção dos demais equipamentos
aquáticos. Janet, uma estudante de 19 anos, de
New Hampshire, era instrutora de esqui aquático.
Webb usou pseudônimos para proteger as
identidades de todas as testemunhas do caso.
Um dos aspectos-chave deste caso é que Michael
e Janet tomaram rumos distintos logo após sua
experiência com o óvni, e não se comunicaram um
com o outro até o caso ser investigado por Webb
dez anos depois. Quando esta investigação
começou, a primeira pessoa a depor foi Michael.
Eis um resumo de sua versão do ocorrido naquela
noite, conforme ele pôde lembrar sem o uso da
hipnose:
Michael e Janet relaxavam na extremidade da doca
após passarem a tarde tomando sol. Uma luz
estelar brilhante se precipitou para baixo
subitamente, formando um arco, e se tornou
visível como um objeto em forma de charuto.
Então, emitiu três pequenas "luzes" brancas de
seu corpo e se afastou voando depressa. As três
luzes fizeram ziguezagues, descidas — como se
fossem folhas a cair —, espirais e outras manobras
extraordinárias e, à medida que se aproximaram,
Michael pôde ver que se tratavam de discos
abobadados. Após cerca de cinco minutos, dois
dos discos voaram para longe, enquanto o terceiro
aproximou-se deles, atravessando o lago. Ele pôde
ver que o disco tinha uma faixa de luz plasmática
colorida girando em volta de sua borda e que ele
produzia complexos tons sincronizados com a
pulsação desta luz. Parecia ter de doze a quinze
metros de lado a lado e ser "do tamanho de uma
casa pequena".
Em seguida, o óvni disparou céu acima, voltou a
descer, entrou no lago e depois emergiu. Como ele
se aproximou a uns dezoito metros da doca,
Michael pôde ver duas entidades sentadas sob sua
abóbada transparente. Os seres pareciam ser bem
baixos, com cabeças grandes, grandes olhos ovais,
aberturas nasais duplas e bocas pequenas.
Vestiam uniformes justos de cor acinzentada ou
prateada. Enquanto isso, Janet parecia estar em
estado de transe. Telepaticamente, um dos seres
garantiu a Michael que não lhe fariam mal algum.
Eles eram de outro planeta e já haviam feito
viagens à Terra antes. Haviam regressado após as
primeiras explosões nucleares.
Quando o óvni passou bem acima de suas
cabeças, Michael tentou em vão tocar seu fundo
para confirmar sua solidez. Um feixe brilhante de
luz se acendeu então, e a próxima coisa de que
Michael se lembra é de ter se escorado em Janet
enquanto ele e ela caíam na doca. Lembra-se de
ter perdido os sentidos enquanto estava sob o foco
do feixe de luz, mas também de ter sentido como
se estivesse flutuando. Lembra-se de vozes
alienígenas, de sons de máquina e de "luzes
suaves numa penumbra".
Quando recobraram os sentidos, o óvni pairava
sobre eles, estando agora inteiramente às escuras.
Ele pôde ouvir os ruídos de outras pessoas ali
acampadas, regressando de seu exercício de
natação. No instante em que Susan e Barbara,
duas mocinhas do acampamento, vieram correndo
em direção à ribanceira que dava no lago, o óvni
partiu.
Então, as duas conduziram Janet até a cabana
dela. Após o incidente, ambas as testemunhas
experimentaram um lapso de tempo/memória e
muito cansaço, tendo adormecido num piscar de
olhos. No entanto, antes de adormecer, Michael foi
até os alojamentos da equipe masculina, onde
encontrou Patrick, com vinte anos na época, que
parecia ter observado parte do contato imediato.
Patrick incentivou Michael a ligar para a Base
Aérea de Plattsburgh, próxima dali. Ele se lembrou
de ter ouvido o porta-voz da Força Aérea dizer que
a base fora informada de diversos relatos sobre
óvnis aquela noite, mas que as aeronaves militares
não eram responsáveis por eles.
Michael acordou uma vez aquela noite (cerca de
uma hora após adormecer), e fez então sua única
tentativa de procurar Janet para conversar sobre a
experiência deles. Porém, além de ela estar
profundamente adormecida, rapazes não tinham
permissão de entrar na cabana dela. Mais tarde,
Michael, logo desiludido pela descrença
demonstrada em relação à história por sua família
e seus amigos, não procurou conversar mais a
respeito daquilo com Janet enquanto ambos
estiveram acampados. Ele e Janet tomaram rumos
distintos após o término do acampamento algumas
semanas depois.
Dez anos mais tarde, em outubro de 1978, Michael
teve a inspiração de entender mais a respeito do
que efetivamente acontecera aquela noite, e foi
aconselhado por pesquisadores de óvnis do Centro
para Estudos sobre Óvnis a entrar em contato com
Walter Webb. Concordando em investigar o caso,
Webb primeiro localizou Janet que, agora casada,
estava morando no sudeste do país. Recordou ter
estado na doca com Michael e visto o movimento
de luzes no céu, seguido da aproximação de uma
"grande luz". Ela e seu companheiro, disse ela,
desceram para a doca quando lhes pareceu que o
objeto ia atingi-los, mas, depois disso, deu um
branco em sua mente. Também lembrou ter
querido muitíssimo falar com Michael sobre algo
no dia seguinte à experiência, mas, como
estivesse confusa quanto ao que iria falar
realmente, a conversa acabou não acontecendo.
Segundo constatou Webb, Michael e Janet não
voltaram a se encontrar desde aquele
acampamento dez anos antes. Conseguiu dois
hipnotizadores clínicos profissionais, Harold
Edelstein e Claire Hayward, para hipnotizá-los em
separado, para ver se lhes reavivava os detalhes
do incidente. Entre setembro de 1979 e abril de
1980, Michael submeteu-se a cinco entrevistas
hipnóticas, de uma hora cada; e, entre fevereiro e
dezembro de 1980, Janet submeteu-se a três
entrevistas, cada uma de duas horas.
O uso de dois hipnotizadores é significativo. A
estratégia de Webb foi obter dois relatos
independentes das experiências das testemunhas.
Isto foi possibilitado pela feliz circunstância de
Michael e Janet não terem aparentemente se
comunicado desde o incidente com o óvni e,
assim, um não teve nenhuma oportunidade de
influenciar a memória do outro acerca do
acontecido. Tendo-os hipnotizados em separado
por hipnotizadores diferentes, minimizaram-se as
probabilidades de a história de uma testemunha
poder influenciar, direta ou indiretamente, a
história da outra.
Eis um resumo do que brotou da memória de
Michael durante as sessões de hipnose: enquanto
estava sob o foco do feixe de luz, ele ouviu uma
espécie de ganido e sentiu-se como que "pleno de
luz". Parecia estar flutuando para o alto. Viu feixes
de luzes coloridas e parecia estar voando pelo
espaço. Em seguida, lembrou-se de ter estado ao
lado de um dos seres alienígenas num plano
superior dentro do óvni. Ao olhar para fora da
abóbada transparente, viu a Terra, as estrelas, a
Lua e uma enorme nave em forma de charuto.
Abaixo dele, Janet, deitada sobre uma mesa, era
examinada por dois outros alienígenas. Em uma
das paredes, um consolo repleto de telas variadas
parecia acusar dados do exame. Os seres tinham
grandes cabeças ovais, roupas justas e
esverdeadas, membros finos e compridos, e mãos
de três dedos com membrana interdigital. Tinham
olhos grandes e ovais com grandes pupilas negras,
suas bocas pareciam consistir numa pequena
fenda e seus narizes em dois meros orifícios.
Tinham a pele azul-esverdeada.
Um ser atuou como intérprete telepático de
Michael durante o rapto. Surpreendido com a
vigilância com que Michael passara pela
experiência, advertiu-o de que isto dificultaria as
coisas para ele mais tarde. Michael lembrou-se de
ter se sentido íntimo deste ser.
No plano inferior, ele observou enquanto os
examinadores raspavam a pele do corpo de Janet,
tiravam-lhe sangue do braço com uma seringa e
"sugavam" fluidos de seu corpo por meio de duas
aberturas, usando uma máquina embutida no teto.
Tendo Michael indagado seu guia acerca daquele
procedimento, este lhe disse que eles estavam
"desovando consciência". Ao chegar sua vez de ser
examinado, os seres o conduziram até uma mesa
próxima à de Janet; nessa altura, ele perdeu os
sentidos. Instantes antes disso, porém, viu a nave
deles se aproximar da grande nave em forma de
charuto lá fora.
Ao despertar, Michael teve a impressão de a nave
deles se encontrar agora dentro da grande nave.
Ele e seu guia flutuaram pelo fundo da nave em
direção a um tubo de luz, por onde foram
projetados para uma espécie de hangar na nave
maior. Atravessaram uma das paredes daquele
recinto e, entrando numa espécie de elevador,
subiram até dar em outro recinto cheio de outras
entidades de aparência semelhante. Ali puseram
algo parecido a um elmo na cabeça de Michael,
após o que as entidades, fitando uma tela em
forma de bolha, aplaudiram e emitiram sons
audíveis entre si. Em seguida, levaram-no para
outro recinto, onde ele presenciou uma cena
estranha: sob um céu púrpura e rodeados por
gramado, árvores e fontes, havia uns humanos
comuns, mas atordoados. Janet chorava de medo
perto dele. Daí, ele adormeceu.
A próxima coisa de que ele se lembrou foi de estar
caindo pelo espaço em direção a um globo
facetado com telas como as de tevê. A imagem
das telas era de Michael e Janet no piso da doca,
com o óvni pairando acima deles. Após atravessar
uma tela, Michael voltou a si. Nessa altura, seu
guia transmitiu-lhe uma mensagem telepática,
dizendo que eles gostavam dele, que ele ficaria
sem entender muito do que se passara no contato
e que Janet não se lembraria de nada. Outra voz
garantiu-lhe que Janet estava bem, e por fim ele
ouviu uma voz dizer: "Adeus, Michael."
Antes de se submeter à hipnose, Janet mal podia
se lembrar da experiência em estado consciente.
Porém, já hipnotizada, ela recordou eventos que
confirmaram o relato de Michael. Durante o
período de suas sessões de hipnose, enfatizou
Webb, ela ainda não conhecia a história de rapto
de Michael.
O que vai a seguir é um resumo da experiência de
Janet naquela noite, conforme reavivada por meio
da hipnose. Ela se lembrou da luz original
descendo do céu. Daquela, pensou ela, outras
luzes teriam emergido. Após realizar diversas
manobras aéreas no céu, uma das luzes passou
em frente a eles e depois desapareceu. Ovalado e
rodeado de luzes, o objeto emitia um som agudo.
Era "maior que um carro ou uma casa" e parecia
"uma nave espacial". Janet também viu, no objeto,
figuras alienígenas que os espreitavam. Estas
tinham cabeças incomuns e usavam uniformes
inteiriços.
Ela se lembrou tanto do objeto parando e pairando
sobre eles, no mesmíssimo local mencionado por
Michael, quanto de um brilhante feixe de luz
saindo de baixo dele. A seguir, lembrou estar
deitada sobre uma mesa, sob uma abóbada
transparente, rodeada por "pessoas". Nem ela
nem Michael conseguiram lembrar como foi feita a
transferência para o óvni. Janet lembrou, ainda,
que um ser cuidava dela, garantindo-lhe por
telepatia que tudo ia correr bem — e isto a deixou
bem relaxada e calma.
Lembrou ter sido examinada por diversos seres
que lhe diziam para não olhar ou se mexer
enquanto faziam seus testes. Ao dar uma espiada
neles, ficou horrorizada com o que viu; conforme
lembrou também, seu guia foi repreendido pelos
outros seres por ter deixado isso acontecer. Com
muita relutância, ela descreveu a aparência dos
seres. Sua descrição, apesar de semelhante à de
Michael, diferia desta nos seguintes pontos: (1) a
pele deles era de cor esbranquiçada e aparência
insalubre, e (2) eles usavam trajes parecidos com
macacões. Sua lembrança dos procedimentos
usados em seu exame diferiu um pouco da de
Michael, mas sua descrição do painel de
instrumentos bateu com a dele. Dentro do óvni,
ela sentiu a presença de Michael em outra mesa
em algum momento e se lembrou de tê-lo visto
duas vezes em outras ocasiões.
Então, ela se lembrou de ter acordado na doca ao
lado de Michael, que parecia assustado e
fascinado ao mesmo tempo. Segundo recordou,
ela não entendeu a razão para ele estar tão
encantado com "algumas luzes". Porém, em
transe, veio-lhe a lembrança de ter visto um disco
escuro pairando acima deles e a vaga lembrança
de tê-lo observado partindo. Lembrou ter subido os
degraus ribanceira acima com Michael e lá ter
visto Susan e Barbara. Nessa altura, sentiu-se
muito cansada e estonteada, indo logo dormir na
cabana das funcionárias.
Segundo Webb, Janet confirmou 70% das
descrições de Michael para o ocorrido na doca e
68% de suas descrições a bordo da nave. Após
averiguar com outras pessoas presentes em Buff
Ledge no verão de 1968, Webb conseguiu localizar
Barbara e Susan. Fazendo depoimentos
independentes, ambas se lembraram por alto de
ter visto um escuro e silencioso objeto circular,
com luzes em volta de sua borda, partindo
depressa da beira do lago, Contudo, nenhuma
delas conseguiu se lembrar de ter visto Michael ou
Janet na área àquela altura.
Webb também entrou em contato com o amigo de
Michael, Patrick, mas este não confirmou a
alegação de Michael, segundo a qual ele teria
observado parte do contato imediato. Patrick só
conseguiu lembrar que Michael alegara ter visto
um óvni naquele verão. Segundo contou Patrick,
depois disso ele e outros que estavam na praia
observaram luzes estranhas manobrando no céu à
distância, e mais tarde viram diversos jatos da
Força Aérea sobrevoando o lago. Em resposta a
isto, Michael negou a presença de quaisquer jatos
na ocasião, argumentando que a memória de seu
amigo estava confusa. Segundo também notou
Webb, o depoimento de Patrick era questionável,
pois ele vinha se submetendo a tratamento
psiquiátrico de longa data.
Webb procurou confirmar o fato de a Base Aérea
de Plattsburgh ter recebido chamadas telefônicas
sobre óvnis naquela noite. Contudo, depois de um
ano, haviam destruído todos os troncos telefônicos
e, após seis meses, haviam destruído todos os
relatos de visão de óvnis (arquivados no quartel-general do SAC).
Webb também entrou em contato com "Elaine",
que tinha 25 anos e era recreadora do
acampamento no início de agosto de 1968.
Segundo lembrou ela, alguém veio até a casa de
recreação gritando algo a respeito de luzes no céu.
Todas as crianças correram para fora em direção a
uma clareira na ribanceira, e ela lembrou ter visto
um brilho prateado se movendo por sobre as
árvores enquanto ia atrás das crianças em ritmo
mais lento, isto pode ter ocorrido no momento do
contato de Michael e Janet, mas não foi possível
apurar uma data exata.
Foram aplicados diversos testes psicológicos tanto
em Michael quanto em Janet, inclusive o Minnesota
Multiphasic Personality Inventory (MMPI) e o
Psychological Stress Evaluation (PSE). Embora
ambos mostrassem ser normais, os testes de
Michael indicaram uma certa rebeldia intelectual
quanto a idéias tradicionais e regras familiares e
sociais. Com base nestes testes e em
averiguações de antecedentes de caráter, Webb
acredita firmemente serem ambas as testemunhas
pessoas honestas e dignas de crédito, que não
criaram um embuste nem compartilharam algum
tipo de alucinação. Michael graduou-se em História
da Religião em 1978, tendo seguido carreira de
modelo e ator em Nova York. Janet se graduou em
1971, com distinção, em Psicologia, trabalhou
como administradora de uma escola, e depois se
casou com um médico e teve dois filhos.
Histórico e freqüência de casos de
rapto
Nos últimos trinta anos, as chamadas experiências
de rapto por óvnis, tais como a de Buff Ledge, têm
sido relatadas repetidas vezes. Embora os casos
de rapto já revelados remontem à década de
1940, só em anos recentes o padrão moderno dos
raptos por óvnis passou a ser reconhecido.
A primeira destas experiências a ser bem
divulgada foi o caso de Betty e Barney Hill, que
relataram ter tido um contato imediato com um
óvni em 9 de setembro de 1961. Ambos voltavam
para casa de uma viagem de férias, dirigindo por
uma solitária estrada de New Hampshire. A
princípio, os Hill se lembraram de ter visto, no céu
noturno, uma nave estranha manobrando com
abruptas alterações de direção. Quando a nave se
aproximou do carro, eles a observaram com
binóculos, e Barney pôde ver figuras humanóides
nas janelas iluminadas da nave. Nessa altura, os
Hill aceleraram. Afora uns zunidos estranhos, eles
não conseguiram se lembrar de nenhum outro
incidente durante o regresso para casa.
Após o contato, Betty Hill se viu importunada por
sonhos estranhos em que era levada a bordo do
óvni por alienígenas, e Barney passou a sofrer de
úlcera e de outros sintomas de esgotamento. Entre
14 de dezembro de 1963 e 27 de junho de 1964,
eles fizeram hipnoterapia com o psiquiatra
Benjamin Simon, resultando daí uma detalhada
história de rapto por alienígenas, se¬melhante
àquela de Michael e Janet. Este caso, também
investigado por Walter Webb, foi publicado no livro
The Interrupted Journey (A jornada interrompida),
de John Fuller.
Sob hipnose, Barney Hill descreveu seus raptores
com termos quase que banalizados mais tarde
pelo uso. Eles tinham pele acinzentada de
aparência quase metálica, nenhum cabelo,
grandes olhos oblíquos que pareciam enrolar-se
pelos lados da cabeça, duas fendas como narinas
e uma boca em linha horizontal. Segundo disse,
falavam entre si em murmúrios, ao passo que o
líder deles se comunicava com ele mentalmente.
Além disso, o líder exercia controle mental de
longo alcance sobre ele: "Era como se eu soubesse
que o líder estava em outro lugar, mas sua eficácia
me acompanhasse."
Desde 1964, muitos raptos por óvnis têm sido
revelados. Para se ter uma idéia da freqüência
com que ocorrem estas experiências, observe-se
que, só em 1988, a pesquisadora ufológica
britânica Jenny Randles ficou sabendo de 32
relatos de rapto por óvnis no continente europeu.
Em 1981, Budd Hopkins, um pesquisador
americano famoso por seus estudos sobre raptos
por óvnis, disse ter pessoalmente investigado 19
casos de rapto desde o princípio de suas pesquisas
sobre óvnis em 1976.
Até 1981, prosseguiu Hopkins, havia-se estudado
um total de cerca de quinhentos casos de rapto.
Ele baseou esta estimativa em trezentos casos do
HUMCAT, um catálogo de relatos sobre
humanóides compilado por Ted Bloecher e David
Webb, mais os casos investigados pelo Dr. James
Harder, um engenheiro, e o Dr. Leo Sprinkle, um
psicólogo. Jacques Vallee apresentou uma
estimativa comparável em 1990, dizendo: "Até a
época deste escrito, mais de seiscentos raptados
foram interrogados por pesquisadores de óvnis, às
vezes assistidos por psicólogos clínicos."
Características genéricas dos raptos
por óvnis
Apesar de parecer bastante estranha, a história de
Michael e Janet apresenta uma série de aspectos
repetitivos. Eis uma lista de alguns destes
aspectos, mais ou menos na ordem em que
aparecem na história:
1. O óvni é amiúde (mas nem sempre) descrito
como um disco abobadado com diversas luzes
intermitentes ou pulsantes.
2. É freqüente se ouvirem sons agudos e
incomuns, especialmente no princípio da
experiência.
3. Às vezes, as testemunhas vêem seres
alienígenas olhando pelas janelas de suas naves.
Ao que parece, os seres costumam exercer alguma
espécie de influência hipnótica sobre as pessoas
que os observam.
4. Estes seres costumam ser pequenos, com
cabeças e olhos grandes e bocas, narizes e orelhas
rudimentares. O termogray costuma aplicar-se a
este tipo racial. Às vezes, contudo, há relatos
sobre entidades ufológicas dotadas de belas
feições humanas e, em certos casos, humanos e
entidades do tipogray parecem estar trabalhando
juntos dentro dos óvnis.
5. É comum as entidades se comunicarem com as
testemunhas humanas por telepatia. No entanto,
costuma-se dizer que elas se comunicam entre si
por meio de sons incompreensíveis.
6. Elas costumam dizer que visitaram este planeta
no passado remoto e regressaram por causa de
nossos testes nucleares.
7. Em geral, garantem que nada farão de mal para
as testemunhas.
8. Tipicamente, dá-se uma perda de memória de
partes da experiência e um conseqüente lapso de
tempo. Isto se tornou famoso como o fenômeno do
"tempo perdido".
9. A forma pela qual a testemunha entra no óvni
costuma envolver um feixe de luz, mas não há
uma lembrança precisa de como isto acontece.
10. Às vezes, as testemunhas relatam terem visto
a Terra ou outros planetas do espaço exterior
enquanto estiveram a bordo do óvni.
11. Às vezes, o óvni é levado para dentro de uma
"nave-mãe" maior.
12. Estas experiências costumam acarretar um
grande temor. Neste caso, o temor experimentado
por Janet não foi tão extremo como acontece em
muitos casos.
13. Em geral, as testemunhas dizem terem se
sentido muito calmas em determinado momento,
devido ao fato de seus apreensores lhes
transmitirem tranqüilidade.
14. Tipicamente, a testemunha é submetida a um
exame "médico" enquanto deitada sobre uma
mesa. Neste exame, realizado por máquinas
elaboradas, o corpo da testemunha costuma ser
perscrutado, aguilhoado, raspado e injetado com
fluidos.
15. Conforme vimos neste caso, com a referência
a "desovar consciência", o exame costuma ter algo
a ver com reprodução, e acontece de extraírem
amostras de óvulos ou esperma.
16. As testemunhas costumam ver painéis com
muitas telas do tipo tela de tevê.
17. Após o exame, é comum se fazer uma
espécie de visita pela nave. Levada a diversos
recintos, a testemunha vê diversas coisas
incompreensíveis.
18. As testemunhas costumam experimentar
flutuar pelo ar em feixes de luz, e às vezes relatam
terem flutuado através de paredes.
19. Às vezes se descrevem convocações de
entidades alienígenas em recintos grandes.
20. Às vezes estranhas paisagens surreais são
mostradas às testemunhas.
21. Costuma haver experiências que parecem
alucinatórias ou visionárias. Um exemplo disto,
neste caso, foi a queda de Michael no globo
facetado com telas de tevê. Ao mesmo tempo,
muitos aspectos destas experiências parecem
envolver percepção sensorial normal sob
circunstâncias estranhas.
22. As testemunhas costumam relatar
esgotamento extremo após a experiência.
Pequenos detalhes recorrentes
Além destes aspectos, existem muitos pequenos
detalhes que se repetem em relatos sobre raptos.
Por exemplo: embora as testemunhas não
costumem se lembrar de como entraram num óvni
(item 9), em alguns casos a testemunha se lembra
de ter entrado por uma porta, havendo, também,
muitas referências a portas dentro dos óvnis.
Quase que invariavelmente, tais portas, dizem as
testemunhas, desaparecem de forma inconsútil ao
serem fechadas.
Um exemplo disto seria a história de rapto
recontada em The Andreasson Affair, de Raymond
Fowler. Nesta história, em 1967 uma dona de casa
da Nova Inglaterra chamada Betty Andreasson foi
visitada por seres do tipo gray, que a fizeram
flutuar através da porta fechada de sua casa (item
18) e depois a levaram para um óvni estacionado
em seu quintal. Entrando no óvni, ela foi de recinto
em recinto dentro dele, passando por portas da
forma normal; mas, segundo comentou, estas
portas se tornavam invisíveis ao serem fechadas.
Outro exemplo é a história do fazendeiro brasileiro
Villas Boas que relatou ter visto vãos de porta
inconsúteis num óvni em 1957 (veja página 165).
Em 1950, Frank Scully publicou um livro muito
controvertido, Behind the Flying Saucers (Por trás
dos discos voadores) sobre a apreensão de um
disco voador avariado perto de Aztec, Novo
México, em fins da década de 1940. Segundo ele
menciona no livro, a porta que dava acesso ao
disco se tornava invisível ao ser fechada. Muitos
pesquisadores ufológicos têm rejeitado a história
de Scully por considerá-la um embuste, mas
William Steinman a tem defendido energicamente.
Sem querer tomar partido nesta questão, observo
que Steinman apresenta alguns depoimentos
adicionais com relação aos vãos de porta
inconsúteis. Segundo sustenta ele, Baron Nicholas
von Poppen, estônio expatriado e hábil fotógrafo,
foi convocado por autoridades militares ao local do
acidente em Aztec para fotografar o óvni
derrubado. Von Poppen teria descrito o que viu
para George C. Tyler em 1949. Em sua descrição,
ele diz: "A porta era tão finamente acabada que,
ao se fechar, não deixava o menor indício de sua
existência."
Que está acontecendo aqui? Teria alguém
inventado a história da porta inconsútil em 1949,
ou talvez tomado a mesma emprestada de alguma
história de ficção científica? Teria Betty
Andreasson, dona de casa e cristã
fundamentalista, embutido a idéia de algum livro
sobre óvnis em sua própria história, talvez sem ter
consciência disso? Teriam as muitas outras
testemunhas que mencionam vãos de porta
inconsúteis feito o mesmo, inclusive o fazendeiro
brasileiro Villas Boas (o qual supostamente não
teria como acionar esta informação)? Ou será que
testemunhas independentes estavam mesmo
observando portas inconsúteis nos óvnis?
Pela "hipótese nula", os detalhes das histórias dos
óvnis, tais como a idéia da porta inconsútil, são
transmitidos de uma pessoa para outra através de
meios comuns, tais como de viva voz ou lendo
livros e artigos de revistas. É muito difícil
determinar com certeza se esta hipótese se aplica
a qualquer caso ou se a testemunha está
recontando uma experiência verdadeira. Portanto,
a melhor política é ter ambas as possibilidades em
mente e ver de que maneira as provas parecem
fazer sentido no final das contas. Devo também
observar a possibilidade de memórias de uma
experiência autêntica se misturarem com idéias
oriundas de outras fontes.
Antes de mudar de assunto, devo mencionar dois
outros pequenos detalhes constantes no livro de
Scully. O primeiro tem a ver com a força e a leveza
do metal do qual se constitui o disco avariado de
sua história. Scully cita as seguintes palavras de
seu informante, o "Dr. Gee": "Na nave grande,
bastavam dois ou três homens para erguê-la de
um lado, de tão leve que era. Por outro lado, pelo
menos uma dúzia deles rastejara para cima da asa
que, de tão forte, não sofreu o menor abalo."
Segundo também diz Scully, dez mil graus de calor
não conseguiram romper dois dos metais que
formavam a nave de trinta metros de diâmetro. É
curioso o fato de as testemunhas no caso Roswell
de 1947 (páginas 130-34) terem enfatizado que os
fragmentos de metal vistos por elas eram
levíssimos e extremamente resistentes a
dobraduras, cortes ou queimaduras.
Conforme o segundo detalhe, o disco avariado de
Scully teria um anel externo de metal que girava
ao redor de uma cabine central fixa. Como Scully
descreveu num artigo de Variety, em 1949: "Seu
centro permanecia em repouso, mas uma borda
externa girava em torno dele a uma velocidade
impressionante." Esta idéia também consta no
depoimento de Betty Hill com relação a seu
contato com o óvni. Hipnotizada, ela disse: "Mas
havia uma espécie de aro girando em volta da
nave. E não sei por que, mas me ocorreu a idéia
de que era um aro móvel, como se girasse em
torno do perímetro, talvez. Ou como se fosse um
enorme giroscópio de alguma espécie."
Ferimentos e doenças
Em muitos casos, vinculam-se sintomas de
ferimento físico ou doença a contatos com óvnis,
inclusive aqueles envolvendo raptos. Barney Hill,
por exemplo, parece ter contraído uma úlcera
como resultado da ansiedade causada por sua
experiência. Também apareceram-lhe verrugas na
virilha, causadas talvez por um instrumento
colocado, pelo que ele lembra, sobre seus órgãos
genitais enquanto ele esteve a bordo do óvni. Esta
experiência e um "teste de gravidez" administrado
em sua esposa, Betty, pelas entidades do óvni
também ilustram o item 15.
Segundo outro relato, de novembro de 1975, um
rapaz experimentou um contato bizarro na reserva
florestal Catskill envolvendo uma nave oval semi-luminosa, um ataque de figuras parecidas a robôs
e um espaço de tempo perdido. Cerca de uma
semana após este evento, uma série de vergões
bem marcados foi pipocando de seu umbigo até a
virilha num padrão convergente. No caso Villas
Boas, a testemunha ficou esgotada, nauseada e
sem conseguir comer ou dormir direito após sua
experiência de rapto. Acabou contraindo uma
doença de pele crônica e incomum. Também
experimentou fortes dores de cabeça, ardor e
lacrimação dos olhos.
A irritação dos olhos parece ser comum em casos
de contato imediato com óvnis que costumam
fazer uso de feixes de luz ofuscantes. Uma série
de exemplos de casos de CI3 com danos aos olhos
é citada num artigo, "The medical evidence in UFO
cases", de John Schuessler. De acordo com Budd
Hopkins, é freqüente testemunhas de raptos
relatarem irritação dos olhos provocada por luzes
brilhantes vistas dentro dos óvnis.
Ao mesmo tempo, há relatos de curas
extraordinárias ligadas a contatos imediatos com
óvnis. Algumas delas parecem ser de natureza
mística (veja páginas 193-94). Outras são
atribuídas a intervenções médicas que parecem
fazer uso de reconhecíveis técnicas de alta
tecnologia.
Um exemplo deste último caso é relatado pela
psicóloga Edith Fiore. Um de seus pacientes disse
ter nascido com um vaso sangüíneo malformado
no cérebro. Conforme os médicos disseram à mãe
dele, como este vaso podia se romper a qualquer
momento, ele seria retardado e sua expectativa de
vida seria mínima. No entanto, ele já é um
quarentão e é normal. Resulta que, ao ser
hipnotizado por Fiore, ele se lembrou de "ter visto,
numa tela, ETs fazendo-lhe um tratamento, tendo
ainda podido ver alguns vasos sangüíneos que
pareciam estar fora de seu cérebro".
Fiore alega já ter detectado cerca de duzentos
relatos de CI4 no transcurso de regressões
hipnóticas realizadas para fins de psicoterapia.
Cerca de 50% deles envolviam curas de doenças
tidas como incuráveis, tais como câncer, ou de
condições dolorosas, tais como enxaquecas. Pode-se sugerir, é claro, a hipótese de as pessoas
imaginarem estas curas feitas por ETs por
sentirem necessidade de explicar curas naturais
ocorridas por motivos desconhecidos. Mas a
cultura ocidental dispõe de explicações místicas
familiares para curas incomuns (tais como a graça
de Jesus). Por que, então, deveria alguém tentar
explicar as curas misteriosas recorrendo aos ETs,
que são mais misteriosos ainda?
A evidência segundo a qual muitos contatos com
óvnis tendem a vir acompanhados de efeitos
físicos — maléficos ou benéficos — apóia a
hipótese da realidade física destes contatos. Isto
se aplica, em especial, a casos cujo efeito físico
pode estar vinculado a recordações de eventos
específicos ocorridos dentro de um óvni.
Ao mesmo tempo, contudo, são conhecidos os
extraordinários efeitos que alguns estados mentais
são capazes de produzir sobre o corpo. Um
exemplo famoso disto seriam os estigmas surgidos
nos corpos de certos monges e freiras católicos em
decorrência de eles terem meditado na
crucificação de Cristo. Alguns estigmas, segundo
consta, assemelham-se bastante a feridas
causadas por unhas. Mas quer tenham sido obra
de agentes "naturais" ou "sobrenaturais", decerto
não foram produzidos por unhadas. Poderiam os
raptos por óvnis ocorrer apenas em nível mental, e
deste modo envolver efeitos incomuns da mente
sobre a matéria?
A questão sobre a realidade física ou não dos
raptos por óvnis vem a ser bastante complexa. As
comparações com o material védico poderão
elucidar este assunto, que voltarei a analisar com
mais minúcia no Capítulo 10, após apresentar um
pouco daquele material. Por ora, eu sugeriria que
alguns contatos imediatos com óvnis parecem
envolver fenômenos físicos grosseiros, enquanto
outros parecem envolver a ação de energias sutis
ligadas à mente.
Anatomia de uma alucinação?
Conforme sugere a literatura ufológica, os seres
humanóides envolvidos em raptos apresentam,
com algumas notáveis exceções, uma
extraordinária uniformidade de aparência e
comportamento. A pesquisadora britânica Jenny
Randles, por exemplo, salientou, com base em
seus dados, ser possível identificar duas categorias
básicas de entidades raptoras.
A primeira categoria, na qual ela inclui os "seres
pequenos e feios", corresponde ao já mencionado
tipo gray. Segundo ela, "eles têm entre noventa
centímetros e 1,5m de altura, grandes cabeças em
forma de pêra, grandes olhos redondos e narizes e
bocas fendidos; costumam não ter cabelo e usar
uniformes esverdeados; têm a pele às vezes
cinzenta ou enrugada". Salientou também haver
uma desconcertante falta de variedade nas
descrições destes seres.
A segunda categoria é a dos "altos e magros". A
altura típica destes é 1,80m ou mais e, como se
costuma dizer, têm traços escandinavos, incluindo
pele pálida e cabelo louro. Em geral, seus olhos
são do tipo oriental ou felino, de cor azul ou rosa.
São dotados de estranha beleza, sendo mais
parecidos com os humanos que com os seres gray.
A divisão entre humanóides altos e baixos também
se evidencia em termos estatísticos na tabela de
164 relatos sobre humanóides, publicada em 1976
pelos investigadores ufológicos Coral e Jim
Lorenzen. Conforme salientei no Capítulo 2 (página
92), os Lorenzen mencionaram humanóides
pequenos e grandes, e (o que é estranho) o
tamanho dos humanóides relatados parece se
correlacionar com o tamanho do óvni que os
acompanha.
Os Lorenzen também mencionaram quatro outros
tipos de entidades, descritas como sendo robôs
grandes e pequenos e monstros grandes e
pequenos (confira a história de robô em Cisco
Grove, página 118). Na tabela deles, predominam
os humanóides grandes e pequenos, conforme
podemos constatar, contando o número de relatos
apresentando entidades das diferentes categorias.
(Embora na tabela deles só haja um caso
apresentando dois tipos diferentes de entidades,
eles são bastante comuns na literatura sobre
óvnis.)
Humanóide grande - 60
Humanóide pequeno - 81
Monstro grande - 3
Monstro pequeno - 4
Robô grande - 1
Robô pequeno - 3
Os Lorenzen também relacionaram diversas
características corpóreas dos humanóides. Resulta
que, entre os humanóides grandes, oito tinham
olhos de notável grandeza, enquanto dez tinham
olhos normais, uma divisão aproximadamente
igual. Porém, entre os humanóides pequenos, o
relato foi de dezoito com olhos grandes para
apenas dois com olhos pequenos. Isto é
compatível com a descrição usual de olhos
grandes para as entidades gray.
Acaso os compatíveis padrões anatômicos destes
humanóides refletem a estrutura corpórea de
seres vivos verdadeiros, ou refletem a anatomia
de alguma espécie de alucinação? Embora possa
haver outras explicações possíveis para os
humanóides, por ora vamos considerar estas duas.
Seria possível articular a idéia da alucinação da
seguinte forma: por algum motivo, as histórias de
rapto apresentando determinados tipos de seres
foram a princípio criadas pela imaginação humana.
Estes seres têm aspecto humano por ser natural
para as pessoas imaginar formas humanas. As
histórias são divulgadas por meios normais de
comunicação. Quando as pessoas relatam
contatos vividos e chocantes com estes seres, isto
pode se dar em função de um processo psicológico
que incorpora as histórias que elas ouviram a uma
experiência aparentemente real. Esta poderia ser
a chamada teoria do folclore.
Randles cita um estudo de duzentos casos de
rapto feito por um estudante de folclore chamado
Thomas E. Bullard. Segundo argumentou Bullard,
se as histórias de óvnis se espalhassem como
sendo uma espécie de folclore, deveriam, então,
apresentar as características esperadas de um
contexto folclórico. As histórias deveriam
apresentar, por exemplo, um grau de variação
típico de produtos da imaginação humana.
Deveriam variar de uma região geográfica para
outra, além de mostrar a influência de casos
bastante divulgados.
Randles sumariou as conclusões de Bullard como
segue: embora os casos americanos acusem de
maneira acentuada, uma quantidade menor de
exemplos dos seres altos do que os casos não-americanos, nos casos de rapto oriundos de
diferentes partes do mundo detecta-se, não
obstante, um alto nível de uniformidade. Casos
bastante divulgados não parecem exercer impacto
detectável sobre os relatos de rapto. Além do
mais, as histórias de rapto são
estereotipadíssimas, apresentando um leque
muito menor de variação do que o encontrado, por
exemplo, em ficção científica. Logo, as histórias de
rapto não parecem obedecer aos padrões
esperados de um contexto folclórico.
Seria possível argumentar, contudo, que as
experiências de rapto tendem a demonstrar um
alto nível de uniformidade em virtude de um
processo psicológico que seleciona determinadas
idéias e as intensifica. No entanto, os relatos sobre
raptos só entraram em evidência a partir do início
da década de 1960. Por que teriam estas histórias
em particular se revestido de potência psicológica
em anos recentes, e não antes disso?
Outro inconveniente desta idéia: muitas das
características uniformes evidenciadas repetidas
vezes em relatos sobre raptos não parecem ser
significativas do ponto de vista psicológico. Qual
seria a relevância psicológica, por exemplo, de
portas inconsúteis em óvnis, ou de bocas em
forma de fenda em humanóides pequenos? O que
motivaria as pessoas a falarem de luzes brilhantes
dentro dos óvnis e a imaginar entidades dotadas
da faculdade de comunicação telepática? Uma boa
teoria psicológica em torno destas características
as relacionaria de forma convincente a princípios
psicológicos conhecidos.
Conforme ainda se poderia argumentar, certas
características-chave dos relatos sobre raptos
revestem-se de determinantes psicológicos. As
outras são criações arbitrárias da imaginação que
pegam uma carona, por assim dizer, nos
elementos de relevância psicológica da história.
Mas, se estes elementos não se afiguram tão
importantes para as pessoas, por que, então, não
variam tanto de um relato para outro em função
do capricho individual?
Sobre a evolução dos humanóides
Se os humanóides relatados não são produtos da
psicologia e do folclore, talvez sejam seres vivos
reais. Se é assim, então, as características
comumente relatadas em histórias de rapto
poderiam ser devidas ao fato de estes seres terem
certos traços físicos e culturais. Alguns deles
poderiam de fato ter bocas fendidas, e as portas
inconsúteis poderiam integrar a sua tecnologia.
Pelo que sei, apesar de não ficar provada pelos
relatos sobre contato imediato, esta hipótese
continua sendo uma forte possibilidade. Contudo,
também traz à tona a questão do lugar e do
processo de origem dos humanóides.
Por ora, limitemo-nos à idéia de que os corpos
físicos dos humanóides teriam surgido por meio de
processos de evolução neodarwiniana. Conforme o
argumento de alguns cientistas, tais como Carl
Sagan, alguma espécie de vida inteligente pode
ter evoluído em outros planetas dentro de nossa
galáxia. Outros argumentam que, se os
dinossauros não tivessem se extinguido, a
evolução poderia ter gerado um dinossauro bípede
de cérebro grande, com inteligência e aparência
comparáveis às de um ser humano. Com base
nestas considerações, há quem sugira a
possibilidade de os humanóides terem evoluído
em outro planeta.
Contudo, o preeminente evolucionista Theodosius
Dobhzhansky rejeitou esta idéia e explicou porquê,
analisando um experimento hipotético. Ele disse:
"Suponhamos que, por alguma casualidade de
todo improvável, exista outro planeta em alguma
parte no qual surgiram animais, vertebrados e
mamíferos como aqueles que viveram na Terra
durante o eoceno. Acaso isto significaria dizer,
necessariamente, que também as criaturas
humanóides teriam se desenvolvido neste planeta
imaginário?"
Segundo a estimativa de Dobhzhansky, seriam
necessárias alterações em cerca de cinqüenta mil
genes para que os humanos modernos tivessem se
desenvolvido a partir de ancestrais do eoceno de
cerca de 55 milhões de anos atrás. Entre estas
alterações, estariam incluídas mutações e outros
tipos de alteração da estrutura genética. Já que
cada uma dessas alterações não passa de uma
dentre uma vasta gama de alternativas, seria
virtualmente igual a zero a probabilidade de as
alterações terem ocorrido e sido escolhidas na
mesma seqüência em que o foram na história da
evolução humana. Pequenos desvios na seqüência
de alterações bastariam para fazer descarrilar o
processo evolutivo de humanização das criaturas
pré-humanas. Assim como seria possível, em se
tratando do ambiente pré-humano, que desvios na
evolução de outras plantas e animais
descarrilassem a evolução humana, da mesma
maneira, o rumo da Terra, em nível de história
climática, teria sido outro se ela sofresse desvios
climáticos.
Portanto, ponderou Dobhzhansky, eram mesmo
mínimas as probabilidades de qualquer coisa
semelhante a um humano ter evoluído em seu
planeta hipotético. Para redundar em algo
consideravelmente semelhante ao gênero
humano, seria preciso que o processo de evolução
da Terra tivesse sido o mesmo desde o eoceno,
pelo menos durante a maior parte dos seus 55
milhões de anos. Se não, provavelmente, os pré-humanos trepadores de árvores do eoceno teriam
se extinguido ou se transformado em alguma
forma desconhecida de mamífero.
O famoso evolucionista George Gaylord Simpson
chegou a conclusões semelhantes. Ele usou
termos bastante amplos ao definir humanóide
como sendo "um organismo vivo natural com
inteligência comparável à do homem em
quantidade e qualidade, podendo, portanto,
comunicar-se conosco de forma racional". Segundo
argumentou ele, a evolução de semelhante ser
depende de uma infinidade de circunstâncias
especiais, sendo bastante remota a probabilidade
de circunstâncias equivalentes surgirem em outro
planeta. Entre estas circunstâncias, incluem-se as
condições químicas necessárias para a produção
de células vivas, as condições ambientais
prevalecentes durante milhões de anos de
evolução na Terra e as muitas mutações
necessárias para se produzirem organismos
complexos. "Acho, portanto", concluiu,
"sobremodo improvável que exista, em alguma
parte de nosso universo acessível, algo
semelhante a nós o suficiente para de fato se
comunicar conosco em nível de pensamento."
Caso este entendimento da evolução esteja
correto, então, a existência de humanóides
ufológicos, enquanto seres reais e parecidos aos
humanos, representa um desafio para a atual
teoria da evolução. Podemos argumentar que a
evolução estava fadada a produzir algo, sendo a
humanidade um de seus produtos na Terra. Deste
modo, a existência de humanos na Terra não
representa problema algum. No entanto, é mínima
a probabilidade de a evolução produzir, em
separado, algo parecido com a humanidade em
dois planetas diferentes desta galáxia.
Seria possível argumentar, é claro, que os
humanóides ufológicos se assemelham aos
humanos apenas de modo superficial. Por uma
hipótese, os humanóides que as pessoas vêem são
meras simulações da forma humana que estão
sendo manipuladas por um agente desconhecido.
Talvez o agente esteja se valendo destas
simulações para se comunicar conosco. Ou talvez
os motivos do agente sejam de todo
incompreensíveis para nós. Como pode ser
aplicada a todo e qualquer dado, esta teoria da
simulação traz o inconveniente de nos deixar com
um mistério irrevelado. Sugiro só lançarmos mão
dela em última instância.
Por outra hipótese, os humanóides ufológicos têm
de fato certas características semelhantes às
humanas, só que, em nível fundamental, são
totalmente diferentes de nós. Embora em parte
isto possa ser verdade, alguns dos traços
sobremaneira humanos atribuídos a estes seres
me fazem duvidar de que represente toda a
verdade.
Por exemplo: é costumeiro relatar casos de
humanóides vestidos. Se não é mera ilusão ou um
espetáculo projetado por um agente
desconhecido, como, então, devemos entender
isto? É comum as roupas dos humanóides
incluírem detalhes familiares, tais como faixas ou
insígnias. Isto parece sugerir a existência, por trás
da roupa, de uma mente semelhante à nossa.
Consideremos a mente de um humano de um país
estrangeiro. Talvez este indivíduo tenha padrões
de pensamento difíceis de serem entendidos por
nós, mas, mesmo assim, sua mente será
semelhante à nossa de muitas formas
importantes. Possivelmente, isto também se aplica
ao caso dos alienígenas ufológicos.
Os humanóides também têm formas corpóreas
similares às humanas, com cabeças, braços e
pernas parecidos aos dos seres humanos. Para
entender o que quero dizer ao me referir a um
braço como sendo semelhante ao humano,
considere o quanto ele poderia se desviar deste
padrão. Algo que funcione como um braço poderia
ter duas articulações intermediárias em vez de
uma articulação no cotovelo. Poderia ser flexível
como um tentáculo. Poderia terminar com
torqueses em vez de mãos, ou terminar com um
dispositivo de sucção agregado a uma boca
denteada, como aquela de um ouriço do mar. As
possibilidades são ilimitadas. Todavia, segundo os
relatos, a maioria das entidades ufológicas (mas
não todas!) tem braços que só diferem do padrão
humano pelo número de dedos.
Por quê? Acaso elas são apenas toscas simulações
ou são fundamentalmente semelhantes aos
humanos? A última alternativa é com certeza uma
hipótese possível. Esta hipótese tem a virtude da
simplicidade, além de conter uma afirmação forte
e específica. Mas ela também sustenta a
existência do tipo de ser que, segundo Simpson,
não evoluiria em parte alguma do universo
acessível.
Deixe-me sumariar minhas observações nesta
seção e na precedente. A hipótese de folclore-mais-psicologia pode explicar por que as entidades
ufológicas pareceriam semelhantes à humanos de
tantas maneiras (é natural imaginarmos
humanos), porém, não logra explicar as estranhas,
mas tão repetitivas, características destas
entidades. A hipótese de evolução extraterrestre
pode explicar estas características estranhas como
sendo os traços físicos e tecnológicos de uma raça
(ou raças) alienígena(s). Contudo, esta teoria não
é compatível com os muitos aspectos
parecidíssimos aos humanos das entidades
relatadas.
Resta-nos, nesta altura, a explicação segundo a
qual os humanóides seriam seres semelhantes a
nós, mas com uma origem não-evolucionária. Ou
seriam ilusões ou manifestações externas de algo
incompreensível. Porém, estamos apenas
começando nossas conjecturas. Há outros pontos a
serem considerados que poderão elucidar a
natureza dos humanóides. A última hipótese a este
respeito depende dos pontos que apresentarei aos
poucos no decorrer deste livro.
Sedução e genética
Tendo dito isto, volto-me agora para um dos
aspectos mais perturbadores do fenômeno do
rapto por óvnis. Caso após caso, surgem relatos de
interações sexuais entre os humanos raptados e
as entidades ufológicas. Estas interações parecem
enquadrar-se em duas categorias: (1)
experimentos com a reprodução humana
envolvendo manipulações médicas, e (2) relações
sexuais diretas entre os raptados e os seus
captores. Começarei com uma breve revisão de
quanto foi escrito sobre estes fatos, para depois
fazer algumas observações.
O primeiro exemplo conhecido da categoria (2) é a
história de rapto do fazendeiro brasileiro Antonio
Villas Boas. Este incidente foi investigado pelo Dr.
Olavo T. Fontes, M. D., poucas semanas após ter
ocorrido em outubro de 1957. O resumo a seguir
se baseia na versão inglesa do estudo original de
Fontes publicada por Gordon Creighton,
pesquisador ufológico britânico.
Quando ocorreram os incidentes relatados, Villas
Boas tinha 23 anos de idade e vivia com sua
família numa fazenda perto de Francisco de Sales,
em Minas Gerais. Embora fosse inteligente, ele
tinha pouca cultura e trabalhava na fazenda da
família.
Nas noites dos dias 5 e 14 de outubro, Villas Boas
observou luzes estranhas que fizeram manobras
ao redor da fazenda e, a certa altura,
desapareceram misteriosamente. O episódio
principal, contudo, ocorreu na noite do dia 15. Ele
estava sozinho no campo, arando a terra com seu
trator à uma da manhã para evitar o calor
abrasante do sol. Viu uma estrela vermelha vindo
bem rápido na sua direção e aumentando de
tamanho até se transformar num luminoso objeto
oval. O objeto se deteve cerca de cinqüenta
metros acima de seu trator e, ao iluminar a área,
deu a impressão de que era pleno dia. Fez uma
pausa de alguns minutos e por fim aterrissou
devagar. Tinha formato arredondado com
pequenas luzes purpúreas e um grande farol
dianteiro vermelho. Tinha três pernas de
sustentação e uma cintilante cúpula giratória na
parte superior.
Villas Boas tentou escapar em seu trator, mas o
motor pifou e as luzes se apagaram. Ao tentar sair
correndo, uma figurinha vestida com roupa
estranha o agarrou pelo braço. Ele se desvencilhou
do atacante, mas foi agarrado por outros três e
arrastado, ainda se debatendo, em direção à
máquina.
Após ter sido arrastado para dentro da máquina, a
porta externa se fechou, não restando vestígio
algum de seu contorno. Seus captores
conversavam emitindo sons semelhantes a latidos.
Eles o despiram, lavaram-no com alguma espécie
de líquido e o levaram para outro recinto. Outra
vez, a porta se fechou e ficou invisível. Foi usado
um aparato para tirar duas amostras do seu
sangue, após o que ele foi deixado sozinho no
recinto. Em seguida, uma fumaça nauseante,
introduzida no recinto por meio de tubos, fê-lo
vomitar.
Os homens usavam vestes cinzentas e justas,
parecidas com uniformes, além de elmos que
escondiam suas expressões faciais. Acima de seus
olhos, que pareciam ser claros, os elmos eram
duas vezes maiores do que uma cabeça normal. As
calças, também justas, formavam uma peça
inteiriça com os sapatos volumosos e de ponta
curva.
Após algum tempo, uma mulher nua, muito
atraente, entrou no recinto e o seduziu. Ela parecia
um ser humano normal sob todos os aspectos,
embora tivesse um rosto incomum, com cabelos
louros, quase brancos, grandes olhos oblíquos,
ossos malares muito salientes, lábios finos e um
queixo estreito e pontudo. Depois que a mulher
saiu, as roupas dele foram devolvidas. Após se
vestir e aguardar por algum tempo (além de tentar
sem êxito apanhar um objeto como prova de sua
experiência), ele foi levado num passeio ao redor
da parte externa da nave e depois liberado.
Nessa altura, a cúpula giratória passou a rodar
com mais rapidez e a mudar da cor esverdeada
para a vermelha; a nave se ergueu no ar para em
seguida disparar, como uma bala, rumo ao sul.
Segundo calculou Villas Boas, ele esteve na nave
durante quatro horas e quinze minutos. Ao ser
indagado, disse não ter sofrido nenhuma forma de
influência telepática durante a experiência.
Conforme mencionei na seção anterior, Villas Boas
sofreu uma série de enfermidades após este
episódio, todas elas registradas pelo Dr. Fontes.
Villas Boas, observou ainda o Dr. Fontes, tinha
duas marcas no queixo correspondentes aos
lugares de onde lhe haviam extraído as amostras
de sangue. Pela avaliação de Fontes, Villas Boas
parecia psicologicamente normal, com bom grau
de inteligência e sem tendência ao misticismo.
Tendo considerado a história obviamente
inverídica, Fontes concluiu que Villas Boas devia
ser um mentiroso de imaginação fértil, hábil em se
lembrar de uma história imaginária nos seus
mínimos detalhes e recontá-la sem se contradizer.
Fontes manteve a história em sigilo até enviá-la a
Gordon Creighton em abril de 1966. A história,
baseada em entrevista concedida por Villas Boas
ao Dr. Walter Buhler do Rio de Janeiro, em 1962, já
havia sido publicada em inglês pela Flying Saucer
Review (Discos voadores em revista) em janeiro de
1965.
Nesta história, há muitos detalhes que vêm à tona
repetidas vezes em casos de contato imediato com
óvnis. Entre eles temos: (1) luzes de fonte
desconhecida que dão voltas para em seguida
desaparecer de forma abrupta; (2) brilhantes
feixes de luz projetados por um óvni cintilante; (3)
o enguiço do motor do trator; (4) portas que se
tornam invisíveis depois de fechadas; (5)
uniformes justos formando peças inteiriças com
elmos e sapatos; e (6) cabeças com grandes olhos
oblíquos, lábios finos e queixos pontudos. Assim,
fica parecendo que, se Villas Boas tivesse mesmo
inventado a história, ele seria não só imaginativo
como também informado no estudo de óvnis.
A história de Villas Boas é um tanto incomum em
vista do fato de não o terem paralisado ou
controlado mentalmente durante a experiência.
Contudo, tem havido casos de relatos feitos por
homens que, estando sob o efeito de alguma
forma de paralisia, foram forçados a fazer sexo
com estranhas mulheres alienígenas. Foram
experiências sobremodo constrangedoras e
revoltantes para os homens a elas submetidos à
força, e as mulheres envolvidas pareciam
cruzamentos entre humanos e os seres gray. Três
casos deste tipo são descritos em minúcia no livro
Intrusos, de Budd Hopkins, publicado nos Estados
Unidos em 1987. É curioso o fato de o ser descrito
por Villas Boas nos idos de 1957 também parecer
compartilhar características humanas e gray.
Budd Hopkins também é famoso por sua análise
de casos de mulheres que de alguma forma são
engravidadas e cujo embrião é então removido por
entidades ufológicas. Estes casos às vezes
envolvem cenas de "apresentação", onde mostram
à mulher uma criança meio-humana, meio-alienígena, que parece ser sua prole. Um exemplo
disto seria o caso de "Kathie Davis", relatado por
Hopkins.
Estas histórias, segundo argumentam, teriam sido
criadas por Hopkins nas mentes de seus pacientes
através do processo de hipnose. Por exemplo: Ann
Strieber, esposa do raptado Whitley Strieber,
afirma que cerca de 2.500 pessoas escreveram
cartas em resposta a Comunhão, o livro de
Strieber, descrevendo suas próprias experiências
com óvnis. A respeito destas cartas, ela diz:
Não temos literalmente carta alguma que
mencione a cena de remoção de feto descrita por
Budd Hopkins, exceto cartas de pessoas
influenciadas pelo livro dele (Intrusos) ou, na
maioria dos casos, hipnotizadas por ele. Apesar de
serem pouquíssimas cartas, me impressionou o
fato de as pessoas hipnotizadas por ele — poucas
das quais nos escreveram — terem relatado
exatamente a mesma coisa. É como se fossem
convertidos religiosos.
Curiosamente, o próprio Whitley Strieber aceitou a
cena de remoção de feto e disse ao jornalista Ed
Conroy: "Afinal, os visitantes somos nós mesmos,
e não me surpreenderia se alguns dos seres meio-visitantes, meio-humanos que eu vi fossem nossos
descendentes — eles são os fetos removidos após
o cruzamento entre neonatos puros e seres
humanos maduros." A experiência de rapto de
Strieber, conforme ele relata em Comunhão,
também envolveu estranhas interações sexuais
com os seus "visitantes".
Sem dúvida, devemos ter muita cautela quanto a
aceitar depoimentos obtidos por meio da hipnose
(veja páginas 176-81). Devemos reconhecer,
contudo, que a cena de remoção de feto foi
descrita por outros investigadores além de
Hopkins. David Jacobs, professor adjunto de
história da Universidade de Temple, escreveu um
livro apresentando diversos casos de rapto com
cenas de remoção de feto. Uma cena idêntica
consta no depoimento dado sob hipnose por Betty
Andreasson e relatado em Watchers
(Observadores), livro de Raymond Fowler. Da
mesma forma, Jenny Randles, da Inglaterra, fala
de uma "jovem atormentada por lembranças
repetidas e conscientes, pelo menos em parte, de
estar sendo levada para um recinto por pequenos
seres que, então, a engravidam. Depois, o feto é
removido". Neste caso, a hipnose não foi
empregada.
Randles cita cerca de sete outros casos com fortes
características sexuais ou ginecológicas. Em um
deles, lembrado sem o uso da hipnose pela "Sra.
Verona", estuprada num contato com óvni na
Inglaterra, em 1973. Neste caso, as "entidades",
apesar de parecerem humanas, estavam a bordo
de uma nave abobadada e discóide, e usaram uma
"espécie de robô de resgate" metálico para
capturar sua vítima.
Em outro caso de 1965, seres de olhos grandes,
cabelos louros e dois metros de altura, informaram
a testemunhas venezuelanas que estavam
"estudando a possibilidade de cruzar com vocês
para criar uma nova espécie".
Num caso de 1978, um brasileiro descreveu, sob
hipnose, um episódio de sedução muito
semelhante ao de Villas Boas. Em outro caso
brasileiro, este de 1979, a famosa pianista Luli
Oswald alega ter sido submetida a um exame
ginecológico completo por seres gray, os quais
disseram ter vindo de "uma pequena galáxia perto
de Netuno". E num caso investigado pelo Dr. Hans
Holzer, no estado de Nova York, em 1968,
pequenas entidades calvas, usando uma agulha
comprida para tirar amostras de óvulo de uma
mulher, disseram-lhe que a haviam escolhido para
lhes dar um bebê.
De fato, muitos raptos por óvnis parecem ter um
forte componente sexual. Esta é uma
característica compatível com a hipótese segundo
a qual as experiências de rapto seriam expressões
da psicologia humana. Contudo, perdura a dúvida
quanto ao motivo de as pessoas expressarem suas
fantasias sexuais escolhendo histórias de óvnis
repletas de detalhes estranhos, mas repetitivos.
Os exames médicos feitos durante raptos por
óvnis mais parecem estudos científicos de
humanos realizados por visitantes de outro
planeta. De fato, é comum as entidades ufológicas
dizerem isto aos raptados. William Hermann, da
Carolina do Sul, por exemplo, relatou ter sido
raptado em 1978 por humanóides que lhe
disseram ter vindo da constelação Reticulum e
estarem raptando humanos para fins de pesquisa.
Porém, as entidades ufológicas tendem a
transmitir mensagens não-confiáveis ou auto-contraditórias, conforme podemos constatar pela
história dos seres oriundos de uma "pequena
galáxia perto de Netuno".
Segundo argumenta Jacques Vallee, os exames
físicos feitos nos óvnis não precisam ser
necessariamente de natureza científica, visto ser
possível examinar o corpo humano e lhe extrair
amostras de tecido sem se recorrer aos métodos
traumáticos experimentados pelos raptados. Isto
pode ser feito por médicos humanos; logo, seria
muito fácil para ufonautas detentores de alta
tecnologia. Como também sugere o componente
sexual dos raptos por óvnis, estes envolvem algo
mais do que pesquisas científicas objetivas. Assim
como se poderiam realizar experimentos genéticos
usando espermas e óvulos colhidos sem o
indivíduo saber, da mesma forma não é necessária
a atividade sexual direta com os raptados.
Se os humanóides ufológicos são seres
verdadeiros que evoluíram em outro planeta, o
raciocínio de Dobhzhansky e Simpson indica ser
bastante improvável que haja compatibilidade
genética entre eles e os humanos ou quaisquer
outras formas de vida na Terra. Um motivo para
isto seriam as múltiplas possibilidades de se
acionar a tabela de código genético da Terra.
Logo, na eventualidade de surgir vida de forma
independente em algum outro lugar, seria
bastante improvável que se acionasse a mesma
tabela de código. Mesmo que os seres tivessem
aparência externa semelhante à nossa, com
certeza sua constituição molecular seria
inteiramente diferente.
Estes ufonautas detentores de alta tecnologia,
seria possível argumentar, teriam como superar
estas dificuldades com facilidade e produzir corpos
geneticamente compatíveis com os humanos. Mas,
neste caso, por que produzir formas semi-humanas e tentar fazê-las acasalar-se com
humanos? Por que não criar corpos humanos
perfeitos usando métodos de alta tecnologia?
Pode-se alegar serem incompreensíveis os motivos
das entidades. Embora isto talvez seja verdade,
sugiro podermos sempre usar, como último
recurso, a hipótese dos agentes desconhecidos
com motivos incompreensíveis. Melhor ainda seria
primeiro adotarmos a estratégia da busca da
compreensibilidade para depois vermos até onde
conseguimos chegar.
Por uma hipótese compreensível, os humanóides
seriam seres verdadeiros dotados de psicologia
sexual semelhante à nossa. Segundo esta
hipótese, a manipulação sexual de humanos por
parte desses seres se deve, pelo menos em parte,
aos seus próprios motivos sexuais. Esta hipótese,
além de aceitável em termos genéricos, leva em
conta as diversas interpretações dos
controvertidos casos de mulheres raptadas cuja
própria progênie meio-alienígena lhes teria sido
mostrada. Ou isto foi uma ilusão criada na esfera
mental pelas entidades, por exemplo, ou aquelas
mulheres tiveram de fato semelhante progênie.
Esta hipótese sugere que os humanóides não
evoluíram independentemente dos humanos à
maneira darwiniana. Isto fica decerto implícito
caso eles compartilhem com os humanos de
proximidade genética suficiente para suas
tentativas de cruzamento valerem a pena. A
mesma hipótese fica indicada caso os humanóides
careçam de compatibilidade genética com os
humanos, mas tenham, não obstante, uma
psicologia sexual reconhecível.
O termo-chave aqui é psicologia. Seria provável
que, num planeta hipotético de capacidade
tecnológica evoluída, também evoluísse uma
reconhecível psicologia semelhante à humana?
Suspeito que Dobhzhansky diria que não. A
evolução independente dos humanos e dos
humanóides é improvável, e a co-evolução de
ambas as formas na Terra é descartada no cenário
evolucionista atual. Se os humanóides são seres
verdadeiros, fica parecendo, então, que há algo de
não-darwiniano na origem deles ou mesmo na
nossa.
O elemento medo
Uma característica comum em relatos sobre raptos
por óvnis é o medo intenso. Este medo é típico do
desamparo experimentado por um raptado quando
os operadores do óvni o colocam em estado de
paralisia temporária. Uma surpreendente
ilustração deste fato foi vivenciada por "David
Oldham", dezesseis anos, conforme relato de Budd
Hopkins. Em setembro de 1966, David e seus
amigos adolescentes andavam de carro à procura
de algo para fazer. A certa altura, eles pararam o
carro numa estrada secundária e avistaram uma
grande luz alaranjada pairando sobre árvores
próximas dali. David se lembra de ter desejado
conversar com os outros rapazes sobre a luz, e ter
sentido sua mente bloqueada de alguma forma.
Conforme sua próxima lembrança consciente, ele
e os amigos se dirigiram a uma boate e nela
entraram.
Hipnotizado, David lembrou que, ao ver a luz, saiu
do carro e se pôs a andar em direção a ela. Então,
sentindo-se paralisado, deparou com seres que o
levaram para dentro do óvni. Ele reagiu a esta
situação com extremo terror:
QUE É ISTO? QUE... QUE É ISTO? (Respiração muito
ofegante) Que é isto? Por que... por que... ficando
dormente... todo ... dormente. (...) Oh! Oh! Não
consigo me mexer... não consigo me mexer. Oh!
Oh! Que está acontecendo? Não consigo me
mexer. Oh! Que... que vocês... querem?
O medo e outras reações emocionais se misturam
às vezes de maneiras muito complexas em casos
de rapto. O temor avassalador, por exemplo, é um
dos principais temas dos livros Comunhão e
Transformation (Transformação), nos quais o
popular autor Whitley Strieber descreve seus
contatos com seres humanóides que ele chama de
"visitantes". Embora transparecesse certo temor,
Strieber também enfatizou a idéia de desenvolver
um relacionamento positivo com esses seres. Uma
atitude semelhante parece ter sido expressa por
muitas pessoas que escreveram para ele acerca
de suas experiências com entidades ufológicas.
Sua esposa Anne diz: "Recebemos um monte de
cartas de pessoas dizendo: 'Eles [os alienígenas]
pareciam familiares'; ou: 'Sempre senti que não
pertencia à Terra; quando criança, eu olhava para
o céu e dizia a minha mãe que viera para cá numa
nave espacial.'"
Budd Hopkins, cuja opinião acerca das entidades
alienígenas costuma ser negativa, tece alguns
comentários sobre os possíveis motivos para
Strieber ter uma visão positiva de seus visitantes:
Strieber ligou para mim certa vez, revelando-me
que os alienígenas haviam lhe dito para mudar o
título de seu livro de Body Terror (Terror corporal)
para Comunhão, de um título sugerindo que eles
eram assustadores para outro sugerindo que eles
eram bem mais simpáticos. Depois de um mês, ele
voltou a me ligar, bastante irritado, dizendo ser
importantíssimo eu mudar o título de meu livro de
Intrusos para algo mais agradável — ou, então, eu
acabaria me encrencando. Ele dizia aquilo para se
referir ao fato de "eles" não estarem gostando do
título, e não ao fato de o título representar algum
inconveniente do ponto de vista editorial.
Em muitos casos, pessoas que experimentam
raptos por óvnis tendem a considerar seus
captores indiferentes e carentes de compaixão,
além de costumarem dizer que sentiram ter sido
tratadas como cobaias. Em vista de nossa própria
e notória crueldade para com humanos e animais
indefesos, certas pessoas têm apreendido uma
justiça irônica nesta espécie de depoimentos. E, o
que é mais interessante, as próprias entidades
ufológicas, segundo relatos freqüentes de
humanos que dizem ter estado com elas, tecem
comentários sarcásticos sobre os motivos e
comportamento humanos.
Contudo, nem todas as testemunhas de rapto
descrevem suas experiências em termos negativos
ou temerosos. Em certos casos, as pessoas
relatam terem se encontrado com entidades
ufológicas, a princípio, durante uma aterradora
cena de rapto, para acabarem, então,
desenvolvendo um relacionamento amistoso no
transcurso de encontros subseqüentes. Dois
exemplos disto são as histórias de William
Herrmann e Filiberto Cardenas. Estes relatos
representam um cruzamento entre raptos por
óvnis e os chamados casos de contato, em que
uma pessoa alega ter estabelecido uma voluntária
relação amistosa com seres alienígenas. As
histórias de Herrmann e Cardenas serão
analisadas junto do fenômeno contato, no Capítulo
5.
Outro exemplo de reação positiva a um rapto por
óvni foi o apresentado por John Salter. Professor de
sociologia da Universidade de Dakota do Norte e
um ativista em prol da justiça social, Salter esteve
bastante envolvido com o movimento de direitos
civis no Mississippi, na década de 1960. Segundo
conta ele, em 20 de março de 1988, viajava com
seu filho John III de Dakota do Norte para o
Mississippi, onde iria apresentar um trabalho sobre
direitos civis. Àquela época, ele não tinha o menor
interesse em óvnis e não lera pra¬ticamente nada
sobre o assunto.
Por algum motivo, salientou, ele escolhera um
percurso através de Wisconsin, cheio de pequenas
estradas de terra, que acabou o afastando
bastante de seu destino. À uma certa altura ao
longo do caminho, tanto ele quanto seu filho
experimentaram amnésia por um tempo
considerável da viagem, estendendo-se desde o
final da tarde até por volta das 19h45, com um
pequeno lapso de recuperação da memória por
volta das 18h30. Após recuperarem a memória,
dirigiram por mais algum tempo, pernoitaram, e
então prosseguiram viagem pela manhã. Por volta
das 10h14, avistaram uma prateada e
tremeluzente forma parecida com um pires que se
precipitou por sobre eles e desapareceu em alta
velocidade. Tanto o pai quanto o filho sentiram
que aquilo tinha algo a ver com suas experiências
do dia anterior.
Em fins de junho de 1988, o Salter pai passou a ter
lembranças espontâneas do que havia acontecido
durante seu período de amnésia. Segundo
observou ele, seu filho passou a ter lembranças
semelhantes a partir de novembro de 1988. Salter
disse ter deliberadamente esperado as memórias
do contato de seu filho virem à tona para lhe
contar o conteúdo de suas próprias lembranças.
Lembrou-se de ter se embrenhado por uma
estrada estreita e acidentada que dava numa área
de floresta. Ao estacionar, duas ou três pequenas
figuras humanóides e outra figura mais alta vieram
ao encontro dele e de seu filho. As figuras
menores tinham de 1m a 1m20 de altura, com
cabeças grandes e olhos oblíquos notavelmente
grandes. A figura mais alta parecia "mais
humana". Estes seres os levaram até um óvni
estacionado, onde lhes fizeram exames médicos.
O Salter pai disse que eles inseriram algum tipo de
sonda pela sua narina direita e também lhe
aplicaram diversas injeções. Depois, ele e o filho
foram devolvidos ao seu veículo.
Apesar de este ser um típico relato de rapto por
óvni, Salter e seu filho compartilharam a forte
sensação de terem tido um contato positivo e
benéfico. Salter também percebeu uma nítida
melhora de saúde física após o contato, tendo
atribuído isto aos tratamentos administrados pelos
humanóides. O fato de esta reação não se limitar
apenas a Salter é indicado por uma carta que lhe
foi escrita pelo folclorista Thomas Bullard:
Em meus estudos iniciais, pareceu-me prevalecer
um padrão de hostilidade, frieza e exploração que
me persuadiu quanto ao fato de estes seres não
estarem tramando nada de bom. Desde então,
tenho recebido diversas cartas de pessoas que
encararam a experiência delas da mesma forma
positiva que você. Com certeza sempre aparecem
pessoas com sensações negativas. Isto é
compreensível, até mesmo razoável se levarmos a
experiência do rapto ao pé da letra. Todavia,
quanto mais eu aprendo, mais me dou conta do
fato de a experiência ter um lado positivo menos
óbvio. Alguns raptados, além de sentirem uma
profunda e permanente afeição por seus captores,
percebem que esses sentimentos são
correspondidos.
Tempo perdido
O caso Salter demonstrou a característica comum
do tempo perdido, em que as pessoas percebem
uma misteriosa lacuna em sua memória devido às
experiências relacionadas a óvnis. O caso Buff
Ledge é um outro exemplo disto. Nestes dois
casos, constatamos que as pessoas reagiram de
forma diferente a este período de amnésia.
Michael e Janet, do caso Buff Ledge, não
conseguiram se lembrar de suas experiências no
óvni sem o auxílio da hipnose, e a lembrança de
Janet foi menos completa que a de Michael. Já os
Salter lograram se lembrar de seu encontro com
os humanóides espontaneamente, mas o Salter pai
recuperou sua memória do acontecido diversos
meses antes de seu filho. Isto sugere que a perda
de memória induzida pelos óvnis pode, como
outras formas de amnésia, dever-se em parte a
mecanismos psicológicos individuais.
Também há a possibilidade de as entidades
ufológicas induzirem deliberadamente a perda de
memória de modo a esconder suas operações. Em
alguns casos relatados, as entidades incutem na
testemunha ameaçadoras sugestões pós-hipnóticas do tipo "você vai morrer caso se lembre
desses eventos". Hopkins apresenta vários
exemplos, inclusive as histórias de "Steven
Kilburn", "Dr. Géis" e "Kathie Davis". Barney Hill
também se lembrou de quando seus captores lhe
disseram: "Você tem que esquecer, você vai
esquecer, pois, se não esquecer, isto só vai lhe
fazer mal."
Em outros casos, segundo é contado, as entidades
apenas dizem às testemunhas que ele ou ela não
se lembrarão de nada. Num contato ocorrido ao
norte de Los Angeles, em 1956, elas parecem
inclusive ter convencido uma das testemunhas,
uma mulher chamada Emily, de que era melhor ela
não falar nada porque ninguém ia se interessar de
fato por aquela experiência. Embora parecesse se
lembrar de tudo, Emily não falava nada e, ainda
por cima, tomava o partido das entidades
ufológicas contra as pessoas que a interrogavam.
Há casos de as testemunhas se darem conta do
tempo perdido vinculado à visão de um óvni,
apesar de não se ter conhecimento da ocorrência
de um rapto. Eis um exemplo ocorrido em
setembro de 1963 na Inglaterra. Paul, 21 anos de
idade, dirigia rumo ao povoado de Little Houghton,
às duas horas da manhã. De repente, se viu a pé e
completamente molhado nas redondezas de
Bedford às sete horas da manhã. Sua última
memória consciente foi de ter visto uma brilhante
luz branca no céu se precipitando em direção ao
pára-brisa de seu carro. Um amigo levou-o de
volta pela auto-estrada A428 em busca de seu
carro, que eles encontraram trancado no meio de
um campo encharcado pela chuva, sem pista
alguma que indicasse como ele foi parar ali. Paul
trazia as chaves do carro no bolso.
Neste caso, não se usou a hipnose. Na ausência de
maiores informações, seria possível suspeitar que
Paul sofria de epilepsia ou de alguma espécie de
estado de fuga psicológica. Contudo, a história do
carro encontrado no cam¬po, se for verdadeira,
acrescenta um elemento de mistério ao caso.
Como teria ido parar no campo sem deixar pistas?
Teria o carro sido içado e levado até ali por via
aérea?
Em outro caso britânico, este de janeiro de 1974,
Jeff e Jane, os dois com vinte anos de idade,
andavam de carro às 21h30. Tiveram a
experiência de serem seguidos por uma luz verde
no céu. À uma certa altura, a luz pareceu
desaparecer, mas, quando eles pararam e saíram
do carro, foram iluminados por feixes de luz
verdes e azuis de um escuro objeto oval acima
deles. Ambos saíram, com o carro, mas, de
repente, acharam-se em outra cidade à 1h30, sem
memória alguma de como foram parar ali. Então,
após terem dirigido por mais alguns minutos,
acharam-se em uma terceira cidade, a quarenta
quilômetros de distância da primeira, com outro
lapso de memória. Agora eram 3h30. Neste caso,
também não se usou a hipnose.
Eis um exemplo de um caso semelhante de tempo
perdido em que o rapto foi revelado após ser
usada a hipnose para sondar uma possível perda
de memória. Em 11 de junho de 1976, em
Romans, França, Helene Giuliana, empregada da
casa do prefeito de Hostun, avistou um grande
brilho alaranjado no céu enquanto voltava para
casa depois de assistir a um filme. Naquela altura,
o Renault dela enguiçou. Após a luz desaparecer
de súbito, o carro de Helene tornou a funcionar e
ela voltou para casa — com cerca de quatro horas
de tempo perdido. Hipnotizada, ela relatou ter sido
levada para um recinto por "pequenas figuras com
olhos grandes e rostos feios, presa numa mesa e
examinada, sobretudo em volta do abdome".
O papel da hipnose
Até aqui, muitos dos relatos de rapto por mim
apresentados ficaram conhecidos por meio da
hipnose. Nestes casos, seria possível sugerir que o
processo da hipnose, de alguma forma, estimula
fantasias de rapto nas mentes das testemunhas de
óvnis. Evidentemente, sobressai no caso Buff
Ledge o fato de Michael e Janet terem produzido
histórias sob hipnose que se ratificaram entre si,
muito embora os dois não tivessem oportunidade
de conversar a respeito do assunto das histórias.
Mas seria possível aventar a hipótese de os dois
hipnotizadores terem extraído histórias
semelhantes das duas testemunhas ao lhes
fazerem perguntas capciosas.
Esta idéia foi explorada por Alvin Lawson,
professor de inglês da Universidade Estadual da
Califórnia, em Long Beach, num ensaio intitulado:
"Que podemos aprender com a hipnose de raptos
imaginários?" Lawson hipnotizou oito pessoas e
lhes fez perguntas do tipo: "Imagine estar vendo
algumas entidades ou seres a bordo de um óvni.
Descreva-os"; e então: "Você está se submetendo
a certo tipo de exame físico. Descreva o que está
lhe acontecendo." Embora não parecessem ter
conhecimento algum acerca de óvnis, as oito
pessoas produziram histórias de rapto em resposta
a tais perguntas. Para explicar isto, mais tarde,
Lawson publicou a teoria de que cenas de rapto
envolvendo seres com cabeças grandes e corpos
esguios se baseiam em memórias do trauma do
nascimento e de nosso formato corpóreo enquanto
fetos.
No entanto, o trabalho de Lawson tem sido muito
criticado. Segundo salienta Jenny Randles, as
perguntas feitas por ele eram capciosas e seu
banco de dados de oito pessoas era pequeno
demais. Além disso, nas histórias de rapto
imaginário de suas oito cobaias, havia seis tipos de
entidades alienígenas, incluindo quatro tipos que
quase nunca aparecem em relatos de rapto. E
além de tudo sua teoria da memória fetal é
infundada, já que as pessoas jamais vêem a si
mesmas ou a outros fetos à hora do nascimento.
Apesar de o estudo de Lawson ter sido invalidado,
há, mesmo assim, motivos para se suspeitar que a
hipnose possa induzir alguém a gerar ou
seriamente distorcer depoimentos de rapto por
óvni. Em geral, a hipnose é reconhecida como um
veículo para recuperar memórias perdidas, mas
também é notório o fato de as pessoas
hipnotizadas às vezes criarem fantasias — um
processo conhecido como "confabulação". Uma
análise interessante deste processo, com
referências à literatura da hipnose, foi apresentada
por Ann Druffel e D. Scott Rogo a respeito de
certos depoimentos de rapto que pareciam ser
misturas de confabulação e recordação autêntica.
Não é verdade que toda hipnose realizada por
investigadores ufológicos faça surgir relatos de
rapto por óvnis. Conforme observa Randles, em
certos casos britânicos, para os quais se usou a
hipnose com o intuito de desvendar um rapto por
óvni, nenhum cenário de rapto foi revelado.
Segundo salienta ainda a mesma Randles, Budd
Hopkins tem casos nos Estados Unidos em que
ocorreu a mesma coisa. De fato, num estudo de 79
casos mencionado por Hopkins, os dados
disponíveis são: em vinte deles um rapto foi
lembrado com o auxílio da hipnose, em onze se
usou a hipnose, mas nenhum rapto foi lembrado, e
em cinco casos um rapto foi lembrado sem o
auxílio da hipnose. Os 43 casos restantes não
haviam sido avaliados por completo à época do
relatório.
Randles também cita um estudo do Dr. Thomas
Bullard de mais de duzentos casos de rapto dos
quais um terço tinha integralmente a memória
consciente da experiência. Segundo demonstrou
uma análise destes casos, as experiências de
rapto lembradas sob hipnose foram
essencialmente iguais àquelas lembradas sem
hipnose. A diferença mais notável entre os dois
grupos de casos foi que os exames médicos foram
mencionados com duas vezes mais freqüência em
casos envolvendo o auxílio da hipnose do que em
casos de lembrança direta. Isto seria de se
esperar, é claro, visto serem os exames médicos
mais passíveis de serem bloqueados por uma
amnésia do que outros aspectos menos
traumáticos das experiências de rapto.
As descobertas mencionadas por Randles se
equiparam àquelas de David Webb num estudo de
trezentos relatos de rapto do HUMCAT, um banco
de dados de contatos com óvnis envolvendo
humanóides. Destes trezentos relatos, Webb
descobriu que 140 satisfaziam os cinco seguintes
critérios de confiabilidade: (1) clara indicação de
rapto, (2) caso razoavelmente bem investigado,
(3) nenhuma evidência de embuste ou de
psicopatia por parte da testemunha, (4) dados
suficientes para avaliar o cenário geral e o grau da
hipnose utilizada, e (5) caso não envolvendo óvnis
avariados.
Webb dividiu estes casos em três categorias:
aquelas em que a informação a respeito do rapto
abordo do óvni foi obtida (I), sobretudo com, (II)
em parte com e (III) inteiramente sem o uso da
hipnose. A última categoria foi dividida em duas
subcategorias: (IIIa) em que se usou a hipnose,
mas esta nada acrescentou e (IIIb) em que não se
usou a hipnose. À época deste relatório, ele havia
revisto 117 dos 140 casos e obtido os seguintes
resultados:
Categoria Número de relatos %
I 61 52
II 11 9
IIIa 8 7
IIIb 37 32
Resulta daí que, em 39% dos casos, nenhuma
informação de rapto a bordo dos óvnis foi obtida
usando a hipnose. Conforme salientou Webb, eram
extraordinárias as semelhanças entre os
conteúdos dos relatos das categorias I e II.
O caso de Betty e Barney Hill se enquadra na
categoria II de Webb. Antes de se submeter à
hipnose, Barney Hill se lembrou de ter visto, com o
auxílio de um binóculo, um homem com olhos
estranhos dentro de um óvni que pairava no ar.
Alegou, também, que aquele homem parecia estar
assumindo o controle da mente dele. Da mesma
forma, Betty Hill sonhou com certos detalhes de
sua experiência de rapto antes das sessões de
hipnose.
A história revelada por esses sonhos era muito
semelhante àquela desvendada mais tarde sob
hipnose. O psiquiatra dos Hill, Dr. Benjamin Simon,
não acreditava de forma alguma em óvnis e, de
acordo com seu argumento veemente, a
experiência do rapto teve origem nos sonhos de
Betty Hill e foi mais tarde incorporada na mente de
Barney mediante a comunicação deste com a
esposa. Barney, porém, não estava ciente dos
sonhos da esposa. Segundo escreve Raymond
Fowler, ele esteve com os Hill antes de suas
sessões de hipnose com o Dr. Simon e ouviu Betty
recontar seus sonhos. Disse ele: "Ambos
expressaram o temor de terem sido levados a
bordo de uma nave alienígena para um exame
físico."
Entretanto, a comunicação entre marido e mulher
não explica o motivo para Betty Hill ter a princípio
sonhado com o cenário padrão do rapto,
acompanhado do exame médico. Este cenário era
praticamente desconhecido nos Estados Unidos
àquela época, mas havia muitos cenários usuais
em ficção científica que poderiam ter fornecido a
base para um aterrorizante sonho com
alienígenas.
Outra peculiaridade vinculada à hipnose enquanto
ferramenta recuperadora de memórias perdidas é
que, em certos casos, a informação obtida sob
hipnose é corroborada de modo independente. Um
exemplo disto seria a história de "Steven Kilburn"
apresentada por Budd Hopkins. Sob hipnose,
Steven (cujo nome verdadeiro é Michael Bershad)
revelou um típico cená¬rio de rapto, incluindo um
exame físico, realizado pelas entidades gray
usuais, no qual pareceu constar um exame
neurológico.
Steven descreveu este exame para um
neurocirurgião chamado Paul Cooper. Eis a reação
do Dr. Cooper, conforme relato de Hopkins:
Steven é um rapaz extraordinário. Além de ser
sobremaneira brilhante e acreditável, é um
excelente observador. (...) Tudo que me contou
sobre o que fizeram com ele e como seu corpo
reagiu correspondia exatamente ao que deveria
ter acontecido se estimulassem os diferentes
nervos que, segundo ele, foram tocados pelos
seres. Eu até tentei desorientá-lo. (...) E ele não
tem conhecimento específico sobre o sistema
nervoso. Ele teria que saber muito para inventar
tudo aquilo, e estou certo de que não é do tipo que
mente. É um rapaz decente que me impressionou
de fato.
Subentende-se disto que, sob hipnose, vieram à
tona informações anatômicas especializadas
jamais estudadas por Steven em nível consciente.
Supondo que ele não estava mentindo acerca de
sua falta de informação médica, seria possível
aventar a hipótese de ele ter certa vez lido um
livro didático de neuroanatomia, lembrando-se
dele apenas de forma subconsciente e
incorporando o seu conteúdo em sua história de
rapto. E sabido que este tipo de coisa ocorre de
fato — chama-se criptomnésia. Existem casos, por
exemplo, onde uma "vida pregressa" lembrada sob
hipnose é atribuída a um livro lido e depois
esquecido pelo paciente.
Mesmo sendo uma possível explicação para o
depoimento de Steven sobre seu exame
neurológico, a criptomnésia parece ser uma
explicação improvável. Uma coisa é se lembrar de
informações extraídas de um texto médico, e outra
bastante diversa é converter esse conhecimento
numa descrição precisa de como se comportaria o
corpo durante um exame. Isso poderia muito bem
exigir uma espécie de treinamento médico em
nível prático que não seria esquecido tão
facilmente. Logo, se o depoimento do Dr. Cooper é
mesmo autêntico, parece por certo acrescentar
valor à história de rapto de Steven.
Em resumo, esses dados subentendem que as
experiências de rapto típicas são por vezes
lembradas com ou sem hipnose. Como as
experiências lembradas com o auxílio da hipnose
tendem a ser praticamente iguais àquelas
lembradas sem ela, o processo de hipnose em si
não parece ser uma causa maior de relatos de
rapto. Se os raptos lembrados sem a hipnose
fossem reais, também o seriam os raptos
lembrados com hipnose.
Devo salientar, no entanto, que, sob hipnose,
podem vir à tona histórias muito duvidosas. A
psicóloga Edith Fiore, por exemplo, reconta a
história de um homem chamado "Dan", em quem
ela aplicou uma regressão hipnótica na esperança
de recuperar memórias de possíveis contatos
imediatos. Dan prosseguiu descrevendo uma vida
anterior como um cruel soldado numa espaçonave
interestelar. Sua função era dar "descidas" em
planetas designados e eliminar cidades-alvo com
"feixes luminosos de força" sem fazer perguntas. O
soldado e seus compatriotas eram de todo
humanos e levavam uma vida que faz lembrar
Jornada nas estrelas. O soldado teria sido
"aposentado" ao ser transferido mentalmente para
o corpo de uma criança do estado de Washington,
desalojando a mente original desta criança, que
cresceu, então, como Dan.
Neste caso, parece duvidoso que a história tenha
sido produzida em decorrência de perguntas
capciosas, pois a hipnotizadora não fazia a menor
idéia de que uma história dessas viria à tona.
Porém, em contraste com os relatos sobre raptos
por óvnis, a história de Dan parece muito
semelhante àquelas de ficção científica, além de
ter o próprio Dan figurando no papel ególatra de
um soldado durão e autoconfiante. Como Dan
havia lido bastante ficção científica, é bem
possível que tivesse transformado esses temas
numa fantasia subconsciente. A hipnose, ao que
parece, é uma ferramenta imperfeita e mal
entendida que, mesmo produzindo resultados
úteis, não pode gozar de nossa plena confiança.
Já que é assim, mostrarei o exemplo resumido de
um famoso caso de rapto em que duas
testemunhas oculares depuseram sobre a
experiência delas sem hipnose umas poucas horas
após o ocorrido. A informação a seguir é extraída
do relato de William Mendez, que investigou este
caso detidamente.
Durante a noite de 11 de outubro de 1973, Charles
Hickson, 42 anos, e Calvin Parker, 19, pescavam
na beira de um cais no rio Pascagoula, no
Mississippi. Segundo relataram, repentinamente
surgiu um óvni de forma oval que emanava uma
luz azul pulsante e produzia um "zunido".
Apareceu uma abertura no objeto, de onde três
estranhas figuras flutuaram para fora, agarraram
os homens e flutuaram de volta com eles através
da mesma abertura. Lá dentro, Hickson relatou ter
experimentado luzes brilhantes e ser examinado
por uma espécie de "olho" que saía da parede.
Após o que pareceu durar pouco tempo, os dois
homens foram devolvidos ao local onde haviam
sido pegos, e o óvni pareceu desaparecer de
repente. Eles ligaram para a Força Aérea e foram
encaminhados ao departamento de polícia local.
No escritório do xerife, eles foram interrogados,
tendo depois sido deixados a sós num recinto
interceptado por um gravador secreto. Eis uma
transcrição de algumas das observações feitas por
eles após serem deixados a sós.
Charles: Calvin, cê tá legal?
Calvin-. Qué sabê, tô morrendo de medo.
Charles: A gente tem de sair e contar pra Blanche,
ela... tô te dizendo, é uma coisa que te faz morrer
de medo, sabe? Meu Deus!
Calvin: Quem ouve um negócio desse não
acredita.
Charles: É mesmo, quem ouve... eu sei, Calvin, eu
sei, mas... Calvin: Na certa é negócio que os
Estados Unidos botou lá em cima!
Charles: Não, não, não pode ser.
Calvin: Sei não.
Charles: Mas não o que vimos, não o que vimos —
é diferente — e a Força Aérea sabe disso também
— e essa não vai ser a única vez, vai acontecer de
novo. E até eles...
Calvin: Essa noite eu queria ter um ataque do
coração, sem sacanagem.
Charles: Tô sabendo.
Calvin: Quase morri.
Charles: Tô sabendo, filho, também tô morrendo
de medo. Calvin: Tô quase chorando — não
consigo.
Charles: Tô sabendo — é uma coisa que não dá
pra esquecer. Meu Deus!
Calvin: Que esse negócio tem demais — ninguém
vai acreditar mesmo!
Charles: Eu pensava que já tinha ido pro inferno
nesta Terra, inda por cima tenho que passar por
um troço desse. Mas eles podiam ter feito
qualquer coisa com a gente — eles não me
machucaram.
Calvin: Por que será que nos pegaram?
Charles: Sei lá, sei lá. Só sei que não tô
entendendo nada.
Um pouco mais adiante na conversa, os dois
homens se referiram de modo mais explícito ao
que haviam visto:
Calvin: Porque eu vi eles. Não consigo entender
aquele troço... você viu aquela porta abrir de
repente na nossa frente?
Charles: É, só não sei como abriu, filho. Eu não.
Calvin: Não vi vaivém de porta nem...
Charles: Não sei como abriu... não sei.
Calvin: Eu não vi ela abrir. Tudo que vi foi aquele
zunido. Charles: Você já tinha visto um troço
desse?
Calvin: Depois olhei em volta... aquelas malditas
luzes azuis e aqueles filhos da mãe de repente
apareceram.
Charles: Eu sei, não dá pra acreditar e não dá pra
fazer as pessoas acreditarem.
Segundo consta, o xerife, após ouvir a fita desta
conversa, ficou convencido de que os dois homens
estavam contando uma história honesta. Mas
poderiam eles estar agindo ou sofrendo de alguma
espécie de delírio? Mendez relatou ter estudado
com minúcia o caráter dos dois homens através de
entrevistas pessoais e entrevistas com amigos,
familiares e patrões. Pelo que ele descobriu,
parecia muito improvável que os dois estivessem
encenando um embuste.
Testes psicológicos administrados pelo Dr. Bernard
Bast no Hospital Harper de Detroit, em 1976, não
indicaram sinal algum de comportamento
psicótico, histeria ou distúrbio mental, nem em
Hickson nem em Parker àquela época. Bast
também disse ser improvável que eles estivessem
sofrendo de Folie a deux. Trata-se de um distúrbio
através do qual a influência de uma pessoa
psicótica predominante sobre um companheiro
submisso resulta em experiências de delírio
compartilhadas por ambos.
Avaliação psicológica dos raptados
Evidentemente, é natural supor que as estranhas
histórias de pessoas raptadas por óvnis se devam
a alguma espécie de aberração mental. A fim de
pôr esta hipótese à prova, foram feitos diversos
estudos psicológicos com os raptados, alguns dos
quais analisarei nesta seção.
Um destes estudos foi realizado em 1981 por dois
pesquisadores ufológicos, Ted Bloecher e Budd
Hopkins, e uma psicóloga, a Dra. Aphrodite
Clamar. Eles selecionaram cinco homens e quatro
mulheres que haviam relatado experiências de
rapto por óvni envolvendo tempo perdido,
contatos com alienígenas, exames físicos a bordo
das naves e assim por diante. Solicitaram a uma
psicóloga, a Dra. Elizabeth Slater, uma avaliação
comparativa das forças e fraquezas psicológicas
daquelas pessoas. Além de não terem dito a esta
psicóloga que as nove pessoas tinham algo a ver
com óvnis, orientaram as mesmas para que não
lhe revelassem nada.
Os pacientes eram uma professora secundária
(fotografia), um perito em eletrônica, um ator e
instrutor de tênis, uma advogada, uma publicitária,
um executivo, o diretor de um laboratório químico,
um vendedor, um técnico em eletrônica e uma
secretária. Foram-lhes administrados os testes
MMPI, o Wechsler Adult Intelligence Scale, o
Thematic Apperception Test (TAT), o teste
Rorschach e o teste de desenhos projetivos.
Os nove pacientes eram "bastante heterogêneos"
em termos de personalidade, concluiu Slater, mas
tendiam a compartilhar os seguintes traços:
1. inteligência relativamente alta com
concomitante riqueza de vida interior;
2. fraqueza relativa quanto ao sentido de
identidade, em especial identidade sexual;
3. concomitante vulnerabilidade no âmbito
interpessoal;
4. certa orientação no sentido de uma prontidão
que se manifesta... em determinada sofisticação e
vivacidade perceptuais ou em hipervigilância e
cautela interpessoais.
A Dra. Slater descobriu, também, que os nove
pacientes tendiam a ser ansiosos, por vezes até
demais. Tendiam a sofrer de baixa auto-estima e
de uma sensação de vulnerabilidade a insultos e
danos. Embora mostrassem ser desconfiados e
cautelosos, ela os descreveu como supersensíveis,
e não como paranóicos.
Após ficar sabendo das histórias de óvnis dos
pacientes, Slater ficou estupefata. Após ler o livro
Missing time (Tempo perdido), de Hopkins, e se
encontrar com Clamar, Hopkins e Ted Bloecher,
ela disse o seguinte em seu relatório final:
A primeira e mais crucial pergunta é se as
experiências relatadas por nossos pacientes
poderiam ser estritamente atribuídas a alguma
espécie de psicopatia como, por exemplo, um
distúrbio mental. A resposta é um não categórico.
Em termos gerais, se os raptos relatados fossem
produções de fantasia confabulada, baseadas no
que conhecemos sobre distúrbios psicológicos,
poderiam apenas ter-se originado de mentirosos
patológicos, esquizofrênicos paranóicos, doentes
gravemente perturbados e histeróides
extraordinariamente raros sujeitos a estados de
fuga e/ou alterações múltiplas de personalidade.
[Grifo de Slater.]
Logo, não foi possível explicar as experiências de
rapto dos pacientes psicologicamente. Contudo,
observou Slater, a ansiedade e a insegurança
deles poderiam ser atribuídas de imediato a
verdadeiros raptos por óvnis:
Decerto, uma experiência inesperada, aleatória e
literalmente do outro mundo, tal como é o rapto
por óvni, no qual o indivíduo não tem nenhum
controle sobre o desfecho, constitui um trauma de
grandes proporções. Hipoteticamente, seu impacto
psicológico poderia ser análogo àquele constatado
em vítimas de crimes ou vítimas de desastres
naturais, já que representaria um evento durante o
qual o indivíduo se vê dominado por circunstâncias
externas de uma maneira extrema. Convém
atentar para o fato de ser típico os pacientes se
lembrarem de terem sido submetidos tanto ao
controle mental quanto a uma perda ainda mais
básica do controle sobre a função motora — i.e.,
segundo relataram eles, pareceu-lhes terem sido
fisicamente transportados para os óvnis, além de
terem sido de alguma forma privados de qualquer
capacidade mental de resistência física. Eventos
assim, em que se nega ao indivíduo toda
oportunidade de exercitar formas mínimas de
domínio, só podem ser caracterizados como sendo
psicologicamente traumáticos.
Slater salientou ser possível, portanto, estabelecer
uma analogia entre pessoas raptadas por óvnis e
vítimas de estupro. Conforme concluiu ela, apesar
de não provar a realidade dos raptos por óvnis, o
estudo demonstrou que os problemas psicológicos
dos pacientes poderiam ser explicados em termos
de tais experiências, e não ao contrário.
Outro estudo psicológico acerca de pessoas
raptadas por óvnis foi realizado por Rima Laibow,
M. D., uma psiquiatra de Dobbs Ferry, Nova York,
formada pela Faculdade de Medicina Albert
Einstein da cidade de Nova York. Baseada em seu
trabalho pessoal com onze raptados e em seu
conhecimento de 65 casos, ela fez observações
semelhantes às de Slater. Embora esperasse
detectar psicose em pessoas relatando
experiências tão bizarras, apenas constatou a
ansiedade que seria conseqüência normal de tais
experiências.
Nos raptados, ela constatou distúrbio de
esgotamento pós-traumático (PTSD), o qual,
segundo se pensa, só é produzido por traumas
decorrentes de eventos. (O PTSD refere-se a
traumas de fatos ocorridos em nível físico, e não
de fantasias geradas dentro da mente.) As
fantasias, também observou ela, costumam variar
muito de indivíduo para indivíduo, ao passo que as
histórias de rapto por óvni tendem a ser muito
semelhantes.
A Dra. June Parnell, consultora profissional da
Universidade de Wyoming, escreveu um ensaio de
cem páginas intitulado Características de
personalidade, segundo os testes MMPI, 16PF e
ACL, de pessoas que alegam ter tido experiências
com óvnis, publicado pela universidade em 1986.
Ela aplicou estes testes em 225 testemunhas
relatando contatos com óvnis de toda espécie.
Segundo sua descrição das pessoas relatando
contatos e raptos exóticos, elas "têm um alto nível
de energia psíquica, são auto-suficientes,
habilidosas e preferem suas próprias decisões (...)
[com] inteligência acima da média, positividade e
tendência a serem pensadoras experimentais, a
terem uma atitude reservada e a ficarem na
defensiva. Havia também um alto nível dos
seguintes traços nestas testemunhas de contato
profundo: 'suspeita ou desconfiança (...)
criatividade e imaginação fértil (...)'".
Esta descrição é bastante semelhante à de Slater.
As pessoas raptadas por óvnis também têm sido
estudadas pela Dra. Jean Mundy, que trabalhou
dez anos como psicóloga clínica sênior no St.
Vincent's Hospital, em Nova York, diagnosticando
doentes mentais. As pessoas raptadas por óvnis,
segundo concluiu ela, não apresentam nenhuma
das facetas do comportamento clássico de
portadores de distúrbios mentais. Ela também as
encarou como vítimas da síndrome do
esgotamento pós-traumático: "Assim reagem as
pessoas que experimentaram traumas terríveis —
vítimas do holocausto, veteranos do Vietnã, ou
vítimas de estupro. Apesar de desconhecermos a
natureza do trauma experimentado por elas,
sabemos que não se trata de imaginação; é algo
que as atingiu de fora, sendo, neste sentido,
'real'."
Da mesma forma, Aphrodite Clamar, a psicóloga
de Nova York e freqüente parceira de trabalho de
Budd Hopkins, afirma: "As pessoas que alegam ter
tido um contato estranho, de qualquer que seja o
grau, são pessoas comuns, nem psicóticas nem
mediúnicas, pessoas como você e eu. Não
consegui encontrar nenhum ponto em comum
entre elas — além, é claro, de sua experiência com
os óvnis —, e nenhuma patologia em comum; de
fato, absolutamente nenhuma patologia
discernível."
Cabe observar que Clamar, responsável por boa
parte da regressão hipnótica feita em testemunhas
de óvnis no trabalho de pesquisa inicial de Budd
Hopkins, manteve suas reservas no tocante à
realidade dos óvnis. Ela não era de forma alguma
uma "crente em óvnis".
O fator psíquico
Vários psicólogos concordam claramente em que
as pessoas raptadas por óvnis não tendem a ser
mentalmente perturbadas, ou "psicóticas".
Contudo, muitas parecem tender a ser
"mediúnicas", no sentido de que experimentam
fenômenos psíquicos incomuns.
Já tive oportunidade de mencionar a existência de
um elemento psíquico nos relatos sobre óvnis
(páginas 76-77) e, nesta seção, analisarei este
assunto com mais minúcia. Infelizmente, para isto
é necessário conciliar dois temas desacreditados:
óvnis e fenômenos psíquicos. Conforme já
argumentei, os relatos sobre óvnis merecem ser
levados a sério. Porém, antes de analisar o
elemento psíquico nestes relatos, devo também
dizer algumas palavras indicando por que se deve
levar a sério os relatos sobre fenômenos psíquicos.
Tentarei fazer isto apresentando fortes provas de
alguns fenômenos psíquicos extremamente
controvertidos.
Destaquei as observações feitas por Hudson
Hoagland sobre médiuns e óvnis num editorial
publicado na Science, em 1969 (Capítulo 1). Seus
comentários a respeito da história da pesquisa
psíquica refletem os pontos de vista de muitos
cientistas com relação a este campo:
Desde a Segunda Guerra, o interesse por óvnis
vindos do espaço exterior, controlados por seres
inteligentes, assemelha-se, e muito, ao interesse
pelos chamados fenômenos físicos da pesquisa
psíquica após a Primeira Guerra. Médiuns
espiritualistas alegavam poder movimentar
objetos por meio de forças sobrenaturais, incluindo
a produção de emanações ectoplasmáticas de
seus corpos. (...) A crença nesta espécie de coisa
envolveu muitos profissionais, inclusive alguns
distintos cientistas, religiosos, médicos, escritores
e homens de negócios, e as sociedades de
pesquisa psíquica publi¬caram inúmeros ensaios
de apoio de natureza pseudocientífica.
Para Hoagland, a pesquisa psíquica e a pesquisa
ufológica são semelhantes no sentido de que
ambas se caracterizam por delírios, fraudes e
ciência inútil em geral. Sem dúvida, ele está certo
quanto ao fato de se poderem encontrar estes
defeitos em ambos os campos. Em particular, o
mundo dos médiuns espíritas é famoso por seus
casos de fraude, e podem ser encontrados
extensos relatos acerca disto em livros como The
Psychic Mafia (A máfia psíquica), escrito pelo
assumido médium vigarista M. Lamar Keene.
Contudo, poderia ser um equívoco descartar os
fenômenos ligados a médiuns por considerá-los de
todo falsos. Seria possível citar muitos casos
demonstrando provas significativas da realidade
destes fenômenos. A seguir apresento um resumo
de um deles. Este caso é descrito em maiores
detalhes num livro intitulado The Limits of
Influence (Os limites da influência), de Stephen
Braude, professor de filosofia da Universidade de
Maryland.
No início do século XX, havia uma médium
chamada Eusapia Palladino, que se tornou
conhecida por produzir movimentação
sobrenatural de objetos e emanações
ectoplásmicas. Ela foi estudada por uma série de
distintos cientistas, tendo também sido flagrada
em fraude. As pessoas que a investigaram
concordaram com o fato de que ela trapacearia se
lhe fosse oportuno, mas, conforme argumentaram
algumas pessoas, não poderia ter falseado certos
fenômenos estranhos observados em sua
presença.
Procurando esclarecer este enigma, a Sociedade
de Pesquisas Psíquicas da Inglaterra reuniu um
"Esquadrão da Fraude", formado por:
1. Lorde Everard Feilding, que alegava ser um
cético integra! no tocante a médiuns
espiritualistas e que flagrara muitos deles em atos
fraudulentos;
2. Hereward Carrington, mágico amador que
escreveu The Physical Phenomena of Spiritualism
(O fenômeno físico do espiritualismo), três quartos
do qual eram dedicados a uma análise da
mediunidade fraudulenta; e
3. W. W. Baggally, habilidoso mágico, que "alegou
ter investigado quase todos os médiuns da Grã-Bretanha desde Home sem encontrar um que
fosse autêntico". (Daniel D. Home foi um médium
famoso do século XIX.)
Estes investigadores alugaram três quartos
contíguos de um hotel em Nápoles, Itália, em
novembro de 1908, usando o quarto central para
sessões espíritas com Palladino. As luzes elétricas
do quarto ficavam no teto. Antes de cada sessão,
os investigadores examinavam bem o quarto e
instalavam uma cortina, chamada "gabinete",
transversal a um de seus cantos. Atrás da cortina
havia uma mesinha rodeada pelas paredes, piso e
teto, sem portas nem janelas (e presumivelmente
nenhum alçapão). Examinavam bem a mesa e a
cortina à procura de quaisquer dispositivos
escondidos.
Após estes preparativos, um dos investigadores
descia até a recepção do hotel e escoltava Eusapia
Palladino sozinha até o quarto. O quarto era
trancado, e Palladino se sentava a uma mesa em
frente à cortina, acompanhada pelos
investigadores. Dois dos homens se sentavam a
cada lado da cinqüentona Eusapia, agarrando-lhe
braços e pernas e observando-a cuidadosamente.
Em frente à mesa da sessão ficava uma mesa
ocupada pelo estenógrafo Albert Meeson, que era
um estranho para Eusapia, encarregado de anotar
tudo quanto lhe falavam os investigadores.
Feilding explicou a estratégia dos investigadores
como segue: "Pelo nosso raciocínio, se após um
número razoável de experimentos, pessoas
especialmente versadas em arquitetar truques e
de antemão advertidas e informadas quanto aos
truques específicos esperados, não lograssem
descobri-los, não seria presunçoso alegar como
provável conseqüência o envolvimento de algum
outro agente."
Eis um trecho do relato das sessões feito por
Feilding. Ele começa salientando seu ceticismo,
baseado em muitas observações de fraude. Nas
sessões espíritas com Eusapia, contudo, ele
testemunhou fenômenos que não logrou explicar,
valendo-se do princípio de fraude. Suas reações
diante de tal situação são interessantes:
A primeira sessão com Eusapia, desta maneira,
provocou, sobretudo, uma sensação de surpresa; a
segunda, de irritação — irritação por achar-se
diante de um problema tolo, mas aparentemente
insolúvel. A terceira sessão, durante a qual se
descobriu um truque ridículo, veio como uma
espécie de alívio. Na quarta, em que fomos
privados do controle da médium [devido à
presença de "convidados"], minha inteligência
frustrada buscou se esquivar da responsabilidade
de encarar os fatos, alimentando dúvidas
grotescas quanto à competência dos eminentes
professores, que assumiram nossos lugares, em
observar as coisas de forma apropriada; ao passo
que na quinta, em que tal situação não era mais
possível, visto estar eu próprio constantemente
controlando a médium, a ginástica mental
envolvida no ato de enfrentar com seriedade a
necessidade de concluir a favor do que era
manifestamente absurdo, produziu uma espécie
de fadiga intelectual.
Após a sexta, pela primeira vez descubro que
minha mente, da qual o fluxo de eventos havia até
então escorrido como chuva de uma capa
impermeável, começa enfim a ter capacidade de
absorvê-los. Pela primeira vez, tenho a absoluta
convicção de que nossa observação não está
equivocada. Percebo, como um fato notável, que
de um gabinete vazio vi mãos e cabeças
assomarem, que por trás da cortina daquele
gabinete vazio fui agarrado por dedos vivos, cuja
existência e até mesmo as unhas podiam ser
sentidas. Vi aquela mulher extraordinária sentada
e visível por fora da cortina, presa pelas mãos e
pelos pés por meus colegas, imóvel, exceto pela
ocasional tensão de um membro, enquanto
alguma entidade dentro da cortina, repetidas
vezes pressionou minha mão numa posição
claramente além do alcance dela. (...)
Um relato mais detalhado das cabeças e mãos é
apresentado na passagem a seguir, na qual
Feilding contemplava a possibilidade de produzir
os estranhos fenômenos por meio de um
mecanismo:
Seria interessante propor a um fabricante de
máquinas de magia que ele criasse um mecanismo
capaz de produzir, alternadamente, a silhueta de
um rosto negro e sem relevo, um rosto quadrado
sobre um pescoço comprido e um rosto parecido
com um violoncelo sobre um corpo verruguento e
decrépito com sessenta centímetros de altura;
além disso, uma certa mão branca com dedos
móveis e unhas, capaz de se estender bem acima
da cabeça da médium, ou de dar palmadinhas,
beliscar e puxar cabelo, e de agarrar B. pelo
sobretudo vigorosamente, a ponto de quase
arremessá-lo para dentro do gabinete. Nosso
fabricante teria que construir o mecanismo de tal
maneira que este pudesse ser operado de forma
invisível por uma senhora um tanto robusta e
idosa, trajando um simples vestido justo, sentada
do lado de fora da cortina e visivelmente segura
pelas mãos e pelos pés, para assim escapar da
observação de dois mágicos práticos grudados
nela e atentos a toda a operação.
Uma forma de encarar este depoimento é que ele
representa a prova nítida do fato de algum agente
desconhecido ter de fato produzido os estranhos
fenômenos descritos por Feilding. Também se
pode dizer, porém, que não há como provar que
Feilding e seus colegas não estivessem mentindo,
ou que eles não foram ludibriados por Eusapia
Palladino. Poderíamos indagar qual seria de fato a
prova da realidade de semelhantes fenômenos.
Também se pode duvidar de outras histórias
baseadas em depoimentos semelhantes ao do
caso Palladino. Provas fotográficas podem ser
falseadas, e o mesmo se pode dizer dos registros
de instrumentos científicos. Tanto quanto posso
perceber, é impossível apresentar à um cético
provas incontestáveis da realidade desses
assuntos (a não ser que o próprio cético passe por
algumas experiências, como aconteceu com
Feilding).
Munidos destes dados sobre fenômenos psíquicos,
passemos agora ao tema principal desta seção: a
prova de que relatos de semelhantes fenômenos
tendem a se manifestar em casos de contato
imediato com óvnis. Tanto como as provas
relativas a médiuns espíritas, estas provas se
originam de depoimentos humanos. Uma vez que
tais depoimentos envolvem tanto fenômenos
ufológicos quanto fenômenos psíquicos, poderão
parecer sobremaneira bizarros e duvidosos. E na
certa não podem ser apresentados como prova de
nada. Apesar de existirem casos relatados por
investigadores respeitáveis, infelizmente, o próprio
ato de relatar algo absurdo, tende a comprometer
a reputação de um investigador.
No final das contas, o vínculo entre os fenômenos
ufológicos e os fenômenos psíquicos só poderá se
tornar respeitável depois que muitas pessoas bem
conceituadas o tiverem ratificado por meio do
estudo de um amplo número de casos bem
investigados. Por ora, contudo, o que pode¬mos
fazer é apresentar alguns exemplos demonstrando
a possível existência de tal vínculo.
Começarei com o caso de Betty e Barney Hill.
Segundo observa o psiquiatra Berthold Schwarz,
após o contato imediato dos Hill numa solitária
estrada de New Hampshire, eles começaram a
experimentar fenômenos poltergeist em seu lar.
Betty encontrava seus casacos espalhados de
maneira inexplicável pelo chão da sala, muito
embora os tivesse deixado no armário. Relógios
paravam e voltavam a funcionar misteriosamente,
ou então a marcação dos ponteiros era mudada.
Torneiras se abriam sem ninguém por perto e
aparelhos elétricos enguiçavam e voltavam a
funcionar perfeitamente sem terem sido
consertados.
Mais prosaicamente, Betty Hill também relatou
que, após sua experiência com o óvni, viviam
seguindo-a, invadiam-lhe o apartamento e sua
linha telefônica vivia sendo interceptada. A
interceptação telefônica parecia surtir um efeito
contrário, pois ela vivia recebendo mensagens do
"Pease Air Force Base Intelligence".
A palavra alemã poltergeist, cujo significado literal
é fantasma barulhento, é usada para se referir a
distúrbios em que objetos se mexem ou se
comportam de forma estranha, sem nenhuma
causa física óbvia. Em anos recentes, alguns
parapsicólogos, desejando evitar a palavra
fantasma, cunharam a expressão psicocinese
espontânea e recorrente para estes distúrbios. A
motivação para esta mudança é a hipótese de os
efeitos poltergeist poderem ser produzidos por
alguma espécie de emanação energética oriunda
de uma pessoa-alvo. Neste caso, Betty Hill seria o
provável indivíduo-alvo, e seria possível especular
se sua experiência com o óvni lhe alterou o
equilíbrio energético e acionou os efeitos
poltergeist.
Os fenômenos poltergeist são conhecidos há
séculos, e incluem o tipo de eventos relatados por
Betty Hill, bem como incêndios espontâneos,
objetos voando pelo ar e movimentos espontâneos
de móveis. É freqüente a pessoa-alvo num caso
poltergeist estar padecendo de algum distúrbio
emocional ou de doença crônica.
Segundo salienta Schwarz, embora este não
pareça ser o problema de Betty Hill, ela tinha um
histórico pregresso de experiências psíquicas.
Quando estava no curso secundário, ela teve
muitos sonhos premonitórios precisos, inclusive
dois em que anteviu as mortes de colegas de
escola em acidentes automobilísticos. Muitos dos
seus familiares também eram médiuns, inclusive
sua avó materna e uma filha adotiva. Sua irmã,
Janet, relatou ter morado numa casa assombrada
por uma criança fantasma chamada Hannah, cujo
nome foi revelado por um médium e mais tarde
confirmado por antigos registros. Aparentemente,
Barney Hill e sua família não tinham histórico
pregresso de fenômenos psíquicos.
Que podemos dizer a respeito da integridade das
provas relatadas por Betty Hill? Baseado em
material fornecido por Berthold Schwarz e num
livro famoso sobre o caso Hill intitulado The
Interrupted Journey, minha impressão é que Betty
Hill parece ser uma pessoa sensata e honesta.
Portanto, parece-me plausível que ela tenha de
fato experimentado os fenômenos poltergeist por
ela relatados.
No entanto, The Interrupted Journey não fez
menção alguma dessas experiências. Embora
desconheça a razão para isto, percebo nas
pessoas uma tendência natural de omitir de suas
histórias quaisquer provas aparentemente
desacreditadas. O efeito desta tendência sobre o
nosso quadro da realidade pode ser mais
distorcido ainda do que a fraude deliberada. Isto é
lamentável, já que uma informação que pareça
desacreditada a partir de uma perspectiva teórica
poderá fazer sentido a partir de uma perspectiva
mais ampla. Poderá, também, fornecer-nos pistas
que nos ajudem a atingir ou solidificar aquela
perspectiva mais ampla.
Os fenômenos psíquicos constantes em relatos
sobre óvnis tendem a enquadrar-se nas duas
categorias a seguir:
1. Fenômenos psíquicos de ocorrência típica
durante contatos com óvnis, incluindo
comunicação telepática, levitação, matéria
atravessando matéria e cura misteriosa. Às vezes,
os investigadores ufológicos atribuem estes
fenômenos à prerrogativa de alta tecnologia por
parte das entidades ufológicas. Mesmo que isto
seja correto, ainda persiste o fato de estes
fenômenos também terem sido estudados no
domínio da pesquisa psíquica sem referência aos
óvnis. Não se deve, é claro, descartar a
possibilidade de que fenômenos psíquicos não
vinculados a óvnis possam também envolver
alguma espécie de alta tecnologia.
2. Fenômenos psíquicos sem vínculo direto com
óvnis (tais como os fenômenos poltergeist
domésticos), que poderão passar a se manifestar
de forma abrupta após um contato com óvni, ou
pode ser que a testemunha de um contato
imediato tenha um histórico antigo de
experiências psíquicas. As coisas se complicam
pelo fato de as testemunhas de contatos imediatos
com óvnis acabarem apresentando um histórico
antigo de contatos que remontam à primeira
infância.
Já vimos relatos de contatos com óvnis envolvendo
comunicação telepática, levitação e a passagem
de corpos através de paredes. Um exemplo de
cura misteriosa consta no caso do "Dr. X", um
médico francês. Este caso, a princípio estudado
por Aime Michel na França, foi recontado por
Jacques Vallee. Segundo Vallee, um aspecto
importante do caso é que um astrofísico, um
psiquiatra e um fisiologista conseguiram ter
acesso rápido ao Dr. X, o que lhes permitiu
acompanhar toda a evolução do seu quadro.
Segundo depôs o médico, ele foi acordado, em 1º
de novembro de 1968, pelos gritos de seu bebê,
de quatorze meses, um pouco antes das quatro
horas. Abrindo uma janela, avistou dois objetos
discóides pairando no ar. Eram de cor branca
prateada por cima e vermelha brilhante por baixo.
Após alguns movimentos de aproximação, os dois
discos se fundiram em apenas um, o qual apontou
um feixe de luz branca na direção do médico. Em
seguida, o disco desapareceu com uma espécie de
explosão, deixando uma nuvem que se dissipou
lentamente.
O médico disse ter contraído um ferimento grave
na perna enquanto cortava madeira três dias
antes. Após a partida do(s) misterioso(s) objeto(s),
o inchaço e a dor causados pelo ferimento de
súbito desapareceram e, nos dias subseqüentes,
ele também percebeu o desaparecimento de todos
os sintomas crônicos decorrentes de ferimentos
graves contraídos na guerra da Argélia. Poucos
dias após o contato, tanto o Dr. X quanto seu filho
desenvolveram uma estranha marca triangular
avermelhada no abdome, marca que permaneceu
nos anos seguintes.
Por um período de dois anos após este incidente,
não houve recorrência dos sintomas associados,
quer com os ferimentos de guerra, quer com a
ferida da perna. Entretanto, passaram a ocorrer
estranhos fenômenos paranormais em torno do
médico e sua família, incluindo atividades
poltergeist e inexplicados distúrbios em circuitos
elétricos. Segundo Jacques Vallee, "é freqüente o
relato de coincidências de natureza telepática e,
conforme alegou o médico, em pelo menos uma
ocasião ele experimentou a levitação sem ser
capaz de controlá-la".
Outros incidentes eram ainda mais bizarros. O Dr.
X relatou que passou a ter encontros misteriosos
com um estranho homem anônimo que ele
chamou "Sr. Bied". Ouvindo um som de assovio
dentro de sua cabeça, o médico se sentia
orientado a caminhar ou dirigir até determinado
local. Ali ele se encontrava com o estranho
homem, que conversava com ele sobre sua
experiência com o óvni e lhe ensinava coisas sobre
assuntos paranormais. O Sr. Bied fez o médico
"experimentar a telecinesia e a viagem no tempo,
incluindo um episódio constrangedor com
paisagens alternadas numa estrada que 'não
existe'". Além disso, certa vez o estranho visitou o
Dr. X em sua casa "acompanhado de um
humanóide de um metro de altura e com pele
mumificada, mantendo-se imóvel enquanto seus
olhos disparavam ligeiros pela sala".
Muito embora os casos de óvnis em geral pareçam
bastante estranhos, observa Vallee, é comum seus
relatos serem editados pela supressão de aspectos
particularmente bizarros ou incríveis. Não
obstante, eventos estranhos do tipo relatado pelo
Dr. X também aparecem com freqüência em
outros casos de óvnis.
Vallee menciona, por exemplo, um caso em Lima,
Peru, em 9 de dezembro de 1968, ocorrido com
um inspetor de alfândega que foi atingido no rosto
por um feixe de luz púrpura oriundo de um óvni,
que então descobriu estar curado de sua miopia e
de seu reumatismo. Na Carolina do Sul, em 21 de
abril de 1979, o raptado por óvni William Hermann
relatou ter sido visitado em seu trailer por dois
seres alienígenas que pareceram se materializar
em meio a um brilho azul enquanto ele conversava
ao telefone com um investigador ufológico.
Whitley Strieber relata muitos efeitos paranormais
vinculados a suas experiências com os
"visitantes", bem como visões de paisagens
surreais. Entre tais efeitos, incluem-se fenômenos
poltergeist, levitação espontânea e experiências
extra-corporais.
A investigadora ufológica britânica Jenny Randles
tem dado muitos exemplos de pessoas relatando
tanto contatos com óvnis quanto experiências
psíquicas. Joyce Bowles, por exemplo,
experimentou ser raptada e levada para um
recinto desconhecido junto de um homem
chamado Ted Pratt e ter tido um extenso encontro
com três seres humanóides altos. Conforme
comenta Randles, Joyce também havia sofrido um
ataque poltergeist e "tinha um histórico de
experiências psíquicas".
Segundo salienta Raymond Fowler, Betty
Andreasson e alguns de seus familiares relataram
uma série de estranhas experiências psíquicas
ocorridas antes do contato dela com o óvni em
1967. Sua filha Becky, por exemplo, (que esteve
envolvida naquele contato), descreveu como
acordou em 1964 para ver uma cintilante bola
amarelo-alaranjada pairando do lado de fora da
janela de seu dormitório e apontando um feixe de
luz na direção dela. Pouco tempo depois disso,
Becky passou a produzir páginas cheias de
símbolos estranhos com escrita automática. A
escrita automática, um fenômeno psíquico
comum, também aparece nas histórias de muitas
testemunhas de óvnis (veja Capítulo 5).
Fowler também apresenta a história da Sra. Rita
Malley, que dirigia ao longo da Rodovia 34 rumo a
Ithaca, Nova York, em 1967, quando seu carro foi
parado por um objeto discóide abobadado e
zunidor. Uma luz brilhante, disse ela, projetou-se
do objeto. "Então, comecei a ouvir vozes. Não
soavam como vozes masculinas ou femininas, mas
eram estranhas, as palavras saíam de forma
espasmódica e fragmentada (...) com um estranho
coro de diversas vozes. (...) As vozes mencionaram
o nome de um conhecido e disseram que naquele
exato momento o irmão dele estava envolvido
num acidente terrível a quilômetros de distância."
Conforme a moça constatou no dia seguinte, a
mensagem estava correta.
Neste caso, a experiência com o óvni representou
o papel de uma advertência premonitória. Existe
uma extensa literatura sobre advertências
premonitórias em sonhos e lampejos repentinos de
intuição. Segundo se relata, é muito freqüente
estas premonições corresponderem à verdade.
Apesar de não se enquadrarem no paradigma
mecanicista da ciência moderna, estas
advertências paranormais e os demais fenômenos
psíquicos que eu tenho mencionado têm sido parte
da vida humana desde tempos remotos.
Em suma, existem provas indicando serem
freqüentes os relatos de fenômenos psíquicos (ou
fenômenos em muito semelhantes a eles)
associados a casos de contato imediato com óvnis.
Estes fenômenos parecem ter ligação tanto com as
cobaias humanas destes casos quanto com as
entidades humanóides que elas encontram. Uma
possível interpretação para isto é que os
humanóides não nos são tão alienígenas quanto
seria de supor.
Eis o raciocínio por trás desta interpretação: se os
seres humanos podem gerar fenômenos psíquicos,
então deve haver alguma espécie de mecanismo
inerente aos seres humanos que os faz gerar tais
fenômenos. Por ora, não importa se este
mecanismo faz uso ou não de princípios físicos
conhecidos. A idéia, em termos simples, é que
fenômenos materiais obedecendo a um padrão
sistemático devem ser gerados por alguma
combinação sistemática de matéria e energia.
Se as entidades ufológicas são seres vivos e
produzem fenômenos psíquicos semelhantes aos
relatados com relação aos humanos, então é
razoável supor que elas também os geram com
alguma espécie de mecanismo. Este não é
necessariamente algum dispositivo de alta
tecnologia. Aplicando o princípio da parcimônia,
pode-se sugerir que o mecanismo delas é igual ou
parecidíssimo com aquele encontrado nos seres
humanos.
Consideremos, por exemplo, o fenômeno amiúde
relatado da comunicação telepática entre
humanos e entidades alienígenas. Para
semelhante telepatia ser possível, o mecanismo de
transmissão e recepção dos humanos deve ser
compatível com aquele dos alienígenas. (Basta
considerarmos as dificuldades resultantes da
tentativa de fazer duas marcas diferentes de
computadores se comunicarem entre si.) Se estes
dois mecanismos são compatíveis, então é bem
possível que funcionem com base em princípios
semelhantes ou que tenham inclusive uma
estrutura semelhante. Em suma, se as entidades
ufológicas e os humanos produzem fenômenos
complexos semelhantes, então, talvez sejam seres
parecidos com estrutura interna parecida.
Existem outras possibilidades, é claro, três das
quais menciono a seguir. A primeira é a hipótese
extraterrestre (HET), segundo a qual as entidades
ufológicas teriam evoluído num planeta distante. É
difícil analisar a evolução de faculdades psíquicas,
já que, em geral, as mesmas não existem para os
cientistas dedicados a estudar a evolução. Porém,
se a origem delas envolve genes e mutações,
conforme reza a teoria evolucionária tradicional,
então, o raciocínio de Dobzhansky e Simpson tem
fundamento aqui, não sendo de se esperar que
elas evoluam em outro planeta. Teríamos de
supor, portanto, que, ao manifestarem efeitos
psíquicos em interações com humanos, os
extraterrestres devem estar imitando funções
psíquicas humanas por meio da tecnologia.
Mas por que eles fariam isso? Os fenômenos
psíquicos, além de raros, são tidos como
desacreditados na sociedade moderna. Por que um
agente alienígena optaria por simular fenômenos
como estes, e não algo mais convencional, como
programas de televisão? Pode-se dizer que os
motivos deles são inescrutáveis, mas isto significa
dizer que jamais poderemos entender o que está
acontecendo.
No entanto, pressupondo seres semelhantes a nós
com faculdades psíquicas naturais superiormente
desenvolvidas, podemos formular uma explicação
que pelo menos faça sentido — seja ela correta ou
não. Seria natural, para seres com faculdades
psíquicas naturais, interagir com os humanos
fazendo uso delas. Estas interações poderiam,
inclusive, estimular tendências psíquicas latentes
nos seres humanos, explicando-se, assim, os
efeitos poltergeist subseqüentes aos contatos com
óvnis. Segundo outra hipótese concebível, os
humanos dotados de "registros de experiências
psíquicas" possuiriam compatibilidade especial
com as entidades alienígenas, explicando-se,
deste modo, o motivo para a constatação de tais
registros em pessoas que relatam contatos com
óvnis.
A segunda possibilidade é a de todos os
fenômenos psíquicos serem mediados por seres
sutis pertencentes a uma determinada categoria,
sendo os alienígenas ufológicos exemplos de tais
seres. Pode haver um elemento de verdade nisto,
já que, conforme sustentam muitos médiuns, suas
faculdades originaram-se de seres sutis. Porém,
esta teoria parece duvidosa quando aplicada a
todos os fenômenos psíquicos, pois já foi provado
que alguns humanos podem manifestar
semelhantes fenômenos se valendo de suas
próprias faculdades. Este é um assunto muito
estudado no campo da parapsicologia, mas não é
minha intenção me aprofundar nele aqui.
Com isto chegamos à terceira hipótese: as
entidades ufológicas e todos os seus pertences são
projeções psíquicas da mente humana. Esta é uma
idéia diferente daquela segundo a qual estas
entidades seriam mera imaginação. Ao contrário, a
hipótese é que elas se originam na imaginação
humana, mas assumem forma e criam efeitos
físicos reais através do poder psíquico humano.
Como se trata de uma idéia bastante popular,
podemos chamá-la de a hipótese psíquica (HP). A
tabela na página seguinte relaciona seis diferentes
formulações desta hipótese apresentadas por
populares escritores e investigadores ufológicos.
(Estas, é claro, não são necessariamente as únicas
teorias sobre óvnis desenvolvidas por estes
escritores.)
Parece-me duvidoso que seres humanos comuns
tenham mesmo o poder de gerar objetos voadores
capazes de serem captados em redor, perseguir
aviões a jato e interferir no funcionamento de
automóveis. Estes fenômenos parecem ter muito
mais magnitude que os efeitos poltergeist, ou
mesmo as mãos e cabeças materializadas
relatadas acerca de Eusapia Palladino. Muitas
experiências de rapto também parecem mais
desconcertantes do que inclusive as mais fortes
manifestações relatadas em sessões espíritas.
Além do mais, se a imaginação humana tem tanto
poder assim, por que, então, típicos monstros de
filmes de ficção científica não se materializam em
cidades americanas? A extensão da fantasia
humana parece muito mais ampla que o
observado no âmbito dos fenômenos ufológicos ou
psíquicos.
Estas teorias não esgotam todas as possíveis
explicações para o elemento psíquico constante
em relatos sobre óvnis. Contudo, a idéia de que as
entidades ufológicas sejam seres similares a nós
parece ser uma competidora definitiva entre
possíveis teorias. Tendo dito isto, devo salientar
que, segundo é relatado, tanto os fenômenos
psíquicos quanto os fenômenos ufológicos violam
as leis físicas conhecidas. Deste modo, ao dizer
que talvez as entidades ufológicas sejam
semelhantes a nós, não pretendo sugerir que elas
sejam meras máquinas moleculares, feitas da
mesma matéria concebida comumente por nós.
Talvez os seres humanos também sejam algo mais
do que máquinas moleculares.
Declarações apoiando a hipótese de que as
manifestações ufológicas se revestem de
realidade física pelo poder da mente humana
1. Jacques Vallee: "Poder-se-ia teorizar acerca da
existência de um notável estado de funcionamento
psíquico responsável por alterar a visão que o
observador tem da realidade física, além de gerar
vestígios reais e fenômenos luminosos, visíveis
para outras testemunhas em seu estado normal."
2. Berthold Schwarz: "Quase todos os dados
associados a óvnis têm suas analogias em
fenômenos psíquicos espontâneos, ou ocorrem,
segundo se tem observado, em sessões espíritas."
Apesar de talvez serem uma exceção, os efeitos
eletromagnéticos atribuídos a óvnis também
podem ser produzidos psiquicamente. Ele cita
Eisenbud, que diz: "Existe um pequeno núcleo
sólido de dados parapsicológicos indicando que
tanto as entidades animadas quanto as
inanimadas podem ser criadas (sob os auspícios
da mente, presume-se), não apenas de forma
gradativa, como uma espécie de intromissão numa
realidade mais comum, como também sob a forma
de uma realidade completamente coexistente."
3. D. Scott Rogo, sobre raptos por óvnis: "Mesmo
sendo um evento físico real, o rapto reflete
preocupações ou traumas arraigados no
inconsciente do indivíduo. Poder-se-ia chamá-lo de
sonho 'materializado' — i.e., um sistema de
imagens simbólicas que de repente se projeta para
o mundo tridimensional."
4. Tenente-coronel Thomas Bearden: "Em junho
de 1947, Kenneth Arnold, sobrevoando o estado
de Washington — o estado mais próximo da União
Soviética na época —, encontrou discos voadores,
os quais não passavam de mandalas femininas
moduladas por nossa ficção científica Buck Rogers
e nossa inconsciência nacional/cultural. (...) Não se
engane, estas toupeiras são materializações
verdadeiras, e não alucinações ou fantasias."
5. Hilary Evans: "A experiência da entidade tem
uma base material que pode ser razoavelmente
concebida como uma comunicação física,
fabricada por uma parte da mente do observador
que opera de forma autônoma, por conta própria
ou vinculada a um agente externo; expressa sob a
mesma forma de sinal codificado que qualquer
outra comunicação mental; apresentada à mente
consciente como um substituto para o ingresso de
estímulo sensorial do mundo real; e
ocasionalmente recebendo uma expressão externa
temporária utilizando algum tipo de substância
psíquica quase-material."
6. Jenny Randles usou a idéia do campo
morfogenético de Rupert Sheldrake para formular
uma teoria dos raptos por óvnis: "Se algo passa a
ser aceito como real, adquire cada vez mais
realidade efetiva. Não seria estender a hipótese de
Sheldrake em demasia considerar-se que os raptos
estão se tornando reais, isto por causa da repetida
ênfase a eles atribuída dentro da sociedade."
5
Contatos, canais e comunicações
Neste rastreamento dos fenômenos ufológicos
relatados, há três assuntos adicionais que
precisaremos analisar: contatos, canalização, e
comunicações, e doutrinas relacionadas a óvnis.
Como eles têm feito parte do cenário ufológico
desde pelo menos fins dos anos 40, fica difícil
desconsiderá-los. Todavia, por também
envolverem bastante material que soa por demais
implausível, a reação de querer descartar este
material sem hesitação é natural.
Há, contudo, bons motivos para se fazer uma
cuidadosa avaliação deste material. Mesmo assim,
devemos atentar para o fato de parte dele ser
nitidamente fraudulenta. Outra parte pode muito
bem ser autêntica e fornecer importantes
esclarecimentos sobre a natureza do fenômeno
ufológico. O tema unificador dos três assuntos
deste capítulo é o da comunicação particularizada
entre seres humanos e seres aparentemente não-humanos. A oportunidade de fraude é grande,
neste caso, considerando a idéia de semelhante
comunicação representar um profundo atrativo
para a mente humana, dando vazão, portanto, a
muitas formas de exploração e auto-engano. Ao
mesmo tempo, comunicações minuciosas, quando
autênticas, podem revelar uma boa quantidade de
informações úteis sobre os comunicadores.
Começarei tratando do assunto dos contatos
ufológicos. Nos últimos anos, o estudo de raptos
por óvnis tem merecido o respeito de muitos
ufologistas, muito embora, em geral, a
comunidade científica o ignore ou rejeite. No
entanto, é relatado outro tipo de caso de contato
imediato que mesmo tarimbados pesquisadores
ufológicos tendem a rejeitar. É o chamado caso de
contato, em que uma pessoa conhecida com esse
nome se encontra com se¬res de outros mundos
por amizade. Contatos poderão alegar terem sido
escolhidos por estes seres para transmitirem a
mensagem deles à humanidade, além de às vezes
alegarem terem sido levados para visitar outros
planetas em naves espaciais.
A má reputação dos contatos tomou vulto nos
primórdios dos anos 50, quando muitas pessoas
passaram a divulgar extraordinárias histórias de
contato com extraterrestres, histórias apoiadas em
pouquíssimas provas. O contato típico da época
era, segundo a sarcástica caracterização do
pesquisador ufológico Richard Hall, "um técnico
desajeitado, quase sempre homem, de 40 a 60
anos de idade, fruto de uma infância perturbada
ou desintegrada, inculto e dependente de um
ghost writer para escrever seu livro".
Era típico desses homens se apresentarem como
profetas especialmente escolhidos e, em alguns
casos, eles tentavam impressionar o público
mediante a adoção falsa de títulos grandiosos e
graus acadêmicos. Era fácil descartá-los como
incompetentes alienados que recorriam a meios
desonestos para ganhar algum dinheiro, criar fama
ou superar algum desequilíbrio psicológico.
Eis a seguir uma breve lista dos principais contatos
das décadas de 1950 e 1960:
1. O “professor” George Adamski, filósofo amador
e sanduicheiro de carrocinha, alegava ter se
encontrado com Orthon, um homem de Vênus, em
20 de novembro de 1952, perto de Desert Center,
Califórnia. Ele tirou fotos, em geral tidas como
embustes, de espaçonaves venusianas.
2. Truman Bethurum alegava ter se encontrado
com uma mulher do espaço chamada Aura
Rhanes, originária do Planeta Clarion, que fica do
outro lado9 do Sol. Foi bastante denunciado como
charlatão, e o Dr. Edward U. Condon se deu ao
trabalho de provar, em seu Relatório Condon, que
um planeta como Clarion não poderia existir.
3. Daniel Fry escreveu que era “reconhecido por
muitos como o cientista mais bem informado do
mundo sobre assuntos relacionados a viagens no
espaço e no tempo”. Alegava ter-se encontrado
com a Falange do Espaço, formada por
descendentes da antiga civilização de Lemúria.
4. Howard Menger serviu no Exército americano e
mais tarde abriu uma empresa de publicidade e
pintura de painéis. Alegava ter tido, desde os cinco
anos de idade, muitos contatos com Legiões do
Espaço oriundas de Vênus, Marte, Júpiter e
Saturno. Dizia ter vivido em Vênus numa vida
anterior.
5. George Van Tassel foi o anfitrião das Giant Rock
Space Conventions, muito populares entre 1954 e
1970. Alegava estar em contato com o "Conselho
das Sete Luzes", o qual rege este sistema solar.
6. Orfeo Angelucci, um ítalo-americano inculto,
mas inteligente, teve experiências com óvnis de
natureza altamente mística e religiosa. Suas
experiências, segundo as interpretou o psicólogo
Carl Jung, eram produto de processos mentais
inconscientes relatados com sinceridade.
Aliás, Jung é conhecido por ter interpretado as
experiências com óvnis como sendo projeções
psicológicas. No entanto, não é tão divulgado o
fato de ele ter achado que alguns óvnis eram
objetos reais. Ele escreveu: "Tanto quanto sei, é
um fato confirmado, apoiado por inúmeras
observações, que os óvnis têm sido não apenas
vistos a olho nu como também detectados em
telas de radar, além de terem deixado vestígios na
chapa fotográfica. (...) Em resumo, nada mais é
que isto: ou as projeções psíquicas devolvem um
eco de radar ou, então, o aparecimento de objetos
reais nos propicia uma oportunidade de
experimentar projeções mitológicas."
Embora Jung fosse solidário com Angelucci, a
maioria dos autores que escreveram sobre
contatos só fizeram descartá-los com desprezo e
zombaria. Tais rejeições a granel, suspeito eu,
podem ser ingênuas e injustas em certos casos, já
que as histórias da vida real acabam resultando
mais complexas do que seria de se esperar. Não
obstante, muitos desses homens talvez estivessem
tentando ganhar dinheiro ou conquistar seguidores
veiculando alegações falsas. Infelizmente,
semelhante veiculação persiste ainda hoje, com os
chamados contatos administrando negócios de
mala-direta para anunciar artigos tais como:
1. Um Receptor Nuclear, baseado em tecnologia
extraterrestre, que absorve energia negativa e a
transforma em freqüências harmoniosas ($ 100).
2. “Leituras projetadas para sintonizar os
Trabalhadores-da-Luz e o Povo Estelar com sua
Missão e Propósito Individual de Corporificação
Terráquia” ($ 125).
3. O videoteipe de um Comandante Espacial de 36
mil anos de idade explicando “a brutal guerra
interuniversal que vem sendo travada há milhares
de anos entre a Federação Universa e a
Confederação Negitária” ($ 19.95).
Por não ter investigado estes anúncios em
particular, não posso insistir no fato de se tratarem
de informação falsa. Mas a impressão geral
suscitada por este material — e há uma enxurrada
dele — é que boa parte consiste em "contos-do-vigário" elaborados para tirar dinheiro dos tolos.
Isto não aumenta a credibilidade de pessoas que
alegam fazer contato com seres desconhecidos.
No entanto, o fato de certas pessoas divulgarem
histórias falsas não implica que sejam falsas todas
as alegações de contato com outros mundos. É
preciso avaliar cada alegação incomum pelos seus
próprios méritos.
O caso Adamski
Algumas histórias de contato podem ser embustes
deliberados, criados desde o princípio por motivos
comerciais. Em outros casos, talvez uma pessoa
tente explorar uma experiência autêntica e mais
tarde fazer acréscimos desonestos a sua história
de modo a aumentar-lhe o valor comercial. Ou
talvez ela acredite sinceramente em sua história,
desenvolva um comprometimento emocional com
a mesma e, a partir daí, procure enfeitá-la para
torná-la mais convincente. Em casos assim, seria
de se esperar encontrar provas de uma
experiência real revestidas de provas refletindo
um aumento de desonestidade e auto-ilusão.
Talvez o caso de George Adamski seja um
exemplo disto. Existe uma análise solidária de
Adamski escrita por Lou Zinsstag, sobrinha do
psicólogo Carl Jung. Conforme argumenta
Zinsstag, algumas das primeiras experiências de
contato de Adamski eram autênticas; mais tarde,
porém, ele se desvirtuou de alguma maneira,
passando a fazer alegações falsas tais como a de
ter feito uma viagem para Saturno a fim de
participar do "Encontro dos Dozes Conselheiros de
nosso Sistema Solar". Ele também mantinha um
atendimento por mala direta, salienta ela,
mediante o qual fazia uma leitura, baseada na
remessa de uma foto, data de nascimento e cinco
dólares, que revelava o planeta de onde
provinham seus "clientes".
Outro fato interessante, segundo diz Zinsstag, é
que ela própria vira provas indicadoras das
incomuns faculdades psíquicas de Adamski. Ela
também o observou recorrendo ao transe
mediúnico para entrar em contato com seres do
espaço. Segundo especulação dela, talvez, em
anos posteriores, ele tenha sido desencaminhado
por má informação implantada por comunicadores
psíquicos hostis ou por humanos hostis peritos em
hipnose.
Talvez o próprio egotismo crescente de Adamski
também tenha contribuído para o seu
desvirtuamento. Apesar de ter sido participante
ativa do grupo de Adamski na Europa, Zinsstag o
rejeitou mais tarde, dizendo: "Agora ele quer
colaboradores que acreditem tacitamente nele
como se acredita em Deus. Isto é algo que eu não
posso fazer."
Uma avaliação semelhante de Adamski foi feita
pelo pesquisador ufológico Ray Stanford. Stanford
contou a William Mendez, investigador do caso de
Pascagoula (páginas 181-83), que havia conhecido
Adamski. Segundo disse Stanford: "Adamski criou
toda aquela história sobre Vênus (e outras mais),
mas, em certa ocasião, teve de fato uma
experiência com discos voadores; na mente de
Adamski, aquilo justificava toda a sua invenção de
histórias sobre eles."
De raptado a contato
Se fosse possível enquadrar as histórias de rapto e
contatos em duas categorias distintas, seria
possível, então, simplificar as coisas deixando as
histórias de contatos de lado. Infelizmente,
contudo, isto não é possível. Quase todo aspecto
encontrado em histórias de contatos também pode
ser encontrado em certos relatos de rapto, e
parece haver uma série contínua de cenários
variando de raptos típicos num extremo a casos de
contatos em outro.
Betty Andreasson, por exemplo, relatou ter sido
levada a bordo de um óvni por alienígenas gray
num contato em 1967 e submetida a um
angustiante exame físico. Também se lembrou de
ter tido surpreendentes experiências religiosas
durante este contato. Segundo relatou ainda, os
alienígenas lhe disseram que a haviam escolhido
para "mostrar algo ao mundo". Muitos aspectos de
sua história são típicos de raptos por óvnis, mas o
fato de ela ter sido escolhida como mensageira ou
profetiza é típico de relatos de contatos.
A história de William Herrmann também
compartilha aspectos típicos tanto de casos de
rapto quanto de casos de contato. Este caso foi
estudado pelo pesquisador ufológico Wendelle
Stevens. A informação a seguir faz parte de seu
relato escrito e de um videoteipe produzido por ele
apresentando entrevistas com Hermann.
Ao contrário de contatos que exploram suas
histórias ao máximo, Hermann pareceu encarar
suas experiências com os óvnis como meros
estorvos à sua vida normal. Sendo ele um cristão
fundamentalista, seu envolvimento com os óvnis
parece ter causado sérias dificuldades de
relacionamento com os membros de sua igreja.
Em conversas sobre suas experiências, ele
expressa, sobretudo, o seu atordoamento e o
desejo de entender o que lhe aconteceu. Também
insiste em que não acreditava em óvnis nem tinha
interesse algum neles antes de suas experiências
com os mesmos.
Hermann relatou ter sido raptado em 18 de março
de 1978, perto de Charleston, Carolina do Sul, por
seres que se identificaram como reticulanos.
Segundo a descrição dele, eram baixos, pelados,
com cabeças grandes, bocas em forma de fenda e
narizes pequenos. Disse, também, que eles o
levaram a bordo de sua nave atingindo-o com um
feixe de luz azul. Depois, ele ficou atordoado, só
voltando a ter memória nítida já deitado sobre
uma mesa na presença de três dos seres. Após
fazerem-no passear pela nave e ver toda espécie
de maquinário incompreensível, ele foi devolvido à
Terra em estado de terror a trinta quilômetros do
ponto onde tudo começara. Naquela altura, perdeu
toda memória de suas experiências a bordo do
óvni, só voltando a recuperá-la mais tarde, com o
auxílio da hipnose.
Até aqui, a história de Hermann corresponde ao
cenário padronizado das histórias de rapto.
Segundo ele depôs, contudo, mais tarde os
reticulanos passaram a transmitir-lhe mensagens
complexas através de escrita automática, além de
lhe restituírem a memória completa do rapto.
Depois disso, ele entabulou uma relação amistosa
com esses seres, tendo sido voluntariamente
levado a bordo da nave deles. Ele se lembrou, sem
hipnose, de o terem levado a passeio pelo rio
Salado na Argentina e em seguida de volta ao
norte da Flórida, onde lhe mostraram o Manned
Space Complex. Esta parte de sua história é típica
de casos de contatos.
A recepção de mensagens através da escrita
automática ilustra um processo popularmente
conhecido como canalização, mediante o qual uma
pessoa escreve ou fala do tema que ela não
reconhece ter se originado em sua própria mente.
Embora se costume achar que semelhante tema
emana de algum outro ser, o qual atua como um
transmissor de informação, ele pode de fato se
originar na mente do canalizador.
Comunicações canalizadas são ocorrências
freqüentes em casos de contatos; deste modo, a
escrita automática produzida por Hermann é um
elo entre o caso dele e casos desta espécie. Mais
adiante neste capítulo (páginas 226-32), analisarei
o teor de algumas das mensagens produzidas por
ele.
Outro relato combinando aspectos de casos de
rapto e casos de contato envolveu Filiberto
Cardenas, imigrante cubano e morador de Hialeah,
Flórida. Este caso foi averiguado por um advogado
e investigador de ufológico chamado Virgilio
Sanchez-Ocejo, de cujo relato vem minha
informação sobre o mesmo.
Em Cuba, Cardenas estudara fisioterapia e se
tornara técnico em eletro-cardiografia. Alistou-se
no Exército cubano, descobriu-se no lado errado
da revolução comunista de Fidel Castro e acabou
passando nove anos na prisão. Libertado da
prisão, emigrou para os Estados Unidos, onde
arrumou diversos empregos, foi gerente de uma
loja de presentes e, enfim, gerente de um posto de
gasolina.
Na noite de 3 de janeiro de 1979, Cardenas, seu
amigo Fernando Marti, a esposa de Marti e sua
filha de treze anos de idade andavam de
automóvel pelas redondezas de Hialeah,
procurando um porco para fazer um assado. Não
encontrando o porco, eles voltaram para casa —
só que, no meio do caminho, o motor do carro
pifou.
Os dois homens, verificando que as luzes e a
ignição não estavam funcionando, saíram do carro
e se puseram a examinar embaixo do capô. Nessa
altura, viram luzes que se alternavam entre as
cores vermelha e violácea e se refletiam no motor,
e ouviram um som "como o de muitas abelhas". O
carro começou a se sacudir, a luz assumiu
tonalidade branca brilhante e Fernando
engatinhou mais para baixo do capô para se
proteger. Enquanto isso, Filiberto, sentindo-se
paralisado, passou a se erguer no ar, gritando:
"Não me levem! Não me levem!" Fernando o viu
subindo e, quando já tinha saído de baixo do capô,
tudo que pôde ver foi um "objeto volumoso que
ascendeu e depois afastou-se dali".
A próxima coisa de que Filiberto se lembrou foi de
quase ter sido atropelado por um carro na rodovia
Tamiami, cerca de dezesseis quilômetros de onde
ele havia sido erguido. A polícia ficou tão perplexa
com a história que a identificou, no relatório oficial
de ocorrência, como "contato imediato do terceiro
grau".
Sob hipnose, Filiberto a princípio se recusou a
dizer o que acontecera durante o rapto porque
"eles me disseram para não falar nada". Mais
tarde, ele contou uma história estranha e
elaborada que começava com ele despertando
para se achar sentado, paralisado, na presença de
um ser parecido com um robô e dois homenzinhos
com vestes justas.
Um dos homens tentou falar com Filiberto em
alemão, inglês e por fim espanhol, girando um
botão num canto de seu peito toda vez que
trocava de idioma. Fizeram um exame em
Filiberto, deixando, segundo ele, 108 marcas em
seu corpo, e em seguida levaram-no até a
presença de um indivíduo que estava sentado num
trono elevado e vestia um manto e uma corrente
da qual pendia uma pedra triangular. Este
personagem teve uma longa conversa com ele,
tanto por telepatia quanto em espanhol perfeito, e
mostrou-lhe muitas cenas extraordinárias
projetadas nas paredes.
Segundo disse Filiberto, os seres alienígenas
pareciam bem humanos. Tinham olhos alongados
com pestanas, pequenos narizes achatados,
compridas bocas sem lábios e barbas ralas.
Portavam, também, um símbolo à direita do peito,
consistindo numa serpente sobre um X irregular.
A história se torna mais extraordinária ainda: em
seguida, os seres levaram Filiberto a uma base
submarina, viajando no fundo do mar, em alta
velocidade, através de um túnel de "água firme"
que parecia se abrir em frente da nave para que a
água não a tocasse. Na base, ele se encontrou
com um humano que estava trabalhando com os
alienígenas e foi conduzido pelo que parecia ser
uma cidade. Foi mais uma vez paralisado e
examinado, e extraíram-lhe uma amostra de
sêmen. Depois, outra figura entronizada e vestindo
um manto lhe deu instruções ilustradas com
imagens projetadas em conjuntos de telas de tevê.
Após muitas experiências semelhantes que
pareceram continuar por muitos dias, ele foi
deixado perto da rodovia Tamiami depois de um
lapso de cerca de duas horas segundo os cálculos
de tempo da Terra.
Esta poderia ser considerada uma história de
tempo perdido insuficiente. Sem dúvida, é uma
história difícil de acreditar, mas não há
necessidade de supor que seja de todo verdadeira
ou de todo falsa. É possível, por exemplo, que
Filiberto Cardenas tenha mesmo sido levado pelo
céu afora, conforme depôs Marti. Mas as
experiências relatadas por ele sob hipnose podem
ter sido em parte geradas por sua própria mente.
Ou, então, podem ter sido projetadas em sua
mente por meio de quem o raptou.
Tanto quanto no caso Hermann, houve um
segundo encontro com os alienígenas. Nesta
ocasião, Filiberto e sua esposa Íris voluntariamente
subiram uma rampa para entrar na nave
alienígena e tiveram uma conversa amistosa com
seus ocupantes quase humanos. Mais tarde, eles
lograram se lembrar diretamente desta
experiência, sem necessidade de hipnose. Este
tipo de encontro voluntário numa nave alienígena
é típico de histórias de contatos, mas é incomum
duas testemunhas participarem de semelhante
encontro.
Apesar de seus muitos aspectos típicos de casos
de contatos, o caso Cardenas também apresenta
muitos aspectos usuais em relatos sobre rapto por
óvnis. Entre estes, incluem-se histórias de
transplantes que não puderam ser detectados por
meio de recursos médicos, histórias de
cruzamentos entre alienígenas e humanos e
histórias de fenômenos psíquicos que sucederam
ao rapto. O caso também inclui, é claro, o próprio
rapto dramático, que foi confirmado por três
testemunhas oculares.
O contato completo
Passo agora a uma história de contato com óvni
que é notável pela quantidade e variedade de
provas de apoio. A história tem sido bastante
denunciada como sendo um embuste, e eu tendo
a concordar que ela o seja. No entanto, há motivos
para acreditarmos ser esta história mais que um
simples embuste consciente e deliberadamente
arquitetado pela testemunha. Poderia ser uma
fraude elaborada envolvendo um conluio entre
diversas testemunhas e os esforços de uma equipe
de especialistas nos bastidores de Hollywood.
Outra possibilidade, que eu creio merecer séria
consideração neste caso, é o fato de o embuste
talvez envolver a manipulação da testemunha por
parte de seres do tipo vinculado aos óvnis. Seja
qual for a explicação correta, é importante saber
que tais casos estão acontecendo.
Ao apresentar este caso, darei primeiro a boa
notícia — os motivos para se pensar em sua
possível autenticidade. Em seguida, mencionarei a
má notícia e farei algumas observações sobre o
que poderia estar ocorrendo de fato neste caso.
A história começa em 28 de janeiro de 1975,
quando um vigia noturno suíço, de apenas um
braço, chamado Eduard "Billy" Meier, passa a
receber ordens telepáticas para encaminhar-se
sozinho a pontos de encontro em regiões pouco
freqüentadas nas proximidades de Hinwil, sua
aldeia rural. Chegando a um local designado, ele
às vezes tira fotos ou faz filmes de espaçonaves
alienígenas seguindo instruções telepáticas.
Outras vezes, uma nave aterrissa e ele mantém
longas conversas em alemão com seu piloto de
aparência inteiramente humana, uma bela mulher
chamada Semjase. Outras vezes ainda, movido por
telecinesia até a espaçonave, é levado em
extensos passeios.
Filmes e fotografias
Meier tinha mais a oferecer do que apenas uma
história fantástica. Muito embora tivesse apenas
um braço, ele tirara mais de seiscentas fotos de
alta qualidade de naves alienígenas sobrevoando
as áreas rurais suíças, solitárias ou em grupos.
Tinha testemunhas oculares entre seus amigos
que também viram essas naves e, em certos
casos, as fotografaram. Além disso, fizera diversos
filmes vividamente realísticos das naves com uma
câmera de oito milímetros.
Os filmes foram examinados por Wally Gentleman,
um perito de Hollywood em efeitos especiais que
trabalhara em 2001: Uma odisséia no espaço. Ele
concluiu: "Sem dúvida, este Meier teria que ter
uma equipe de assistentes peritos, pelo menos
quinze pessoas, que tivessem noção da interface
dos reflexos de um objeto brilhante em
determinados momentos do dia, que soubessem
apoiar estes objetos sem que os fios de
sustentação fossem vistos... Para eu montar um
embuste desta magnitude para alguém, seriam
necessários trinta mil dólares e um estúdio com
equipamento adequado para fazê-lo. O
equipamento custaria mais cinqüenta mil."
Tendo a oportunidade de assistir aos filmes, tive a
impressão de que seriam necessários esforços
consideráveis para falsificá-los. Em um dos filmes,
um óvni discóide parece voar de um lado para
outro em movimento pendular perto de um velho
pinheiro. Logo, por uma hipótese, o óvni seria um
modelo balançando como um pêndulo preso a uma
linha fina. Contudo, temos aqui apenas um
movimento pendular aproximado. Se alguém
tentar duplicar o trajeto do vôo balançando um
pêndulo seguro pela mão, só logrará fazê-lo
mexendo a extremidade superior da linha de uma
forma complicada. Para o período de tempo do
movimento de vaivém do óvni, seria necessária
uma linha de pêndulo de cerca de seis metros de
comprimento. Como alguém conseguiria segurar a
linha no ar e balançar-lhe a extremidade superior
para formar arcos amplos? Isto poderia ser feito
num estúdio, mas decerto seria difícil um homem
de um braço fazê-lo num campo agrícola.
Há, ainda, o célebre fato de que, no filme, quando
o óvni sobrevoa a copa da árvore, esta se mexe
como que soprada por seu deslocamento de ar.
Considerando o aparente realismo deste efeito,
teria sido necessário prepará-lo e coordená-lo com
os movimentos do modelo. (Seria preciso ter um
pequeno modelo bem na frente de uma árvore de
verdade e, nor¬malmente, a miniatura de uma
árvore não balançaria da maneira mostrada no
filme.)
Além disso, um modelo em movimento pendular
não reproduziria a maneira como o óvni cambaleia
em certos momentos. Talvez fossem necessários
fios múltiplos para produzir este efeito. Ou talvez
fosse preciso montar uma fotografia, fotograma
por fotograma, de um modelo cuidadosamente
suspenso. Acima de tudo, os comentários de Wally
Gentleman parecem bastante razoáveis, dando a
entender que, se houve um embuste, saiu caro e
exigiu uma equipe de conspiradores.
Algumas das fotografias foram estudadas pelo Dr.
Michael Malin, um perito em edição de imagens,
que trabalhara quatro anos no Laboratório de
Propulsão a Jato antes de ingressar na
Universidade Estadual do Arizona, em Temple, em
1979, para ensinar geologia planetária. Ele
observa: "Acho as fotografias em si acreditáveis.
São fotografias boas. Parecem representar
fenômenos reais. Só acho inacreditável a história
de um fazendeiro da Suíça tendo intimidade com
dúzias de alienígenas que vêm visitá-lo."
Seria mais fácil falsificar as fotos do que os filmes,
mas, mesmo assim, seria necessário muito
trabalho. Algumas delas parecem mesmo
realísticas, conforme os citados comentários de
Malin, mas algumas outras têm impressionado
muitas pessoas por parecerem bastante
implausíveis. Exemplos disto seriam as duas
últimas fotos do livro de fotografias UFO... Contact
from the Pleiades, volume II, escrito por Lee e Brit
Elders. Para se produzir estas fotos, contudo,
seriam necessários modelos caros e de primeira
classe.
Muitos têm acusado Meier de ter feito e
fotografado modelos de óvnis. No entanto,
segundo salienta o investigador Wendelle Stevens,
Meier pedira abertamente para um jovem amigo
fazer um modelo e o fotografara na presença de
outros amigos, sem alegar que as fotos
representavam o objeto em si. Meier tinha, afirma
ainda Stevens, fotos destes modelos reconhecidos
nos álbuns que mostrava aos visitantes.
Talvez tudo isto seja verdade. De qualquer modo,
a única conclusão a que se pode chegar sobre as
fotografias é que, caso sejam falsas, foram
falsificadas com muito profissionalismo. Provas
fotográficas são sempre insatisfatórias, uma vez
que, com dinheiro, esforço e inventividade
suficientes, seria possível falsificar praticamente
qualquer fotografia.
Meier tinha intimidade com amigos curiosos e,
segundo um dos temas do caso Meier, alguns
deles viviam querendo acompanhá-lo num contato
e ver as naves alienígenas com seus próprios
olhos. De fato, alguns desses amigos alegaram ter
visto fenômenos estranhos, às vezes
impressionantes, no céu, em excursões noturnas
com Meier, tendo tirado suas próprias fotografias
destes fenômenos. Sem dúvida, se Meier estava
perpetrando um embuste, na certa seus amigos
estavam fazendo parte da mesma trama.
Pistas de pouso, sons e amostras
minerais
Afora as provas fotográficas, Meier podia apontar
muitos exemplos de estranhas "pistas de pouso"
volteadas em campos agrícolas onde, segundo ele,
as naves haviam parado. Uma pista típica consistia
em três volteios de grama, cada um deles com
dois metros de diâmetro, dispostos num triângulo
equilatero. A grama em cada volteio estava
depositada numa espiral bem-feita com uma borda
externa pontuda, semelhante aos "círculos
agrícolas" que mais tarde atrairiam a atenção de
muitas pessoas na Inglaterra. A testemunha local
Herbert Runkel comenta: "Estou certíssimo de que
Billy não teria como fazer pistas como aquelas.
Tenho muitas vezes sido testemunha de pistas de
pouso e tenho fotos muito nítidas e minuciosas de
muitos locais diferentes, de modo que posso dizer
isto com 100% de certeza."
Depois, havia os sons. Meier fizera gravações em
fita de insólitos sons agudos produzidos pelas
naves espaciais, e tinha inúmeras testemunhas
cujo depoimento afirmava virem realmente do céu
aqueles sons. Em Los Angeles, o engenheiro de
som Nils Rognerud e o desenhista de sistemas
eletrônicos Steve Singer analisaram um segmento
de três minutos dos sons das naves espaciais, que
haviam sido gravados na presença de quinze
testemunhas. Segundo concluíram eles, o
complexo padrão alternado de freqüências sonoras
distintas apresentou "problemas de duplicação
além da capacidade dos equipamentos no seu
estágio atual".
Por fim, Meier tinha dado aos investigadores
amostras minerais fornecidas pelos alienígenas.
Algumas dessas amostras foram analisadas por
Mareei Vogel, pesquisador científico sênior da IBM.
Vogel, especialista em engenharia de materiais,
inventou o revestimento de memória do disco
magnético IBM. Uma amostra, descobriu ele,
continha um mosaico de partículas microscópicas
de elementos puros, inclusive o túlio, raro
elemento metálico terroso. Vogel resumiu sua
análise desta amostra como segue: "Não tenho
como explicar o tipo de material que veio parar em
minhas mãos. Na qualidade de cientista, não
conheço nenhuma combinação de elementos que
pudesse formar aquele material. Com quaisquer
das tecnologias que conheço, não teríamos como
chegar a tal resultado neste planeta!"
Histórias confirmatórias
Wendelle Stevens compilou uma série de relatos
sobre óvnis, oriundos de fontes independentes,
que parecem apoiar direta ou indiretamente a
história de Meier. A seguir, apresento alguns deles:
1. O pesquisador ufológico europeu Ilse von Jacobi
conseguiu uma carta originalmente enviada de
Antakaya, Turquia, em 8 de março de 1975, por
uma turista alemã chamada Elsa Schroder. Esta
carta fora escrita para Sr. Carl Veit de Wiesbaden,
editor de UFO Nachrichten (Noticiário sobre óvnis).
Segundo conta a senhorita Schroder, enquanto
dormia numa tenda com seu namorado, perto da
cidade de Zahedan, Irã, ela foi atraída até o
deserto por um som incomum. Lá ela viu uma
mulher em trajes estranhos fazendo escavações
com alguma espécie de máquina. As duas
conversaram em alemão, e a estranha mulher se
identificou como Semjaze ou Semjase, nome
usado pelo contato pleiadiano segundo alegara
Meier. Em seguida, ela partiu voando num "Disco
Voador". Supostamente, Meier nada tinha a ver
com esta carta, mas a teoria da conspiração diria o
contrário, é claro.
2. Um homem chamado Horst Fenner relatou que
sua mente foi atraída até a selva próxima a
Trinidad, Bolívia, onde estava pousado um óvni. Ali
ele se encontrou com os ocupantes do óvni, todos
de aparência humana, que falaram com ele em
seu alemão nativo por meio de uma máquina de
tradução e lhe disseram que vinham de Próxima
Centauri. Contaram-lhe acerca dos pleiadianos,
mencionaram ter um contato chamado Billy na
Suíça e disseram que sua expedição à Terra era
liderada por um homem chamado Quetzal e sua
auxiliar chamada Semjase. Stevens ficou sabendo
disto por uma carta datada de 2 de janeiro de
1976, de Fenner para um amigo chamado Albers.
Albers enviara cópias desta carta para diversos
grupos de estudo ufológicos. Na certa, a teoria da
conspiração sustentaria que esta carta fora
enviada a Stevens pelos conspiradores ligados a
Meier.
3. Em Charleston, Carolina do Sul, William
Herrmann tem recebido mensagens de seres que
afirmam vir da constelação Reticulum e pertencer
a uma federação chamada "The Network" (veja
páginas 205-07). Numa mensagem de 25 de
agosto de 1981, eles falaram da raça pleiadiana,
do Conselho de Dorado e da Assembléia
Horologium. Reticulum, Horologium e Dorado são
três constelações adjacentes no hemisfério sul. A
mensagem reticulana autorizou a gravação em
vídeo de documentos da "Network" e, por volta da
mesma época, Meier recebeu uma permissão
semelhante de seus contatos pleiadianos.
Os reticulanos comentaram sobre uma expedição
ao "sistema estelar Andrômeda". Meier também
mencionou Andrômeda. Os pleiadianos, disse ele,
obedecem a autoridades de lá, que são entidades
não-físicas com corpos feitos de alguma forma de
energia. Devo salientar, a este respeito, os relatos
sobre mensagens de óvnis do início da década de
1950, segundo as quais Andrômeda seria um
mundo de grande avanço espiritual.
4. Meier disse que seus primeiros contatos
extraterrestres foram na infância, sempre
envolvendo um homem idoso chamado Sfath, o
qual descia numa nave espacial. Segundo o que
uma certa mulher, L. V, informou a Stevens em
1984, ela tinha toda uma vida de experiências de
contato com óvnis, desde os seus três anos e
meio, em 1945. Àquela época, ela se encontrou
com um homem em seu quintal que disse se
chamar Sfath. Para efeitos de comparação, Meier
afirmou ter tido seu primeiro encontro com Sfath
em 1944.
O caso da mulher foi estudado por investigadores
em 1979, mas, àquela época, ela nada sabia a
respeito de Meier. Segundo afirmou, ela só veio a
conhecer a história de Meier em 1984, tendo
entrado em contato com a equipe de Stevens logo
em seguida.
Discrepâncias sortidas
Estas histórias, na medida em que sejam
verdadeiras, apresentam paralelos com a história
de Meier. No entanto, também existem
discrepâncias dentro desta história. Segundo a
testemunha Herbert Runkel, por exemplo, certa
vez Meier revelou algumas fotografias de San
Francisco após um terremoto, dizendo terem elas
resultado de uma viagem no tempo com Semjase.
Mais tarde, contudo, uma pintura bastante
parecida com aquelas fotos foi encontrada na
revista GEO por um dos amigos de Herbert,
parecendo claro que havia sido usada como
modelo para as fotos de Meier. Os pleiadianos,
segundo teria alegado Meier, deviam ter colocado
um quadro do futuro verdadeiro na mente do
artista da GEO.AS Neste caso, Meier parece estar
mentindo ou, então, sendo ludibriado por uma
fraude.
Embora isto não soe bem, o que chamo de má
notícia começa a vir à tona de fato ao
examinarmos de perto as conversas que Meier
disse que teve com Semjase. Após cada encontro
com Semjase, diz Meier, ele voltava para casa e,
com o auxílio das técnicas pleiadianas de
transmissão e gravação de pensamento, fazia
anotações precisas de tudo o que fora falado.
Meier datilografou mais de duas mil páginas de
"notas de contato", salienta Stevens, detalhando
suas conversas com Semjase. Ele chegava a
datilografar trinta a quarenta páginas de uma vez
e, "segundo relatam as testemunhas que
observaram a recepção dessas transmissões, a
escrita flui com muita rapidez e em cadência de
constância ininterrupta, do começo ao fim da
mensagem".
É surpreendente a boa qualidade literária das
notas de contato de Meier, e o caráter arrogante
de Semjase é mais bem retratado do que os das
personagens de muitas das histórias populares de
ficção científica. As notas de contato também
contêm informações científicas atualizadas,
informações bastante precisas para cuja aquisição
por vias normais seriam necessárias visitas
regulares a uma boa biblioteca. Afora o fato de
Meier viver na Suíça rural e ter freqüentado a
escola apenas até o sexto ano primário, as
descrições de seu estilo de vida não fazem
menção de visitas a bibliotecas. Portanto, para se
justificar a teoria do embuste, seria necessário
haver um bom assistente de pesquisa na equipe
de conspiradores de Meier.
Talvez seja significativo o fato de os dados
científicos constantes nas notas de contato de
Meier se ajustarem bem às mais recentes
descobertas científicas publicadas à época, apesar
de nem sempre se ajustarem a posteriores
avanços científicos. Em julho de 1975, por
exemplo, Meier alegou ter sido levado a uma visita
a Vênus na nave espacial de Semjase. Suas notas
de contato citam muitas informações sobre as
características da atmosfera e da superfície de
Vênus que são bem compatíveis com os dados
então divulgados a partir de estudos com radar e
das sondas espaciais Mariner e Venera.
Quanto à sua viagem a Vênus, diz Meier: "A
paisagem é inóspita e cheia de crateras.
Montanhas não muito altas podem ser vistas
apenas em algumas partes. Num canto, vejo uma
enorme área sem montanhas e cheia de crateras."
Isto é interessante, pois se especulava muito sobre
as crateras de Vênus na época. Hoje em dia,
contudo, segundo parecem demonstrar as
imagens por radar da sonda espacial Magellan,
"uma das mais surpreendentes características da
topografia venusiana é a sua nítida falta de
crateras".
Como era ligeiro em produzir páginas e páginas de
informação detalhada sem notas de consulta,
Meier parece ter escrito tudo isso em alguma
espécie de estado alterado de consciência. Esta
atividade parece ser outro exemplo de canalização
por parte de um contato, podendo ser comparada
à escrita automática relatada em relação a William
Herrmann. No entanto, a fonte de produção de
Meier pode ter sido algo bastante diferente de
viajantes espaciais pleiadianos. Resta saber se tal
fonte era a própria mente subconsciente de Meier
ou algum agente externo.
Uma série de pontos nas notas de contato indica
não terem as mesmas se originado de viajantes
espaciais sofisticados. Por exemplo: durante um de
seus encontros, Semjase disse a Meier: "Esta
chamada Era de Aquário (também conhecida como
a Era Dourada vindoura) abranda o sofrimento da
atual Era de Peixes, que está para terminar depois
de quase dois mil anos. Esta mudança se baseia
na circulação de seu sistema solar ao redor de um
grande sol central uma vez a cada 25.920 anos.
Com isto, a passagem por cada um dos dozes
signos do seu Zodíaco dura cerca de dois mil anos,
com cada um destes signos imprimindo suas
próprias características sobre a humanidade que
vive nestes períodos."
Prosseguiu afirmando que esta mudança de um
signo zodiacal para outro será acompanhada por
revoluções e eventos catastróficos, incluindo
terremotos, erupções vulcânicas, enchentes, a
mudança do eixo da Terra e mudanças climáticas.
É curioso o fato de predições desta natureza
serem feitas com freqüência por entidades
ufológicas, além de também ser freqüente
testemunhas de contatos imediatos sonharem com
tais eventos. Também é comum tais predições
serem feitas por médiuns, tais como Edgar Cayce.
Ora, de acordo com os astrônomos, a posição do
Sol no equinócio da primavera (quando dia e noite
são iguais) altera-se devagar contra o pano de
fundo das estrelas a uma média de 50,291
segundos de arco por ano. Esta é a chamada
precessão dos equinócios. O equinócio da
primavera leva cerca de 26 mil anos para fazer um
circuito completo e cerca de dois mil anos para
atravessar um signo do Zodíaco.
Sem dúvida, Semjase estava se referindo à
precessão dos equinócios. Todavia, a estimativa
feita por ela de 25.920 anos corresponde a
exatamente 50 segundos de arco por ano, o que
dificilmente seria uma coincidência. Isto parece
estranho, vindo de evoluídos viajantes do espaço.
Por que arredondar a taxa de precessão em
segundos de arco por ano e depois convertê-la a
um significativo resultado de cinco dígitos, ou seja,
25.920 anos?
A teoria de Semjase de que o sistema solar orbita
ao redor de um sol central distoa do entendimento
moderno de que a precessão é causada pela
atração gravitacional do Sol e da Lua sobre a
saliência equatorial da Terra. Mas acontece que Sri
Yukteswar, o guru de Paramahansa Yogananda,
tinha uma teoria da precessão segundo a qual o
sistema solar gira, na verdade, em torno de um sol
central. Como Meier passara algum tempo vivendo
em diversos ashrams na Índia, ele pode muito bem
ter tomado conhecimento desta teoria. Também
encontrei a teoria de precessão do sol central
numa série de outros escritos populares.
Outro número mencionado por Semjase é
311.040.000.000.000. Esta vem a ser a duração de
vida de Brahmã em anos solares, segundo calcula
a literatura védica. O mesmo número é usado de
maneira diferente pelos teosofistas, sendo o uso
de Semjase semelhante ao deles. Semjase
também contou a Meier que os pleiadianos
preservam histórias de Hyperboria, Agartha,
Mukulia e Atlântida, continentes e civilizações
perdidos muito estudados pelos teosofistas. Os
escritos de Meier parecem definitivamente conter
elementos teosóficos e, conforme nos informa
Stevens, ele era membro de um grupo de estudos
metafísicos que "se reunia com freqüência para
discutir textos teosóficos e metafísicos".
Extraterrestres bíblicos
Segundo diz Meier, ele foi levado pelos pleiadianos
para visitar uma enorme nave-mãe no espaço
exterior, tendo relatado que a citada nave tinha
uma população de 144 mil ocupantes. Decerto,
não se trata de coincidência o fato de 144 mil ser o
número dos eleitos mencionados no Apocalipse
bíblico. O líder desta nave-mãe era o pai de
Semjase. Este homem disse a Meier: "Chame-me
Ptaah, pois é por este nome que você me
reconhece." Mas Ptaah é o nome do deus-líder da
antiga Mênfis no Egito. E, o que é pior, o título
Ptaah se transformou em IHWH, o nome hebraico
de Deus que costuma ser escrito como Javé ou
Jeová.
E quanto a Semjase? Se consultarmos este nome
em A Dictionary of Angels (Um dicionário de
anjos), descobriremos um nome muito parecido,
com ortografias que incluem Semjaza e Semyaza.
Este Semjaza foi descrito em antigos textos
hebreus como um anjo caído. Consta da lista de
um grupo de anjos caídos chamados os Guardiões:
Segundo Book of Jubilees, os Guardiões são os
filhos de Deus (Gênesis, 6) enviados do céu para
instruir os filhos dos homens; eles caíram após
descerem à Terra e coabitarem com as filhas dos
homens — e devido a este ato foram condenados
(assim diz a lenda) e tornaram-se anjos caídos.
Porém, nem todos os Guardiões desceram: os que
ficaram, os Guardiões santos, residem no Quinto
Céu. Os Guardiões maus residem, ou no Terceiro
Céu, ou no Inferno.
Isto combina bem com o relato de Meier dos
ensinamentos de Semjase. Segundo Semjase, os
ancestrais dela foram responsáveis pela origem da
raça humana moderna:
Quando nossos ancestrais se estabeleceram na
Terra, encontraram homens das cavernas vivendo
sob condições extremamente primitivas. Alguns
destes ancestrais encontraram fêmeas atraentes
entre os primitivos e se acasalaram com elas. Com
este ato, contudo, infringiram uma lei rígida
imposta por seu líder, que queria preservar sua
própria raça hiper desenvolvida como ela era.
Apesar de terem recebido castigo severo, por meio
daquele ato foram produzidos os ancestrais da
raça humana presente na Terra hoje em dia.
Naquela época, os produtos desta mistura eram
chamados "Adões", que queria dizer,
simplesmente, "homens da Terra", e suas
contrapartidas femininas eram chamadas "Evas",
que significava "portadoras".
Acontece que Meier tem um antigo interesse em
assuntos bíblicos. Ele produziu um livro chamado
The Talmud of Jmmanuel (O Talmude de
Immanuel) que, segundo alega ele, é a tradução
de um antigo texto aramaico sobre Jesus Cristo. (O
J em Jmmanuel deve ser pronunciado como um I.)
Jmmanuel, segundo Meier, é o nome próprio de
Jesus Cristo, e o texto é a história de Jmmanuel
escrita há cerca de 1.900 anos por Judas
Iscariotes. Este texto, disse Meier, foi descoberto
sob a forma de rolos de pergaminho por um
sacerdote ortodoxo grego chamado Isa Rashid.
Rashid teria trabalhado, supõe-se, sob a
orientação de Meier numa tradução para o alemão
de alguns dos pergaminhos em Jerusalém em
1963. Os pergaminhos originais se perderam
durante um ataque israelita a um campo de
refugiados libaneses onde estava Rashid, e o
mesmo Rashid foi assassinado mais tarde.
Meier foi franco em declarar não estar diretamente
apresentando o material que obteve com Rashid.
Diz ele: "A versão alemã representa uma cópia da
tradução do aramaico antigo, mas sob uma forma
corrigida por Eduard A. 'Billy' Meier e codificada
segundo exigências da Missão." Segundo Meier,
80% do "estilo e da estrutura das frases" na obra
era dele e 20% de Rashid.
Talvez alguém indague o que vem a ser a
"Missão". De qualquer modo, o texto apresentado
por Meier começa com a história de como o anjo
Semjasa se acasalou com uma mulher terráquea e
gerou Adão. Os anjos são seres do espaço, e
Jmmanuel foi gerado por um deles numa mulher
da Terra (Maria). Segundo o texto, Jmmanuel
ensinou uma filosofia segundo a qual Deus é
descrito como o líder de uma raça de viajantes do
espaço. Deus é um ser mortal, e a causa última do
universo não é Deus. Pelo contrário, é a Criação,
um termo usado por Meier para designar o
Absoluto impessoal.
A hipótese da trapaça alienígena
Nesta altura, uma reação natural seria
estigmatizar Meier como uma fraude completa e
dispensá-lo de considerações ulteriores. Contudo,
se assim fizermos, poderemos estar simplificando
as coisas demasiadamente. Em primeiro lugar,
existem provas elaboradas apresentadas a favor
da história de contato de Meier. Eu argumentaria
que, se tudo isto é resultado de uma fraude, há
um esforço organizado por trás dela. Todavia, as
pessoas nele envolvidas não foram
desmascaradas. Se a teoria da fraude é correta,
quem são estas pessoas, quais são os motivos
delas e que mais poderiam estar tramando?
James Deardorff, professor aposentado de ciências
atmosféricas da Universidade Estadual de Oregon,
escreveu um livro analisando The Talmud of
Jmmanuel (TJ). Segundo salienta Deardorff, este
texto se assemelha muito ao Evangelho de
Mateus. Ele selecionou um destacado erudito do
Novo Testamento chamado Francis Beare, tendo
examinado aqueles versículos de Mateus criticados
por Beare pela probabilidade de serem
inautênticos. Observou existirem "cerca de 194
pontos onde Francis Beare foi logicamente crítico
quanto à autenticidade de Mateus, mas onde os
cognatos do TJ não sofrem a mesma crítica".
Porém, houve apenas 51 casos onde o TJ discorda
das críticas de Beare. Baseado nesta observação e
em outras, concluiu Deardorff, o TJ pode muito
bem ser um precursor autêntico do Evangelho de
Mateus.
Embora retenha graves dúvidas quanto à
autenticidade de The Talmud of Jmmanuel, eu
careço da perícia necessária para fazer uma
avaliação integral dos argumentos de Deardorff.
De fato, eles parecem indicar que, se esse texto é
um embuste, certamente, então, foi produzido por
uma pessoa com conhecimento sofisticado de
erudição bíblica. Isto acrescenta outra dimensão
de complexidade à teoria segundo a qual o caso
Meier é uma fraude humana.
Como ainda não ficou provada a teoria da fraude
organizada, devemos estar abertos a outras
possibilidades. Uma destas possibilidades,
bastante estudada por Jacques Vallee, poderia ser
chamada a hipótese da trapaça alienígena.
Vallee estudou o contato francês chamado Claude
Vorilhon, cuja história contém uma série de
elementos semelhantes aos de Meier. Vorilhon
alega ter se encontrado com extraterrestres
chamados Elohim, os quais lhe deram o nome de
anjo Rael e ensinaram-lhe que haviam criado a
raça humana num laboratório. Estes ETs
avançados, discordando mais tarde de nosso
desenvolvimento, dividiram-se em duas facções
lideradas por Jeová e Satã. Segundo também
disseram a Rael, Moisés, Buda e Jesus Cristo eram
emissários extraterrestres. Munido deste
conhecimento, Rael acabou fundando uma religião
com cerca de trinta mil adeptos. (Neste ponto ele
difere de Meier, o qual se opôs à idéia de fundar
uma seita baseada em seus ensinamentos.)
Vallee não fez apenas descartar Vorilhon
tachando-o de mentiroso ou tolo iludido. Como,
então, se explica a estranha história de Vorilhon? A
sugestão de Vallee foi a seguinte:
Devemos buscar uma resposta na direção indicada
pelo próprio fenômeno: ele tem elementos
humanos; todavia, parece estranho. É físico em
aparência; todavia, também se comporta como
uma projeção do inconsciente. Sugiro que
representa uma tecnologia, como o aparelho de
televisão, capaz de manipular as percepções da
mente humana. Temos a tentação de dizer que
Vorilhon teria tido uma experiência inicial,
passando a alucinar mais tarde. (...) Alucinação é
um termo amplo, contudo, e implica que nada na
experiência foi real. Esta não é a minha intenção.
Nesta passagem, "fenômeno" se refere ao
fenômeno ufológico, interpretado por Vallee como
sendo um sistema de controle que intervém em
assuntos humanos, mas nos é desconhecido e
talvez desconhecível. Conforme sugeriu ele, este
fenômeno poderia estar propiciando às pessoas
experiências extraordinárias, que, apesar de
essencialmente falsas, seriam mais do que simples
ilusões geradas por suas próprias mentes. Em
outras palavras, o fenômeno ufológico é um
enganador.
Conforme uma versão mais concreta desta teoria
da trapaça, existem seres humanóides de verdade
que se dedicam a atos de trapaça. Esta versão traz
a vantagem de levar em conta os primórdios de
uma explicação do motivo pelo qual a trapaça
acontece. Como sabemos que os humanos se
sentem às vezes motivados a fazer alguma
trapaça, é plausível o fato de os humanóides
dotados de psicologia semelhante também serem
movidos por tais motivos.
A teoria da trapaça pode ser aplicada ao caso de
Eduard Meier como segue. Talvez Meier tenha
mesmo tido contatos com seres alienígenas, cujos
óvnis teria fotografado por influência deles. Ou
talvez algumas ou todas as suas fotos fossem
falsas. Mas talvez sua história elaborada — com
suas tantas inconsistências — tenha sido projetada
em sua mente por visitantes alienígenas reais. Isto
poderia ter acontecido durante as sessões em que
o observaram datilografando trinta a quarenta
páginas de material detalhado, sem interrupção e
sem consultar notas.
Seria possível descartar como sendo mentirosa a
história da datilografia ininterrupta de Meier. No
entanto, existem muitos casos conhecidos de
canalizadores que produzem grandes quantidades
de material, quer através da escrita automática,
quer falando em transe. A história da datilografia
de Meier não é implausível. Resta saber se o
material por ele produzido se originou
inteiramente de sua própria mente ou se houve o
envolvimento de uma fonte externa. Embora seja
difícil saber ao certo, é nítida a possibilidade de
uma fonte externa.
Apesar de também se poder explicar o embuste do
próprio Meier com a hipótese da trapaça
alienígena, isto parece ser uma evasiva. Explica-se: se Meier acreditasse piamente na história que
lhe haviam transmitido, ele também precisaria
trapacear de vez em quando a fim de fazê-la
parecer mais verossímil. Foi isto que Zinsstag e
Stanford acusaram Adamski de ter feito, o que é
compatível com a natureza humana.
Estes argumentos não são decisivos, é claro.
Porém, contam com o apoio de um conjunto
adicional de provas que se enquadra no modelo da
trapaça externa. Tem-se repetidas vezes relatado
fenômenos paranormais com relação às atividades
de Meier. Segundo consta, Meier teria aparecido e
desaparecido misteriosamente, feito predições
mediúnicas, tido premonições de tentativas de
assassinato e manifestado diversas faculdades
paranormais. Embora isto pudesse ser encarado
como outra prova da fraude, é compatível com o
vínculo óvni-fenômeno-psíquico descrito no
Capítulo 4 (páginas 75-77). Meier atribuiu estes
fenômenos a seus contatos pleiadianos, mas a
hipótese da trapaça seria atribuída a seres
entrando em contato com ele com segundas
intenções.
A hipótese da trapaça alienígena tem implicações
importantes em relação ao que podemos esperar
obter como prova. Suponhamos, para efeitos de
argumentação, que seres superiores a nós em
tecnologia ou faculdades naturais estejam
entrando em contato conosco, mas não queiram
que tenhamos provas nítidas de sua existência.
Teríamos alguma chance de obter provas
categóricas de que eles existem? Talvez não. Sem
dúvida, não seria de esperar que tais seres
concedessem uma conferência à imprensa nos
jardins da Casa Branca ou encaminhassem um
ensaio sobre seus sistemas de propulsão à
Sociedade Americana de Física.
A qualidade das comunicações de óvnis
Passarei a me referir às mensagens que as
pessoas dizem receber de humanóides ufológicos
usando a expressão "comunicações de óvnis". No
entanto, esta expressão não se destina a insinuar
nenhuma conclusão em particular sobre a
verdadeira origem dessas mensagens. Fazendo
um rastreamento dessas mensagens, descobrimos
tenderem as mesmas a conter uma considerável
proporção de informações enganosas ou de todo
falsas, misturadas com material que pode ser
verdadeiro. Nesta seção, apresentarei uma série
de exemplos para ilustrar esta tendência à
falsidade, a qual é compatível com a hipótese da
trapaça alienígena.
Um dos exemplos envolve uma história relatada
ao investigador ufológico Jacques Vallee por uma
mulher que ele chamou de Helen. Helen viajava
com três amigos de Lompoc, Califórnia, para Los
Angeles, no verão de 1968. Enquanto dirigiam
numa área plana e aberta por volta das três horas,
todos os quatro viram uma luz branca no céu que,
movimentando-se de maneira errática, aproximou-se do carro deles. Com a aproximação, eles
perceberam que se tratava de um objeto branco e
cintilante com uma largura de cerca de seis pistas
de auto-estrada. Precipitando-se por sobre o carro,
ele projetou quatro luzes afuniladas sobre os
corpos das quatro testemunhas. Isto fez com que
eles se separassem de seus corpos e saíssem
flutuando para fora do carro, o qual
aparentemente prosseguiu estrada afora. Vallee
disse ter, em ocasiões distintas, entrado em
contato com duas das outras testemunhas, cada
uma das quais confirmou esta parte da história.
Sob hipnose, Helen se lembrou de ter sido levada
a bordo do óvni e de ter encontrado um homem
vestido de branco que lhe mostrou um motor
espantoso. Ela ficou determinada a construir uma
réplica daquele motor. De fato, este passou a ser o
interesse central de sua vida, e ela abordou Vallee
a princípio a fim de lhe solicitar ajuda para
construí-lo. Vallee, porém, salientou que o motor,
conforme o descreveu a mulher, é de todo
inexeqüível.
Uma história semelhante envolve a testemunha
ufológica chamada Sara Shaw, cujo caso foi
investigado por Ann Druffel e o parapsicólogo D.
Scott Rogo. A história começou com uma
experiência aterradora envolvendo tempo perdido
numa cabana solitária em Tujunga Canyon, perto
de Los Angeles. Após esta experiência, Sara
passou a se interessar por medicina, chegando a
conseguir emprego num hospital. Enquanto
trabalhou ali, um método para curar câncer lhe
ocorreu por meio de uma revelação repentina, que
pareceu vir de alguma fonte fora dela. Tanto
quanto no caso de Helen e do motor, Sara ficou
determinada a revelar esta cura ao mundo.
Ao investigarem a experiência vivida por Sara em
Tujunga Canyon fazendo uso da hipnose, veio à
tona um clássico cenário de rapto por óvni. Além
disso, Sara relatou que, a bordo do óvni, falaram-lhe sobre a cura do câncer. Infelizmente, a cura do
câncer, que se resume em injetar vinagre nos
tumores cancerosos, é um antigo e ineficiente
remédio popular.
Ora, a cura do câncer, seria possível argumentar,
de fato ocorreu a Sara por conta de uma noção em
parte esquecida do remédio popular, e a história
do óvni não passou de uma criação de sua mente
inconsciente sob o efeito da hipnose. No entanto,
isto não explica a preocupação dela com esta cura
e o fato de seu fascínio pela medicina ter brotado
logo após sua experiência em Tujunga Canyon.
Também é curioso que, na seqüência da história,
Sara tenha procurado um médico para lhe contar a
respeito da cura. Em dado momento, sua intuição
lhe revelou ser um certo Dr. Allini o médico a ser
abordado. Tendo ela lhe falado da cura, calhou de
ele estar mesmo receptivo a estudá-la. De fato, ele
disse já ter ouvido falar dela por intermédio de um
homem da região, que alegava tê-la recebido de
entidades ufológicas. Logo, parecemos ter duas
histórias independentes nas quais a mesma e
ineficaz cura de câncer teria sido divulgada por
seres oriundos de óvnis.
Mas por que deveriam seres voando por aí em
veículos de alta tecnologia fazer com que as
pessoas desenvolvessem interesses
preponderantes em motores impossíveis e curas
ineficazes? Seja qual for o motivo, conforme
sugerem certas provas, tais seres fazem, de
quando em quando, apresentações bastante
elaboradas de informações disparatadas. Um
exemplo disto é o caso de rapto de William
Hermann (veja páginas 205-07).
Geringonças técnicas
A história de William Herrmann parece um produto
híbrido da história de Meier e de casos de rapto
americanos envolvendo aparentes exames
médicos feitos por humanóides olhudos. Assim
como Meier, Herrmann tirou umas tantas
fotografias nítidas de óvnis, que pareciam posar
para a máquina dele. Assim como Meier, ele
também foi convocado, por meio de telepatia, para
contatos com óvnis. Hermann disse ter
experimentado uma "fresca sensação de afago em
sua testa" durante a comunicação telepática. Para
efeito de comparação, o jornalista Gary Kinder
citou Meier falando da sensação de "brisa
passando pela testa" proporcionada pela telepatia.
Esta última coincidência, de tão surpreendente,
não deixa passar despercebido o fato de Wendelle
Stevens ter investigado ambos os casos.
Conforme alega Hermann, os seres que entraram
em contato com ele em 1979 se identificaram
como sendo oriundos das estrelas Zeta l e Zeta 2
da constelação Reticulum. Eles teriam feito isto
transmitindo informações a Hermann por
intermédio da escrita automática.
Àquela época, estas estrelas estavam no auge da
fama entre os círculos de estudos ufológicos em
conseqüência do célebre mapa estelar relatado
por Betty Hill. Após o rapto do caso Hill, ocorrido
em 19 de setembro de 1961, Betty Hill se recordou
de ter sonhado com um mapa estelar afixado
numa parede do óvni. Neste mapa estaria incluída
a estrela natal dos alienígenas. Hipnotizada, Betty
desenhou este mapa estelar pela primeira vez em
1964. Em 1966, Marjorie Fish, professora
secundária de brilhante capacidade intelectual,
iniciou um processo de modelagem dos padrões
estelares da vizinhança da Terra a fim de
identificar o padrão representado pelo mapa de
Betty Hill. No início do outono de 1972, ela
concluiu que a base natal constante no mapa
devia ser Zeta l ou Zeta 2 da constelação Retícula.
Esta descoberta foi publicada na edição de julho
de 1973 de Saga e na edição de janeiro de 1974
de Pursuit. Foi também discutida na edição de
dezembro de 1974 da revista Astronomy.
Em suas observações de 3 de novembro de 1975,
Eduard Meier menciona o fato de Semjase ter se
encontrado com seres de Zeta da constelação
Reticulum. Se, de sua aldeia rural suíça, Meier
estava atualizado em ufologia americana, ele pode
muito bem ter ficado sabendo das descobertas de
Marjorie Fish sobre o mapa estelar de Betty Hill a
tempo de incorporá-las em suas histórias de
contato em 1975. Evidentemente, se Meier estava
mesmo em contato com alguns seres do outro
mundo, é possível que eles estivessem atualizados
em ufologia americana.
Voltemos a Hermann, que era cristão
fundamentalista e mecânico de automóveis. Como
ele veio a mencionar Zeta de Reticulum? Ele
jurava não ter se interessado em óvnis antes de
suas experiências de contato imediato e, caso isto
seja verdade, não deve ter ouvido falar do mapa
estelar de Betty Hill. No entanto, ele pode ter
ouvido falar do mapa estelar em conversas com
investigadores ufológicos após seu rapto em
março de 1978. Pode-se, então, aventar a hipótese
de a informação ter aflorado de seu inconsciente
durante sua escrita automática.
Contudo, as mensagens que Hermann recebeu dos
reticulanos têm de fato uma série de estranhas
características difíceis de serem justificadas pela
hipótese de terem sido inteiramente produzidas
por sua mente. Eis um trecho de uma das
mensagens:
Tecnologia reticulana
Hipótese da propulsão evolucionária:
Uma combinação da manipulação do equilíbrio
gravitacional pela conversão eletromagnética de
energia-massa dentro de um campo unificado de
fusões de partículas positivas e negativas de
feixes de luz (...) usando energia cinética e
eletricidade estática aproveitada, ocorre uma
conversão que aumenta o fluxo de energia para
dentro da câmara de força coesiva de onda
eletromagnética (...) resultando, assim, em base
de flutuação de ação/reação. O efeito da
manipulação mantém-se pelos contínuos aumento
e diminuição da onda eletromagnética MPS
(manipulação por seqüência).
Segundo Stevens, este tipo de afirmação é de todo
inadequado para uma pessoa com a formação de
Hermann. Logo, é possível que envolva algo além
do próprio inconsciente de Hermann.
Ao mesmo tempo, a mensagem não parece ser
autêntica enquanto informação técnica. Se
quiséssemos transmitir conhecimento técnico
utilizando este tipo de vocabulário, a única forma
racional de fazê-lo seria mediante definições
graduais de termos inteligíveis para a audiência,
mas não é isto o que vemos aqui. A mensagem faz
lembrar o motor impossível de Helen ou a ineficaz
cura de câncer de Sara. Até parece que alguém
tinha algum motivo para estar transmitindo
geringonças técnicas a Hermann. Pode-se postular,
ainda, uma mensagem significativa sendo
deturpada ao ser transmitida por intermédio da
mente de Hermann. Mas seria de esperar que os
seres inteligentes responsáveis pela transmissão
tivessem conhecimento de tal distorção e fossem
capazes de corrigi-la.
Boa parte desta geringonça faz uso de
conhecimento técnico do tipo que se poderia
consultar em vários livros de referência. Numa
mensagem, por exemplo, há fórmulas
matemáticas complicadas e referência à
"EXCENTRICIDADE DE ÓRBITA: 0,0167". De fato,
de acordo com livros didáticos de astronomia, a
excentricidade da órbita da Terra é 0,0167.
Parece improvável que Hermann viesse a deparar
com um dado destes, a não ser que estivesse
estudando astronomia. Em seus escritos e em
entrevistas gravadas em vídeo, ele aparenta ser
uma pessoa sincera do tipo incapaz de consultar
livros didáticos só para arquitetar uma história
falsificada. Ao mesmo tempo, parece duvidoso o
fato de viajantes espaciais alienígenas terem
usado, em seus cálculos, este dado específico.
Restam-nos, portanto, as alternativas de fraude
por parte de Hermann ou de fraude por parte dos
seres que se comunicaram com ele.
Sem dúvida, alguns dos pontos técnicos
constantes nas mensagens não foram extraídos de
livros didáticos atuais. Em meados dos anos 70,
por exemplo, alguns astrônomos sustentavam que
Zeta l e Zeta 2 estão a 36,6 anos-luz da Terra. Em
contraste, as mensagens transmitidas a Hermann
mencionam mais de uma vez uma distância de 32
anos-luz.
Outro ponto curioso: as mensagens dos reticulanos
a Hermann se referem repetidas vezes a uma
organização por eles chamada de "the Network" (a
Rede). Ora, a palavra reticulum quer dizer "rede"
em latim. Logo, o criador da história reticulana de
Hermann, seja ele quem for, parecia ter noção
desses sutis detalhes lingüísticos. Isto soa um
tanto estranho, quer para um mecânico de
automóveis da Carolina do Sul, quer para
alienígenas de outro planeta.
Há uma história curiosa por trás da expressão
"manipulação por seqüência" (MPS) na mensagem
reticulana citada acima. Esta expressão consta de
notas, datadas de 10 de setembro de 1985, sobre
uma entrevista telefônica entre o investigador
ufológico James McCampbell e o físico Paul
Bennewitz. Bennewitz investigava atividades
ufológicas na área de Albuquerque, Novo México,
e, segundo se comenta, ele teria sido
desencaminhado por desinformações acerca de
óvnis espalhadas por agentes do governo (veja
páginas 137-42).
Nas notas apresentadas por McCampbell,
Bennewitz refere-se à expressão MPS dizendo que,
no caso das naves alienígenas, "as MPS mudam de
freqüência a intervalos regulares". Compare isto à
referência de Hermann aos "contínuos aumento e
diminuição da onda eletromagnética MPS".
Existem outras coincidências óbvias entre as
afirmações de Bennewitz e Hermann. Herrmann
disse ter observado os veículos reticulanos
movimen¬tando-se em padrões triangulares, e
também disse terem os reticulanos lhe explicado,
durante o rapto, que faziam aquilo para evitar
efeitos prejudiciais de radares militares
americanos.
Bennewitz alegou ter fotografado os óvnis
enquanto estes voavam em padrões triangulares
ou quadrangulares, fazendo voltas de ângulo
agudo num vigésimo de segundo. Conforme disse
ainda, radares de alta potência podem interferir
nesses óvnis. Alguns dos alienígenas, mencionou
ainda, seriam oriundos de Zeta da constelação
Reticulum e viriam de distâncias "até ou acima de
32 anos-luz". Assim como Herrmann, ele também
afirmou que eles faziam parte de uma federação
chamada "The Network".
Esta informação parece estabelecer um sólido elo
entre Hermann e o material atribuído a Bennewitz.
Eis algumas possíveis explicações para isto: (1)
Bennewitz, ou algum desinformante em contato
com ele, copiou as informações de Herrmann
(cujas declarações precediam às de Bennewitz),
(2) tanto Bennewitz quanto Hermann foram
vítimas do mesmo grupo de desinformantes, ou (3)
existe alguma ligação entre os raptores de
Hermann e os alienígenas estudados por
Bennewitz. É difícil dizer qual é a alternativa
correta.
Em todo este capítulo, uma hipótese que tem
sempre estado em segundo plano é aquela
segundo a qual o conteúdo das aparentes
mensagens de entidades ufológicas está de fato
sendo transmitido à sociedade humana por meios
comuns. Analisemos com mais minúcia a idéia de
acidentes com óvnis induzidos por radares a partir
deste ponto de vista.
É um pouco difícil desembaraçar o histórico e
possível gênese dos acidentes induzidos por
radares. Um artigo de um jornal de Kansas, The
Wyandotte Echo, de 6 de janeiro de 1950,
apresentava uma versão da explicação para a
interferência de radares em acidentes de discos
voadores. Segundo dizia o artigo, "como parecem
colidir quase sempre perto de instalações de
radar, são atraídos, supõe-se, por radares, ou
talvez as ondas de radar interfiram em seus
sistemas de controle". De acordo com William
Moore, a história de The Wyandotte Echo pode ser
atribuída a amigos de Silas Newton, que serviu de
fonte de informação para o controvertido livro de
Frank Scully, Behind the Flying Saucers. Este livro,
publicado em 1950, estudava uma colisão de óvni
que teria ocorrido em 1948.
A história do radar também aparece num
memorando que teria sido enviado de Guy Hottel
para o diretor do FBI em 22 de março de 1950.
Nele, havia uma descrição, um tanto artificial de
três discos voadores de quinze metros de
diâmetro, cada um deles contendo três corpos
humanóides, que haviam sido resgatados pela
Força Aérea no Novo México. E prosseguia
dizendo:
De acordo com o Sr... informante, os discos foram
encontrados no Novo México devido ao fato de o
governo ter uma possante instalação de radar
naquela área — acredita-se que o radar interfere
no mecanismo de controle dos discos.
Nenhuma outra avaliação foi feita por SA
(apagado) com respeito ao exposto acima.
Este memorando, conforme outra alegação de
Moore, pode estar vinculado a The Wyandotte
Echo, embora isto pareça duvidoso em vista de o
artigo do jornal falar de dois discos voadores com
dois corpos em cada um. De qualquer modo, a
história de acidentes induzidos por radares parece
remontar a 1950.
Durante o primeiro rapto por óvni de Hermann, em
1979, seus captores lhe disseram, segundo
relatou, que algumas de suas naves espaciais
eram sensíveis a radares. Aparentemente,
algumas de suas naves perderam o controle e
colidiram porque a interferência dos radares
danificou os computadores a bordo das mesmas.
As entidades disseram a Hermann que isto
acontecera pela última vez cerca de trinta anos
antes da data de seu rapto. Como o rapto ocorreu
em 1979, isto significa que a última colisão fora
em 1949. Isto vincula a história de radar de
Hermann às histórias relacionadas a colisões de
óvnis por volta de 1948.
Teria a história de Hermann se originado destas
primeiras histórias através dos meios de
comunicação comuns? Sendo a história por certo
obscura, teríamos de supor a hipótese de Hermann
ter ficado sabendo dela por algum investigador
ufológico irresponsável (ou por outra pessoa
interessada no assunto) e depois tê-la forjado em
seu próprio relato. Ou, então, teríamos de supor
que, contrariando seu depoimento, Hermann lera
bastante sobre óvnis.
A idéia da colisão induzida por radar se manifesta
em outra história de contato imediato. Em 3 de
dezembro de 1967, às 2h30, um oficial de polícia
chamado Herb Schirmer viu um estranho objeto
iluminado à sua frente numa estrada. Ao acender
o farol alto de seu carro na direção do objeto,
Schirmer relatou ter visto um disco voador
decolando. Após o comitê Condon ser informado
deste relato, foram tomadas providências para
hipnotizar Schirmer. A hipnose revelou uma
experiência complexa, na qual certos seres se
aproximaram de Schirmer em seu carro para
levarem-no a bordo do óvni. Ali, os seres lhe
disseram muitas coisas bizarras, inclusive que a
nave deles funcionava à base de
eletromagnetismo de inversão, que eles extraíam
energia de reservatórios d'água e que suas naves
haviam sido derrubadas por radares. É
interessante o ponto de vista de Jacques Vallee a
este respeito: para ele, isto seria um truque de
desinformação por parte dos seres ufológicos.
Para piorar as coisas, os seres, disse Schirmer,
vestiam macacões com o emblema de uma
serpente alada. Da mesma forma, os seres vistos
por William Hermann traziam uma figura metálica
estampada no lado superior esquerdo de seus
uniformes inteiriços. Era a imagem de uma
serpente alada. Além disso, Filiberto Cardenas e
sua esposa relataram ter visto o emblema de uma
serpente no lado superior direito dos uniformes
usados por seus captores.
Acaso também estariam circulando histórias de
emblema de serpente e sendo incorporadas a
relatos sobre óvnis de testemunhas tidas como
honestas? O que motivaria alguém a adotar essas
histórias sem sentido e mentir a respeito delas?
Conforme se poderia argumentar, as pessoas as
ouvem, esquecem-nas e mais tarde fazem-nas
brotar de seu inconsciente. Mas por que estas
histórias arbitrárias exercem tamanho impacto
sobre o inconsciente das pessoas, a ponto de
conseguirem lhes anular a capacidade de
discriminar entre imaginação e realidade?
Outra história de radar surge no caso do segundo-sargento Charles L. Moody da Força Aérea
americana, que teve um contato imediato com um
óvni em 13 de agosto de 1975, perto de
Alamogordo, Novo México (página 272). Por um
período de dois meses, Moody foi se lembrando
aos poucos de um rapto típico por seres do
clássico tipogray. Entre outras coisas, estes seres
lhe disseram, segundo relatou, que o radar
interfere em seus dispositivos de navegação.
É impossível saber ao certo como estão sendo
transmitidas estas histórias. Algumas delas talvez
sejam de todo verdadeiras, mas aquelas que são
falsas não se devem necessariamente a mentiras e
delírios humanos. A opção de Vallee também é
uma possibilidade. É concebível, por exemplo, o
fato de uma história de radar, fruto da imaginação
humana e datada de 1950, ter sido transmitida a
Hermann, Schirmer e Moody por verdadeiros seres
não-humanos, talvez como parte do próprio plano
de desinformação deles. Isto seria compatível com
o uso de citações de livros de astronomia em
comunicações com Hermann.
Seria possível perguntar o motivo para seres
humanóides pretenderem espalhar desinformação
à respeito deles mesmos. Segundo uma possível
resposta, o ato de desinformar tem a função de
pôr um assunto em descrédito. Se "eles"
pretendem ocultar suas atividades, então, a
difusão de histórias ridículas sobre eles mesmos é
uma forma muito prática de consegui-lo.
Para resumir esta subseção, pode-se sempre
descartar Hermann como sendo fraudulento ou
vítima sugestionável de manipuladores humanos.
Também existe, porém, a possibilidade de que ele
estivesse relatando uma história autêntica de suas
experiências. Talvez Hermann tenha mesmo tido
um encontro com seres estranhos navegando
óvnis. Sendo assim, estes seres parecem ter
apresentado a ele comunicações disparatadas
fazendo uso de material — parte dele bastante
obscura — tomado emprestado da cultura
terráquea.
A teoria da intervenção genética
Pelo material que acabo de analisar, podemos
fazer alguma idéia da qualidade e nível de
veracidade das comunicações de óvnis. Nesta
seção e na seguinte, eu gostaria de analisar alguns
dos temas específicos que surgem repetidas vezes
neste material. Começarei voltando à história de
Meier, segundo a qual os extraterrestres teriam
criado os humanos modernos acasalando-se com
os povos primitivos existentes na Terra. A teoria
da criação da humanidade por alguma espécie de
manipulação genética extraterrestre se manifesta
repetidas vezes em comunicações relacionadas a
óvnis, estando vinculada a histórias atuais de
manipulação genética de humanos por parte de
entidades ufológicas.
Segundo alguns eruditos, pode-se encontrar a
teoria da intervenção genética em antigos textos
hebreus e sumérios. Como argumenta o geólogo
Christian O'Brien, por exemplo, estes textos
descrevem uma raça de seres chamada os
Brilhantes — sua tradução para a palavra hebraica
Elohim. Estes seres criaram os humanos modernos
a partir de formas humanas primitivas por meio da
manipulação genética. Alguns destes seres,
chamados Guardiões, acasalaram-se com os
humanos, o que os Brilhantes consideraram um
crime. Um dos Guardiões chamava-se Shemjaza
(lembre-se da Semjase de Meier), e Jeová era um
dos Brilhantes. Segundo argumenta O'Brien, os
Brilhantes, apesar de superiores, eram seres
mortais de origem desconhecida.
O erudito israelita Zecharia Sitchin se baseou em
antigos textos sumérios e babilônios para
argumentar que os seres humanos modernos
foram criados por viajantes do espaço chamados
os Nefilim, que teriam se acasalado com eles e se
desentendido sobre o que fazer com os mesmos.
Segundo Sitchin, os Nefilim criaram os humanos
fazendo modificações genéticas no Homo erectus.
O'Brien e Sitchin basearam suas idéias em antigos
textos do Oriente Próximo. Porém, em 1950, o
Papa Pio XII apresentou uma idéia muito
semelhante ao fazer uma aparente tentativa de
conciliar a evolução com a Bíblia. Ele decretou ser
aceitável para os católicos o fato de o corpo
humano ter evoluído de outra matéria viva já
existente. Sustentou, no entanto, ser essencial que
os católicos continuem acreditando no fato de os
humanos atuais serem descendentes de Adão e
Eva, visto que, de outra forma, a doutrina do
pecado original deixaria de existir. Subentende-se
daí que Adão e Eva resultaram da intervenção
divina, mas que todos os demais organismos,
inclusive os primatas, evoluíram à maneira
darwiniana.
A teoria da intervenção genética tem aparecido
nas histórias que circulam sobre óvnis e o governo
americano. Segundo alega a pesquisadora
ufológica americana Linda Howe, uma versão
desta teoria fazia parte de um "informativo
presidencial" mostrado a ela pelo agente Richard
Doty, do Departamento de Investigações Especiais
da Força Aérea. Segundo este documento, os
extraterrestres em contato com o governo
americano têm vindo à Terra em diferentes épocas
para manipular o DNA em primatas terrestres.
Supostamente, isto foi feito há 25.000, 15.000,
5.000 e 2.500 anos. Além disso, há dois mil anos
os extraterrestres criaram um ser, que foi
"colocado nesta Terra para ensinar o amor e a
não-violência à humanidade"
Doty negou publicamente o fato de ter mostrado
semelhante documento a Linda Howe, e a história
da manipulação genética continua pertencendo ao
âmbito dos boatos e da desinformação. Mas de
onde se originou a história?
A teoria da intervenção genética também vem à
tona por intermédio de uma variedade de
comunicações canalizadas relacionadas a óvnis.
Isto poderia indicar o fato de a idéia exercer um
forte poder sobre as mentes das pessoas,
tendendo, portanto, a emergir do inconsciente. Ou
talvez esteja de fato sendo comunicada a
canalizadores a partir de uma fonte externa. Uma
combinação destas possibilidades também poderia
ser válida.
Eis um exemplo em que a teoria emerge de uma
comunicação canalizada. A médium Carla Rueckert
produziu elaboradas comunicações em estado de
transe atribuídas à entidade Ra, um "complexo de
memória social" que visitara a Terra em naves
espaciais na época do Egito antigo. A história de
Ra para as origens da humanidade pode ser
resumida como segue:
A guerra em Marte fez com que aquele planeta se
tornasse inóspito e sua população humana
morresse. O grupo "Jeová" produziu humanos do
tipo moderno na Terra 75 mil anos atrás, clonando
material genético a partir dos marcianos mortos.
Os primeiros humanos modernos na Terra
apareceram nesta época; metade deles se
originou dos marcianos; a outra metade, de
bípedes nativos semi-eretos, e um quarto deles
veio de outros planetas.
As comunicações de Ra declaravam ser o grupo
Jeová uma força-tarefa de extraterrestres
avançados. A teoria da intervenção genética
apresentada aqui se assemelha a outras que
temos visto, mas contém diferenças, tais como a
referência aos marcianos. Isto é típico de
comunicações de óvnis e mensagens canalizadas.
Embora determinados temas surjam repetidas
vezes, todas as histórias tendem a diferir entre si
nos detalhes.
A teoria da intervenção genética remonta pelo
menos ao começo dos anos 50. Naquela época,
Ralph M. Holland, engenheiro morador de
Cayahoga Falls, Ohio, disse ter entrado em contato
com viajantes espaciais humanóides que chamou
de Etéricos. Estes seres diziam viver num plano de
existência etérica. Segundo Holland, eles lhe
contaram que haviam criado a raça humana da
seguinte maneira:
Ao virem pela primeira vez ao plano físico de seu
planeta, estes grupos descobriram que seus
corpos físicos não eram de todo adaptados ao
ambiente. Empenhando-se para melhorar a
situação, eles passaram a desenvolver um corpo
físico mais bem adaptado mediante a reprodução
seletiva e a hibridação. A escolha final foi a raça
ancestral das atuais raças adâmicas, resultante de
um cruzamento entre as próprias Raças Antigas e
um certo animal parecido ao homem nativo de seu
planeta.
Linda Howe apresenta um caso de rapto em que
se manifesta a teoria da intervenção alienígena. É
o caso de uma mulher de New Jersey chamada A.
Allen, uma mestiça americana (filha de negro com
índia). Sob hipnose, ela se lembrou de ter tido um
contato com um ser masculino de dois metros de
altura cujos olhos tinham pupilas de corte vertical.
Segundo declara Howe, esta mulher "acredita que
os Homo sapiens foram originalmente criados para
ser a mão-de-obra de alguém mais na Terra, e
incumbidos de extrair minerais e fazer o esforço
físico para uma raça de seres altos que vêm
ceifando este planeta em busca de eões (seres
imaginários do gnosticismo).
Quando perguntei a Howe de onde a mulher teria
tirado estas idéias, ela disse que as mesmas
afloraram durante as sessões de hipnose
realizadas para investigar seu rapto. A mulher,
arrematou Howe, não era instruída nem tinha o
hábito de ler. Entretanto, a idéia de os humanos
terem sido criados para serem mineiros aparece
no livro The 12th Planet (O 12° planeta) de
Zecharia Sitchin. O detalhe dos mineiros pode ser
um elo entre a história de Allen e o livro de Sitchin.
Meu último exemplo da teoria da intervenção
genética encontra-se no livro The Watchers, de
Raymond Fowler. Neste livro, Fowler pergunta: "O
homem de Cro-Magnon foi colocado na Terra
intacto ou foi o resultado de uma transformação
genética do homem de Neandertal feita por seres
alienígenas?" Esta idéia especulativa se
fundamenta nas provas, por ele reunidas, de um
elemento genético constante em relatos sobre
raptos por óvnis, aliadas à tão conhecida idéia de
que o homem de Cro-Magnon teria de súbito
substituído o homem de Neandertal. Além disso,
Fowler registra as passagens bíblicas sobre os
"Filhos de Deus", que acharam as filhas do homem
bonitas e com elas se acasalaram, produzindo
"homens poderosos, homens de renome".
Fowler chamava os extraterrestres de os
"Guardiões" e especulava quanto ao fato de estes
terem se preocupado com a raça humana desde
os seus primórdios. Fowler adotou este termo a
partir de seu extenso estudo da contato Betty
Andreasson, cujos raptores, conforme afirmou,
referiam-se a si mesmos como "Guardiões". A
manipulação genética dos humanos é um tema
saliente nos relatos sobre rapto de Andreasson.
Todas estas versões da teoria da intervenção
genética compartilham elementos comuns
encontrados nas tradições culturais da
humanidade — neste caso, tradições registradas
nos livros apócrifos da Bíblia e na mitologia
suméria. Apesar de ser enigmático o fato de esta
teoria estar sempre aflorando em histórias de
contato com alienígenas, eis algumas possíveis
razões para isto: (1) Isto acontece porque a teoria
da intervenção genética tem um estranho atrativo
psicológico que induz as pessoas a imaginarem
seres alienígenas lhes falando a respeito dela. (2)
Acontece porque uma conspiração de sinistros
desinformantes está difundindo a teoria. (3)
Acontece porque as entidades ufológicas extraem
a teoria da intervenção genética da cultura
humana e a usam para o seu próprio programa de
condicionamento da sociedade humana. (4) Por
ser a teoria um retrato verdadeiro de nossas
origens, as entidades a estão apresentando a nós
como tal.
A opção (1) goza de certo apoio. A teoria da
intervenção genética é uma nítida solução
conciliatória para o conflito entre a teoria da
evolução de Darwin e o criacionismo bíblico. Por
este motivo, poderia ter atrativo intelectual para
muitas pessoas. Mesmo assim, isto não explica o
motivo da experiência das pessoas que dizem ter
ouvido os seres alienígenas falando a respeito da
teoria.
A opção (2) também não explica a razão para as
pessoas relatarem tais experiências. No entanto,
as opções (3) e (4) têm uma explicação para isto.
A rigor, a opção (4) não pode ser verdadeira, visto
existirem muitas versões divergentes da teoria da
intervenção genética, e nem todas elas podem ser
corretas. Resta-nos a opção (3).
Temos, no caso de Betty Andreasson, outro
exemplo de experiência relacionada a óvnis que é
compatível com a opção (3). Quando aplicaram a
hipnose para investigar o rapto de Betty ocorrido
em 1967, ela se lembrou de ter sido levada num
óvni para um túnel perfurado em rocha sólida.
Este túnel dava numa estranha paisagem com
vista para um oceano, uma cidade distante e uma
pirâmide encimada por uma "cabeça egípcia".
Duas entidades a conduziram ao longo de uma
pista elevada até um lugar onde ela viu a
representação vivida do mito egípcio da Fênix, ave
gigante que se auto-consome com o fogo para
depois renascer das cinzas.
Esta experiência teve fortes implicações religiosas,
e Betty Andreasson é uma cristã fundamentalista.
No entanto, a história da Fênix não é usada por
fundamentalistas modernos, muito embora o fosse
pelos cristãos antigos. Portanto, o motivo Fênix
teria sido escolhido pelas entidades visitantes, e
não pela mente consciente ou inconsciente de
Andreasson. Para defender esta idéia, Fowler
salientou o fato de a representação da história da
Fênix recordada por Andreasson envolver
pequenos detalhes que fazem parte do mito
egípcio original, mas que não são muito
conhecidos (como o fato de uma lagarta emergir
das cinzas, e não uma avezinha).
Desastres e mais genética
Um tema comum em comunicações de óvnis é o
fato de os seres humanos estarem correndo perigo
de algum desastre terrível provocado pela
natureza ou por seus próprios atos. Este tema
tende a se intercalar com o tema da manipulação
genética. Nesta seção, analisarei estes temas com
o objetivo de aprofundar a compreensão dos
motivos por trás das comunicações de óvnis e
suas possíveis fontes.
Desastres envolvendo a atmosfera da Terra são
mencionados repetidas vezes em comunicações
de óvnis. Whitley Strieber, por exemplo, disse que
lhe mostraram "representações gráficas da morte
da atmosfera, isto para não mencionar o planeta
inteiro simplesmente explodindo”. Os contatos
reticulanos de William Hermann, segundo ele,
informaram-no que o campo magnético da Terra
estava decaindo e que a radiação proveniente do
espaço logo causaria danos aos organismos vivos.
O comunicador Ra, usando um estilo mais
filosófico, falou de uma transição vindoura da
Terra na qual ela não seria mais habitável por
seres com a chamada "terceira densidade" de
corporificação grosseira. Isto envolve uma crise
acompanhada de rupturas na "vestimenta
externa" da Terra — presumivelmente, a
atmosfera. Em 1953, um médium chamado Mark
Probert fez a seguinte declaração numa
comunicação em estado de transe sobre os óvnis e
seus ocupantes: "O seu perigo atual, por ora
mitigado pelos Guardiões, jaz no colapso
progressivo dos éteres superiores, i.e., da
ionosfera."
Conforme podemos ver em outras comunicações
de óvnis, estas declarações sobre a atmosfera têm
uma qualidade surreal. Parecem ser expressas
mais em simbolismo onírico do que em linguagem
científica objetiva. A declaração de Probert soa
como a mais realística de todas, embora a camada
de ozônio, que julgam estar se rompendo hoje em
dia, se encontre abaixo da ionosfera. A declaração
foi feita em 1953, bastante tempo antes da época
das controvérsias sobre a camada de ozônio do
início dos anos 70. As outras declarações sobre a
atmosfera foram feitas, é claro, durante ou após
este período.
Há quem ache comunicações canalizadas como a
de Probert dúbias e indignas de serem
mencionadas. Não obstante, elas podem ter uma
relação importante com mensagens recebidas
durante contatos com óvnis porque (1) elas
costumam ter conteúdo semelhante e (2) ocorre
canalização em alguns casos de contato com
óvnis. Talvez seja significativo o fato de muitas das
coisas mencionadas em comunicações de óvnis
atuais também terem sido mencionadas em
comunicações canalizadas do início da década de
1950. Dois outros exemplos disto são a teoria da
intervenção genética e a idéia de que radares
podem fazer com que os óvnis colidam.
Os perigos da poluição causada pelo homem e dos
testes nucleares são mencionados com freqüência
em comunicações de óvnis. Estes tópicos
afloraram, por exemplo, num caso de contato
imediato ocorrido em maio de 1973 perto de
Houston, Texas. A testemunha, Judy Doraty, dirigia
seu carro acompanhada de quatro familiares.
Todos os cinco se lembraram de ter visto no céu
uma luz muito brilhante que seguia o carro. Os
familiares se lembraram de Judy estacionando o
carro no acostamento da estrada e caminhando
para a sua traseira, para depois voltar, entrar de
novo no carro e se queixar de sede e náusea.
Voltaram para casa com aquela luz ainda seguindo
o carro e, ao chegarem, todos eles assistiram a ela
realizando estranhas cabriolas no céu.
Descobriram ter perdido cerca de uma hora e
quinze minutos.
Esta lacuna de tempo foi apurada por meio de
uma sessão de hipnose administrada em 3 de
março de 1980 pelo Dr. Leo Sprinkle, então diretor
da Divisão de Consultoria e Testes da Universidade
de Wyoming. Sprinkle também submeteu a mulher
a testes psicológicos, através dos quais constatou
ser ela perfeitamente normal. Sob hipnose, Judy
Doraty revelou informações comunicadas por
entidades, num óvni que ela visitou, por meio de
uma experiência extracorporal. Enquanto
retalhavam um bezerro, as entidades explicaram
estar fazendo aquilo para monitorar a progressiva
poluição do meio ambiente. Segundo disseram as
entidades, os humanos acabarão se destruindo
através da poluição. Disseram ainda que os testes
nucleares, inclusive os testes no espaço exterior,
estão ocasionando efeitos muito nocivos à Terra.
É comum testemunhas de contatos imediatos
dizerem que foram advertidas dos perigos da
poluição desencadeada pelo homem, inclusive a
poluição causada pelos testes nucleares. Todos
nós sabemos da existência destes perigos, é claro.
Logo, talvez por estar sob o efeito da hipnose, Judy
Doraty estivesse externando preocupações em
torno da poluição e dos testes nucleares em seu
depoimento. Contudo, este depoimento contém
características curiosas corroboradas por outros
relatos sobre óvnis. Por exemplo: os seres
disseram que as perigosas atividades da
humanidade afetam outros seres não
especificados:
Doraty: Se continuarmos agindo como fazemos
agora, o perigo vai afetar não somente a nós, mas
possivelmente a outros também... e eles estão
tentando conter algo que poderia provocar uma
reação em cadeia. E que talvez os comprometa.
Não sei.
Sprinkle: Eles disseram que tipo de reação em
cadeia é esta? Doraty: Não, apenas que ela
compromete... não somos os únicos preocupados.
Sprinkle: Eles dizem quem mais está
comprometido?
Doraty: Não.
Sprinkle: Acaso falam de suas origens, de onde
vêm?
Doraty: Que foram designados para vir aqui.
Sprinkle: À Terra?
Doraty: Não sei.
Este assunto também aflorou num caso estudado
pelo Dr. James Harder, professor de engenharia
civil na Universidade da Califórnia em Berkeley e
tarimbado pesquisador ufológico. Pat Price, a
principal testemunha do caso, lembrou-se de ter
se sentado em frente a uma escrivaninha a bordo
de um óvni e conversado com o "líder" por
telepatia. Eis parte da conversa, conforme foi
lembrada sob hipnose:
Price: Bem, (pausa) ele desenhou um círculo para
mim, mostrou-me umas linhas e me disse: "As
pessoas podem coexistir... e não saber disso."
Harder: Que tipo de linhas ele desenhou no
círculo?
Price: Linhas paralelas.
Harder: Que você acha que ele quis dizer com
isto?
Price: Ele disse: "O que fizermos, de maneira
destrutiva, os afetará também." (Suspiro.) Eu não
sei sobre o que ele estava falando... só sei que me
apavorou.
Se nossas atividades "os" afetam, é bem possível
que alguns deles vivam aqui na Terra. Esta idéia
se manifesta no depoimento de Doraty, e Betty
Andreasson também faz menção explícita dela em
seu depoimento. Eis uma transcrição de uma
sessão de hipnose na qual entidades alienígenas
parecem estar falando por intermédio da voz de
Betty Andreasson, usando-a como uma espécie de
canal ou médium espírita. Além de falar de muitas
raças de seres visitantes que trabalham em
cooperação, ela salienta que algumas dessas raças
vivem na Terra:
Entrevistador: Betty, eles têm inimigos como nós?
Betty: Existe um planeta que é hostil, e também
muitos homens são hostis, só porque não
compreendem. (...)
Entrevistador: Betty, existem muitos clãs ou raças
visitando a Terra no momento e vindos de muitos
planetas?
Betty: Sim... Setenta... raças.
Entrevistador: Estas raças trabalham juntas?
Betty: Sim, exceto a ofensora.
Entrevistador: Eles vêm de diferentes planetas,
então? Eles não vêm do mesmo planeta? Isto é
correto?
Betty: Alguns. Alguns vêm de reinos cujos
esconderijos não se pode ver. Alguns vêm da
própria Terra. (...) Sim, há um lugar na própria
Terra que vocês desconhecem.
No depoimento de Andreasson também consta a
idéia de que a poluição acabará causando sérios
danos à raça humana. Numa experiência a bordo
de um óvni recordada sob hipnose, Betty vira os
alienígenas extraírem dois fetos de uma mulher
raptada. Horrorizada, ela viu os alienígenas
introduzirem compridas agulhas na cabeça e nos
ouvidos de um dos fetos e o colocarem num
tanque contendo um líquido ligado a um estranho
aparelho. Os alienígenas lhe deram a seguinte
explicação para isto:
Estão me dizendo que precisam fazer isto. E eu
digo: "Por que vocês precisam fazer algo tão
terrível?" E um deles diz: "Precisamos fazê-lo
porque, com o passar do tempo, a Humanidade
ficará estéril. Eles não conseguirão se reproduzir
por causa da poluição das terras, das águas e do
ar, e por causa das bactérias e das coisas terríveis
que estão na Terra!"
Esta declaração vincula o problema da poluição
mencionado a Judy Doraty à idéia de que uma raça
alienígena está empenhada em fazer
experimentações genéticas com seres humanos.
Estes dois temas também aparecem num relatório
apresentado por Jenny Randles. Em 5 de fevereiro
de 1978, em Medinaceli, Espanha, um veterinário
de 33 anos chamado Júlio foi raptado, junto de seu
cão, por entidades altas de aparência nórdica. As
entidades examinaram Júlio, colhendo amostras de
sangue, suco gástrico e sêmen. Segundo lhe
disseram, o mundo deles é um tenebroso lugar
deteriorado, e por isso pretendem estudar nosso
maravilhoso mundo repleto de vida antes que
estraguemos tudo como eles fizeram. Também
mencionaram pequenas e feias entidades que têm
a estranha idéia de reprogramar humanos
biologicamente.
As entidades relatadas por Betty Andreasson
parecem corresponder a estes "pequenos e feios"
seres interessados em manipulações genéticas. No
entanto, ela se lembrou de ter sido levada, em
certa ocasião, até o mundo deles, que descreveu
como sendo cinzento, escuro e nebuloso o tempo
todo. Isto condiz com a declaração de Júlio a
respeito das entidades de aparência nórdica, o que
nos faz indagar se existem dois mundos escuros.
Ou talvez exista uma relação entre os dois tipos de
entidades.
John R. Salter, cuja experiência de rapto ocorreu
em 20 de março de 1988 (veja páginas 173-74),
também fala de um obscuro mundo alienígena. Em
9 de janeiro de 1990, durante um sonho vivido, ele
se lembrou de os seres raptores lhe terem dito que
vinham da estrela Zeta na constelação Reticulum.
Em 4 de março de 1990, teve outro sonho vivido,
percebido por ele não como uma recordação, mas
sim como uma comunicação telepática direta de
um daqueles seres. Neste sonho, ele visitava o
mundo deles, tendo reparado que a luz era muito
fraca e os prédios todos brancos. Este tipo de
sonho vivido é semelhante a uma comunicação
canalizada pelo fato de o indivíduo sentir as
informações recebidas virem de fora para dentro.
(Salter me disse já saber de Betty Hill e da
constelação Reticulum antes do sonho de 9 de
janeiro de 1990. Porém, tinha apenas uma ligeira
noção do caso Hill e desconhecia a história de
Reticulum antes de sua experiência de rapto em
março de 1988.)
Outra idéia sobre o mundo dos alienígenas é
expressa por "Lucille Forman", uma psicoterapeuta
de Nova York cuja experiência de rapto foi
estudada por Budd Hopkins. Segundo o
depoimento dela, seus raptores alienígenas, que
eram do tipo gray, vêm de uma sociedade
moribunda onde se enfatiza o desenvolvimento
intelectual à custa do crescimento emocional. Algo
saiu errado com eles do ponto de vista genético.
Seus filhos morrem prematuramente, e eles estão
empenhados numa luta desesperada para
sobreviver. Hopkins associou isto ao interesse
deles por genética e reprodução humanas. Existe
ainda uma associação com a idéia do mundo
sombrio, embora neste caso a escuridão do mundo
dos alienígenas seja metafórica, e não literal.
Passando a outro relato citado por Jenny Randles,
em Pudasjarvi, Fin¬lândia, uma mulher chamada
Aino Ivanoff dirigia seu carro nas primeiras horas
do dia 2 de abril de 1980. Subitamente, o carro foi
rodeado por uma bruma e em seguida ela se viu
num recinto onde pequenas entidades a
examinaram sobre uma mesa. Estes seres lhe
disseram que a guerra é nociva e que ela devia
apoiar grupos pacifistas. Disseram, também, não
serem capazes de gerar seus próprios filhos.
Isto se encaixa com a declaração de Betty
Andreasson — no outro lado do Atlântico — de que
as fêmeas alienígenas não conseguem gerar filhos
e que as fêmeas humanas são usadas para portar
fetos alienígenas. Ela atribuiu a isto o motivo pelo
qual os alienígenas estão preocupados quanto à
autodestruição dos seres humanos: "Os fetos
tornam-se eles — iguais a eles. Eles dizem ser
Guardiões... e preservam a semente do homem e
da mulher para que a. forma humana não se
perca."
Os grifos desta citação são de Raymond Fowler.
Esta é a declaração que parece vincular a história
de Andreasson à antiga história hebraica dos anjos
chamados Guardiões, que teriam se acasalado
com seres humanos.
Se algumas dessas comunicações são ajuntadas, a
imagem obtida dos alienígenas gray é a de uma
raça parasitória, dependente dos humanos para a
reprodução e preocupada com o fato de os
humanos estarem prestes a se dizimarem. No
entanto, outras histórias contradizem isto. As
comunicações relatadas por Lucille Forman e as
das entidades de aparência nórdica de Júlio não
concordam exatamente com esta teoria. E
também incompatível o fato de os raptos de cunho
ginecológico só passarem a ser relatados com
freqüência em décadas recentes. Por que as
atividades reprodutoras dos alienígenas não eram
evidentes no século XIX se eles precisam de
humanos para se reproduzirem? Além do mais,
histórias retratando os alienígenas como
procedentes de uma estrela distante, tal como
Zeta da constelação Reticulum, são incompatíveis
com a idéia de eles dependerem de humanos
terráqueos para a reprodução.
Conclusão
Em conclusão, as comunicações que, segundo se
relata, se originam de entidades ufológicas
costumam conter determinados temas usuais.
Estes abrangem desde declarações perturbadoras
relativas à genética e às origens humanas até
aparentes trivialidades, tais como a história do
acidente induzido por radar. As comunicações
costumam ter uma qualidade surreal, e muitas
vezes se contradizem. Muitas parecem ser um
cruzamento entre desinformação e puro disparate,
e muitas contêm material encontrado nas
tradições culturais da humanidade.
Sem dúvida, ocorrem embustes e delírios,
havendo provas sugerindo a montagem de
embustes organizadíssimos. Também é possível
que sinistros agentes secretos estejam difundindo
desinformação acerca dos óvnis. Isto não quer
dizer, no entanto, que as histórias de contato com
óvnis sejam todas produto de mentiras e delírios
humanos. Podemos sempre atribuí-las a estas
causas, mas, se assim fizermos, estaremos, acho
eu, desnecessariamente rebaixando nosso juízo de
testemunhas humanas que aparentam ser sãs e
responsáveis. Em última análise, isto rebaixaria
nosso juízo de nossa própria capacidade de
distinguir a verdade da ilusão.
Se atribuímos todas as histórias aparentemente
absurdas a mentiras e delírios, acabamos
formando uma imagem exagerada da
desonestidade humana. Por exemplo: sabe-se que
a médium Eusapia Palladino trapaceava às vezes,
mas seria irrealístico tachar de mentiroso ou de
tolo iludido todo aquele que relata histórias
extraordinárias acerca dela (veja páginas 187-91).
Observação semelhante pode ser feita a respeito
de muitas histórias de contato com óvnis.
No mundo real, é comum encontrarmos a verdade
mesclada com a falsidade. Ao escrever este
capítulo, achei ser meu dever chamar a atenção
do leitor para o material provavelmente falso, bem
como para o material que parece ser verdadeiro.
Apesar de talvez ser difícil distinguir o verdadeiro
do falso, acho que seria errado desconsiderar um
conjunto de histórias só por conter elementos
falsos. Na realidade, podemos reverter as coisas e
sugerir que, se um conjunto de depoimentos
humanos não parecesse conter nada de falso, isto
seria, então, contrário à natureza humana e
altamente suspeito.
Podemos, também, reverter a teoria segundo a
qual as histórias de óvnis não passam de um
fenômeno folclórico secundado pela trapaça. É
possível que verdadeiros seres não-humanos
sejam responsáveis por muitas das comunicações
de óvnis relatadas. Estes seres podem estar
tentando condicionar os processos de pensamento
das pessoas, fazendo uso de temas extraídos, em
certos casos, das próprias tradições culturais
dessas pessoas.
Se é assim, então, eles contribuem para o
enriquecimento das tradições ao manipularem
temas tradicionais. Até que ponto, pode-se
perguntar, seriam as tradições culturais
orquestradas pela intervenção de diversas
espécies de seres inteligentes? Além disso, até
que ponto seriam as tradições culturais
verdadeiras e até que ponto seriam elas
"desinformações" introduzidas — não por
sacerdotes coniventes e poetas imaginativos —
mas sim por fontes transumanas? Até que ponto
seria boa esta orquestração cultural, e até que
ponto poderia ela gerar maus efeitos?
PARTE 2
Paralelos védicos aos fenômenos
ufológicos
6
Contato transumano na civilização
védica
Nos últimos 45 anos, os relatos sobre visões de
óvnis e contatos com os mesmos têm sugerido
para alguns que a raça humana vem sendo
abordada por seres inteligentes que, mesmo não
sendo humanos, têm uma surpreendente
semelhança conosco. Em muitos casos, é tanta a
semelhança que o termo alienígena soa impróprio.
Todavia, estes seres parecem ser alienígenas pelo
fato de haver alienação entre eles e nós. Apesar
da aura de sigilo e desinformação em torno do
tema das visões e contatos com óvnis, não parece
ser possível julgar o governo americano como o
único responsável por isso. Por um lado, os óvnis
parecem se comportar de maneira evasiva e, por
outro, as comunicações com entidades ufológicas
são ambíguas e contraditórias. Parecem
destinadas a influenciar a sociedade humana a
distância, sem estabelecerem relações baseadas
numa clara compreensão mútua.
Não há relações formais socialmente reconhecidas
entre a sociedade humana de hoje e os seres
responsáveis pelos óvnis. Na maioria dos países,
os órgãos oficiais de pesquisa científica não
reconhecem que tais seres possam existir e estar
em contato com a sociedade humana. Em
conseqüência disso, o conhecimento a respeito
dos óvnis não é regulamentado por órgãos
acadêmicos convencionais, transformando o
campo de estudos ufológicos num deus-nos-acuda
no qual pesquisadores sérios são obrigados a
agüentar uma efusão de material vulgar e
fraudulento.
Os próprios seres ufológicos parecem planejar
seus contatos com as pessoas de modo a
deixarem pouquíssimas provas tangíveis de sua
existência real. Embora estes contatos envolvam
fenômenos considerados muito estranhos,
segundo a perspectiva humana moderna, os
ufonautas fazem pouquíssimo esforço para reduzir
esta estranheza. Mesmo quando possuem um
histórico de contatos remontando à infância, as
testemunhas de contatos imediatos ainda assim
dispõem de poucas explicações e praticamente
não têm oportunidades de apresentar seus
visitantes do outro mundo a um círculo maior de
testemunhas. Muitas testemunhas parecem
pessoas responsáveis cujas experiências de
contato resultam no mínimo incomuns; no entanto,
o fato de as informações transmitidas durante os
contatos parecerem absurdas ou contraditórias
não aumenta a credibilidade destas testemunhas.
Surpreendentemente, talvez as coisas nem
sempre tenham sido assim. Entre as sociedades
tribais, contatos místicos com seres superiores
têm sido ocorrências comuns desde tempos
remotos e, segundo consta, acontecem ainda hoje.
As sociedades civilizadas da antigüidade também
alegavam estar em contato com seres superiores.
Em muitos casos, os dados de contatos
transumanos constantes destas fontes, além de
serem classificados como parte de alguma
doutrina religiosa, envolvem as experiências
singulares de poucos indivíduos com dotes
místicos. No entanto, há relatos de sociedades
humanas terráqueas que têm mantido regulares
elos diplomáticos com uma hierarquia de seres
extraterrestres e supradimensionais.
Isto se aplica, em particular, à antiga sociedade
védica da Índia. Esta sociedade é retratada numa
literatura volumosa, que muito nos ensina sobre
como vivia sua gente e como esta interagia com
uma sociedade transumana maior. Neste capítulo,
apresentarei um breve panorama da antiga visão
de mundo védica. Demonstrarei que muitas
facetas do fenômeno ufológico moderno podem
ser encontradas em relatos védicos sobre contatos
entre humanos e membros de outras raças
semelhantes à humana. Mostrarei, além disso,
como a organização social do antigo povo védico
favorecia os contatos regulares com seres
superiores.
Procurarei apresentar, da melhor maneira possível,
o material védico conforme o entendem quantos
estejam imersos no tradicional ponto de vista
védico. A princípio, talvez este material pareça
muito estranho para pessoas de antecedentes
culturais ocidentais, e talvez algumas sintam
reservas baseadas numa perspectiva religiosa ou
científica. Contudo, a única forma científica de
entender outra cultura é procurar adentrar a
verdadeira visão de mundo das pessoas que vivem
naquela cultura. Portanto, eu aconselharia o leitor
a suspender qualquer tipo de julgamento para,
assim, poder apreciar o material védico como ele
é. No Apêndice 2, analiso com mais minúcia minha
abordagem à interpretação da literatura védica.
Conforme salientei na Introdução, sabemos que os
relatos modernos sobre óvnis podem parecer
muito estranhos. Sendo assim, não devemos ficar
surpresos se as histórias e tradições de pessoas
que mantêm contato regular com seres superiores
também nos parecerem estranhas. Talvez elas nos
ajudem a lograr uma compreensão mais ampla do
estranho universo que inclui nosso próprio sistema
de conhecimento e cultura como uma partícula de
uma realidade muito maior.
Uma sinopse da visão de mundo védica
O Bhagãvata Purãna, o Mahãbhãrata e o
Rãmãyana são três obras importantes na tradição
védica da Índia. Embora sejam bem conhecidos
como escrituras religiosas hindus, não devem ser
encarados como mera mitologia ou como
representações de algum credo sectário. Seu valor
verdadeiro se concentra no fato de revelarem com
minúcia uma forma inteiramente diferente de ver
o mundo e de nele viver, forma esta seguida
durante milhares de anos por uma civilização
humana altamente desenvolvida.
Do ponto de vista dos indólogos modernos, estas
obras variam em idade do século IX d.C. para o
Bhãgavata Purãna ao século V ou VI a.C. para o
Mahãbhãrata e o Rãmãyana. No entanto, os
indólogos concordam que os textos existentes
incorporam material muito mais antigo do que os
períodos históricos em que, segundo eles
acreditam, estes mesmos textos teriam sido
escritos. A própria palavra purãna quer dizer
antigo e, segundo a tradição indiana nativa, todos
os três textos remontam pelo menos ao ano 3.000
a.C.
Cabe aqui uma observação técnica quanto ao uso
do termo védico. Eruditos ocidentais modernos
insistem que esta palavra só pode ser aplicada aos
quatro Vedas: Rg, Yajur, Sãma e Atharva. Contudo,
na tradição indiana viva esta palavra aplica-se a
uma categoria muito mais ampla de literatura. Isto
inclui os Purãna, ou os relatos cosmológicos
antigos, e os Itihãsas, ou epopéias históricas. O
Bhãgavata Purãna é um dos dezoito Purãna
principais, e o Mahãbhãrata e o Ramãyana são
Itihãsas. Portanto, usarei o adjetivo védico para
me referir tanto a estas obras quanto aos quatro
Vedas.
Vimãnas
É importante atentar para o fato de que os
veículos aéreos, chamados vimãnas em sânscrito,
eram bem conhecidos à época da antiga
civilização védica. Podiam tanto ser máquinas de
densidade física quanto ser feitas de dois tipos de
energia, as quais podemos chamar de energia sutil
e energia transcendental. De um modo geral, os
humanos desta terra não fabricavam semelhantes
máquinas, embora às vezes as adquirissem de
seres mais avançados tecnicamente.
Há antigos relatos indianos de veículos de madeira
de manufatura humana que voavam com asas à
maneira dos aviões modernos. Embora estes
veículos de madeira também fossem chamados
vimãnas, a maioria dos vimãnas não era em
absoluto como os aviões. Os vimãnas mais típicos
tinham características de vôo semelhantes àquelas
relatadas a respeito dos óvnis, e os seres a eles
associados possuíam, segundo se dizia, faculdades
semelhantes àquelas hoje atribuídas às entidades
ufológicas. Um exemplo de vimãna interessante é
a máquina voadora do antigo rei indiano Salva,
adquirida de Maya Danava, habitante de um
sistema planetário chamado Talãtala. A história de
Sãlva será apresentada mais adiante neste
capítulo, e no Capítulo 7 apresentarei mais
informações sobre os vimãnas.
Outros mundos
Na sociedade védica, entendia-se que é possível
viajar para outros mundos. Isto podia significar
viagens a outros sistemas estelares, viagens a
dimensões superiores ou viagens a regiões
supradimensionais em outro sistema estelar.
Entendia-se, também, que é possível deixar o
universo material de uma vez por todas e viajar
através de níveis gradativos de reinos
transcendentais.
A literatura védica não usa termos geométricos
tais como "dimensões superiores" ou "outros
planetas" ao se referir a este tipo de viagem. Pelo
contrário, a viagem a outros planetas é descrita
em função das experiências dos viajantes, sendo,
por isso, necessário o leitor moderno deduzir, a
partir dos relatos, o fato de esta viagem envolver
mais do que movimentação através do espaço
tridimensional. Como as pessoas da sociedade
moderna estão acostumadas a pensar que uma
viagem é necessariamente tridimensional, usarei o
termo "supradimensional" para me referir a relatos
védicos impossíveis de serem entendidos em
termos tridimensionais.
Talvez se faça objeção ao fato de os indianos da
antigüidade terem tido uma compreensão decerto
muito ingênua e não-científica das estrelas e dos
planetas, não fazendo sentido supor terem eles,
portanto, realmente tido contato com seres de tais
regiões. A resposta é que a descrição védica do
universo soa bastante estranha e mitológica para
uma pessoa de antecedentes ocidentais porque
contém muitas idéias inteiramente alheias às
concepções ocidentais conhecidas. Entretanto, ela
também contém muitas idéias sobre o universo
encontráveis na ciência moderna.
Consideremos, por exemplo, a seguinte descrição
das viagens do herói Arjuna à região das estrelas:
Embora o Sol não brilhasse lá, nem a Lua, nem o
fogo, eles brilhavam com uma luz própria
adquirida por seus méritos. As luzes que são vistas
como as estrelas parecem pequenas lamparinas
por causa da distância, mas elas são muito
grandes. O Pãndava as viu brilhantes e belas,
ardendo em seu próprio ambiente com um fogo
próprio delas. (...)
Contemplando aqueles mundos luminosos por si
mesmos, Phalguna, atônito, indagou de Mãtali em
tom amistoso, ao que o outro lhe disse: "Esses que
lá viste, meu amo, são homens de feitos santos,
ardendo por seu próprio fogo interno e parecendo
estrelas para quem os vê da Terra."
Esta passagem revela uma mistura de elementos
conhecidos e desconhecidos. Segundo supomos,
se viajássemos entre as estrelas, estaríamos bem
distantes do Sol e da Lua e não os veríamos.
Também achamos que as estrelas são grandes
mundos de luz própria que parecem pequenos por
causa da distância. No entanto, não supomos
encontrá-las habitadas por "homens de feitos
santos", e parece-nos estranho, estrelas serem
chamadas de homens. Parece costumeiro os
textos védicos se referirem a uma estrela como
sendo uma pessoa, sendo esta pessoa
normalmente a regente daquela estrela, ou seu
habitante predominante.
Poderia também ser levantada a objeção de que a
Terra era considerada plana na Índia antiga. Na
verdade, a literatura védica descreve duas idéias
da Terra. A Terra é descrita como um globo de
1.600 yojanas de diâmetro no texto sânscrito de
astronomia Sürya-siddbãnta. O yojana é uma
medida de distância, e pode-se argumentar que
este texto usa cerca de dez quilômetros por
yojana. Isto faria o diâmetro da Terra ter cerca de
dezesseis mil quilômetros, o que está bem de
acordo com as cifras modernas. O mesmo texto
calcula em 480 yojanas, ou 4.800 quilômetros, o
diâmetro da Lua. Isto pode ser comparado à cifra
moderna de 4.320 quilômetros.
A Terra também é descrita como um disco plano,
chamado Bhü-mandala, que tem quinhentos
milhões de yojanas de diâmetro. Contudo, um
estudo meticuloso dos textos védicos demonstra
que esta "Terra" corresponde, na verdade, ao
plano da eclíptica. Este é o plano determinado, a
partir de um ponto de vista geocêntrico, pela
órbita do Sol ao redor da Terra. Trata-se, é claro,
de um plano horizontal e por isso, em certo
sentido, a literatura védica fala de fato de uma
Terra plana. É preciso estar atento ao fato de que
o termo Terra, conforme usado em textos védicos,
nem sempre se refere ao pequeno globo terrestre.
O pensamento védico dá a entender a existência
de reinos supradimensionais e habitados que se
estendem para dentro e por sobre a Terra, bem
como através do espaço exterior. Em particular, a
"Terra" plana de Bhü-mandala é um reino habitado
cuja extensão aproximada abrange o plano do
sistema solar, não sendo diretamente visível ou
acessível à nossos sentidos grosseiros. O termo
sânscrito genérico para semelhantes reinos
habitados é ioka, em geral traduzido como planeta
ou sistema planetário. Existem quatorze graus de
lokas, sete superiores e sete inferiores. Bhü-mandala ou Bhü-loka é o mais baixo dos sete
sistemas planetários superiores.
O Sol, a Lua e os planetas Mercúrio, Vênus, Marte,
Júpiter e Saturno são chamados grahas, sendo
todos eles considerados habitados. (Contudo, não
encontrei referência a Urano, Netuno ou Plutão em
textos védicos.) Não surpreende o fato de
considerarem que os habitantes do Sol tenham
corpos de energia ígnea, bem como o fato de
dizerem que os corpos dos habitantes de outros
planetas sejam constituídos de tipos de energia
adequados aos ambientes daqueles planetas.
Humanóides
Os Purãna falam de quatrocentos mil raças
semelhantes à humana vivendo em diversos
planetas e de outros oito milhões de formas de
vida, incluindo plantas e animais inferiores. Das
quatrocentas mil formas semelhantes à humana,
os seres humanos tal como os conhecemos estão
enquadrados entre os menos poderosos. Isto é
compatível, é claro, com o quadro emergente de
relatos de contatos com óvnis.
Assim como venho usando o termo bumanóide
para me referir a seres semelhantes aos humanos
relatados em contatos com óvnis, também o usarei
para me referir às raças védicas semelhantes à
humana. Apesar de ser comum os relatos sobre
óvnis retratarem os humanóides como tendo
aparência estranha ou repulsiva, alguns destes são
descritos como sendo belos. Os humanóides
védicos também variam bastante em aparência.
Segundo consta, alguns deles, como os
Gandharvas e os Siddhas, têm formas humanas
belíssimas. Outros são de aparência feia,
assustadora ou deformada. Um grupo deles é o
dos chamados Kimpurusas Neste caso, kim
significa é mesmo?,e purusa, humano.
Muitas das raças humanóides védicas, segundo
consta, são naturalmente dotadas de
determinados poderes chamados siddhis. Os
humanos desta Terra também têm o potencial
para adquirir estes poderes, e alguns deles gozam
de maiores capacidades a este respeito do que
outros. Eis uma lista de alguns desses siddhis.
Visto parecerem estar diretamente relacionados
com alguns dos poderes atribuídos às entidades
ufológicas, vou examiná-los com mais minúcia em
seções posteriores.
1. Comunicação mental e leitura de pensamento.
Embora estes sejam atributos regulares entre os
humanóides védicos, também é comum o uso da
fala normal por meio do som.
2. Capacidade de ver ou ouvir de muito longe.
3. Laghimã-siddhi: levitação ou antigravidade. Há,
além disso, o poder de aumentar muito o peso.
4. Animã e mahimã-siddhis: poder de alterar o
tamanho de objetos ou corpos vivos sem lhes
romper a estrutura.
5. Prãpti-siddhi: poder de movimentar objetos de
um lugar para outro, aparentemente sem
atravessar o espaço intermediário. Este poder está
vinculado à capacidade de viajar para reinos
supradimensionais paralelos.
6. Capacidade de mover objetos diretamente
através do éter, sem o impedimento de obstáculos
físicos grosseiros. Este tipo de viagem chama-se
vihãyasa. Há também uma espécie de viagem
chamada mano-java, na qual a ação da mente faz
a transferência direta do corpo para um ponto
distante.
7. Vasitã-siddhi: poder de controle hipnótico a
longa distância. Segundo salientam relatos
védicos, pode-se usar este poder para controlar os
pensamentos das pessoas a distância.
8. Antardhãna ou invisibilidade.
9. Capacidade de assumir formas diferentes ou de
gerar formas corpóreas ilusórias.
10. Poder de adentrar o corpo de outra pessoa e
controlá-lo. Faz-se isto usando o corpo sutil
(definido abaixo).
Muitas diferentes raças humanóides védicas,
segundo consta, vivem em reinos
supradimensionais paralelos dentro da Terra, em
sua superfície e em sua vizinhança imediata. Uma
característica surpreendente dos relatos védicos é
que raças diferentes, tais como os siddhas,
cãranas, uragas, guhyakas e vidyãdharas, segundo
se costuma descrever, vivem e trabalham em
cooperação, muito embora tenham hábitos e
aparências muito diferentes.
Em geral, estes seres são bem dotados com os
diversos siddhis. No passado, era possível
encontrar muitos destes tipos humanóides na
Terra, quer como visitantes, quer como habitantes.
De fato, grandes áreas da superfície da Terra têm
sido por vezes controladas e povoadas por uma
série de espécies humanóides. Este é o cenário
básico do Rãmãyana, o qual conta como o Senhor
Rãmacandra resgatou sua esposa Sitã do reino de
Lankã, para onde um rãksasa chamado Rãvana a
havia levado. Os rãksasa são uma das
quatrocentas mil raças humanóides, e
governavam Lankã naquela época.
É amplo o leque de durações de vida entre as
espécies humanóides védicas. Segundo relatos
védicos, os seres humanos terrestres gozavam de
períodos de vida muito mais longos, milhares de
anos atrás. Por exemplo: antes de cinco mil anos
atrás, a vida humana durava, segundo consta,
cerca de mil anos. Durações de vida típicas de
seres humanóides vivendo fora desta Terra são da
ordem de dez mil anos. Existem também, segundo
consta, seres chamados devas, que são
administradores do universo e vivem centenas de
milhões de anos.
Ainda hoje, pessoas da Índia relatam contatos com
humanóides do tipo védico clássico. Dois exemplos
disto são o caso da curadora de varíola e o caso da
Jaladevata registrados no Apêndice 3.
A alma
Conforme uma característica-chave da visão de
mundo védica, os seres vivos são almas que
habitam corpos. A alma chama-se ãtmã ou
jivãtmã, sendo dotada com a faculdade da
consciência. O corpo é constituído de um corpo
grosseiro, composto dos conhecidos elementos
físicos, e de um corpo sutil feito das energias
conhecidas como mente, inteligência e falso ego.
Em virtude do fato de nossos atuais instrumentos
científicos não terem capacidade de detectar estas
energias, a visão científica convencional alega que
as mesmas não existem. No entanto, segundo o
entendimento védico, estas energias interagem
naturalmente com a matéria grosseira e, quando
controladas de maneira apropriada, podem
exercer uma poderosa influência sobre ela.
Segundo consta, a alma e o corpo sutil, além de
transmigrarem de um corpo grosseiro para outro,
podem, também, fazer viagens temporárias fora
do corpo grosseiro. Existem humanóides
envolvidos com a tarefa de controlar o processo de
transmigração, que é regulado por leis universais.
Há um processo natural de evolução da
consciência, mediante o qual as almas aos poucos
alcançam tipos cada vez mais refinados de corpos.
No nível mais elevado de consciência, é possível a
alma se livrar do corpo sutil e se libertar do mundo
material. O estado de liberação, ou mukti, envolve
a transferência da alma para um reino
inteiramente transcendental. Falando de modo
geral, há duas formas de liberação: (1) a
experiência de Brahman, ou unidade
transcendental, e (2) a experiência de atividade
variada a serviço do Supremo nos planetas
espirituais de Vaikuntha.
Segundo a filosofia védica, todas as manifestações
emanam do Ser Supremo, que é conhecido por
muitos nomes, inclusive Krsna, Govinda, Nãrãyana
e Visnu. As almas individuais são consideradas
partes do Ser Supremo, sendo comparadas a
centelhas dentro de um grande fogo. Todas elas
compartilham as qualidades do Supremo em grau
diminuto, motivo pelo qual estão todas
intimamente relacionadas entre si. As almas
libertas manifestam estas qualidades espirituais
na sua plenitude, mas aquelas que se encontram
confinadas em corpos materiais tendem a
manifestar qualidades pervertidas por causa da
influência da energia material.
Os relatos sobre óvnis contêm muitas referências
à alma, à transmigração e a experiências
extracorporais. Estas são analisadas no Capítulo
10. Há, ainda, referências à experiência de
Brahman, assunto que examinarei no Capítulo 11.
A hierarquia cósmica
Uma idéia que costuma aflorar em comunicações
de óvnis é a de que existe lei e ordem no cosmos.
Diversas confederações de planetas são
mencionadas e, segundo consta, elas costumam
obedecer autoridades superiores dotadas de
elevadíssimos estados de consciência e habitantes
de planos ou estados vibracionais superiores.
Como salientei no Capítulo 5, estas comunicações
de óvnis não parecem ser muito confiáveis. Não
obstante, é interessante que a idéia básica de um
governo universal hierárquico seja um elemento-chave da visão de mundo védica.
Na hierarquia cósmica védica, há uma série
gradativa de sistemas planetários superiores, cada
um dos quais é inacessível aos habitantes dos
sistemas situados abaixo dele. A autoridade
máxima no universo material, conhecida como
Brahmã, vive no sistema planetário material
máximo, chamado Brah-maloka. Abaixo de Brah-maloka, ficam os sistemas planetários Tapoloka,
Janaloka e Maharloka, habitados por sábios (rsis)
que vivem como ascetas e cultivam conhecimento
e consciência transcendental.
Abaixo desses planetas, existe o reino de
Svargaloka, que é regido pelos seres conhecidos
como devas. Os devas estão organizados segundo
uma hierarquia militar. Dedicam-se à política e à
guerra, e suas batalhas contra as forças inferiores
podem às vezes representar um impacto sobre a
vida na Terra. No entanto, devido às
prolongadíssimas durações de vida dos devas,
suas relações sociais e políticas tendem a ser
estáveis.
Apesar de o universo estar completamente sob a
influência de um controle inteligente, os
controladores superiores, como os devas e os
grandes sábios, em geral não interferem de forma
direta nas vidas dos seres subordinados, inclusive
os terrestres humanos. Pelo contrário, eles
providenciam para que estes seres transmigrem
de um corpo a outro conforme o trabalho
desenvolvido por cada um deles, proporcionando-lhes, deste modo, uma evolução gradual de
consciência. Também providenciam a
disseminação de ensinamentos espirituais em
diversas sociedades de forma a orientar as almas
corporificadas na direção do desenvolvimento
espiritual superior. Segundo a perspectiva védica,
o avanço espiritual deve ser a meta principal da
vida humana.
Acima da hierarquia cósmica do mundo material,
existe uma hierarquia espiritual comandada pelo
Ser Supremo. Apesar de este sistema hierárquico
estabelecer uma grande distância entre o Ser
Supremo e os humanos desta Terra, a literatura
védica enfatiza o fato de haver uma ligação íntima
entre todas as almas espirituais e este Ser, que
acompanha cada alma como Para-mãtmã, ou
Superalma. Além do mais, o Ser Supremo em
pessoa desce a diversos planetas materiais na
qualidade de avatãra. A história do avatãra
conhecido como Krsna é o tema do Bhãgavata
Purãna, ao passo que o Rãmãyana é a história do
avatãra conhecido como Senhor Rama, ou Rãma-candra.
Elementos egocêntricos
Entre os diferentes tipos humanóides, há raças
cujo perfil é essencialmente egocêntrico. Estas se
distinguem daquelas cuja propensão é se
dedicarem ao serviço do Ser Supremo e da
hierarquia cósmica. Alguns destes humanóides
parecem playboys celestiais que vivem em meio a
grande opulência. Outros se caracterizam por um
estado alienado de consciência, e ainda outros
ostentam uma hostilidade acentuada. As raças
egocêntricas manifestam uma forte tendência à
exploração de poderes e tecnologia místicos. Isto
fica ilustrado pelo exemplo de Maya Danava, o ser
responsável pela construção do vimãna do
supramencionado rei Salva.
Todos estes diferentes grupos de seres estão sob o
controle da hierarquia universal, não sendo
capazes, portanto, de agir inteiramente de acordo
com suas próprias propensões. Isto explicaria o
motivo pelo qual eles não logram nos dominar por
completo. No entanto, existem seres que, movidos
por uma rebeldia ativa contra a hierarquia
cósmica, por vezes interferem sobremaneira nos
assuntos da Terra.
Os rebeldes mais famosos são os asuras, que são
parentes próximos dos devas. Os Purãna
descrevem prolongadas guerras entre devas e
asuras em Svargaloka, e a trama básica do
Mahãbhãrata tem a ver com uma invasão da Terra
por parte dos asuras. Isto é analisado, no Capítulo
10, com relação a certas atividades nocivas que
têm sido atribuídas aos óvnis.
Como os devas são seres de índole divina que
ocupam cargos administrativos na hierarquia
universal, é comum o uso da palavra semideus,
tomada emprestada da clássica mitologia grega e
romana, em referência a eles. Em contraste, é
comum chamarem os rebeldes asuras de
demônios, já que estes tendem a ser ateístas e se
oporem à ordem divina.
Na verdade, o termo demônio adquiriu suas
conotações negativas pela influência do
cristianismo. Esta palavra provém de daemon, que
na Roma clássica significava um ser intermediário
entre os semideuses e o homem. Segundo
entendiam os romanos e os gregos, havia muitos
tipos de seres nesta categoria, e nem todos eles
eram encarados como maus ou demoníacos. A
literatura védica também descreve muitas raças
intermediárias entre os devas e os seres humanos,
entre as quais se incluem os vidyãdharas, uragas e
rãksasas.
Os rãksasas são demoníacos e bastante hostis aos
humanos. Os vidyãdharas e os uragas são
essencialmente neutros — eles cooperam com a
hierarquia universal, mas têm seus próprios
compromissos, não sendo nem favoráveis nem
contrários à raça humana. Pertencem a uma
categoria de seres conhecidos como upadevas, ou
quase-devas.
Origens humanas
Segundo o sistema de pensamento védico, as
diversas espécies de seres vivos passaram a
existir por meio de um processo de criação e
emanação. As almas espirituais são todas
emanações do Supremo, tanto quanto o é o corpo
de Brahmã, o primeiro ser vivo a surgir no
universo. Brahmã gerou diversas formas corpóreas
pela ação mental direta e, a partir destas formas,
produziram-se gerações de descendentes pela
reprodução sexual. Ao contrário das espécies vivas
de que temos experiência, estes seres portavam
bijas, ou sementes, para muitos tipos diferentes de
seres, de modo que podiam produzir diferentes
tipos de progênie. (Como os corpos destes seres
são compostos de formas sutis de energia, as bijas
não são feitas de matéria densa, como o DNA.)
Todas as diferentes raças humanóides foram
produzidas desta maneira e, sendo assim, estão
todas relacionadas pela ancestralidade comum. Os
humanos desta Terra, em particular, descendem
dos devas aliados a diversas linhagens em épocas
diferentes. Portanto, gozam de uma ancestralidade
celestial bastante complexa. Conforme indicam
claramente os relatos védicos, pode ocorrer
hibridação entre diferentes espécies humanóides.
Em particular, alguns dos heróis do Mahãbhãrata
eram tidos como descendentes de mãe humana e
pai deva. Este assunto é analisado com mais
minúcia no Capítulo 8 (páginas 336-40).
Contato
Na antiga civilização védica, havia uma sólida
tradição de contato com diversas raças não-humanas. Rsis e devas celestiais faziam visitas
regulares às cortes de grandes reis da Terra. Havia
sólidas relações diplomáticas e satisfatórios
entendimentos mútuos entre destacados membros
da sociedade humana e representantes de outras
sociedades da hierarquia cósmica. Isto fica
ilustrado pela descrição, no Bhãgavata Purãna, do
sacrifício rãjasüya realizado pelo rei Yudhisthira, o
que ocorreu, segundo tradicionais cálculos de
data, cerca de cinco mil anos atrás na cidade de
Indraprastha, próxima à atual Nova Déli. A
conclusão deste evento é descrita como segue:
Os celebrantes do sacrifício, os sacerdotes e
outros brãhmanas excelentes vibraram mantras
védicos em tom retumbante, enquanto os
semideuses [devas], sábios divinos [rsis], pitãs e
gandharvas entoaram louvores e lançaram chuvas
de flores. (...)
Os sacerdotes orientaram o rei quanto à execução
dos rituais finais de patni-saãyãja e avabhrthya.
Em seguida, fizeram com que ele e a rainha
Draupadi sorvessem água para sua purificação e
se banhassem no Ganges. (...)
Depois, o rei se vestiu com novas roupas de seda e
se adornou com jóias requintadas. Honrou então
os sacerdotes, os celebrantes do sacrifício, os
brãhmanas eruditos e outros convidados,
presenteando-lhes com ornamentos e roupas.
De diversas maneiras, o rei Yudhisthira, que
dedicara sua vida toda ao Senhor Nãrãyana,
conferiu honras ininterruptas a seus parentes, sua
família imediata, outros reis, seus amigos e
simpatizantes, bem como todos os demais
presentes. (...)
Assim, os cultíssimos sacerdotes, as grandes
autoridades védicas que haviam atuado como
testemunhas do sacrifício, os reis convidados
especiais, os brãhmanas, ksatriyas, vaisyas,
südras, semideuses, sábios, antepassados e
espíritos místicos, e os principais governantes
planetários e seus seguidores — todos eles, tendo
sido adorados pelo rei Yudhisthira, pediram-lhe
permissão e partiram, O Rei, cada um para sua
própria morada.
Os antepassados, ou pitãs, são habitantes de
Pitrloka, planeta vinculado ao regulamento
concernente à transmigração das almas. Os
gandharvas, uma raça de seres belíssimos,
enquadram-se na categoria de upadevas, e os
governantes planetários são preeminentes líderes
dos devas. A expressão espíritos místicos refere-se
aos bhütas, seres espectrais cuja mentalidade é
um tanto negativa e alienada. Ao se afirmar que
estes diversos seres pediram permissão ao rei
Yudhisthira para partir para suas moradas, isto não
quer dizer que ele era o governante deles. Eles
estavam apenas se portando conforme as boas
regras de etiqueta.
Relatos védicos de fenômenos de
contato imediato
Muitos são os paralelos entre a visão védica da
realidade, conforme a descrição acima, e o quadro
emergente de relatos sobre óvnis. Sem dúvida, a
literatura védica não sofreu influência das histórias
sobre óvnis, visto que mesmo os mais recentes
cálculos de data de textos védicos importantes os
situam no início da Idade Média. Entretanto, é
possível ter havido influência da informação védica
sobre algumas das citadas comunicações de óvnis.
Segundo observei no Capítulo 5 (página 217), por
exemplo, a duração de vida de
311.040.000.000.000 de anos de Brahmã foi
mencionada nas notas de contato de Eduard
Meier. Baseado no contexto da referência de Meier
a este cálculo, é provável que o mesmo tenha se
originado do temas teosóficos que, segundo se
sabe, Meier teria estudado.
Sempre consta algum material védico nas obras
dos teosofistas e outros escritores místicos
ocidentais, muito embora todos eles o reelaborem
à seu próprio modo. Há três maneiras pelas quais
parte deste material poderia se infiltrar em
comunicações de óvnis. Em primeiro lugar, certas
pessoas, ao apresentarem comunicações falsas,
poderiam fazer uso de parte deste material, que é
bastante difundido em círculos populares. Há
ainda a possibilidade de o material aflorar do
inconsciente e ser embutido nas histórias de
contato relatadas por pessoas sinceras. Isto é
chamado de criptomnésia.
Segundo a terceira possibilidade, as entidades
ufológicas teriam extraído semelhante material da
cultura humana popular para inseri-lo em
mensagens transmitidas às pessoas com as quais
entram em contato. Conforme argumentei no
Capítulo 5, às vezes afloram elementos da cultura
ocidental, como, por exemplo, o mito egípcio da
Fênix, em casos de contato imediato com óvnis.
Questionei, além disso, se seres não-humanos
estariam ou não influenciando a cultura humana
ao introduzirem nela as suas próprias idéias. É
concebível, por exemplo, o fato de que o mito da
Fênix tenha se originado séculos atrás numa
cultura não-humana.
Se detalhes específicos da literatura védica (tais
como a duração da vida de Brahmã) surgem de
quando em quando em aparentes comunicações
de óvnis, há, então, a possibilidade de terem saído
da literatura védica por uma destas rotas. No
entanto, grande parte do material constante em
textos védicos é praticamente desconhecido de
ocidentais sem nenhum interesse explícito em
temas védicos.
Parte deste material apresenta paralelos com
características amiúde relatadas do aparecimento
e comportamento dos óvnis e das entidades
ufológicas. Para que os ocidentais falseiem estas
características relatadas com base em material
védico, o interesse deles em temas védicos teria
que ser bem maior do que o observado em geral.
Da mesma forma, parece implausível que
entidades ufológicas tivessem decidido
extensamente falsear coisas com base em textos
védicos. Estes paralelos poderiam, portanto,
indicar uma relação autêntica entre as
experiências de pessoas que viveram nos tempos
védicos e as experiências modernas envolvendo
óvnis. No restante deste capítulo, ilustrarei isto
com uma série de exemplos.
O bombardeio aéreo a Dvaraks
Pode-se encontrar uma série de interessantes
paralelos com relatos sobre óvnis na história de
Sãlva no Décimo Canto do Bhãgavata Purãna.
Sãlva era um rei desta Terra que nutria intensa
hostilidade contra o Senhor Krsna e jurou destruir
Dvãrakã, a cidade de Krsna. Para tanto, adquiriu
um extraordinário vimãna adorando o Senhor Siva.
Começarei citando uma descrição do vôo do
vimãna de Sãlva, mencionado pelo tradutor como
avião:
O avião ocupado por Sãlva era muito misterioso.
De tão extraordinário que era, às vezes parecia
haver muitos aviões no céu, enquanto outras
vezes aparentemente não se via avião algum. Às
vezes, o avião ficava visível, e outras invisível, e os
guerreiros da dinastia Yadu ficavam perplexos
quanto ao paradeiro do singular avião. Ora eles
viam o avião no solo, ora voando no céu, ora
pousado no pico de uma colina, ora flutuando na
água. O maravilhoso avião voava no céu como um
tição rodopiante — não se estabilizava um instante
sequer.
É significativo que, em seus extensos escritos, o
tradutor desta passagem, A. C. Bhaktivedanta
Swami Prabhupãda, jamais tenha se referido a
óvnis ou discos voadores. Todavia, as
características de vôo deste "avião" assemelham-se às dos óvnis sob muitos aspectos. O veículo
brilha e se movimenta de maneira irregular, como
um tição rodopiado por um dançarino. Também
aparece e desaparece. Os óvnis são bem
conhecidos por este tipo de comportamento e,
segundo também se descreve, eles pousam ou
pairam sobre a água para em seguida decolarem
abruptamente.
A título de exemplo, consideremos o caso de um
óvni observado por oficiais da Força Aérea no
centro-sul dos Estados Unidos em 17 de julho de
1957. Este caso foi resumido no jornal Astronautics
and Aeronautics como segue:
Um RB-47 da Força Aérea, equipado com
mecanismo eletrônico de medida defensiva e
tripulado por seis oficiais, foi seguido por um
objeto não-identificado por uma distância de bem
mais de 1.400 quilômetros e por um período de
uma hora e meia, enquanto voava do Mississippi,
passando por Louisiana e Texas, para Oklahoma. O
objeto foi, mais de uma vez, visto a olho nu pela
tripulação da cabine de comando como uma luz
intensa, seguido pelo radar de terra e detectado
no monitor do mecanismo defensivo a bordo do
RB-47. São de especial interesse, neste caso, as
diversas ocorrências de aparecimentos e
desaparecimentos simultâneos em todos os três
"canais" fisicamente distintos, bem como a rapidez
das manobras, que extrapola a experiência
anterior da tripulação.
Um dos aparentes desaparecimentos do objeto
ocorreu justo quando o RB-47 estava prestes a
sobrevoá-lo. Segundo observou o piloto, o objeto
parecia se esvair visualmente e simultaneamente
desaparecer do alcance do monitor
supramencionado. Ao mesmo tempo, ele
desaparecia do alcance dos radares localizados em
Utah. Instantes depois, o objeto ressurgia
visualmente e, em concomitância, aparecia no
monitor de bordo e no radar de terra. Os
observadores no RB-47 também repararam que às
vezes o óvni gerava dois sinais com ângulos
diferentes em seu equipamento de monitoração
eletrônica. Embora não saibamos na verdade o
que o óvni estava fazendo, isto nos faz lembrar a
afirmação de que o vimãna de Sãlva parecia às
vezes existir sob formas múltiplas.
Como Sãlva adquiriu seu extraordinário veículo?
Em vista da controvérsia relativa a acordos entre o
governo americano e os alienígenas, vale destacar
o fato de o vimãna de Sãlva ter sido fabricado por
um perito em tecnologia de outro planeta. Eis a
história. (Pasupati e Umãpati são dois nomes do
Senhor Siva.)
Tendo assim feito seu juramento, o tolo rei [Sãlva]
passou a adorar o Senhor Pasupati como sua
deidade, comendo um punhado de terra cada dia,
e nada mais.
O grande Senhor Umãpati é conhecido como
"aquele que se satisfaz rapidamente", todavia, só
depois de terminado um ano é que ele
recompensou Sãlva, que se refugiara nele,
oferecendo-lhe o direito de escolher uma bênção.
Sãlva escolheu um veículo que não pudesse ser
destruído por semideuses [devas], demônios
[asuras], humanos, gandharvas, uragas nem
rãksasas, que pudesse viajar para onde quer que
ele desejasse ir e que aterrorizasse os Vrsnis.
O Senhor Siva disse: "Que assim seja." Por ordem
dele, Maya Danava, que conquista as cidades de
seus inimigos, construiu uma cidade voadora de
ferro chamada Saubha e a presenteou a Sãlva.
Este veículo inatacável era todo escuro e podia ir a
qualquer lugar. Tendo-o obtido, Sãlva foi para
Dvãrakã, lembrando-se da hostilidade dos Vrsnis
contra ele.
Sãlva acossou a cidade com um grande exército, Ó
melhor dos Bharatas, dizimando os parques e
jardins exteriores, as mansões e seus respectivos
observatórios, os altos portais e os muros
circundantes, bem como as áreas de recreação
pública. De sua excelente nave aérea, ele lançou
uma torrente de armas, inclusive pedras, troncos
de árvores, raios, serpentes e granizos. Surgiu um
violento redemoinho que empoeirou todas as
direções.
Assim atormentada pelos TERRÍVEIS ataques da
aeronave Saubha, a cidade do Senhor Krsna não
tinha paz, O rei, assim como a Terra ao ser
atacada pelas três cidades aéreas dos demônios.
Como podemos ver neste relato, Sãlva não
contratou engenheiros para fabricar sua aeronave
na Terra. Existem descrições em sânscrito,
conforme salientarei no Capítulo 7, de naves
mecânicas parecidas com aviões, construídas,
segundo consta, por seres humanos. No entanto,
tanto quanto eu sei, não há relatos indicando que
seres humanos comuns tenham alguma vez
construído veículos como o de Sãlva, capazes de
ostentar modalidades místicas de vôo.
É significativo que Sãlva lançasse coisas tais como
serpentes, pedras e troncos de árvore de seu
vimãna. Não se faz menção de bombas e, muito
embora possuísse uma aeronave extraordinária,
Sãlva não parecia dispor do tipo de tecnologia de
armas aéreas usado na Segunda Guerra Mundial.
De fato, porém, dispunha de uma tecnologia
bastante diferente, que podia ser usada para
afetar o clima e produzir redemoinhos, raios e
granizos.
Nesta história, como em muitas outras, o
fabricante do vimãna era o ser chamado Maya
Danava. Este personagem era o soberano de um
reino de dãnavas situado no planeta conhecido
como Talãtala. Os dãnavas, poderoso grupo de
humanóides, eram famosos por sua perícia em
tecnologia. A palavra mãyã significa não só a
energia formadora do universo material mas
também o poder da ilusão. Maya Danava era
assim chamado por ser um perito manipulador de
mãyã.
Umã, a esposa do Senhor Siva, também é
conhecida como Mãyã Devi, ou a deusa
encarregada da energia ilusória. Ela também é a
Mãe Divina, adorada no mundo todo com muitos
nomes diferentes. Como Siva é esposo de Umã,
ele é o senhor da ilusão e da tecnologia. Deste
modo, existe um elo natural entre o Senhor Siva,
de quem Sãlva se aproximou a fim de obter seu
vimãna, e Maya Danava, o senhor da ilusão que o
fabricou.
É significativo o fato de Sãlva ter solicitado um
veículo que não pudesse ser destruído por devas,
asuras, gandharvas, uragas ou rãksasas. Visto
serem todas estas poderosas raças humanóides
visivelmente ativas na Terra ou em suas
redondezas na época de Sãlva, era natural ele
querer ter capacidade para se defender delas.
O veículo de Sãlva é descrito como uma cidade de
ferro e devia ter, portanto, aparência metálica e
ser bem grande. Como veremos no Capítulo 7,
muitos vimãnas védicos são descritos como
cidades voadoras, o que nos faz lembrar as
enormes "naves-mãe" às vezes mencionadas em
relatos sobre óvnis. O mesmo veículo também é
descrito como a "morada da escuridão", ou tamo-dhãma. "Escuridão", neste caso, se refere à
ignorância, ou ilusão, que caracteriza o mundo
material em geral e que a literatura védica associa
em particular a seres de caráter negativo, tais
como os asuras e os dãnavas. Refere-se à falta de
compreensão espiritual, e não à falta de
conhecimento técnico.
Invisibilidade e flechas sensíveis ao
som
A história do vimãna de Sãlva contém uma série
de características que podem nos ajudar a
compreender o fenômeno ufológico. Já mencionei,
por exemplo, o poder de invisibilidade do vimãna.
E interessante ver como Krsna, atuando como um
guerreiro humano em defesa de Dvãrakã, lidou
com esta invisibilidade. Na passagem abaixo,
Krsna dirige a palavra ao rei Yudhisthira:
Peguei meu arco cintilante, melhor dos Bhãratas,
e, com minhas flechas, cortei as cabeças dos
inimigos de Deus a bordo do Saubha. Atirei contra
o rei Sãlva flechas bem preparadas, que mais
pareciam serpentes venenosas, flechas em
chamas que atingiam grandes altitudes quando
disparadas de meu Sãrriga. Então, o Saubha
tornou-se invisível, Ó próspero descendente da
linhagem de Kuru, escondido por meio de
feitiçaria, e eu fiquei atônito.
Os bandos de dãnavas, com caritas no rosto e
cabeças desgrenhadas, berravam, enquanto eu
mantinha minha posição, grande rei. Mais do que
depressa arremessei uma flecha, programada para
ir ao encalço do som, para matá-los, e a gritaria se
esvaiu. Todos os dãnavas que estiveram gritando
jaziam mortos, atingidos pelas flechas, flamejantes
como o sol, que eram acionadas pelo som.
Como podemos constatar por esta passagem,
muito embora Sãlva fosse um rei humano, um
contingente de grotescos soldados dãnavas estava
presente em seu vimãna. Isto faz sentido, é claro,
se levamos em conta que Sãlva obtivera a nave do
líder dos dãnavas. Há muitos relatos védicos de
semelhan¬tes alianças entre seres humanos e
outras raças humanóides. Mesmo parecendo
duvidoso para os historiadores modernos o fato de
ter alguma vez existido esta espécie de alianças,
fica evidente que a idéia das mesmas esteve em
voga na índia antiga. E, se tais alianças de fato
existiram, então é de se supor que elas também
pudessem ser feitas hoje em dia.
Os arcos e flechas usados pelos defensores de
Dvãrakã, segundo também demonstra a passagem
citada, não eram de um nível primitivo ou
medieval de tecnologia. O arco era utilizado como
dispositivo de lançamento para muitos tipos de
flechas. Estas costumam ser descritas como
"flamejantes" ou "semelhantes ao sol", sendo,
neste caso, dotadas de alguma espécie de sistema
de orientação que lhes possibilitava encontrar
seus alvos por meio do som. Por ser evidente o
fato de o desenvolvimento tecnológico não ser
necessariamente linear, conclui-se que nem todas
as formas de tecnologia superiores à nossa são
aprimoramentos do tipo de tecnologia de que
dispomos hoje.
Conforme também demonstra a história das
flechas sensíveis ao som, mesmo ao se tornar
invisível, o vimãna de Sãlva ainda estava presente
no plano físico, e era possível ouvir os sons que
emanavam dele. Esta característica também se
manifesta numa série de relatos sobre óvnis.
Encontramos um exemplo disto na história de um
homem chamado Maurice Masse, cujo resumo vai
a seguir.
Masse era produtor de alfazema em Valensole,
uma aldeia da Provença, França. Na manhã de 1º
de julho de 1965, por volta das 5h45, ele
terminava de fumar um cigarro antes de começar
a trabalhar. De repente, ouviu um zunido e, ao se
virar, avistou uma máquina com formato de bola
de rúgbi e do tamanho de um Dauphine. Apoiava-se sobre seis pernas, com um pivô central fincado
no solo abaixo dela. Masse viu dois meninos perto
do objeto, mas, ao se aproximar do mesmo,
percebeu que não eram meninos. A uma distância
de cerca de cinco metros, um dos seres paralisou-o ao apontar um aparelho semelhante a um lápis
na direção dele.
Após algum tempo, os seres voltaram à sua
máquina, e Masse pôde vê-los olhando para ele de
dentro da nave. Nessa altura, as pernas retraíram-se e, com um baque do pivô central, a máquina
alçou vôo e distanciou-se silenciosamente. Aos
vinte metros depois, desapareceu, mas deixou
vestígios de sua passagem no campo de alfazema,
num raio de quatrocentos metros. Segundo dizem,
não cresce mais alfazema no local onde pousou o
veículo.
Conforme podemos constatar por esta descrição,
na certa o veículo esteve presente no plano físico
após ter sumido de vista a uma distância de vinte
metros. Pelo menos, esta é uma conclusão natural
em virtude do fato de o campo de alfazema ter
sido afetado pela passagem do veículo num raio
de no mínimo quatrocentos metros. Logo, sua
invisibilidade parece ter sido semelhante à do
vimãna de Sãlva. Em ambos os casos, parece ter
havido manipulação da luz ou do sentido da visão
de modo a ocultar a nave aérea, que mesmo assim
expôs sua presença pelo som ou pelas alterações
do ar.
A faculdade da invisibilidade não se limitava
apenas ao vimãna de Sãlva. O próprio Sãlva
também era capaz de se tornar invisível e viajar
para outro lugar neste estado. Além disso, tinha o
poder de projetar formas ilusórias:
Tomado de ira, o Senhor Krsna desferiu um golpe
de maça tão forte contra a clavícula de Sãlva que
este passou a ter sangramento interno e a tremer
de frio como se estivesse a ponto de desfalecer.
Antes que Krsna pudesse atingi-lo de novo,
contudo, Sãlva se tornou invisível por meio de seu
poder místico.
Dentro de poucos instantes, um misterioso homem
desconhecido apareceu ante o Senhor Krsna.
Mergulhado em prantos, ele se prostrou aos pés
de lótus do Senhor e disse-Lhe: "Por seres o tão
amado filho de Vasudeva, Teu pai, Tua mãe,
Devaki, enviou-me para informar-Te da triste
notícia de que Sãlva capturou Teu pai e levou-o à
força, assim como um carniceiro arrasta
cruelmente um animal." Ouvindo o homem
desconhecido relatar esta triste notícia, o Senhor
Krsna ficou perturbadíssimo a princípio, tal qual
um ser humano comum. (...) Enquanto Sri Krsna
estava assim absorto em pensamentos, Sãlva
trouxe até Ele um homem acorrentado de
aparência idêntica à de Vasudeva, o pai d’Ele.
Tudo não passava de criações do poder místico de
Sãlva.
Sãlva disse então a Krsna: "Krsna patife! Este é o
Teu pai, que Te gerou e por cuja misericórdia
ainda vives. Agora vê como matarei Teu pai. Se
tens alguma força, trata de salvá-lo." O
prestidigitador místico Sãlva, falando neste tom
perante o Senhor Krsna, logo decepou a cabeça do
falso Vasudeva. Em seguida, sem hesitar, agarrou
o cadáver e embarcou em seu avião.
Logo depois, Krsna percebeu que de fato não havia
ali nenhum corpo de Vasudeva. Tratava-se apenas
de uma ilusão projetada por Sãlva usando
métodos aprendidos com Maya Dãnava. Mais
adiante neste capítulo (páginas 289-92), analisarei
casos nos quais entidades ufológicas parecem ter
feito pessoas verem miragens — tais como uma
bela corça no bosque — a fim de manipular- lhes o
comportamento. Exemplos disto se multiplicam
tanto na literatura védica quanto na literatura
ufológica.
Na literatura ufológica também encontramos casos
de indivíduos desaparecendo subitamente e
viajando para outra localidade. Um exemplo disto
ocorreu em Nouatre, Indre-et-Loire, França, em 30
de setembro de 1954. Por volta das 16h30,
Georges Gatey, chefe de uma equipe de
construtores, deparou com um homem de
aparência estranha parado em frente a uma
grande abóbada brilhante que flutuava cerca de
um metro acima do solo. Meu interesse neste caso
está na forma pela qual estas estranhas aparições
desapareceram:
Repentinamente, o estranho homem desapareceu,
e isto de forma inexplicável para mim, já que ele
não saiu andando de meu campo de visão, mas
sim esvaiu-se como uma imagem que de súbito se
apaga.
Então, escutei um forte zunido que abafou o ruído
de nossas escavadeiras; o disco subiu no sentido
vertical fazendo movimentos abruptos para em
seguida também se apagar numa espécie de
bruma azul, como que por milagre.
O Sr. Gatey, um pragmático veterano de guerra
que afirmava não estar habituado a ímpetos de
fantasia, teve sua história confirmada por diversos
dos construtores.
Outra história de óvni desaparecendo de repente
envolveu o policial Charles Delk, de Forrest
County, Mississippi, condecorado por sua
dedicação no cumprimento da lei. Às 20h15 de 7
de outubro de 1973, Delk assistia à televisão
quando o assistente do delegado ligou para ele,
pedindo-lhe para investigar uma visão de óvni
ocorrida perto dali. Cético, Delk se recusou a
desperdiçar seu tempo com tal coisa e voltou a
assistir a seu programa. Porém, tendo sido
solicitado uma segunda vez, resolveu investigar a
queixa. Como era de se prever, quando ele chegou
ao local da visão, o óvni já se fora.
No entanto, a caminho de casa, Delk viu um
cintilante objeto em forma de copa de árvore, com
luzes piscantes, a flutuar lentamente pelo ar.
Mantendo contato pelo rádio com seu superior,
Delk descreveu como o objeto pairava sobre uma
instalação de energia elétrica e emitia jatos
sibilantes parecidos com os de um maçarico. Após
Delk tê-lo seguido por diversos quilômetros, o
objeto se aproximou de seu carro, e motor, luzes e
rádio deixaram de funcionar. Cerca de quinze
minutos após o objeto partir, o carro e o rádio
voltaram a funcionar. Delk alcançou o objeto de
novo e observou-o virando lentamente de cabeça
para baixo. Então, ainda plenamente à vista,
sumiu de repente. Conhecidos de Delk o
descreveram como um policial pragmático e
modelar que gozava de sólida reputação e nada
tinha a lucrar por inventar histórias absurdas.
Em resumo, a história do vimãna de Sãlva envolve
uma nave aérea com características semelhantes
àquelas relatadas com referência a visões de
óvnis. Envolve, também, pessoas que manifestam
incomuns poderes e padrões de comportamento,
os quais são típicos daqueles relatados em
contatos imediatos com óvnis. De maneira
engraçada, isto foi reconhecido por J. A. B. van
Buitenen na introdução à sua tradução do
Mahãbhãrata. Eis as suas observações sobre a
batalha de Krsna com Sãlva:
Temos aqui o relato de um herói que tomou estes
astronautas visitantes pelo que eles eram: intrusos
e inimigos. A cidade aérea nada mais é que um
campo armado com lançadores de chamas e
canhão trovejante, sem dúvida uma nave espacial.
O nome dos demônios também é revelador: eles
eram nivãtakavacas, "trajados com armaduras
herméticas", que nada mais podem ser além de
trajes espaciais. É encorajador saber que alguma
vez no passado remoto se destacou um homem
que destruiu a nave espacial, abortando-lhe a
missão munido de arco e flecha.
Os nivãtakavacas são um subgrupo dos dãnavas. A
palavra nivãta quer dizer nenhum ar, e kavaca,
armadura. Talvez isto se refira mesmo a trajes
espaciais.
Levitação, ou Laghima-siddhi
Voltemos à história de Maurice Masse e
analisemos sua descrição dos seres que ele viu.
Conforme ele disse, as criaturas tinham menos de
um metro e meio de altura, usavam roupas cinza-esverdeadas justas e tinham cabeças parecidas
com abóboras. Tinham bochechas altas e
carnudas, grandes olhos oblíquos que varavam os
lados do rosto, bocas fendidas e sem lábios,
queixos bem pontudos. Movimentavam-se,
prossegue a descrição, como que "subindo e
descendo no espaço como bolhas numa garrafa
sem apoio aparente" ou "deslizando ao longo de
faixas de luz".
Referências a seres estranhos que deslizam ou
flutuam no ar são por demais comuns em relatos
sobre contatos imediatos com óvnis. Encontramos
outro exemplo disto na história do sargento
Charles L. Moody do Programa de Confiabilidade
Humana da Força Aérea americana, um grupo de
elite cujos candidatos a membro são submetidos a
uma cuidadosa triagem psiquiátrica para a
identificação de distúrbios emocionais (página
196). Ele relatou ter sido raptado de seu
automóvel nas redondezas de Alamogordo, Novo
México, na madrugada de 13 de agosto de 1975.
Descreveu seus captores como nanicos e disse:
"Sei que vai soar ridículo e espero que ninguém
me coloque uma camisa-de-força, mas aqueles
seres não caminhavam, eles deslizavam."
A literatura védica descreve um poder místico
chamado Laghimã-siddhi, que capacita a pessoa a
superar a força da gravidade. Há inúmeras
referências a seres e objetos que flutuam como
plumas por meio deste poder, de uso comum entre
os devas e raças humanóides afins. Portanto, um
comentário sobre o Bhãgavata Purãna declara: "Os
residentes dos sistemas planetários superiores, a
começar de Brahmaloka... até Svargaloka... são
tão avançados na vida espiritual que, ao virem
visitar este ou outros sistemas planetários
inferiores semelhantes, mantêm sua
antigravidade. Isto significa que lhes é possível
ficar de pé sem tocar o solo."
Consta que os yogis podem adquirir o poder de
Laghimã-siddhi. Krsna descreve como se pode
fazer isto no 11° Canto do Bhãgavata Purãna:
Eu existo dentro de tudo, e sou por isso a essência
dos constituintes atômicos dos elementos
materiais. Vinculando sua mente a Mim desta
forma, o yogi pode atingir a perfeição chamada
laghimã, mediante a qual percebe a substância
atômica sutil do tempo.
É curioso o fato de a antigravidade ser vinculada
ao tempo. Talvez seja significativo que, na teoria
geral da relatividade, a gravidade está ligada a
transformações de espaço e tempo. Também é
digno de nota que nos tempos védicos já
conhecessem a idéia das partículas atômicas.
Desaparecimento e reaparecimento
É possível que Sãlva, ao desaparecer após ser
golpeado por Krsna, tenha apenas se tornado
invisível e se afastado de onde estava. Em outros
casos constantes em relatos védicos, contudo,
alguém desaparece fisicamente de determinada
localidade para reaparecer em outra parte, e isto
sem atravessar o espaço intermediário da forma
costumeira. Segundo a perspectiva védica, a
capacidade para se fazer isto nada mais é que um
poder místico natural, ou siddhi — certos seres,
tais como os cãranas e os siddhas, herdam-no ao
nascerem, enquanto outros logram adquiri-lo
mediante determinados métodos práticos. Tanto
quanto no caso de faculdades corpóreas comuns,
este poder místico depende das leis da natureza e
da organização grosseira e sutil do corpo.
Eis um dos muitos relatos védicos cuja trama tem
este poder como elemento padrão. Quando
criança, o grande sábio Vyãsa fizera uma
promessa a sua mãe, Satyavati, dizendo: "Mãe, se
alguma vez precisares de mim, basta fixares tua
mente em mim que eu irei aonde estiveres."
Passados alguns anos, Satyavati precisou
consultar Vyãsa por ocasião da morte de
Vicitravirya, então rei da dinastia Kuru e irmão
caçula de Vyãsa. Como o rei morrera sem deixar
filhos, Vyãsa poderia, segundo a lei, gerar filhos
com as viúvas do irmão para dar continuidade à
linhagem real. Após Bhisma, o estadista mais
velho, ter aprovado este procedimento, "Satyavati
fixou a mente em seu filho, que recitava os Vedas
naquele momento. Bastou o grande sábio
perceber que sua mãe fixara a mente nele para
num instante aparecer perante ela".
Neste caso, parece que Vyãsa desapareceu do
lugar onde recitava os Vedas para logo aparecer
diante de sua mãe num local inteiramente
diferente. O fato de Vyãsa ter feito isto "num
instante" sugere que ele viajou até onde estava
sua mãe se valendo de algum método paranormal.
A comunicação telepática entre Vyãsa e sua mãe
também é uma característica comum em relatos
védicos.
O sábio Vyãsa era um ser humano imbuído de
grandes faculdades místicas, resultantes de ele ter
sido dotado de poder pelo próprio Ser Supremo.
Uma pessoa assim é conhecida como saktyãvesa-avatãra. Vyãsa é famoso por ter compilado os
Vedas e, segundo dizem, ele ainda vive nos
Himalaias. Na civilização védica, sábios deste tipo
atuavam como elos entre a sociedade humana
terrestre e a hierarquia celestial.
Encontramos, na literatura ufológica, muitos
relatos de seres que aparecem ou desaparecem de
repente e que parecem ser capazes de viajar
mediante um misterioso artifício de invisibilidade.
No caso de William Hermann da Carolina do Sul
(veja páginas 206 e 227-32), dois seres
alienígenas do tipo atarracado e cabeçudo
surgiram, segundo o relato, em meio a um fulgor
azul no quarto de Hermann enquanto ele, no
corredor, conversava ao telefone com o
investigador ufológico John Fielding. Um dos seres,
conforme reconheceu Hermann, estivera com ele
num óvni durante um rapto anterior. Após uma
breve conversa telepática durante a qual os seres
disseram poder confiar em Fielding, eles voltaram
para o quarto de Hermann e sumiram. Segundo
disse Hermann, um pouco antes disso eles haviam
feito com que um objeto de metal, com inscrições
gravadas aparecesse ante seus olhos em meio a
uma cintilante bola de luz azul.
Num caso em Altrincham, Inglaterra, em fins de
1984, um homem encontrou por duas ocasiões,
conforme relata, um pequeno ser feioso em seu
quarto. Ele formula duas questões interessantes
sobre estas experiências: (1) Como era míope,
teve de esforçar-se para focalizar o ser, tanto
quanto o fazia normalmente com objetos reais. Por
que uma experiência alucinatória haveria de se
sujeitar às limitações de sua pobre visão? (2) A
figura sumiu num instante sem fazer ruído algum.
Por que não deixou um vácuo parcial,
acompanhado de seu conseqüente ruído?
Num caso um tanto diferente relatado por um
estudante universitário de vinte anos, este, ainda
criança, teria visto um ser em seu quarto: "Era
baixo e tinha olhos grandes... também parecia ter
uma aura ou alguma espécie de brilho à sua volta.
Acho que não consegui me mexer enquanto ele
esteve ali. Parece ter falado com meu irmão, mas
não sei o que disse. Parece ter entrado e saído
pela parede por trás da cômoda." Seria possível
descartar esta história, é claro, tachando-a de
pesadelo ou alucinação. No entanto, como
semelhantes histórias ocorrem repetidas vezes e
costumam envolver seres de aparência
padronizada, também é possível que as
experiências relatadas tenham sido provocadas
por visitas de entidades reais.
Por fim, há o controvertido caso de Eduard Meier
(páginas 209-23). Segundo consta, Meier teria de
súbito aparecido e desaparecido em diversas
ocasiões, supostamente como resultado de
manipulações de alta tecnologia por parte dos
seres com quem ele mantinha contato. Jacob
Bertschinger, por exemplo, descreveu o súbito
aparecimento de Meier como segue: "De repente,
fiquei sobressaltado. Como num súbito passe de
mágica, apareceu uma figura humana no lado
direito do meu carro. Para falar a verdade, fiquei
perturbadíssimo." Ou, ainda, Engelbert Wachter,
que estava trabalhando com Meier e mais duas
pessoas, telhando uma casa. Assim depôs
Wachter: "Senti os dedos dele tocarem meu
ombro. Então, virei-me e ele tinha sumido." Não
conseguiram encontrar Meier até ele aparecer de
repente, quatro horas mais tarde. Este tipo de
depoimento constitui parte das provas mais
significativas do caso Meier — a não ser que as
testemunhas estivessem mentindo.
Viagem corpórea através da matéria e
do espaço
Nestes exemplos de aparecimento e
desaparecimento, os objetos físicos não parecem
ser movimentados apenas de forma invisível
através do espaço. Também são movimentados
através, ou de algum modo ao redor, da matéria
sólida. Os seres que visitaram William Hermann,
por exemplo, parecem ter entrado em seu quarto
sem passarem visível ou invisivelmente pela porta
de seu trailer. Ora, existe um processo védico de
viagem, chamado vihãyasa, mediante o qual um
objeto físico é movimentado diretamente através
do éter para outro local, sem interagir com a
matéria grosseira intermediária. Neste caso, a
palavra éter é usada para traduzir o termo
sânscrito ãkãsa. Ãkãsa é espaço, mas é
considerado uma substância, ou um espaço cheio
de matéria, e não um vácuo.
A história do rapto de Aniruddha no Bhãgavata
Purãna contém um exemplo de viagem vihãyasa.
Uma jovem princesa chamada Üsã vivia nos
aposentos bem protegidos do palácio de seu pai,
na cidade de Sonitapura. Certo dia, Usa teve um
sonho vivido sobre um belo jovem que se tornava
seu amante. Como tinha certeza de que a pessoa
do sonho existia de verdade, ela pediu a sua
amiga, a yogini mística Citralekhã, que o
encontrasse para ela:
Citralekhã disse: "Vou mitigar a tua aflição. Se é
que pode ser encontrado em alguma parte dos
três mundos, hei de trazer-te este teu futuro
esposo que roubou o teu coração. Por favor,
mostra-me quem é."
Tendo dito isto, Citralekhã passou a desenhar
retratos exatos de diversos semideuses,
gandharvas, siddhas, cãranas, pannagas, daityas,
vidydharas, yaksas e humanos.
Ó rei, entre os humanos, Citralekhã desenhou
retratos dos vrsnis, inclusive Sürasena,
nnakadundubhi, Balarãma e Krsna. Ao ver o
retrato de Pradyumna, Üsã acanhou-se e, ao ver o
retrato de Aniruddha, curvou a cabeça para
esconder seu embaraço. Sorrindo, exclamou: "É
Ele! É Ele!"
Citralekhã, dotada como era de poderes místicos,
reconheceu-O [Aniruddha] como o neto de Krsna.
Meu caro rei, ela então saiu viajando pela mística
rota celestial [vihãyasa] em direção a Dvãrakã, a
cidade protegida pelo Senhor Krsna.
Lá, encontrou o filho de Pradyumna, Aniruddha,
adormecido numa cama luxuosa. Com seu poder
de Yogue, ela O levou para Sonitapura, onde
presenteou a amiga Üsã com o seu amado.
O nome Citralekhã quer dizer alguém capaz de
fazer belos desenhos. Seguindo uma típica
tendência védica, Citralekhã imaginou ser o
amante de Üsã originário de uma ampla variedade
de raças humanóides. Uma vez tendo-o
identificado como Aniruddha, ela viajou
diretamente através do espaço até o quarto dele,
que ficava num palácio em outra cidade. Portanto,
do ponto de vista de quem estava naquele quarto,
ela apareceu ali vinda de parte alguma, agarrou o
adormecido Aniruddha sem perturbá-lo e sumiu de
vista. Trouxe-o diretamente para dentro do
aposento íntimo do palácio de Usa sem precisar
usar as entradas normais e alertar os guardas
incumbidos de proteger a castidade de Üsã. Esta
história é semelhante a muitos relatos de rapto
por óvni, com a exceção de que, para Aniruddha, a
experiência não foi traumática — pelo menos até o
pai de Üsã descobrir o que estava acontecendo.
Muitos exemplos de histórias de contato com óvni
parecem envolver esta espécie de viagem mística
através do espaço e da matéria. Um destes
exemplos é o caso do rapto de Sara Shaw (veja
páginas 224-25). Segundo ela reparou, seus
raptores entraram em seu quarto por uma janela
fechada. Ao lhe perguntarem como eles
conseguiram fazer isto, ela disse: "Isto me faz
sentir ridícula de verdade, mas parece que eles
atravessaram a vidraça sem a quebrarem." Em
outro caso, a psicóloga Edith Fiore fazia uso da
hipnose para explorar a experiência de rapto de
uma pessoa chamada Gloria. No decorrer de uma
sessão, Gloria disse: "Eu saí flutuando até lá. Foi
assim que cheguei à calçada. Atravessei a parede
e fui parar na calçada."
Em ainda outro caso investigado por Edith Fiore,
uma testemunha chamada Fred lembrou-se da
seguinte experiência sem o auxílio da hipnose:
Durante a noite, algo me acordou. Olhei ã minha
volta, mas não havia ninguém no quarto. O quarto
dava para a rua. Tinha uma janela ampla de dois e
meio por dois com aquelas venezianas antigas.
(...) As venezianas estavam abertas. Eu estava ali
deitado e comecei a me revirar. Há algo sobre a
experiência toda que jamais consegui aceitar ou
entender por completo. E provavelmente jamais
conseguirei. Eu atravessei aquelas venezianas!
Confesso que fiquei aterrorizado. Eu as atravessei.
Elas não se abriram. A janela não se abriu.
Literalmente, atravessei aquelas venezianas. Até
hoje, isto me espanta! A próxima coisa que vi foi
uma placa de rua, "Church Street".
Num caso investigado por Trevor Whitaker no
Reino Unido, um motorista de ambulância
chamado Reg relatou ter encontrado estranhos
visitantes em seu quarto em fevereiro de 1976. Os
visitantes, dois seres altos, com rostos cinzentos e
grandes olhos felinos, trataram-no como a um
espécime. Disseram-lhe para se deitar de bruços
em sua cama e o paralisaram. Ele experimentou
sair flutuando pelo teto em direção ao céu, onde
pairava um óvni em forma de banheira. Submeteu-se a exames médicos a bordo do óvni e, por meio
de telepatia, ouviu uma série de referências
bíblicas sobre o Alfa e o Ômega. "Disseram-lhe que
mil de seus anos não passam de um dia para nós"
e também lhe informaram que um ser como ele,
semelhante a um verme, não devia fazer
perguntas a respeito da identidade dos visitantes.
Mais tarde, viu-se de volta em seu quarto sofrendo
de grandes lapsos de memória, mas se lembrou de
sua experiência sem o auxílio da hipnose.
Meu último exemplo é extraído da história de
Betty Andreasson. Neste caso, utilizou-se a
hipnose para estimular a memória da testemunha.
Eis par¬te da transcrição de uma das sessões:
Joseph Santangelo: Como eles foram parar ali,
Betty?
Betty: Atravessaram a porta.
Joseph Santangelo: Você abriu a porta para eles?
Betty: Não.
Joseph Santangelo: Eles abriram a porta?
Betty: Não. (...) Eles entraram como na brincadeira
infantil follow-the-leader (uma criança é seguida
por outras em fila, e cada ação dela é imitada
pelas outras). (...) Estão começando a atravessar a
porta agora (...) atravessando a madeira, um após
o outro. É impressionante! Atravessando!
Retrocedi um pouco. Era mesmo real? Lá vêm eles,
um após o outro. (...) Agora já estão todos dentro
de casa.
Mais tarde, disse Andreasson, dois dos seres se
posicionaram em frente e atrás dela, fazendo-a
flutuar através da porta até um óvni estacionado
do lado de fora.
Segundo a literatura védica, é possível um
indivíduo, usando os poderes de sua mente, fazer
sua própria viagem mística. No Bhãgavata Purãna,
por exemplo, Krsna explica uma modalidade de
viagem mística, chamada mano-java, como segue:
O yogue, mantendo sua mente absorta por
completo em Mim e fazendo então uso do vento
que acompanha a mente para absorver o corpo
material em Mim, obtém, mediante a potência da
meditação em Mim, a perfeição mística por meio
da qual seu corpo acompanha sua mente de
imediato para onde quer que ela vá.
No caso de Citralekhã e Aniruddha, ou no caso de
Vyãsa na seção precedente, fica claro que a
viagem foi realizada por meio da potência direta
dos indivíduos em questão. Citralekhã conseguiu
não apenas movimentar seu próprio corpo através
da matéria como também trazer consigo o corpo
adormecido de Aniruddha. Isto pode ser um
paralelo a relatos sobre óvnis, segundo os quais
seres humanóides fazem pessoas atravessarem
por paredes sólidas.
Conforme se argumenta às vezes, o maquinário de
alta tecnologia localizado num óvni seria utilizado
para locomover corpos e transformá-los de modo a
poderem atravessar a matéria sem interferência.
Segundo sustentava Eduard Meier, por exemplo,
suas súbitas aparições misteriosas sucediam
quando ele entrava numa máquina de telecinese,
a bordo de um óvni em pleno vôo, para ser
transmitido diretamente para um certo ponto na
superfície da Terra.
De acordo com o relato do jornalista Gary Kinder, o
método de telecinese funciona à Star trek,
desmontando-se a estrutura molecular de uma
pessoa num certo ponto e remontando-a em outro.
Contudo, isto não explica a forma como os átomos
desestruturados passam de um ponto a outro.
Segundo enfatiza o próprio Meier, o processo só
funciona "se estou com a cabeça e o coração
serenos", o que sugere que o método tem algo a
ver com a mente.
Este é um exemplo da forma pela qual a trapaça
alienígena pode ter representado seu papel no
caso Meier. Como em outros casos de óvnis, talvez
Meier tenha experimentado o translado
paranormal através do espaço. Mas talvez a
explicação a respeito do realinhamento molecular
seja uma história falsa elaborada para atrair
pessoas versadas em ciência moderna e ficção
científica.
Apesar de a história de Meier ter muitos elementos
duvidosos, sua descrição de uma máquina de
telecinese mereceu certa confirmação
aparentemente independente da parte de Budd
Hopkins. (Hopkins, aliás, foi categórico em tachar
Meier de embusteiro.) Hopkins reconta a história
de como Kathie Davis, testemunha de um contato
imediato, foi posicionada por seus captores sobre
uma plataforma redonda dentro de um óvni.
Então, o recinto pareceu tremeluzir, e ela sentiu
uma dor repentina no peito. Quando voltou a si,
estava deitada no gramado de seu quintal, e pôde
ver o óvni partindo, semelhante a uma tiara
ornada com pequenas luzes.
É provável que a telecinese da matéria não possa
ser feita por mecanismos subordinados às leis
físicas conhecidas, mas é bem possível que
existam princípios de física ainda por descobrir.
Aparentes ocorrências de telecinese costumam ser
relatadas em casos de poltergeist, nos quais
objetos que se sabia estarem em outro lugar são
vistos de repente em pleno ar e seguindo
trajetórias estranhas. Estes fenômenos podem
também estar relacionados a siddhis védicos, tais
como prãpti e mano-java.
Como os siddhis são princípios naturais, existe a
possibilidade de terem sido construídas máquinas
que tiram proveito destes princípios, e talvez
alguns vimãnas e óvnis com base neles funcionem.
Logo, seria possível fazer uso do Laghimã-siddhi
para tornar a nave antigravitacional e do mano-java para locomovê-la através do éter. Outros
veículos poderiam fazer uso de métodos de
propulsão mecânica ou eletromagnética mais
conhecidos, ou poderiam empregar uma
combinação de siddhis e princípios mais
conhecidos.
Os siddhis e os princípios físicos conhecidos são,
uns e outros, aspectos da natureza, que é
considerada pela filosofia védica como uma
manifestação da potência divina. Uma
compreensão profunda tanto dos siddhis quanto
das leis da física proporcionaria, presume-se, um
entendimento unificado segundo o qual ambos
representam facetas de um todo maior.
O rapto de Arjuna por Ulupi
No caso Villas Boas (veja páginas 165-67), os
ufonautas parecem ter raptado um ser humano a
fim de induzi-lo a fazer sexo com uma alienígena.
De fato, a história de Üsã e Aniruddha não se
compara a esta, visto que eles desenvolveram um
relacionamento de igual para igual e acabaram se
casando. No entanto, temos, em certos relatos
védicos, casos onde um membro de outra raça
humanóide rapta um ser humano por motivos de
luxúria.
Isto é ilustrado por um relato do Mahãbhãrata
envolvendo o herói Pãndava Arjuna. Tudo começou
quando Arjuna foi exilado por doze meses por ter
acidentalmente invadido a privacidade de seu
irmão Yudhisthira com Drau-padi, esposa comum
de ambos. Arjuna, também conhecido como o filho
de Kunki, foi visitar Haridvãra ao longo do rio
Ganges nos Himalaias. Lá, ele participou de ritos
de sacrifício com diversos sábios.
Enquanto o filho de Kunti residia ali entre os
brãhmanas, O Bharata, os sábios realizaram
muitos agni-hotras, oferendas ao fogo sagrado.
Enquanto se acendiam as fogueiras em ambas as
margens do rio, as oferendas abundavam e flores
eram ofertadas em adoração por eruditos sábios
auto-controlados, devidamente consagrados e
fixos como grandes almas no caminho espiritual, e
então, O rei, a passagem do Ganges brilhava com
extraordinário esplendor.
Quando sua residência foi assim coroada de
divindade, o querido filho de Pãndu e Kunti
mergulhou então na água do Ganges, para ser
consagrado para o rito santo. Tomando seu banho
ritual e adorando seus antepassados, Arjuna, feliz
por ter participado do rito do fogo, estava saindo
da água, Ó rei, quando foi puxado de volta para o
fundo por Ulüpi, a filha virgem do rei serpente, que
podia viajar à vontade e se encontrava dentro
daquelas águas naquela ocasião. Agarrando-se a
ele, ela o fez descer até a terra dos nãgas, à casa
do pai dela.
Ulüpi se ofereceu então a Arjuna, argumentando
desejá-lo ardentemente, motivo pelo qual ele
deveria ser misericordioso e satisfazê-la. Arjuna o
fez de acordo com o código dos ksatriyas, a classe
védica dos guerreiros. Deste modo, "o impetuoso
herói Arjuna passou a noite no palácio do rei nãga
e, ao nascer do sol, partiu das profundezas da
morada de Kauravya".
Kauravya é o nome do rei nãga. Observe que,
quando Ulüpi puxou Arjuna para o fundo do rio, em
vez de ir dar num fundo de rio rochoso ou arenoso,
ele acabou parando no reino nãga. Este é outro
exemplo de viagem mística, só que, neste caso, os
viajantes passaram a um mundo paralelo ou
supradimensional. Os nãgas são uma raça de
seres inteligentes que, segundo consta, vivem ou
no sistema planetário chamado Bila-svarga ou em
realidades paralelas na superfície da Terra.
Analisaremos estas realidades paralelas com mais
minúcia na seção seguinte e no Capítulo 8.
Por ora, lembremo-nos de que, segundo é
relatado, as entidades ufológicas afirmam
compartilhar de nosso mundo; nossas atividades,
afirmam ainda, afetam os mundos delas
diretamente (veja página 240). Se algumas delas
vivessem em mundos paralelos como aqueles dos
nãgas, então, isto faria sentido.
O rapto de Duryodhana
Embora a atração sexual pareça representar seu
papel tanto em histórias modernas quanto em
histórias védicas de rapto, é possível também
haver outros fatores motivadores. O rapto do rei
Duryodhana no Mahãbhãrata é um exemplo cujos
motivos subjacentes envolviam política e
estratégia militar.
Certa feita, o rei Duryodhana teve um embate com
alguns gandharvas, que haviam isolado uma área
ao redor de um lago para fins de recreação e
impedido o acesso do exército de Duryodhana.
Como Duryodhana tentasse furar o cerco de
qualquer maneira, resultou uma violenta batalha,
após a qual ele foi capturado pelas forças armadas
dos gandharvas. Arjuna, então hospedado próximo
dali, valeu-se de seus vínculos políticos com os
gandharvas para libertar Duryodhana. Embora
Arjuna e seus irmãos tivessem sido exilados por
Duryodhana, Arjuna interveio para salvá-lo dos
gandharvas com base no fato de o mesmo ser seu
parente e um ser humano.
Duryodhana se sentiu humilhado por ter sido salvo
por alguém que ele havia desprezado e maltratado
como se fosse um inimigo; por isso, resolveu
abandonar tudo e jejuar até morrer. Entretanto,
alguns outros grupos pareciam ter planos
duradouros para Duryodhana, não ficando nada
satisfeitos com o rumo que as coisas tinham
tomado:
Em conseqüência disso, os daityas e os dãnavas,
medonhos residentes do mundo inferior que
haviam sido derrotados pelos deuses, ao ficarem
sabendo da decisão de Duryodhana por abandoná-los, realizaram um rito de sacrifício a fim de
recuperá-lo.
Com mantras, os dãnavas convocaram uma
"mulher maravilhosa com boca carnuda",
solicitando-lhe que fosse buscar Duryodhana. Esta
mulher, pertencente a uma raça de seres
demoníacos chamada krtyã, era capaz de
transportar o rei por meio de viagem mística:
"Krtyã deu sua palavra de que o faria e, num
piscar de olhos, foi até o rei Suyodhana
[Duryodhana]. Ela se apoderou do rei e com ele
entrou no mundo inferior, entregando-o aos
dãnavas logo em seguida."
O "mundo inferior" não é exatamente a região
abaixo da superfície da Terra. Segundo a literatura
védica, existem três regiões conhecidas como
Svarga, ou céu. Elas são delineadas em relação à
eclíptica, ou a rota orbital do Sol contra o pano de
fundo das estrelas fixas. Há o Divya-svarga (céu
divino), a região dos céus ao norte da eclíptica; o
Bhauma-svarga (céu terrestre), aproximadamente
no plano da eclíptica; e o Bila-svarga (céu
subterrâneo), ao sul da eclíptica. Às vezes, o
Bhauma-svarga é chamado de Bhü-mandala, a
"terra plana" já mencionada aqui (veja página
254).
O "mundo inferior" é o Bila-svarga. Está "lá" nos
céus, mas, ao mesmo tempo, é possível atingi-lo
adentrando a Terra mediante viagem mística.
Também é possível adentrar as regiões inferiores
tomando o caminho pitr-yãna, que, segundo diz o
Visnu Purãna, começa perto das constelações
Escorpião e Sagitário e se estende para o sul na
direção da estrela Agastya, ou Canopus. Isto é
descrito com mais minúcia no Capítulo 7 (página
323).
Uma vez estando Duryodhana na presença dos
dãnavas, eles explicaram que seu nascimento na
Terra fora predeterminado como parte do plano
deles. Sua grande força corpórea e sua quase total
imunidade a armas haviam sido providenciadas
por manipulações dos dãnavas. Portanto, ele não
devia pôr tudo a perder sacrificando sua vida.
Dãnavas e daityas, nascendo como heróis
terrestres, ajudá-lo-iam em sua batalha contra os
Pãndavas. Segundo salientaram ainda os dãnavas,
eles fariam uso do controle da mente para se
certificar de que esta batalha tivesse o desfecho
desejado:
Outros asuras irão se apoderar de Bhisma, Drona,
K.rpa e os demais; e, possuídos por aqueles, estes
lutarão contra teus inimigos sem piedade. Quando
estiverem travando a batalha, melhor dos Kurus,
não terão a menor piedade nem de filhos nem de
irmãos, nem de pais nem de parentes, nem de
alunos nem de amigos, nem de jovens nem de
velhos. Cruéis, possuídos pelos dãnavas, com seus
espíritos subjugados, travarão a batalha, deixando
de lado qualquer sentimento de amor. Jubilantes e
com as mentes obscurecidas, os homens-tigre,
embriagados pela ignorância segundo o destino
traçado pelo Ordenador, dirão uns aos outros:
"Não escaparás de mim com vida!" Firmados em
seu poder humano para empunhar múltiplas
armas, melhor dos Kurus, eles orgulhosamente
perpetrarão um holocausto.
Como se isto não bastasse, o herói Karna e os
"guerreiros declarados" (um bando de rãksasas),
explicaram ainda os dãnavas, matariam Arjuna. Os
mesmos dãnavas providenciaram o regresso de
Duryodhana após o convencerem de que ele sairia
vitorioso:
A mesma Krtyã trouxe a fortíssimo homem de
volta quando este foi dispensado, para o
mesmíssimo local onde ele estivera jejuando até a
morte. Krtyã baixou o herói, saudou-o e, após o rei
dispensá-la, sumiu de vista aí mesmo.
Após ela partir, o rei Duryodhana pensou que tudo
não passara de um sonho, Bhãrata, restando-lhe a
seguinte idéia fixa: "Eliminarei os Pãndus na
batalha."
Esta história do Mahãbhãrata tem uma série de
características também constantes em relatos
sobre raptos por óvnis. Entre outras, incluem-se:
1. Um ser estranho leva o corpo de Duryodhana
para outro local, onde este tem um encontro com
outros seres estranhos.
2. Usa-se transporte místico ou supradimensional.
3. Os seres estranhos têm forma humana, mas
aparência "medonha". Com certeza, são
"alienígenas".
4. Estes seres vêm orientando a vida de
Duryodhana desde o princípio.
5. Eles projetaram o corpo de Duryodhana de
modo a que ele fosse quase imune às armas.
Portanto, parecem ter realizado manipulações
genéticas, ou algo semelhante.
6. Os alienígenas planejavam manipular seres
humanos através do controle da mente.
7. Após sua entrevista, Duryodhana foi devolvido
ao local de onde fora levado e, após baixá-lo, sua
captora sumiu.
8. Após a experiência, tudo ficou parecendo um
sonho.
Há, na literatura ufológica, relatos comparáveis à
história do transporte paranormal de Duryodhana
de um lugar a outro. Whitley Strieber, por
exemplo, disse ter certa vez acordado e
encontrado um de seus estranhos visitantes ao
lado de sua cama — um ser de forma mais ou
menos humanóide que, além de feminino, parecia
um inseto. Esta visitante controlou-lhe os
movimentos e se pôs a fazê-lo flutuar para fora de
seu quarto: "Bastava eu andar para tudo voltar ao
normal. Mas, tão logo parava de andar, eu
começava a flutuar de novo. Eu podia senti-la me
empurrando pelas costas. (...) Não tinha o menor
controle sobre para onde ia. Eu não estava me
movimentando — estava sendo movimentado."
A princípio, ele se viu em movimento pelo interior
de sua casa, que parecia perfeitamente normal.
Agarrou sua gata, Sadie, ao passar por ela, de
modo a ter alguma prova de que não estava
sonhando. Porém, ao atingir uma porta externa,
entrou em outro estado:
Movemo-nos de novo, só que desta vez me vi
numa situação profundamente diferente. Já não
conseguia enxergar direito. Havia uma escuridão
cintilante à minha frente. Ainda podia sentir Sadie
em meus braços, e a companhia dela me agradava
muito. Quando me dei conta de mim novamente,
estava parado num recinto. Era um cômodo
comum. Eu estava de frente para uma
escrivaninha grande e simples.
Havia três outros seres no recinto: uma mulher de
aparência normal, um homem louro de dois metros
de altura vestido com macacão e um sujeito de
rosto comprido, negros olhos arredondados e uma
peruca, que "parecia algo de outro mundo vestido
como nos anos 40".
Paralisia induzida e hipnose a longa
distância
Conforme uma característica comum de muitos
relatos sobre raptos por óvnis, a pessoa raptada é
paralisada de alguma forma por seus captores.
Isto parece envolver uma faculdade hipnótica que
os raptados costumam associar aos olhos de seus
estranhos visitantes. Um exemplo clássico disto
seria Barney Hill, que relatou ter se sentido
dominado pelo olhar de um ser alienígena, visto,
com o auxílio de um binóculo, a observá-lo da
janela de um óvni pairando no ar (veja páginas
151-52).
A faculdade de paralisar pelo olhar representa o
seu papel numa história do Mahãbhãrata.
Deixando de lado diversas complexidades da
trama, a história começa com Indra, o rei dos
devas, sendo levado pela deusa Gangã ao cume
da montanha King, nos Himalaias:
Indra a acompanhou enquanto ela lhe indicava o
caminho, e viu, próximo ao cume da montanha
King, um belo jovem sentado num trono, rodeado
por jovens companheiras e jogando dados. Indra, o
rei dos deuses, disse-lhe: "Fica sabendo que este
universo é meu, pois o mundo está sob meu
controle. Eu sou o senhor." Indra falou isto cheio
de ira, vendo o jovem completamente distraído
com seus dados.
O jovem, que também era um deus, só fez
gargalhar e em seguida levantou os olhos devagar
na direção de Indra. Tão logo o jovem lhe dirigiu o
olhar, o rei dos deuses ficou paralisado e enrijecido
como o tronco de uma árvore.
Após terminar seu jogo, o jovem disse à deusa
chorosa: "Traze-o até mim e eu cuidarei para que
o orgulho não o domine outra vez."
O jovem vinha a ser o Senhor Siva, que então
castigou Indra para curá-lo do falso orgulho. Todas
as pessoas envolvidas nesta história eram devas.
No entanto, existe um poder místico de controle
da mente a longa distância, chamado vasitã-siddhi, que é possuído por muitas raças
humanóides, podendo ser adquirido por yogues
humanos também. Este poder é descrito como
segue:
Esta perfeição nos permite manter qualquer
pessoa sob controle. É uma espécie de hipnotismo
quase irresistível. Às vezes, vê-se um yogue, que
tenha atingido certa perfeição neste poder místico
vasitã, aparecer entre as pessoas e lhes falar toda
classe de disparates, controlar-lhes as mentes,
explorá-las, tirar-lhes o dinheiro e depois ir
embora.
Há algumas provas de que mesmo a hipnose
"comum" pode atuar à distância. Isto poderia ter
implicações importantes no que diz respeito à
capacidade de pessoas comuns atingirem o vasitã-siddhi, além de também poder esclarecer a
natureza do controle da mente e da paralisia
induzida em casos de óvnis.
Eis um possível caso de sugestão hipnótica a longa
distância, relatado pelo pesquisador metapsíquico
F. H. W. Myers em fins do século XIX. A história
começa às 21h de 22 de abril de 1886. Quatro
pesquisadores, Ochorowicz, Marillier, Janet e A. T.
Myers, atravessaram furtivamente as ruas
desertas de Le Havre, França, e se posicionaram
do lado de fora do chalé de Madame B.
Aguardaram ansiosos. "Às 21h25", escreveu mais
tarde Ochorowicz, "vi um vulto aparecer no portão
do jardim: era ela. Escondi-me detrás da esquina
para poder ouvir sem ser visto."
A princípio, a mulher se deteve no portão e voltou
para o jardim. Depois, às 21h30, saiu correndo
pela rua afora, cambaleando rumo à casa do Dr.
Gibert. Os quatro pesquisadores, ao tentarem
segui-la da maneira mais discreta possível,
puderam constatar seu óbvio estado sonambúlico,
Por fim, ela chegou à casa de Gibert, entrou e
correu agitada de quarto em quarto até encontrá-lo.
Este foi o resultado planejado de uma
experimentação com influência hipnótica a longa
distância. A Madame B. era uma pessoa facilmente
hipnotizável, tendo sido a cobaia de muitos
experimentos organizados pelo Prof. Pierre Janet e
o Dr. Gibert, preeminente médico de Le Havre.
Nesta pesquisa, juntaram-se a eles F. Myers da
Sociedade Londrina de Pesquisas Metapsíquicas, o
Dr. A. T. Myers, o Prof. Ochorowicz da Universidade
de Lvov e M. Marillier da Sociedade Francesa de
Psicologia.
Naquela ocasião, o plano do Dr. Gibert era
permanecer em seu estúdio e, mentalizando,
convocar a Madame B. a deixar seu chalé e vir ter
com ele. O chalé ficava a cerca de um quilômetro
da casa dele, e nem a Madame B. nem nenhuma
das outras pessoas que ali viviam haviam sido
informadas da realização do experimento. Gibert
passou a emitir comandos mentais para convocá-la às 20h55 e, dentro de cerca de meia hora, ela
começou sua jornada para a casa dele. Segundo F.
Myers, de 25 experimentos semelhantes, 19 foram
igualmente bem-sucedidos.
Experimentos como este do Dr. Gibert e seus
colegas talvez não pareçam de confiança. Foram
preparados de maneira um tanto vaga e não
fizeram uso do tipo de rígidos protocolos de
laboratório que associamos a trabalhos científicos
bem aceitos. No entanto, muitos bem-organizados
experimentos com influência hipnótica à distância
têm sido realizados dentro de laboratórios.
Por exemplo: o Prof. Leonid Vasiliev da
Universidade de Leningrado realizou muitos
experimentos nos anos 20. Numa série de
experimentos, uma cobaia chamada Fedorova
costumava chegar ao laboratório de Vasiliev por
volta das 20h. Após cerca de vinte minutos de
repouso e conversa, deitava-se numa cama numa
câmara escura. À intervalos regulares, alguém lhe
dizia para apertar um balão de borracha ligado a
um tubo de ar enquanto estivesse desperta e para
parar de apertá-lo quando começasse a
adormecer. O tubo de ar estava ligado a um
aparelho no recinto contíguo, aparelho este
responsável por registrar quando ela adormeceria
e despertaria.
Uma vez estando Fedorova na câmara escura, ela
não tinha mais contato com os experimentadores.
Quando ela ali entrava, o experimentador que
estivera conversando com ela transmitia um sinal
a outro experimentador, denominado transmissor,
que aguardava a dois cômodos de distância. O
transmissor passava então a uma câmara
equipada com sonda especial e abria uma carta
que havia sido preparada de antemão e não tinha
sido lida pela cobaia ou os dois experimentadores.
Esta carta instruía o transmissor a fazer uma das
três coisas seguintes: (1) permanecer dentro da
câmara equipada com sonda e, mentalizando,
ordenar a cobaia a adormecer; (2) colocar sua
cabeça para fora da câmara e emitir os mesmos
comandos mentais; e (3) colocar sua cabeça para
fora da câmara e não emitir nenhum comando
mental.
Em 29 rodadas deste experimento, o tempo médio
que a cobaia levava para adormecer quando não
lhe eram transmitidos comandos mentais era de
7m24. Em contraste, o tempo médio de
adormecimento quando lhe eram transmitidos os
comandos era de 4m43. Quando os comandos
eram transmitidos fora da câmara, o tempo médio
era de 4m13.
A cobaia parecia adormecer mais rápido quando
uma pessoa a dois cômodos de distância lhe
transmitia ordens mentais para que adormecesse
do que quando não recebia ordem alguma.
Vasiliev realizou muitos outros experimentos deste
tipo, todos organizados com esmero, tendo
registrado resultados parecidos. Entre estes,
incluiu-se um experimento vitorioso envolvendo a
transmissão de comandos mentais para adormecer
e despertar de Sebastopol para Leningrado, uma
distância de 1.700 quilômetros.
O objetivo da câmara era verificar se a influência
de longo alcance era transmitida ou não por ondas
radiofônicas, o que seria impedido pela sonda.
Segundo Vasiliev concluiu a partir de seus muitos
experimentos, não havia envolvimento de ondas
radiofônicas, uma vez que o transmissor parecia
obter os mesmos resultados tanto dentro quanto
fora da câmara.
Esta pesquisa mostra ser relevante para o assunto
dos raptos por óvnis, já que, caso após caso, a
testemunha ou testemunhas relatarão ter sido
atraídas mentalmente para uma determinada
localidade onde ocorre um contato imediato com
um óvni. A experiência de Madame B., que foi
orientada mentalmente até a casa do Dr. Gibert, é
um exemplo humano deste mesmo fenômeno.
Conforme sugerem as provas empíricas relativas à
hipnose a longa distância e a informação védica
sobre vasitã-siddhi, este tipo de controle mental
pode ser uma faculdade natural da mente tanto de
seres humanos quanto de raças humanóides afins.
Projeção de formas ilusórias
A projeção de formas ilusórias fornece outro
paralelo entre o fenômeno ufológico e a visão de
mundo védica. Há muitos relatos sobre óvnis em
que se projeta alguma espécie de ilusão. Em
alguns casos, o óvni parece vir disfarçado como
um objeto comum e, em outros, as entidades
ufológicas parecem se disfarçar assumindo ou
mentalmente projetando formas irreais, inclusive
formas de animais. Eis um exemplo, recontado por
Jacques Vallee, de um homem que relatou ter visto
uma nave estranha de perto, ao passo que seu
companheiro relatou ter visto apenas um ônibus
comum.
Às 21h30 do dia 17 de novembro de 1971, um
brasileiro chamado Paulo Gaetano voltava de carro
de uma viagem de negócios, acompanhado pelo
Sr. Elvio B. Ao passarem pela cidade de
Bananeiras, Paulo disse haver algo de "anormal"
com o carro, mas seu companheiro só se declarou
cansado e com vontade de dormir. Segundo Paulo,
o motor pifou e ele precisou parar o carro no
acostamento da estrada. Um feixe de luz vermelha
parece ter feito a porta se abrir. Diversos seres
pequenos apareceram então, levaram-no até uma
nave próxima dali e submeteram-no a alguma
espécie de exame médico, que incluiu a retirada
de uma amostra de sangue de seu braço. Também
lhe mostraram dois painéis ilustrando uma
explosão atômica e a planta de uma cidade
próxima dali. Paulo não conseguiu lembrar como
ele e Elvio voltaram para casa.
Elvio contou uma história diferente:
Perto de Bananeiras, Paulo passara a mostrar
sinais de nervosismo, relatou Elvio. Disse-lhe haver
um disco voador os acompanhando, quando de
fato era um ônibus, mas mantendo uma distância
razoável atrás do carro.
Elvio viu o carro parar no acostamento da estrada
e se lembrou de ter encontrado Paulo deitado no
solo atrás do carro estacionado. Mas não se
lembrou de ter visto Paulo saindo do carro, nem
sabia o que lhe havia acontecido. Ele levou Paulo
de ônibus para a cidade vizinha de Itaperuna, mas
não conseguiu explicar por que eles haviam
abandonado o carro. Um oficial de polícia daquela
cidade observou o corte no braço de Paulo e
encontrou o carro estacionado no acostamento da
estrada.
Se aceitarmos a veracidade desta história,
precisaremos pressupor alguma espécie de ilusão
para explicar os eventos relatados. Poderíamos
supor o caráter ilusório da experiência de Paulo,
ou da de Elvio, ou de ambas. Se presumirmos que
Paulo viu um óvni ilusório (e que Elvio teria visto
um ônibus de verdade), então, teremos de explicar
por que Elvio ficou tão confuso, por que Paulo
experimentou um rapto ilusório envolvendo um
corte no braço e como aquele corte aconteceu de
fato. Podemos, é claro, sempre atribuir a confusão
e o rapto ilusório a um agente desconhecido
dentro ou fora das mentes das testemunhas. O
corte poderia também ter sido feito por este
agente, ou pode ter sido produzido de alguma
outra forma, esquecida pelas testemunhas em sua
confusão.
Esta é uma explicação complexa, mas poderemos
dispor de uma mais simples se admitirmos que
Paulo teve uma experiência autêntica. Neste caso,
poderemos atribuir a observação do ônibus por
parte de Elvio e sua conseqüente confusão a
percepções falsas induzidas pelas entidades
ufológicas. Esta opção tem a vantagem de
envolver uma ilusão simples, o ônibus, e não uma
ilusão complexa, ou seja, a experiência do rapto.
Além disso, proporciona prováveis suspeitos para
os perpetradores da ilusão, ou seja, os pilotos do
óvni, em vez de atribuir isto a um agente
desconhecido.
Passo a seguir ao exemplo de uma adolescente
que, num piquenique com sua família, relatou a
extraordinária experiência de ter visto uma bela
corça no bosque — apenas para descobrir, através
da hipnose, que aquilo aparentemente era
acobertamento de um contato imediato com um
óvni. A testemunha, hoje advogada de uma
empresa de grande porte, recebeu de Budd
Hopkins o pseudônimo Virgínia Horton a fim de
proteger sua identidade. Eis a descrição por ela
feita da corça, conforme recordada diretamente
sem o auxílio da hipnose:
Bem, eu até pensei no caso, mas nada me ocorreu
exceto me lembrar novamente de ter ficado
maravilhada, na época, com a belíssima corça que
eu vi. Você sabe como é, é como se eu tivesse
saído do bosque e dissesse ter visto um unicórnio.
Eu tive aquela sensação de excitamento e
maravilha. (...) E, pelo que me lembro, a corça
olhava para mim e dizia adeus. A corça me dizia
adeus de forma telepática. (...) Era como se eu
estivesse conversando com ela e dizendo: "Ora,
não se vá ainda", e então ela acabasse se
desmaterializando, sumindo.
Ao voltar a ter com a família após ter visto a corça,
Virginia notou-os preocupados com a ausência
dela, muito embora sentisse não ter se ausentado
por tanto tempo. Sua mãe também reparou uma
mancha de sangue na blusa dela, como se o seu
nariz tivesse sangrado. Esta prova específica foi
percebida num filme feito então pelo pai de
Virginia.
Sob hipnose administrada pela psicóloga Aphrodite
Clamar, Virginia revelou ter sido atraída até uma
estranha nave estacionada no bosque:
Estou caminhando pelo bosque. Há uma luz bem
brilhante. Há uma nave como aquelas que
aparecem nos filmes. Ela é redonda. Tem o
formato aproximado de uma abóbada, mas não
tenho certeza quanto a isto. (...) A luz é tanta que
na verdade não é possível ver direito. (...) E depois
ouço quase como num sussurro: "Virginia...
Virginia", e penso que eles chamavam por mim
dentro da minha cabeça.
Virginia passou então a descrever um contato
bastante complexo com típicas entidades de olhos
grandes a bordo da nave. Durante este contato,
introduziram um instrumento no nariz dela,
aparentemente para extrair uma amostra de
tecido. Isto tem a ver com o sangue na blusa dela,
é claro. O episódio da corça ocorreu após ela
deixar a nave, talvez como forma de arrumar uma
desculpa natural para a sua ausência prolongada.
Há outros exemplos de formas animais ilusórias
que parecem vinculados, direta ou indiretamente,
às visitas das entidades ufológicas. Por exemplo:
conforme salienta Whitley Strieber, às vezes ele se
lembra de seus visitantes sob a forma de corujas,
um fenômeno por ele interpretado como "memória
de triagem" gerada pela mente para disfarçar a
verdadeira forma horripilante destes seres. Ed
Walters, a principal testemunha do famoso caso da
foto de Gulf Breeze, relatou um contato aos
dezessete anos, no qual ele foi seguido por um
sinistro cão negro de aparência anormal durante o
dia e visitado à noite por um medonho ser calvo e
de olhos grandes.
Em outro caso mencionado por Budd Hopkins, uma
amiga dele chamada Mary se lembrou de ter visto
um belo beija-flor em 1950, mais ou menos aos
seis anos de idade. Ela tentou capturá-lo numa
jarra e achou tê-lo conseguido. Mas, para a sua
consternação, além da jarra estar vazia, ela
descobriu um sangramento misterioso na perna.
Hopkins encontrou, na batata da perna da amiga,
uma fina cicatriz cuja origem ela desconhecia.
Reparou, ainda, que aquela cicatriz era
semelhante àquelas por ele encontradas numa
série de casos de rapto por óvni. Mary se lembrou
deste incidente quase esquecido ao ouvir Hopkins
descrever o caso Virginia Horton numa reunião de
amigos.
Para alguns pesquisadores, o fato de ocorrerem
ilusões em contatos com óvnis, aliado à qualidade
onírica em geral atribuída a eles, sugere que os
mesmos são de todo ilusórios. O fato de alguns
contatos parecerem ocorrer num estado
extracorporal também representa o seu papel
nesta interpretação (veja páginas 417-19).
Conforme sugerem estes pesquisadores, a ilusão
poderia ser devida a alguma faceta mal entendida
da psicologia humana ou a algum tipo de
intermediação astral. Evidentemente, a presença
de provas físicas, tais como cortes e manchas de
sangue, sugere o envolvimento de uma
intermediação detentora de realidade física. Seria
possível aventar a hipótese de semelhante
intermediação consistir em seres dotados de
corpos físicos e da faculdade de criar ilusões nas
mentes das pessoas, valendo-se de alguma
espécie de tecnologia ou de dons naturais.
A literatura védica tende a apoiar a última
hipótese. Muitas raças de seres, segundo consta,
têm a capacidade de criar formas corpóreas
ilusórias, bem como objetos ilusórios de diversos
tipos. Em alguns casos, as formas ilusórias
parecem ter substância física. Existem descrições,
por exemplo, de cascatas de rochas produzidas
num campo de batalha — rochas que provocam
danos reais ao atingirem soldados inimigos. Em
outros casos, a forma ilusória parece menos
substancial, já que deixa de existir quando o ser
que a gera fica incapacitado.
Na epopéia chamada Rãmãyana, há uma história
famosa envolvendo o último tipo de ilusão citado.
Nesta história, o Senhor Rãmacandra, herdeiro do
trono de Ayodhyã, havia sido banido em
conseqüência de intrigas políticas. Portanto, vivia
na floresta, acompanhado apenas por Sua esposa
Sitã e Seu irmão Laksmana. Embora representasse
o papel de um ser humano, o Senhor Rãmacandra
era na verdade uma encarnação de Visnu, a
Divindade Suprema, que aparecera na Terra para
demonstrar a conduta de um rei ideal.
A certa altura da história, Rãvana, o rei dos
rãksasas, sentindo atração por Sitã, arquitetou um
plano para raptá-la. Os rãksasas, famosos por
terem a capacidade de assumir formas ilusórias,
colocaram-na em prática naquela ocasião. Rãvana
visitou seu velho compatriota Mãrica e lhe pediu
que assumisse a forma de um veado dourado de
modo a afastar Rãma e Seu irmão Laksmana de
Sitã. Assim, Rãvana teria a oportunidade de raptá-la. Embora a princípio Mãrica se negasse a fazer
aquilo, ele acabou aquiescendo por Rãvana tê-lo
ameaçado de morte.
Então, Mãrica, sob a forma de um maravilhoso
veado com manchas prateadas e uma aura com o
resplendor das jóias, apareceu perante Sitã na
floresta. Tinha as patas feitas de pedras azuis e
um rabicho que brilhava como o arco-íris. Andava
para lá e para cá, mordiscando trepadeiras e às
vezes galopando. Atraiu a mente de Sitã de tantas
maneiras que ela pediu a Rãmacandra que o
pegasse para ela. Rãmacandra estava ciente, é
claro, de que aquela poderia ser a magia rãksasa
de Mãrica, mas resolveu ir ao encalço do veado. Se
fosse mesmo Mãrica, Ele o mataria. Após muito
alertar Laksmana, deixou-o guardando Sitã e saiu
perseguindo o veado.
Como se tornasse esquivo, e mesmo invisível,
Rãma resolveu matá-lo. Atirou uma flecha mortal
que penetrou o coração de Mãrica como se fosse
uma serpente em chamas. Desfeito agora de seu
disfarce, Mãrica, sob a forma hedionda de um
rãksasa enorme, jazia ensangüentado no solo.
Os rãksasas eram descendentes do sábio celestial
Pulastya, que, segundo consta, vive numa das
estrelas da Ursa Maior, uma constelação
conhecida em sânscrito como Sapta-rsi (Sete
Sábios). Tinham toscas formas humanas e enorme
estatura, grande força muscular e aterrorizantes
expressões faciais, inclusive dentes salientes e
orelhas pontudas. Com a possível exceção de
certos casos de "monstros cabeludos" (veja
páginas 375-78), a forma física deles não
corresponde à de nenhuma das entidades
ufológicas tão relatadas hoje em dia. No entanto,
os poderes a eles atribuídos são típicos tanto de
entidades ufológicas quanto de muitas raças
humanóides védicas.
O fator Oz
A pesquisadora ufológica britânica de óvnis Jenny
Randles introduziu a expressão fator Oz para se
referir a um peculiar estado, quase onírico, de
silêncio que costuma preceder contatos com óvnis.
É muito comum este fenômeno ser narrado. Por
exemplo: um homem descreve o fator Oz para
Budd Hopkins no seguinte relato do começo de
uma experiência de rapto:
Talvez seja coisa da minha mente, mas o fato é
que tudo pareceu se aquietar ao mesmo tempo. É
como aquele segundo de silêncio absoluto logo
após o impacto auditivo de um acidente de
automóvel. Bem, foi este tipo de som, ou de falta
de som, que eu experimentei.
Betty Andreasson faz a seguinte descrição do
começo de um contato, com seres alienígenas
entrando em sua casa:
Vejo agora algo como uma luz de cor rosada. E
agora a luz está ficando mais brilhante. É laranja-avermelhada e pulsa. Digo para as crianças:
"Fiquem quietas e já para o quarto; o que quer que
seja, vai logo embora." A casa inteira parece ter
um vácuo sobre ela. Como se tudo em volta fosse
silêncio... silêncio.
Conforme já observei, muitos têm acusado Eduard
Meier de ser fraudulento. Mas, se o foi, teve a
esperteza de incluir o fator Oz na história de seu
primeiro contato com óvni em 1975, perto da
aldeia suíça de Hinwill:
Montando em seu ciclomotor, Meier se dirigira
então, através da campina, em direção ao lugar
onde vira o disco pela última vez. Foi só uma
questão de instantes para ele sentir um súbito
sossego se instaurar na campina. Aí, o disco
novamente surgiu como um raio dentre as nuvens.
Segundo tem interpretado Jenny Randles, o fator
Oz é um estado alterado de consciência induzido
pela intermediação existente por trás do fenômeno
ufológico. Conforme uma das hipóteses
concebidas por Randles, esta intermediação seria
uma inteligência baseada em outro planeta e
capaz de atravessar o vazio do espaço pelo poder
da consciência e influenciar os cérebros de
pessoas dotadas de sensibilidade psíquica. A
intermediação manipula a consciência da pessoa
afetada para criar a experiência com o óvni.
Segundo Randles, esta experiência "não ocorre de
fato, todavia, é muito mais do que mera
alucinação".
A literatura védica também se refere a
experiências de silêncio anormal que são muito
parecidas com o fator Oz. Estas experiências
resultam de ilusões vividas e deliberadas
produzidas por seres poderosos. No entanto, os
seres em questão não se encontram distantes no
espaço. Pelo contrário, estão fisicamente
presentes na vizinhança das pessoas iludidas.
Meu primeiro exemplo deste fenômeno é um
trecho do Rãmãyana. Depois de o Senhor
Rãmacandra e seu irmão Laksmana terem sido
afastados de Sitã pelo veado ilusório, Rãvana, o rei
rãksasa, se aproximou de Sitã sob uma forma
ilusória com o objetivo de raptá-la:
A seguir, Rãvana, disfarçado de monge
mendicante e se aproveitando da oportunidade,
aproximou-se depressa do eremitério com o
objetivo de raptar Vaidehi [Sitã]. Com madeixas
entrançadas, vestido de manto açafroado e
portando um cajado triplo e losta, aquele ser
poderosíssimo, sabendo que Sitã estava sozinha,
abordou-a na floresta, sob a forma de um asceta,
no crepúsculo, quando a escuridão oculta a Terra
na ausência do Sol e da Lua. (...)
Diante daquela monstruosa aparição, as folhas das
árvores pararam de se mexer, o vento estancou, a
turbulenta corrente do rio Godaveri se aquietou
para fluir sossegada. O Rãvana de dez cabeças, no
entanto, tirando proveito da ausência de Rãma,
aproximou-se de Sitã disfarçado de monge
venerável enquanto ela estava tomada de pesar
por conta de seu senhor.
Nesta passagem, a declaração acerca das folhas e
das águas do rio "silenciando" diante da presença
de Rãvana indica que este exercia influência direta
sobre aqueles elementos da natureza. No caso do
Rãmãyana, o silêncio incomum não foi uma
simples ilusão gerada dentro da mente de Sitã,
senão que estava acontecendo de fato ao redor
dela. Cabe observar, também, a descrição de
Rãvana como tendo dez cabeças. Seu corpo era
dotado de poderes místicos, ou siddhis, que o
capacitavam a transcender as limitações do
corriqueiro espaço tridimensional.
O segundo exemplo védico é extraído do
Mahãbhãrata. Nesta história de alta complexidade,
o herói Arjuna se encontra com o Senhor Siva, que
se aproxima dele sob a forma de um montanhês
do Himalaia. Um daitya intruso sob a forma de um
javali aparece em cena ao mesmo tempo:
Quando todos os grandiosos ascetas haviam
partido, o abençoado Senhor Hara [Siva], que
empunha o Pinãka, perdoador de todo mal,
disfarçou-se de montanhês. (...) O resplandecente
Deus estava acompanhado pela Deusa Umã, que
estava com o mesmo disfarce e observava o
mesmo voto, e por excitadas criaturas de todas as
formas. Em seu disfarce de montanhês, o Deus,
ladeado por suas milhares de mulheres, emanava
um brilho inigualável, Ó rei Bhãrata.
De súbito, a floresta inteira silenciou e os sons de
riachos e aves cessaram. À medida que se
aproximava do Pãrtha [Arjuna] de feitos
imaculados, ele viu o assombroso Müka, um
daitya, que assumira a forma de um javali com a
incumbência malévola de matar Arjuna.
Então, Arjuna e Siva discutiram sobre quem tinha
o direito de matar o javali ilusório. Como seria de
esperar, quando eles atiraram no javali, o corpo
morto assumiu a forma de um rãksasa. A
discussão entre Siva e Arjuna resultou numa
terrível batalha, na qual Siva mostrou ser de todo
imune às armas de Arjuna. Apesar de Arjuna ter
sido derrotado, Siva ficou satisfeito com sua
coragem de guerreiro e presenteou-o com uma
poderosa arma celestial.
Nesta história, é difícil saber se o fator Oz se deve
ao aparecimento do Senhor Siva ou do daitya,
Müka. De qualquer modo, está vinculado à
projeção de ilusões poderosas por parte de seres
pessoalmente presentes na vizinhança imediata.
7
A história dos vimãnas
A literatura védica da índia contém muitas
descrições de máquinas voadoras, em geral
chamadas vimãnas. Elas se enquadram em duas
categorias: (1) naves feitas pelo homem que
parecem aviões e voam com o auxílio de asas
semelhantes às dos pássaros; e (2) estruturas sem
aero-dinâmica que voam de maneira misteriosa e
em geral não são feitas por seres humanos. As
máquinas da categoria (1) são descritas,
sobretudo, em obras sânscritas medievais de
caráter secular que tratam de arquitetura,
autômatos, máquinas de cerco militar e outros
inventos mecânicos. As máquinas da categoria (2),
descritas em obras mais antigas como o Rg Veda,
o Mahãbhãrata, o Rãmãyana e os Purãna, têm
muitas características que fazem lembrar os óvnis.
Além disso, há um livro intitulado Vaimãnika-sãstra, que foi psicografado no século XX e parece
ser a transcrição de uma obra antiga preservada
no registro akáshico. Esse livro faz uma elaborada
descrição dos vimãnas de ambas as categorias.
Neste capítulo, examinarei parte da literatura
disponível sobre vimãnas, começando com textos
que remontam à grande antigüidade e ao período
medieval. O material referente a este período é
descrito com alguma minúcia por V. Raghavan
num artigo intitulado "Yantras or mechanical
contrivances in ancient Índia". Começarei
examinando o saber indiano referente a máquinas
em geral para depois abordar a questão das
máquinas voadoras.
Máquinas na Índia antiga e medieval
Em sânscrito, chama-se uma máquina de yantra. A
palavra yantra, segundo definição do
Samarãngana-sütradhãra do rei Bhoja, é um
dispositivo que "controla e orienta, segundo um
plano, os movimentos das coisas que atuam cada
uma de acordo com a sua própria natureza". São
muitas as variedades de yantras. Um exemplo
simples seria a taila-yantra, uma roda que é
puxada por bois ao redor de uma pista circular
para moer sementes e extrair-lhes o óleo. Outros
exemplos são máquinas militares do tipo descrito
no Artha-sãstra de Kautilya, redigido no século III
a.C. Entre estas, incluem-se a sarvato- bhadra,
uma roda que gira em torno de um eixo para
arremessar pedras; a sara-yantra, uma máquina
que atira flechas; a udghãtimã, uma máquina que
demole muros usando barras de ferro, e muitas
outras.
Apesar de estas máquinas serem todas bastante
compreensíveis e críveis, outras máquinas
parecem menos plausíveis do ponto de vista do
pensamento histórico moderno. Raghavan
menciona, por exemplo, um dispositivo capaz de
criar uma tempestade para desmoralizar tropas
inimigas. Semelhante arma também é mencionada
por Flavius Philostratus, escritor romano do século
III, que descreveu sábios da índia que "não
enfrentam um invasor, mas o repelem com
artilharia celestial de raios e trovões, pois eles são
homens santos". Segundo disse Philostratus, este
tipo de arma de fogo ou de vento foi usado para
repelir uma invasão da Índia por parte do Hércules
egípcio. Numa carta apócrifa, Alexandre, o Grande,
conta a seu tutor Aristóteles que também ele
encontrou tais armas.
Embora eruditos modernos tendam a considerar
fictícia a obra de Philostratus, esta demonstra de
fato que certas pessoas dos tempos romanos
espalhavam histórias sobre estranhas armas de
fogo ou vento da Índia. Em epopéias antigas como
o Mahãbhãrata, há muitas referências a
extraordinárias armas de vento, tais como a
vãyavya-astra, e armas de fogo, tais como a
sataghni (ou "que mata cem"). Em geral, as armas
descritas em obras mais antigas tendem a ser
mais poderosas e extraordinárias do que as
descritas em obras mais recentes. Há quem
atribua isto à fantástica imaginação dos escritores
antigos ou de seus editores modernos. Mas isto
também poderia ser explicado pela perda
progressiva de conhecimento à medida que a
antiga civilização indiana foi se enfraquecendo por
causa da corrupção e foi sendo repetidas vezes
dominada por invasores estrangeiros.
Segundo argumentam, pistolas, canhões e outras
armas de fogo eram conhecidas na antiga índia.
No entanto, o conhecimento acerca das mesmas
teria declinado aos poucos até desaparecer perto
do início da era cristã. Isto é analisado a fundo
num livro de Gustav Oppert.
Robôs e outros autômatos
Os robôs formam outra categoria de máquinas
extraordinárias. Muitas histórias da literatura
sânscrita secular tratam de um yantra-purusa, ou
homem-máquina, que pode se comportar tal qual
um ser humano. Um exemplo disto é a história,
constante no Bhaisajya-vastu budista, de um
pintor que esteve no país dos yavanas, onde
visitou o lar de um yantrãcãrya, ou mestre de
engenharia mecânica. Lá ele encontrou uma
moça-máquina que lhe lavou os pés e parecia
humana, até ele descobrir que ela não sabia falar.
Era comum robôs fantásticos desta espécie
aparecerem em histórias de ficção destinadas ao
entretenimento, de forma que tinham o mesmo
status dos robôs da ficção científica moderna. No
entanto, há muitas descrições de autômatos
bastante críveis, de fato construídos e usados nos
palácios de reis abastados. Entre estes, incluíam-se: aves cantantes e dançantes, um elefante
dançante, elaborados cronômetros com figuras
móveis de marfim e um instrumento astronômico
mostrando os movimentos dos planetas.
Os modelos desses autômatos são semelhantes
aos dos autômatos que eram populares na Europa
no século XVIII. Eis uma descrição extraída do
Sama-rãrigana-sütradhãra, do século XII:
Figuras masculinas e femininas são projetadas
para diversos tipos de serviço automático. Cada
parte destas figuras é feita e ajustada em
separado, com orifícios e pinos, de modo que
coxas, olhos, pescoço, mão, pulso, antebraço e
dedos possam agir de acordo com a necessidade.
Em geral, usa-se madeira, mas é aplicada uma
cobertura de couro para dar a impressão de um
ser humano. Os movimentos são administrados
pelo sistema de varas, pinos e cordas ligados às
hastes que controlam cada membro. Entre outras
coisas, estas figuras miram-se no espelho, tocam
um alaúde e estendem a mão para tocar em algo,
dar uma panela, borrifar água e fazer vênias.
Afora suas aplicações práticas, os robôs também
representavam uma metáfora para a relação entre
a alma e o corpo. Deste modo, no Bhagavad-gitã,
Krsna diz:
O Senhor Supremo está situado no coração de
todos, ó Arjuna, e orienta as divagações de todas
as entidades vivas, que se encontram sentadas
como que numa máquina (yantra) feita da energia
material.
Raghavan, de sua parte, considerava esta
metáfora lastimável. Embora ele lamentasse o fato
de as máquinas terem levado outros países ao
materialismo, na Índia elas só faziam reiterar a
idéia de Deus e do Espírito. Portanto, "mesmo
escritores cujo tema eram os próprios yantras,
como Somadeva e Bhoja, viam na máquina
operada por um agente uma analogia apropriada
para o corpo e os sentidos mundanos presididos
pela Alma, e para o maravilhoso mecanismo do
universo, com seus elementos constituintes e
sistemas planetários, todos exigindo um senhor
divino para mantê-lo em revolução constante".
Aviões
A literatura medieval indiana traz muitas histórias
sobre naves aéreas. Assim, no Harsa-carita de
Bãna consta a história de um yavana que fabricou
uma máquina aérea para ser usada no rapto de
um rei. Da mesma forma, o Avanti-sundari de
Dandi fala de Mãndhãtã, um arquiteto habituado a
usar um carro aéreo para fins casuais, como viajar
de um lugar distante para ver se o filho estava
com fome. Aliás, este filho, segundo consta, teria
criado homens mecânicos que travavam um duelo
farsesco e uma nuvem artificial que produzia
torrentes de chuva. Essas duas obras datam do
século VII d.C., aproximadamente.
Entre os séculos IX e X, Buddhasvãmin escreveu
uma versão do Brhat-kathã, uma maciça coletânea
de histórias populares. Buddhasvãmin chamava os
veículos aéreos de ãkãsa-yantras, ou máquinas
celestes, e os atribuía aos yavanas — nome
amiúde usado para se referir a forasteiros
bárbaros. Era bastante comum textos sânscritos
atribuírem as naves aéreas e os yantras em geral
aos yavanas.
Para alguns eruditos, os yavanas seriam os gregos,
e as histórias indianas de máquinas teriam sua
origem na Grécia. Na opinião de Penzer, por
exemplo, o filósofo grego Archytas
(aproximadamente 428-347 a.C.) teria sido o
"primeiro inventor científico" de dispositivos
semelhantes aos yantras indianos. Archytas,
salienta ainda Penzer, "construiu uma espécie de
máquina voadora, consistindo numa figura de
madeira equilibrada por um peso suspenso de uma
roldana, que era colocada em movimento por meio
de ar comprimido".
Sem dúvida, havia muito intercâmbio de idéias no
mundo antigo, e hoje é difícil saber ao certo onde
uma determinada idéia teria sido concebida e até
que ponto teria se desenvolvido. Sabemos, porém,
que a índia medieval já conhecia idéias bem
detalhadas relativas a máquinas voadoras
semelhantes a aviões.
Segundo afirma o Samarãngana-sütradhãra de
Bhoja, o principal material do corpo de uma nave
aérea é a madeira leve, ou lagbu-dãru. A nave tem
o formato de um grande pássaro com uma asa de
cada lado. A força motriz é fornecida por uma
câmara de fogo com mercúrio disposto sobre uma
chama. A força gerada pelo mercúrio aquecido,
aliada ao bater das asas acionado por um piloto
dentro da nave, faz com que ela voe pelo ar. Como
a nave vinha equipada com um motor, podemos
especular que o bater das asas destinava-se a
controlar a direção do vôo, e não a suprir a força
motriz.
Também se descreve um dãru-vimãna mais
pesado (alaghu). Ele contém quatro bilhas de
mercúrio sobre fornos de ferro. "Os fornos de
mercúrio fervente produzem um ruído terrível,
usado em batalhas para espantar elefantes.
Fortalecendo-se as câmaras de mercúrio, era
possível aumentar o rugido de modo a deixar os
elefantes inteiramente fora de controle."
Tem-se especulado muito sobre exatamente como
a força gerada pelo aquecimento do mercúrio seria
usada para dirigir o vimãna pelo ar. Isto foi
discutido num dos primeiros livros sobre óvnis,
escrito por Desmond Leslie e George Adamski.
Segundo propôs Leslie, o mercúrio aquecido
mencionado no Samarãngana-sütradhãra teria
algo a ver com o vôo dos óvnis.
Segundo me parece, os vimãna descritos por
Bhoja são muito mais parecidos com aviões
convencionais do que os óvnis. Portanto, são feitos
de materiais comuns como a madeira, têm asas e
voam como pássaros. O motor de mercúrio, sugere
Raghavan, destinava-se a ser a fonte de força
mecânica para fazer as asas baterem como no vôo
de um pássaro. Sua afirmação se baseia no fato de
Roger Bacon ter descrito uma nave aérea dotada
de alguma espécie de motor giratório para fazer as
asas baterem por meio de um encadeamento
mecânico.
Ramachandra Dikshitar, contudo, disse que,
segundo o Samarãngana-sütradhãra, o vimãna
"tem duas asas resplendentes, sendo
propulsionado pelo ar." Isto sugere o uso de
alguma espécie de propulsão a jato.
Seja qual fosse a verdadeira fonte de energia
destes vimãnas. Eles pareciam depender de algum
método mecânico convencional, que extraía
energia do combustível aquecido e usava-o para
produzir um fluxo de ar sobre as asas. Podemos
contrastar isto com as características de vôo dos
óvnis; que além de não terem asas, jatos ou
propulsores, parecem voar de um jeito que
contradiz princípios de física conhecidos.
Teria alguém alguma vez de fato construído os
vimãnas mencionados no Samarãngana-sütradhãra, ou seriam eles meros produtos da
imaginação? Eu não sei. Entretanto, conforme
sugerem as elaboradas descrições de yantras
encontradas em textos medievais indianos, muitas
máquinas sofisticadas eram feitas na índia de
outrora. Se já existia conhecimento de tecnologia
mecânica sofisticada em tempos remotos, então é
bem possível que também fossem construídos
aviões de algum tipo.
É interessante a menção, feita no texto sânscrito
sobre astronomia intitulado Sürya-siddhãnta, de
um motor a mercúrio usado para suprir de
movimento giratório um gola-yantra, um modelo
mecânico do sistema planetário.18 Isto sugere o
uso de pelo menos um tipo de motor a mercúrio
para produzir força giratória. O desenho do motor
a mercúrio, afirma ainda o texto, deve ser mantido
em sigilo. Segundo era de praxe na Índia antiga,
um mestre só devia transmitir seu conhecimento
técnico a um discípulo de confiança. Uma
lamentável conseqüência disto era a tendência de
o conhecimento se perder toda vez que se
rompiam tradições orais dependentes de mestres
e discípulos. E bem possível, portanto, que muitas
artes e ciências conhecidas em tempos antigos
tenham se perdido para nós, praticamente sem
deixar vestígio.
Outras obras sânscritas se referindo a naves
aéreas estão relacionadas num livro de Dileep
Kanjilal. São elas: o Yukti-kalpataru de Bhoja
(século XII d.C.); o Mayamatam atribuído a Maya
Danava mas provalvemente datando do século XII
d.C.; o Kathãsaritsãgara (século X d.C.); a
literatura Avadãna (séculos I a III d.C.); o
Raghuvanisam e o Abhijnãna-sakuntalam de
Kãlidãsa (século I a.C.); o Abhimãraka de Bhãsa
(século II a.C.); e os Zãtakas (século III a.C.). Estas
datas costumam ser aproximadas, e o material
constante nas diversas obras costuma ser extraído
de obras e tradições mais antigas.
O Vaimãnika-sãstra
O Vaimãnika-sãstra é uma descrição
detalhadíssima dos vimãnas, e ele mereceu todo o
crédito em uma série de livros e artigos. Entre
estes, incluem-se os escritos de Kanjilal, Nathan e
Childress. Em particular, conforme escreve o
ufólogo indiano Kanishk Nathan, o Vaimãnika-sãstra é um texto sânscrito antigo onde se
"descreve uma tecnologia que está, não apenas
muito além da ciência desta época, como também
muitíssimo além da possível imaginação conceitual
científica de um indiano antigo, incluindo conceitos
tais como energia solar e fotografia".
De fato, é verdade que esse livro contém muitas
idéias interessantes sobre tecnologia aérea. É
importante salientar, porém, o fato de ele ter sido
escrito no começo do século XX por meio de um
processo mediúnico conhecido hoje em dia como
canalização.
A história por trás deste processo é apresentada
na introdução à tradução de G. R. Josyer do
Vaimãnika-sãstra. Como se explica ali, era
costume, na Índia antiga, transmitir-se
conhecimento oralmente. Porém, com o declínio
desta tradição, passou-se a escrever em folhas de
palmeira. Infelizmente, como manuscritos em
folhas de palmeira não duram muito no clima
indiano, uma grande quantidade de escritos
antigos acabou se perdendo pelo fato de não ter
sido recopiada com regularidade.
Sem dúvida, isto é verdade. Mas, conforme
prossegue dizendo Josyer, os textos perdidos
"permanecem embutidos no éter do céu, para
serem revelados — como em televisão — a
médiuns dotados de percepção oculta". O médium,
neste caso, foi Pandit Subbaraya Sastry, "um
léxico ambulante dotado de percepção oculta",
que começou a ditar o Vaimãnika-sãstra para o Sr.
Venkatachala Sarma no dia 1º de agosto de 1918.
A obra completa foi anotada em 23 cadernos até o
dia 23 de agosto de 1923. Em 1923, Subbaraya
Sastry também contratou um projetista para fazer
alguns desenhos dos vimãnas seguindo as
instruções dele.
Segundo Subbaraya Sastry, o Vaimãnika-sãstra é
uma seção de um vasto tratado do sábio Mahãrsi
Bharadvãja, intitulado Yantra-sarvasva, ou a
Enciclopédia das máquinas. Embora Mahãrsi
Bharadvãja seja um antigo rsi mencionado no
Mahãbhãrata e em outras obras védicas, não sei
de nenhuma referência indicando seu interesse
por máquinas. O Yantra-sarvasva já não existe sob
forma física, mas existe, segundo se afirma, no
registro akáshico, onde foi lido e recitado por
Subbaraya Sastry. Tanto quanto sei, não há
referências a esta obra na literatura existente. Isto
é examinado no livro de Kanjilal sobre vimãnas.
Apesar da possibilidade de o Vaimãnika-sãstra ser
um embuste, não tenho motivo algum para supor
que não tivesse sido ditado por Subbaraya Sastry
da maneira descrita por Josyer. Mas será que a
obra é autêntica? Mesmo considerando a hipótese
de esta obra existir no éter como um modelo
vibracional, ela poderia, durante o processo de
leitura e ditado mediúnicos, ter sido distorcida ou
adulterada por elementos do inconsciente do
médium.
De fato, há bons motivos para se pensar que este
seria o caso. O texto do Vaimãnika-sãstra é
ilustrado por diversos dos desenhos feitos sob a
supervisão de Subbaraya Sastry. Entre estes,
incluem-se os perfis do ruktna-vimãna, do tripura-vimãna, do sakuna-vimãna. Estes perfis mostram o
tipo de tosca tecnologia mecânica e elétrica
existente no período logo após a Primeira Guerra.
Há grandes eletroímãs, manivelas, cubas,
engrenagens helicoidais, pistões, serpentinas de
aquecimento e motores elétricos movendo hélices.
O rukma-vimãna seria alçado ao ar por
"ventoinhas de elevação" movidas por motores
elétricos e muito pequenas se comparadas ao
tamanho do vimãna como um todo. Não se tem a
menor impressão de que semelhante dispositivo
conseguisse voar.
Estes dispositivos mecânicos podem muito bem ter
sido inspirados pela tecnologia do início do século
XX. Porém, se nos voltamos para o texto do
Vaimãnika-sãstra, encontramos dados de natureza
bastante diferente. Para ilustrar isto, apresento a
seguir dez exemplos, extraídos de uma lista do
Vaimãnika-sãstra, de 32 segredos que um piloto
de vimãna deve saber. Tecerei alguns comentários
sobre as relações entre estes itens e as
características comuns do fenômeno óvni.
1. Goodha: Conforme explica o "Vaayutatva-Prakarana", utilizam-se os poderes Yaasaa,
Viyaasaa e Prayaasaa na oitava camada
atmosférica que cobre a Terra para atrair o teor
negro do raio solar, usando-se este teor para
esconder o Vimaana do inimigo.
2. Drishya: Pela colisão da energia elétrica com a
energia eólica na atmosfera, cria-se um brilho,
cujo reflexo deve ser absorvido no Vishwa-Kriyaa-darapana, ou espelho na dianteira do Vimana, por
cuja manipulação se produz um Maaya-Vimaana
ou Vimana camuflado.
3. Adrishya: Segundo o "Shaktitantra", por meio
do Vynarathya Vikarana e outros poderes no
núcleo da massa solar, atrai-se a força do fluxo
etéreo no céu, mesclando-a com a balaahaa-vikarana shakti no globo aéreo, produzindo-se
deste modo uma cobertura branca, que tornará o
Vimana invisível.
Descrevem-se acima três métodos para esconder
um vimãna do inimigo. Embora soem fantasiosos,
é interessante observar que o vimãna descrito nos
Purãna e no Mahãbhãrata tem a capacidade de se
tornar invisível. Apesar de este também ser um
aspecto característico dos óvnis, com certeza não
era muito conhecido em 1923.
É interessante a idéia de um brilho sendo criado
pela colisão da energia elétrica com a eólica. Os
óvnis são famosos por brilharem na escuridão, e
isto pode ser devido a um efeito elétrico que ioniza
o ar ao redor do óvni. A palavra shakti (sakti)
significa poder ou energia.
4. Paroksha: Segundo o "Meghotpatthi-prakarana", ou a ciência do nascimento das
nuvens, penetrando na segunda das camadas de
nuvens de verão, e atraindo o poder nela existente
com o shaktyaakarshana darpana, ou espelho de
absorção de força do Vimana, e aplicando-se este
ao parivesha, ou halo do Vimana, gera-se uma
força paralisadora, mediante a qual Vimanas
adversários são paralisados e tirados de combate.
5. Aparoksha: Segundo o "Shakti-tantra", pela
projeção do feixe de luz Rohinee, as coisas que
estão na frente do Vimana tornam-se visíveis.
É comum serem mencionados feixes luminosos de
força paralisadora em relatos sobre óvnis, bem
como feixes de luz. A menção de um halo ao redor
do vimãna pode ser significativa, já que os óvnis,
conforme se costuma dizer, são rodeados por
alguma espécie de campo energético.
6. Viroopa Karena: Como afirma o "Dhooma
Prakarana", produzindo-se o 32° tipo de fumaça
através do mecanismo e carregando-o com a luz
das ondas de calor no céu e projetando-o através
do tubo do padmaka chakra no bhyravee
Vyroopya-darpana untado de óleo no topo do
Vimana, e rodopiando com o 132° tipo de
velocidade, surgirá uma forma muito feroz e
aterrorizadora do Vimana, provocando pavor
extremo nos observadores.
7. Roopaantara: Como declara o "Tylaprakarana",
preparando óleos de griddhra-jihwaa, kumbhinee e
kaakajangha e untando-os no espelho distorcedor
do Vimana, aplicando-lhe o 19° tipo de fumaça e
carregando-o com a kuntinee shakti do Vimana,
formas como leão, tigre, rinoceronte, serpente,
montanha e rio aparecerão para espantar e
confundir os observadores.
Apesar de estas descrições parecerem de todo
absurdas, é interessante o fato de já terem sido
relatados tanto óvnis mudando de forma de
maneiras misteriosas quanto criaturas
monstruosas surgindo dos óvnis aterrissados para
assustar as pessoas (veja páginas 375-78). Muitos
dos itens desta lista de segredos têm a ver com a
criação de ilusões destinados a confundir os
inimigos, e os óvnis também parecem criar
semelhantes ilusões.
8. Saarpa-Gamana: Atraindo o dandavaktra e sete
outras forças do ar, e mesclando-o aos raios do
sol, passando-o pelo centro ziguezagueante do
Vimana, e ligando o botão, o Vimana passará a ter
um movimento em ziguezague semelhante ao de
uma serpente.
A capacidade de os óvnis voarem em ziguezague é
bem conhecida hoje, mas não o era em 1923.
9. Roopaakarshana: Por meio do yantra
fotográfico do Vimana, obtém-se uma visão
televisiva de coisas que estão dentro de um avião
inimigo.
10. Kriyaagrahana: Virando a chave no fundo do
Vimana, faz-se aparecer um tecido branco.
Eletrificando os três ácidos no setor nordeste do
Vimana, e submetendo-os aos sete tipos de raios
solares, e passando a força resultante para o tubo
do espelho Thrisheersha... serão projetadas na tela
todas as atividades que estiveram acontecendo no
solo.
A palavra televisiva do item 9 foi empregada na
versão inglesa do Vaimãnika-sãstra, lançada em
1973. O texto sânscrito original foi escrito em
1923, antes do surgimento da televisão.
Há, contudo, muitas referências a telas de
televisão dentro de óvnis. Elas aparecem, por
exemplo, nos seguintes casos de rapto descritos
neste livro: o caso Buff Ledge, Vermont (páginas
144-51), o caso de Filiberto Cardenas (páginas
207-09), o caso de William Hermann (páginas 205-07 e 226-32) e o caso Cimarron, Novo México
(páginas 389-94). William Herrmann, em
particular, disse terem lhe mostrado uma tela a
bordo de um óvni que produzia imagens em close-up de objetos em terra. Sendo assim, ele pôde ver
com bastante nitidez os rostos atônitos de quantos
observavam o óvni do solo.
No todo, as descrições do Vaimãnika-sãstra
parecem vividamente fantásticas. Existem, porém,
muitos paralelos entre estas descrições e certas
características também estranhas de relatos sobre
óvnis. Não sei se estes paralelos são mesmo
significativos, mas é curioso o fato de eles
constarem num livro escrito entre 1918 e 1923,
antes de o fenômeno óvni tornar-se tão conhecido.
Além disso, chamo a atenção para o fato de as
descrições técnicas apresentadas no Vaimãnika-sãstra parecerem semelhantes em qualidade às
comunicações técnicas de óvnis psicografadas por
William Hermann.
Parece evidente o fato de as ilustrações do
Vaimãnika-sãstra estarem contaminadas pelo
material do século XX absorvido pelo inconsciente
do médium. Todavia, as passagens acima
mencionadas contêm, sobretudo, material que não
é do século XX, material expresso em palavras e
idéias védicas. Talvez semelhante material seja
apenas um produto da imaginação de Subbaraya
Sastry, aplicada a sua extensa sabedoria védica,
ou talvez seja uma tradução razoavelmente fiel de
um antigo texto védico preservado como modelo
etérico.
A única forma de descobrir a resposta para isto
seria obter outros textos sânscritos obscuros e ver
se eles confirmam ou não alguns dos elementos do
Vaimãnika-sãstra. Confirmações repetidas
indicariam pelo menos o fato de Subbaraya Sastry
estar apresentando dados de uma tradição
autêntica, sendo necessárias investigações
adicionais para averiguar se esta tradição estaria
fundamentada em fatos reais ou não. Por
enquanto, devemos nos manter abertos a diversas
interpretações possíveis dos dados do Vaimãnika-sãstra.
Vimãnas na literatura védica
O Bhãgavata Purãna, o Mahãbhãrata e o
Rãmãyana são três obras importantes na tradição
védica da índia. Como salientei no Capítulo 6,
estes três textos contêm bastante material
interessante acerca dos veículos aéreos chamados
vimãnas. Descrevem, também, diferentes raças de
seres semelhantes aos humanos que operam estes
veículos, além de analisarem as relações sociais e
políticas existentes em épocas antigas entre estes
seres e os humanos desta Terra.
Para alguns, este material carece de valor por
parecer fantástico e mitológico. O ufólogo indiano
Kanishk Nathan, por exemplo, rejeita os antigos
textos religiosos hindus em virtude de os mesmos
atribuírem proezas exageradas aos deuses. Estes
textos, opina ele, são meras manifestações
poéticas de "algum escritor que não esteja
relatando um evento de verdade, motivo pelo qual
sua imaginação pode tomar o rumo que ele
preferir". Conforme salienta ainda, estes textos
pertencem a uma época pré-científica; por isso,
"considerando o conhecimento cultural,
tecnológico e científico daquele período histórico,
um escritor pode se dar ao luxo de, abusando das
generalidades e evitando as particularidades, criar
inventos e combinações que de fato não existem".
Até hoje, seria possível argumentar, não se
conseguiu provar que os escritores antigos só
faziam se entregar a devaneios poéticos, sem dar
o menor valor aos fatos. Há um preconceito
moderno segundo o qual toda pessoa interessada
nas coisas do espírito tem de ser não-científica, e
tudo quanto ela escreva tem de ser imaginário.
Para este ponto de vista fazer sentido, é preciso
que todos os dados observáveis corroborem um
modelo mecanicista de mundo, que exclui antigas
idéias religiosas por julgá-las falácias
desmoralizadas.
No entanto, se tivermos o cuidado de examinar o
fenômeno ufológico, acharemos extensas
observações empíricas que contradizem por
completo nossa confortável visão de mundo
mecanicista. Vale notar que este material anômalo
— variando de padrões de vôo fisicamente
impossíveis a seres que flutuam atravessando
paredes — enquadra-se de maneira bem natural
nas cosmologias de orientação espiritual dos
antigos textos védicos. Logo, vale a pena levar em
conta que os escritores destes textos estariam
apresentando uma descrição sólida da realidade
conforme a experimentavam, e não por um mero
exercício arbitrário de imaginação.
Vimanas para todos os fins
O capítulo precedente apresentou a história do
vimãna de Sãlva, a qual se encontra no
Mahãbhãrata e no Bhãgavata Purãna. Tratava-se
de um grande veículo militar capaz de transportar
tropas e armas, tendo sido adquirido por Sãlva de
um não-humano perito em tecnologia chamado
Maya Dãnava. Os Purãna e o Mahãbhãrata
também contêm muitos relatos sobre vimãnas
menores, incluindo naves de passeio que parecem
ser projetadas para um único passageiro. Em
geral, elas eram usadas por devas e upadevas, e
não por seres humanos.
Nesta seção, apresentarei uma série de exemplos,
demonstrando como os vimãnas figuram como
elementos comuns em muitas histórias diferentes
constantes nestes textos. Cada exemplo foi
extraído de uma história maior, não sendo possível
apresentar a íntegra destas histórias neste livro.
Meu objetivo, ao apresentar os exemplos, é
demonstrar a freqüência com que os vimãnas são
mencionados nos Purãna e no Mahãbhãrata.
Aparentemente, eles eram tão comuns para as
pessoas da antiga cultura védica quanto os aviões
o são para nós hoje em dia.
No primeiro relato, Krsna mata uma serpente
pitônica enquanto esta tenta engolir seu pai, o rei
Nanda. Por arranjo de Krsna, a alma da serpente é
transferida para um novo corpo, do tipo possuído
pelos seres celestiais chamados vidyãdharas.
Como aquela alma possuíra um corpo celestial
semelhante antes de ser colocada no corpo da
serpente, Krsna pergunta-lhe o motivo da
degradação à forma de serpente:
A serpente replicou: Eu sou o famoso vidyãdhara
chamado Sudarsana. Eu era muito opulento e belo
e, a bordo de meu avião, costumava passear à
vontade em todas as direções. Certa vez, vi alguns
sábios feiosos da linhagem de Angirã Muni.
Orgulhoso de minha beleza, eu os ridicularizei e,
por causa de meu pecado, eles fizeram com que
eu assumisse esta forma inferior.
Nesta passagem, a palavra sânscrita vimãnena é
traduzida como "em meu avião". Este parece ter
sido um pequeno veículo particular.
A história seguinte é semelhante. Libertando a
alma de um certo rei Nrga do aprisionamento no
corpo de um lagarto, Krsna lhe concedeu um corpo
celestial. Quando chegou a hora de o rei partir, um
vimãna de outro mundo veio pegá-lo:
Tendo falado assim, Mahãrãja Nrga circungirou o
Senhor Krsna e tocou-Lhe os pés com sua coroa.
Recebendo permissão para partir, o rei Nrga
embarcou então num maravilhoso avião celestial
diante dos olhos de todas as pessoas presentes.
No caso seguinte, vemos o efeito de uma bela
mulher sobre o piloto de um vimãna. Aqui, o sábio
Kardama Muni descreve a beleza de Devahuti, sua
futura esposa, para Svãyambhuva Manu, o pai
dela:
Ouvi falar que Visvãvasu, o grande gandharva,
tendo a mente entorpecida pela paixão, caiu de
seu avião após ver vossa filha brincando com uma
bola no terraço do palácio, pois ela estava mesmo
linda com suas tilintantes tornozeleiras e seus
olhos irrequietos.
Pelo que parece, o vimãna de Visvãvasu era uma
pequena nave de um só assento. Talvez ele não
tivesse cintos de segurança adequados, pois
inclinou-se demais enquanto tentava ver Devahuti.
Após se casar com Devahuti, certa vez Kardama
Muni resolveu levá-la a passear pelo universo. Para
tanto, ele apresentou uma mansão aérea
(chamada, como de costume, vimãna)
suntuosamente equipada para ser um palácio de
prazeres. Na passagem a seguir, o sábio Maitreya
relata a história desta mansão para seu discípulo
Vidura:
Maitreya prosseguiu: Ó Vidura, desejando
satisfazer sua amada esposa, o sábio Kardama
exercitou seu poder de yogue e, num abrir e
fechar de olhos, produziu uma mansão aérea
capaz de viajar segundo sua vontade.
Era uma estrutura maravilhosa, ornada com toda
espécie de jóias, adornada com pilastras de pedras
preciosas e capaz de produzir tudo quanto se
desejasse. Era equipada com toda sorte de mobília
e de riquezas, que tendiam a se expandir com o
transcorrer do tempo. (...)
Com os mais seletos rubis incrustados em suas
paredes de diamante, parecia possuir olhos. Era
mobiliada com maravilhosos dosséis e
valiosíssimos portões de ouro.
Espalhados por aquele palácio, havia multidões de
cisnes e pombos vivos, bem como cisnes e
pombos artificiais tão reais que os cisnes
verdadeiros volta e meia se aproximavam deles,
pensando que fossem aves vivas como eles. Deste
modo, o palácio vibrava com os sons daquelas
aves.
O castelo tinha jardins das delícias, câmaras de
repouso, dormitórios e pátios internos e externos
projetados para propiciar conforto. Até o sábio se
espantava com tudo aquilo.
O sábio se espantava porque na verdade não fora
ele quem projetara ou imaginara os detalhes do
palácio aéreo. Na prática, ele fizera apenas emitir
uma ordem mental para que se manifestasse um
palácio voador, tendo-o recebido de uma espécie
de sistema de fornecimento universal em virtude
de ter adquirido crédito de bom karma por meio de
sua austeridade e sua prática de yoga. Para
entendermos o que acontecia aqui, é necessário
considerarmos alguns aspectos básicos da
concepção védica do universo.
No decorrer dos anos, têm-se usado muitas
analogias para descrever o universo. Assim, os
aristotélicos comparavam o universo a um
organismo vivo, ao passo que os primeiros
filósofos mecanicistas comparavam-no a um
relógio gigantesco. Para entendermos a concepção
védica do universo, a idéia moderna de um
computador com um sistema operacional de
muitos níveis pode nos ser útil. No disco rígido de
semelhante computador, existem programas
acionáveis mediante a digitação de palavras-código apropriadas. Ao ser digitada a palavra-código, o programa correspondente será
executado — se é que o usuário do computador
tem status adequado. Caso ele não o tenha, para
ele a palavra-código é apenas um nome inútil.
Tipicamente, o status do usuário é indicado pela
senha que ele digita quando começa a usar o
computador. Usuários diferentes terão senhas
indicando diferentes níveis de status. Acima de
todos os demais usuários está uma pessoa
chamada (no sistema operacional Unix) de super
usuário e que tem pleno controle sobre todos os
programas do sistema. É comum esta pessoa ser
responsável pela criação de todo o sistema, tendo
inserido diversas seções de software no
computador.
Segundo a concepção védica, o universo tem uma
organização semelhante. O super usuário
corresponde ao Ser Supremo, que manifesta todo
o sistema universal. Dentro deste sistema, existe
uma hierarquia de seres vivos que gozam de
status diferentes. Um ser no nível humano comum
tem muitos poderes extraordinários, tais como a
faculdade da fala, e um ser num nível superior, tal
como Kardama Muni, pode manifestar poderes
maiores ainda. Quando crescemos usando
determinada faculdade, tendemos a não lhe dar
valor e, quando carecemos por completo de
acesso a uma faculdade, tendemos a encará-la
como impossível ou mitológica. Mas todas as
faculdades — incluindo a de invocar palácios
voadores — são apenas programas embutidos no
sistema universal pelo super usuário.
O paralelo entre a concepção védica do universo e
um computador pode ser mais explicitado
introduzindo o conceito de um sistema de
realidade virtual. É possível criar um mundo
artificial mediante cálculos de computador e
equipar participantes humanos com interfaces
sensórias para lhes dar a impressão de terem
entrado naquele mundo. Por exemplo: um
participante terá pequenas telas de tevê colocadas
em frente de seus olhos que o capacitem a ver a
partir da posição vantajosa dos olhos virtuais de
um corpo virtual dentro do mundo artificial. De
forma semelhante, ele poderá estar equipado com
sensores táteis que o capacitem a experimentar a
sensação de objetos virtuais seguros pelas mãos
virtuais daquele corpo. Os sensores que assimilam
suas contrações musculares ou seus impulsos
nervosos poderão ser usados para direcionar o
movimento do corpo virtual.
Assim, muitas pessoas poderão entrar ao mesmo
tempo num mundo virtual, passando a interagir
através de seus corpos virtuais, mesmo com seus
corpos verdadeiros bem isolados uns dos outros.
Dependendo dos status delas, conforme
identificados pelo super usuário do computador, os
diferentes corpos virtuais poderão ter diferentes
faculdades, algumas das quais poderão ser
invocadas pronunciando-se palavras-código, ou
mantras.
Um poderosíssimo sistema de realidade virtual
proporciona uma metáfora para o universo védico
de mãyã, ou ilusão, no qual almas conscientes se
identificam falsamente com corpos materiais. Esta
metáfora não deve ser levada ao pé da letra, é
claro. De fato, o universo não funciona com base
num computador digital. Pelo contrário, trata-se,
segundo a concepção védica, de um sistema de
energias interativas cujas características de design
e organização inteligentes nos fazem lembrar
determinados sistemas de informática criados pelo
homem.
Voltando à história de Kardama Muni, consta que,
após ter adquirido seu maravilhoso palácio voador,
ele saiu viajando para diferentes planetas com sua
esposa:
Satisfeito com sua esposa, ele desfrutou daquela
mansão aérea, não apenas no monte Meru, como
também em diferentes jardins conhecidos como
Vaisrambhaka, Surasana, Nandana,
Puspabhadraka e Caitrarathya, e à beira do lago
Mãnasa-sarovara.
Viajou daquela maneira pelos diversos planetas,
assim como o ar passa livre por todos os lados.
Cruzando o ar naquela grandiosa e esplêndida
mansão aérea, que podia voar segundo a sua
vontade, ele superou até os semideuses.
No sânscrito original desta passagem, o termo
vaimãnikãn, ou seja, "viajantes a bordo de
vimãnas", refere-se aos devas. Portanto, segundo
o sentido literal do verso, o vimãna de Kardama
Muni excedia os vaimãnikãn. A palavra sânscrita
para planetas é loka, que pode se referir a outros
globos físicos ou a mundos supradimensionais
inacessíveis aos sentidos humanos comuns.
A idéia de acionar programas universais figura em
outra história envolvendo um vimãna. Parece
existir uma espécie de armadura mística chamada
Nãrãyana-kavaca, que é acionada invocando-se os
nomes do Ser Supremo. (Nãrãyana é um nome do
Supremo, e kavaca significa armadura.) Em certa
ocasião, um brãhmana chamado Kausika
abandonou seu corpo físico após fazer uso desta
armadura. Passado algum tempo, Citraratha, o rei
gandharva, experimentou uma estranha
interferência em seu vimãna ao sobrevoar os
restos do corpo de Kausika:
Rodeado por muitas mulheres lindas, Citraratha, o
rei de Gandharvaloka, certa feita estava passando
a bordo de seu avião por sobre o corpo do
brãhmana no local onde este morrera.
De repente, Citraratha se viu forçado a cair de
ponta com seu avião. Surpreendido, ele foi
orientado pelos grandes sábios chamados
va/lakhilyas a atirar os ossos do bra\hmanúa no rio
Sarasvati, próximo dali. Além de fazer isto, ele
ainda teve de se banhar no rio antes de regressar
a sua morada.
Um exemplo de vimãna usado para fins militares
consta na história de Bali, um rei dos daityas. O
veículo de Bali é muito parecido com aquele obtido
por Sãlva, tendo também sido construído por Maya
Danava. Foi usado numa grande batalha entre os
daityas e os devas:
Para travar aquela batalha, o celebérrimo
comandante-em-chefe, Mahãrãja Bali, filho de
Virocana, embarcou num maravilhoso avião
chamado Vaihãyasa. Ó rei, este avião
belissimamente decorado fora fabricado pelo
demônio Maya, estando equipado com armas
próprias para todos os tipos de combate. Era
inconcebível e indescritível. De fato, era às vezes
visível e às vezes não. Sentado neste avião sob um
belo guarda-sol protetor e sendo abanado pela
melhor das câmaras, Mahãrãja Bali, rodeado por
seus capitães e comandantes, parecia a Lua
nascendo à noite, iluminando todas as direções.
Meu exemplo final de vimãna é de um trecho da
história do sacrifício de Daksa. Sati, a esposa do
Senhor Siva, queria assistir a um sacrifício
organizado por seu pai, Daksa, mas Siva não
queria deixá-la ir por causa da hostilidade de
Daksa para com ele. Nesta passagem, vemos Sati
implorando a seu esposo que a deixe ir ao
sacrifício após ter visto seus parentes viajando
para lá a bordo de vimãnas:
Ó jamais-nascido, ó ser da garganta azul, não só
minhas parentas, mas também outras mulheres,
vestidas em lindas roupas e decoradas com
ornamentos, estão indo para lá com seus esposos
e amigos. Vê como seus bandos de aviões brancos
fizeram todo o céu belíssimo.
Todos os seres aqui referidos são devas e
upadevas. Conforme podemos ver por este e os
outros exemplos, os vimãnas eram considerados
meios de transporte comuns para seres destas
categorias.
A cidade voadora de Hiranyapura
Wendelle Stevens menciona um estudo sobre a
origem dos óvnis realizado por um comitê em
Bruxelas chamado Laboratoire de Recherche A.
Kraainem. Segundo concluía este estudo, após
atingirem determinado estágio de tecnologia, os
seres de uma civilização deixarão seu planeta
natal e "viverão em enormes 'naves-mãe', mundos
artificiais criados por eles mesmos, adaptados a
suas próprias necessidades e submetidos a
constantes ciclos de manutenção e
aperfeiçoamento. (...) Além de gozarem de auto-suficiência plena, os mundos artificiais não
dependem do apoio de nenhum outro planeta ou
corpo físico. São mantidos no espaço, onde
singram por tempo indefinido".
No Mahãbhãrata também encontramos esta idéia
de cidades voadoras auto-sustentáveis a viajar por
tempo indefinido no espaço exterior. Nesta seção
e nas duas seguintes, darei diversos exemplos
disto. O primeiro é a cidade voadora de
Hiranyapura. Arjuna a viu flutuando no espaço em
sua viagem pelas regiões celestiais, após ter
derrotado os nivãtakavacas numa grande batalha.
Nesta jornada celestial, Arjuna era acompanhado
por um deva chamado Mãtali, a quem perguntou
acerca da cidade. Mãtali replicou:
Certa vez, havia uma mulher daitya chamada
Pulomã e uma grande asuri, Kãlaka, que
praticaram rigorosas austeridades por um milênio
de anos dos deuses. Ao final de suas
mortificações, o Deus auto-criado lhes concedeu
um favor. Em resultado, elas escolheram ter uma
progênie que sofresse pouco, Indra dos reis, e
fosse inviolável por deuses, rãksasas e serpentes.
Esta adorável cidade aerotransportada, com o
esplendor das boas ações, abarrotada de todas as
pedras preciosas e inexpugnável até mesmo para
os imortais, os bandos de yaksas e gandharvas, e
serpentes, asuras e rãksasas, repleta de todos os
desejos e virtudes, livre do pesar e da doença, foi
criada para os kãlakeyas por Brahmã, O melhor
dos Bhãratas. Os imortais fugiam desta celestial
cidade voadora, Ó herói, que é habitada por asuras
das estirpes pauloma e kãlakeya. Esta grande
cidade se chama Hiranyapura, a Cidade-de-Ouro.
Nesta passagem, os habitantes da cidade, os
paulomas e kãlakeyas, são identificados como os
descendentes de duas parentas rebeldes dos
devas chamadas Pulomã e Kãlakã. As "serpentes"
são uma raça de seres místicos, chamados nãgas,
que podem assumir forma humanóide ou de
serpente (veja páginas 356-60). O "deus auto-criado" é Brahmã, conhecido como sendo o
progenitor original de todos os seres vivos dentro
do universo material. Sendo de origem
transcendental, Brahmã não tem pais materiais, e
por isso é tido como auto-criado. Os imortais são
os devas. Eles são chamados de imortais porque
vivem por milhões de nossos anos. No entanto,
segundo os Vedas, todos os seres corporificados
no universo material têm um período finito de vida
e têm de morrer após algum tempo.
Com seus poderes superiores, Brahmä
providenciou para que os paulomas e kälakeyas
tivessem uma cidade voadora contra a qual
fracassassem os ataques de diversos grupos de
seres poderosos dentro do universo, inclusive os
devas. Contudo, ele deixou uma fresta aberta para
os devas ao declarar que um ser humano poderia
ter êxito ao atacar a cidade voadora.
Arjuna era metade humano, metade deva. Sua
mãe era uma mulher da Terra, e seu pai, Indra, o
rei dos devas. Indra equipara Arjuna com armas
celestiais apenas com o propósito de derrotar
inimigos dos devas agraciados por Brahmä com
bênçãos de proteção que não se aplicassem a
humanos. Deste modo, Arjuna concluiu que atacar
Hiranyapura fazia parte de sua missão. Eis o relato
de Arjuna para o ocorrido após seu ataque inicial:
Quando estavam sendo massacrados, os daityas
recuperaram sua cidade e, empregando sua
feitiçaria dänava, voaram céu acima, com a cidade
e tudo. Eu os detive com uma poderosa saraivada
de flechas e, bloqueando seu caminho, os impedi
de prosseguirem. Mas, por causa da bênção
recebida, foi fácil para os daityas reassumirem o
controle de sua celestial, divina e refulgente
cidade aerotransportada, que gozava de total
autonomia de vôo. Ora ela adentrava o
subterrâneo, ora pairava no alto do céu, ora saía
veloz em linha diagonal, ora submergia no oceano.
Voltei a atacar a cidade móvel, que parecia
Amarävati, com muitas espécies de mísseis,
suserano dos homens. Em seguida, subjuguei
tanto a cidade quanto os daityas com uma massa
de flechas, que eram aceleradas por mísseis
divinos. Ferida por minhas flechas de ferro e de
disparo reto, a cidade asura caiu espatifada sobre
a Terra, O rei. Os asuras, atingidos por minhas
céleres flechas de ferro, rodopiaram, Ó rei,
derrotados pelo Tempo. Mätali num instante
desceu à Terra, como que caindo de cabeça, em
nossa quadriga de refulgência divina.
A batalha entre Arjuna e os daityas começou na
superfície de um planeta (talvez a Terra). Ao
serem vigorosamente atacados por Arjuna, os
daityas decolaram a bordo de sua cidade voadora.
É digno de nota o fato de a cidade ser capaz de se
mover no subterrâneo e debaixo d'água, bem
como pelo ar ou no espaço exterior. Muitos relatos
descrevem óvnis entrando e saindo de corpos
d'água, e algumas histórias associam óvnis a
bases subterrâneas ou submarinas. A história de
Betty Andreasson sobre a Fênix, por exemplo,
parece ter ocorrido num reino subterrâneo, e
Filiberto Cardenas contou ter sido levado para uma
base submarina.
Congressos aéreos dos devas
Segundo o Mahäbhärata, da mesma forma que os
daityas têm cidades voadoras como Hiranyapura,
os devas têm congressos voadores, nas quais eles
realizam suas atividades administrativas. Eis
alguns exemplos, começando com o congresso de
Indra, ou Sakra, o rei dos devas. Nesta passagem,
uma légua equivale a uma yojana sânscrita, que
varia de nove a quinze quilômetros:
O esplêndido salão celestial de Sakra, conquistado
mediante suas façanhas — ele próprio o construiu,
Kaurava, com o resplendor do fogo. Tem cem
léguas de largura, 150 de comprimento e cinco de
altura, tem plena autonomia de movimento e é
aéreo. Dissipador da velhice, da aflição e da
fadiga, isento de doenças, benigno, belo, repleto
de câmaras e assentos, adorável e embelezado
com árvores celestiais é aquele salão onde, Ó
Pärtha, o senhor dos deuses se senta com Saci.
É comum descreverem vimänas como naves
ígneas ou de brilho cintilante. Encontramos a
mesma característica na seguinte descrição do
salão de Yama, que foi construído por
Visavakarmä, o arquiteto dos devas:
Este belo salão, com plena autonomia de
movimento, nunca fica apinhado de gente — ele é
luminoso como que envolvido pelas chamas de
sua própria radiação, pois Visavakarmä o construiu
após acumular por muito tempo o poder das
austeridades, Bhärata. A ele vão ascetas de
terríveis austeridades, de bons votos e palavras
verazes, que são tranqüilos, desprendidos,
vitoriosos, purificados por seus atos santos, todos
portando corpos refulgentes e trajes imaculados;
(...) e também vão gandharvas excelsos e hostes
de apsarãs às centenas. (...) Uma centena de
milhares de pacíficas pessoas sábias assistem de
corpo e alma ao senhor das criaturas.
É interessante o fato de o salão de Yama ser
povoado por seres de muitos tipos diferentes. Isto
faz lembrar o fenômeno ufológico, visto serem
freqüentes os relatos da presença de diversos
tipos de ser num óvni, todos aparentemente
trabalhando em regime de cooperação. No salão
de Yama, além de gandharvas, apsarãs e diversos
tipos de ascetas, há os siddhas, com seus corpos
de yogues, pitãs, homens de ação malévola, e "os
familiares de Yama encarregados da
administração do tempo".
Os últimos, sendo funcionários dotados de poderes
místicos, estão capacitados a regular o processo
de transmigração de almas. Yama é o senhor
védico da morte, o supervisor do processo de
transmigração. Por mais estranho que pareça,
mesmo neste caso encontramos um paralelo com
relatos sobre fenômenos óvni. Segundo indicam
muitos relatos, algumas entidades ufológicas
podem induzir as pessoas a terem experiências
extra-corporais para em seguida exercer controle
sobre seus corpos sutis (veja Capítulo 10). Esta
também vem a ser uma das faculdades dos
familiares de Yama.
Outro dado curioso sobre o salão de Yama é que
ele jamais fica apinhado de gente, por mais que
nele entrem muitos seres diferentes. Isto faz
lembrar o relato de rapto por óvni de "Steven
Kilburn", apresentado por Budd Hopkins, no qual
um óvni parece ser muito maior por dentro do que
por fora. Isto sugere que dentro do salão de Yama
— ou no óvni de Kilburn — o espaço transforma-se
de uma maneira além do alcance de nossa
experiência humana (veja Apêndice 3).
Em seu depoimento, Betty Andreasson relata ter
visto um óvni ser muito reduzido em seu tamanho
aparente, muito embora houvesse um passageiro
humano dentro dele. Apesar de isto parecer
sobremaneira implausível, existem siddhis
védicos, chamados mahimã e anima, mediante os
quais um objeto pode ser muito expandido ou
contraído em tamanho, ao mesmo tempo que
retém suas proporções e estrutura interna.
O congresso de Brahmã fornece outro exemplo
surpreendente de transformações de espaço, as
quais parecem, incompreensíveis de um ponto de
vista comum. Neste caso, o grande sábio Nãrada
Muni visitou o salão de Brahmã e descobriu não
ser capaz de fazer uma descrição adequada de seu
esboço arquitetônico:
Em seguida, o abençoado e poderoso senhor Sol
me levou até o imaculado salão de Brahmã, onde
não existe fadiga. Não é possível descrevê-lo como
ele é de fato, rei das pessoas, pois a cada instante
ele assume uma nova aparência indescritível. Não
sei dizer qual seja seu tamanho ou sua estrutura,
Bhãrata, e jamais vi semelhante beleza. O salão é
muito confortável, rei, nem frio demais nem
quente demais; entrando-se nele, deixa-se de
sentir fome, sede ou cansaço. E como se fosse
feito de muitos formatos diferentes, todos muito
coloridos e luminosos. Não há pilastras o
sustentando. É eterno, e por isso não se deteriora.
É auto-iluminado além da Lua e do Sol e do fogo
flamejante; na abóboda celeste, ele resplandece
como se iluminasse o Sol. Nele se senta o
abençoado senhor, O rei, o avô dos mundos que,
sozinho, os cria constantemente com sua magia
divina.
A mansão aérea de Ravana
Na epopéia chamada Rãmãyana encontramos um
relato interessante sobre um vimãna. Segundo a
história principal do Rãmãyana, um país da Terra
chamado Lankã foi ocupado outrora, por uma raça
de seres malévolos chamados rãksasas. (Lankã
seria, segundo se pensa, a ilha conhecida hoje em
dia como Sri Lankã, embora haja quem questione
isto.) Rãvana, o rei dos rãksasas, reinava em
Lankã, uma cidade então fortificada, onde ele
escondeu Sitã, a esposa do Senhor Rama, após
raptá-la com o auxílio de suas faculdades de ilusão
(veja páginas 292-93). Rãvana também possuía
uma mansão aérea cujo vôo, acionado por seus
comandos mentais, permitia-lhe melhor
desempenho em suas façanhas militares.
O Senhor Rãma pediu a um ser chamado
Hanumãn, pertencente a uma raça simiesca
inteligente, para descobrir o paradeiro de Sitã e
lhe trazer notícias dela. Embora nascido na Terra
numa sociedade primitiva, Hanumãn também era
filho do deus-vento Vãyu, de modo que dispunha
de poderes místicos úteis para semelhante tarefa.
Enquanto procurava Sitã, ele viu a mansão aérea
de Rãvana a pairar sobre sua capital:
O heróico filho do deus-vento viu, em meio àquele
complexo residencial, a grande mansão-aeronave
chamada Puspaka-vimãna, decorada com pérolas
e diamantes e cujas janelas eram verdadeiras
obras de arte feitas de ouro refinado.
Tendo sido construída pelo próprio Visavakarmã,
ninguém era capaz de lhe avaliar o poder nem de
destruí-la. Fora construída com a intenção de ser
superior a todas as construções semelhantes. Não
precisava de apoio para se postar na atmosfera.
Tinha a capacidade de ir a qualquer lugar.
Postava-se no céu como se fosse um marco no
caminho do Sol. (...)
Tratava-se do resultado final da grande mestria
conquistada com austeridades. Podia voar em
qualquer direção que se desejasse. Tinha cômodos
de beleza extraordinária. Tudo nela era simétrico e
singular. Sabendo das intenções de seu amo, era
capaz de ir a qualquer lugar em alta velocidade
sem ser obstruída por ninguém, nem mesmo o
próprio vento. (...)
Suas torres eram verdadeiras obras de arte. Suas
agulhas e cúpulas eram como os picos das
montanhas. Era imaculada como a Lua do outono.
Era ocupada por esguios rãksasas de enormes
proporções com rostos abrilhantados por seus
brincos cintilantes. Era deliciosa de se ver como a
primavera e as flores que desabrocham nesta
estação. Além disso, contava com a proteção de
inúmeros elementais com olhos redondos e
profundos e capazes de fazer movimentos muito
rápidos.
Hanumãn, o filho do deus-vento, avistou, no meio
do edifício aéreo, uma construção bem espaçosa.
Aquele prédio, com meio yojana de largura e um
yojana de comprimento, e tendo diversos andares,
era a residência do rei dos rãksasas. (...)
Foi na região celestial que Visavakarmã construiu
este Puspaka-uimãna, ou mansão-aeronave de
forma atraente, que podia ir a qualquer parte e
intensificava a natureza do desejo de seus
ocupantes. Kuvera, por conta de suas
austeridades, obtivera de Brahmã aquela mansão
aérea toda decorada com pedras preciosas e
homenageada pelos residentes de todos os três
mundos. Rãvana, o rei dos rãksasas, lograra
apoderar-se dela ao suplantar Kuvera.
É especialmente interessante a referência a
"elementais com olhos redondos e profundos",
cuja função é proteger o vimãna. Estes seres
pareciam vir com o próprio vimãna, enquanto os
rãksasas eram meros intrusos que o adquiriram
por intermédio das façanhas militares de Rãvana.
Observe-se também que, com cada yojana
equivalendo a quinze quilômetros, as dimensões
da residência de Rãvana no vimãna seriam sete
por quinze quilômetros.
E os cavalos e quadrigas voadores?
Existem, está claro, ricas tradições védicas em
torno de raças humanóides capazes de voar à
vontade por todo o universo a bordo de veículos
chamados vimãnas. Seria possível objetar,
contudo, que também existem histórias védicas
sobre quadrigas puxadas a cavalo que voam pelo
céu. Com certeza, estas histórias são de todo
absurdas, já que não faz sentido afirmar a
possibilidade de um animal correr pelo ar ou pelo
espaço exterior usando suas pernas. Por causa
deste absurdo, alegam alguns, nada na literatura
védica deve ser levado muito a sério.
Em resposta a esta objeção, deve-se admitir que,
apesar de os textos védicos conterem de fato
histórias sobre quadrigas voadoras puxadas a
cavalo, estas histórias não são necessariamente
absurdas. Para entendê-las da forma correta, é
preciso levar em conta diversos detalhes que as
situam no contexto do panorama geral do mundo
védico. Vistos desta maneira, tanto as quadrigas
puxadas a cavalo quanto os vimãnas autônomos
fazem sentido.
Procurarei apresentar estes detalhes, referindo-me
a algumas histórias do Mabãbhãrata sobre Arjuna,
o herói Pãndava. Na primeira história, Arjuna viaja
pelo espaço exatamente numa quadriga puxada
por cavalos. Esta descrição traz uma série de
características importantes, incluindo-se a viagem
pelo espaço sobre uma espécie de rodovia:
E, montado nesta solar, divina e prodigiosa
quadriga, o sábio descendente de Kuru saiu
jubilante a voar. Tornando-se invisível para os
mortais que perambulam na Terra, ele viu
milhares de maravilhosas quadrigas
aerotransportadas. Embora ali não houvesse luz do
Sol, nem da Lua, nem do fogo, as quadrigas
gozavam de seu próprio brilho adquirido mediante
seus méritos. Aquelas luzes que são como as
estrelas parecem minúsculas como candeias de
azeite por causa da distância, mas são de fato
bem grandes. O Pãndava as viu brilhantes e belas,
ardendo em seus próprios lares com seu próprio
fogo. Lá estão os aperfeiçoados videntes reais, os
heróis abatidos em guerra, os quais, tendo
conquistado o céu com suas austeridades,
reúnem-se em centenas de grupos. O mesmo se
dá com milhares de gandharvas com uma
cintilância como a do Sol ou do fogo, e com
milhares de guhyakas e videntes, além das hostes
de apsarãs.
Contemplando aqueles mundos de luz própria,
Phalguna, atônito, questionou Mãtali em tom
amistoso, ao que este lhe disse: "Aqueles que lá
viste, meu senhor, parecendo estrelas quando
vistos da Terra, são homens de feitos santos,
flamejantes em seus próprios lares." Em seguida,
ele viu, parado no pórtico, Airãvata, o vitorioso
elefante branco de quatro presas, altaneiro como o
pontudo Kailãsa. Seguindo viagem pela rodovia
dos siddhas, aquele excelentíssimo kuru Pãndava
reluzia tanto como reluzira outrora o grande rei
Mãndhãtar. O príncipe de olhos de lótus passou
pelos mundos dos reis, indo parar em seguida em
Amarãvati, a cidade de Indra.
Conforme salientei no Capítulo 6 (página 253), é
importante atentar, com relação a esta passagem,
para o fato de Arjuna ter entrado numa região
estelar onde não havia luz do Sol, da Lua ou do
fogo. É isto que alguém acabaria encontrando se
de fato chegasse a viajar entre as estrelas.
Conforme se declara ainda, as estrelas são bem
grandes, mas parecem pequenas por causa da
distância quando vistas da Terra, o que também
corresponde às idéias modernas.
Naquela região, Arjuna constatou serem as
estrelas não apenas mundos de luz própria, mas
também os lares de gandharvas, guhyakas e
outros, incluindo "homens de feitos santos" que
haviam sido promovidos ao céu. As próprias
estrelas são descritas, numa evidente expressão
poética, como quadrigas aéreas. São chamadas,
ainda, de pessoas, numa referência aos seres que
predominantemente vivem nelas.
Outro ponto a observar: Arjuna "seguia na rodovia
dos siddhas", que passava pelos mundos dos reis
rumo à cidade de Indra. Mais adiante, esta mesma
estrada é chamada de a "estrada das estrelas" e o
"caminho dos deuses". Ao que parece, portanto, a
quadriga de Arjuna viajava sobre alguma espécie
de estrada pelo espaço exterior.
O Visnu Purãna traz algum esclarecimento sobre a
verdadeira rota seguida por Arjuna. Segundo se
afirma ali, o Caminho dos Deuses (deva-yãna) fica
ao norte da órbita do Sol (a eclíptica), ao norte de
Nãgavithi (os naksatras Asvini, Bharani e Krttikã) e
ao sul das estrelas dos sete rsis. Asvini e Bharani
são constelações em Áries, ao norte da eclíptica, e
Krttikã é a constelação adjacente em Touro,
conhecida como as Plêiades. Asvini, Bharani e
Krttikã pertencem a um grupo de 28 constelações
chamadas naksatras em sânscrito (asterismos ou
mansões lunares em linguagem ocidental). Os sete
rsis são as estrelas da Ursa Maior. A partir desta
informação, podemos formar uma idéia genérica
do Caminho dos Deuses como sendo uma rodovia
que se estende pelas estrelas no hemisfério
celestial norte.
Outra rodovia celestial importante é o Caminho
dos Pitãs (ou pitr-yãna). Segundo o Visnu Purãna,
esta rodovia fica ao norte da estrela Agastya e ao
sul de Ajavithi (os três naksatras Mula, Pürvãsãdhã
e Uttarãsãdhã), fora do caminho Vaisvãnara. A
região dos pitãs, ou Pitrloka, consta na literatura
védica como sendo o quartel-general de Yama, o
deva que pune os seres humanos pecaminosos e
cujo congresso aéreo foi descrito acima. Esta
região, junto dos planetas infernais, é dita no
Bhãgavata Purãna como estando no lado
meridional do universo, ao sul de Bhü-mandala, o
sistema planetário terrestre. Os naksatras Mula,
Pürvãsãdhã e Uttarãsãdhã correspondem a partes
das constelações de Escorpião e Sagitário e,
segundo se pensa, Agastya é a estrela do
hemisfério meridional chamada Canopo. Logo,
pela descrição do Visnu Purãna, podemos fazer
uma idéia, em função de marcos celestiais
conhecidos, da localização de Pitrloka e da estrada
que vai até lá.
Tais rodovias celestiais cobrem longas distâncias
e, como atravessam o espaço exterior, geram o
problema da falta de uma atmosfera respirável.
Que espécie de cavalos poderia trilhar
semelhantes estradas? Podemos responder a esta
pergunta recontando uma história do Mahãbhãrata
onde o gandharva chamado Citraratha oferece
uma bênção a Arjuna. Embora Citraratha possuísse
um vimãna (veja páginas 313-14), ei-lo
interessado em cavalos:
Ó melhor dos homens, desejo agora oferecer a
cada um de vós, cinco irmãos, cem cavalos da
raça criada pelos gandharvas. As montarias dos
deuses e gandharvas transpiram uma fragrância
celestial e se movimentam à velocidade da mente.
Mesmo quando esgotam sua energia, não
diminuem a velocidade. (...)
Estes cavalos gandharvas mudam de cor segundo
lhes convém e voam à velocidade que desejam.
Bastará um desejo vosso para eles aparecerem
perante vós, prontos a nos servir. Na verdade,
estes cavalos sempre hão de honrar vossa
vontade.
Estes parecem ser cavalos místicos cuja atuação
obedece às leis que regulamentam categorias
sutis da energia material. A rodovia pela qual eles
viajam é, presume-se, de natureza semelhante, e
eles conseguem cobrir distâncias imensas em
pouco tempo pelo fato de obedecerem às leis
reguladoras da energia sutil, e não às leis
reguladoras da matéria grosseira.
Para entendermos o fato de ser possível conduzir
um grosseiro corpo humano ao longo de
semelhante estrada, basta levarmos em conta os
siddbis místicos chamados prãpti e mano-java, já
discutidos no Capítulo 6. Em termos básicos, as
leis sutis incluem e suplantam as leis grosseiras. A
matéria grosseira, que obedece às leis físicas
conhecidas, também obedece às leis sutis. Porém,
é possível aplicar as mesmas leis sutis para fazer
com que a matéria grosseira atue de maneira a
violar as leis comuns da física.
Consideremos agora a quadriga de Arjuna. Eis
como é descrita uma quadriga que ele usava:
A quadriga tinha todos os equipamentos
necessários. Nem deuses nem demônios tinham
como conquistá-la, e ela irradiava luz e
reverberava com um profundo estrondo. Sua
beleza cativava as mentes de quantos a viam.
Visavakarmã, o senhor do design e da construção,
a criara pelo poder de suas austeridades, e não
era possível discernir sua forma com precisão,
tanto quanto não se pode discernir a forma do sol.
Minha tentativa de conclusão, a partir deste
material, é a seguinte: a essência da tecnologia
dos vimãnas e das quadrigas voadoras puxadas a
cavalo é a mesma. Ela depende de poderes
místicos e aspectos supradimensionais da energia
material, desconhecidos da ciência moderna, mas
comuns para os devas. Na sua essência, os
vimãnas são construções arquitetônicas capazes
de voar, tanto em três dimensões quanto em
dimensões superiores, em virtude de poderes que
nos parecem místicos. Os cavalos gandharvas
funcionam no mesmo nível místico, e o mesmo se
aplica às quadrigas por eles puxadas.
Se isto é verdade, seria possível perguntar o
motivo de os devas e outros seres afins se darem
ao trabalho de usar veículos puxados por cavalo
quando têm à sua disposição vimãnas que se
locomovem por sua própria energia. A resposta, a
julgar pelo Mabãbhãrata como um todo, é que
estes seres usam cavalos porque gostam deles.
Eles fazem uso de arquitetura voadora segundo
sua conveniência, mas também têm apreço por
atividades eqüestres. De modo semelhante,
apesar de terem armas poderosas, como a
brahmãstra, baseadas em energia radiante,
também dispõem de regras elaboradas para lutas
corporais com maças. Os devas e os upadevas dão
a impressão geral de preferirem a vida e a bravura
pessoal às máquinas.
Existiriam paralelos entre as rodovias celestiais
dos devas e as informações reveladas em relatos
sobre ovnis? Há um possível paralelo em histórias
de pessoas que caminham pelo espaço ao longo
de feixes luminosos. Um exemplo disto está no
relato de Sara Shaw, raptada de uma choupana
em Tujunga Canyon, perto de Los Angeles, em
março de 1953. Após ser hipnotizada pelo Dr.
William McCall, Sara contou como foi levada a
bordo de um óvni:
McCall: Você está perto da nave?
Sara: Não, estou começando a flutuar. Estou
começando a flutuar na direção dela.
McCall: Que quer dizer com começar a flutuar na
direção dela?
Sara: Bem... eles estão andando comigo, mas
meus pés não tocam o solo.
McCall: Eles estavam em terra quando você saiu
da casa. Que houve para eles não estarem mais
tocando o solo?
Sara: Bem, há um feixe luminoso. É quase como se
eu...
McCall: Você pode ver o feixe luminoso agora?
Sara: Eu estou sobre o feixe luminoso. Estou
parada sobre ele e ele está disposto obliquamente.
É como uma esca... não! Tem quase o mesmo
ângulo que uma escada rolante teria, só que sem
quinas ou degraus. E apenas um feixe muito liso e
sólido, e a gente fica como que parada sobre ele.
(...)
McCall: Que está acontecendo com seus amigos?
Sara: Estão todos em volta de mim.
McCall: Também estão sobre o feixe luminoso?
Sara: Mas é como se eles... agora estou andando.
Todos nós estamos andando, mas, além disso, o
feixe vai nos transportando. O feixe se mexe.
Afora isso, é como se estivéssemos andando sobre
ele também. Mesmo assim, eu não sinto nada
debaixo de mim. Por exemplo: não é algo que
pareça sólido como se fosse terra firme.
Se é que se pode levar esta história ao pé da letra,
o feixe luminoso não apenas parece ter anulado o
peso de Sara como também capacitou-a a se
equilibrar em posição ereta e caminhar
normalmente. Os seres no caso Masse (veja
páginas 268-69) parecem ter dado uma
caminhada semelhante sobre um feixe luminoso,
pois, segundo consta, "deslizavam ao longo de
faixas de luz".
Um segundo exemplo envolve alguém nadando
num feixe luminoso. Este fenômeno foi relatado
por William Curtis, que experimentou ser raptado e
levado para dentro de um óvni em setembro de
1974 e recordou o acontecido em dezembro de
1987. Ele fora raptado em seu quarto. Ao ser
devolvido ao mesmo, recordou-se ele, seus
captores lhe pediram para pular de uma abertura
no fundo do óvni, através da qual ele pôde ver seu
quarto lá embaixo. Eis como ele descreve esta
experiência:
Quando caí, tive a sensação de... você já andou de
montanha-russa? Foi a sensação que tive. Foi de
tirar o fôlego. Mas, a uns sessenta centímetros do
telhado, fui amortecido. Pude até ver os contornos
das telhas. E então algo me pegou, me ergueu e
me rodopiou para me despejar bem através do
telhado! Eles me colocaram de volta na cama,
agarraram meus braços e me levantaram. (...)
Há uma luz branca entrando pelo telhado e um
serzinho vai subindo por esta mesma luz. Ouço um
zunido, como de um gerador vindo de cima.
Enquanto sobe, aquele serzinho esperneia bem
rápido. (...) Ele entra num óvni cinzento. Parecem
ter pressionado um botão, querendo que eu veja
aquilo tudo. Há um escapamento debaixo do
objeto que eu vejo — a "MAV" [máquina alienígena
voadora]. A luz sobe, o teto volta ao lugar e
pronto.
No primeiro destes dois relatos, há um feixe
luminoso disposto obliquamente sobre o qual uma
pessoa pode andar. No segundo, há um feixe
vertical e um ser escalando feixe acima num
movimento parecido com o da natação. Em ambas
as histórias, os eventos, conforme são descritos,
parecem de todo bizarros do ponto de vista dos
princípios físicos convencionais. Isto se aplica em
especial à segunda história, na qual o feixe
luminoso parece ser usado para transferir o corpo
do homem através do telhado de sua casa. No
caso de Sara Shaw, porém, os seres intrusos
entraram em sua choupana passando através das
vidraças de uma janela (veja página 277), o que é
um fenômeno semelhante.
O paralelo entre estes exemplos e as estradas
celestiais védicas é que o feixe parece definir um
caminho através do espaço, ao longo do qual uma
pessoa pode se movimentar usando as pernas. Os
seres que usam estes caminhos têm poderes que
os capacitam a atravessar paredes, podendo,
também, transportar corpos humanos através
delas. A estrada celestial védica também é um
caminho através do espaço por onde se pode
andar. Os cavalos e quadrigas que a trilham têm
propriedades místicas — por exemplo, os cavalos
podem aparecer e desaparecer à vontade. Um ser
humano como Arjuna também pode ser conduzido
ao longo de semelhante estrada. Um possível
ponto de divergência na analogia da estrada
celestial com o caminho de feixe luminoso está no
fato de a estrada celestial ser de escala cósmica e
parecer ser relativamente permanente; o feixe
luminoso, por sua vez, é pequeno, sendo armado
em caráter temporário conforme a necessidade.
Muito curiosamente, os caminhos celestiais
mencionados na literatura védica são feixes
luminosos de natureza peculiar. Assim sendo, o
Bhãgavata Purãna faz a seguinte descrição das
viagens de um místico ao longo do Caminho dos
Deuses:
Ó rei, quando semelhante místico passa por cima
da Via Láctea ao longo do luminoso Susumna para
chegar a Brahmaloka, o mais elevado dos
planetas, primeiro ele vai a Vaisvanarã, o planeta
da deidade do fogo, onde se purifica por inteiro de
todas as contaminações. Em seguida, ele sobe
mais ainda, até o círculo de Sisumãra, para ali se
entender com o Senhor Hari, a Pessoa Divina.
O caminho trilhado pelo místico é o caminho deva-yãna, o luminoso Susumnã mencionado nesta
passagem. Segundo o dicionário sânscrito,
Susumnã é o nome de um dos principais raios do
Sol. Logo, Susumnã deve ser alguma espécie de
feixe luminoso. Conforme fica evidente por sua
posição no espaço, contudo, ele não é um raio
solar comum.
Vimanas de Vaikuntha
Em seu comentário ao Bhãgavata Purãna, A. C.
Bhaktivedanta Swami Prabhupãda descreve três
processos para locomoção no espaço exterior. O
primeiro, chamado kA-pota-vãyu, envolve naves
espaciais mecânicas. Neste caso, ka significa éter,
ou espaço, e pota, nave. A expressão ka-pota-vãyu
também pode ser usada num trocadilho, uma vez
que kapota também quer dizer pombo.
O segundo processo chama-se ãkãsa-patana.
"Assim como a mente é capaz de voar para
qualquer lugar desejado sem precisar de
dispositivos mecânicos, da mesma forma, o avião
ãkãsa-patana pode voar à velocidade da mente."
Muitos dos vimãnas por nós analisados parecem
fazer uso do processo ãkãsa-patana, e talvez
muitos óvnis também funcionem pela ação da
mente. Talvez outros vimãnas e óvnis funcionem
mediante outros processos mecânicos que
manipulam o éter ou, em termos modernos, a
textura do espaço-tempo.
Segundo o Bhãgavata Purãna, o éter é a textura
do espaço, e toda a matéria grosseira é gerada por
transformações do éter. Esta idéia faz lembrar a
teoria de geometrodinâmica de john Wheeler,
segundo a qual todas as partículas materiais são
meras torções ou deformações de espaço-tempo.
Tanto o Bhãgavata Purãna quanto a teoria de
Wheeler subentendem estar a matéria
diretamente vinculada ao éter. Logo, deve ser
possível manipular o éter pela manipulação da
matéria grosseira. A partir daí, podemos ver que
seria possível construir uma máquina física capaz
de manipular o espaço-tempo e propiciar
incomuns modalidades de viagem.
Conforme afirma ainda o Bhãgavata Purãna, o éter
é o campo de ação da mente sutil. Isto sugere ser
possível manipular o éter pela ação da mente,
propiciando-se, deste modo, o sistema ãkãsa-patana de viagem. Observe-se que ãkãsa significa
éter e patana, voando.
Apesar de fazer uso da energia da mente sutil,
ainda o sistema ãkãsa-patana é material. Além
dele, existe o processo Vaikuntha, que é
inteiramente espiritual. No sistema védico,
Vaikuntha é o mundo espiritual. O mundo material
se caracteriza por uma dualidade entre a matéria
inanimada e o espírito consciente, ao passo que,
no mundo de Vaikuntha, tudo é consciente e auto-refulgente. Os objetos em Vaikuntha são feitos de
uma substância consciente chamada cintãmani,
cuja tradução poderia ser gema da consciência.
A literatura védica contém muitas referências a
vimãnas puramente espirituais originários de
Vaikuntha, sendo possível encontrar referência aos
mesmos em qualquer relato sobre vimãnas
védicos. Apesar de serem muitas vezes
comparados a cisnes, ou de se dizer que a forma
deles lembra a de um cisne, os vimãnas de
Vaikuntha não são cisnes. São estruturas voadoras
feitas de cintãmani e viajam por força da
consciência pura.
Um vimãna de Vaikuntha consta na história em
que um rei chamado Dhruva se liberta do cativeiro
material. Eis como se descreve o aparecimento
deste veículo perante Dhruva à hora de sua morte:
Tão logo se manifestaram os sintomas de sua
libertação, ele viu um belíssimo avião [vimãna]
descer do céu, como se a brilhante Lua cheia
estivesse baixando, a iluminar todas as dez
direções.
Dhruva Mahãrãja viu, no avião, dois belíssimos
companheiros do Senhor Visnu. Eles tinham quatro
mãos e um lustro enegrecido no corpo, eram
muito joviais e seus olhos eram como flores de
lótus avermelhadas. Portavam maças nas mãos e
vestiam trajes muito atraentes, com elmos,
estando decorados com colares, braceletes e
brincos.
Antes de embarcar no vimãna, o rei adquiriu seu
corpo espiritual, ou siddha-deha. Trata-se de uma
forma corpórea imperecível, feita de energia
espiritual e adequada para se viver na atmosfera
de Vaikuntha. As viagens de Dhruva a bordo do
vimãna são descritas como segue:
Enquanto atravessava o espaço, Dhruva Mahãrãja
viu, pouco a pouco, todos os planetas do sistema
solar e, no caminho, viu todos os semideuses em
seus aviões lançando chuvas de flores para ele.
Assim, Dhruva Mahãrãja ultrapassou os sete
sistemas planetários dos grandes sábios
conhecidos como saptarsi. Além daquela região,
ele atingiu a situação transcendental de vida
permanente no planeta onde vive o Senhor Visnu.
Em relatos védicos, menciona-se amiúde que os
devas gostam de lançar chuvas de flores sobre
grandes personalidades, em especial na ocasião
de grandes vitórias ou outros eventos gloriosos.
Isto envolve a movimentação de pétalas mediante
a mesma espécie de transporte místico típica dos
devas. Um possível paralelo com isto é o
misterioso aparecimento de chuvas de pétalas
perto de Fátima, Portugal, na ocasião das visitas
de um ser refulgente tido por muitos como sendo a
Virgem Maria. Isto é discutido no Capítulo 8
(páginas 360-74).
8
Observações modernas e antigas
tradições
Embora o principal tema deste livro sejam os
paralelos entre o fenômeno ufológico e as idéias
védicas, também existem estreitas ligações entre
este fenômeno e idéias encontradas em outros
sistemas tradicionais de pensamento. Estas
ligações foram estudadas a fundo, no caso do
antigo folclore europeu, por Jacques Vallee em
seus livros Passport to Magonia e Dimensions. Não
surpreende o fato de haver também paralelos
entre estas tradições e a tradição védica. Neste
capítulo, explorarei o triângulo de inter-relações
que liga os relatos sobre óvnis, a tradição védica e
outras tradições antigas.
Embora sejam extensos os dados empíricos sobre
óvnis e fenômenos afins, eles tendem a ser
incompatíveis com idéias teóricas modernas,
sendo, por isso, difíceis de interpretar. Em
contraste, a antiga visão de mundo védica é um
sistema coerente e significativo de filosofia e
cosmologia, mas não inclui dados de observação
atualizados. Minha tese é que estas duas coisas
tendem a se complementar: os fenômenos
ufológicos tendem a corroborar a visão de mundo
védica, e esta visão de mundo, por sua vez, pode
nos ajudar a compreender os fenômenos
ufológicos.
Apesar de Vallee fazer uma observação
semelhante sobre os fenômenos ufológicos e o
antigo folclore europeu, sua apresentação peca
pelo fato de o folclore europeu em geral carecer
de exemplos bem definidos de objetos voadores
parecidos com óvnis. Seus paralelos enfocam,
sobretudo, o comportamento e as faculdades dos
seres humanóides descritos no folclore e nos
relatos sobre óvnis. Portanto, seu caso é reforçado
pela observação de que há fortes paralelos entre a
visão de mundo védica e a antiga visão de mundo
da Europa. Já que a literatura védica contém
muitas descrições de naves aéreas, estes paralelos
compensam a falta de consistência na comparação
óvni/folclore europeu.
Convém salientar que semelhanças entre histórias
em duas tradições antigas não têm o mesmo
significado que semelhanças entre relatos de
eventos distintos feitos por duas testemunhas
contemporâneas. No caso das duas testemunhas
contemporâneas, é possível argumentar que elas
não se comunicaram entre si. Logo, segundo se
pode concluir, as semelhanças entre seus relatos
indicam o fato de ambas terem tido experiências
reais semelhantes.
Não se pode dizer o mesmo acerca de
semelhanças entre tradições antigas. O próprio
fato de as tradições serem antigas significa que
elas já tiveram bastante oportunidade de se
influenciarem mutuamente por intermédio de
meios comuns de comunicação humana. De fato,
muitas são as razões para suspeitarmos que as
antigas culturas da Europa e da Índia tiveram laços
fortíssimos e que houve bastante troca de
comunicação entre elas. Com base nesta
suposição, podem-se atribuir muitas semelhanças
entre a literatura védica e o folclore europeu. Ao
mesmo tempo, é bem possível que algumas das
visões de realidade específicas, que durante
séculos sobreviveram na Europa e na Índia, devam
pelo menos parte de seu poder de permanência a
experiências contínuas que tendem a corroborar
aquelas visões. Segundo esta idéia, os contatos
com óvnis seriam meros exemplos
contemporâneos de semelhantes experiências.
Eis um dos exemplos de Vallee, no qual uma visão
de óvni mostra uma ligação com antigas tradições
européias. Aconteceu no verão de 1968, por volta
das quatro da manhã. Uma mulher britânica dirigia
perto de Stratford quando ela e seu companheiro
viram um disco brilhante no céu. Pararam para
observá-lo voando e rodopiando, e outro carro
também parou para observar. Após o disco
desaparecer por trás das árvores, ela prosseguiu
dirigindo e, durante a viagem, experimentou
impressionantes insights sobre a natureza da
realidade que, segundo disse ela, transformaram
sua personalidade. Após o jantar daquela noite, ela
encontrou uma estranha aparição, a quem ela
passou a chamar de "Homem-escorpião":
A luz do quarto brilhou formando um arco de cerca
de três metros em torno da janela. Tão logo me
aproximei da janela, deparei com um ser estranho.
A percepção que eu tinha dele se intensificou pelo
estado de pânico paralisante que ele provocava
em mim. Sem sombra de dúvida, considerei-o um
demônio ou diabo em virtude de minha orientação
ocidentalizada... Tinha pernas como as de um cão
ou bode. Estava revestido em peliça macia,
felpuda, negra e cintilante sob a luz. Tinha traços
humanóides inconfundíveis e, segundo meu
julgamento, era malévolo. Agachava-se e olhava
para mim sem piscar os olhos claros e verdes cor
de uva que relanceavam para cima e não tinham
pupilas. Os olhos brilhavam e eram de longe o
aspecto mais amedrontador da figura. Agora
entendo que tentava se comunicar comigo, mas
meu pânico interferia em qualquer mensagem que
eu pudesse estar recebendo. Se ficasse
completamente em pé, teria cerca de um metro ou
um metro e meio de altura. Tinha orelhas
pontudas e um focinho comprido. Dava a
impressão de estar definhando: suas mãos e
dedos eram finos como gravetos.
Aqui as pernas de bode e a peliça macia parecem
associar o ser à demonologia européia tradicional,
enquanto os olhos e a aparência emagrecida são
típicos de entidades relatadas em contatos com
óvnis. Acaso os demônios europeus tradicionais
são reais de certo modo? Teriam eles alguma
relação com as entidades encontradas a bordo de
óvnis? Vallee analisou a fundo as semelhanças
entre visitas de óvnis e a tradição folclórica pagã e
cristã relativa a humanóides com faculdades
paranormais. Entre estas, incluem-se os súcubos e
íncubos mencionados em escritos católicos
romanos da Idade Média, além das fadas e elfos
da antiga tradição celta e germânica.
As fadas
Em geral, os humanóides celtas são chamados
fadas em linguagem atual. Apesar de este termo
referir-se, é claro, a diversos tipos diferentes de
ser, seria difícil obter descrições claras de todos
eles. Alguns têm, segundo dizem, belas formas
humanas, ao passo que outros são feios. Alguns
são ínfimos e, outros, tão ou mais altos que os
humanos modernos. A palavra irlandesa para
fadas é Sidhe (pronuncia-se xi), sendo as mesmas
também conhecidas como as Boazinhas ou as
Pequeninas.
As Tuatha de Danann são um tipo importante de
Sidhe na Irlanda. A expressão Tuatha de Danann
significa os descendentes da deusa Dana. Esta
Dana, conhecida como Brigit na Idade Média
irlandesa, parece ter sido assimilada pelo
cristianismo como Santa Brígida. Segundo reza a
tradição, as Tuatha de Danann eram donas
absolutas do país quando os filhos de Mil, os
ancestrais do povo irlandês, chegaram pela
primeira vez à Irlanda. Tão logo os humanos
invadiram a ilha, as Tuatha de Danann ali
permaneceram, mas ocultas por meio de seus
poderes de invisibilidade. Contudo, continuaram a
se relacionar com a sociedade humana,
comunicando-se com videntes e tornando-se
visíveis para humanos escolhidos.
Segundo observação feita pelo etnógrafo Walter
Evans-Wentz, por vezes pensava-se que as Sidhe
nasciam como reis humanos entre os celtas. De
fato, ele alude a provas literárias demonstrando se
acreditar que o famoso rei Artur foi uma dessas
encarnações, além de salientar que muitas das
pessoas ligadas a ele, nas lendas arturianas, ou
foram criadas pelas fadas ou eram membros da
raça delas. A espada Excalibur de Artur, por
exemplo, segundo consta, teria sido feita em
Avalon, o outro mundo das Sidhe. Ele era
protegido por uma fada chamada a Senhora do
Lago, e sua irmã, a Fata Morgana.
Isto vem demonstrar que, conforme se pensava na
antiga tradição celta, os seres humanos viviam em
amplo e íntimo contato com raças sobre-humanas
que viviam na Terra ou em mundos invisíveis
diretamente vinculados a ela. É possível dizer o
mesmo da antiga visão de mundo védica. Aliás,
segundo o Bbãgavata Purãna, existe um grupo de
seres chamados danavas, ou os descendentes da
deusa Danu. Os danavas incluem os nivãta-kavacas, panis, kãleyas e hiranya-puravãsis, aos
quais me referi algumas vezes em capítulos
anteriores. Segundo o lingüista Roger Wescott,
existe um elo cultural entre a Danu védica e a
deusa irlandesa Dana.
Conforme demonstrou Vallee, há certos paralelos
entre os relatos sobre óvnis e as histórias das
Sidhe na tradição celta. Por exemplo: é sabido que
as entidades ufológicas aparecem e desaparecem
de forma misteriosa diante dos olhos das pessoas,
e o mesmo se dá com as fadas. Neste contexto,
Evans-Wentz ouviu o seguinte de um certo John
MacNeil, de Barra, uma ilha nas Hébridas
Ocidentais da Escócia:
Os antigos diziam não saber se as fadas eram de
carne e osso ou se eram espíritos. Viam-nas como
humanos de estatura bem menor que a da nossa
própria raça. Ouvi meu pai dizer que as fadas
tinham o hábito de vir falar com os nativos para
depois desaparecerem diante da vista deles. (...)
As fadas, acreditava-se, eram espíritos capazes de
se fazer visíveis ou não, segundo a vontade delas.
E, quando levavam alguém, levavam seu corpo e
sua alma.
As fadas pareciam ter uma evidente forma física
porque conseguiam transportar pessoas no plano
físico, mas mesmo assim pareciam etéreas por
poderem aparecer e desaparecer à vontade. Esta
aparente contradição vem à tona repetidas vezes
com relação a casos de rapto por óvnis. Também
vem à tona em relatos védicos, assunto cujos
detalhes analisarei no Capítulo 10.
Na literatura védica, há muitos relatos sobre
humanóides capazes de aparecer e desaparecer, e
que às vezes levam as pessoas embora para outro
mundo. Segundo consta, eles fazem estas coisas
por meio de faculdades, ou siddhis, específicas
envolvendo interações entre a mente, o éter e os
elementos físicos grosseiros. Conforme
demonstram as histórias de Duryodhana e de
Arjuna e Ulüpi no Capítulo 6, os humanóides
védicos também raptam pessoas por meios que
encontram paralelos em alguns casos de óvnis.
Raptos e cruzamentos
O rapto é um tema usual em contos de fadas
tradicionais (com certeza, bastante distintos das
versões expurgadas destinadas às crianças de
hoje). Nestas histórias, é comum homens e
mulheres serem raptados por fadas e duendes
movidos pela lascívia. Também há casos de rapto
de crianças e, segundo diz a lenda, uma fada
criança pode vir a ser trocada por uma criança
humana. Assim como verificamos em casos de
óvnis, tanto o desejo sexual quanto considerações
de ordem genética parecem ser motivo para estes
raptos. Em apoio a esta suposição, Vallee cita
Edwin Hartland, um erudito em tradições de fadas,
quanto aos motivos apresentados por pessoas de
países da Europa setentrional para este rapto de
crianças:
O motivo em geral atribuído a raptos feitos por
fadas em histórias do norte é o da preservação e
aprimoramento da sua raça, quer se apoderando
de crianças humanas para serem criadas entre os
duendes e se unirem a eles, quer obtendo o leite e
o aconchego de mães humanas para a sua prole
de fadas.
Esta interpretação foi analisada por mitólogos do
século XIX com base em seus estudos de folclore.
Ela é, por certo, muito semelhante à explicação
dada por Budd Hopkins, Raymond Fowler e outros
para raptos por óvnis durante os quais, segundo
consta, mulheres são fecundadas — e seus fetos
prematuramente removidos — por entidades
alienígenas.
O comentário de Hartland sobre o aconchego de
mães humanas é especialmente enigmático, visto
ser questionável o motivo pelo qual duendes
precisariam do carinho de mães humanas. No
entanto, algo parecido vem à tona em estudos
sobre raptos por óvnis. David Jacobs, professor
adjunto de história da Universidade de Temple, na
Filadélfia, escreveu um livro sobre raptos por óvnis
no qual descreve os detalhes de "cenas de
apresentação". Nestas, a pedido dos alienígenas,
uma humana raptada entra em contato físico com
crianças alienígenas ou meio-alienígenas:
As raptadas também são instadas a tocar, segurar
ou abraçar estas crianças. (...) Parece ser
absolutamente essencial que a criança tenha
semelhante contato humano. Embora os
alienígenas prefiram o contato amoroso e
acalentador dos humanos, qualquer contato físico
parece ser suficiente.
A literatura védica traz muitos relatos sobre
relações sexuais entre humanos e membros de
raças não-humanas que dão origem a prole. Um
exemplo disto é a união ocorrida entre Bhima, um
dos heróis humanos do Mahãbhãrata, e Hidimbã,
uma mulher rãksasa. Hidimbã abordara Bhima ao
sentir atração sexual por ele e, a fim de fazer amor
com ele, assumiu a forma ilusória de uma bela
humana. Resultou daí uma criança, a qual é
descrita como segue:
E, enquanto amava Bhima em toda parte, ágil
como o pensamento, a rãksasi deu à luz um filho
do poderoso Bhimasena. Era horroroso, poderoso,
vesgo, tinha uma bocarra, orelhas pontiagudas,
corpo asqueroso, lábios escarlates, dentes longos
e afiados, tendo nascido um grande arqueiro de
bravura e coragem ímpares, braços fortes, grande
velocidade, corpo atlético, incomparável feitiçaria,
e domador de seus inimigos. Inumano, embora
nascido de um humano, de terrível velocidade e
força imensa, ele suplantou os pisãcas e outros
demônios tanto quanto suplantou os seres
humanos.
Neste caso, Bhima e Hidimbã permaneceram
juntos quando a criança era pequena, mas logo ela
partiu e levou o menino consigo. Quando ele era
recém-nascido, Bhima comentou: "Ele é brilhante
como um cântaro!" Por isso, chamaram-no
Ghatotkaca, ou seja, Brilhante-como-um-cântaro.
Bhima e seus irmãos, os pãndavas, gostavam
muito do menino, muito embora ele se parecesse
muito com a mãe e tivesse uma fisionomia
distintamente não-humana. Sua aparência é típica
de rãksasas, sendo bem diferente tanto dos seres
humanos quanto dos humanóides ufológicos em
geral relatados hoje em dia.
Bhima e Hidimbã não realizaram nenhuma espécie
de manipulação genética mas; conforme salienta o
Mabãbhãrata, Ghatotkaca fora criado por Indra, o
soberano dos devas, para destruir um certo
guerreiro chamado Karna. Portanto, Indra teria
praticado intervenção de ordem genética (ou de
outra ordem) na ocasião da concepção de
Ghatotkaca.
O motivo para Indra fazer isto era proteger seu
próprio filho, Arjuna: ele sabia que Arjuna acabaria
tendo de lutar com Karna. Arjuna era um dos
irmãos pãndavas e, como filho de Indra, era a
progénie de um pai deva e uma mãe humana
chamada Kunti. Todos os cinco Pãndavas eram
filhos de diversos devas com duas mães humanas,
Kunti e Mãdri, que eram esposas de um rei
humano chamado Pãndu.
Segundo indicam os relatos védicos, as diversas
raças humanóides do universo geralmente são
capazes de se cruzar e produzir progênie fértil.
Todas elas devem estar, portanto, geneticamente
relacionadas entre si, conforme corrobora a
literatura védica. Todas as raças humanóides
descendem de formas masculinas e femininas
geradas por Brahmã, a criatura original. Os devas
estão entre os descendentes destas formas,
enquanto os seres humanos terrestres descendem
de devas aliados a uma série de ramos de
genealogia diferentes.
Genética e origens humanas
Contudo, é preciso ampliar o sentido da palavra
genética. Todos os organismos vivos conhecidos
pela ciência moderna contêm genes feitos de DNA
que especificam os traços hereditários destes
organismos. Os corpos de Brahmã e dos devas são
feitos de formas sutis de energia, e por isso não
contêm DNA. No entanto, portam informação
genética sob a forma de bijas, ou sementes,
também feitas de energia sutil. Para humanos
poderem descender de devas, é necessária uma
transformação sistemática que converta energia
sutil em energia grosseira. Esta mesma
transformação deve converter as bijas sutis em
genes grosseiros feitos de DNA.
Isto em parte confirma e em parte contradiz a
teoria da intervenção genética para a origem
humana, por mim analisada no Capítulo 5 (páginas
232-37). Segundo a versão védica, os humanos
terrestres realmente descenderam de humanóides
superiores oriundos de outros planetas, só que isto
não se deu por meio da engenharia genética de
cruzamentos entre os seres superiores e os
primitivos homens-macaco habitantes da Terra.
Pelo contrário, houve acasalamento entre devas
que geraram progênie humana por intermédio de
transformações genéticas pré-planejadas.
Em geral, os descendentes de Brahmã, em nível
de devas e seres superiores, eram capazes de
produzir progênie de tipo corpóreo diferente do
seu. Embora eu não tenha encontrado descrições
específicas da maneira como isto era feito,
suponho que fosse algo pré-programado por
Brahmã. Não há indícios de que os devas o
fizessem por meio de pesquisa científica
independente. Pelo contrário, eles parecem ter
apenas feito uso dos poderes de que Brahmã os
investiu numa etapa anterior da criação.
A concepção védica da origem das espécies vivas
não é darwiniana. Conforme salientei no Capítulo 4
(páginas 161-71), se são reais os humanóides do
tipo descrito com relação aos óvnis, então sua
existência impõe um desafio à teoria darwiniana
da evolução. Segundo o atual entendimento da
história natural, tais seres não poderiam ter
evoluído na Terra. Também é bastante improvável
que seres tão parecidos conosco pudessem ter
tido evolução independente em outro planeta.
A teoria da intervenção genética apresentada por
Sitchin propõe que os humanos surgiram de um
cruzamento planejado por engenharia genética
entre extraterrestres e homens-macaco cuja
evolução se processou na Terra. Esta teoria
pressupõe os próprios extraterrestres evoluindo
em outro planeta. Porém, é difícil explicar por que
tais seres deveriam ter tantas semelhanças
genéticas com os homens-macaco a ponto de se
justificar o cruzamento entre as duas raças.
A fim de ilustrar esta questão, imaginemos alguém
querendo produzir um novo programa de
computador pela combinação de programas de
linguagem de máquina, oriundos de dois
computadores diferentes e escritos em separado.
Mesmo com os dois programas fazendo coisas
semelhantes, é provável que as fizessem usando
sistemas de código interno de todo diferentes, e
por isso seriam incompatíveis entre si. Numa
situação dessas, até o mais avançado perito em
computadores acharia mais fácil criar o novo
programa a partir do zero do que fazer com que os
dois programas incompatíveis funcionassem
juntos. (Ou talvez ele preferisse produzir o novo
programa modificando um dos programas
existentes.)
O relato védico evita o problema da
incompatibilidade genética ao iniciar com os devas
um processo de transformação que altera a
própria forma dévica. A forma humana resultante,
apesar de ser diferente da forma dévica, parece
ser próxima dela o suficiente para que seja
possível o cruzamento entre humanos e devas.
Cabe aqui observar que a necessidade de
converter informação genética de uma forma sutil
para uma forma grosseira não constitui uma
barreira intransponível. Como informação é algo
abstrato, é possível armazená-la usando diferentes
tipos de energia. Converter informação do sutil
para o grosseiro é comparável a converter os
sinais elétricos de um texto computadorizado para
caracteres impressos em papel.
Apesar de a transformação de deva para humano
parecer ter sido pré-programada por Brahmã,
existem descrições védicas da criação de raças
humanas por meio de manipulação genética. Em
certo relato, um rei chamado Vena revelou ser um
tirano cruel, sendo, por isso, morto por grandes
sábios. Sua mãe preservou-lhe o corpo "pela
aplicação de determinados ingredientes e
cantando mantras". Mais tarde, os sábios
ponderaram que as qualidades hereditárias do rei
eram valiosas e, com o intuito de preservá-las,
agiram da seguinte forma:
Após tomarem sua decisão, os santos e sábios
bateram as coxas do cadáver do rei Vena com
bastante força e observando um método
específico. Como resultado deste processo, nasceu
uma pessoa nanica do corpo do rei Vena.
Esta pessoa nascida das coxas do rei Vena, a
quem se deu o nome, tinha a tez negra como a
plumagem de um corvo. Todos os membros de seu
corpo eram bem curtos, seus braços e pernas
eram curtos e o maxilar era grande. Tinha o nariz
chato, os olhos avermelhados e cabelos cor de
cobre.
Devo salientar que não se deve usar esta história
para sustentar quaisquer teorias de superioridade
ou inferioridade raciais. Segundo o ponto de vista
védico, todas as pessoas, como seres espirituais,
são iguais, sendo um equívoco tentar julgá-las com
base no corpo material, que não passa de
cobertura externa da alma.
Os sábios parecem ter produzido Bãhuka
realizando uma operação bastante parecida com o
que hoje se conhece como geração de clones.
Segundo o atual entendimento científico, o DNA
quimicamente intacto de qualquer célula no corpo
de uma pessoa contém toda a informação
genética daquele corpo em particular. Em teoria,
isto significaria ser possível produzir um novo
corpo vivo usando-se o tecido de um cadáver,
contanto que o tecido não tivesse começado a
degenerar.
Neste caso, também parece ter se processado
uma transformação do material genético, motivo
pelo qual foi produzida uma pessoa nanica cujas
características eram bem diferentes daquelas do
rei Vena. Mais tarde, os sábios, ao baterem os
braços do corpo de Vena, produziram um belo
casal, Prthu e Arci, diferentes em forma e
qualidade tanto de Vena quanto do anão.
Súcubos e íncubos
A literatura ufológica, o folclore ocidental e a
literatura védica trazem relatos sobre relações
sexuais entre seres humanos e humanóides cuja
motivação parece ser a lascívia, em geral não
resultando em progênie. Nesta seção, darei alguns
exemplos extraídos destas três fontes de
informação.
Whitley Strieber escreveu acerca de seu encontro
com um estranho ser feminino com olhos grandes
e membros definhados. Segundo sua descrição,
ela parecia o cruzamento entre um humano e um
louva-a-deus. Strieber disse ter se encontrado
mais de uma vez com este ser, com quem sentia
ter alguma espécie de relação erótica. Ele a
descreveu da seguinte maneira para o jornalista
Ed Conroy:
Ela é um ser humano, como todos da espécie dela.
Só que é do outro nível de ser humano. Aquilo que
chamamos de "inconsciente" é pleno de luz entre
a raça dela. Eu gostaria de levá-la comigo, para
que fosse minha. (...) Ela pode ser inocente como
um bebê e sensual como uma raposa. (...) Como a
ira alheia parece feri-la fisicamente, é preciso
mergulhar nas profundezas do eu para se
encontrar um nível de serenidade profundo o
suficiente para deixá-la calma. E quando a paixão
a domina, ela surge no meio da noite. (...) Temo
dizer que meu súcubo é bem real.
O ser que visitou Whitley Strieber é bem diferente
das fadas celtas. Tipicamente, as fadas são
descritas como tendo aparência muito mais
humana e, segundo dizem, muitas delas são
belíssimas pelos nossos padrões. Contudo, ela
parece de fato ter um precedente nos
ensinamentos da Igreja Católica relativo a súcubos
e íncubos. Consideremos a seguinte declaração de
Santo Agostinho, escrita por volta de 420 d.C.:
Há, também, um boato muito genérico, que muitos
têm constatado por experiência própria, ou que
pessoas confiáveis confirmam por ficarem sabendo
da experiência alheia, de que silvanos e faunos,
comumente chamados "íncubos", teriam feito
freqüentes ataques perversos às mulheres,
satisfazendo sua lascívia com elas. O fato de
determinados demônios, chamados duses pelos
gauleses, estarem volta e meia tentando e
praticando esta impureza é uma afirmação tão
freqüente que seria insolência negá-lo.
Consideremos o supramencionado "Homem-escorpião", visto por uma mulher britânica a bordo
de um óvni. Este ser parecia um fauno tradicional
em virtude do fato de ter pernas caprinas ou
caninas. Seus aterrorizantes olhos inclinados e
aparência emagrecida também fazem lembrar a
visitante de Strieber.
Um súcubo de forma mais humana aparece numa
história da tradição celta recente relatada por
Evans-Wentz. Trata-se de uma história contada por
Catherine MacInnis, a avó de um informante de
Barra. Ela costumava falar de um homem
chamado Laughlin, um conhecido dela que era
apaixonado por uma fada. Esta fada visitava
Laughlin toda noite; por fim, ela deixou-o tão
esgotado que ele passou a temê-la. Para escapar
dela, emigrou para os Estados Unidos, mas parece
que ela o assediava lá também.
Ainda hoje são ouvidas histórias deste tipo no sul
da Índia. Segundo me contou um homem de
família brâmane de Tamil Nadu, na juventude ele
se dedicara ao ocultismo tântrico. Na ocasião, ele
teve um encontro amedrontador com um ser
feminino nu e não exatamente humano. Foi uma
aparição repentina que lhe ocorreu à meia-noite.
Um perito em tantra explicou-lhe mais tarde o que
ele vira:
Você viu Mohini, uma demônia do submundo. Se
soubesse como fazê-lo, você poderia ter feito um
pacto com ela para o próximo ciclo de Júpiter
(doze anos). Você promete satisfazer-lhe a lascívia
uma vez por mês e ela o retribui protegendo sua
propriedade, destruindo seus inimigos, qualquer
coisa.
Mas um pacto com Mohini é muito perigoso.
Quando surge em busca de satisfação sexual, ela
pode assumir dezoito formas no transcorrer da
noite, esperando que você satisfaça as exigências
de cada uma delas. Se você não o conseguir, isto
lhe custará a vida. E se, durante os doze anos de
seu relacionamento com ela, você sentir atração
por outra mulher, isto também lhe custará a vida.
De repente você vomita sangue — e pronto.
Como se contam muitas histórias deste tipo, é
natural perguntar se elas são tão bem respaldadas
por testemunhos quanto o são os casos de rapto
por óvni. A única maneira de saber a resposta
seria realizar extensas investigações de
anamneses. As histórias de rapto por óvni atraíram
a atenção dos pesqui¬sadores, suspeito eu, por
estarem vinculadas a óvnis de alta tecnologia que
teriam vindo de outro planeta. É possível
tenderem a ignorar as histórias de súcubos e
íncubos, contadas no contexto das tradicionais
visões de mundo, por elas parecerem ter gosto de
superstição e mitologia.
Visitas a outro mundo
Eis uma tradicional história celta na qual o tema
de rapto combina-se com uma visita a outro
mundo. Certa vez, o rei Sidhe Manannan Mac Lir se
cansou de sua esposa Fand, que foi então para a
Irlanda na companhia de sua irmã Liban na
esperança de se casar com o herói Cuchulainn.
Elas assumiram a forma de dois passarinhos e
pousaram num lago em Ulster, onde Cuchulainn
poderia vê-las enquanto caçava. O herói tentou
capturá-los, mas fracassou e, sentindo-se
deprimido com isto, sentou-se ao lado de um
menir (monumento megalítico de pedra) e
adormeceu. Então, viu duas mulheres, vestidas em
mantos de cor verde e carmesim, que se
revezavam em golpeá-lo com um objeto parecido
com um chicote. Depois disso, ele caiu de cama
com uma doença estranha que nenhum druida ou
médico da Irlanda conseguia curar.
Cuchulainn passou um ano doente sem falar com
ninguém. Então, um mensageiro desconhecido
veio até ele e cantou uma canção prometendo
curá-lo de seu mal se ele aceitasse visitar as filhas
de Aed Abrat no outro mundo a convite delas.
Voltando ao local onde havia caído doente, ele viu
a mulher com o manto verde outra vez.
Identificando-se como Liban, ela pediu-lhe que a
acompanhasse até a Planície do Deleite para lutar
contra os inimigos de Labraid. Prometeu-lhe que,
como recompensa, ele obteria Fand como sua
esposa.
Após algum tempo, ele acedeu ao pedido, derrotou
os inimigos de Labraid e passou um mês no outro
mundo com Fand. Retornando, então, à Irlanda,
logo se viu em apuros com sua esposa Emer, que
estava morrendo de ciúme de Fand. Emer obteve
com os druidas uma bebida capaz de fazer
Cuchulainn se esquecer de tudo acerca do outro
mundo, e Manannan Mac Lir resolveu pegar Fand
de volta. Deste modo, o rapto de Cuchulainn para
o reino das Sidhe foi relativamente breve.
O outro mundo dos celtas tem diversos nomes,
tais como Avalon, Tir na nog (Terra da Juventude)
e Planície do Deleite. Examinando as histórias, fica
claro que este reino teria de existir numa
dimensão superior. Para atingi-la, é preciso ir ao
lugar certo no espaço tridimensional, para em
seguida viajar segundo uma estratégia mística que
foge ao nosso entendimento. Podemos falar aqui
de uma dimensão de viagem suplementar, além
das três que já conhecemos.
Já que é possível atingirmos o outro mundo saindo
deste por intermédio de uma viagem mística,
podemos considerar este outro mundo uma
realidade paralela. Para entendermos esta idéia,
basta imaginarmos alguém pulando para a frente
e para trás entre dois planos paralelos e próximos
entre si. Os planos representam as realidades
paralelas, e o pulo corresponde à viagem
supradimensional.
Além de introduzir a idéia do outro mundo celta, a
história de Cuchulainn tem uma série de
características que afloram tanto em relatos
contemporâneos quanto em relatos védicos. Uma
delas é a idéia de uma bebida que induz à
amnésia. Jenny Randles, por exemplo, descreve
um caso ocorrido na Inglaterra em 19 de junho de
1978 e um outro, na Rússia, em maio de 1978, nos
quais foi usada uma bebida salgada para fazer as
testemunhas se esquecerem do acontecido no
contato com os óvnis. Diversas outras
testemunhas de óvnis, salienta ela, têm descrito
uma bebida semelhante, que parece atuar como
um agente indutor da amnésia.
A literatura védica contém muitos relatos sobre
seres dotados de faculdades místicas e capazes de
projetar formas ilusórias de animal semelhantes às
formas de passarinho de Fand e Liban. Apesar de
parecerem de todo mitológicas do ponto de vista
moderno, semelhantes histórias têm seus
paralelos em relatos sobre óvnis. Budd Hopkins,
por exemplo, apresenta diversos casos de
entidades ufológicas que parecem tapear suas
testemunhas fazendo uso de formas ilusórias de
passarinhos ou animais (veja páginas 290-92).
Outro paralelo védico à história de Cuchulainn é
estabelecido por relatos de heróis terrestres que
são levados aos planetas celestiais para travarem
batalhas em nome dos devas. Um destes heróis é
Arjuna, cujas viagens ao reino de Indra foram
analisadas no Capítulo 7 (páginas 322-25). Outro
deles é um antigo rei chamado Mucukunda:
Ao serem aterrorizados pelos demônios, Indra e os
demais semideuses rogaram pela proteção de
Mucukunda, que os defendeu por muito tempo.
Quando Kãrttikeya passou a atuar como general
dos semideuses, estes disseram a Mucukunda: "Ó
rei, podes agora desvencilhar-te de teu incômodo
dever como nosso guardião. Ao abandonares um
reino invencível no mundo dos homens, Ó valente,
não fizeste caso de todos os teus desejos pessoais
enquanto estiveste nos protegendo. Os filhos,
rainhas, parentes, ministros, conselheiros e súditos
que foram teus contemporâneos não vivem mais.
Foram todos varridos pelo tempo."
Dilatação do tempo
Isto nos remete a outro tema comum em histórias,
tanto védicas quanto celtas, de viagens místicas —
a idéia de a passagem do tempo ser mais lenta no
outro mundo do que em nosso mundo. A história
celta de Ossian ilustra este fato.
Uma bela princesa Sidhe seduziu Ossian a vir para
seu mundo, Tir na nog, onde ele se casou com ela
e viveu durante trezentos de nossos anos.
Finalmente, porém, ele sentiu um desejo
irresistível de regressar à Irlanda e participar dos
conselhos da Confraria Feniana (associação
revolucionária irlandesa formada com o fim de
separar a Irlanda da Inglaterra). Partiu montado no
mesmo cavalo branco que o levara ao outro
mundo, e a fada sua esposa preveniu-o de que não
pusesse os pés em terra firme.
Ao chegar à Irlanda, ele saiu à procura da
Confraria, mas soube da morte de todos os seus
antigos companheiros e das muitas mudanças por
que passara o país. Só então se deu conta do
longo tempo que estivera afastado dali. Por
infortúnio, em certa ocasião, um incidente o fez
desmontar do cavalo e, tão logo tocou em terra
firme, transformou-se num velhinho débil e cego.
Muitas histórias do folclore europeu apresentam
elementos semelhantes, inclusive a passagem
para um outro mundo e o envelhecimento ou
morte do protagonista tão logo este percebe
quanto tempo se passou em nosso mundo durante
sua ausência. Eis uma história semelhante que
remonta ao início do século XIX. No Vale de Neath,
País de Gales, dois fazendeiros chamados Rhys e
Llewellyn caminhavam de volta para casa certa
noite. Um misterioso som de música atraiu a
atenção de Rhys, mas Llewellyn nada ouviu.
Assim, Llewellyn retomou o caminho de casa
enquanto Rhys ficou para trás para dançar ao som
da melodia que ouvira. No dia seguinte, como
Rhys não aparecesse, após uma busca infrutífera,
prenderam Llewellyn por suspeita de assassinato.
Contudo, um conhecedor de lendas de fadas
adivinhou o que acontecera. À conselho dele, um
grupo de homens acompanhou Llewellyn até o
local onde Rhys fora visto pela última vez. Ali,
Llewellyn logrou ouvir o som de harpas porque seu
pé estava tocando um "anel-de-fada". Bastou cada
um dos outros membros do grupo tocar o pé de
Llewellyn para também lograr ouvir a música e ver
muitas fadas dançando num círculo. Rhys estava
entre elas. Ao ser puxado para fora do círculo por
Llewellyn, Rhys declarou ter estado dançando por
apenas cinco minutos. Como nada o convencesse
de que tanto tempo se passara, ele caiu em
depressão, adoeceu e em breve morreu.
Se nos voltamos para o folclore chinês,
encontramos um paralelo com a história de
Ossian, com seu lapso de tempo de centenas de
anos. Existe um livro intitulado The Report
Concerning the Cave Heavens and Lands of
Happiness in Famous Mountains, de Tu Kuang-t'ing, que viveu de 850 a 933 d.C. Este livro
relaciona dez "paraísos subterrâneos" e 35
"pequenos paraísos subterrâneos" que, segundo
se supõe, teriam existido debaixo das montanhas
da China. Eis o relato das experiências vividas por
um homem ao transpor uma passagem que levava
a um destes paraísos subterrâneos:
Após caminhar vinte quilômetros, ele se viu
subitamente numa bela região "com um límpido
céu azul, brilhantes nuvens róseas, flores
fragrantes, salgueiros enormes, torres da cor do
cinabre, pavilhões de jade vermelho e amplos
palácios". Foi recebido por um grupo de mulheres
amáveis e sedutoras, que o trouxeram para uma
casa de jaspe e tocaram belas melodias para ele
enquanto ele tomava "uma bebida vermelha como
o rubi e um suco da cor do jade". Tão logo sentiu o
impulso de se deixar seduzir, lembrou-se de sua
família e voltou para a passagem. Conduzido por
uma luz estranha a dançar em sua frente,
caminhou de volta pela caverna até o mundo
exterior; mas, chegando a sua aldeia natal, não
reconheceu ninguém que tivesse visto e,
chegando em casa, encontrou seus próprios
descendentes de nove gerações posteriores à sua.
Segundo lhe contaram eles, um de seus ancestrais
desaparecera numa caverna trezentos anos antes
e jamais fora visto de novo.
Encontramos aqui o mesmo efeito de dilatação do
tempo cuja ocorrência se repete tantas vezes no
folclore europeu. Este efeito, além do fato de o
homem se ver numa região com céu azul e
nuvens, indica que a passagem subterrânea
conduziu-o a um mundo paralelo.
O Bhãgavata Purãna descreve uma realidade
paralela chamada Bila-svarga, ou o paraíso
subterrâneo, relacionada, é claro, com a história
chinesa dos paraísos subterrâneos. Bila-svarga,
prossegue a descrição, é um lugar belíssimo, com
cidades brilhantemente decoradas, lagos de água
límpida e amplos parques e jardins. Ao mesmo
tempo, não se pode ver o Sol e a Lua neste lugar,
cujos habitantes não percebem a passagem do
tempo. Bila-svarga se subdivide em sete mundos
chamados lokas, sendo, portanto, mais que uma
simples caverna subterrânea iluminada por luz
artificial.
Segundo se diz, um dos lokas, Átala, é habitado
por três grupos de mulheres, chamadas svairini,
kãmini e puniscali. Eis o que ocorre a um homem
que logra visitar esta região:
Se um homem adentra no planeta Átala, estas
mulheres o capturam de imediato e o induzem a
tomar uma bebida intoxicante feita com uma
droga conhecida como hãtaka [cannabis indica].
Este agente tóxico dota o homem de grande
habilidade sexual, da qual as mulheres tiram
prazeroso proveito. A fim de seduzir o homem, a
mulher lança-lhe olhares atraentes, fala-lhe de
coisas íntimas, sorri para ele com amor e depois o
abraça. Desta maneira, ela o induz a fazer sexo
com ela para plena satisfação dela. Em virtude do
aumento de sua força sexual, o homem se julga
mais forte que dez mil elefantes e se considera
pleno. De fato, iludido e inebriado pelo falso
orgulho, ele julga ser Deus, ignorando a morte
iminente.
É significativo o fato de esta tradução se referir a
Átala como a um "planeta". A palavra loka é às
vezes traduzida como "sistema planetário", ao
passo que os sete lokas de Bila-svarga são
chamados de "sistemas planetários inferiores".
Segundo indica o Bhãgavata Purãna, o Bila-svarga
se estende por todo o plano do sistema solar,
motivo pelo qual é chamado de svarga, ou céu
(veja página 283). No entanto, é possível atingi-lo
adentrando na terra, mediante o uso de
modalidades supradimensionais de viagem e,
neste sentido, ele é bila, ou subterrâneo.
A literatura védica aponta a existência de uma
hierarquia de sistemas planetários, os quais
podemos considerar como mundos paralelos. O
sistema mais elevado é Brahmaloka, o mundo de
Brahmã, onde se manifesta o grau mais extremo
de dilatação do tempo em relação à Terra. Em
outros sistemas planetários, os intermediários,
manifestam-se graus intermediários de dilatação
do tempo.
A história a seguir ilustra a dilatação do tempo em
Brahmaloka. Esta história começa mencionando
um reino submarino chamado Kusasthali, o qual
parece envolver uma realidade paralela por si só.
Os protagonistas da história são membros da
Sürya-vamsa, uma dinastia que descende de
Sürya, o deva regente do Sol. Apesar de serem
considerados humanos, eles eram dotados de
faculdades místicas às quais os humanos normais
de hoje não têm acesso. Um deles, um rei
chamado Kakudmi, logrou viajar até o mundo de
Brahmã, onde experimentou a escala de tempo de
Brahmã:
Ó Mahãrãja Pariksit, subjugador dos inimigos, este
Revata construiu um reino conhecido como
Kusasthali nas profundezas do oceano. Ali ele
viveu e governou regiões tais como snarta etc. Ele
teve cem ótimos filhos, o mais velho dos quais era
Kakudmi.
Levando Revati, sua própria filha, consigo,
Kakudmi foi ter com o Senhor Brahmã em
Brahmaloka, que é transcendental aos três modos
da natureza material, para lhe pedir um esposo
para ela. Quando Kakudmi chegou lá, o Senhor
Brahmã, entretido com um concerto dos
gandharvas, não o atendeu de imediato. Por isso,
Kakudmi teve de esperar o final do concerto para
prestar suas reverências ao Senhor Brahmã e
assim lhe apresentar seu desejo há muito
acalentado.
Após ouvir as palavras de Kakudmi, o Senhor
Brahmã, que é muito poderoso, deu uma boa
gargalhada e disse-lhe: "Ó rei, todos aqueles a
quem porventura teu coração resolveu aceitar
como candidatos a teu genro já faleceram. Vinte e
sete catur-yugas já transcorreram. Aqueles que
poderias ter escolhido já partiram, bem como os
filhos, netos e demais descendentes deles. Nem
mesmo os nomes deles lograrás voltar a ouvir."
Em textos sânscritos tradicionais, um catur-yuga
equivale a 4.320.000 anos. Com esta informação,
podemos calcular a taxa de dilatação do tempo em
Brahmaloka. Se o concerto dado pelos gandharvas
durou cerca de uma hora pela escala de tempo de
Brahmã, então, aquela hora deve corresponder a
27 vezes 4.320.000 anos da Terra. Por
coincidência, este cálculo corresponde
aproximadamente a um cálculo de dilatação do
tempo baseado em outra história envolvendo
Brahmã.
Trata-se da história da Brahma-vimohana-lilã, ou
de quando Krsna confunde a mente de Brahmã. Há
alguns milhares de anos, Krsna desceu à Terra
como um avatãra e brincava como um
vaqueirinho, apascentando bezerros na floresta de
Vrndãvana (que fica ao sul da Nova Déli de hoje).
Com o intuito de pôr a potência de Krsna à prova,
Brahmã usou seu poder místico para roubar os
bezerros e vaqueirinhos companheiros de Krsna e
escondê-los em vida latente num lugar ermo. Em
seguida, afastou-se durante um ano do tempo
terrestre para ver o que aconteceria.
Krsna reagiu ao truque de Brahmã, expandindo-se
em cópias idênticas dos bezerros e meninos.
Regressando para ver o que havia acontecido,
Brahmã viu Krsna brincando com os meninos e
bezerros exatamente como antes, o que o deixou
sobremaneira confuso. Ao verificar os meninos e
bezerros que havia escondido, ele descobriu serem
indistinguíveis daqueles que brincavam com Krsna,
e ficou sem entender como aquilo fora possível.
Por fim, Krsna revelou a Brahmã que aqueles
meninos e bezerros eram na verdade idênticos a
Ele próprio, e concedeu a Brahmã uma visão direta
do mundo espiritual.
Bem, acontece que, muito embora Brahmã tivesse
se ausentado da Terra durante um ano, pela sua
escala de tempo apenas um instante se passara. A
palavra sânscrita aqui usada para indicar um
instante é truti. Apesar de haver diversas
definições para um truti, o texto de astronomia
védica chamado Sürya-siddhãnta define um truti
como sendo 1/33.750 segundos. Logo, um ano da
Terra corresponde a 1/33.750 segundos do tempo
de Brahmã.
Conforme salientei, a visita do rei Kakudmi a
Brahmaloka durou 27 vezes 4.320.000 anos da
Terra. Se multiplicarmos isto por 1/33.750,
teremos que, no tempo de Brahmã, a visita do rei
Kakudmi durou 3.456 segundos, ou pouco menos
de uma hora. Isto é compatível com o fato de o rei
ter precisado esperar um concerto terminar para
poder ter uma breve conversa com o Senhor
Brahmã.
A propósito, após ter se encontrado com Krsna,
Brahmã devolveu a consciência normal aos
vaqueirinhos originais. Para espanto deles,
descobriram ter tido um ano de "tempo perdido".
Reinos paralelos e óvnis
Há relatos contemporâneos de experiências nas
quais uma pessoa parece fazer um breve ingresso
em outro mundo para em seguida voltar a nosso
mundo comum e descobrir ter transcorrido muito
tempo. Como a história de Rhys e Llewellyn, a
ocorrência destas histórias é típica do contexto de
sistemas de crenças tradicionais envolvendo seres
com poderes místicos.
Em junho de 1982, na Malásia, por exemplo, uma
menina de doze anos chamada Maswati Pilus
dirigia-se ao rio às dez horas para lavar algumas
roupas. Subitamente, deparou com um estranho
ser feminino do seu mesmo tamanho que a
convidou a visitar outra terra. "Ela não sentiu
medo algum e foi parar num lugar belo e brilhante.
(...) Era como se o tempo tivesse passado
zunindo." Dois dias depois, alguns parentes a
encontraram jazendo inconsciente na mesmíssima
área onde a estiveram procurando freneticamente
nos últimos dois dias! Na Malásia, estes seres são
chamados bunians e, segundo se diz, eles
costumam raptar crianças. No entanto, os óvnis
não estão associados a estes seres, tanto que,
segundo relata Jenny Randles, uma busca de casos
de rapto por óvni na Malásia resultou infrutífera.
Em suma, a história de Ossian é típica de lendas
célticas sobre fadas pelo fato de ocorrer numa
realidade paralela, além de envolver um efeito de
dilatação do tempo em virtude do qual passa mais
lentamente no mundo paralelo do que no mundo
comum. Encontramos a mesma coisa na história
da caverna chinesa e em muitos relatos védicos.
Tanto a história de Rhys e Llewellyn quanto a
história de Maswati Pilus envolvem uma realidade
paralela que parece ter um vínculo direto com o
mundo que conhecemos, além de apresentarem
um moderado efeito de dilatação do tempo.
Tanto quanto sei, não há paralelos diretos entre
relatos sobre óvnis e as histórias de Ossian, Rhys e
Llewellyn, e Maswati Pilus, nas quais ocorre o
ingresso explícito num mundo paralelo. Quem
experimenta contatos com óvnis é às vezes
transferido para um estado que o capacita a
atravessar paredes. Há também histórias de
pessoas levadas, a bordo de óvnis, para
estranhíssimos lugares desconhecidos, tais como o
reino subterrâneo descrito por Betty Andreasson.
Entretanto, é difícil dizer se estes lugares ficam na
Terra, em outro planeta ou em outra dimensão.
Mesmo experiências extra-corporais (EEC) abordo
de óvnis poderiam estar ocorrendo num espaço
tridimensional comum, uma vez que EECs de
pacientes cardíacos vendo seus próprios corpos
inconscientes acontecem, de fato, em corriqueiros
quartos de hospital. (A relação entre EECs e óvnis
é analisada no Capítulo 10.)
Como Betty Andreasson relatou ter atravessado
uma porta fechada de sua casa e depois passar
normalmente por uma porta aberta do óvni
estacionado do lado de fora, pode-se argumentar
que talvez o próprio óvni existisse em outra
dimensão. Neste caso, seria possível dizer o
mesmo a respeito do reino subterrâneo por ela
visitado mais tarde. Também é possível, é claro,
que Betty recuperasse um estado físico normal
após atravessar a porta e entrasse num óvni feito
de matéria normal no espaço tridimensional
comum.
Talvez o mais forte dos argumentos vinculadores
de relatos sobre óvnis a relatos sobre realidades
paralelas seja que ambos envolvem seres com
poderes místicos semelhantes e modalidades
semelhantes de comportamento. Se determinados
seres podem atuar num mundo paralelo e se
outros seres semelhantes atravessam paredes e
pilotam naves aéreas que parecem violar as leis
da física, talvez, então, as naves aéreas também
possam atravessar mundos paralelos. Talvez, elas
também tiveram sua origem nesses mundos.
Uma vez tomado este passo, pode-se colocar o
seguinte argumento adicional: é imenso o número
total de contatos com óvnis relatados e
autenticados, devendo ser maior ainda o número
total de contatos ocorridos de fato. Segundo
parece, estas operações devem representar um
grande fardo para as entidades ufológicas, se é
que as mesmas precisam se transferir
regularmente de outro planeta para a Terra por
meio de viagens tridimensionais comuns e
limitadas à velocidade da luz. Porém, se elas
vivem numa realidade paralela, não precisam
viajar longas distâncias para chegar até nós.
Seria possível argumentar, é claro, que elas teriam
como viajar de outras estrelas mediante um
processo rápido, conveniente e capaz de evitar a
limitação da velocidade da luz. Mas, com isto,
outros sistemas estelares se tornariam, de fato,
mundos paralelos diretamente vinculados a nosso
próprio mundo. Talvez a idéia védica dos planetas
celestiais subterrâneos seja semelhante a esta.
Eles são planetas (lokas) e estão nos céus. Se bem
que também seja possível chegar até eles num
piscar de olhos, adentrando na terra.
A raridade das naves aéreas em
tradições ligadas a fadas
No Capítulo 7, salientei existirem muitas
referências, na literatura védica, a naves aéreas
chamadas vimãnas. Muitos vimãnas, além de
serem bem parecidos com os óvnis, são pilotados
por humanóides dotados de faculdades
semelhantes àquelas atribuídas a entidades
ufológicas. Existem, ainda, paralelos substanciais
entre relatos sobre humanóides na literatura
védica e relatos correspondentes no folclore
europeu. Neste folclore, contudo, são
relativamente poucas as descrições de naves
aéreas dignas de nota.
Por que motivo não é comum constarem
aeronaves no material europeu? Segundo sugerem
os dados disponíveis, isto poderia envolver um
fenômeno cultural. Sabemos que algumas culturas
humanas usam aviões, enquanto outras ainda hoje
não o fazem. De forma semelhante, talvez alguns
grupos de humanóides façam uso de naves
aéreas, enquanto outros talvez não. Entre estes
últimos podem estar incluídos os seres místicos
interdimensionais mencionados no folclore
europeu ainda existente. Seres semelhantes
menciona¬dos na literatura védica (tais como os
nãgas analisados a seguir, páginas 356-58)
também parecem ter passado sem naves aéreas.
Ao mesmo tempo, outros seres, tais como os
devas, gandharvas e dãnavas, sempre fizeram
amplo uso de diferentes espécies de vimãnas.
Em seu livro Dimensions, sobre os ovnis e o
folclore europeu, Jacques Vallee diz ser a moderna
crença em discos voadores, "idêntica" à antiga
crença nas fadas. Em apoio a esta idéia, Vallee
apresenta muitos exemplos mostrando paralelos
entre o comportamento e os poderes das fadas,
por um lado, e os das entidades ufológicas, por
outro. No entanto, ele dá poucos exemplos de
fadas usando veículos aéreos.
Mas dá um exemplo extraído do livro Entretiens
sur les Sciences Secrètes (Entrevistas sobre as
ciências ocultas), escrito na França do século IX.
Ele fala de quatro pessoas que foram raptadas e
levadas embora em naves aéreas:
Certo dia, entre outros casos, ocorreu em Lyons de
três homens e uma mulher serem vistos descendo
destas naves aéreas. Toda a cidade se reuniu em
volta deles, gritando que eram magos enviados
por Grimaldus, duque de Beneventum, inimigo de
Carlos Magno, para destruir as colheitas francesas.
Em vão os quatro tentaram provar sua inocência
dizendo serem camponeses como os demais
presentes e terem sido levados embora pouco
antes por homens miraculosos que lhes haviam
mostrado maravilhas jamais vistas, e arremataram
confessando terem desejado lhes fazer um relato
do quanto haviam visto. O populacho frenético (...)
estava a ponto de lançá-los à fogueira quando o
digno Agobard, bispo de Lyons, (...) tendo ouvido
as acusações do povo e a defesa dos acusados,
pronunciou em tom grave que tanto uns quanto
outros eram falsos.
A história se refere aos "homens miraculosos"
como silfos, uma classe de seres que, segundo
achava Paracelso, habitava a atmosfera da Terra e
tinha a faculdade de aparecer e desaparecer à
vontade perante os humanos.
Mais adiante em seu livro, Vallee diz: "Ainda não
tive oportunidade de extrair do folclore popular
histórias apoiando de forma mais direta a idéia de
que, no decorrer da história, têm-se visto
estranhos objetos voadores associados às fadas.
Passemos, pois, a esclarecer este ponto." Todavia,
no prosseguimento do texto, infelizmente, Vallee
não dá exemplos de objetos parecidos com óvnis e
associados a contos de fada tradicionais.
Seu exemplo mais aproximado foi o de uma
"carruagem com rodas lamuriantes", a qual subia
uma colina com espantosa velocidade, sendo
puxada por tradicionais anões peludos de um tipo
conhecido como farfadets. Isto foi visto numa
noite, por volta de 1850, por um grupo de
mulheres perto do rio Egray, na França. Segundo
asseveraram as mulheres, a estranha carruagem
"saltou por sobre o parreiral e perdeu-se na noite".
Vallee parece ter encarado a carruagem como um
óvni típico. Entretanto, o espantoso aqui não é a
carruagem, mas sim os seres que a puxavam.
Ainda que tivesse propriedades extraordinárias —
tais como a antigravidade —, a carruagem foi,
mesmo assim, descrita como um veículo de rodas
movido ao ser puxado. Isto em nada corresponde
à descrição de óvnis típicos.
Vallee também cita Evans-Wentz a respeito de
uma batalha aérea das fadas, observada durante a
escassez de batata na Irlanda de 1846-47. A
testemunha desta batalha disse: "Eu vi as fadas e
centenas de pessoas além de mim os viram
lutando no céu acima de Knock Ma e na direção de
Galway." Mas não seria justificável concluir que as
fadas estivessem lutando a bordo de óvnis. Com
certeza, a testemunha falava de seres sob forma
humana que pareciam se locomover diretamente
pelo ar e lutar entre si.
Segundo consta, também os supramencionados
silfos da França do século IX marchavam no ar em
exércitos. De acordo com a história: "Estes seres
foram vistos no ar sob forma humana, às vezes em
formação de combate marchando disciplinados,
detendo-se prontos para o combate ou acampados
debaixo de tendas magníficas; às vezes a bordo de
naves aéreas de arquitetura maravilhosa, cujos
esquadrões voadores vagueavam segundo a
vontade dos zéfiros." De fato, há muitas histórias
de exércitos vistos no céu. Três explicações
possíveis para isto são: (1) os exércitos aéreos são
ilusões criadas por efeitos naturais de miragem,
(2) são ilusões geradas por poder místico, e (3) são
formados por seres que se valem de poderes de
levitação para lutarem de verdade na atmosfera.
A explicação (1) seria adequada se os exércitos
aéreos fossem meras visões vagas. Sendo assim,
talvez a imaginação humana estivesse
convertendo algum efeito natural de miragem para
uma visão ilusória de exércitos no céu. Por outro
lado, a explicação (2) seria justificável se os
exércitos fossem claramente visíveis. É
significativo o fato de miragens notáveis serem
conhecidas pelo nome Fata Morgana, que é a
forma latina de Morgan le Fay, o nome da fada
irmã do rei Artur. Portanto, existem extraordinárias
miragens naturais, semelhantes a cidades ou
exércitos no céu, além de haver uma tradição
indicando o poder das Sidhe de projetar fabulosas
ilusões aéreas.
William Corliss compilou muitos exemplos de
miragens e efeitos atmosféricos incomuns. Eis um
exemplo de um exército ilusório visto da terra em
Westphalia, Alemanha, em 1854:
No dia 22 do mês passado, um surpreendente
prodígio da natureza foi visto por muitas pessoas
em Buderich, uma aldeia entre Unna e Werl. Pouco
antes do pôr-do-sol, um exército, de extensão
ilimitada, consistindo em infantaria e cavalaria e
um enorme número de carroças, foi visto
enquanto atravessava a região a marchar. Todas
estas aparições foram vistas de forma tão nítida
que se podia distinguir até o reluzir dos arcabuzes
e a cor do uniforme da cavalaria, que era branca.
A formação inteira avançava na direção da floresta
de Schafhauser e, assim que a infantaria adentrou
na mata e a cavalaria se aproximou, uma fumaça
espessa as escondeu de uma vez junto das
árvores. Também duas casas, em chamas, foram
vistas com a mesma nitidez. Ao pôr-do-sol, todo o
fenômeno se esvaiu. Quanto ao fato, o governo
reuniu provas de cinqüenta testemunhas oculares,
que prestaram seus depoimentos a respeito desta
extraordinária aparição.
Observe-se, segundo o depoimento das
testemunhas, o fato de o exército estar equipado
com armas típicas daquele período do século XIX.
Quanto à literatura védica, sabe-se da faculdade,
de diversos tipos humanóides, para projetar
espantosas ilusões capazes de afetar um grande
número de pessoas de uma vez só. Um dos nomes
para semelhantes ilusões é gandbarva-pura, que
significa "cidade dos gandharvas" e se refere à
imagem de uma cidade flutuante. Ao mesmo
tempo, os textos védicos também descrevem
cidades voadoras de verdade e batalhas cujos
combatentes fazem manobras no ar, valendo-se
de suas faculdades de levitação. Um exemplo disto
seria a batalha entre Arjuna e os soldados de
Hiranyapura mencionada no Capítulo 7 (páginas
315-17). Não seria provável, é claro, que tais
batalhas fossem travadas com armas semelhantes
àquelas da sociedade humana contemporânea.
Concluindo, os exércitos aéreos, bem
diversamente dos veículos vistos em contatos
típicos com óvnis, em geral não passam de ilusões.
Ao mesmo tempo, talvez alguns relatos sobre
óvnis envolvam ilusões elaboradas. Um exemplo
disto seriam os helicópteros ilusórios com rotores
engrenados relatados pelo jornalista Ed Conroy
(páginas 384-85). Outro exemplo é a história de
Kathie Davis, testemunha apresentada por Budd
Hopkins, sendo atraída à noite até algo
semelhante a uma lanchonete que na verdade
revelou ser um óvni estacionado. É bem possível
que os exércitos ilusórios e as ilusões projetadas
pelos óvnis sejam fruto do uso de tecnologia
parecida, podendo, inclusive, terem sido
produzidos por seres do mesmo tipo.
Ainda em sua seção sobre óvnis constantes em
material folclórico, Vallee menciona a visão, em
1790, perto de Alençon, França, de uma esfera
ígnea se locomovendo em grande velocidade e
fazendo um zunido, para em seguida aterrissar e
incendiar plantas. Um homem assoma de uma
porta na esfera, vestindo um collant. Fala algumas
palavras incompreensíveis para o grupo de
observadores presente e foge para a floresta.
Então, a esfera explode sem o menor ruído e arde
em chamas. Embora tenhamos aqui um relato
antigo do que parece alguma espécie de acidente
com óvni, não temos motivo para vinculá-lo aos
contos de fadas tradicionais.
Vallee também faz algumas referências
interessantes a histórias de tradições não-européias semelhantes a relatos sobre óvnis.
Conforme contam os índios Paiute, por exemplo, a
Califórnia foi outrora habitada pelos chamados
Hav-Masuvs, um grupo civilizadíssimo. Este povo
"usava 'canoas voadoras', que eram prateadas e
tinham asas. Elas voavam à maneira de águias e
faziam um zunido. Além disso, usavam uma arma
muito estranha: um tubinho que poderia ser
seguro pela mão e estonteava os inimigos,
causando-lhes prolongada paralisia e a sensação
de serem atingidos por uma chuva de espinhos de
cacto". Estes tubos estonteadores são vez por
outra mencionados em relatos sobre óvnis.
No conjunto do material folclórico levantado por
Vallee, embora sejam bem raras, há algumas
referências a naves aéreas parecidas com os óvnis
contemporâneos. Isto parece se aplicar em
especial ao folclore celta. No entanto, os
humanóides descritos no folclore europeu
apresentam, na verdade, muitos traços típicos dos
humanóides associados aos óvnis.
Fadas e nãgas
Nesta seção, procurarei estabelecer um elo
explícito entre as fadas européias e algumas das
raças humanóides mencionadas na literatura
védica. Para se poder estabelecer este elo, cumpre
registrar que, por tradição, as fadas eram
associadas à colheita de cereais. Sobre isso,
Robert Rickard observa: "Em todo o âmbito das
culturas indo-européias, davam-se às fadas
dízimos de milho e leite à época da colheita, à qual
elas presidiam." Não surpreende o fato de o
arcebispo Agobard ter se referido a uma idéia afim
na história dos silfos da França do século IX:
Temos visto e ouvido muitos homens mergulhados
em tamanha estupidez, afundados em tamanhas
profundezas de insensatez que chegam a acreditar
existir uma certa região, a qual chamam de
Magonia, onde navios singram nas nuvens a fim de
trazer de volta para a referida região aqueles
frutos da terra que são destruídos pelo granizo e
as tempestades; os tais navegadores pagam
recompensas aos feiticeiros das tempestades,
recebendo em troca milho e outros produtos.
Já, na Índia, é sabido que uma raça de seres
chamados nãgas está associada à colheita. Não se
deve confundir estes nãgas com os povos tribais
da atual Nagalândia. Segundo consta, os nãgas
são uma raça não-humana descendente do sábio
celestial Kasyapa e sua esposa Kadrü. Eles são
descritos ora como tendo forma de serpente, ora
tendo forma humana. Parecem ter o poder de
assumir ou projetar diversas formas. Os nãgas
também têm os poderes místicos comuns, tais
como a capacidade de viajar através da matéria
sólida e de aparecer e desaparecer. Vivem dentro
da terra ou em corpos aquáticos, estando talvez
relacionados aos dragões da tradição chinesa.
A Rãja-tarangini de Kalhana é uma história de
Caxemira escrita por volta do século XI d.C. Nela,
encontramos o seguinte relato sobre os nãgas. O
cenário do acontecido é uma bela cidade em
Caxemira, fundada por um rei chamado Nara, ou
Kimnara:
Numa das aprazíveis lagoas do principal parque da
cidade moravam o nãga Suãravãs e suas duas
belas filhas. Certo dia, num arvoredo perto desta
lagoa, descansava um pobre brãhmana chamado
Visãkha. Ele ia beber água de uma fonte quando
dela assomaram duas belas mocinhas, que,
parecendo ignorá-lo, puseram-se a comer
sofregamente vagens da grama kac-chaguccha
que dava em abundância por ali. O brãhmana,
reunindo coragem, perguntou-lhes o motivo de sua
pobreza. Assim, ficou sabendo serem elas as filhas
do nãga Suãravãs, às quais cabia uma parte do
rico cultivo semeado nas redondezas de
Kimnarapura. Porém, como lhes fosse permitido
pegar a sua cota só após o guarda florestal
partilhar cada nova colheita, elas estavam naquele
estado de penúria porque o referido guarda fizera
um voto de não comer um grão sequer das novas
safras.
O jovem brãhmana, apiedando-se delas,
furtivamente colocou um pouco de milho fresco na
panela do guarda florestal em um determinado
dia. Tão logo o guarda tocou na comida, o nãga se
apossou da rica colheita ao redor da cidade,
lançando raios e tempestades sobre ela. Em
gratidão, o nãga concedeu a mão de uma de suas
filhas em casamento ao brãhmana.
O feliz casal viveu em paz na cidade por algum
tempo, até que o rei Nara, sabendo da beleza da
esposa do brãhmana, tentou seduzi-la se valendo
de seus emissários. Fracassado este plano, ele
tentou raptá-la à força, mas dessa vez Visãkha e
sua esposa correram o mais que puderam e
mergulharam na lagoa onde o nãga Suãravãs
morava. Furioso, o nãga destruiu Kimnarapura
com uma terrível tempestade. Depois disso, o
nãga, sua filha e o genro criaram, para residir, um
lago de "brancura cintilante parecido com um mar
de leite", conhecido até hoje como Sesanãga.
Esta história tem três aspectos que a associam aos
contos de fada europeus: (1) os nãgas partilham
das colheitas humanas, (2) seres humanos podem
se casar com mulheres da raça nãga, e (3) um ser
humano pode viver com os nãgas no mundo. Visto
ter o brãhmana conseguido viver com sua esposa
nãga no fundo de um lago, podemos entender que
eles viviam numa realidade paralela vinculada ao
lago, e não simplesmente nas águas do lago.
Também é interessante observar que, por um
lado, os nãgas tinham o poder de criar
tempestades para se apossarem das colheitas e,
por outro, o arcebispo Agobard falava de feiticeiros
da tempestade que pareciam fazer o mesmo.
Os nãgas de Caxemira
Tem havido alguma controvérsia sobre se as
entidades ufológicas provêm de outros planetas ou
de domínios supradimensionais da Terra. De
acordo com os textos védicos, ambas as
possibilidades poderiam ser verdadeiras. Existem
seres parecidos com os humanos que vivem em
outros planetas e às vezes visitam a Terra, quer a
bordo de veículos chamados vimãnas, quer se
valendo de seu próprio poder. Existem seres
semelhantes habitando diversos reinos terrestres
aos quais a maioria dos humanos não tem acesso.
Além disso, alguns grupos de seres têm vivido
tanto na Terra quanto em outros planetas ao longo
de sua história.
Os nãgas se enquadram nesta última categoria. No
Nilamat Purãna, há um relato parcial da história
deles na Terra e de suas relações com os seres
humanos. Este Purãna, dedicado à história de
Caxemira, apresenta os regulamentos estipulados
por Nila, filho do sábio celestial Kasyapa e rei dos
nãgas de Caxemira. Ele proporciona uma
interessante perspectiva da visão védica da antiga
história humana e transumana.
Hoje em dia, Caxemira fica num vale rodeado por
uma cadeia ininterrupta de montanhas, à exceção
de um único desfiladeiro ao sul, pelo qual passa o
rio Jhelum. Segundo o Nilamat Purãna, outrora o
desfiladeiro não existia, e o vale de Caxemira era
um lago chamado Satisaras. Este nome foi uma
homenagem a Sati, a esposa do Senhor Siva, que
às vezes passeava de barco por ele.
Certa feita, um ser demoníaco chamado
Jalodbhava (significando "surgido das águas") fixou
residência no lago, de onde emergia de quando
em quando para devastar as regiões
circunvizinhas. Solicitado pelos devas a destruir o
demônio, o Senhor Visnu assentiu. Para este fim,
Seu irmão Balabhadra drenou o lago, fendendo a
cadeia de montanhas e delimitando o vale ao sul.
Então, enquanto os devas assistiam dos
circundantes picos das montanhas, Visnu atacou o
demônio, agora em desvantagem por ter sido
privado de seu elemento natural.
Após a morte de Jalodbhava, os pisãcas e os
descendentes de Manu (seres humanos) foram
assentados no vale recém-drenado pelo sábio
Kasyapa. Os nãgas, que eram os habitantes
originais da região, fixaram suas moradas em
lagos e fontes, enquanto outros seres femininos
assumiram suas posições como deusas dos rios
recém-formados.
Os pisãcas se adaptaram às condições de frio
extremo que prevaleciam no vale àquela época.
Devido ao rigor do clima, a princípio os humanos
só conseguiam viver lá durante os meses do
verão. Por fim, contudo, o brâmane Candradeva
adquiriu uma série de ritos pela graça de Nila
Nãga. Estes ritos libertaram a região dos pisãcas e
do frio extremo, após o que os humanos passaram
a viver ali em caráter permanente. Mais tarde, o
vale ficou conhecido como Caxemira, um nome
derivado de Kashaf Mar, que quer dizer a casa de
Kashaf.
O vale de Caxemira foi de fato um lago no período
pleistoceno da história geológica. O vale é formado
de camadas sedimentares chamadas karewas, as
quais muitos geólogos têm interpretado como
sendo depósitos de lago de água doce. Apesar de
alguns geólogos terem interpretado serem estas
camadas depósitos de rio, a declaração a seguir
parece resumir as opiniões atuais sobre o assunto:
"Neste caso, pode-se declarar com toda certeza e
sem a menor hesitação que os sedimentos karewa
ora investigados pertencem a origem lacustre de
água doce e de clima mais frio."
Segundo os geólogos, o lago continuou no lado
himalaico do vale até fins do período pleistoceno,
após o que foi drenado pela formação do rio
Jhelum no lado sul do vale. Segundo indica a
datação por radiocarbono, isto aconteceu há mais
de 31 mil anos.
Isto se deu antes da época em que se acredita
terem chegado à região os primeiros seres
humanos sob a forma atual. Como, então, explicar
a tradição segundo a qual o vale teria outrora sido
o leito de um lago? Conforme opinam alguns, os
primeiros povos a viverem em Caxemira teriam
deduzido a presença anterior de um lago baseados
em provas geológicas. No entanto, como indicam
as discordâncias entre os geólogos da atualidade,
a interpretação de semelhantes provas está longe
de ser óbvia. (E algumas das provas consistem nas
conchas de criaturas aquáticas microscópicas
chamadas ostracódios, só visíveis com o auxílio de
microscópios.) Portanto, é bem possível que as
tradições tenham sido transmitidas a partir da
experiência histórica concreta da drenagem do
antigo lago.
Quer se possa demonstrar isto ou não, o
importante é que o Nilamat Purãna se refere a
quando Caxemira era uma morada de devas,
nãgas e outras inteligentes raças não-humanas
dotadas de faculdades místicas sobre-humanas.
Todos estes seres eram descendentes de sábios
celestiais, como Kasyapa, e estes sábios eram, por
sua vez, descendentes de Brahmã, a primeira
criatura do universo. A raça humana era de igual
maneira descendente de seres celestiais e, num
determinado momento, os humanos foram
assentados no vale por Kasyapa, o sábio regente
daquela região.
Esta história se assemelha à história celta da
Irlanda. Lá, a terra também esteve em posse de
uma raça de seres dotados de faculdades místicas
— os descendentes da deusa Dana. Embora os
seres humanos tivessem aparecido em certo
momento da história, os habitantes originais
permaneceram, vivendo em seus próprios reinos
supradimensionais e interagindo de maneiras
variadas com seus primos humanos de corpos
grosseiros. A única diferença entre os relatos
celtas e os védicos é que estes são mais
completos e filosóficos, com descrições
pormenorizadas da relação entre a hierarquia de
seres vivos dentro do universo e o transcendental
Ser Supremo. As histórias celtas são
fragmentárias, é claro, visto que grande parte dos
ensinamentos celtas desapareceu com o advento
do cristianismo na Europa.
Visões e milagres — o caso de Fátima
O cristianismo é uma fonte de muitas provas de
contatos entre humanos e seres parecidos com os
humanos e dotados de faculdades místicas. A
Igreja Católica Apostólica Romana, em especial,
tem desenvolvido vasta literatura sobre este
assunto — por exemplo, alguns pontos de vista
católicos com respeito aos súcubos e íncubos já
mencionados aqui. Farei agora uma breve análise
de um exemplo de encontro com seres de
natureza espiritual mais positiva. Esta é a história
dos encontros ocorridos em Fátima, Portugal, em
1917, entre três crianças chamadas Lúcia,
Francisco e Jacinta e uma senhora de brilhante
refulgência que eles entenderam ser a Virgem
Maria. Conforme veremos, esta é uma história de
relevância para o tema ufológico, contando com o
respaldo de uma quantidade sem precedentes de
depoimentos de testemunhas oculares.
Os encontros ocorreram sempre no 13° dia do mês
durante seis meses consecutivos num anfiteatro
natural chamado a cova da Iria, perto da cidade de
Fátima. As revelações foram feitas às três crianças
na presença de uma multidão de espectadores,
que aumentou muito a cada mês, à medida que se
espalhou a notícia. Como apenas as três crianças
tiveram as visões propriamente ditas da bela
senhora, nosso conhecimento dessas visões se
limita ao testemunho delas. Contudo, durante as
revelações ocorreram fenômenos afins que foram
testemunhados por um grande número de
pessoas.
Entre esses fenômenos estão incluídos o
aparecimento de um brilhante veículo discóide e a
ocorrência de uma chuva de pétalas de rosa que
se esvaíam ao tocar o solo. É freqüente a menção
de chuvas de pétalas em relatos védicos sobre
visitas celestiais. Eis, por exemplo, um trecho da
descrição da dança da rãsa de Krsna no Bhãgavata
Purãna:
Os semideuses e suas esposas ansiavam
testemunhar a dança da rãsa, e logo lotaram o céu
com suas centenas de aviões celestiais.
Ressoaram, tímpanos no céu então, enquanto
caíam flores e os líderes dos gandharvas e suas
esposas cantavam as glórias imaculadas do
Senhor Krsna.
Quanto ao veículo aéreo, uma testemunha ocular,
o Sr. J. Quaresma descreve seu aparecimento no
dia 13 de setembro de 1917, como segue:
Para minha surpresa, avisto com nitidez um globo
de luz avançando do leste para o oeste, deslizando
lenta e majestosamente pelo ar. (...) De súbito, o
globo com sua luz extraordinária desaparece mas,
perto de nós, uma garotinha de cerca de dez anos
grita, jubilante: "Ainda o vejo! Ainda o vejo! Está
descendo agora!"
Em seu relato sobre o que sucedeu após esses
eventos, Quaresma diz: "Meu amigo,
entusiasmado, ia de grupo em grupo (...)
perguntando às pessoas o que elas tinham visto.
Eram pessoas das mais variadas classes sociais e
todas, unânimes, afirmavam a realidade dos
fenômenos que nós próprios observáramos."
O milagre solar
Durante uma das revelações, a menina Lúcia
pedira à Virgem Maria para mostrar um milagre de
modo que as pessoas incapazes de ver a divina
senhora acreditassem na realidade do que estava
acontecendo. O milagre se daria no dia 13 de
outubro, disse-lhe a Virgem, e isto foi logo
comunicado aos demais.
Naquela data, calcula-se que cerca de setenta mil
pessoas se congregaram nos arredores da cova da
Iria na expectativa de presenciar o milagre. O dia
estava nublado e chuvoso e a multidão se
amontoava sob guarda-chuvas em meio a um mar
de lama. Subitamente, as nuvens se abriram e
começou a se descortinar um extraordinário
espetáculo solar. Descreverei este ocorrido pelas
palavras de algumas das testemunhas:
Dr. Joseph Garrett, professor de ciências naturais
da Universidade de Coimbra: "O disco do Sol não
permanecia imóvel. Não se tratava da cintilância
de um corpo celeste, pois ele girava em torno de si
mesmo num rodopio louco. Repentinamente, se
ouviu um clamor de todas as pessoas presentes: o
Sol, rodopiando, parecia se desprender do
firmamento e avançar ameaçadoramente na
direção da Terra como que para nos esmagar com
seu imenso peso ígneo. A sensação durante
aqueles momentos foi terrível." Dr. Formigão,
professor do seminário de Santarém:
"Inesperadamente, as nuvens se deslocaram e o
Sol, em seu zênite, apareceu em todo o seu
esplendor. Ele começou a revolutear
vertiginosamente sobre seu eixo, como a mais
magnífica roda de fogo que se pudesse imaginar,
assumindo todas as cores do arco-íris e lançando
clarões multicoloridos de luz, de efeito
estarrecedor. Este espetáculo sublime e
incomparável, que se repetiu três vezes distintas,
durou cerca de dez minutos. A grande multidão,
dominada pela evidência de prodígio tão
formidável, atirou-se de joelhos ao chão."
Depoimentos semelhantes foram feitos por um
grande número de pessoas, tanto da multidão
reunida na cova da Iria quanto de uma área
circunvizinha medindo cerca de quarenta por
sessenta quilômetros. Conforme sugere a
presença de testemunhas confirmadoras ao longo
de uma área tão grande, não se pode explicar o
fenômeno como sendo resultado de histeria
coletiva. A ausência de relatos oriundos de uma
área mais ampla e a completa ausência de relatos
de observatórios científicos sugerem que o
fenômeno se deu apenas na região de Fátima.
Logo, parece haver duas possibilidades. Ou
alguma intervenção inteligente providenciou
extraordinários fenômenos atmosféricos para um
momento anunciado de antemão ou se tomaram
providências semelhantes para que milhares de
pessoas experimentassem alucinações
coordenadas neste mesmo momento. Por uma
interpretação ou por outra, é difícil enquadrar
estes fenômenos no contexto da ciência moderna.
Embora pareça haver uma quantidade
extraordinária de depoimentos ratificando os
incomuns fenômenos ocorridos em Fátima,
também é relativamente fácil descartá-los, se
assim se quiser fazer. Consideremos, por exemplo,
a seguinte declaração de um jornalista cético:
Pelo que ficamos sabendo, algumas pessoas
parecem ter visto o Sol sair de sua órbita normal,
atravessar as nuvens e descer ao nível do
horizonte. A impressão destes videntes se
espalhou para outros, num esforço comum
envidado no sentido de explicar o fenômeno.
Muitos gritavam temendo que a estrela gigante se
precipitasse na direção da Terra e para cima deles
e implorando a proteção da Santa Virgem. A "hora
miraculosa" passou.
Neste caso, a mera sugestionabilidade e a histeria
coletiva são usadas para explicar como a
imaginação fértil de poucas pessoas foi difundida e
amplificada por crentes frenéticos. No entanto, isto
não explica como aconteceu de muitas pessoas
das comunidades circunvizinhas terem também
testemunhado o espetáculo solar. Em 1960, por
exemplo, o padre Joaquim Lourenço, advogado
canônico da diocese de Leira, descreveu o que viu
quando menino na cidade de Alburitel, que fica a
uns dezoito quilômetros de Fátima:
Sinto-me incapaz de descrever o que vi. Olhei
fixamente para o Sol, que parecia pálido e não
incomodava meus olhos. Semelhante a uma bola
de neve, girando em torno de si mesmo, pareceu
descer de repente em ziguezague, ameaçando a
Terra. Aterrorizado, corri e me escondi entre as
pessoas, que choravam e esperavam o fim do
mundo a qualquer momento.
Parece improvável que o fenômeno de histeria em
massa ocasionasse as mesmas ilusões em Fátima,
Alburitel e outras comunidades.
Os cientistas também apresentaram suas
explicações. O meteorologista britânico Terence
Meaden, por exemplo, projetou uma teoria
explicando os famosos círculos aparecidos em
campos agrícolas ingleses com base em vórtices
ionizados naturais de ar (veja páginas 93-94).
Segundo sua teoria, os vórtices ionizados têm a
capacidade de perturbar a razão e as faculdades
sensórias humanas, produzindo efeitos
eletromagnéticos no cérebro. Deste modo, os
vórtices ionizados podem gerar toda classe de
alucinações, podendo ser invocados para explicar
quaisquer depoimentos de testemunhas oculares.
Eis como Meaden tratou as manifestações de
Fátima:
Em nossa teoria do vórtice luminoso, encontramos
uma resposta para as visões miraculosas do
passado, sustentadas pela "fé" de certos
religiosos, mas por fim desacreditadas pelos não-religiosos. Um caso óbvio é a aparição de 13 de
maio de 1917 na encosta de uma montanha perto
de Fátima, em Portugal. A visão relatada pelas três
jovens testemunhas poderia ter sido um vórtice
plasmático.
Meaden explicou a sarça ardente de Moisés e a
Estrela de Belém da mesma maneira.
Evidentemente, Meaden não explicou o motivo
para os vórtices ionizados aparecerem com
pontualidade no mesmo local por diversos meses
no 13° dia de cada mês. Também não explicou
como tais vórtices lograram fazer as pessoas
verem o espetáculo de 13 de outubro de 1917,
numa extensão de área de muitos quilômetros
quadrados. No entanto, em virtude de poderem
soar plausíveis do ponto de vista científico, os
vórtices acabam sendo usados para enquadrar
observações perturbadoras num contexto familiar.
Pela citação a seguir, dá para se ter uma visão
clara do panorama de Meaden. Após enfatizar
como os vórtices ionizados poderiam afetar
pessoas sensíveis, ele observa:
Esta compreensão poderia significar um certo
avanço no sentido de explicar algumas das
experiências "místicas" da história, inclusive
algumas que teriam tido conseqüências religiosas
e sociológicas de grande projeção. (...) Apesar de
esta ser tida como uma iluminada era científica,
mesmo hoje as conseqüências culturais podem ser
importantes para algumas, senão para muitas
pessoas: em especial as que buscam conforto em
crenças que estão além da ciência, além de nossas
normas, além da realidade.
Os seres vistos em Fátima
Sem dúvida, as preocupações de Meaden acerca
de idéias religiosas vinham a calhar no caso de
Fátima, uma vez que os contatos das crianças com
a senhora refulgente tinham uma forte conotação
religiosa, associada em especial ao catolicismo
romano. Devo enfatizar, no entanto, a
exclusividade das três crianças quanto a todos os
depoimentos relativos à comunicação com a
senhora e outros seres paranormais, visto que só
elas chegaram de fato a ver esses seres e ouvi-los
falar.
A senhora aparecia para as crianças como uma
bela figura deslumbrante, parada bem acima de
um pequeno carvalho nascido na cova da Iria.
Segundo Lúcia: "Ela era mais brilhante que o Sol, e
irradiava uma luz cintilante de sua pessoa, mais
nítida e mais intensa que a de um cristal cheio de
água resplandecente e trespassado pelos raios do
mais ardente dos sóis." Sua mensagem às
crianças, expressa explicitamente na terminologia
da Igreja Católica, consistia, sobretudo, em
advertências de que, a menos que as pessoas
abandonassem a vida pecaminosa e se voltassem
para Deus, o castigo divino seria terrível e diversas
nações seriam aniquiladas.
Antes de seus encontros com a senhora, as três
crianças também tiveram encontros com um anjo.
À época do primeiro encontro, elas apascentavam
suas ovelhas num outeiro rochoso não muito
distante de sua casa. Viram, no outro lado do vale,
um deslumbrante globo de luz tal qual um sol em
miniatura, deslizando devagar na direção delas. À
medida que se aproximava, a bola de luz foi aos
poucos se transformando num jovem de brilho
esplendoroso, o qual aparentava ter cerca de
quatorze anos. Ele se identificou como o "Anjo da
Paz" e incitou-as a recitar a seguinte oração: "Meu
Deus, acredito em Ti, Te adoro, espero em Ti, Te
amo. Peço perdão por aqueles que não acreditam
em Ti, nem Te adoram, nem esperam em Ti, nem
Te amam." Em seguida, desapareceu como que
por encanto.
Fátima como um caso de contato com
óvni
Como devemos interpretar estas experiências?
Naturalmente, uma abordagem possível é
descartá-las como ilusórias ou tentar explicações
físicas semelhantes à de Terence Meaden. Outra é
propor que se tratam de contatos com óvnis.
Wendelle Stevens, por exemplo, fez isto sem
rodeios em um de seus livros, num capítulo
intitulado "The Fatima UFO sightings" (As visões de
óvnis em Fátima). Jacques Vallee também
argumentou que os eventos ocorridos em Fátima
são contatos com óvnis, e não milagres divinos
conforme os entende a Igreja Católica.
Respondendo a esta proposta, eu digo "sim e não".
Por um lado, os eventos de Fátima apresentam
muitas características também vistas em relatos
sobre óvnis. Os globos cintilantes de luz,
interpretados por algumas das testemunhas
oculares como sendo veículos, poderiam mesmo
sê-los. Stevens e Vallee chegaram a interpretar o
espetacular e rodopiante disco solar de 13 de
outubro como sendo um óvni discóide. Esta não
deixa de ser uma hipótese válida, visto que o disco
se movia segundo um padrão de ziguezague,
emitia feixes coloridos de luz e era possível as
pessoas olharem na direção dele sem ferirem os
olhos. Pode muito bem ter sido um aparelho
voador, o qual, ao partir finalmente, voou na
direção do Sol verdadeiro quando este se tornou
visível em meio ao céu carregado de nuvens.
Existe, por outro lado, um certo risco de se criar
uma idéia estereotipada dos óvnis e dos contatos
com óvnis e de se impor a referida idéia às provas.
Por serem basicamente empíricas, nossas idéias
sobre os óvnis tendem a se expandir e se
transformar à medida que ficamos conhecendo
mais detalhes acerca de todo o escopo das provas
empíricas relevantes. Sem dúvida, nem todos os
contatos com óvnis são iguais. Tanto as entidades
envolvidas quanto a tecnologia por elas
empregada apresentam uma considerável
variabilidade. Portanto, enquadrando Fátima à
força numa preconcebida teoria sobre óvnis,
corremos o risco de obstar nosso entendimento do
que estava acontecendo de fato.
Para sustentar seu ponto de vista de que os
eventos de Fátima envolveram óvnis, e não
revelações religiosas, Vallee precisou espichar
algumas das provas. Assim, a senhora que
aparecera para as crianças, disse ele, "não dissera
ser a Virgem Maria. Ela fizera apenas afirmar ser
'do Céu"'. De fato, foi isto o que ela disse durante
sua primeira visita em 13 de maio, mas ela
acrescentou que revelaria sua identidade em 13
de outubro. Naquela data, ela se identificou como
a "Senhora do Rosário" — uma designação
explicitamente católica.
Conforme argumentou Vallee, os contatos das
crianças com o Anjo da Paz "lançam sérias dúvidas
quanto à interpretação do 'milagre' apresentada
pela Igreja Católica". Todavia, durante um desses
contatos com o anjo, "por intermédio da irradiação
branca da presença dele, as crianças puderam vê-lo portando um cálice por cima do qual uma Hóstia
derramava gotas de Sangue". Se esta afirmação
reflete de forma honesta o que as crianças viram,
então é para se concluir que o anjo, quem quer
que ele possa ter sido, estava fazendo uso de
simbolismo explicitamente católico. E, se
rejeitarmos esta hipótese por julgá-la desonesta,
com que base, então, poderemos aceitar ter
mesmo havido a visão de um anjo?
Após verem o anjo com o cálice, as crianças
experimentaram uma sensação de extrema
fraqueza e permaneceram prostradas no solo,
orando, até o cair da noite. Vallee interpretou isto
como uma espécie de paralisia, comparando-a à
paralisia associada a muitos contatos com óvnis.
Entretanto, outras formas de fraqueza, inclusive a
chamada paralisia histérica, são causadas por
experiências emocionais intensas e talvez nada
tenham a ver com óvnis. No caso em questão,
parece ser este o tipo de fraqueza envolvido.
Podemos contrastar as experiências das crianças
com aquelas de pessoas raptadas por óvnis, que
descrevem o terror de terem sido imobilizadas por
seres esquisitos que as deitam sobre mesas e
enfiam sondas em seus corpos.
Pode-se dizer o mesmo a respeito da amnésia.
Vallee cita o depoimento de Albano Barros, o qual,
ainda menino, testemunhou o espetáculo solar de
13 de outubro de um local a quinze quilômetros de
distância de Fátima. Barros diz: "Não consigo
sequer lembrar se levei as ovelhas para casa, se
saí correndo, ou o que fiz." Vallee foi enfático ao
salientar esta perda de memória. Mas seria este
um caso de "tempo perdido" do tipo associado aos
óvnis, ou seria apenas o esquecimento que é de se
esperar de uma memória de infância acionada 43
anos mais tarde (em 1960)?
Existe um contraste surpreendente entre as visitas
de Fátima e muitos contatos com óvnis. Em
grande parte desses contatos, segundo consta, os
seres envolvidos têm tez cinzenta, pastosa ou
parecida com um cogumelo, aterrorizantes olhos
oblíquos, bocas rasgadas e vestígios de nariz. Eles
aparecem à noite, arrastam as pessoas à força e
sujeitam-nas a tormentos sexuais. As vítimas
experimentam traumas psicológicos e, em certos
casos, desenvolvem doenças físicas.
Há, é claro, outros casos de pessoas alegando ter
tido contatos relativamente amistosos com
humanóides de descrições variadas, inclusive
alguns de aparência de todo humana. Em certos
casos, estes seres trazem mensagens para as
pessoas, sendo algumas destas mensagens
bastante complexas. Tanto quanto no caso de
Fátima, estas mensagens costumam não apenas
ter um teor de crítica ao comportamento humano
como também prever desastres de diversos tipos
(Capítulo 5). Além disso, contêm às vezes material
filosófico e teológico (Capítulo 11).
A exclusividade testemunhal é outra característica
que Fátima compartilha com muitos outros casos
de óvnis. Apesar de os anjos e a senhora
refulgente terem sido vistos apenas pelas três
crianças, milhares de outras pessoas presentes na
cova da Iria testemunharam espetáculos aéreos de
luz que pareciam confirmar a história das crianças.
Pode-se aqui estabelecer um termo de
comparação com o caso Meier, no qual, apesar de
apenas um homem alegar ter tido contato pessoal
com visitantes extraterrestres, vários amigos seus
conseguiram ver e fotografar notáveis espetáculos
noturnos de luz que deram crédito à sua história.
Podemos encarar os casos de óvnis como sendo
apresentáveis num amplo continuam de tipos. Este
continuum não é linear. Ele deve antes ser
definido por diversas variáveis, que poderiam
incluir (1) o grau de amizade dos contatos, (2) o
grau de humanidade dos seres contatantes, e (3)
certa medida da qualidade do material
comunicado.
Embora se possa decerto anexar o caso Fátima a
este continuum, na minha opinião se trata de um
ponto remoto bastante diferenciado da maioria
dos outros casos relatados na literatura existente
sobre óvnis. Portanto, receberia classificação bem
alta quanto às variáveis (1) e (2), especialmente
se medíssemos a humanidade em termos de
qualidades atraentes como a beleza. Embora seja
difícil definir um conceito de medida para a
variável (3), as comunicações de Fátima são sem
dúvida incomuns em função de terem uma forte
orientação católica romana. Afora isto, enfatizam a
devoção espiritual, o que é raro ver em
comunicações de óvnis, inclusive aquelas de
natureza filosófica.
Seria um projeto interessante fazer um
levantamento geral de todas as tradições culturais
em busca de casos de pessoas alegando ter se
encontrado com belos seres refulgentes que lhes
transmitiram ensinamentos espirituais. Apesar da
probabilidade de muitos destes casos virem a
revelar características típicas associadas ao
fenômeno ufológico, estas tenderiam mesmo
assim a ter mais a ver com o comportamento e as
faculdades dos seres envolvidos do que com os
óvnis propriamente ditos. Sendo assim, o
continuum ufológico, poderia ser encarado como
parte de um continuum místico-humanóide maior.
Fátima figuraria provavelmente como um ponto
típico neste conjunto maior.
Vallee resume seu ponto de vista, dizendo: "Em
muitas histórias de óvni de outrora, as
testemunhas achavam que tinham visto anjos de
Deus. (...) Outras, que tinham visto demônios. A
diferença pode ser pequena."
Pelo contrário, a diferença me parece bem grande.
Talvez os diversos tipos de contato no continuum
ufológico sejam todos semelhantes pelo fato de
envolverem faculdades e tecnologias semelhantes
que fogem ao nosso entendimento atual. Mas os
pontos extremos do continuum são
surpreendentemente diferentes com relação ao
comportamento e, por dedução, à consciência dos
seres envolvidos.
Se as manifestações em Fátima não foram
"fenômenos ufológicos típicos" e de fato fizeram
uso do simbolismo cristão, acaso isto significa que
devemos interpretá-las sob uma ótica
exclusivamente cristã? A resposta é não, porque o
mesmo raciocínio que induziria alguém a levar a
sério as manifestações de Fátima pode de igual
maneira ser aplicado a outros encontros com seres
divinos ocorridos em contextos não-cristãos.
Poderão argumentar que só os encontros cristãos
(e em particular os católicos) são autênticos,
enquanto todos os demais são obra de Satã. No
entanto, se seres demonstrando qualidades
divinas em todas as tradições não-cristãs são na
verdade sagazes trapaças criadas por um
embusteiro cósmico, então, decerto se pode dizer
o mesmo dos seres divinos do cristianismo. Isto
nos traz de volta à posição de Vallee, segundo a
qual os anjos e demônios são todos a mesma
coisa.
Cabe ainda ressaltar que, apesar de terem sido
expressas em termos católicos explícitos, as
comunicações de Fátima também acrescentaram
algo novo ao catolicismo. Ao analisar as
revelações de Fátima, Francis Johnston deixou
claro que elas provocaram bastante controvérsia
dentro da Igreja Católica e que o novo material
(incluindo, por exemplo, a idéia de consagrar a
Rússia ao Coração de Maria) não foi aceito
imediata e universalmente. Do ponto de vista dos
protestantes, o culto católico a Maria é um
acréscimo controvertido ao cristianismo. Ademais,
o próprio cristianismo surgiu, é claro, num
determinado momento da História. A nova
revelação feita em Fátima parece se inserir no
contexto de uma tradição mais antiga, o que não é
inédito no passado.
Eis outro exemplo. No século VI d.C., um homem
na Arábia experimentou uma visão do Anjo Gabriel
"à semelhança de um homem, postado no céu
acima do horizonte". O homem, tendo recebido
ordem de se tornar um profeta, passou vários anos
entrando em transes periódicos e ditando
mensagens que seus seguidores tinham o cuidado
de anotar e memorizar. O homem se chamava
Maomé e as mensagens transmitidas por ele em
estado de transe foram mais tarde compiladas
para formar o Alcorão.
De certa maneira, a história de Maomé é um típico
caso de contato. Ele se encontra com um ser não-humano e em seguida dita elaboradas
comunicações canalizadas. Assim como no caso de
Fátima e em alguns casos de óvni recentes, o ser
fez uso de tradições culturais existentes — nesta
ocasião —, de tradições de anjos que eram bem
conhecidas dos árabes.
Ao mesmo tempo, os ensinamentos de Maomé
têm exercido um impacto enorme sobre a história
do mundo, estando sem dúvida num nível de
qualidade diferente daquele dos ensinamentos
transmitidos por muitos contatos ufológicos. Na
minha opinião, muitas comunicações diferentes
são continuamente injetadas na sociedade
humana mediante o uso da tecnologia sutil dos
siddhis místicos. Estas revelações variam
sobremaneira em qualidade. Embora costumem
fazer uso de material cultural humano já existente,
elas também podem redundar em extensas
transformações da cultura humana.
A estrutura dos céus
De onde poderiam estar vindo semelhantes
revelações? Ao dirigir a palavra às três crianças, a
brilhante senhora de Fátima disse vir do céu. Seria
natural, neste caso, interpretar a palavra céu
segundo um contexto cristão. Logo, é válido
analisar o conceito que os primeiros cristãos
faziam do céu e de sua localização.
Ao avaliar a reação das crianças às visões que
tiveram do anjo, Johnston diz: "A descrição feita
por Lúcia desta experiência fabulosa e de sua
sensação de fraqueza extrema e desprendimento
de sua vizinhança terrestre faz lembrar as palavras
de São Paulo depois de este ter sido erguido para
o Terceiro Céu e só conseguir gaguejar não ter
como saber se desprendera por completo de seu
corpo ou não."
É curioso o fato de São Paulo ter falado de céus
numerados e alegado ter sido de fato "erguido"
para visitar tais lugares. Eis a sua descrição, na
terceira pessoa, daquela experiência:
Conheço um homem em Cristo que foi elevado ao
terceiro céu quatorze anos atrás. Se isto se deu no
corpo ou fora do corpo, eu não sei — Deus o sabe.
E sei que este homem — não sei se no corpo ou
fora do corpo, mas Deus o sabe — foi levado até o
Paraíso. Ele ouviu coisas inexprimíveis, coisas que
nenhum homem tem permissão de contar.
Este relato apresenta, é claro, muitos paralelos
com relatos sobre raptos por óvnis. Conforme
saliento no Capítulo 10, alguns raptos por óvnis
parecem ocorrer num estado extra-corporal,
enquanto em outros o corpo físico é levado
embora. Há ainda muitos relatos sobre óvnis cujas
testemunhas alegam terem lhes dito coisas
inexprimíveis, ou coisas que elas não podem
contar até alguma data futura.
Na literatura apócrifa associada à Bíblia, existem
descrições destes céus. Zecharia Sitchin, por
exemplo, cita uma destas descrições do Livro dos
segredos de Enoque. Segundo parece, ao ser
"elevado" aos céus, o profeta Enoque viu o ar e
depois o éter. Então, ele atingiu o primeiro céu,
onde "duzentos anjos regem as estrelas" e onde
avistou um mar "maior que o da Terra".
O segundo céu era sombrio. No terceiro céu, ele
viu a Árvore da Vida, com quatro riachos, de mel,
leite, óleo e vinho, brotando de suas raízes. A
Morada dos Justos fica neste céu, e a Morada
Terrível fica onde os maus são torturados. Havia,
também, a "morada onde Deus descansa quando
vem ao Paraíso".
No quarto céu, ele viu luminárias, criaturas
maravilhosas e a Hoste do Senhor. Havia muitas
"hostes" no quinto, e no sexto ele viu "grupos de
anjos que estudam as revoluções das estrelas".
Por fim, no sétimo céu, ele viu anjos excelsos,
além de ter tido um vislumbre distante do Senhor
em Seu Trono.
Não sei se São Paulo tinha em mente uma
descrição semelhante dos céus, mas ele
concordou com o relato de Enoque ao chamar o
terceiro céu de Paraíso. Segundo se presume,
existiam diversas versões da narrativa de Enoque,
cuja história era há muito conhecida no antigo
Oriente Próximo e Médio.
Existem paralelos védicos a esta descrição.
Segundo a literatura védica, existem sete sistemas
planetários superiores e sete sistemas planetários
inferiores. O sistema terrestre, Bhürloka, é o
primeiro do grupo de sistemas superiores. Acima
dele, existem os seguintes sistemas de planetas
celestiais: Bhuvarloka, Svargaloka, Maharloka,
Janaloka, Tapoloka e Satyaloka. Estes sistemas
planetários são supradimensionais, e os seres que
vivem em um dos sistemas em geral não têm
acesso ao sistema seguinte. Podemos chamá-los
de céus sucessivamente superiores.
Os sete sistemas planetários superiores não
correspondem um a um aos céus de Enoque. O
sétimo céu, onde Deus está sentado em Seu
Trono, poderia corresponder a Satyaloka, a
morada de Brahmã. O terceiro céu de Enoque,
contudo, parece muito semelhante à região
conhecida como Ilãvrta-varsa, que é descrita no
Quinto Canto do Bhãgavata Purãna. Deste modo,
em Ilãvrta-varsa existem quatro árvores
gigantescas, de cujas raízes brotam quatro rios,
incluindo um rio de mel. Também existe uma
cidade chamada Brahmapuri, que é visitada pelo
Senhor Brahmã e poderia corresponder à "morada
onde Deus descansa quando vem ao Paraíso".
Ilãvrta-varsa é um paraíso terrestre considerado
parte da região chamada Jambüdvipa em
Bhürloka. Pode-se concebê-lo como sendo um
reino supradimensional ligado à Terra. Logo, é
interessante o fato de os quatro riachos brotando
das raízes da Árvore da Vida no terceiro céu de
Enoque fluírem para o Paraíso do Éden na Terra,
ligando, assim, a Terra ao terceiro céu. Todos
estes paralelos sugerem haver algum elo histórico
entre o relato de Enoque do terceiro céu e o relato
sobre Ilãvrta-varsa constante no Bhãgavata
Purãna.
Obtemos maiores esclarecimentos sobre este
ponto histórico numa lista de sete céus atribuída
ao Venerável Bede, teólogo e historiador inglês do
século VIII. Os sete céus, segundo diz ele, são: (1)
o Ar, (2) o Éter, (3) o Olimpo, (4) o Elemento Fogo,
(5) o Firmamento, (6) a Região Angelical, e (7) o
Reino da Trindade.
A lista corresponde aproximadamente àquela de
Enoque. O Reino da Trindade combina com o
sétimo céu de Enoque, com seu Trono de Deus, e
a Região Angelical combina com seu sexto céu.
Seria possível dizer que o Elemento Fogo e o
Firmamento combinam com os céus de luminárias
e hostes de Enoque. Apesar de também serem
mencionados por Enoque, o Ar e o Éter estão
abaixo de seu primeiro céu.
Talvez seja significativo o fato de Bede relacionar
o terceiro céu como o Olimpo. O Olimpo é bem
conhecido como a montanha onde residiam os
deuses gregos. Segundo o Quinto Canto do
Bhãgavata Purãna, Brahmapuri e as residências de
oito devas preeminentes estão situadas no cume
de uma montanha em Ilãvrta-varsa chamada
Meru, e por isso o monte Meru corresponde ao
Olimpo grego. De tal forma, se Ilãvrta-varsa
corresponde ao terceiro céu de Enoque, então
também é razoável dizer que este terceiro céu
corresponde ao Olimpo grego.
Embora seja difícil entender a estrutura védica dos
sistemas planetários superiores do ponto de vista
da experiência terrestre, é fácil entender as
descrições védicas dos habitantes destes sistemas
e de sua disposição de espírito predominante.
Sendo assim, podemos comparar este
entendimento ao que podemos deduzir acerca da
disposição de espírito da senhora de Fátima pelo
depoimento das crianças que a viram.
Eis uma descrição da visita de uma pessoa
chamada Gopa Kumãra ao terceiro sistema védico
acima da Terra, chamado Maharloka:
Comecei minha mantra-japa com o intuito
exclusivo de encontrar aquele grande Deus e, em
poucos dias, fui levado por um avião ao Maharloka,
onde em tudo pude constatar a veracidade das
palavras de Brhaspati. Pude sentir prevalecendo,
naquele Maharloka, a pureza excelente da
felicidade, da majestade e do bhajana, nem sequer
sonháveis nos três mundos. É praticamente
impossível descrever em palavras a sensação de
prazer daí resultante. Quando almas devotadas
como Bhrgu e outros Ris começam a realizar
milhares e milhares de mahã-yajnas, de dentro do
fogo do yajna, Sri Visnu, a Deidade que preside o
yajna, surge a brilhar com refulgência
transbordante para partilhar, com todo deleite, das
oferendas. Aquela manifestação de Visnu como a
Deidade do yajna é brilhante como dez milhões de
sóis.
Esta descrição é um trecho do Brhad-bhãgavatãmrtam, livro escrito por Srila Sanãtana
Gosvãmi no século XVI d.C. Gopa Kumãra iniciou
sua jornada para Maharloka saindo de Svargaloka,
o segundo céu. Não surpreende o fato de ele ter
feito a jornada num "avião", escolha evidente do
tradutor para o termo vimãna.
O termo mantra-japa se refere à prática da
recitação repetida de breves orações compostas
dos santos nomes do Senhor. Esta é uma prática
védica bastante comum, sendo comparável à
prática católica de fazer recitações semelhantes
usando as contas do rosário. Talvez seja
significativo que as mensagens transmitidas às
crianças em Fátima enfatizassem a importância
desta prática e que a luminosa senhora se
autodenominasse a Senhora do Rosário.
As mensagens de Fátima enfatizavam ainda a
importância de se realizar sacrifício para Deus. Na
passagem onde se descreve Maharloka, "o grande
Deus" é Visnu, que é o Ser Supremo, e não
simplesmente um dos devas. A atividade principal
em Maharloka parece ser ofertar sacrifícios,
chamados yajnas, a Visnu. Isto é feito pelo antigo
método de se oferecer artigos, tais como frutas e
flores, a um fogo sagrado. Entretanto, em
Maharloka, o próprio Visnu surge de dentro do
fogo sob uma forma de brilhante refulgência para
aceitar em pessoa as oferendas de Seus devotos.
Isto mostra a diferença em qualidade entre
Maharloka e a Terra.
Logo, do ponto de vista védico, é perfeitamente
possível que as revelações de Fátima fossem
autênticas e emanassem de um dos "céus", tais
como Maharloka. Outro ponto de apoio para esta
idéia é o fato de os seres destes sistemas
celestiais serem, segundo se diz, livres das dores e
doenças terrestres. Porém, segundo consta, eles
ficam compadecidos ao contemplarem a vida
miserável das pessoas do sistema terrestre. Em
conseqüência disto, envidam diversos esforços no
sentido de elevar a consciência dos terrestres de
modo que estes possam ser transferidos a
sistemas superiores, e às vezes aparecem
pessoalmente na Terra com este fim. Este é, de
fato, o tema principal das mensagens de Fátima.
Pela perspectiva védica, no universo há muitos e
diversificados grupos de seres humanóides, com
costumes e mentalidades também bastante
diferenciados. Logo, é de se esperar que o contato
com os seres pertencentes a esses diversos
grupos venha a resultar numa ampla variedade de
experiências. Fátima parece ser candidata a uma
visita de seres de um sistema planetário superior.
9
O caminho penoso
Muitos dos contatos com óvnis analisados em
capítulos anteriores resultaram traumáticos e
amedrontadores para suas testemunhas
principais, e muitos envolveram efeitos físicos
posteriores, tais como ferimentos e infecções
incomuns. Na maioria destes casos, porém, as
pessoas não pareciam estar sendo feridas de
forma deliberada ou aterrorizadas com ameaças
de violência. Mas existem casos de contato com
óvnis que apresentam, de fato, um aspecto
negativo e violento, incluindo alguns que fazem
lembrar histórias de horror góticas. Há ainda
eventos misteriosos, como as notórias mutilações
de gado, de qualidade sinistra e ameaçadora e
indiretamente associados aos óvnis. Como este
aspecto sinistro é uma parte importante do
fenômeno ufológico, farei uma breve análise dele
neste capítulo. Pela forma como se apresenta, ele
também se enquadra no protótipo védico de vida
dentro do universo material.
Casos de monstros peludos
O psiquiatra Berthold Schwarz investigou um caso
da categoria de horror gótico, ocorrido perto de
Greensburg a oeste da Pensilvânia em 25 de
outubro de 1973. Por volta das 21 horas, um
fazendeiro chamado Stephen Pulaski e pelo menos
15 outras testemunhas avistaram uma brilhante
bola vermelha sobrevoando um campo. Pulaski e
dois meninos de dez anos foram de carro até o
campo investigar aquilo. Pulaski levava uma
espingarda consigo. Ao se aproximarem, a luz dos
faróis foi ficando fraca enquanto eles viam o objeto
descer na direção do campo. Seguindo a pé pelo
topo de uma colina, viram o brilhante objeto
cintilando com uma luz branca e alternando
pousos no campo com sobrevôos bem acima dele.
Segundo disse Pulaski, o objeto parecia ter cerca
de trinta metros de diâmetro. Era abobadado e
fazia um barulho de cortador de grama.
Enquanto observavam o objeto, um dos meninos
viu, caminhando rente a uma cerca, um vulto,
acima do qual Pulaski atirou um foguete
sinalizador. Nisto, revelaram-se duas criaturas que
se destacavam trinta ou sessenta centímetros
acima da cerca de dois metros. Ambas as criaturas
tinham braços compridos pendendo quase até o
solo e eram recobertas por uma pelugem
comprida e escuro-acinzentada. Tinham olhos
amarelo-esverdeados e emanavam um odor forte
— como de borracha queimando. Pareciam querer
se comunicar fazendo sons lamuriantes como o
choro de um bebê.
Pulaski deu três tiros na criatura maior, que reagiu
gemendo e erguendo o braço direito. Naquele
momento, a nave brilhante sumiu, deixando uma
cintilante área esbranquiçada no campo, e um dos
meninos fugiu de medo. As criaturas se viraram
devagar e caminharam de volta mata adentro.
Embora não fossem vistas de novo, mais tarde,
quando os investigadores do WCUFOSG, grupo de
estudo de óvnis de Westmoreland, juntaram-se a
Pulaski, um cão passou a seguir a pista de algo
invisível e diversos membros do grupo sentiram
um forte cheiro de enxofre ou de alguma outra
substância química.
Nessa altura, Pulaski se enfureceu e saiu correndo
ao redor da área, dando golpes violentos com os
braços e rosnando como um animal. Teve visões
de um homem parecido com o Ceifeiro, ouviu seu
nome sendo chamado da mata e fez declarações
confusas, tais como: "Se o homem não tomar jeito,
o fim não tardará." Depois, desmaiou.
Tendo examinado Pulaski, o Dr. Schwarz concluiu
não haver precedente para tal comportamento
desorientado em seu desenvolvimento psicológico.
Pulaski jamais experimentara estados dissociados
de transe, não apresentando, tampouco, distúrbios
convulsivos tais como a epilepsia do osso
temporal. No entanto, tinha de fato um histórico
de violência de sua época de escola, sendo ainda
um caçador pronto a lançar mão de sua
espingarda sempre que se via diante de uma
situação ameaçadora e desconhecida. A pressão
da situação apavorante, concluiu Scharwz,
provocou a temporária alteração de Pulaski,
induzindo-o a um estado psicológico dissociado
conhecido como fuga.
Segundo salientou Scharwz, este caso foi um de
uma epidemia de pelo menos 79 casos de
"criaturas" ocorridos numa área de seis condados
a oeste da Pensilvânia em 1973, conforme
documentados pelo WCUFOSG. Em todos estes
casos, as criaturas eram entidades lupinas que
apareciam e desapareciam de forma misteriosa,
deixando poucos vestígios de sua existência.
Segundo alguns relatos, as criaturas deixavam
pistas; segundo outros, elas emitiam odores
fétidos. Em ainda outros casos, elas teriam matado
galinhas, esquartejado os traseiros de um cão são-bernardo e cortado a garganta de um veado, mas
não houve relatos de danos a humanos.
Que são estas criaturas? A maneira mais fácil de
explicar a existência de tais seres seria dizer que
não passam de fantasias de imaginações
sobrecarregadas. Mas ainda faltaria explicar o
motivo para ter havido um surto de incidentes com
criaturas bizarras numa ampla região geográfica
durante um espaço de tempo específico. Que teria
feito as imaginações das pessoas se
sobrecarregarem desta maneira particular numa
área de seis condados do oeste da Pensilvânia?
Para podermos entender estas entidades,
precisamos responder a duas perguntas. A
primeira: qual é o status ontológico delas? Ou seja,
de que são feitas e qual é a sua origem? A
segunda: por que razão surgem criaturas que
parecem talhadas para invocar terror em quem as
vê?
A natureza evasiva, tanto das criaturas quanto do
óvni que as acompanha, levou Schwarz a
especular quanto à possibilidade de elas serem
materializadas e em seguida desmaterializadas
por alguma intervenção inteligente. Como outro
exemplo de tal materialização, ele mencionou um
relato de Pierre van Passen sobre como "seus
pastores alemães lutaram ferozmente com um cão
poltergeist negro, até que um dos pastores
alemães caiu morto". Assim como no caso Pulaski,
este exemplo envolve tanto o fenômeno
paranormal quanto a violência. Faz lembrar um
dos antigos temores que as pessoas nutriam de
fantasmas, bruxaria e magia negra.
Um exemplo afim de violência paranormal consta
no relato, feito no Bhãgavata Purãna, sobre um
certo Sudaksina, que se vingou do assassinato de
seu pai, um antigo rei de Benares. Sudaksina
realizou um ritual chamado abhicara, cujo objetivo
é invocar um ser demoníaco do fogo de sacrifício e
mandá-lo atacar algum inimigo. Isto teve o
seguinte resultado:
Em seguida, a fogueira se ergueu do centro do
altar, assumindo a forma de uma aterrorizante
criatura nua. A barba e o tufo de cabelo da criatura
ígnea eram como o cobre derretido, e seus olhos
emitiam cinzas ardentes. Seu rosto, de aspecto
horrendo, tinha presas e terríveis cenhos
arqueados e estriados. Enquanto lambia os cantos
da boca com a língua, o demônio sacudia seu
tridente em chamas.
Esta descrição faz sem dúvida lembrar histórias
ocidentais antigas e medievais envolvendo magia,
sendo fácil descartá-la por julgá-la um mero conto
de fadas. Porém, a criação do demônio ígneo se
baseia num princípio racional, segundo o qual
formas sutis preexistentes podem se manifestar
no nível físico grosseiro. No Capítulo 7 (páginas
311-13), comparei a visão védica do universo ao
sistema operacional de um computador, mediante
o qual pessoas com o status correto podem
acessar programas digitando as palavras-chave
apropriadas. Num sistema computadorizado de
realidade virtual, com o software correto seria
possível evocar monstros ígneos por meio da
prática de rituais.
O universo védico, descrito como um produto de
mãyã, ou ilusão, pode ser considerado um sistema
universal de realidade virtual. Um dos significados
da palavra mãyã é magia. Quando um mágico
gera uma ilusão, como a de serrar uma mulher
pela metade, ele faz uso de uma aparelhagem
adequada. De forma semelhante, o mundo ilusório
criado por um sistema de realidade virtual
depende do computador enquanto aparelhagem e
do seu programador enquanto mágico.
No universo védico, o papel do computador é
representado por uma energia fundamental
chamada pradhãtta. Esta energia é ativada por
uma expansão do Supremo conhecida como Mahã-Visnu, que atua como o programador universal. A
pradhãna ativada produz formas sutis de energia e
estas, por sua vez, produzem a matéria grosseira.
Pela perspectiva védica, ambos os tipos de energia
são comparáveis às manifestações irreais
produzidas por um sistema de realidade virtual.
Podemos, porém, considerar estas energias reais
porque elas se comportam de forma coerente e
confiável desde que o sistema universal esteja em
funcionamento.
Embora, com nossos sentidos comuns, não seja
possível perceber a energia sutil diretamente, ela
é um produto do sistema universal tanto quanto o
é a matéria grosseira, sendo, por isso, tão
substancial quanto a matéria grosseira. Em certo
sentido, ela é mais substancial ainda, visto que a
matéria grosseira é gerada a partir da energia
sutil.
Na história de Sudaksina, o demônio ígneo já
existia com um corpo de energia sutil, cuja forma
serviu de base para a geração, em caráter
temporário, da ígnea forma material grosseira. É
possível que as criaturas da Pensilvânia ou o negro
cão poltergeist fossem manifestações
semelhantes.
Apesar de esta ser uma tentativa de explicação do
status ontológico destes seres, que podemos dizer
acerca dos motivos subjacentes a suas aparições
repentinas e suas formas aterrorizantes de
comportamento? Podemos obter algum
esclarecimento a este respeito nos voltando para a
famosa conversa entre Krsna e Arjuna chamada
Bhagavad-gitã. Segundo afirma este texto, as
manifestações materiais de vida e consciência são
geridas por três princípios fundamentais: sattva,
rajas e tamas. Traduzidos, estes princípios são
chamados de modos da bondade, paixão e
ignorância, os quais Krsna definiu como segue:
Ó impecável, o modo da bondade, sendo mais
puro que os demais, é esclarecedor e nos livra de
todas as reações pecaminosas. Aqueles situados
neste modo se condicionam a um sentido de
felicidade e conhecimento.
O modo da paixão nasce de ilimitados desejos e
aspirações, Ó filho de Kunti, motivo pelo qual a
entidade viva corporificada fica atada a fruitivas
ações materiais.
Ó filho de Bharata, já o modo da escuridão,
nascido da ignorância, é o delírio de todas as
entidades vivas corporificadas. Os resultados
deste modo são a loucura, a indolência e o sono,
que atam a alma condicionada.
Um possível equívoco em relação à palavra
bondade, neste caso, é achar que os três modos
têm algo a ver com distinções éticas entre o bem e
o mal. Não sendo este o entendimento correto,
seria melhor encarar os modos (chamados gunas,
ou cordas, em sânscrito) como programas
psicológicos básicos, reconhecíveis por seus
característicos sintomas comportamentais. Sattva,
também traduzível como existência pura, refere-se
ao reconhecimento introspectivo da própria
existência por meio de uma autoconsciência.
Rajas, traduzível como colorido, avermelhado e
empoeirado, refere-se à contaminação da
consciência por desejos apaixonados. Tamas, cujo
significado literal é escuridão, refere-se à
tendência dos seres conscientes de caírem em
ilusão profunda.
Segundo explica Krsna, é contínua a interação dos
três modos nas mentes dos indivíduos e, em
conseqüência disto, diferentes modos sobressaem
em momentos diferentes. Conforme o
entendimento védico, diferentes raças de
humanóides tendem a se deixar influenciar por
diferentes combinações dos três modos. Logo, a
tendência predominante dos seres humanos da
Terra é de estarem no modo da paixão, com
alguma mistura de bondade e ignorância. A
bondade é o modo predominante dos devas e rsis
de planetas superiores e, portanto, se comparados
a nós, eles são muito pacíficos e encantados pelo
conhecimento.
Entre os humanóides védicos, existem vários
grupos cujo modo predominante é a ignorância.
Em geral, são conhecidos como bhütas (um termo
que, bem a calhar, se pode traduzir como
entidades). Entre eles, estão incluídos os pisãcas,
yaksas, rãksasas e vinãyakas, bem como as
dãkinis, yãtudhãnis e kusmãndas. Segundo consta,
estes seres vivem sob forma sutil na Terra e na
região logo acima da atmosfera da Terra. São
conhecidos por seus poderes místicos, inclusive o
de aparecer e desaparecer subitamente sob forma
material grosseira.
Segundo diz o Bhãgavata Purãna, estes seres são
conhecidos por causarem distúrbios ao corpo e aos
sentidos. Também provocam perda de memória e
pesadelos e incomodam particularmente as
crianças. Sem dúvida, é freqüente e menção a
estes problemas em relatos sobre raptos por óvnis.
O Bhãgavata Purãna prossegue dizendo ser
possível espantar estes seres cantando o nome de
Visnu (Deus). Em geral, o cantar dos santos nomes
do Senhor Supremo pode neutralizar a influência
de seres em tamo-guna.
O tamo-guna, ou modo da ignorância, não
pressupõe necessariamente uma falta de
conhecimento ou capacidade. Na verdade, amplos
conhecimentos de assuntos materiais podem se
compatibilizar com a ilusão profunda. O Projeto
Manhattan da Segunda Guerra Mundial é um bom
exemplo disto. Nele, os melhores físicos da época
usaram seu conhecimento mais avançado para
criar uma arma que até hoje ameaça a segurança
do mundo inteiro.
Seria possível argumentar ter havido bom motivos
para se construir e distribuir a bomba atômica. Por
exemplo: ela salvou milhões de vidas americanas
e japonesas que teriam sido deitadas a perder
numa invasão do Japão e, se os americanos não
tivessem se empenhado em desenvolvê-la, então
os japoneses ou os alemães a teriam obtido
primeiro. Mas este argumento só faz demonstrar
que uma ilusão pode conter uma estrutura lógica.
Uma ilusão pode ser poderosa e irresistível ao
ponto de ser difícil perscrutá-la e perceber a
realidade.
Na literatura védica, Maya Dãnava é o epítome de
uma pessoa avançadíssima em conhecimento
material, por um lado, e atoladíssima na ilusão,
por outro. Apesar de ele ser famoso por ter criado
maravilhas tecnológicas, tais como o vimãna do rei
Sãlva descrito no Capítulo 6, seus esforços são
quase sempre dedicados a metas ilusórias ou
destrutivas. Em geral, segundo encontramos em
relatos védicos, a tendência dos seres no modo da
ignorância é de se interessarem pela aquisição de
tecnologia avançada e poderes místicos.
Muitas manifestações de óvnis parecem não
apenas mostrar os sintomas do tamo-guna como
também envolver um avançado domínio de
poderes místicos e tecnologia material. Desta
maneira, as criaturas vistas por Stephen Pulaski
eram monstros amedrontadores que apareciam e
desapareciam, estando acompanhadas por um
esquisito óvni cintilante, também desaparecido
repentinamente.


CONTINUA.......


2 comentários:

Vilo. disse...

Bom dia! Entrei no blog, e gostaria de saber como faço ou o que preciso para fazer o download dos livros postados.Gratião sempre.Vilo

Ufo Files disse...

olá vilo tudo bem?
então vc poderia salvar a pagina usando o doro pdf ou selecionar todo texto e copiar para word ou outro programa... e obrigado por visitar o blog...