sexta-feira, agosto 17, 2012

Coleção Zecharia Sitchin Livro 8 Encontros Divinos - 3º PARTE


........Então, cuidando do jardim, Sargão não acreditou em seus olhos:
Um dia, a rainha,
depois de atravessar os céus, atravessar a Terra,
Inana...
Depois de atravessar Elam e Shubur,
depois de atravessar...
A hierodula se aproximou, cansada, e adormeceu.
Eu a vi da fímbria de meu jardim;
eu a beijei e copulei com ela.
Inana, em vez de ficar zangada, descobriu que gostava de Sargão. A
Suméria, com sua civilização de um milênio e meio de idade, àquela
altura precisava de um pulso forte em seu reinado - um reinado que,
depois da glória de Uruk, ficava mudando sua capital; tais mudanças
levavam a conflitos entre as cidades e, eventualmente, entre seus
deuses-patronos. Enxergando em Sargão um homem de ação e
decidido, Inana o recomendou como o rei seguinte "sobre toda a
Suméria e a Acádia". Ele também se tornou seu amante constante.
Como Sargão afirma em outro texto, conhecido como a Crônica de
Sargão, "Quando eu era jardineiro, Ishtar me ofereceu seu amor, e
por 54 anos exerci o reinado".
Foi no reinado dos sucessores de Sargão como reis da Suméria e
da Acádia que Inana/Ishtar incorporou as conjugações com o rei às
cerimônias do Festival do Ano-Novo, formalizando-as no rito do
Casamento Sagrado.
Em tempos antigos, eram os deuses que se reuniam para reviver e
recontar, na ocasião do Ano-Novo, o épico da Criação e a odisséia
dos Anunnaki ao chegarem e ficarem na Terra; o festival era
chamado A.KI.TI - "Vida Construída na Terra". Depois que o reinado
foi introduzido, e depois que Inana começou a convidar o rei para ir
até a sua Gigunu, uma reencenação da morte de seu parceiro
sexual - e depois sua substituição pelo rei - foi incorporada aos
rituais do festival. A essência desse procedimento era encontrar uma
forma de fazer o rei passar a noite com a deusa sem acabar morto...
De tal resultado dependia não apenas o destino pessoal do rei mas
também o destino da terra e de seu povo - prosperidade e
abundância, ou a falta delas no ano que entrava.
Pelos primeiros quatro dias do festival, apenas os deuses
participavam da reencenação. No quinto dia, o rei entrava em cena,
liderando os anciãos e outro dignitários numa procissão ao longo de
um Caminho de Ishtar especial (na Babilônia, esse caminho assumia
proporções monumentais e grandeza arquitetônica capaz de
impressionar até os dias de hoje; foi reconstruído no Museu
Vorderasiatisches, em Berlim). Ao chegar ao templo principal, o rei
era recebido pelo sumo sacerdote, que retirava todas as insígnias
reais e as colocava perante a divindade no Santo dos Santos.
Depois, voltando-se para o rei destronado, o sumo sacerdote batia
em seu rosto e o fazia ajoelhar-se para uma cerimônia de expiação
na qual o rei precisava recitar uma lista de pecados e procurar o
perdão divino. Os sacerdotes, então, o levavam para fora da cidade,
a um poço de morte simbólica; o rei ficava lá, aprisionado, enquanto
os deuses decidiam seu destino. No nono dia, ele saía, recebia seus
símbolos de realeza e roupas reais para conduzir uma procissão de
volta à cidade. Lá, ao anoitecer, banhado e perfumado, ele era
conduzido à Gipar, no terreno sagrado.
Na entrada da Gigunu, ele era recebido pela criada pessoal de
Inana, que fazia um apelo especial à deusa, em nome do rei:
O sol foi dormir,
o dia passou.
Quando na cama olhares para ele,
enquanto o acaricias
Dá Vida ao rei...
Possa o rei a quem teu coração escolheu
gozar dias longos em teu colo sagrado...
Concede-lhe um reino favorável e glorioso,
dá ao trono uma fundação duradoura...
Possa o fazendeiro tornar os campos produtivos,
possa o pastor multiplicar seus rebanhos...
Que haja no palácio longa vida.
O rei, então, ficava sozinho com a deusa na Gigunu para o encontro
conjugal. Durava a noite inteira. Pela manhã, o rei saía, para que
todos vissem que sobrevivera à noite. O Casamento Sagrado
ocorrera; o rei poderia reinar por mais um ano; a terra e o povo
tinham garantida a sua prosperidade.
"O Rito do Casamento Sagrado foi celebrado com alegria e êx tase
por todo o Oriente Médio durante cerca de 2 mil anos", escreve o
grande sumeriólogo Samuel N. Kramer em O Rito do Casamento
Sagrado. Na verdade, muito depois dos dias de Dumuzi e
Gilgamesh, os reis sumérios descreviam poeticamente o êxtase
dessas memoráveis noites com Ishtar. O Cântico dos Cânticos
bíblico descreve os prazeres do amor no Ta'annugim, e vários
profetas previram a queda da "Casa de Annugim" (Casa dos
Prazeres) da "Filha da Babilônia" (Ishtar); e se torna claro para nós
que o termo em hebraico deriva do sumério Gigunu, indicando
familiaridade com a Câmara dos Prazeres e o rito do Casamento
Sagrado na metade do I milênio a.C.
Antigamente, a Gipar era a estrutura separada para a qual o deus e
sua esposa oficial se retiravam para passar a noite. Deuses que
permaneceram monógamos - Enlil, Ninurta - mantiveram essa
tradição. Ishtar, em sua cidade, Uruk, encontrava lá seu amado
Dumuzi, mas transformou a câmara interna, a Gigunu, em um lugar
de encontros únicos. As mudanças introduzidas por Ishtar - o uso da
Gipar para uma nova forma de Encontros Divinos - sugeriram idéias
a algumas divindades masculinas da época.
Alguns dos registros mais bem preservados a esse respeito
concernem a Nanar/Sin (pai de Inana/lshtar) e a Gipar em seu
terreno sagrado, em Ur. O papel representado pelo rei nos ritos de
Ishtar era desempenhado por uma Entu, uma "Dama Divina",
(NIN.DINGIR em sumério). Escavações feitas lá desenterraram os
aposentos das Entu na parte sudeste do território sagrado, não
muito longe do zigurate de Sin e nitidamente distante da habitação-templo de sua esposa, Ningal. Próxima à Gigunu das Entu, os
arqueólogos encontraram um cemitério em que gerações de Entu
haviam sido enterradas. O cemitério e as estruturas descobertas
confirmaram que a prática de ter uma "Dama Divina" ao lado da
esposa oficial estendeu-se desde os primórdios do período dinástico
até épocas neo-babilônicas - um período de tempo que excede dois
milênios.
Heródoto, o viajante e historiador grego do século V a.C., descreveu
em seus escritos (História, Livro 1,178-182) o território sagrado da
Babilônia e o templo-zigurate de Marduk (a quem ele chamava de
"Júpiter Bellus") - de forma bastante acurada, conforme demonstrou
a moderna arqueologia.
Segundo o testemunho de Heródoto:
"Na torre mais alta existe um templo espaçoso, e no interior do
templo há um leito de tamanho incomum, ricamente adornado, com
uma mesa dourada ao lado. Não existe estátua de nenhum tipo
nesse local, nem na câmara ocupada à noite por uma única mulher
nativa, que, segundo os caldeus, os sacerdotes desse deus afirmam,
é escolhida pela divindade entre todas as mulheres da terra.
"Também declaram - mas não coloco crédito nisso - que o deus vem
em pessoa até essa câmara e dorme no leito. É como a história
contada pelos egípcios sobre o que acontece em sua cidade de
Tebas, onde uma mulher sempre passa a noite no templo de Júpiter
Tebano. Nos dois casos, a mulher é proibida de ter relações com
homens. Também é esse o costume em Patara, na Lícia, onde a
sacerdotisa que faz os oráculos, durante o tempo em que é assim
empregada... é fechada no templo todas as noites."
Embora as afirmações de Heródoto dêem a impressão de que
qualquer donzela poderia estar qualificada para essa prática
generalizada, não era o que ocorria.
Uma das inscrições encontradas nas ruínas da Gipar, em Ur, foi por
uma Entu de nome Enannedu, identificada como filha de Kudur-Mabuk, um rei da cidade suméria de Larsa, por volta de 1900 a.C
"Sou magnificamente adequada para ser uma mulher-Gipar, a casa
que em lugar puro é construída para as Entu", escreveu ela. Um fato
interessante é que os objetos votivos encontrados no templo de
Ningal traziam inscrições identificando-os como presentes de
Enannedu, sugerindo a alguns estudiosos (por exemplo, Penélope
Weadock, "A Giparu de Ur") que, enquanto servia como consorte
humana do deus Nanar, a Entu também tinha de estar em bons
termos com a esposa oficial, "providenciando o conforto e os
adornos da deusa Ningal".
Os reis procuravam a posição de Entu para suas filhas. O motivo
que emerge das inscrições é que por ter tanto acesso íntimo ao
deus, a Entu podia apresentar o pedido do rei por "longos dias de
vida e boa saúde" - os mesmos pedidos feitos pelo rei na ocasião do
Casamento Sagrado com Ishtar. Com tal acesso direto ao deus da
cidade por intermédio da "Dama Divina", não é de espantar que reis
sucessivos por todo o Oriente Médio construíssem e reformassem
as Gipar em suas cidades, certificando-se de que suas filhas, e
ninguém mais, fosse a Entu. Esse ofício elevado e único era
totalmente diferente da variedade de sacerdotisas que serviam no
templo como "prostitutas sagradas", referidas pelo termo geral
Qadishtu - uma ocupação freqüentemente mencionada pela Bíblia (e
especificamente proibida para as Filhas de Israel; Deuteronômio
23:18). A Entu era diferente das concubinas que deuses (e reis ou
patriarcas) tinham, já que a Entu não podia e não tinha (por
procedimentos desconhecidos) filhos, enquanto as concubinas
podiam e tinham.
Tais regras e costumes significavam que reis que procuravam ou
reivindicavam origem divina precisavam encontrar outras formas que
não fossem descender de uma Entu (já que esta não gerava filhos)
ou de uma concubina (cujos filhos eram preteridos pelos da esposa
oficial). Não é de estranhar que durante a última época gloriosa dos
sumérios, a época da III dinastia de Ur, alguns de seus reis, imitando
Gilgamesh, afirmaram ser filhos da deusa Ninsun. O rei assírio
Senaqueribe, incapaz de fazer tal alegação, afirmou, em uma de
suas inscrições, que" a amante dos deuses, a deusa da procriação,
me olhou favoravelmente (enquanto eu ainda estava) no ventre da
mãe que me concebeu, e protegeu minha gestação; Ea providenciou
um ventre espaçoso e me concedeu entendimento penetrante, igual
ao do mestre Adapa". Como variantes, outros reis da Mesopotâmia
garantiam que esta ou aquela deusa os criou ou os amamentou.
No Egito, também, reivindicações de nascimentos divinos foram
feitos (e representados nas paredes de templos – fig. 55) por vários
reis e rainhas, especialmente durante a XVIII dinastia (1567 -1320
a.C.). A mãe do primeiro faraó dessa dinastia recebeu o título
(provavelmente póstumo) de "Esposa do deus Amon-Rá", e o título
passou de mãe para filha, sucessivamente. Quando o faraó Tutmés I
(também chamado de Tutmósis) morreu, ele deixou uma filha
(Hatshepsut) da esposa legítima e um filho com uma concubina. A
fim de legitimizar seu reino depois da morte do pai, o filho
(conhecido como Tutmés II) casou com sua meia-irmã Hatshepsut;
mas quando ele morreu, depois de um curto reinado, o único filho
que possuía era um menino ainda jovem, filho de uma mãe jovem; a
própria Hatshepsut teve uma ou duas filhas, mas nenhum homem
(Em nossa opinião, Hatshepsut, quando ainda princesa, ostentando
o título de filha do faraó, seria a bíblica Filha do Faraó que encontrou
o menino hebreu, chamando-o de "Moisés", de acordo com o
princípio divino de sua dinastia, terminando por adotá-lo como filho;
mas esse é outro assunto).

A princípio, Hatshepsut foi co-regente com seu meio-irmão (que 22
anos depois tomou-se o faraó Tutmés/Tutmósis III). Logo em
seguida, porém, ela decidiu que o poder seria apenas seu e
providenciou sua coroação como faraó (as representações nas
paredes de templo mostravam-na com uma barba falsa...).
Para legitimizar sua coroação e ascensão ao trono de Osíris,
Hatshepsut mandou registrar nos anais da Corte egípcia o seguinte,
relativo a sua mãe:
O deus Amon tomou a forma de sua majestade o rei, do marido dela
(da rainha). Então ele foi imediatamente até ela; então teve relações
sexuais com ela.
Estas são as palavras com as quais o deus Amon, Senhor dos
Tronos das Duas Terras, falou mais tarde na presença dela:
"Hatshepsut-por-Amon-criada deve ser o nome desta minha filha a
quem plantei em teu corpo... Ela irá exercer com bondade a realeza
nesta terra inteira".
Um dos mais imponentes templos reais do Egito é aquele da rainha
Hatshepsut, em Deir-el-Bahari, uma parte de Tebas no lado oeste do
Nilo (fig. 56). Uma série de rampas e terraços levava o antigo devoto
(e o moderno visitante) até o nível de magníficas colunatas (à
esquerda), onde a expedição da rainha a Punt estava representada
em relevos e murais, e (à direita) seu nascimento divino. Nessa
seção, os relevos pintados mostravam o deus Amon sendo levado
pelo deus Tot até a rainha Ahmose, a mãe de Hatshepsut. A
inscrição que os acompanhava bem podia ser considerada uma das
narrativas mais poéticas e carinhosas de um Encontro Divino sexual,
de como o deus - disfarçado como o marido da rainha - entrou no
santuário interno da câmara noturna da rainha:


Então veio o deus glorioso, o próprio Amon,
Senhor dos tronos das Duas Terras,
Quando assumiu a forma de seu marido.
Encontrou-a dormindo em seu belo santuário;
ela acordou com o perfume do deus,
riu alegremente em face de sua majestade.
Inflamado de amor, ele se apressou na direção dela;
ela o contemplou na forma de um deus,
quando ele se aproximou dela.
Ela exultou com a visão da beleza dele;
o amor dele penetrou em todos os membros dela.
O lugar ficou repleto com o doce perfume da divindade.
O deus majestoso fez a ela tudo o que ele desejou.
Ela o satisfez com o melhor de si mesma;
Ela o beijou.
Para fortalecer ainda mais sua reivindicação de realeza por ordem
divina, Hatshepsut afirmou que foi amamentada pela deusa Hátor,
senhora do sul do Sinai, onde ficavam as minas de turquesa, cujo
nome egípcio Hat-Hor ("Casa/Habitação de Hórus") sinalizava seu
papel em criar e proteger o jovem deus depois que seu pai
Osíris, foi assassinado por Seth. Hátor, cujo apelido era A Vaca, era
representada com os chifres de uma vaca, ou alternativamente come
uma vaca; as decorações do templo de Hatshepsut mostravam a
rainha mamando na deusa-vaca, sugando-lhe o úbere (fig. 57).


Na ausência de uma alegação de semi-divindade, o filho e sucessor
de Tutmés III, chamado Amenófis II, também afirmou ter sido
cuidado por Hátor, e ordenou que assim fosse representado nas
paredes do templo. Mas um sucessor, Ramsés II (1304-1237 a.C.),
afirmou outra vez que seu nascimento foi divino ao registrar a
seguinte revelação secreta do deus Ptah ao faraó:
Eu sou teu pai...
Assumi minha forma de carneiro, Senhor de Mendes,
e concebi a ti, no interior de tua augusta mãe.
Mil anos mais tarde, como já mencionamos, Alexandre, o Grande,
escutou os rumores de sua origem semi-divina, concebida quando
sua mãe teve um Encontro Divino em seu quarto com o deus Amon.

Quando os Deuses Envelheciam
A imortalidade dos deuses que os terrestres queriam obter não
passava, na realidade, de uma longevidade aparente, devida aos
diferentes ciclos da vida nos dois planetas. Quando Nibiru
completava uma órbita ao redor do sol, alguém nascido lá teria
apenas um ano de idade. Um terrestre nascido no mesmo instante
teria, entretanto, 3.600 anos de idade ao final de um ano em Nibiru,
pois a Terra teria orbitado ao redor do Sol 3600 vezes.
Como o fato de vir à Terra e aqui permanecer afetava os Anunnaki?
Teriam sucumbido ao tempo orbital mais curto, e dessa forma aos
ciclos mais curtos do nosso planeta?
Um caso que pode ilustrar isso foi o que aconteceu a Ninmah. Ao
chegar à Terra como chefe dos médicos, ela era jovem e atraente
(veja fig. 19); tão atraente que quando Enki - experiente em matéria
de sexo - a viu nos alagados, "seu falo regou os canais". Ela era
representada ainda jovem, com os cabelos longos na época em que
(como Ninti, "Senhora da Vida") ajudou a criar o Adão (veja fig. 3).
Quando a Terra foi dividida, ela recebeu a região neutra na
península do Sinai (e foi chamada de Ninharsag, "Senhora dos
Picos"). Mas na ocasião em que Inana foi elevada à preeminência e
tornada deusa-padroeira da civilização do Indo, também tornou o
lugar de Ninmah no panteão dos doze. Nessa altura, os Anunnaki
mais jovens, que se referiam a Ninmah como Mami "mãe velha", a
chamavam de "A Vaca" pelas costas. Artistas sumérios a
representaram como uma deusa envelhecendo, com chifres de vaca
(fig. “a”).
Os egípcios chamavam a Senhora do Sinai de Hátor e sempre a
representaram com chifres (fig. “b”).
À medida que os deuses mais jovens quebravam tabus e
reestruturavam os Encontros Divinos, os deuses antigos pareciam
mais arredios, menos envolvidos, interferindo no cenário apenas
quando os eventos estavam saindo fora de controle. Os deuses,
sem dúvida, envelheceram.


9
VISÕES ALÉM DA IMAGINAÇÃO
O popular seriado Além da Imaginação manteve telespectadores
fiéis durante muitos anos (e ainda mantém, em suas
reapresentações) ao colocar os heróis dos episódios em
circunstâncias obviamente perigosas - um acidente fatal, uma
doença terminal, um aprisionamento na dobra do tempo - das quais
eles miraculosamente saíam incólumes porque ocorria alguma
alteração de destino. Na maior parte das vezes, o milagre era o
trabalho de uma pessoa, aparentemente comum, que provava seus
poderes extraordinários - um "anjo", se você desejar.
Mas a fascinação do espectador era o Além da Imaginação; no final,
depois de tudo, quando o herói do episódio - e com ele o espectador
- ficava incerto sobre o que acontecera. Teria sido o perigo apenas
imaginário? Teria sido apenas um sonho - e assim o "milagre" que
resolvera o final inevitável não teria sido milagre; o "anjo" também
não teria sido anjo; a dobra de tempo não o levara a outra dimensão,
pois nada acontecera, na realidade...
Em alguns episódios, entretanto, a surpresa do herói e do
telespectador recebia um impacto final que tomava o programa
digno de seu nome. No fim, quando o herói e o telespectador estão
quase certos de que ele imaginou tudo, ou foi um sonho, ou um
truque de sua mente consciente, uma história que não aconteceu no
mundo real, entra em cena um objeto. Algumas vezes, durante o
episódio, o herói apanhava, ou ganhava, um pequeno objeto que era
colocado no bolso sem pensar, ou um anel colocado no dedo, ou um
talismã usado como colar. Como todos os outros aspectos da
história imaginária e irreal, o objeto teria de ser "não-existente".
Quando o protagonista e o espectador estão convencidos de que
tudo se passou apenas na imaginação, o herói descobre o objeto em
seu bolso ou o anel no dedo - uma realidade que sobrou da fantasia.
Assim, Rod Serling nos mostrava que entre a realidade e a não-realidade, entre o racional e o irracional, havíamos passado Além da
Imaginação.
Quatro mil anos atrás, um rei sumério encontrou-se Além da
Imaginação, como no seriado, e registrou sua experiência em dois
cilindros de argila (agora expostos no Museu do Louvre, em Paris).
O nome do rei era Gudéia, e ele reinou na cidade suméria de
Lagash por volta de 2.100 a.C. Lagash era o "centro de culto" de
Ninurta, o filho principal de Enlil, que vivia com sua esposa, Bau, no
recinto sagrado da cidade, chamado Girsu - de onde veio seu epíteto
local, NIN.GIRSU, "Senhor de Girsu". Por volta dessa épo ca, devido
a uma intensificação da luta pela supremacia na Terra que colocava
Marduk, o primogênito de Enki, contra o clã de Enlil, Ninurta/Ningirsu
obteve a permissão do pai para construir um novo templo no Girsu -um templo tão magnífico que expressasse o direito de Ninurta à
supremacia. Da forma como aconteceu, o plano de Ninurta era
construir na Mesopotâmia um templo incomum, que imitasse a
pirâmide de Gizé por um lado e, por outro, em sua enorme
plataforma, que tivesse círculos de pedra que servissem como um
sofisticado observatório astronômico. A necessidade de encontrar
um devoto fiel e confiável para realizar tais planos grandiosos e
seguir inteligentemente os projetos dos Arquitetos Divinos serviu
como histórico para os eventos mais tarde registrados por Gudéia.
A série de acontecimentos iniciou-se com um sonho que Gudéia
teve certa noite; foi uma visão de Encontros Divinos tão vívida que
transportou o rei Além da Imaginação; quando Gudéia acordou, um
objeto que ele vira apenas no sonho encontrava-se agora
fisicamente em seu colo. De alguma forma, a fronteira entre
realidade e irrealidade havia sido atravessada.
Perplexo com o ocorrido, Gudéia pediu e recebeu permissão para
procurar o conselho do oráculo da deusa Nanshe em sua "Casa de
Resolver-Destinos", localizada em outra cidade. Gudéia chegou ao
local de barco e ofereceu preces e sacrifícios, a fim de que ela
resolvesse o enigma da visão no sonho. Gudéia contou-lhe o que
acontecera (lemos isso na coluna IV do cilindro" A", nos versos 14-20, conforme transcrito por Ira M. Price, em "As Inscrições dos
Grandes Cilindros A e B de Gudéia" (fig. 59a).

No sonho (eu vi)
um homem brilhante, refulgindo como o Céu
- grande no Céu, grande na Terra -,
que, por seu chapéu, era um Dingir (deus).
Ao seu lado estava o divino Pássaro da Tempestade;
como uma tempestade devoradora sob seus pés,
dois leões se abaixavam, à direita e à esquerda.
Ele me mandou construir seu templo.
Seguiu-se uma premonição celestial, cujo significado ele contou à
deusa que interpretava sonhos, pois não entendia: o sol sobre
Kishar (o planeta Júpiter) foi visto subitamente no horizonte. Uma
mulher então apareceu e entregou a Gudéia instruções celestes
(coluna IV, versos 23-26):
Uma mulher -Quem era? Quem não era?
A imagem da estrutura de um templo
ela carregava na cabeça -em sua mão ela segurava um buril sagrado;
a tábua da estrela favorável do céu
ela trazia.
Enquanto a “mulher” consultava a tábua estelar, um terceiro ser
divino apareceu (seguimos a coluna V, versos 2-10), era um homem:
Um segundo homem apareceu, ele tinha o
ar de um herói dotado de força.
Uma estela de lápis-lazúli ele segurava na mão.
O projeto de um templo ele desenhou ali.
Colocou à minha frente uma cesta divina;
sobre ela colocou um molde puro de tijolos;
o tijolo do destino encontrava-se em seu interior.
Um grande vaso estava perante mim;
sobre ele estava gravado o pássaro Tibu, que irradia
um brilho dia e noite.
Um jumento se abaixava à minha direita.
O texto sugere que todos esses objetos de alguma forma se
materializaram durante o sonho, mas em relação a um deles não
havia dúvida que passara da dimensão do sonho para a realidade
física; quando Gudéia acordou, encontrou a estela de lápis-lazúli em
seu colo, com o projeto do templo rabiscado em cima. Ele
comemorou o milagre em uma de suas estátuas. A estátua mostra
tanto a estela quanto o Buril Divino com o qual o projeto fora
esboçado. Estudos modernos sugerem que, de forma engenhosa, as
marcas nas margens são escalas para construir os sete estágios do
templo com apenas um desenho.
Os outros objetos, que também podem ser materializados, são
conhecidos por intermédio de vários achados arqueológicos. Outros
reis sumérios representaram a si mesmos com a “sagrada cesta
divina” que o rei carregava para iniciar a sagrada construção (fig.
61a); moldes de tijolos e tijolos com uma afirmação de "destino"
foram encontrados (fig. 61b); e um vaso de prata que ostentava a
imagem do pássaro Tibu de Ninurta foi encontrado entre as ruínas
da Girsu de Lagash (fig. 61c).



Repetindo um por um os detalhes da visão-sonho da forma narrada
por Gudéia, a deusa do oráculo continuou, dizendo ao rei o que
significava. O primeiro deus a aparecer, disse ela, era
Ninurta/Ningirsu anunciando a Gudéia que ele fora escolhido para
construir o novo templo: "Ele ordenou que construas o novo templo".
O nome seria E.NINNU - "Casa dos Cinqüenta", para significar que
Ninurta possuía o direito de reivindicar junto a Enlil o posto de 50, e
assim seria o único abaixo de Anu, cujo número era 60.
A visão da aurora zodiacal de Júpiter "é o deus Ningishzidda", e
tinha a intenção de mostrar ao rei o ponto exato nos céus para onde
os observatórios do templo deviam ser orientados, indicando
precisamente o local em que o Sol irá nascer no dia de Ano-Novo. A
mulher que apareceu na visão carregando na cabeça a imagem da
estrutura de um templo era a deusa Nisaba; com seu buril numa das
mãos e o mapa celeste na outra, "ela o instruiu para construir o
templo de acordo com o Planeta Sagrado". E o segundo homem,
explicou Nanshe, era o deus Nindub; "a ti os projetos do templo ele
entregou".
Ela também explicou a Gudéia o significado dos outros objetos que
ele vira. A cesta significava o papel de Gudéia na construção; o
molde e o "tijolo do destino" indicavam o tamanho e a forma dos
tijolos a serem usados, moldados em argila; o pássaro Tibu, que
"brilha muito dia e noite", significava que, devido à construção, "não
haverá bom sono para ti". Se isso não foi o suficiente para empanar
a alegria de Gudéia para a tarefa sagrada, a interpretação do
simbolismo do jumento de carga deveria ser, pois significava que,
como uma besta de carga, Gudéia deveria trabalhar pesado na
construção do templo...
De volta a Lagash, Gudéia considerou as palavras da deusa e
examinou a estela divina que se materializara em seu colo. Quanto
mais ele pensava a respeito das instruções, mais ele ficava
espantado, sobretudo em relação à orientação astronômica e aos
prazos. Procurou compreender os segredos da construção do
templo indo ao templo existente "todos os dias, e de novo à hora de
dormir". Ainda perplexo, entrou no Santo dos Santos do templo e
pediu a "Ningirsu, filho de Enlil", para orientação adicional: "Meu
coração permanece ignorante, o significado está tão longe de mim
quanto o meio do oceano; como o meio do céu está distante de
mim".
Pediu um segundo sonho e o recebeu. No que os estudiosos
chamam de segundo sonho de Gudéia, a posição do rei e a da
divindade encontrada parecem ser cruciais. O texto (coluna IX,
versos 5-6) relata que, "pela segunda vez, prostrado, o deus
assumiu sua posição". O termo sumério usado, NAD.A, significa
mais do que "deitar-se no chão, deitar-se esticado", isto é,
"prostrado". Traz também um elemento de não enxergar por ter o
rosto voltado para baixo, de uma forma que assegure que ele não irá
olhar para a divindade. Por outro lado, o deus precisava posicionar-
se próximo à cabeça de Gudéia. Se Gudéia adormecesse, ou
estivesse em transe, o deus realmente falaria com ele? Ou a posição
próxima à cabeça tinha a intenção de facilitar algum outro método
metafísico de comunicação? O texto não deixa claro esse ponto; não
afirma que Gudéia recebeu promessas de constante ajuda divina,
sobretudo por parte do deus Ningishzidda. A ajuda dessa divindade,
a quem indicamos como o deus egípcio Tot, parecia especialmente
importante para o deus Ninurta/Ningirsu, como seria a homenagem
que Magan (Egito) e Meluhha (Etiópia) prestariam a Ninurta, uma
vez que seu novo templo proclamasse seu posto de 50, "os
cinqüenta nomes de Domínio concedidos por Anu". Por isso,
explicou ele a Gudéia, o templo deveria chamar-se EN.NINNU -"Casa dos Cinqüenta". Prometeu a Gudéia que o novo templo não
iria apenas glorificar a divindade, mas traria também fama e
prosperidade para toda a Suméria e Lagash em especial.
A divindade, então, explicou a Gudéia vários detalhes da estrutura
do templo, incluindo o projeto dos locais especiais para acomodar o
Divino Pássaro Negro e a Arma Suprema; a Gigunu para o casal
divino; uma câmara de oráculo e um lugar para a reunião dos
deuses. Detalhes dos utensílios e mobílias também foram dados.
Então o deus assegurou a Gudéia que, "para a construção do meu
templo, vou dar a você um sinal; minha ordem vai ensinar a você um
sinal do planeta celeste".
A construção, disse ele a Gudéia, deve iniciar-se no "dia da lua
nova". Aquela lua nova em particular irá tornar-se conhecida do rei
por um presságio divino - um sinal nos céus. O dia vai começar com
ventos e grandes chuvas; por volta do anoitecer, a mão do deus
aparecerá nos céus; irá conter uma chama "que vai tornar a noite tão
clara quanto o dia":
À noite uma luz irá brilhar;
vai fazer com que os campos fiquem
muito iluminados, como se pelo sol.
Ouvindo tudo aquilo, "Gudéia compreendeu o plano favorável, um
plano que era a mensagem clara de seu sonho/visão". "Agora, ele se
tomara sábio e compreendia muita coisa. "Depois de apresentar
oferendas e orações aos" Anunnaki de Lagash, Gudéia, o fiel pastor,
lançou-se ao trabalho com alegria". Sem perder tempo, ele começou
a "purificar a cidade", depois "lançou impostos sobre a terra". Tais
impostos eram pagáveis em bens - bois, jumentos, madeira e cobre.
Ele reuniu materiais de construção de origem próxima e distante,
organizou um grupo de trabalho. Como Nanshe havia previsto,
trabalhou como um Jumento de Carga e "um bom sono não veio até
ele".
Com tudo pronto, chegou o momento de começar a fabricar os
tijolos. Eram feitos de argila, segundo o molde e a amostra que
aparecera na mão de Gudéia em sua primeira visão/sonho. Lemos
na coluna XIX, verso 19, que Gudéia "trouxe o tijolo, colocou-o no
templo". Podemos deduzir dessa afirmação que Gudéia tinha o tijolo
(e, por inferência, o molde necessário) em sua posse física; o tijolo e
o molde eram, portanto, dois objetos a mais (além da estela de lápis-lazúli) que atravessaram a fronteira Além da Imaginação.
Em seguida Gudéia contemplou "a planta esboçada do templo".
Mas, "ao contrário da deusa Nisaba, que sempre compreendia o
significado das dimensões", Gudéia ficou intrigado. Novamente
precisou de conselhos divinos adicionais; mais uma vez lançou mão
do método que utilizara antes - mas apenas depois de obter, por
meio de adivinhação, um "vá em frente". O método que ele usou
para a adivinhação envolvia a "passagem de águas tranqüilas por
sementes" e determinava o curso de ação pelo aparecimento de
sementes molhadas. "Gudéia examinou os presságios, e seus
presságios foram favoráveis."
Então Gudéia baixou sua cabeça,
prostrou a si mesmo.
A visão-comando emergiu:
A construção da Casa do teu Senhor,
a Eninnu, irás completar -
de sua fundação até o topo,
que se eleva na direção do céu".
Embora os estudiosos considerem esse episódio" o terceiro sonho
de Gudéia", a terminologia do texto é diferente de forma significativa.
Mesmo nas ocasiões anteriores, o termo traduzido "sonho",
MAMUZU, é mais parecido com a palavra Mahazeh,
semita/hebraica, que é mais bem traduzida como "uma visão". Aqui,
pela terceira vez, o termo empregado é DUG MUNATAE - uma
"ordem-visão que emerge". Dessa vez, na "ordem-visão" a seu
pedido, Gudéia viu o começo da construção do templo de seu
Senhor. Em frente aos próprios olhos, o processo de construção da
Eninnu, "de sua fundação até o topo, que se ergue na direção do
céu", estava tomando forma. A visão de uma demonstração
simulada de todo o processo, da base para cima, "chamou sua
atenção". O que era necessário fazer finalmente se tomou claro; e
"com alegria ele se lançou à tarefa".
Como o trabalho depois continuou, como Gudéia foi ajudado por um
grupo de Arquitetos Divinos e deuses e deusas da astronomia para
orientar o templo e erigir seus observatórios, como e quando as
exigências do calendário foram resolvidas, e a cerimônia que
inaugurou o novo templo, tudo é narrado no cilindro" A" e no cilindro
"B" do rei sumério. Lidamos com esse assunto dos registros em O
Começo do Tempo.
Uma estela que aparece em sonho e depois se materializa com
efeitos poderosos nas condições de vigília desempenha um papel
chave na história de um "Jó" babilônico, um sofredor justo. O texto,
intitulado Ludlul Bel Nemeqi ("Louvarei o Senhor da Sabedoria"),
depois de sua abertura, conta a história de Shubshi, um homem
justo que lamenta seu infortúnio, tendo sido esquecido por seu deus,
"cortado" de sua deusa protetora, abandonado por seus amigos. Ele
perde a casa, suas posses, e - pior que tudo - a saúde. Pergunta-se
"por quê?", contrata adivinhos e "intérpretes de sonhos" para
descobrir as razões pelas quais sofre, chama exorcistas para
"aplacar a ira divina". Porém nada parece funcionar ou ajudar.
"Estou perplexo com essas coisas", escreve ele. Debilitado,
tossindo, mancando, com terríveis dores de cabeça, ele está pronto
para morrer; mas assim que atinge as profundezas do sofrimento e
do desespero, a salvação vem numa série de sonhos.
No primeiro sonho, ele vê "um jovem notável, de mente excepcional,
de corpo esplêndido, vestido com roupas novas. Quando acorda, ele
vê, de fato, o jovem "vestido em esplendor, trajado com vestes
impressionantes". A ação e o diálogo que se seguem no curso do
sonho que se tomou realidade estão perdidos por danos à estela.
No segundo sonho, um "notável Lavado" apareceu, "segurando em
sua mão um pedaço de madeira de tamargueira purificadora". A
aparição recitava "encantamentos restauradores da vida" e
derramou "águas purificadoras" sobre o sofredor.
O terceiro sonho foi ainda mais impressionante, já que continha um
"sonho dentro do sonho". Uma "jovem notável, de compleição
brilhante", uma deusa, com certeza, apareceu. Ela falou ao "Jó"
babilônico. "Não tema, eu vou... num sonho, livrar você de seu
estado miserável". Assim, nesse sonho, o sofredor sonhou que
estava vendo em sonho "um jovem barbado usando um chapéu, um
exorcista" :
Ele carregava uma estela.
"Marduk me mandou" (disse ele),
"Para Shubshi, o Justo,
das mãos puras de Marduk
eu trouxe para ti bem estar."
Quando acordou, Shubshi encontrou a estela que aparecera a ele no
sonho dentro do sonho. A fronteira Além da Imaginação fora
atravessada, o metafísico se tornou físico. A estela abriga escrita
cuneiforme, e Shubshi lê: "nas horas de vigília, ele vê a mensagem".
Consegue força suficiente para "mostrar ao meu povo a estela
favorável".
Miraculosamente, "a doença terminou rápido", A febre cedeu. A dor
de cabeça foi" carregada", o Demônio foi banido para seu domínio;
os arrepios foram" escorraçados até ornar", os "olhos enevoados"
clarearam, a dor de dentes sumiu - a lista dos sofrimentos que
desapareceram quando a misteriosa/milagrosa estela apareceu
continua, levando até a frase-chave: "Quem, a não ser Marduk,
poderia ter restaurado a vida do moribundo?".
A história termina com uma descrição das oferendas, sacrifícios e
libações por parte do herói da história em honra de Marduk e sua
esposa Sarpanit, enquanto o ex-sofredor caminha para o grande
zigurate/templo, através dos doze portões do território sagrado.
Registros antigos incluem circunstâncias adicionais Além da
Imaginação, em que os objetos - ou ações - que são parte da dimen-são do sonho/visão, aparecem na realidade da vigília. Embora a falta
de evidências pictóricas claras, no caso da estela com a planta do
templo, os outros relatos sugerem que o fenômeno, apesar de raro,
não foi único para Gudéia. Mesmo ali, quando o próprio Gudéia não
os segura para que a posteridade os veja, sabemos, pelo texto, que
ao menos dois objetos adicionais - o molde e o Tijolo do Destino -também se materializaram na dimensão real.
Objetos físicos e ações que transcendem as fronteiras são também
encontrados nos sonhos de Gilgamesh. O "trabalho manual de Anu",
que desceu dos céus, é narrado na Estela I, conforme foi visto no
sonho; porém, quando o episódio se repete na Estela II da Epopéia
de Gilgamesh, o sonho se toma uma visão de acontecimentos
verdadeiros. Gilgamesh luta para extrair a parte interna do artefato,
e, quando consegue, leva-o à sua mãe e o deposita a seus pés.
Mais tarde, na ocasião em que Gilgamesh e Enkidu acampam no
sopé da Montanha dos Cedro, Gilgamesh adormece, tem três
sonhos e a cada vez uma ação sonhada - um chamado, um toque -é transformada em ação no mundo real, que o acorda. O chamado
parece tão real que ele suspeita ter sido Enkidu o autor, porém
depois que o companheiro nega firmemente chamar Gilgamesh ou
encostar nele, o rei compreende que foi o deus em seus sonhos que
o tocara tão realisticamente que sua carne pareceu amortecida. E,
finalmente, houve o sonho/visão do lançamento do foguete – um
"sonho" no qual Gilgamesh enxerga um objeto como jamais vira
antes, um lançamento que ninguém em Uruk jamais observara (pois
lá não havia nem Espaçoporto nem Local de Aterrissagem). Ele não
terminou segurando o objeto na mão depois que a visão se dissipou;
mas ainda podemos ver a representação na moeda de Biblos.
Os sonhos-visões de Daniel, um cativo judeu na Corte de
Nabucodonosor (rei da Babilônia no século VI a.C.), contêm ainda
mais paralelos diretos aos aspectos físicos dos encontros tipo Além
da Imaginação de Gilgamesh e Gudéia. Ao descrever um de seus
Encontros Divinos às margens do Tigre (Livro de Daniel, capítulo
10), ele escreveu:
Ergui meus olhos e contemplei,
vi um homem solitário vestido em linho,
cujas ilhargas estavam cingidas com ouro de Ofir.
Seu corpo brilhava como topázio,
e seu rosto, como o raio,
seus olhos flamejavam como tochas,
seus braços e pés eram da cor de bronze,
e sua voz, retumbante.
"Só eu conseguia ver a aparição", escreveu Daniel; mas embora os
outros que estavam com ele não pudessem ver, sentiram uma
presença terrível e correram para esconder-se. Ele também sentiu-
se imobilizado, capaz apenas de escutar a voz divina; mas:
Assim que escutei a voz de suas palavras,
caí adormecido com o rosto para baixo,
meu rosto tocando o chão.
Essa posição era similar àquela descrita por Gudéia; em seguida fica
a similaridade com o acordar que intrigou Gilgamesh quando em
seus sonhos experimentou um toque físico e ouviu a voz de "um
deus". Ao prosseguir em sua narrativa, Daniel escreveu que
adormeceu com o rosto para baixo.
De repente, uma mão tocou-me
e puxou-me para cima, apoiado
em meus joelhos e na palma de minhas mãos.
A pessoa divina, então, revelou a Daniel que ele veria o futuro.
Impressionado, com o rosto ainda para baixo, Daniel não conseguia
falar. Mas a pessoa - "da aparição dos filhos do Homem" - tocou os
lábios de Daniel, e Daniel foi capaz de falar. Quando ele se
desculpou por sua fraqueza, a pessoa divina o tocou outra vez, e
Daniel "reconquistou sua força". Tudo aconteceu enquanto Daniel
era tomado por um sono semelhante a um transe.
Mais memorável do que os sonhos-visões de Daniel foi o incidente
Além da Imaginação do Manuscrito-na-Parede. Aconteceu no
reinado do sucessor de Nabucodonosor, na Babilônia, Bel-shar-utzur
("Senhor, preserve o Príncipe"), a quem a Bíblia chama de Baltasar,
por volta de 540 a.C. Conforme relatado no Livro de Daniel, Baltasar
ofereceu um grande banquete para mil de seus nobres e estava
festejando e bebendo vinho - uma cena conhecida por várias
representações assírias e babilônicas de banquetes reais (fig. 62).
Bêbado, ele ordenou que trouxessem os recipientes de ouro e prata
que Nabucodonosor apanhara no Templo, em Jerusalém, a fim de
que "ele e seus nobres, suas concubinas e cortesãs pudessem
beber neles. Então foram trazidos os recipientes de ouro e prata do
santuário da Casa de Deus, em Jerusalém; o rei e seus nobres, suas
concubinas e cortesãs beberam deles; beberam vinho e louvaram os
deuses de ouro e prata, de bronze e ferro e de madeira e pedra". A
alegria dos pagãos e a profanação dos objetos sagrados do templo
de Iavé prosseguia, mas:
De repente,
apareceram os dedos de uma
mão humana
que escrevia, defronte do candelabro,
na superfície da parede da sala do rei;
e o rei via os movimentos das juntas dos
dedos da mão que escrevia.

A visão de uma mão humana - flutuando sozinha, desligada do
braço e do corpo - era desconcertante; o inesperado da aparição
apenas aumentou a sensação de presságio. "A mente do rei encheu-
se de terror, seu semblante tornou-se pálido, cada membro do corpo
dele ficou flácido e seus joelhos batiam um contra o outro." Ele deve
ter percebido que a profanação dos recipientes do templo de Iavé
provocara um Encontro Divino com conseqüências imprevisíveis.
Gritou que os videntes e adivinhos da Babilônia entrassem.
Dirigindo-se aos "homens sábios da Babilônia", ele anunciou que a
pessoa que conseguisse ler a escrita e interpretar o significado da
aparição seria recompensada e elevada para o terceiro posto em
poder de seu reino. Porém ninguém conseguiu interpretar a visão ou
ler a escrita. "Baltasar estava pálido e assustado, e seus nobres,
perplexos."
Nesse cenário de medo e desespero, entrou a rainha; quando ela
ouviu o que acontecera, lembrou que o sábio Daniel era conhecido
por sua habilidade de compreender e interpretar sonhos e
mensagens divinas. Então Daniel foi chamado e ficou sabendo da
recompensa prometida. Recusou a recompensa, mas concordou em
interpretar a visão. A essa altura, a mão que escrevera havia
desaparecido, porém a escrita permanecia na parede. Confirmando
que o mau agouro era o resultado da profanação dos vasos do
Templo consagrado ao Altíssimo, ao Senhor do Céu, Daniel explicou
a escrita e seu significado:
Por isso é que ele mandou os dedos dessa mão
que escreveram na parede.
Esta é, pois, a escritura que ali está disposta:
MANE, TEKEL, FARES.
E aqui está a interpretação das palavras:
MANE: Deus contou os dias do teu reinado
e lhe pôs termo.
TEKEL: Tu foste pesado na balança e achou-se que
tinhas menos do peso.
FARES: O teu reinado se dividiu
e foi dado aos medos e aos persas.
Baltasar manteve sua promessa e ordenou que Daniel fosse envolto
em púrpura e honrado com uma corrente de ouro ao redor do
pescoço, e o proclamou o terceiro do reino. Porém "naquela mesma
noite foi morto Baltasar, rei dos caldeus. E Dario dos medos lhe
sucedeu no reino" (Daniel 5, 30-31). A mensagem Além da
Imaginação foi cumprida.
As mensagens/sonhos Além da Imaginação de Gudéia, pelas quais
ele recebera instruções divinas e projetos para a construção do
templo Eninnu em Lagash, foram depois repetidas, de forma similar,
mais de um milênio depois, em comunicações divinas similares em
relação ao templo de Iavé, em Jerusalém.
Seguindo as detalhadas instruções fornecidas por Iavé para Moisés
no Sinai, os Filhos de Israel construíram para o Senhor um Mishkan
literalmente, "Residência" - portátil, para o deserto do Sinai; seu
mais importante componente era a Ohel Moed ("Tenda da Aliança")
em ruja parte mais sagrada havia a Arca da Aliança, que continha as
Tábuas da Lei e estava protegida pelos Querubins. Depois da
chegada a Canaã, a Arca ficou temporariamente alojada em seu
principal local de adoração, aguardando sua instalação permanente
na "Casa de Iavé", em Jerusalém. Por volta de 1000 a.C. Davi
sucedeu a Saul como rei de Israel. Depois de tomar Jerusalém sua
capital, a ambição e a esperança do rei Davi era a construção do
Templo, em cujo Santo dos Santos a Arca da Aliança poderia
finalmente repousar num lugar sagrado desde tempos imemoriais.
Porém a comunicação divina - sobretudo por meio de sonhos - tinha
outros desejos.
Conforme o registro bíblico narra, Davi partilhou sua intenção de
construir o Templo com o profeta Natã, que lhe deu sua bênção.
Contudo "passou-se, naquela mesma noite, que a palavra de Iavé
chegou a Natã, instruindo-o a dizer ao rei Davi que por haver se
envolvido em guerras e em derramamento de sangue, seria seu
filho, em lugar do próprio Davi, que iria construir o templo".
Como o profeta Natã recebera a comunicação "naquela mesma
noite" é explicado ao final da história (Samuel II, 7:17). "Segundo
todas estas palavras, e conforme toda esta visão, assim falou Natã a
Davi." Não se tratou de um simples sonho, mas de uma epifania; não
de um Chalom ("sonho"), e sim de uma Hizzayon ("visão"), na qual
não apenas as palavras são escutadas, mas o interlocutor apenas
"avistado", conforme fora explicado por Iavé ao irmão e à irmã de
Moisés no acampamento do Sinai.
Então o rei Davi foi "e sentou-se perante Iavé", em frente à Arca da
Aliança. Ele aceitou a decisão do Senhor, porém desejou certificar-se das duas partes - que não construiria o Templo, mas que seu filho
construiria. Sentado em frente à Arca, como Moisés se comunicara
com o Senhor, Davi repetiu as palavras do profeta. A Bíblia não
relata a resposta do Senhor; mas na expressão "sentado perante
Iavé" pode estar a chave para compreender o quebra-cabeça - a
misteriosa origem dos projetos do Templo. Lemos em Crônicas I, no
capítulo 28, que à medida que Davi sente que o final de seus dias se
aproxima, ele reúne os líderes e anciãos de Israel e lhes conta a
decisão de Iavé em relação ao Templo. Anuncia que seu sucessor
será Salomão, "Davi entrega a Salomão, seu filho, o Tavnit" do
Templo, com todas as suas partes e câmaras "o Tavnit de tudo o
que ele tivera pelo Espírito".
A palavra hebraica Tavnit é geralmente traduzida como "padrão",
termo que sugere ser um projeto, um plano arquitetônico. Porém o
termo bíblico implica, com maior precisão, um "modelo construído",
em vez de um Tokhit ("projeto" em hebraico). Devia tratar-se de um
modelo físico suficientemente pequeno para ser entregue das mãos
de Davi para as de Salomão - algo que em nossos dias chamamos
de “maquete em escala".
Achados arqueológicos na Mesopotâmia e no Egito provam que tais
modelos não eram desconhecidos no antigo Oriente Médio;
podemos ilustrar o fato mostrando alguns dos objetos descobertos
na Mesopotâmia (fig. 63a), assim como numerosos egípcios (fig.
63b). Em alguns selos cilíndricos sumérios a representação de um
templo-torre (fig. 64a) é mostrada na mesma proporção dos
humanos e personagens na cena; é o caso do sacerdote
representado decorando um modelo de templo (fig. 64b). Presumiu-se que as estruturas tenham sido traçadas não apenas para que se
encaixassem no espaço existente; a descoberta de modelos reais de
argila de templos e santuários (fig. 64c) - em paralelo com as
referências bíblicas ao Tavnit - sugere que talvez na Mesopotâmia
os reis tivessem visto modelos em escala dos templos e santuários
que receberam a incumbência de construir.



O termo Tavnit aparece antes, na Bíblia, ligado à construção da
Casa Portátil de Iavé durante o Êxodo. Foi quando Moisés subiu o
Sinai para falar com o Senhor, ficando lá quarenta dias e quarenta
noites, que "Iavé falou a Moisés" sobre o Mishkan (um termo que
geralmente é traduzido como Tabernáculo, mas literalmente significa
"Residência"). Depois de listar uma variedade de materiais
necessários para a construção - a serem obtidos dos israelitas como
doações, não como taxação imposta por Gudéia -, Iavé mostrou a
Moisés um Tavnit da residência e um Tavnit dos instrumentos,
dizendo (Êxodo, 25: 8-9):
E me farão um santuário,
e morarei entre eles.
Como tudo aquilo que Eu te mostro –
o Tavnit do Mishkan e
o Tavnit de todos os seus objetos -,
assim fareis.
As medidas arquitetônicas e as instruções para fazer a Arca da
Aliança com seus dois Querubins, a Cortina, a Mesa ritual, todos os
utensílios e a Menorá seguiam-se; as instruções só foram
interrompidas para um aviso, que levantarás o Tabernáculo de
acordo com o Tavnit que te foi mostrado no monte", após o que as
instruções arquiteturais continuam (utilizando dois capítulos
adicionais no Livro do Êxodo). Moisés, portanto, viu modelos -presumivelmente em escala - de tudo que precisava ser feito. As
narrativas bíblicas das instruções para o Mishkan do Sinai, para o
Templo em Jerusalém, para os vários utensílios, instrumentos rituais
e acessórios, eram tão detalhadas que os modernos estudiosos e
artistas não tiveram problema em representá-los (fig. 65).

A narrativa do capítulo 28 de Crônicas I sobre os materiais e
instruções passadas do rei Davi a Salomão para a construção do
Templo usa o termo Tavnit quatro vezes, sem deixar dúvida a
respeito da existência de uma maquete. Após a quarta e última
menção, Davi contou a Salomão que o Tavnit, com todos os seus
detalhes, foi literalmente dado a ele por Iavé, acompanhado de
instruções escritas:
Tudo isso,
escrito pela mão Dele,
Iavé me fez entender
todos os trabalhos do Tavnit.
Tudo isso, segundo a Bíblia, foi dado a Davi "pelo Espírito" enquanto
ele "sentava perante Iavé", em frente à Arca da Aliança (em sua
localização temporária). Como o "Espírito" passou a Davi as
instruções, incluindo os escritos pelas mãos de Iavé e o Tavnit tão
detalhado, permanece um mistério - um Encontro Divino que se
encaixa no tipo Além da Imaginação.
O Templo que Salomão veio a construir foi destruído em 587 a.C.
pelo rei Nabucodonosor, que levou a maior parte dos líderes e
nobres judeus para o exílio na Babilônia. Entre eles estava Ezequiel;
quando o Senhor acreditou que chegara a hora de reconstruir o
Templo, o Espírito Divino - o "Espírito dos Elohim" - desceu sobre
Ezequiel, que começou a profetizar. Suas experiências pertencem
verdadeiramente à zona indefinida de Além da Imaginação.
E isso aconteceu no trigésimo ano,
no quarto mês, no quinto dia,
estando eu no meio dos cativos junto ao rio Cobar,
se abriram os céus,
e tive Visões Divinas.
Assim inicia-se o bíblico Livro de Ezequiel. Seus 48 capítulos estão
repletos de visões e Encontros Divinos; a abertura inicial, que fala de
uma Carruagem Divina, é um dos mais memoráveis registros de
observação de Ovni na Antiguidade.
A detalhada descrição técnica da Carruagem e a maneira como
podia se mover em qualquer direção, assim como para cima e para
baixo, tem intrigado gerações de estudiosos da Bíblia, desde tempos
antigos até nossos dias, e tomou-se parte do folclore místico da
Cabala Judaica, cujo estudo limitava-se apenas a alguns Iniciados.
(Em anos recentes, a interpretação técnica de Joseph Blumrich, um
ex-engenheiro da NASA, em As Espaçonaves de Ezequiel (fig. 66a),
teve aceitação favorável. Uma antiga representação chinesa de uma
Carruagem Voadora (fig. 66b) atesta a amplitude da consciência do
fenômeno na Antiguidade, em todas as partes do mundo.)


No interior da Carruagem, Ezequiel podia ver vagamente, sentado
sobre o que parecia ser um trono, "a semelhança de um homem" no
interior de um brilho ou halo fortíssimo; e enquanto Ezequiel caía
sobre seu rosto, escutou uma voz falando. Então ele viu "uma mão
estendida" em sua direção, e a mão segurava um pergaminho
escrito. "E foi desenrolado à minha frente, e eis que estava coberto
de escrita na frente e no verso."
A visão da mão representando a divindade lembra o Escrito na
Parede visto por Baltasar; e nas inscrições de Gudéia estava escrito
que para sinalizar a data correta para o início da construção do
templo, a mão de um deus segurando uma tocha apareceria no céu.
A esse respeito, uma placa de bronze do século 11 na catedral de
Hildsheim (Alemanha) mostra Caim e Abel fazendo suas oferendas a
Deus, sendo o Senhor representado apenas pela mão divina saindo
das nuvens (fig. 67); uma visão bastante inspirada.

A palavra "sonho" não aparece no Livro de Ezequiel nenhuma vez;
em lugar disso o profeta usa o termo "visão". "Os céus se abriram e
eu tive Visões Divinas", afirma Ezequiel no primeiro parágrafo de seu
livro. As palavras usadas no hebraico são "visões dos Elohim",
relatando o DIN.GIR dos textos sumérios. O termo retém uma certa
ambigüidade quanto à natureza da "visão" - a visão verdadeira de
uma cena ou uma imagem mental induzida, criada de alguma forma,
apenas para o olho da mente. O que é certo é que de tempos em
tempos a realidade se intromete nessas visões - uma voz
verdadeira, um objeto físico, a mão visível. Nisso, as visões de
Ezequiel o levaram para Além da Imaginação.
Entre os vários Encontros Divinos que moveram Ezequiel ao longo
de seu caminho profético, mais de uma vez ocorreram instâncias em
que o irreal inclui uma realidade que, por sua vez, se torna irreal.
Temos os elementos do sonho inicial de Gudéia, no qual seres
divinos lhe mostram planos de um templo e seguram instrumentos
de arquitetura que terminam fisicamente na posse do rei.
"Foi no sexto ano, no sexto mês, no quinto dia", relata Ezequiel no
capítulo 8. "Enquanto eu estava sentado em minha casa, e os
anciãos de Judá estavam sentados perante mim, a mão do Senhor
Iavé aconteceu sobre mim":
E eu olhei para cima e contemplei uma aparição
semelhante a um homem
Da cintura para baixo, a aparência era de fogo,
e da cintura para cima, a aparência era brilhante,
como uma cortina de eletricidade.
A escolha das palavras aqui revela a própria incerteza do profeta em
relação à natureza de sua visão - realidade ou irrealidade. Ele
chama o que vê de "aparição", o ser que ele enxerga é apenas
"semelhante" a um homem. Estaria a imagem envolta em fogo e
brilho, ou seria ela feita de fogo e brilho? Seria real ou imaginada?
Qualquer das alternativas escolhidas permitia que agisse
fisicamente:
E adiantou-se a forma de uma mão,
segurou-me por um cacho em minha cabeça.
E o espírito me carregou
entre a terra e o céu
e me levou a Jerusalém -em visões de Elohim -,
à entrada do portão interno que fica ao norte.
A narrativa descreve então o que Ezequiel viu em Jerusalém
(incluindo as mulheres chorando por Dumuzi). E quando as
instruções proféticas se completaram, e a Carruagem Divina"
ergueu-se da cidade e pousou sobre o monte que fica a leste da
cidade",
O Espírito me carregou e me trouxe à
Caldéia, ao local do exí1io.
(Foi) uma Visão do Espírito dos Elohim.
Então, a visão que eu vira
foi afastada de mim.
O texto bíblico ressalta mais de uma vez que a jornada aérea foi
uma Visão Divina, uma "Visão do Espírito dos Elohim". Ainda assim,
claramente se trata da descrição de uma visita física a Jerusalém,
discussões com seus residentes e até" colocação de uma marca nas
testas" dos justos que deveriam ser poupados da carnificina prevista
para a destruição final da cidade. (O capítulo 33 recorda a chegada
de um refugiado de Jerusalém no décimo segundo ano do primeiro
exílio, informando, aos que estavam na Babilônia, que a profecia
relacionada a Jerusalém se cumprira.)
Catorze anos depois, no vigésimo quinto ano do primeiro exílio, no
Dia de Ano-Novo, "a mão de Iavé apareceu" a Ezequiel mais uma
vez e levou-o a Jerusalém. "Em Visão de Elohim ele me levou à terra
de Israel e me colocou numa montanha muito alta, ao lado da qual
havia o modelo de uma cidade, ao sul".
E quando ele me levou lá, contemplai...
Havia um homem cuja aparência era aquela do cobre.
Ele segurava uma corda de linho em sua mão
e um bastão de medir;
e estava em pé ao portão.
(Uma corda de medir e um bastão foram representados na época
dos sumérios como objetos sagrados entregues por um Arquiteto
Divino a um rei escolhido para construir um templo – fig. 68).

Esse Medidor Divino instruiu Ezequiel a prestar atenção a tudo que
escutasse e visse, sobretudo as medidas, para que as pudesse
transmitir acuradamente ao exilados. Assim que as instruções foram
dadas, a imagem em frente a Ezequiel mudou. De repente, a cena
de um homem distante se transformou na de um muro cercando
uma casa grande - como se, em termos de nossos tempos, uma
câmara passasse a utilizar uma teleobjetiva. Nessa aproximação,
Ezequiel conseguiu enxergar o "homem com a medida" começando
a medir a casa.
Dessa cena no exterior da casa, do muro circundante, Ezequiel
agora enxergava o medidor caminhando e medindo; enquanto isso
ocorria, a cena - como se uma câmara de televisão estivesse
seguindo o homem - continuava mudando; em vez de enxergar
imagens exteriores, Ezequiel via imagens das partes internas da
casa pátios, quartos, capelas. De um exame da arquitetura geral, a
percepção mudou para os detalhes da construção e pontos de
decoração. Tornou-se evidente para Ezequiel que ele via o futuro, o
Templo reconstruído, com o Santo dos Santos e os utensílios
sagrados, os aposentos dos sacerdotes e o lugar dos Querubins.
O relato dessa descrição, que toma três capítulos longos do Livro de
Ezequiel, é tão detalhado e preciso que construtores modernos não
tiveram problema em desenhar a planta do Templo (fig. 69).

À medida que a visão de uma cena ia se sucedendo à outra, numa
simulação melhor do que a mais avançada técnica de "Realidade
Virtual", ainda em desenvolvimento no século 20, Ezequiel foi levado
- há mais de 2500 anos - para dentro da visão. Como se fosse
fisicamente, ele foi levado ao portão leste no complexo do Templo; lá
testemunhou a "Glória do Deus de Israel", entrando pelo portão
leste, numa "visão como a visão vista antes " em duas outras
ocasiões.
E o Espírito me ergueu
e me levou ao pátio interno;
e eu contemplei a Glória de Iavé
enchendo o Templo.
Então Ezequiel escutou uma voz dirigindo-se a ele do interior do
Templo. Não era o "homem" a quem vira antes, com a corda e o
bastão de medir, pois o homem estava a seu lado. A voz do interior
do Templo anunciou que seria ali que o Trono Divino seria colocado
e onde os pés do Senhor tocariam o solo. Por fim, Ezequiel foi
instruído para relatar à Casa de Israel tudo o que vira e ouvira, e
lhes passasse as medidas, para que o Novo Templo pudesse ser
construído adequadamente.
O Livro de Ezequiel, então, termina com instruções extensas para os
serviços sagrados no futuro Templo. Menciona que Ezequiel foi
"trazido de volta" para ver a Glória de Iavé através do portão norte.
Presumivelmente, foi então que ele retomou de sua Visão Divina;
porém o Livro de Ezequiel não afirma isso.
Antigos Hologramas. Realidade Virtual?
Quando Gudéia recebia as instruções arquitetônicas para o templo a
ser construído, viu uma "ordem-visão que emergia", na qual ele
enxergou o templo tomando forma desde os alicerces até ser
completado, estágio por estágio - um acontecimento de mais de
4000 anos que agora pode ser conseguido por simulações no
computador.
Ezequiel não foi apenas transportado miraculosamente (duas vezes)
da Mesopotâmia até a Terra de Israel. Na segunda vez, ele viu o que
em termos modernos chamaríamos de tecnologia de "Realidade
Virtual", cena a cena, detalhes de alguma coisa que ainda não
existia - o Templo futuro: a Casa de Iavé que seria construída de
acordo com detalhes arquitetônicos revelados a Ezequiel nessa
visão Além da Imaginação. Como teria acontecido?
No início, Ezequiel chamou a visão de Tavnit, um termo usado
anteriormente na Bíblia, em conexão com a Residência e o Templo.
Porém, se aqueles eram apenas modelos em escala, o que foi visto
por Ezequiel tinha de ser um modelo "em tamanho real da
construção", pois o Medidor Divino estava na verdade tomando
medidas reais, com um padrão que devia ter seis cúbitos, anotando
uma cifra de 60 cúbitos aqui, uma altura de 25 cúbitos ali. O que
Ezequiel via seria baseado numa "Realidade Virtual" ou em
tecnologia holográfica? Teria ele visto simulações em computador ou
estava enxergando um Templo verdadeiro em algum outro lugar por
meio de holografia?
Visitantes de museus científicos geralmente ficam fascinados por
holografias nas quais dois raios projetam imagens que se combinam
para que vejamos uma imagem tridimensional flutuando no ar.
Técnicas desenvolvidas no final de 1993 (Physical Review Letters,
dezembro de 1993) podem originar hologramas a grande distância,
que aparecem apenas com o auxílio de um único raio laser
focalizado num cristal. Teriam esses tipos de tecnologia, sem dúvida
mais avançadas, sido usados para permitir que Ezequiel visse,
visitasse e até entrasse no "modelo construído" que estaria em outro
lugar - talvez tão longe quanto a América do Sul?
10
SONHOS REAIS, ORÁCULOS FIÉIS
"Dormir, porventura sonhar", diz Hamlet na peça de Shakespeare,
Hamlet, Príncipe da Dinamarca - uma tragédia na qual uma aparição
do rei assassinado é vista por Hamlet numa visão, e prenúncios
celestiais entram em jogo. No antigo Oriente Médio, os sonhos não
eram considerados um assunto do acaso; constituíam, em vários
graus, Encontros Divinos: no mínimo, presságios que apresentavam
as coisas que viriam; pensamentos, canais para expressar vontade
ou instruções divinas; em sua expressão máxima, epifanias
cuidadosamente programadas e premeditadas.
Segundo as antigas escrituras, os sonhos têm acompanhado os
habitantes da Terra desde o início da humanidade, começando com
a Primeira Mãe, Eva, que teve um sonho-premonição a respeito da
morte de Abel. Depois do Dilúvio, quando o reinado foi instituído
para criar tanto uma barreira quanto uma ligação entre os Anunnaki
e a massa de pessoas, foram os reis cujos sonhos acompanharam o
curso dos negócios humanos. E então, quando os líderes humanos
se cansavam, a Palavra Divina era passada por intermédio de
sonhos e visões dos profetas. No interior do longo registro de
sonhos e visões, alguns, como vimos, se destacaram por participar
de zonas Além da Imaginação, em que o irreal se torna real, um
objeto metafísico assume uma existência física, uma palavra não
falada se toma uma voz eventualmente ouvida.
A Bíblia está repleta de registros de sonhos como a mais importante
forma de Encontro Divino, como canais para fazer saber a de cisão
ou escolha da divindade, uma promessa benevolente ou uma
decisão. Em Números 12:6, Iavé é citado explicitamente afirmando
(ao irmão e à irmã de Moisés) que "se existe um profeta entre vós" -uma pessoa escolhida para divulgar a palavra de Deus - "Eu, o
Senhor, me farei conhecido numa visão e falarei a ele em sonho". O
significado dessa afirmação é ressaltado pela precisão da escolha
das palavras: Numa visão, Iavé se faz conhecido, reconhecível,
visitável; num sonho, ele se faz ouvido, divulgando oráculos.
Uma história que ilustra esse ponto é I Samuel, capítulo 28. Saul, o
rei israelita, enfrentou uma batalha crucial contra os filisteus. O
profeta Samuel, que a mando de Iavé ungira o rei Saul e o iniciara
na palavra divina, estava morto. Um Saul apreensivo tenta obter
orientação divina por si só; embora tivesse "pedido a Iavé", "tanto
por sonhos quanto por presságios quanto por profetas", Iavé não
respondera. Nesse caso, os sonhos são a primeira ou mais
importante forma de comunicação divina; presságios - sinais
celestiais ou ocorrências terrestres incomuns - e oráculos, palavras
divinas por intermédio dos profetas, seguiam-se.
A forma pela qual o próprio Samuel fora escolhido para ser um
profeta de Iavé também se apóia no uso do sonho para a
comunicação divina. Foi uma seqüência de três "sonhos teofânicos"
nos quais os estudiosos, como Robert K. Gnose (O Sonho Teofânico
de Samuel), encontram paralelos incríveis nos três sonhos-com-despertar de Gilgamesh.
Já mencionamos como a mãe de Samuel, incapaz de ter filhos,
prometeu dedicar seu filho a Iavé se fosse abençoada com um.
Mantendo sua promessa, a mãe levou o menino a Shiloh, onde a
Arca da Aliança era mantida num santuário temporário, sob a
supervisão de Eli, o Sacerdote. Mas como os filhos de Eli eram
lascivos e promíscuos, Iavé resolveu escolher o pio Samuel como
sucessor de Eli. Era uma época, conforme podemos ler em I SamueI
3:1, na qual a "palavra de Iavé raramente era ouvida e não havia
visão manifesta".
Aconteceu, pois, em certo dia,
que Eli estava deitado no seu lugar,
e os olhos se tinham escurecido
e não podia ver.
Antes que se apagasse a lâmpada de Elohim,
dormia Samuel no templo de Iavé,
onde estava a Arca de Elohim.
Iavé chamou a Samuel;
Samuel respondeu, dizendo: "Eis-me aqui".
Foi correndo a Eli, dizendo:
"Aqui estou, pois tu me chamaste".
Mas Eli disse que não chamara Samuel, e falou ao menino para
voltar a dormir. Mais uma vez Iavé chamou Samuel, e mais uma vez
Samuel foi até Eli apenas para ouvir que o sacerdote não o
chamara. Porém, quando aconteceu pela terceira vez, "Eli conheceu
que era Iavé chamando pelo menino". Instruiu-o a responder, se
acontecesse outra vez: "Pala, Senhor, porque o teu servo ouve".
Uma artista do século 13 d.C. fez seu melhor para representar a
primeira teofania e o Encontro Divino entre Samuel e Iavé, numa
ilustração medieval (fig. 70).

É bom lembrar o Espírito Divino que entregou o Tavnit ao rei Davi e
as instruções para a construção do Templo de Jerusalém, o que
aconteceu enquanto ele se sentava perante a Arca da Aliança. O
chamado a Samuel também ocorreu quando ele" estava deitado no
santuário de Iavé, onde se encontrava a Arca dos Elohim". A Arca,
feita de acácia e recoberta de ouro no interior e no exterior, servia
para guardar as duas Tábuas da Lei. Porém seu propósito principal,
conforme afirmado na Bíblia pelo Livro do Êxodo, era servir como
Dvir - literalmente, "o que fala". A Arca era encimada por dois
Querubins feitos de ouro sólido, com as pontas das asas tocando-se
(as duas possibilidades são mostradas na fig. 71). "E no tempo
marcado estarei ali e falarei contigo de cima do tampo, de entre os
dois Querubins que estão sobre a Arca" (Êxodo 25:22). A parte mais
interna do santuário, o Santo dos Santos, era separada da frente por
um véu que não podia ser aberto, a não ser por Moisés, depois por
seu irmão, Aarão, indicado por Iavé para servir como sumo
sacerdote, e os três filhos de Aarão, ungidos como sacerdotes. E
eles podiam entrar no local sagrado apenas depois de realizar
determinados ritos, usando roupas especiais. Além do mais, quando
esses sacerdotes consagrados entravam no Santo dos Santos,
tinham de queimar incenso (cuja composição é fornecida com
precisão pelo Senhor), de forma que uma nuvem ocultasse a Arca;
Iavé disse a Moisés: "É na nuvem que aparecerei, sobre a tampa da
Arca". Quando dois dos filhos de Aarão "trouxeram um fogo estranho
perante o Senhor", um (presumivelmente) falhou ao criar a fumaça
adequada, e "um fogo brotou perante Iavé e os consumiu".
Tais forças "sobrenaturais", como o sonho-oráculo de Samuel e o
sonho-visão de Davi, continuaram a permear o Tabernáculo, mesmo
depois que a própria Arca se foi, conforme evidenciado por um
sonho-oráculo de Salomão. Pronto a iniciar a construção do Templo,
ele foi até Gibeon, o último repouso da Tenda da Aliança (a parte da
Residência onde estava o Santo dos Santos). A própria Arca já fora
movida por Davi para Jerusalém, antecipando o local da
permanência no futuro Templo; porém a Tenda da Aliança
permaneceu em Gibeon, e Salomão foi até lá - talvez apenas para
adorar, talvez para ver por si mesmo os detalhes da construção. Ele
ofereceu sacrifícios a Iavé e foi dormir; em seguida:
E foi em Gibeon
que Iavé apareceu a Salomão
num sonho noturno.
E Elohim disse:
"Pede o que darei a ti".
A epifania inicia uma conversa de ambas as partes, na qual Salomão
pede para ter "um coração compreensivo para julgar meu povo, que
eu possa discernir entre o bem e o mal". Iavé gostou do pedido, pois
Salomão não pedira riquezas ou vida longa nem a morte de seus
inimigos. Portanto, afirma Iavé, concederia Sabedoria e
Entendimento, assim como riqueza e longa vida.
E Salomão despertou
e viu que era apenas um sonho!
Embora a ação relevante na Bíblia se inicie com a afirmação de que
foi uma epifania no sonho, a visão e o diálogo pareceram tão reais a
Salomão que ele ficou admirado por tratar-se apenas de um sonho;
e compreendeu que o acontecido representava uma realidade com
efeitos duradouros: portanto ele realmente fora dotado com
Sabedoria e Entendimento extraordinários. Num verso que indica
familiaridade com as civilizações egípcia e mesopotâmica, a Bíblia
acrescenta que" a sabedoria de Salomão era maior do que a
sabedoria de todos os Filhos do Leste e toda a sabedoria do Egito".
No episódio do Sinai, foi Iavé quem selecionou e instruiu dois
artesãos para levar a cabo os detalhes arquitetônicos intrincados e
artísticos: "e enchi do espírito de Elohim, em Sabedoria,
Entendimento e Conhecimento", Betsalel, da tribo de Judá, "e pus
ciência e sabedoria no coração" de Aholiab, da tribo de Dan.
Salomão, por sua vez, dependia dos artesãos do rei fenício, em Tiro,
para construir o Templo. Quando este foi completado, Salomão
rezou ao Senhor Iavé para que Ele aceitasse a Casa como
habitação eterna e como um lugar do qual as orações de Israel
seriam ouvidas. Foi então que Salomão teve seu sua segunda
epifania no sonho: "Iavé apareceu a Salomão pela segunda vez, na
forma vista por ele em Gibeon".
Embora o Templo em Jerusalém fosse literalmente chamado de
"casa" para o Senhor, ecoando o termo sumério "E" para um templo-habitação, fica evidente, pela oração de Salomão, que ele não
partilhava o ponto de vista mesopotâmico dos templos como lugares
onde os deuses moravam, e sim como local sagrado para
comunicação divina, um lugar onde homem e Deus pudessem
escutar um ao outro, um substituto permanente para a divina
presença na Tenda da Aliança.
Assim que os sacerdotes trouxeram a Arca da Aliança para seu
lugar, no Santo dos Santos, "a seção Dvir do Templo", e a
colocaram "sob as asas dos Querubins", tiveram de partir
apressadamente "porque a glória do Senhor tinha enchido a casa de
Deus". Foi então que Salomão começou sua oração, dirigindo-se a
Iavé: "O Senhor tinha prometido que Ele habitaria num nevoeiro".
"Ouve, Senhor, da tua morada, que é o céu", disse Salomão. "É,
pois, crível, que habite Deus entre os homens? Se os céus e os céus
dos céus não te podem conter, quanto menos esta casa que eu
edifiquei". Compreendendo isso, Salomão pediu apenas para que o
Senhor escutasse as orações que emanassem do Templo; "Ouve,
senhor, da tua morada, que é o céu, todos os que neste lugar
orarem, e sê propício".
Foi então que "Iavé apareceu para Salomão por uma segunda vez,
da forma que ele foi visto em Gibeon. E Iavé disse a ele: ouvi tua
oração e as súplicas que fizeste perante mim, e tem santificado esta
casa que construíste, para colocar meu Shem para sempre, de
forma que meus olhos e meu coração estejam ali na perpetuidade".
O termo Shem é tradicionalmente traduzido como "nome" pelo qual
alguém é conhecido ou lembrado. Porém, como demonstramos em
O 12
o
. Planeta, citando fontes bíblicas, mesopotâmicas e egípcias, o
termo MU, que ao longo do tempo veio a significar "aquilo pelo qual
alguém é lembrado", originalmente se referia às câmaras celestes
ou máquinas voadoras dos deuses mesopotâmicos. Assim, quando
o povo da Babilônia (Bab-Ili, "Portal dos Deuses") resolveu fazer um
Shem para si mesmo, estava construindo uma torre de lançamento,
não para um "nome", mas para veículos voadores.
Na Mesopotâmia, foi sobre plataformas de templos que os locais
especiais - alguns representados conforme o projeto para suportar
grandes impactos - foram construídos especificamente para servir às
idas e vindas dessas câmaras celestes. Gudéia teve de pro videnciar,
no recinto sagrado, um local especial para o Divino Pássaro Preto de
Ninurta, e, quando a construção foi feita, expressou a esperança de
que no novo templo o "MU abrace as terras de horizonte a
horizonte". Um hino para Adad/Ishkur afirmava que seu "MU emissor
de raios pode chegar ao zênite do céu", e um hino para Inana/Ishtar
descrevia como, depois de colocar o traje de piloto "ela voa em seu
MU". Em todos esses casos, a tradução comum para MU é "nome",
lendo para Adad um "nome" que abraça as terras e atinge os céus
mais altos, e para Inana/Ishtar a afirmação de que "ela voa sobre
todas as terras habitadas em seu MU". Na verdade, a referência era
às máquinas voadoras dos deuses e aos seus campos de pouso no
interior dos terrenos sagrados. Uma representação de tais veículos
aéreos, descoberta por escavações do Vaticano em Tell Ghassul, no
rio Jordão, na margem oposta a Jericó, lembra as carruagens
descritas por Ezequiel (fig. 72).

Em suas instruções para a construção do templo-zigurate na Ba-bilônia, a E.SAG.IL ("Casa do Grande Deus"), Marduk especificou os
requerimentos para a câmara celeste:
Construa o Portal dos Deuses...
Deixe que os tijolos sejam fabricados.
Seu Shem deve ficar no local designado.
Em intervalos regulares, os templos precisavam de reconstrução e
reformas, porque a deterioração atingia as torres construídas de
tijolos, além da destruição deliberada por atacantes inimigos. Uma
ocorrência em relação ao Esagil, registrada nos anais do rei assírio
Asaradão (680-669 a.C.), contém vários outros elementos dos
sonhos reais registrados na Bíblia em relação ao Templo em
Jerusalém. Tais elementos que se repetem incluem a Sabedoria
garantida a Salomão, as instruções arquitetônicas e a necessidade
de artesãos a ser divinamente inspirados ou instruídos para
compreender tais instruções.
Asaradão, aqui representado nessa estela, na qual aparecem os
doze membros do Sistema Solar, representados por seus símbolos
(fig. 73), reverteu a política anterior de confronto e guerra com a
Babilônia e não viu mal algum em reverenciar Marduk (o deus
nacional da Babilônia), além de adorar Asur (deus da Assíria).
"Tanto Asur como Marduk me deram sabedoria", escreveu
Asaradão, a quem foi concedido" o magnífico Entendimento de Enki"
sobre a "tarefa da civilização" - conquistar e subjugar - em outras
nações. Também foi instruído pelos oráculos e presságios a iniciar
um programa de restauração dos templos, começando com o de
Marduk, na Babilônia. Porém o rei não sabia como.
Foi quando Shamash e Adad apareceram a Asaradão num sonho no
qual eles mostraram ao rei os projetos arquitetônicos e os detalhes
da construção. Em resposta ao espanto dele, disseram para que
reunisse todos os pedreiros, carpinteiros e outros profissionais
necessários e os levasse à "Casa da Sabedoria", em Asur (a capital
Assíria). Também lhe disseram para consultar um vidente em
relação ao mês correto para iniciar o trabalho de construção. Agindo
sobre o que "Shamash e Adad me mostraram durante o sonho",
Asaradão montou a força de trabalho e marchou à frente deles para
o "Lugar do Saber". Consultou um vidente, e, no dia auspicioso, o rei
carregou sobre a cabeça a pedra fundamental e a colocou no local
preciso. Com um molde feito de marfim, ele fabricou o primeiro tijolo.
À medida que a reconstrução se completava, ele instalou portas de
cipreste, ornadas de incrustações de ouro, prata e bronze; mandou
fazer recipientes de ouro para os ritos sagrados. E quando tudo foi
completado, os sacerdotes foram chamados, ofereceram sacrifícios,
e o templo foi renovado.
A linguagem empregada na Bíblia para descrever a compreensão de
Salomão, acordado repentinamente, de que a visão e os sons
experimentados eram apenas um sonho, foi eco de uma situação
parecida e mais antiga - a de um faraó:
E o faraó acordou,
e eis que... era um sonho!
Essa é a série de sonhos descrita no capítulo 41 do Gênesis, que
começa com o sonho das sete vacas do faraó - algumas traduções
preferem o termo, mais arcaico, "kine", usado antigamente em lugar
de "gado" - "formosas à vista e gordas de carnes" que subiam do
Nilo para pastar. Eram seguidas por sete vacas "feias à vista e
magras de carne", que comiam as primeiras. Num sonho seguinte, o
faraó viu sete espigas de milho que subiam numa só "haste, gorda e
boa", seguidas por sete espigas miúdas e batidas pelo vento; as
últimas engoliram as primeiras. "E o faraó acordou, e eis que... era
um sonho!" A dupla cena parecia tão real que o faraó, ao acordar,
ficou surpreso ao constatar que era apenas um sonho. Perturbado
pela qualidade real do sonho, convocou seus sábios e os mágicos
do Egito para que interpretassem o sonho; nenhum deles conseguiu.
Assim começou a proeminência, no Egito, do jovem hebreu José,
que, aprisionado injustamente, interpretou corretamente o sonhos de
dois dos subordinados do faraó, que também estavam na prisão. Um
deles, o chefe dos copeiros, contou o fato ao faraó, sugerindo que
chamasse José para ajudar a interpretar os sonhos reais. José disse
ao faraó que os dois sonhos na realidade eram apenas um; "o que
Elohim fará foi revelado". Em outras palavras, foi um sonho-presságio, uma revelação divina sobre o que acontecerá no futuro
pelo plano de Deus. Trata-se de uma previsão sobre sete anos de
abundância, suplantados por sete anos de carência e fome, explicou
ele. "O que Elohim resolveu fazer está revelando ao faraó", e o
sonho foi repetido, o que significa "que a coisa é certa por parte de
Elohim, e que Elohim se apressa em fazê-la".
Percebendo então que José estava possuído pelo "Espírito dos
Elohim", o faraó nomeou-o Mestre do Rei para toda a terra do Egito,
a fim de evitar a fome. E José encontrou formas de dobrar e triplicar
as colheitas durante os sete anos de fartura, e estocou a comida.
Quando veio a fome, "afetando todas as terras", havia alimento no
Egito.
Embora a Bíblia não identifique o faraó da época de José pelo nome,
outros dados bíblicos e cronológicos permitiram que o
identificássemos como Amenemés III, da XII dinastia, que reinou no
Egito de 1850 a 1800 a.C. Sua estátua de granito (fig. 74) está
exposta no Museu do Cairo.
A história bíblica do sonho das sete vacas desse faraó certamente
ecoava a crença egípcia de que as sete vacas, chamadas de Sete
Hátoras (por causa da deusa Hátor, que, como mencionamos, era
representada como vaca), podiam predizer o futuro - precursoras
das sibilas, as pitonisas do oráculo de Delfos, para os gregos. Nem a
própria noção dos sete anos é uma invenção bíblica, pois tais ciclos
de sete anos das águas do Nilo - a única fonte de água no Egito sem
chuva -, continuam até os nossos dias. Existe ainda um regis tro
anterior de tal ciclo de sete anos de fartura seguido por sete anos
ruins. Trata-se de um texto hieroglífico (transcrito por E. A. W. Budge
em Lendas dos Deuses – fig. 75), registrando que o faraó Zoser por
volta de 2650 a.C.) recebeu um despacho do governador do Alto
Egito, ao sul, relatando uma grave onda de fome, porque "o Nilo não
veio pelo espaço de sete anos".

Portanto o rei "estendeu seu coração de volta ao início" e perguntou
ao Camareiro dos Deuses, o deus Tot com a cabeça de Íbis: "Qual o
local de nascimento do Nilo? Existe um deus lá? E quem é esse
deus?". E Tot respondeu a ele que de fato existia um deus que
regulava as águas do Nilo das duas cavernas (fig. 76) e que esse
deus era seu pai, Khnum (aliás Ptah, aliás Enki), o deus que fizera a
humanidade (veja fig. 4).
Como exatamente Zoser conseguiu falar com Tot e receber a
resposta não fica claro no texto hieroglífico. O texto afirma que uma
vez que Zoser soube que o deus em cujas mãos estava o destino do
Nilo e o sustento do Egito era Khnum, que residia longe, na ilha
Elefantina, no Alto Egito, o rei soube exatamente o que fazer: ele foi
dormir... esperando uma epifania.
Enquanto eu dormia,
com vida e satisfação,
descobri o deus
em pé à minha frente!
Em seu sono - sonho-visão -, Zoser afirma: "Eu o agradei com
elogios; rezei para ele na presença dele". Pedi a restauração das
águas do Nilo e a fertilidade da terra. E o deus:
Revelou-se a mim.
Encarou-me com rosto amigável
e proferiu tais palavras:
"Sou Khnum, o que te fez".
O deus anunciou que iria atender às reivindicações do rei se o rei
resolvesse "reconstruir templos, restaurar o que está arruinado e
erigir novos templos" para a divindade. Para isso, disse o deus, ele
daria ao rei novas pedras, assim como "pedras duras que existem
desde o início dos tempos".
Então o deus prometeu que em troca ele abriria as comportas em
duas cavernas abaixo de sua câmara rochosa, e que, como
resultado, as águas do Nilo iriam começar a fluir outra vez. No
espaço de um ano, disse ele, as margens do rio seriam verdes de
novo, as plantas cresceriam e a fome desapareceria. Quando o deus
terminou de falar e sua imagem desapareceu, Zoser "acordou
refrescado, o coração aliviado de peso" e decretou ritos
permanentes de oferendas a Khnum, em gratidão eterna.
O deus Ptah e uma visão dele são o tema central de duas outras
epifanias de sonhos egípcios: uma delas traz à mente as histórias
bíblicas da mulher que não consegue um herdeiro homem para o
trono.
A primeira, descrevendo como um Encontro Divino virou a maré da
guerra, está contida numa longa inscrição pelo faraó Merenptah (por
volta de 1230 a.C.), no quarto pilar do grande templo em Karnak.
Embora fosse o filho do faraó Ramsés II, Merenptah descobriu que
estava além de suas capacidades proteger o Egito de uma maré
crescente de invasores, tanto por terra (os líbios, a oeste) quanto por
mar ("piratas" se encontravam posicionados para atacar Mênfis, a
antiga capital do Egito. Merenptah, desgostoso, estava mal
preparado para enfrentar os atacantes. Então, na noite anterior à
batalha decisiva, ele teve um sonho. Nesse sonho, o deus Ptah
aparecia; prometendo a vitória ao rei, o deus disse: "Apanhe isto
agora!", e, com essas palavras, passou a Merenptah uma espada,
acrescentando: "E mande embora de você esse coração
perturbado".
O texto hieroglífico está parcialmente danificado nesse ponto,
tornando indefinido o que aconteceu a seguir. Infere-se que
Merenptah acordou e encontrou a espada divina, fisicamente em
suas mãos. Com a confiança restaurada pelas palavras do deus,
Merenptah liderou seus exércitos na batalha; o resultado foi uma
vitória completa para os egípcios.
A outra ocorrência em que Ptah pareceu foi num sonho por uma
princesa (Taimhotep), esposa do sumo sacerdote. Ela teve três
filhas e nenhum herdeiro homem, portanto "rezava para a majestade
do deus augusto, que realizava maravilhas e era capaz de conceder
um filho a quem não tivesse nenhum". Certa noite, enquanto o sumo
sacerdote dormia, Ptah "veio a ele em revelação" e disse ao sumo
sacerdote que por realizar determinados trabalhos de construção,
"farei para você, em troca, um filho homem".
Com isso o sumo sacerdote acordou
e beijou o chão de seu deus augusto.
Convocou os profetas, os chefes de
mistérios, os sacerdotes e os escultores
da Casa de Ouro para realizar mais uma
vez o trabalho benevolente.
O trabalho de construção foi executado de acordo com os desejos
de Ptah; depois disso, a princesa afirma na inscrição que ela ficou
grávida e teve, de fato, um filho homem.
Embora não nos detalhes, mas no tema essencial, a história egípcia
(dos tempos ptolomaicos) traz uma semelhança com narrativas
bíblicas muito anteriores da aparição do Senhor, acompanhado de
dois outros seres divinos, a Abraão e predizendo que sua esposa
idosa e sem filhos, Sara, daria à luz um herdeiro homem.
Entre outros exemplos de sonhos reais de oráculo, encontrados
entre os registros egípcios, o mais famoso é aquele pelo príncipe
que mais tarde subiu ao trono para ser coroado Tutmés IV. O sonho
é bem conhecido porque está descrito numa estela que ele erigiu
entre as patas da grande esfinge de Gizé - onde ainda permanece
para que todos a vejam.
Conforme está gravado na estela (fig. 77), o príncipe era
"acostumado a ocupar-se com esportes nas profundezas do deserto,
em Mênfis". Um dia ele se deitou para descansar próximo à
necrópole de Gizé, perto do "caminho divino dos deuses no
horizonte... o local sagrado de templos primitivos". Isso, diz a
inscrição, foi onde "a própria estátua da Esfinge repousa, grande em
fama, grande em majestade". Era meio-dia, o sol estava forte;
portanto o príncipe resolveu se deitar à sombra da Esfinge e acabou
adormecendo.

Enquanto dormia, ele ouviu a Esfinge falar "com sua própria boca,
dizendo":
Olhe para mim, meu filho Tutmósis...
Contemple, meu estado é o de alguém em necessidade,
meu corpo inteiro está se desfazendo em pedaços.
As areias do deserto, acima das quais sempre fiquei,
fecharam-se sobre mim...
O que a Esfinge estava dizendo ao príncipe adormecido era um
pedido para que as areias do deserto que cobriram a maior parte do
corpo dela - uma situação provável, encontrada pelos homens de
Napoleão no século 19 (fig. 78) - fossem removidas para que
recuperasse sua antiga majestade. Em troca, a Esfinge -representando o deus Harmakhis - prometeu ao príncipe que ele
seria o sucessor no trono do Egito. "Quando a Esfinge terminou tais
palavras, o filho do rei acordou", continua a inscrição. Embora fosse
um sonho, o conteúdo e o significado foram claros como cristal para
o príncipe. Ele "compreendeu a fala desse deus". À primeira
oportunidade, realizou o pedido divino, limpando a Esfinge da areia
que a ocultava quase completamente; de fato, em 1421 a.C., o
príncipe subiu ao trono do Egito para se tornar Tutmés IV.

Tal denominação divina de realeza não era única nos anais do Egito.
Na verdade, fora registrado em relação a um predecessor, Tutmés
III. A história de acontecimentos miraculosos e de uma vi são da
"Glória do Senhor" foi inscrita por esse rei nas paredes do templo,
em Karnak. Nesse caso, o deus não falou; em vez disso, ele indicou
sua escolha do futuro monarca por intermédio da "realização de
milagres".
Como o próprio Tutmés relatou, quando ele ainda era jovem e se
preparava para ser sacerdote, estava em pé sobre a parte colunada
do templo. Repentinamente, o deus Amon-Rá apareceu em sua
glória sobre o horizonte. "Ele tomou o céu e a terra festivos com sua
beleza; então começou a realizar uma grande maravilha: dirigiu seus
raios para os olhos de Hórus-do-Horizonte (A Esfinge)." O rei
ofereceu incenso, sacrifícios e oblações ao deus que chegava, e
levou o deus para o templo numa procissão. E o deus caminhou ao
lado do jovem príncipe, relatou Tutmés.
Ele realmente me reconheceu e me parou.
Eu toquei o chão; me curvei
na presença dele.
Ele me colocou em pé, me arrumou perante o rei.
Então, como indicação de que aquele príncipe era o escolhido divino
para a sucessão, o deus "operou uma maravilha" sobre o príncipe. O
que se seguiu, escreveu Tutmés li, por incrível que pareça, e por
misteriosas que sejam essas coisas, aconteceu de verdade:
Ele abriu para mim as portas do Céu;
ele abriu para mim os portais de seu horizonte.
Eu voei para o céu como um Falcão Divino,
capaz de enxergar sua forma misteriosa
que está no Céu.
Que eu possa adorar a sua majestade.
(E) vi a forma-ser do Deus do Horizonte
em seus misteriosos Caminhos do Céu.
Nesse vôo celestial, Tutmés III escreveu em seus registros que ele
"se tornou um com a Compreensão dos Deuses". A experiência e
seus detalhes certamente trazem à mente as ascensões celestiais
de Enoque e Enmeduranki, e a "Glória de Iavé", vista pelo profeta
Ezequiel.
A convicção de que os sonhos são oráculos divinos, que predizem
as coisas que estão por vir, era uma crença firmemente aceita no
antigo Oriente Médio. Os reis etíopes também acreditavam no poder
dos sonhos como guias para a ação a ser tomada (ou evitada) e dos
acontecimentos iminentes.
Um aspecto, registrado numa estela pelo rei etíope Tanutamun,
relata que no primeiro ano do reinado, "sua majestade teve um
sonho na noite". No sonho, o rei viu "duas serpentes, uma à sua
direita, uma à sua esquerda". A visão foi tão real que, quando o rei
acordou, ficou surpreso ao não encontrar as serpentes ao seu lado.
Chamou os sacerdotes e videntes para interpretar o sonho, e eles
disseram que as duas serpentes representavam duas deusas, o Alto
e o Baixo Egito. O sonho, disseram, significava que ele poderia
conquistar todo o Egito" em seu comprimento e na largura; não havia
nenhum outro para dividir". Então o rei "foi adiante e 100 mil o
seguiram" e conquistou o Egito. Portanto, ele escreveu na estela
comemorando o sonho e o período que se seguiu: "Verdadeiro foi o
sonho".
Uma profecia divina feita pelo deus Amon, embora à luz do dia, e
não num sonho noturno, está registrada na inscrição de uma estela
encontrada no Alto Egito, próximo à fronteira com a Núbia. Conta
que um rei etíope estava liderando seu exército pelo Egito quando
repentinamente morreu. Seus comandados ficaram" como uma
manada sem pastor". Sabiam que o novo rei teria de ser escolhido
entre os irmãos do rei, mas qual deles? Foram ao templo de Amon
para escutar uma profecia do oráculo. Depois que os "profetas e
sacerdotes importantes" realizaram os ritos necessários, os
comandantes apresentaram um dos irmãos do rei ao deus, mas só o
silêncio respondeu. Depois apresentaram o segundo irmão, filho da
irmã do rei. Dessa vez o deus falou: "Este é vosso rei... vosso
dirigente". Então os comandantes coroaram esse irmão, que
assumiu a coroa depois que a divindade o apoiou por meio de
conselho divino.
Essa história da seleção de um sucessor do rei etíope inclui um
detalhe que geralmente não é percebido - o fato de que o escolhido
pela divindade era o filho nascido do rei com sua irmã. Encontramos
um paralelo na história bíblica de Abraão e sua bela Sara, de quem
Abimelec, o rei filisteu de Gerara, se agradou. Uma vez antes, ao
visitarem a Corte do faraó no Egito, quando o faraó desejou tirar
Sara de Abraão, Abraão pediu que ela dissesse que era sua irmã
(não esposa), de forma que a vida lhe fosse poupada. Prevenido por
sua experiência, Abraão mais uma vez pediu a Sara para dizer que
era apenas sua irmã. Mas quando Abimelec continuou com seu
plano, o Senhor interveio:
E Elohim apareceu em sonho
a Abimelec e lhe disse:
"Sabe que serás punido de morte
por causa dessa mulher,
porque ela tem marido".
"Abimelec não a tinha tocado" e explica ao Senhor que era inocente,
pois Abraão "disse para mim: 'Ela é minha irmã', e ela também disse:
'Ele é meu irmão"'. Então "Elohim disse a ele, no sonho" que ele não
seria punido, desde que devolvesse Sara a Abraão, intocada.
Depois, quando Abimelec exigiu uma explicação de Abraão, este
explicou que temendo por sua vida, disse a verdade, mas não toda a
verdade. "De fato, ela é verdadeiramente minha irmã, como filha que
é de meu pai, ainda que não filha de minha mãe, e pude recebê -la
como mulher." Sendo meia-irmã de Abraão, Sara assegurava que
seu filho (Isaac), mesmo não sendo primogênito, seria o sucessor.
Essas regras de sucessão, imitando os costumes dos Anunnaki,
prevaleceram no antigo Oriente Médio (e chegaram a ser copiadas
pelos incas, no Peru).
Os filisteus chamavam sua divindade principal de Dágon, um nome
ou epíteto que pode ser traduzido como "Ele dos Peixes" – o deus
da Pesca, um atributo de Ea/Enki. Tal identificação, entretanto, não
é tão óbvia e certa, porque quando essa divindade aparece em
outros lugares do antigo Oriente Médio, seu nome é soletrado
Dagan, que poderia significar "Ele dos Grãos" - um deus da
Agricultura. Qualquer que seja sua identidade verdadeira, esse deus
aparece em vários sonhos-presságios, registrados nos arquivos
estatais do reinado de Mari, uma cidade-estado que floresceu no
início do II milênio a.C. até sua destruição pelo rei babilônio
Hamurábi, em 1759 a.C.
Um registro de Mari pertence a um sonho cujo conteúdo foi julgado
tão significativo que foi levado por mensageiro à atenção de Zimri -Lim, o último rei de Mari. No sonho, um homem viu a si mesmo
viajando com outros. Ao chegar a um lugar chamado Terga, ele
entrou no templo de Dagan e prostrou-se. Naquele instante, o deus
"abriu sua boca" e perguntou ao viajante se uma trégua fora
declarada entre as forças de Zimri-Lin e aquelas dos iaminitas.
Quando o viajante respondeu com uma negativa, o deus reclamou
que não foi mantido a par dos acontecimentos e instruiu o sonhador
para mandar uma mensagem ao rei, exigindo que ele enviasse
mensageiros para atualizar o deus sobre a situação. "Isso foi o que
esse homem viu em seu sonho", afirmava o relatório urgente
enviado ao rei, adicionando que "aquele homem era digno de
confiança".
Outro sonho relativo a Dagan e às guerras nas quais Zimri-Lim
estava envolvido foi registrado por uma sacerdotisa do templo. No
sonho, afirmou ela, "Entrei no templo da deusa Belet-ekallim
("Senhora dos Templos"), mas a deusa não estava, nem vi as
estátuas dedicadas a ela. Quando vi aquilo, comecei a chorar".
Então escutei "uma voz lúgubre chorando, repetindo: 'Volte, ó
Dagan... volte, ó Dagan'. Isso continuou sem parar". Então a voz
tomou-se mais alterada, enchendo o templo da deusa e dizendo: " Ó
Zimri-Lim, não saia em expedição. Fique em Marl, e eu tomarei a
responsabilidade".
A deusa que falou nesse sonho, oferecendo-se para lutar pelo rei
cercado, é referida pelo nome no relatório Annunitum, uma
referência semítica a Inana/Ishtar. A boa vontade em lutar por Zimri-Lim faz sentido histórico, pois tinha sido ela quem ungira Zimri-Lim
como rei de Mari - um ato divino, comemorado no magnífico mural
encontrado no palácio de Mari (fig. 79) quando foi desenterrado por
arqueólogos franceses.

A sacerdotisa que relatou o sonho, de nome Addu-duri, era uma
sacerdotisa do oráculo. Em seu relatório, ela lembrou que enquanto
suas previsões eram baseadas em "sinais" no passado, aquela fora
a primeira vez que ela tivera um sonho premonitório. Seu nome é
mencionado em outro relatório de sonho, mas dessa vez um sonho
de um sacerdote no qual ele viu a Deusa dos Oráculos falando-lhe
sobre o rei ser "negligente ao proteger a si mesmo". (Em outras
ocasiões, as sacerdotisas do oráculo levaram ao rei mensagens
divinas obtidas quando estavam em transe auto-induzido, em vez de
por sonhos.)
Mari ficava na margem do rio Eufrates, onde, nos dias de hoje, a
Síria e o Iraque se encontram, e servia como base entre a
Mesopotâmia e a costa do Mediterrâneo (portanto para o Egito),
numa rota que cruzava o deserto da Síria até a Montanha dos
Cedros, no Líbano. (Uma rota mais longa, que passava pelo
Crescente Fértil, incluía Harran, no Eufrates superior.) Não é de
espantar, pois, que os povos da costa, como vizinhos dos filisteus,
acreditassem (e registrassem) em sonhos como uma forma de
Encontro Divino. Embora seus escritos (dos quais sabemos apenas
por achados em Ras Shamra, a antiga Ugarit, na costa mediterrânea
da Síria) lidassem principalmente com as lendas ou "mitos" do deus
Baal, de sua companheira, a deusa Anat, e do pai deles, o deus
idoso El, mencionam sonhos de presságio de heróis patriarcais.
Assim, na História de Aqhat, um patriarca de nome Danel, sem
herdeiro do sexo masculino, escuta de El, num sonho-presságio, que
ele teria um filho no espaço de um ano - assim como Abraão
recebeu a mensagem de Iavé a respeito do nascimento de Isaac.
(Quando o menino Aqhat cresce, Anat tem desejos por ele, e assim
como fizera com Gilgamesh, promete longevidade se Aqhat se
tornar seu amante. Diante da recusa, ela causa a morte dele.)
Os sonhos são uma forma venerada de comunicação divina, e foram
registra dos das terras do Alto Eufrates até a Ásia Menor. As costas
onde atualmente se localizam Israel, Líbano e Síria serviam tanto de
ponte quanto de campo de batalha entre os faraós egípcios e os reis
da Mesopotâmia - cada um dizendo agir por ordens divinas. Não é
de estranhar que nessa reunião e miscigenação os sonhos
premonitórios também refletissem o choque entre culturas e a
mistura de presságios.
Registros egípcios de sonhos premonitórios da realeza incluem um
texto conhecido dos estudiosos como a Lenda da Princesa Possuída
- um dos registros mais antigos sobre exorcismo. Escrito na estela
que agora se encontra no Museu do Louvre, em Paris, narra como o
príncipe de Bekhten (Bactria, no Eufrates superior), que casara com
uma princesa egípcia, buscou a ajuda do faraó Ramsés II para curar
a princesa dos "espíritos que a possuíam". O faraó enviou um de
seus mágicos, mas não adiantou. Então o príncipe de Bekhten pediu
que um deus egípcio "fosse trazido para lutar com aquele espírito".
Recebendo o pedido em Tebas, sua capital, durante um festival
religioso, o faraó foi ao templo do deus Khensu, descrito como filho
de Rá e geralmente representado com uma cabeça de falcão na
qual a Lua repousa com seu Crescente. Lá o rei contou ao deus, "o
grande deus que expele os demônios da doença", qual era o
problema e pediu a ajuda divina. Enquanto ele falava, "havia muita
concordância da cabeça de Khensu", indicando uma atitude
favorável. Então o rei montou uma grande caravana que foi para
Bekhten acompanhando o deus (ou seu "profeta, o que executava os
planos", ou a estátua do deus - conforme sugerem alguns
estudiosos). Por meio dos poderes mágicos divinos, o "mau espírito"
foi exorcizado.
Testemunhando os poderes mágicos de Khensu, o príncipe de
Bekhten planejou em seu coração, dizendo: "Vou fazer com que
esse deus fique aqui em Bekhten". Tendo, porém, causado um
adiamento no retomo do deus para o Egito, o príncipe teve um
sonho enquanto "dormia em sua cama". No sonho, viu "esse deus
vindo até ele do santuário. Era um falcão de ouro que voou pelo céu
na direção do Egito". O príncipe "acordou em pânico" e percebeu
que o sonho era um presságio divino, instruindo-o a deixar que o
deus voltasse ao Egito. Portanto o príncipe "deixou que esse deus
voltasse ao Egito, depois de ter dado a ele muitos presentes entre
todas as coisas boas".
Mais ao norte de Bactria, na Terra dos Hititas, na Ásia Menor, a
convicção de que os sonhos reais constituíam revelações divinas
também era sustentada. Um dos mais longos textos que refletem
tais convicções é chamado pelos estudiosos de Os Rezadores da
Praga de Mursilis, um rei hitita que reinou de 1334 até 1306 a.C.
Conforme confirmado por textos históricos, uma praga afligiu as
terras e começou a dizimar a população; Mursilis não podia entender
o que zangara os deuses. Ele mesmo fora piedoso e muito religioso,
"celebrou todos os festivais, nunca preferindo um texto a outro". O
que, então, estava errado? Desesperado, ele incluiu as seguintes
palavras em sua oração:
Ouvi-me deuses, meus senhores!
Mandai para longe a praga da terra hitita!
Deixai que o motivo para as pessoas estarem morrendo
seja descoberto - ou por uma profecia,
ou me deixai ver no sonho,
ou deixai que um profeta o declare.
Deve ser notado que os três métodos mencionados de obter
orientação divina - um sonho de oráculo, uma profecia ou
comunicação por intermédio de profeta - são exatamente os
mesmos três métodos listados pelo rei Saul quando tentou obter a
orientação de Iavé. E também, como no caso do rei israelita que não
recebeu resposta, também os apelos do rei hitita: "Os deuses não
escutaram; a praga não melhorou; a terra dos hititas continuará a ser
afligida".
"Os assuntos estão ficando muito grandes para mim", escreveu
Mursilis em seus anais, e redobrou seus apelos ao deus Teshub ("O
Soprador do Vento" ou "Deus Tempestade", a quem os sumérios
chamavam de Ishkur e os povos semitas, de Adad, fig. 80). Por fim
ele conseguiu receber um presságio; uma vez que não era uma pro-fecia ou adivinhação, deve ter sido um sonho premonitório, o ter ceiro
método de comunicação divina com o rei. Foi assim que Mursilis
ficou sabendo que seu pai, Shupiliumans, em cujo tempo a praga
começou, transgredira de duas formas: ele quebrou algumas
oferendas aos deuses e também seu juramento num tratado com os
egípcios para manter a paz, e levou os cativos egípcios de volta à
Terra dos Hititas; foi nessa época que a praga se instalou entre os
hititas.
Se assim fosse, disse o rei a Teshub em suas súplicas, ele iria
oferecer restituição "em compensação pelos pecados do pai", e
aceitar toda a responsabilidade. Se o aumento da praga ou
restituições fossem exigidas, ele pediu ao deus que "deixai-me ver
num sonho, ou deixai que encontre num presságio, ou deixai que um
profeta o diga a mim".
Assim, ele listou outra vez os três métodos aceitos ou esperados de
comunicação com os deuses. Já que o texto, quando encontrado,
finaliza aqui, é preciso assumir que a raiva de Teshub terminou,
assim como a praga.
Outras inscrições hititas que registram Encontros Divinos por meio
de sonhos e visões foram achadas. Algumas estão relacionadas à
deusa Ishtar, a suméria Inana, cuja elevação continuou bem depois
dos tempos dos sumérios.
Em uma dessas inscrições, o príncipe hitita que era herdeiro ao
trono afirmou que a deusa aparecera a seu pai num sonho, dizendo
a ele que o jovem príncipe tinha apenas alguns anos para viver; mas
que, se resolvesse dedicar-se a Ishtar como sacerdote, "então ele
deve viver". O rei, então, seguiu o sonho/premonição, o príncipe
viveu, e seu irmão (Muvatalis) herdou o trono em seu lugar.
O mesmo Muvatalis e Ishtar são os mais importantes num sonho
relatado por Hatusilis ill (1275-1250 a.C.), também um irmão de
Muvatalis. Afirma que Muvatalis, aparentemente por algum motivo
ruim, ordenou que seu irmão Hatusilis fosse submetido a um
julgamento "pela roda sagrada" (um procedimento ou tortura cuja
natureza é incerta). "Entretanto", a vítima declarou num relatório,
"minha senhora Ishtar me apareceu em um sonho. No sonho, ela me
disse o seguinte: 'Devo abandonar você para uma divindade hostil?
Não tema!'. Com a ajuda da deusa fui agraciado; porque a deusa,
minha Senhora, me segurou pela mão; ela jamais me abandonou a
uma divindade hostil ou julgamento ruim."
Segundo os vários anais reais hititas da época, a deusa Ishtar
anunciou seu apoio a Hatusilis III, em sua luta pelo trono com seu
irmão Muvatalis, em sete sonhos-oráculos. Num deles, o pedido foi
que a deusa prometera o trono hitita a Hatusilis num sonho da
esposa dele - esposa, segundo outro sonho, casada "segundo o
comando da deusa Ishtar; a deusa me confiou num sonho". Num
registro de um terceiro sonho, conta-se que Ishtar apareceu a Urhi-Teshub, herdeiro indicado de Muvatalis, e disse a ele num sonho
que todos os esforços para afastar Hatusilis eram em vão: "Sem
propósito vocês se cansaram, pois eu, Ishtar, entreguei todas as
terras dos hititas para Hatusilis".
Registros de sonhos hititas, pelo menos os que têm sido encon-trados, refletem a importância que foi ligada ali à própria observân-cia dos ritos e requisitos de adoração. Num texto descoberto, "um
sonho de sua majestade o rei" é relatado assim: no sonho, a
Senhora Hebat que Julga (a esposa de Teshub) repete sempre em
sua majestade: "Quando o Deus da Tempestade vem do céu, ele
não deve achar você avarento". Sonhando, o rei respondeu que
fizera um objeto ritual de ouro para o deus. Mas a deusa disse: "N ão
é o suficiente!". Depois outro rei, o de Hakmish, entrou na conversa-sonho, dizendo a sua majestade: "Por que não deu os instrumentos
Huhupal e as pedras de lápis-lazúli que prometeu a Teshub?".
Quando o rei hitita acordou desse sonho em "trílogo", relatou-o à
sacerdotisa Hebatsum. E ela disse que o significado do sonho era
"Você precisa dar os instrumentos Huhupal e as pedras lápis-lazúli
ao grande deus".
De forma não característica pelas narrativas de sonhos da realeza
no antigo Oriente Médio, alguns deles pertencem aos sonhos de
rainhas, membros femininos da realeza. Tal registro, que inicia com
a afirmação "Um sonho da rainha", declara que "a rainha fez um
voto em sonho à deusa Hebat". Nesse sonho votivo, a rainha disse
à divindade: "Se vós, minha Senhora, divina Hebat, irá deixar o rei
bem e não o entregará ao mal, farei para a divina Hebat uma
estátua de ouro e uma roseta de ouro, e para o regaço, farei
também um peitoral de ouro".
Em outra oportunidade, o evento registrado foi a aparição de um
deus não identificado no sonho da rainha - talvez a mesma rainha
que procurou a intervenção de Hebat para curar seu marido doente.
No sonho, esse deus diz à rainha "em relação ao assunto que pesa
sobre seu coração, sobre seu marido: ele vai viver; darei a ele 100
anos". Ao ouvir isso, "a rainha fez um voto em seu sonho”: "Se vós
fizerdes isso para mim e meu marido continuar vivo, darei aos
deuses três vasos Harshialli, um com óleo, outro com mel e outro
com frutas".
A doença do rei deve ter pesado muito no coração da rainha, pois
num terceiro registro de sonho a rainha diz que alguém a quem ela
não pôde ver repetia, no sonho: "Faça uma promessa à deusa
Ningal" (esposa de Nanar/Sin), prometendo a ela objetos rituais de
ouro, decorados com lápis-lazúli, se o rei se recuperar. Ali a doença
era descrita como "fogo dos pés".
Em outra parte da Ásia Menor, na Lídia, onde as cidades gregas
prosperaram, um rei chamado Giges teve - segundo seu adversário,
o rei assírio Assurbanipal- um sonho premonitório. Nele, o rei
adormecido viu uma inscrição que continha o nome de Assurbanipal.
O mensageiro divino disse: "Curve-se perante os pés de
Assurbanipal, o rei da Assíria; depois você conquistará seus inimigos
apenas mencionando o nome dele".
De acordo com a inscrição do rei assírio, o rei Giges, "no mesmo dia
em que ele teve o sonho, me enviou um cavaleiro para me desejar
boa saúde e contar-me o sonho; e desde o dia em que ele se curvou
perante meus pés reais, conquistou os Cimérios, que vinham
ameaçando os habitantes de seu país".
O interesse do rei assírio no registro de um rei estrangeiro não era
senão um reflexo das crenças assírias no poder dos sonhos como
uma forma poderosa de Encontro Divino. As epifanias e oráculos
dos sonhos reais eram um fenômeno procurado com ansiedade e
registrado pelos reis da Assíria; o mesmo era verdadeiro para os reis
da vizinha e rival Babilônia.
O próprio Assurbanipal, que mantinha anais extensos em prismas de
argila cozida (como a que se encontra no Museu do Louvre – fig.
81), relata numerosas experiências com sonhos; várias vezes eram
de outros que não ele mesmo, como no caso do rei Giges.
Numa ocasião, era o registro de um sacerdote que, no meio da
noite, "teve um sonho como se segue: havia um escrito sobre o
pedestal do deus Sin; o deus Nabu, escriba do mundo, estava lendo
a inscrição repetidamente: sobre aqueles que planejam o mal contra
Assurbanipal, rei da Assíria, e recorrem às hostilidades, trarei morte
sofrida, terminarei suas vidas com uma rápida espada de ferro,
conflagração, fome e doença". Um pós-escrito por Assurbanipal
nesse relatório afirma: "Esse sonho eu escutei e coloquei minha
confiança na palavra de meu Senhor Sin".
Em outra oportunidade ficou registrado que um só e o mesmo sonho
- talvez "visão" fosse um termo melhor - foi experimentado por um
exército inteiro. Nesse relevante texto, Assurbanipal conta que
quando seu exército alcançou o rio Idide, este era uma correnteza
poderosa, e os soldados ficaram com medo de atravessar. "Mas a
deusa Ishtar, que mora em Arbela, fez com que meu exército tivesse
um sonho no meio da noite." Nesse sonho em massa ou visão,
Ishtar dizia: "Vou à frente de Assurbanipal, o rei que eu mesma fiz".
O exército, acrescenta Assurbanipal num pós-escrito, "apoiou-se
nesse sonho e atravessou o rio Idide em segurança". (Dados
históricos confirmam a travessia desse rio pelo exército de
Assurbanipal por volta de 648 a.C.)
Na introdução de outro sonho em relação ao seu reinado,
Assurbanipal argumenta que o sonho de um sacerdote da deusa
Ishtar resulta de uma comunicação anterior da deusa diretamente
com o rei. "A deusa Ishtar escutou meus suspiros ansiosos e disse
para mim: 'Não tema... visto que ergueu as mãos em oração e seus
olhos estão cheios de lágrimas. Tenho piedade de você'." .
Foi durante a mesma noite da epifania acima que "um sacerdote-vidente foi para a cama e teve um sonho: quando acordou,
assustado, Ishtar fez com que ele tivesse uma visão noturna".
Conforme relatado pelo sacerdote a Assurbanipal, o que ele viu foi
isso: "A deusa Ishtar, que vive em Arbela, veio. Aljavas pendiam à
sua direita e à sua esquerda; ela manteve o arco em sua mão; sua
espada afiada estava desembainhada para a batalha. Vós estáveis
perante ela, e ela falava a vós como uma mãe verdadeira". Então,
disse, o sacerdote escutou em sua visão Ishtar dizer ao rei: "Espere
em seu ataque; aonde quer que vá, eu irei à frente... Fique aqui,
coma, tome vinho, alegre-se e louve minha divindade, enquanto
avanço e realizo a tarefa pela qual me pediu". Então o sacerdote
continuou a descrever sua visão: A deusa abraçou o rei e o envolveu
em sua aura protetora; "suas feições brilhavam como fogo, e ela saiu
da sala". A visão, contou o sacerdote-vidente ao rei, significava que
Ishtar estará ao lado do rei quando ele marchar contra o inimigo. A
visão de Ishtar armada como uma deusa guerreira emitindo raios
está registrada em várias representações (fig. 82).
Os anais de Assurbanipal, que se gabava de que entre seu grande
conhecimento constava a habilidade de interpretar sonhos, estão
repletos de referências a oráculos - provavelmente por meio de
sonhos, embora isso não esteja especificado - dados a ele por este
ou aquele dos" grandes deuses, meus senhores", ligados às suas
campanhas militares. O interesse dele em sonhos e suas
interpretações o levou também a ter os arquivos estatais
examinados à procura de registros de oráculos do passado. Assim
ficou-se sabendo que um arquivista de nome Marduk-shum-usur
contou a Assurbanipal que seu avô, Senaqueribe, tivera um sonho
no qual o deus Asur (fig. 83), o deus nacional da Assíria, apareceu a
ele e disse: "Ó sábio rei, rei dos reis: és filho do sábio Adapa,
ultrapassas todos os homens no conhecimento de Apsu (o domínio
de Enki)".
No mesmo relatório, o arquivista, evidentemente treinado como um
sacerdote de oráculo, também relatou a Assurbanipal as
circunstâncias que fizeram seu pai, Asaradão, invadir o Egito. Foi
quando "teu pai, Asaradão, se encontrava na região de Haran que
ele viu um templo de cedro e entrou e viu no interior o deus Sin
apoiado num cajado, segurando duas coroas". O deus Nusku, o
Divino Mensageiro dos deuses, "estava em pé perante ele; quando o
pai do rei entrou, o deus colocou uma coroa sobre sua cabeça
dizendo: 'Você vai para outros países, onde será o conquistador'.
Teu pai partiu e conquistou o Egito".
Embora o texto não diga nada explicitamente, presume-se que o
incidente no templo em Haran também tenha sido um sonho, uma
visão-sonho de Asaradão. Na verdade, textos históricos e religiosos
daquele época indicam que Nanar/Sin deixou a Mesopotâmia depois
que a Suméria foi destruída e Marduk voltou à Babilônia para
reclamar supremacia "na Terra e nos Céus" (em 2024 a.C., por
nossos cálculos). Haran, onde Asaradão recebeu o oráculo
permissivo do deus ausente, era um lugar de dois cultos de
Nanar/Sin, imitando o centro principal de Nanar/Sin na Suméria - a
cidade de Ur. Foi para Haran que o pai de Abraão, o sacerdote
Terah, levou sua família ao deixar Dr. Conforme veremos, Haran
entrou em destaque quando os sonhos-profecias e os eventos reais
mais uma vez mudaram o curso da história.
Conforme profetizado pelos profetas bíblicos, a poderosa Assíria, o
flagelo das nações, prostrou-se perante os invasores aquemênidas
(da Pérsia), que conquistaram Nínive em 612 a.C. Na Babilônia,
Nabucodonosor, livre da pressão dos assírios, avançou nas terras
vazias próximas e distantes e destruiu o templo em Jerusalém. Mas
os dias da Babilônia também estavam contados e o final foi previsto
para o rei numa série de sonhos. Conforme registrado pela Bíblia,
(Daniel, capítulo 2) Nabucodonosor teve um sonho perturbador.
Chamou os "mágicos, videntes, feiticeiros e caldeus" (astrólogos) e
pediu-lhes para interpretar o sonho - sem contar, entretanto, qual
fora o sonho. Como não puderam atender ao se u pedido, ordenou a
execução deles. Porém Daniel foi levado perante o rei e invocou os
poderes do "Deus no céu que revela mistérios". O carrasco recebeu
a ordem de esperar, e Daniel primeiro adivinhou o sonho, explicou
seu significado. "Em sua visão, apareceu uma estátua muito
grande", disse ele ao rei. "Tal estátua era de tamanho extraordinário
e tinha em pé diante de ti." A cabeça da estátua era de ouro puro, o
peito e os braços, de prata, o ventre e as coxas, de bronze, as
pernas eram de ferro, os pés parte ferro e parte barro. Então uma
pedra que nenhuma mão segurou apareceu e reduziu a estátua em
pedaços; os pedaços se tomaram palha, que foi carregada pelo
vento para desaparecer de todo lugar; e a pedra tornou-se uma
grande montanha.
"Esse foi o sonho", afirmou Daniel, e aqui está o significado: A
estátua representa a grande Babilônia; a cabeça de ouro é Nabuco-donosor; depois dele existirão mais três reis menores; no final, tudo
será varrido como palha e um novo rei de outro lugar se elevará.
Nabucodonosor teve um segundo sonho, depois disso. Chamou os
videntes, incluindo Daniel. Em "visões enquanto estava deitado na
cama", o rei disse que viu uma árvore alta que continuava
crescendo até atingir os céus; era uma árvore frutífera que fornecia
sombra. De repente:
A visão da minha cabeça, estando eu na minha cama,
é esta: eis que um Vigia, um Santo, desceu dos céus.
Clamou com uma voz forte e disse:
"Deitai abaixo pelo pé esta árvore, cortai-lhe os
ramos e espalhe seus frutos, mas deixai na terra
o tronco com suas raízes”.
E Daniel disse ao rei que a árvore era ele, Nabucodonosor; e a visão
era um oráculo das coisas que viriam a acontecer - o final de
Nabucodonosor, condenado a perder o juízo, a vagar pelos campos
como folha soprada pelo vento e a comer como os animais. A
tradição sustenta que Nabucodonosor realmente enlouqueceu,
morrendo sete anos depois daquele sonho premonitório (562 a.C.).
Conforme o previsto, os três sucessores foram reis de vida curta,
depostos e mortos numa série de rebeliões. Nesse espaço entrou a
alta sacerdotisa do templo de Sin, em Haran, a qual numa série de
preces a seu deus o convence a voltar para Haran e abençoar a
elevação de seu filho, Nabunaid (embora ele fosse apenas
remotamente associado à linha real assíria). Como resultado disso,
o último rei efetivo da Babilônia e seus sonhos ligaram o final da
civilização mesopotâmica a Haran. A época era 555 a.C.
Para que um não-babilônio seguidor de Sin fosse o dirigente da
Babilônia, era necessária a aprovação de Marduk e a reaproximação
entre esse filho de Enki e o filho de Enlil (Sin). A dupla bênção e o
entendimento foram confirmados - talvez conseguidos - pelos vários
sonhos de Nabunaid. Eram tão importantes que ele os gravou em
estelas, para que todos os conhecessem.
Os sonhos premonitórios de Nabunaid possuem alguns aspectos
incomuns. Em pelo menos dois deles, planetas representando
divindades fazem sua aparição. Em outro, a presença de um rei
morto toma parte nos acontecimentos, e foi dividido em duas partes
como forma de relatar um sonho no interior de outro sonho.
No primeiro dos três sonhos registrados, Nabunaid viu "o planeta
Vênus, o planeta Saturno, o planeta Ab-Hal, o Planeta Brilhante e a
Grande Estrela, as grandes testemunhas que vivem no céu". Ele (no
sonho) erigiu altares para eles e rezou por uma vida duradoura,
reinado longo e uma resposta favorável de Marduk. Nabunaid, então
- no mesmo sonho ou numa seqüência -, "deitou-se e contemplou,
em visão noturna, a Grande Deusa que restaura a saúde e concede
a vida aos mortos". Rezou para ela, também, por vida longa e "pedi
que ela voltasse seu rosto para mim". E...
Ela se voltou realmente
e olhou diretamente para mim
com seu rosto brilhante,
indicando assim sua piedade.
No preâmbulo do relatório de outro sonho, Nabunaid afirma que ele
"se tomou apreensivo em relação à conjunção da Grande Estrela e
da Lua", os equivalentes celestes de Marduk e Nanar/Sin. Então
dispôs-se a contar o sonho:
No sonho, de repente apareceu um homem a meu lado. Ele me
disse: "Não existem aspectos ruins na conjunção".
No mesmo sonho, Nabucodonosor, meu antecessor no trono,
apareceu perante mim. Ele estava em pé sobre um carro, com um
cocheiro. O cocheiro disse a Nabucodonosor: "Fale com Nabunaid
para que ele possa contar o sonho que teve!".
Nabucodonosor escutou-o e disse para mim: "Conte-me os bons
augúrios que viu".
Respondi: "Em meu sonho, vi com alegria a Grande Estrela e a Lua.
E o planeta de Marduk, alto no céu, me chamou pelo nome".
A conjunção dos equivalentes celestes de Marduk e Sin significava,
assim, a concordância de ambos na ascensão de Nabunaid ao
trono. Nabucodonosor parecia, numa espécie de retrospectiva,
aprovar sua sucessão.
O terceiro sonho mostrava a reaproximação de Marduk e Sin ainda
mais. Nele, os "grandes deuses" Marduk e Sin estavam em pé
juntos, e Marduk repreendeu o rei por ainda não ter começado a
reconstrução do templo de Sin, em Haran. Na conversa, Nabunaid
explicou que não podia fazer aquilo porque os medos estavam
sitiando a cidade. Marduk, então" previu a derrota do inimigo pela
mão de Ciro, o rei aquemênida. Isso realmente acontece mais tarde,
relata Nabunaid num pós-escrito do registro desse sonho.
Ao lutar para manter o império unido, Nabunaid indicou seu filho
Baltasar como regente da Babilônia. Lá, porém, no meio de um
banquete destinado a fazer esquecer o torvelinho que o cercava,
apareceu a Escrita-na-parede. Mene, Tekel, Fares eram as palavras
- os dias da Babilônia estão contados, o reino será dividido e
entregue aos medos e persas. Em 539 a.C. a cidade caiu perante o
rei aquemênida Ciro. Um de seus primeiros atos foi permitir o retomo
dos exilados para a sua terra de origem e restituir-lhes a liberdade
de cultuar nos templos de sua escolha - um edito gravado no
Cilindro de Ciro (fig. 84), agora no Museu Britânico, em Londres.
Para os exilados judeus, ele escreve uma proclamação especial
permitindo sua volta para a Judéia e a reconstrução do Templo de
Jerusalém; ele fez isso, afirma a Bíblia, porque foi "encarregado de
agir assim" por Iavé, o Deus do Céu.
Os Deuses também sonham?
Todos os animais que dormem também sonham? Apenas os
mamíferos, apenas os primatas - ou o sonho é exclusivo da espécie
humana?
Se, como parece ser o caso, o sonho é um dos talentos e
habilidades únicas que o homem não adquiriu apenas pela evolução,
então é parte da herança genética proporcionada a nós pelos
Anunnaki. Mas, para fazer isso, eles mesmos precisariam ser
capazes de sonhar. Será que sonhavam?
A resposta é Sim. Os "deuses" Anunnaki também tinham sonhos-oráculos.
Um exemplo é o sonho-oráculo quando Dumuzi, o filho de Enki,
prometido a Ishtar, neta de Enlil, previu num sonho sua própria mor-te, trazendo a um final trágico a história Anunnaki de "Romeu e
Julieta". O texto, chamado "Seu coração está cheio de lágrimas",
conta como Dumuzi, tendo estuprado sua própria irmã Geshtinanna,
vai dormir e tem pesadelos. Sonha que todos os seus atributos de
status e posses são tirados dele um a um por um pássaro
"principesco" e um falcão. No final, ele vê a si mesmo morto em seus
pastos de carneiros.
Ao acordar, Dumuzi perguntou a sua irmã o significado do sonho.
"Meu irmão, seu sonho não é favorável", disse ela. O sonho previu,
prosseguiu ela, sua prisão por "bandidos" que vão atar seus braços
e pernas. Em pouco tempo, realmente, "delegados ruins" chegam
para prender Dumuzi, por ordem de seu irmão mais velho, Marduk.
Uma saga de escapadas e perseguições se seguiu; no fim, Dumuzi,
encontrava-se no meio do pasto. Quando o demônio Gallu o
agarrou, na luta, Dumuzi foi morto acidentalmente; conforme ele vira
no sonho, seu corpo sem vida jaz entre os equipamentos no campo.
Nos textos cananeus em relação a Baal e Anat, é a deusa Anat que
enxerga, num sonho profético, o corpo sem vida de Baal e fica
sabendo onde está, de forma que ela possa recuperá-la e reviver o
deus morto.
11
ANJOS E OUTROS EMISSÁRIOS
Uma visão noturna, uma observação de Ovni e uma aparição de
anjos se juntam como um dos sonhos mais intrigantes narrados pela
Bíblia, conhecido como Sonho de Jacó. Trata-se do mais
significativo Encontro Divino, pois nele o próprio Iavé jurou proteger
Jacó, filho de Isaac e neto de Abraão, abençoá-lo e à sua semente,
e dar a Terra Prometida a ele e seus descendentes para sempre.
As circunstâncias que levaram a esse Encontro Divino, no qual Jacó
- numa visão - viu os Anjos do Senhor em ação, ocorreram durante a
jornada de Jacó de Canaã, onde a família se estabelecera, até
Haran, onde outros membros da família de Abraão ficaram quando
ele foi até o Sinai e o Egito. Receoso de que seu filho Jacó, com
quem a sucessão divina repousava, se casasse com uma cananéia
pagã, "Isaac chamou Jacó, o abençoou e disse-lhe: Não tomes
mulher das filhas de Canaã. Levanta-te, vá para Padam-Aram, à
casa de Betuel, pai de tua mãe, e toma para ti, de lá, mulher das
filhas de Labão, irmão da tua mãe".
Haran, conforme recordamos, era uma parada de caravanas (que é
o significado do nome) na rota para o norte, da Mesopotâmia para as
terras do Mediterrâneo, e, portanto, para o Egito. Foi lá que Abraão
ficou com seu pai, Terah, antes de receber a ordem de prosseguir
para o sul; foi lá que Asaradão (cerca de quinhentos anos depois)
recebeu a profecia para invadir o Egito, e Nabunaid foi escolhido
para reinar sobre a Babilônia (Haran, ainda chamada por seu nome
antigo, atualmente continua uma grande cidade no sul da Turquia,
mas desde que mesquitas muçulmanas foram construídas sobre o
monte, com a mesquita principal no local do antigo terreno sagrado
(fig. 85), os arqueólogos não podem cavar lá. Numerosas ruínas de
estruturas ainda são associadas com Abraão, e um poço ao norte da
cidade é chamado Poço de Jacó, cuja história se segue).


Ao iniciar sua viagem para o norte de Beersheba, Jacó chegou ao
final de um dia a um lugar onde seu avô Abraão havia acampa do,
viajando em sentido oposto, de Haran para Beersheba. Cansado,
Jacó deitou-se para dormir em um terreno rochoso. O que se segue
é mais bem narrado nas próprias palavras da Bíblia (Gênesis,
capítulo 28):
"E saiu Jacó de Beersheba e foi para Haran. E se encontrou no
lugar, e dormiu ali porque havia se posto o sol. E tomou uma das
pedras do lugar, colocou-a a sua cabeceira e deitou-se naquele
lugar. E sonhou, e eis que uma escada estava apoia da na terra, e
seu topo chegava até os céus, e eis que anjos de Elohim subiam e
desciam por ela. E eis que o Eterno estava sobre ela e dizia: 'Eu sou
Iavé, o Elohim de Abraão, teu avô, e o Elohim de Isaac; a terra em
que jazes sobre ela, a ti darei e à tua semente. E será a tua semente
como o pó da terra, e te fortalecerás, a oeste, a leste, ao norte e ao
sul; e por isso serão benditas todas as famílias da terra, e por tua
posteridade. E eis que Eu estou contigo, e te guardarei para onde
quer que fores, e te farei voltar a esta terra; porque não te
abandonarei até que Eu faça o que falei por ti'.
"E despertou Jacó do seu sono e disse: 'Certamente Iavé está neste
lugar, e eu não sabia.
"E ele temeu e disse: 'Quão espantoso é este lugar! Este não é outra
coisa a não ser a casa de Elohim, e esta é a porta dos Céus!'.
"E madrugou Jacó, e pela manhã tomou a pedra que colocara à
cabeceira e a pôs como monumento, e derramou azeite sobre seu
topo e chamou aquele lugar de Beth-El."
Nesse Encontro Divino, numa visão noturna, Jacó viu o que, sem
dúvida, hoje em dia chamaria de Ovni; com exceção de que, para
ele, não era um Objeto Voador Não-Identificado. Jacó percebeu que
os ocupantes ou operadores eram seres divinos, "anjos de Elohim",
e seu Senhor ou comandante não era outro que não o próprio Iavé,
que "estava sobre ela". O que ele testemunhou não deixou dúvidas
de que o local era um "Portal para o Céu" - um lugar do qual os
Elohim podiam ir para o céu. As palavras são similares àquelas
aplicadas à Babilônia (Bab-Ili, "Portão dos Elohim"), onde ocorreu o
incidente com a torre de lançamento" cujo cimo deve alcançar o
céu".
O comandante identificou a si mesmo para Jacó como "Iavé, o
Elohim" - o DIN.GIR - "de Abraão, teu avô, e o Elohim de Isaac". Os
operadores da "escada" são identificados como" anjos de Elohim", e
não simplesmente anjos; e Jacó, percebendo que sem saber parara
no local usado por esses astronautas divinos, chamou o lugar de
Beth-El (Casa de El), sendo El o singular de Elohim.
Algumas palavras de etimologia e da identidade desses" anjos" são
necessárias.
A Bíblia é cuidadosa ao identificar os subordinados da divindade
como “Anjos de Elohim”, e não simplesmente “anjos”, porque o
termo hebraico Mal’akhim não significa “anjos”; significa,
literalmente, “emissários”; e o termo é empregado na Bíblia para
emissários comuns, de carne e osso, que levavam mensagens reais,
e não divinas. O rei Saul enviou Mal'akhim (normalmente traduzido
como “mensageiros”) para convocar Davi (II Samuel 16:19); Davi
enviou Mal'akhim (também traduzido como “mensageiros”) ao povo
de Jabesh Gilead para informá-los de que ele fora ungido rei (II
Samuel 2:5); o rei Ahaz, da Judéia, enviou Mal'akhim (“emissários”)
ao rei assírio, Teglate Falasar para ajudar a repelir ataques inimigos
(II Reis 16:7), e assim por diante. Etimologicamente, o termo deriva
da mesma raiz Mala'kha, que foi traduzida alternadamente como
“trabalho”, “ofício”, “artesanato”. A Bíblia emprega o termo nessa
derivação em conexão com a “Sabedoria e Entendimento” que Iavé
deu a Bezalel para ser capaz de realizar o Mala'kha necessária para
construir o Tabernáculo e a Arca da Aliança no deserto do Sinai,
portanto um Mal'akh (singular de Mal'akhim) significava não um
mero mensageiro, mas um emissário especial, treinado e qualificado
para a tarefa e com alguns poderes de autonomia (como um
embaixador teria). A referência das próximas páginas é relativa à
expressão “Anjos de Elohim, os Emissários Divinos”.
A história de Jacó é pontilhada de sonhos premonitórios e encontros
angélicos - continuando, como veremos, as experiências dos
Patriarcas, seu avô, Abraão, e seu pai, Isaac.
Ao encontrar Raquel no poço de água nos pastos de Haran e
descobrindo que ela era filha de seu tio Labão, Jacó pediu a
permissão de Labão para casar com ela. O tio concordou, desde que
Jacó aceitasse servir Labão durante sete anos; depois disso Labão
fez com que Jacó se casasse com sua filha mais velha, Lia, exigindo
que ele servisse outros sete anos para ter Raquel como segunda
esposa. Por insistência de Labão, Jacó, suas esposas, os filhos e os
rebanhos que ele conseguiu acumular ficaram... por vinte anos.
Então, uma noite Jacó teve um sonho. Nesse sonho, ele viu
“carneiros saltando nos rebanhos, que eram listrados, malhados e
pintados”. Intrigado pelo que vira, Jacó então recebeu uma profecia
na segunda parte do sonho na qual um “anjo de Elohim” aparece e
o chama pelo nome. “E disse Jacó: Aqui estou eu. E disse o anjo:
Ergue, rogo, teus olhos, e vê que todos os carneiros que cobrem o
rebanho são listrados, malhados e pintados, pois tenho visto tudo o
que Labão fez a ti. Eu sou El, de Beth-El, onde sagraste um
monumento... Agora levanta, sai desta terra e volta à terra de teu
nascimento."
Assim, agindo de acordo com seu sonho-oráculo, Jacó apanhou sua
família e seus pertences, e aproveitando a oportunidade de Labão
se encontrar longe de casa, tosquiando ovelhas, deixou Haran
apressadamente. Quando a notícia chegou a Labão, este ficou
furioso. "E veio Elohim a Labão, o arameu, no sonho da noite, e
disse-lhe: Guarda-te ao falar com Jacó; nem bem, nem mal". Assim
prevenido, Labão acabou por concordar com a partida de Jacó, e os
dois erigiram uma pedra, segundo os costumes da época.
Chamadas de Kudurru, eram pedras arredondadas no topo; os
termos do acordo foram inscritos nelas, terminando com juramentos
e a invocação dos deuses de cada parte como testemunhas do
tratado; algumas vezes os símbolos dos equivalentes celestes dos
deuses invocados estavam gravados próximos ao topo arredondado
da pedra (fig. 86). Constitui um indicativo da precisão bíblica ao
descrever o evento quando a narrativa (Gênesis 31:53) afirma: "O
Elohim de Abraão e o Elohim de Nahor julguem entre nós, o Elohim
dos pais deles". Enquanto o nome do Deus de Abraão, Iavé, não é
mencionado, uma distinção é feita entre Ele e os deuses de seu
irmão Nahor (que ficara para trás em Haran); todos, segundo Labão,
eram Elohim do pai, Terah.
Os dados bíblicos sugerem que a rota favorita dos Patriarcas entre o
Neguev (a parte sul de Canaã, que faz limite com a península do
Sinai), da qual Beersheba era (e ainda é) a cidade principal, envolvia
uma travessia do rio Jordão; isso indica que a Estrada do Rei, a
leste do rio, era usada (em vez da costeira, a Estrada do Mar - veja o
mapa). Foi então que Jacó, viajando para o sul com sua família,
comitiva e rebanhos, chegou a um lugar onde o afluente Iaboc cria
uma passagem mais fácil para a travessia do Jordão pelas
montanhas; ali aconteceu seu encontro seguinte com um Mal'akhim.
Dessa vez, entretanto, não foi sonho nem visão: foi um encontro
face a face!
O acontecimento é relatado no capítulo 32 do Gênesis:
E voltou Jacó a seu caminho,
e encontraram-no anjos de Elohim.
E disse Jacó quando os viu:
"Um acampamento dos Elohim é este!",
E chamou o lugar de Mahana'im
(o Lugar de Dois Acampamentos).
O acontecimento foi gravado aqui em apenas dois versos,
significativamente constituindo uma seção separada na escrita
formal da Bíblia. Nos versos seguintes é narrada a história
subseqüente, mas não relacionada à história do encontro de Jacó
com seu irmão Esaú. A forma pela qual os antigos editores das
Escrituras trataram esses dois versos traz à mente a forma pela qual
o segmento dos Nefilim foi narrado no capítulo 6 do Gênesis
(antecedendo a história de Noé e da arca), em que o segmento é
nitidamente um remanescente de um texto mais longo. Da mesma
forma, essa referência deve ser um relato de encontro com um
grupo ou acampamento de Emissários Divinos - dois versos que
permaneceram de um texto mais longo e detalhado.
Os antigos editores do Gênesis devem ter mantido a breve menção
por causa do episódio que se segue, porque explica o motivo pelo
qual o nome Jacó foi mudado para Israel.

Ao chegar ao Vau do Iaboc, incerto de qual seria a atitude de seu
irmão Esaú ao saber que o rival de sua sucessão retornara, Jacó
adotou a estratégia de enviar a comitiva um pouco de cada vez. No
fim, apenas ele, suas duas esposas com as criadas e os onze filhos
permaneceram no acampamento para passar a noite; dessa forma,
sob o proteção da escuridão, Jacó "tomou-os e os fez passar o
ribeiro, e fez passar tudo o que era dele".
Então ocorreu o inesperado Encontro Divino:
E ficou Jacó só;
e lutou um homem com ele
até levantar-se a aurora.
E vendo que não podia com ele,
tocou-lhe na juntura de sua coxa (de Jacó),
e desconjuntou-se a juntura da coxa de Jacó
em sua luta com ele.
E disse: "Deixa-me ir, que vem rompendo a aurora".
Mas Jacó disse: "Não te deixarei ir,
salvo se me abençoares".
E ele disse: "Qual é teu nome?".
E disse: "Jacó".
E disse: "Não, Jacó não será mais teu nome,
e sim Israel, pois lutaste com (o anjo de) Deus
e venceste".
Isra-El é um jogo de palavras que combina o significado de "disputa,
luta", com El, a divindade).
E perguntou Jacó:
"Dize-me, rogo, teu nome!".
E ele disse: "Por que perguntas meu nome?".
E ali o abençoou.
E chamou Jacó o lugar de Peni-El
(Rosto de El)
"Porque vi Elohim
face a face e foi salva minha alma".
E nasceu o sol quando passou Peniel,
e manquejava de sua coxa.
A primeira referência na Bíblia a um anjo do Senhor é no capítulo 16,
relatando um acontecimento na época do avô de Jacó, Abraão.
Abraão e sua esposa, Sara, estavam ficando velhos - ele com mais
de oitenta e ela dez anos mais nova; e ainda não tinham filhos.
Abraão acabava de cumprir a missão pela qual fora até Canaã -afastar ataques ao Espaçoporto no Sinai: a Guerra dos Reis
(descrita no capítulo 14 do Gênesis). O agradecido Senhor Iavé:
Apareceu a Abrão em uma visão, dizendo:
"Não temas, Abrão, Eu sou teu escudo;
tua recompensa será muito grande".
Porém Abraão (ainda chamado pelo nome sumério, Abrão), que não
tinha filhos, respondeu amargamente: "Eis que a mim não des te
semente, e é que meu escravo vai me herdar".
E eis que foi a palavra de Iavé a ele:
"Este não te vai herdar,
senão o que sairá de tuas entranhas;
esse te herdará".
E o fez sair e disse: "Olha para os céus
e conta as estrelas, se podes contá-las".
E disse: "Assim será tua semente".
Foi nesse dia que Iavé fez uma aliança com Abrão, dizendo: "À tua
semente dei esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio
Eufrates".
Porém a história bíblica continua. A despeito da promessa de
incontáveis descendentes, Sara não teve um filho de Abraão. Então
Sara disse ao marido que talvez fosse vontade do Senhor que
Abraão não dependesse da capacidade de ela ter filhos, e sugeriu
que ele "viesse" até sua serva pessoal, Hagar, a egípcia. E "Hagar
concebeu", e começou a depreciar sua ama.
Embora fosse sua própria sugestão, Sara ficou furiosa e "maltratou-a", e Hagar fugiu.
E achou-a o anjo do Senhor
sobre a fonte das águas do deserto,
no caminho de Shur.
E disse: "Hagar, serva de Sara,
de onde vens e aonde vais”?
Hagar explicou que estava fugindo de sua ama, então o anjo lhe
disse para voltar, pois teria um filho e dele haveria descendência
numerosa. "E o chamarás de Ishma-El - Deus Ouviu -, porque ouviu
Deus tua aflição." E voltou Hagar e deu à luz Ismael; "e Abraão tinha
86 anos quando Ismael nasceu". Passaram-se treze anos antes que
Iavé mais uma vez" aparecesse" a Abraão e confirmasse a Aliança
com ele e seus descendentes e tomasse providências para conceder
a Abraão uma legítima sucessão por meio de um filho de sua meia-irmã (Sara). Como parte de sua legitimação, Abraão e todos de sua
casa tiveram que ser circuncidados; como parte da herança de
Canaã e para cortar todos os laços com o antigo país, a Suméria, o
patriarca hebreu e sua esposa tiveram de mudar seus nomes
sumérios (Abrão e Sarai) e adotar as versões semitas, Abraão e
Sara. (Nossas referências até agora a "Abraão" e "Sara" foram por
conveniência; a Bíblia, até esse ponto, os trata de Abrão e Sarai.)
Abraão tinha, nessa época, 99 anos.
Os detalhes desses encontros divinos, associados à predição sobre
o nascimento de Isaac por Sara, são fornecidos no capítulo 17 do
Gênesis. As circunstâncias - a teofania que levou à destruição de
Sodoma e Gomorra - são descritas no capítulo seguinte, "quando
Iavé mostrou-se" a Abraão. O idoso patriarca estava sentado à porta
de sua tenda; era meio-dia, a hora mais quente. Repentinamente,
três estranhos apareceram a Abraão, como se viessem do nada:
E ele ergueu os olhos e olhou,
e eis que três homens estavam parados acima dele.
E quando os viu, correu ao encontro deles
desde a porta da tenda e prostrou-se em terra,
e disse (ao maior):
"Meu Senhor, se tenho achado graça em teus olhos,
rogo-te que não passes por (sobre) teu servo.
A cena é repleta de mistério. Três estrangeiros aparecem de repente
a Abraão, vistos quando ele ergue os olhos para o céu. Ele os vê em
pé, "acima dele". Embora não identificados ainda, ele rapidamente
reconhece a natureza extraordinária - divina - do encontro. De
alguma forma, um deles se destaca, e Abraão se dirige a ele,
chamando-o "Meu Senhor". Suas palavras iniciam-se com um
pedido importante: "Rogo-te que não passes sobre teu servo". Em
outras palavras, ele reconheceu a habilidade de percorrer os céus...
Ainda assim, eles eram tão humanos que ele lhes ofereceu água
para lavar os pés, convidou-os para descansar à sombra da árvore,
e lhes ofereceu um pedaço de pão para "sustentar o coração", antes
que passassem "sobre" ele. "E eles disseram: Assim fareis,
conforme falaste."
"E apressou-se Abraão à tenda, onde estava Sara" e pediu a ela que
preparasse pães, enquanto ele providenciou um prato de carne,
depois serviu a refeição a eles. Um deles, perguntando a respeito de
Sara, disse: "Em um ano, quando eu retornar a ti, terá um filho Sara,
tua mulher". Ao escutar aquilo na tenda, Sara riu, pois como
poderiam ela e Abraão, tão idosos, ter um filho?
E disse Iavé a Abraão:
"Por que se riu Sara dizendo:
Como é verdade que darei à luz, se envelheci?
Existe oculto de Iavé alguma coisa?
No prazo fixado voltarei a ti,
na mesma época no ano que vem,
e Sara terá um filho".
E seria por intermédio de Isaac que a semente da Aliança feita com
Abraão se faria duradoura, afirmou Iavé.
À medida que a história continua, lemos que as pessoas se
ergueram para olhar na direção de Sodoma, e Abraão foi
acompanha-los. Mas enquanto a narrativa continua a descrever os
três visitantes inesperados como Anashim - "pessoas" - o oráculo
em relação ao nascimento de Isaac (cujo nome hebraico, Itz'hak, era
um jogo de palavras com o "riso" de Sara) nos deixa entrever que
um dos três era o próprio Iavé. Foi uma teofania impressionante, em
que o Patriarca teve o Senhor Iavé como hóspede!
Ao chegarem ao promontório do qual Sodoma podia ser vista no
vale do mar do Sal, Iavé resolveu contar a Abraão qual o motivo de
sua visita.
E disse Iavé:
"O clamor de Sodoma e Gomorra aumentou,
e seu pecado se agravou muito.
Descerei, pois, e verei que,
se fizeram como o clamor (das cidades)
vem a mim, darei fim neles;
Do contrário, o saberei".
Essa, então, era a missão das outras duas "pessoas" que estavam
com Iavé - verificar a verdade ou a extensão da verdade sobre os
"pecados" das duas cidades no vale do Jordão, próximo ao que hoje
em dia é o mar Morto, de forma que Iavé pudesse determinar-lhes o
destino. "E se voltaram dali as pessoas e foram a Sodoma, e Abraão
ainda estava diante de Iavé", é o que lemos em Gênesis 18:22;
porém quando a chegada das duas "pessoas" a Sodoma é narrada a
seguir (Gênesis 19:1), torna-se claro aonde foram os dois: "E vieram
os dois anjos a Sodoma, de tarde". Os três visitantes que haviam
aparecido a Abraão, portanto, eram Iavé e seus dois emissários.
Antes que a Bíblia se focalize nas visitas dos anjos a Sodoma e
Gomorra para a destruição das" cidades do mal", a Bíblia mostra
uma conversa incomum entre Abraão e Iavé. Aproximando-se do
Senhor, Abraão assumiu o papel de advogado de defesa de Sodoma
(onde Lot, seu sobrinho, morava com a família). "Se encontrar
cinqüenta justos dentro da cidade, também a destruirás e não a per -doarás pelos cinqüenta justos que há dentro dela? Longe de ti fazer
tal coisa, de matar o justo com o mau?"
Lembrando Iavé de que ele era "Juiz de toda a Terra", e que sempre
faria justiça, Abraão colocou o Senhor num dilema. Então Iavé
respondeu que se houvesse cinqüenta justos em Sodoma ele
pouparia a cidade. Em seguida Abraão, pedindo desculpas pela
audácia, insistiu, perguntando o que aconteceria se faltassem cinco
a esse número. Iavé respondeu, dizendo que não a destruiria se
houvesse 45 justos. Assumindo a ofensiva, Abraão começou a
barganhar, reduzindo o número de justos pelos quais a cidade seria
poupada, até chegar a dez. "E foi embora Elohim logo que acabou
de falar a Abraão", subindo para o céu, de onde viera naquele
mesmo dia. "E Abraão voltou ao seu lugar."

CONTINUA....

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