sexta-feira, agosto 17, 2012

Coleção Zecharia Sitchin Livro 8 - Encontros Divinos - 2º PARTE

....Devido ao aumento do sofrimento humano à medida que a Idade do
Gelo piorava, Enlil proibiu os outros deuses de ajudar a humanidade;
fica claro, pelos detalhes no Épico de Atra-hasis, que a intenção dele
era que os homens morressem de fome. Mas, de alguma forma, a
humanidade sobreviveu, pois na ausência de chuva os grãos ainda
cresciam com a neblina da manhã e da noite. Com o tempo, porém,
"os campos férteis ficaram brancos e a vegetação não brotava". "As
pessoas andavam curvadas nas ruas, os rostos esverdeados." A
fome levou a lutas entre irmãos e até mesmo ao canibalismo. Enki,
desafiando a ordem do meio-irmão, descobriu formas de ajudar a
humanidade a sustentar-se, sobretudo pela engenhosa captura de
peixes. Foi especialmente benevolente com seu fiel seguidor Atra-hasis (" Aquele que é o mais sábio"), semideus encarregado de agir
como intermediário entre os Anunnaki e seus servos humanos na
colônia de Shurupak - uma cidade sob a proteção de Ninmah/
Ninharsag.
Como revelam os vários textos, Atra-hasis, procurando a orientação
e assistência de Enki, mudou sua cama para o templo de forma que
pudesse receber as instruções divinas por meio de sonhos.
Mantendo vigília constante no templo, "todos os dias ele chorava,
fazendo oblações pela manhã", e à noite, "prestando atenção aos
sonhos".
A despeito de todo esse sofrimento, a humanidade continuava na
Terra. O lamento do povo - segundo Enlil, berros - só aumentava
sua irritação. Antes disso, ele explicara a necessidade de aniquilar a
humanidade porque" o barulho da humanidade se tornou muito
desagradável; o alarido não me deixa dormir". Dessa forma, fez com
que os outros líderes jurassem guardar segredo dos humanos sobre
o que iria acontecer - a avalanche de água -, de forma que eles
morreriam.
Enlil abriu sua boca para falar
e dirigiu-se à reunião de todos os deuses:
"Vamos todos nós fazer um juramento
em relação à Inundação que mata!
Que os próprios Anunnaki estivessem se preparando para
abandonar a Terra em seu Transporte Espacial era a segunda parte
do segredo que os deuses juraram manter dos humanos. Porém à
medida que todos os outros juravam, Enki resistia. "Por que desejam
me atar a um juramento? Devo erguer a mão contra meus próprios
humanos?" Urna discussão forte começou, mas no final Enki teve de
jurar não revelar "o segredo", como todos os outros.
Foi depois dessa cerimônia de juramentos que Atra-hasis,
permanecendo à noite no templo, recebeu a seguinte mensagem no
sonho:
Os deuses mandaram a destruição total.
Enlil impôs um destino cruel aos humanos.
Era uma mensagem, um oráculo, que Atra-hasis não conseguiu
entender. "Atra-hasis abriu sua boca e dirigiu-se a seu deus: 'Me
diga o significado do sonho para que eu possa entender'."
Mas corno Enki poderia ser mais explícito sem quebrar seu
juramento? Enquanto Enki examinava o problema, a resposta veio.
Ele jurara manter "o segredo" e não revelar nada aos seres
humanos, mas não podia contar seu segredo a uma parede? Assim,
um dia, Atra-hasis escutou a voz de seu deus sem vê-lo. Não se
tratava, porém, de um sonho, à noite. Havia luz do dia. Ainda assim,
o encontro era completamente inédito.
A experiência foi traumática. Lemos na recensão assíria que,
surpreso, Atra-hasis "curvou-se e prostrou-se”, depois ergueu-se,
abriu sua boca e disse:
Enki, senhor-deus...
Ouvi vossa entrada.
Reparei em passos como sendo os vossos!
Durante sete anos, Atra-hasis dissera: "Vi vosso rosto". Agora, de
repente, ele não conseguia enxergar seu senhor-deus. Agradando
ao deus invisível, "Atra-hasis fez sua voz audível e falou a seu
senhor", perguntando sobre o significado do presságio em seu
sonho, de forma que ele pudesse saber o que fazer.
Então Enki "abriu a boca para falar e dirigiu-se à parede de junco".
Ainda sem enxergar seu deus, Atra-hasis escutou a voz da
divindade vindo de detrás da parede de junco do templo: seu senhor
deus estava instruindo a parede:
Parede, me escute!
Parede de junco, escute minhas palavras!
Largue sua casa, construa um barco!
Rejeite a prosperidade, salve a vida!
As instruções para a construção do barco seguiam-se. Tinha de
possuir um teto, pois o sol não deveria ser visto de seu interior; tinha
de ser calafetado com alcatrão "embaixo e em cima". Depois Enki
"abriu o relógio de água e o encheu; anunciou para ele a vinda de
uma inundação assassina na sétima noite". Uma representação num
selo cilíndrico sumério parece ilustrar a cena, mostrando a parede de
juncos (na forma de um relógio de água?) segura por um sacerdote.
Enki como deus-serpente, e o herói do Dilúvio recebendo instruções
(fig. 22).
A construção do barco, obviamente, não poderia ficar escondida das
outras pessoas; como poderia acontecer sem alertá-las da catástrofe
que se aproximava? Por isso, Atra-hasis recebeu instruções (vindas
de detrás da parede de junco) para explicar aos outros que estava
construindo o barco com o propósito de deixar a cidade. Devia dizer
a eles que, como adorador de Enki, não podia mais ficar num lugar
controlado por Enlil:
Meu deus não concorda com o deus de vocês.
Enki e Enlil estão zangados um com o outro.
Como eu reverencio Enki,
Não posso ficar na terra de Enlil.
Fui expelido de minha casa.
O conflito entre Enki e Enlil, que antes precisava ser deduzido das
ações de ambos, agora atingia espaço aberto - o suficiente para
servir de motivo para o banimento de Atra-hasis. A cidade onde
esses eventos ocorriam era Shuruppak, um acampamento sob a
soberania de Ninmah/Ninharsag. Lá, pela primeira vez, um semideus
foi elevado ao cargo de rei. Segundo os textos sumérios, seu nome
era Ubar-Tutu. Seu filho e sucessor foi o herói do Dilúvio (os
sumérios o chamavam Ziusudra; no Epopéia de Gilgamesh, ele era
chamado Utnapishtim; na Antiga Babilônia, seu nome-epíteto era
Atrahasis; a Bíblia o chamava de Noé). Como um dos
acampamentos Anunnaki no Edin era domínio de Enlil, Enki fora
designado para o Abzu, no sul da África. Era aquela terra além dos
mares, dizia Atra-hasis, que ele esperava alcançar em seu barco.
Ansiosos por se verem livres do homem banido, os anciãos da
cidade fizeram com que todos os habitantes ajudassem a construir o
barco. "O carpinteiro trouxe seu machado, os trabalhadores
trouxeram as pedras de alcatrão, os mais jovens carregavam o
piche, os calafetadores faziam o resto." Quando o barco ficou pronto,
de acordo com Atra-hasis, as pessoas da cidade o ajudaram a
carregá-lo com gêneros e água (mantidos em compartimentos
estanques), assim como "animais limpos... animais gordos...
criaturas selvagens... gado... pássaros alados do céu". A lista parece
a do Gênesis, segundo a qual as instruções do Senhor para Noé
eram de colocar na Arca dois animais de cada espécie, macho e
fêmea, "de cada animal vivo de carne... das aves, segundo sua
espécie, e de gado segundo sua espécie".
O embarque dos casais de animais tem sido um assunto favorito de
incontáveis artistas, sejam mestres pintores, sejam ilustrado res de
livros infantis. Foi também um dos fatos que ergueram mui tas
sobrancelhas com incredulidade, taxando a história como
virtualmente impossível, tornando-a assim uma forma alegórica de
explicar como a vida animal continuou depois do Dilúvio.
Indiretamente, tais dúvidas em relação a um detalhe importante
como esse lançam incredulidade sobre os fatos de toda a história do
Dilúvio.
É portanto digno de nota que a recensão da história do Dilúvio com o
Epopéia de Gilgamesh ofereça uma visão completamente diferente
em relação à preservação da vida animal: os animais não foram
levados vivos para bordo, e sim suas sementes, para serem
preservadas!
O texto (estela XI, linhas 21-28) cita então Enki falando com a
parede:
Folha de junco, folha de junco! Parede, parede!
Folha de junco, atenção! Parede, reflita!
Homem de Shuruppak, filho de Ubar-Tutu:
abandone sua casa, construa um navio!
Desista de suas posses, procure sua vida!
Deixe os bens, mantenha a vida!
A bordo do navio, leve a semente de todas as coisas vivas.
Ficamos sabendo, na linha 83 da estela, que Utnapishtim (como Noé
era chamado nessa antiga recensão babilônica) realmente levou
para bordo "tudo o que eu tinha de sementes das coisas vivas".
Claramente, não é uma referência às sementes das plantas, mas às
dos animais.
O termo "semente" nas recensões assíria e babilônica é a palavra
acadiana zeru (zera em hebraico), que significa aquilo do qual todas
as coisas vivas brotam e crescem. Esses recensões derivam do
original sumério, fato claramente estabelecido; na verdade, em
algumas versões acadianas, o termo técnico para "semente" foi
mantido em sua forma suméria original, NUMUN, que era usado
para significar aquilo com o que o homem procriava.
Levando a bordo "as sementes das coisas vivas" em vez de levar os
próprios animais, não apenas reduziu o espaço até proporções
administráveis. Implicou também o uso de biotecnologia sofisticada
para preservar as várias espécies - uma técnica que vem sendo
desenvolvida hoje em dia com os segredos genéticos do DNA. Isso
era viável, já que Enki estava envolvido; ele era o mestre da
engenharia genética, simbolizado nesse aspecto pela capacidade
das Serpentes Entrelaçadas, que imitam a hélice dupla de DNA.
A atribuição da salvação da humanidade, na versão sumério-mesopotâmica, a Enki faz muito sentido. Ele foi o criador do Adão e
do Homo sapiens, que compreensivelmente chama de "meus
humanos". Como cientista-chefe dos Anunnaki, ele poderia
selecionar, obter e fornecer a tecnologia para reviver os animais a
partir de suas "sementes" (DNA). Ele também era adequado para o
papel de projetista da Arca de Noé - uma embarcação de projeto
especial para sobreviver à avalanche de água. Todas as versões
concordam que a Arca foi construída de acordo com as
especificações fornecidas pela divindade.
Construída de forma que dois terços do grande volume ficasse
abaixo da linha da superfície, a Arca possuía estabilidade fora do
comum. A estrutura de madeira foi impermeabilizada com betume,
tanto no exterior quanto no interior, de forma que, quando a onda
envolvesse os conveses superiores, estes não deixassem a água
penetrar. O topo achatado só possuía uma cubículo estendendo-se
acima da superfície, cuja escotilha também foi fechada e selada com
betume, quando veio a época de enfrentar o Dilúvio. Uma das
muitas sugestões para o formato da Arca de Noé, o desenho feito
por Paul Haupt ("O Navio do Noé Babilônico", em Beitrage zur
Assyriologie), nos parece a mais plausível. Também possui uma
semelhança impressionante com um submarino moderno, com uma
torre cuja escotilha permanece fechada quando em mergulho.
Não é de estranhar, talvez, que essa embarcação foi especialmente
descrita na recensão babilônica e assíria como um tzulili - um termo
que até hoje em dia (em hebraico moderno, tzolelet) denota um
submersível, um submarino. O termo sumério para o barco de
Ziusudra era MA.GUR.GUR, significando "um barco que pode virar e
emborcar".
Segundo a versão bíblica, a Arca de Noé foi construída com junco e
cipreste, tinha apenas uma escotilha, e foi coberta com betume "por
dentro e por fora". O termo hebraico no Gênesis para a embarcação
completa é Teba, o que implica alguma coisa fechada em todos os
lados, uma "caixa", em lugar do termo comum" arca". Derivando do
acadiano Tebitu, é considerada por alguns acadêmicos significando
"barco de bens", um navio de carga. Porém o termo, com um "T"
forte, significa" afundar". O navio seria assim um bar co "afundável",
hermeticamente selado, de forma que, mesmo submerso sob a onda
inicial do Dilúvio, pudesse resistir e voltar à superfície.
Faz sentido dizer que EN.KI foi o projetista da embarcação. É bom
lembrar que seu nome-epíteto, antes de receber o título de EN.KI
("Senhor da Terra") era E.A. - "Ele, Cuja Casa/Habitação é o Mar".
De fato, como afirmam os textos que lidam com o início da
colonização, Ea gostava de velejar nas águas do Edin, sozinho ou
com marinheiros cujas canções ele apreciasse. As representações
sumérias o apresentam com fluxos de água - o protótipo de Aquário
(a casa do Zodíaco dedicada a ele). Ao implantar as operações de
extração de ouro no sudeste da África, ele também organizou o
transporte do minério até o Edin em embarcações de carga,
apelidadas de ''barcos de Abzu"; foi imitando essas embarcações
que Atra-hasis construiu o Tzulili. Como mencionamos antes, foi
numa das viagens dos barcos do Abzu que Ea "carregou"
Ereshkigal. Marinheiro experimentado e perito construtor naval, mais
do que qualquer outro Anunnaki, teria sido ele o projetista da
engenhosa embarcação que sobreviveu ao Dilúvio.

A Arca de Noé e sua construção são componentes-chave da história
do Dilúvio, pois sem tal embarcação a humanidade teria perecido,
conforme o desejo de Enlil. A história do barco possui ainda outro
aspecto da era antediluviana; existe familiaridade com a utilização
de barcos naquela época remota - aspectos ambos mencionados na
história de Adapa. Tudo isso corrobora a existência de embarcações
antediluvianas, e portanto as representações incríveis de barcos
feitas pelo homem de Cro-Magnon nas cavernas.
Quando a construção da embarcação se completou e a
aparelhagem e o carregamento foram realizados conforme as
instruções de Enki, Atra-hasis levou sua família. Segundo Berossus,
os que foram a bordo incluíam alguns amigos íntimos de
Ziusudra/Noé. Na versão acadiana, Utnapishtim "fez com que todos
os artesãos subissem a bordo" para ser salvos pelo barco que
ajudaram a construir. Em outro detalhe dos textos mesopotâmicos,
também ficamos sabendo que o grupo possuía um navegador com
experiência, de nome puzur-Amurri, indicado por Enki, que sabia
para onde dirigir o barco depois que passasse a devastadora
primeira onda.
Mesmo depois de o navio estar carregado e pronto, Atra-hasis/
Utnapishtim ainda não podia ficar em seu interior, e ficava saindo
constantemente para verificar o sinal que Enki lhe dissera para
esperar:
Quando Shamash,
ordenar um tremor ao pôr-do-sol
e disparar uma chuva de erupções –
entre em seu navio
e feche a entrada!
O sinal era o lançamento de espaçonaves em Sippar, o local do
espaçoporto dos Anunnaki no Sinai, cerca de 170 quilômetros ao
norte de Shurupak. O plano dos Anunnaki era reunir-se lá e de lá
partir para a órbita terrestre. Atra-hasis/Utnapishtim "foi a bordo do
navio, fechou a escotilha e entregou a estrutura para Puzur-Amurri, o
navegador". As instruções do piloto eram navegar até o monte Nitzir
("Monte da Salvação") - o pico duplo do monte Ararat.
Alguns fatos importantes emergem desses detalhes. Eles indicam
que o mestre do Plano de Salvação estava consciente não apenas
da existência do monte, tão distante da Mesopotâmia, mas também
que esses dois picos seriam os primeiros a emergir da onda inicial
do maremoto, sendo os mais altos em todo o oeste da Ásia (5.660 m
e 4.300 m). Teria sido um fato conhecido para qualquer dos líderes
Anunnaki, pois quando estabeleceram seu espaçoporto
antediluviano em Sippar, orientaram o Corredor de Aterrissagem
pelos picos gêmeos do Ararat.
O mestre do Plano de Salvação estaria também consciente da
direção geral para a qual a massa de água carregaria o barco; pois a
menos que a onda viesse do sul e carregasse o barco na direção
norte, nenhum piloto poderia redirecionar a embarcação (sem remos
nem velas) até o destino calculado.
Esses elementos da Geografia do Dilúvio (cunhando uma ex-pressão) têm origem na causa e na natureza do Dilúvio. Contrário à
crença popular de que a calamidade aquática resultou de chuva
excessiva, as narrativas bíblica e mesopotâmica (anterior) deixam
claro que - chuvas fortes vieram após a queda da temperatura – a
catástrofe começou quando uma ventania veio do sul, seguido de
uma onda de água proveniente do sul. A fonte das águas eram as
"fontes do Grande Profundo" - um termo que se referia às águas
profundas do oceano além da África. A avalanche de água
"submergiu as represas da terra seca" - as barreiras da costa do
continente. À medida que o gelo da Antártica deslizava para o
oceano Índico, provocava uma enorme onda. Progredindo para o
norte, a parede de água ultrapassou a costa da Arábia e penetrou
pelo interior do golfo Pérsico. Depois atingiu o funil da Terra Entre
Rios, inundando todas as terras (fig. 26).
Quão global teria sido o Dilúvio? Teria sido cada local do nosso
planeta inundado? A lembrança humana é quase global e sugere um
evento quase-global. Uma coisa certa é que como eventual
derretimento do gelo na água, as elevações da temperatura global
seguiram-se aos resfriamentos iniciais, e a Idade do Gelo, que se
mantinha havia 62 mil anos, repentinamente terminou. Isso
aconteceu cerca de 13 mil anos atrás.
Um dos resultados da catástrofe foi que a Antártica, pela primeira
vez em muitos milhares de anos, foi libertada de sua calota de gelo.
Os aspectos do seu continente - costas, baías e até rios foram
passíveis de ser vistos, isso se existisse alguém lá para ver.
Incrivelmente (não, porém, para nossa surpresa) havia alguém lá!
Sabemos por causa da existência de mapas mostrando uma
Antártida sem gelo.
Para registro, vamos lembrar que nos tempos modernos a própria
existência de um continente no pólo Sul não era conhecida até 1820,
quando marinheiros ingleses e russos o descobriram. Naquela
época, assim como agora, era coberto por uma espessa camada de
gelo; conhecemos a forma verdadeira do continente (sob a camada
de gelo) por meio do radar e de outros instrumentos sofisticados
utilizados por vários grupos durante o Ano Geofísico Internacional de
1958. Ainda assim a Antártica aparece em mapas-múndi desde os
séculos 14 e 15 d.C. - centenas de anos antes dá descoberta da
Antártica -, e o continente, para aumentar o enigma, é mostrado sem
camada de gelo! Tais mapas foram discutidos com competência por
Charles H. Hapgood em Mapas dos Antigos Reinados
Marinhos/Evidências de Civilização Avançada na Idade do Gelo;
aquele que ilustra o enigma com muita clareza é o mapa-múndi de
1531 (fig. 27), cuja representação da Antártica é comparada ao
continente sem a calota polar, conforme foi determinado em 1958
durante o Ano Geofísico Internacional (fig. 28).

Um mapa ainda anterior, de 1513, feito pelo almirante turco Piri Reis,
mostra o continente ligado por um arquipélago à ponta da América
do Sul (sem mostrar a Antártica inteira). Por outro lado, o mapa
mostra corretamente a América do Sul e Central, com a cordilheira
dos Andes, o rio Amazonas e assim por diante. Como poderia ser
conhecido antes mesmo que os espanhóis atingissem o México (em
1519) ou a América do Sul (em 1531)?
Em todas essas instâncias, os cartógrafos da época dos
descobrimentos afirmaram que suas fontes eram mapas antigos da
Fenícia e da "Caldéia", o nome grego para Mesopotâmia. Mas eles,
assim como outros que estudaram esses mapas, concluíram que
nenhum marinheiro mortal, mesmo com instrumentos avançados,
poderia ter mapeado esses continentes e seus acidentes
geográficos naquela época, e certamente não uma Antártica sem
calota polar. Apenas alguém observando e mapeando das alturas
poderia ter feito isso. E os únicos que estavam por aí na época eram
os Anunnaki.
De fato, o deslizamento da calota polar da Antártica e seus efeitos
na Terra são mencionados num grande texto chamado de Erra
Epos. Ele lida, milênios mais tarde, com os eventos de uma disputa
mortal que surgiu entre os Anunnaki em relação à supremacia na
Terra. A era zodiacal de Touro estava dando lugar à era de Áries, o
carneiro, e Marduk, primeiro filho de Enki, afirmava que chegara sua
vez de assumir a supremacia de Enlil por ser seu herdeiro legal.
Quando os instrumentos localizados em locais sagrados na Suméria
indicaram que a era do Carneiro ainda não havia chegado, Marduk
reclamou que eles refletiam as mudanças que haviam ocor rido
porque o Erakallum tremeu e sua cobertura foi diminuída, e as
medida não puderam mais ser feitas". Erakallum era um termo cujo
significado preciso escapa dos estudiosos; costumava ser traduzido
por "Mundo Inferior", mas atualmente fica sem tradução nos textos.
Em O Começo do Tempo sugerimos que o termo define a terra no
final do mundo - a Antártica e sua calota polar, que deslizou há cerca
de 13 mil anos, mas cresceu até por volta de 4.000 anos atrás.
(Charles Hapgood supôs que a Antártica sem a calota polar, como
representada no mapa de Orontius Finaeus, mostrasse o continente
como era visto cerca de 4.000 anos a.C., ou seja, 6.000 anos atrás;
outros estudos apontam 9.000 anos como o tempo correto).
À medida que o Dilúvio subjugava as terras e destruía tudo o que
havia sobre ela, os próprios Anunnaki orbitavam a Terra em suas
naves. Dos céus podiam enxergar o cataclismo e a destruição.
Divididos em várias espaçonaves, alguns "aviltados como cães,
agachados contra a parede externa". À medida que os dias se
passavam, "seus lábios ficavam sequiosos de sede e eles sofriam
cãibras de fome". Na espaçonave onde estava Ishtar, "ela gritava
como uma mulher nas dores do parto", lamentando que os "velhos
dias agora se tomaram argila". Em sua espaçonave, Ninmah, que
partilhara a criação dos humanos, reclamava do que via. "Minhas
criaturas se tornaram como moscas, enchendo os rios como
libélulas, sua paternidade levada pelo mar revolto." Enlil e Ninurta,
acompanhados sem dúvida por outros do Centro de Controle de
Missão, em Nippur, estavam em outra espaçonave. Da mesma
forma, Enki, Marduk e os outros de seu clã. Seu destino eram
igualmente os picos do monte Ararat, os quais - como todos sabiam
- iriam emergir de sob as águas antes de todo o resto. Porém
nenhum deles, com exceção do próprio Enki, sabia que uma família
de humanos, salvos da calamidade, também se dirigia para lá...
O encontro inesperado foi cheio de aspectos surpreendentes; os
Anunnaki suportavam a busca da procura humana por imortalidade
havia 10 mil anos ou mais. Também deixaram o ser humano com o
desejo de ver a Face de Deus.
Segundo a história bíblica, depois que a Arca veio descansar nos
picos do Ararat e as águas baixaram, "Noé, seus filhos, sua esposa
e as esposas de seus filhos que estavam com ele", além dos
animais que se encontravam na Arca, saíram da embarcação. "E
Noé construiu um altar para Iavé, e ele tomou de cada gado puro e
de cada ave pura e queimou suas oferendas no altar. E Iavé,
sentindo o odor agradável, disse em seu coração: 'Não mais
amaldiçoarei a Terra por causa do homem'." E Elohim abençoou
Noé e seus filhos, e disse a eles: "Sejam férteis, multipliquem-se e
encham a Terra".
O contato entre um deus zangado e o que restou da humanidade é
descrito com grande riqueza de detalhes nas fontes mesopotâmicas.
A seqüência de eventos é a mesma - a extinção da imensa
inundação, a diminuição do nível da água, o envio de pássaros para
sondar o terreno, a chegada ao Ararat, a saída da Arca, a
construção de um altar e a queima das oferendas; em seguida veio o
arrependimento provocado pelo odor agradável da carne e a bênção
sobre Noé e seus filhos.
Conforme Utnapishtim lembra quando contou os "segredos dos
deuses" para Gilgamesh depois que saiu do barco, ele "ofereceu um
sacrifício e faz uma libação na montanha, montou sete vasos de
culto, empilhou vime, cedro e mirto sob os suportes". Os deuses, ao
saírem de suas naves à medida que aterrissavam na montanha,
"sentiam o doce aroma e amontoavam-se como moscas ao redor do
sacrifício".
Em pouco tempo Ninmah chegou e percebeu o que acontecera.
Jurando pelas "grandes jóias que Anu fabricara para ela", anunciou
que jamais esqueceria a provação e o que ocorrera. Vão em frente,
dividam a oferenda, disse ela aos Anunnaki; "mas não deixem Enlil
chegar até ela; ele, sem ouvir argumentos, decretou a destruição
dos meus humanos com o Dilúvio".
Mas não deixar Enlil saborear e experimentar a oferenda era o
menor dos problemas:
Quando Enlil chegou
e viu o barco, ficou raivoso.
Encheu-se de raiva contra os deuses Igigi.
"Alguma alma viva escapou?
Nenhum homem devia escapar da destruição!"
Seu filho, Ninurta, suspeitando de outro que não os deuses Igigi em
suas naves orbitais, disse para Enlil:
Quem, além de Ea, poderia engendrar planos?
É Ea quem conhece todos os assuntos!
Juntando-se à reunião, Ea/Enki admitiu o que fizera. Porém fez
questão de afirmar que não violara seu juramento de segredo: Não
contei o segredo dos deuses, disse ele. Tudo o que fiz foi "deixar
que Atra-hasis tivesse um sonho", e esse humano inteligente
"percebeu o segredo dos deuses" ele mesmo... E já que foi assim
que as coisas aconteceram, disse Enki a Enlil, não seria mais sábio
arrepender-se? Será que o plano de destruir a humanidade com o
Dilúvio não fora um erro? "Vós, o mais sábio dos deuses; vós, herói,
como pudestes, sem motivo", trazer tal calamidade?
Se foi esse sermão ou a compreensão que deveria extrair o melhor
da situação, o texto não deixa claro. Quaisquer que fossem os
motivos, Enlil mudou de opinião. Atra-hasis descreve assim o que
ocorreu:
Então Enlil foi a bordo do navio.
Tomando-me pela mão, levou-me a bordo.
Levou minha esposa para bordo e a fez se ajoelhar
a meu lado.
Em pé entre nós, tocou-nos a fronte
para nos abençoar.
A Bíblia afirma simplesmente que depois de Iavé se arrepender,
"Elohim abençoou Noé e seus filhos". Das fontes mesopotâmicas,
ficamos sabendo que a bênção se realizou. Foi uma cerimônia
inédita, um Encontro Divino único no qual a divindade fisicamente
levara os humanos escolhidos pela mão e, em pé entre os dois,
fisicamente tocou-lhes a fronte para conceder um atributo divino. Ali,
no monte Ararat, em frente aos outros Anunnaki, Enlil concedeu a
Imortalidade para Utnapishtim e sua esposa, proclamando:
Até agora Utnapishtim foi apenas humano;
de agora em diante, Utnapishtim e sua esposa
serão deuses como nós.
Utnapishtim deverá morar num local distante,
junto à boca das águas.
"E assim eles me levaram e me fizeram residir na Distância, na boca
das águas", disse Utnapishtim a Gilgamesh.
A parte impressionante dessa história é que Utnapishtim a estava
narrando para Gilgamesh 10 mil anos depois do Dilúvio!
Como filho de um semideus, e com toda a probabilidade de ser
semideus ele mesmo, Utnapishtim poderia ter vivido outros 10 mil
anos depois de ter vivido em Shurupak (antes do Dilúvio) por 36 mil
anos. Isso não era impossível; mesmo a Bíblia estabelece para Noé
mais 350 anos depois do Dilúvio, além dos 601 precedentes. O
aspecto realmente extraordinário é que a esposa de Utnapishtim
também pôde viver a mesma quantidade de tempo como resultado
da bênção e do local sagrado para onde o casal foi levado.
De fato, foi essa longevidade tão afamada do Casal Abençoado que
levou Gilgamesh - rei da cidade de Erech, por volta de 2.900 a.C. - a
procurar pelo herói do Dilúvio. Mas essa é uma história que merece
um exame em separado, pois está repleta de Encontros Divinos, do
começo ao fim.
Como ato final do drama do Dilúvio, segundo a Bíblia, Elohim
assegurou aos humanos salvos que tal calamidade nunca mais
ocorreria; e, como sinal, "coloco meu arco no céu, como símbolo do
pacto entre mim e a Terra". Embora esse detalhe em particular não
apareça na versão mesopotâmica, a divindade que realizou o pacto
com o povo era às vezes representada, como nessa imagem
mesopotâmica, na forma de um deus nas nuvens, segurando um
arco (fig. 29).
Nunca Mais?
A preocupação pública e científica a respeito do aquecimento da
Terra como resultado do consumo de combustível e da diminuição
da camada de ozônio sobre a Antártica nos levou, em anos
recentes, a estudar extensamente o clima do passado. O gelo
acumulado sobre a Groenlândia e a Antártica foi perfurado até o
fundo, as calotas foram estudadas com radar de imagem; rochas
sedimentares, fissuras naturais, lodos oceânicos, antigas ilhas de
coral, locais de nidificação de pingüins, evidências de litorais antigos
- esses e muitos outros aspectos investigados à procura de provas.
Todos indicam que a última Idade do Gelo terminou abruptamente
cerca de 13 mil anos atrás, coincidindo com uma inundação global.
Os temidos resultados catastróficos do aquecimento global
focalizam-se no possível derretimento da calota polar. O menor
acúmulo é no oeste, onde o gelo se eleva parcialmente acima da
água. Um aquecimento de apenas 2 graus pode causar o
derretimento dessa calota, que elevaria o nível de todos os oceanos
por quase sete metros. Mais calamitoso ainda seria o deslizamento
da calota oriental como resultado de um "lubrificante" de água-lama
formando-se ao fundo em virtude da pressão ou de atividade
vulcânica; isso elevaria todos os níveis dos mares em 65 metros
(Scientific American, março de 1993).
Se em vez de derreter gradualmente, o gelo da Antártica deslizasse
para os oceanos de uma só vez, a onda provocada seria imensa.
Assim, sugerimos, foi isso o que aconteceu, provocado pelo empuxo
gravitacional da passagem de Nibiru, que forneceu o impulso final à
calota.
A evidência da "maior inundação da Terra ao final da última Idade do
Gelo" foi noticiada em Science (15 de janeiro de 1993). Foi uma
"inundação cataclísmica", cujas águas, avançando à razão de 18,5
milhões de metros cúbicos por segundo (sic.!), passaram pelas bar-reiras de gelo a noroeste do mar Cáspio e escoaram através da
barreira dos montes Altai numa onda de 500 m de altura. Vindo do
sul (como atestam os textos sumérios e bíblicos) e passando pelo
funil do golfo Pérsico, a onda inicial sem dúvida teria coberto até as
zonas montanhosas da área.
6
OS PORTÕES DO CÉU
Os sumérios trouxeram para a humanidade uma longa lista de
"inéditos", sem os quais teria sido impossível garantir a moderna
civilização. Entre muitas das que foram mencionadas, uma
"novidade" que durou quase sem interrupção foi o reinado. Como em
todos os outros, essa "novidade" também foi concedida aos
sumérios pelos Anunnaki. Nas palavras da Lista de Reis Sumérios,
"depois que o Dilúvio varreu a Terra, quando o reinado foi baixado
dos Céus, o reinado era em Kish". Talvez tenha sido por causa disso
- porque o "reinado foi baixado dos Céus" - que os reis julgaram-se
no direito de serem levados, de ascender aos Portões do Céu. Por
isso existem relatos de Encontros Divinos realizados, tentados ou
simulados repletos de aspirações e falhas dramáticas. Na maioria
deles, o sonho desempenha um papel importante.
Os textos mesopotâmicos relatam que, frente a frente com a
realidade de um planeta devastado, Enlil aceitou o fato da
sobrevivência do homem e deu sua bênção aos que sobraram.
Compreendendo que dali em diante os Anunnaki não poderiam
continuar sua estada na Terra sem ajuda humana, Enlil juntou-se a
Enki em prover a humanidade com os avanços que chamamos de
progressos do Paleolítico (Idade da Pedra Lascada) até o Mesolítico
e o Neolítico (Idade da Pedra Polida) e até a repentina civilização
suméria - cada intervalo sendo de 3600 anos -, que marcou a
introdução da domesticação das plantas e dos animais, e a mudança
de pedra para cerâmica, e de utensílios de cerâmica para os de
cobre, em seguida para uma civilização completa.
Como o texto mesopotâmico deixa claro, a instituição do reinado
como aspecto de uma civilização de alto nível com suas hierarquias
foi criada pelos Anunnaki para formar uma separação entre eles
mesmos e as massas de humanos. Antes do Dilúvio, Enlil queixava-se de que "o barulho da humanidade se tomou muito intenso" para
ele, que "pelo ruído deles não consigo dormir". Agora os deuses se
retiravam para seus locais sagrados, as pirâmides de degraus
(zigurates), em cujo centro ficava "E" (literalmente: casa, habitação)
do deus; um indivíduo escolhido podia aproximar-se o suficiente
para escutar as palavras da divindade, depois passava a mensagem
divina para o povo. Ainda que Enlil ficasse infeliz com a humanidade,
a escolha de um rei era prerrogativa dele, e em sumério o que
chamamos de realeza era denominado "Enlileza".
Lemos nos textos que a decisão de criar o reinado só veio depois de
grandes altercações e brigas entre os próprios Anunnaki - conflitos
que chamamos de Guerras das Pirâmides em nosso livro As
Guerras de Deuses e Homens. Esses amargos conflitos tiveram seu
fim num tratado de paz que dividiu o antigo mundo conhecido em
quatro regiões. Três eram reservadas aos homens, reconhecíveis
nas localizações das três grandes civilizações conhecidas: no Tigre-Eufrates (na Mesopotâmia), no rio Nilo (o Egito e a Núbia) e no vale
do rio Indo. A Quarta Região, uma zona neutra, era o TILMUN
("Terra dos Mísseis") - a península do Sinai -, onde se localizava o
Espaçoporto pós-diluviano.
Os grandes Anunnaki que decretam o destino
sentaram-se num conselho para falar da Terra.
As quatro regiões eles criaram
estabelecendo suas fronteiras.
Naquela época, a Terra era dividida entre enkitas e enlilitas.
Um rei ainda não havia para
governar as pessoas que se juntavam.
Naquela época, a faixa e a coroa
não haviam sido usadas.
O cetro incrustado de lápis-lazúli
ainda não fora brandido.
A plataforma do trono ainda não fora construída.
O cetro e a coroa, a faixa real e o cajado
ainda permanecem no céu, em frente a Anu.
Quando, finalmente, depois das decisões em relação às quatro
regiões e ao permitir a civilização e o reinado para a humanidade, “o
cetro da realeza foi trazido para baixo do Céu", Enlil designou para
Ishtar (sua neta) a tarefa de encontrar um candidato plausível para o
primeiro trono na Cidade dos Homens - Kish, na Suméria.
A Bíblia recorda a mudança de espírito de Enlil e a bênção aos que
ficaram ao afirmar que "Elohim abençoou Noé e seus filhos e disse a
eles: e vós, frutificai e multiplicai-vos, aumentai na Terra e
multiplicai-vos nela". Então a Bíblia, no que é chamada de Estela
das Nações (Gênesis, capítulo 10), procede a listar as nações tribais
que descenderam dos três filhos de Noé - Sem, Cam e Jafé -, os
três maiores grupos que ainda reconhecemos como os povos
semitas do Oriente Médio, os povos camitas da África e os indo-europeus da Anatólia e do Cáucaso, que se espalharam pela Europa
e pela Índia. Mergulhado na lista de filhos e filhos de filhos e netos,
encontra-se uma inesperada afirmação a respeito das origens do
reinado e do nome do primeiro rei - Nimrod.
E Cush gerou a Nimrod,
que começou a ser valente na Terra.
Ele era homem poderoso diante do Eterno,
por isso se diz:
como Nimrod, poderoso caçador diante de Iavé.
E foi o princípio do seu reino Babel,
Erech, Acad e Kalne, na terra de Shinar.
Daquela terra saiu Asur
e edificou Nínive, Kelach
e Ressen, entre Nínive e Kelach;
esta é a cidade grande.
Esta é uma história acurada, apesar de concisa, dos reinados e
realezas na Mesopotâmia. Comprime os dados nas listas de reis
sumérios, em que a realeza, tendo começado em Kish (que a Bíblia
chama de Kush), de fato mudou para Uruk (que a Bíblia chama de
Erech), e depois para Acad, e a seu tempo para a Babilônia (Babel)
e Assíria (Asur). Todos emanaram da Suméria, a bíblica Shinar. A
"novidade" suméria da realeza é evidenciada pelo uso bíblico do
termo "homem poderoso" para descrever o primeiro rei, pois é uma
tradução exata do termo sumério para rei, LU.GAL - "Homem
Grande/Poderoso".
Existiram muitas tentativas para identificar "Nimrod". Segundo os
"mitos" sumérios, era Ninurta, o filho preferido de Enlil, que recebeu
a tarefa de instituir a "Enlileza" em Kish; Nimrod pode ter sido o
nome hebraico para Ninurta. Se é nome de homem, ninguém sabe o
que significa em sumério, porque a estela está danificada nesse
ponto. Segundo a Lista de Reis Sumérios, a dinastia Kish consistiu
em 23 soberanos que reinaram por "24.510 anos, 3 meses e 3 dias e
1/2", com reinados individuais de 1200, 900, 960, 1500, 1560 anos, e
assim por diante. Presumindo que o "1" como "60" fosse mal
colocado nas transcrições feitas ao longo dos milênios, chegamos a
números mais plausíveis como 20, 15 e assim por diante para os
reinados individuais, e a um total de 400 anos para a dinastia - um
período apoiado por descobertas arqueológicas em Kish.
A lista de nomes e de duração de reinados só se desvia uma vez, a
respeito do 132 rei. A Lista de Reis Sumérios afirma sobre ele:
Etana, um pastor,
ele que subiu ao céu,
que consolidou todas as nações,
tornou-se rei e reinou por 1560 anos.
A notação histórica não é aleatória; existe uma longa história épica,
o Épico de Etana, que descreve seus Encontros Divinos nos
esforços para chegar aos Portões do Céu. Embora nenhum texto
completo tenha sido encontrado, os estudiosos foram capazes de
juntar a história dos fragmentos de recens ões da antiga Babilônia,
Assíria Média e Neo-Assíria; porém não resta dúvida sobre o fato de
a versão original ser suméria, pois um sábio a serviço do rei sumério
Shulgi (século XXI a.C.) é mencionado em uma das recensões como
editor da versão mais moderna.
A reconstrução da história a partir dos vários fragmentos não foi fácil
porque o texto parece tecer duas histórias separadas. Uma está
relacionada com Etana, claramente um rei amado e conhecido por
feitos benevolentes ("ele consolidou todas as nações"), que se viu
privado de um filho e portanto de um sucessor por causa da doença
de sua esposa; o único remédio era a Planta do Nascimento, que só
podia ser obtida nos céus. A história leva Etana a realizar dramáticas
tentativas para chegar aos Portões do Céu, como voar nas asas de
uma águia (uma parte da história representada no selo cilíndrico do
século XXIV a.C. A outra história lida com a Águia, sua amizade a
princípio, depois com uma briga com uma Serpente, resultando na
prisão da Águia num poço do qual foi salva por Etana num acordo
que beneficiava a ambos: Etana salvava a Águia e curava suas asas
em troca de ela agir como nave espacial e levar Etana para céus
distantes.

Vários textos sumérios apresentam dados históricos na forma de
disputas alegóricas (algumas das quais já mencionamos), e os
estudiosos não têm certeza quando a alegoria Águia/Serpente
termina e começa um registro histórico. O fato de que em ambos os
segmentos é Utu/Shamash o comandante do espaçoporto, que é a
divindade que controla o destino da Águia e que consegue que
Etana encontre a Águia, sugere um evento verdadeiro, relacionado
ao espaço. Além do mais, no que os estudiosos chamam de
Introdução Histórica aos episódios intercalados, a narrativa
estabelece o cenário para eventos relacionados como época de
conflitos e choques, nos quais os IGI.GI ("Aqueles Que Observam e
Vêem") - os corpos dos astronautas que permaneciam na Terra e
tripularam as espaçonaves de transporte (como separados dos
Anunnaki que desceram à Terra) - ''barraram os portões" e
"patrulharam a cidade" contra oponentes cuja identidade está
perdida em estelas danificadas. Tudo isso parece indicar um registro
de fatos.
A presença incomum dos Igigi numa cidade, o fato de que
Utu/Shamash era o comandante do Espaçoporto (naquela época na
Quarta Região), e a designação do piloto-espaçonave como Etana
numa águia sugerem que o conflito ecoou na história de Etana
relacionada com vôo espacial. Poderia ser uma tentativa de criar um
centro espacial alternativo, que não fosse controlado por
Utu/Shamash? Poderia o Homem-Águia estar envolvido no atentado
fracassado para ser condenado ao banimento num poço - um silo
subterrâneo? Uma representação de foguete num silo subterrâneo
(mostrando o módulo de comando acima do chão) foi e ncontrada na
tumba de Hui, um governante egípcio do Sinai nos tempos
faraônicos (fig. 31), indicando que uma "Águia" num "poço" era
reconhecida na Antiguidade como um foguete em seu silo.
Se aceitarmos os dados bíblicos como uma versão abreviada, ainda
que esteja correta cronologicamente e sob todos os aspectos em
relação às fontes sumérias, ficamos sabendo que logo após o
Dilúvio, enquanto o homem proliferava e as planícies entre o Tigre e
o Eufrates começavam a secar o suficiente para ser novamente
ocupadas, as pessoas "jornadearam ao leste e encontraram uma
planície na terra de Shine' ar e acamparam ali. E disseram um para
o outro: Vamos fazer tijolos e queimá-los num forno. E assim o tijolo
serviu de pedra, e o betume serviu como argamassa".
Esse é um relato bastante acurado, se não uma decisão concisa do
início da civilização suméria, e algumas de suas "novidades" os
tijolos, o forno e as primeiras Cidades dos Homens. O que se seguiu
foi a construção de uma cidade e de uma "Torre cuja ponta
alcançava o céu".
Hoje em dia chamamos tal estrutura de "torre de lançamento", e a
"ponta" que alcançava o céu é chamada de "foguete"...
Chegamos, na narrativa bíblica e cronologicamente, ao incidente da
Torre de Babel - a construção não-autorizada de instalações
espaciais. "E desceu Iavé para ver a cidade e a torre que edificaram
os filhos dos homens."
Sem gostar nem um pouco do que via, Iavé expressa sua
preocupação a colegas cujo nome não é mencionado: "Vinde,
desçamos e confundamos ali sua língua, para que não entenda cada
um a linguagem de seu companheiro". E assim foi. E Iavé "espalhou-os sobre a face de toda a Terra, e cessaram de edificar a cidade".
A Bíblia identifica como a Babilônia o local onde o atentado de subir
aos céus ocorrera, explicando que seu nome hebraico, Babel, é
derivado da raiz "confundir". Na verdade, o original mesopotâmico
significa "Portal dos Deuses", um lugar projetado por Marduk,
primogênito de Enki, para servir como local de lançamento
alternativo, livre do controle dos seguidores de Enlil. Saindo da
esteira do que chamamos de Guerra das Pirâmides, a época do
incidente foi determinada por nós em aproximadamente 3.450 a.C. -vários séculos depois do início do reinado de Kish, portanto
aproximadamente a mesma época em que ocorreu a história de
Etana.
Tais correspondências entre as cronologias suméria e bíblica lançam
uma luz sobre a identidade dos seres divinos que, como Iavé na
versão bíblica, desceram para ver o que estava acontecendo na
Babilônia, e para quem Iavé expressava suas preocupações. Eram
os Igigi que desceram à Terra, ocuparam a cidade, colocaram
barreiras nos sete portões contra as forças oponentes, e patrulharam
o local até que a ordem fosse restaurada, sob a liderança de um rei
escolhido, capaz de "consolidar as terras". Esse novo rei foi Etana.
Seu nome seria mais bem traduzido como "Homem Forte", e deve
ter sido um favorito entre jovens no antigo Oriente Médio, pois
encontramos várias vezes seu nome na Bíblia (como Ethan). Não
muito diferente das demandas por executivos especializados hoje
em dia, ele foi selecionado depois de Ishtar estar procurando por um
pastor e "procurando por todo lado por um rei". Depois que Ishtar
viera com Etana como candidato ao trono, Enlil olhou para ele e o
aprovou: "Um rei aqui fica confirmado para a terra", anunciou ele. E
em Kish, "a plataforma do trono ele estabeleceu". Isso feito, "os Igigi
voltaram as costas e foram embora da cidade", presumivelmente
retomando às suas estações espaciais.
E Etana, tendo "consolidado a terra", voltou sua mente para a
necessidade de um herdeiro.
A tragédia de uma esposa sem filhos, incapaz de gerar um sucessor
para seu marido, é o tema encontrado na Bíblia, começando com as
histórias dos Patriarcas. Sara, esposa de Abraão, era incapaz de
gerar filhos até um encontro divino com a idade de noventa anos;
nesse meio-tempo, sua criada Hagar deu um filho (Ismael) a Abraão,
e o cenário para um conflito pela sucessão foi criado entre o
primogênito e o herdeiro legal, mais novo (Isaac). Isaac, por sua vez,
precisou "suplicar a Iavé por sua esposa, porque ela era estéril". Ela
só foi capaz de conceber depois que Iavé "ouviu-lhe os rogos".
Nas narrativas bíblicas persiste a crença de que vem do Senhor a
capacidade de conceber, ou então a ausência dela. Quando
Abimelec, o rei de Gerar, levou Sara de Abraão, "Iavé fechou todos
os ventres da casa de Abimelec", e a aflição só foi removida depois
dos pedidos de Abraão. Anah, esposa de Elkanah, ficou privada de
filhos porque "o Senhor fechara seu ventre". Ela só deu à luz Samuel
porque prometeu dar o rapaz, se fosse homem, "para o Senhor
todos os dias de sua vida e não passará a navalha jamais por sua
cabeça".
No caso da esposa de Etana, o problema não era apenas uma
incapacidade de conceber, e sim por apresentar vários abortos
durante a gravidez. Possuía uma doença, LA.BU, que evitava que
sua gravidez chegasse a termo. Em seu desespero, Etana
visualizava cenários terríveis. Num sonho ele "viu a cidade de Kish
soluçando; na cidade, as pessoas estavam se queixando: havia uma
canção de lamentação". Era por ele, pois "Etana não podia ter
herdeiro", ou por sua esposa - um presságio de morte?
Em seguida "a esposa disse a Etana: o deus me mostrou um sonho.
Como Etana, meu marido (tive um sonho". No sonho, ela viu um
homem. Ele segurava uma planta em sua mão; era uma shammu
sha aladi, uma Planta do Nascimento. Ele colocava água fria, para
que "se tomasse estabelecida em sua casa". Ele trouxe a planta à
cidade e para a sua casa. Da planta brotou uma flor; então a planta
morreu.
Etana tinha certeza de que o sonho era um presságio divino. "Quem
não reverenciaria um sonho como esse?!", disse ele. "A ordem dos
deuses foi recebida!" O remédio para seu mal "veio até nós".
Etana perguntou onde se encontrava essa planta, mas a esposa
respondeu que, em seu sonho, "não podia enxergar onde estava
crescendo". Convencido de que o sonho era um presságio que
precisava tomar-se verdadeiro, Etana partiu em busca da planta.
Atravessou rios e riachos nas montanhas, andou para lá e para cá,
mas não conseguiu encontrar a planta. Frustrado, buscou orientação
divina. "Todos os dias Etana rezava repetidamente para Shamash."
Juntava louvores e reclamações. "Ó Shamash, vós que apreciastes
os melhores cortes de meus carneiros. O solo tem absorvido o
sangue de meus carneiros. Honrei os deuses. Os intérpretes têm
feito muito uso de meu incenso." Agora eram os próprios deuses,
aqueles que "fizeram uso de meus carneiros assassinados", quem
deviam interpretar o sonho para ele.
Se existir tal planta, disse ele em suas orações, "deixe que a palavra
saia de sua boca, Senhor, e me dê a Planta do Nascimento! Mostre-
me essa planta! Remova minha vergonha e me dê um filho!".
O texto não afirma onde Etana rezava para Utu/Shamash, o
comandante do espaçoporto. Aparentemente não foi um encontro
face a face, pois em seguida lemos que "Shamash fez sua voz
ouvida e falou com Etana". E isso foi o que a voz divina disse:
Vá pela estrada, atravesse a montanha.
Encontre um poço e olhe cuidadosamente
o que existe lá dentro.
Uma Águia está abandonada lá.
Ele irá obter para você a Planta do Nascimento.
Seguindo as instruções do deus, Etana encontrou o poço e a Águia
no interior. Ao querer saber por que ele viera, a Águia ficou sabendo
o problema de Etana e contou a ele sua triste história. Logo
resolveram fazer um acordo: Etana ajudaria a retirar a Águia do
poço, e a Águia encontraria para ele a Planta do Nascimento. Com a
ajuda de uma escada de seis degraus, Etana trouxe a Águia para
fora do poço e reparou-lhe as asas com cobre. Em forma para voar,
a Águia começou a procurar a planta mágica nas montanhas. "Mas a
Planta do Nascimento não foi encontrada lá."
À medida que o desespero e o desapontamento tomavam conta de
Etana, ele teve outro sonho. O que ele contou desse sonho para a
Águia é parcialmente ilegível, pois a estela está danificada; a parte
legível, porém, se refere a emblemas de poder e autoridade, vindo
"das alturas brilhantes do céu, sobre meu caminho". "Meu amigo,
seu sonho é favorável", afirmou a Águia. Depois Etana teve outro
sonho, no qual enxergou juncos de todas as partes da Terra
reunirem-se em feixes em frente à sua casa; uma serpente má
tentou impedir, porém os juncos, "como escravos, curvavam-se
perante mim". Mais uma vez a Águia "persuadiu Etana a aceitar o
sonho" como um presságio favorável.
Contudo nada aconteceu até que a própria Águia tivesse um sonho.
"Meu amigo, aquele mesmo deus apareceu para mim e me mostrou
um sonho", disse ela.
Íamos passar pela entrada
dos portões de Anu, Enlil e Ea;
curvamo-nos juntos, você e eu.
Passamos pela entrada
dos portões de Sin, Shamash, Adad e Ishtar;
curvamo-nos juntos, eu e você.
Se examinarmos os mapas, compreenderemos que a Águia está
descrevendo uma viagem reversa - do centro do Sistema Solar,
onde o Sol (Shamash), a Lua (Sin), Mercúrio (Adad) e Vênus (Ishtar)
estão agrupados, na direção dos planetas exteriores e para o mais
distante: Nibiru, domínio de Anu!
O sonho possuía uma segunda parte:
Eu vi uma casa com janela sem selo.
Abri-a e entrei.
Sentada lá estava uma jovem mulher envolta num brilho,
de belas feições, adornada com uma coroa.
Um trono estava preparado para ela.
Ao redor do solo foi firmado.
Na base do trono os leões se agacharam.
Enquanto eu progredia, os leões obedeciam.
Então acordei com um sobressalto.
O sonho era cheio de bons presságios: a "janela" não estava selada,
a jovem no trono (a esposa do rei) era envolta em brilho; os leões
estavam submissos. Esse sonho, disse a Águia, tornava claro o que
precisava ser feito: "Nosso objetivo se tomou manifesto; venha vou
levá-lo até o céu de Anu!".
O que se segue no texto antigo é uma descrição de um vôo espacial,
tão realística como a de qualquer astronauta moderno.
Partindo em direção aos céus com Etana segurando-se nela, a
Águia disse a Etana, depois de subir um beru (medida suméria de
distância e do arco celeste):
Veja, meu amigo, como a terra parece!
Espie o mar dos lados da Casa da Montanha:
a terra se tornou mesmo uma simples colina,
e o mar imenso, apenas uma banheira!
Mais e mais alto, a Águia carregava Etana na direção do céu; menor
e menor parecia a Terra. Depois de subirem outro beru, a Terra não
parecia maior do que um canteiro de jardim. Depois disso, à medida
que continuavam a subir, a Terra ia ficando totalmente fora de vista.
Registrando a experiência, Etana disse:
Quando olhei ao redor,
a Terra desaparecera;
e sobre o mar imenso,
meus olhos não mais puderam regozijar-se.
Haviam penetrado tanto no espaço que a Terra desaparecera de
vista!
Tomado pelo medo, Etana pediu que a Águia voltasse. Era uma
descida perigosa, pois a Águia "mergulhou" para a Terra. O
fragmento de uma estela identificada pelos estudiosos como "a
oração da Águia a Ishtar, enquanto ele e Etana caem do céu" (J. V.
Kinnier Wilson, A Lenda de Etana: Uma Nova Edição), sugere que a
Águia chamou Ishtar - cujo domínio dos céus da Terra era bem
conhecido tanto em textos como em desenhos, como na fig. 32 -para ir em seu socorro. Estavam caindo na direção de uma extensão
de água que, "embora pudesse salvá-los na superfície, os teria
matado nas profundezas". Com a intervenção de Ishtar, a Águia e
seu passageiro aterrissaram numa floresta.
Na segunda região de civilização, aquela do rio Nilo, o reinado se
iniciou por volta de 3.100 a.C. - Reinado humano, pois as tradições
egípcias afirmam que muito tempo antes o Egito era uma terra
governada por deuses e semideuses.

Segundo o sacerdote egípcio Máneton, que escreveu a história do
Egito quando os gregos de Alexandre chegaram, em épocas
imemoriais os "Deuses do Céu" vieram à Terra a partir do Disco
Celeste (fig. 33). Depois que uma grande inundação atingiu o Egito,
"um deus muito grande que viera à Terra nos tempos primitivos"
ergueu a terra de sob as águas com engenhosos projetos de diques,
muros de contenção e terraplenagens. Seu nome era Ptah, "O
Fomentador", e era um grande cientista que anteriormente tomara
parte na criação do homem. Muitas vezes era representado com um
cajado graduado, parecido com a estaca dos agrimensores atuais
(fig. 34a). A seu tempo, Ptah passou o gover no para seu
primogênito, Rá (O Brilhante – fig. 34b), que permaneceu como líder
do panteão egípcio.

O termo egípcio para "deuses" era NTR - Guardião, Vigilante" - e a
crença era de que haviam vindo ao Egito de Ta-Ur, a "estranha/Terra
Distante". Em nossos trabalhos anteriores, identificamos essa terra
com a Suméria (mais precisamente Sumer, "Terra dos Guardiões"),
os deuses egípcios com os Anunnaki, Ptah sendo Ea/Enki (cujo
apelido sumério, NUDIMMUD, significa "Criador Habilidoso") e Rá
como seu filho primogênito, Marduk.
Rá foi seguido no trono divino do Egito por quatro casais irmãos-irmãs: o primeiro foram seus próprios filhos, Shu ("Secura") e Tefnut
("Umidade"), depois pelos filhos deles, Geb (" Aquele Que Empilha
Terra") e Nut ("O Esticado Firmamento do Céu"). Geb e Nut tiveram
quatro filhos: Asar ("O Que Tudo Vê"), a quem os gregos chamaram
de Osíris, que casou com sua irmã Ast, a quem conhecemos como
Ísis; e Seth ("O Sulista"), que casou com sua irmã Nebt-hat, aliás
Néftis. Para manter a paz, o Egito foi dividido entre Osíris (que
recebeu o Baixo Egito, ao norte) e Seth (a quem coube o Alto Egito,
ao sul). Porém Seth se achava com direito a todo o Egito e nunca
aceitou a divisão. Usando de artifícios, ele conseguiu apanhar Osíris
e cortar-lhe o corpo em catorze pedaços, que espalhou por todo o
Egito. Mas Ísis recuperou todos (menos o falo) e reconstruiu o corpo
mutilado, assegurando-lhe a ressurreição no Outro Mundo. As
escrituras sagradas afirmam sobre ele:
Ele transpôs os portões secretos,
a glória do Senhor da Eternidade,
ao lado daquele que brilha no horizonte,
no caminho de Rá.
E assim nasceu a crença de que o rei do Egito, o faraó, se
"montado" (mumificado) como Osíris, depois de sua morte, podia
realizar a jornada para encontrar os deuses em sua habitação,
transpor os Portões do Céu, lá encontrar o grande deus Rá e, se
permitido o acesso, apreciar um Pós-Vida eterno.
A jornada desse último Encontro Divino era simulada; mas para
simular é preciso imitar uma viagem real - uma que os próprios
deuses, e mais especificamente Osíris, empreendera, ao sair das
margens do Nilo para Neter-Khert, "A Terra da Montanha dos
Deuses", onde um Elevador o levaria no Duat, uma "residência
mágica para atingir as estrelas".
Muito do que sabemos daquelas jornadas simuladas vem dos Textos
da Pirâmide, cuja origem se perde no tempo, conhecidos que são
por suas citações repetidas no interior das pirâmides faraônicas
(sobretudo as de Unas, Teti, Pepi I, Merenra e Pepi II, que reinaram
entre 2.350 e 2.180 a.C.). Saindo de sua tumba (que nunca era no
interior da pirâmide) através de uma porta falsa, o rei esperava ser
encontrado por um emissário divino, que "o tomaria pelo braço e o
levaria para o céu". À medida que o faraó iniciava sua jornada para o
Pós-Vida, o sacerdote irrompia num cântico: "O rei está a cami nho
do Céu! O rei está a caminho do Céu!".
A viagem - tão realística e geograficamente precisa que se esquece
que deveria ser simulada - começava, conforme o afirmado,
passando-se por uma porta falsa, voltada para o leste; o destino do
faraó era assim para o leste, longe do Egito e na direção da
península do Sinai. O primeiro obstáculo era um Lago de Juncos; o
termo é quase idêntico àquele do Mar de Juncos (mar Vermelho)
bíblico que os israelitas conseguiram atravessar quando suas águas
se dividiram milagrosamente, e que, nos dois casos, se refere à
seqüência de lagos que ainda existe ao longo da divisa entre o Egito
e o Sinai, de norte a sul.
No caso do faraó, era um Barqueiro Divino que, depois de
questionar as qualidades do faraó, resolvia deixá-lo atravessar. O
Barqueiro Divino conduzia o barco mágico até o lado mais distante
do lago, mas era o faraó quem precisava recitar fórmulas mágicas
para fazer o barco navegar de volta. Uma vez que essas fórmulas
fossem recitadas, a embarcação começava a mover-se por si
mesma. Para todos os efeitos, o barco impulsionava a si mesmo!
Além do lago estendia-se um deserto, e, além dele, o faraó podia
enxergar a distância as montanhas do Leste. Mas nem bem o faraó
se livrava do barco, era interpelado por quatro Guardas Di vinos,
conspícuos por seus cabelos negros arrumados em cachos nas
têmporas e atrás da cabeça, com tranças no centro e ao alto. Eles
também questionavam o faraó, porém, finalmente, o deixa vam
passar.
Um texto (conhecido apenas por meio de citações) intitulado O Livro
dos Dois Caminhos descrevia as alternativas que agora se
deparavam ao faraó, que podia enxergar os dois passos que
levavam à serra montanhosa mais além, onde ficava o Duat. Tais
passos, chamados atualmente de Giddi e Mitla, oferecem desde
tempos imemoriais até as mais recentes guerras na região a única
passagem viável para o centro da península, seja para exércitos,
nômades ou peregrinos. Pronunciando as fórmulas corretas, o faraó
consegue uma indicação para a passagem correta. À frente está a
terra árida e solitária, e os Guardas Divinos apareciam inespera-damente. “Aonde vais?", indagavam eles ao mortal que aparecia na
região dos deuses. O Emissário Divino, visto e não visto, se
manifestava: “O rei vai para o Céu, a fim de ter vida e alegria", dizia
ele. Os guardas hesitavam, e o rei pedia a eles: “Abram a fronteira...
levantem a barreira... deixe-me passar como os deuses passam!".
Ao final, os guardas divinos deixavam o rei passar, e ele finalmente
chegava ao Duat.
O Duat era concebido como um Círculo dos Deuses fechado, cujo
ponto culminante (representado pela deusa Nut) se abria de forma
que a Estrela Imperecível (representada pelo Disco Celeste)
pudesse ser alcançada; geograficamente tratava-se de um vale oval,
cercado por montanhas, ao longo do qual fluía um riacho. Os riachos
eram tão rasos, ou até mesmo secos, que a Barca de Rá precisava
ser puxada, ou até mesmo mover-se pelos próprios meios, como um
trenó.
O Duat era dividido em doze partes, as quais o rei precisava
atravessar nas doze horas do dia acima do chão e nas doze horas
da noite abaixo do chão, no Amen-ta, o "local escondido". Foi lá que
o próprio Osíris subiu à Vida Eterna, e o rei lhe ofereceu uma oração
- citada no Livro dos Mortos egípcio, no capítulo intitulado "Capítulo
de Fazer Seu Nome":
Que eu possa receber meu Nome
na Grande Casa de Dois.
Possa na Casa do Fogo
um Nome me ser garantido.
Na noite da contagem dos anos
e da identificação dos meses,
possa eu me tornar um Ser Divino,
que eu possa sentar ao lado oriental do Céu.
Como já sugerimos, o "Nome" - Shem em hebraico, MU em sumério
- pelo qual os antigos reis rezavam, era uma nave que poderia levá-los para cima, e, ao torná-los imortais, eles se transformavam
"naquilo pelo qual são lembrados".
O rei pode na verdade ver o Elevador pelo qual reza. Mas é na Casa
de Fogo que pode ser alcançado apenas através de passagens
subterrâneas. O caminho para baixo leva por corredores em espiral,
câmaras escondidas e portas que se abrem e fecham
misteriosamente. Em cada uma das doze partes a companhia dos
deuses pode ser vista; suas roupas são diferentes; alguns são
ameaçadores, outros acolhem bem o faraó. O rei é constantemente
colocado à prova. Por volta da sétima divisão, entretanto, o mundo
inferior ou os aspectos infernais diminuem, e os aspectos celestiais,
emblemas e deuses-pássaros (com cabeças de falcão) começam a
aparecer. Na zona das nove horas, o rei enxerga os doze
"Remadores Divinos do Barco de Rá", o "Barco Celestial de Milhões
de Anos" (fig. 36).
Na zona da décima hora, o rei, passando por um portão, entra num
lugar cheio de atividade, cujos deuses são encarregados de prover a
Chama e o Fogo para o Barco Celestial de Rá. Na zona da décima
primeira hora, o rei encontra mais deuses com emblemas de
estrelas; a tarefa deles é fornecer" energia para emergir do Duat,
para fazer o Objeto de Rá avançar até a Casa Escondida no Céu
Superior". É ali que os deuses equipam o rei para a jornada celestial,
rasgando suas roupas terrestres e vestindo-o com um traje de deus-Falcão.
Na zona final, a vigésima, o rei é levado por um túnel para uma
caverna onde está a Divina Escada. A caverna é no interior da
Montanha da Ascensão de Rá. A Escada Divina é mantida unida por
cabos de cobre e é o Elevador Divino (ou leva a ele). É a escada dos
deuses, usada anteriormente por Rá, Seth e Osíris; e o rei (conforme
está inscrito na tumba de Pepi) rezou para que a escada "fosse dada
a Pepi, para que ele pudesse subir por ela". Algumas ilustrações no
Livro dos Mortos mostram, nesse ponto, o rei recebendo bênçãos ou
sendo dispensado pelas deusas Ísis e Néftis, sendo levado a um
Ded alado (o símbolo da Eternidade, fig. 37).
Equipado como um deus, o rei é agora atendido por duas deusas,
"que medem os cabos" para entrar no "Olho" do barco celeste, o
módulo de comando do Elevador. Ele toma assento entre dois
deuses; o assento é chamado "verdade que toma vivo". O rei se
prende a um dispositivo protuberante, e está pronto para decolar:
"Pepi está acomodado no aparelho de Hórus" (o comandante dos
deuses-falcões) e vestido como Tot (O Escriba Divino); "o Abridor de
Caminhos abriu caminho para ele; os deuses de An" (Heliópolis)
"permitiram que ele subisse a Escadaria, colocaram-no perante o
Firmamento do Céu; Nut" (a deusa do Céu) "estende a mão para
ele".
O rei agora oferece uma prece aos Portões Duplos - a "Porta da
Terra" e a "Porta do Céu" - que podem ser abertos. A hora é o
nascer do dia; de repente, a "abertura da janela celeste" se abre e
os "degraus de luz são revelados!".
No interior do "Olho" do Elevador, "a ordem dos deuses é ouvida".
No exterior, o "brilho que ergue" fica mais forte, de forma que o "rei
possa ser içado para o céu". Um "poder que ninguém consegue
enfrentar" pode ser sentido no interior da cabine de comando. Ecoa
o som da fúria, rugindo e estremecendo: "O Céu fala, a Terra
sacode, a Terra estremece... O chão se abre... O rei sobe para o
Céu!". "A Tempestade que Ruge o dirige... os guardiões celestes
abrem os Portões do Céu para ele!"
As inscrições no interior da tumba de Pepi explicam àqueles que
ficaram para trás, os súditos do faraó, o que aconteceu:
Ele voa em quem voa:
É o rei Pepi que voa para longe
de vós, mortais.
Ele não é da Terra; ele é do Céu.
Este rei Pepi voa como uma nuvem para o céu.
Tendo viajado no Elevador para leste, o rei agora orbita a Terra:
Ele abrange o céu como Rá,
ele atravessa o céu como Tot...
Ele viaja pelas regiões de Hórus,
ele viaja pelas regiões de Seth...
Ele fez duas vezes o círculo completo do céu.
A repetição da órbita terrestre confere ao Elevador o momentum
necessário para deixar a Terra pelos Portões Duplos do Céu.
Abaixo, os encantamentos dos sacerdotes dizem ao rei: "Os Portões
Duplos do Céu estão abertos para vós!"; e lhe asseguram que a
Deusa do Céu irá protegê-lo e guiá-lo em sua jornada celeste: "Ela
irá segurar vosso braço, irá mostrar o caminho para o horizonte,
para o lugar onde Rá se encontra". O destino é a "Estrela Imperial",
cujo símbolo é o Disco Alado.
As fórmulas sagradas garantem aos fiéis que, quando o rei ausente
alcançar seu destino, "quando o rei estiver lá, na estrela que está do
lado de baixo do céu, será visto como um deus".
Os encantamentos visualizam que, quando o rei se aproxima dos
Portões Duplos do Céu, ele será encontrado pelos" quatro deuses
que ficam nos cetros do Céu". Irá dizer para eles anunciarem a
chegada do rei para Rá; e, sem dúvida, o próprio Rá avançará para
cumprimentar o rei e levá-lo através dos Portões do Céu e para o
Palácio Celestial:
Encontrareis Rá ali.
Ele vos cumprimenta, segura vosso braço.
Ele vos conduz ao Palácio Duplo Celeste.
Ele vos coloca sobre o trono de Osíris.
Depois de uma série de Encontros Divinos com divindades maiores
e menores, o faraó agora experimenta o mais importante Encontro
Divino: com o grande deus Rá. Oferecem-lhe o trono de Osíris,
tornando-o um candidato à Eternidade. A jornada celestial está com-
pleta, mas não a missão. Pois embora o rei tenha se tornado um
candidato à Eternidade, ele agora precisa encontrá-la e obtê-la - um
detalhe final na transição para um Pós-vida Eterno: o rei precisava
encontrar e compartilhar o" Alimento da Eternidade", um elixir que
rejuvenescia constantemente os deuses em sua habitação celeste.
Os encantamentos dos sacerdotes agora se dirigem para sua última
fase. Eles pedem aos deuses que "levem esse deus convosco, que
ele possa comer o que vós comeis, que possa beber o que vós
bebeis, que possa viver do que vós viveis. Dar alimento ao rei de
vosso alimento eterno".
Alguns textos antigos descrevem aonde o rei vai agora como o
Campo da Vida; outros se referem a esse lugar como o Grande Lago
dos Deuses. O que ele precisa obter é tanto uma bebida, que é a
Água da Vida, quanto um alimento, que é o Fruto da Árvore da Vida.
As ilustrações no Livro dos Mortos mostram o rei (algumas vezes
acompanhado por sua rainha, fig. 38) no interior do Grande Lago
dos Deuses, bebendo a Água da Vida - água na qual cresce a Árvo-re da Vida (uma tamareira). Nos Textos das Pirâmides, é o Grande
Falcão Divino Verde quem leva o rei até o Campo da Vida, para
encontrar a Árvore da Vida que cresce lá. Lá, a deusa, que é a Se-nhora da Vida, encontra o rei. Ele segura quatro jarros cujo conteúdo
"refresca o Grande Deus no dia em que ele acorda". Ela oferece o
elixir divino para o rei, "portanto conferindo Vida a ele".


Observando os procedimentos, Rá está feliz. Contemplem, ele olha
para o rei...
Toda a Vida que satisfaz é dada a ti!
A Eternidade é tua...
Não perecerás.
Não passarás,
para todo o sempre.
Com esse Encontro Divino na Estrela Imperecível, o "tempo de vida
do rei é a Eternidade, seu limite é durar para sempre".
A Confusão de Linguagens
Segundo o Gênesis (capítulo 11), a humanidade possuía "uma
língua e um tipo de palavras" antes que a Suméria se estabelecesse.
Porém, como resultado do incidente da Torre de Babei, Iavé, que
viera ver o que estava acontecendo, diz aos colegas (não
identificados): "Eis um mesmo povo e uma mesma língua para todos
eles... Vinde, desçamos e confundamos ali sua língua, para que não
entenda cada um a linguagem de seu companheiro". Isso aconteceu,
de acordo com nossos cálculos, por volta de 3.450 a.C.
Essa tradição reflete as afirmativas sumérias de que "era uma vez"
um passado idílico, quando o "homem não tinha rivais" e as terras
"repousavam em segurança", "em uníssono, as pessoas falavam a
Enlil numa só língua".
Tais tempos idílicos foram lembrados num texto sumério conhecido
como Enmerkar e o Senhor de Arata, que trata de uma luta de poder
travada entre Enmerkar, governador de Uruk (a Erech bíblica), e o
rei de Arata (no vale do Indo), por volta de 2.850 a.C. A disputa
desenrolava-se em torno dos poderes de Ishtar, neta de Enlil, que
não conseguia tomar uma decisão sobre se deveria residir na
distante Arata ou ficar em Erech, na época um centro importante.
Encarando a expansão do controle enlilita como um acontecimento
desfavorável, Enki acabou por inflamar a Guerra das Palavras entre
os dois governantes, confundindo-lhes a linguagem. Depois, "Enki, o
senhor de Eridu, dotado de sabedoria, alterou a fala em suas bocas"
para criar discórdia entre "príncipe e príncipe, rei e rei".
Segundo J. van Dijk (La confusion des langues, em "Orientalia", vol.
39), o último verso nessa passagem deveria ser traduzido por "a
linguagem da humanidade, certa vez, já foi uma, pela segunda vez
foi confundida".
Se o verso significa que foi Enki quem, pela segunda vez, confundiu
as linguagens, ou se foi ele o responsável pela segunda confusão,
mas não necessariamente pela primeira, o texto não esclarece.
7
EM BUSCA DA IMORTALIDADE
Por volta de 2.900 a.C. Gilgamesh, um rei sumério, recusou-se a
morrer.
Quinhentos anos antes dele, Etana, rei de Kish, procurou conseguir
a imortalidade ao preservar sua semente - seu DNA - ao ter um filho.
(Segundo a Lista de Reis Sumérios, ele foi seguido no trono por
"Balih, filho de Etana"; mas se era um filho de sua esposa oficial ou
de uma concubina, os registros não dizem.)
Quinhentos anos depois de Gilgamesh, os faraós egípcios
procuraram atingir a imortalidade juntando-se ao deuses no Pós-vida. Porém, para embarcar na jornada que os transladaria à
Eternidade, primeiro eles tinham de morrer.
Gilgamesh procurou adquirir a imortalidade ao se recusar a morrer...
O resultado foi uma procura repleta de aventuras, cuja história
tomou-se um dos mais famosos épicos do mundo antigo, nosso
conhecido por meio de uma recensão acadiana escrita em doze
estelas. No curso dessa busca, Gilgamesh - e com ele os leitores do
Epopéia de Gilgamesh - encontrou um homem-robô, um guardião
artificial, o Touro do Céu, deuses e deusas, e o ainda vivo herói do
Dilúvio. Com Gilgamesh, chegamos ao Local de Aterrissagem e
testemunhamos o lançamento de um foguete, depois vamos ao
Espaçoporto, na região proibida. Com ele escalamos a Montanha
dos Cedros, afundamos num barco submarino, atravessamos um
deserto onde rugem leões, atravessamos o Mar da Morte, atingimos
os Portões do Céu. O tempo inteiro Encontros Divinos dominam a
saga, as previsões e sonhos determinam seu curso, as visões
enchem seus estágios dramáticos. Realmente, como afirmam as
primeiras linhas do épico:
Ele viu tudo até os confins da Terra,
experimentou todas as coisas, conseguiu toda a sabedoria.
A coisas secretas assistiu, os mistérios desvendou.
Trouxe de volta uma história de tempos antes do Dilúvio.
Segundo as Listas de Reis Sumérios, depois do reinado de 23 reis
em Kish, "O reinado foi removido para Eanna". E.ANNA era a casa
(templo-zigurate) de Anu no território sagrado de Uruk. Havia uma
dinastia semi-divina que se iniciou com Meskiaggasher, "filho do
deus Utu", que era o maior sacerdote do templo de Eanna e se
tomou rei também. Foi seguido no trono por seu filho, Enmerkar
("Ele que construiu Uruk", a grande cidade ao lado do território
sagrado), e seu neto, Lugalbanda - de ambos os governantes foram
escritas histórias heróicas. Depois de um breve intervalo pelo divino
Dumuzi (cuja vida, amores e morte constituem em si uma história),
Gilgamesh subiu ao trono. Seu nome era algumas vezes escrito
com o prefixo "Dingir" para indicar sua divindade; sua mãe era uma
deusa completa, a deusa Ninsun; e isso, assim como explica o
grande e longo Epopéia de Gilgamesh, o tornava" dois-terços divino"
(seu pai, Lugalbanda, era apenas o sumo sacerdote quando
Gilgamesh nasceu).

No início de seu reinado Gilgamesh foi um rei benevolente,
aumentando e reforçando sua cidade e importando-se com os
cidadãos. Contudo, à medida que os anos se passavam (segundo a
Lista de Reis, ele governou por 126 anos, os quais, divididos pelo
fator 6, teriam sido apenas 21), começou a incomodar-se com a
idade e foi absorvido pelas questões da Vida e da Morte. Apelando a
seu padroeiro, Utu/Shamash, ele disse:
Em minha cidade o homem morre; oprimido está meu coração.
O homem perece; pesado está meu coração...
Homem, o mais alto, não pode esticar-se até o céu;
Homem, o mais largo, não pode cobrir a Terra.
"Espiei por sobre o muro, vi os cadáveres", diz Gilgamesh a
Shamash, referindo-se talvez a um cemitério. "Eu também vou
'espiar por sobre o muro', estou destinado ao mesmo fim?" Porém a
resposta do deus não o tranqüilizou. Shamash respondeu: "Quando
os deuses criaram a humanidade, reservaram a morte para a
humanidade; a vida retiveram em seu próprio poder". Aconselhou-o
em seguida a viver a vida dia após dia, enquanto pudesse - "Encha
sua barriga, alegre-se dia e noite, transforme cada dia numa festa de
alegria, dia e noite dance e brinque!".
Embora o conselho do deus terminasse com o aviso de que
Gilgamesh deixasse que sua esposa se "deleitasse em seu colo",
Gilgamesh entendeu as palavras de uma forma diferente. "Alegre-se
dia e noite", disseram-lhe em resposta às suas preocupações sobre
o envelhecimento e a morte; ele entendeu como uma pista de que o
"sexo alegre" o manteria jovem. Então criou o hábito de andar pelas
ruas de Uruk à noite, e quando encontrava um casal recém -casado,
exigia o direito de fazer sexo primeiro com a noiva.
Quando os gritos do povo chegaram aos ouvidos dos deuses, "os
deuses ouviram a queixa" e resolveram criar um homem artificial que
seria páreo para Gilgamesh, lutando com ele até a exaustão e
distraindo-o de suas escapadas sexuais. Ao receber a tarefa,
Ninmah usou a "essência" de vários deuses e, guiada por Enki, criou
na estepe um "homem selvagem" com músculos de cobre. Foi
chamado de ENKI.DU - "Criatura de Enki" - e recebeu de Enki
"sabedoria e compreensão amplas" além de grande força. Um selo
cilíndrico, agora no Museu Britânico, representa Enkidu e seus
criadores, assim como Gilgamesh e sua mãe, a deusa Ninsun (fig.
40).
Vários versos no épico são dedicados ao processo pelo qual essa
criatura artificial foi humanizada, fazendo sexo sem parar com uma
prostituta. Quando isso foi conseguido, Enkidu recebeu instruções
sobre sua missão por parte dos deuses: lutar, subjugar, acalmar e
tomar-se amigo de Gilgamesh. Para que este último não fosse
tomado de surpresa, os deuses disseram a Enkidu que Gilgamesh
seria avisado por meio de sonhos. Que os sonhos seriam usados
pelos deuses de uma forma tão premeditada é tornado claro pelo
texto (Estela I, coluna 5, linhas 23-24):
Antes que tu desças da colina,
Gilgamesh te verá em sonhos em Uruk.
Isso mal acabara de ser planejado, Gilgamesh teve um sonho. Ai ele
foi até sua mãe, "amada e sábia Ninsun, versada em todo
conhecimento", e lhe contou sobre o sonho:
Minha mãe, tive um sonho na noite passada.
Apareceram estrelas nos céus.
Algo dos céus vinha em minha direção.
Tentei erguê-la, mas era pesado demais para mim.
Tentei virá-la, mas não consegui.
a povo de Uruk estava por perto,
os nobres em volta dele,
meus companheiros estavam beijando-lhe os pés.
Fui atraído para ele como para uma mulher;
Eu o coloquei a seus pés;
você o fez competir comigo.
"Aquilo que vinha na sua direção dos céus é um rival", disse Ninsun
a Gilgamesh: "Um camarada resistente que salva um amigo vem até
você". Ele irá lutar com você com todas as forças, mas não o
abandonará jamais.
Gilgamesh, então, teve um segundo sonho-premonição. "Nos
baluartes de Uruk existe um machado." A população estava reunida
ao redor dele. Depois de alguma dificuldade, Gilgamesh conseguiu
levar o machado até sua mãe, e ela o fez competir com ele. Outra
vez Ninsun interpretou o sonho: "O machado de cobre que você viu
é um homem. Igual a você em força. Um aliado forte virá até você,
um capaz de salvar a vida de um camarada. Ele foi criado na estepe,
e logo chegará a Uruk".
Aceitando a profecia, Gilgamesh respondeu: "Deixe que venha, de
acordo com a vontade de Enlil".
Depois, numa noite, quando Gilgamesh saía para ter suas aventuras
sexuais, Enkidu ficou em seu caminho e não deixou que Gilgamesh
entrasse na casa onde recém-casados estavam a ponto de ir para a
cama. Uma luta seguiu-se; "agarraram um ao outro como dois
touros". Paredes estremeceram e batentes foram destruídos
enquanto os dois lutavam. Finalmente, "Gilgamesh dobrou o joelho".
Perdera a luta contra um estrangeiro, e "amargamente começou a
chorar". Enkidu ficou perplexo. Então a sábia mãe de Gilgamesh
falou aos dois: aquilo estava previsto para acontecer, e dali em
diante os dois seriam companheiros, com Enkidu agindo como
protetor de Gilgamesh. Prevendo perigos futuros - pois ela sabia que
havia mais na previsão do sonho do que contara a Gilgamesh -,
Ninsun rogou a Enkidu que fosse à frente de Gilgamesh e se
tornasse um escudo para ele.
Enquanto os dois desenvolviam uma amizade, Gilgamesh começou
a contar a seu camarada coisas de seu coração atribulado.
Lembrando seu primeiro sonho premonitório, em que "algo do céu"
era agora descrito como o "trabalho das mãos de Anu", um objeto
que se incrustou no solo ao cair do céu. Quando ele, finalmente,
conseguiu retirá-lo, foi porque os homens fortes de Uruk "agarra ram
a parte mais baixa", ao passo que ele, Gilgamesh, "puxava pela
frente". A lembrança do sonho se tornou uma vis ão nítida enquanto
Gilgamesh descrevia seus esforços para abrir o topo do objeto:
Pressionei com força a parte superior;
não consegui remover a tampa
nem erguer seu Elevador.
Narrando seu sonho-visão, sem saber se era uma lembrança de
uma realidade obscura ou uma fantasia noturna, Gilgamesh agora
descreve o Elevador que caiu na terra, o "trabalho artesanal de
Anu", um aparelho mecânico com uma parte superior que servia
como cobertura. Determinado a ver o que estava no interior,
Gilgamesh continuou:
Com um fogo destruidor,
seu topo então quebrei
e entrei na profundidade do interior.
Uma vez no interior do Elevador, "apanhei Aquilo-que-empurra-para-a-frente" - o motor - "ergui-o e trouxe para minha mãe". Não seria
aquilo um sinal de que o próprio Anu o chamava para a Habitação
Divina? Sem dúvida tratava-se de um presságio, um convite. Mas
como poderia responder à pergunta? "Quem, meu amigo, pode
chegar ao Céu?", indagou Gilgamesh a Enkidu, que respondeu em
seguida: "Apenas os deuses, indo ao subterrâneo de Shamash" - o
Espaçoporto, na região proibida.
Porém aqui Enkidu tinha uma informação surpreendente. Existe um
Local de Aterrissagem na Montanha dos Cedros, disse ele. Enkidu o
descobrira enquanto percorria a terra e podia dizer a Gilgamesh
onde se situava! Existia, porém, um problema: o local era protegido
por um guardião habilidosamente criado por Enlil, uma "máquina de
cerco", cuja "boca é fogo, cujo hálito é morte, cujo rugido é
tempestade de dilúvio". O nome do monstro era Huwawa, "a quem
Enlil indicou como terror para os mortais", e ninguém podia chegar
perto dele, pois "a sessenta léguas ele pode escutar os bois
selvagens na floresta".
O perigo apenas encorajou Gilgamesh a tentar alcançar o Local de
Aterrissagem. Se obtivesse sucesso, conseguiria a imortalidade; se
falhasse, seu heroísmo será lembrado para sempre: "Se eu cair,
'Gilgamesh caiu contra o feroz Huwawa', dirão, muito tempo de pois
que meus descendentes nascerem".
Determinado a ir, Gilgamesh orou para Shamash, seu padroeiro e
comandante dos homens-águias, pedindo ajuda e proteção. "Deixai
que eu vá, Ó Shamash! Minhas mãos estão elevadas em oração...
dai vossa ordem para o Local de Aterrissagem... colocai vossa
proteção sobre mim!", rezou Gilgamesh, sem obter resposta
favorável. Revelou o plano à mãe, pedindo que ela intercedesse
junto a Shamash. "Uma jornada distante empreendi com ousadia,
até o lugar de Huwawa; uma luta incerta estou para enfrentar; um
caminho desconhecido estou para tomar. Ó minha mãe, reze para
Shamash por mim!"
Escutando as palavras do filho, Ninsun colocou o traje de
sacerdotisa, "fez uma oferenda de fumaça e ergueu as mãos para
Shamash. 'Por quê, tendo me dado um filho como Gilgamesh, o
dotastes com um coração tão inquieto? E agora o impelis a partir
numa jornada longa, até o lugar de Huwawa, para enfrentar uma
batalha incerta?' Dai a ele vossa proteção", pediu ela a Shamash.
"Até que ele alcance a Floresta de Cedros, até que ele mate o feroz
Huwawa, até o dia em que ele vá e retome." Voltando-se para
Enkidu, Ninsun anunciou que o adotara como filho. "Embora não
fosse do mesmo ventre que Gilgamesh, Enkidu tinha uma obrigação
nos ombros." "Deixem que Enkidu vá na frente, pois aquele que vai
na frente salva seus companheiros", disse ela aos dois
companheiros.
Assim, com armas novas, os dois companheiros partiram em sua
viagem perigosa até o Local de Aterrissagem, na Montanha dos
Cedros.
A quarta estela do Epopéia de Gilgamesh começa com a viagem até
a Montanha dos Cedros. Movendo-se tão rápido quanto possível, os
dois "comiam sua ração depois de vinte léguas, e, ao completarem
trinta, paravam para passar a noite", cobrindo, dessa manei ra,
cinqüenta léguas por dia. "A distância levou-os desde a lua nova até
a lua cheia, depois mais três dias" - um total de dezessete dias.
"Então eles vieram para o Líbano", em cujas montanhas estão os
únicos cedros de fama bíblica.
Quando os dois chegaram às montanhas verdes, ficaram
impressionados. "Suas palavras silenciaram... permaneceram
quietos e olharam para a floresta. Contemplaram a altura dos
cedros; olharam para a entrada; onde Huwawa passava, havia um
caminho, as marcas eram retas, um canal de fogo. Contemplaram a
Montanha dos Cedros, habitação dos deuses, o cruzamento de
Ishtar." Haviam sem dúvida chegado ao seu destino, e a visão era
impressionante.
Gilgamesh fez uma oferenda para Shamash e pediu um presságio.
Encarando a montanha, ele pediu: "Trazei-me um sonho, um sonho
favorável!".
Pela primeira vez ficamos aqui sabendo que se praticava um ritual
para acontecerem tais sonhos premonitórios. Os seis versos que
descrevem o ritual estão em parte danificados, mas a porção intacta
dá uma idéia do que aconteceu:
Enkidu arranjou-o para ele, para Gilgamesh.
Com poeira... ele fixou...
Fez com que o outro deitasse no interior do círculo e ...como cevada
selvagem...
...sangue...
Gilgamesh sentou-se com o queixo tocando os joelhos.
Ao que parece, o ritual exigia que se fizesse um círculo com poeira;
usavam-se cevada selvagem e sangue, alguma forma mágica, e ao
sentar-se no interior do círculo, devia-se tocar os joelhos com o
queixo. O rito funcionou, pois o que lemos a seguir é que o "sono
que se derrama sobre as pessoas venceu Gilgamesh; no meio da
vigília o sono separou-se dele; ele conta um sonho para Enkidu". No
sonho, "que foi extremamente perturbador", Gilgamesh viu ambos no
sopé de uma grande montanha; repentinamente a montanha tom-bou, e os dois "foram como moscas" (significado incerto). Garantindo
a Gilgamesh que o sonho era favorável e que o significado se
tornaria claro ao amanhecer, Enkidu incentivou Gilgamesh a dormir
de novo.
Dessa vez Gilgamesh teve um sobressalto ao despertar. "Você me
acordou?", perguntou ele a Enkidu. "Você tocou em mim? Chamou
meu nome?" Não, respondeu Enkidu. Então, talvez tenha sido um
deus que passou, disse Gilgamesh, pois em seu segundo sonho ele
vira outra vez a montanha caída: "Eu estava por baixo, com os pés
presos". Brilhou um clarão forte e um homem apareceu; "O mais
belo da terra ele era. Me puxou de sob a montanha caída; deu-me
água para beber, meu coração aquietou-se; ele colocou meus pés
no chão".
Mais uma vez Enkidu assegurou a Gilgamesh que a "montanha" que
caíra significava Huwawa assassinado. "Seu sonho é favorável",
afirmou ele, dizendo que deveriam dormir outra vez.
Enquanto os dois dormiam, a tranqüilidade da noite foi rompida por
um ruído semelhante a um trovão e por uma luz cegante; Gilgamesh
não tinha certeza se estava sonhando ou enxergando realmente tais
coisas. O texto descreve assim a situação:
A visão que vi era impressionante!
Os céus gritaram, a Terra rugiu!
Embora a luz do dia estivesse chegando, veio a escuridão.
Raios brilharam, uma chama apontou para cima.
As nuvens incharam, choveu morte!
Então o brilho desapareceu; o fogo apagou-se.
E tudo o que havia caído virou cinza.
Talvez Gilgamesh tenha testemunhado, ali mesmo, o lançamento de
um Shem, um foguete - o sacudir do chão enquanto os motores se
inflamavam, as nuvens de fumaça e a "chuva da morte"
escurecendo o céu do nascente; o brilho das chamas é enxergado
através da fumaça enquanto o foguete sobe; e o brilho que
desaparece e as cinzas caindo na terra são as evidências finais do
lançamento do foguete. Teria Gilgamesh percebido que se
encontrava no "Local de Aterrissagem", onde encontraria o Shem
que o tornaria imortal? Aparentemente sim, pois a despeito das
palavras de cautela de Enkidu, Gilgamesh tinha certeza de que fora
um bom presságio, um sinal de Shamash de que ele devia avançar.
Porém antes que a Floresta de Cedros pudesse ser penetrada e o
Local de Aterrissagem atingido, havia o terrível guardião, Huwawa, a
ser vencido. Enkidu sabia onde ficava o portão, e pela manhã os
dois companheiros avançaram até lá, com cuidado para evitar as
"árvores-armadilhas que matavam". Ao atingirem o portão, Enkidu
tentou abri-lo. Uma força invisível o atirou para trás, e por doze dias
ele ficou paralisado. A narrativa conta que Enkidu esfregou a si
mesmo com plantas, criando um "manto duplo de radiância" que fez
com que" a paralisia fosse embora do braço e a impotência sair dos
quadris".
Enquanto Enkidu estava imobilizado, Gilgamesh fez uma
descoberta: encontrou um túnel que conduzia até a floresta. A
entrada estava obstruída por rochas e entulho. "Enquanto Gilgamesh
cortava as árvores, Enkidu cavava as rochas e o entulho”. Depois de
algum tempo, encontraram a si mesmos na floresta e viram adiante
um caminho - o caminho "onde Huwawa faz uma trilha ao passar de
um lado para outro".
Por um instante os dois companheiros permaneceram ali, imóveis,
sem ação, "contemplando a Montanha dos Cedros, habitação dos
deuses, santuário de Inana". Eles" olharam e olharam para a altura
dos cedros, observaram a trilha aberta na floresta. O caminho era
bem batido, uma excelente estrada. Os cedros mantinham sua
imponência por toda a encosta da montanha, sua sombra era muito
agradável; enchia as pessoas de bem-estar".
Exatamente quando os dois se sentiam tão bem, veio o terror:
"Huwawa fez sua voz ser ouvida". De alguma forma alertado sobre a
presença dos dois na floresta, Huwawa, com sua voz, reboou morte
e condenação para os intrusos. Numa cena que lembra o encontro,
muito mais tardio, entre o menino Davi e o gigante Golias, quando
este último se sentiu insultado pela luta desigual e ameaçou "dar a
carne de Davi aos pássaros do ar e aos animais do campo", assim
Huwawa ameaçou e humilhou os dois: "Vocês são tão pequenos que
parecem um cágado e uma tartaruga. Se eu fosse engolir vocês, não
conseguiria satisfazer meu estômago. Sendo assim, Gilgamesh, vou
morder sua garganta e o pescoço e deixar seu corpo para os
pássaros da floresta e para as bestas que rugem".
Tomados de medo, os dois companheiros viram o monstro
aproximar-se. Era "poderoso, os dentes como os dentes de um
dragão, suas faces como as de um leão, sua vinda como uma
inundação que se aproxima". De sua testa emanava um "raio
brilhante; devorava árvores e arbustos". Da "força mortal dessa arma
ninguém podia escapar". Um cilindro sumério que representa um
monstro mecânico pode ter relação com Huwawa (fig. 41). Aparece
um monstro, o rei heróico, Enkidu (à direita), e um deus (à
esquerda), este representando Shamash, que, de acordo com a
história épica, veio nesse momento crucial para salvá-los. "Dos céus
divinos Shamash falou a eles", revelando uma fraqueza na armadura
de Huwawa e apresentando uma estratégia para os dois atacarem.
Huwawa, explicou a divindade, geralmente protege a si mesmo com
os "sete mantos", mas no momento só usava um, seis ainda não
foram colocados". Podiam, portanto, matar Huwawa com a arma que
possuíam, se apenas conseguissem aproximar-se o suficiente; para
tornar isso possível, Shamash anunciou que criaria um redemoinho
que "iria fustigar os olhos de Huwawa" e neutralizar o raio da morte.

Em pouco tempo o solo começou a estremecer; "nuvens brancas se
tornaram negras". "Shamash invocou uma grande tempestade
contra Huwawa", de todas as direções, criando um enorme
redemoinho. "O rosto de Huwawa tornou-se grave; ele não
conseguia avançar, nem podia mover-se para trás." Os dois, então,
atacaram o monstro incapacitado. "Enkidu atingiu o guardião,
Huwawa, derrubando-o. Por duas léguas os cedros ressoaram" com
a queda. Ferido, porém não morto, Huwawa falou, perguntando-se
por que não exterminara Enkidu assim que o descobrira na entrada
da floresta. Voltando-se para Gilgamesh, Huwawa ofereceu-lhe toda
a madeira que desejasse entre os cedros - Sem dúvida um prêmio
valioso. Mas Enkidu apressou Gilgamesh, para que não desse
ouvidos às suplicas. "Mate-o. Acabe com ele. Antes que o líder Enlil
escute tudo em Nippur!", gritou Enkidu. E vendo que Gilgamesh
hesitava, "Enkidu matou Huwawa".
"Para que os deuses não se enchessem de fúria contra eles", e
como forma de "estabelecer um memorial eterno", os dois
companheiros cortaram um dos cedros e fizeram uma jangada com
uma cabine. Na cabine colocaram a cabeça de Huwawa e
empurraram a jangada correnteza abaixo. "Deixe que o Eufrates a
carregue até Nippur", disseram.
E assim, tendo livrado o caminho do monstruoso guardião do Local
de Aterrissagem, Gilgamesh "lavou seus cabelos sujos, limpou seu
equipamento, balançou os cachos para as costas, retirou suas
roupas sujas e colocou roupas limpas. Vestiu uma túnica e amarrou -a com um sash". Não havia necessidade de apressar-se; o caminho
para a "habitação secreta dos Anunnaki estava aberto".
Esqueceu-se completamente de que o local era também "o
cruzamento de Ishtar".

Usando o Local de Aterrissagem para seus passeios pelo céu, Ishtar
estava observando Gilgamesh de sua câmara celeste. Se ela
presenciou a batalha, não ficamos sabendo. Mas, com certeza,
observou Gilgamesh retirar suas roupas, banhar-se e enfeitar-se
com túnicas leves. E a "gloriosa Ishtar se admirou com a beleza de
Gilgamesh". Sem perder tempo, ela dirigiu-se diretamente a ele:
"Venha, Gilgamesh, seja meu amante! Dê-me o fruto do seu amor!".
Se Gilgamesh se tornasse amante de Ishtar, reis, príncipes e nobres
se curvariam para ele; receberia uma carruagem adornada com
lápis-lazúli e ouro; seus rebanhos iriam dobrar e quadruplicar; os
produtos do campo e da montanha aumentariam... Porém, para
surpresa dela, Gilgamesh a recusou. Listando as poucas posses
terrenas que poderia oferecer a Ishtar, Gilgamesh previu que ela
logo se cansaria dele e de seu amor. Mais cedo ou mais tarde,
argumentou Gilgamesh, Ishtar iria livrar-se dele como um "sapato
que machuca o pé de seu dono".
Posso obter para você a vida eterna, ofereceu Ishtar. Mas isso
tampouco conseguiu convencer Gilgamesh. Enumerando os
amantes conhecidos de Ishtar, que ela usara e depois descartara,
"qual de seus amantes tem a vida eterna?", quis saber Gilgamesh.
"Qual de seus preferidos foi até o céu? Se você fizer amor comigo,
vai me tratar como um deles."
"Quando Ishtar escutou aquilo, encheu-se de raiva e voou para os
céus." Em sua fúria por ser rejeitada, ela pediu a Anu que punisse
Gilgamesh, que "me desgraçou". Ela pediu que Anu soltasse o
Touro do Céu, para que matasse Gilgamesh. A princípio Anu
recusou, mas no final deixou-se convencer pelas promessas e
ameaças de Ishtar, e "colocou as rédeas do Touro do Céu nas mãos
dela".
(GUD.ANNA, o termo sumério empregado nos textos antigos,
geralmente é traduzido como "Touro do Céu", mas poderia também
ser usada uma forma mais literal, significando "Touro de Anu". O
termo também era o nome sumério para a constelação do Touro,
associada a Enlil. O "Touro do Céu", mantido na Floresta de Cedros,
guardada pelo monstro de Enlil, que poderia ser um touro
especialmente escolhido, ou o "protótipo" que viera de Nibiru para
criar touros na Terra. Seu equivalente egípcio era o sagrado boi
Ápis.)
Atacados pelo Touro do Céu, os dois companheiros esqueceram
tudo sobre o Local de Aterrissagem e a busca da imortalidade e
fugiram para salvar as vidas. Ajudados por Shamash, "a distância de
um mês e quinze dias em três dias eles atravessaram". Ao chegar a
Uruk, Gilgamesh buscou proteção nos muros, enquanto Enkidu
esperava do lado de fora, para enfrentar o atacante. Centenas dos
guerreiros da cidade também saíram, porém os bramidos do Touro
do Céu abriram sulcos na Terra, onde os guerreiros caíram. Apro-veitando uma oportunidade quando o monstro celeste voltou -se,
Enkidu saltou para seu dorso e apanhou-o pelos chifres. Com todas
as suas forças, o Touro do Céu lutou contra seu cavaleiro, agitando
o rabo. Desesperado, Enkidu gritou para Gilgamesh: "Enfie sua
espada entre a base dos chifres e os tendões do pescoço!".
Esse foi um grito que ecoa nas touradas até hoje...
Nessa primeira tourada registrada pela história, "Enkidu apanhou o
Touro do Céu por sua cauda grossa, e Gilgamesh, como um
açougueiro, entre o pescoço e os chifres enfiou sua espada". A
criatura celeste foi destruída, e Gilgamesh ordenou que se
iniciassem comemorações em Uruk. Contudo, "Ishtar, em sua
habitação, soltou seu lamento; providenciou para que se lastimasse
o Touro do Céu" .
Entre os numerosos selos cilíndricos desenterrados no Oriente
Médio e que representam o Epopéia de Gilgamesh, um deles
(encontrado num entreposto comercial avançado dos hititas na
fronteira com a Assíria, fig. 43) mostra Ishtar dirigindo-se a
Gilgamesh, enquanto Enkidu, seminu, observa; no espaço entre a
deusa e Gilgamesh encontram-se as cabeças decepadas de
Huwawa e do Touro no Céu.
E sucedeu que, enquanto Gilgamesh celebrava em Uruk, os deuses
reuniram-se em conselho. Anu disse: "Como eles mataram o Touro
do Céu e Huwawa, os dois devem morrer". Enlil respondeu: "Enkidu
deve morrer, deixe que Gilgamesh viva". Porém Shamash, aceitando
parte da culpa, perguntou: "Por que o inocente Enkidu deve
morrer?".
Enquanto os deuses discutiam seu destino, Enkidu entrou em coma.
Alucinando, ele imaginou ser sentenciado à morte. Porém a decisão
final foi comutar essa pena para trabalhos forçados na "Terra das
Minas", um local onde o cobre e a turquesa eram obtidos mediante
trabalhos pesados em túneis escuros.
Nesse ponto, a saga, já repleta de reviravoltas inesperadas e
dramáticas que rivalizam com o melhor filme de ação, ainda
apresenta outro rumo inédito. A "Terra das Minas" ficava na Quarta
Região, na península do Sinai; Gilgamesh se deu conta de que ali
estava uma segunda chance para juntar-se aos deuses e obter a
imortalidade, pois a "Terra dos Vivos" - o Espaçoporto onde os
foguetes Shem ficavam baseados, sob o comando de Shamash -também estava situada na Quarta Região.
Portanto, se Shamash pudesse conseguir que ele acompanhasse
Enkidu, Gilgamesh chegaria à Terra dos Vivos! Percebendo essa
oportunidade única, Gilgamesh apelou para Shamash:
Ó Shamash,
nessa Terra desejo entrar;
sede meu aliado!
Na Terra onde os cedros frios estão alinhados,
ali desejo entrar; sede meu aliado!
Nos lugares onde se ergueram os Shem,
deixai que eu erga ali meu Shem!
Quando Shamash respondeu descrevendo a Gilgamesh as
desventuras e dificuldades da rota terrestre, Gilgamesh teve uma
idéia brilhante: ele e Enkidu iriam de barco, velejando! Um Magan -um "navio do Egito" - foi aparelhado. Acompanhado por cinqüenta
heróis e protetores, os dois companheiros zarparam. O caminho, por
todas as indicações, implicava sair do golfo Pérsico, contornar a
península Arábica e subir o mar Vermelho, até que a costa do Sinai
fosse alcançada. Porém tal viagem não estava destinada a
acontecer.
Quando Enlil exigira que "Enkidu" deveria morrer, e a pena de morte
fora comutada para trabalhos forçados na Terra das Minas, havia
sido decretado pelos deuses que dois emissários, "vestidos como
pássaros, com asas por roupas", deveriam apanhar Enkidu pela mão
e carregá-lo para lá (fig. 44a). A viagem marítima contra disse esse
fato, e a ira de Enlil ainda estava por vir. No momento, enquanto o
navio navegava próximo à costa da Arábia ao pôr-do-sol, os que
estavam a bordo enxergaram alguém - "se um homem ele era, ou
um deus ele era" - em pé sobre um monte, "como um touro",
equipado com um dispositivo emissor de raios (fig. 44b). Como se
por uma mão invisível, o "pano triplo", do qual era feita a vela do
navio, rasgou-se. Em seguida o próprio navio foi atirado para um
lado e emborcou. Afundou depressa, como uma pedra na água, e
todos a bordo foram com ele, a não ser Gilgamesh e Enkidu.
Enquanto nadava para fora do navio e para a superfície, arrastando
Enkidu, Gilgamesh enxergou onde os outros se encontravam, "como
criaturas vivas". Na morte súbita, eles se congelaram na posição em
que estavam.
Os dois únicos sobreviventes alcançaram a terra e passaram a noite
na costa desconhecida, discutindo o que fazer. Gilgamesh foi
frustrado em seu desejo de chegar à Terra dos Vivos; Enkidu
aconselhou que voltassem para Uruk. Mas tinha seu destino traçado;
seus membros se tornaram dormentes, seu interior começou a
desintegrar-se. Gilgamesh exortou seu amigo a manter-se vivo, mas
não adiantou.
Por seis dias e sete noites Gilgamesh lamentou Enkidu: depois
partiu, andando pela terra selvagem sem destino, imaginando não
quando, mas como ele morreria. "Quando eu morrer, não serei como
Enkidu?"
Mal sabia ele que depois das aventuras anteriores, depois dos
diversos Encontros Divinos, depois dos sonhos e visões, do real e
do imaginado, das brigas e dos vôos, agora totalmente solitário era o
momento em que sua saga mais famosa estava para começar.
Quanto tempo Gilgamesh vagou sem destino pela terra selvagem, a
história não conta. Percorreu caminhos ermos, caçando para comer,
sem encontrar nenhum homem. "Que montanhas ele escalou, que
rios atravessou, nenhum homem saberá", afirmam os escribas.
Finalmente ele conseguiu controlar-se: "Devo ficar com a cabeça
enterrada e dormir os anos que me restam?", perguntou a si mesmo,
para juntar-se a seu amigo na morte, ou os deuses permitiriam "que
meus olhos contemplem o sol?". Mais uma vez ele se encheu de
determinação para alcançar a Terra dos Vivos e evitar um destino
mortal.
Guiado pela aurora e pelo ocaso - o equivalente celeste de
Shamash, o sol -, Gilgamesh seguiu de uma forma intencional. À
medida que os dias seguiam um ao outro, o terreno começou a
mudar: a terra deserta e selvagem, lar de lagartos e escorpiões,
estava terminando, e ele enxergou as montanhas a distância.
Também a vida selvagem estava mudando. "Quando, à noite,
Gilgamesh chegou ao passo nas montanhas, viu leões e ficou com
medo."
Ele ergueu sua cabeça para Sin e rezou:
"Até o lugar onde os deuses rejuvenescem
meus passos estão dirigidos...
Preservai a mim!".
A mudança de Shamash para Sin como divindade protetora, à quem
é endereçada a oração, é realizada sem pausa ou comentário; e
somos deixados a presumir que, de alguma forma, Gilgamesh
percebeu estar numa região dedicada a Sin.
Gilgamesh "foi dormir e acordou de um sonho", no qual ele viu a si
mesmo" alegrando-se com a vida". Tomou aquilo como um
presságio favorável de Sin de que atravessaria o passo da
montanha apesar dos leões. Após reunir suas armas, "Gilgamesh
caiu como uma flecha entre os leões", atacando os animais com
todas as suas forças: "Caiu sobre eles, fazendo com que
recuassem". Por volta do meio-dia, suas armas se arrebentaram e
Gilgamesh as jogou fora. Dois leões ficaram e o enfrentaram;
Gilgamesh teve de lutar contra eles com as mãos limpas.
A luta com os leões, da qual Gilgamesh saiu vitorioso, foi
comemorada por artistas de todo o Oriente Médio, não apenas na
Mesopotâmia (fig. 45a). Foi também representada pelos hititas (fig.
45b) ao norte, pelos cassitas no Luristão a oeste (fig. 45c) e até no
antigo Egito (fig. 45d). Em épocas posteriores, tal feito - vencer leões
com as mãos desarmadas - foi uma façanha atribuída na Bíblia
apenas a Sansão, aquele que recebeu de Deus força sobre-humana
(Juízes 14:5-6).

Vestido com a pele de um dos leões, Gilgamesh atravessou o passo
nas montanhas. A distância, divisou uma grande quantidade de
água, como um vasto lago. Na planície desse mar interior, ele pôde
enxergar uma cidade "fechada", uma cidade cercada por uma
muralha fortificada. Era, conforme explica o texto, uma cidade onde
"o templo de Sin estava erigido". Ao lado de fora dos muros, "à beira
do mar vazante", Gilgamesh viu uma estalagem. À medida que se
aproximava, viu no interior "Siduri, a mulher-cerveja". Havia no
interior prateleiras de frascos, recipientes para fermentação; a
mulher segurava um jarro de cerveja e uma tigela de mingau
amarelo. Gilgamesh deu a volta, procurando uma forma de entrar;
contudo Siduri, vendo um homem sujo e vestido com uma pele de
leão, "o ventre achatado, o rosto como o de um viajante vindo de
muito longe", ficou assustada e passou a tranca na porta. Com
grande dificuldade, Gilgamesh conseguiu convencê-la de sua
verdadeira identidade.
Alimentado e descansado, Gilgamesh contou a Siduri tudo sobre
suas aventuras, desde a primeira jornada na Floresta de Cedros, o
assassinato de Huwawa e do Touro do Céu, a segunda viagem e a
morte de Enkidu, seguida por suas perambulações e pela morte dos
leões. Seu destino, explicou, era a Terra dos Vivos, onde se podia
obter a imortalidade, pois Utnapishtim do Dilúvio ainda vivia lá. Qual
seria o caminho para a Terra dos Vivos?, quis saber Gilgamesh.
Seria preciso contornar o mar, pelo caminho árduo e difícil de terras
desconhecidas, ou era possível navegar até lá? "Mulher-cerveja,
qual o caminho até Utnapishtim? Me diga por onde ir!"
Atravessar o mar, respondeu Siduri, não era possível, pois suas
águas são as "Águas da Morte":
Nunca, Gilgamesh, alguém atravessou;
desde os dias mais antigos,
ninguém chegou pelo lado do mar.
Mas além de Shamash, quem poderia atravessar?
Gilgamesh ficou em silêncio, e Siduri revelou a ele que talvez
houvesse uma forma de atravessar as Águas da Morte: Utnapishtim
tem um barqueiro; seu nome é Urshanabi. Urshanabi pode
atravessar as Águas da Morte porque" com ele estão as Coisas de
Pedra". Ele atravessa para apanhar Urnu (significado incerto) na
floresta. Vá e espere por ele, disse Siduri para Gilgamesh, "deixe
que ele veja seu rosto". Se gostar, ele atravessa você. Assim
avisado, Gilgamesh voltou ao litoral para aguardar o barqueiro
Urshanabi.
Quando Urshanabi viu Gilgamesh, ficou intrigado com sua
identidade, e Gilgamesh contou-lhe sua longa história. Convencido
da verdadeira identidade de Gilgamesh e de seu legítimo desejo de
alcançar a Terra dos Vivos, Urshanabi levou Gilgamesh a bordo.
Assim que isso foi feito, Urshanabi acusou Gilgamesh de esmagar
as "Coisas de Pedra", necessárias para a travessia. Repreendendo
Gilgamesh, Urshanabi lhe disse para voltar até a floresta, cortar e
dar forma a 120 postes; usaram os postes em grupos de doze ao
realizar a travessia. Depois de três dias, chegaram ao outro lado.
Aonde devo ir agora?, perguntou Gilgamesh a Urshanabi. O
barqueiro lhe disse para continuar sempre em frente até alcançar "o
Grande Mar". Deveria seguir aquela estrada até alcançar duas
colunas de pedra que servem como marcos. Virando ali, ele chegou
a uma cidade chamada (na recensão hitita do épico) Itla, consagrada
ao deus Ullu-Iah. A permissão desse deus era necessária para
atravessar até a Região Proibida, onde ficava o monte Mashu; esse
era seu destino, declarou Urshanabi.
Itla provou ser um bênção para Gilgamesh. Ao chegar lá, comeu e
bebeu, lavou-se e trajou a roupa adequada. A conselho de
Shamash, ofereceu sacrifícios a Ullu-Iah (significando, talvez,
"Aquele dos Picos"). Mas o Grande Deus, sabendo do desejo do rei
por um Shem, vetou a idéia. Procurando a intervenção de Shamash,
Gilgamesh pediu uma alternativa aos deuses: "Deixe-me tomar a
estrada para Utnapishtim, filho de Ubar-Tutu!". E aquilo, depois de
alguma deliberação, foi permitido.
Após uma jornada de seis dias, Gilgamesh enxergou a montanha
sagrada da qual o barqueiro Urshanabi falara:
O nome da montanha é Mashu.
À montanha de Mashu ele chegou,
Onde diariamente observou os Shem
partindo e chegando.
No alto, com a Faixa Celeste são ligados;
abaixo, são ligados ao Mundo Inferior.
Havia uma maneira de entrar na montanha, mas a entrada era
guardada por terríveis "Homens-foguetes":
Homens-foguetes guardam seu portão.
O terror é impressionante, seu olhar é a morte.
Seus temidos holofotes varrem as montanhas.
Vigiam Shamash quando ele sobe e desce.
Apanhado na varredura da luz mortal, Gilgamesh escondeu seu
rosto; desarmado, caminhou na direção dos Homens-foguetes (cena
representada num selo cilíndrico que pode ter ilustrado esse
episódio – fig. 46). Ficaram espantados em ver que os raios mortais
não afetavam Gilgamesh, e compreenderam que" o corpo daquele
que vem é feito de carne dos deuses". Permitiram que Gilgamesh se
aproximasse e o interpelaram. Reconhecendo não se tratar de um
mortal comum, deixaram que ele passasse. "O portão do monte está
aberto parta ti", anunciaram.

A "passagem inacessível" era o "caminho de Shamash",
subterrâneo. A travessia durou doze horas-duplas. "A escuridão era
densa, não havia luz." Gilgamesh não conseguia enxergar "à frente
ou atrás". Na oitava hora-dupla, algo o fez gritar de medo. Na nona
hora-dupla, ele "sentiu o vento norte em sua face" – aproximava-se
de uma abertura no céu. Na décima primeira hora-dupla, ele viu a
aurora. Finalmente, na décima segunda hora-dupla, "ficou brilhante;
ele saiu em frente ao sol".
Emergindo da passagem subterrânea, através da montanha
sagrada, à luz do sol, Gilgamesh encontrou uma visão incrível. Ele
viu um "lugar dos deuses", onde havia um jardim; porém o "jardim
era feito inteiramente de pedras preciosas esculpidas: "todos os
tipos de Arbustos Espinhosos eram visíveis, cheios de pedras
preciosas; frutas em cachos de cornalina, as trepadeiras belas
demais para serem contempladas. A folhagem era de lápis-lazúli; e
as vinhas luxuriantes... de pedra eram feitas". Os versos,
parcialmente danificados, seguem listando outros tipos de árvores
frutíferas e variedades de pedras preciosas - brancas, vermelhas e
verdes - das quais eram feitas. Água pura corria pelo jardim, e, em
seu meio, ele divisou" corno urna Árvore da Vida e uma Árvore de...
daquilo que eram feitas as pedras An-gug".
Impressionado e espantado, Gilgamesh caminhou pelo jardim.
Percebeu claramente que se encontrava num Jardim do Éden!
Sem saber, estava sendo observado por Utnapishtim. "Utnapishtim
olhava a distância, ponderando e falando a si próprio, aconselhando-se consigo mesmo: 'Quem é esse homem e como ele apareceu
aqui? Esse que vem aqui não é um dos meus homens'" - nenhum
homem dos que estavam com ele na Arca...
Ao se aproximar, Gilgamesh ficou surpreso: o herói do Dilúvio,
milhares de anos antes não parecia mais velho do que ele,
Gilgamesh! "Disse para ele, para Utnapishtim, o Distante: Quando
olho para ti, Unapishtim, não és nada diferente; como eu és!"
Mas quem é você, por que e como chegou até aqui? Quis saber
Utnapishtim. Como tinha feito com Siduri e com o barqueiro,
Gilgamesh narrou toda a história de seu reinado, de seus ancestrais,
da amizade com Enkidu e das aventuras em busca da imortalidade,
incluindo as últimas. "Assim pensei em ver Utnapishtim, o Distan te,
de quem as pessoas falam", concluiu Gilgamesh. Agora, pediu ele,
me conte o segredo da sua imortalidade! Conte-me" como chegou a
se juntar à congregação dos deuses e obter a vida eterna".
Utnapishtim falou com ele, com Gilgamesh:
Revelarei a você, Gilgamesh,
um assunto oculto, um segredo dos deuses
contarei a você.
Então se segue a história do Dilúvio, narrada na primeira pessoa por
Utnapishtim, em todos os detalhes, desde o início até o final, até que
Enlil, no Monte da Salvação, onde a Arca pousou, "segurando-me
pela mão, me levou para bordo da nave dele; levou minha esposa
para bordo e fez com que ela se ajoelhasse a meu lado. Entre nós
dois, tocou-nos a fronte para nos abençoar. Até então Utnapishtim e
sua esposa tinham sido mortais (disse Enlil); dali em diante,
Utnapishtim e a mulher seriam como os deuses; Utnapishtim iria
residir a distância, na foz dos rios. Assim me levaram e me fizeram
morar longe, na foz dos rios".
Isso, concluiu Utnapishtim, é a verdade sobre escapar de um destino
mortal. "Agora, porém, quem irá convocar uma Assembléia dos
deuses para você, para que possas encontrar a Vida que procura?"
Percebendo que apenas um direito em reunião divina poderia
conceder a ele a imortalidade, e não suas próprias buscas,
Gilgamesh desmaiou; por uma semana permaneceu inconsciente.
Quando acordou, Utnapishtim chamou Urshanabi, o barqueiro, para
levar Gilgamesh de volta, "para que possa voltar a salvo pelo
caminho por onde veio". Porém, ao ver Gilgamesh aprontando-se
para partir, Unapishtim, condoendo-se dele, decidiu revelar outro
segredo: A vida eterna não é conseguida sendo imortal - é
conseguida ficando-se sempre jovem!
Utnapishtim disse a ele, a Gilgamesh:
Veio até aqui com esforço e cansaço.
O que posso dar a você para que leve à sua terra?
Deixe-me revelar, Gilgamesh,
um segredo oculto muito bem guardado –
um segredo dos deuses contarei a você:
Existe uma planta,
como a de um arbusto de amoras é a raiz.
Seus espinhos são como os da urze-branca;
sua mão os espinhos vão picar.
Mas, se puder obter a planta
com suas próprias mãos,
o rejuvenescimento encontrará.
A planta crescia embaixo d'água, talvez num poço ou fonte no
esplêndido jardim. Algum tipo de cano levava à fonte ou à
profundidade dessa Águas da Vida. Assim que Gilgamesh ouviu o
segredo, ele "abriu o cano, amarrou pedras pesadas nos pés; elas o
arrastaram para o fundo do abismo". Lá ele viu a planta.
Ele mesmo apanhou a planta
com suas mãos machucadas.
Cortou as pesadas pedras de seus pés;
a segunda lançou-o de volta
para o lugar de onde viera.
Urshanabi, que fora chamado por Utnapishtim, esperava por ele.
Triunfante e exausto, Gilgamesh mostrou a ele a Planta do
Rejuvenescimento. Cheio de excitação, disse ao barqueiro:
Urshanabi, esta planta de todas as plantas é única:
por meio dela um homem pode reconquistar o fôlego da vida!
Vou levá-la para a exuberante Uruk,
e lá, a planta vou cortar e comer.
Será chamada de
"Homem se torna jovem na velhice".
Desta planta comerei
e para minha juventude retornarei.
Com essa esperança de rejuvenescimento, os dois começam a
retornar. "Depois de trinta léguas, pararam para passar a noite.
Gilgamesh viu um poço cuja água estava fria. Mergulhou para
refrescar-se. Uma serpente sentiu a fragrância da planta; veio
silenciosamente e carregou-a. À medida que a levava embora,
deixou sua pele escamosa." Sem dúvida tratava-se de uma planta
com propriedades de rejuvenescimento, mas foi a serpente, não
Gilgamesh, que rejuvenesceu...
Então Gilgamesh sentou-se e chorou,
suas lágrimas escorreram por seu rosto.
Tomou a mão de Urshanabi, o barqueiro.
"Para quem minhas mãos trabalharam?
Para quem dei o sangue de meu coração?
Para mim mesmo não obtive benefício;
para uma serpente o benefício eu trouxe."
Pensando em seu azar, Gilgamesh recordou-se de um incidente
durante o mergulho para apanhar a planta "que deve ter sido um
presságio". "Enquanto eu estava abrindo o cano, arrumando o
equipamento, encontrei um selo na porta; deve ter sido colocado ali
como um aviso para alguém como eu... um sinal para se retirar,
desistir." Só então Gilgamesh compreendeu que estava fadado a
não obter a Planta da Juventude; tendo-a retirado de suas águas,
condenara-se a perdê-la.
Quando, finalmente, voltou para a exuberante Uruk, Gilgamesh
sentou-se e pediu que os escribas registrassem sua odisséia. "Deixe
que o país conheça aquele que viu o Túnel; aquele que conhece as
águas vai contar toda a história." E foi com essas palavras
introdutórias que o Epopéia de Gilgamesh foi registrado, para ser
lido, traduzido, reescrito, ilustrado e lido novamente por gerações
posteriores - para que todos saibam que o homem, ainda que dois
terços divino, não pode mudar seu destino.
O Epopéia de Gilgamesh está repleto de marcos geográficos que
realçam sua autenticidade e identificam os alvos daquela antiga
busca pela imortalidade.
Seu primeiro destino foi o Local de Aterrissagem, na Floresta de
Cedros, na Montanha dos Cedros. Só havia um local, em todo o
Oriente Médio, conhecido por seus cedros originais: o Líbano (cujo
emblema nacional, até hoje, é o cedro-do-líbano). O Líbano é
mencionado especificamente como a terra alcançada pelos dois
companheiros depois de dezessete dias de jornada, partindo de
Uruk. Em outro verso, descrevendo como a terra estremeceu
quando o foguete foi lançado, os picos em frente "Sirara e Líbano"
são descritos como "partindo-se". Na Bíblia (Salmos, 27), a
majestosa Voz do Senhor é descrita como o "quebrar dos cedros-do-Líbano" e fazendo "Líbano e Sirion saltar como um bezerro". Não
existe dúvida de que Sirion é o hebraico para Sirara no texto
mesopotâmico.
Existe também pouca dúvida de que o Local de Aterrissagem existiu
ali, pelo simples motivo de que a vasta plataforma ainda se encontra
no local até os dias de hoje. Localizada no lugar agora conhecido
como Baalbek, a imensa plataforma de pedra, ocupando uma área
de 4.600.000 metros quadrados, está apoiada em gigantescos
blocos de pedra que pesam mais de cem toneladas; três blocos de
pedra com mais de mil toneladas cada um, conhecidos como os
Trilithon (fig. 47), foram retirados de um vale a quilômetros de
distância, onde um dos blocos colossais ainda está em parte
enterrado no solo, sem que sua preparação tenha se concluído (fig.
48). Não existe equipamento moderno capaz de levantar tamanho
peso; ainda assim, antigamente" alguém" - o folclore local diz" os
gigantes" - esculpiu, levantou e colocou no lugar esses blocos de
pedra com enorme precisão.



Gregos e romanos seguiram os cananeus e outros ao considerar a
plataforma um local sagrado, sobre o qual construir e reconstruir
templos aos grandes deuses. Não temos fotografias a respeito do
que havia ali nos dias de Gilgamesh; mas sabemos o que foi erigido
ali depois, na época dos fenícios. Sabemos por causa da plataforma
com um cercado e um foguete espacial apoiado sobre um pedestal
de vigas transversais - conforme representado numa moeda de
Biblos (fig. 49).
O detalhe geográfico mais revelador, na segunda jornada de
Gilgamesh, é a extensão de água que ele alcançou depois de
atravessar as terras selvagens. É descrita como um "mar de leito
baixo", um mar que parecia "um vasto lago". Era chamado o mar
das" Águas da Morte". Todos esses detalhes identificam o mar como
o que ainda hoje é chamado de mar Morto, sem dúvida a extensão
de água salgada mais baixa do planeta.
A distância, Gilgamesh podia enxergar uma cidade que estava
"fechada", uma cidade cercada por uma parede, cujo templo era
dedicado a Sin. Tal cidade - uma das mais antigas do mundo ainda
se encontra lá; é conhecida como Jericó, que em hebraico (Yeriho)
significa "Cidade do Deus da Lua", que seria, de fato, Sin. A cidade
era famosa por suas muralhas, cujo desabar miraculoso é narrado
na Bíblia. (Poderíamos nos perguntar até que ponto a história bíblica
dos espiões de Josué, que se esconderam na estalagem de Bahab
em Jericó, reflete a breve estada de Gilgamesh na estalagem de
Siduri.) Tendo atravessado o mar Morto, Gilgamesh seguiu um
caminho que levava "na direção do Grande Mar". Esse termo é
também encontrado na Bíblia (Números 34, Josué I), e sem a menor
dúvida se refere ao Mediterrâneo. Gilgamesh, entretanto, não foi até
lá, mas parou na cidade chamada Itla na recensão hitita. Basean do-nos nas descobertas arqueológicas e na narrativa bíblica do Êxodo,
sabemos que Itla era o lugar que a Bíblia chamava de Cades-Barnea; tratava-se de uma antiga cidade, parada de caravanas, na
fronteira da restrita Quarta Região, na península do Sinai.
Só podemos especular se a montanha para a qual Gilgamesh se
dirigia, monte Mashu, ostentava um nome quase idêntico ao de
Moisés, Moshe em hebraico. A jornada subterrânea de Gilgamesh
no interior dessa montanha sagrada, durando doze horas-duplas,
possui um paralelo evidente com a descrição feita pela viagem do
faraó no Livro dos Mortos, durante doze horas-zonas. O faraó, assim
como Gilgamesh, pediu um Shem - um foguete - com o qual
pudesse subir para o céu e juntar-se aos deuses numa habitação
eterna. Como Gilgamesh antes dele, o faraó teve de atravessar uma
extensão de água com a ajuda de um Barqueiro Divino. Não há
dúvida de que tanto o rei sumério quanto o faraó egípcio tinham um
destino único, com a diferença de que pretendiam ir até lá de pontos
iniciais opostos. O destino era o Espaçoporto na península do Sinai,
onde ficavam os Shem, em seus silos subterrâneos (fig. 31).
Assim como em épocas antediluvianas (fig. 25), o Espaçoporto pós-diluviano (fig. 50) também estava ancorado nos picos do Ararat.
Porém com a planície da Mesopotâmia coberta de águas
enlameadas, o Espaçoporto foi mudado para o terreno firme da
península do Sinai. O Centro de Controle de Missão deslocou-se de
Nippur para onde Jerusalém está localizada atualmente. O novo
Corredor de Aterrissagem, ancorado ao final por duas montanhas
artificiais, as duas pirâmides de Gizé e os picos elevados ao sul do
Sinai, incorporavam a imensa plataforma antediluviana de Baalbek,
na Montanha dos Cedros.
Foi para a plataforma de Baalbek, na direção do Espaçoporto do
Sinai, que Gilgamesh viajou.
Gilgamesh na América
A familiaridade com a história épica de Gilgamesh na América do Sul
é uma faceta da evidência de contatos pré-históricos entre o Velho e
o Novo Mundo.
A marca registrada de tal familiaridade é a representação de
Gilgamesh lutando com os leões. Surpreendentemente, tais
representações - num continente que não possui leões - foram
encontradas nos Andes.
Uma concentração de tais representações em estelas de pedra foi
achada na área de Chavin de Huantar/Aija, ao norte do Peru, um
grande centro produtor de ouro na pré-história, onde outras
evidências (estatuetas, relevos e petróglifos) indicam a presença de
pessoas do Velho Mundo de 2.500 a.C. em diante; são similares às
representações hititas (fig. 45b).
Outra área em que tais representações proliferaram ficava próxima à
margem sul do lago Titicaca (agora na Bolívia), onde uma grande
metrópole cujos habitantes trabalhavam metal - Tiahuanacu -floresceu um dia. Fundada, em alguns relatos, antes de 4.000 a.C.
como centro processador de ouro e tornando-se depois de 2.500
a.C. a mais importante fonte de estanho do mundo antigo,
Tiahuanacu foi o centro onde o bronze apareceu na América do Sul.
Entre os artefatos descobertos havia representações, em bronze, de
Gilgamesh lutando com animais que lembram leões (“c” abaixo) - um
trabalho de arte com certeza inspirado nos fabricantes de bronze, os
cassitas, do Luristão (fig. 45c).
8
ENCONTROS NA GIGUNU
Mais de 2.500 anos depois da busca épica da imortalidade por
Gilgamesh, outro rei legendário - Alexandre da Macedônia - imitou o
rei sumério e os faraós egípcios da mesma forma. Nesse caso,
também, a reivindicação de imortalidade era baseada no fato de que
ele era parcialmente divino. A evidência sugere que Alexandre,
devido a seu professor, Aristóteles, estava consciente de buscas
antigas; o que ele não sabia, entretanto, era que a raiz de sua
crença específica na divindade de seus pais vinha diretamente da
GIPAR de Uruk ("Casa da Hora Noturna") e da sua GIGUNU
("Câmara dos Prazeres Noturnos").
Logo depois que Alexandre foi coroado rei da Macedônia em
seguida ao assassinado Filipe II, ele foi até Delfos, na Grécia, para
consultar seu afamado oráculo. Com a idade de vinte anos na
época, ficou chocado ao ouvir a primeira de várias profecias
predizendo-lhe fama e uma vida muito curta. As profecias serviram
para aumentar sua crença nos rumores que circulavam na Corte da
Macedônia, segundo os quais seu pai não seria Filipe II, e sim um
faraó egípcio de nome Nectanábis, que visitara a Macedônia e
seduzira em segredo Olímpia, a mãe de Alexandre. Nectanábis era
um mestre em magia e adivinhação, e, segundo rumores, seria a
encarnação do deus egípcio Amon, que se teria disfarçado de
humano para produzir o futuro conquistador do mundo.
Assim que Alexandre chegou ao Egito (em 332 a.C.), depois de
prestar homenagem aos sacerdotes e deuses egípcios, dirigiu-se
para o oásis de Sivah, no deserto ocidental, local de um afamado
oráculo de Amon. Lá, conforme relatam os historiadores que o
acompanhavam, o próprio deus confirmou a origem divina de
Alexandre. Depois que ele foi confirmado como filho de um deus, os
sacerdotes proclamaram-no um faraó divino. Porém, em vez de
querer morrer e atingir a imortalidade no Pós-Vida, Alexandre partiu
numa busca imediata para encontrar as afamadas Águas da Vida.
Sua busca o levou a locais subterrâneos, repletos de mágica e
anjos, na península do Sinai, depois (sob as ordens de um Homem
Alado) para a Babilônia. Ao final, como o oráculo de Delfos
profetizara, ele morreu famoso, mas jovem.
Em sua busca pela imortalidade, Alexandre, deixando seus soldados
para trás, avançou até a Terra da Escuridão, para encontrar lá uma
montanha chamada Mushas. No fim do deserto ele deixou seus
poucos companheiros e avançou sozinho. Viu e seguiu um "caminho
reto que não possuía parede, e não havia lugar alto ou baixo nele".
Caminhou por esse caminho durante doze dias e doze noites,
quando "percebeu o brilho de um anjo". À medida que se
aproximava, esse brilho tornou-se "um fogo flamejante", e Alexandre
percebeu que se encontrava na "montanha pela qual o mundo está
cercado".
Falando a Alexandre do fogo flamejante, o anjo o interrogou: "Quem
és, e por que motivo estais aqui, ó mortal?", e imaginou como
Alexandre havia "penetrado nas trevas, onde nenhum outro mortal
conseguira entrar". Alexandre explicou que o próprio Deus o guiara e
lhe dera forças para chegar àqu ele lugar, "que era o Paraíso",
Porém o anjo lhe disse que a Água da Vida ficava em outro lugar; "e
quem a tomasse, mesmo uma única gota, jamais morreria".
Para encontrar o "Poço da Água da Vida", Alexandre precisava de
um sábio que conhecesse tais segredos, e, depois de muito
procurar, tal homem foi encontrado. Aventuras mágicas e
miraculosas aconteceram no caminho. Para estar certo de que o
poço era o certo, os dois levavam um peixe salgado e seco. Certa
noite, ao alcançar uma fonte subterrânea, enquanto Alexandre
estava dormindo, o guia testou a água, e o peixe retornou à vida.
Em seguida ele mesmo imergiu nas águas, tornando-se daí em
diante EI Khidr - "O Sempre Verde" -, Aquele Que É Jovem para
Sempre, das lendas árabes. Pela manhã Alexandre apressou-se até
o local indicado. Era "incrustado de safiras, esmeraldas e jacintos".
Mas havia dois pássaros com feições humanas bloqueando o
caminho. "A terra sobre a qual estás pertence a Deus apenas",
disseram eles. Percebendo que ele não podia mudar seu destino,
Alexandre desistiu da busca e, em vez disso, começou a construir
cidades com seu nome, uma forma de ser lembrado para sempre.
Os numerosos detalhes da busca de Alexandre são virtualmente
idênticos aos de Gilgamesh - o lugar, o nome da montanha, os doze
períodos da jornada subterrânea, os guardas alados, o interrogatório
pelos guardas, a imersão no poço das Águas da Vida - indicam
familiaridade com a Epopéia de Gilgamesh; não apenas com o
trabalho literário (que sobreviveu até nossos tempos) mas também
com o próprio motivo da busca - a divindade parcial, a descendência
divina de Gilgamesh.
Realmente, mesmo as reivindicações por parte dos faraós egípcios
de que seus pais eram deuses, ou pelo menos de terem sido
amamentados por uma deusa, podem ser traçados até a época e
lugar de Gilgamesh; pois foi em Uruk que o costume e a tradição se
iniciaram com a dinastia à qual pertencia Gilgamesh.
Os reinados se iniciaram em Uruk, podemos lembrar, quando a
futura cidade consistia quase unicamente no terreno sagrado. Lá,
segundo as Listas de Reis Sumérios, "Meskiag-gasher, o filho do
deus Utu, se tornou sacerdote e também rei". Lá, depois dos
reinados de Enmerkar e Lugalbanda e de um reinado intermediário
pelo deus Dumuzi, Gilgamesh subiu ao trono; e ele, conforme
anunciado, era filho da deusa Ninsun.
Essas são revelações surpreendentes, especialmente à luz do
episódio da tomada de esposas humanas por parte dos Nefilim, que
fez com que Enlil procurasse a aniquilação do homem. A
humanidade, os Anunnaki e a própria Terra demoraram milênios
para se recuperar do Dilúvio. Foram necessários milênios para que
os Anunnaki, passo a passo, ensinassem ao homem seu
conhecimento, a tecnologia, a domesticação e, depois, a civilização
em si. Levou a maior parte de um milênio para desenvolver, em
Kish, a instituição do reinado. Inesperadamente, a realeza foi
transferida para Uruk, e a I dinastia se iniciou com o filho de um deus
(Utu/Shamash) e uma fêmea humana...
Enquanto as escapadas sexuais de outras divindades (algumas já
mencionadas, outras ainda não) foram registradas em textos
antigos, as de Utu/Shamash não parecem estar entre elas. Sua
esposa oficial e consorte era a deusa Aia (fig. 51), e os textos não
descrevem infidelidades cometidas. Ainda assim encontramos um
filho dele com uma fêmea humana, um filho cujo nome, funções e
localização são perfeitamente definidos. O que acontecia? Teriam os
tabus sido removidos ou simplesmente ignorados pela nova
geração?
Ainda mais peculiar seria o caso de Ninsun, mãe de Gilgamesh (fig.
52). A própria genealogia e registro de seus filhos são ilustrativos da
mistura de gerações que ocorria entre os Anunnaki – talvez como
resultado do fato de que alguns retiveram a longevidade adquirida
em Nibiru (contada em Sars), outros (as primeiras gerações na
Terra) foram parcialmente afetados pelos ciclos terrestres, menores,
e ainda outros (a terceira e quarta gerações) eram mais terrestres do
que Anunnaki.
Anu, que além de sua esposa oficial, Antu, possuía várias con-cubinas e (pelo menos numa oportunidade) aventurou-se ainda mais
longe, teve corno resultado um grande número de filhos oficiais e
não-oficiais; até agora encontramos Enki, Enlil e Ninmah, todos os
três meio-irmãos entre si (nascidos de mães diferentes). Acontece
que Anu possuía ainda outra filha, mais nova, chamada Bau, que se
tornou esposa de Ninurta, filho de Enlil com sua meio-irmã Ninmah.
Tanto quanto se pode julgar a partir dos textos, Ninurta e Bau (fig.
53) tiveram um casamento imaculado, sem infidelidades. Foi um
casamento abençoado com dois filhos e sete filhas, entre as quais
Ninsun ("Senhora Vaca Selvagem") era a mais conhecida. Essa
genealogia a tornou neta de Anu assim como neta do filho dele, Enlil
(é bom mencionar que Enlil gerou Ninurta em Nibiru; depois que Enlil
casou com Ninlil na Terra, foi escrupulosamente monógamo).
Não menos confusa foi a formação dos filhos de Ninsun. Por outro
lado, ela era mãe de Gilgamesh. A Lista de Reis Sumérios afirma
que o pai dele era o sumo sacerdote do terreno sagrado de Uruk; a
Epopéia de Gilgamesh e outros textos de narrativas em relação a ele
afirmam que seu pai era Lugalbanda, o terceiro dirigente de Uruk.
Como o primeiro dirigente, Meskiagasher, era sumo sacerdote e rei,
a presunção é de que Lugalbanda também tivesse os dois títulos. A
conclusão é de que Ninsun, oficialmente casada ou não com o
mortal Lugalbanda, manteve relações com ele e teve um filho.
Por outro lado, Ninsun também teve relações sexuais com deuses,
ou pelo menos com um deles. Segundo as Listas de Reis Sumérios,
o jovem deus Dumuzi reinou brevemente em Uruk, entre Lugalbanda
e Gilgamesh. A lista reconhece a divindade de Dumuzi, pois era filho
de Enki. O que as Listas não mencionam, mas ficou atestado pelos
vários textos literários que tratam da vida, amores e morte de
Dumuzi, é que sua mãe era a deusa Ninsun - a mesma deusa que
era a mãe de Gilgamesh.
Ninsun teve, assim, relações sexuais com ambos, deuses (Enki) e
homens (Lugalbanda). Nessa nova fase dos Encontros Divinos, ela
imitava não apenas Utu/Shamash (cuja esposa era a deusa Aia,
porém teve um filho com uma mulher mortal) mas também Inana/
Ishtar, irmã gêmea de Utu/Shamash. O fato de que todos esses en -contros, de uma forma ou de outra, envolvessem Uruk não era
acidente; foi em Uruk que a GIGUNU - a "Câmara dos Prazeres
Noturnos" - estabeleceu-se na GIPAR.
Ao contrário de Utu/Shamash e Ninsun, Inana/lshtar não é
mencionada nas Listas de Reis Sumérios em conexão com Uruk; na
Epopéia de Gilgamesh, porém, ela se junta aos dois como atriz
divina da saga. De certa forma, Inana pertencia à história mais do
que eles, pois era a padroeira de Uruk, e foi por ela que o terreno
sagrado tomou-se uma grande cidade. Como ela conseguiu foi
descrito num texto conhecido como "Enki e Inana", a ser examinado
em breve; porém primeiro precisamos explicar como Inana tornou-se
associada a Uruk - na verdade, como ela começou a ser chamada
de "Inana" .
Quando o reinado foi transferido de Kish para Uruk, no começo do III
milênio a.C., Uruk consistia apenas em um terreno sagrado, o
Kullab. Tal terreno sagrado existia ali havia quase mil anos, já que
fora originariamente construído para acomodar Anu e Antu em sua
visita oficial à Terra. Estelas encontradas nas ruínas de Uruk, cópias
de textos mais antigos, registram a pompa e circunstância do
evento, reproduzindo detalhes suficientes para seguir os ritos e as
cerimônias cuidadosamente descritos, assim como a natureza do
terreno sagrado e suas várias construções. Além dos templos e
santuários, cada um com suas funções específicas, o local incluía
quartos especiais para que os visitantes divinos dormissem. Os dois,
entretanto, não parecem ter partilhado o mesmo quarto.
Uma vez que o banquete e as outras cerimônias terminaram, depois
que a ceia foi servida os dois visitantes divinos foram conduzidos
pelo pátio principal até dois aposentos separados. Antu foi levada
para a "Casa da Cama Dourada", onde as "Divinas Filhas de Anu e
as Divinas Filhas de Uruk" mantiveram vigilância até o nascer do sol.
Anu foi acompanhado pelos deuses até seu próprio aposento, uma
casa conhecida como a Gipar; sabemos por um número de textos
acadianos e sumérios que era um local" tabu", ou um harém (pois
esse é o significado da palavra árabe harim) - o lugar onde a Entu,
uma virgem escolhida, aguardava o deus.
Em épocas posteriores, a Entu era uma filha do rei, e seu papel
como Hierodula, "donzela sagrada", era considerado uma grande
honra. No caso de Anu e sua visita ao Kullab, não era uma fêmea
mortal a escolhida para esperá-lo na Gipar; tratava-se de sua própria
bisneta, Irninni. Passaram a noite na câmara fechada no interior da
Gipar, a Gigunu ("Câmara dos Prazeres Noturnos"). E, depois disso,
Irninni recebeu o nome de IN.ANNA - "A Amada de Anu" .
Apesar de atualmente podermos encarar o encontro como um caso
de incesto, tal não era o enfoque naquela época. Os hinos sumérios
exaltam o fato de que Inana era a amada de Anu, sua bela
Hierodula. Um Hino a Ishtar, escrito numa estela de Uruk (estela
AO.4479, no Museu do Louvre), descreve Ishtar "vestida de amor,
emplumada de sedução, uma deusa de alegria", "com Anu, juntos
ocupando a Gigunu fechada, a Câmara da Alegria, enquanto outros
deuses ficavam em frente". De fato, outro texto (AO.6458) revela que
a própria idéia de escolher Irninni para a honra de dormir com Anu
não foi idéia do grande deus - mas da própria Ishtar. Foi por meio de
outros deuses que ela se apresentou a Anu, e foram eles que
persuadiram Anu a aceitar.
Como Anu (e Antu) era apenas visitante, não havia necessidade de
aposentos permanentes no templo E.ANNA; dessa forma, como
recompensa, Anu designou o uso do templo para Inana.
Depois que o Senhor garantiu
um grande destino para a filha de Sin,
o templo Eanna ele lhe confiou
como presente de noivado.
Com esse presente do templo Eanna veio também a Gipar, "um local
de madeiras fragrantes" e sua Câmara dos Prazeres Noturnos", a
Gigunu; com o tempo, Inana fez bom uso do local.
Porém um território sagrado não era uma cidade, e as Listas de Reis
Sumérios registram que foi apenas o filho do primeiro rei-sacerdote,
Enmerkar, "quem construiu Uruk". Foi então que Inana decidiu que
se Uruk era seu centro de culto, devia ser um centro completo de
civilização. Para conseguir isso, ela precisava dos ME.
Os ME eram objetos portáteis que continham toda a sabedoria e
outros aspectos de uma civilização avançada. No estado atual da
tecnologia moderna, se pode encará-los como uma espécie de
discos de computador ou chips de memória que, a despeito de seu
tamanho reduzido, contêm vastas quantidades de informações. Em
poucas décadas, com mais tecnologia avançada, poderemos
compará-los a outra maravilhosa fonte de registro de informações
(ainda a ser inventada). Quando Nippur se tornou (depois do Dilú vio)
uma Cidade de Homens, Enlil queixou-se a Anu de que Enki estava
guardando todos os ME para ele mesmo, usando-os apenas para
melhorar Eridu e seu esconderijo no Abzu; Enki foi forçado a
partilhar os ME com Enlil. Agora que Inana queria tornar Uruk um
grande centro urbano, ela partiu para a habitação de Enki com o
intuito de conseguir alguns importantes ME com seu tio-avô.
Um texto conhecido como "Inana e Enki", que possui o subtítulo de
"A Transferência das Artes da Civilização de Eridu para Erech",
descreve corno Inana viajou em seu "Barco do Céu" até o Abzu, no
sudeste africano, onde Enki havia guardado em segredo os ME.
Percebendo que Inana viria até ele desacompanhada - "a donzela,
sozinha, dirigiu seu passo para o Abzu" -, Enki ordenou que seu
camareiro preparasse um banquete, com muito vinho de tâmaras.
Depois que Inana e Enki comeram e o coração dele se tornou leve
por efeito do vinho, Inana tocou no assunto dos ME.
Alegre com a bebida, Enki presenteou a ela alguns ME, que
tornariam Uruk um trono para a realeza; o ME para "Domínio", o ME
para "a nobre e duradoura tiara", o ME para o "trono do Reinado", e
"a alegre Inana os apanhou" - mas pediu mais. À medida que Inana
usava seus encantos em seu anfitrião mais velho, Enki lhe fez uma
segunda oferta: deu-lhe"o nobre cetro e o cajado, o nobre santuário
e o Governo justo". A "alegre Inana os apanhou também". Enquanto
o banquete e as bebidas continuavam, Enki ofereceu outros sete ME
que continham as funções e atributos de uma Senhora Divina - o
status de uma Grande Deusa: um templo e seus rituais, sacerdotes
e atendentes; justiça e tribunais; música e artes; a arte de trabalhar
pedras e madeira; metalurgia, couro e tecelagem; alfabetização e
matemática; por último e não o menos importante, armas e a arte da
guerra.
Segurando em suas mãos tantas coisas essenciais para urna
civilização de progresso, Inana saiu sem ser notada e partiu em seu
Barco do Céu, de volta para Uruk. Quando Enki ficou sóbrio e
percebeu o que fizera, ordenou a seu camareiro que perseguisse
Inana em sua "Grande Câmara Celestial" e recuperasse os ME. Ele
a alcançou em Eridu, na Suméria. Mas Inana entregara os ME a seu
piloto, que voou para Uruk enquanto Inana discutia com o camareiro
em Eridu. As pessoas de Uruk relembram corno sua cidade se
tornou um centro de reinado e civilização num hino intitulad o
Senhora dos ME, lido escrupulosamente pela congregação em
ocasiões festivas:
Senhora dos ME,
Rainha resplandecente.
Justa, vestida de brilho,
Amada do Céu e da Terra,
Hierodula de Anu,
Usando grandes adorações.
Apropriada para a nobre tiara,
Adequada para o sacerdócio.
Conseguiu os sete ME,
Em sua mão ela os segura.
Senhora dos grandes ME,
Deles ela é guardiã.
Se Enki conseguiu seduzir Inana, não fica claro (uma presunção que
não podia ajudar a resolver o enigma de quem é a mãe de
Ningishzidda, filho de Enki). O que parece certo é que, como
resultado das experiências com Anu e Enki, a feminilidade de Inana
foi despertada. Como amada de Anu, ela foi eleita patrona da cidade
de Arata, na Terceira Região (a civilização do vale do Indo). Um dos
propósitos de buscar os ME para Uruk seria fazer de Uruk um
grande centro para que Inana pudesse reinar onde realmente
importava, não na distante Arata. Vários textos foram encontrados e
que lidam com a luta de vontades entre o novo rei de Uruk,
Enmerkar ("Aquele que construiu Uruk"), e o rei de Arata; o prêmio
não era simplesmente onde Inana passaria seu tempo - mas sim
onde ela se envolveria em fazer amor com o rei.
Numa das passagens do texto chamado Enmerkar e o Senhor de
Arata, este último, certo de ser o favorito de Inana, provocava
Enmerkar:
Ele vai viver com Inana
(separado) por uma parede;
Eu vou viver com Inana
na casa de lápis-lazúli, em Arata.
Ele vai olhar para Inana apenas em sonho;
eu vou deitar com ela docemente numa cama ornada.
Parece que essas declarações provocaram um franzir de
sobrancelha por parte dos pais de Inana, e ainda mais: por parte de
seu irmão, Utu/Shamash. Quando ele a repreendeu, Inana
respondeu perguntando quem iria cuidar de suas necessidades
sexuais:
E quanto à minha vulva...
Quem irá arar o campo para mim?
Minha vulva, um campo irrigado,
quem irá colocar o boi ali?
Ao que Utu respondeu: "Ó donzela celeste, Dumuzi, que possui a
semente divina, ele irá arar seu campo", disse ele.
DUMUZI ("Filho que é Vida"), um deus-pastor cujos domínios se
localizavam nas terras africanas do clã de Enki, era, como
observamos acima, filho de Ninsun e, assim, parte enlilita. Se havia
uma parte oculta na união proposta, Utu não perdeu tempo em
mencioná-la; em vez disso realçou os méritos de casar com um
pastor: "O creme dele é bom, o leite é brilhante". Mas Inana pensava
no deus-fazendeiro como marido: "Eu, a donzela, casarei com um
fazendeiro... O fazendeiro cultiva muitas plantas, o fazendeiro cultiva
grãos", anunciou ela.
Ao final, a genealogia e os dividendos da paz prevaleceram, e Inana
e Dumuzi ficaram noivos.
Os textos poéticos que lidam com a corte, o amor e o casamento de
Inana e Dumuzi - textos dos quais foi desenterrada uma boa coleção
- são algumas das melhores canções de amor de todos os tempos,
explícitas porém carinhosas. Quando, depois da aprovação dos pais
de ambos os lado, o casamento foi proclamado, Inana esperou a
consumação do casamento na Gipar em Uruk. Antecipando o
momento, Inana, "dançando e cantando, enviou uma mensagem ao
pai" a respeito da Gipar:
Em minha casa, minha casa-Gipar,
minha cama frutífera será preparada.
Com plantas da cor do lápis-lazúli
será coberta.
Levarei lá meu amado;
ele irá colocar sua mão sobre minha mão,
ele irá colocar seu coração sobre meu coração,
em minha casa, minha casa-Gipar,
deixe que ele "faça demorado" para mim.
O grande amor entre os representantes de clãs em guerra – uma -neta de Enlil, um filho de Enki - significava, sem dúvida, aumentar a
paz entre os dois adversários, mas não durou muito. Marduk, o
primogênito de Enki e reclamante da supremacia em todas as
regiões, se opôs à união desde o princípio. Quando Dumuzi retornou
ao seu domínio pastoral na África, prometendo a Ishtar fazê-la
rainha do Egito, Inana gostou, porém Marduk ficou e nraivecido.
Usando uma indiscrição de Dumuzi como pretexto, Marduk enviou -"xerifes" para prender Dumuzi e levá-lo a julgamento. Porém -Dumuzi, tendo previsto sua morte num sonho premonitório, tentou
escapar e esconder-se. Na perseguição que se seguiu, Dumuzi foi
morto acidentalmente.
Quando as notícias alcançaram Inana, ela começou a lamentar-se.
O choque e o pesar pelo acontecimento foram tão grandes entre as
pessoas do povo - para quem esse caso tipo Romeu e Julieta veio a
simbolizar o amor e suas alegrias - que o aniversário da morte de
Dumuzi se tornou um dia de lamentações por muito tempo depois.
Quase 2 mil anos depois do evento, o profeta Ezequiel ficou
chocado ao ver as mulheres de Israel sentadas e "chorando por
Tamuz" (nome hebraico de Dumuzi).
Inana levou muito tempo para superar a tristeza; em sua procu ra de
consolo, voltou-se para a Gipar e sua câmara Gigunu, como o local
onde podia esquecer seu amor perdido. Lá ela aperfeiçoou os ritos
do sexo para uma nova forma de Encontro Divino. Eles se tornaram
conhecidos como o ritos do Casamento Sagrado.
Quando Ishtar disse a Gilgamesh, "venha, meu amante", ele recusou
enumerando os nomes dos amantes anteriores que ela usara e
descartara. Começou depois da morte de Dumuzi/Tamuz, "o amante
de sua juventude, lembrou Gilgamesh. Por ele, você ordenou luto
ano após ano". O texto implica que, na comemoração desses
aniversários, Ishtar convidava homens para passar a noite com ela.
"Venha, vamos aproveitar seu vigor! Estenda a mão e toque minha
vulva!", convidava ela. Porém Gilgamesh perguntou: “A qual deles
você amou para sempre?". Em seguida mencionou alguns dos
amantes dispensados e seus destinos: um deles, pastor, teve sua
“asa” quebrada depois de ter passado a noite com ela. Outro, forte
como um leão, foi enterrado num poço. Um terceiro foi encantado e
transformou-se num lobo; outro, ainda, "o jardineiro de seu pai", foi
procurado e transformado em sapo. "E quanto a mim?", indagou
Gilgamesh. "Você vai me amar e me tratar como eles." Não era de
estranhar que, com tal reputação, Ishtar fosse representada com
mais freqüência, por artistas da Antiguidade, como uma beldade
nua, provocando e convidando homens a vê-la (fig. 54).
Entre tais aniversários agridoces, Ishtar passava seu tempo
percorrendo os céus da Terra em sua Câmara Celeste, e assim é
representada como uma deusa alada. Conforme mencionamos, ela
era a deusa de Arata, no vale do Indo, e voava periodicamente para
lá.
Foi num desses vôos aos domínios distantes que Inana/lshtar teve
um encontro sexual ao contrário: ela foi estuprada por um mortal;
nessa inversão de papéis, o homem que fez isso viveu para contar a
história.
Ele é conhecido nos registros históricos como Sargão da Acádia, o
fundador de uma nova dinastia que se instalou numa nova c apital
(geralmente chamada Acádia). Em sua autobiografia, um texto em
linguagem acadiana conhecido pelos estudiosos como A Lenda de
Sargão, o rei descreve as circunstâncias de seu nascimento em
termos que nos lembram a história de Moisés: "Minha mãe era uma
alta sacerdotisa; não conheci meu pai. Minha mãe, a alta sacerdotisa
que me concebeu, fez isso em silêncio. Ela me colocou numa cesta
de juncos, com a tampa selada por betume. Ela me colocou no rio;
não afundou (comigo). O rio me aceitou, me levou até Aki, o
irrigador. Aki, o irrigador, me ergueu quando retirava água. Aki, o
irrigador, me tratou e criou-me como filho. Aki, o irrigador, me indicou
como seu jardineiro".

CONTINUA.....

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