sexta-feira, agosto 17, 2012

Coleção Zecharia Sitchin Livro 7 / Começo Do Tempo - 1º PARTE


Zecharia Sitchin

O Começo do Tempo

TRADUÇÃO

Luís Fernando Martins Esteves

2004

EDITORA BEST SELLER

Título original: When Time Began

Copyright 1993 by Zecharia Sitchin

Sumário

Prefácio

1 Os ciclos do tempo

2 Um computador feito de pedra

3 Os templos que olhavam para o céu

4 Dur.an.ki - a "ligação Céu-Terra"

5 Guardiões de Segredos

6 Os arquitetos divinos

7 Um Stonehenge no Eufrates

8 Histórias do calendário

9 Onde o sol também nasce

10 Nas pegadas deles

11 Exílios numa Terra em mudança

12 A Era do Carneiro

13 Conseqüências

Prefácio

Desde os tempos antigos, os terráqueos têm erguido seus olhos para o céu. Intimidados e ao mesmo tempo fascinados, eles aprenderam os Caminhos do Céu: as posições das estrelas, os ciclos da Lua e do Sol, a rotação de uma Terra inclinada. Como tudo isso começou, como isso irá terminar - e o que irá acontecer no meio?

O Céu e a Terra se encontram no horizonte. Por milênios os terráqueos olharam as estrelas da noite dar lugar aos raios de Sol naquele lugar de encontro, e escolheram como um ponto de referência o momento em que o dia e a noite tinham a mesma duração, o dia do equinócio. O homem, auxiliado pelo calendário, tem contado o tempo terrestre a partir desse ponto.

Para identificar os céus estrelados, os firmamentos foram divididos em doze partes, as doze casas do zodíaco. Mas conforme o milênio se passou as "estrelas fixas" não pareciam fixas de forma alguma, e o dia do equinócio, o dia do Ano Novo, parecia ter passado de uma casa zodiacal para outra; e ao tempo terrestre foi adicionado o tempo celeste - o começo de uma Nova Era.

À medida que chegamos ao limiar de uma Nova Era, quando o nascer do sol do dia do equinócio de primavera irá ocorrer na casa zodiacal de Aquário, em vez de fazê-lo na casa zodiacal de Peixes, como ocorreu nos 2.000 últimos anos, muitos se perguntam o que a mudança irá anunciar: bem ou mal, um novo começo ou um fim - ou nenhuma mudança?

Para entender o futuro devemos examinar o passado; porque desde que a raça humana começou a contar o tempo terrestre, ela já experimentou a medida do tempo celeste - a chegada de Novas Eras. O que precedeu uma Nova Era e o que a ela sucedeu guardam grandes lições para nossa própria situação atual no curso do tempo.

1

Os Ciclos do Tempo

Conta-se que perguntaram a santo Agostinho, bispo da Cartago romana (354-430 d.C.), o maior pensador da Igreja Cristã nos primeiros séculos e responsável por fundir a religião do Novo Testamento com a tradição platônica da filosofia grega: "O que é o tempo?" Sua resposta foi: "Se ninguém me perguntar, sei o que é; se eu quiser explicar o que é a quem pergunta, não sei mais".

O tempo é essencial à Terra e a tudo o que está sobre ela, assim como o é a cada um de nós como indivíduos; pois, como sabemos por meio de nossa própria experiência e observações, o que nos separa do momento em que nascemos e do momento em que paramos de viver é o TEMPO.

Embora não saibamos o que é o Tempo, encontramos formas de medi-lo. Contamos nosso tempo de vida em anos, o que - se pensarmos bem - não deixa de ser outra forma de dizer "órbitas", pois isso é o que significa um "ano" na Terra: o tempo que nosso planeta demora para completar uma órbita ao redor de nossa estrela, o Sol. Não sabemos o que é o tempo, mas a forma como o medimos nos faz pensar: viveríamos mais se nosso ciclo de vida fosse diferente, se morássemos em outro planeta cujo "ano" fosse mais longo? Seríamos "imortais" se vivêssemos num "planeta de milhões de anos" - como, na verdade, os faraós egípcios acreditavam que seria, num pós-vida eterno, uma vez que se juntassem aos deuses nesse "planeta de milhões de anos"?

Na verdade, existem outros planetas "lá fora" e, mais que isso, planetas em cuja superfície a vida conforme a conhecemos pode ter se desenvolvido. Seria nosso sistema planetário único, a vida na Terra também única, ficando a humanidade sozinha, ou os faraós sabiam do que falavam em seus Textos das Pirâmides?

"Olha para o alto e conta as estrelas", disse Iavé para Abraão quando fizeram a aliança. O homem tem olhado para o céu desde tempos imemoriais perguntando-se se existem outros como nós no espaço, em outras terras. A lógica e a probabilidade matemática determinam uma resposta afirmativa; porém foi somente em 1991 que os astrônomos, pela primeira vez, conforme destacado, encontraram outros planetas orbitando outros sóis pelo universo.

A primeira descoberta, em julho de 1991, revelou não ser totalmente correta. Foi um anúncio feito por um grupo de astrônomos ingleses com base num período de observações de cinco anos, que os levou a concluir que uma estrela de rápida rotação, chamada Pulsar 1829-10, possuía um "companheiro do tamanho de um planeta", cerca de dez vezes o tamanho da Terra. Os pulsares são tidos como centros de estrelas extraordinariamente densas, que por um motivo ou outro regrediram. Girando muito rápido, eles emitem pulsos de rádio em fluxos regulares, muitas vezes por segundo. Tais pulsos podem ser monitorados por radiotelescópios; ao detectar uma flutuação cíclica, os astrônomos supuseram que um planeta orbitando a Pulsar 1829-10 uma vez a cada seis meses poderia explicar essas flutuações.

Vários meses depois, os astrônomos ingleses admitiram que seus cálculos tinham sido imprecisos e portanto não poderiam apoiar sua conclusão de que um pulsar, a 30.000 anos-luz de distância, possuísse um satélite planetário. A essa altura, entretanto, um grupo americano havia feito uma descoberta similar em relação a um pulsar bem mais próximo, identificado como PSR 1257 + 12 - um sol decaído a apenas 1.300 anos-luz de nós. Ele explodiu, de acordo com as estimativas dos astrônomos, há apenas um bilhão de anos; definitivamente possuía dois, talvez três planetas orbitando ao redor. Os dois planetas tidos como certos orbitam a uma distância equivalente a Mercúrio de nosso Sol, enquanto o terceiro possível orbita a uma distância como a da nossa Terra para o Sol.

"A descoberta despertou a especulação de que os sistemas planetários fossem não apenas relativamente comuns mas que também pudessem ocorrer sob diversas circunstâncias", escreveu John Noble Wilford no New York Times de 9 de janeiro de 1992. "Cientistas declaram que seria altamente improvável que planetas orbitando pulsares pudessem ser favoráveis à vida; porém as descobertas encorajaram os astrônomos, que neste outono irão começar uma varredura sistemática dos céus para descobrir sinais de inteligência extraterrestre”.

Os faraós, então, tinham razão?

Bem antes dos faraós e dos Textos das Pirâmides, uma civilização antiga - a primeira conhecida pelo homem - possuía uma cosmogonia avançada. Seis mil anos atrás, na antiga Suméria, o que os astrônomos descobriram em 1990 já era conhecido; não apenas a verdadeira natureza e composição de nosso sistema solar (incluindo os planetas mais distantes), porém também a noção de que existem outros sistemas solares no universo, que suas estrelas ("sóis") podem implodir ou explodir, que seus planetas podem ser tirados de órbita - que a vida, na verdade, pode assim ser carregada de um sistema estelar para outro. Era uma cosmogonia detalhada colocada por escrito.

Um texto longo escrito em sete tábuas, nos alcançou principalmente em sua posterior versão babilônica. Chamado de a Epopéia da Criação e conhecido por suas palavras iniciais, Enuma Elish, era lido publicamente durante as festividades do Ano Novo, que se iniciavam no primeiro dia do mês de Nissan, o qual coincidia com o primeiro dia da primavera.

Esboçando o processo pelo qual nosso próprio Sistema Solar começou a existir, o longo texto descreve como o Sol ("Apsu") e seu mensageiro ("Mummu") foram primeiro encontrados por um planeta antigo chamado Tiamat; como o par de planetas Vênus e Marte ("Lahamu e Lahmu") aglutinados entre o Sol e Tiamat, seguidos por outro par, além de Tiamat - Júpiter e Saturno ("Kishar" e "Anshar") e Urano e Netuno ("Anu" e "Nudimud"), os dois que permaneceram desconhecidos da astronomia moderna até 1781 e 1846 respectivamente - foram descritos pelos sumérios milênios atrás. Enquanto aqueles recém-criados "deuses celestes" empurravam e puxavam uns aos outros, alguns desenvolveram satélites - luas. Tiamat, no meio daquela instável família planetária, desenvolveu onze deles, sendo que um, "Kingu", ficou tão grande que começou a assumir os aspectos de um "deus celeste", um planeta por si. Astrônomos modernos permaneceram totalmente ignorantes quanto à possibilidade de um planeta possuir várias luas até que Galileu descobriu as quatro maiores luas de Júpiter, em 1609, com a ajuda do telescópio; contudo, os sumérios estavam conscientes do fenômeno milênios antes.

Naquele instável sistema solar, de acordo com a milenar Epopéia da Criação, pareceu surgir um invasor do espaço exterior: outro planeta. Um planeta que não nasceu com a família de Apsu, mas que pertencera à família de alguma outra estrela e fora atirado para o espaço. Milênios antes dos modernos astrônomos descobrirem pulsares e estrelas que implodiam, a cosmogonia suméria já falava de outros sistemas planetários e de estrelas que implodiam ou explodiam, e expulsavam seus planetas. Assim, o Enuma Elish relata que um desses planetas atingiu os limites de nosso Sistema Solar e começou a ser atraído para o centro.




À medida que passava por outros planetas, provocou mudanças responsáveis por vários enigmas que ainda espantam a astronomia moderna - tal como a causa para a inclinação do eixo de Urano para um dos lados, ou a órbita retrógrada de Tritão, a maior lua de Netuno, ou o que colocou Plutão para fora de sua órbita como satélite, transformando-o num planeta com uma órbita estranha. Quanto mais o invasor era atraído para o centro do Sistema Solar, mais ele era forçado a um curso de colisão com Tiamat, resultando numa "Batalha Celeste". Na série de colisões, com os satélites do invasor chocando-se repetidamente com Tiamat, o planeta mais velho foi partido em dois. Uma das metades foi transformada numa nuvem de pedaços pequenos e tornou-se o Cinturão de Asteróides (entre Marte e Júpiter), dando origem a vários cometas; a outra metade, quase intacta, foi atirada a uma nova órbita e transformou-se no planeta que chamamos de Terra ("Ki", em sumério), capturando em sua órbita o maior satélite de Tiamat, que se tornou nossa Lua. O próprio invasor foi capturado em órbita permanente ao redor do Sol, passando a ser o décimo segundo membro de nosso Sistema Solar (Sol, Lua e dez planetas). Os sumérios o chamaram de Nibiru­ - "Planeta da Travessia". Os babilônios o rebatizaram de Marduk em honra a seu deus nacional. Foi durante a Batalha Celeste, esse antigo épico, que a "semente da vida", trazida de outro lugar por Nibiru, foi passada à Terra.














Filósofos e cientistas, contemplando o universo e oferecendo cosmogonias modernas, invariavelmente terminam discutindo o Tempo. Seria o Tempo uma dimensão em si mesmo, ou talvez a única dimensão verdadeira neste universo? Será que o Tempo só flui para a frente, ou pode correr para trás? O presente é uma parte do passado ou seria o começo do futuro? Além disso, o Tempo teve começo? Se assim foi, terá um fim? Se o universo sempre existiu, sem começo e portanto sem fim, seria o Tempo também sem começo nem fim - ou o universo teria tido um começo, talvez com o Big Bang propagado por tantos astrofísicos, caso no qual o Tempo teria começado quando o universo começou?

Aqueles que conceberam a cosmogonia dos sumérios, impressionantemente precisa, também acreditavam num Princípio (o que inexoravelmente leva a um Fim). Fica claro que conceberam 12 o Tempo como medida, o que estabelece o ritmo de uma saga celeste e o define como o marcador dela; pois a primeira palavra da antiga Epopéia da Criação, Enuma, significa Quando:

Enuma elish la nabu shamamu

Quando nas alturas o céu ainda não recebera um nome

Shaplitu amatum shuma la zacrat

E abaixo, a terra firme ainda não fora chamada

Devem ter sido necessárias grandes mentes científicas para conceber uma fase primordial em que "nada existia a não ser o Apsu primordial, o progenitor deles; Mummu e Tiamat" - quando a Terra ainda não existia; e para compreender que para a Terra e tudo sobre ela o "Big Bang" não aconteceu quando o universo ou mesmo o Sistema Solar foram criados, mas sim quando ocorreu o evento da Batalha Celeste. Foi então, naquele momento, que o Tempo começou para a Terra. No instante em que, separada da metade de Tiamat que se tornou o Cinturão de Asteróides ("céu"), a Terra foi atirada a sua nova órbita e pôde começar a contar os anos, os meses, os dias e as noites - para medir o Tempo.

Essa visão científica, central para a cosmogonia, religião e matemática antigas, foi expressa em muitos outros textos sumérios além da Epopéia da Criação. Um texto tratado pelos estudiosos como o "mito" de "Enki e a ordem do mundo", mas que é literalmente uma história autobiográfica de Enki, o deus sumério das ciências, descreve o momento quando o Tempo começa a contar para a Terra:

Nos dias de antanho,

quando o céu estava separado da Terra,

Nas noites de antanho,

quando o céu estava separado da Terra...

Outro texto, em palavras muitas vezes repetidas nas tábuas de argila sumérias, trazia a noção do início ao listar os muitos aspectos da evolução e civilização que ainda não haviam começado a existir antes do evento crucial. Antes disso, afirmava o texto, "o nome do Homem não fora chamado" e "coisas necessárias ainda não tinham sido trazidas para a existência". Todos esses fatos começaram a acontecer apenas "depois que o céu se afastou da Terra, depois que a Terra se separou do céu".

Não é surpresa que as mesmas noções sobre o início do tempo também orientassem as crenças egípcias, cujo desenvolvimento ocorreu depois dos sumérios. Lemos nos Textos da Pirâmide (§ 1466) as seguintes descrições do Início das Coisas:

Quando o céu ainda não entrara em existência,

Quando o homem ainda não entrara em existência,

Quando os deuses ainda não haviam nascido,

Quando a morte ainda não chegara à existência...

Essa sabedoria, universal em antiguidade e que deriva da cosmogonia suméria, ecoou no primeiro verso do Gênesis, o primeiro livro da Bíblia Hebraica:

No princípio

Criou Elohim o céu e a terra

E a terra estava sem forma e vazia

E as trevas cobriam a face de Tehom,

E o vento do Senhor pairava sobre as águas

Hoje está bem estabelecido que essa história bíblica da criação foi baseada nos textos mesopotâmicos, como o Enuma Elish, com Tehom significando Tiamat, o "vento" significando satélites em sumério, e o "céu" descrito como "Pulseira Feita a Martelo", o Cinturão de Asteróides. A Bíblia, entretanto, é mais clara em relação ao momento do Princípio no que se refere à Terra; a versão bíblica se utiliza da cosmogonia mesopotâmica apenas do ponto de vista da separação da Terra do Shama'im, a "Pulseira Feita a Martelo", como resultado da quebra de Tiamat.

Para a Terra, o Tempo começou com a Batalha Celeste.

A história mesopotâmica da criação se inicia com a formação de nosso Sistema Solar e o surgimento de Nibiru/Marduk numa época em que as órbitas planetárias ainda não estavam fixas ou estáveis. Termina atribuindo a Nibiru/Marduk a forma atual de nosso Sistema Solar, onde cada planeta ("deus celeste") recebe seu lugar definido ("estação"), caminho orbital ("destino") e rotação, até mesmo suas luas. Na verdade, como um grande planeta cuja órbita percorre a de todos os outros planetas, que "atravessa o céu e vigia as regiões", era considerado aquele que tinha estabilizado o Sistema Solar:

Ele estabeleceu a estação de Nibiru,

para determinar suas faixas celestes,

que ninguém poderia atravessar ou não obedecer...

Ele estabeleceu para os planetas seus

céus sagrados,

Ele detém os caminhos,

determina seus cursos.

Assim afirma o Enuma Elish (Tábua V, linha 65): "Ele criou o Céu e a Terra" - exatamente as mesmas palavras usadas no Livro do Gênesis.

A Batalha Celeste eliminou Tiamat como membro do antigo Sistema Solar, atirou metade dele numa nova órbita para que viesse a se tornar o planeta Terra, reteve a Lua como componente essencial do novo Sistema Solar, colocou Plutão numa órbita independente e acrescentou Nibiru como o décimo segundo membro da Nova Ordem em nossos céus. Para a Terra e seus habitantes, foram esses os elementos que determinaram o Tempo.

Até hoje, o papel-chave que o número doze desempenha na ciência suméria e na vida diária (alinhada com o Sistema Solar de doze membros) nos tem acompanhado ao longo de milênios. Dividiram o "dia" (de pôr-do-sol a pôr-do-sol) em doze "horas duplas", cuja expressão persiste até nossos dias com o mostrador de doze horas e o dia de 24. Os doze meses do ano ainda estão conosco, assim como os signos do zodíaco. Esse número celeste possui muitas outras expressões, como as doze tribos de Israel ou os doze apóstolos de Jesus.

O sistema matemático sumério é chamado de sexagesimal, quer dizer, com "base 60", ao invés de 100, como no sistema métrico (no qual um metro é igual a 100 centímetros). Entre as vantagens do sistema sexagesimal estava sua divisibilidade por 12. O sistema sexagesimal progredia multiplicando-se alternadamente seis e dez: começando com 6, multiplicando por 10 (6 x 10 = 60), depois por seis, para obter 360 - o número aplicado pelos sumérios ao círculo e ainda utilizado, tanto em geometria quanto em astronomia. Por sua vez, esse número era multiplicado por dez, para obter o sar ("chefe", "senhor"), o número 3 600, que era escrito traçando-se um grande círculo, e assim por diante.

O sar, 3.600 anos terrestres, era o período orbital de Nibiru ao redor do Sol; para todos em Nibiru tratava-se simplesmente de mais um ano-Nibiru. Segundo os sumérios, havia outros seres inteligentes em Nibiru, bem mais desenvolvidos do que os hominídeos na Terra. Os sumérios os chamavam de anunaques, significando literalmente: "Aqueles que do Céu para a Terra vieram". Os textos sumérios afirmam repetidamente que os anunaques vieram de Nibiru para a Terra na remota Antiguidade; quando vieram, não contaram o tempo usando termos terrestres, e sim a órbita de Nibiru. A unidade do Tempo Divino, um ano dos deuses, era o sar.

Textos conhecidos como a Lista dos Reis Sumérios, descrevendo os primeiros acampamentos dos anunaques na Terra, listam os governos dos dez primeiros líderes anunaques antes do Dilúvio em sars, os ciclos terrestres de 3.600 anos. Desde a primeira aterrissagem até o Dilúvio, segundo aquele texto, 120 sars se passaram: Nibiru orbitou o Sol 120 vezes, o que perfaz 432.000 anos terrestres. E na centésima vigésima primeira órbita o impulso gravitacional de Nibiru foi tanto que a calota polar acumulada sobre a Antártida deslizou para os mares do sul, criando uma onda enorme que varreu a Terra - a Grande Enchente ou Dilúvio, registrada na Bíblia a partir das fontes anteriores e mais detalhadas dos sumérios.

As lendas e o folclore antigo conferem a esse número, 432.000, um significado cíclico além da terra que era chamada Suméria. No Moinho de Hamlet, Giorgio de Santillana e Hertha Von Dechend, procurando "um ponto em que os mitos e a ciência se encontram", concluíram que 432.000 era um número de significado para os antigos. "Entre os exemplos citados por eles estava a lenda nórdica do Valhala, o local mítico de descanso dos guerreiros mortos em batalha, que no Dia do Julgamento irão passar pelos portões do Valhala para lutar ao lado do deus Odin ou Woden, contra os gigantes. Eles sairiam pelos 540 portões do Valhala, oitocentos guerreiros de cada um. O número total de guerreiros-heróis, dessa forma, seria 432.000, ressaltam Santillana e Von Dechend. Esse número deve ter tido um significado muito antigo, pois também é o número de sílabas no Rig Veda, o Livro Sagrado de Versos, escrito em sânscrito, no qual se encontram as sagas de deuses e heróis indo-europeus. Quatrocentos e trinta e dois mil, escrevem os autores, remete ao número básico 10.800, o número de estrofes no Rig Veda, com 40 sílabas por estrofe (10.800 x 40 = 432.000)”.

A tradição hindu claramente associa o número 432.000 com as iugas ou eras que a Terra e a humanidade experimentaram. Cada catur-iuga ("grande iuga") foi dividida em quatro iugas ou eras, cujas durações decrescentes eram expressões de 432.000: primeiro a Era Quádrupla (4 x 432.000 = 1.728.000 anos), que corresponde à Idade de Ouro, depois a Era Tríplice da Sabedoria (3 x 432.000 = 1.296.000 anos), seguida pela Era Dupla do Sacrifício (2 x 432.000 = 864.000 anos); finalmente nossa era atual, a Era da Discórdia, que deverá durar apenas 432.000 anos. Todas essas tradições hindus prognosticam dez éons, num paralelo com os dez líderes sumérios antediluvianos, mas expandindo o tempo até 4.320.000 anos.

Ainda mais expandidos, tais números astronômicos baseados no número 432.000 foram aplicados à religião hindu e às tradições do kalpa, o "Dia do Senhor Brahma". Foi definido que um éon compreende doze milhões de devas (Anos Divinos). Cada Ano Divino por sua vez compreende 360 anos terrestres. Portanto, um "Dia do Senhor Brahma" equivaleria a 4.320.000.000 anos terrestres - um período de tempo bem semelhante ao que os modernos estimam como a imagem de nosso Sistema Solar ­ calculado por multiplicações de 360 e 12.

A cifra 4.320.000.000, entretanto, é um milhar de grandes iugas - um fato descoberto no século XI pelo matemático árabe Abu Rayhan al-Biruni, que explicou que os kalpa consistiam em 1.000 ciclos de catur-iugas. Assim, poderíamos parafrasear os matemáticos do calendário celeste hindu afirmando que aos olhos do Senhor Brahma mil ciclos eram apenas um único dia. Isso traz à lembrança a enigmática afirmação em Salmos (89:4) em relação ao Dia Divino do Deus bíblico:

Porque mil anos, aos teus olhos,

São como o dia de ontem, que passou.

Essa afirmação tradicionalmente tem sido encarada apenas como um simbolismo da eternidade do Senhor. Porém em vista dos numerosos traços de dados sumérios no Livro dos Salmos (assim como em outras partes da Bíblia Hebraica), uma fórmula matemática precisa pode ter sido intencional - uma fórmula também mencionada na tradição hindu.

As tradições hindus foram trazidas para o subcontinente Índico pelos emigrantes "arianos" das praias do mar Cáspio, primos dos indo-europeus que eram os hititas da Ásia Menor (Turquia atual) e dos assírios das cabeceiras do rio Eufrates, por meio dos quais a sabedoria e as crenças sumérias foram transmitidas aos indo-europeus. Acredita-se que as migrações arianas devem ter ocorrido no segundo milênio a.C. e os Vedas foram tidos como "de origem não humana", tendo sido elaborados pelos próprios deuses numa era anterior. Com o tempo, vários componentes dos Vedas e a literatura auxiliar que deriva deles (os Mantras, Brahmanas etc.) foram ampliados pelos Puranas não-védicos ("Escritos Antigos") e pelos grandes relatos épicos do Mahabharata e do Ramayana. Neles, as eras que derivam de múltiplos de 3.600 também predominam; assim, de acordo com o Vishnu Purana, o "dia em que Krishna partirá da Terra será o primeiro dia da Era de Kali; continuará por 360.000 anos dos mortais". Esta é uma referência ao conceito de que a Kali-iuga, a era atual, é dividida em alvorada ou "crepúsculo matutino" de 100 anos divinos que perfazem 36.000 anos terrestres ou "mortais", a idade em si (1.000 anos divinos, iguais a 360.000 anos terrestres), e um "crepúsculo vespertino" dos 100 anos divinos finais (36.000 anos terrestres), perfazendo 1.200 anos divinos ou 432.000 anos terrestres.

A profundidade da crença disseminada num ciclo divino de 432.000 anos, equivalentes a 120 órbitas de 3.600 anos terrestres cada uma em Nibiru, nos faz pensar se representam meros truques aritméticos, ou, de alguma forma desconhecida, um fenômeno natural ou básico astronômico reconhecido na Antiguidade pelos anunaques. Mostramos em O 12º. Planeta, o primeiro livro da série Crônicas da Terra, que o Dilúvio foi uma calamidade global antecipada pelos anunaques, resultando do impulso gravitacional da aproximação de Nibiru sobre a calota instável da Antártida. O evento trouxe um final à última era glacial por volta de 13.000 anos atrás, e assim foi gravado nos ciclos terrestres como uma importante mudança climática e geológica.

Tais mudanças, dentre as quais as mais longas teriam sido as eras geológicas, foram verificadas por meio de estudos da superfície terrestre e de sedimentos do solo oceânico. A última era geológica, chamada Pleistoceno, começou cerca de 2.500.000 anos atrás e terminou na época do Dilúvio; foi o período de tempo durante o qual os hominídeos se desenvolveram, os anunaques chegaram à Terra e o homem, Homo sapiens, foi trazido à existência. E durante o Pleistoceno um ciclo de aproximadamente 430.000 anos foi identificado em sedimentos marinhos. Segundo uma série de estudos realizados por grupos de geólogos liderados por Madeleine Briskin, da Universidade de Cincinnati, mudanças no nível do mar e registros climáticos de alto-mar mostram uma "ciclicidade quase periódica de 430.000 anos". Tal periodicidade cíclica está de acordo com a teoria astronômica de modulações climáticas que leva em conta mudanças devido à obliqüidade (a inclinação da Terra), a precessão (o pequeno retardo orbital) e a excentricidade (forma da órbita elíptica). Milutin Milankovich, que esboçou a teoria na década de 20, estimou que a grande periodicidade resultante era de 413.000 anos. Tanto ele quanto o ciclo mais recente proposto por Briskin encaixam-se quase perfeitamente no ciclo sumério de 432.000 anos terrestres atribuídos aos efeitos de Nibiru: a convergência de órbitas, perturbações e ciclos climáticos.

O "mito" das Eras Divinas parece ser apoiado por fatos científicos.

O elemento Tempo apresentado nos antigos registros, tanto sumérios quanto bíblicos, não se limita a um ponto de partida - quando O processo da criação está ligado ao ato de medir o tempo, cuja medição, por sua vez, é ligada a determinados movimentos celestes. A destruição de Tiamat e a subseqüente criação do Cinturão de Asteróides e da Terra exigiam, segundo a versão mesopotâmica, duas órbitas do Senhor Celeste (o invasor Nibiru/Marduk). Na versão bíblica, foram necessários dois dias "divinos" para completar a tarefa; esperamos que até mesmo os fundamentalistas concordem agora que os dias não foram dias comuns como os conhecemos agora, já que os dois "dias" ocorreram antes mesmo da existência da Terra (além disso, deixemos que eles considerem a afirmação do salmista que o dia do Senhor é igual a aproximadamente mil anos). A versão mesopotâmica claramente mede o Tempo da Criação ou Tempo Divino pelas passagens de Nibiru, numa órbita equivalente a 3.600 anos terrestres.

Antes de essa antiga história da Criação se voltar para a recém-formada Terra e para a evolução nesta, ela é uma história de estrelas, planetas, órbitas celestes; e o tempo mencionado é o Tempo Divino. Porém, uma vez que o foco se volta para a Terra e para o homem nela, a escala de Tempo também muda - para um Tempo Terrestre - para uma escala apropriada não apenas para o lar do homem, mas para uma que a humanidade pudesse entender e medir: Dia, Mês e Ano.

Ao considerar esses elementos familiares do Tempo Terrestre, devemos ter em mente que todos os três são expressões de movimentos celestes - cíclicos - envolvendo uma correlação complexa entre a Terra, a Lua e o Sol. Agora sabemos que a seqüência diária de luz e escuridão, à qual chamamos de Dia (de 24 horas), resulta do fato de que a Terra gira sobre seu eixo; assim, enquanto um dos lados está iluminado, o outro está em escuridão. Agora sabemos que a Lua está sempre lá, mesmo quando não a vemos, e que diminui e aumenta não porque desapareça, mas porque, dependendo das posições Terra-Sol-Lua, enxergamos a Lua completamente iluminada ou obscurecida pela sombra da Terra, com todas as fases intermediárias. Nesse relacionamento triplo que estende o período orbital da Lua ao redor da Terra de cerca de 27,3 dias (o "mês sideral") para o ciclo observado de 29,53 dias (o "mês sinódico") e para o fenômeno do reaparecimento ou Lua Nova, com todas suas implicações em termos de calendário e religiosidade. E o ano ou Ano Solar, agora sabemos, é o período que a Terra demora para completar uma órbita ao redor do Sol, nossa estrela.

Porém tais verdades básicas em relação aos movimentos terrestres que causam os ciclos de dias, meses e anos não são óbvias, e foram necessários determinados avanços científicos para que fossem notados. Durante boa parte de um período de 2.000 anos acreditou-se, por exemplo, que o ciclo dia/noite era causado pelo movimento do Sol ao redor da Terra; desde a época de Ptolomeu de Alexandria (século 11 d.C.) até a "Revolução de Copérnico", em 1543 d.C., a crença inquestionável era a de que todos os corpos celestes giravam em volta da Terra, considerada o centro do universo. A sugestão de Nicolau Copérnico de que o Sol estava no centro e de que a Terra era apenas outro corpo celeste girando ao redor dele, como qualquer outro planeta, foi tão revolucionária em termos científicos e tão herege em termos religiosos que ele adiou a elaboração de seu grande trabalho astronômico (Sobre as Revoluções dos Orbes Celestes) e seus amigos adiaram a impressão até seu último dia de vida, 24 de maio de 1543.

Ainda assim, é evidente que a sabedoria dos sumérios nos primórdios incluía familiaridade com o relacionamento triplo Sol-Terra-Lua. O texto do Enuma Elish descreve as quatro fases da Lua, claramente explicadas em termos de sua posição em relação ao Sol, enquanto o satélite circundava a Terra: uma lua cheia no meio do mês enquanto ela "fica oposta ao Sol" e seu desaparecimento ao final do mês enquanto ela "fica contra o Sol". Esses movimentos eram atribuídos aos destinos (órbitas) que o Senhor Celeste (Nibiru) designou para a Terra e a Lua como resultado da Batalha Celeste:

A Lua ele pôs a brilhar,

Confiando a ela a noite;

Na noite os dias a sinalizar

Ele designou (dizendo):

Mensalmente, sem cessar, forma desenhos com uma coroa.

No começo do mês, erguendo-se sobre a Terra,

Terás chifres luminosos para significar seis dias,

Alcançando um crescente no sétimo.

Ao meio do mês fica ao lado oposto do Sol;

Ele deve te ultrapassar no horizonte.

Depois diminui tua coroa e entrega a luz,

Dessa vez aproxima-te do Sol;

E no trigésimo dia ficarás contra ele.

Indiquei a ti um destino; segue esse caminho.

"Assim o Senhor Celeste mostra os dias e estabelece os padrões da noite e do dia", conclui o texto.

(Vale notar que pela tradição bíblica e hebraica, o dia de 24 horas inicia-se ao pôr-do-sol - "foi a noite e foi a manhã, um dia" -, o que já era expresso nos textos mesopotâmicos. Nas palavras do Enuma Elish, a Lua foi "designada à noite para sinalizar os dias").

Mesmo sendo a versão condensada dos textos mesopotâmicos mais detalhados, a Bíblia (Gênesis 1:14) expressa a tripla relação entre a Terra, a Lua e o Sol, que se aplica aos ciclos do dia, mês e ano:

Deus disse: façam-se uns luzeiros

No firmamento do Céu

Que dividam o dia e a noite

E sirvam de sinais nos tempos

As estações, os dias e os anos.

O termo hebraico Mo'edim usado aqui para "estações" significa a reunião ritual na noite da lua nova, estabelece o período orbital da Lua e suas fases como um componente integral do calendário mesopotâmico-hebraico desde a origem. Ao listar os dois luzeiros (Sol e Lua) responsáveis pelos meses, dias e anos, a natureza complexa da antiguidade do calendário também é apresentada. Ao longo de milênios de esforços da humanidade para medir o tempo utilizando um calendário, alguns (como os muçulmanos até hoje) só seguiram os ciclos lunares; outros (corno os antigos egípcios e os calendários da Era Comum em uso no mundo ocidental) adotaram o ciclo solar, dividido convenientemente em "meses". Porém, o calendário idealizado há cerca de 5 800 anos em Nippur (o centro religioso da Suméria) e ainda usado pelos judeus retém a complexidade afirmada na Bíblia e baseada no relacionamento entre a Terra e seus dois luzeiros. Ao fazer isso, o fato de que a Terra orbita o Sol foi reconhecido pelo termo Shanah para "ano", que deriva do sumério shatu, um ter­ mo astronômico que significa "passar, orbitar", sendo o termo completo Tekufath ha-Shanah, "a órbita circular ou anua!", usado para designar a passagem de um ano completo.

Os estudiosos permanecem intrigados pelo fato de o Zohar (Livro do Esplendor), uma composição em hebraico e aramaico que é o trabalho central na literatura mística judaica conhecida como Cabala, explicar sem nenhuma dúvida - no século XIII da Era Cristã - que a causa da mudança do dia em noite eram as voltas que a Terra faz em torno de seu próprio eixo. Aproximadamente 150 anos antes de Copérnico afirmar que a seqüência dia-noite não resultava de o Sol circular a Terra, mas do girar da Terra em tomo de seu eixo, o Zohar afirmava que "toda a Terra gira, rodando como uma esfera. Quando uma parte está para baixo, outra está para cima. Quando está iluminada uma parte, a outra está escura; quando é dia para eles, para os outros é noite". A fonte do Zohar foi o rabino Hamnuna, do século III!

Embora pouco conhecido, o papel dos sábios judeus ao transmitir conhecimento astronômico para a Europa Cristã na Idade Média foi convincentemente documentado pelos livros sobre astronomia escritos em hebraico e com ilustrações claras. Na verdade, os escritos de Ptolomeu de Alexandria, conhecidos do mundo ocidental como o Almagesto, foram preservados pelos conquistadores árabes do Egito no século VIII e se tornaram disponíveis para os europeus por meio de traduções feitas por sábios judeus; é significativo ver que algumas dessas traduções continham comentários que lançavam dúvidas sobre a precisão das teorias geocêntricas de Ptolomeu séculos antes de Copérnico. Tais traduções de trabalhos árabes e gregos sobre astronomia, assim como tratados independentes, foram a fonte principal para o estudo da astronomia na Europa Medieval. Nos séculos IX e X, astrônomos judeus compuseram tratados sobre os movimentos da Lua e dos planetas, e calcularam as trajetórias do Sol e a posição das constelações. Na verdade, a compilação de tabelas astronômicas, fosse para reis europeus, fosse para califas muçulmanos, era uma especialidade de astrônomos judeus na corte.

Tais conhecimentos avançados, aparentemente à frente de seu tempo, podem ser explicados apenas pela retenção de conhecimentos anteriores e sofisticados que permeiam a Bíblia e suas fontes sumérias mais antigas. Na verdade, Cabala significa literalmente "o que foi recebido", um conhecimento secreto transmitido de geração a geração. O conhecimento dos sábios judeus da Idade Média pode ser ligado diretamente a grupos da Judéia e da Babilônia que comentaram e guardaram dados bíblicos. O Talmude, que registra tais dados e comentários de cerca de 300 a.C. até cerca de 500 d.C., está repleto de ensinamentos astronômicos; incluía o comentário de que o rabino Samuel "conhece os caminhos do céu" como se fossem as ruas de sua cidade, ou a referência pelo rabino Joshua ben-Zakai a "uma estrela que aparece uma vez a cada 75 anos e confunde os marinheiros" - indicando a familiaridade com o cometa Halley, cujo retorno periódico a cada 75 anos presumiu-se ser desconhecido até a descoberta por Edmund Halley no século XVIII. O rabino Gamliel de Jabneh possuía um instrumento óptico tubular com o qual observava estrelas e planetas - quinze séculos antes da invenção "oficial" do telescópio.

A necessidade de conhecer os segredos do céu deriva da natureza lunar-solar do calendário hebreu (nipuriano), que exigia um ajuste complexo - intercalação - entre o ano solar e o ano lunar, o último sendo mais curto 10 dias, 21 horas, 6 minutos e 45,5 segundos. A diferença equivale a 7/19 do mês sinódico, por­ tanto um ano lunar pode ser realinhado com o solar, adicionando sete meses lunares a cada dezenove anos solares. Os livros de astronomia creditam ao astrônomo ateniense Meton (cerca de 430 a.C.) a descoberta desse ciclo de dezenove anos; porém a sabedoria na verdade vai a milênios antes, na antiga Mesopotâmia.

Os estudiosos têm ficado intrigados pelo fato de que no panteão sumério-mesopotâmico, Shamash (o "deus-sol") fosse representado como filho do "deus da Lua", Sin, de menor estatura hierárquica, ao invés de ser ao contrário. A explicação pode estar nas origens do calendário, em que a notação dos ciclos lunares precede as medidas de ciclos solares. Alexandre Marshack, em The Roots of Civilization, sugeriu que as marcas em ossos e ferramentas de pedra nos tempos de Neanderthal não eram decorações, e sim calendários primitivos.

Nos calendários puramente lunares, como ainda acontece com os muçulmanos, os feriados recuam cerca de um mês a cada três anos. O calendário nipuriano, tendo sido projetado para manter um ciclo de feriados relacionados com as estações, não podia permitir tais deslizes: o Ano Novo, por exemplo, tinha de começar no primeiro dia de primavera. Isso exigia, desde o início da civilização suméria, um conhecimento preciso dos movimentos da Terra e da Lua, e sua correlação com o Sol, dessa forma chegando aos segredos da intercalação. Também era necessária uma compreensão de como as estações aconteciam.

Atualmente sabemos que o movimento anual do Sol de norte para sul e depois a volta, que causa as estações, resulta do fato de que o eixo da Terra é inclinado em relação ao plano de sua órbita ao redor do Sol; essa "obliqüidade" atualmente vale 23,5 graus. Os pontos mais longínquos alcançados pelo Sol ao norte e ao sul, onde ele parece hesitar, depois voltar, são chamados solstícios (literalmente "paradas do Sol"), e ocorrem a 21 de junho e 22 de dezembro. A descoberta dos solstícios também foi atribuída a Meton e seu colega, o astrônomo ateniense Euctemon. Contudo, tal conhecimento remonta a tempos bem mais antigos. O rico vocabulário astronômico do Talmude já aplicava o termo neti'yah (do verbo Natoh, "virar, inclinar, voltar-se de lado") ao equivalente moderno "obliqüidade"; um milênio antes, a Bíblia reconheceu a noção do eixo da Terra ao atribuir o ciclo dia/noite a uma "linha" desenhada através da Terra (Salmos 19:5); e o Livro de Jó, falando da formação da Terra e de seus mistérios, atribuía ao Senhor dos Céus a criação de uma linha inclinada, um eixo inclinado para a Terra (38:5). Usando o termo Natoh, o Livro de Jó se refere ao eixo inclinado da Terra e ao pólo norte quando afirma:

Ele inclinou para o norte por sobre o vazio

E pendurou a Terra sobre o nada.

Em Salmos 74:16-17 não só se admite a correlação entre a Terra, a Lua e o Sol, assim como a rotação da Terra sobre seu eixo, como a causa do dia, da noite e das estações, como também se reconhecem os pontos extremos, os "limites" dos movimentos aparentemente regulares do Sol, que chamamos de solstícios:

Vosso é o dia

E vossa também é a noite;

A Lua e o Sol organizastes.

Todos os limites da Terra estabelecestes,

Verão e inverno criastes.

Se uma linha fosse desenhada entre o ponto do nascer do sol e do crepúsculo para cada solstício, o resultado seria que as duas linhas iriam se cruzar sobre a cabeça do espectador, formando um "X" gigante dividindo a Terra e os céus acima em quatro partes. Essa divisão foi reconhecida na antiguidade e é referida na Bíblia, como "os quatro cantos da Terra" e "os quatro cantos do céu". A divisão resultante em quatro partes que parecem triângulos arredondados nas bases criou para os povos antigos a impressão de "asas". A Bíblia fala das "quatro asas da Terra", assim como das "quatro asas dos céus".

Um mapa babilônico da Terra, do primeiro milênio a.C., ilustra esse conceito de "quatro cantos da Terra", representando literalmente quatro "asas" saindo da Terra circular.

O movimento aparente do Sol de norte para sul e de volta resulta não apenas nas duas estações claramente opostas do verão e do inverno, mas também nas estações do outono e da primavera. Essas últimas são associadas com os equinócios, quando o sol passa pelo equador da Terra (uma vez indo, outra voltando) - épocas na qual a duração do dia e da noite é igual. Na antiga Mesopotâmia, o Ano Novo começava no equinócio de primavera - o primeiro dia do primeiro mês (Nisanu - "quando o sinal é dado"). Mesmo então, na época do Êxodo, a Bíblia (Levítico 23) decretou que o Ano Novo fosse celebrado no dia do equinócio de outono, sendo o mês designado (Tishrei) "o sétimo mês", admitindo-se que Nisanu fosse o primeiro. Em qualquer caso, o conhecimento dos equinócios, atestados pelos dias de Ano Novo, claramente se estende aos tempos sumérios.

A divisão do ano solar em quatro estações (dois solstícios e dois equinócios) foi combinada na Antiguidade com os movimentos lunares para criar o primeiro calendário formal conhecido, o calendário lunar-solar de Nippur. Foi usado pelos acadianos, babilônios, assírios e outras nações depois deles, e permanece até os dias de hoje como o calendário hebraico.

Para a humanidade, o tempo terrestre iniciou-se em 3.760 a.C.; sabemos a data exata, porque no ano de 1992 da Era Comum o calendário hebraico contou o ano 5.752.

Entre o Tempo Terrestre e o Tempo Divino existe o Tempo Celeste.

Desde o momento em que Noé saiu da Arca, precisando saber se toda a vida não iria terminar outra vez na água, a humanidade tem vivido com uma noção que perdura - ou seria uma lembrança? - dos ciclos ou éons ou eras de destruição e ressurreição, e tem olhado para os céus à procura de sinais, vaticínios de coisas boas ou ruins ainda por acontecer.

Desde as raízes na Mesopotâmia a linguagem hebraica utiliza o termo Mazal para significar "sorte, fortuna", que podem ser boas ou más. Não nos damos conta de que o termo é celeste, significando casa do zodíaco, e remonta ao tempo em que a astronomia e a astrologia eram a mesma coisa, e sacerdotes nos topos das torres dos templos seguiam os movimentos dos deuses celestes para ver em que casa do zodíaco - em que Manzalu, em acadiano - estariam naquela noite.

Porém não foi o homem quem primeiro agrupou as miríades de estrelas em constelações passíveis de reconhecimento, definidas, e as nomeou de acordo com aquelas que se estendiam sobre a eclíptica, e as dividiu em doze partes para criar as doze casas do zodíaco. Foram os anunaque que conceberam tudo isso, para suas próprias necessidades; o homem apenas adotou como sua essa ligação, esse meio de ascender aos céus a partir da vida mortal na Terra.

Para alguém que chegasse de Nibiru com seu vasto "ano" orbital para um planeta de giro rápido (Terra, o "sétimo planeta", como os anunaques nos chamavam), cujo ano é apenas uma parte do ano-Nibiru, que corresponde a 3.600 anos terrestres, a contagem do tempo pareceria um grande problema. Torna-se evidente nas Listas de Reis Sumérios e em outros textos que falam dos negócios dos anunaque que por um longo tempo - certamente até o Dilúvio - eles mantiveram o sar, os 3.600 anos terrestres, como unidade divina de tempo. Mas o que eles podiam fazer para de alguma forma criar uma relação razoável, que não fosse 1:3.600, entre esse Tempo Divino e o Tempo Terrestre?

A solução veio no fenômeno chamado precessão. Por causa da oscilação da órbita da Terra ao redor do Sol, existe um retardo a cada ano; esse retardo, ou precessão, é da ordem de 1 grau a cada 72 anos. Idealizando a divisão da eclíptica (o plano das órbitas planetárias ao redor do Sol) em doze - para combinar com a disposição de doze membros do Sistema Solar - os anunaques inventaram as doze casas do zodíaco; isso conferia a cada casa 30 graus, o que significava que o retardo relativo a cada uma delas perfazia 2 160 anos (72 x 30 = 2.160) e o Ciclo Precessional completo ou "Grande Ano" era 25.920 anos (2.160 x 12 = 25.920). Em Gênesis Revisitado sugerimos que, relacionando 2.160 com 3.600, os anunaque chegaram à Razão Áurea de 6:10, e, o mais importante, ao sistema sexagesimal de matemática que multiplicava 6 por 10 por 6 e assim por diante.

"Por um milagre que ainda não achei quem me explicasse", escreve o especialista em mitos Joseph Campbell em As Máscaras de Deus: Mitologia Oriental (1962), "a matemática que foi desenvolvida na Suméria em 3200 a.C., fosse por coincidência, fosse por dedução intuitiva, combinava tanto com a ordem celeste que consistia em uma revelação em si mesma". O "milagre", como temos apontado, foi providenciado por conta do conhecimento avançado dos anunaques.

A astronomia moderna, assim como as ciências exatas modernas, deve muito às primeiras descobertas dos sumérios. Entre elas está a divisão dos céus, e todos os outros círculos, em 360 partes (graus), talvez a mais básica. Hugo Winckler, que com nada além de uns poucos outros, na virada do século, combinou o domínio da "assiriologia" com o conhecimento da astronomia, compreendeu que o número 72 era fundamental como elo de ligação entre "Céus, Calendário e Mitos" (Altorientalische Forschungen). Foi assim por meio do Hameshtu, "vezes cinco", escreveu ele, criando o número fundamental 360 multiplicando o 72 celeste (o desvio precessional de 1 grau) pelo 5 da mão humana. Essa idéia nova, como seria de esperar na época dele, não o levou a divisar o papel dos anunaque, cuja ciência foi necessária para se conhecer o retardo da Terra em primeiro lugar.

Entre os milhares de tábuas matemáticas descobertas na Mesopotâmia, muitas das que serviram como tabelas prontas de divisão começavam com o número astronômico 12.960.000 e terminavam com 60, como a ducentésima décima sexta milésima (1/216.000) parte de 12.960.000. H. V. Hilprecht (The Babylonian Expedition of the University of Pennsylvania), que estudou milhares de tábuas matemáticas da biblioteca do rei assírio Assurbanipal, em Nínive, concluiu que o número 12.960.000 era literalmente astronômico, derivando de um Grande Ciclo de 500 Grandes Anos de desvios precessionais completos (500 x 25.920 = 12.960.000). Ele, e outros, não tinham dúvida de que o fenômeno da precessão, presumivelmente mencionado pelo grego Hiparco no século 11 a.C., já era conhecido e seguido na época dos sumérios. O número, reduzido em dez vezes para 1.296.000, aparece na tradição hindu como a duração da Era da Sabedoria, num múltiplo de três do ciclo de 432.000 anos. Os ciclos-dentro­-de-ciclos, que relacionam 6 e 12 (os 72 anos do primeiro giro zodiacal), 6 e 10 (a razão entre 2.160 e 3.600) e 432.000 e 12.960, podem assim refletir ciclos cósmicos e astronômicos, pequenos e grandes - segredos ainda a ser revelados, dos quais os números sumérios oferecem apenas um vislumbre.

A seleção do equinócio vernal (ou, inversamente, do dia do equinócio de outono) como o momento para começar o Ano Novo não foi acidental, pois, em virtude da inclinação do eixo da Terra , só nesses dois dias o sol se ergue em pontos onde o equador celeste e o círculo eclíptico se interceptam. Por causa da precessão - o termo completo é Precessão dos Equinócios -, a casa zodiacal onde tal interseção ocorre se modifica, recuando 1 grau no zodíaco a cada 72 anos. Embora esse ponto ainda seja referido como o Primeiro Ponto de Áries, na verdade estamos na Era (ou zodíaco) de Peixes desde cerca de 60 a.C. e lenta mas inexoravelmente iremos logo entrar na Era de Aquário. É uma mudança tão grande - a passagem do término de uma era zodiacal para o início de uma outra - que dizemos se tratar do surgimento de uma Nova Era.




Enquanto a humanidade na Terra aguarda a mudança com antecipação, muitos de nós perguntamos o que essa mudança trará consigo - de que tipo de Mazal ela será portadora? Bênçãos ou problemas, um final... ou um novo início? O final da Velha Ordem ou o começo de uma Nova Ordem na Terra, talvez o profetizado retorno do Reino dos Céus na Terra?

Será que o tempo apenas flui para a frente ou também pode fluir para trás, perguntaram-se os filósofos. Na verdade, o Tempo vai para trás, pois essa é a essência do fenômeno da precessão: o retardo da órbita terrestre ao redor do Sol, que causa, uma vez a cada 2.160 anos, a observância do nascer do sol no equinócio de primavera não na casa zodiacal seguinte, mas na anterior... O Tempo Celeste, como o conhecemos, não progride na direção do Tempo Terrestre (e de todos os tempos planetários), no sentido anti-horário; ao invés disso, move-se em sentido horário, na direção oposta, combinando com a direção orbital de Nibiru (sentido horário).

O Tempo Celeste flui para trás, no que se refere a nós na Ter­ ra; portanto, em termos zodiacais, o Passado é o Futuro.

Vamos examinar o Passado.

2

Um Computador feito de Pedra

A noção ou a lembrança das eras cíclicas que afetaram a Terra e a humanidade não ficaram confinadas ao Velho Mundo. Quando Hernán Cortés foi recepcionado pelo rei asteca Montezuma como um deus que voltava, ganhou de presente um enorme disco de ouro em que estavam gravados os símbolos das eras cíclicas nas quais os astecas e seus ancestrais no México acreditavam. Esse precioso artefato foi perdido para sempre, tendo rapidamente sido derretido pelos espanhóis; porém réplicas de pedra têm sido encontradas. Os glifos representam o ciclo de "sóis" ou eras, entre as quais a atual seria a quinta. As outras quatro terminaram em virtude de uma ou outra calamidade natural ­- água, vento, terremotos, tempestades e animais selvagens. A primeira foi a Era dos Gigantes de Cabelos Brancos; a segunda, a Era de Ouro. A terceira foi a Idade do Povo de Cabelos Vermelhos (que, de acordo com as lendas, foram os primeiros a chegar em navios ao continente americano); e a quarta foi a Era do Povo de Cabelos Negros, com os quais o supremo deus mexicano, Quetzalcoátl, chegara.

Muito mais ao sul, no Peru pré-colombiano, os povos andinos também falavam em cinco "sóis" ou eras. A primeira foi a Era dos Viracochas, deuses brancos e barbados; a segunda foi a Era dos Gigantes, seguida pela Era do Homem Primitivo. A quarta foi a Era dos Heróis; e então veio a quinta e contemporânea, a Era dos Reis, dos quais os reis incas eram os últimos descendentes. Monumentos maias e tumbas eram decorados com "faixas celestes", cujos glifos representavam a divisão zodiacal dos céus; artefatos encontrados em ruínas maias e em Cuzco, a capital dos incas, foram identificados como calendários zodiacais. A própria cidade de Cuzco (nas palavras de S. Hagar num trabalho entregue no décimo quarto Congresso de Americanistas) é "um testemunho em pedra" da familiaridade sul-americana com as doze casas do zodíaco. A inevitável conclusão é de que o conhecimento da divisão zodiacal da eclíptica era algo conhecido no Novo Mundo há milênios, e que as eras costumavam ser medidas em unidades de 2.160 anos, o Tempo Celeste.

A idéia de que calendários sejam feitos de pedra pode parecer estranha a nós, mas evidentemente era lógica na Antiguidade. Tal calendário, repleto de enigmas, chama-se Stonehenge. Consiste hoje em dia em gigantescos blocos de pedra que se erguem silenciosamente numa planície varrida pelo vento na Inglaterra, ao norte da cidade de Salisbury e a cerca de 120 quilômetros de Londres. As ruínas apresentam um enigma que instigou a curiosidade e a imaginação de muitas gerações, desafiando historiadores, arqueólogos e astrônomos. O mistério que aqueles megálitos propõem fica perdido na névoa do tempo; e o Tempo, acreditamos, é a chave de seus segredos.

Stonehenge foi chamado de "o mais importante monumento pré-histórico em toda a Inglaterra" e apenas isso já justifica a atenção que vem recebendo ao longo dos séculos e especialmente em épocas recentes. Foi descrito - pelo menos por seus relatores ingleses - como único, pois "não existe nada parecido em todo o mundo" (R.J.C. Atkinson, Stonehenge and Neighbouring Monuments); e isso explicaria porque um manuscrito do século XVIII listava mais de seiscentos trabalhos escritos sobre Stonehenge em seu catálogo de monumentos antigos da Europa ocidental. Stonehenge é, sem dúvida, o maior e mais elaborado de mais de novecentos círculos antigos feitos de pedra, madeira e terra nas Ilhas Britânicas, assim como o maior e mais complexo da Europa.

Ainda assim, em nossa visão, o importante não é apenas o que torna Stonehenge único. É o que revela sua semelhança com determinados monumentos em outros lugares e seu propósito na época específica da construção que o tornam parte da história que chamamos de Crônicas da Terra. Acreditamos que ele se insira num quadro muito maior, capaz de oferecer uma solução plausível a esse enigma.

Mesmo os que jamais visitaram Stonehenge devem ter visto, em fotografias, desenhos ou documentários filmados, os aspectos mais impressionantes desse complexo antigo: os pares de rochas eretas, cada uma com cerca de quatro metros de altura, ligados no alto para fazer um lintel de pedra do mesmo porte, formando estruturas de três megálitos, os trilitos, cada um separado dos outros; estes, dispostos em semicírculo, são, por sua vez, cercados por um círculo enorme de pedras gigantes similares, unidas no topo por lintéis cuidadosamente esculpidos para formar um anel contínuo ao redor dos trilitos eretos. Embora estejam faltando alguns dos blocos de pedra no que chamamos de trilitos sarsen (é o tipo de rocha calcária do qual foram retiradas essas pedras) e no Círculo Sarsen, e outras tenham caído, foram elas que criaram a imagem suscitada pela palavra "Stonehenge".



Stonehenge

No interior desse enorme anel de pedra, outras rochas menores foram colocadas para formar o Círculo de Dolerito (um tipo de calcário azulado) por fora dos trilitos e um semicírculo de doleritos (alguns chamam de Ferradura de Dolerito) no interior do semicírculo de trilitos. Como no caso do Círculo Sarsen, nem todos os doleritos estão em seus lugares nos semicírculos (ou ferraduras). Alguns sumiram, outros encontram-se por perto, como gigantes tombados. Isso, aliado ao clima sobrenatural, mais os apelidos das pedras caídas (de origem incerta) completam o mistério; incluem a Pedra do Altar, um bloco de quase cinco metros de arenito azul-acinzentado que permanece semi-enterrado sob uma outra pedra em pé e o lintel de um dos trilitos. A despeito do considerável trabalho de restauração, boa parte da glória passada da estrutura se foi, ou caiu. Ainda assim, os arqueólogos foram capazes de reconstruir a aparência original desse notável monumento de pedra, com as evidências que sobraram.

Concluíram que o anel externo, de megálitos eretos unidos por lintéis curvos, consistia em trinta pedras eretas, das quais permanecem dezessete. No interior do Círculo Sarsen fica o Círculo de Dolerito, de pedras menores (das quais 29 ainda estão no local). Na parte interna desse segundo anel erguem-se cinco pares de trilitos, formando a Ferradura Sarsen, de dez grandes blocos; geralmente são numerados de 51 a 60 nos mapas (os lintéis são numerados separadamente, numa série que adiciona 100 aos números dos blocos eretos; assim, o lintel que une os números 51 e 52 é numerado 152).

O círculo mais interno consistiu em dezenove doleritos (alguns numerados de 61 a 72), formando a assim chamada Ferradura de Dolerito; no interior dessa estrutura, precisamente no eixo de todo o complexo de Stonehenge, de círculos dentro de círculos, está a Pedra do Altar.

Como se fosse necessário enfatizar a importância do formato circular já evidente, os anéis de pedras estão centralizados no interior de um enorme círculo. Trata-se de um fosso profundo e largo, cujo solo escavado foi utilizado para demarcar os limites; forma um anel perfeito ao redor de todo o complexo de Stonehenge, um anel com diâmetro de mais de 90 metros. Aproximadamente metade do circuito foi escavado no início do século passado e depois parcialmente aterrado; as outras porções do fosso e suas margens mais elevadas ostentam as marcas da ação da natureza e do homem ao longo dos milênios.

Esses círculos dentro de círculos foram repetidos de outras formas. A alguns metros da borda interna desse fosso existe um círculo feito de 56 poços, profundos e perfeitamente cavados, chamados de Orifícios Aubrey depois que John Aubrey, no século XVII, os descobriu. Os arqueólogos escavaram esses poços na esperança de descobrir quaisquer pistas existentes no material no interior dos orifícios, depois os tamparam com lajes redondas de cimento; o resultado disso é um círculo perfeito formado por essas estruturas, principalmente na visão aérea. Além disso, orifícios mais toscos e irregulares foram cavados em época desconhecida ao redor dos círculos de sarsen e de dolerito, agora conhecidos como os orifícios Y e Z.

Duas pedras, diferentes de todas as outras, foram encontradas em lados opostos das margens internas do fosso; ao longo da linha dos Orifícios Aubrey (mas claramente sem fazer parte deles), foram achados também dois montes circulares, eqüidistantes dessas duas rochas, também com orifícios. Pesquisadores estão convencidos de que esses orifícios também continham pedras como as duas encontradas, e que as quatro, chamadas de Pedras das Estações (agora numeradas de 91 a 94) -, serviam a um propósito distinto, especialmente porque, ligadas por linhas, as quatro determinam um retângulo perfeito que provavelmente apresentava conotação astronômica. Outro bloco maciço apelidado de Rocha da Matança, está caído onde o fosso e suas margens têm uma grande interrupção, que claramente serve como abertura para os anéis concêntricos de pedra, orifícios e aterros. Provavelmente não está em sua posição original exata, nem devia ser único, como sugerem os buracos no chão.

A abertura está orientada exatamente para nordeste. Leva a (ou chega de) uma estrada elevada, chamada a Avenida. Dois montes paralelos delimitam essa avenida, deixando uma passagem de dez metros entre elas. Corre reta por mais de quinhentos metros, onde se ramifica para o norte na direção de um grande e alongado trabalho de aterro, conhecido como Cursus, cuja direção forma um ângulo com a Avenida; o outro lado desta se curva na direção do rio Avon.

Os círculos concêntricos de Stonehenge mais a Avenida voltada para nordeste fornecem uma pista em relação ao propósito para o qual Stonehenge foi construído. Que a direção da Avenida - sua precisa orientação para nordeste - não foi acidental torna-se claro quando se compreende que uma linha traçada através do centro da Avenida passa pelo centro dos círculos de pedra e orifícios para formar um eixo para a estrutura. Um deles, chamado de Pedra do Calcanhar, ainda permanece como testemunha muda das intenções dos construtores e do propósito do local; sem dúvida estavam ligadas à astronomia.

A idéia de que Stonehenge era um observatório astronômico cuidadosamente planejado ao invés de um local para cultos pagãos ou ocultismo (uma noção expressa, por exemplo, chamando uma pedra caída de Pedra da Matança, o que implicaria sacrifícios humanos) não foi facilmente aceita. Na verdade, o grau de dificuldade aumentou quanto mais era estudado o local e quanto mais sua data de construção se aprofundava no passado.

Um relato do século XII (Historia Regum Britanniae, de Geoffrey de Monmouth) narra que o "Anel de Gigantes" era um "agrupamento de pedras que nenhum homem do período jamais poderia erigir e foi primeiro construído na Irlanda com pedras trazidas da África pelos gigantes". Foi então, a conselho do mago Merlim (a quem as lendas arturianas também relacionavam o Santo Graal), que o rei de Vortigen moveu as pedras e as erigiu novamente num círculo ao redor de um sepulcro, exatamente da mesma forma que foram encontradas no monte Killaraus, na Irlanda. (A possibilidade de essa lenda medieval ter um núcleo de verdade foi confirmada pelas descobertas que as pedras de arenito azulado originaram-se das montanhas Prescelly, a sudoeste de Gales, e de alguma forma foram transportadas por terra e água por uma distância de quatrocentos quilômetros - primeiro para um local a vinte quilômetros a nordeste de Stonehenge, onde podem ter sido erigidas num círculo anterior, e depois para Stonehenge propriamente dito).

Nos séculos XVII e XVIII, o templo de pedras foi atribuído aos romanos, aos gregos, aos fenícios e aos druidas. O aspecto comum dessas várias versões é que todas mudaram a época atribuída a Stonehenge desde a Idade Média até o começo da era cristã e depois mais para trás, aumentando a antiguidade do local. Dessas várias teorias, aquela relativa aos druidas foi favorecida na época, devido, sobretudo, à pesquisa e ao trabalho de William Stukeley, especialmente seu trabalho de 1740, Stonehenge, A Temple Restor'd to the British Druids. Os druidas eram a classe detentora do conhecimento, ou faziam o papel de professores­-sacerdotes entre os antigos celtas. Segundo Júlio César, considerado a melhor fonte de informação sobre druidas, eles se reuniam uma vez por ano num lugar oculto para praticar ritos secretos; ofereciam sacrifícios humanos; entre os assuntos que ensinavam aos nobres celtas estavam "os poderes dos deuses", as ciências da natureza e a astronomia. Embora nada tenha sido descoberto por arqueólogos que ligasse o local a druidas da era pré-cristã, os celtas chegaram àquela área por volta dessa época e não existe prova em contrário, também, principalmente de que os druidas não se tenham reunido nesse "Templo do Sol", mesmo que não tivessem nada a ver com os primitivos construtores.

Embora as legiões romanas tenham acampado próximo ao local, nenhuma evidência foi encontrada para ligar Stonehenge aos romanos. Uma ligação com os gregos e com os fenícios, porém, mostra-se mais promissora. O historiador grego Diodoro da Sícilia (século I a.C.) - contemporâneo de Julio César -, que viajou para o Egito, escreveu uma história do mundo de vários volumes. Nos primeiros ele trata da pré-história dos egípcios, assírios, etíopes e gregos, os assim chamados "tempos míticos". Elaborando os escritos de historiadores anteriores, ele cita fatos de um livro (agora perdido) escrito por Hecateu de Abdera, no qual o último afirma, por volta de 300 a.C., que numa ilha habitada pelos hiperbóreos "existe um santuário de Apolo e um templo notável, esférico na forma". O nome em grego significa "povo de um norte distante", baseado no nome do vento norte ("Bóreas"). Eram adoradores do deus grego Apolo (depois romano) e as lendas dos hiperbóreos misturavam-se com os mitos em relação a Apolo e sua irmã gêmea, a deusa Ártemis. Como os antigos contavam, os gêmeos eram filhos do grande deus Zeus e da mãe Leto, uma titã. Fecundada por Zeus, Leto perambulou pela face da terra, procurando um local para dar à luz seus filhos com serenidade, longe da ira de Hera, a esposa oficial de Zeus; Apolo foi assim associado ao norte distante. Gregos e romanos o consideravam um deus da adivinhação e da profecia; ele circulava o zodíaco em sua carruagem.

Embora ninguém atribua valor científico para tal ligação legendária ou mitológica com a Grécia, os arqueólogos parecem ter encontrado na região de Stonehenge, que está repleta de trabalhos pré-históricos em movimento de terra, várias estruturas e sepulturas. Esses restos feitos pelo homem incluem as ruínas do grande Círculo de Avebury, que esquematicamente lembra o mecanismo de um relógio, conforme foi esboçada por William Stukeley, ou mesmo as engrenagens do antigo calendário maia. Também incluíam a trincheira de vários quilômetros, chamada de Cursus; um tipo de círculo feito de madeira ao invés de pedra, chamado Woodhenge; e a impressionante Silbury Hill- uma colina cônica e. artificial que forma um círculo preciso e possui 158 metros de diâmetro, a maior de seu tipo na Europa (alguns enxergam significado no fato de que esteja situada exatamente a seis significativas "milhas megalíticas" de Stonehenge).

Os achados mais importantes nessa área, arqueologicamente falando, foram as tumbas (como em tantos outros locais), espalhadas por toda a área de Stonehenge. Nelas os arqueólogos encontraram punhais de bronze, machados e maças, ornamentos de ouro, cerâmica decorada e pedras polidas. Muitos desses achados reforçam a opinião arqueológica de que a forma pela qual as pedras em Stonehenge foram cuidadosamente polidas e trabalhadas indica "influências" da Creta minóica (a ilha no Mediterrâneo) e de Micenas, na Grécia. Também foi observado que algumas das juntas entre as pedras de Stonehenge, usadas para segurar os blocos de pedra, eram similares às juntas utilizadas nos portões de pedra de Micenas. Tudo isso, afirmavam alguns arqueólogos, apontava para uma ligação com a Grécia Antiga.

Uma representante dessa escola foi Jacquetta Hawkes, que em seu livro, Dawn of the Gods, sobre as origens minóicas e micênicas da civilização grega, não resistiu à inclusão de um capítulo sobre "Túmulos e Reinados", que falava de Stonehenge.

Micenas está localizada na parte sudoeste do continente grego, chamada de Peloponeso (agora separada do continente pelo canal de Corinto, feito pelo homem) e funcionou como ponte entre a civilização minóica inicial na ilha de Creta e a civilização grega clássica. Floresceu no século XVI a.C. e os tesouros descobertos nas tumbas de seus reis indicavam contatos estrangeiros, sem dúvida alguns britânicos. "Exatamente quando os reis de Micenas se elevavam a novos patamares de riqueza e poder", escreve J. Hawkes, "houve um avanço similar, embora em menor escala, ao sul da Inglaterra. Lá, também, uma aristocracia guerreira dominava os camponeses e pastores, começando a comerciar e prosperar - e a serem enterrados com a extravagância apropriada”.

Entre as posses ali enterradas havia alguns objetos que provavam terem esses chefes entrado em contato com a cultura de Micenas. "Tais coisas não eram de grande monta, e poderiam ter sido fruto de comércio ou imitação, não fosse por um evento único - a construção do grande círculo de rochas e trilitos em Stonehenge" .

Nem todos os achados arqueológicos, todavia, demonstravam tais "influências" gregas. Os achados ao redor das tumbas próximas a Stonehenge incluíam, por exemplo, contas decoradas e discos de âmbar atados por um fio de ouro, numa técnica desenvolvida no Egito e não na Grécia. Tais achados levantam a possibilidade de que todos esses artefatos, de alguma forma, tenham sido trazidos para o sudoeste da Inglaterra, não por gregos ou por egípcios, mas talvez por um povo comerciante do Mediterrâneo ocidental. Os candidatos óbvios seriam os fenícios, famosos negociantes-marinheiros da Antiguidade.

É fato sabido que os fenícios, navegando dos portos no Mediterrâneo, chegaram à Cornualha, no extremo sudoeste da Inglaterra, bastante próximo a Stonehenge, na busca de estanho, que combinado ao cobre maleável formava o resistente bronze. Mas teria sido algum desses povos, cujos laços de comércio floresciam no milênio entre 1500 e 500 a.C., responsável pelo planejamento e construção de Stonehenge? Será que chegaram a visitá-lo? Uma resposta parcial dependeria, claro, de quando Stonehenge foi concebido e construído, ou de quem mais estaria lá para fazer isso.

Na ausência de registros escritos ou imagens esculpidas dos deuses do Mediterrâneo (artefatos encontrados em todas as ruínas minóicas, micênicas e fenícias), ninguém pode dizer com certeza. Porém a pergunta se torna discutível a partir do momento em que vários artefatos de origem orgânica, tal como chifres esculpidos, são escavados por arqueólogos em Stonehenge. Submetidos à datação pelo rádio-carbono, restos encontrados no Fosso produziram uma data de aproximadamente 2.900 a 2.600 a.C. - pelo menos mil anos, talvez mais, antes que marinheiros vindos do Mediterrâneo ali aportassem. Um pedaço de carvão encontrado num dos Orifícios Aubrey foi datado como sendo de 2.200 a.C.; um chifre encontrado próximo a um dos trilitos deu uma leitura entre 2.280 e 2.060 a.C.; datações realizadas na Avenida forneceram datas entre 2.245 e 2.085 a.C.

Quem estaria lá numa época tão remota para planejar e executar esse maravilhoso complexo de pedra? Os estudiosos acreditam que até cerca de 3.000 a.C. a área era pouco povoada por pequenos grupos e pelos primeiros fazendeiros e seus herdeiros, que usavam ferramentas de pedra. Algum tempo depois de 2.500 a.C., novos grupos chegaram do continente europeu. Trouxeram com eles o conhecimento dos metais (cobre e ouro), usavam utensílios de barro e enterravam seus mortos em montes arredondados; foram apelidados de Povo Béquer, de acordo com a forma dos seus copos. Por volta de 2.000 a.C., o bronze fez sua aparição no local, surgindo uma população mais rica e numerosa, conhecida como o Povo de Wessex, que criava gado, trabalhava metais e fazia trocas com a Europa ocidental e central, e com o Mediterrâneo. Por volta de 1.500 a.C., essa era de prosperidade sofreu um declínio abrupto que durou boa parte do milênio seguinte; Stonehenge deve ter partilhado desse declínio.

Seriam os primeiros fazendeiros e pastores do Neolítico, o Povo Béquer, ou mesmo o Povo Wessex, da Idade do Bronze, capazes de criar Stonehenge? Ou será que simplesmente providenciaram o trabalho e mão-de-obra para construir o complexo mecanismo de pedra, idealizado pelo avanço científico de outros?

Mesmo uma defensora da ligação com Micenas, Jacquetta Hawkes, teve de admitir que Stonehenge, "esse santuário, construído com blocos colossais e ainda assim cuidadosamente trabalhados, que faziam a arquitetura ciclópica de Micenas parecer tijolos de crianças, não possuía nada a que se pudesse comparar, em toda a Europa pré-histórica". Para permitir a conexão com Micenas e ligá-la aos habitantes primitivos, ela passou a elaborar a teoria de que alguns dos senhores locais que controlavam os pastos e planícies de Salisbury, e talvez, como Ulisses, tivessem doze rebanhos de gado, podem ter tido a riqueza e a autoridade para transformar um modesto santuário, originário da Idade da Pedra, num trabalho nobre e sem paralelo de arquitetura megalítica. Sempre pareceu que algum indivíduo deu início à obra ­por ambição desmedida ou obsessão religiosa -, mas pelo fato de todo o projeto e o método de construção serem mais avançados do que qualquer coisa conhecida na ilha antes, parece provável que idéias trazidas por uma tradição civilizada mais adiantada também estivessem envolvidas.

Porém o que seria essa "tradição civilizada mais adiantada" que deu origem a essa estrutura que ficava além de qualquer comparação com qualquer coisa na Europa pré-histórica? A resposta deve depender de uma datação precisa de Stonehenge; e se, como sugerem os dados científicos, for um a dois milênios mais antiga do que os micenenses e os fenícios, devemos procurar uma fonte anterior de "tradição civilizada". Se Stonehenge pertence ao terceiro milênio a.C., então os únicos candidatos seriam a Suméria e o Egito. Quando Stonehenge foi concebida, a civilização suméria, com suas cidades, suas combinações de templos-observatórios elevados, a escrita e o conhecimento científico, já possuía mil anos de idade, e o império já florescia no Egito havia muitos séculos.

Para responder melhor, precisamos juntar a sabedoria acumulada, examinando as várias fases pelas quais Stonehenge, segundo as últimas pesquisas, veio a existir.

Stonehenge começou praticamente sem pedras. Começou, todos concordamos, com o Fosso e seus limites, um grande círculo de terra com uma circunferência de 320 metros no fundo; possui cerca de 3,6 metros e chega a 1,8 metro de profundidade, requerendo assim uma boa escavação (solo calcário) para retirar a terra e colocá-la nas margens ampliadas. No interior desse anel externo, o círculo de 56 Orifícios Aubrey foi feito.

A seção nordeste do anel de terra foi deixada sem cavar, para providenciar uma entrada no meio do círculo. Ali, duas "pedras-­portais", que não mais existem, flanqueavam a entrada; serviam também de auxiliares de focalização para a Pedra do Calcanhar, erigida no eixo resultante. Esse enorme rochedo natural eleva-se cerca de cinco metros acima do solo e penetra cerca de um metro na terra. Foi erigido com uma inclinação de 24 graus. Uma série de orifícios na faixa de entrada talvez tenham sido utilizados para colocar marcadores móveis de madeira, sendo por isso chamados de Buracos dos Postes. Finalmente as quatro Pedras das Estações foram posicionadas para formar um retângulo perfeito; isso completa Stonehenge I - o anel de terra, os Orifícios Aubrey, um eixo de entrada, sete pedras e alguns postes de madeira.

Restos orgânicos e ferramentas de pedra associados a essa fase sugerem aos estudiosos que Stonehenge I foi construído em algum momento entre 2900 e 2.600 a.C.; a data selecionada pelas autoridades foi 2800 a.C.

Quem quer que tenha construído Stonehenge I, para o propósito que fosse, achou-o satisfatório por vários séculos. Durante toda a ocupação da área pelo Povo Béquer, não houve necessidade de mudar ou melhorar os trabalhos de deslocamento de terra e de pedras. Depois, cerca de 2100 a.C., pouco antes da chegada do Povo Wessex (ou talvez coincidindo com ela), um surto extraordinário de atividade irrompe no cenário. O evento principal foi a introdução dos doleritos na estrutura de Stonehenge, tornando Stonehenge II um "círculo" de pedra pela primeira vez.

Não foi uma tarefa fácil trazer as pedras, que pesavam até quatro toneladas cada uma, através de terra, mar e rio, numa distância total de cerca de 75 quilômetros. Até hoje, ninguém sabe por que essas rochas de dolerito foram escolhidas, e por que tanto empenho e esforço foram dedicados a levá-las até o local, diretamente ou com um pequeno intervalo numa parada intermediária. Qualquer que fosse a rota, acredita-se que, ao final, tenham sido trazidas até as vizinhanças do local subindo o Avon, o que explicaria por que a Avenida foi aumentada em três quilômetros nessa fase até ligar Stonehenge com o rio.

Pelo menos oitenta (alguns estimam em 82) pedras de dolerito foram trazidas. Acredita-se que 76 delas fossem para os orifícios que formavam os círculos concêntricos Q e R, 38 para cada círculo; os círculos pareciam ter aberturas no lado oeste.

Ao mesmo tempo uma rocha separada, a qual chamamos de Pedra do Altar, foi erigida no interior dos círculos, exatamente no eixo de Stonehenge, em frente à face nordeste da Pedra do Calcanhar. Porém, quando os pesquisadores verificaram o alinhamento e a posição das pedras exteriores, descobriram, surpresos, que a Pedra do Calcanhar foi girada nessa fase em direção ao leste (para a direita, se for observada do centro); ao mesmo tempo, duas outras pedras foram erguidas numa linha em frente à Pedra do Calcanhar, como que para enfatizar a nova direção de mira. Para acomodar essas mudanças, a entrada foi ampliada para a direita (lado leste), enchendo-se parte do Fosso, e a Avenida foi alargada ali.

Inesperadamente, os pesquisadores compreenderam que a inovação principal não foram as rochas de dolerito, mas a apresentação de um novo eixo, um eixo bastante desviado para leste, em relação ao anterior.

Ao contrário dos sete séculos de dormência em Stonehenge I, Stonehenge III! sucedeu a Fase II em poucas décadas. Quem quer que estivesse encarregado resolveu dar ao complexo uma magnitude e aparência monumentais. Foi a vez dos enormes blocos de sarsen, que pesavam quarenta a cinqüenta toneladas cada um, serem levados para Stonehenge desde Marlboro Downs, a cerca de trinta quilômetros de distância. Presume-se que 77 pedras foram transportadas.

Por mais trabalhoso que tivesse sido realizar o traslado dessas rochas, que perfaziam milhares de toneladas no total, ainda mais difícil deve ter sido a tarefa de erguê-las. As pedras foram trabalhadas cuidadosamente nas formas desejadas. Os lintéis recebiam uma curvatura precisa, devido às protuberâncias em pontas que (de alguma forma) se encaixavam com precisão nas depressões que ficavam exatamente na junta das rochas. Depois, todas aquelas pedras preparadas tinham de ser erguidas em um círculo preciso ou aos pares, e os lintéis precisavam ser erguidos até o topo. Como essa tarefa, tomada mais difícil pela inclinação do local, foi realizada, ninguém sabe.

Nessa época, o eixo realinhado ganhou firmeza por duas novas Pedras do Portal, substituindo o par anterior. Acredita-se que a atualmente caída Pedra da Matança possa ter sido uma dessas novas Pedras do Portal.

A fim de criar espaço para o Círculo Sarsen e a Ferradura Trilito ou oval, os dois círculos de dolerito da Fase II foram completamente desmontados. Dezenove delas foram usadas para formar a Ferradura de Dolerito (agora reconhecidamente uma oval aberta) e 59, acredita-se, deveriam ser utilizadas para formar os novos círculos de orifícios (Y e Z), que cercariam o Círculo Sarsen. O Círculo Y deveria conter trinta pedras e o Círculo Z, 29. Algumas das 82 pedras originais podem ter sido designadas para servir como lintéis, ou (como acredita John E. Wood, Sun, Moon and Standing Stones) para completar a oval. Contudo, os círculos Y e Z jamais chegaram a ser realizados; ao invés disso, os doleritos foram dispostos num círculo maior, o Círculo de Dolerito, com um número indeterminado de pedras (alguns falam em sessenta). Também incerta é a época em que esse círculo foi erigido - na mesma época ou um século ou dois mais tarde. Alguns pensam que trabalhos adicionais foram realizados na Avenida, por volta de 1.100 a.C.

Porém, para todos os efeitos, a Stonehenge que vemos foi planejada em 2.100 a.C., executada durante o século seguinte, sendo os acabamentos recebidos por volta de 1.900 a.C. Métodos modernos colaboraram com as descobertas - na época, 1.880, surpreendentes - do renomado egiptólogo, sir Flinders Petrie, de que Stonehenge datava de cerca de 2.000 a.C. (foi Petrie quem idealizou o sistema de numeração das pedras, ainda em uso).

No atual esquema de estudos científicos de locais arqueológicos, os arqueólogos são os primeiros a entrar em cena, e os outros (antropólogos, metalúrgicos, historiadores, lingüistas e outros peritos) vêm depois. No caso de Stonehenge, os astrônomos encabeçaram a lista. Não apenas porque as ruínas eram aparentes na superfície, dispensando escavações para serem reveladas, mas também porque desde o início tornava-se quase evidente que o eixo do centro até a Pedra do Calcanhar através da Avenida apontava "para nordeste, onde o sol se ergue quando os dias são mais longos" (para usar as palavras de William Stukeley, 1740) - na direção onde nasce o sol no solstício de verão (21 de junho, aproximadamente). Stonehenge era um instrumento para medir a passagem do tempo!

Depois de dois séculos e meio de progresso científico, essas conclusões ainda são válidas. Todos concordamos que Stonehenge não era um local de residência; nem era um túmulo.

Nem palácio, nem tumba, era a essência de um templo-observatório, como os zigurates (pirâmides em degraus) da Mesopotâmia e das pirâmides do continente americano. E por estar orientado na direção do sol quando ele se ergue no meio do verão, poderia ser chamado de Templo do Sol.

Com esse fato básico e indiscutível, não é de se admirar que os astrônomos continuassem a liderar a pesquisa no que se relacionava a Stonehenge. Entre eles, logo no início desse século, estava sir Norman Lockyer, que conduziu um levantamento organizado em 1901 e confirmou a orientação para o solstício de verão em seu trabalho principal Stonehenge and Other British Stone Monuments. Como essa orientação fica satisfeita apenas pelo eixo, pesquisadores posteriores começaram a se perguntar se a complexidade adicional de Stonehenge - os diversos círculos, ovais, retângulos e outros marcadores - não seria dedicada à observação de outros fenômenos celestes além do nascer do sol no dia do solstício de verão.

Assim, surgiram sugestões nesse sentido em trabalhos posteriores sobre Stonehenge, porém foi apenas em 1963, quando Cecil A. Newham descobriu alinhamentos que sugeriam que os equinócios também podiam ser observados e até previstos, que essas possibilidades receberam um aval científico moderno.

A sugestão mais sensacional, entretanto (primeiro expressa por ele em artigos e depois em seu livro de 1964, The Enigma of Stonehenge), foi que Stonehenge deve ter sido um observatório lunar. Ele baseou suas conclusões ao estudar as quatro pedras da Estação e o retângulo formado por elas; também mostrou que quem quer que tenha pretendido dar a Stonehenge essa capacidade, sabia onde erigi-lo, pois o retângulo e seus alinhamentos teriam de ser localizados exatamente onde estão.

Tudo isso era em princípio recebido com extrema desconfiança e desdém, porque as observações lunares são consideravelmente mais complexas que as solares. Os movimentos da Lua (ao redor da Terra e junto com esta em torno do Sol) não se repetem anualmente porque, entre outros motivos, a Lua orbita a Terra numa inclinação suave em relação à órbita terrestre ao redor do Sol. O ciclo completo, repetido uma vez a cada dezenove anos aproximadamente, inclui oito pontos de "Parada Lunar" como os astrônomos as chamam, quatro maiores e quatro menores. A sugestão de que Stonehenge I - que já possuía os alinhamentos apontados por Newham - foi construído para permitir a determinação ou mesmo a previsão desses oito pontos parecia prematura e implausível na época, em vista do fato de que os habitantes da Inglaterra de então estavam emergindo da Idade da Pedra. Esse argumento claramente é válido; e aqueles que, apesar de tudo, encontraram mais evidências das maravilhas astronômicas em Stonehenge ainda precisam providenciar uma resposta para o paradoxo da necessidade de um complexo observatório lunar para um povo na Idade da Pedra!

Destacando-se entre os astrônomos cujas investigações confirmaram as incríveis capacidades de Stonehenge estava Gerald S. Hawkins, da Universidade de Boston. Escrevendo em publicações científicas em 1963, 1964 e 1965, ele anunciou suas conclusões nos títulos de seus artigos: "Stonehenge Decodificada", "Stonehenge: um Computador Neolítico" e "Sol, Lua, Homens e Pedras", seguidos dos livros Stonehenge Decoded e Beyond Stonehenge. Com o auxílio dos computadores da universidade ele analisou centenas de linhas de observação em Stonehenge e as relacionou com as posições do Sol, da Lua e das estrelas mais importantes nos tempos antigos, e concluiu que a orientação resultante não deve ter sido acidental.

Atribuiu grande importância às quatro Pedras das Estações e ao retângulo perfeito que elas formavam e mostrou como as linhas que ligavam pedras opostas (91 oposta a 94 e 92 oposta a 93) estavam orientadas para os pontos de maior parada e como as linhas diagonais apontavam as menores paradas ao nascer e ao pôr da Lua. Junto com os quatro pontos referentes aos movimentos do Sol, Stonehenge, segundo Hawkins, permitia a observação e previsão de todos os doze pontos que marcavam os movimentos do Sol e da Lua. Acima de tudo, ele ficou fascinado pelo número 19, expresso por pedras e orifícios nos vários círculos: os dois círculos de 38 doleritos de Stonehenge II "poderiam ser encarados como dois semicírculos de 19" (Stonehenge Decoded) e a "ferradura" oval de Stonehenge III tinha os mesmos 19. Tratava-se de uma relação lunar inegável, pois dezenove era o ciclo da Lua que regula a intercalação.

O professor Hawkins foi ainda mais longe: concluiu que os números expressos pelas rochas e orifícios nos vários círculos traduziam uma habilidade para prever eclipses. Como a órbita lunar não está exatamente no mesmo plano que a órbita terrestre em volta do Sol (a primeira é inclinada cerca de 5 graus em relação à segunda), a órbita da Lua atravessa o caminho da Terra em torno do Sol duas vezes por ano. Os dois pontos de interseção ("nódulos") são habitualmente marcados nas cartas astronômicas como N e N'; é onde ocorrem os eclipses. Porém, por causa das irregularidades na forma e do retardamento da órbita terrestre em torno do Sol, esses nódulos não recaem nas mesmas posições celestes ano após ano; ao invés disso, ocorrem num ciclo de 18,61 anos. Hawkins postulou que o princípio de operação para esse ciclo, portanto, seria "fim do ciclo/início do ciclo" no décimo nono ano; observou que o propósito dos 56 Orifícios Aubrey era para obter um ajuste, movendo três marca dores por vez no interior do Círculo Aubrey, considerando-se que 18 (elevado à) 2/3 x 3 = 56. Esse cálculo, sustenta ele, tornava possível a previsão de eclipses da Lua e também do Sol, e sua conclusão era que tal previsão de eclipses era o propósito principal do projeto e construção de Stonehenge. Anunciou que Stonehenge nada mais era do que um "brilhante computador astronômico feito de pedras".

A proposição de que Stonehenge não era apenas um "templo do Sol", mas também um observatório lunar, encontrou feroz resistência, a princípio. Entre os dissidentes, que consideravam vários alinhamentos lunares uma coincidência, estava Richard J.C.Atkinson, do University College em Cardiff, que liderara algumas das escavações mais extensas no local. As evidências arqueológicas da grande antiguidade de Stonehenge eram motivo para o desdém demonstrado em relação à teoria do “observatório de alinhamentos lunar/computador neolítico", pois afirmava que o homem do período Neolítico na Inglaterra era simplesmente incapaz de tais conhecimentos. Seu desdém e até mesmo um certo sarcasmo, expressos em determinados artigos publicados na Antiquity como "Luar sobre Stonehenge" e em seu livro Stonehenge, transformaram-se em apoio relutante como resultado de estudos conduzidos por Alexander Thom (Megalithic Lunar Observations). Thom, um professor de engenharia na Universidade de Oxford, supervisionou as medidas mais precisas em Stonehenge, e ressaltou que o arranjo em "ferradura" das pedras sarsen na verdade constituía uma oval, uma forma elíptica que representa com maior precisão as órbitas planetárias do que um círculo. Concordou com Newham que Stonehenge I foi inicialmente um observatório lunar, e não solar, e confirmou que Stonehenge foi construído onde está porque é apenas ali que as oito observações lunares poderiam ser feitas com precisão ao longo das linhas formadas pelo retângulo que liga as quatro Pedras da Estação.

O acirrado debate, conduzido nas páginas dos mais importantes periódicos científicos e em conferências de confronto, foi resumido por C. A. Newham (Supplement to the Enigma of Stonehenge and its Astronomical and Geometric Significance) nas seguintes palavras: "Com exceção dos cinco trilitos, praticamente todos os outros aspectos parecem relacionados à observação lunar". Ele concordou que os "56 Orifícios Aubrey giram nos oito alinhamentos principais da Lua nascendo e se pondo". Mais tarde, até Atkinson admitiu que "persuadira-se de que o pensamento arqueológico tradicional precisava de uma revisão drástica" em relação ao propósito e funções de Stonehenge.

Tais conclusões foram, em grande parte, conseqüências da pesquisa de um participante ilustre, que engrossara a lista de cientistas envolvidos no final dos anos 60 e início de 1970. Tratava-se de sir Fred Hoyle, astrônomo e matemático. Ele sustentava que os alinhamentos listados por Hawkins para várias estrelas e constelações eram mais aleatórios do que deliberados, mas concordava completamente com os aspectos lunares de Stonehenge I - e especialmente no que dizia respeito ao papel desempenhado pelos 56 Orifícios Aubrey e os arranjos regulares das Pedras da Estação ("Stonehenge - Um Previsor de Eclipses", nas revistas Nature e On Stonehenge).

Porém, ao concordar que o Círculo Aubrey podia ser usado como "calculador" de eclipses (na opinião dele isso era feito movendo-se quatro marcadores), Hoyle agitou outra questão. Quem quer que tenha projetado esse calculador - Hawkins o chamou de "computador" - tinha de conhecer, de antemão, a duração precisa do ano solar, o período orbital da Lua e o ciclo de 18,61 anos; o homem do período Neolítico na Inglaterra simplesmente não possuía essa tecnologia.

Lutando para explicar como os avançados conhecimentos de astronomia e matemática haviam aparecido na Inglaterra neolítica, Hawkins recorreu a antigas gravações dos povos do Mediterrâneo. Além da referência a Diodoro/Hecateu, ele também mencionou a citação de Plutarco (em Ísis e Osíris) de Eudoxo de Cnido, o astrônomo-matemático do século IV a.C. da Ásia Menor, que associara o "deus-demônio dos eclipses" ao número 56.

Na ausência de respostas do homem, uma olhada no que não era humano?

Hoyle, por sua parte, chegou à convicção de que Stonehenge não se tratava de um mero observatório, um local para saber o que estava acontecendo nos céus. Ele o chamou de Previsor, um instrumento para prever eventos celestiais e uma instalação para registrá-los em datas determinadas. Concordando que tal conquista intelectual estava muito além da capacidade dos fazendeiros e pastores locais do Neolítico, ele sentiu que as quatro Pedras da Estação e todas as implicações indicavam "que os construtores de Stonehenge podem ter vindo de fora das Ilhas Britânicas, procurando intencionalmente por aquele local" (o que significa que o importante é a localização de Stonehenge, no hemisfério norte), "assim como o astrônomo moderno procura lugares distantes para construir seus telescópios".

"Um verdadeiro Newton ou Einstein deve ter trabalhado em Stonehenge", sugere Hoyle; ainda assim, onde teria sido a universidade na qual ele aprendeu matemática e astronomia, onde estavam os registros escritos sem os quais o conhecimento acumulado não pode ser passado e aprendido, e como teria sido possível para um gênio apenas planejar, executar e supervisionar a construção de tamanha obra, quando apenas a Fase II durou um século inteiro? "Só existiram cerca de 200 gerações de história; existem mais de 10.000 gerações de pré-história", observa Hoyle. Teria tudo sido parte do "eclipse dos deuses", perguntou-se ele - a transição de uma época em que as pessoas adoravam de fato um deus do Sol e um deus da Lua, "para tornar-se o deus invisível de Isaías?".

Sem divulgar explicitamente seus pensamentos, Hoyle deu uma resposta citando um parágrafo inteiro de um texto de Diodoro no qual Hecateu faz menção aos hiperbóreos; afirma perto do final que depois de os gregos e hiperbóreos trocarem visitas, "nos tempos mais antigos",

Também dizem que a Lua, como é vista dessa ilha, parece estar bem próxima da Terra, e se enxergam as saliências, como aquelas da Terra, que são visíveis ao olho.

Também é relatado que o deus visita a ilha a cada dezenove anos, período no qual o retorno das estrelas ao mesmo local nos céus acontece; e por esse motivo o período de dezenove anos é chamado pelos gregos de "ano de Meton".

Nesses tempos distantes, a familiaridade não apenas com o ciclo de dezenove anos da Lua, mas também com "saliências, como aquelas da Terra" - detalhes do terreno tais como montanhas e planícies - é impressionante, sem dúvida.

A atribuição pelos historiadores gregos da estrutura circular em Hiperbórea ao círculo lunar, primeiro descrito na Grécia pelo ateniense Meton, remete o problema "Quem Construiu Stonehenge?" para o antigo Oriente Próximo, assim como o faz com as conclusões e divagações dos astrônomos acima mencionados.

Porém, mais de dois séculos depois, William Stukeley já apontara respostas na mesma direção, na direção do Oriente Próximo. Em seu esboço sobre Stonehenge, como o idealizou, ele juntou a imagem que vira numa antiga moeda do Oriente Próximo que representa um templo numa plataforma elevada. Essa representação, mais explícita, também aparece em outra moeda antiga da mesma área, da cidade de Biblos, conforme foi reproduzida no primeiro volume de Crônicas da Terra. Mostra que o templo antigo possuía um espaço no qual havia um foguete sobre uma plataforma de lançamento. Identificamos o local como o Campo de Pouso do folclore sumério, onde o rei sumério Gilgamesh testemunhou a subida de uma nave para o espaço. O local ainda existe; agora é uma vasta plataforma nas montanhas do Líbano, em Baalbek, onde ainda se erguem as ruínas do maior templo romano jamais construído. Apoiando essa enorme plataforma estão três blocos colossais de pedra, que desde a Antiguidade são conhecidos como o Trilito.



As respostas ao enigma de Stonehenge devem, portanto, ser procuradas em locais distantes, mas numa época próxima a ele. O "Quando" contém a chave, acreditamos, não apenas para o "Quem" de Stonehenge I, mas também para o "Por Quê?" de Stonehenge II e III.

Pois, como veremos, a reconstrução apressada de Stonehenge em 2.100-2.000 a.C. esteve relacionada com a vinda de uma Nova Era - a primeira Nova Era historicamente registrada da humanidade.

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Os templos que olhavam para o céu

Quanto mais sabemos sobre Stonehenge por meio da ciência moderna, mais incrível Stonehenge se torna. Na verdade, não fosse pela evidência visível dos megálitos e pela terraplanagem - se de alguma forma eles desaparecessem, assim como ocorreu com muitos outros monumentos antigos, devido aos caprichos do tempo e da natureza, ou a devastações causadas pelo homem -, a história completa das pedras que podiam calcular o tempo e dos círculos que podiam prever eclipses e determinar os movimentos do Sol e da Lua teria parecido tão implausível para os ingleses da Idade da Pedra que teria sido considerada apenas um mito.

A grande antiguidade de Stonehenge, que foi se mostrando cada vez mais antiga à medida que os métodos científicos progrediam, é o que mais perturba os cientistas. Foram as datas estabelecidas para Stonehenge I e II + III que levaram os arqueólogos a procurar visitantes do Mediterrâneo e eminentes cientistas a se referirem aos deuses, como explicações únicas para o enigma.

Entre toda a série de perguntas perturbadoras, como Quem e Para quê, o Quando foi a mais satisfatoriamente respondida. Arqueólogos e físicos (por meio de modernos métodos de datação, tais como medidas baseadas no carbono-14) foram unidos pela arqueoastronomia, para concordar sobre as datas: 2.900/2.800 a.C. para Stonehenge I, 2.100/2.000 a.C. para Stonehenge II e III.

O pai da ciência da arqueoastronomia - embora ele preferisse chamar de astroarqueologia, que traduzia melhor o seu pensamento - foi, sem a menor dúvida, sir Norman Lockyer. Uma forma de medir quanto a ciência oficial demora a aceitar mudanças é observar que um século se passou desde a publicação do principal trabalho de Lockyer, The Dawn of Astronomy, em 1894.

Tendo visitado o Oriente em 1890, ele observou que, enquanto nas antigas civilizações da Índia e China havia poucos monumentos mas uma abundância de registros escritos estabelecendo a idade, o oposto ocorria em relação ao Egito e à Babilônia: eram “duas civilizações de antiguidade indefinida", onde abundavam monumentos de idade incerta (na época dos escritos de Lockyer).

Em seus escritos, ele afirmou que ficou impressionado com o fato de que, na Babilônia, "desde o início das coisas o sinal para "simbolizar Deus era uma estrela" e algo semelhante acontecia no Egito, nos textos hieroglíficos, em que havia três estrelas representando o plural, deuses. Os registros babilônicos em tábuas e tijolos de argila queimada davam a impressão de lidar com os ciclos regulares de "posições da Lua e dos planetas com extrema precisão". Planetas, estrelas e as constelações do zodíaco estão representados nas paredes das tumbas egípcias e nos papiros. No panteão hindu, encontramos o culto ao Sol e à Aurora: o nome do deus Indra significa "O Dia Trazido pelo Sol", e o da deusa Ushas significa "Aurora".

Pode a astronomia ajudar a egiptologia?, perguntou-se ele; pode ajudar a definir a medida da antiguidade dos egípcios e babilônios?

Quando consideramos o livro hindu Rig Veda e as inscrições dos egípcios a partir de um ponto de vista astronômico, escreveu Lockyer, "ficamos surpresos com o fato de que, em ambos, todas as observações e a adoração iniciais estão relacionadas ao horizonte... Isso era verdadeiro não apenas em relação ao Sol, mas igualmente em relação às estrelas que brilham no espaço do céu". "O horizonte", continua ele, é o lugar onde o círculo que prende nossa vista à superfície da terra e o céu parecem se encontrar”. Um círculo, em outras palavras, onde o Céu e a Terra se tocam e encontram. Era ali que os povos antigos buscavam quaisquer sinais ou premonições que seus observadores procuravam. Como o fenômeno mais comum observável no horizonte era o nascer e o pôr-do-sol a cada dia, era natural que essa fosse a base para nossas antigas observações astronômicas e para relacionar outros fenômenos (tais como o aparecimento ou o movimento de planetas e até estrelas) a seu "despertar helíaco", sua breve aparição no horizonte oriental enquanto a Terra atinge os poucos instantes do amanhecer, quando o Sol começa a se erguer mas o céu está suficientemente escuro para se enxergar as estrelas.

Um observador na Antiguidade poderia determinar com facilidade se o Sol sempre se ergue no lado leste do céu, mas teria reparado que no verão o sol parece elevar-se num arco mais alto do que no inverno e os dias são mais longos. Isso, explica a moderna astronomia, se deve ao fato de que o eixo da Terra ao redor do qual giramos não é perpendicular ao eixo de nosso movimento ao redor do sol (a Eclíptica), e sim inclinado - cerca de 23,5 graus hoje em dia. Isso cria as estações e os quatro pontos no movimento aparente do Sol para o alto e para baixo nos céus: os solstícios de verão e de inverno, e os equinócios de primavera ("verna!") e de outono (que já descrevemos anteriormente).

Estudando a orientação dos templos antigos e não tão antigos, Lockyer descobriu que aqueles chamados de "Templos Solares" eram de dois tipos: os orientados de acordo com os equinócios, e os orientados de acordo com os solstícios. Embora o Sol apareça todos os dias no oriente e se ponha nos céus do lado oeste, só nos dias dos equinócios é que ele nasce precisamente no leste e se põe precisamente no oeste, visto de qualquer lugar da Terra. Portanto, Lockyer deduziu que tais templos "equinociais" eram mais universais do que aqueles construídos com o eixo para o solstício; porque o ângulo formado pelos solstícios mais ao norte e mais ao sul (para alguém no hemisfério norte, o inverno e o verão) dependia de onde estivesse o observador - da latitude. Portanto, templos de solstício eram mais individuais, específicos para a localização geográfica (e mesmo a altitude).

Como exemplos de templos equinociais, Lockyer cita o Templo de Zeus em Baalbek, o Templo de Salomão em Jerusalém, e a grande basílica de São Pedra, no Vaticano, em Roma todos orientados segundo um eixo preciso leste-oeste. Em relação a esta última, ele citou estudos sobre a arquitetura de igrejas que descrevem como na antiga São Pedro (iniciada com Constantino, no século IV, e derrubada no início do século XVI), no dia do equinócio vernal, "as grandes portas do pórtico dos quadriporticus eram abertas ao amanhecer, e também as portas orientais da igreja; à medida que o sol se erguia, seus raios passavam pelas portas externas e, penetrando diretamente pela nave, iluminavam o Altar Principal". Lockyer acrescentou que "a igreja atual preenche as mesmas condições". Como exemplos de templos solares de "solstício", Lockyer descreve o principal "Templo do Céu" chinês em Pequim, onde "a mais importante de todas as datas observadas na China, o sacrifício executado ao ar livre no altar sul do Templo do Céu", ocorria no dia do solstício de inverno, em 21 de dezembro; e a estrutura em Stonehenge, orientada para o solstício de verão.

Tudo isso, entretanto, era só um prelúdio para os estudos principais de Lockyer, no Egito.

Estudando a orientação de templos egípcios antigos, Lockyer concluiu que os mais velhos eram "equinociais" e os mais novos, "solsticiais". Ficou surpreso ao descobrir que os templos antigos revelavam maior sofisticação astronômica do que os mais recentes, pois tinham sido feitos para observar e venerar não apenas o nascer e o pôr-do-sol, mas também as estrelas. Além do mais, os santuários mais antigos sugerem uma adoração mista Sol-Lua, que mudava para um foco equinocial. Esse santuário equinocial era o templo em Heliópolis ("Cidade do Sol", em grego), cujo nome egípcio, Anu, também foi mencionado pela Bíblia, como On. Lockyer calculou que a combinação de observações solares com o período em que a brilhante estrela Sírius, durante a cheia anual do Nilo, uma conjunção tripla na qual o calendário egípcio se baseava, indicava que em tempo egípcio o Ponto Zero de ajuste era cerca de 3.200 a.C.

O santuário de Anu, sabemos pelas inscrições egípcias, continha o Ben-Ben ("Pássaro-Pirâmide"), tido como a parte cônica da "Barca Celeste" na qual o deus Rá veio para a Terra, do "Planeta de Um Milhão de Anos". Geralmente mantido no interior do sacrário no templo, era colocado em exposição pública uma vez por ano, e nos tempos dinásticos peregrinações ao santuário continuaram a ser feitas, para venerá-lo como algo sagrado. a objeto em si já desapareceu ao longo dos milênios, mas uma réplica de pedra foi encontrada, mostrando o grande deus visível através da porta ou escotilha da cápsula. A lenda da Fênix, o pássaro mítico que morre e ressurge depois de um determinado período, também foi relacionada a esse santuário e a sua veneração.

O Ben-Ben ainda estava lá na época do faraó Pi-Ankhi (cerca de 750 a.C.), pois foi encontrada uma inscrição descrevendo a visita dele ao santuário. Com desejo de entrar no aposento do Santo dos Santos e ver o objeto celeste, Pi-Ankhi começou o processo oferecendo sacrifícios elaborados ao amanhecer no pátio do templo. Depois entrou no templo propriamente dito, curvando-se para o grande deus. Uma prece foi oferecida pela segurança do rei, para que pudesse entrar e sair do Santo dos Santos sem sofrer danos. Seguiram-se cerimônias que incluíam a lavagem, purificação e defumação do rei com incensos, para que ele pudesse entrar no aposento chamado "Sala da Estrela". Recebeu então flores e galhos de plantas raras para oferecê-las ao deus, ,depositando-as em frente ao Ben-Ben. Então Pi-Ankhi subiu os degraus que levavam ao "grande tabernáculo" que continha o objeto sagrado. Chegando ao alto, puxou o ferrolho e abriu as portas para o Sagrado entre os Sagrados; "e viu seu ancestral Rá na câmara do Ben-Ben". Então recuou, fechou as portas atrás de si e as selou com argila, pressionando ali seu lacre.

Esse santuário não sobreviveu aos milênios, contudo o que pode ter sido um santuário modelado de acordo com o de Heliópolis foi encontrado por arqueólogos. É o assim chamado templo do faraó Ne-user-Rá, da V dinastia, que durou de 2.494 a 2.345 a.C. Construído num lugar chamado Abusir, ao sul de Gizé e das Grandes Pirâmides, consistia em princípio num grande terraço, onde se erguia sobre uma plataforma de proporções com­ patíveis um objeto curto em forma de obelisco. Uma rampa, onde ficava um corredor coberto iluminado por janelas a espaços regulares no teto, ligava a elaborada entrada do templo a um grande portão no vale abaixo. A base do objeto em forma de obelisco erguia-se cerca de vinte metros acima do nível do pátio do templo; o obelisco, que pode ter sido encapado de cobre, elevava-se mais 36 metros.

O templo, com paredes que criavam várias salas e compartimentos, formava um retângulo perfeito, que media 80 por 110 metros. Estava claramente orientado segundo um eixo leste­ oeste para os equinócios, mas o longo corredor obviamente fora reorientado para ficar de frente para o nordeste. Foi uma reorientação do antigo santuário heliopolitano (que era orientado apenas no sentido leste-oeste), o que fica claro pelas inscrições e desenhos que decoravam o corredor. Comemorava o trigésimo aniversário do reinado do faraó, época provável da construção do corredor. A comemoração seguiu os ritos misteriosos do festival Sed (o significado do termo permanece incerto), que marcava algum tipo de "jubileu" e sempre começava no primeiro dia do calendário egípcio - o primeiro dia do primeiro mês, chamado de mês de Thot. Em outras palavras, o festival Sed era uma espécie de Dia do Ano Novo, comemorado não a cada ano, mas depois da passagem de um certo número de anos.

A presença de orientações tanto para o equinócio quanto para o solstício nesse templo implica familiaridade - no terceiro milênio a.C. - com o conceito dos Quatro Cantos. Desenhos e inscrições encontrados nos corredores do templo descrevem a "dança sagrada” do rei. Foram copiados, traduzidos e publicados por Ludwig Borchardt com H. Kees e Friedrich Von Bissing em Das Re-Heiligtum des Königs Ne-Woser-Re. Concluíram que a “dança" representava o "ciclo de santificação dos Quatro Cantos da Terra".

A orientação para o equinócio do templo propriamente dito e para o solstício do corredor, aludindo aos movimentos do Sol, levou os egiptólogos a aplicar o termo "Templo Solar" à estrutura. Encontraram reforço para essa denominação na descoberta de um "barco solar" (parcialmente esculpido na rocha e parcialmente construído com tijolos secos e pintados) enterrado sob a areia logo ao sul de onde o templo se encontrava. Textos hieroglíficos que tratavam de medidas de tempo e do calendário do Egito Antigo afirmavam que os corpos celestes atravessavam o céu em barcos. Muitas vezes os deuses, ou mesmo os faraós deificados (tendo se unido aos deuses no Pós-vida), eram representados em tais barcos, velejando sobre o firmamento dos céus, mantidos elevados pelos quatro cantos do céu.

O grande templo seguinte claramente imita o conceito pirâmide-sobre-plataforma do "Templo do Sol" de Ne-user-Rá, mas já estava completamente orientado para os solstícios desde o início, tendo sido planejado e executado ao longo de um eixo noroeste-sudeste. Foi construído do lado oeste do Nilo (próximo à vila atual de Deir-el-Bahari) no Alto Egito, como parte da grande Tebas, pelo faraó Mentuhotep I, por volta de 2100 a.C.

Seis séculos mais tarde, Tutmósis III e a rainha Hatshepsut, da XVIII dinastia, construíram seus templos ao lado; a orientação foi similar - mas não exatamente igual. Foi em Tebas (Karnak) que Lockyer fez sua mais importante descoberta, a que estabeleceu as bases para a arqueoastronomia.

A seqüência de capítulos, fatos e argumentos em The Dawn of Astronomy revela que a rota de Lockyer para Karnak e os templos egípcios passou pelas evidências da Europa. Havia a orientação da velha Igreja de São Pedro, em Roma, e a informação sobre o raio de sol na aurora do solstício de primavera; e havia também a praça de São Pedro com semelhanças impressionantes com Stonehenge...

Ele observou o Partenon, em Atenas, o principal templo da Grécia e descobriu que "há o velho Partenon, uma construção que pode estar em pé desde a guerra de Tróia, e o novo Partenon, com um pátio externo parecido com os templos egípcios, mas com o santuário ao centro da construção. Foi pela diferença de direção desses dois templos em Atenas que tive minha atenção despertada para o assunto".

Ele possuía plantas de vários templos egípcios, nas quais as orientações pareciam variar do início da construção para reformas posteriores, e ficou impressionado com uma em que havia dois templos, de costas um para o outro, num local não muito distante de Tebas, denominado Medinet-Habu. Chamou a atenção para as semelhanças entre a "diferença de orientação” egípcia e grega, em templos que de um ponto de vista puramente arquitetônico deveriam ser paralelos e com o mesmo eixo de orientação.

Poderia essa orientação alterada resultar de mudanças na amplitude (na posição dos céus) do Solou das estrelas que tenham sido causadas pelo eixo da Terra? Lockyer sentiu que a resposta era sim.

Agora sabemos que os solstícios resultam do fato de que o eixo da Terra é inclinado em relação a seu plano de órbita ao redor do Sol, e os pontos de "parada" combinam com essa inclinação. Porém os astrônomos estabeleceram que esse ângulo não é constante. A Terra oscila, como um navio, de um lado para o outro - talvez o resultado de algum choque que tenha recebido no passado (pode ter sido a colisão original que colocou a Terra em sua órbita atual, ou o impacto de um grande meteoro, cerca de 65 milhões de anos atrás, que teria extinguido os dinossauros). A atual oscilação de cerca de 23,S graus pode diminuir até talvez 21 graus, ou, por outro lado, aumentar até 24 – ninguém sabe ao certo, já que a mudança de 1 grau demoraria milhares de anos (7.000, de acordo com Lockyer). Tais mudanças na obliqüidade resultam em mudanças dos pontos de parada do Sol. Isso significa que a construção de um templo cuja orientação seja precisa para o solstício numa determinada época não estaria adequadamente alinhada com essa orientação algumas centenas - e muito menos milhares - de anos mais tarde.

A sensacional inovação de Lockyer era essa: ao determinar a orientação de um templo e sua longitude geográfica, seria possível calcular a obliqüidade que prevalecia na época da construção; ao determinar as mudanças na obliqüidade ao longo dos milênios, seria possível concluir com certeza razoável a época de construção do templo.

A Tabela de Obliqüidade, que durante o século XIX tornou-­se ainda mais afinada e precisa, mostra a mudança no ângulo da Terra a intervalos de quinhentos anos, desde os 23 graus e 27 minutos do presente (23,5 graus).

500 a.C. cerca de 23,75 graus

1000 a.C. cerca de 23,81 graus

1500 a.C. cerca de 23,87 graus

2000 a.C. cerca de 23,92 graus

2500 a.C. cerca de 23,97 graus

3000 a.C. cerca de 24,02 graus

3500 a.C. cerca de 24,07 graus

4000 a.C. cerca de 24,11 graus

Lockyer aplicou suas descobertas primeiramente ao grande templo de Amon-Rá em Karnak. Esse templo, que foi ampliado por vários faraós, consistia em duas estruturas retangulares construídas de costas uma para a outra, num eixo sudeste-noroeste, significando uma orientação para o solstício. Lockyer concluiu que o propósito da orientação e o projeto do templo eram de molde a permitir que um raio de sol, no dia do solstício, passasse por um longo corredor, entre dois obeliscos, e atingisse o Santo dos Santos com um raio de luz divina na parte mais interna da construção. Lockyer reparou que os eixos dos dois templos, de costas um para o outro, não eram orientados da mesma forma: o mais novo representava um solstício resultante de uma obliqüidade menor do que o mais velho. As obliqüidades determinadas por Lockyer mostram que o templo mais antigo fora construído por volta de 2.100 a.C., e o mais novo por volta de 1.200 a.C.

Investigações mais recentes, especialmente por Gerald S. Hawkins, sugerem que os raios do Sol, no solstício de inverno, deveriam ser vistos de uma parte do templo que Hawkins chamou de "Sala Elevada do Sol", e não como um raio passando por todo o comprimento do eixo, uma visão que não altera as conclusões básicas de Lockyer em relação à orientação para o solstício. Na verdade, descobertas arqueológicas posteriores em Kamak corroboram a inovação principal de Lockyer - de que a orientação dos templos muda ao longo do tempo para refletir as mudanças dessa obliqüidade. Portanto, a orientação pode servir como pista para a época de construção dos templos. Os últimos avanços arqueológicos confirmam que a construção das partes mais antigas coincide com o início do Médio Império sob a XI dinastia, por volta de 2.100 a.C. Consertos, demolições e reconstruções continuaram ao longo dos séculos seguintes, realizados por faraós de outras dinastias; os dois obeliscos foram erigidos por faraós da XIX dinastia, que reinou em 1.216-1.210 a.C. - tudo como Lockyer determinara.

A arqueoastronomia - ou astroarqueologia como sir Norman Lockyer a chamou - provou seu mérito e valor.

No início do século XX, Lockyer voltou sua atenção para Stonehenge, tendo se convencido de que o fenômeno que ele descobrira regia a orientação de templos em todas as partes do mundo antigo, como no Partenon, em Atenas. Em Stonehenge, o eixo de visão do centro através do Círculo Sarsen indicava claramente uma orientação para o solstício de verão, e Lockyer realizou suas medidas de acordo. A Pedra do Calcanhar, concluiu ele, era o indicador do ponto no horizonte onde aconteceria a esperada aurora; e o aparente giro da pedra (com o respectivo alargamento e reorientação da Avenida) sugeria a ele que à medida que os séculos passavam e a mudança no eixo da Terra alterava o ponto desse nascer do Sol, ainda que levemente, as pessoas encarregadas de Stonehenge continuavam ajustando a linha de visão.

Lockyer apresentou suas conclusões em Stonehenge and Other British Stone Monuments (1906); elas podem ser resumidas em um desenho. Presumem um eixo que começa na Pedra do Altar, passa entre as pedras sarsen numeradas de 1 a 30, ao longo da Avenida, na direção da Pedra do Calcanhar e do pilar de focalização. O ângulo de obliqüidade indicado por esse eixo o leva a sugerir que Stonehenge foi construída em 1.680 a.C. Desnecessário dizer que tal data recuada foi uma sensação e tanto na época, um século atrás, quando os estudiosos ainda pensavam em Stonehenge como sendo do tempo do rei Artur.

Os refinamentos nos estudos da obliqüidade terrestre, com margens de erro, e a determinação das várias fases de Stonehenge não diminuíram a contribuição básica de Lockyer. Embora Stonehenge III, que é o que essencialmente enxergamos hoje em dia, agora seja datado de cerca de 2.000 a.C., geralmente se concorda que a Pedra do Altar foi removida quando a reconstrução começou, em cerca de 2.100 a.C., com o duplo Círculo de Dolerito (Stonehenge II), e que foi reerguida onde está agora apenas quando os doleritos foram trazidos outra vez e os orifícios Y e Z cavados. Essa fase, designada Stonehenge III b, não foi datada com precisão; ocorreu num período entre 2.000 a.C. (Stonehenge III a) e 1.550 a.C. (Stonehenge III c) - muito possivelmente a data de 1.680 a.C. à qual chegou Lockyer. Como o desenho mostra, ele não designou uma data muito anterior para as fases iniciais de Stonehenge; isso também combina com a data atualmente aceita de 2900/2800 a.C. para Stonehenge I.

Dessa forma, a arqueoastronomia junta-se às descobertas arqueológicas e datações com carbono-14 para chegar às mesmas datas para as construções das várias fases de Stonehenge, com os três métodos em separado confirmando um ao outro. Com uma determinação tão convincente das datas para Stonehenge, a questão sobre quem a construiu toma-se mais importante. Quem, por volta de 2.900/2.800 a.C., possuía conhecimentos de astronomia (para não mencionar engenharia e arquitetura), para construir tal "computador-calendário", e, por volta de 2.100/2.000 a.C., para arranjar os vários componentes e chegar a um novo alinhamento? E por que tal realinhamento seria necessário ou desejável?

A transição da humanidade do Paleolítico (Velha Idade da Pedra), que durou centenas de milhares de anos, para o Mesolítico (Idade Média da Pedra) ocorreu abruptamente no antigo Oriente Próximo. Lá, por volta de 11.000 a.C. - logo depois do Dilúvio, segundo nossos cálculos -, a agricultura intencional e a domesticação de animais se iniciou numa profusão abundante. Evidências arqueológicas e de outra natureza (recentemente ampliadas por estudos de padrões lingüísticos) mostram que a agricultura do Mesolítico espalhou-se do Oriente Próximo para a Europa como resultado da migração de pessoas com tal conhecimento. Chegou à península Ibérica entre 4.500 e 4.000 a.C., à costa oeste de onde hoje é a França e as Terras Baixas entre 3.500 e 3.000 a.C., e às Ilhas Britânicas entre 3.000 e 2.500 a.C. Logo em seguida, o "Povo Béquer", que sabia como fazer utensílios de argila, chegou ao cenário de Stonehenge.

Porém, àquela altura o antigo Oriente Próximo já havia entrado no Neolítico (Nova Idade da Pedra), que lá começou por volta de 7.400 a.C. e cujas marcas eram a transição de pedras e argila para metais, e o aparecimento de centros urbanos. Nessa época, essa fase chega às Ilhas Britânicas com o assim chamado "Povo de Wessex" (depois de 2.000 a.C.), enquanto no Oriente Próximo a grande civilização suméria já tinha quase 2.000 anos e a egípcia mais de mil anos de idade.

Se, como todos concordam, o conhecimento científico sofisticado necessário para o planejamento, localização, orientação e construção de Stonehenge tinha de vir de fora das Ilhas Britânicas, as antigas civilizações do Oriente Próximo pareciam ser as únicas fontes possíveis, na época.

Seriam os Templos do Sol, no Egito, protótipos para Stonehenge? Temos visto que, nas datas estabelecidas para as várias fases de Stonehenge, já existiam no Egito templos elaborados que eram orientados astronomicamente. O Templo do Sol (equinocial) em Heliópolis foi construído por volta de 3.100 a.C., quando o império começou no Egito (se não antes) - vários séculos antes de Stonehenge I. A construção da fase mais antiga do templo orientado para o solstício, em homenagem a Amon-Rá, em Kamak, ocorreu em cerca de 2.100 a.C. - uma data que coincide (talvez não por acaso) com a data para a "reforma" de Stonehenge.

Portanto, é teoricamente possível que um povo Mediterrâneo - os egípcios ou um povo com a tecnologia egípcia - poderia de alguma forma contribuir para a construção de Stonehenge I, II e III, em épocas em que isso seria impossível para os habitantes do local.

Enquanto, de um ponto de vista temporal, o Egito poderia ser a fonte desse conhecimento, devemos ter em mente uma diferença entre todos os templos egípcios e Stonehenge; nenhum dos templos egípcios, sem importar a orientação, era circular como Stonehenge o era já durante as fases iniciais. As várias pirâmides eram de base quadrada; o mesmo valia para os suportes para obeliscos e os objetos piramidais; os numerosos templos eram todos retangulares. Com todas as pedras que o Egito tinha, nenhum de seus templos era um círculo de pedra.

Desde o início dos templos dinásticos no Egito, com os quais a aparência de uma civilização egípcia distinta está ligada, tinham sido os faraós a contratar arquitetos e pedreiros, sacerdotes e sábios, e decretar o planejamento e a construção dos maravilhosos edifícios de pedra. Nenhum deles, entretanto, parece ter projetado, orientado ou construído um templo circular.

E quanto aos famosos navegadores, os fenícios? Não apenas eles alcançaram as Ilhas Britânicas (principalmente em busca de estanho) tarde demais para terem construído Stonehenge I, assim como II e III, mas também nenhum exemplo de sua arquitetura apresenta a menor semelhança com o formato circular de Stonehenge. Podemos ver um templo fenício na moeda de Biblos, e ele certamente é retangular. Nas vastas plataformas de pedra em Baalbek, nas montanhas do Líbano, povos após povos e conquistadores após conquistadores construíram seus templos exatamente nas ruínas e de acordo com o formato do templo anterior. Esses, como as últimas ruínas da era romana, representam um templo retangular (área escura) com um pátio quadrado (os pavilhões com formato de losango são reformas romanas). O templo é claramente orientado segundo um eixo les­te-oeste, voltado diretamente para o leste, na direção do nascer do sol - um templo equinocial. Isso não deveria constituir surpresa, posto que nos tempos antigos o local era chamado de "Cidade do Sol" - Heliópolis, para os gregos, Bet-Sames ("Casa do Sol") na Bíblia, na época do rei Salomão.

O fato de que a forma retangular e o eixo leste-oeste não fossem uma moda passageira na Fenícia é atestado pelo templo de Salomão, o primeiro templo de Jerusalém, que foi construído segundo a ajuda dos arquitetos fenícios providenciados por Ahiram, rei de Tiro; era uma estrutura retangular num eixo leste-oeste, de frente para o leste, construído sobre uma grande plataforma feita pelo homem. Sabatino Moscati (The World of the Phoenicians) afirma sem qualificar que, "se não existem ruínas de templos fenícios, o templo de Salomão em Jerusalém, construído por trabalhadores fenícios, é descrito em detalhes no Antigo Testamento - e os templos fenícios deviam ser parecidos uns com os outros". Não havia nada circular neles.

Os círculos aparecem, no entanto, no caso de outros "suspeito" no Mediterrâneo - os micenenses, o primeiro povo helênico da Grécia Antiga. Mas estes eram no início o que os arqueólogos chamaram de Tumbas Circulares - poços para sepultamento cercados por um círculo de pedras, que evoluíram para tumbas circulares ocultas sob um monte cônico de terra. Porém isso aconteceu por volta de 1.500 a.C., e o maior deles, chamado de "O Tesouro de Atreus", por causa dos artefatos de ouro encontrados ao redor dos mortos, remonta a 1.300 a.C. Os arqueólogos que aderiram à ligação com Micenas comparam tais montes fúnebres no Mediterrâneo oriental com Silbury Hill, na região de Stonehenge, ou com um outro em Newgrange, do outro lado do mar da Irlanda, em Boyne Valley, County Meath, na Irlanda; porém Silbury Hill foi datada por carbono, e não foi construída depois de 2.200 a.C., assim como o monte fúnebre em Newgrange é da mesma época - quase mil anos antes que o Tesouro de Atreus e outros exemplos micênicos; o período dos montes fúnebres é ainda mais distante de Stonehenge I. Na verdade, os montes fúnebres nas Ilhas Britânicas são mais parecidos, em construção e na época, com aqueles exemplos do Mediterrâneo ocidental, como Los Millares, no sul da Espanha.

Acima de tudo, Stonehenge nunca serviu como túmulo. Por todos esses motivos, a busca de um protótipo - uma estrutura circular que sirva a propósitos astronômicos - deve continuar além do Mediterrâneo oriental.

Mais antiga do que os egípcios e possuindo muito mais conhecimentos científicos avançados, a civilização suméria poderia ter servido, teoricamente, como inspiração para Stonehenge. Entre as surpreendentes conquistas dos sumérios estão as grandes cidades, uma linguagem escrita, literatura, reis, tribunais, leis, juízes, mercadores, artesãos, poetas e dançarinos. As ciências surgiram no interior dos templos, onde os "segredos dos números e dos céus" - matemática e astronomia - eram mantidos, ensinados e transmitidos por gerações de sacerdotes que realizavam suas funções por trás das paredes dos templos sagrados. Tais templos geralmente incluíam santuários dedicados a várias divindades, residências, locais de trabalho e de estudo para os sacerdotes, armazéns e outros prédios administrativos e - como figura dominante do local mais sagrado da cidade - um zigurate, uma pirâmide que se elevava ao céu em andares (geralmente sete). O andar mais alto era uma estrutura de vários aposentos, cujo propósito - literal - era servir de residência do grande deus cujo "centro de culto" (como os estudiosos gostam de chamar) era a própria cidade.

Uma boa ilustração do projeto de tal construção sagrada; o zigurate, é uma reconstrução baseada em descobertas arqueológicas na área local sagrada em Nippur (NI.IBRU em sumério), o "quartel-general" dos primeiros dias do deus Enlil; mostra um zigurate com uma base quadrada no interior de um terreno retangular. Arqueólogos bafejados pela sorte desenterraram uma tábua na qual um cartógrafo antigo desenhou um mapa de Nippur; mostra claramente o terreno sagrado retangular com o zigurate de base quadrada, o nome (em escrita cuneiforme), o E.KUR - "Casa, que parece urna montanha". A orientação do zigurate e dos templos era tal que os cantos da estrutura apontavam para os quatro pontos cardeais, de forma que os lados da estrutura se voltavam para o nordeste, sudoeste, noroeste e sudeste.

Orientar os cantos do zigurate de acordo com os pontos cardeais - sem uma bússola - não era uma tarefa fácil. Mas era tal orientação que tomava possível varrer os céus em muitas direções e ângulos. Cada estágio do zigurate providenciava um ponto mais alto, e, dessa forma, um horizonte diferente, ajustável à localização geográfica; a linha entre os cantos leste e oeste providenciava a orientação para os equinócios; os lados proporcionavam uma vista do solstício tanto no nascer quanto no pôr-do-sol, no verão e no inverno. Astrônomos modernos têm encontrado muitas dessas orientações para observação no famoso zigurate da Babilônia, cujas medidas precisas e planos de construção foram localizados em tábuas de argila.

Estruturas quadradas ou retangulares, com ângulos precisos, eram as formas tradicionais dos zigurates e templos da Mesopotâmia, quer examinemos o local sagrado de Ur - por volta de 2.100 a.C., a época de Stonehenge II -, quer retornemos aos templos mais antigos, construídos numa plataforma mais elevada, que remontam a 3.100 a.C. - dois ou três séculos antes das datas de Stonehenge I.

A forma deliberada pela qual os templos mesopotâmicos, em todas as épocas, receberam o formato retangular e orientações específicas podem ser facilmente inferida do projeto na Babilônia, ao se comparar o traçado aleatório dos prédios e cidades nos tempos babilônicos com o desenho perfeitamente geométrico e reto dos locais sagrados e com a forma quadrada de seu zigurate.

mm encontradas nas ruínas de cidades mais novas; um local sagrado (como esse num local chamado Khafajeh) era muitas vezes cercado por um muro oval. Fica claro que evitar a conhecida forma circular nos templos foi intencional.

Os templos mesopotâmicos eram assim retangulares, e os zigurates, de base quadrada e intencional. Para o caso de alguém se perguntar se isso era porque os sumérios e seus sucessores não conheciam o círculo nem eram capazes de construir um, é suficiente lembrar que nas tabelas matemáticas certos números-­chave do sistema sexagesimal (base 60) eram representados por círculos; em tabelas que lidavam com geometria e medidas de terras, as instruções para medir áreas regulares e irregulares incluíam círculos. A roda circular era conhecida - mais uma "inovação" suméria. Residências claramente circulares foram encontradas nas ruínas de cidades mais novas; um local sagrado (como esse num local chamado Khafajeh) era muitas vezes cercado por um muro oval. Fica claro que evitar a conhecida forma circular nos templos foi intencional.­

Assim havia diferenças básicas quanto ao projeto, à arquitetura e à orientação entre os templos sumérios e Stonehenge, ao que se poderia acrescentar que os sumérios não trabalhavam com pedras (pois não havia pedreiras nas planícies de aluvião entre os rios Tigre e Eufrates). Os sumérios não foram os que planejaram e executaram Stonehenge; e a única coisa que pode ser considerada uma exceção às descobertas e templos sumérios, como veremos, reforça essa conclusão.

Portanto, se os egípcios, fenícios, primeiros gregos ou os sumérios e seus sucessores não construíram Stonehenge, quem teria vindo à planície de Salisbury para planejar e supervisionar sua construção?

Uma pista interessante emerge quando se lêem as lendas que se referem aos túmulos de Newgrange. Segundo Michael J. O'Kelly, um grande arquiteto e explorador do local e seus arredores (Newgrange: Archaeology, Art and Legend), o local era conhecido no folclore da Irlanda por vários nomes que o designavam como Brug Oengusa, a "Casa de Oengus", filho do deus principal do panteão pré-celta, que viera "do Outromundo" para a Irlanda. Esse deus principal era conhecido como An Dagda, "An, o bom deus"...

De fato era impressionante encontrar o nome da divindade principal em todos esses locais diversos - na Suméria e em seu E.ANNA, o zigurate de Uruk; na Heliópolis dos egípcios, cujo verdadeiro nome era Anu; e na Irlanda distante...

Isso poderia ser uma pista importante e não uma insignificante coincidência, o que se torna possível ao se examinar o nome do filho desse" deus-chefe", Oengus. Quando o sacerdote babilônico Beroso escreveu, por volta de 290 a.C., a história e a pré-história da Mesopotâmia e da humanidade, segundo os registros sumérios e babilônicos, ele (ou os gregos que os copiaram) citam o nome de Enki, "Oanes". Enki era o líder do primeiro grupo de anunaques que desceu à Terra, no golfo Pérsico; era o cientista-chefe dos anunaques e o que escrevia toda a sabedoria nos ME, enigmáticos objetos que, com nossa tecnologia presente, poderíamos comparar a discos de memória de computador. De fato, ele era filho de Anu; teria sido ele quem se tornaria o deus Oengus do mito pré-celta, o filho de An Dagda?

"Tudo o que sabemos foi ensinado pelos deuses", repetiam sempre os sumérios.

Quer dizer que não foram os povos antigos que criaram Stonehenge e sim os deuses antigos?

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DUR.AN.KI - A "Ligação Céu-Terra”

Desde os primeiros tempos, o homem tem levantado seus olhos para os céus a fim de receber orientação divina, inspiração e ajuda em tempos turbulentos. Desde o início, mesmo quando a Terra foi separada do "Céu" ao ser criada, o céu e a Terra continuaram se encontrando no horizonte. Foi lá, onde o homem olhou na distância, ao nascer ou ao pôr-do-sol, que ele pôde ver o Senhor Celeste.

Céu e Terra se encontram no horizonte, e o conhecimento obtido da observação dos céus e dos movimentos celestes resultantes é chamado de astronomia.

Desde os primórdios, o homem soube que seus criadores vinham do céus - anunaques, ele os chamou, literalmente "Aqueles que do Céu para a Terra vieram". A verdadeira habitação deles era nos céus, o homem sabia: "Pai nosso, que estais no céu", os homens aprenderam a dizer. Porém aqueles anunaques que vieram ficaram na Terra e podiam ser adorados nos templos.

O homem e seus deuses se encontravam nos templos; o conhecimento, os rituais e as crenças que resultavam disso eram chamados de religião.

O mais importante "centro de culto", o "umbigo da Terra" foi a cidade de Enlil, no que foi depois chamado de Suméria. Era o centro geográfico, das religiões e filosofias: Nippur era o Centro de Controle de Missão; seu Santo dos Santos, onde as tábuas do Destino eram mantidas, chamava-se DUR.AN.KI - "Ligação Céu-Terra".

Desde então, em todas as épocas, em todos os lugares e em todas as religiões, os locais de adoração foram chamados templos, e a despeito de todas as mudanças pelas quais eles, a humanidade e suas religiões passaram, permaneceu a Ligação Céu-Terra.

Nos tempos antigos a astronomia e a religião eram ligadas: os sacerdotes eram astrônomos e os astrônomos eram sacerdotes. Quando Iavé fez sua aliança com Abraão, mandou que este saísse e erguesse os olhos na direção do céu, a fim de contar as estrelas. Havia mais do que um estratagema fútil nisso, pois o pai de Abraão, Tera, era um sacerdote do oráculo em Nippur e Ur, portanto conhecedor de astronomia.

Naqueles dias, cada um dos Grandes Anunaques tinha um equivalente celeste, e como o Sistema Solar possuía doze membros, o "Círculo Olímpico", ao longo dos milênios, incluindo a época dos gregos, sempre foi relacionado ao número doze. Por isso, a adoração dos deuses estava diretamente relacionada aos movimentos dos corpos celestes, e as admoestações bíblicas contra a adoração" do Sol, da Lua e das Hostes do Céu" eram na realidade avisos sobre adorar outros deuses que não Iavé.

Os rituais, festivais, dias de abstinência e outros ritos que expressavam a adoração dos deuses eram assim sintonizados com os movimentos de seus equivalentes celestes. A adoração requer um calendário; templos eram observatórios; sacerdotes eram astrônomos. Os zigurates eram Templos de Tempo, nos quais a guarda do tempo juntava-se à astronomia para formalizar a adoração.

Tornou Adão a conhecer sua mulher,

E [ela] deu à luz um filho, e deu-lhe o nome de Set [dizendo]:

Ora, pôs-me Deus outra semente em lugar de Abel, porquanto, matou-o Caim.

E Set, também a ele nasceu um filho, e deu-lhe o nome de Enoch:

E foi então que se começou a invocar o nome do Eterno.

Assim, de acordo com a Bíblia (Gênesis 4:25-26), foi que o filho de Adão começou a adorar seu Deus. Como esse chamado pelo nome do Senhor era feito - que forma assumia, quais os rituais envolvidos - não ficamos sabendo. Aconteceu, a Bíblia deixa claro, em tempos remotos, bem antes do Dilúvio. Textos sumérios, entretanto, esclarecem o assunto. Não apenas afirmam repetida e enfaticamente - que existiam Cidades dos Deuses na Mesopotâmia antes do Dilúvio, e que quando o Dilúvio ocorreu ainda existiam "semideuses" (filhos de "Filhas dos Homens" e de "deuses" anunaques), mas também que a adoração ocorria em locais consagrados (nós os chamamos templos). Já existiam, conforme vimos no texto anterior, Templos de Tempo.

Uma das versões mesopotâmicas dos eventos que levaram ao Dilúvio é o texto conhecido (por suas palavras iniciais) como “Quando os deuses gostam dos homens", no qual o herói do Dilúvio é chamado de Atra-Hasis ("Aquele que é excessivamente sábio"). A história relata como Anu, o governante de Nibiru, voltou a seu planeta de uma visita à Terra, depois de acomodar uma distribuição de poderes e territórios entre seus dois filhos, os meios-­irmãos Enlil ("Senhor do Governo") e Enki ("Senhor da Terra"), deixando Enki encarregado das operações de mineração de ouro na África. Depois de descrever o trabalho duro dos anunaques designados para as minas, um motim e a decorrente criação, por meio de engenharia genética, por Enki e sua meia-irmã Ninharsag, do Adamu, um "trabalhador primitivo", o épico relata como a humanidade começou a procriar e multiplicar-se. Com o tempo, a humanidade começou a aborrecer Enlil por suas excessivas “conjugações", especialmente com os anunaques (uma situação refletida na versão bíblica da história do Dilúvio); Enlil prevaleceu no Grande Conselho dos anunaques, a ponto de usar a catástrofe já prevista da inundação para varrer a humanidade da face da Terra.

Porém Enki, embora tivesse jurado não divulgar a decisão entre os humanos, não estava contente e procurou formas de contornar a resolução. Escolheu fazer isso pela intermediação de Atra­-Hasis, que era filho de Enki com uma mãe humana. O texto, que às vezes assume um estilo biográfico, como se escrito pelo próprio Atra-Hasis, afirma: “Sou Atra-Hasis; moro no templo de Enki, meu senhor...", uma afirmação que claramente estabelece a existência de um templo naquela época remota antes do Dilúvio.

Descrevendo as condições climáticas a piorar por um lado e as medidas duras de Enlil contra a humanidade no período que precedeu o Dilúvio, o texto cita o conselho de Enki às pessoas por meio de Atra-Hasis, agora protestando contra o decreto: a adoração aos deuses devia parar!

"Enki abriu a boca e dirigiu-se a seu servo", dizendo:

Os mais velhos, num sinal, convocaram a Casa do Conselho.

Deixe que os arautos proclamem a ordem, Bem alto pela terra:

Não reverenciem seus deuses, não rezem para suas deusas.

À medida que a situação ficava pior e a catástrofe se aproximava, Atra-Hasis persistiu em sua interação com seu deus Enki. "No templo de seu deus... ele pisou... todos os dias chorava, trazendo sacrifícios pela manhã." Buscando o auxílio de Enki para ajudar a evitar o desaparecimento da humanidade, "ele chamava o nome de seu deus" - palavras que empregam a mesma terminologia do que no texto já citado da Bíblia. Ao final, Enki resolveu subverter a decisão do Conselho dos Anunaques chamando Atra-Hasis para o templo e falando a ele por trás de um biombo. O evento foi registrado num cilindro sumério, mostrando Enki (como deus-serpente) a revelar os segredos do Dilúvio a Atra-Hasis, dando-lhe instruções para construir um submersível que suportasse a quantidade de água; avisou-o para não perder tempo, pois só tinha sete dias antes que a catástrofe começasse. Para certificar-se de que Atra-Hasis não iria perder tempo, Enki colocou em ação um dispositivo para medir o tempo:

Ele abriu o relógio de água e o encheu;

A chegada da enchente na sétima noite

Ele [Enki] marcou para ele [Atra-Hasis]

Essa informação, pouco ressaltada, revela que o tempo era mantido nos templos e que essa medida de tempo retorna ao mais antigo, até nos tempos antediluvianos. Assumiu-se que a antiga ilustração mostra (à direita) o biombo de juncos atrás do qual Enki falou ao herói da Grande Enchente, o Noé bíblico. É preciso imaginar, porém, que o que vemos não seja um biombo, mas uma representação de um relógio pré-histórico de água (seguro por um sacerdote).


Enki era o cientista-chefe dos anunaques; não é de espantar, portanto, que tenha sido em seu "centro de culto" Eridu que os primeiros cientistas humanos, os Homens Sábios, serviram como sacerdotes. Um dos primeiros, se não o primeiro, era chamado Adapa. Embora o texto original sumério não tenha sido encontrado, as versões acadiana e assíria em fragmentos de argila atestam sua importância. Somos informados no começo que as palavras de sabedoria de Adapa eram quase tão boas quanto as do próprio Enki. O texto explica que Enki "havia aperfeiçoado para ele uma compreensão ampla, revelando todos os projetos da Terra; a Sabedoria lhe fora dada por ele". Tudo foi feito no templo; Adapa ia "todos os dias ao santuário de Eridu".

Segundo as crônicas sumérias do início, era no templo de Eridu que Enki, como guardião dos segredos de toda a sabedoria científica, guardava os ME - objetos em forma de tábuas nos quais os dados científicos estavam inscritos. Um dos textos sumérios detalha como a deusa Inana (mais tarde conhecida como Ishtar), querendo conferir status ao seu "centro de culto", Uruk (a Erech bíblica), enganou Enki para que este lhe desse algumas dessas fórmulas divinas.

Inana

Adapa, descobrimos, também tinha o nome de NUN.ME, que significava "Aquele que pode decifrar as ME". Mesmo nos milênios que se seguiram, nos tempos assírios, a expressão "sábio como Adapa" significava que alguém tinha muita sabedoria e conhecimento. O estudo das ciências na Mesopotâmia muitas vezes era referido como Shunnat apkali Adapa, "repetição do grande ancestral Adapa". Uma carta do rei assírio Assurbanipal mencionava que seu avô, o rei Senaqueribe, conseguira grande sabedoria quando Adapa aparecera para ele num sonho. A "grande sabedoria" dividida por Enki com Adapa incluía a escrita, a medicina e - de acordo com a série astronômica de tábuas UD.SAR.ANUM.ENLILLA ("Os Grandes Dias de Anu e Enlil") - sabedoria de astronomia e astrologia.

Embora Adapa tenha ido diariamente ao santuário de Enki, parece, a julgar pelos textos sumérios, que o primeiro sacerdote apontado oficialmente - uma função que depois passou hereditariamente de pai para filho - recebeu o nome de EN.MEDUR.AN.KI - "Sacerdote dos ME de Duranki", o local sagrado de Nippur. O texto relata a maneira pela qual os deuses "mostraram como observar óleo e água, os segredos de Anu, Enlil e Enki. Deram a ele a Tábua Divina, os registros dos segredos do Céu e da Terra. Eles o ensinaram a fazer cálculos com números" - o conhecimento de matemática e astronomia, e da arte de medir, inclusive o tempo.

Muitas das tábuas da Mesopotâmia que lidavam com matemática, astronomia e calendário surpreenderam os cientistas por sua sofisticação. No centro dessas ciências estava um sistema matemático chamado sexagesimal (base 60), cuja natureza avançada, incluindo seus aspectos celestes, já foi discutida. Essa sofisticação estava presente até mesmo nos primeiros tempos que alguns chamam pré-dinásticos: tábuas aritmeticamente gravadas que foram encontradas atestam o uso do sistema sexagesimal e o hábito de fazer registros numéricos. Desenhos em objetos de argila, também dos mais antigos, não deixam dúvidas em relação ao alto nível de conhecimento geométrico naquela época remota, seis mil anos atrás. E é preciso pesquisar se esses desenhos são meramente decorativos, ou se (pelo menos alguns deles) representam conhecimento em relação à Terra, seus quatro "cantos" e talvez até as formas astronomicamente relacionadas. O que esses desenhos também mostram se aplica a um ponto importante abordado no capítulo anterior: o círculo e as formas circulares eram obviamente conhecidos na antiga Mesopotâmia e podiam ser desenhados com perfeição.

Informações adicionais em relação à antiguidade das ciências exatas podem ser retiradas das histórias sobre Etana, um dos primeiros soberanos sumérios. No princípio considerado um herói mítico, ele é agora reconhecido como personagem histórico. Segundo as Listas de Reis Sumérios, quando o reinado - um tipo organizado de civilização - foi "permitido mais uma vez pelos céus" depois do Dilúvio, "o primeiro reino foi em Kish" - ­uma cidade cujos restos e antiguidade foram encontrados e confirmados pelos arqueólogos. Seu décimo primeiro monarca foi chamado Etana, e as Listas de Reis, que apenas registram os nomes dos soberanos e o tempo de cada reinado, fazem uma exceção a Etana, adicionando após seu nome uma anotação: "Um pastor; ele que subiu ao céu, que consolidou todas as terras". Segundo Thorkild Jacobsen (The Sumerian King List), o reinado de Etana começou por volta de 3.100 a.C.; escavações em Kish têm desenterrado os restos de construções monumentais e um zigurate (templo em andares) que data da mesma época.

Ao final do Dilúvio, quando a planície entre os rios Tigre e Eufrates secou o suficiente para permitir seu aproveitamento, as Cidades dos Deuses foram reconstruídas exatamente onde haviam estado antes, de acordo com o "plano antigo". Kish, a primeira "Cidade dos Homens", era completamente nova e seu lugar e planejamento precisavam ser determinados. Tais decisões, conforme lemos na História de Etana, eram tomadas pelos deuses, empregando o conhecimento científico da geometria para o planejamento e da astronomia para orientação.

Os deuses traçaram uma cidade;

Sete deuses estabeleceram sua fundação.

A cidade de Kish eles traçaram, e lá os sete deuses colocaram sua fundação.

Uma cidade eles estabeleceram, um lugar para estar; mas um Pastor retiveram.

Os doze governantes que precederam Etana ainda não possuíam o título sumério do nível de sacerdote real EN.SI - "Senhor Pastor" ou como preferem alguns "Pastor Justo". Ao que parece, a cidade só poderia atingir seu status quando os deuses tivessem encontrado o homem certo para construir um tem­plo-zigurate, e, ao tornar-se um rei-sacerdote, receber o título EN.SI. Quem seria "seu construtor, aquele que iria erguer o E.HURSAG.KALAMMA"?, perguntavam os deuses - a construir a "Casa" que será "A montanha-guia para todas as terras"?

A tarefa de "procurar um rei em todas as terras, acima e abaixo", foi entregue a Inana/Ishtar. Ela encontrou e recomendou Etana - um humilde pastor. Enlil, "aquele que garante a realeza", precisava fazer a confirmação. Lemos que "Enlil inspecionou Etana, o jovem a quem Ishtar indicou. 'Ela procurou e encontrou!', comentou ele. 'Na Terra a realeza vai se estabelecer; que Kish alegre seu coração!' “

Agora vem a parte "mitológica". A breve notação nas Listas de Reis de que Etana subiu ao céu deriva de uma crônica que os estudiosos chamam de a "lenda" de Etana, que narra como este, com a permissão do deus Utu/Shamash, encarregado do espaçoporto, foi carregado por uma "águia". Quanto mais alto se erguia, menor a Terra parecia. Depois do primeiro beru do vôo, a terra "tomou-se uma pequena colina"; depois do segundo beru a terra parecia um sulco; após o terceiro beru, era uma vala de jardim; depois de mais um beru, a terra desapareceu completamente. "Quando olhei ao redor, a terra tinha desaparecido, e sobre o mar meus olhos não puderam rejubilar-se.”

Um beru era uma unidade de medida na Suméria - (uma "légua") e de tempo (uma "hora dupla", a décima segunda parte de um período dia-noite, que agora dividimos em vinte e quatro horas). Permanecia uma unidade de medida em astronomia, quando representava uma décima segunda parte do círculo celeste. O texto da História de Etana não deixa claro qual unidade de medida - distância, tempo ou arco - fora aplicada; talvez as três. O que o texto deixa claro é que a época remota, quando o primeiro verdadeiro Rei-Pastor foi empossado, na Cidade dos Homens, a distância, o tempo e os céus já podiam ser medidos.

Como primeira cidade real - sob a proteção de "Nimrod" -, Kish é mencionada na Bíblia (Gênesis capítulo 10); e alguns outros aspectos dos eventos registrados pela Bíblia requerem exploração. Isso ocorre por causa da menção, na História de Etana, dos sete deuses envolvidos no planejamento - portanto, na orientação - da cidade e de seu zigurate.

Como todos os deuses principais da antiga Mesopotâmia possuíam equivalentes celestes entre os doze membros do Sistema Solar, assim como um equivalente entre as doze constelações do zodíaco e os doze meses, é preciso perguntar-se se a referência à determinação da orientação de Kish e seu zigurate pelos "sete deuses" não se refere exatamente aos sete planetas que essas divindades representam. Estariam os anunaques esperando pelo alinhamento propício de sete planetas como o tempo e orientação corretos para Kish e seu zigurate?

Podemos lançar mais luz sobre o assunto, acreditamos, se fizermos uma viagem de mais de dois mil anos no tempo até a Judéia de cerca do ano 1.000 a.C. Incrivelmente, descobrimos que cerca de três mil anos atrás as circunstâncias que cercavam a escolha de um pastor para ser o construtor de um novo templo numa nova capital real emulavam os eventos e circunstâncias registrados na História de Etana; o mesmo número sete, com um significado ligado ao calendário, também desempenhou um papel.

A cidade da Judéia aludida acima era Jerusalém. Davi, que então pastoreava os rebanhos de seu pai, Jessé, foi escolhido pelo Senhor para o reinado. Depois da morte do rei Saul, quando Davi reinou em Hebron sobre a tribo de Judá, representantes das outras onze tribos "vieram até Davi, em Hebron" e pediram que ele reinasse sobre todos, lembrando-o que Iavé lhe dissera: "Você vai pastorear meu povo de Israel e deve se tornar Nagid sobre Israel" (Samuel II 5:2).

Dependendo da versão da Bíblia, o termo Nagid é traduzido como "capitão", "comandante" e até "Príncipe". Nenhuma delas parece ter compreendido que Nagid é uma palavra que foi importada intacta da linguagem suméria, em que significa: "pastor"!

A principal preocupação dos israelitas na época era a necessidade de encontrar um lar para a Arca da Aliança - não apenas um lar permanente, mas seguro. Originalmente feita e colocada por Moisés no Tabernáculo durante o Êxodo, ela continha as duas tábuas de pedra inscritas com os Dez Mandamentos no monte SinaL Feita com uma madeira específica e recoberta de ouro por dentro e por fora, era guardada por dois querubins elaborados a partir de ouro endurecido, com asas estendidas na direção um do outro; a cada vez que Moisés conversava com Deus, Iavé falava com ele "entre os dois querubins". Acreditamos que a Arca, com suas camadas isolantes de ouro e os querubins, era um dispositivo de comunicação, talvez alimentado eletricamente (quando ela era tocada inadvertidamente, a pessoa envolvida caía morta).

Iavé dera instruções bastante detalhadas em relação à construção do Tabernáculo e à sua vedação, assim como para a Arca, incluindo o que poderia ser chamado de um "manual de operações" para a desmontagem e montagem de todo o material, assim como para o transporte. Por volta da época de Davi, entretanto, a Arca não mais era carregada por varas de madeira, mas transportada numa carruagem com rodas. Era movida de um lugar temporário para outro, e um trabalho à altura do novo soberano ungido seria estabelecer uma capital nacional em Jerusalém e, portanto, construir um lar permanente para a Arca da Aliança, uma "Casa do Senhor".

Porém, isso não aconteceria. Falando com o rei Davi por meio do profeta Nathan, o Senhor o informou de que não seria ele mas seu filho a ter o privilégio de construir uma Casa de Cedros para Iavé. Assim, uma das primeiras tarefas do rei Salomão foi construir a "Casa de Iavé" (agora referindo-se ao Primeiro Templo) em Jerusalém. Construído como local sagrado no Sinai, foi erigido de acordo com todas as instruções fornecidas e detalhadas. Na verdade, esses planos eram quase idênticos aos do Sinai. Ambos foram orientados segundo um eixo leste-oeste preciso, sendo identificados como templos equinociais.

As semelhanças entre Kish e Jerusalém como nova capital nacional, um rei-pastor e a tarefa de construir um templo cujos planos tinham sido fornecidos pelo Senhor são enfatizadas pelo significado do número sete.

Em Reis I (cap. 3) somos informados que Salomão continuou a organizar a preparação do projeto (envolvia, entre outras coisas, 80.000 trabalhadores de pedreira e 70.000 carregadores na força de trabalho) só depois que Iavé apareceu para ele em Gabaão "numa visão noturna". A construção, que durou sete anos, começou com a pedra fundamental, no quarto ano do reinado de Salomão e "no décimo primeiro ano, no mês de Bul, que é o oitavo do ano, o templo ficou completo em todos os seus detalhes e exatamente de acordo com seu plano". Porém, embora completo, sem que nenhum detalhe faltasse ou tivesse sido omitido, ele não foi inaugurado.

Só onze meses mais tarde, "no mês de Etanim, o sétimo mês, no festival", os anciãos e chefes tribais de todos os locais reuniram-se em Jerusalém "e os sacerdotes trouxeram a Arca da Aliança com Iavé em seu lugar, no Dvir do templo, que é o Santo dos Santos, sob as asas dos querubins... e não havia nada na arca, a não ser as duas tábuas de pedra que Moisés colocara ali no deserto, depois de Iavé fazer um pacto com os Filhos de Israel que tinham deixado o Egito. E quando os sacerdotes saíram do Santo dos Santos, uma nuvem encheu a Casa de Iavé". E Salomão orou a Iavé, pedindo a "Ele que vive nos céus" que viesse para escutar as orações de seu povo no novo templo.

O longo adiamento da inauguração do templo era necessário, ao que parece, para que tudo acontecesse "no sétimo mês, no festival". Não havia dúvida de que o festival mencionado era o Ano Novo, em concordância com os mandamentos que mencionam dias santos e festivais, no livro bíblico do Levítico. "Existem datas marcadas para Iavé", afirma o prólogo do capítulo 23; a observância do sétimo dia como sábado é apenas o primeiro dos dias santos a ser comemorado em intervalos de múltiplos de sete dias, ou que deveriam durar sete dias, culminando com os festivais do sétimo mês: o Ano Novo, o Dia do Perdão e a Festa de Tabernáculos.

Na Mesopotâmia, àquela altura, a Babilônia e a Assíria haviam suplantado a Suméria, e as festividades de Ano Novo eram comemoradas - conforme indicava o nome - no primeiro mês, Nissan, que coincidia com o equinócio de primavera. Os motivos pelos quais os israelitas foram levados a festejar o Ano Novo no sétimo mês, coincidindo com o equinócio de outono, permanecem inexplicados na Bíblia. Mas podemos encontrar uma pista no fato de que a narrativa bíblica não chama o mês por seu nome babilônico-assírio, Tishrei, mas pelo enigmático nome Etanim. Não há até hoje uma explicação satisfatória para esse nome; mas uma solução nos ocorre: em vista de todas as semelhanças citadas até agora entre o rei-sacerdote como pastor, as circunstâncias da fundação de uma nova capital e a construção da residência de Iavé no deserto e em Jerusalém, a pista para o nome do mês deve ser procurada na História de Etana. Pois o nome usado na Bíblia, Etanim, não deriva diretamente do nome Etana?

O nome Etan, como nome pessoal, pode-se observar, não era incomum entre os hebreus, significando "heróico, poderoso".

O alinhamento celeste em Kish, reparamos, não era expresso, apenas na orientação solar do templo, mas também num relacionamento com os sete "deuses" planetários nos céus. Vale notar que numa discussão de August Wünsche sobre as similaridades entre os edifícios de Salomão em Jerusalém e o "retrato dos céus" na Mesopotâmia (Ex Oriente Lux, v. 2) ele cita a referência rabínica - como na História de Etana - às "sete estrelas que indicam o tempo" - Mercúrio, Lua, Saturno, Júpiter, Marte, Sol e Vênus. Existem muitas pistas e indicações que confirmam os aspectos relativos ao céu e ao calendário do Templo de Salomão - aspectos que se ligam à sua tradição e orientações estabelecidas milênios antes, na Suméria.

Isso não se reflete apenas na orientação, mas também na divisão tripartida do templo; imita os planos tradicionais de templos que se iniciaram na Mesopotâmia milênios antes. Günter Martiny, que em 1930 liderou os estudos em relação à arquitetura e orientação astronômica dos templos mesopotâmicos (Die Gegenstitze im Babylonischen und Assyrischen Tempelbau e outros estudos), esboçou assim uma planta básica de três elementos, formando a "estrutura de culto": uma ante-sala retangular, um saguão ritual alongado e um Santo dos Santos quadrado. Walter Andrae (Des Gotteshaus und die Urformen des Bauens) lembrou que na Assíria a entrada do templo era flanqueada por dois pilões; isso refletiu-se no Templo de Salomão, em que a entrada era flanqueada por dois pilares soltos.

As informações detalhadas de arquitetura e construção com respeito ao Templo de Salomão na Bíblia chama sua ante-sala de Ulam, o saguão para rituais de Hekhal e a parte mais sagrada de Dvir. Essa última, que significa "onde o falar pode acontecer", sem dúvida reflete o fato de que Deus falava a Moisés por meio da Arca da Aliança, a voz vindo do ponto onde as asas dos querubins se tocavam; e a Arca foi colocada no Templo como o único artefato na parte mais sagrada, o Santo dos Santos ou Dvir. A terminologia usada para as duas partes, conforme os estudiosos reconheceram, vem dos sumérios (via Acádia): E-gal e Ulamu.

Essa divisão essencial em três partes, adotada mais tarde em todos os locais (por exemplo, o templo de Zeus em Olímpia, ou O templo cananeu em Tainat, na Síria), foi na realidade uma continuação que se iniciou com a maior parte dos templos antigos, os zigurates da Suméria, em que o caminho para o topo do zigurate, passando pelas escadas, atravessava dois santuários: um santuário exterior com dois pilões à frente e uma sala de orações - desenhada por G. Martin, em seus estudos.

Assim como no Tabernáculo do Sinai e no Templo de Jerusalém, também os utensílios e objetos usados nos rituais dos templos eram inicialmente feitos de ouro. Textos que descrevem os rituais dos templos em Uruk mencionam taças, bandejas e incensários de ouro; tais objetos foram encontrados em escavações arqueológicas. A prata também era usada, sendo um exemplo o vaso gravado que Entemena, um dos primeiros reis sumérios, deu de presente ao deus Ninurta no templo de Lagash. Os objetos votivos eram artísticos, geralmente ostentando uma inscrição na qual o rei afirmava que ele era oferecido para que o rei pudesse ter longa vida.

Tais apresentações só podiam ser feitas com a permissão dos deuses, e, em muitos casos, eram eventos de grande significado, valendo a pena uma comemoração nas Fórmulas de Data - listas de reinados em que cada ano era nomeado pelo evento mais importante; a ascensão do rei ao trono, uma guerra, a apresentação de um novo artefato para o templo. Assim, um rei de Isin (Ishbi-Erra) chamou ao décimo nono ano de seu reinado "O ano em que o trono da Casa Grande da deusa Ninlil foi feito"; e outro governante de Isin (Ishme-Dagan) chamou a um dos anos de seu reinado: "O ano em que Ishme-Dagan fez uma cama de ouro e prata para a deusa Ninlil".

Porém, por serem construídos de tijolos de argila, os templos da Mesopotâmia com o passar do tempo sofriam com a falta de manutenção, necessária principalmente em decorrência dos terremotos. Manutenção e reparos constantes eram exigidos, e, em vez de oferendas de novas peças de mobília, reparos ou reconstrução das casas dos deuses começaram a preencher as Fórmulas de Data. Assim, as listas anuais do famoso Hamurabi, rei da Babilônia, começavam com a designação do Ano Um como o "ano em que Hamurabi construiu um muro para o santuário". Um sucessor de Hamurabi na Babilônia, o rei Shamshi-Iluna, chamou o décimo oitavo ano de seu reinado de o "ano em que o trabalho de reconstrução foi feito no E.BABBAR do deus Utu em Sippar" (E.BABBAR, que significa "Casa daquele que Brilha", era um templo dedicado ao "deus-Sol" Utu/Shamash).

Os sumérios, depois os acadianos, os babilônios e os assírios, registravam com grande orgulho em suas inscrições como consertavam, embelezavam ou reformavam os templos sagrados e seus terrenos; escavações arqueológicas não apenas descobriram tais inscrições, mas também corroboraram os pedidos ali gravados. Em Nippur, por exemplo, os arqueólogos da Universidade da Pensilvânia descobriram na década de 1880 evidências de trabalhos de reparo e manutenção do recinto sagrado, em cerca de onze metros de entulho acumulados durante cerca de quatro mil anos por cima de um pavimento de tijolos construído pelo rei acadiano Naram-Sin em cerca de 2.250 a.C. e outra acumulação de entulho de mais de 10 metros abaixo do pavimento de tempos mais antigos até solo virgem (que não foi escavado e examinado na época).

Voltando a Nippur meio século depois, uma expedição conjunta da Universidade da Pensilvânia e do Instituto Oriental da Universidade de Chicago passou várias temporadas de escavação trabalhando para desenterrar o templo de Enlil no santuário de Nippur. Os escavadores encontraram cinco construções sucessivas entre 2.200 e 600 a.C., as últimas tendo o assoalho cerca de sete metros sobre as primeiras. Os templos ainda mais antigos, observou na época o relatório dos arqueólogos, ainda precisavam ser escavados. O relatório também registrava que os cinco templos tinham sido "construídos uns sobre os outros, porém exatamente no mesmo plano".

A descoberta de que os templos eram erigidos sobre as fundações de templos mais antigos, respeitando completamente os planos originais, foi confirmada em outros locais da Mesopotâmia. A regra se aplicava até mesmo à ampliação dos templos ­ ainda que mais de uma vez, como aconteceu em Eridu; em todos os casos o eixo original e a orientação foram respeitados. Ao contrário dos templos egípcios, cuja orientação para o solstício precisa de ajuste periódico por causa da mudança na inclinação, os templos mesopotâmicos equinociais não precisavam de ajuste em sua orientação porque o norte e o leste geográficos, por definição, permanecem inalterados, não importa quanto o eixo da Terra tenha mudado: o Sol sempre passa por sobre o equador em horários do "equinócio", nascendo nessas datas precisamente no leste.

A obrigação de aderir aos "planos originais" foi declarada numa inscrição em uma tábua encontrada em Nínive, a capital assíria, entre as ruínas do templo em reconstrução. Nela o rei assírio registra sua mudança com o sagrado requerimento:

A planície eterna, que para o futuro a construção determinada, [eu segui.]

É aquele que ostenta os desenhos dos Tempos Antigos e a escrita do Céu Elevado.

O rei assírio Ashur-Nasir-Pal descreve em que consistia tal trabalho, em uma longa inscrição em relação à restauração do templo em Calah (uma cidade antiga mencionada na Bíblia). Descrevendo como atingira o "monte antigo", ele afirma: "Cavei até o nível da água, pois 120 medidas na profundidade penetrei. Encontrei as fundações do deus Ninib, meu Senhor... construí daí em diante, com tijolos firmes, o templo de Ninib, meu Senhor", O rei termina dizendo: "Foi feito de forma que o deus Ninib (um epíteto para o deus Ninurta) possa ordenar que meus dias sejam longos". Tal bênção, o rei esperava, seria seguida pela decisão por parte do deus, numa época de escolha dele "segundo o desejo do coração", de vir residir no templo reconstruído: "Quando meu senhor Ninib resolver vir morar em seu templo puro, seu local de habitação". É um convite e a expressão de uma expectativa não muito diferente do expresso pelo rei Salomão quando o Primeiro Templo se completou.

Na verdade, a obrigação de construir a partir do templo mais antigo, de acordo com a orientação e a planta dos templos no Oriente Médio, não importa quão longos os intervalos ou quão extensivos os reparos e a reconstrução tenham de ser, é exemplificada pelos templos sucessivos em Jerusalém. O Primeiro Templo foi destruído pelo rei da Babilônia, Nabucodonosor, em 587 a.C.; porém depois que a Babilônia caiu sob o domínio dos aquemênidas persas, o rei persa Ciro publicou um edito permitindo a volta dos exilados judeus para Jerusalém e a reconstrução do templo por eles. Significativamente, a reconstrução começou com a edificação de um altar (onde o primeiro costumava ficar) "quando o sétimo mês começou" no dia do Ano Novo (e os sacrifícios continuaram até a Festa de Tabernáculos). Ainda que pairasse dúvida sobre a data, o Livro de Esdras (3:6) reafirma: "Desde o primeiro dia do sétimo mês começaram os sacrifícios para Iavé".

A obediência não apenas à localização e orientação do templo mas também à época do Ano Novo - uma indicação do aspecto calendárico do templo - é reafirmada nas profecias de Ezequiel. Sendo um dos judeus exilados por Nabucodonosor, ele teve uma visão do templo reconstruído na Nova Jerusalém. Aconteceu, afirma o profeta (Ezequiel cap. 40), no mês do Ano Novo, no décimo dia - precisamente no Dia do Perdão - "que a mão de Iavé desceu sobre mim e me levou para aquele lugar" (para a "Terra de Israel"). "E me sentou na montanha mais alta, ao lado da qual havia um modelo de cidade." Lá, ele viu "um homem, sua aparência como aquela do bronze; ele segurava nas mãos uma corda de linho e um bastão de medir, e estava ao portão". Esse Homem de Bronze se pôs a descrever o Novo Templo para Ezequiel. Estudiosos, usando os dados, foram capazes de desenhar o templo da visão; ele segue precisamente o projeto e a orientação do templo construído por Salomão.

A visão profética tornou-se realidade depois que o rei persa Ciro, tendo capturado e subjugado a Babilônia, editou uma lei proclamando a restauração do templo destruído pelo império babilônico; uma cópia do edito, inscrita num cilindro de argila, foi encontrada por arqueólogos. Uma proclamação especial do rei, registrada palavra por palavra no Livro de Esdras, conclamou os judeus no exílio a reconstruir a "Casa de Iavé, Deus dos Céus".

O Segundo Templo, construído sob condições mais difíceis, no que era ainda uma terra devastada, era uma imitação pobre do Primeiro Templo. Reconstruído uma parte por vez, foi feito de acordo com os planos recebidos de gravações mantidas nos arquivos reais da Pérsia, e, segundo a Bíblia, estritamente de acordo com os detalhes nos Cinco Livros de Moisés. Que o templo realmente tenha seguido a planta original e a orientação se tornou claro cinco séculos depois, quando o rei Herodes resolveu substituir a réplica pobre por um edifício novo e esplêndido que não apenas imitasse, mas ultrapassasse em grandeza o Primeiro Templo. Construído sobre uma grande plataforma (ainda conhecida como o Monte do Templo) e sobre suas paredes maciças (das quais a Parede Oeste, ainda intacta em boa parte, é reverenciada pelos judeus como o que sobrou do Templo Sagrado), foi cercado por pátios e vários tipos de prédios auxiliares. Porém a Casa do Senhor mantinha o projeto em três partes e a orientação do Primeiro Templo. O Santo dos Santos, além do mais, permaneceu idêntico em tamanho àquele do Primeiro Templo - e ficava localizado precisamente no mesmo local; a única diferença era que agora não mais se chamava Dvir, pois a Arca da Aliança desapareceu quando os babilônios destruíram o Primeiro Templo e levaram todos os artefatos do interior.

À medida que se observam os restos dos imensos territórios sagrados com seus templos, santuários e prédios auxiliares, portões e pátios, além do zigurate, na parte mais interna, deve-se ter em mente que os primeiros templos eram de fato a habitação dos deuses e eram literalmente chamados de "E" dos deuses ­ A "casa" em si. De início com estruturas sobre montes artificiais e plataformas elevadas, eles com o tempo evoluíram para tornar-se os famosos zigurates (pirâmides em degraus) - os arranha-céus da Antiguidade. Como mostra a concepção de um artista, a residência verdadeira do deus era no estágio mais alto. Lá, sentados em seus tronos sob dosséis, os deuses davam audiências para seus reis escolhidos, os "pastores de homens". Como é mostrado nessa representação de Utu/Shamash em seu templo, o Ebabbar em Sippar, o rei precisava ser levado para o interior pelo sumo sacerdote e era acompanhado por seu deus ou deusa patronos. (Mais tarde, só o sumo sacerdote podia entrar no Santo dos Santos).


Por volta de 2.300 a.C., uma sacerdotisa, a filha de Sargão da Acádia, reuniu todos os hinos aos templos-zigurates daquela época. Chamada pelos sumeriólogos de "composição literária única" (A. Sjoberg e E. Bergmann em Texts from Cuneíform Sources, v. 3), o texto homenageia 42 templos "E", desde Eridu no sul até Sippar ao norte e em ambos os lados dos rios Tigre e Eufrates. Os versos não apenas dão o nome dos templos, mas também a localização e o nome da divindade para quem cada um foi construído e fornece um testemunho inestimável sobre a grandeza e magnificência dessas habitações divinas, assim como suas funções e, algumas vezes, sua história.

A composição apropriadamente se inicia com o templo­ zigurate de Enki em Eridu, chamado no hino de "lugar cujo Santo dos Santos é a fundação do Céu-Terra", pois Eridu foi a primeira cidade dos deuses, o posto avançado da primeira equipe de aterrissagem dos anunaques (liderados por Enki) e a primeira cidade divina que se abriu para os habitantes da Terra, a fim de tornar-se também uma Cidade dos Homens. Chamada EDUKU, "Casa do Monte Sagrado", era descrita no hino como "um santuário elevado erguendo-se para o céu".

Esse hino era seguido por um outro para o E.KUR - "Casa que é como uma montanha" -, o zigurate de Enlil em Nippur.

Considerado o Umbigo da Terra, Nippur ficava eqüidistante de todas as outras Cidades dos Deuses. De seu zigurate, podia-se olhar para a direita e enxergar a Suméria ao sul, depois a Acádia no norte, olhando-se à esquerda, segundo o hino. Era um "santuário onde os destinos são determinados", um zigurate "que une o céu e a terra" . Em Nippur a esposa de Enlil, chamada Ninlil, possuía seu templo separado, "envolta em um brilho impressionante". Dele a deusa surgia "no mês do Ano Novo, no dia do festival, adornada de forma maravilhosa".

A meia-irmã de Enki e Enlil, Ninharsag, que estava entre os primeiros anunaques a vir até a Terra, era a bióloga-chefe e médica-chefe, e possuía seu templo numa cidade chamada Kesh.

Simplesmente chamado de E.NINHARSAG, a "Casa da Senhora dos Picos da Montanha", era descrito como um zigurate cujos "tijolos são bem moldados... um local de Céu e Terra, um lugar que inspirava respeito" e que aparentemente estava adornado com uma "grande serpente venenosa" feita de lápis-lazúli - o símbolo da medicina e da cura. (Moisés, conforme lembraremos, fez a imagem de uma serpente para combater uma praga mortal no deserto do Sinai).

O deus Ninurta, o filho mais importante de Enlil por sua meia-irmã Ninharsag, possuía um zigurate como seu próprio "centro de culto", chamado Lagash, e à época da composição do texto também possuía um no santuário de Nippur. Chamava-se E.ME.UR.ANNA, a "Casa para os ME do Herói de Anu". Em Lagash, o santuário se chamava E.NINNU, "Casa dos Cinqüenta", refletindo o valor numérico de Ninurta na hierarquia divina. (O número de Anu, 60, era o mais alto). "Era uma casa cheia de luminosidade e respeito, mais alta do que uma montanha", afirmava o hino, onde ficavam Ninurta e seu "Pássaro Negro", sua máquina de voar e sua arma Sharur ("Tempestade raivosa que envolve os homens").

O primogênito de Enlil com sua esposa oficial, Ninlil, foi Nanar (mais tarde conhecido como Sin), que se associou com a Lua, seu equivalente celeste. Em Ur, seu zigurate era chamado E.KISH.NU.GAL, uma "Casa de Trinta, a Grande Semente" e era descrito como um templo "cujo luar forte se espalha pela terra” - todas referências à associação celeste entre Nanar/Sin, a Lua e o mês.

O filho de Nanar/Sin, Utu/Shamash (sua referência celeste é o Sol) possuía seu templo em Sippar, o E.BABBAR - "Casa daquele que Brilha" ou "Casa brilhante". Foi descrito como "Casa do príncipe do céu, uma estrela do céu que do horizonte enche a terra de céu", Sua irmã gêmea, Inana/Ishtar, cujo equivalente celeste era o planeta Vênus, tinha seu templo-zigurate na cidade de Zabalam, onde era chamada "Casa cheia de brilho"; era descrita como uma "montanha pura", um "santuário cuja boca abre ao amanhecer" e um lugar "por meio do qual o firmamento é tornado belo durante a noite" - sem dúvida uma referência ao papel duplo de Vênus tanto como um astro da noite quanto como a "estrela" da manhã. Inana/Ishtar também era adorada em Erech, onde Anu havia colocado à disposição dela o templo­-zigurate construído para ele quando viera para a Terra visitar o planeta. O zigurate era chamado E.ANNA, simplesmente "Casa de Anu". O hino o descreve como um "zigurate de sete estágios, vigiando os sete deuses luminosos da noite" - uma referência ao alinhamento e aos aspectos astronômicos que ecoaram, como já observamos, em comentários rabínicos em relação ao templo em Jerusalém.

E assim a composição continua, descrevendo os 42 zigurates, suas glórias e associações celestes. Os estudiosos falam dessa composição de mais de 4.300 anos de idade como uma "coleção de antigos hinos de tempos sumérios" e a intitularam "O Ciclo dos Velhos Poemas Sumérios sobre os Grandes Templos". Pode, no entanto, ser mais apropriado seguir o costume sumério e chamar o texto por suas palavras de abertura:

E U NIR - Casa-zigurate elevando-se alto

NA.KI.DA - Céu-Terra unindo-se

Uma dessas Casas e seus santuários, como veremos, guarda uma chave que pode abrir a porta para a solução do enigma de Stonehenge e para os eventos da Nova Era daquela época.

5

Guardiões de Segredos

Entre o ocaso e o amanhecer houve a noite.

A Bíblia constantemente afirma a inspiração do Criador na "Hoste do Céu" - as miríades de estrelas e planetas, luas e pequenos satélites que brilham no Domo dos Céus quando cai a noite. "Os céus falam da glória do Senhor e o Domo dos Céus revela o trabalho de sua mão divina", escreve o salmista. Os "céus" assim descritos eram os céus noturnos; a glória à qual ele se refere foi trazida para a humanidade por astrônomos-sacerdotes. Foram eles que tiveram de extrair sentido dos incontáveis corpos celestes, reconhecer as estrelas por seus grupos, distinguir entre as estrelas imóveis e os planetas errantes, conhecer os movimentos do Sol e da Lua, e manter a contagem do Tempo ­o ciclo de dias sagrados e os festivais, o calendário.

Os dias sagrados começavam ao anoitecer da noite anterior - um costume ainda mantido no calendário hebraico. Um texto que descreve os deveres do sacerdote Urigallu durante o festival de Ano Novo de doze dias na Babilônia não apenas esclarece a origem de outros rituais, mas também da ligação entre as observações celestes e os procedimentos no festival. No texto descoberto (geralmente considerado como de origem suméria, assim como o próprio título do sacerdote URI.GALLU), o início, que trata da determinação do primeiro dia do Ano Novo (o primeiro do mês Nissan, na Babilônia) de acordo com o equinócio de primavera, está faltando. A inscrição começa com as instruções para o segundo dia:

No segundo dia do mês Nisanu, duas horas na noite

O sacerdote Urigallu deve acordar e se lavar com água do rio.

Então, colocando uma túnica de puro linho, ele poderia se colocar na presença do grande deus (Marduk na Babilônia) e recitar orações prescritas no Santo dos Santos do zigurate (o Esagil na Babilônia). Essa recitação, que ninguém mais podia ouvir, era considerada tão secreta que antes das linhas onde estavam inscritas as palavras, o sacerdote incluíra o seguinte aviso: "Vinte e uma linhas: segredos do templo Esagil. Quem quer que reverencie o deus Marduk não as irá mostrar para ninguém, a não ser para o sacerdote Urigallu".

Depois que terminava de rezar essa oração secreta, o sacerdote Urigallu abria os portões do templo para deixar entrar os sacerdotes Eribiti, que "continuavam a realizar seus ritos, da forma tradicional", juntamente com músicos e cantores. O texto então detalha o restante dos deveres do sacerdote Urigallu naquela noite.

"No terceiro dia do mês Nisanu", num horário depois do pôr-do-sol, impossível de se identificar no texto original, por este estar danificado demais, o sacerdote Urigallu deveria outra vez realizar determinados ritos e recitações; isso ele fazia ao longo da noite, até "três horas depois do nascer do sol", quando precisava instruir os artesãos que iriam criar imagens de metal e pedras preciosas para ser usadas em cerimônias no sexto dia. No quarto dia, às "três horas e um terço da noite", os rituais se repetiam, mas as orações agora se expandiam para incluir um serviço separado para a esposa de Marduk, a deusa Sarpanit. Os fiéis então prestavam homenagem aos outros deuses do Céu e da Terra e pediam a graça de uma longa vida ao rei e prosperidade para o povo da Babilônia. Foi depois disso que o advento do Ano Novo passou a ser diretamente ligado ao Tempo do Equinócio na constelação do Carneiro: o nascer da estrela do Carneiro próxima ao sol ao amanhecer. Pronunciando a bênção "Iku-estrela" sobre o Esagil, imagem do céu e da terra", o restante do dia passava-se em orações, cantos e músicas. Nesse dia, depois do ocaso, o Enuma Elish, a Epopéia da Criação, era recitado na íntegra.

O quinto dia de Nissan foi comparado por Henri Frankfort (Kingship and the Gods) com o Dia do Perdão dos judeus, pois nesse dia o rei era levado para a capela principal e ali retiravam-­se todos os símbolos de realeza; depois disso, ele era atingido na face pelo sacerdote e humilhava-se prostrando-se no chão, declarando suas culpas e arrependimentos. O texto que temos estudado (por F. Thureau-Dangin, Rituels Accadiens, e E. Ebeling em Altorientalische Texte zum alten Testament) trata, entretanto, apenas dos deveres do sacerdote Urigallu; lemos então que nessa noite o sacerdote, "às quatro horas da noite", recitava doze vezes a oração "Meu Senhor, não é ele meu Senhor", em honra a Marduk, e invocava o Sol, a Lua e as doze constelações do zodíaco. Segue-se uma oração para a deusa, na qual seu epíteto, DAM.KI.ANNA (Senhora da Terra e do Céu), revelava a origem suméria do ritual. O fiel a comparava ao planeta Vênus, que "brilha muito entre as outras estrelas", citando sete constelações. Depois dessas orações, que esgotavam os aspectos astronômico-­calendáricos da ocasião, músicos e cantores desempenhavam suas artes "da forma tradicional" e um café da manhã era servido a Marduk e Sarpanit "duas horas depois da aurora".

Os rituais babilônicos do Ano Novo se originaram do sumério AKITI ("A Vida Construída na Terra"), um festival cujas raízes podem ser traçadas até a visita de Anu e sua esposa Antu à Terra, por volta de 3.800 a.C. (segundo os textos), quando o zodíaco era dominado pelo Touro do Céu, na Era de Touro. Sugerimos que tenha sido nessa época que o Tempo Contado, o calendário de Nippur, foi passado para a humanidade. Inevitavelmente as observações celestes decorrentes levaram à criação de uma classe de sacerdotes-astrônomos.

Vários textos, alguns bem preservados e outros que só sobreviveram em fragmentos, descrevem a pompa e circunstância da visita de Anu e Antu a Uruk (a Erech bíblica) e as cerimônias que se tornaram os rituais do festival de Ano Novo nos milênios que se seguiram. Os trabalhos de F. Thureau-Dangin e E. Ebeling ainda constituem a fundação na qual estudos subseqüentes seriam baseados; os textos antigos foram então brilhantemente utilizados pelos escavadores alemães de Uruk para localizar, identificar e reconstruir o antigo santuário sagrado - os muros e portões, os pátios, altares e construções específicas, assim como os três templos principais: o zigurate E.ANNA ("Casa de Anu"), o Bit-Resh (Templo Principal), que também era uma torre em estágios, e o Irigal, o templo dedicado a Inana/Ishtar. Dos muitos volumes dos relatórios dos arqueólogos (Ausgrabungen der Deutschen Forschungsgemeinschaft in Uruk- Warka), de particular interesse para a espantosa correlação entre textos e modernas escavações são o segundo (Archaische Texte aus Uruk) e o terceiro (Topographie Von Uruk), por Adam Falkenstein.

Surpreendentemente, os textos nas tábuas de argila (cujos colofões do escriba identificam como cópia de um original anterior) claramente descrevem dois grupos de rituais - um acontecendo no mês de Nissan (o mês do equinócio de primavera) e o outro em Tishrei (o mês do equinócio de outono); o primeiro se tornaria o Ano Novo babilônico e assírio, e o último seria marcado no calendário judeu, seguindo o mandamento bíblico para comemorar o Ano Novo "no sétimo mês", Tishrei. Embora o motivo para essa diversidade ainda intrigue os estudiosos, Ebeling reparou que os textos de Nissan pareciam mais bem preservados do que os de Tishrei, mais fragmentados, sugerindo uma certa influência dos últimos sacerdotes escribas; Falkenstein reparou que os rituais de Nissan e Tishrei, que pareciam idênticos, não o eram; o primeiro enfatizava as várias observações celestes, enquanto o segundo priorizava os rituais no interior do Santo dos Santos e em sua ante-sala.

Dos vários textos, dois em especial tratavam dos rituais do anoitecer e do amanhecer. O mais antigo, longo e bem preservado é especialmente legível desde o ponto em que Anu e Antu, os visitantes divinos de Nibiru, estão sentados no pátio do santuário, prontos a começar um banquete generoso. Enquanto o Sol se punha no oeste, os astrônomos-sacerdotes nos vários estágios do zigurate deviam observar os planetas e anunciar o momento em que avistavam a chegada de cada um, começando com Nibiru.

No primeiro turno da noite do telhado do estágio mais alto da torre do templo principal, quando o planeta Grande Anu do Céu e o planeta Grande Antu do Céu aparecem na constelação do Carro, o sacerdote deve recitar as composições Ana tamshil zimu bane Kakkab shamami Anu sharru e Ittatza tzalam banu.

Enquanto essas composições ("Para aquele que brilha mais, o planeta celestial do Senhor Anu" e "A imagem do Criador chegou") eram executadas a partir do zigurate, o vinho era oferecido aos deuses, de um vaso sagrado de ouro. Depois, em sucessão, os sacerdotes anunciavam a aparição de Júpiter, Vênus, Mercúrio, Saturno, Marte e a Lua. A cerimônia de lavar as mãos se seguia, honrando, com sete recipientes de ouro a derramar água, os seis luzeiros da noite mais o Sol. Uma grande tocha de "petróleo misturado com especiarias" era acesa; todos os sacerdotes cantavam o hino Kakkab Anu etellu shamame (O Planeta de Anu ergueu-se no céu) e o banquete podia começar. Depois Anu e Antu saíam para a noite e conduziam os deuses ao lugar onde ficariam de vigia até o amanhecer. Então, "quarenta minutos depois da aurora", Anu e Antu eram acordados "trazendo um fim para sua estadia noturna".

As comemorações matutinas começavam no lado de fora do templo, no pátio da Bit Akitu ("Casa do Festival de Ano Novo" em acadiano). Enlil e Enki aguardavam Anu no "suporte de ouro", permanecendo ao lado dele ou segurando vários objetos; os termos acadianos, cujo significado preciso parece escapar, são mais bem traduzidos como "aquilo que abre os segredos", "os discos do Sol" (plural!) e "os postes esplêndidos e brilhantes". Anu então chegava ao pátio, acompanhado pelos deuses em procissão. "Ele caminhava até o Grande Trono no pátio do Akitu e sentava-se de frente para o sol nascente." Então Enlil juntava-se a ele, acomodando-se à direita, e Enki, à esquerda; Antu, Nanar/Sin e Inana/ Ishtar assumiam seus lugares atrás de Anu, que estava sentado.

A afirmação de que Anu se sentava "de frente para o Sol nascente não deixa dúvida de que a cerimônia envolve a determinação de um momento ligado ao nascer do Sol num dia em particular - o primeiro dia de Nissan (o dia do equinócio de primavera) ou o primeiro dia de Tishrei (o equinócio de outono). Só quando essa cerimônia da aurora se completava é que Anu era levado por um dos deuses e pelo sumo sacerdote para o BARAG.GAL - o "Santo dos Santos" no interior do templo.

(BARAG significa "santuário interno, lugar oculto" e GAL significa "grande, mais importante". O termo evoluiu para Baragu/Barakhu/Parakhu em acadiano, com os significados: "Santuário Interior, Santo dos Santos" incluindo a tela que o separava da ante-sala. Esse termo aparece na Bíblia como a palavra hebraica Parokhet, que designava tanto o Santo dos Santos como o tecido que o separava da ante-sala. As tradições e rituais que se iniciaram na Suméria foram assim conservadas, tanto física como lingüisticamente).

Outro texto de Uruk, instruindo os sacerdotes a observar o sacrifício diário, pede que sejam sacrificados "carneiros gordos e limpos, cujos chifres e pelego estivessem inteiros" para as divindades Anu e Antu, "para os planetas Júpiter, Vênus, Mercúrio, Saturno e Marte; para o Sol que se levanta e para a Lua quando aparecer". O texto explica que "aparecer" diz respeito a cada um dos corpos celestes: significa o momento quando eles vêm descansar no instrumento que está "no meio do Bít Mahazzat" ("Casa da Visão"). Instruções posteriores sugerem que esse aposento fosse "no estágio superior da torre-templo do deus Anu".

As representações têm mostrado os seres divinos nos dois lados da entrada de um templo e segurando postes aos quais estão presos objetos que parecem anéis. A natureza celeste da cena é indicada pela inclusão dos símbolos do Sol e da Lua. Por um lado, o artista antigo pode ter pretendido ilustrar a cena descrita no texto ritual Uruk - mostrando Enlil e Enki flanqueando um portal através do qual Anu faz uma grande entrada. Os dois deuses estão segurando postes aos quais estão ligados dispositivos para ver (instrumentos circulares, com um furo no meio, o que está de acordo com o texto que falava dos discos solares no plural); os símbolos do Sol e da Lua são mostrados sobre o portão.

Outras representações dos postes com anéis sem ninguém a segurá-los, ao lado das entradas dos templos, sugerem que eram os ancestrais das estruturas eretas que flanqueavam os templos em todo o Oriente Médio nos milênios seguintes, seja nas colunas do templo de Salomão, seja nos obeliscos dos egípcios. Que os originais tivessem uma função verdadeira e não apenas astronômica pode ser deduzido de uma inscrição pelo rei assírio Tiglatpileser I (1.115-1.077 a.C.), na qual ele registrou a restauração do templo de Anu e Adad, que fora construído 641 anos antes e estava em ruínas havia sessenta anos. Descrevendo como ele limpou os destroços para chegar até a fundação e seguiu o desenho original na reconstrução, o rei assírio disse:

Duas grandes torres para discernir dois grandes deuses

Construí na Casa do Brilho ­um lugar para a alegria deles, um lugar para que Se orgulhem ­ um brilho das estrelas do céu.

Com a habilidade do arquiteto, com meu próprio planejamento e Execução, os interiores dos templos tornei esplêndidos

E em seu meio fiz um lugar para os raios diretos dos céus, nas paredes fiz Com que as estrelas aparecessem.

Tornei grande seu brilho, as torres que fiz para se elevarem ao céu.

De acordo com esse relato, as duas grandes torres do templo não eram apenas aspectos da arquitetura, mas serviam a um propósito astronômico. Walter Andrae, que liderou algumas das mais compensadoras escavações na Assíria, expressou a idéia de que as "coroas" serradas que encimavam as portas dos templos em Assur, a capital assíria, de fato serviam a tal propósito (Die Jüngeren Ishtar-Tempel). Ele encontrou confirmação para a conclusão de que, em ilustrações relevantes em cilindros assírios, as torres são associadas com símbolos celestes. Andrae supôs que alguns dos altares mostrados (geralmente aparece um sacerdote realizando os ritos) também serviam a um propósito celeste (astronômico). Em suas superestruturas serradas essas instalações, altas nos portais dos templos ou nos pátios abertos dos santuários, criaram substitutos para os estágios em degraus dos zigurates, quando estes deram lugar a templos de telhado achatado, mais fáceis de construir.

A inscrição assíria também serve como lembrete de que não apenas o Sol na aurora, e o nascer de estrelas e planetas, mas também a Hoste do Céu noturno era observada pelos sacerdotes-astrônomos. Um exemplo perfeito de tais observações duplas é o do planeta Vênus, que, por ter um tempo de órbita menor em torno do Sol do que da Terra, parece, a um observador situado em nosso planeta, metade do tempo uma estrela da noite e metade do tempo uma estrela da manhã. Um hino sumério a Inana/ Ishtar, cujo equivalente celeste é o planeta que chamamos de Vênus, adorava o planeta de início como estrela da noite, depois como estrela da manhã.

O sagrado aparece contra o céu claro;

Sobre todas as terras e todas as pessoas a deusa olha docemente do meio do céu...

À tarde uma estrela radiante, uma grande luz que enche o céu;

A Dama da Noite, Inana, está orgulhosa no horizonte.

Descrevendo como pessoas e animais se retiram para passar a noite" em seus lugares de dormir" depois do aparecimento da estrela vespertina, o hino continua a oferecer adoração a Inana/Vênus como a estrela da manhã: "Ela faz a manhã chegar, traz a luz do dia; e nos quartos, o doce sono chega ao fim".

Enquanto tais textos lançam luz sobre o papel dos zigurates e seus estágios mais elevados na observação do céu noturno, eles também levantam uma intrigante pergunta: os sacerdotes-astrônomos observavam o céu a olho nu ou possuíam instrumentos para apontar com precisão essas observações? A resposta é fornecida por representações de zigurates em cujos estágios superiores existem postes encimados por objetos circulares; sua função celeste é indicada pela imagem de Vênus ou da Lua.

Os dispositivos em forma de chifres servem como conexão para representações egípcias de instrumentos de observação astronômica associados aos templos. Lá, os dispositivos de visão consistiam em um aro circular colocado no centro de um par de chifres no alto de um poste em frente aos templos de um deus chamado Min. O festival deste, celebrado uma vez por ano na época do solstício de verão, envolvia o erguimento de um mastro alto por grupos de homens puxando cordas - um antecessor, talvez, dos festivais que usam mastros enfeitados na Europa. No topo desse mastro está o emblema de Min - o templo com os chifres lunares de visão.


A identidade de Min é misteriosa. As evidências sugerem que ele já era adorado na época pré-dinástica, mesmo no período arcaico que precedeu o reinado dos faraós em muitos séculos. Como os primitivos deuses Neteru ("Guardiões") egípcios, ele veio para o Egito de algum outro lugar. G. A. Wainwright ("Algumas Associações Celestes de Min", no Journal of Egyptian Archaeology, v. XXI) e outros acreditam que veio da Ásia; outra opinião (Martin Isler, no Journal of the American Research Center in Egypt, v. XXVII) é que Min chegou ao Egito por mar. Min também era conhecido como Amsu ou Khem, o que, segundo E. A. Wallis Budge (The Gods of Egyptians), representava a Lua e significava "regeneração" - uma conotação calendárica.

Em algumas representações egípcias a Deusa da Lua, Qetesh, era mostrada em pé junto a Min. Ainda mais interessante é o símbolo de Min, que alguns chamam seu "machado duplo", mas outros consideravam um gnômon, um instrumento de operação manual para auxiliar a visão do céu, representando os crescentes da Lua.

Seria Min outra encarnação de Thot, que estava firmemente ligado ao calendário lunar no Egito? O certo é que Min possuía um relacionamento celeste com o Touro do Céu, a constelação de Touro, cuja era foi de cerca de 4.400 a 2.100 a.C. Os dispositivos de visão que temos examinado nas representações mesopotâmicas e suas associações com Min no Egito representam alguns dos mais antigos instrumentos astronômicos na Terra.

De acordo com os textos rituais de Uruk, um instrumento chamado Itz Pashshuri era usado para observações planetárias. Thureau-Dangin traduziu o termo simplesmente como "um aparato", mas o termo literalmente significa um instrumento "que resolve, que abre segredos". Esse instrumento seria tal qual os objetos circulares que ficavam no alto de postes, ou se trataria de um termo genérico, significando "instrumento astronômico" em geral? Não podemos ter certeza porque os dois tipos de textos e representações foram descobertos, desde o tempo dos sumérios, o que atesta a existência de uma variedade de tais instrumentos.

O dispositivo astronômico mais simples era o gnômon (do grego "aquele que sabe"), um instrumento que seguia os movimentos do Sol pela sombra projetada por uma vareta ou um poste; o comprimento da sombra (vai ficando menor à medida que o sol se aproxima do meio-dia) indicava a hora do dia, enquanto a direção (onde os raios de sol apareceram primeiro e lançaram a maior sombra) podia indicar a estação. Os arqueólogos encontraram tais dispositivos em locais egípcios que eram marcados para mostrar o tempo. Como na época do solstício as sombras ficam longas demais, os dispositivos achatados eram melhorados inclinando-se a escala horizontal, reduzindo portanto o comprimento da sombra. Com o tempo, isso levou a relógios de sol estruturais, construídos como escadas que indicam o tempo à medida que a sombra avança para cima e para baixo.

Relógios de sol também se desenvolveram quando o suporte do poste recebeu uma base semicircular na qual era marcada uma escala angular. Arqueólogos descobriram tais instrumentos em locais egípcios, porém o mais antigo descoberto até agora vem da cidade cananéia de Gezer, em Israel; possui uma escala angular comum num dos lados e uma cena de adoração do deus egípcio Thot do outro. Esse relógio de sol, feito de marfim, ostenta o cartucho do faraó Merenptah, que reinou no século XIII a.C.

Relógios de sol são mencionados na Bíblia. O Livro de Jó refere-se a gnômons portáteis que eram usados para marcar o tempo; quando se diz que um trabalhador contratado "desejava merecidamente a sombra", isso indicava que era o momento de receber seus salários do dia (Jó 7:2). Menos clara é a natureza do relógio de sol que apresentou um miraculoso incidente, narrado em Reis II, capítulo 20, e em Isaías, capítulo 38. Quando o profeta Isaías disse ao rei Ezequias que este iria se recuperar completamente em três dias, o rei não acreditou. Então o profeta fez uma previsão: ao invés de se mover para a frente, as sombras do relógio de sol do templo seriam trazidas "dez graus para trás". O texto hebreu usa o termo Ma'aloth Ahaz, as "escadas" ou "graus" do rei Ahaz. Alguns estudiosos interpretam a afirmação como referente a um relógio de sol com uma escala angular (graus), enquanto outros acreditam que se trata de uma escadaria verdadeira. Talvez fosse uma combinação dos dois, uma versão primitiva do relógio de sol ainda existente em Jaipur, na Índia.

Seja como for, os estudiosos concordam, em sua maioria, que o relógio mencionado na profecia foi um presente para o rei judeu Ahaz, por parte do rei assírio Tiglatpileser II no século VIII a.C. A despeito de seu nome grego (gnômon), cujo uso persistiu durante a Idade Média, não se tratava de uma invenção grega, ao que parecia, nem mesmo egípcia. Segundo Plínio, o Velho, o sábio que viveu no século I, a ciência da gnomônica foi descrita primeiramente por Anaximandro de Mileto, que possuía um instrumento chamado "caçador de sombras". Porém o próprio Anaximandro, em seu trabalho (escrito em grego) Sobre a Natureza (547 a.C.) escreveu que havia obtido seu gnômon nas terras da Babilônia.

Ao que nos parece, o texto em Reis II, capítulo 20, sugere um mostrador desenhado ao invés de uma escadaria e ficava no pátio do Templo (tinha de ficar em espaço aberto, onde o Sol criasse sombras). Se Andrae estava certo em relação à função astronômica do altar, era possível que o instrumento fosse colocado sobre o altar principal do Templo. Tal altar possuía quatro "chifres", um termo hebreu (Keren) que também significa "canto, esquina", além de "raio" - termos que sugerem uma origem astronômica. Evidências em desenhos apoiando tal possibilidade vão desde a representação dos zigurates, na Suméria, onde os "chifres" precederam os objetos circulares, até a época dos gregos. Em tábuas representando altares de vários séculos depois da época de Ezequias, podemos ver um anel de mira num suporte curto colocado entre os dois altares; numa segunda ilustração vemos um altar flanqueado por instrumentos para ver o Sol e a Lua.

Ao considerar os instrumentos astronômicos da Antiguidade, estamos na verdade lidando com conhecimento e sofisticação que remontam alguns milênios atrás, até a antiga Suméria.

Uma das representações mais arcaicas da Suméria, que mostra uma procissão de assistentes de templo segurando instrumentos e ferramentas, apresenta um deles segurando um poste com um instrumento astronômico ao alto: um dispositivo que liga dois postes curtos com miras no alto. Os dois anéis iguais nessa disposição são familiares até mesmo hoje em dia, em modernos binóculos ou teodolitos, para criar e medir profundidade e distância. Ao carregar tudo, o assistente mostra que se tratava de um dispositivo portátil, um instrumento que poderia ser empregado em várias posições.

Se o processo da observação celeste progrediu de zigurates maciços e de círculos de pedras enormes para torres de observação e altares especialmente desenhados, os instrumentos com os quais os astrônomos-sacerdotes varriam os céus à noite ou seguiam o Sol durante o dia devem ter progredido na mesma direção. Que tais instrumentos se tenham tornado portáteis é uma afirmativa que faz sentido, especialmente se alguns tiverem sido usados não apenas para propósitos calendáricos (fixar as datas dos festivais), mas também para navegação. Ao final do segundo milênio a.C. os fenícios, do norte de Canaã, se tornaram os melhores navegadores do mundo antigo; percorrendo as rotas de comércio, entre os pilares de pedra em Biblos e os que existem nas Ilhas Britânicas, seu posto mais avançado a oeste foi Cartago (Keret-Hadash, "Cidade Nova"). Lá adotaram como seu símbolo divino principal o desenho de um instrumento astronômico; antes que começasse a aparecer em estelas e lápides, foi mostrado em associação com dois pilares de dois anéis que flanqueavam a entrada do templo - como antes, na Mesopotâmia. O anel flanqueado por dois crescentes, um oposto ao outro, sugere observação das fases do Sol e da Lua.

Uma "tabela votiva" encontrada nas ruínas de um acampamento fenício na Sicília representa uma cena num quintal aberto, sugerindo que os movimentos do Sol e não os da noite eram o objetivo astronômico. Um pilar com o anel e um altar ficavam em frente à estrutura de três colunas; lá, também, existe um dispositivo para observação: um anel entre dois postes verticais curtos, colocados numa barra horizontal e montados sobre uma base triangular. Essa forma em particular para observação do Sol traz à mente o hieróglifo egípcio para "horizonte" - o sol erguendo-se entre duas montanhas. Na verdade, o dispositivo fenício (os acadêmicos se referem a ele como" objeto de culto") sugere um par de mãos levantadas e está relacionado ao hieróglifo egípcio para , que representa o espírito ou alter ego do faraó para a jornada depois da morte rumo à habitação dos deuses, no "Planeta de milhões de anos". A origem do poderia ter sido um início como instrumento astronômico, como sugere a antiga representação egípcia de um dispositivo de visão à frente de um templo.

Todas essas semelhanças e sua origem astronômica deveriam adicionar idéias novas à compreensão da representação egípcia da subida do na direção do planeta dos deuses com as mãos estendidas para emular o dispositivo sumério; encontra-se no alto de um pilar com degraus ou estágios.

O hieróglifo egípcio que mostra esse pilar chamava-se Ded, que significava "Eternidade". Era freqüentemente mostrado aos pares, porque dois pilares daquela forma ficavam em frente ao templo principal de Osíris, em Abidos. Nos Textos das Pirâmides, nos quais são descritas as viagens dos faraós, os dois pilares Ded são mostrados flanqueando a "Porta do Céu". As portas duplas ficam fechadas até que a alma do faraó recém-chegada pronuncie a fórmula mágica: "Ó Excelso, vossa Porta do Céu: o rei veio até vós; abre a porta para ele". Então, subitamente, as "portas duplas se abriam... o espaço entre as janelas celestes se abria". Alçando vôo como um grande falcão, o do faraó se junta aos deuses na eternidade.

O Livro dos Mortos dos egípcios não nos alcançou na forma de um livro coeso, presumindo-se que essa concepção como "livro" tivesse existido de verdade; ao invés disso, deve ter sido uma espécie de coletânea dos textos escritos nas paredes das sepulturas reais. Porém um livro completo chegou até nós do Egito Antigo, e mostra que uma subida para o céu a fim de conquistar imortalidade era tida como ligada ao calendário.

O livro ao qual nos referimos é o Livro de Enoch, uma antiga composição conhecida em duas versões, uma etíope, que os acadêmicos chamam de "Enoch 1", e uma versão eslava, identificada como "Enoch 2", que também é conhecida como O Livro dos Segredos de Enoch. As duas versões, das quais os manuscritos copiados foram encontrados principalmente em traduções latinas e gregas, são baseadas em fontes mais antigas que aumentam a curta referência bíblica a Enoch, o sétimo patriarca depois de Adão, que não morreu, porque, com a idade de 365, ele "andou com Deus" - foi levado na direção do céu para reunir-se com a divindade.

Aumentando esse breve episódio na Bíblia (Gênesis, capítulo 5), o livro descreve em detalhes as duas viagens de Enoch ao céu - a primeira para aprender os segredos celestes, voltar e transmitir sua sabedoria aos filhos; a segunda para ficar na habitação celeste. As várias versões indicam grande conhecimento astronômico em relação aos movimentos do Sol e da Lua, os solstícios e equinócios, os motivos para a diminuição e o aumento dos dias, a estrutura do calendário, os anos solar e lunar, além da regra para a intercalação. Em essência, os segredos atribuídos a Enoch e passados por ele a seus filhos eram o conhecimento de astronomia relativo ao calendário.

Acredita-se que autor de O Livro dos Segredos de Enoch, a assim chamada versão eslava, seja (para citar R. H. Charles, The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament) "um judeu que viveu no Egito, provavelmente em Alexandria", em alguma época por volta do começo da era cristã. Assim conclui o livro:

Enoch nasceu no sexto dia do mês de Tsivan, e viveu trezentos e sessenta e cinco anos.

Ele foi levado para o céu no primeiro dia do mês Tsivan e permaneceu no céu por sessenta dias.

Escreveu todos os sinais de toda a criação que o Senhor criou, e escreveu trezentos e sessenta e seis livros, e os entregou a seus filhos.

Foi levado (outra vez) para o céu no sexto dia do mês de Tsivan, no mesmo dia e hora em que nasceu.

Matusalém e seus irmãos, todos filhos de Enoch, apressaram-se em construir um altar no lugar chamado Ahuzan, onde Enoch foi levado para o céu.

Não apenas o conteúdo do Livro de Enoch - astronomia relacionada com o calendário - mas também a própria vida e ascensão de Enoch estão repletos de aspectos calendáricos. Seus anos na Terra, trezentos e sessenta e cinco, correspondem ao número de dias inteiros num ano solar; seu nascimento e a partida da Terra estão ligadas a um mês específico, até mesmo ao dia do mês.

A versão etíope é tida pelos acadêmicos como sendo vários séculos mais antiga do que a eslava, e partes da versão mais antiga foram retiradas de manuscritos ainda mais antigos, tais como a obra perdida O Livro de Noé. Fragmentos dos livros de Enoch foram descobertos entre os Manuscritos do Mar Morto. A história astronômico-calendárica de Enoch assim mergulha em grande antiguidade - talvez, como a Bíblia afirma, até a tempos antediluvianos.

Agora, que é certo que a história bíblica do Dilúvio e dos Nefilim (os anunaques bíblicos), da própria criação de Adão e da própria Terra, e dos patriarcas antediluvianos são formas abreviadas dos textos originais da Suméria, é quase certo que o Enoch bíblico seja o equivalente ao primeiro sacerdote sumério, EN.ME.DUR.AN.KI ("Alto Sacerdote dos ME da Ligação Céu­-Terra"), o homem da cidade Sippar levado para o céu a fim de aprender os segredos do Céu e da Terra, da adivinhação e do calendário. Foi com ele que a geração de astrônomos-sacerdotes, de Guardiões de Segredos, começou.

O fato de Min entregar aos astrônomos-sacerdotes o dispositivo de visão não foi uma ação extraordinária. Uma escultura suméria moldada em relevo mostra um grande deus segurando um dispositivo astronômico para um rei-sacerdote. Numerosas outras representações sumérias mostravam o rei recebendo uma régua de medir e uma corda graduada enrolada para o propósito de garantir a correta orientação astronômica dos templos. Tais representações só destacam a evidência textual explícita sobre a maneira como começou a linha de astrônomos-sacerdotes.

Teria o homem se tornado suficientemente arrogante para presumir que conseguiu todo esse conhecimento sozinho? Milênios atrás a questão foi abordada quando Jó recebeu ordem para admitir que nenhum homem, mas El, "o Magnífico", era o Guardião dos Segredos do Céu e da Terra:

Diz se conheces o segredo da ciência:

Quem mediu a Terra, que seja conhecido?

Quem estendeu uma corda sobre ela?

Onde foram forjadas suas plataformas?

Quem lançou sua pedra fundamental?

Você já arrumou a manhã, ou já compreendeu a Aurora de acordo com os cantos da terra?, foi perguntado a Jó. Sabe onde a luz do dia e a escuridão trocam de lugar, ou como a neve e o granizo caem do céu, ou a chuva, ou o orvalho? "Conhece as leis celestes, ou como elas regulam o que está sobre a superfície da Terra?”

O texto e as representações eram destinados a tomar claro que os humanos Guardiões de Segredos eram alunos, não professores. Os registros da Suméria não deixam dúvida de que os professores, os Guardiões de Segredos originais, eram os anunaques.

O líder do primeiro grupo de anunaques que veio à Terra, amerissando nas águas do golfo Pérsico, foi E.A – ele "cuja casa é a água". Foi o cientista-chefe dos anunaques e sua tarefa inicial era obter o ouro de que eles precisavam extraindo-o das águas do golfo - uma tarefa que exigia conhecimentos de física, química e metalurgia. Quando se tornou necessária uma mudança para mineração e a operação se transferiu para o sudeste da África, o conhecimento de geografia, geologia, geometria - de tudo o que chamamos de Ciências da Terra - entrou em jogo; não é de espantar que seu nome-epíteto fosse mudado para EN.KI, "Senhor da Terra", pois dele era o domínio dos segredos do nosso planeta. Finalmente, sugerindo e realizando a engenharia genética que trouxe Adão à existência - um feito no qual foi auxiliado por sua meia-irmã Ninharsag, a oficial-chefe dos médicos -, ele demonstrou sua capacidade nas Ciências da Vida: biologia, genética, evolução. Mais de cem MEs, os enigmáticos objetos que, como os discos de computador, continham a sabedoria, eram mantidos em seu centro, Eridu, na Suméria; ao sul do continente africano, uma estação científica guardava a "tábua da sabedoria" .

Toda essa sabedoria foi, a seu tempo, partilhada por Enki com seus seis filhos, cada um dos quais se tornou especialista em um ou mais desses segredos científicos.

O meio-irmão de Enki, EN.LIL - "Senhor do Comando" -, chegou em seguida à Terra. Sob essa liderança, o número de anunaques na Terra aumentou para seiscentos; além disso, trezentos IGI.GI ("Aqueles que Observam e Vêem") permaneceram na órbita terrestre, tripulando estações e operando transportes espaciais que chegavam e saíam. Estabeleceu o primeiro Centro de Missão de Controle em NI.IBRU, conhecida por nós pelo nome acadiano, Nippur, e as comunicações com o planeta natal, o DUR.AN.KI - "Ligação Céu-Terra". Cartas espaciais, dados celestes, os segredos da astronomia eram dele para saber e guardar. Ele planejou e supervisionou o estabelecimento da primeira base espacial em Sippar ("Cidade dos Pássaros"). Assuntos meteorológicos, ventos e chuvas eram as suas preocupações; assim também a certeza de transportes e suprimentos suficientes, incluindo a provisão local de estoques e as artes e ofícios da agricultura e pastoreio. Ele mantinha a disciplina entre os anunaques, presidia o conselho dos "Sete que Julgam", e permaneceu o deus supremo da lei e da ordem quando a humanidade começou a proliferar. Ele regulava as funções dos sacerdotes e, quando a realeza foi instituída, era chamado pelos sumérios de "enlileza".

Um longo e bem preservado Hino a Enlil, o Bondoso, encontrado entre as ruínas do E.DUB.BA, "Casa das Tábuas de Escrever" em Nippur, mencionou, em suas 170 linhas, muitas das conquistas científicas e organizacionais de Enlil. Em seu zigurate, o E.KUR "Casa que é como uma montanha", ele possuía um "raio que penetrava o coração de todas as terras". Ele "montou o Duranki", a "Ligação Céu-Terra". Em Nippur, erigiu "um termômetro do universo". Justiça e honestidade ele distribuía. Com os "ME do céu" que "ninguém podia contemplar" ele estabeleceu, na parte mais oculta do Ekur, "um zênite celeste, tão misterioso como o mar distante", contendo os "emblemas das estrelas... até a perfeição"; esses permitiram o estabelecimento dos rituais e festivais. Foi sob a orientação de Enlil que "cidades foram construídas, acampamentos estabelecidos, currais foram construídos, e também cercados para ovelhas", margens de rios foram controladas para evitar enchentes, foram feitos canais artificiais, para que os campos e riachos ficassem "cheios de grão abundante", jardins começaram a produzir frutas, aprendeu-se a tecer e a tricotar.

Esses foram os aspectos da sabedoria e civilização que Enlil transmitiu a seus filhos e netos, e, por meio deles, para a humanidade.

O processo pelo qual os anunaques resolveram partilhar esses diversos aspectos da ciência e da tecnologia com a humanidade permanece um campo de estudos negligenciado. Pouco foi feito para resolver, por exemplo, uma questão tão importante sobre como os sacerdotes-astrônomos começaram a existir - um evento sem o qual, hoje em dia, não saberíamos muito sobre nosso Sistema Solar, nem seríamos capazes de nos aventurar pelo espaço. Um dos acontecimentos mais importantes, o ensinamento dos segredos celestes para Enmeduranki, pode ser lido numa tábua conhecida que felizmente foi trazida à luz por W. G. Lambert em seu estudo Enmeduranki and Related Material:

Enmeduranki [foi] um príncipe em Sippar,

Amado por Anu, Enlil e Ea.

Shamash no Templo Brilhante o escolheu [como sacerdote].

Shamash e Adad [o levaram] para a reunião [dos deuses]...

Mostraram a ele como observar óleo e água, um segredo de Anu, Enlil e Ea.

Deram a ele a Tábua Divina,

O segredo kibbu do Céu e da Terra...

Eles o ensinaram a fazer cálculos com números.

Quando as instruções de Enmeduranki na sabedoria secreta dos anunaques ficaram completas, ele foi devolvido à Suméria. Os "homens de Nippur, Sippar e da Babilônia foram chamados a sua presença". Ele os informou de suas experiências e do estabelecimento da instituição do sacerdócio e que os deuses mandavam que fossem passados de pai para filho:

A sabedoria aprendida que guarda os segredos dos deuses irá prender seu filho favorito a um juramento perante Shamash e Adad...

E o irá instruir nos segredos dos deuses.

A tábua possui um post-scriptum:

Assim foi criada a linhagem de sacerdotes,

Daqueles a quem é permitido aproximar-se de Shamash e Adad.

Segundo as Listas de Reis Sumérios, Emnedurana foi o sétimo rei antediluviano e reinou em Sippar durante seis órbitas de Nibiru antes que fosse sumo sacerdote e rebatizado Emneduranki. No Livro de Enoch foi o arcanjo Uriel ("Deus é minha Luz") quem mostrou a Enoch os segredos do Sol (solstícios e equinócios, seis "portais" no total) e as "leis da Lua" (incluindo a intercalação), assim como as doze constelações de estrelas, "todos os trabalhos do céu". E ao final do aprendizado, Uriel deu a Enoch - assim como Shamash e Adad teriam dado a Enmeduranki - as "tábuas do céu", instruindo-o a estudar cuidadosamente e reparar em "qualquer fato individual". Retornando à Terra, Enoch passou sua sabedoria a seu filho mais velho, Matusalém. O Livro dos Segredos de Enoch inclui na sabedoria transmitida a ele "todos os trabalhos do céu, da terra e dos mares, e todos os elementos, suas passagens e caminhos, e o trovejar dos trovões; os segredos do Sol e da Lua; as mudanças nas estrelas; as estações, anos, dias e horas". Isso estaria de acordo com Shamash - o deus cujo equivalente celeste era o Sol e que comandava o espaçoporto, e de Adad, que era o "deus do clima" da antiguidade, deus das chuvas e tempestades. Shamash (Utu em sumério) era geralmente representado segurando a régua e a corda; Adad (Ishkur em sumério) era representado segurando um forcado de raios. A representação do selo real assírio (Tukulti-Ninurta I) mostra o rei sendo apresentado aos dois grandes deuses, talvez com o propósito de garantir a ele a sabedoria dada a Enmeduranki.

Apelos dos reis para serem agraciados com tanta "Sabedoria" e conhecimento científico quanto aqueles que antigos sábios famosos tinham possuído, ou o fato de esses reis se gabarem por saber tanto quanto eles não eram incomuns. A correspondência real da Assíria louvava um rei como "ultrapassando em conhecimento todos os homens sábios do Mundo Inferior" porque era um descendente do "sábio Adapa". Em outra instância, um rei babilônio declarou que possuía "sabedoria que ultrapassava até o que estava contido nos escritos que Adapa deixara". Essas eram referências a Adapa, o Sábio de Eridu (o centro de Enki na Suméria), a quem Enki ensinara "compreensão ampla" dos "projetos da Terra" - os segredos das Ciências Terrestres.

Não se pode deixar de fora a possibilidade de que, como Enmeduranki e Enoch, Adapa também fosse o sétimo numa linhagem de sábios, os Sábios de Eridu, e assim outra versão da memória suméria ecoa no registro bíblico sobre Enoch. Segundo essa história, sete Homens Sábios foram treinados em Eridu, a cidade de Enki; seus epítetos e conhecimentos em particular variavam de versão para versão. Rykle Borger, examinando essa história à luz da tradição de Enoch ("Die Beschworungsserie Bit Meshri und die Himmelfahrt Henochs", no Journal of Near Eastern Studies, V. 33), ficou especialmente fascinado pela inscrição na terceira tábua da série de Encantamentos Assírios. Nele, o nome de cada sábio é dado, assim como sua principal contribuição é explica da; fala assim do sétimo: "Utu-abzu, aquele que subiu aos céus". Citando esse texto, R. Borger concluiu que esse sétimo sábio, cujo nome combinado de Utu/Shamash com o domínio de Enki, o Mundo Inferior (Abzu), era o assírio "Enoch".

Segundo as referências assírias à sabedoria de Adapa, ele compôs um livro de ciências, chamado USAR d Anum d ENLILA - "Escritos em relação ao Tempo; do divino Anu e do divino Enlil". Adapa, assim, recebe o crédito por ter escrito o primeiro livro de astronomia e calendário para a humanidade.

Quando Enmeduranki subiu ao céu para aprender os vários segredos, seus deuses patronos eram Utu/Shamash e Adad/Ishkur, um neto e um filho de Enlil. Sua subida, portanto, estava sob cuidados enlilitas. De Adapa ficamos sabendo que quando Enki o enviou para o céu, na habitação de Anu, os dois deuses que agiram como "padrinhos" foram Dumuzi e Gizida, dois filhos de Ea/Enki. Lá, "Adapa, do horizonte do céu ao zênite do céu observou; viu seu espanto" - palavras refletidas no Livro de Enoch. Ao final da visita, Anu negou a ele vida eterna; em vez disso, decretou para Adapa "o sacerdócio da cidade de Ea para glorificar no futuro".

As implicações dessas histórias é que existiram duas linhas de sacerdotes - uma enlilita e a outra enkiita; e duas academias científicas centrais, uma na Nippur de Enlil e a outra em Eridu, de Enki. Ambos competindo e cooperando, sem dúvida, como os próprios irmãos faziam, parecendo ter adquirido suas especialidades. Essa conclusão, apoiada por eventos e artigos recentes, reflete o fato de que encontramos os anunaques mais importantes como tendo cada um seus talentos, especialidades e tarefas específicas.

À medida que continuamos a examinar essas especialidades e tarefas, iremos descobrir que o estreito relacionamento templo-astronomia-calendário também era expresso no fato de que as várias divindades, na Suméria e no Egito, combinavam essas especialidades com seus atributos. E considerando-se que os zigurates e templos serviam como observatórios - para determinar a passagem dos tempos Terrestre e Celeste -, as divindades com o conhecimento astronômico também foram aquelas com o conhecimento da orientação e projeto dos templos e seus planos.

"Diz, se tiveres ciência. Quem mediu a Terra, que seja conhecido? Quem estendeu uma corda sobre ela?" Assim foi perguntado a Jó, quando ele foi chamado para admitir que Deus, e não o homem, era o mais importante Guardião dos Segredos. Na cena da apresentação do rei-sacerdote para Shamash, o propósito ou essência do ocorrido é indicado por dois Divinos Seguradores de Corda. As duas cordas que eles esticam para um planeta emissor de raios formam um ângulo, sugerindo uma medida, não tanto de distância quanto de orientação. Uma representação egípcia de um motivo similar, uma cena pintada no Papiro da Rainha Nejmet, mostra como dois seguradores de cordas mediram um ângulo com base no planeta chamado o "Olho Vermelho de Hórus".

O esticar das cordas para se obter a orientação adequada de um templo era a tarefa de uma deusa chamada Shesheta, no Egito. Ela era, por um lado, a deusa do Calendário; seus epítetos eram "a grande, senhora das cartas, amante da Casa dos Livros" e seu símbolo era o estilo, feito de galho de palmeira, o que os egípcios chamavam de "contar os anos". Ela era representada com uma estrela de sete raios no interior do Arco do Céu em sua cabeça. Era a Deusa da Construção, mas apenas (conforme foi observado por sir Norman Lockyer, em The Dawn of Astronomy) para o propósito de determinar a orientação dos templos. Tal orientação não era errática nem matéria de adivinhação. Os egípcios dependiam de guias divinos para determinar a orientação e o eixo principal do templo; a tarefa era entregue a Shesheta. Auguste Mariette, relatando suas descobertas em Dendera, onde representações e inscrições pertencentes a Shesheta foram descobertas, disse que era ela "quem se certificava que a construção de santuários sagrados estava acontecendo exatamente de acordo com as instruções contidas nos Livros Divinos".

Determinar a orientação correta exigia uma cerimônia especial chamada Put-ser, que significa "a esticada da corda". A deusa enterrava o poste no solo, batendo nele com uma clava de ouro; o rei, guiado por ela, enterrava outro poste. Uma corda era então esticada entre os dois postes, indicando a orientação adequada; era determinada pela posição de uma estrela específica. Um estudo por Z. Zaba, publicado pela Academia Tchecoslovaca de Ciências (Archiv Orientalni, Suplemento 2, 1953), concluiu que a cerimônia revelava conhecimento do fenômeno da precessão e da divisão zodiacal do círculo celeste. O aspecto astral da cerimônia fica aparente por meio de relevantes inscrições, como aquela encontrada nas paredes do templo de Hórus, em Edfu. Registrou as palavras do faraó:

Apanho o poste,

Agarro o martelo pelo cabo,

Estico a corda com Sesheta.

Volto meu olhar para seguir os movimentos da estrela,

Fixo meus olhos na astralidade de Msihetu.

O deus-estrela que anuncia o tempo atinge o ângulo de seu Merkhet;

Estabeleço os quatro cantos do templo do deus.

Em outra oportunidade, relacionada ao trabalho de reconstrução de um templo em Abidos pelo faraó Seti I, a inscrição cita o rei:

O martelo em minha mão era de ouro.

Atingi o poste com ele.

Estavas comigo na capacidade de Harpedonapt.

Tua mão segurou a espada durante a fixação dos quatro cantos do templo Com precisão pelos quatro apoios do céu.

A cerimônia foi registrada por meio de ilustrações nas paredes do templo.

Sesheta era, de acordo com a teologia egípcia, a companheira e assistente de Thot, o deus egípcio das ciências, da matemática e do calendário - o Escriba Divino, que mantinha os registros dos deuses e o Guardião dos Segredos de construção das pirâmides.

Como tal, era o mais importante Arquiteto Divino.

6

Os Arquitetos Divinos

Em alguma época entre 2.200 e 2.100 a.C. - uma época de grande importância em Stonehenge -, Ninurta, o filho preferido de Enlil, resolve realizar uma tarefa de monta: a construção de uma nova "Casa" para ele em Lagash.

O evento lança luz sobre vários assuntos de deuses e homens, graças ao fato de que o rei encarregado da tarefa, Gudea de Lagash, anotou tudo em detalhes minuciosos em dois grandes cilindros de argila. A despeito da enormidade da tarefa, ele percebeu que era uma grande honra e uma oportunidade única de ter seu nome e feitos lembrados por todos os tempos, pois nem todos os reis recebiam tanta confiança; na verdade, os registros reais (encontrados pelos arqueólogos desde então) mostram que pelo menos um rei famoso (Naram-Sin), e benquisto pelos deuses, recebeu várias recusas ao pedir a permissão de construir um novo templo (essa situação repetiu-se um milênio depois no caso do rei Davi, em Jerusalém). De forma astuta, Gudea resolveu expressar sua gratidão ao deus escrevendo frases para louvá-lo, em estátuas de si mesmo, que colocou no novo templo. Conseguiu deixar uma boa quantidade de informação escrita, o que explica o "Como" e o "Para quê" dos santuários e templos sagrados dos anunaques.

Como filho preferido de Enlil, com sua meia-irmã Ninharsag, Ninurta, o herdeiro, partilhava o número de seu pai, cinqüenta (sendo o de Anu, mais alto, sessenta, e de Enki, o outro filho, quarenta), e portanto era uma escolha simples chamar o zigurate de Ninurta E.NINNU, a "Casa dos Cinqüenta".

Ao longo dos milênios, Ninurta foi um ajudante fiel de seu pai realizando conscienciosamente cada tarefa que lhe era confiada. Adquiriu o epíteto "Melhor Guerreiro de Enlil" quando um deus rebelde chamado Zu apanhou as Tábuas do Destino do Centro de Controle de Missão, em Nippur, desequilibrando a ligação Céu-Terra; foi Ninurta quem perseguiu o usurpador até os confins da Terra, agarrando-o, recuperando as tábuas fundamentais e devolvendo-as a seu lugar certo. Quando irrompeu uma guerra brutal, à qual chamei, em As Guerras de Deuses e Homens, de Segunda Guerra das Pirâmides, entre os enlilitas e os enkiitas, foi outra vez Ninurta quem levou o lado de seu pai à vitória. Tal conflito terminou com uma conferência de paz forçada por Ninharsag, que dividiu a Terra entre os dois irmãos e seus filhos; a civilização foi garantida à humanidade nas "Três Regiões" - Mesopotâmia, Egito e o vale do Indo.

A paz durou um bom tempo, mas não para sempre. Um dos que não tinham ficado satisfeitos com os arranjos fora Marduk, o primogênito de Enki. Revivendo a rivalidade entre os pais, que derivava das complexas regras de sucessão entre os anunaques, Marduk desafiou o direito de soberania na Suméria e Acádia (que chamamos de Mesopotâmia) dos descendentes de Enlil e exigiu direitos em relação a uma cidade mesopotâmica chamada Bab-Ili (Babilônia) - literalmente, "Portão dos Deuses". Como resultado dos conflitos resultantes, Marduk foi sentenciado a ser enterrado vivo no interior da Grande Pirâmide, em Gizé; perdoado antes que fosse tarde demais, foi forçado ao exílio; mais uma vez Ninurta foi chamado para ajudar a resolver os conflitos.

Ninurta, entretanto, não era apenas um guerreiro. Depois do Dilúvio, foi ele quem represou as passagens nas montanhas, para evitar que a planície entre o Tigre e o Eufrates fosse ainda mais inundada com as águas do degelo, depois orientou trabalhos de drenagem para tornar a planície habitável outra vez. Mais tarde supervisionou a chegada da agricultura à região e viu-se apelidado pelos sumérios de Urash - Aquele da Colheita. Quando os deuses decidiram dar o reino aos homens, foi Ninurta quem recebeu a incumbência de organizar a primeira Cidade dos Homens, Kish. E quando, depois da rebelião de Marduk, as terras se aquietaram, por volta de 2.250 a.C., foi outra vez Ninurta quem restabeleceu a ordem e a realeza em sua cidade-culto, Lagash.

Sua recompensa foi a permissão de Enlil para construir um templo novo em Lagash. Não que estivesse "sem casa", pois possuía um templo em Kish e um templo no interior do terreno sagrado, em Nippur, próximo ao zigurate de seu pai. Tinha também seu templo no Girsu, o santuário de seu "centro de culto", na cidade de Lagash. Equipes francesas de arqueólogos que estiveram escavando nesse local agora chamado Telo, conduziram vinte "campanhas" entre 1877 e 1933, e descobriram várias partes de um zigurate quadrado e de um templo retangular, cujos cantos estavam precisamente orientados para os pontos cardeais. Eles estimaram que as fundações do templo mais antigo foram estabelecidas nos tempos dinásticos, antes de 2.700 a.C., sobre o pequeno monte marcado com um "K" no mapa de escavação. Inscrições feitas pelos primeiros governantes de Lagash já falavam em reformas e melhoramentos no Girsu, assim como na apresentação de artefatos votivos, tais como o vaso de prata de Entemena, por um período de seis ou sete séculos antes da era de Gudea. Algumas inscrições podem significar que as fundações para o primeiro Eninnu foram dadas por Mesilim, um rei de Kish que reinou por volta de 2.850 a.C.


Kish, conforme dissemos, era a cidade onde Ninurta estabelecera para os sumérios o conceito de realeza. Por um longo tempo, os governantes de Lagash eram considerados apenas vice-­reis, que precisavam merecer o título de "rei de Kish" para serem soberanos. Talvez tenha sido esse estigma de "segunda classe" que fez Ninurta procurar um templo autêntico para sua cidade; ele também precisava de um que pudesse abrigar as incríveis armas que recebera de Anu e Enlil, incluindo uma aeronave, apelidada de "Pássaro da Tempestade Divina", pois possuía uma envergadura de 23 metros, necessitando, por isso, de um "hangar" especialmente construído.

Quando Ninurta derrotou os enkiitas, entrou na Grande Pirâmide e pela primeira vez divisou sua arquitetura interna, intricada e impressionante, rivalizando com a grandeza da externa. A informação fornecida pelas inscrições de Gudea sugerem que Ninurta nutria um desejo de possuir um zigurate de igual grandeza e complexidade desde sua viagem ao Egito. Agora que a Suméria estava pacificada e ele conseguira para Lagash uma posição de capital real, pediu permissão mais uma vez a Enlil para construir um novo E.NINNU, uma nova "Casa dos Cinqüenta", no terreno sagrado em Lagash. Dessa vez, seu desejo seria atendido.

O fato de seu desejo ter sido atendido não deve ser subestimado como algo banal. Lemos, por exemplo, nos "mitos" cananeus em relação ao deus Baal ("Senhor") que por seu papel em derrotar os inimigos de El ("O Magnífico", a divindade suprema) ele pedira a permissão deste para construir uma Casa na encosta do monte Zaphon, no Líbano. Baal pedira antes, outras vezes, recebendo em todas elas uma recusa, e queixava-se repetidamente a "Bull El, seu pai":

Baal não tem casa, como os deuses, nenhum lugar como os filhos de Asherah; a habitação de El é o abrigo de seu filho.

Dessa vez ele pedira a Asherah, a esposa de El, para interceder por ele; e Asherah finalmente convenceu El a conceder a permissão. Além dos argumentos anteriores, havia mais um: Baal podia "observar as estações" em sua nova casa, disse ela - fazer observações para um calendário.

Mas, apesar de ser um deus, Baal não podia simplesmente construir sua habitação-templo. Os planos precisavam ser desenhados e a construção seria supervisionada pelo Kothar-Hasis, o arquiteto "Habilidoso e Sábio" dos deuses. Não apenas os modernos acadêmicos, mas também Filo de Biblos, no século I da nossa era, (citando historiadores fenícios anteriores), comparam Kothar-Hasis ao artesão dos deuses gregos, Hefaísto (que construiu o templo-habitação de Zeus) ou com Thot, o deus egípcio da sabedoria, artesanato e magia. Os textos cananeus de fato afirmam que Baal mandou emissários ao Egito para buscar Kothar-­Hasis, mas o encontraram em Creta, mais tarde.

Assim que Kothar-Hasis chegou, entretanto, Baal e ele se viram envolvidos em discussões acaloradas, no tocante à arquitetura do templo. Ele queria uma Casa com apenas duas partes, não as três habituais - um Hekhal e um Bamtim (um estágio elevado). A maior discórdia era sobre uma janela em forma de funil, ou clarabóia, que Kothar-Hasis afirmava precisar estar posicionada "na habitação", enquanto Baal veementemente afirmava que devia ficar em outro lugar qualquer. A discussão merece o espaço de muitos versos no texto para mostrar a agressividade e a importância; envolvia gritos e perdigotos...

Os motivos para a discussão em relação à luz do Sol e sua localização permanecem obscuros; nosso palpite é que poderiam estar ligados à orientação do templo. A afirmação, por Asherah, de que o templo permitiria monitorar as estações sugere uma orientação adequada para realizar tais observações astronômicas. Baal, por outro lado, como o texto cananeu revela mais tarde, estava planejando instalar no templo um dispositivo secreto de comunicação que permitiria que ele tivesse poder sobre outros deuses. Com esse propósito, Baal "esticou a corda, forte e flexível", do pico do Zaphon ("Norte") para Kadesh ("O Lugar Sagrado") no sul, até o deserto do Sinai.

A orientação, ao final, permaneceu da forma que o arquiteto divino, Kothar-Hasis, desejava. "Preste atenção às minhas palavras", disse ele a Baal, e "quanto a Baal, sua casa foi então construída", Se pudermos presumir que os templos posteriores colocados sobre a plataforma de Baalbek foram construídos sobre o plano antigo, descobriremos que a orientação que Kothar-Hasis defendeu tanto resultou num templo com eixo leste-oeste.

À medida que se desenrola a história suméria do novo templo Eninnu, veremos que também envolve observações celestes para determinar sua orientação, e precisou dos serviços de um arquiteto divino.

À semelhança do que fez o rei Salomão, treze séculos mais tarde, Gudea em suas inscrições detalhou o número de trabalhadores (216.000) envolvidos no projeto, o número de cedros que ele trouxe do Líbano, os outros tipos de madeira usados para grandes vigas, as "grandes pedras das montanhas, divididas em blocos"- betume dos poços e do "lago de betume", cobre das "montanhas de cobre", prata "de suas montanhas" e ouro "de suas montanhas", todos os artefatos de bronze e as decorações e os acabamentos, as estelas e as estátuas. Tudo foi descrito em detalhe, tudo tão magnífico e maravilhoso que, quando terminaram, "os anunaques ficaram todos tomados de admiração".

As seções de maior interesse nos escritos de Gudea são aquelas que tratam dos eventos que precederam a construção do templo, a determinação de sua orientação, seu equipamento e simbolismo; seguimos primariamente as informações das inscrições conhecidas como Cilindro A.

A corrente de eventos, registra Gudea, começou num dia determinado, um dia de grande significado. Referindo-se a Ninurta em seus registros pelo título formal NIN.GIRSU - "Senhor do Girsu" -, eis aqui como se inicia o texto:

No dia em que o Destino Céu-Terra é decretado,

Quando Lagash levantou sua cabeça na direção do céu, de acordo com o grande ME,

Enlil lança um olho favorável sobre o senhor Ningirsu.

Registrando a queixa de Ninurta sobre a demora na construção de um novo templo, "que é vital para a cidade de acordo com os ME", declara que, no dia propício, Enlil finalmente concedeu a permissão, e também decretou qual deveria ser o nome do templo: "Seu rei deve chamar o templo de E.NINNU". O edito, escreve Gudea, "produziu um brilho no céu e na Terra".

Tendo recebido a permissão de Enlil e obtido o nome para o novo zigurate, Ninurta estava agora livre para prosseguir com a construção. Sem perder tempo, Gudea se apressa a suplicar a seu deus que lhe permita encarregar-se dessa tarefa. Oferecendo sacrifícios de bois e crianças, "ele buscava a vontade divina... de dia e no meio da noite Gudea erguia os olhos para seu senhor Ningirsu; pela ordem de iniciar o templo ele procurava". Persistindo, Gudea continuou rezando. "Ele suspirava e dizia: 'assim vou falar; assim vou falar; essa palavra eu desejo dar: sou o pastor, escolhido para a realeza'.”

Finalmente, o milagre aconteceu: "À meia-noite, alguma coisa veio até mim; o significado eu não entendi". Gudea então tomou seu barco, vedado com asfalto, navegou através de um canal e foi até uma cidade próxima para procurar a explicação da deusa de oráculos Nanshe, em sua "Casa que Resolve o Destino". Oferecendo orações e sacrifícios para que ela resolvesse o enigma de sua visão, ele lhe contou sobre a aparência do deus cujo comando estava a ponto de aceitar:

No sonho [vi]

Um homem brilhante, brilhante como o Céu, grande no Céu, grande na Terra, que pelo seu capacete era um deus.

Ao seu lado estava o Divino Pássaro da Tempestade; como uma tempestade devoradora sob seus pés dois leões se abaixavam, à direita e à esquerda.

Ele me mandou construir seu templo.

Uma profecia celeste então ocorreu, e Gudea contou o significado dela à deusa do oráculo, pois não entendera: o Sol sobre Kishar, Júpiter, surgiu subitamente no horizonte. Uma mulher então apareceu para dar a Gudea outras instruções celestes:

Uma mulher... quem era ela?

Quem não era ela?

A imagem de um templo-estrutura, um zigurate, ela carregava na cabeça ­ na mão segurava um estilo sagrado, a tábua da estrela favorável do céu ela ostentava, aconselhando-se com ela.

Apareceu então um terceiro ser divino que possuía a aparência de um "herói":

Uma tábua de lápis-lazúli ele tinha na mão; o plano de um templo ele desenhou ali.

E então, perante seus olhos, se materializaram os sinais para a construção: "uma cesta santa para transporte de material" e um "molde sagrado de tijolos", onde estava colocado o "tijolo destinado" .

Tendo ouvido os detalhes da visão que parecia um sonho, a deusa do oráculo continuou a dizer a Gudea o que significava. O primeiro deus parecia ser Ningirsu (Ninurta); "ele mandou que construísses o templo, Eninnu". A relação com a aurora, explicou ela, sinalizava o deus Ningishzida, indicando para ele o ponto do Sol no horizonte. A deusa era Nisaba; "para construir a Casa de acordo com o Planeta Sagrado ela te instruiu". E o terceiro deus, explicou Nanshe, "Nindub é seu nome; ele entregou o plano da Casa para ti".

Nanshe então acrescentou algumas ordens por ela mesma, lembrando a Gudea que o novo Eninu precisava ter espaços apropriados para as armas de Ninurta, para sua grande aeronave e até mesmo para sua lira favorita. Dadas essas explicações e instruções, Gudea voltou para Lagash e trancou-se no velho templo, tentando descobrir o que todas aquelas instruções significavam. "Por dois dias no santuário do templo ele se trancou, durante a noite ele se trancou; o plano da Casa ele contemplou, repetia a visão para si mesmo.”

O mais impressionante para ele, para começar, era a orientação do templo. Subindo a uma parte mais elevada do velho templo chamada Shugalam, o "lugar da abertura, o lugar da determinação, do qual Ningirsu pode ver a repetição sobre suas terras", Gudea removeu uma parte do que obstruía a visão (reboco? lama?), tentando adivinhar os segredos da construção do templo; mas ainda estava confuso e perplexo. "Ó, meu senhor Ningirsu", gritou ele para seu deus, "Ó, filho de Enlil: meu coração permanece sem saber; o significado está longe de mim como no meio do oceano, como o meio do céu está distante... Ó, filho de Enlil, senhor Ningirsu - eu, eu não sei.”

Ele pediu uma segunda profecia; enquanto dormia, Ningirsu/Ninurta apareceu a ele: "Enquanto eu dormia, ele ficou em pé, perto da minha cabeça", escreve Gudea. O deus tornou claras as instruções, assegurando a Gudea a constante ajuda divina.

Minhas ordens vão ensinar a ti o sinal pelo divino planeta celestial; de acordo com os ritos sagrados.

Minha Casa, o Eninnu, irá unir a Terra com o Céu.

O deus, então, lista para Gudea todos os atributos internos do novo templo, expandindo ao mesmo tempo seus grandes poderes, suas armas espantosas, seus feitos memoráveis (tais como represar as águas) e o status que recebera de Anu, "os cinqüenta nomes de comando, com sua ordem certa". A construção deveria começar no "dia da lua nova", quando o deus iria lhe dar uma previsão adequada - um sinal: na noite do Ano Novo, a mão do rei aparecerá, segurando uma chama "que irá tornar a noite tão clara como o dia".

Ninurta/Ningirsu também assegura a Gudea que ele irá receber desde o começo a ajuda divina para o planejamento do novo Eninnu: o deus cujo epíteto era "A Serpente Brilhante" veio para ajudar a construir Eninnu e seu espaço sagrado - "construí-lo para ser como a Casa da Serpente, para ser como um forte elo será construído". Ninurta então promete a Gudea que a construção do templo irá trazer abundância para a Terra: "Quando meu templo-terraço estiver pronto", as chuvas virão na época certa, os canais de irrigação se encherão de água, e até o deserto "onde a água não flui" deve florescer; existirá colheita abundante e bastante óleo para cozinhar, e "lã em abundância será pesada".

Agora "Gudea entendera o plano favorável, um plano que era a mensagem clara de sua visão-sonho; tendo escutado as palavras do senhor Ningirsu, ele baixou a cabeça... Agora tinha sabedoria e compreendia grandes coisas".

Sem perder tempo, Gudea continuou "purificando a cidade" e organizando o povo de Lagash, velhos e moços, para formar brigadas de trabalho e listá-los para ajudar na monumental tarefa. Em versos que lançam uma luz sobre a vida e os costumes das pessoas da época, percebemos o lado humano da história, como eram a vida, os problemas sociais e o jeito das pessoas há mais de quatro milênios, vemos isso como uma forma de se consagrarem para um empreendimento único: "o chicote do capataz foi proibido, a mãe não passava reprimendas nos filhos... a empregada que fez um grande mal não apanhou de sua patroa no rosto". Porém, não se pediu às pessoas apenas que se tornassem angélicas; para financiar o projeto, Gudea "baixou impostos sobre a terra; como submissão para o senhor Ningirsu, os impostos foram aumentados"...

Podemos parar um instante para examinar outra construção de residência divina, a que foi construída no deserto para Iavé. O assunto foi registrado com precisão no Livro do Êxodo, começando no capítulo 25.

"Fala aos Filhos de Israel", disse Iavé a Moisés, "que eles podem trazer para mim uma contribuição: de cada homem cujo coração deva impeli-lo a isto, deve ser tomada uma parte para mim. E eles devem fazer um santuário sagrado para que eu habite no meio deles, o qual será conforme exatíssima planta, que eu te hei de mostrar do tabernáculo, como também será o modelo dos vasos que nele hão de servir. Eis aqui como farás esse santuário." Segue-se a mais detalhada lista de instruções arquitetônica - detalhes que tornaram possível a reconstrução do Tabernáculo e de seus componentes por estudiosos.

Para ajudar Moisés a realizar esses planos detalhados, Iavé resolveu providenciar para aquele dois assistentes que dotaria de "espíritos divinos" - "sabedoria, compreensão e conhecimento de todas as formas de artesanato". Dois homens foram escolhidos por Iavé a fim de receberem essa instrução, Beseleel e Ooliab, "para realizarem todo o trabalho da forma que Iavé ordenou". Essas instruções começavam com o plano do Templo e tornavam claro que a área era retangular, com os lados mais longos (cem cúbitos) alinhados com o sul e o norte, enquanto os lados mais curtos (cinqüenta cúbitos) eram voltados para leste e oeste, criando um eixo leste-oeste de orientação.

Voltemos para a Suméria, sete séculos antes do Êxodo, quando Gudea, agora "muito sábio" e "compreendendo muitas coisas", começou a executar suas instruções em grande estilo. Por canal e por rio enviou barcos, "navios sagrados nos quais foi elevado o símbolo de Nanshe", para convocar a ajuda de seus seguidores; enviou caravanas de gado e jumentos para as terras de mana, com seu emblema do disco com a estrela como estandarte; alistou os homens de Utu, "o deus a quem ele ama". Como resultado, "elamitas vieram de Elam, susianos de Susa; Magan Egito) e Melukhah (Núbia) enviaram grandes tributos de suas montanha". Cedros foram trazidos do Líbano, bronze foi recolhido e carregamentos de pedras chegaram nos navios. Cobre, ouro, prata e mármore foram assim obtidos.

Quando tudo ficou pronto, chegou o momento de fabricar os tijolos de argila. A tarefa não era pequena, não só porque seriam necessários dez mil tijolos. Os tijolos - uma das inovações introduzidas pelos sumérios, o que, numa terra sem grandes pedras, os tornou capazes de construir prédios elevados - não eram do tamanho que conhecemos hoje em dia: geralmente eram quadrados, com um lado de trinta centímetros ou mais. Não eram idênticos em todos os lugares; algumas vezes eram apenas cozidos pelo sol, outras cozidos em fornos, para aumentar a durabilidade; nem sempre eram planos, mas algumas vezes côncavos ou convexos, conforme a função a ser desempenhada, para suportar o cansaço da estrutura. Fica claro pelo texto de Gudea, como também de outros reis, que quando se tratava de templos, principalmente zigurates, era o deus encarregado quem determinava o tamanho e formato dos tijolos; era um passo tão importante na construção, e constituía uma honra tão grande para o soberano moldar o primeiro tijolo que os reis imprimiam nos tijolos ainda úmidos um carimbo com conteúdo votivo. Esse costume, felizmente, tornou possível para os arqueólogos a identificação dos reis envolvidos na construção, reconstrução ou reforma dos templos.

Gudea devotou várias linhas em suas inscrições ao assunto dos tijolos. Era uma cerimônia que contava com a presença de diversos deuses, realizada no terreno do templo antigo. Gudea preparou-se passando a noite no santuário, depois banhando-se e colocando roupas especiais pela manhã. Por todo o país era um dia solene. Ele ofereceu sacrifícios, depois foi até o Santo dos Santos; lá estava o molde que o deus lhe havia mostrado no sonho-­visão e uma "cesta santa" para carregá-lo. Gudea colocou a cesta na cabeça. Um deus chamado Galalim liderava a procissão. O deus Ningishzida segurava o molde nas mãos. Ele deixou que Gudea colocasse no molde água da bacia de cobre do templo, como um bom presságio. A um sinal de Ninurta, Gudea derramou argila no molde enquanto recitava encantamentos. Com reverência, continua a inscrição, executou os ritos sagrados. Toda a cidade de Lagash "segurava a respiração", aguardando o resultado: o tijolo sairia bem, ou seria defeituoso?

Depois que o sol brilhou por sobre o molde

Gudea o quebrou, separou o tijolo.

A face inferior da argila moldada ele olhou;

Com um olhar fiel a examinou.

O tijolo estava perfeito!

Ele levou o tijolo para o templo,

O tijolo retirado do molde.

Como um diadema brilhante ele o ergueu para o céu;

Levou-o para o povo e o levantou.

Colocou o tijolo no templo;

Estava sólido e firme.

E o coração do rei tornou-se tão brilhante quanto o dia.

Representações antigas, mesmo arcaicas, mostravam a cerimônia do tijolo; uma delas mostra uma divindade sentada segurando o molde sagrado, do qual são retirados tijolos para construir um zigurate.

Chegara o momento de começar a construir o templo; o primeiro passo era marcar sua orientação e implantar a pedra fundamental. Gudea escreveu que outro local fora escolhido para o novo Eninnu, e os arqueólogos realmente encontraram as ruínas numa colina a cerca de 150 metros da anterior, no pequeno monte marcado com "A" no mapa de escavações.

Sabemos por esses restos que o zigurate foi construído de forma que seus cantos fossem orientados para os pontos cardeais; a orientação precisa era obtida primeiro determinando o leste verdadeiro, depois construindo as paredes em ângulos retos. Essa cerimônia também era feita num dia auspicioso pelo qual "o ano inteiro" passaria. O dia foi anunciado pela deusa Nanshe. "Nanshe, uma filha de Eridu (a cidade de Enki), comandava a realização da profecia determinada." Acreditamos que tenha sido o Dia do Equinócio.

Ao meio-dia, "quando o sol estava alto", o "Senhor dos Observadores, um Arquiteto, parava no templo, a direção cuidadosamente planejada". Enquanto os anunaques observavam o procedimento de determinar a orientação "com muita admiração", ele "instalou a pedra fundamental e marcou na terra a direção da parede". Lemos depois na inscrição que esse Senhor dos Observadores, o Arquiteto, era Ningishzida; sabemos a partir de várias representações que era uma divindade (reconhecida por seu chapéu com chifres) que implantava a pedra fundamental cônica em tais ocasiões.

Além das representações da cerimônia, mostrando um deus com o capacete provido de chifres a implantar a "pedra" cônica, tais representações feitas de bronze sugerem que a "pedra" na verdade era desse material; o uso do termo "pedra" não era incomum, já que todos os metais que resultavam de mineração recebiam o nome depois do prefixo NA, que significa "pedra" ou "o que é minerado". A esse respeito é digno de nota que na Bíblia a instalação da pedra fundamental também é considerada um ato divino ou inspirado pelo divino, significando a "bênção do Senhor para a nova casa". Na profecia de Zacarias sobre a reconstrução do Templo em Jerusalém, ele relata como Iavé lhe mostrou numa visão "um homem segurando na mão uma corda de medir", e como lhe foi dito que esse emissário divino viria para medir os quatro lados de uma Jerusalém maior e reconstruída, com sua nova Casa do Senhor, cujas pedras deveriam se erguer sete vezes depois que o Senhor colocasse para ele a pedra fundamental. "E quando eles enxergarem a pedra de bronze nas mãos de Zorobabel" (aquele escolhido por Iavé para reconstruir o Templo) todas as nações irão saber que é a vontade de Deus. Nessa ocasião também os homens escolhidos para reconstruir o templo serão escolhidos por Iavé.

Em Lagash, uma vez que a pedra fundamental foi instalada pelo deus Ningishzida, Gudea foi capaz de estabelecer os alicerces do templo "como Nisaba, conhecendo o significado dos números" .

O zigurate construído por Gudea, concluíram os acadêmicos, era de sete estágios. Por isso foram pronunciadas sete bênçãos. Assim que a pedra fundamental foi colocada e a orientação do templo estabelecida, Gudea começou a colocar os tijolos sobre as marcas do chão:

Que os tijolos possam descansar em paz!

Que a casa por esse plano se eleve!

Que o divino Pássaro Negro da Tempestade

Seja como uma jovem águia!

Possa ser inspiradora como um jovem leão!

Possa a Casa ter o brilho do Céu!

Possa a alegria abundar nos sacrifícios prescritos!

Possa Eninnu ser uma luz no mundo!

Então Gudea começou a construir a "Casa, um local para o senhor Ningirsu... um templo que é verdadeiramente uma montanha Céu-Terra, a cabeça voltada para o céu... Com alegria Gudea erigiu o Eninnu com os tijolos firmes da Suméria; o grande templo ele construiu".

Sem pedras para serem extraídas na Mesopotâmia, a "terra entre os rios" que fora coberta por uma avalanche de lama durante o Dilúvio, os únicos materiais para construção eram a lama ou tijolos de argila, e todos os templos e zigurates foram construídos assim. A afirmação, por Gudea, de que Eninnu foi erigida com "os tijolos firmes da Suméria" era simplesmente a afirmação de um fato. O que parece intrigante é a lista detalhada de Gudea para os outros materiais usados na construção. Nos referimos aqui não apenas aos vários tipos de madeiras, usados ordinariamente na construção de templos, mas à variedade de metais e pedras empregados no projeto - materiais que precisavam ser importados de longe.

Lemos na inscrição que o rei, o "Pastor Justo", "construiu o templo brilhante com metal", trazendo cobre, ouro e prata de terras distantes. "Ele construiu o Eninnu com pedra, ele o fez brilhante com jóias; com cobre misturado com estanho ele o firmou." Sem dúvida, essa é uma referência ao bronze, que, além de servir para fabricar vários artefatos, provavelmente era usado para unir blocos de pedra e metais. A fundição do bronze, um processo complexo envolvendo a mistura de cobre e estanho em presença de grande calor e em proporções específicas, era uma arte; de fato as inscrições de Gudea tornam claro que, para esse propósito, um Sangu Simug, um "sacerdote metalúrgico", que trabalhava para o deus Nintud, foi trazido da "terra da fundição". Esse artesão, acrescenta a inscrição, "trabalhou na fachada do templo; com duas palmas [aproximadamente 8 cm] de pedra brilhante ele cobriu os tijolos; com diorita e uma palma de pedra brilhante ele”... (nesse ponto a inscrição está danificada demais para ser legível).

Tanto a quantidade de pedras usada no Eninnu como a afirmação de que os tijolos foram cobertos com pedras brilhantes de uma determinada espessura - uma afirmação que até agora não chamou a atenção dos estudiosos - são coisas simplesmente sensacionais. Não conhecemos outro exemplo de construção de um templo sumério que mencione o capeamento ou cobertura dos tijolos com pedras. Tais inscrições sempre falam de tijolos ­sua feitura, a erosão, a substituição - mas nunca de pedras cobrindo a fachada de tijolos.

Incrivelmente - mas, como veremos, não de forma inexplicável - a fachada do novo Eninnu com pedras polidas, única na Suméria, emulou o método egípcio de cobrir pirâmides de degraus com pedras polidas, produzindo lados lisos!

As pirâmides egípcias que foram construídas pelos faraós começaram com uma, construída pelo rei Zoser em Sakkara (sul de Mênfis), por volta de 2.650 a.C. Erguendo-se em seis estágios de um terreno retangular, originalmente era recoberta com pedras de calcário polido, das quais permanecem apenas traços: as pedras que compunham o acabamento foram retiradas por governantes posteriores, para usar em seus próprios monumentos.

As pirâmides egípcias, como mostramos e provamos em A Escada para o Céu, começaram com aquelas construídas pelos próprios anunaques - a Grande Pirâmide e suas duas companheiras, em Gizé. Foram eles que criaram a cobertura com pedras brilhantes para os degraus, conferindo-lhes uma aparência uniforme na parte externa. O fato de o novo Eninnu em Lagash, erguido por Ninurta aproximadamente na mesma época em que Stonehenge se tornou verdadeiramente de pedra, simular a superfície de uma pirâmide egípcia é uma pista para a solução do enigma de Stonehenge.

Tal elo inesperado com o Egito Antigo, como mostramos, era apenas um entre muitos. O próprio Gudea mencionou essas conexões quando afirmou que a forma do Eninnu e seu acabamento de pedras brilhantes foram baseados em informações trazidas por Nisaba, "que aprendeu a planta do templo com Enki", na "Casa de Aprender". Tal local certamente seria um dos centros de Enki; o Egito, conforme recordamos, foi o domínio de Enki e de seus descendentes quando a Terra foi dividida.

O projeto Eninnu envolveu a participação de um bom número de deuses. Nisaba, que aparecera a Gudea na primeira visão com o mapa estelar, não foi a única deusa entre eles. Vamos examinar a lista completa, depois ressaltar os papéis das mulheres.

Primeiro foi Enlil que começou o processo, garantindo a permissão para Ninurta construir o novo templo. Depois Ninurta apareceu para Gudea, informando-o da decisão divina e da escolha dele (Gudea) para ser o construtor. Em sua visão, Ningishzida indicou a ele o ponto celeste onde o Sol se erguia, Nisaba apontou com o estilo a estrela favorável e Nindub desenhou o plano numa pedra. Para compreender tudo isso, ele consultou Nanshe, a deusa do oráculo. Inana/lshtar e Utu/Shamash colocaram seus seguidores para obter os materiais raros para a construção. Ningishzida, com a participação de um deus chamado Galalim, envolveu-se em moldar os tijolos. Nanshe escolheu o dia propício para iniciar a construção. Ningishzida então determinou a orientação e estabeleceu a pedra fundamental. Antes que o Eninnu fosse declarado pronto, Utu/Shamash examinou seu alinhamento com o Sol. Os santuários individuais construídos ao longo do zigurate honravam Anu, Enlil e Enki. E a purificação final com os ritos de consagração, antes que Ninurta/Ningirsu e sua esposa Bau se mudassem, foi realizada por Ninmada, Enki, Nindub e Nanshe.

A astronomia desempenhou claramente um papel importante no projeto de Eninnu; duas das divindades envolvidas, Nanshe e Nisaba, eram deusas-astrônomas. Aplicavam seus conhecimentos especializados de astronomia, matemática e medidas não apenas à construção do templo (como no caso de Gudea), mas também a propósitos gerais, assim como rituais individuais. Uma foi treinada na academia de Eridu, a outra em Nippur.

Nanshe, que identificou para Gudea o papel celeste de cada uma das divindades que apareceram a ele em sua visão e determinou o dia preciso (o equinócio) para orientar o templo, é chamada nas inscrições de Gudea "uma filha de Eridu" (a cidade de Enki na Suméria). Realmente, nas listas dos Grandes Deuses da Mesopotâmia, ela era chamada NIN.A - "Dama da Água" - e apresentada como filha de Ea/Enki. O planejamento de aqueduto e a localização das fontes eram sua especialidade; seu equivalente celeste era a constelação de Escorpião - mul GIR. TAB em sumério. O conhecimento que ela trouxe para a construção do Eninnu em Lagash foi aquele das academias de Enki.

Um hino a Nanshe em seu papel como determinadora do Ano Novo a descreve sentada no julgamento da Espécie Humana naquele dia, acompanhada por Nisaba no papel de Contadora Divina que determina e mede os pecados daqueles que são julgados, tais como o pecado daquele que "substitui um peso pequeno por um grande, uma medida pequena por uma grande". Porém, enquanto as duas deusas freqüentemente eram mencionadas juntas, Nisaba (alguns estudiosos lêem seu nome como Nidaba) era claramente mencionada entre os enlilitas e algumas vezes identificada como irmã de Ninurta/Ningirsu. Embora mais tarde ela fosse venerada como a deusa que abençoa a colheita ­ talvez por causa de sua associação com o calendário e o tempo -, era descrita na literatura suméria como aquela que "abre os ouvidos dos homens", isto é, lhes ensina a sabedoria. Num dos vários ensaios compilados por Samuel N. Kramer (The Sumerians) de fragmentos dispersos, o Ummia ("Conhecedor de palavras") destaca Nisaba como a deusa protetora do E.DUB.BA ("Casa das Tábuas Escritas"), a principal academia para escribas. Kramer a chamou de "Deusa Suméria da Sabedoria".

Nisaba era, nas palavras de D. O. Edzard (Gotter und Mythen im Vorderen Orient), a deusa suméria da "arte de escrever, da matemática, da ciência, arquitetura e astronomia". Gudea especificamente a descreve como a "deusa que conhece números" ­- uma "Einstein" de saias da Antiguidade...

O símbolo de Nisaba era o estilo sagrado. Um hino curto a Nisaba numa tábua, desenterrada nas ruínas do santuário de ILagash, a descreve como "aquela que conseguiu cinqüenta grandes ME" e como possuidora do "estilo de sete números". Ambos os números eram associados a Enlil e Ninurta: o número de ambos era cinqüenta, e um dos epítetos de Enlil (como comandante da Terra, o sétimo planeta) era "Senhor de Sete".

Com seu Estilo Sagrado, Nisaba apontou a Gudea a "estrela favorita" na "tábua de estrelas" que ela ostentava nos joelhos; a implicação é que essa tábua trazia mais de uma estrela, de forma que a estrela correta para a orientação tinha de ser apontada entre várias. Essa conclusão é reforçada pela afirmação em A Bênção de Nisaba por Enki de que Enki lhe dera, como parte do aprendizado, a "tábua sagrada das estrelas celestes" - outra vez o plural na palavra estrela.

O termo MUL em sumério (Kakkab em acadiano), que significa "corpo celeste", era aplicado tanto a planetas como a estrelas, e ficamos a nos perguntar que tipo de corpos celestes apareciam no mapa estelar que Nisaba possuía, se eram estrelas ou planetas (talvez ambos). A linha de abertura no texto presta homenagem a Nisaba como grande astrônoma, chamando-a de NIN MUL.MUL.LA - "Senhora das Muitas Estrelas". O aspecto intrigante dessa formulação é que o termo "muitas estrelas" não está escrito com o sinal para "estrela" ao lado do sinal para "muitas", porém com quatro estrelas. A única explicação plausível para essa rara formulação é que Nisaba podia apontar, em sua carta celeste, as quatro estrelas que continuamos a usar para determinar os pontos cardeais.

Sua grande sabedoria e conhecimento científico eram expressos em hinos sumérios pela afirmação de que ela fora" aperfeiçoada com os cinqüenta grandes ME" - aquelas enigmáticas "fórmulas divinas", que como discos de computador eram suficientemente pequenas para serem levadas na mão, embora cada uma contivesse uma quantidade enorme de informações. Um texto sumério relata que Inana/Ishtar foi para Eridu e enganou Enki para ganhar cem delas. Nisaba, por outro lado, não precisou roubar seus cinqüenta ME. Um texto poético compilado de fragmentos e passado para o inglês por William W. Hallo (numa conferência chamada "Cultic Setting of Sumerian Poetry"), que ele chamou de A Bênção de Nisaba por Enki, deixa claro que, além de seus estudos enlilitas, havia também uma graduação na academia de Enki em Eridu. Aclamando Nisaba como "escriba-chefe do céu, guardiã de dados para Enlil, sábia entre os deuses" e exaltando Enki, o "artífice de Eridu" e sua "Casa de Ensino", o hino afirma:

Ele abriu a Casa do Ensino para Nisaba;

Ele colocou a tábua de lápis-lazúli nos joelhos dela,

Aconselhou-se com a tábua sagrada das estrelas do céu.

A "cidade-culto" de Nisaba era chamada de Eresh ("Primeira Habitação”); suas ruínas ou a localização nunca foram descobertas na Mesopotâmia. A quinta estrofe desse poema sugere que está localizada no "Mundo Inferior" (Abzu) da África, onde Enki supervisionava a mineração e as operações metalúrgicas e conduzia suas experiências sobre genética. Listando os vários locais distantes onde Nisaba também aprendera sob a guarda de Enki, o poema afirma:

Eresh ele construiu para ela,

Em abundância, criada de pequenos tijolos puros.

Ela recebeu sabedoria no mais alto grau no Abzu,

Grande lugar da coroa de Eridu.

Prima de Nisaba, a deusa ERESH.KI.GAL ("Principal Habitação no Grande Lugar") estava encarregada da estação científica no sul da África e lá partilhava o controle de uma Tábua de Sabedoria com Nergal, um filho de Enki, como dote de casamento. É possível que tenha sido aí o lugar em que Nisaba adquiriu instrução adicional.

Essa análise dos atributos de Nisaba pode nos ajudar a identificar a divindade - vamos chamá-la Deusa dos Astrônomos ­que aparece numa tábua assíria. Ela é mostrada no interior de um portal dominado por posições de observação em degrau. Segura um instrumento de observação montado numa haste, identificado aqui pelo crescente como especial para observar os movimentos da Lua com finalidade calendárica. Ela é identificada pelas quatro estrelas - o símbolo, acreditamos, de Nisaba.

Uma das afirmações mais estranhas feitas por Gudea quando descreveu as divindades que apareciam para ele dizia respeito a Nisaba: "A imagem de um templo-estrutura, um zigurate, ela carregava na cabeça". O ornamento na cabeça dos deuses da Mesopotâmia era reconhecido pelos pares de chifres; que algum deus ou deusa usasse na cabeça a imagem de um templo ou um objeto era algo absolutamente inédito. Ainda assim, em sua inscrição, foi como Gudea descreveu Nisaba.

Ele não estava imaginando coisas. Nisaba de fato carrega na cabeça a imagem de um templo-zigurate, assim como Gudea afirmou. Porém não se trata de uma estrutura com degraus, ao invés disso é a imagem de uma pirâmide com os lados lisos - uma pirâmide egípcia!

Além do mais, não nos referimos aqui apenas a um zigurate "egipcianizado" - o costume de usar tais imagens na cabeça é egípcio, sobretudo no que se refere às deusas egípcias. À frente estão Ísis, a esposa-irmã de Osíris, e Néftis, irmã deles.

Seria Nisaba uma deusa enlilita que estudara na escola de Enki, egipcianizada o suficiente para usar aquele tipo de ornamento na cabeça? À medida que prosseguimos nessa linha de investigação, aparecem muitas semelhanças entre Nisaba e Sesheta, a assistente feminina de Thot no Egito. Em relação aos atributos e funções de Shesheta, que já passamos em revista, existem outros que parecem bastante com os de Nisaba. Incluem seu papel como a deusa das "artes de escrever e das ciências" nas palavras de Hermann Kees (Der Gotterglaube in Alten Aegypten).

Nisaba possuía o "estilo de sete números"; Sesheta também era associada ao número sete. Um dos epítetos era "Sesheta significa sete" e seu nome era freqüentemente escrito com hieróglifos usando o sinal para o número sete colocado sobre um arco. Como Nisaba, que apareceu a Gudea com a imagem de um templo­-estrutura na cabeça, Sesheta também aparecia com a imagem de uma torre gêmea sobre a cabeça, acima do símbolo da estrela e do arco. Ela era uma "filha do céu", estudava e registrava os tempos; como Nisaba, determinava a data astronômica requerida pelos construtores de templos.

Segundo os textos sumérios, o consorte de Nisaba era um deus chamado Haia. Pouco se sabe a respeito dele, a não ser que nos julgamentos do Ano Novo, supervisionado por Nanshe, ele também estava presente, agindo como fiel da balança. Na crença egípcia, o Dia do Julgamento para o faraó era quando ele morria, época em que seu coração era pesado para determinar seu destino no Pós-vida. Na teologia egípcia, o deus que equilibrava as escalas era Thot, deus da ciência, astronomia, do calendário, da escrita e da guarda de informação.

Tal superposição de identidades entre as divindades que providenciavam saber astronômico e calendárico para o Eninnu revela um estágio desconhecido de colaboração, na época de Gudea, entre os Arquitetos Divinos egípcios e sumérios.

Era, em muitos aspectos, um fenômeno incomum; encontrou expressão na forma única, na aparência do Eninnu e na ocupação interna do terreno sagrado, por meio da construção de instalações astronômicas. Tudo envolvia o calendário e girava em tomo dele - o presente dos Guardiões de Segredos para a humanidade.

Depois de a construção do zigurate Eninnu estar completa, bastante esforço e arte foram empregados nos adornos, não apenas no exterior, como também no interior; porções do "Santuário interno" eram cobertas com "painéis de cedro, agradáveis à vista". Do lado de fora, árvores raras e arbustos eram plantados para criar um jardim agradável. Uma piscina foi construída e povoada com peixes raros - outro hábito incomum em templos sumérios e popular entre os egípcios, onde um lago sagrado era comum.

"O sonho foi realizado", escreveu Gudea. O Eninnu ficou pronto, "como uma massa de luz brilhante, um brilho que cobre tudo; como uma montanha cuja luz se espalha com alegria".

Agora ele voltava sua atenção para o Girsu, o terreno sagrado. Uma ravina, "um grande depósito", foi preenchida: "com a sabedoria vinda de Enki, divinamente ele fez a inclinação, aumentando a área do terraço do templo". Só o Cilindro A fornece lima lista de mais de cinqüenta santuários separados e templos construídos para honrar os vários deuses envolvidos no projeto, assim como Anu, Enlil e Enki. Havia jardins fechados, prédios utilitários, pátios, altares e portões; residências para os vários sacerdotes e, naturalmente, os aposentos especiais e quartos para Ningirsu/Ninurta e sua esposa Bau.

Havia também instalações especiais para acomodar o Divino Pássaro Negro, a aeronave de Ninurta, e suas armas diferenciadas; assim como locais onde as funções calendárico-astronômica do novo Eninnu seriam realizadas. Havia um local especial para o "Guardião dos Segredos" e o novo Shugalam, o lugar alto da abertura, um "lugar para determinar quem é o mais impressionante, onde o Brilho é anunciado". Havia dois prédios ligados à "solução de cordas" e "atar com as cordas" respectivamente - instalações cujo propósito desafiou os estudiosos, mas que devem estar relacionadas à observação celeste, pois estavam localizados nas proximidades ou faziam parte das estruturas chamadas "Câmara Mais Elevada" e Câmara das Sete Zonas".

Havia com certeza outros aspectos adicionados ao novo Eninnu e seu terreno sagrado que sem dúvida o tornavam único, como Gudea apregoou; vamos discuti-los com os detalhes que merecem um pouco mais adiante. Havia também a necessidade, conforme o texto afirma claramente, de aguardar um dia específico - o Ano Novo para ser exato - antes que Ninurta e sua esposa Bau pudessem mudar-se para o novo Eninnu e torná-lo sua casa.

Enquanto o Cilindro “A” era devotado aos eventos que antecederam a construção e à construção em si, as inscrições de Gudea no Cilindro “B” tratam dos ritos dedicados à consagração do novo zigurate e seu território sagrado com as cerimônias que envolviam a chegada de Ninurta e Bau ao Girsu - reafirmando o título dele como NIN.GIRSU, "Senhor do Girsu" - e sua entrada na nova habitação. Os aspectos astronômicos e calendáricos desses ritos e cerimônias confirmam os dados do Cilindro “A”.

Enquanto aguardava a chegada da data de inauguração ­por uma boa parte do ano - Gudea envolvia-se em preces diárias, em fazer libações e encher os celeiros com alimento dos campos e os cercados com carneiros dos pastos. Finalmente o dia marcado chegou:

O ano transcorreu,

Os meses se completaram;

O Ano Novo chegou aos céus ­–

O "Mês do Templo" começou.

Naquele dia, enquanto a Lua nascia, as cerimônias começaram. Os próprios deuses realizavam a purificação e os ritos de consagração: "Ninmada realizou a purificação; Enki garantiu um oráculo especial; Nindub espalhou incenso; Nanshe, a Senhora dos Oráculos, cantou hinos sagrados; eles consagraram o Eninnu, tornaram-no sagrado".

O terceiro dia, lembra Gudea, foi um dia brilhante. Foi o dia em que Ninurta saiu - "resplandecia com um brilho suave". À medida que entrava no terreno sagrado, "a deusa Bau avançava a seu lado esquerdo". Gudea "aspergiu óleo no solo... trouxe mel, manteiga, leite, grãos, azeite de oliva... tâmaras e uvas ele empilhou - comida não tocada pelo fogo, comida para os deuses comerem".

O casal divino e os outros deuses se entretiveram com as frutas e outras comidas cruas até o meio-dia. "Quando o Sol se elevou alto sobre a terra, Gudea matou um boi e um carneiro gordo", e uma festa de carnes regada a muito vinho começou; "pão branco e leite eles trouxeram durante o dia e ao longo da noite"; e "Ninurta, o guerreiro de Enlil, comendo e tomando cerveja, estava satisfeito". Enquanto isso, Gudea "fez toda a cidade ajoelhar-se, fez o país inteiro prostrar-se a seus pés... De dia faziam solicitações, de noite rezavam".

"Na aurora, Ningirsu, o guerreiro, entrou no Templo; para dentro do Templo seu Senhor veio; gritando como se fosse para uma batalha, Ningirsu entrou em seu templo. Foi como o nascer do Sol sobre a terra de Lagash... toda a terra de Lagash alegrou­-se". Foi também o dia em que começou a colheita:

Naquele dia,

Quando o Deus Justo entrou,

Gudea, naquele dia,

Começou a colheita dos campos.

De acordo com um decreto de Ninurta e da deusa Nanshe, seguiram-se sete dias de penitência e perdão na terra. "Por sete dias a empregada e sua patroa foram iguais, o senhor e o escravo andaram lado a lado... os maledicentes passaram a falar bem... o rico não fez mal à órfã, nenhum homem oprimiu a viúva... a cidade tornou-se sem maldade." Ao final dos sete dias, no décimo do mês, Gudea entrou no novo templo e pela primeira vez realizou os ritos de sumo sacerdote, "acendendo o fogo no terraço­-templo, perante o céu claro".

Uma representação num cilindro do segundo milênio a.C. encontrada em Assur pode bem ter preservado para nós a cena que aconteceu mil anos antes em Lagash: representa um sumo sacerdote (que metade das vezes era o rei, como no caso de Gudea) acendendo um fogo num altar, olhando para o zigurate do deus, enquanto o "planeta favorito" é visto no céu.

No altar, "perante o céu brilhante, o fogo no templo-terraço aumentava". Gudea "sacrificava bois e crianças em quantidade". De uma tigela ele bebeu. "Pela cidade abaixo do templo pediu.”

Jurou aliança eterna com Ningirsu, "jurou pelos tijolos do Eninnu, e pronunciou palavras favoráveis".

E o deus Ninurta, prometendo abundância para Lagash e seu povo, disse: "Que a terra gere tudo o que é bom"; e para o próprio Gudea: "A vida será prolongada para ti".

Apropriadamente a inscrição no Cilindro “B” conclui:

Casa, elevando-se na direção do céu como uma grande montanha,

Sua luminosidade poderosa cai sobre a terra

Como Anu e Enlil determinam o destino de Úlgash.

Eninnu, pelo Céu-Terra construído,

O domínio de Ningirsu

Por sobre todas as terras se torna conhecido.

Ó Ningirsu, és honrado!

A Casa de Ningirsu foi construída;

Que a Glória recaia sobre ela.

7

Um Stonehenge no Eufrates

Existe uma riqueza de informação nas inscrições de Gudea; quanto mais as estudamos, aprendendo sobre os aspectos especiais do Eninnu, mais surpresos ficamos.

Examinando o texto verso por verso e visualizando o novo templo-terraço e seu zigurate, iremos descobrir aspectos celestes impressionantes na "Ligação Céu-Terra"; uma das mais antigas, se não a mais antiga associação de um templo com o zodíaco; o aparecimento de esfinges na Suméria numa época totalmente inesperada; uma série de ligações com o Egito e especialmente com um de seus deuses; e um "mini-Stonehenge na Terra Entre Rios...

Vamos começar com a primeira tarefa que Gudea assumiu depois de a construção estar completa e de o templo-terraço estar formado. Foi o erguimento de sete pilares de pedra em sete posições cuidadosamente estudadas. Gudea, afirma a inscrição, certificou-se de que estivessem firmemente instalados: ele "colocou a todos numa fundação, em bases ele as erigiu".

As estelas (como os estudiosos chamam essas pedras eretas) devem ter sido de grande importância, pois Gudea passou um ano inteiro para trazer as pedras em bruto, a partir das quais as estelas eram modeladas, de um lugar distante até Lagash; mais um ano para cortá-las e esculpir tudo. Porém, num esforço desesperado que durou precisamente sete dias durante os quais o trabalho foi executado sem parada, sem descanso, as sete estelas foram instaladas em seus lugares adequados. Se, como a informação sugere, as sete estelas estavam posicionadas num determinado alinhamento astronômico, então a velocidade do esforço pode ser compreendida, pois, quanto mais demoradas as providências, mais desalinhados estariam os corpos celestes.

Testemunho da importância das estelas e de suas posições é o fato de Gudea ter dado a cada uma um "nome", feito de uma longa expressão, evidentemente relativa à posição da estela (por exemplo, "no terraço magnífico", em frente ao "portal da margem do rio", ou "do lado oposto ao santuário de Anu"). Embora a inscrição afirme sem equívoco (coluna XXIX, linha 1) que "sete estelas foram instaladas", só são fornecidos os nomes de seis delas. Com respeito a uma delas, presumivelmente a sétima, a inscrição afirma que "foi erguida na direção do Sol nascente". Como a essa altura todas as orientações necessárias do Eninnu já haviam sido satisfeitas, começando com as instruções divinas e a pedra fundamental colocada por Ningishzida, nenhuma das seis espalhadas, ou a sétima "erguida na direção do Sol nascente" foram necessárias para orientar o templo. Outro propósito diferente teve de ser o motivo; a única conclusão lógica é que envolviam outras observações que não fossem a determinação do Dia do Equinócio (por exemplo, do Ano Novo) - algumas observações calendárico-astronômicas de natureza incomum, justificando o grande esforço para obter e dar forma às estelas, além da pressa para a instalação.

O enigma desses pilares de pedra começa com a pergunta: por que tantas, quando duas são suficientes para criar uma linha de mira, por exemplo, na direção do Sol nascente? O quebra-cabeça assume proporções incríveis quando observamos na inscrição a sensacional afirmação de que as seis cujas localizações são fornecidas foram colocadas por Gudea "num círculo" . Teria Gudea usado as estelas para formar um círculo de pedra - na Suméria, há mais de cinco mil anos?

As inscrições de Gudea indicam, de acordo com A. Falkenstein (Die Inschriften Gudeas Von Lagash), a existência de uma avenida ou caminho que - como em Stonehenge! - formava uma direção ou linha de mira sem obstáculos. Ele reparou que a estela chamada "na direção do Sol nascente" ficava ao final de um caminho ou avenida chamada "caminho para a posição alta". No outro extremo desse caminho ficava o Shugalam, o "Lugar alto cuja inspiração é grande, onde o Brilho é levantado". O termo SHU.GALAM significava, de acordo com Falkenstein: "Onde a mão é elevada" - um lugar alto de onde é dado um sinal. De fato, a inscrição do Cilindro “A” afirma que "Na entrada brilhante de Shugalam, Gudea estabeleceu uma imagem favorável; na direção do Sol nascente, no local destinado, o emblema do Sol ele estabeleceu" .

Já discutimos as funções do Shugalam quando Gudea visitou o do templo antigo, para remover o estuque ou lama que obscurecia a vista. Era "o local da abertura, o lugar de determinação". A inscrição afirmava: "Ninurta poderá ver as repetições sobre suas terras (o ciclo anual)". A descrição traz à mente a abertura no teto, que provocou tanta discussão entre Baal e o divino arquiteto que viera do Egito para desenhar o novo templo no Líbano.

Um pouco de esclarecimento sobre o enigmático propósito de tal clarabóia ou abertura no teto pode ser obtido com o exame do termo hebraico e suas raízes acadianas. É Tzohar, e aparece apenas uma vez na Bíblia para descrever a única abertura no teto da hermeticamente fechada Arca de Noé. O significado, todos concordamos, é uma "janela no teto, por onde um raio de luz possa entrar". Em hebraico moderno, o termo também é usado para significar "zênite", o ponto no céu exatamente acima; tanto no hebraico moderno quanto no texto bíblico, o termo Tzohora'im, que deriva dele e ainda é utilizado, significa "meio-dia", quando o Sol está exatamente a pino. Tzohar, portanto, não era uma abertura simples, mas uma cuja intenção era deixar entrar um raio de sol no ambiente escuro numa determinada hora do dia; com uma grafia levemente diferente, Zohar, o termo significa "brilho". Tudo deriva do acadiano, a língua-mãe de todas as linguagens semitas, nas quais as palavras izirru, tzurru significam "animar-se, brilhar" e "seja elevado".

No Shugalam, narrou Gudea, ele "fixou a imagem do Sol". Todas as evidências sugerem que era um dispositivo por meio do qual o Sol nascente - sem dúvida no Dia do Equinócio, a julgar pelas datas nas inscrições - era observado para determinar e anunciar a chegada do Ano Novo.

Seria o conceito sob o arranjo estrutural (possivelmente) o mesmo que no monte Zaphon e (com certeza) nos templos egípcios, onde um raio de sol passava por um eixo pré-selecionado para iluminar o Santo dos Santos ao amanhecer do dia escolhido?

No Egito, os templos solares eram flanqueados por dois obeliscos que os faraós erigiam para garantir vida eterna; sua função seria guiar o raio de sol no dia prescrito. E. A. Wallis Budge (The Egyptian Obelisk) ressalta que os faraós, como Ramsés II e a rainha Hatshepsut, sempre estabeleciam os obeliscos em pares. A rainha Hatshepsut chegou mesmo a escrever seu nome (no interior de um cartucho) entre dois obeliscos de modo que o Raio Abençoado de Rá brilhasse sobre ela nesse dia importante.

Os estudiosos repararam que o Templo de Salomão também possuía duas colunas em sua entrada; como as estelas eretas em Eninnu, que receberam nomes dados por Gudea, assim também foram os pilares de Salomão:

E ele erigiu os pilares

No pórtico do templo.

Colocou o pilar direito e lhe deu o nome de Iachin.

Colocou o pilar da esquerda e lhe deu o nome de Boaz.

Embora o significado dos dois nomes ainda intrigue os estudiosos (a melhor tradução seria "Iavé faz com firmeza" e "Nele está a força"), a forma, a altura e a decoração dos pilares são descritas na Bíblia (principalmente em Reis I, capítulo 7) com detalhes. Os dois pilares foram feitos de bronze fundido, dezoito cúbitos (nove metros, aproximadamente) de altura. Cada pilar suportava um "chapéu" complexo, como uma coroa, onde havia uma corola cujo topo serrado criava sete protuberâncias; um deles (ou ambos, dependendo da forma como o verso é lido) era "circundado por uma corda de doze cúbitos". (Doze e sete são números predominantes no Templo.)

A Bíblia não afirma a finalidade desses pilares, e as teorias variam, atribuindo desde funções decorativas ou simbólicas até uma função semelhante àquela do par de obeliscos que ladeava a entrada dos templos no Egito. A esse respeito uma sugestão vem da palavra egípcia sobre obeliscos, Tekhen. O termo, escreve Budge, "era uma palavra muito antiga, e a encontramos duplicada nos Textos das Pirâmides, escritos antes do final da VI dinastia". Quanto ao significado da palavra, que ele não sabia, acrescentou: "O significado exato de Tekhen é desconhecido para nós e é provável que os egípcios o tenham esquecido num período remoto". Isso acena com a possibilidade de que a palavra tenha sido um termo estrangeiro, um "estrangeirismo" de outra língua ou país, e, de nossa parte, acreditamos que tanto a palavra Iachin quanto a palavra egípcia Tekhen derivam da raiz acadiana khunnu, que significa "estabelecer corretamente", assim como "acender uma luz" (ou fogo). O termo acadiano pode ser seguido até o sumério mais antigo GUNNU, que combina os significados "luz do dia" com "tubo, cano".

Essas pistas lingüísticas combinam bem com representações sumérias antigas de entradas de templos, mostrando-as flanqueadas por pilares aos quais foram aplicados dispositivos circulares (fig. 8Sb). Esses devem ter sido os antecessores de todos os pares de pilares, colunas ou obeliscos, pois aparecem na representação suméria milênios antes dos outros. A procura de respostas para o enigma dessas estruturas erguidas é corroborada ao examinarmos o termo usado por Gudea em suas inscrições para descrever as pedras eretas. Ele chamou as sete de NE.RU - de onde deriva a palavra hebraica Ner, que significa "vela". A escrita suméria se desenvolveu por meio das marcas que o escriba fazia na argila molhada para imitar o desenho ou ação original do objeto ao qual o termo se aplicava. Descobrimos que o pictograma original do termo Neru eram dois - dois, e não um - pilares em bases estáveis com estruturas que lembram antenas.

Tais pares de pilares, guiando (simbolicamente ou não) o raio de sol num dia específico, seriam suficientes se apenas uma posição solar - de equinócio ou solstício - estivesse envolvida. Se tal determinação única fosse pretendida em Girsu, duas estelas, em alinhamento com o Shugalam, teriam sido suficientes. Porém Gudea estabeleceu sete delas, seis em círculo e a sétima em alinhamento com o Sol. Para formar uma linha de mira, esse estranho pilar poderia ter sido posicionado tanto no centro do círculo como fora dele, na avenida. De qualquer forma, o resultado iria indicar uma estranha semelhança com Stonehenge, nas Ilhas Britânicas.

Seis pontos externos em circunferência com um no centro teriam criado um desenho que, como em Stonehenge II -­ pertencente à mesma época -, forneceria alinhamentos não apenas com os equinócios, mas também com os quatro pontos de solstício (aurora e crepúsculo do meio do verão, aurora e crepúsculo do meio do inverno). Considerando-se que o Ano Novo mesopotâmico estava ancorado firmemente nos equinócios, resultando em zigurates cujo canto principal estava orientado para leste, um arranjo de pilares de pedras que incorporasse a fixação de solstícios seria uma grande inovação. Também indicaria uma influência "egípcia" decisiva, pois era nos templos egípcios que tal orientação pelos solstícios predominava - certamente na época de Gudea.

Se, como sugere o estudo de Falkenstein, o sétimo pilar não ficasse no interior do círculo de seis estelas, mas fora dele, no caminho ou avenida que ligava ao Shugalam, uma semelhança ainda maior emerge, não com o último Stonehenge, mas com o mais antigo, Stonehenge I, onde, lembramos, existiam sete pedras: as quatro pedras das estações formando um retângulo, duas formando o portal que flanqueava o início da avenida, e a Pedra do Calcanhar, que marcava a linha de mira - um arranjo de sete pedras eretas. Como em Stonehenge os Orifícios Aubrey faziam parte da fase I, a linha de mira podia ser determinada com facilidade por um observador no orifício 28, dirigindo seu olhar para um posto no orifício 56, observando o Sol aparecer por sobre a Pedra do Calcanhar no dia propício.

Tal semelhança nos projetos deve ser ainda mais significativo do que a primeira alternativa, pois o retângulo formado pelas quatro Pedras das Estações implicava observações lunares além de solares. A compreensão desse arranjo em retângulo levou Newham e Hawkins a conclusões abrangentes em relação à sofisticação do planejamento de Stonehenge I. Porém, como Stonehenge I precedeu a Eninnu em cerca de sete séculos, as similaridades implicariam que o planejamento das sete estelas em Eninnu teria copiado a idéia de Stonehenge I.

Tal semelhança entre as duas estruturas, em duas partes diferentes do mundo, parece incrível; entretanto, ela se torna mais viável à medida que trazemos à luz aspectos mais impressionantes do Eninnu de Gudea.

O círculo de seis-mais-um não era o único círculo de pedras na plataforma do novo Eninnu.

Gabando-se de ter realizado "grandes coisas" que requeriam "sabedoria" (conhecimento científico), Gudea continuou a descrever, depois da parte na qual falava das estelas, o "círculo em coroa para a lua nova" - uma criação de pedra tão única que "seu nome no mundo ele tornará para sempre brilhante". Esse segundo círculo era disposto como uma "coroa circular para a lua nova" e consistia em treze pedras erguidas "como heróis num grupo" - uma descrição figurativa, nos parece, para descrever um círculo de pedras erguidas ligadas ao alto por lintéis que formavam um "grupo" semelhante ao dos trilitos em Stonehenge!

Embora a possibilidade de que o primeiro círculo servisse a funções tanto lunares quanto solares não passe de suposição, o segundo círculo, maior, sem dúvida era utilizado para observar a Lua. A julgar pelas repetidas referências à lua nova nas inscrições, as observações lunares eram equipadas para o acompanhamento do círculo completo, o crescente e o minguante ao longo dos quatro quartos. Nossa interpretação do círculo em coroa é reforçada pela afirmação de que esse círculo consistia em dois grupos de megálitos - um de seis e outro de sete, este último aparentemente mais alto do que o anterior.

À primeira vista, o arranjo dos treze (seis mais sete) megálitos, ligados em seus topos por lintéis para formar uma "coroa", parece ser um erro, porque esperamos encontrar apenas doze pilares (o que no círculo cria doze aberturas) se o arranjo for relacionado aos doze meses das fases lunares. A presença de treze pilares, entretanto, faz sentido se existir a necessidade de adicionar um mês de vez em quando para propósitos de correção. Se assim for, os impressionantes círculos no Girsu também formam os primeiros calendários feitos de pedra para acomodar os ciclos solar e lunar.

(É o caso de perguntar se esses círculos de pedra no Girsu de alguma forma não contribuíram para a introdução da semana de sete dias - uma divisão de tempo cujas origens intrigam os estudiosos -, a semana bíblica que intercala seis dias de criação com o dia adicional de descanso. O número sete aparece duas vezes, no primeiro arranjo de pilares e como parte do segundo círculo. É possível também que de alguma forma os dias sejam contados de acordo com cada grupo, levando a uma repetição de períodos de sete dias. E, também, as quatro fases da Lua multiplicadas pelos treze pilares dividiriam o ano em 52 semanas de sete dias cada.)

Quaisquer que sejam as possibilidades astronômico­-calendáricas inerentes aos dois círculos (e provavelmente citamos apenas as mais básicas), é evidente que no Girsu de Lagash um computador solar-lunar de pedra foi colocado em operação.

Se tudo isso começar a soar como "Stonehenge no Eufrates" ­ um mini-Stonehenge erigido por um rei sumério no Girsu de Lagash mais ou menos ao mesmo tempo em que nas Ilhas Britânicas o verdadeiro Stonehenge se tomava um círculo de pedras, por volta de 2.100 a.C. - ainda há mais. Foi nessa época que os doleritos, o segundo tipo de pedra, foram transportados até a planície de Salisbury, de uma fonte distante. Isso também aumenta as semelhanças: Gudea, da mesma forma, trouxe não um, mas dois tipos diferentes de pedras, igualmente de fontes distantes, "das montanhas de pedra" de Magan (Egito) e Melukhah (Núbia), na África. Lemos na inscrição do Cilindro A que levou um ano inteiro para obter esses blocos de pedra das "montanhas de pedra em que nenhum rei (sumério) havia entrado antes". Para alcançá-las, Gudea "fez uma estrada para o interior das montanhas e suas grandes pedras ele trouxe em blocos; carregamentos de pedras Hua e Lua".

Embora os significados dos nomes dos dois tipos de pedras permaneça indecifrado, sua origem distante é claramente afirmada. Vindo de duas fontes africanas, primeiro foram transportadas por terra, via uma nova estrada construída por Gudea, de­ pois carregadas por navios ao longo das rotas marítimas até Lagash (que é ligada ao rio Eufrates por um canal navegável).

Tal como a planície de Salisbury na Inglaterra, assim era o terreno na Mesopotâmia: pedras trazidas de longe, especialmente escolhidas, estabelecidas em dois círculos. Tal como em Stonehenge I, sete pilares representam um papel-chave; tal como em todas as fases de Stonehenge em Lagash, também um grande megálito criou a linha de mira desejada na direção da orientação solar principal. Em ambos os lugares um "computador" de pedra foi criado para servir de observatório solar-lunar.

Teriam sido ambos, então, criados pelo mesmo gênio científico, pelo mesmo Arquiteto Divino - ou simplesmente foram o resultado de tradições científicas acumuladas que encontraram expressões em estruturas similares?

Embora o conhecimento científico em geral, como aplicado à astronomia e ao calendário, sem dúvida tenha representado um papel, a mão de um Arquiteto Divino não pode ser ignorada. Em capítulos anteriores apontamos a diferença principal entre Stonehenge e todos os outros templos do Velho Mundo: os primeiros foram todos construídos com ângulos retos (retângulos ou quadrados). Essa diferença, evidentemente, não é a única no plano geral de outros templos, mas também em várias situações onde foram encontradas pedras erguidas, o padrão sugere observações astronômicas e calendáricas. Um exemplo digno de nota é encontrado em Biblos, num promontório com vista para o Mediterrâneo. O Santo dos Santos em seu templo, de formato quadrado, era flanqueado por monólitos de pedra erguidos, Ficam num alinhamento que sugere observações de equinócios e solstícios; porém nenhum foi arranjado em círculo. Aparentemente, foi o caso de um local em Canaã, Gezer, perto de Jerusalém, onde a descoberta de uma tábua em que estava escrita a lista dos meses e suas atividades relativas à agricultura sugere a existência de um centro para o estudo do calendário. Existe também uma fileira de monólitos eretos, indicando a existência em antiguidade de estrutura comparável a Biblos; as pedras ficavam numa linha reta, desmentindo qualquer arranjo circular.

Os poucos exemplos de monólitos colocados em círculo, que de alguma forma imitam o extraordinário arranjo em Girsu, nos chegam pela Bíblia. Sua raridade, entretanto, aponta para uma conexão direta com a Suméria, no tempo de Gudea.

O conhecimento de um círculo de treze com uma pedra ao centro emerge na história de José, o bisneto de Abraão, que incomodava os irmãos com histórias de seus sonhos onde todos se curvavam a ele, embora ele fosse o mais novo. O sonho que perturbava mais os outros, a ponto de os irmãos resolverem se livrar dele, vendendo-o como escravo aos egípcios, era aquele no qual, segundo José, "O Sol, a Lua e onze estrelas se curvam para mim", representando o pai, a mãe e os onze irmãos.

Vários séculos depois, enquanto os israelitas saíam do Egito para a Terra Prometida em Canaã, um círculo de pedra - dessa vez de doze pedras - foi erigido. Nos capítulos 3 e 4 do Livro de Josué, a Bíblia descreve a travessia milagrosa do rio Jordão pelos israelitas sob a liderança de Josué. Como instruído por Iavé, os chefes das doze tribos erigiram doze pedras no meio do rio; e quando os sacerdotes, levando a Arca da Aliança, se aproximaram das águas, ficando onde as pedras foram colocadas, o fluxo das águas do rio foi "cortado" rio acima, e o leito ficou exposto, possibilitando a passagem dos israelitas, para que atravessassem o rio a pé. Assim que os sacerdotes desceram das pedras e carregaram a Arca para o outro lado, "as águas do Jordão retornaram ao lugar e fluíram ao longo de suas margens como faziam antes".

Então Iavé ordenou a Josué que levasse as doze pedras e as erigisse num círculo, do lado oeste do rio, a leste de Jericó, como uma comemoração perene do milagre realizado por Iavé. O local onde as doze pedras foram erigidas desde então é conhecido como Gilgal, significando "Lugar do Círculo".

Não apenas o estabelecimento do círculo de doze pedras como dispositivo milagroso é relevante aqui; a data do acontecimento também. Ficamos sabendo, no capítulo 3, que o tempo era "tempo de colheita, quando as águas do Jordão ultrapassavam suas margens". O capítulo 4 é mais específico: foi no primeiro mês do calendário, o mês do Ano Novo; e foi no décimo dia daquele mês o mesmo dia no qual as cerimônias de inauguração eram festejadas em Lagash - que "as pessoas deixaram o Jordão e acamparam no Gilgal, onde Josué erigira as doze pedras trazidas do rio Jordão".

Tais marcadores calendáricos ostentam estranha semelhança com dados similares que dizem respeito à época em que Gudea erigiu os círculos de pedra na plataforma de Girsu, depois que o Eninnu fora completado. Lemos na inscrição de Gudea que no dia em que Ninurta e sua esposa entravam em sua nova habitação, iniciava-se a colheita - combinando com a "época de colheita" na história de Gilgal. A astronomia e o calendário convergem nas duas histórias, e ambas mencionam estruturas circulares.

A emergência de tradições de círculos de pedra entre os descendentes de Abraão pode ser seguida até o próprio Abraão e a identidade de seu pai, Tera. Tratando o assunto detalhadamente em As Guerras de Deuses e Homens, concluímos que Tera era um sacerdote de oráculo, de descendência real, nascido e criado em Nippur. Com base nas datas bíblicas, temos calculado que ele nasceu em 2.193 a.C.; isso significa que Tera era um sacerdote­-astrônomo em Nippur quando Enlil autorizou seu filho, Ninurta, a continuar com o novo Eninnu, com Gudea.

O filho de Tera, Abrão (mais tarde rebatizado Abraão) nasceu, por nossos cálculos, em 2.123 a.C. e tinha dez anos de idade quando a família resolveu mudar-se para Ur, onde Tera deveria servir como um contato. A família ficou lá até 2.096 a.C. quando saiu da Suméria para a região do Alto Eufrates (uma migração que mais tarde levou ao acampamento de Abraão em Canaã). Abraão então já era versado em assuntos reais e sacerdotais, incluindo astronomia. Sendo educado no templo sagrado de Nippur e Ur exatamente quando se discutiam as glórias do novo Eninnu, ele não podia ter deixado de saber sobre o círculo sagrado de pedras em Girsu; isso explicaria o conhecimento de seus descendentes.

De onde veio a idéia de círculo - uma forma que se torna o aspecto mais impressionante de Stonehenge - como forma apropriada para fazer observações astronômicas? Em nossa visão, veio do zodíaco, o ciclo das doze constelações agrupadas ao redor do Sol no plano orbital (Eclíptica) dos planetas.

No início do século passado, os arqueólogos escavaram, na Galiléia, ao norte de Israel, restos de sinagogas que remontam às décadas e séculos seguintes à destruição do Segundo Templo em Jerusalém pelos romanos (em 70 d.C.). Para surpresa deles, um aspecto comum entre as sinagogas era a decoração do assoalho com mosaicos de desenhos intricados, que incluíam os signos do zodíaco. Como mostra esse de um lugar chamado Bet-Alfa, o número - doze - era o mesmo que hoje em dia, os símbolos são os mesmos que agora usamos e os nomes também. Escritos de forma análoga ao hebraico moderno, iniciam-se (no leste) com Taleh para o carneiro, Áries, flanqueado por Shor (boi) para Touro e Dagim (peixes) para Peixes, e assim por diante, exatamente na mesma ordem que continuamos a empregar, milênios depois.

O círculo zodiacal do que os acadianos chamavam de Manzallu ("estações" do Sol) foi a fonte do termo hebreu Mazalot, que significa "sorte". Aí está, portanto, a transição entre a natureza essencialmente astronômica e calendárica para suas conotações astrológicas - uma transição que a seu tempo obscureceu o significado original do zodíaco e o papel que desempenhava nos assuntos de deuses e homens. Por último, mas não menos importante, havia a maravilhosa expressão que Gudea construiu no Eninnu.

Apesar dos fatos, prevaleceu a noção de que o conceito, os nomes e símbolos do zodíaco foram idealizados pelos gregos, pois a palavra é de origem grega, significando "círculo animal". Concede-se que a inspiração pode ter vindo do Egito, onde o zodíaco com seus símbolos inalterados, com a ordem e com os nomes era certamente conhecido. A despeito da antiguidade de algumas representações egípcias - incluindo uma magnífica no templo de Dendera -, o zodíaco não foi criado lá. Estudos tais como o realizado por E. e Krupp (In Search of Ancient Astronomies) enfaticamente afirmam que "todas as evidências disponíveis indicam que o conceito do zodíaco não era originário do Egito; ao invés disso, acredita-se que o zodíaco foi para o Egito importado da Mesopotâmia" em alguma data desconhecida. Sábios gregos, que possuíam acesso à arte e tradições egípcias, atestaram em seus escritos que, no que se relacionava à astronomia, a sabedoria vinha dos" caldeus", os sacerdotes-astrônomos da Babilônia.

Os arqueólogos encontraram tábuas astronômicas na Babilônia claramente marcadas em doze partes, cada uma com seu símbolo zodiacal estampado. Podem muito bem representar o tipo de recursos que os sábios gregos estudaram. Porém, os símbolos celestes foram esculpidos em rochas no interior de um círculo celeste. Quase dois mil anos antes do círculo zodiacal de Bet-Alfa, os governantes do Oriente Médio, especialmente na Babilônia, invocavam seus deuses em documentos de tratados; pedras que serviam de marcos (Kudurru) foram entalhadas com os símbolos desses deuses - planetários e zodiacais - no interior do círculo celeste, envolvido por urna serpente ondulante que representa a Via Láctea.

O zodíaco, entretanto, começara, no tocante à humanidade, na Suméria. Como mostramos sem sombra de dúvida em O 12º. Planeta, os sumérios conheciam e representavam as casas zodiacais e lhes davam nomes, exatamente como ainda fazemos, seis mil anos depois:

GU.ANNA ("Touro Celeste") - Touro

MASH.TAB.BA ("Gêmeos") - Gêmeos

DUB ("Tenazes, Pinças") - Câncer

UR.GULA ("Leão") - Leão

AB.SIN ("Cujo Pai era Sin") - a Donzela - Virgem

ZI.BA.AN.NA ("Destino Celeste") - os pratos de Libra

GIR.TAB ("O Cortador", "O que Agarra com Tenazes") ­ - Escorpião

PA.BIL ("Defensor") o Arqueiro - Sagitário

SUHUR.MASH ("Peixe-cabra”) - Capricórnio

GU ("Senhor das Águas") - o Aguadeiro - Aquário

SIM.MAH ("Peixes") - Peixes

KU.MAL ("Que Vive no Campo") - o Carneiro - Áries

Provas irrefutáveis demonstram que os sumérios eram conhecedores das eras zodiacais - não apenas dos nomes e imagens mas do ciclo precessional envolvido - quando o calendário iniciou-se, em Nippur, por volta de 3.800 a.C, na Era de Touro. Willy Hartner, em seu estudo "A História Mais Antiga das Constelações no Oriente Médio" (Journal of Near Eastern Studies), analisou as evidências pictóricas e concluiu que as numerosas representações de um touro atacando um leão (do quarto milênio a.C), ou de um leão arrastando touros (de cerca de 3.000 a.C), são representações do tempo zodiacal quando o equinócio de primavera, época em que o ano calendárico se inicia, ocorria na constelação de Touro, e o solstício de verão ocorria no signo de Leão.

Alfred Jeremias (The Old Testament in the Light of the Ancient Near East) encontrou evidências textuais de que o "ponto zero" sumério calendárico-zodiacal ficava precisamente entre Touro e Gêmeos, a partir do que concluiu que a divisão zodiacal dos céus - inexplicável para ele - foi introduzida mesmo antes do início da civilização suméria, na Era de Gêmeos. Ainda mais intrigante para os estudiosos foi uma tábua suméria sobre astronomia (VAT.7847 no Museu Vorderasiatisches, em Berlim), que inicia a lista de constelações zodiacais com a de Leão - remontando a cerca de 11.000 a.C, por volta da época do Dilúvio.


CONTINUA.....


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