sexta-feira, agosto 17, 2012

Coleção Zecharia Sitchin Livro 7 / Começo Do Tempo - 2º PARTE

Criado pelos anunaques como ligação entre o Tempo Divino (ciclo baseado na órbita de Nibiru, de 3.600 anos) e o Tempo Terrestre (o período da órbita da Terra), o Tempo Celeste (o período de 2.160 anos para a mudança precessional de uma casa do zodíaco para outra) serviu para datar eventos importantes na pré-­história da Terra, assim como a arqueoastronomia pôde fazer com o período histórico. Dessa maneira, uma representação dos anunaques como astronautas e uma nave espacial entre Marte (a estrela de seis pontas) e a Terra (identificada pelas sete bolas e o crescente da Lua junto) localiza o evento, temporalmente, na Era de Peixes, ao incluir o símbolo zodiacal de dois peixes na figura. Textos escritos também incluíam datas zodiacais; o texto que localiza o Dilúvio na Era de Leão é um exemplo.

Mesmo que não possamos precisar quando a humanidade se tornou consciente do zodíaco, claramente percebemos que foi muito antes da época de Gudea. Sendo assim, não nos devemos surpreender com o fato de que representações zodiacais estão presentes no templo novo em Lagash; não, entretanto, no assoalho, como em Bet-Alfa, e não como símbolos esculpidos em pedras distantes. Ao contrário, numa estrutura magnífica que pode, com certeza, ser chamada de o primeiro e mais antigo planetário do mundo!

Lemos no texto de Gudea que ele colocou "imagens de constelações" num local "puro e sagrado, num santuário interno". Lá um "cofre do céu", especialmente desenhado - uma imitação do círculo celeste, uma espécie de planetário antigo -, foi construído como um domo apoiado no que poderia ser chamado de entablamento (um termo técnico que designa a base de uma superestrutura apoiada em colunas). Nesse "cofre do céu", Gudea fazia deslizar as imagens zodiacais. Encontramos mencionados na lista "os Gêmeos Celestes", o "Santo Capricórnio", o "Herói" (Sagitário), o Leão, as "Criaturas Celestes", o Touro e o Carneiro.

Como Gudea se gabara, esse "cofre do céu" com os símbolos zodiacais devia ser mesmo uma bela coisa para se apreciar. Milênios mais tarde, não podemos mais entrar nesse santuário interno e compartilhar com Gudea a ilusão de ver os céus com suas constelações brilhantes; porém poderíamos ter ido para Dendera, no Alto Egito, entrado no santuário interno do templo principal e olhado para o teto. Lá teríamos visto uma pintura do céu estrelado; o círculo celeste, seguro nos quatro pontos cardeais pelos filhos de Hórus e nos pontos de aurora e crepúsculo nos solstícios por quatro donzelas. Um círculo representando os 36 "decanatos" (períodos de dez dias, três por mês, do calendário egípcio) cerca o "cofre do céu" central no qual as doze constelações do zodíaco são representadas pelos mesmos símbolos (touro, carneiro, leão, gêmeos etc.) e na mesma ordem que ainda usamos e que se iniciou na Suméria. O nome hieroglífico do templo, ta ynt neterti, significa "Lugar dos pilares da deusa", sugerindo que em Dendera, assim como em Girsu, algumas pedras verticais serviam para a observação celeste, ligada por um lado ao zodíaco e pelo outro ao calendário (como atestam os 36 decanatos).

Os estudiosos não conseguem concordar sobre a época representada pelo zodíaco em Dendera. A representação, como a conhecemos, foi descoberta quando Napoleão invadiu o Egito, foi removida para o Museu do Louvre, em Paris, e acredita-se que remonte ao período quando o Egito ficou sob o domínio greco-romano. Os estudiosos, porém, estão certos de que representa a cópia de um tempo mais antigo, dedicado à deusa Hathor. Sir Norman Lockyer, em The Dawn of Astronomy, interpretou um texto da IV dinastia (2.613-2.494 a.C.) que descrevia os alinhamentos celestes nesse templo anterior; colocaria a data em que o "cofre do céu" em Dendera foi criado, entre o final de Stonehenge I e a construção do Eninnu em Lagash por Gudea. Se, como outros sustentam, os céus mostrados em Dendera são datados pela imagem de uma maça com um falcão pousado, tocando o pé dos Gêmeos, entre o Touro (à direita) e o Caranguejo (à esquerda), significa que a obra em Dendera representava o céu no passado (como quando reproduzimos, num planetário, o céu na época de Cristo) em algum lugar entre 6.540 e 4.380 a.C. Segundo a cronologia egípcia, transmitida pelos sacerdotes e registrada por Maneto, foi a época em que os semideuses reinaram sobre o Egito; tal datação dos céus em Dendera (como diferente da época de construção do templo em si) corrobora as descobertas, mencionadas acima, de Alfred Jeremias em relação ao "ponto zero" do calendário zodiacal sumério. Tanto as datações egípcias quanto as sumérias confirmam que esse conceito precedeu o início dessas civilizações, e que os "deuses", e não os homens, foram responsáveis por essas representações e sua datação.

Como mostramos, o zodíaco e o Tempo Celeste que o acompanha foram criados pelos anunaques logo depois de terem vindo à Terra, e algumas datas que marcam eventos representados nos cilindros de argila foram anteriores ao surgimento das civilizações humanas. A Era de Peixes, por exemplo, que é indicada por dois peixes, ocorreu entre 25.980 e 23.820 a.C. (talvez mais cedo, se o evento ocorreu em outra Era de Peixes, no Grande Ciclo de 25.920 anos).

Um fato maravilhoso, apesar de não surpreender, é que encontramos a possibilidade da existência de outro "céu estrelado", representando o círculo celeste e as constelações do zodíaco, segundo um texto conhecido pelos acadêmicos como Um Hino a Enlil, o Todo-Beneficente. Descrevendo a parte mais interna do Centro de Controle de Missão de Enlil, em Nippur, no interior do zigurate E.KUR, o texto afirma que numa câmara escurecida conhecida como Dirga, estava instalado "um zênite celestial, tão misterioso quanto o mar distante", no qual "emblemas estrelados" eram "representados com perfeição".

O termo DIR.GA indica "escuro, na forma de coroa"; o texto explica que os "emblemas das estrelas" instalados permitiam a determinação de festivais, significando uma função calendárica. Tudo indica um precursor do planetário de Gudea; exceto que a câmara em Ekur era oculta a olhos humanos, aberta somente aos anunaques.

O "cofre do céu" de Gudea, construído como planetário, ostenta maior semelhança com o Dirga do que com o templo em Dendera, que era apenas uma pintura no teto. Ainda assim, não podemos descartar a possibilidade de que a inspiração para a de Girsu tenha vindo do Egito por causa das inúmeras semelhanças com os aspectos egípcios. A lista parece longe de estar completa.

Alguns dos achados mais impressionantes encontrados adornando as coleções assírias e babilônicas nos grandes museus são estátuas colossais de animais com corpos de touro ou leão e cabeças de deuses usando capacetes com chifres, postados como guardas à entrada dos templos. Podemos presumir com segurança que essas "criaturas míticas", como dizem os acadêmicos, traduzem em pedra o motivo Touro-Leão que ilustramos antes, invocando para os templos a magia de um Tempo Celeste anterior e os deuses associados com essas eras zodiacais.

Os arqueólogos acreditam que essas esculturas foram inspiradas pelas esfinges do Egito, principalmente a Grande Esfinge, em Gizé, que os assírios e babilônios conheciam como resultado do comércio e das guerras. Porém as inscrições de Gudea revelam que cerca de 1.500 anos antes que tais criaturas divino-­zodiacais fossem colocadas nos templos assírios, Gudea já posicionara esfinges no templo Eninnu; as inscrições mencionavam "um leão que inspirava terror" e um "touro selvagem, sentado como um leão". Para a descrença dos arqueólogos sobre as esfinges serem conhecidas na Suméria, uma estátua do próprio Ninurta/Ningirsu, mostrando-o como uma esfinge abaixada, foi descoberta entre as ruínas de Girsu, em Lagash.

Pistas de que tudo seria de se esperar foram dadas a Gudea - e assim a nós - na aparição de Ninurta ao surpreso Gudea na visão da segunda noite, na qual Ninurta afirmou seus poderes e reafirmou sua posição entre os anunaques ("Por cinqüenta editos meu comando foi decretado"), lembrou sua familiaridade com outras partes do mundo ("Um senhor cujos olhos são elevados à distância", como resultado de seus passeios no Divino Pássaro Preto), assegurou-o quanto à cooperação de Magan e Melukhah (Egito e Núbia) e prometeu a ele que o deus chamado a "Serpente Brilhante" viria em pessoa ajudar na construção do novo Eninnu: "Como uma fortaleza será construída, como E.HUSH será meu lugar sagrado".

Essa última afirmação é verdadeiramente sensacional em suas implicações.

"E", conforme sabemos, significa a "casa" de um deus, um templo; no caso de Eninnu - uma pirâmide em estágios. E.HUSH (pronunciado "Chush", onde o "ch" inicial soa como o ch alemão e o "sh" é produzido com a língua) significa, em sumério, "de cor vermelha, tom avermelhado". Foi isso o que Ninurta quis dizer, quando falou: o novo Eninnu será como a "Casa Divina Avermelhada". A afirmação implicava que o novo Eninnu iria imitar uma estrutura existente, conhecida por seu tom avermelhado...

Nossa busca por essa estrutura pode ser facilitada pelo exame do pictograma que representa Hush. O que encontramos é verdadeiramente uma surpresa, pois trata-se de um desenho em corte de uma pirâmide egípcia, mostrando seus corredores internos, passagens e câmaras subterrâneas. Mais especificamente parece ser desenhado como um corte da Grande Pirâmide, em Gizé, ou do modelo experimental em escala, a menor pirâmide de Gizé - e da primeira pirâmide faraônica bem-sucedida, que significativamente era chamada de Pirâmide Vermelha, do mesmo tom que Hush significara.

A Pirâmide Vermelha certamente estava ali para ser copiada quando o Eninnu foi construído em Lagash. Era uma das três pirâmides atribuídas a Sneferu, o primeiro faraó da IV dinastia, que reinou por volta de 2.600 a.C. Seus arquitetos primeiro tentaram construir para ele uma pirâmide em Maidum, imitando a inclinação de 52 graus das pirâmides em Gizé, construídas milênios antes pelos anunaques; porém o ângulo era inclinado demais e a pirâmide desabou. Tal desabamento provocou uma mudança no ângulo da pirâmide em Dashur, em construção, para 43 graus, resultando na pirâmide que agora recebe o nome de Pirâmide Torta. Ela levou à construção, também em Dashur, da terceira pirâmide de Sneferu. Considerada a "primeira pirâmide clássica" feita por um faraó, seus lados apresentam uma inclinação de 43,5 graus. Foi construída de calcário cor-de-rosa local, e portanto foi apelidada de Pirâmide Vermelha. Prolongamentos sobre os lados tinham a função de segurar no lugar uma camada de calcário branco; porém não permaneceu por muito tempo, e hoje a pirâmide é vista em seu tom avermelhado original.




Tendo lutado (e vencido) na Segunda Guerra das Pirâmides no Egito, Ninurta conhecia as pirâmides. Teria ele visto, à medida que o reinado foi estabelecido no Egito, não apenas a Grande Pirâmide e suas companheiras em Gizé, mas também uma pirâmide de degraus construída pelo faraó Zoser em Sakkara, cercada por seu magnífico pátio sagrado, construída por volta de 2.650 a.C? Teria visto a imitação bem-sucedida da Grande Pirâmide - a Pirâmide Vermelha de Sneferu, construída por volta de 2.600 a.C? E teria dito ao Arquiteto Divino: isso é o que eu gostaria de construir para mim, um zigurate único, combinando elementos dos outros três?

Além do mais, como seria possível explicar as evidências que ligam Eninnu, construído entre 2.200 e 2.100 a.C com o Egito... e seus deuses?

E de que outra forma se poderia explicar as semelhanças entre Stonehenge nas Ilhas Britânicas e "Stonehenge no Eufrates"?

Para explicar temos de voltar nossa atenção para o Arquiteto Divino, o Guardião de Segredos das Pirâmides, o deus chamado por Gudea de Ningishzida; pois ele não era outro senão o deus egípcio Tehuti a quem chamamos THOT.

Thot foi chamado nos Textos da Pirâmide de "Aquele que reconhece os céus, o contador de estrelas e medidor da Terra"; o inventor das artes e das ciências, escriba dos deuses, "Aquele que faz cálculos em relação aos céus, às estrelas e à Terra". Como "Reconhecedor de tempos e estações", ele foi representado com um símbolo combinando o disco do Sol e o crescente da Lua sobre sua cabeça e - em palavras que sugerem a adoração bíblica do Senhor Celeste - as inscrições egípcias e lendas sobre Thot de que sua sabedoria e poderes de cálculo "mediam o Céu e planejavam a Terra". Seu nome hieroglífico Tehuti geralmente se explica como o significado "Ele que equilibra". Heinrich Brugsch (Religion und Mythologie) e E. A. Wallis Budge (The Gads af the Egyptians) entenderam isso como um sinal de que Thot era o "deus do equilíbrio" e levaram em conta as representações dele como "Mestre do Equilíbrio" para indicar que ele estava associado aos equinócios - a época em que o dia e a noite estavam equilibrados.

Os gregos identificavam Thot com seu deus Hermes, a quem consideravam ter sido o originador da astronomia e astrologia, da ciência dos números e da geometria, da medicina e da botânica.

À medida que seguirmos os passos de Thot, encontraremos as histórias do calendário que erguem a cortina dos negócios entre deuses e homens - e de enigmas, como Stonehenge.

8

Histórias do Calendário

A história do calendário é de inventividade, uma combinação sofisticada de astronomia e matemática. É também uma história de conflito, fervor religioso e luta pela supremacia.

A noção de que o calendário foi idealizado por fazendeiros e para fazendeiros a fim de que pudessem saber quando semear e quando plantar foi dada como certa por tempo demais; ela falha tanto no que se refere ao campo da lógica quanto ao do fato. Fazendeiros não precisam de um calendário formal para conhecer as estações, e sociedades primitivas conseguiram alimentar-se por gerações sem um calendário. O fato histórico é que o calendário foi idealizado para predeterminar o intervalo preciso entre os festivais que honravam os deuses. O calendário, em outras palavras, era um dispositivo religioso. Os primeiros nomes pelos quais os meses eram chamados na Suméria tinham o prefixo EZEN. A palavra não significava "mês"; significava "festival". Os meses eram as épocas quando o Festival de Enlil, ou o Festival de Ninurta, ou os de outras divindades importantes seriam observados.

Que o propósito do calendário fosse permitir as observâncias religiosas não deveria ser uma surpresa. Encontramos um exemplo que ainda regula nossas vidas no atual calendário cristão. Sua principal festividade religiosa é a Páscoa, o ponto focal que determina o restante do calendário anual, a comemoração da ressurreição, segundo o Novo Testamento, de Jesus no terceiro dia depois de sua crucificação. Os cristãos ocidentais comemoram a Páscoa no primeiro domingo depois da lua cheia que ocorre logo após o equinócio de primavera (no hemisfério norte). Isso criou um problema para os primeiros cristãos em Roma, onde o elemento dominante do calendário era o ano solar de 365 dias e os meses eram de comprimento irregular e não exatamente relacionados às fases da Lua. A determinação da Páscoa, portanto, exigia uma dependência do calendário judaico, porque a Última Ceia, de onde são contados os dias, era na verdade a refeição Seder para comemorar a Pessach hebraica, que ocorre na véspera do décimo quarto dia do mês Nissan, a época da lua cheia. Como resultado, nos primeiros séculos da cristandade, a Páscoa era comemorada de acordo com o calendário judaico. Foi apenas quando o imperador romano Constantino, tendo se convertido ao cristianismo, conclamou um concílio, o Concílio de Nicéia, no ano 325, que a dependência contínua do calendário judaico foi abalada, e a cristandade, até então tida apenas como mais uma corrente do judaísmo, foi considerada uma religião separada.

Nessa mudança, como na origem, o calendário cristão foi uma expressão de crenças religiosas e um instrumento para determinar as datas de adoração. E o foi também mais tarde, quando os muçulmanos saíram da Arábia para conquistar pela espada terras e pessoas a leste e oeste; a imposição do calendário puramente lunar foi um dos primeiros atos, pois possuía grande conotação religiosa; contava a passagem do tempo a partir da Hégira, a migração de Maomé, o fundador do islamismo, de Meca para Medina (em 622).

A história do calendário romano-cristão, interessante em si, ilustra alguns dos problemas inerentes ao unir os calendários solar e lunar e a necessidade resultante, ao longo dos milênios, de reformas no calendário e noções das eras que se renovam.

O atual calendário da Era Cristã comum foi introduzido pelo papa Gregório XIII em 1.582 e, portanto, é chamado de calendário gregoriano. Ele constitui uma reforma do calendário Juliano, como era chamado o anterior, numa referência ao imperador romano Júlio César.

Esse famoso imperador romano, cansado do calendário caótico romano, convidou no século I a.C. o astrônomo Sosígenes, de Alexandria, no Egito, para que sugerisse uma reforma no calendário. O conselho de Sosígenes foi para que esquecesse o calendário lunar e adotasse um solar, "como o dos egípcios". O resultado foi um ano de 365 dias mais um ano diferenciado com 366 dias a cada quatro anos. Porém aquilo deixava uma sobra de 11 minutos e 1/4 por ano em excesso. Parecia pouca coisa para preocupar; porém o resultado foi que em 1582 o primeiro dia de primavera, fixo pelo Conselho de Nicéia em 21 de março, foi retardado por dez dias para 11 de março. O papa Gregório corrigiu o problema, decretando no dia 4 de outubro que o dia seguinte seria 15 de outubro. Essa reforma estabeleceu o calendário gregoriano atualmente em uso, cuja outra inovação foi decretar que o ano começava em 1º. de janeiro.

A sugestão do astrônomo de adotar um calendário "como aquele dos egípcios" foi aceita em Roma, devemos presumir, sem muita dificuldade porque na época Roma, e especialmente Júlio César, eram familiarizados com o Egito, seus costumes religiosos e seu calendário. Naquele tempo o calendário egípcio era puramente solar, com 365 dias divididos em doze meses de trinta dias cada. Aos 360 eram adicionados cinco dias de festividades religiosas, dedicados a Osíris, Hórus, Seth, Ísis e Néftis.

Os egípcios tinham consciência de que o ano solar era um pouco maior do que 365 dias, não apenas pelo dia inteiro a cada quatro anos, como Júlio César dissera, mas pelo suficiente para alterar o calendário em um mês a cada 120 anos e por um ano inteiro a cada 1.460 anos. O ciclo determinante ou sagrado do calendário dos egípcios era esse período de 1.460 anos, por sua coincidência com o ciclo do despontar helíaco da estrela Sírius (Sept, em egípcio, Sothis, em grego) na época da enchente anual do Nilo, que geralmente acontecia por volta do solstício de verão (no hemisfério norte).

Edwar Meyer (Agyptische Chronologie) concluiu que quando esse calendário egípcio foi introduzido, tal convergência do despontar helíaco de Sírius e da inundação do Nilo havia ocorrido em 19 de julho. Baseado no que Kurt Sethe (Urgeschichte und iilteste Religion der Agypter) calculou, esses fatos devem ter ocorrido ou em 4.240 ou 2.780 a.C., observando os céus tanto em Heliópolis quanto em Mênfis.

Atualmente os pesquisadores do antigo calendário egípcio concordam que o calendário solar de 360+5 dias não foi o primeiro calendário daquela terra. Esse calendário "civil" ou secular foi introduzido apenas depois do início da época dinástica no Egito, por volta de 3.100 a.C.; de acordo com Richard A. Parker (The Calendars of the Ancient Egyptians), ocorreu por volta de 2.800 a.C. "provavelmente por motivos administrativos e fiscais". Esse calendário civil suplantou, ou talvez tenha suplementado, no início, o antigo calendário "sagrado". Nas palavras da Enciclopédia Britânica, "os antigos egípcios utilizavam um calendário baseado na Lua". Segundo R. A. Parker (Ancient Egyptian Astronomy), aquele calendário inicial era "como o de todos os povos antigos", um calendário de doze meses lunares mais um décimo terceiro intercalado que mantinha as estações em seus locais.

Esse calendário antigo era também, na opinião de Lockyer, equinocial, sem dúvida ligado ao templo mais antigo, em Heliópolis, cuja orientação era equinocial. Em tudo, mesmo na associação dos meses com festividades religiosas, o calendário egípcio era igual ao dos sumérios.

A conclusão de que o calendário egípcio tinha suas raízes em tempos pré-dinásticos, antes que a civilização aparecesse no Egito, só pode significar que não foram os próprios egípcios que inventaram esse calendário. É uma conclusão que combina o zodíaco no Egito e o zodíaco e o calendário na Suméria: foram as invenções artísticas dos "deuses".

No Egito, a religião e a adoração dos deuses tiveram início em Heliópolis, próximo à pirâmide de Gizé; seu nome egípcio original era Anu (como o nome do governante de Nibiru) e foi chamada On na Bíblia: quando José foi feito vice-rei de todo o Egito (Gênesis, capítulo 41), o faraó "lhe deu Asenet, a filha de Putifar, o [sumo] sacerdote de On, por esposa". Seu mais antigo santuário era dedicado a Ptah ("O que Desenvolve"), que, segundo a tradição egípcia, ergueu o Egito de sob as águas da Grande Enchente e tornou-o habitável por meio de drenagem intensa e aterros. O reino divino sobre o Egito foi então transferido por Ptah para seu filho ("O Brilhante"), que também era chamado Tem ("O Puro"); e num santuário especial, também em Heliópolis, o Barco do Céu de Rá, o cônico Ben-Ben, podia ser visto por peregrinos uma vez por ano.

Rá era o chefe da primeira dinastia divina segundo o sacerdote egípcio Maneto (seu nome hieroglífico significa "Presente de Thot"), que compilou, no século III a.C., a lista de dinastias egípcias. O reinado de Rá e seus sucessores, os deuses Shu, Geb, Osíris, Seth e Hórus, durou mais de três milênios. Foi seguido por uma segunda dinastia divina que se iniciou com Thot, outro filho de Ptah; durou duas vezes mais do que a primeira dinastia divina. Depois disso, uma dinastia de semideuses, trinta deles, reinou sobre o Egito durante 3.650 anos. Ao todo, segundo Maneto, os reinados divinos de Ptah, a dinastia de Rá, a dinastia de Thot e a dinastia dos semideuses duraram 17.520 anos. Karl R. Lepsius (Konigsbuch der alten Agypter) reparou que esse período de tempo representa exatamente doze ciclos regulares de 1.460 anos cada um, corroborando, portanto, a origem pré-histórica do conhecimento calendárico-astronômico no Egito.

Com base em evidências substanciais, concluímos em As Guerras de Deuses e Homens e outros volumes das Crônicas da Terra que Ptah não era outro senão Enki, e que Rá era Marduk do panteão da Mesopotâmia. As terras africanas foram dadas para Enki e seus descendentes quando a Terra foi dividida entre os anunaques depois do Dilúvio, deixando o E.DIN (a terra bíblica do Éden) e a esfera mesopotâmica de influência nas mãos de Enlil e seus descendentes. Thot, um irmão de Rá/Marduk, era o deus que os sumérios chamavam de Ningishzida.

Muito da história e dos conflitos violentos que seguiram à divisão da Terra derivou da recusa de Rá/Marduk em aceitar a divisão. Ele estava convencido de que seu pai fora injustamente privado do governo da Terra (o que o nome-epíteto EN.KI, "Senhor da Terra", indicava); e que, portanto, ele, não o filho principal de Enlil, Ninurta, deveria reinar supremo na Terra, na Babilônia, a cidade mesopotâmica cujo nome significava "Portal dos Deuses". Obcecado por essa ambição, Rá/Marduk criou conflitos não apenas com os enlilitas, mas também aumentou a animosidade de alguns de seus próprios irmãos, envolvendo-os nesses conflitos, assim como deixando o Egito para depois voltar a reivindicar sua soberania.

No curso dessas idas e vindas, altos e baixos na luta de Rá/ Marduk, ele causou a morte de seu irmão mais novo, Dumuzi, deixou que seu irmão Thot reinasse e depois forçou-o a um exílio e fez com que seu irmão Nergal trocasse de lado numa Guerra dos Deuses que resultou num holocausto nuclear. Foi esse relacionamento de união e desunião com Thot, acreditamos, o elemento essencial para as Histórias do Calendário.

Os egípcios, conforme afirmamos, não tinham apenas um, mas dois calendários. O primeiro, com raízes na pré-história, era "baseado na Lua". O último, introduzido vários séculos depois do início do governo dos faraós, era baseado no ano solar de 365 dias. Contrariamente à noção de que o termo "calendário civil” era uma inovação administrativa de um faraó, sugerimos que este também, como o primeiro, foi uma criação dos deuses; com exceção de que enquanto o primeiro foi obra de Thot, o segundo foi criado por Rá.

Um aspecto do calendário civil considerado específico e original foi a divisão dos meses de trinta dias em "decanatos", períodos de dez dias cada prenunciados pelo despontar helíaco de uma certa estrela. Cada estrela (representada como um deus celestial navegando pelos céus) tinha a missão de dar notícias da última hora da noite; ao final de dez dias, uma nova estrela-decanato era observada.

Sugerimos que a introdução desse calendário baseado em decanatos foi um ato deliberado de Rá num conflito com o irmão Thot.

Ambos eram filhos de Enki, o grande cientista dos anunaques, e podia-se presumir com segurança que boa parte de sua sabedoria vinha do pai. Esse é certamente o caso de Rá/Marduk, pois foi encontrado um texto mesopotâmico que afirma claramente esse fato. Trata-se de um texto cujo início registra uma queixa de Marduk ao pai, afirmando que lhe faltava determinado tipo de sabedoria. A resposta de Enki foi:

Meu filho, o que você não sabe?

O que mais posso dar a você?

Marduk, o que você não sabe?

O que posso lhe dar mais?

Tudo o que sei, você sabe!

Haveria, talvez, ciúme entre os irmãos nesse aspecto? O conhecimento de matemática, astronomia e orientação de estruturas sagradas era partilhado por ambos; o testemunho dos conhecimentos de Marduk nesses campos é o magnífico zigurate da Babilônia, que de acordo com o Enuma Elish fora projetado pelo próprio Marduk. Porém, como relata o texto citado acima, na área de medicina e saúde, seu conhecimento era menor do que o de seu irmão: ao contrário de Thot, ele não sabia reviver os mortos. Temos informações sobre esses poderes tanto por fontes mesopotâmicas quanto por fontes egípcias. Suas representações sumérias o mostram com o emblema das serpentes entrelaçadas, o emblema originariamente de seu pai Enki, que praticava engenharia genética - sugerimos que seja o emblema da hélice dupla do DNA. Seu nome em sumério, NIN.GISH.ZID.DA, que significa "Senhor da Vida Artificial", testemunhava o reconhecimento de sua capacidade de restaurar a vida, ressuscitando os mortos. Um texto litúrgico sumério o chamava de "Senhor curador, Senhor que segura a mão, Senhor do Artefato da Vida". Ele era invocado sempre nos textos mágicos e de exorcismo; uma série de encantamentos Maqlu ("Oferendas Queimadas") e fórmulas mágicas devotava a sétima tábua inteiramente a ele. Num dos encantamentos, devotado a marinheiros afogados ("As pessoas que vivem no mar que estão em descanso total"), o sacerdote invoca as fórmulas de "Síris e Ningishzida, os operários do milagre, os encantadores".

Síris é o nome de uma deusa até então desconhecida no panteão sumério, e a possibilidade de que seja uma versão mesopotâmica do nome da estrela Sírius nos vem à mente porque no panteão egípcio essa estrela era associada à deusa Ísis. Nas lendas egípcias, Thot foi quem ajudou Ísis, a esposa de Osíris, a extrair do desmembrado Osíris o sêmen com o qual a deusa se impregnou para conceber Hórus. Mas não era tudo. Numa inscrição egípcia encontrada num artefato conhecido como a Estela Metternich, a deusa Ísis descreve como Thot trouxe seu filho Hórus de volta do reino dos mortos, depois de ter sido picado por um escorpião. Respondendo aos lamentos dela, Thot veio dos céus "e ele era dotado de poderes mágicos, e possuía o grande poder que faz a palavra tornar-se real". E ele realizou mágica, e por volta do anoitecer retirou o veneno e Hórus voltou à vida.

Os egípcios afirmavam que o Livro dos Mortos, versos encontrados nas paredes das tumbas para que o faraó falecido pudesse ser transportado ao Pós-Vida, era uma composição de Thot, "escrita pelos seus próprios dedos". Num trabalho curto chamado pelos egípcios de Livro dos Fôlegos, afirmava-se que "Thot, o mais poderoso deus, o Senhor de Khemenu, vem até ti; ele escreveu para ti o Livro dos Fôlegos com seus próprios dedos, para que teu respire para sempre e sempre, e tua forma seja dotada com a vida na Terra".

Sabemos por fontes sumérias que esse conhecimento, tão essencial em crenças faraônicas - sabedoria para reviver os mortos -, era possuído em primeiro lugar por Enki. Num texto longo, que relata a jornada de Inana/Ishtar ao Mundo Inferior (sul da África), o reino de sua irmã que casara com outro filho de Enki, Ishtar é morta pela irmã. Atendendo a pedidos, Enki fabricou remédios e supervisionou o tratamento do corpo com pulsos de som e radiação, e "Inana ergueu-se".



Evidentemente o segredo não fora divulgado a Marduk; quando ele se queixou, seu pai foi evasivo na resposta. Apenas aquilo já seria suficiente para tornar o ambicioso Marduk ciumento em relação a Thot. O sentimento de ter sido ofendido, talvez até ameaçado, era provavelmente maior. Em primeiro lugar, porque foi Thot, e não Marduk/Rá, quem ajudou Ísis a recuperar o desmembrado Osíris (neto de Rá) a salvar seu sêmen, depois reviver Hórus (bisneto de Rá) envenenado. Em segundo lugar, porque tudo isso levou - como o texto em sumério deixa claro - a uma afinidade entre Thot e a estrela Sírius, controladora do calendário egípcio e mensageira das enchentes férteis do Nilo.

Seriam apenas esses os motivos para o ciúme, ou Rá/Marduk teria outros motivos para encarar Thot como um rival, uma ameaça a sua supremacia? Segundo Maneto, o longo reinado da primeira dinastia divina iniciada com Rá terminou abruptamente depois de um reinado curto de trezentos anos por Hórus, em seguida ao conflito que chamamos de Primeira Guerra das Pirâmides. Depois, ao invés de outro descendente de Rá, foi Thot quem conquistou supremacia no Egito, e sua dinastia durou (segundo o historiador grego) 1.570 anos. Seu reinado, uma época de progresso e paz, coincidiu com o período Neolítico no Oriente Médio - a primeira fase da implantação da civilização para a humanidade pelos deuses.

Por que teria sido Thot, de todos os outros filhos de Ptah/ Enki, o escolhido para substituir a dinastia de Rá no Egito? Pode haver uma pista para uma resposta a essa pergunta, num estudo intitulado Religion of the Ancient Egyptians, por W. Osbom Jr., no qual ele afirma em relação a Thot: "Embora ele ficasse na mitologia numa esfera secundária de divindades, sempre permaneceu como uma emanação direta de Ptah, parte dele, o primogênito das divindades primitivas" (a ênfase é nossa). Com as regras complexas de sucessão dos anunaques, pelas quais um filho nascido de uma meia-irmã se tornava herdeiro com preferência a um primogênito (desde que esse não fosse filho de uma meia-irmã) ­uma causa do atrito sem fim entre Enki (primogênito de Anu) e Enlil (nascido de uma meia-irmã de Anu) -, é possível que as circunstâncias do nascimento de Thot ameaçassem de alguma forma os desejos de Rá/Marduk pela supremacia?

É sabido que inicialmente a "companhia dos deuses" dominante, ou dinastia divina, era a de Heliópolis; mais tarde ela foi ultrapassada pela semente divina de Mênfis (quando Mênfis tornou-se a capital do Egito unificado). Porém entre os dois existiu uma Paut ou "companhia divina" de deuses liderados por Thot. O "centro de culto" desse último era em Hermópolis ("Cidade de Hermes" em grego), cujo nome egípcio, Khemenu, significa "oito". Um dos epítetos de Thot era "Senhor do Oito", o que, de acordo com Heinrich Brugsch (Religion und Mythologie der alten Aegypter) referia-se às oito orientações celestes, incluindo os quatro pontos cardeais. Também se referia à capacidade de Thot em descobrir e marcar os oito pontos de parada da Lua - o corpo celestial com o qual Thot estava associado.

Marduk, um deus "solar", por outro lado, estava associado ao número dez. Na hierarquia numérica dos anunaques, na qual Anu era representado pelo número mais alto, 60, Enlil se relacionava ao 50 e Enki ao 40 (e assim por diante), o número de Marduk era 10; esta pode ter sido a origem dos decanatos. De fato, a versão babilônica da Epopéia da Criação atribui a Marduk a criação de um calendário de doze meses, cada um dividido em três "astrais celestiais".

Ele determinou o ano, designou as zonas:

Para cada um dos doze meses

Ele estabeleceu três astrais celestes,

[Assim] definindo os dias do ano.

Essa divisão dos céus em 36 porções como meio de "definir os dias do ano" é uma referência tão clara quanto possível ao calendário - um calendário com 36 "decanatos". Aqui, no Enuma Elish, a divisão é atribuída a Marduk, aliás, Rá.

A Epopéia da Criação, sem dúvida de origem suméria, é conhecida hoje em dia principalmente por meio da versão babilônica (as sete tábuas do Enuma Elish). É urna versão, conforme concordam os acadêmicos, que tinha por intenção glorificar o deus nacional da Babilônia, Marduk. Portanto, o nome "Marduk" foi inserido onde no texto original sumério aparecia o planeta Nibiru, o invasor do espaço exterior, descrito corno o Senhor do Céu; e onde, descrevendo feitos na Terra, o Deus Supremo foi nomeado Enlil, na versão babilônica, também se incluiu o nome de Marduk. Com isso, Marduk tornou-se supremo no Céu e na Terra.

Sem descobertas de tábuas intactas ou mesmo fragmentadas com o texto sumério original da Epopéia da Criação, é impossível dizer se os 36 decanatos foram urna verdadeira inovação de Marduk ou apenas um conceito emprestado dos sumérios. Uma idéia básica da astronomia suméria era a divisão da esfera celestial envolvendo a Terra em três "caminhos" - o Caminho de Anu como faixa central do céu, o Caminho de Enlil dos céus do norte e o Caminho de Ea (Enki) nos céus do sul. Imaginara-se que as três áreas representassem a faixa equatorial no centro e as duas faixas demarcadas pelos dois trópicos, norte e sul; entretanto, mostramos em O 12º. Planeta que o Caminho de Anu, ao longo do equador, estendendo-se 30 graus ao norte e ao sul do equador, resultava numa largura de 60 graus; e que o Caminho de Enlil e o Caminho de Ea da mesma forma se estendiam por 60 graus cada, de maneira que os três juntos cobriam a esfera celeste, num total de 180 graus de norte a sul.

Se essa divisão em três partes dos céus fosse aplicada à divisão calendárica do ano em doze meses, o resultado seriam 36 segmentos. Tal divisão - que resulta nos decanatos - foi realmente implantada na Babilônia.

Em 1900, falando para a Royal Astronomical Society, em Londres, o orientalista T. G. Pinches apresentou a reconstrução de um astrolábio mesopotâmico (literalmente: "capturador de estrelas"). Era um disco circular dividido como uma torta em doze segmentos e três anéis concêntricos, resultando numa divisão dos céus em 36 partes. Os símbolos circulares próximos aos nomes inscritos indicavam que era feita referência a corpos celestes; os nomes (aqui transliterados) são os de constelações do zodíaco, estrelas e planetas - 36 ao todo. Que essa divisão era ligada ao calendário fica claro pela inscrição dos nomes dos meses, um em cada um dos doze segmentos (marcados por Pinches de I a XII, começando com o primeiro mês do calendário babilônico, Nisamu).


Embora esse planisfério não responda à questão da origem dos versos relevantes do Enuma Elish, ela estabelece que aquilo que deveria ser uma inovação egípcia única na verdade possuía uma contraparte (se não uma base) na Babilônia - o local escolhido por Marduk para sua supremacia.

Ainda mais certo é que os 36 decanatos não aparecem no primeiro calendário egípcio. O mais antigo era ligado à Lua, o mais novo ao Sol. Na teologia egípcia, Thot era um deus lunar e Rá um deus solar. Estendendo essa idéia aos dois calendários, segue-se que o primeiro calendário egípcio foi formulado por Thot e o segundo, mais tarde, por Rá/Marduk.

O fato é que, quando chegou a época, por volta de 3.100 a.C., a fim de estender o nível de civilização (reinado humano) aos egípcios, Rá/Marduk - tendo sido frustrado em seus esforços para estabelecer a supremacia na Babilônia - retornou ao Egito e expulsou Thot.

Foi então, acreditamos, que Rá/Marduk - não por conveniência administrativa, mas num passo deliberado para erradicar os vestígios da predominância de Thot - reformou o calendário. A passagem no Livro dos Mortos relata que Thot foi "perturbado pelo que ocorrera com os filhos divinos" que "tinham combatido em batalhas, reagido, criado inimigos, causado problemas". Como conseqüência disso, Thot "foi provocado até a raiva quando eles (seus adversários) levaram confusão à contagem dos anos, misturando e perturbando os meses". Todo esse mal, declara o texto, "em tudo que haviam feito a ti, trabalharam a iniqüidade em segredo".

Isso pode muito bem indicar que o conflito que levou à substituição do calendário de Thot pelo de Marduk no Egito aconteceu quando o calendário (por motivos já explicados) precisou ser colocado de volta nos eixos. R. A. Parker, como assinalamos acima, acredita que essa mudança ocorreu por volta de 2.800 a.C. Adolf Erman (Aegypten und Aegyptisches Leben im Altertum) foi mais específico. A oportunidade, escreve ele, foi o retorno de Sírius a sua posição original, depois do ciclo de 1.460 anos, em 19 de julho de 2.776 a.C.

Deve ser observado que essa data, por volta de 2.800 a.C., é a data oficial adotada pelas autoridades britânicas para Stonehenge I.

A introdução, por Rá/Marduk, de um calendário dividido ou baseado em períodos de dez dias pode também ter sido motivada por um desejo de estabelecer uma distinção clara, tanto para seus seguidores no Egito e quanto para os da Mesopotâmia, entre ele e quem era "sete" - o líder dos enlilitas, o próprio Enlil. De fato, tal distinção pode ter estado por trás das oscilações entre calendários solares e lunares; pois os calendários, conforme já vimos e os registros mais antigos atestam, foram criados pelos "deuses" anunaques a fim de delinear para seus seguidores os ciclos de adoração; a luta pela supremacia significava, em última análise, quem seria adorado.

Os acadêmicos debateram por longo tempo a origem da semana, a parte do ano medida em grupos de sete dias. Temos mostrado em livros anteriores das Crônicas da Terra que sete era o número que representava nosso planeta, a Terra. A Terra era chamada, em textos sumérios, "o sétimo", e era representada em corpos celestes pelo símbolo de sete círculos porque ao entrar em nosso Sistema Solar vindos do planeta deles, o mais distante, os anunaques teriam encontrado primeiro Plutão, passado por Netuno e Urano (segundo e terceiro), continuado por Saturno e Júpiter (quarto e quinto). Contariam Marte como o sexto planeta (portanto representado como estrela de seis pontas) e a Terra como sétimo. Tal jornada e tal contagem estão ilustradas num planisfério descoberto nas ruínas da biblioteca real de Nínive, onde um dos oito segmentos mostra o vôo de Nibiru e afirma (aqui numa tradução): "a divindade Enlil passou pelos planetas". Esses planetas, representados por círculos escuros, totalizam sete. Pois para os sumérios, era Enlil, e nenhum outro, o "Senhor do Sete". Os nomes mesopotâmicos de pessoas, assim como os bíblicos (exemplo: Bath-sheba, "Filha do Sete") ou de lugares (exemplo: Beer-Sheba, o "Poço do Sete") honravam os deuses pelo epíteto.


A importância da santidade do número sete, transferida para a unidade calendárica de sete dias como uma semana, permeia a Bíblia e outras escrituras antigas. Abraão separou sete cordeiros quando negociou com Abimelec; Jacó serviu a Labão por sete anos até conseguir casar-se com uma de suas filhas, e curvou-se sete vezes ao aproximar-se de seu ciumento irmão Esaú. O sumo sacerdote executava vários ritos sete vezes, Jericó foi sitiada sete vezes até que suas muralhas tombassem; o sétimo dia tinha de ser observado estritamente como Shabat, e o importante festival de Pentecostes acontecia sete semanas a contar da Páscoa.

Embora ninguém possa alegar que "inventou" a semana de sete dias, obviamente ela está associada na Bíblia com os tempos mais antigos - na verdade, quando o próprio Tempo começou: os sete dias da criação com os quais começa o livro do Gênesis. O conceito de um período de sete dias para contar o Tempo do Homem é encontrado na Bíblia assim como na precedente história mesopotâmica do Dilúvio, atestando, portanto, sua antiguidade. Nos textos da Mesopotâmia, o herói da enchente recebe um aviso com antecedência de sete dias por parte de Enki, que "abriu o relógio de água e o encheu" para certificar-se de que seu fiel seguidor não perderia a contagem até o prazo final. Nessas versões o Dilúvio inicia-se com uma tempestade que "varreu a terra por sete dias e sete noites". Na versão bíblica, o Dilúvio também se inicia depois de um período de sete dias de aviso a Noé.

A história bíblica da enchente e de sua duração revela uma ampla compreensão do calendário numa época primitiva. De forma significativa, demonstra familiaridade com a unidade dos sete dias e com uma divisão do ano em 52 semanas de sete dias cada. Além do mais, sugere uma compreensão das complexidades de um calendário lunar-solar.

Segundo o Gênesis, o Dilúvio começou "no segundo mês, no décimo sétimo dia do mês" e terminou no ano seguinte "no segundo mês, no vigésimo sétimo dia do mês". Porém, o que poderia parecer ser um período de 365 dias mais dez não foi assim. A história bíblica descreve a duração do Dilúvio como sendo 159 dias da avalanche de água, 150 dias durante os quais a água recuou e mais quarenta dias até Noé julgar seguro abrir a Arca. Então, em dois intervalos de sete dias, ele enviou um corvo e uma pomba para reconhecer o terreno; só quando a pomba não mais voltou é que Noé soube que era seguro sair.

Segundo essa contagem, tudo somava 354 dias (150 + 150 + 40 + 7 + 7). Porém esse não é um ano solar; é precisamente um ano lunar de doze meses com uma média de 29,5 dias cada (29,5 x 12 = 354) representados por um calendário - assim como ainda é o calendário hebraico - alternando entre meses de 29 e 30 dias.

Porém 354 dias não é um ano inteiro em termos solares. Reconhecendo isso, o narrador ou editor do Gênesis recorreu à intercalação, ao afirmar que o Dilúvio, que começou no décimo sétimo dia do segundo mês, terminou (um ano mais tarde) no vigésimo sétimo dia do segundo mês. Os acadêmicos estão divididos em relação ao número de dias que foi adicionado aos 354 lunares. Alguns (por exemplo, S. Gandz, Studies in Hebrew Mathematics and Astronomy) consideram a adição como tendo sido de onze dias - a quantidade intercalada correta que expandiria o ano lunar de 354 dias para os 365 do ano solar. Outros, entre eles o autor do antigo Livro dos Jubileus, considera o número de dias adicionados apenas 10, aumentando o ano em questão para 364 dias. O significado, claro, implica um calendário dividido em 52 semanas de sete dias cada (52 x 7 = 364).

Esse não teria sido apenas o resultado de somar 354 + 10 como número de dias, mas uma divisão deliberada do ano em 52 semanas cada, como fica claro no Livro dos Jubileus. Afirma (capítulo 6) que, quando o Dilúvio terminou, Noé recebeu "tábuas celestes" ordenando que:

Todos os dias do mandamento

Serão dois e cinqüenta semanas de dias

Que tornarão o ano completo.

Assim está gravado e ordenado nas tábuas celestes;

Não haverá negligência para um ano apenas ou de ano para ano.

E ordenarás aos filhos de Israel que observem os anos

De acordo com esse cálculo:

Trezentos e sessenta e quatro dias;

Irão formar um ano completo.

A insistência do ano de 52 semanas de sete dias, perfazendo um ano calendárico de 364 dias, não foi o resultado de ignorância em relação à verdadeira extensão de 365 dias do ano solar.

Essa consciência do tamanho exato é tornada clara pela Bíblia pela idade de Enoch ("cinco e sessenta e trezentos anos") até que fosse chamado pelo Senhor. No texto não bíblico do Livro de Enoch o "excesso do Sol", os cinco dias epagômenos que precisavam ser adicionados aos 360 (12 x 30) de outros calendários, para completar os 365, são especificamente mencionados. Ainda assim o Livro de Enoch, em capítulos que descrevem os movimentos do Sol e da Lua, os doze "portais" zodiacais, os equinócios e solstícios, afirmam sem sombra de dúvida que o calendário anual será "um ano exato em seus dias: trezentos e sessenta e quatro".

Isso é repetido numa afirmação de que "o ano completo, com justiça perfeita" era de 364 dias - 52 semanas de sete dias cada uma.

Acredita-se que o Livro de Enoch, especialmente na versão conhecida como Enoch II, mostra elementos de conhecimento científico centrado na época em Alexandria, no Egito. Quanto dele pode ser seguido até os ensinamentos de Thot não se pode saber com certeza; porém as histórias bíblicas, assim como as egípcias, sugerem um papel para o sete e cinqüenta e dois vezes sete em épocas remotas.

Bem conhecida é a história bíblica de José, que se elevou a governador do Egito depois de interpretar os sonhos do faraó, com sete vacas gordas sendo devoradas por sete vacas magras, depois sete espigas belas de milho devoradas por sete espigas mirradas. Poucos se dão conta, porém, que a história - lenda ou mito para alguns - possuía fortes raízes egípcias, assim como um elemento antigo do folclore egípcio. Entre os últimos estava o precursor egípcio do oráculo grego das deusas sibilinas da sorte; eram chamadas de Sete Hathors, sendo Hathor a deusa da península do Sinai, representada como uma vaca. Em outras palavras, as Sete Hathors simbolizavam sete vacas que podiam prever o futuro.

O elemento antigo dessa história de sete anos de fartura que precediam sete anos magros é um texto hieroglífico que E. A. W. Budge (Legends of Gods) intitulou "A lenda do deus Khnemu e da fome dos sete anos". Khnemu era outro nome de Ptah/Enki em seu papel de projetista da humanidade. Os egípcios acreditavam que depois de ter entregue o poder no Egito para seu filho Rá, ele se aposentara na ilha de Abu (conhecida como Elefantina desde os gregos por causa de sua forma), onde criara as cavernas gêmeas - dois reservatórios ligados -, cujas trancas ou comportas podiam ser manipuladas para regular o fluxo das águas do Nilo. (A moderna represa de Assuã é localizada de forma semelhante, acima da primeira catarata do Nilo.)

Segundo esse texto, o faraó Zoser (construtor da pirâmide em degraus de Sakkara) recebeu um despacho real do governador do povo do sul afirmando que uma grande provação se abatera sobre o povo, "porque o Nilo não atingira a altura correta por sete anos".

Como resultado disso, "o grão é escasso, faltam verduras, e todo tipo de coisas que os homens comem para se alimentar diminuíram, e agora os homens saqueiam seus vizinhos".

Esperando que uma onda de fome e caos pudesse ser evitada por um pedido direto ao deus, o rei viajou para o sul, até a ilha de Abu. Disseram-lhe que o deus habitava lá "num edifício de madeira com portais feitos de papiros", mantendo com ele "a corda e a tábua" que o capacitava a abrir "as portas duplas das comportas do Nilo". Khnemu, respondendo aos apelos do rei, prometeu "elevar o nível do Nilo, dar água para que a colheita crescesse".

Considerando-se que a enchente anual do Nilo estava ligada ao aparecimento da estrela Sírius, seria o caso de perguntar se os aspectos celestes ou astronômicos da história remetem não apenas à falta de água (que ocorre em ciclos até hoje) mas também da mudança (discutida acima) da aparição de Sírius sob um calendário rígido. Que toda a história possuía conotações calendáricas é sugerido pela afirmação no texto de que a habitação de Khnemu em Abu era astronomicamente orientada: "A casa do deus possuía uma abertura para sudoeste, e o Sol permanecia em oposição todos os dias". Isso só pode significar uma instalação para observar o Sol no curso de seu movimento para a frente e para trás em relação ao solstício de inverno.

Essa breve revisão do uso e significado do número sete nos assuntos de deuses e homens é o suficiente para nos mostrar sua origem celeste (os sete planetas de Plutão até a Terra) e sua importância calendárica (a semana de sete dias, o ano de 52 semanas). Porém, na rivalidade entre os anunaques, tudo assumiu outro significado: a determinação de quem seria o Deus do Sete (Eli-Sheva em hebraico, de onde deriva Elisabeth) e assim o Governante (oficial) da Terra.

Isso, acreditamos, foi o que alarmou Rá/Marduk em sua volta para o Egito depois do golpe fracassado na Babilônia: a veneração do Sete, ainda o epíteto de Enlil, por meio da introdução da semana de sete dias no Egito.

Nessas circunstâncias a veneração das Sete Hathors, por exemplo, foi um anátema para Rá/Marduk. Não apenas seu número, sete, que implicava veneração a Enlil, mas sua associação com Hathor, divindade importante no panteão egípcio, mas por quem Rá/Marduk não nutria sentimentos de apreciação.

Hathor, conforme mostramos em livros anteriores das Crônicas da Terra, era o nome egípcio de Ninharsag do panteão sumério - meia-irmã de Enki e Enlil, e objeto da atenção sexual de ambos. Desde que as esposas oficiais de ambos (Ninki de Enki, Ninlil de Enlil) não eram meias-irmãs deles, era importante que eles tivessem um filho com Ninharsag; tal filho, sob as regras de sucessão dos anunaques, seria um Herdeiro Legal acima de qualquer disputa para o trono da Terra. A despeito de várias tentativas de Enki, tudo o que Ninharsag lhe deu foram filhas; Enlil teve mais sucesso e seu filho foi concebido numa união com Ninharsag. Isso possibilitou a Ninurta (Ningirsu, o "Senhor de Girsu" para Gudea) que herdasse do pai o número cinqüenta­. - ao mesmo tempo privando o primogênito de Enki, Marduk, de ser o governante da Terra.

Havia outras manifestações da ampliação do culto do sete e sua importância calendárica. A história da seca de sete anos acontece na época de Zoser, construtor da pirâmide de Sakkara. Arqueólogos descobriram na área de Sakkara um "topo de altar" circular feito de alabastro, cuja forma sugere que poderia servir como lâmpada, para ser acesa durante um período de sete dias. Outro achado foi uma "roda" de pedra (alguns pensam ser a base de um ônfalo, uma "pedra-umbigo" oracular) que claramente está dividida em quatro segmentos de sete marcadores cada, sugerindo que se tratava de uma pedra-calendário - um calendário lunar, sem dúvida -, incorporando o conceito de uma semana de sete dias e (com a ajuda das quatro divisões) possibilitando uma contagem do mês lunar, de 28 a 32 dias.

Os calendários de pedra existiam na Antiguidade, como evidenciam Stonehenge, nas Ilhas Britânicas, e o calendário asteca, no México. Que esse tenha sido encontrado no Egito não deveria ser estranho, já que nossa crença indica que o gênio por trás de todas aquelas pedras geograficamente espalhadas pelo mundo era um deus apenas: Thot. O que poderia ser surpreendente seria o ciclo de sete dias; porém isso, como mostra outra lenda egípcia, também deveria ser esperado.

O que os arqueólogos identificaram como jogos ou tabuleiro tem sido encontrado por todo o Oriente Médio, como testemunham essas poucas ilustrações de achados provenientes da Mesopotâmia, de Canaã e do Egito. Os dois jogadores moviam suas peças de um orifício para outro de acordo com lances dos dados. Os arqueólogos não perceberam mais do que jogos para passar o tempo; porém o número de orifícios, 58, é claramente uma divisão de 29 para cada jogador - e 29 é o número de dias de um mês lunar. Havia também subdivisões óbvias em grupos menores e sulcos ligando alguns orifícios a outros (indicando talvez que o jogador poderia saltar casas para chegar até ali). Reparamos, por exemplo, que o orifício 15 estava ligado ao 22 e o 10 ligava-se ao 24, o que sugere um "salto" de uma semana de sete dias e meio mês de catorze.

Hoje em dia empregamos cantigas e jogos para ensinar o moderno calendário às crianças; por que excluir a possibilidade de que isso fosse feito também no passado?

Que esses fossem jogos de calendário e que pelo menos um deles, o favorito de Thot, fosse projetado para ensinar a divisão do ano em 52 semanas, se torna evidente a partir de uma história egípcia antiga conhecida como "As Aventuras de Satni-Khamois com as Múmias".

É uma história de magia, mistério e aventura, um suspense antigo que combina o número mágico 52 com Thot e os segredos do calendário. A história foi escrita num papiro (catalogado no Cairo – 30.646), descoberto numa tumba em Tebas, remontando ao século III a.C. Fragmentos de outros papiros com a mesma história também foram encontrados, indicando que fazia parte de uma literatura popular ou canônica do Egito Antigo, que registrava histórias de deuses e homens.

O herói da história era Satni, um filho de faraó, "bem instruído sobre todas as coisas". Ele gostava de vagar na necrópole de Mênfis, estudando as escrituras sagradas nas paredes dos templos e procurando antigos "livros de magia". Com o tempo, ele mesmo tornou-se "um mago que não encontrava rival nas terras do Egito". Um dia um velho misterioso lhe contou sobre uma tumba "onde estava depositado o livro que o deus Thot escrevera com sua própria mão", e no qual os mistérios da Terra e os segredos dos céus eram revelados. Essa sabedoria secreta incluía informações divinas em relação "ao nascer do Sol e às aparições da Lua e dos movimentos dos deuses celestes (os planetas) que estão no círculo (órbita) do Sol"; em outras palavras - os segredos da astronomia e do calendário.

A tumba em questão era a de Ne-nofer-khe-ptah, o filho de um rei. Quando Satni pediu para ver a localização do túmulo, o velho o avisou de que embora Nenoferkheptah estivesse enterrado e mumificado, não estava morto e podia abater qualquer um que ousasse levar o livro de Thot, alojado entre seus pés. Sem temor, Satni procurou o túmulo subterrâneo e, quando atingiu o lugar certo, "recitou uma fórmula, abrindo um buraco no solo, por onde ele entrou e desceu até o local onde estava o livro".

No interior da tumba, Satni viu as múmias de Nenoferkheptah, de sua irmã-esposa e do filho de ambos. O livro realmente estava aos pés de Nenoferkheptah e "emitiu uma luz quando o Sol bateu ali". Quando Satni deu um passo naquela direção, a múmia da mulher falou, avisando-o para não avançar mais. Ela contou a Satni as desventuras do marido, que tentou obter o livro que Thot escondera num lugar secreto, no interior de uma caixa de ouro que estava dentro de uma de prata, que por sua vez estava dentro de uma série de caixas dentro de caixas, sendo as últimas de bronze e de ferro. Quando seu marido, ignorando os avisos e os perigos, agarrou o livro, Thot o condenou, bem como a mulher e o filho a ficarem em vida suspensa; embora vivos, estavam enterrados; e embora mumificados, podiam ver, ouvir e falar. Ela avisou Satni que, se ele tocasse o livro, seu destino seria o mesmo, ou pior.

Os avisos e o destino do rei anterior não foram capazes de deter Satni. Tendo chegado até ali, estava determinado a obter o livro. Quando deu outro passo na direção do livro, a múmia de Nenoferkheptah falou. Havia uma forma de possuir o livro sem incorrer na ira de Thot, disse ele: jogar e ganhar o jogo dos 52, "o número mágico de Thot".

Desafiando o destino, Satni concordou. Perdeu o primeiro jogo e encontrou-se parcialmente afundado no solo da tumba. Perdeu o jogo seguinte, e o seguinte, afundando ainda mais no chão. Como ele escapou com o livro e as calamidades que caíram sobre ele por causa disso, além de como ele resolveu ao final devolver o livro ao local onde o encontrara, é algo que torna a leitura fascinante; contudo não é essencial para nosso assunto imediato: o fato de que os "segredos de Thot" astronômicos e calendáricos incluíam o Jogo do Cinqüenta e Dois - a divisão do ano em 52 partes de sete dias cada, resultando no enigmático ano de apenas 364 dias do Livro dos Jubileus e do Livro de Enoch.

É um número mágico que nos faz atravessar os oceanos, até as Américas, remetendo-nos de volta ao enigma de Stonehenge, e abrindo a cortina de eventos que levarão à primeira Nova Era registrada pela humanidade e também que dela resultarão.

9

Onde o Sol Também Nasce

Nenhuma visão caracteriza mais Stonehenge do que a dos raios solares brilhando através dos megálitos ainda eretos do Círculo Sarsen na aurora do dia mais longo do verão; o Sol, em sua migração para o norte, dá a impressão de hesitar, parar e começar seu retorno. Por obra do destino, apenas quatro daqueles grandes pilares de pedra permanecem em pé, ligados pelo topo por lintéis curvos, que formam três janelas alongadas através das quais, como se fôssemos os construtores gigantes de Stonehenge há muito desaparecidos, podemos também ver - e determinar - o início de um novo ciclo anual.

E como se fosse por obra do destino, do outro lado do mundo, outro conjunto de três janelas numa estrutura de pedra de proporções ciclópicas - construídas, segundo as lendas locais, por gigantes - igualmente oferece uma visão maravilhosa do Sol aparecendo entre nuvens brancas e nevoentas num alinhamento preciso. Esse outro lugar das Três Janelas, onde o Sol nasce num dia crucial para o calendário, fica na América do Sul, no Peru.

Seria essa semelhança uma mera curiosidade visual, uma simples coincidência? Acreditamos que não.

Hoje em dia o lugar é chamado de Machu Picchu, em virtude do pico agudo onde as ruínas da cidade estão localizadas, que se eleva três mil metros acima de uma curva do rio Urubamba. Tão bem escondida ela fica entre a vegetação tropical e os muitos picos dos Andes que enganou os conquistadores espanhóis e permaneceu como uma "cidade perdida dos incas" até sua descoberta, em 1911, por Hiram Bingham. Agora sabemos que foi construída muito antes dos incas, e que seu nome antigo era Tampu­Tocco, "Porto das Três Janelas". O lugar e suas janelas únicas são apresentados pelo folclore local como remontando às origens da civilização andina, quando os deuses, liderados pelo grande criador Viracocha, colocaram os quatro irmãos Ayar e suas quatro irmãs-esposas em Tampu-Tocco. Três irmãos emergiram através das três janelas para colonizar e civilizar as terras dos Andes; um deles fundou o Antigo Império, que antecedeu o dos incas em milhares de anos.

As três janelas fazem parte de uma parede construída com blocos ciclópicos de granito, que - como em Stonehenge - não são nativos do local e foram transportados por grandes distâncias, entre montanhas escarpadas e vales fundos, acidentes geográficos quase intransponíveis. As rochas colossais, cuidadosamente aparelhadas, com a superfície alisada e os cantos arredondados, foram cortadas em numerosos lados e ângulos como se fossem compostas de material macio. Os lados e ângulos de cada pedra se ajustam perfeitamente aos de todas as peças vizinhas; assim, essas pedras poligonais parecem encaixadas umas às outras, formando um quebra-cabeça gigantesco, precisamente ajustado sem a ajuda de argamassa de nenhum tipo, e ainda capaz de suportar os terremotos que acontecem com certa freqüência na área, além de outros desastres naturais e daqueles provocados pelo homem.

O Templo das Três Janelas, como foi batizado por Bingham, possui apenas três paredes: a que contém as janelas fica voltada para leste e as outras duas estendem-se uma para cada lado, como asas protetoras. O lado oeste é completamente aberto, deixando espaço para um pilar de pedra, que mede cerca de dois metros e dez centímetros de altura; apoiado por duas pedras cuidadosamente trabalhadas, em posição horizontal, uma de cada lado, localizando-se o pilar em frente à janela do meio. Como há um nicho escavado no alto, Bingham supôs que poderia ter suportado um telhado de plantas, porém isso seria um aspecto único em Machu Picchu, e acreditamos que tal pilar servisse ao mesmo propósito que a Pedra do Calcanhar, em Stonehenge, no início, ou que a Pedra do Altar mais tarde; também como o sétimo pilar de Gudea, que providenciava uma referência de mira. Engenhosamente, a disponibilidade das janelas tornava possível três linhas de mira - a aurora no meio do verão, o dia do equinócio e o dia do meio do inverno.

A estrutura das três janelas com o pilar em frente formavam a parte leste do que Bingham chamou de Plaza Sagrada, como ainda é conhecida entre os estudiosos. Sua estrutura principal, também de três lados, possui a parede mais longa no lado norte da praça e o espaço vazio voltado para o sul. Também é feita com blocos enormes de granito importado, mantidos no lugar pela precisão dos encaixes em ângulo das formas poligonais. A parede central norte foi construída para criar sete falsas janelas -­ cortes trapezoidais que imitam as três janelas, mas não chegam a atravessar a espessura das pedras. Um monólito retangular e compacto, medindo 4,2 por 1,5 por 1 metro, repousa sobre o piso de pedra abaixo das janelas falsas. Embora o propósito dessa estrutura ainda não tenha sido descoberto, ainda é chamada de Templo Principal, como Bingham a batizou.

Como a altura de um metro e meio da pedra caída não permitia que servisse como cadeira, Bingham especulou que pode ter sido usado como uma mesa de oferendas, "uma espécie de altar; provavelmente ofertas de comida eram colocadas ali, ou poderiam ter a função de receber múmias dos mortos ilustres, que ali podiam permanecer e ser adorados nos dias de festas". Embora tais costumes fossem puramente imaginários, a sugestão de que toda a estrutura poderia estar relacionada a festas religiosas - ou ao calendário - é intrigante. As sete janelas falsas possuem protuberâncias de pedra acima de cada uma, de forma que algum tipo de contagem envolvendo sete e seis - como no Girsu em Lagash - se constitui numa hipótese que não deve ser descartada. As duas paredes laterais ostentam cinco janelas falsas cada uma, de forma que cada parede lateral - uma no leste e outra no oeste - fornecia uma contagem de doze se somada à parede central (no norte). Isso também implica função calendárica.

Um pequeno terraço pertencente à mesma Era Megalítica foi construído como estrutura adjunta ao Templo Principal, atrás do canto noroeste. Pode ser melhor descrito como uma sala sem teto com um banco de pedra; Bingham presumiu que fosse a habitação do sacerdote, porém não havia nada lá que indicasse seu propósito. O que é óbvio, porém, é que foi construída com o mesmo cuidado enorme dos grandes blocos poligonais de granito, moldado e polido até a perfeição. De fato, é ali que se encontra a pedra com mais faces e ângulos: 32! Como e por que esse impressionante megálito foi esculpido e colocado ali é um mistério que confunde o visitante.

Logo atrás desse terraço inicia-se uma escada, feita de pedras retangulares que servem como degraus. Segue seu caminho para cima, começando da praça sagrada até uma elevação que domina toda a cidade. O alto da colina foi aplainado para permitir a construção de um terraço. Também foi elaborado com pedras trabalhadas da mesma forma que as outras, mas sem o tamanho megalítico nem muitas faces; ao contrário, a parede mais alta da entrada cria um portão para o topo da colina, e as paredes circundantes, mais baixas, são feitas de pedras de cantaria, - pedras de formas regulares, que, como tijolos, se encaixam para formar os muros. Esse método de construção não é o mesmo que os colossos da Era Megalítica nem de estruturas inferiores com pedras unidas entre si por argamassa, da qual a maioria das estruturas em Machu Picchu foram construídas. Estas últimas sem dúvida pertencem ao período inca; e as estruturas de pedras de cantaria, como a que está no alto da colina, pertencem a uma era mais recente, que, em Os Reinos Perdidos, identificamos como sendo da Era do Império Antigo.

A estrutura de pedras de cantaria no alto da colina tem a intenção de servir como espaço decorativo e de proteção para a estrutura principal no alto. No centro, onde a colina foi aplainada para formar uma plataforma, uma protuberância foi deixada para cima, depois esculpida e trabalhada magnificamente para formar uma base poligonal, de onde uma pequena coluna se projeta para o alto. Que a pedra-na-base sirva a propósitos astronômico-calendáricos fica evidente por seu nome: Inti-huatana, que na língua local significa "Aquilo que ata o Sol". Como os incas e seus descendentes explicaram, era um instrumento de pedra para observar e determinar os solstícios, para se certificaram de que o Sol fosse atado e não se afastasse para sempre, sem retornar.

Quase um quarto de século se passou entre a descoberta de Machu Picchu e o primeiro estudo sério de suas conotações astronômicas. Foi apenas na década de 30 que Rolf Milller, um professor de astronomia da Universidade de Potsdam, na Alemanha, começou uma série de investigações de vários locais importantes no Peru e na Bolívia. Felizmente ele aplicou a seus achados os princípios da arqueoastronomia expostos por Lockyer; dessa forma, além das interessantes conclusões em relação aos aspectos astronômicos de Machu Picchu, Cuzco e Tiahuanaco (na margem sul do lago Titicaca), Milller pôde determinar a época da construção.

Milller concluiu (Die Intiwatana (Sonnenwarten) im Alten Peru e outros escritos) que o pequeno pilar no alto da base e a própria base tinham sido cortados e trabalhados para permitir observações astronômicas precisas naquela localização geográfica e altitude. O pilar servia como gnômon, e a base como um registro da sombra. Entretanto, a própria base era formada e orientada de forma que a observação ao longo dos sulcos pudesse apontar o nascer ou o pôr-do-sol em dias cruciais. Müller concluiu que os dias visados eram o pôr-do-sol (Su) no dia do solstício de inverno (21 de junho no hemisfério sul) e a aurora (Sa) no dia do solstício de verão (23 de dezembro). Mais tarde ele decidiu que os ângulos da base retangular eram de tal forma que, se alguém observasse o. horizonte ao longo de uma linha de mira diagonal ligando as protuberâncias 1 e 3, teria observado o pôr-do-sol precisamente nos dias de equinócio na época em que o Intihuatana foi esculpido.

Isso, concluiu ele, com base na inclinação maior da época, foi cerca de quatro mil anos atrás - em alguma época entre 2.100 e 2.300 a.C. Dessa forma, o Intihuatana de Machu Picchu seria contemporâneo, ou mais antigo do que o Eninnu em Lagash e do que Stonehenge II. Mais impressionante ainda seria o formato retangular para a função astronômica da base do Intihuatana, pois imita o formato excepcional e retangular das quatro Pedras das Estações em Stonehenge I (embora, aparentemente, sem seus propósitos lunares).

A lenda dos irmãos Ayar narra que os três irmãos de quem descendem os reinados andinos - uma espécie de versão sul­-americana de Cam, Sem e Jafé, da Bíblia - livraram-se do quarto irmão aprisionando-o numa caverna no interior de uma rocha enorme, onde ele virou pedra. Tal caverna, localizada no interior de um grande rochedo, de fato existe em Machu Picchu, e dentro dela encontramos uma protuberância, uma espécie de pequeno pilar branco e vertical. Sobre ela está uma das estruturas mais notáveis em toda a América do Sul. Feito do mesmo tipo de rocha que a plataforma do Intihuatana, nitidamente contemporâneo dele, existe um recinto que em dois dos lados forma paredes perfeitas em ângulo reto em relação uma à outra, enquanto os outros dois se curvam para formar um semicírculo perfeito. É conhecido como Torreón (a Torre).

O recinto, a que se tem acesso por sete degraus de pedra, engloba, como o Intihuatana, o pico proeminente da grande rocha onde foi construído. Assim como o Intihuatana, a protuberância ali também foi escavada e recebeu uma forma proposital; exceto pelo fato de que no caso nenhum prolongamento foi feito para funcionar como gnômon. Ao invés disso, as linhas de mira astronômicas que correm ao longo das reentrâncias e superfícies poligonais da "rocha sagrada" levam a duas janelas na parede semicircular. Müller e outros astrônomos depois dele (por exemplo, D. S. Dearborn e R. E. White, Archaeoastronomy at Machu Picchu) concluíram que as linhas de mira foram orientadas para o nascer do Sol nos dias dos solstícios de inverno e verão da época - há mais de quatro mil anos.

As duas janelas eram similares em sua forma trapezoidal (mais largas na base, mais estreitas no alto) às legendárias Três Janelas na Praça Sagrada e assim imitam, em forma e propósito, as estruturas da Era Megalítica. A semelhança continua na estrutura de pedras de cantaria perfeitas: onde o semicírculo terminava e a parede reta de norte começava, existia uma terceira janela - se é que se pode chamar assim essa abertura. É maior do que as outras duas; seu peitoril não é reto, mas possui o formato de uma escada invertida; o topo não é formado por um lintel reto, mas por uma abertura que lembra um "v" invertido.

Em virtude de a visão através dessa abertura (do interior da Torre para fora) ter sido obstruída por uma construção de pedras do tempo dos incas, os astrônomos que estudaram a Torre não atribuíram nenhum significado astronômico a essa Terceira Janela. Bingham ressaltou que a parede onde se encontra essa janela apresenta evidências claras de fogo, e ele supôs que seria uma indicação da queima de sacrifícios em certas festas religiosas. Nossos próprios estudos mostram que quando os prédios incas ainda não estavam ali, por exemplo, na época do Império Antigo, uma linha de mira da Rocha Sagrada através da abertura nessa janela até o alto do Intihuatana na colina a noroeste provavelmente teria indicado o solstício de inverno ao pôr-do-sol na época em que a Torre foi construída.

A estrutura no alto do rochedo também imitava aquelas da Praça Sagrada em outros aspectos. Além das três aberturas, ha­ via nove janelas falsas em forma de trapézio nas paredes retas. Espaçadas regularmente entre as janelas falsas havia protuberâncias das paredes, como pinos ou carretéis, conforme batiza dos por Bingham. A parede mais longa, que possui sete janelas falsas, apresenta seis desses pinos - duplicando o arranjo na parede maior do Templo Principal.

O número de janelas - verdadeiras e falsas -, doze, sem dúvida está relacionado a uma função calendárica, tal como a contagem de doze meses no ano. O número de janelas falsas (sete) e pinos (seis) na parede maior, assim como o do Templo Principal, pode indicar uma necessidade calendárica de uma intercalação - um ajuste periódico do ciclo lunar para o ciclo solar adicionando um mês em intervalos de alguns anos. Combinados com os alinhamentos e aberturas para observação e determinação dos solstícios e equinócios, as falsas janelas com seus pinos conduzem à conclusão de que em Machu Picchu alguém criou um computador de pedra complexo, solar e lunar, para servir de calendário.

A Torre, contemporânea do Eninnu e de Stonehenge II, é nesse aspecto mais impressionante do que o formato retangular na Intihuatana, porque apresenta a forma circular, extremamente rara na América do Sul, mas com uma relação óbvia com os círculos de pedra em Lagash e Stonehenge.

Segundo as lendas e datações compiladas pelo espanhol Fernando Montesinos no início do século XVII, o Império Inca não foi o primeiro reinado com capital em Cuzco, no Peru. Pesquisadores agora sabem que os legendários incas, que os espanhóis encontraram e subjugaram, chegaram ao poder em Cuzco apenas em 1.021 d.C. Muito antes disso, um dos irmãos Ayar, Manco Capac, fundou a cidade quando um cajado de ouro dado a ele pelo deus Viracocha afundou no solo para marcar o ponto apropriado. Aconteceu, pelos cálculos de Montesinos, em cerca de 2.400 a.C. - quase 3.500 anos antes dos incas. Esse Império Antigo durou aproximadamente 2.500 anos até que uma sucessão de pragas, terremotos e outras calamidades levou ao abandono de Cuzco. O rei, acompanhado por um punhado de pessoas escolhidas, retirou-se para o esconderijo em Tampu-Tocco; lá, o intervalo durou cerca de mil anos, até que um jovem de nascimento nobre foi escolhido para liderar as pessoas de volta a Cuzco e estabelecer um Novo Reino - aquele da dinastia inca.

Quando os conquistadores espanhóis chegaram a Cuzco, a capital inca, em 1533, ficaram surpresos ao descobrir uma metrópole com cerca de 100.000 casas cercando um complexo real-religioso de magníficos palácios, templos, praças, jardins, mercados e avenidas. Mostraram-se intrigados ao saber que a cidade era dividida em doze bairros, disposta em forma oval, com fronteiras que estavam posicionados ao longo de postos em torres construídas nos picos que cercavam a região, além de ficarem impressionados pela visão do templo mais sagrado da cidade e do império - não porque fosse construído de forma especial, mas porque estava, literalmente, recoberto de ouro. O nome Cori-cancha, que significava o Lugar do Ouro, era verdadeiro, pois as paredes do templo eram recobertas de placas de ouro; no interior havia maravilhosos artefatos e esculturas de pássaros e animais, feitas de ouro, prata e pedras preciosas. No pátio principal do templo havia um jardim artificial, cujo milho e outras plantas eram feitos de ouro e prata. Só a expedição inicial dos espanhóis removeu cerca de setecentas dessas placas de ouro (assim como muitos dos objetos preciosos).

Cronistas que viram o Coricancha antes que fosse saqueado, demolido pelos padres católicos e transformado numa igreja, afirmaram que o complexo incluía um templo principal, dedicado ao deus Viracocha; santuários ou capelas para o culto à Lua, Vênus, uma estrela misteriosa chamada Coyllor, o Arco-íris, e o deus dos raios e trovões. Os espanhóis o batizaram de Templo do Sol, acreditando que o Sol seria a divindade suprema adorada pelos incas.

Presume-se que a idéia surgiu para os espanhóis do fato de que no Santo dos Santos no Coricancha - uma câmara semicircular - pendia na parede sobre o grande altar uma "imagem do Sol". Era um grande disco dourado que os espanhóis presumiram representar o Sol. Na verdade, servira em tempos remotos para refletir o raio de luz quando o sol penetrava na câmara escura uma vez por ano - no instante do nascer do Sol no dia do solstício de inverno.

De forma significativa, o arranjo era semelhante ao que existia no Grande Templo de Amon em Karnak, no Egito. Também de forma significativa, o Santo dos Santos era uma forma extremamente rara de semicírculo, como a Torre de Machu Picchu. A parte mais antiga do templo, incluindo o Santo dos Santos, foi construída, vale notar, com os mesmos paralelepípedos perfeitos do Torreon e das paredes ao redor do Intihuatana - o "cartão de visita" da Era do Império Antigo. Müller mostrou que a disposição para permitir que o raio de sol passasse pelo corredor e refletisse a "imagem do Sol" foi concebida quando a obliqüidade da Terra era de 24 graus, o que cronologicamente significa, escreveu ele, mais do que quatro mil anos atrás. Isso combina com o cálculo de tempo feito por Montesinos, segundo o qual o Antigo Império inicia-se por volta de 2.500-2.400 a.C., e com a afirmativa de que o templo em Cuzco foi construído logo depois.

Por mais antigas que sejam as estruturas do Antigo Império, nitidamente não eram as mais antigas, pois segundo a lenda dos Ayar a megalítica Três Janelas já existia quando o fundador do Império Antigo, Manco Capac, e seus irmãos partiram de Tampu­-Tocco para estabelecer reinados nas terras dos Andes.

Uma Era Megalítica, com suas estruturas colossais, com certeza precedera o Império Antigo - estruturas distintas não apenas pelo tamanho monstruoso, mas também pelo impressionante número de faces nos blocos de pedra, combinados com as faces lisas e às vezes arredondadas desses megálitos. Porém, por mais intelectualmente provocantes que sejam as eras das estruturas em Machu Picchu, não são as mais antigas, nem as mais enigmáticas. Esses adjetivos seriam, sem dúvida, para as ruínas de Sacsahuamán, o promontório de onde se descortina Cuzco.

Na forma de um triângulo com sua base na direção da cadeia de montanhas das quais o promontório é uma borda, seus dois lados compunham desfiladeiros profundos, e seu ápice dava origem a um pico que se erguia na vertical a cerca de 250 metros sobre a cidade incrustada ao fundo. O promontório pode ser dividido em três partes. A mais larga, que constitui a base do triângulo, é dominada por enormes protuberâncias na rocha que alguém - gigantes, segundo as lendas locais - havia cortado e esculpido, com facilidade incrível e em ângulos que possivelmente não poderiam ser obtidos com ferramentas primitivas; degraus gigantes, ou plataformas ou escadas invertidas, adicionalmente perfurando a rocha com canais curvos, túneis, sulcos e nichos. O meio do promontório é formado por uma área com dezenas de metros de largura e comprimento que foi aplainada para tornar a superfície nivelada. Essa área plana é claramente separada do ápice do promontório, triangular e mais elevado, por uma estrutura de pedra notável e, sem dúvida, única. Consiste em três paredes gigantes que se estendem em ziguezague paralelo de uma borda do promontório à outra. As paredes são construídas de forma a parecerem despontar uma atrás da outra, até uma altura combinada de dezoito metros. São construídas de blocos colossais de pedra, e na mesma forma poligonal que se tornou a marca da Era Megalítica; os que estão à frente, e suportam a terra que eleva os terraços para o segundo e terceiro níveis, são os maiores. Os blocos menores pesam entre dez e vinte toneladas; a maioria possui cinco metros de altura e de dez a catorze de largura e altura. Muitos são bem maiores; um bloco na fila da frente mede cerca de oito metros de altura e pesa por volta de trezentas toneladas. Assim como os outros megálitos em Machu Picchu, os de Sacsahuamán também foram trazidos de uma grande distância, têm as superfícies trabalhadas e as formas poligonais, e permanecem unidos entre si sem argamassa.

Por quem, quando e por que foram feitas essas estruturas sobre o solo, além dos túneis, canais, ductos, orifícios e outras formas estranhas esculpidas na rocha viva? As lendas locais atribuem a construção a "gigantes". Os espanhóis, como o cronista Garcilaso de La Vega escreveu, acreditaram que "não foram feitos por homens, mas por demônios". Squier escreveu que as paredes em ziguezague representam "sem dúvida o maior exemplo do estilo chamado Ciclópico existente na América", mas não forneceu nenhuma explicação ou teoria.

Escavações recentes descobriram atrás de grandes protuberâncias rochosas que separam a área plana do meio da área rochosa voltada para noroeste, onde a maior parte dos túneis e canais se formam, uma estrutura das mais incomuns na América do Sul: um círculo perfeito. Pedras cuidadosamente esculpidas foram dispostas de modo a formar a borda de uma depressão, perfeitamente circular. Em Os Reinos Perdidos enumeramos os motivos para nossa conclusão de que servia como reservatório onde minérios - de ouro, para ser específico - eram processa­ dos num recipiente gigantesco.

Essa, entretanto, não era a única estrutura circular do promontório. Presumindo que os três paredões fizessem parte de uma fortaleza, os espanhóis acharam que os restos estruturais, na parte mais alta e estreita do promontório, atrás e acima das paredes, pertenciam a uma fortificação inca. Instigados por lendas locais de que uma criança certa vez caiu num dos orifícios e emergiu mais tarde trezentos metros mais abaixo, na cidade propriamente dita, arqueólogos locais fizeram escavações limitadas. Descobriram que a área atrás e sobre as três paredes estava repleta de túneis e câmaras. Mais importante, descobriram as fundações de uma série de edifícios ligados, quadrados e retangulares; no meio delas podiam-se observar os restos de uma estrutura perfeitamente circular. Os nativos se referem a ela como Muyocmarca, "A Estrutura Circular"; os arqueólogos o chamam de Torreón, o mesmo nome descritivo dado à estrutura semicircular em Machu Picchu, e presumiram que se tratava de uma torre de defesa, parte da "fortaleza" de Sacsahuamán.

Arqueoastrônomos, entretanto, enxergam na estrutura evidências claras de uma função astronômica. R. T. Zuidema (Inca Observations of the Solar and Lunar Passages, e outros estudos) reparou que o alinhamento das paredes retas em volta da estrutura circular era de tal forma que era possível determinar os pontos de zênite e nadir (ponto oposto ao zênite) ao norte e ao sul. As paredes que formavam o quadrado no interior do qual a estrutura circular foi colocada realmente são alinhadas com os pontos cardeais; porém eles formam apenas uma moldura para a estrutura circular, que consiste em três paredes concêntricas unidas por esteios de alvenaria e divide as duas internas em seções. Uma dessas aberturas - uma abertura se as estruturas elevadas seguissem a planta baixa - se volta para o sul e assim poderia ter servido para apontar o pôr-do-sol no dia do nadir. Porém as quatro outras aberturas são claramente orientadas para o noroeste, sudoeste, sudeste e nordeste - os pontos de nascer e pôr-do-sol nos dias de solstício de inverno e verão (no hemisfério sul).

Se, como parece, forem os restos de um observatório astronômico, com toda a probabilidade foi o mais antigo observatório na América do Sul, talvez em todas as Américas.

O alinhamento desse observatório circular de solstícios o coloca na mesma categoria do que existe em Stonehenge e nos templos egípcios. A evidência sugere, entretanto, que depois da Era Megalítica e na era do Império Antigo, iniciada sob a proteção de Viracocha, tanto os equinócios quanto os ciclos lunares desempenharam papéis-chave no calendário andino.

O cronista Garcilaso de La Vega, descrevendo as estruturas em forma de torre ao redor de Cuzco, afirmava que eram usadas para determinar o solstício. Mas ele descrevia outro "calendário de pedra" que não sobreviveu, e que nos lembra o círculo de pedras sobre a plataforma em Lagash... De acordo com Garcilaso, os pilares de Cuzco serviam para determinar os equinócios, não os solstícios. Segundo suas palavras: "A fim de determinar o dia exato do equinócio, pilares do mais fino mármore foram erigidos na área aberta em frente ao Coricancha, que, quando o Sol se aproxima da época, os sacerdotes observam diariamente para determinar que sombras são projetadas; para tornar mais exata a leitura, eles fixaram um gnômon como a agulha de um mostrador. Assim, como logo que nasce o Sol começa a projetar uma sombra direta, e quando está a pino, não há sombra, eles concluíram que o Sol entrou no equinócio".

Segundo o estudo de L. E. Valcarcel, O Calendário Andino, tal fixação e veneração pelos equinócios existiam, embora eles tivessem mudado seu calendário equinocial para um de solstício. Seu estudo revelou o fato de que os nomes dos meses incas atribuíam significado especial aos meses correspondentes a março e setembro para nós. "Os incas acreditavam que nos dois dias do equinócio o Pai Sol vinha viver entre eles", escreve.

A necessidade de ajustar o calendário solar por um período de milênios por causa do fenômeno da precessão, e, talvez, também devido à oscilação entre um solstício e o Ano Novo equinocial, levaram a repetir formas no calendário, mesmo nos dias do Império Antigo. Segundo Montesinos, os monarcas de números 5, 22, 33, 39 e 50 do Império Antigo "renovaram a contagem do tempo, que caíra na confusão". Que tais reformas do calendário estivessem relacionadas com a oscilação entre solstícios e equinócios é algo confirmado pela afirmação de que o monarca Manco Capac IV "ordenou que o ano começasse no equinócio de primavera", um feito possível porque ele era Amauta, um "conhecedor de astronomia". Porém, evidentemente, ao fazer isso ele só reafirmou um calendário que estivera em uso nos tempos antigos; de acordo com Montesinos, o quarto monarca que reinara mil anos antes de Manco Capac IV "fundou uma academia para o estudo da astronomia e determinação de equinócios. Ele conhecia astronomia e determinou os equinócios, que os nativos chamavam de Illa-Ri".

Como se isso não fosse o suficiente para reformas constantes, outras evidências também indicam o emprego de um calendário lunar, ou pelo menos a familiaridade com ele. Em seus estudos de arqueoastronomia Rolf Müller registra que num local chamado Pampa de Anta, cerca de 24 quilômetros a oeste de Sacsahuamán, a rocha pura foi esculpida numa série de degraus que formam um semicírculo ou crescente. Como não há nada para ver ali, exceto o promontório em Sacsahuamán para leste, Müller concluiu que o local servia para fazer observações astronômicas ao longo de uma linha de mira ancorada no promontório de Sacsahuamán - mas aparentemente ligada às aparições da Lua. O nome nativo para o edifício, Quillarumi, "Pedra da Lua", sugere tal propósito.

Iludidos pela noção de que os incas adoravam o Sol, acadêmicos modernos acharam difícil a princípio aceitar que as observações dos incas também poderiam ter incluído a Lua. Na verdade, os cronistas espanhóis da época afirmavam repetidamente que os incas tinham um calendário preciso e elaborado, incluindo aspectos solares e lunares. O cronista Felipe Guaman Poma de Ávila afirmou que os incas "conheciam os ciclos do Sol e da Lua... e o mês do ano e os quatro ventos do mundo". A asserção de que os incas observavam tanto ciclos solares quanto lunares é confirmada pelo fato de que próximo ao santuário do Sol no Coricancha havia um santuário para a Lua. No Santo dos Santos o símbolo central era uma eclipse flanqueada pelo Sol à esquerda e pela Lua à direita; foi apenas o governante Huáscar, um dos dois meios-irmãos que lutou pelo trono quando os espanhóis chegaram, que substituiu o disco oval por um disco de ouro representando o Sol.

São aspectos calendáricos mesopotâmicos; encontrá-los nos remotos Andes deixou os estudiosos assombrados. Ainda mais perplexos ficaram com a descoberta de que os incas estavam familiarizados com o zodíaco - um dispositivo totalmente arbitrário para dividir o círculo orbital ao redor do Sol em doze partes - uma" criação" dos sumérios para todos os efeitos.

E. G. Squier, em seu relatório sobre Cuzco e o significado de seu nome ("Umbigo da Terra"), reparou que a cidade era dividida em doze territórios ao redor do núcleo ou "umbigo" em forma elíptica, que é o verdadeiro circuito orbital. Sir Clemens Markham (Cuzco and Lima: the Incas of Peru) citou o cronista Garcilaso de La Vega, cuja informação era de que os doze territórios representavam as doze constelações do zodíaco.

Stansbury Hagar (Cuzco, the Celestial City) registrou que, de acordo com o folclore inca, Cuzco fora projetada conforme um plano divino para imitar os céus, e concluiu que o primeiro território, chamado "Terraço de Ajoelhar", representava a constelação de Áries. Ele mostrou que - como na Mesopotâmia - os incas associaram cada uma das "casas" do zodíaco com um mês no calendário. Esses meses zodiacais ostentavam nomes que possuíam uma estranha relação com seus nomes do Oriente Médio, originários da Suméria. Assim, o mês do equinócio de outono, igual, na Suméria, ao equinócio de primavera relacionado à constelação de Touro, era chamado Tupa Taruca, "Animal no Pasto". A constelação de Virgem, como outro exemplo, era chamada de Sara Mama, "Mãe Milho". Para entender completamente a extensão dessas semelhanças, é preciso lembrar que na Mesopotâmia essa constelação é representada por uma donzela segurando um feixe de grão - trigo ou cevada, que nos Andes é representado pelo milho. A conclusão de Hagar de que o projeto zodiacal de Cuzco associou o primeiro território com Áries e não com Touro, como na Suméria, sugere que o plano foi feito depois que a Idade do Touro terminou (devido à Precessão) por volta de 2.150 a.C. Segundo Montesinos, foi o quinto monarca do Império Antigo que completou o Coricancha e introduziu um novo calendário em algum momento depois de 1.900 a.C. Esse Capac (governante) recebeu o epíteto Pachacuti, e pode-se concluir com segurança que a reforma do calendário em seu tempo foi necessária pela mudança zodiacal de Touro para Áries - outra confirmação da familiaridade com o zodíaco e seus aspectos calendáricos, mesmo nos tempos pré-incaicos nos Andes.

Havia outros aspectos - complexos - dos calendários do Oriente Médio no calendário que os incas conservaram do tempo do Império Antigo. A exigência (ainda válida nos calendários hebraico e cristão) que a festa da Primavera (Pessach, Páscoa) acontecesse quando o Sol estava na casa apropriada do zodíaco e na primeira lua cheia ou logo depois dela, forçava os astrônomos-sacerdotes da época a intercalar ciclos solares e lunares. Os estudos por R. T. Zuidema e outros concluíram que não apenas tal intercalação ocorreu nos Andes, mas que o ciclo lunar foi adicionalmente ligado a dois outros fenômenos: tinha de ser lua cheia depois do solstício de junho e deveria coincidir com o despontar zodiacal de uma determinada estrela. Essa correlação dupla é intrigante, pois traz à mente a ligação egípcia do início de seu ciclo calendárico tanto com a data solar (cheia do Nilo) quanto com o despontar zodiacal de uma estrela (Sírius).

Cerca de trinta quilômetros a noroeste de Cuzco, num lugar chamado Pisac, existem restos de uma estrutura, provavelmente do início da época dos incas, que parece ter sido uma tentativa de imitar e combinar algumas das estruturas sagradas em Machu Picchu: uma construção cujos lados são semicirculares, com uma tosca Intihuatana no meio. Em um local chamado Kenko, que não fica longe de Sacsahuamán, um imenso semicírculo de paralelepípedos bem-feitos num grande monólito que poderia ter tido a forma de um animal (as feições encontram-se danificadas demais para serem identificadas); se esse edifício possuía ou não funções calendáricas, não se sabe. Esses locais, adicionados a Machu Picchu, Sacsahuamán e Cuzco, ilustram o fato de que no que foi chamado o Vale Sagrado - e apenas ali - a religião, o calendário e a astronomia levaram à construção de observatórios circulares ou semicirculares; em nenhum outro local da América do Sul encontramos essas estruturas.

Quem teria aplicado, aproximadamente à mesma época, o mesmo conjunto de princípios astronômicos, adotando um formato circular para observação celeste na Inglaterra antiga, em Lagash na Suméria e no Império Antigo na América do Sul?

Todas as lendas, apoiadas por evidências geográficas e acha­ dos arqueológicos, apontam para as margens do lago Titicaca como o local do Início Sul-Americano, não apenas da civilização humana, mas dos próprios deuses. Foi ali, segundo as lendas, que o repovoamento das terras dos Andes começou depois do Dilúvio; que os deuses, liderados por Viracocha, fizeram sua morada; que os casais destinados a iniciar o Império Antigo receberam conhecimento, instruções sobre o caminho e o Bastão de Ouro com o qual localizar o Umbigo da Terra - a fundação de Cuzco.

No que se relaciona com o início da colonização andina pelos humanos, as histórias o ligam a duas ilhas diferentes no lago Titicaca. Eram chamadas a ilha do Sol e a ilha da Lua, sendo os dois corpos celestes considerados os principais ajudantes de Viracocha; o simbolismo do calendário inerente a essas duas histórias foi percebido por vários acadêmicos. A habitação de Viracocha era, entretanto, numa Cidade dos Deuses na terra firme, na margem sul do lago. O local, chamado Tiahuanaco, foi fundado pelos deuses (segundo o folclore local) em épocas imemoriais; foi, segundo a lenda relata, um lugar de estruturas colossais que apenas gigantes poderiam erigir.

O cronista Pedro Cieza de León, que viajou por onde hoje em dia estão o Peru e a Bolívia nos anos que sucederam a conquista espanhola, relata que, sem dúvida, de todas as antiguidades das terras andinas, as terras de Tiahuanaco eram "o local mais antigo de todos". Entre os edifícios que o surpreenderam estava uma colina artificial "sobre um grande alicerce de pedra" que media mais de 280 por 120 metros na base e se elevava cerca de 35 metros.

Nas proximidades ele viu blocos gigantescos caídos no solo, entre eles "muitos portais com seus umbrais, lintéis e batentes, tudo em uma só peça", que por sua vez faziam parte de blocos ainda maiores, "alguns deles com 10 metros de largura, 5 ou mais de comprimento, e que se elevavam a mais de 2 metros de altura".

Ele imaginou se a "força humana teria sido suficiente para movê-las até o local onde as encontrara, sendo tão grandes". Porém não apenas o imenso tamanho dos blocos de pedra o intrigou; também a "grandeza e magnificência". "Por mim, não posso entender que instrumentos ou ferramentas poderiam ter feito isso, pois é certo que antes de essas pedras serem trabalhadas à perfeição e terem ficado da forma que as vemos, as ferramentas de­ veriam ser muito melhores do que as usadas agora pelos nativos", escreveu ele. Não tinha dúvidas de que "dois ídolos de pedra, de figura e forma humanos, com as feições esculpidas com habilidade... que parecem pequenos gigantes", haviam sido responsáveis pelas maravilhosas estruturas.

Ao longo dos séculos, a maioria dos blocos pequenos foram levados para ser usados na construção de La Paz, a capital boliviana, em ferrovias que conduziam até lá e nas áreas rurais circundantes. Porém, mesmo assim, os viajantes continuavam a relatar as incríveis ruínas monumentais; por volta do século XIX os relatórios assumiram uma precisão mais científica, como resultado de visitas e pesquisas por Ephraim George Squier (Peru: Incidents of TraveI and Exploration in the Land of the Incas) e A. Stübel e Max Uhle (Die Ruinenstaette Von Tiahuanaco im Hochland des Alten Peru). Foram seguidos no início do século passado pelo mais renomado e tenaz pesquisador de Tiahuanaco, Arthur Posnansky (Tiahuanacu - The Cradle of American Man). O trabalho deles e outros estudos e escavações recentes, que revimos em Os Reinos Perdidos, nos leva a concluir que Tiahuanaco seria a capital do estanho no mundo antigo, e que tanto as estruturas sobre a terra quanto outras, subterrâneas, eram instalações metalúrgicas, que os blocos enormes de uma peça faziam parte de instalações portuárias na antiga margem do lago, e que Tiahuanaco não foi feita pelos homens, e sim pelos "deuses" anunaques, em sua busca por ouro, muito antes que o homem aprendesse os usos do estanho.

Onde um platô estreito e raro se espalhava da margem sul do lago Titicaca, o local da outrora magnífica Tiahuanaco e seu porto (hoje em dia chamado de Puma-Punku), apenas três monumentos de seu passado dominam a paisagem. O que fica na parte sudoeste das ruínas é a colina chamada Akapana, uma colina artificial (como Cieza de León observou) que se concluiu ter servido como fortaleza; é agora sabido que era mais uma pirâmide em estágios com reservatórios, canais, canos e ranhuras que indicam seu verdadeiro propósito: uma instalação para a separação e processamento de minérios.

Essa colina artificial, que alguns acreditam ter tido originalmente a forma de uma pirâmide em degraus como um zigurate mesopotâmico, domina a paisagem plana. À medida que o visitante corre os olhos pela paisagem, outra estrutura se impõe. Situada a noroeste do Akapana, parece à distância um Arco do Triunfo francês transplantado de Paris. De fato é um portão, intricadamente cortado e esculpido num único bloco ciclópico de pedra; porém não foi erigido para comemorar nenhuma vitória - ao contrário, foi para eternizar em pedra um maravilhoso calendário.

Chamado de "Porta do Sol", o bloco único de pedra do qual foi cortado e moldado media cerca de 3 por 7 metros e pesava mais de cem toneladas. Existem nichos e cortes de precisão geométrica na parte inferior, especialmente onde é considerado o lado traseiro. As esculturas mais elaboradas e enigmáticas se encontram na parte dianteira superior, que fica de frente para o leste. Ali, o arco do portão foi esculpido para mostrar em relevo uma figura central- provavelmente Viracocha - flanqueada por um grupo de assistentes alados; a figura central e três fileiras foram posicionadas sobre uma moldura com meandros geométricos, ondulando acima e abaixo de imagens em miniatura de Viracocha.

Os escritos de Posnansky estabeleceram que as esculturas no portão representam um calendário de doze meses, num ano que se inicia no dia do equinócio de primavera no hemisfério sul (setembro), ainda assim um ano em que os outros pontos importantes do ano solar - o equinócio de outono e os dois solstícios ­ também são indicados pelas posições e formas das imagens menores representadas. Tratava-se, concluiu ele, de um calendário de onze meses de trinta dias mais um "grande mês", um décimo segundo mês de trinta e cinco dias, totalizando um ano solar de 365 dias.

Um décimo segundo mês começando no dia do equinócio de primavera foi, como sabemos agora, introduzido em Nippur, na Suméria, de cerca de 3.800 a.C.

A "Porta do Sol", conforme descobriram os arqueólogos, fica no canto noroeste do que foi uma parede construída de pilares erguidos formando uma área retangular no interior da qual o terceiro edifício mais proeminente ficava. Alguns acreditam que havia outro portão similar na extremidade sudoeste do espaço delimitado, ladeando simetricamente uma fileira de treze monólitos eretos precisamente no centro da parede oeste. Essa fileira de monólitos, parte de uma plataforma especial, voltava­-se exatamente para a escadaria construída no centro da parede leste, no lado oposto. A escadaria monumental, descoberta e restaurada, levava a uma série de plataformas retangulares levantadas que englobavam uma área rebaixada.

Batizado como Kalasasaya ("Os Pilares Eretos"), o edifício foi orientado com precisão segundo um eixo leste-oeste, como os templos do Oriente Médio. Essa foi a primeira pista de que poderia ter servido para propósitos astronômicos. Pesquisas mais recentes demonstraram que realmente se tratava de um observatório sofisticado para determinar solstícios, bem como equinócios, observando-se o nascer e o ocaso do Sol de um determinado ponto focal ao longo das linhas de mira nas cantos e nos pilares eretos nas paredes oeste e leste. Posnansky encontrou provas de que a parte traseira da Porta do Sol foi esculpida de forma a apoiar dois painéis de ouro que poderiam girar em eixos de bronze; aquilo permitiria que o astrônomo-sacerdote movesse as placas para que refletissem os raios de sol na direção de qualquer ponto no Kalasasaya. Essas linhas de mira múltiplas - mais do que era necessário para observações nos dias de solstícios e equinócios -, o fato de que Viracocha fora ajudado tanto pelo Sol quanto pela Lua, e o fato de que havia treze, e não doze, pilares ao centro da parede oeste sugeriam que o Kalasasaya não era usado apenas como observatório solar, mas que servia também de calendário solar-lunar.

A percepção de que essa antiga estrutura, a mais de seis mil metros de altitude nos Andes, num platô desolado e estreito entre montanhas cobertas de neve, era um sofisticado observatório calendárico foi completada por descobertas em relação à sua idade. Posnansky foi o primeiro a concluir que os ângulos formados pelas linhas de mira sugeriam uma obliqüidade bem maior do que a atual, de 23,5 graus; ele mesmo ficou surpreso ao constatar que isso significava que o Kalasasaya fora projetado e construído milhares de anos antes da Era Comum.

A compreensível descrença por parte do mundo científico na época - quando se imaginava que as ruínas, se não fossem do período inca, não passariam de alguns séculos a.C. - levou à formação de uma Comissão de Astrônomos Alemães para o Peru e Bolívia. O dr. Rolf Müller, cujo amplo trabalho sobre outros locais arqueológicos já foi mencionado por nós, foi um dos três astrônomos escolhidos para a tarefa. As investigações e extensas medições não deixaram dúvida de que a obliqüidade que prevalecia no instante da construção significava que o Kalasasaya poderia ter sido feito em 4050 a.C. ou (como o eixo da Terra se inclina para a frente e para trás) por volta de 10.050 a.C. Müller, que chegara à data de apenas 4.000 a.C. para os restos megalíticos de Machu Picchu, estava inclinado a datar assim o Kalasasaya ­uma conclusão com a qual Posnansky, ao final, concordou.

Quem estaria ali com todo o conhecimento sofisticado para planejar, orientar e erigir tais observatórios calendáricos - e de uma forma que seguia princípios astronômicos e arranjos calendáricos criados no Oriente Médio? Em Os Reinos Perdidos, apresentamos as provas e chegamos à conclusão de que foram os mesmos anunaques, aqueles que haviam desembarcado na Terra, vindos de Nibiru para buscar ouro. E, como os homens que procuraram o Eldorado milênios depois, também vieram para o Novo Mundo em busca de ouro. As minas no sudoeste da África foram inundadas pelo Dilúvio; mas a mesma catástrofe descobriu a incrível riqueza dos veios auríferos nas encostas dos Andes.

Acreditamos que Anu e sua esposa Antu, vindos de Nibiru para visitar a Terra por volta de 3.800 a.C., também foram ver por eles mesmos os novos centros metalúrgicos na margem sul do lago Titicaca. Velejaram a partir das instalações de Puma Punku, onde as câmaras ciclópicas eram esculpidas em blocos únicos de pedra, depois observaram os enormes ancoradouros de pedra.

Os restos de Puma Punku continham ainda outra pista enigmática para a incrível ligação entre as estruturas no lago Titicaca e o incomum templo para Ninurta que Gudea construiu. Para a descrença dos escavadores, descobriram que os construtores dos megálitos usaram "grampos de bronze", fundidos para encaixarem em sulcos em forma de "T" nas rochas a serem unidas, para segurar os blocos juntos. Tal método e tal uso do bronze são típicos da Era Megalítica, tendo sido encontrados apenas em Puma Punku e em outro local, Ollantaytambo, a cerca de catorze quilômetros a noroeste de Cuzco, no Vale Sagrado.

Ainda assim, a milhares de quilômetros de distância, do outro lado do mundo, em Lagash, na Suméria, Gudea usou o mesmo método único e os mesmos grampos de bronze para segurar as pedras que, importadas, foram usadas na construção do Eninnu. Registrando em suas inscrições o uso incomum das rochas e dos metais, assim Gudea descreve seus feitos:

Ele construiu o Eninnu com pedra,

Ele a tornou brilhante com jóias;

Com cobre misturado ao estanho [bronze]

Ele a manteve unida.

Foi um feito para o qual um Sangu Simug, um "sacerdote-­metalúrgico", foi trazido da "Terra da Fundição". Acreditamos que essa terra era Tiahuanaco, nos Andes.

10

Nas Pegadas Deles

A Grande Esfinge do Egito olha precisamente para leste, acolhendo o Sol nascente ao longo do paralelo 30. Em tempos antigos esse olhar acolhia os "deuses" anunaques quando aterrissavam no espaçoporto da península do Sinai, e depois guiavam os faraós mortos para o Pós-Vida, quando o deles se juntava aos deuses em sua subida celestiaL Em alguma época entre esses dois pontos, a Esfinge pode ter testemunhado a partida de um grande deus - Thot - com seus seguidores, para se transformarem nos primeiros americanos.

O aniversário de 500 anos da viagem épica de Colombo, em 1492, foi agora reclassificado de descoberta para redescoberta e intensificou a pesquisa para saber a verdadeira identidade dos "Primeiros Americanos". A noção de que a colonização do território começou com a migração de grupos familiares da Ásia, por uma ponte de terra congelada no Alasca, pouco antes que a Era do Gelo terminasse, tem cedido lugar às evidências arqueológicas de que seres humanos chegaram à América milênios antes disso, e que a América do Sul, e não a América do Norte, foi a mais antiga arena da presença humana no Novo Mundo.

"Durante os últimos 50 anos, acreditou-se na idéia de que os artefatos de 11.500 anos encontrados em Clovis, no Novo México, foram fabricados logo depois que os primeiros americanos encontraram seu caminho pela ponte de terra de Bering", afirma a revista Science (21 de fevereiro de 1992), atualizando o debate entre os cientistas. "Aqueles que ousaram questionar o consenso depararam-se com a crítica implacável". A relutância em aceitar uma data mais antiga e uma rota diferente deriva simplesmente da afirmação de que o homem não poderia ter atravessado o oceano que separa o Velho e o Novo Mundo na época pré-histórica porque a tecnologia marítima não existia. Sem levar em conta evidências contrárias, a lógica continuou sendo: se o homem não podia fazer, não aconteceu.

A idade da Esfinge surgiu recentemente como uma questão parecida, em que os cientistas se recusam a aceitar novas evidências porque implicariam conquistas do homem quando este não as poderia ter feito; assistência por parte dos "deuses" - extraterrestres - está simplesmente fora de questão.

Em livros anteriores das Crônicas da Terra, apresentamos provas extensas (com datações não recusáveis) de que as grandes pirâmides de Gizé foram construídas não pelos faraós da IV dinastia por volta de 2.600 a.C., mas pelos "deuses" anunaques milênios antes, como componentes do corredor de aterrissagem para o espaçoporto da península do Sinai. Chegamos a uma idade de 10.000 anos - talvez 12.000 - para aquelas pirâmides; demonstramos que a Esfinge, construída logo depois, já existia no platô de Gizé quando os faraós começaram seus reinados, muitos séculos antes da IV Dinastia. As provas nas quais nos apoiamos e que apresentamos foram imagens egípcias e sumérias, inscrições e textos.

Em outubro de 1991, cerca de quinze anos depois de nossa apresentação inicial dessas evidências em O 12º. Planeta, o dr. Robert M. Schoch, um geólogo da Universidade de Boston, falou, no encontro da Sociedade Geológica da América, que estudos meteorológicos da Esfinge e de suas camadas indicaram que ela tinha sido esculpida em rocha nativa "muito antes dos faraós".

Os métodos de pesquisa utilizados incluíam estudos sísmicos das rochas do subsolo - realizados pelo dr. Thomas L. Dobecki, um geofísico de Houston, e pelo egiptólogo Anthony West, de Nova York - e estudos da erosão e marcas de água na Esfinge e no ambiente que a cerca. Schoch afirmou que "a erosão induzida por precipitação indica que o trabalho na Esfinge começou no período entre 10.000 e 5.000 a.C., quando o clima egípcio era mais úmido".

A conclusão "extrapola tudo o que sabemos sobre o Egito Antigo", acrescenta o Los Angeles Times em seu anúncio do acontecimento. "Outros egiptólogos que viram o trabalho do Sr. Schoch não sabem explicar as evidências geológicas, mas insistem em que a idéia de que a Esfinge seja milhares de anos mais velha do que imaginaram 'simplesmente não combina' com o que se sabe." O jornal citou a arqueóloga Carol Redmount, da Universidade da Califórnia, em Berkeley: "Não existe possibilidade de que sejam verdadeiras... a Esfinge foi criada com uma tecnologia muito mais avançada do que a usada em outros monumentos egípcios de data conhecida, e as pessoas daquela região não possuíam a tecnologia, as instituições governamentais ou a vontade de construir tal estrutura milhares de anos antes".

Em fevereiro de 1992, a Associação Americana para o Avanço da Ciência reuniu-se em Chicago, dedicando uma sessão ao tema" Qual a idade da Esfinge?", na qual Robert Schoch e Thomas Dobecki debateram suas descobertas com Mark Lehner, da Universidade de Chicago, e K. L. Gauri, da Universidade de Louisville. Segundo a Associated Press, o caloroso debate que terminou em confronto no saguão não se concentrou nos méritos científicos das descobertas meteorológicas, mas, como Mark Lehner expressou, em se é "permitido ou não confrontar a história egípcia com base em um fenômeno tal como um perfil meteorológico". O argumento final dos debatedores foi a ausência de evidências de que uma civilização avançada o suficiente para esculpir a Grande Esfinge tenha existido no Egito entre 7.000 e 5.000 a.C. "Durante essa época os povos eram caçadores e coletores; não construíam cidades", afirmou o dr. Lehner; com isso, o debate terminou.

A única resposta para esse argumento lógico, naturalmente, é invocar outros, que na época não fossem "caçadores e coletores" - os anunaques. Porém, admitir que toda essa evidência aponta para seres mais avançados de outro planeta é uma fronteira que nem todos, incluindo os que acreditam que a Esfinge tenha 9.000 anos de idade, estão prontos a atravessar.

O mesmo Medo-de-Atravessar (fabricando uma expressão) bloqueou por vários anos não apenas a aceitação, mas também a disseminação de evidências em relação à antiguidade do homem e de suas civilizações nas Américas.

A descoberta perto de Clovis, no Novo México, em 1932, de um aglomerado de pontas de pedra em forma de folha, com as bordas cortantes, que poderiam ser presas às hastes e clavas para a caça, e depois em outros locais da América do Norte, levou à teoria de que caçadores de grandes animais haviam migrado da Ásia para a costa noroeste do Pacífico há cerca de 12.000 anos, quando a Sibéria e a Ásia eram ligadas por uma ponte de gelo. Com o tempo, afirmava a teoria, esse "Povo Clovis" e sua descendência se espalharam pela América do Norte e pela América Central, chegando à América do Sul.

A imagem dos Primeiros Americanos conservou sua validade a despeito de descobertas ocasionais, mesmo no sudoeste dos Estados Unidos, de restos de ossos amassados ou pontas de setas - presença inegável de humanos - datando de 20.000 anos antes de Clovis. Outro achado, menos duvidoso, foi na rocha de Meadowcroft, na Pensilvânia, local em que ferramentas de pedra, ossos de animais e, o mais importante, carvão foram datados entre 15.000 e 19.000 anos atrás - milênios antes de Clovis, e na parte leste dos Estados Unidos.

À medida que a pesquisa lingüística e o rastreamento genético se juntaram a outras ferramentas de investigação, começaram a se acumular nos anos 80 as evidências de que os humanos chegaram ao Novo Mundo por volta de 30.000 anos atrás - provavelmente em mais de uma migração, e talvez não necessariamente por uma ponte de gelo, mas com jangadas e canoas ao longo das costas. A rota presumida, entretanto - do nordeste da Ásia para o noroeste das costas americanas -, foi mantida teimosamente, a despeito de evidências perturbadoras na América do Sul. Tais provas, cuja descoberta não foi apenas ignorada, mas também suprimida inicialmente, apontam em princípio dois locais onde ferramentas da Idade da Pedra, ossos amassados de animais e até mesmo petróglifos (pinturas na rocha) foram encontrados.

O primeiro desses casos foi em Monte Verde, no Chile, à beira do Pacífico. Lá, os arqueólogos encontraram restos de locais feitos com argila para conter fogueiras, ferramentas de pedra, pedaços de ossos e alicerces de abrigos de madeira - um acampamento de 13.000 anos atrás. Essa data é antiga demais para explicar uma migração do povo de Clovis, vindo da América do Norte. Além do mais, os estratos mais profundos desse acampamento revelaram ferramentas de pedra fragmentadas que sugeriam uma ocupação humana anterior em 20.000 anos. O segundo local é do outro lado da América do Sul, no nordeste do Brasil. Num lugar chamado Pedra Furada, um abrigo rochoso contendo fogueiras circulares, cheias de carvão cercado por pederneiras, ou sílex; a fonte mais próxima dessas pedras está a quase dois quilômetros de distância, indicando que elas foram levadas propositadamente. A datação por rádio-carbono e métodos mais novos forneceu leituras que vão desde o período de 14.300 anos até 47.000 anos atrás. Enquanto a maior parte dos arqueólogos estabelecidos continuam a considerar as datas mais antigas "simples­ mente inconcebíveis", o abrigo de rocha apresentou, no nível correspondente a 10.000 a.C., petróglifos cuja idade é indiscutível.

Num deles, está representado um animal de pescoço longo que parece uma girafa - um animal que não existe nas Américas.

O desafio progressivo da teoria Clovis de migração em relação ao tempo tem sido acompanhado de um desafio à idéia do estreito de gelo em Bering ser a única via de chegada. Antropólogos do Centro de Pesquisas Árticas do Instituto Smithsoniano em Washington, D.C., concluíram que a imagem de humanos envoltos em peles de animais carregando lanças sobre uma planície congelada (com mulheres e crianças) está errada quando se pensa sobre os primeiros americanos. Em vez disso, eram povos marítimos que velejaram em jangadas ou pequenos botes de pele para os litorais mais hospitaleiros das Américas. Outros, no Centro de Estudos dos Primeiros Americanos da Universidade Esta­ dual de Oregon, não descartam uma travessia do Pacífico, pelas ilhas e pela Austrália (que era habitada por volta de 40.000 anos atrás).

A maior parte dos outros ainda considera tais travessias realizadas nessa época pelo "homem primitivo" como fantasias; as datas mais antigas são brandidas como erros instrumentais, "ferramentas" de pedra se tomam pedras quebradas, ossos quebrados de animais passam a ser o resultado de esmagamento por avalanches, não por caçadores. A mesma pergunta que tem trazido o debate sobre a Idade da Esfinge a um beco sem saída tem sido aplicada aos debates sobre os Primeiros Americanos; quem estava lá, milhares de anos atrás, que possuísse a tecnologia necessária para atravessar vastos oceanos com barcos pequenos, e como poderiam esses marinheiros pré-históricos ter sabido onde havia terra, terra habitável, do outro lado?

Essa é uma questão que (também quando aplicada à Idade da Esfinge) só possui uma resposta: os anunaques, mostrando ao homem como cruzar oceanos, dizendo o porquê e mostrando onde - talvez transportando-o "nas asas das águias", conforme descrição na Bíblia - a uma nova Terra Prometida.

Iavé veio perante eles durante o dia

Num pilar de nuvens, para mostrar o caminho,

E durante a noite num pilar de fogo

Para dar-lhes luz, para ir de dia e de noite.

Ajudado e guiado, o povo seguiu as pegadas dos deuses ­no antigo Oriente Médio assim como nas terras novas além do oceano.

As últimas descobertas arqueológicas credenciam memórias de certos eventos antigos chamados "mitos" e "lendas". Invariavelmente, falam de migrações múltiplas e sempre além-mar. De forma expressiva, sempre envolvem os números 7 e 12 - números que não são reflexos da anatomia humana ou da contagem dos dedos, mas uma pista para o conhecimento astronômico, assim como uma ligação com o Velho Mundo.

Um dos ciclos de lendas mais bem preservados é o das tribos náuatles do México central, de quem os astecas encontrados pelos espanhóis eram os últimos representantes. Suas histórias de migração abrangiam quatro eras ou "sóis". A primeira terminava com o Dilúvio; uma versão que fornece quantidades em anos para essas eras indica que o primeiro "sol" começou 17.141 anos antes que a história fosse relacionada aos espanhóis, por volta de 15.600 a.C. e assim, de fato, milênios antes do Dilúvio. As tribos mais antigas, as lendas orais e as histórias escritas em pictogramas em livros chamados códices vieram de Azt-lan, o "Lugar Branco", que era associado ao número 7. Era algumas vezes representado como um local com sete cavernas, de onde teriam emergido seus ancestrais; outra alternativa o representava como um local com sete templos: uma grande pirâmide (zigurate) central, cercada por seis santuários menores. O Codex Boturini contém uma série de pinturas como desenhos representando a migração de quatro tribos, que começam no lugar com os sete templos, envolvem uma travessia do mar em barcos e um campo de pouso no local com as sete cavernas; os emigrantes foram guiados naquela jornada para o desconhecido por um deus cujo símbolo era o Olho-que-Vê preso a uma haste elíptica. Os quatro clãs de emigrantes foram para o interior da ilha, passando por várias marcas no terreno. Dividindo-se em várias tribos, uma, os Mexica, finalmente conseguiu atingir o vale onde uma águia encontrava-se pousada num cacto. Foi chamada de Tenochtitlán, ou Cidade de Tenoch. Os emigrantes mais antigos foram chamados de tenochtitas, o povo de Tenoch; em Os Reinos Perdidos, detalhamos os motivos por que eles poderiam ser os descendentes de Enoch, filho de Caim, que ainda sofria a vingança sétupla pelo crime de fratricídio do antepassado. Segundo a Bíblia, Caim, banido para uma "Terra de Node", construiu uma cidade e a batizou com o nome de seu filho, Enoch; e Enoch teve quatro descendentes, que geraram quatro clãs.

O cronista espanhol frei Bernardino de Sahagún (Historia de las Cosas de ia Nueva Espana), cujas fontes foram verbais, assim como histórias de Nahuatlán escritas depois da conquista, registrada durante a viagem de volta, e o nome, Panotlán, do campo de pouso; o nome significa simplesmente "Lugar de Chegada por Mar", e ele concluiu que ficava onde hoje é a Guatemala. Suas informações acrescentaram o interessante detalhe de que os emigrantes foram liderados por quatro Homens Sábios, "que carregavam com eles manuscritos rituais e também conheciam os segredos do calendário". Agora sabemos que ambos - rituais e calendários - eram dois lados da mesma moeda, a adoração aos deuses. Seria seguro apostar que o calendário náuatle seguia um arranjo de doze meses, talvez até dividissem em doze o zodíaco; nas crônicas de Saragún, lemos que os toltecas, a tribo náuatle que precedeu e ensinou os astecas, "sabiam que os céus eram muitos; diziam que existiam doze divisões superpostas".

Para o sul, onde o oceano Pacífico banha as costas da América do Sul, os "mitos" andinos não lembram as emigrações ante-­diluvianas, mas sabiam do Dilúvio e afirmaram que os deuses, sempre presentes naquelas terras, foram os que ajudaram os poucos sobreviventes a chegar até os picos mais altos e, depois, a repovoar o continente. As lendas falam claramente sobre novas chegadas marítimas depois do Dilúvio; as primeiras e mais memoráveis foram chefiadas por um líder chamado Naymlap. Ele liderou seu povo pelo Pacífico numa flotilha de barcos feitos de balsa, guiados por um "ídolo", uma pedra verde por meio da qual o Grande Deus dava instruções gerais e sobre a navegação, Aportaram onde o continente sul-americano avança mais para dentro do Pacífico, no local atualmente chamado de cabo Santa Helena, no Equador. Depois de desembarcarem, o Grande Deus (ainda falando por meio da pedra verde) instruiu o povo em relação à agricultura, arquitetura e artesanatos.

Uma antiga relíquia feita de ouro puro, hoje em dia guarda­ da no Museu do Ouro em Bogotá, na Colômbia, representa um líder alto que podia ser Naymlap. Segundo a lenda a respeito deste, todos estavam familiarizados com o calendário e adoravam um panteão de doze deuses. Movendo-se para o interior a fim de se estabelecer onde fica Quito, capital do Equador hoje em dia, construíram dois templos, um de frente para o outro: um dedicado ao Sol, outro dedicado à Lua. O Templo do Sol possuía duas colunas de pedra diante do portão, e no átrio um círculo de doze pilares de pedra.

A familiaridade com o sagrado número 12 - o saguão do panteão e do calendário mesopotâmico - fala de um calendário não muito diferente do que se originou na Suméria. A veneração tanto do Sol quanto da Lua indica um calendário solar-lunar, novamente parecido com o que se iniciou na Suméria. Um portão com duas colunas à frente lembra as duas colunas à entrada dos templos por todo o Oriente Médio, desde a Mesopotâmia até a Ásia ocidental e o Egito. E como se não bastassem todas essas ligações com o Velho Mundo, encontramos um círculo de doze pilares de pedra. Quem quer que tenha atravessado o Pacífico devia ser conhecedor dos círculos de pedra astronômicos de Lagash, ou de Stonehenge - ou de ambos.

Vários objetos que agora estão no Museu Nacional do Peru, em Lima, são considerados como tendo servido de computadores calendáricos pelo povo que habitou a costa. Um deles, por exemplo, catalogado com o número 15-278, é dividido em dezesseis quadrados que contêm de seis a doze orifícios; os painéis do alto e de baixo possuem 28 e 29 orifícios respectivamente - uma forte sugestão de contagem mensal lunar.

Fritz Buck (Inscripciones Calendarias del Peru Preincaico), que se tornou especialista no assunto, foi de opinião que os 116 orifícios ou marcas nos dezesseis quadrados representam um elo com o calendário dos maias do México e da Guatemala. Que a parte norte das terras andinas esteve em contato estreito com o povo e as culturas da Mesoamérica - uma possibilidade até então rejeitada peremptoriamente - é algo que hoje dificilmente é contestado. Aqueles que chegaram da Mesoamérica sem dúvida incluíram semitas e africanos, como fica evidenciado pelas inúmeras esculturas e trabalhos em pedra. Antes que eles chegassem por mar, as pessoas haviam sido representadas como indo-européias; em algum momento, chegou a essa terra o "povo-pássaro" de capacete, equipados com armas de metal. Outro grupo pode ter chegado via bacia do Amazonas e seus tributários; o povo associado com eles era idêntico ao hieróglifo hitita para "deuses". Ainda que o panteão hitita fosse uma adaptação do sumério, talvez explique uma estatueta de ouro na Colômbia, com uma deusa segurando nas mãos o emblema do cortador umbilical - o símbolo de Ninharsag, a Deusa-Mãe dos sumérios.

A costa andina centro-norte, assim como as cordilheiras da América do Sul, abrigava um povo que falava quíchua, chamados, por falta de outra referência, de acordo com os rios ao longo dos quais habitavam. Os incas formaram seu império e construíram suas famosas estradas nas ruínas desses habitantes mais antigos. Para o sul, desde onde fica Lima (capital do Peru), ao longo das costas e montanhas do lago Titicaca, e mais ainda, na direção do Chile, a linguagem tribal dominante era a dos aimarás. Eles lembravam em suas lendas a chegada à costa do Pacífico e também por terra, a leste do Titicaca. Os aimarás consideraram os antigos como invasores belicosos; os últimos foram chamados de uru, cujo significado é "povo antigo", que formavam um povo à parte, cujos remanescentes ainda existem no Vale Sagrado como um grupo, com seus costumes e tradições. A possibilidade de que fossem sumérios, chegando ao lago Titicaca quando Ur era a capital da Suméria (da última vez, entre 2.200 e 2.000 a.C.), deve ser levada a sério. O fato é que a província que liga o Vale Sagrado, as margens orientais do lago Titicaca e o Brasil ocidental ainda é chamada de Madre del Dios - "Mãe dos Deuses", o que Ninharsag era. Mera coincidência?

Os estudiosos descobriram que, ao longo dos milênios, as influências culturais desses povos eram as de Tiahuanaco; sua maior expressão foi encontrada nos milhares de objetos de argila e metal que traziam a imagem de Viracocha conforme aparecia no grande Portal do Sol, em decorações (incluindo o magnífico tecido trabalhado no qual as múmias eram embrulhadas), que emulavam os símbolos no Portal, e seu calendário.

O mais popular desses símbolos, ou como Posnansky e outros os consideram, hieróglifos, era o da escadaria, que também era usado no Egito e que era representado em artefatos andinos para compor uma torre com o "olho-que-vê". Tal observação, a julgar pelas linhas astronômicas de mira no Kalasasaya e pelos símbolos celestes associados com Tiahuanaco, incluía a Lua (cujo símbolo era um círculo entre crescentes).

No lado da América do Sul banhado pelo Pacífico, parece que o calendário e sua sabedoria celeste seguiram os passos dos mesmos professores que estiveram ativos no Oriente Próximo.

Comentando essas evidências, já discutidas pela presença muito antiga do homem nas Américas e por suas rotas de chegada, a dra. Niede Guidon, do Instituto Francês de Estudos Sociais Avançados, que participou com arqueólogos brasileiros das descobertas em Pedra Furada, afirmou: "Uma travessia transatlântica da África não pode ser descartada".

A descoberta da "cerâmica mais antiga das Américas" , anunciada por uma equipe arqueológica do Museu de História Natural em Chicago, na edição da revista Science de 13 de dezembro de 1992, "ultrapassou os pressupostos-padrão" em relação ao povo das Américas e especialmente à visão de que a bacia Amazônica, onde a descoberta foi realizada, era "simplesmente pobre demais em recursos para ter suportado uma cultura pré-histórica complexa". Ao contrário de opiniões antigas, "a bacia Amazônica tinha um solo tão fértil quanto as planícies do Nilo, do Ganges e de outras grandes bacias hidrográficas pelo globo", afirmou a dra. Anne C. Roosevelt, a chefe do grupo. Os fragmentos de cerâmica castanho-avermelhada, alguns decorados com padrões pintados, foram datados pelas tecnologias mais recentes como tendo sete mil anos de idade. Foram encontrados num lugar chamado Santarém, entre montes de conchas e outros objetos desprezados pelos antigos residentes, um povo pescador.

A data e o fato de a cerâmica ser pintada com desenhos lineares fizeram com que fosse comparada com objetos similares que apareceram no Oriente Médio, nas montanhas que margeavam a planície onde a civilização suméria floresceu. Em Os Reinos Perdidos, apresentamos as evidências de traços sumérios na bacia Amazônica e nas áreas produtoras de ouro e estanho, no Peru. A última descoberta, ao fixar a data de produção da cerâmica sem sombra de dúvida, e ao surgir numa época em que as chegadas eram uma possibilidade aceitável, serve principalmente para corroborar conclusões anteriores não-ortodoxas; na Antiguidade as pessoas do Oriente Médio atingiram o continente americano atravessando o Atlântico.

As chegadas de tal direção não se deram sem vestígios calendáricos. A mais dramática e enigmática das descobertas foi a nordeste da bacia Amazônica, perto da fronteira Brasil-Guiana. Lá, erguendo-se na grande planície, encontra-se uma rocha em forma de ovo que se eleva cerca de trinta metros, cujo diâmetro fica em torno de 75 a cem metros. Uma cavidade natural no alto foi esculpida para formar um lago cujas águas fluíssem para o interior da rocha gigante, através de canais e sulcos. O orifício em forma de caverna foi alargado para formar um abrigo maior, e em seguida esculpido para criar depressões e plataformas em vários níveis. A entrada para o interior da rocha possui a pintura de uma cobra, com cerca de sete metros de comprimento, a boca formada por três aberturas na rocha, cercada por enigmáticas inscrições, ainda não decifradas; tanto no interior quanto fora, a rocha é coberta por centenas de símbolos pintados.

Intrigado pelos relatos de exploradores modernos e pelas histórias de que as cavernas continham o esqueleto de "gigantes cujas faces apresentam expressões européias", o professor Marcel F. Homet (Die Sohne de Sonne) explorou a rocha nos anos 50 e conseguiu dados mais precisos sobre ela do que até então se conhecia. Ele descobriu que as três fachadas da Pedra Pintada apontam em três direções: a fachada grande está orientada segundo um eixo leste-oeste, e as menores estão orientadas nas direções sul-sudoeste c sul-sudeste. Sua observação era de que "externamente, em sua orientação estrutural... esse monumento segue os valores exatos das antigas culturas européias e mediterrâneas". Ele considerou vários sinais e símbolos pintados sobre a superfície meticulosamente polida na rocha, anunciando que eles eram "numerais impecavelmente regulares, que não são baseados no sistema decimal", mas "pertencem às mais antigas culturas mediterrâneas". Ele imaginou que as superfícies cheias de orifícios seriam tabelas de multiplicar, tais como 9 vezes 7, ou 7 vezes 7, ou 12 vezes 12.

O mais importante desse local, que alguns exploradores chamaram de Lugar dos Livros de Pedra, eram dólmenes - grandes pedras achatadas sobre suportes laterais - pesando cerca de quinze a vinte toneladas cada uma. Suas faces eram elaboradamente pintadas; as duas maiores foram cortadas em formas precisas - uma como um pentágono e a outra como um oval. À entrada, ambas parecem representar a serpente como sinal dominante, e esses e outros símbolos remeteram Homet aos antigos egípcios e ao Mediterrâneo oriental. Como muitos dos dólmenes estavam colocados nos níveis e nas entradas para as grutas-sepulturas nas profundezas da rocha, ele concluiu que, conforme as lendas nativas afirmavam, seria um local sagrado para o sepultamento de líderes ou de outras pessoas notáveis, "por um povo civilizado que vivia aqui, assim como estavam em Tiahuanaco, a grande cidade nos Andes, muito, muito, muito tempo atrás - talvez milhares de anos antes do nascimento de Cristo".

A observação de Homet em relação ao sistema matemático que parecia existir sob as marcas da superfície, "não baseado em sistema decimal", mas naquele "das culturas mais antigas conhecidas do Mediterrâneo", é uma forma de descrever o sistema sumério sexagesimal, cujo uso foi difundido pelo Oriente Médio. Suas outras conclusões sobre conexões por um lado com o "Mediterrâneo oriental" e por outro com Tiahuanaco "milhares de anos antes do nascimento de Cristo" são notáveis.

Embora os desenhos nesses dois dólmenes em particular permaneçam indecifrados, eles contêm, em nossa opinião, um número de pistas importantes. O pentagonal, sem dúvida, registra algum tipo de história coerente, talvez, como ocorre com os livros pictóricos da América Central, uma história sobre emigração e sobre a rota tomada. Em seus quatro cantos, a tábua representa quatro tipos de pessoas; nisso ela poderia ser precursora de um conhecido quadro maia na capa do Codex Fejérvary que mostrava os quatro cantos da Terra e (em cores diferentes) suas diversas raças de pessoas. Como no dólmen pentagonal, a representação maia também possui um painel central geométrico.

A não ser pelo painel central, que no Brasil é pentagonal, a face do dólmen está coberta pelo que parece ser uma escrita desconhecida. Encontramos similaridades entre essa e uma escrita do Mediterrâneo oriental, conhecida como Linear A; era uma precursora da escrita na ilha de Creta e também daquela dos hititas da Anatólia (hoje Turquia).

O símbolo dominante do dólmen pentagonal é a serpente, igualmente conhecido na cultura pré-helênica de Creta e do Egito Antigo. Em termos de panteão do Oriente Médio, a serpente era o símbolo de Enki e seu clã. Sobre o dólmen oval ela é representada como uma nuvem pesada, o que traz à mente o símbolo da serpente no kudurru da Mesopotâmia, no qual está representada a Via Láctea.

Muitos dos símbolos que envolvem o painel central nesse dólmen são desenhos e símbolos (tais como a suástica) elamitas e sumérios. As imagens maiores no interior do oval são ainda mais reveladoras. Se considerarmos o símbolo central mais alto como elemento de escrita, precisamente doze símbolos são deixados. Em nosso ponto de vista, representam os doze signos do zodíaco.

Que os símbolos todos sejam idênticos àqueles que se originaram na Suméria não é incomum, já que em várias terras (como a China) o zodíaco (que significa "círculo animal") foi adaptado à fauna local. Porém, alguns dos símbolos nesse dólmen oval, como os dois peixes (Peixes), as duas imagens humanas (Gêmeos) e a mulher segurando um talo de grão (Virgem) são idênticos aos símbolos zodiacais (e de seus nomes) que se originaram na Suméria e foram adotados no Velho Mundo.

O significado das inscrições amazônicas dificilmente pode ser exagerado. Como já ressaltamos, todo o zodíaco foi uma divisão arbitrária do círculo celeste em doze grupos de estrelas; não foi o resultado de simples observação de fenômenos naturais, tais como o ciclo do dia e da noite, o aumento e diminuição da Lua, ou as mudanças ocasionais do Sol. Para encontrar o conceito e a sabedoria do zodíaco e além do mais tê-lo representado por símbolos mesopotâmicos deve ser tomado como prova de que havia alguém com a sabedoria do Oriente Médio na bacia do Amazonas.

Não menos surpreendente do que os símbolos decorativos e os signos zodiacais ao redor da face do dólmen, é a representação no centro do dólmen pentagonal. Mostra um círculo de pedras ao redor de dois monólitos, entre os quais aparece, parcialmente apagado, o desenho de uma cabeça humana, cujo olho está focalizado num dos monólitos. Tal "cabeça com o olho-que-vê" pode ser encontrada nos códices astronômicos maias, nos quais o sinal representa astrônomos-sacerdotes.

Tudo isso, mais as orientações astronômicas das três superfícies da pedra, fala da presença de alguém familiar com observações celestes.

Quem seria esse alguém? Quem poderia ter cruzado o oceano numa época daquelas? A travessia, com certeza, não poderia ter ocorrido sem ajuda. E mesmo que os que foram liderados ou transportados até as praias da América do Sul já possuíssem conhecimentos calendárico-astronômicos, ou tivessem aprendido nas novas terras, nada disso poderia ter ocorrido sem os "deuses".

Na ausência de registros escritos, os petróglifos encontrados na América do Sul são pistas preciosas do que os antigos habitantes sabiam e viam. Muitos deles têm sido encontrados no funil formado entre o Nordeste e a bacia Amazônica, ao longo do enorme rio que se inicia à distância, nos Andes, e seus incontáveis tributários. O rio principal do Vale Sagrado dos incas, o Urubamba, não passa de um afluente do rio Amazonas; assim também outros rios peruanos que fluem para o leste, de locais cujos restos indicam terem sido centros processadores metalúrgicos. Os locais conhecidos, apenas uma fração dos que aguardam descoberta, tão logo o trabalho arqueológico correto seja realizado, procurando a veracidade das histórias locais, que afirmam terem pessoas do outro lado do Atlântico chegado à costa e jornadeado pela bacia Amazônica, para obter ouro, estanho e vários outros tesouros dos Andes.

Só no país antes chamado de Guiana Inglesa, mais de uma dúzia de locais foram descobertos, em que as pedras estavam cobertas de inscrições entalhadas. Num local perto de Carakánanc, nas montanhas Pacaraima, os petróglifos representam estrelas com números diferentes de raios ou pontas (uma das "primeiras" descobertas introduzidas pelos sumérios), o crescente da Lua e do símbolo solar, e o que poderia ser um dispositivo de observação próximo a uma escada. Num lugar chamado Marlissa, uma longa extensão de rochas de granito ao longo da margem do rio está coberta com numerosos petróglifos; alguns deles adornaram a capa do jornal da Sociedade Agrícola e Comercial da Guiana Inglesa (Timehri, edição 6, de 1919). A pessoa peculiar com mãos levantadas e uma cabeça parecida com um capacete ostentando um "olho-que-vê" aparece na rocha próxima ao que lembra um grande barco. Os seres com roupas justas e ostentando halos, que aparecem várias vezes, são de proporções gigantescas: num dos casos quatro metros e em outro quase dois e meio.

No vizinho Suriname, ex-Guiana Holandesa, nas áreas das cataratas Frederik Willem IV, os petróglifos são tão numerosos que os pesquisadores julgaram necessário atribuir números aos locais, a cada grupo de petróglifos de cada lugar, e a cada sinal individual em cada grupo. Alguns deles seriam hoje vistos como representações de OVNIs e de seus ocupantes, assim como um petróglifo no local 13 das cataratas Wonotobo, onde as representações anteriores de seres altos com halos foram convertidas num mecanismo com domo, com uma escada saindo da abertura; uma pessoa poderosa está parada nessa abertura.

A mensagem enviada por tais petróglifos é que, enquanto algumas pessoas foram vistas chegando por meio de barcos, outras criaturas divinas chegaram em "discos voadores".

Pelo menos dois dos símbolos entre esses petróglifos podem ser reconhecidos como sendo das escritas do Oriente Médio, e especificamente de uma inscrição hitita na Anatólia. Uma, que parece o sinal determinante ao lado de um rosto com capacete e chifres, sem dúvida lembra o hieróglifo hitita que significa "grande". Esse sinal hieroglífico foi usado muitas vezes em inscrições hititas em combinação com o sinal para "rei, governante", para significar "grande rei”; exatamente a combinação em que foi encontrado várias vezes entre os petróglifos próximos às cataratas de Wonotobo, no Suriname.

Os petróglifos, na verdade, cobrem rochas grandes e pequenas na América do Sul; sua difusão e suas imagens contam a história do homem nessa parte do mundo, uma história que ainda precisa ser totalmente decifrada e compreendida. Por mais de cem anos os exploradores mostraram que o continente da América do Sul pode ser atravessado a pé, a cavalo, por canoas e jangadas. Uma das rotas mais importantes começa no nordeste do Brasil/Guiana/Venezuela e usa principalmente o rio Amazonas para entrar pelo norte do Peru e pelo centro; a outra começa no Brasil, em algum lugar perto de São Paulo, e progride em direção oeste pelo Mato Grosso rumo à Bolívia e ao lago Titicaca, depois para o norte pelo centro do Peru (Vale Sagrado) ou pela região costeira - os lugares onde os dois caminhos se cruzam.

Como mostram as descobertas comentadas no início deste capítulo, o homem chegou às Américas e especialmente à América do Sul dezenas de milhares de anos atrás. As imigrações, a julgar pelas evidências petroglíficas, vieram em três fases reconhecíveis. O trabalho intenso em Pedra Furada no nordeste do Brasil oferece um bom exemplo dessas fases no que está relacionado à costa atlântica.

Pedra Furada é apenas o local mais estudado na área que leva o nome da cidade mais próxima, São Raimundo Nonato; mais do que 260 sítios arqueológicos de ocupações antigas foram encontrados ali, e 240 deles contêm arte nas pedras. De acordo com a datação pré-histórica de amostras de carvão dos locais de queima, o homem vive ali desde 32.000 anos atrás. Ao longo dessa área, tais habitações parecem ter chegado a um final abrupto por volta de 12.000 anos atrás, ao mesmo tempo que ocorreu a mudança brusca do clima. É nossa opinião que essa mudança coincide com o final abrupto da última era glacial pelo Dilúvio, a Grande Inundação. A arte rupestre dessa longa época era naturalista; os artistas da época representavam o que viam ao seu redor: animais da região, árvores e outras vegetações e pessoas.

Um hiato de dois mil anos seguiu-se, até que a ocupação humana do local continuasse, quando outros grupos novos chegaram até a área. Sua arte rupestre sugeria que tinham vindo de uma terra distante, pois animais que não eram autóctones foram incluídos nas pinturas: preguiças-gigantes, cavalos e um tipo primitivo de lhama, além de (segundo relatórios dos escavadores) camelos (aos nossos olhos parecem mais girafas). Essa segunda fase durou pelo menos até 5.000 anos atrás e incluiu, ao final, a confecção de cerâmica decorada. Também estão incluídos na arte desse povo, nas palavras de Niede Guidon, que liderou as escavações, "sinais abstratos" que "parecem ligados a cerimônias ou a temas míticos" - uma religião, uma consciência dos "deuses".

É ao final dessa fase que a transição para petróglifos semelhantes aos símbolos, sinais e escrita do Oriente Próximo se manifestou, levando nessa terceira fase aos aspectos calendáricos e astronômicos das marcas nas pedras.

Esses petróglifos podem ser encontrados nas zonas de erosão e também ao longo dos dois maiores caminhos para atravessar o continente. Quanto mais eles pertencem a essa terceira fase, mais pronunciados são os símbolos celestes e conotações. Quanto mais são encontrados para o sul, seja no Brasil, seja na Bolívia, mais parecem remanescentes dos sumérios, da Mesopotâmia e da Anatólia. Alguns estudiosos, especialmente na América do Sul, interpretam vários sinais como uma espécie de escrita cuneiforme suméria. O maior petróglifo nessa zona é chamado de candelabro ou tridente, e fica de frente para quem chega do Pacífico na América do Sul, na baía de Paracas. Segundo a tradição local, é o cetro de raios de Viracocha, como é visto acima do Portal do Sol, em Tiahuanaco; nós o temos identificado como o emblema, do Oriente Médio, do "Deus da Tempestade”, o filho mais novo de Enlil, a quem os sumérios chamam de Ishkur, os babilônios e assírios de Adad e os hititas de Teshub ("O que Sopra o Vento").

Embora a presença dos sumérios, ou pelo menos sua influência, possa ser documentada de muitas formas, como fizemos em Os Reinos Perdidos, nenhuma tentativa de estudo foi feita para levar a um quadro mais compreensivo da presença hitita na América do Sul. Mostramos alguns dos sinais hititas que podem ser encontrados no Brasil, mas provavelmente muito mais existe por ser desenterrado e estudado por trás de uma coincidência como o fato de o povo das colinas da Anatólia ter sido o primeiro a introduzir o ferro no Velho Mundo, e o fato paralelo de que o nome do país, Brasil, é idêntico à palavra acadiana para ferro, Barzel - uma similaridade que Cyrus H. Gordon (Before Columbus e Riddles in History) considerava ser uma pista significativa em relação à verdadeira identidade dos primeiros americanos. Outras pistas são os tipos indo-europeus representados nos bustos encontrados no Equador e norte do Peru, e o fato de que as enigmáticas inscrições encontradas na ilha de Páscoa, no oceano Pacífico ao largo do Chile, são lidas com o sistema "de arado de boi" - começando na parte superior, da esquerda para a direita, na segunda linha da direita para a esquerda, depois outra vez em sentido contrário, e assim por diante.

Ao contrário dos sumérios, que escolheram uma planície de aluvião sem pedras para servir de material de construção, o domínio da Anatólia era todo KUR.KI, "terra montanhosa", da qual Ishkur/Adad/Teshub ficou encarregado. As estruturas e edifícios em terras andinas também eram feitas de pedra - desde os primeiros e ciclópicos trabalhos em pedra, passando pelos refinados muros do Império Antigo e pelas construções dos incas até os edifícios do presente. Quem estava lá nas terras dos Andes, versado no uso de pedras antes que a civilização inca começasse? Sugerimos que eram pedreiros da Anatólia, que bem a calhar também eram peritos mineradores - pois a Anatólia fora importante fonte de minérios metálicos na Antiguidade e foi um dos primeiros lugares a misturar estanho e cobre para fazer bronze.

Fazendo uma visita às ruínas de Hatusa, a antiga capital hitita, e a outros bastiões nas proximidades, a cerca de 250 quilômetros a nordeste de Ancara, a atual capital da Turquia, começa-se a perceber que em alguns aspectos eles representam uma imitação tosca do trabalho com as pedras nos Andes, mesmo incluindo os únicos e intricados cortes na pedra dura para criar o "motivo da escada".

É preciso ser perito em cerâmica antiga para distinguir entre alguns trabalhos em cerâmica da Anatólia e dos Andes, especialmente o tipo queimado e polido típico da Idade do Bronze. Não é necessário, porém, ser um perito para reparar na similaridade entre os estranhos guerreiros representados nos artefatos peruanos das áreas costeiras e os guerreiros pré-helênicos representados nos artefatos do Mediterrâneo oriental.

Considerando essas semelhanças, vem à mente o fato de que o berço dos antigos gregos, a Jônia, não ficava na Grécia e sim na parte ocidental da Anatólia (Ásia Menor). Os mitos e lendas dos tempos antigos, registrados em trabalhos como a Ilíada, de Homero, tratam de localizações na Anatólia. Tróia ficava lá, e não na Grécia. Assim também a famosa Sardenha, capital de Creso, rei da Lídia, famoso por seus tesouros de ouro. Talvez a crença de que algumas das viagens e trabalhos de Ulisses também o tenham trazido ao que hoje chamamos de América não seja exagerada.

É estranho que o debate sobre os Primeiros Americanos tenha sido menos apreciado, já que pouca ou nenhuma atenção foi dada ao fato de quanto conhecimento de navegação os povos antigos possuíam. Existem muitas indicações de que tinham conhecimento amplo e avançado; mais uma vez, o impossível pode ser aceito como possível apenas se os ensinamentos dos anunaques foram levados em conta.

A Lista dos Reis Sumérios descreve um antigo rei de Erech, precursor de Gilgamesh, dessa forma: "Em Eanna, Meskiagasher, filho do divino Utu, tornou-se sumo sacerdote além de rei, e reinou 324 anos. Meskiagasher foi para o mar do oeste e seguiu para as montanhas". Como tal jornada transoceânica pôde ser realizada sem nenhum tipo de recurso adicional, que ainda não existia, é algo que os acadêmicos não explicam.

Séculos mais tarde, Gilgamesh, tendo sido criado por uma deusa, saiu em busca de imortalidade. Suas aventuras precedem no tempo às de Ulisses, mas as excedem em dramaticidade. Em sua última jornada ele teve de atravessar as águas do mar da Morte, o que só foi possível com a ajuda do barqueiro Urshanabi. Assim que os dois começaram a travessia, Urshanabi acusou Gilgamesh de quebrar as "coisas de pedra" sem as quais o barqueiro não podia navegar. O antigo texto registra o lamento de Urshanabi sobre as "coisas de pedra quebradas" em três linhas que infelizmente constituem a única parte legível de toda a tábua de argila; as três começam com as palavras "eu vejo, mas não consigo..." o que sugere um instrumento de navegação. Para corrigir o problema, Urshanabi instruiu Gilgamesh a voltar à terra e cortar longos pedaços de madeira, 120 ao todo. Quando partiram, Urshanabi pediu que Gilgamesh atirasse um de cada vez, em grupos de doze. Isso foi repetido dez vezes até que todos os 120 fossem usados: "Em duas vezes sessenta, Gilgamesh tinha usado todos os varões", atingindo seu destino do outro lado do mar. Assim, um número específico de varões, arranjados conforme os pedidos, substituíram as "coisas de pedra" que não podiam mais ser usadas.

Gilgamesh foi um rei histórico da antiga Suméria; reinou em Erech (Uruk) por volta de 2.900 a.C. Séculos depois, negociantes sumérios atingiram terras distantes por rotas marítimas, exportando grãos, lã e roupas, pelas quais os sumérios se tornaram conhecidos, e importando - como Gudea confirma - metais, madeira, material de construção e pedras preciosas. Tais viagens de ida e volta não poderiam ter acontecido sem instrumentos de navegação.

A existência de instrumentos como esses na Antiguidade pode ser comprovada por um objeto encontrado na ilha Antiquitera, no mar Egeu, no começo desse século. Navegando pelo mar, de leste para oeste no Mediterrâneo entre as ilhas de Creta e Quitera, dois barcos de mergulhadores de esponjas descobriram os restos do naufrágio de um navio antigo no solo oceânico. Os artefatos do naufrágio, incluindo bronze e mármore, datavam do século IV a.C. O navio em si foi datado em alguma época antes de 200 a.C.; ânforas, recipientes contendo vinho, azeite de oliva e outros itens de alimentação foram datados de 75 a.C. Que o navio e seu conteúdo sejam de uma época anterior ao início da Era Cristã parece certo, e, dessa forma, também a conclusão de que apanhara sua carga na Ásia Menor, ou próximo à sua costa.

Os objetos e materiais recuperados do naufrágio foram levados a Atenas para exame e estudo. Entre eles estava um pedaço de bronze e peças partidas que, quando reunidas, espantaram os cientistas do museu. O "objeto" parecia um mecanismo de precisão com muitas engrenagens em vários planos dentro de uma moldura circular que por sua vez ficava no interior de um recipiente quadrado; parecia um astrolábio "com projeções esféricas e um conjunto de anéis". Depois de estudos durante décadas, incluindo investigação com raios X e análise metalúrgica, foi exposto no Museu Nacional de Arqueologia, em Atenas, na Grécia (número de catálogo X.15087). A caixa de proteção ostenta uma placa que identifica o objeto como se segue:

Este mecanismo foi encontrado no mar das ilhas Antiquitera por mergulhadores de esponja em 1.900. Era parte da carga do navio naufragado, fato que ocorreu no século I a.C. .

Este mecanismo é considerado um computador calendárico do Sol e da Lua, datado, depois das últimas provas, de 80 a.C.

Um dos estudos mais intensos sobre o assunto é o livro Gears from the Greeks, pelo professor Derek de Sola Price, da Universidade de Yale. Ele descobriu que as três seções quebradas continham engrenagens, mostradores e escalas graduadas, que por sua vez eram montadas e constituídas de pelo menos dez partes separadas. As engrenagens eram ligadas uma à outra numa base de vários diferenciais - uma sofisticação que agora encontramos nos carros - que incorporaram o ciclo do Sol e o ciclo Metônico (dezenove anos) da Lua. As engrenagens possuíam dentes pequenos e se moviam em vários eixos; marcações em partes circulares e angulares eram acompanhadas de inscrições em grego que citavam constelações zodiacais.

O instrumento, sem dúvida, era produto de alta tecnologia e sofisticado conhecimento científico. Nada que tivesse sido encontrado antes ou depois chegava perto em complexidade, apesar da idéia de Sola Price de que ele poderia ser proveniente da escola de Possidônio na ilha de Rodes - ou pelo menos consertado lá ­ segundo o modelo de dispositivos planetários usados por Arquimedes. Embora "simpatizasse com o choque que alguém poderia receber ao rever para cima a estimativa dos conhecimentos tecnológicos helenísticos", Sola Price escreveu que não poderia concordar com a "interpretação radical" de alguns segundo a qual "a complexidade do dispositivo e sua sofisticação mecânica o colocavam muito além do alcance da tecnologia helenística e que só poderia ter sido projetado e criado por astronautas alienígenas vindos do espaço e visitando nossa civilização".

Ainda assim, o fato é que nada chegou nem perto da complexidade e precisão do instrumento, em nenhum dos séculos que antecederam a época do naufrágio ou que vieram depois dela. Mesmo os astrolábios medievais, mais de um milênio depois do achado em Antiquitera, pareceriam brinquedos se comparados ao achado antigo. Além do mais, os astrolábios medievais e posteriores europeus eram feitos de latão, que é bastante maleável, enquanto o antigo era feito de bronze - um metal útil em moldes, porém extremamente difícil de se dar forma, especialmente ao se produzir um mecanismo que é mais intricado do que um cronômetro moderno.

Ainda assim, o instrumento estava lá; não importa que tipo de tecnologia e ciência foram utilizados, prova que a contagem do tempo e a navegação orientada pelos astros eram possíveis naquela época remota, num grau espantoso de sofisticação.

Parece que a relutância em admitir o inaceitável também se esconde atrás do fato de que quase nada relacionado à cartografia antiga foi apresentado no debate sobre os Primeiros Americanos - mesmo com uma oportunidade como o aniversário de 500 anos da viagem de Colombo, em 1492.

Do outro lado do mar Egeu, oposto a Atenas e às ilhas Quitera, em Istambul (antiga capital otomana e bizantina), num palácio convertido agora conhecido como Museu Topkapi, existe outro achado que revela muito sobre a antiga capacidade de navegação. É conhecido como o Mapa de Piri Re'is, citando o almirante turco que o elaborara, e ostenta o ano muçulmano equivalente a 1.513 d.C. Um dos vários mapas-múndi que sobreviveram a essa era de descobertas, ele atraiu interesse particular por vários motivos: primeiro, sua precisão e seu sofisticado método de projeção do aspecto global numa superfície plana; segundo, porque mostra claramente toda a América do Sul, com acidentes geográficos e topográficos passíveis de reconhecimento, tanto na costa do oceano Atlântico quanto na do oceano Pacífico; terceiro, porque projeta corretamente o continente antártico. Embora cartografado alguns anos depois das viagens de Colombo, o fato surpreendente é que o sul da América do Sul era desconhecido em 1513 - Pizarro velejou do Panamá ao Peru apenas em 1.530, e os espanhóis não prosseguiram ao longo da costa nem se aventuraram a explorar a cordilheira dos Andes até muitos anos depois. Ainda assim, o mapa mostra toda a América do Sul, incluindo a ponta da Patagônia. Em relação à Antártida, não apenas a forma, mas também sua existência era desconhecida até 1820 - três séculos depois do mapa de Piri Re'is. Estudos extensos desde que o mapa foi descoberto em 1929 entre os tesouros do sultão reafirmaram essas suas características.

Anotações curtas nas margens são mais bem explicadas num tratado intitulado Bahariyeh ("Sobre o Mar") que o almirante escreveu. Em relação aos acidentes geográficos como as Antilhas, ele explicou que obteve a informação dos "mapas do genovês infiel, Colombo". Repetiu também a história de como Colombo primeiro tentou convencer os importantes de Gênova e depois o rei da Espanha que, segundo um livro que ele (Colombo) possuía, "ao final do mar de Oeste (oceano Atlântico), isto é, em seu lado oeste, existem costas e ilhas e todos os tipos de metais e também pedras preciosas". Este detalhe no livro do almirante turco confirma os relatos de outras fontes de que Colombo sabia muito bem para onde estava indo antes de partir, tendo conseguido alguns mapas e dados geográficos de fontes antigas.

Na verdade, a existência de tais mapas antigos é atestada também por Piri Re'is. Numa notação posterior, que explica como o mapa foi desenhado, ele listou mapas feitos por cartógrafos árabes, mapas portugueses (que mostram os países de Hind, Sind e China), o "mapa de Colombo", assim como "cerca de vinte cartas e mapas-múndi; esses foram desenhados na época de Alexandre, Senhor dos Dois Chifres". Esse era um epíteto árabe para referir-se a Alexandre, o Grande, e a afirmação significa que Piri Re'is viu e usou mapas do século IV a.C Os acadêmicos admitem que tais mapas eram mantidos na Biblioteca de Alexandria e que alguns devem ter sobrevivido à destruição do fogo daquele grande palácio da ciência, por invasores árabes em 642 a.C Acredita-se agora que a sugestão para velejar em direção oeste no Atlântico para alcançar costas existentes foi feita primeiramente não por Colombo, mas por um astrônomo, matemático e geógrafo de Florença, na Itália, chamado Paulo del Pozzo Toscanelli, em 1474. Também é reconhecido que mapas, tal como o dos Médici de 1351 e os de Pizingi de 1367, estavam disponíveis para marinheiros e cartógrafos posteriores; o mais renomado entre eles foi Gerhard Kremer, aliás Mercator, cujo Atlas de 1569 e seus métodos de projeção se tornaram padrões da cartografia até os dias atuais.

Uma das coisas estranhas nos mapas mundiais de Mercator é que mostravam a Antártida, embora o continente coberto de gelo só fosse ser descoberto, por marinheiros russos e ingleses, 250 anos depois, em 1820!

Como aqueles que o precederam (e sucederam), Mercator usou para seu Atlas mapas anteriores, desenhados por cartógrafos do passado. Com respeito ao Velho Mundo, especialmente as terras em volta do Mediterrâneo, ele obviamente apoiou-se em mapas que remontam aos tempos em que os fenícios e cartagineses dominavam os mares, mapas desenhados por Marino de Tiro, conhecidos pelas gerações futuras por intermédio do astrônomo, matemático e geógrafo Cláudio Ptolomeu, que viveu no Egito no século II d.C. Por suas informações sobre o Novo Mundo, Mercator dependia apenas de mapas antigos e dos relatos dos exploradores desde a descoberta da América. Mas onde conseguiu os dados não apenas sobre a forma do continente americano, mas sobre sua própria existência?

Os acadêmicos concordam que a fonte provável foi um mapa mundial feito em 1531 por Orontius Finaeus. Corretamente projetando o globo terrestre ao dividi-lo nos hemisférios norte e sul, com os pólos norte e sul como epicentros, o mapa não mostra simplesmente a Antártida - um fato em si já surpreendente. Mostra o continente com aspectos geográficos e topográficos que estariam enterrados e obscurecidos por uma camada de gelo de milhares de anos!

O mapa mostra em inegável detalhe as costas, baías, enseadas, estuários e montanhas, até mesmo rios, onde nada é agora visto em virtude da calota polar que os esconde. Hoje em dia sabemos que tais aspectos existem porque foram descobertos por sondagens científicas sob o gelo, que culminaram em intensos exames por vários grupos durante o Ano Internacional Geográfico de 1958. A representação no mapa Finaeus, como ficou claro, se assemelha notavelmente com a forma verdadeira do continente antártico e seus vários acidentes geográficos.

Num dos estudos mais completos sobre o assunto, Charles H. Hapgood (Maps of the Ancient Sea Kings) concluiu que o mapa de Finaeus foi desenhado por ele baseado em cartas antigas que representavam a Antártida na época em que o continente, depois de ter se livrado de sua calota polar, começou a ser coberto pelo gelo outra vez em sua porção ocidental. Isso, concluiu o grupo de pesquisa, ocorreu por volta de seis mil anos atrás, ao redor de 4.000 a.C.

Estudos posteriores, como o de John W. Weihaupt (Eos, the Proceedings of the American Geophysical Union, agosto de 1984), corroboram as primeiras descobertas. Reconhecendo que "mesmo o mapeamento impreciso de um grande continente requer um conhecimento de navegação e geometria presumivelmente além dos conhecimentos dos navegadores primitivos", ele estava convicto, apesar de tudo, que o mapa era baseado em dados obtidos em alguma época entre 2.600 e 9.000 anos atrás. As fontes de tais dados, afirma ele, permanecem um enigma não resolvido.

Apresentando suas conclusões em Mapas dos Antigos Reis do Mar, Charles Hapgood escreve: "Torna-se claro que os antigos viajantes iam de pólo a pólo. Por mais inacreditável que possa parecer, as evidências apontam que algum povo antigo explorou a Antártida quando suas costas não estavam cobertas de gelo. Fica claro também que tinham instrumentos de navegação para determinar longitudes que eram muito superiores a qualquer coisa possuída pelos povos antigos, medievais ou de tempos modernos até a segunda metade do século 18”.

Porém esses marinheiros antigos, como mostramos, apenas seguiram os passos dos deuses.

11

Exílios numa Terra em Mudança

Os historiadores acreditam que o exílio como política de castigo penal foi introduzido pelos assírios no século VII a.C., quando eles "carregavam" reis, grupos de anciãos, oficiais da corte e às vezes até o povo, de suas próprias terras para outras, a fim de que vivessem suas vidas entre estrangeiros em lugares distantes. Na verdade, a partida forçada de alguém para o exílio foi uma forma de punição iniciada pelos deuses, e os primeiros exilados foram os próprios líderes dos anunaques. Tais partidas forçadas, primeiro de deuses, depois de pessoas, mudaram o curso da História. Deixaram também sua marca no calendário, ligadas à chegada de uma Nova Era.

Quando os espanhóis, e depois os outros europeus, perceberam quão numerosas eram as similaridades em tradições, costumes e crenças, entre nativos americanos e aqueles associados com a Bíblia e os hebreus, pensaram quê tais "índios" seriam descendentes das Dez Tribos Perdidas de Israel. Retornaram ao mistério que cercava o paradeiro do povo que pertencia às dez tribos israelitas que formavam o Reino Norte e foram forçadas ao exílio pelo rei assírio Salmanasar. Fontes bíblicas e pós-bíblicas acreditavam que, embora dispersos, os exilados tinham mantido sua fé e costumes para que fossem contados entre os que seriam redimidos e devolvidos à terra natal. Desde a Idade Média, viajantes e sábios afirmaram ter encontrado as Dez Tribos Perdidas em lugares tão remotos como a China, ou tão próximos como a Irlanda e a Escócia. No século XVI, os espanhóis estavam seguros de que tais exílios tinham sido responsáveis por levar a civilização para as Américas.

O exílio das dez tribos pelos assírios no século VIII a.C. e depois das duas tribos restantes pelos babilônios dois séculos mais tarde é fato histórico, enquanto a "Conexão das Dez Tribos" com o Novo Mundo permanece no reino das lendas intrigantes. Sem saber, os espanhóis estavam certos em atribuir o início de uma civilização formal, com seu próprio calendário nas Américas, a um exílio - só que não de um povo, mas um exílio divino.

Os povos da América Central - maias, astecas, toltecas, olmecas e outras tribos menos conhecidas - possuíam três calendários. Dois eram cíclicos, medindo os ciclos do Sol, da Lua e de Vênus. O outro era cronológico, medindo a passagem do tempo de um determinado ponto de início, o "Ponto Zero". Os estudiosos estabeleceram que o ponto inicial dessa Contagem Longa estava no ano que corresponderia ao ano 3.113 a.C. no calendário ocidental, mas eles não sabem o que significa esse ponto inicial.

Em Os Reinos Perdidos, sugerimos que esse ponto marcava a data de chegada de Thot à América, acompanhado por um pequeno grupo de ajudantes e seguidores.

Levantamos a hipótese de que Quetzalcoátl, o Grande Deus dos habitantes da América Central, não fosse outro senão Thot. Seu epíteto, a Serpente Alada ou Emplumada, era conhecido na iconografia egípcia. Quetzalcoátl, assim como Thot, era o deus que conhecia e ensinava os segredos da construção de templos, dos números, da astronomia e do calendário. De fato, os outros dois calendários americanos em si fornecem pistas para uma conexão egípcia, e para identificar Quetzalcoátl com Thot.

Os dois sem dúvida revelaram o trabalho de "alguém" familiarizado com os antigos calendários do Oriente Médio.

O primeiro dos dois era Haab, um calendário de ano solar com 365 dias, dividido em 18 meses de 20 dias, mais um adicional de cinco dias especiais ao final do ano. Embora essa divisão de 18 x 20 seja diferente do Oriente Médio, com uma de 12 x 30, esse calendário era uma adaptação do calendário egípcio de 360 + 5. Puramente solar, como já vimos, ele foi o preferido por Rá/ Marduk; a mudança de sua subdivisão pode ter sido um ato deliberado de Thot para torná-lo diferente do que seu rival utilizava.

Esse calendário puramente solar não tinha espaços para a intercalação - um dispositivo que, na Mesopotâmia, era expresso pela adição de um décimo terceiro mês a cada número determinado de anos. Na América Central, esse número, 13, figurava no calendário seguinte.

Como no Egito, que possuía tanto um calendário secular (puramente do ano solar) quanto um sagrado, assim era o segundo calendário meso-americano, aquele do Ano Sagrado, chamado Tzolkin. Nele, a divisão de 20 também desempenhava um papel, porém era contada num ciclo que girava 13 vezes - o número inserido no calendário Haab. Esse resultado de 13 x 20 totalizava apenas 260 dias. O que tal número representava, ou como o fazia, é algo que gerou muitas teorias, mas nenhuma solução correta. O que é significativo, calendárica e historicamente, é que esses calendários de dois ciclos funcionavam juntos, como uma engrenagem em que os dentes se encaixam em outra, para criar o Ciclo Sagrado de 52 anos solares; a combinação de 13, 20 e 365 não se repetia a não ser em 18.980 dias, o que significa 52 anos.

Esse grande ciclo de 52 anos era sagrado para todos os povos da América, que o relacionavam a eventos passados e futuros. Ele está no centro dos assuntos relacionados com a grande divindade americana, Quetzalcoátl ("A Serpente Emplumada"), que, tendo chegado àquelas terras, vinda do outro lado do mar, foi forçada pelo Deus da Guerra a se exilar, mas ficou de voltar no ano "1 Junco" do ciclo sagrado de 52. No calendário cristão, os anos paralelos seriam 1.363, 1.415, 1.467 e 1.519 a.C.; esse último foi o mesmo ano em que Hernán Cortés apareceu na costa mexicana, com a pele clara e barbado como Quetzalcoátl; por isso a chegada dele foi vista como um cumprimento da profecia do Deus que Retorna.

A centralidade do número 52 é um marco das expectativas religiosas e messiânicas, apontando uma similaridade-chave entre Quetzalcoátl e seu Calendário Sagrado e o calendário de 52 de Thot. O Jogo do Cinqüenta e Dois era o jogo de Thot, e a história de Satni, relatada anteriormente, afirma claramente que o "cinqüenta e dois era o número mágico de Thot". Já explicamos o significado, em termos da rivalidade entre Thot e Rá/Marduk, do calendário egípcio de 52 semanas. O "52" da América Central tinha a marca de Thot por todos os lados.

Outra marca registrada de Thot era a aplicação de um desenho circular aos edifícios relativos a observações calendáricas dos céus. Os zigurates da Mesopotâmia eram quadrados, seus cantos alinhados com os pontos cardeais. Os templos do Oriente Médio - no Egito, na Mesopotâmia, em Canaã, e até os israelitas - eram estruturas retangulares cujo eixo era orientado ou para os equinócios ou para os solstícios (um aspecto ainda encontrado nas igrejas e templos atuais). Apenas no edifício único que Thot ajudou a construir em Lagash foi adotada a forma circular. Sua única imitação no Oriente Médio era o templo dedicado a Hathor (Ninharsag) em Dendera; e em Stonehenge, próximo de onde o Velho Mundo avista o Novo Mundo do outro lado do oceano Atlântico.

No Novo Mundo, nos domínios de Adad, o filho mais novo de Enlil e divindade-chefe dos hititas, a forma retangular costumeira e a orientação dos templos mesopotâmicos predominaram. O maior e mais antigo deles com funções astronômicas e calendáricas, o Kalasasaya em Tiahuanaco, era retangular e construído num eixo leste-oeste, portanto nada diferente do templo de Salomão. Na verdade, nos perguntamos se quando o Senhor levou o profeta Ezequiel pelos ares, para mostrar o projeto do templo futuro em Jerusalém, ele não o levou voando para Tiahuanaco para ver o Kalasasaya, como podem sugerir os detalhes arquitetônicos bíblicos.

Outro templo importante ao sul dos Andes, um ponto focal de peregrinação sagrada, foi aquele dedicado ao Grande Criador, no alto de um promontório voltado para o Pacífico infinito (não muito ao sul de onde se localiza Lima, hoje em dia). Também tinha a forma retangular.

A julgar pelos projetos dessas estruturas, Thot não foi convidado a colaborar na construção. Porém, conforme acreditamos, ele foi o Arquiteto Divino dos observatórios circulares, e certamente estava presente no Vale Sagrado. Suas marcas registradas entre as estruturas da Era Megalítica foram o Observatório Redondo no alto do promontório Sacsahuamán, a parede semicircular do Santo dos Santos em Cuzco e a Torre em Machu Picchu.

O reino verdadeiro de Quetzalcoátl/Thot era a Meso-América e América Central, a terra das tribos que falavam náuatle e maia; porém sua influência estendeu-se para o sul, penetrando a parte norte da América do Sul. Petróglifos encontrados próximos a Cajamarca ao norte do Peru, que representam o Sol, a Lua, estrelas de cinco pontas e outros símbolos celestes, mostram repetidamente próximos a eles o símbolo da serpente - o inegável emblema de Enki e seu clã, e especificamente da divindade conhecida como a "Serpente Emplumada". Os petróglifos também incluem representações de dispositivos para observação astronômica, um deles sustentado por uma pessoa (sacerdote?), como era costume no antigo Oriente Médio, e o outro com os chifres curvos, como se fossem os dispositivos de visão encontrados no Egito, no templo de Min.

O local parece estar onde as rotas antigas do ouro nos Andes, a do Pacífico e a da costa Atlântica, se encontram quando a última segue os rios. A própria Cajamarca, para o interior, e o porto natural em Trujillo, na costa do Pacífico, desempenharam um papel histórico na conquista européia do Peru. Foi lá, em Trujillo, que Francisco Pizarro e seu pequeno bando de soldados aportaram em 1530. Desembarcaram e estabeleceram sua base em Cajamarca, uma cidade "cuja plaza era maior do que qualquer uma, na Espanha" e cujos "prédios tinham três vezes a altura de um homem"; segundo relatórios dos conquistadores. Foi para Cajamarca que o último imperador inca, Atahualpa, foi atraído, apenas para ser aprisionado por um resgate em ouro e prata. Tal resgate era o preenchimento de uma sala de oito metros por cinco, tão alto quanto um homem pudesse alcançar, com esses metais preciosos. Os ministros e sacerdotes do rei ordenaram que objetos feitos de ouro e prata fossem trazidos de todo o reino; S. K. Lothrop (Inca Treasure as Depicted by Spanish Historians) calculou que os espanhóis mandaram para a Espanha pelo resgate uma quantidade de 6.000 quilos de ouro e o dobro de prata (tendo recebido o resgate, os espanhóis executaram Atahualpa).

Mais para o norte, na Colômbia, num local à margem do rio Magdalena, os petróglifos sem dúvida registram encontros hititas e egípcios ao incluir hieróglifos hititas (tais como "ouro" e "rei") ao longo de uma variedade de símbolos egípcios; cartuchos (molduras arredondadas utilizadas para destacar nomes reais), o hieróglifo para "esplendor" (um círculo com um ponto no meio como o Sol se pondo com raios dourados), e o Machado de Min em "lua dupla".

Caminhando para o norte, o símbolo egípcio por excelência, o desenho de uma pirâmide é encontrado entre "pichações" na área de sepulcros em Holmul, na Guatemala, identificando, portanto, os primeiros habitantes como familiares com o Egito. Também representada está uma torre de estágios circulares, sua planta. Possui a aparência de um observatório circular, parecido ao que existira no promontório de Sacsahuamán, para o sul.

Por incrível que pareça, referências aos petróglifos com símbolos astronômicos são feitas em escrita antiga do Oriente Médio. O Livro dos Jubileus, ampliando as concisas narrativas bíblicas e acrescentando detalhes, registra a geração que se seguiu ao Dilúvio, descrevendo como Noé instruiu seus descendentes ao contar para eles a história de Enoch e a sabedoria que ele conseguiu. A narrativa continua:

No vigésimo nono jubileu, na primeira semana, no começo, portanto, Arpachshad tomou para si uma esposa e seu nome era Rasu'eja, a filha de Sushan, filha de Elam, e ela lhe deu um filho no terceiro ano naquela semana, e o chamaram de Kainam.

E o filho cresceu, e seu pai o ensinou a escrever, e ele foi procurar um lugar que pudesse ocupar para construir uma cidade para si.

E encontrou escritos que gerações anteriores haviam deixado na pedra, e leu o que estava ali, e o transcreveu e pecou como resultado disso; pois continham os ensinamentos dos Guardiões em concordância com o que costumavam observar nos presságios do sol, da lua e das estrelas em todos os signos dos céus.

Os petróglifos, conforme aprendemos nesse texto de um milênio, não eram simplesmente desenhos; eram a expressão da sabedoria dos "ensinamentos dos Guardiões" - os anunaques ­"de acordo com o que costumavam observar nos presságios do sol, da lua e das estrelas"; os petróglifos eram os "sinais dos céus” de "gerações anteriores".

As representações nas rochas que mostramos incluem observatórios circulares e relatos de testemunhos sobre o que sabiam e tinham visto na Antiguidade nas Américas.

De fato, no coração do domínio de Quetzalcoátl, no México, onde os petróglifos evoluíram para hieróglifos semelhantes aos egípcios, os traços mais óbvios de sua presença eram templos alinhados astronomicamente, incluindo circulares e semicirculares, além de observatórios arredondados. Tais rumas iniciam­-se com dois montes perfeitos que faziam a mira astronômica em La Venta, um dos mais antigos locais dos olmecas - seguidores africanos de Thot que chegaram ao México atravessando o Atlântico por volta de 2.500 a.C. No outro extremo dos quatro milênios que se passaram até a conquista dos espanhóis, a última palavra em observatório arredondado era a pirâmide semicircular no território sagrado dos astecas em Tenochtitlán (mais tarde Cidade do México). Era posicionada de tal maneira que servia para determinar o dia do equinócio, observando da arredondada "torre de Quetzalcoátl" o nascer do Sol precisamente entre as torres da Pirâmide dos Dois Templos.

Cronologicamente, entre os antigos olmecas e os modernos astecas, havia as incontáveis pirâmides e observatórios sagrados dos maias. Alguns deles, como o de Cuicuilco, eram perfeitamente redondos. Outros, como o de Cempoala, começaram, de acordo com os arqueólogos, como estruturas arredondadas puras, mas mudaram de forma à medida que a pequena escada original que levava aos estágios mais altos evoluía para várias escadarias monumentais e plazas. A mais famosa dessas estruturas é o Caracol em Chichén Itzá, na península do Yucatán - um observatório circular, cujas funções astronômicas e orientações têm sido estudadas de forma exaustiva e firmemente estabelecida. Embora a estrutura que vemos hoje em dia seja datada de aproximadamente 800 d.C. é sabido que os maias tomaram Chichén Itzá dos colonizadores anteriores, erigindo estruturas maias onde havia as mais antigas. Um observatório original, na concepção dos estudiosos, deve ter estado no local em épocas anteriores, construído e reformado, assim como os maias fizeram com as pirâmides.

As linhas de mira na estrutura mais antiga foram pesquisadas exaustivamente, e sem dúvida incluem os pontos principais do Sol - equinócios e solstícios, assim como alguns pontos importantes da Lua. Alinhamentos com várias estrelas são sugeridos, embora não com Vênus; isso é estranho, pois nos códices maias os movimentos de Vênus são o assunto principal. É um dos motivos para acreditar que as miras não foram construídas por astrônomos maias, mas herdadas de outras eras.

O plano do solo no Caracol - uma torre redonda numa área cercada em quadrado como parte de um terreno grande e retangular, e as aberturas na própria torre - lembra a forma e o projeto (agora visto apenas pelas fundações) do observatório circular com a área quadrada no interior de um complexo retangular em Sacsahuamán sobre Cuzco. Existe dúvida de que ambos foram desenhados pelo mesmo Arquiteto Divino? Em nossa opinião, esse arquiteto foi Thot.

Para suas observações, os astrônomos maias utilizaram dispositivos de visão, muitas vezes representados nos códices, e as semelhanças com os instrumentos do Oriente Médio, postos de observação e outros símbolos são numerosos demais para serem apenas coincidência. Em todos os casos, os postos de observação são virtualmente idênticos aos que ficavam no alto das torres na Mesopotâmia; o símbolo da "escadaria" que evoluiu deles, o símbolo sempre presente no observatório em Tiahuanaco, é claramente visto nos códices maias. Um deles, no Codex Bodley, indica que os dois astrônomos-sacerdotes estão observando o Sol que se ergue entre duas montanhas; essa é a forma como os textos egípcios em hieróglifos representam a idéia e a palavra "horizonte"; e não pode ser por acaso que as duas montanhas no códice maia se parecem com as duas pirâmides em Gizé.

As ligações com o antigo Oriente Médio em geral, e com o Egito em particular, evidenciadas por glifos e ruínas arqueológicas, são aumentadas pelas lendas.

O Popol Vuh, o "Livro do Conselho" dos maias das terras altas, contém um relato de como o céu e a Terra foram formados, como a Terra foi dividida em quatro regiões e repartida, e como a corda de medida foi trazida e esticada no céu e sobre a Terra, criando os quatro cantos. Existem todos os elementos básicos para a cosmogonia e as ciências do Oriente Médio, lembranças de como a Terra foi dividida entre os anunaques, e as funções dos Medidores Divinos. Tanto as tradições dos náuatles como as dos maias, na forma de lendas como a de Votan, recontam a chegada dos "Pais e Mães", os ancestrais tribais, de além-mar. Os Anais de Cakchiquels, um registro dos náuatles, afirma que enquanto eles mesmos vieram do oeste, existiram outros que vieram do leste, nos dois casos "do outro lado do mar". A Lenda de Votan, que construiu a primeira cidade, o berço da civilização meso-americana foi escrita por cronistas espanhóis a partir de tradições orais maias. O emblema de Votan, registraram eles, era a serpente; "ele era um descendente dos Guardiões, da raça de Can". "Guardiões" refere-se ao significado do termo egípcio Neteru (deuses). Can, segundo revelaram estudos feitos por Zelia Nuttal (Papers of the Peabody Museum), era uma variante de Canaã, que (segundo a Bíblia) fazia parte dos povos hamíticos na África e era uma na­ção-irmã do Egito.

A possibilidade, que já mencionamos, de que os mais antigos emigrantes possam ter sido descendentes de Caim, relaciona o início dos náuatles a uma das primeiras deportações registradas: o exílio de Caim como castigo pelo assassinato de Abel. A primeira, segundo a Bíblia, foi a expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden. Em nossos tempos o exílio de reis é uma ocorrência conhecida; o exílio de Napoleão para a ilha de Santa Helena é um exemplo famoso. Registros bíblicos mostram que essa modalidade de punição remonta às origens do tempo, quando a humanidade era mantida num certo código de ética pelos "deuses". Segundo os escritos mais antigos e detalhados dos sumérios, eram, de fato, os próprios deuses que aplicavam os castigos aos pecadores; e o primeiro deles registrado é em relação ao seu comandante-chefe, Enlil: ele foi exilado para uma terra de banimento pelo crime de estupro de uma jovem enfermeira anunaque (ao final, ele casou-se com ela e obteve perdão).

Fica claro pelas lendas maias e náuatles que Quetzalcoátl (Kukulkan no folclore maia) chegara à sua terra com um pequeno bando de seguidores, e que essa partida fora forçada - um exílio imposto pelo Deus da Guerra. Acreditamos que essa chegada foi também o resultado de uma partida forçada, um exílio de sua terra nativa, o Egito. A data desse evento é um componente vital da contagem de tempo mesopotâmica.

Já discutimos a centralidade do Ciclo Sagrado de 52 anos no calendário meso-americano, na religião e nos assuntos históricos, e demonstramos que se referia ao número sagrado de Thot. Em seguida, em termos de significado, vinha o Grande Círculo de "anos perfeitos", que incluíam treze eras de baktuns, unidades de quatrocentos anos, que se constituíam em elemento-chave no calendário consecutivo conhecido como a Contagem Longa.

A menor unidade no calendário de Contagem Longa era o kin, um único dia, e foi construída para números grandes, que poderiam chegar a milhões de dias por séries de multiplicações, por 20 e por 360.

1kin = 1 dia

1 uinal = 1 kin x 20 = 20 dias

1 tun = 1 kin x 360 = 360 dias

1 ka-tun = 1 tun x 20 = 7.200 dias

1 bak-tun = 1 ka-tun x 20 = 144.000 dias

Como exercício puramente aritmético, as multiplicações por vinte poderiam continuar, aumentando o número de dias que cada termo e seu glifo específico representavam, chegando a 2.880.000 e 57.600.000, e assim por diante. Porém, na prática, os maias não passavam do baktun; pois a contagem que se iniciava no enigmático ponto em 3.113 a.C. devia correr em ciclos de treze baktuns. Os modernos acadêmicos dividem o número de dias que a Contagem Longa indica nos monumentos maias não pelo número perfeito 360, mas sim pelos 365,25 dias do ano solar; assim, um monumento afirmando "1.243.615" dias é lido como a passagem de 3.404,8 anos desde agosto de 3.113 a.C., no caso, 292 d.C.

O conceito de eras na história da Terra e da pré-história era uma crença básica das civilizações pré-colombianas da Meso-América. Segundo os astecas, sua Era ou "Sol" era a quinta e "começou 5.042 anos atrás". Embora as fontes náuatles não sejam específicas sobre quanto ainda deveria durar essa era, fontes maias forneceram uma resposta mais precisa por meio da Contagem Longa. O atual "Sol", dizem eles, irá durar precisamente treze baktuns – 1.872.000 dias do Ponto Zero. Isso representa um Grande Ciclo de 5.200 "anos perfeitos" de 360 dias cada.

Em O Fator Maia, José Argüelles conclui que cada era de um baktun agiu como um marco na história e pré-história da América Central, assim como irá acontecer com o ano 2.012 d.C., no qual os treze baktuns que se iniciaram em 3.113 a.C. se completarão. Ele acredita que o número 5.200 é uma chave para compreender a cosmogonia maia e as eras do passado e do futuro.

Nos anos 30, Fritz Buck (El Calendario Maya en La Cultura de Tiahuanacu), percebendo elementos comparáveis entre o calendário maia e o de Tiahuanaco, considerou a data de início e outros marcadores de períodos para relacionar com os eventos que afetaram os povos americanos. Ele acreditava que um símbolo-­chave no calendário no Portão do Sol era 52, e outro, 520, e aceitava como historicamente significativo o número de 5.200 anos; por outro lado, mantinha a idéia de que não era um, mas dois os Grandes Ciclos a serem considerados, e que como 9.360 recaía no segundo Grande Ciclo, o primeiro iniciara-se em 9.360 a.C. Foi então, afirma ele, que os eventos lendários e as histórias dos deuses nos Andes começaram. O segundo Grande Ciclo iniciava-se em Tiahuanaco, em 4160 a.C.

Para chegar ao ano de 2.012 como final do Quinto Sol, José Argüelles seguiu o costume atual dos cientistas de dividir os 1.872.000 dias pelo número real de 365,25 do ano solar, resultando na passagem de apenas 5.125 anos desde o ponto inicial, em 3.113 a.C. Fritz Buck, por outro lado, não viu necessidade de fazer tal ajuste, acreditando que a divisão deveria seguir o "ano perfeito" dos maias, 360. Segundo Buck, a era histórica que os astecas e os maias viveram deveria durar 5.200 anos.

Esse número, como 52, está ligado a Thot, segundo fontes do Egito Antigo. Entre elas estavam os escritos de um sacerdote egípcio que os gregos chamavam de Maneto (seu nome hieroglífico significava "Presente de Thot"). Ele registrou a divisão de monarquias em dinastias, incluindo as divinas e semidivinas que precederam as faraônicas; forneceu também a duração do reinado de todos eles.

Lendas e histórias dos deuses, de outras fontes, confirmam a lista de Maneto, que afirma que os sete grandes deuses - Ptah, Rá, Shu, Geb, Osíris e Hórus - reinaram por um total de 12.300 anos. Então iniciou-se uma segunda dinastia divina, liderada por Thot; durou 1.570 anos. Foi seguida por trinta semideuses que reinaram 3.650 anos. Uma época caótica seguiu-se, um período de 350 anos em que o Egito permaneceu desunido e em desordem. Depois disso, uma pessoa chamada Mên estabeleceu a primeira dinastia faraônica. Os acadêmicos acreditam que isso aconteceu por volta de 3.100 a.C.

Temos sustentado que a data verdadeira foi 3.113 a.C., o ponto inicial da Contagem Longa meso-americana. Foi então, acreditamos, que Marduk/Rá, reclamando supremacia sobre o Egito, expulsou Thot e seus seguidores da terra, forçando-os a procurar o exílio em outra terra, distante. E se o reinado de Thot (1.570 anos) e o de seus semideuses indicados (3.650 anos) for somado, o resultado é 5.220 anos - uma mera discrepância de 20 anos dos 5.200 anos perfeitos que perfazem o Grande Ciclo maia de treze baktuns.

Assim como o 52, 5.200 também era um "número de Thot".

Nos dias antigos, quando os anunaques eram os Senhores, o banimento e exílio de deuses deixaram marcos no que chamamos de Crônicas da Terra. Muito dessa parte da história diz respeito a Marduk, aliás Rá no Egito; e o calendário - a contagem do Tempo Divino, Celestial e Terrestre - desempenhou um papel muito importante nesses eventos.

O reinado de Thot e sua dinastia de semideuses, terminando por volta de 3.450 a.C., foram seguidos no Egito, de acordo com Maneto, por um período caótico que durou 350 anos, e logo depois se iniciava um período de governo dos faraós fiéis a Rá.

Segmentos do capítulo 175 do Livro dos Mortos (conhecido como Papiros de Ani) registram um diálogo irritado entre Thot e Rá, que reapareceu. "Ó Thot, o que aconteceu?", quis saber Rá. "Os deuses fizeram um alarido, eles escolheram brigar, fizeram coisas más, criaram a rebelião." Devem ter diminuído Rá/Marduk no curso dessa rebelião: "Transformaram o grande em pequeno".

Rá, o Grande Deus, apontou um dedo acusador para Thot; a acusação se referia diretamente às mudanças no calendário: Rá acusou Thot, dizendo que "os anos estão mais curtos, os meses se curvaram". Thot fizera isso com a "destruição de Coisas Escondidas que tinham sido feitas para eles".

Embora a natureza dessas coisas escondidas cuja destruição encurtou os anos e os meses permaneça desconhecida, o desfecho só poderia ser uma mudança do ano solar mais longo para o ano lunar, menor - "transformação do grande em pequeno". O texto termina com a aceitação de Thot de uma sentença de exílio e banimento: "Vou partir para o deserto, a terra silenciosa". É um lugar tão desolado, explica o texto, que "os prazeres sexuais não são desfrutados ali".

Outro texto pouco compreendido, encontrado no santuário de Tutancâmon, assim como nas tumbas de reis em Tebas, pode ter registrado a ordem de expulsão por Rá/Marduk, dando como um dos motivos o conflito de calendários entre o "deus-Sol" e o "deus-Lua" (Thot). O texto, que os estudiosos estão certos de haver se originado numa época bem anterior, conta como Rá ordenou que Thot se apresentasse a ele. Quando Thot veio, Rá anunciou: "Contemple a mim, estou no céu, em meu lugar certo". Prosseguindo a acusação contra Thot e "aqueles que fizeram atos de rebelião contra mim", Rá disse: "Você circulou os dois céus com seus raios brilhantes; quer dizer, Thot, como a Lua circulou". E ele disse a Thot: "Devo, portanto, mandá-lo para o outro lado, para o lugar chamado Hau-nebut". Alguns acadêmicos intitularam o texto de "A designação de funções a Thot". Na verdade, era a "designação" a Thot para uma terra distante e não identificada por causa de suas "funções" - preferências calendáricas - relativas à Lua.

O exílio de Thot foi tratado na Meso-américa como o Ponto Zero do Calendário Longo - segundo a cronologia aceita, era o ano de 3.113 a.C. Deve ter sido um evento cuja repercussão foi sentida a distância e amplamente, pois não pode ser mera coincidência o fato de que, segundo a tradição hindu (que também divide a história e a pré-história da Terra em eras), a era atual, a Kali-iuga, tenha começado num dia equivalente à meia-noite do dia 17 para 18 de fevereiro, em 3.102 a.C. Essa data é estranhamente próxima à data do Ponto Zero da Contagem Longa meso-americana, e, portanto, de alguma forma está ligada ao exílio de Thot.

Mas logo depois de Marduk/Rá ter forçado Thot a deixar seus domínios africanos, ele mesmo se tornou vítima de uma pena similar: o exílio.

Com Thot fora do caminho e com seus irmãos Nergal e Gibil distantes do centro de poder egípcio, Rá/Marduk poderia ter esperado uma supremacia sem perturbações. Porém um novo rival emergiu na cena. Era Dumuzi, o filho mais jovem de Enki, e seus domínios eram os campos ao sul do Alto Egito. Inesperadamente, ele surge como pretendente ao trono do Egito; como Marduk logo irá descobrir, suas ambições foram aumentadas por um caso de amor que Marduk desaprovava fortemente. Precedendo em alguns milênios a ambientação e os papéis principais de Romeu e Julieta, de Shakespeare, a noiva de Dumuzi não era outra senão Inana/Ishtar, uma neta de Enlil, que lutara ao lado do irmão e dos tios para defender os enkiitas nas Guerras das Pirâmides.

Demonstrando ambição ilimitada, Inana viu no casamento com Dumuzi um grande papel para ela mesma - simplesmente se ele parasse de ser o pastor (como era seu epíteto) e passasse a ser o senhor da grande nação egípcia: "Tive uma visão em que uma grande nação escolhia Dumuzi como Deus de seu país, pois tornei o nome de Dumuzi exaltado, dei uma posição a ele", confidenciou ela mais tarde.

Opondo-se à traição e enraivecido pelas ambições, Marduk mandou seus "delegados" para prender Dumuzi. De alguma forma a prisão deu errado; Dumuzi, tentando esconder-se em seus rebanhos, foi encontrado morto.

Inana elevou "o mais amargo pranto" e buscou vingança. Marduk, sentindo sua ira, escondeu-se no interior da Grande Pirâmide, o tempo todo proclamando sua inocência porque a morte de Dumuzi não fora intencional, e sim acidental. Sem descansar, Inana "não parou de atacar" a pirâmide, "nos cantos, e mesmo na profusão de pedras". Marduk avisou que teria de recorrer a armas "cuja fúria é terrível". Temendo outra guerra, os anunaques convocaram a corte suprema dos Sete que Julgam. Foi decidido que Marduk deveria ser punido, mas, como não matara Dumuzi diretamente, não poderia ser sentenciado à morte. O veredicto foi, portanto, enterrar Marduk vivo na Grande Pirâmide em cujo interior ele se refugiara, selando-a hermeticamente com ele dentro.

Vários textos, citados por nós em As Guerras de Deuses e Homens, relatam os eventos seguintes, a comutação da sentença sobre Marduk e o esforço dramático para cortar através da sólida pirâmide, usando a planta original para chegar até Marduk a tempo. O salvamento passo a passo é descrito em detalhes. A conclusão do incidente: Marduk foi sentenciado ao exílio, e, no Egito, Rá se tomou Amen, o Oculto, um deus que não mais seria visto.

Inana, que, com a morte de Dumuzi, perdera a chance de realizar sua ambição de ser Senhora do Egito, recebeu Erech para ser seu "centro de culto", e o domínio de Arata para se tornar a terceira região de civilização - aquela do vale do Indo - por volta de 2.900 a.C.

Onde estava Thot nos séculos que se seguiram, com aquele que o enviara para o exílio também exilado? Aparentemente em terras distantes - guiando a construção do primeiro Stonehenge nas ilhas Britânicas por volta de 2.800 a.C., e ajudando a orientar astronomicamente as estruturas megalíticas nos Andes. Onde estava Marduk durante esse período? Não sabemos na verdade, mas ele não devia estar longe, pois observava o desenrolar dos acontecimentos no Oriente Médio, continuando seu plano para conseguir supremacia na Terra - supremacia, segundo acreditava, negada a seu pai, Enki.

Na Mesopotâmia, Inana, impiedosa e ardilosa, manobrava o reinado na Suméria, passando-o às mãos de um jardineiro que era um homem ao seu gosto. Ela o chamou de Sharru-kin, "líder justo", e ele se tornou conhecido de nós pelo nome de Sargão I.

Com a ajuda de Inana, ele expandiu seus domínios e criou uma nova capital para uma Suméria maior, que seria conhecida como Suméria e Acádia. Mas procurando legitimidade, ela foi até a Babilônia - a cidade de Marduk - e removeu de lá uma porção do solo consagrado para usar na fundação de sua nova capital. Aquela era a oportunidade que Marduk aguardava. "Por causa do sacrilégio cometido", narram os textos babilônicos, "o grande Senhor Marduk ficou enraivecido" e destruiu Sargão e seu povo; e, de fato, reinstalou-se na Babilônia. Lá começou a fortificar a cidade e melhorar seu sistema de águas subterrâneo, tornando-a inexpugnável a um ataque.

Como o texto antigo revela, tudo estava relacionado ao Tempo Celeste.

Preocupados com a possibilidade de uma nova guerra dos deuses, os anunaques se reuniram em conselho. O chefe dos antagonistas era Ninurta, o herdeiro aparente de Enlil, cujo direito de nascimento Marduk desafiava diretamente. Convidaram Nergal, um poderoso irmão de Marduk, para unir-se a eles e mediar uma solução pacífica para o conflito. Misturando elogios e persuasão, Nergal primeiro acalmou Ninurta, depois concordou em ir para a Babilônia, e da mesma forma persuadir Marduk a recuar de um confronto aberto. A corrente de acontecimentos, com reviravoltas dramáticas e aleatórias, mais suas conseqüências, é descrita no Erra Epos (sendo Erra um epíteto de Nergal). Inclui muitos diálogos entre os participantes, como se um estenógrafo estivesse presente; realmente, o texto (conforme atesta o pós-escrito) foi ditado a um escriba depois dos eventos por um dos participantes anunaques.

À medida que a história se desenrola, torna-se cada vez mais claro que os acontecimentos na Terra estavam relacionados aos celestes - às constelações do zodíaco. Resumindo: as afirmações e posições assumidas pelos contendores pela supremacia na Terra - Marduk, o filho de Enki, e Ninurta, o filho de Enlil ­levavam à única conclusão de que a questão era a chegada de uma Nova Era: a mudança iminente da casa zodiacal de Touro para a do Carneiro (Áries), como ocorreria no equinócio de primavera, no momento calendárico do Ano Novo.

Listando todos os seus atributos e desdobramentos, Ninurta afirmou:

No céu sou um touro selvagem,

Na terra sou um leão.

Na terra sou o senhor, entre os deuses, sou o mais feroz.

O herói dos Igigi eu sou, entre os anunaques sou poderoso.

A afirmação descreve o que as representações ilustraram pictoricamente: a era zodiacal quando o equinócio de primavera começou na casa de Touro e o solstício de verão ocorreu no zodíaco do Leão pertenceu aos enlilitas, cujos "animais de culto" eram o touro e o leão.

Cuidadosamente, escolhendo as palavras, Nergal formulou sua resposta a Ninurta. Sim, concordou ele, é verdade, mas:

No alto da montanha,

Nos arbustos fechados,

Você não vê o Carneiro?

Seu aparecimento, continuou Nergal, é inevitável:

Naquela floresta,

Mesmo o melhor medidor de tempo,

O portador dos padrões,

O curso não pode mudar.

Pode-se soprar como o vento,

Rugir como a tempestade (e ainda)

À orla da órbita do Sol,

Não importa qual a luta,

Vê-se aquele Carneiro.

Em seu implacável retardamento precessional, enquanto a constelação do Touro ainda dominava, "à orla da órbita do Sol" já se podia ver a aproximação da Era de Áries, o Carneiro.

Porém, embora a mudança fosse inevitável, a hora ainda não chegara. "Os outros deuses estão com medo da batalha", concluiu Nergal. Tudo podia ser explicado para Marduk, ele acreditava. "Deixe que eu vá e convoque o príncipe Marduk para sair de seus domínios, pacificamente", sugeriu Nergal.

Assim, com o consentimento relutante de Ninurta, Nergal enviou uma missão para a Babilônia. No caminho ele parou em Erech, buscando o oráculo de Anu, no templo que ali existia, o E.AN.NA. A mensagem que ele levava para Marduk do "rei de todos os deuses" era esta: a Hora ainda não chegou.

A Hora em questão, como a conversa-debate entre Nergal e Marduk torna claro, era a iminente mudança zodiacal - a chegada de uma Nova Era. Marduk recebeu seu irmão no E.SAG.IL, o templo-zigurate da Babilônia; o encontro teve lugar numa câmara sagrada chamada SHU.AN.NA, "O Supremo Palácio Celestial", que evidentemente Marduk considerava o local mais adequado para a discussão; pois ele estava certo de que sua hora chegara, e até mostrou a Nergal os instrumentos que usara para provar isso. (Um artista babilônio, representando o encontro entre os dois irmãos, mostrou Nergal com sua arma identificadora, e um Marduk de capacete em pé no topo de seu zigurate e segurando um dispositivo - muito parecido com os instrumentos de observação empregados no Egito, no templo de Min.)

Percebendo o que acontecera, Nergal argumentou o contrário. Seus "instrumentos preciosos eram imprecisos, e por isso interpretara de forma incorreta" o brilho das estrelas do céu como a luz do dia decretado". Enquanto em seu lugar sagrado você concluiu que "à coroa de seu domínio a luz brilhou", não foi assim no Eanna, onde Nergal parara a caminho. Lá, ele disse, "o rosto do E.HAL.AN.KI no Eanna ainda permanece coberto". O termo E.HAL.AN.KI significa literalmente "Casa dos Círculos do Céu-Terra", e em nossa opinião sugere a localização de instrumentos para a determinação do eixo precessional da Terra.

Porém Marduk via as coisas de forma diferente. Quais instrumentos estavam de fato incorretos? Na época do Dilúvio, ele disse que "a ordem Céu-Terra foi alterada, saiu do rumo, e as estações dos deuses celestes, as estrelas do céu, mudaram e não voltaram aos seus lugares (antigos)". Uma grande causa para a mudança, argumentou Marduk, era o fato de que "a Erkalum tremeu, sua cobertura foi diminuída, e as medidas não puderam mais ser tomadas".

Essa é uma afirmação de alto significado, cuja importância científica - assim como a do texto completo do Erra Epas - foi ignorada pelos acadêmicos. Erkalum costumava ser traduzida por "Mundo Inferior" e mais recentemente o termo foi deixado intacto, como palavra cujo significado preciso é indeterminado. Sugerimos que seja um termo que denota a terra embaixo do mundo: a Antártida; e a "cobertura" ou mais literalmente "cabelo-que-cobre" é uma referência à calota polar, que, segundo Marduk afirmou, ainda estava diminuída, milênios depois do Dilúvio.

Quando tudo terminou, continuou Marduk, ele enviou emissários para verificar o Mundo Inferior. Ele mesmo foi dar uma olhada. Mas a "cobertura tinha se transformado em centenas de quilômetros de água pelos mares": a calota polar ainda estava derretida.

Essa é uma afirmação que corrobora nossa asserção, em O 12º. Planeta, de que o Dilúvio foi uma enorme onda criada pela imersão da calota polar, cerca de 13.000 anos atrás. O evento foi a causa, acreditamos, do final abrupto da última era do gelo e da mudança climática trazida. Também deixou o continente antártico sem sua calota de neve, permitindo a visão - e evidentemente o mapeamento - daquele continente como realmente são as massas de terra e litoral.

A implicação da afirmação de Marduk em relação ao fato de que a "ordem Céu-Terra foi alterada, saiu do rumo" como resultado do derretimento da imensa calota de gelo e da redistribuição de seu peso como água por todos os mares do mundo merece um estudo mais aprofundado. Teria isso implicado uma alteração na inclinação da Terra? Um retardo diferente, e talvez uma alteração na precessão? Talvez uma diminuição do giro da Terra, ou da sua órbita ao redor do Sol? O resultado de experiências que simulam os movimentos e vibrações da Terra com e sem a massa de gelo na Antártida poderia trazer uma conclusão interessante.

Tudo isso, disse Marduk, era agravado pelo destino dos instrumentos em Abzu, a ponta sudeste da África. Sabemos por outros textos que os anunaques possuíam lá uma estação científica monitorando a situação antes do Dilúvio e assim foram capazes de alertá-los para a calamidade iminente. "Depois que terminou a acomodação Céu-Terra", continuou Marduk, afirmando que esperara até que as fontes secassem e as águas da enchente retrocedessem, "voltei, olhei e olhei outra vez; era lamentável". O que descobriu foi que certos instrumentos "que para o céu de Anu podiam voltar-se" haviam desaparecido, sumido. Os estudiosos acreditam que os termos usados para descrevê-los se referem a cristais não identificados. "Onde está o instrumento para dar ordens?", perguntou ele, irritado, e "a pedra do oráculo dos deuses que dá o sinal para o domínio... onde está a sagrada pedra radiante?”

Essas perguntas em relação aos instrumentos de precisão perdidos, que costumavam ser operados pelo "artesão-chefe divino dos poderes de Anu que carregava o sagrado Sabedor-de­-Tudo-do-Dia", parecem mais acusações do que interrogações. Nós nos referimos anteriormente ao texto egípcio no qual Rá/Marduk acusava Thot de destruir "as Coisas Escondidas" que eram utilizadas para determinar os movimentos da Terra e o calendário; as perguntas retóricas atiradas a Nergal implicam uma transgressão deliberada contra Marduk. Em tais circunstâncias, Marduk indicou, ele não estava certo em apoiar-se em seus próprios instrumentos para determinar quando a Hora dele - a Era do Carneiro - chegasse?

A resposta completa de Nergal não está clara porque quando ela começa várias linhas nas tábuas estão danificadas. Parece que, baseado em seus vastos domínios africanos, ele não sabia onde alguns dos instrumentos (ou seus substitutos) se encontravam. Assim, sugeriu que Marduk fosse aos locais indicados no Abzu e verificasse por ele mesmo. Tinha certeza que então Marduk compreenderia que seu direito de nascença não estava em risco; o que estava em disputa era o momento de sua ascendência.

Para colocá-lo mais à vontade, Nergal prometeu que iria pessoalmente cuidar para que nada mais fosse perturbado na Babilônia durante a ausência de Marduk. Como gesto final de boa vontade, prometeu fazer os símbolos celestes da era enlilita, "os touros de Anu e Enlil, ajoelharem-se no portão do templo".

Tal ato simbólico de obediência, a curvatura do Touro do Céu de Enlil à entrada do templo de Marduk, persuadiu este a aceitar a argumentação do irmão:

Marduk escutou isso.

A promessa, feita por Erra [Nergal], encontrou seu favor.

Então ele desceu de seu trono,

E para a Terra das Minas, uma residência dos anunaques,

Dirigiu seus passos.

Assim, a disputa que envolveu o momento exato da mudança zodiacal levou Marduk a um segundo exílio - temporário apenas, ele acreditava.

Porém, o destino não permitiu que a vinda antecipada de uma Nova Era fosse pacífica.

12

A Era do Carneiro

Quando a Era do Carneiro finalmente começou, não aconteceu como a alvorada de uma Nova Era. Ao invés disso, veio acompanhada de escuridão ao meio-dia - a escuridão de uma nuvem de radiação mortal, proveniente da primeira vez em que armas nucleares eram detonadas na Terra. Veio como a culminação de mais de dois séculos de levantes e guerras que lançaram deus contra deus e nação contra nação; e, em sua esteira, a grande civilização suméria, que durara quase dois milênios, estava prostrada e desolada, o povo dizimado e seus remanescentes espalhados na primeira Diáspora do mundo. Marduk, de fato, ganhou a supremacia; porém a Nova Ordem trazia novas leis e novos costumes, uma nova religião e novas crenças; uma era de regressão nas ciências, de astrologia ao invés de astronomia ­ mesmo de um novo e pior papel para as mulheres.

Por que aconteceu dessa maneira? Teria a mudança sido tão devastadora e amarga apenas porque envolvia protagonistas ambiciosos - porque os anunaques, não os homens, dirigiram o curso dos acontecimentos? Ou tudo teria sido predestinado, pré­-ordenado, e a força e influência - real ou imaginária - da passagem para uma nova casa do zodíaco tão avassaladora que os impérios precisavam ruir, as religiões precisavam mudar, as leis, costumes e organização social precisavam ser destruídas?

Vamos rever o registro dessa primeira mudança conhecida; com sorte encontraremos respostas completas, com certeza pistas elucidadoras.

Segundo nossos cálculos, por volta de 2.295 a.C., Marduk saiu da Babilônia, indo primeiro para a Terra das Minas e depois para regiões não especificadas pelos textos mesopotâmicos. Ele partiu com o entendimento de que os instrumentos e outras "maravilhas" que colocara na Babilônia não seriam perturbados; porém, assim que Marduk saiu, Nergal/Erra quebrou sua promessa. Por pura curiosidade, ou talvez cheio de malícia, ele entrou no Gigunu proibido, a misteriosa câmara que Marduk declarara estar fora dos limites. Uma vez no interior dela, fez com que o "brilho" da câmara fosse removido; portanto, como Marduk avisara, "o dia tornou-se noite" e calamidades começaram a afligir a Babilônia e seu povo.

Seria esse "brilho" um dispositivo nuclear que irradiava? Não fica claro o que é, a não ser que o efeito adverso começou a espalhar-se pela Mesopotâmia. Os outros deuses ficaram irritados pela ação de Nergal; até mesmo seu pai, Enki, o repreendeu e mandou que retornasse ao seu domínio africano, Kutha. Nergal obedeceu a ordem, porém antes de partir destruiu tudo o que Marduk fizera, e deixou atrás de si seus guerreiros para se certificarem de que os seguidores de Marduk na Babilônia permaneceriam subjugados.

As duas partidas, primeiro de Marduk e depois de Nergal, deixaram a arena livre para os descendentes de Enlil. A primeira a tirar partido da situação foi Inana; ela escolheu um neto de Sargão, Naram-Sin ("O Favorito de Sin") para subir ao trono da Suméria e da Acádia; com ele e seus exércitos, ela começou uma série de conquistas. Entre seus primeiros alvos estava o Grande Campo de Pouso nas montanhas de Cedro, a imensa plataforma de Baalbek, no Líbano. Então ela atacou as terras ao longo da costa mediterrânea, aprisionando o Centro de Controle de Missão, em Jerusalém, e o ponto de cruzamento na rota terrestre da Mesopotâmia para o Sinai, Jericó. Já o espaçoporto em si, na península do Sinai, estava sob o controle dela. Insatisfeita, porém, Inana buscou realizar seu sonho de dominar o Egito, interrompido pela morte de Dumuzi. Guiando, instigando e armando Naram-Sin com suas "armas poderosas", começou a invasão da terra egípcia.

Os textos sugerem que ao reconhecê-la como adversária de Marduk, Nergal deu sua aprovação à invasão. Porém os outros líderes anunaques não encararam a questão com tanta simplicidade. Não apenas ela ultrapassava as fronteiras regionais Enlil-­Enki, mas também conseguiu controlar o espaçoporto, aquela zona sagrada na Quarta Região.

Uma reunião dos deuses foi realizada em Nippur para lidar com os excessos de Inana. Como resultado, uma ordem de prisão e julgamento foi emitida por Enlil. Ouvindo aquilo, Inana deixou seu templo em Agade, a capital de Naram-Sin, e foi esconder-se com Nergal. De longe, ela enviava ordens e oráculos para Naram-Sin, encorajando-o a continuar as conquistas e o derramamento de sangue. Para contrabalançar isso, os outros deuses deram o poder a Ninurta de trazer soldados leais das montanhas. Um texto chamado A Maldição de Agade descreve esses eventos e o voto dos anunaques para destruir a cidade. Obedecendo esse voto, a cidade - que fora o orgulho de Sargão e da dinastia de Agade - nunca mais foi encontrada.

A era relativamente breve de Ishtar chegara ao fim e, para trazer alguma ordem e estabilidade para a Mesopotâmia e as terras vizinhas, Ninurta (que iniciara os reinados na Suméria) recebeu outra vez o comando do país. Antes que Agade fosse destruída, Ninurta "trouxe para seu templo a coroa de senhor, a tiara do reinado e o trono para seu próprio templo". Naquela época, seu "centro de culto" era em Lagash, no território sagrado em Girsu. De lá, voando em seu Divino Pássaro Preto, Ninurta percorria a planície entre os dois rios e as montanhas vizinhas, restaurando a irrigação e a agricultura, devolvendo a ordem e a tranqüilidade. Dando o exemplo, por meio de fidelidade incontestada à sua esposa Bau (apelidada de Gula, "a Grande"), com a qual ele mandou fazer alguns retratos, e devotado à sua mãe, Ninharsag, ele proclamou leis morais e códigos de justiça. Para ajudar nessa tarefa, nomeou vice-reis humanos; por volta de 2.160 a.C., o escolhido foi Gudea.

No Egito, logo após o exílio de Marduk/Rá, a invasão de Naram-Sin e a reprimenda a Nergal, o país estava em desordem. Os egiptólogos chamam esse período de século caótico, entre 2.180 e 2.040 a.C., o "Primeiro Período Intermediário" na história do Egito. Foi uma época em que o Velho Reinado, que estava centralizado em Mênfis e Heliópolis, sofreu o ataque de príncipes tebanos ao sul. Questões políticas, religiosas e calendáricas foram envolvidas; por trás da rivalidade humana estava o confronto celeste entre o Touro e o Carneiro.




Ninurta

Desde o início do período dinástico egípcio, o maior cumprimento celeste que se podia fazer aos grandes deuses era compará-los ao Touro do Céu. Seu símbolo terrestre, o boi sagrado Ápis, era adorado em Heliópolis e Mênfis. Algumas das inscrições pictóricas mais antigas - tão antigas que sir Flinders Petrie (Royal Tombs) as atribuía à época da "dinastia zero" ­ mostram esse símbolo ao Barco Celeste, com um sacerdote segurando objetos rituais em frente a ele. (As representações nessa placa arcaica e em outras similares, ainda segundo sir Flinders Petrie, também mostram claramente a Esfinge, indicando que ela já existia vários séculos antes de sua suposta construção pelo faraó Quéfren, na IV Dinastia). Como mais tarde aconteceu com o Minotauro, em Creta, um labirinto especial foi criado para o boi Ápis, em Mênfis. Em Sakkara, efígies de cabeças de touro feitas de argila com chifres naturais eram colocadas no interior da tumba de um faraó da II Dinastia; e sabe-se que Zoser, um faraó do período da III Dinastia, realizou cerimônias especiais em homenagem ao Touro do Céu em sua pirâmide espaçosa construída em Sakkara. Tudo isso ocorreu durante o Velho Reinado, um período que chegou ao final por volta de 2.180 a.C.

Quando os sacerdotes tebanos de Amon-Rá começaram a sabotar a religião e o calendário menfita-heliopolita, as representações celestes ainda mostravam o Sol se elevando sobre o Touro do Céu, mas este era representado preso e cansado. Mais tarde, quando o Novo Reinado reuniu o Egito, com Tebas como capital, e Amon-Rá foi elevado à supremacia, o Touro do Céu era representado machucado e dominado. O Carneiro começou a dominar os movimentos celestes e a arte dos monumentos, e Rá recebeu o epíteto "Carneiro dos Quatro Ventos", sendo assim representado para indicar que ele dominava os quatro cantos e as quatro regiões da Terra.

Onde estava Thot durante esse Primeiro Período Intermediário, quando nos céus acima e na Terra abaixo o Carneiro e seus seguidores continuavam a lutar e a afugentar o Touro e seus seguidores? Não existe indicação de que ele quisesse reclamar o reinado com um Egito dividido e caótico. Era uma época em que, sem desistir de seus novos domínios no Novo Mundo, ele podia fazer aquilo em que se tornara eficiente - construir observatórios circulares e ensinar aos habitantes locais, em antigos e novos lugares, os "segredos dos números" e do conhecimento do calendário. A reconstrução de Stonehenge I para torná-lo Stonehenge II e III, naquela mesma época, era uma daquelas edificações monumentais. Se esperamos que as lendas possam ser veículos para fatos históricos, então aquela sobre africanos chegando para erigir os círculos megalíticos em Stonehenge sugere que Thot, aliás Quetzalcoátl, trouxera para a reconstrução alguns seguidores olmecas, que àquela altura tinham se tornado especialistas em trabalhar pedras pelas experiências na América Central.

O resumo dessas conquistas era o convite de Ninurta para ir até Lagash e ajudar a projetar, orientar e construir o Eninu, o novo templo-pirâmide de Ninurta.

Foi apenas um trabalho de amor, ou havia uma razão mais forte para esse surto de atividade astronômica?

Tratando do simbolismo que guiava a construção de um templo sumério, Beatrice Goff (Symbols of Prehistoric Mesopotamia) escreveu sobre a construção do Eninu: "A hora é o momento em que no céu e na terra a sorte está decidida". A orientação para que o templo fosse construído da forma que seus planejadores divinos ordenaram e na hora específica em que foi construído e inaugurado, ela determinou, era "parte de um plano pré-ordenado quando os destinos foram decididos; a comissão de Gudea fazia parte de um plano cósmico". Esse, concluiu ela, era "o tipo de cenário em que não apenas a arte e o ritual mas também a mitologia andam de mãos dadas, tão importantes quanto a religião".

Por volta de 2.200 a.C. era um tempo "em que no Céu e na Terra os destinos estavam decididos", pois tratava-se da época em que uma Nova Era, a Era do Carneiro, devia substituir a Velha Era, a Era de Touro.

Embora Marduk/Rá estivesse em algum lugar do exílio, crescia uma disputa pelos corações e mentes das pessoas, já que os "deuses" haviam se tornado cada vez mais dependentes de reis e exércitos humanos para atingir seus objetivos. Muitas fontes indicam que o filho de Marduk, Nabu, estava percorrendo as terras que mais tarde se tornariam as Terras Bíblicas, procurando adesões para o lado de seu pai. Seu nome, Nabu, tinha o mesmo significado e vinha do mesmo verbo pelo qual a Bíblia chama um profeta verdadeiro: Nabi, o que recebe as palavras e sinais divinos e em troca as leva ao povo. Os sinais divinos dos quais Nabu falava eram os Céus em mudança; o fato de que o Ano Novo e outras datas de adoração não parecessem mais ocorrer quando deviam. A arma de Nabu, a favor de Marduk, era o calendário...

Poderíamos perguntar o quê estava sendo disputado, ou pouco esclarecido? A verdade do assunto é que mesmo atualmente ninguém pode dizer com certeza quando uma "Era" terminou e outra começou. Existia um cálculo arbitrário, matematicamente preciso, pois como o Ciclo Precessional de 25.920 anos é dividido em doze Casas, cada Casa ou Era deveria durar exatamente 2.160. Essa era a base matemática do sistema sexagesimal, a razão de 10:6 entre o Tempo Divino e o Tempo Celeste. Mas se nenhuma pessoa viva, nenhum sacerdote-astrônomo, tinha testemunhado o início de uma Era e seu final, já que nenhum ser humano tinha permanecido vivo por 2.160 anos, era ou a palavra dos deuses, ou a observação do céu. Porém as constelações do zodíaco eram muito variadas em tamanho, e o Sol podia ficar um pouco mais ou um pouco menos em seu interior. O problema aparece especialmente no caso de Áries, que ocupa menos de 30 graus do arco celeste, enquanto seus vizinhos Touro e Peixes se estendem além dos 30 graus oficiais. Portanto, se os deuses discordavam, alguns deles (por exemplo, Marduk, que aprendera ciências com seu pai, Enki, e Nabu) poderiam dizer: 2.160 anos se passaram, a Hora chegou. Porém outros (Thot e Ninurta) diziam: mas olhe para o céu, está vendo a mudança ocorrer?

O registro histórico, conforme descrito pelos textos antigos e afirmado pela arqueologia, indica que as táticas funcionaram - pelo menos por algum tempo. Marduk permaneceu no exílio, e na Mesopotâmia a situação acalmou-se o suficiente para que os soldados fossem mandados de volta. Depois de servir como base militar por "noventa e um anos e quarenta dias" (segundo os registros antigos), Lagash voltava a ser um centro civil para a glorificação de Ninurta. Aproximadamente em 2.160 a.C. isso era expresso pela construção do novo Eninnu sob o reinado de Gudea.

A Era de Ninurta durou por volta de um século e meio. Então, satisfeito por que a situação estava sob controle, Ninurta partiu para alguma missão distante. Na ausência dele, Enlil apontou seu filho Nanar/Sin para cuidar da Suméria e da Acádia, e Ur, o "centro de culto" de Nanar/Sin, tornou-se a capital de um império revitalizado.

Foi uma indicação com implicações mais do que políticas e hierárquicas, pois Nanar/Sin era o "deus da Lua" e sua promoção anunciava que o calendário puramente solar de Rá/Marduk estava terminado e que o calendário lunissolar de Nippur era o único verdadeiro - religiosa e politicamente. Para assegurar adesão, um sumo sacerdote versado em astronomia e vaticínios celestiais foi enviado do templo de Nippur para Ur. Seu nome era Tera; com ele foi seu filho de dez anos, Abrão.

O ano, por nossos cálculos, era 2.113 a.C.

A chegada de Tera e sua família a Ur coincidiu com o estabelecimento do reinado de cinco governadores consecutivos, conhecidos como a dinastia de Ur III. O século deles, e de Abrão, via por um lado a gloriosa culminação da civilização suméria; seu epíteto e marca registrada era o grande zigurate construído ali para Nanar/Sin - um edifício monumental que, embora estivesse em ruínas havia quase quatro mil anos, ainda dominava a paisagem e impressionava quem o visse pela imensidão, estabilidade e complexidade.

Sob a ativa orientação de Nanar e sua esposa Ningal, a Suméria atingia novos estágios em arte e ciência, literatura e organização urbana, agricultura, indústria e comércio. A Suméria tornou-­se um celeiro das Terras da Bíblia, suas indústrias de lãs e roupas formavam uma casta por si mesmas, sendo seus mercadores os famosos Mercadores de Ur. Mas este era apenas um aspecto da Era de Nanar. Por outro lado, pendendo sobre toda essa grandeza e glória estava o destino ordenado pelo Tempo - a mudança inexorável, de um Ano Novo para outro, da posição do Sol, cada vez menos na casa de GUD.ANNA, o "Touro do Céu" e cada vez mais perto de KU.MAL, o Carneiro celeste - com todas as conseqüências funestas.

Desde que recebeu o Sacerdócio e a Realeza, a humanidade sabia seu lugar e seu papel. Os "deuses" eram os senhores, para serem adorados e venerados. Havia uma hierarquia definida, rituais prescritos e dias santos. Os deuses eram austeros mas benevolentes, seus decretos eram definidos porém justos. Durante milênios os deuses supervisionaram o bem-estar e o destino da humanidade, permanecendo claramente separados das pessoas, aparecendo apenas para o sumo sacerdote em datas específicas, comunicando-se com os reis por visões e profecias. Mas tudo começa a ruir, pois os próprios deuses estavam ao acaso, citando diferentes profecias celestes e um calendário que mudava, envolvendo nação após nação nas causas de guerras "divinas", provocando lutas e derramamento de sangue. E a humanidade, confusa e perplexa, cada vez mais falando em "meu deus" e "seu deus", chegava mesmo a duvidar da credibilidade divina.

Em tais circunstâncias, Enlil e Nanar escolheram cuidadosamente o rei para a nova dinastia. Optaram por Ur-Namu ("A Glória de Ur"), um semideus, cuja mãe era a deusa Ninsun. Sem dúvida foi um movimento calculado evocar entre as pessoas as lembranças das glórias passadas e dos "bons e velhos dias", pois Ninsun era a mãe do famoso Gilgamesh, que ainda era exaltado em histórias épicas e representações artísticas. Ele foi um rei de Erech, privilegiado em ver tanto o Campo de Pouso nas montanhas do Cedro quanto o espaçoporto do Sinai; e a escolha de outro filho de Ninsun, sete séculos depois, era destinada a evocar confidências de que aqueles locais vitais seriam outra vez parte da herança suméria, sua Terra Prometida.

A função de Ur-Namu era conduzir o povo para "longe do Mal", evitando seguir os deuses errados. O esforço foi marcado pela reforma e reconstrução do maior templo no país - com exceção do templo de Marduk na Babilônia. O passo seguinte seria subjugar as "cidades más" onde Nabu estava em missão secreta para Marduk. Para essa finalidade, Enlil forneceu a Ur-Namu uma "Arma Divina" com a qual "empilhar os corpos dos rebeldes nas cidades hostis". O reforço do Tempo Celeste de Enlil era o objetivo principal, o que ficava claro no texto que fornece as instruções a Ur-Namu sobre o uso da arma:

Como o Touro esmagar terras estrangeiras;

Como o Leão caçar [os pecadores];

Destruir as cidades más,

Limpá-las da oposição aos Magníficos.

O Touro do equinócio e o Leão do solstício deveriam ser mantidos; qualquer oponente dos Magníficos seria caçado, esmagado e destruído.

Liderando expedições militares, Ur-Namu não obteve a vitória, e sim um final ignominioso. No decurso de uma batalha, seu carro ficou preso na lama e ele caiu, apenas para encontrar a morte entre as próprias rodas. A tragédia ficou completa quando o barco que levava seu corpo para a Suméria afundou no caminho, de forma que o grande rei ficou privado de seu funeral.

Quando as notícias alcançaram Ur, o povo ficou triste e incrédulo. Como Ur-Namu não foi "seguro pela mão de Nanar/Sin", por que Inana "não colocou seu braço nobre ao redor da cabeça dele", por que Utu não o ajudou? Por que Anu "alterou sua palavra sagrada"? Certamente era uma traição dos grandes deuses; só pôde acontecer porque "Enlil traiçoeiramente mudou seu decreto".

O trágico destino de Ur-Namu e a dúvida dos deuses partidários de Enlil causaram a mudança de Tera e sua família para Haram, uma cidade a noroeste da Mesopotâmia que servia como elo de ligação entre as terras e os povos da Anatólia - os hititas; evidentemente, os poderes sentiram que Haram, onde um templo a Nanar/Sin quase duplicava o de Ur, seria o local mais apropriado para os descendentes nipurianos de uma linha de sacerdotes reais nos tempos turbulentos que estavam à frente.

Em Ur, Shulgi, um filho de Ur-Namu com uma princesa, num casamento arranjado por Nanar, subiu ao trono. Imediatamente ele procurou o favor de Ninurta, construindo para este um santuário em Nippur. O ato teve vários aspectos práticos; pois as províncias do oeste se tornavam inquietas, a despeito de uma jornada pacífica empreendida por Shulgi, ele conseguiu obter uma "legião estrangeira" de soldados em Elam, um domínio de Ninurta nas montanhas a sudoeste da Suméria. Usando-os para lançar expedições militares contra as "cidades pecadoras", ele mesmo procurou refúgio numa vida de dissipações e luxúria, tornando-se um "amado" de Inana e oferecendo banquetes e orgias em Erech, no próprio templo de Anu.

Embora as expedições militares tenham levado, pela primeira vez, soldados elamitas até o portal para a península do Sinai e seu espaçoporto, fracassaram em controlar a "rebelião" provocada por Nabu e Marduk. No quadragésimo sétimo ano de seu reinado, 2.049 a.C., Shulgi recorreu a um estratagema desesperado: ordenou a construção de um muro de defesa ao longo da fronteira oeste da Suméria. Para os deuses enlilitas era o equivalente a abandonar as áreas vitais onde ficavam o Campo de Pouso e o Centro de Controle de Missão. Pelo fato de que ele "não cumpriu os regulamentos divinos", Enlil decretou a morte de Shulgi, a "morte de um pecador", no ano seguinte.

A retirada das terras de oeste e a morte de Shulgi dispararam duas ações. Como sabemos, por um texto biográfico no qual Marduk explica suas ações e motivos! foi então que ele decidiu retornar à proximidade da Mesopotâmia, chegando à terra dos hititas. Foi também decidido que Abrão realizasse seu movimento. Nos 48 anos do reinado de Shulgi, Abrão amadureceu em Haram, de um adolescente recém-casado para um líder de 75 anos, possuidor de um conhecimento variado e treinado em artes militares, aprendidas dos anfitriões hititas.

Ora, o Senhor disse a Abrão:

Sai da tua terra

E da tua parentela e da casa de teu pai,

E vem para a terra que eu te mostrarei.

Saiu, pois, Abrão de Haram, como o Senhor lhe tinha ordenado.

O destino, como o capítulo 12 do Gênesis deixa claro, era o território vital de Canaã; ele deveria prosseguir tão rapidamente quanto possível e posicionar a si mesmo e a sua cavalaria de elite no Negev, na fronteira Canaã/Sinai. Sua missão, como detalhamos em As Guerras de Deuses e Homens, era proteger o acesso ao espaçoporto. Chegou até lá contornando as "cidades pecadoras" dos cananeus; logo depois, ele foi ao Egito, obtendo mais soldados e camelos como montarias, do último faraó da dinastia de Mênfis. De volta ao Negev, estava pronto para cumprir sua missão de guardar os acessos ao espaçoporto.

O conflito antecipado ocorreu no sétimo ano do reinado do sucessor de Shulgi, Amar-Sin ("Visto por Sin"). Era, até para os tempos modernos, uma guerra verdadeiramente internacional, na qual uma aliança de quatro reis do leste partiu para atacar uma aliança dos cinco reis de Canaã. Liderando o ataque, de acordo com o relato bíblico no capítulo 14 do Gênesis, estava "Anrafel, o rei de Senaar", e por um bom tempo acreditou-se que ele era o rei babilônio Hamurabi. Na verdade, conforme mostram nossos estudos, ele era o sumério Amar-Sin, e a história do conflito internacional foi registrada também em textos mesopotâmicos, tais como as tábuas da Coleção Spartoli no Museu Britânico, cuja confirmação da história bíblica foi primeiro apontada por Theophilus Pinches em 1897. Juntamente com fragmentos complementares, a coleção de tábuas mesopotâmicas que discorre sobre esses eventos é conhecida como o Texto de Kedorla'omer.

Marchando sob a bandeira de Sin e segundo oráculos de Inana/Ishtar, o exército aliado - provavelmente a maior força militar em número que os homens haviam visto até então - conquista uma cidade do oeste após a outra. Reconquistando para Sin todas as terras entre o Eufrates e o rio Jordão, circundaram o mar Morto e partiram para o alvo seguinte, o espaçoporto no Sinai. Porém, lá estava Abrão, cumprindo sua missão e interpondo-se no caminho; voltaram, portanto, para o norte, prontos a atacar as "cidades do mal" dos cananeus.

Ao invés de esperar o ataque em suas cidades cercadas, a aliança dos reis de Canaã marchou contra os invasores, combatendo-os no vale de Siddim. Os registros, tanto bíblicos quanto mesopotâmicos, sugerem um resultado indeciso. As "Cidades do Mal" não foram destruídas, embora a fuga (e morte resultante) de dois reis, os de Sodoma e Gomorra, tenham resultado em saques e prisioneiros levados pelos atacantes. Entre os prisioneiros de Sodoma estava o sobrinho de Abrão, Lot; quando Abrão ficou sabendo, sua cavalaria perseguiu os invasores, alcançando-os perto de Damasco (hoje capital da Síria). Lot, os outros prisioneiros e o saque foram recuperados e levados de volta a Canaã.

Quando os reis cananeus foram saudar Abrão, ofereceram a ele o saque como recompensa por ter salvo os prisioneiros. Porém ele se recusou a ficar até mesmo com "um cordão de sapatos". Não agira por inimizade pela aliança mesopotâmica, nem por aliança com os cinco reis de Canaã. Foi apenas por "Iavé, o Deus Altíssimo, Senhor do Céu e da Terra, que ergui minha mão", afirmou ele.

A campanha militar fracassada deprimiu e confundiu Amar­-Sin. De acordo com o registro de dados do ano seguinte, 2.040 a.C., ele saiu de Ur e do culto a Nanar/Sin e se tornou sacerdote em Eridu, o "centro de culto de Enki". No espaço de um ano estava morto, presumivelmente por uma picada de escorpião. O ano 2.040 a.C. foi ainda mais memorável no Egito; Mentuhotep II, líder dos príncipes de Tebas, derrotou o faraó do norte e estendeu as regras e o culto de Amon-Rá por todo o Egito, até a fronteira do Sinai. A vitória trouxe o que os acadêmicos chamam de Médio Império da XI e XII dinastias, que durou até 1.790 a.C. Enquanto toda a força e significado da Era do Carneiro entravam em cena no Egito durante o Novo Império, a vitória tebana de 2.040 a.C. marcava o final da Era do Touro nos domínios africanos.

Se, por uma questão de perspectiva histórica, a vinda da Era do Carneiro parecia inevitável, da mesma forma deve ter parecido para os protagonistas e antagonistas principais daqueles tempos difíceis. Em Canaã, Abrão retirou-se para uma fortaleza na montanha, perto de Hebron. Na Suméria, o novo rei, Shu-Sin, um irmão de Amar-Sin, fortaleceu as muralhas defensivas no oeste, procurou fazer uma aliança com os nipurianos que se haviam estabelecido com Abrão em Haram, e mandou construir dois grandes navios - possivelmente como precaução, para uma rota de fuga... Numa noite que pode ter ocorrido em fevereiro de 2.031 a.C., um grande eclipse lunar ocorreu na Suméria; foi encarado como uma profecia sobre o "eclipse" seguinte do deus da Lua. A primeira vítima, entretanto, foi Shu-Sin; no ano seguinte ele não era mais rei.

À medida que a premonição celeste, o eclipse da Lua, espalhou-se pelo Oriente Médio, as esperadas mensagens necessárias de lealdade de vice-reis e governadores, primeiro no oeste depois no leste, cessaram. No espaço de um ano de reinado do soberano seguinte (o último) de Ur, chamado Ibbi-Sin, atacantes do oeste, organizados por Nabu e encorajados por Marduk, entravam em choque com mercenários elamitas às portas da Mesopotâmia. Em 2.026 a.C., a contagem dos recibos comerciais (em tábuas de barro) em Drehem, um ponto de comércio importante na Suméria durante o período Ur III, parou abruptamente, demonstrando que o comércio exterior cessara. A própria Suméria tornou-se um país sitiado, seu território diminuiu gradativamente, a população começou a ocultar-se atrás de muralhas protetoras. Num local que já fora considerado o celeiro do mundo antigo, as matérias-primas escassearam e o preço dos alimentos essenciais - cevada, óleo, lã - aumentava todo mês.

Ao contrário de outras épocas na longa história da Suméria e da Mesopotâmia, as profecias eram citadas a todo momento. A julgar pelo registro de comportamento humano pode-se reparar na existência de uma reação familiar de medo perante o desconhecido e numa procura de segurança ou orientação vindas de um poder ou inteligência maior. Porém, nessa época havia um bom motivo para se observar os céus, onde a chegada prevista do Carneiro se tornava cada vez mais evidente.

Os textos que sobreviveram a esse período atestam que o curso de eventos prestes a acontecer na Terra estava intimamente ligado aos fenômenos celestes; cada lado dos que estavam em confronto observava constantemente os céus, à procura de um sinal. Como os vários Grandes Anunaques estavam associados aos corpos celestes, tanto as constelações do zodíaco quanto os doze membros do Sistema Solar (assim como os meses), os movimentos e as posições dos corpos celestes associados aos protagonistas ganhavam significado especial. A Lua, associada ao grande deus de Ur, Nanar-Sin, o Sol (associado ao filho de Nanar, Utu/ Shamash), Vênus (o planeta da filha de Sin, Inana/Ishtar) e os planetas Saturno e Marte (relativos a Ninurta e Nergal) eram especialmente observados em Ur e Nippur. Além dessas associações, as várias terras do império sumério eram relacionadas a constelações zodiacais: a Suméria, a Acádia e Elam eram consideradas sob o signo da proteção de Touro; as terras dos ocidentais, sob o signo de Áries. Portanto, conjunções planetárias e zodiacais, incluindo combinações com a aparência da Lua (oculta, brilhante, com "chifres" etc.), do Sol e dos planetas, eram analisadas como sinais de bons ou maus augúrios.

Um texto, chamado por estudiosos de Texto de Profecias B, conhecido por meio de cópias posteriores do original sumério feito em Nippur, ilustra como as profecias celestes eram interpretadas para profetizar o destino que se aproximava. A despeito de quebras e danos, o impacto da tábua de texto conserva suas previsões do destino que se aproxima:

Se [Marte] está muito vermelho, brilhante...

Enlil falará com o Grande Anu.

A terra [Suméria] será saqueada,

A terra de Acádia será...

...Em todo o país...

Uma filha fechará a porta para a mãe,

...Amigo matará amigo...

Se Saturno...

Enlil falará com o Grande Anu.

A confusão... problemas...

Um homem trairá outro homem,

Uma mulher trairá outra mulher...

...Um filho do rei irá...

...Templos vão ruir...

...Uma grande fome vai ocorrer...

Algumas dessas profecias se relacionam diretamente com a posição planetária da constelação do Carneiro:

Se o Carneiro ao lado de Júpiter entrar

Quando Vênus entrar na Lua,

A vigia chega ao final.

Inimigos, problemas, confusão

E coisas ruins acontecerão nas terras.

O povo irá vender seus filhos por dinheiro.

O rei de Elam será cercado em seu palácio:

...A destruição de Elam e seu povo.

Se o Carneiro tiver conjunção com o planeta...

...Quando Vênus... e o...

...Os planetas podem ser vistos...

...Irão rebelar-se contra o rei,

...Irão capturar o trono,

Toda a terra... vai diminuir à sua ordem.

No campo oposto, os céus eram observados à procura de presságios e previsões. Tal texto, reunido com a colaboração de muitos estudiosos a partir de várias tábuas (principalmente no Museu Britânico), é um registro autobiográfico por Marduk de seu exílio, a agonizante espera pelo sinal celeste adequado, e o movimento final para assumir o reinado que ele acreditava seu. Escrito como uma lembrança na idade avançada, ele revela seus "segredos" para a posteridade:

Ó grandes deuses, aprendam meus segredos

Enquanto afivelo o cinto, minhas lembranças retornam.

Sou o divino Marduk, um grande deus.

Fui afastado por meus pecados,

Para as montanhas parti.

Em muitas terras fui um andarilho;

De onde o Sol se ergue até onde ele se põe.

Tendo perambulado de um ponto a outro da Terra, ele recebeu uma profecia:

Por uma profecia fui até a terra de Hati.

Na terra de Hati pedi uma profecia

[Sobre] meu trono e meu reinado.

No meio [perguntei]: "Até quando?"

24 anos no meio deles fiquei.

Vários textos astronômicos dos anos que marcaram a transição de Touro para Áries oferecem pistas em relação à profecia na qual Marduk estava interessado em especial. Naqueles textos, assim como no que é chamado pelos acadêmicos de "textos mitológicos", a associação de Marduk e Júpiter é sugerida enfaticamente. Sabemos que antes de Marduk ter sucesso em suas ambições e estabelecer-se na Babilônia como divindade suprema, tais textos, como a Epopéia da Criação, foram escritos outra vez para associar Marduk com Nibiru, o planeta natal dos anunaques. Porém, anterior a Júpiter, por todas as indicações, estava o corpo celeste de Marduk, em seu epíteto "Filho do Sol"; e uma sugestão - feita mais de um século e meio antes - de que Júpiter poderia ter servido para a Babilônia, como Sírius serviu para o Egito, de sincronizador do ciclo calendárico, é bastante pertinente.

Nós nos referimos a uma série de palestras no Instituto Real da Sociedade dos Antiquários da Grã-Bretanha em 1822 (!), por um "antiquário" chamado John Landseer, na qual, a despeito dos parcos dados arqueológicos disponíveis na época, demonstrou uma compreensão incomum dos tempos antigos. Muito antes dos outros, e por conseqüência o detentor de visões não aceitas, ele afirmou que os caldeus tinham conhecimento do fenômeno da precessão milênios antes dos gregos. Chamando essa era de "quando a Astronomia era Religião" e vice-versa, ele afirmou que o calendário era relacionado à "casa" zodiacal de Touro, e que a transição para Áries estava associada a uma "conjunção mística do Sol e de Júpiter no signo de Áries, no início do grande círculo de intricadas revoluções [celestes]". Ele acreditava que os mitos gregos e lendas que ligavam Zeus/Júpiter com o Carneiro e seu velocino de ouro refletiam essa transição para Áries. E calculou que tal conjunção de Júpiter e do Sol na fronteira entre o Touro e Áries ocorrera no ano 2.142 a.C.

A idéia de que Júpiter em conjunção com o Sol pode ter servido como Anunciador, o arauto da Era de Áries, também foi encontrada em tábuas da Babilônia, numa série de textos intitulados "Pesquisas Estelares Eufratianas" por Robert Brown, em Proceedings of the Society of Biblical Archaeology, Londres, em 1893. Focalizando-se em particular em duas tábuas astronômicas (K.2310 e K.2894), números de catálogo do Museu Britânico, Brown concluiu que tratavam da posição das estrelas, constelações e planetas, conforme vistos na Babilônia à meia-noite de uma data equivalente a 10 de julho de 2.000 a.C. Aparentemente citando Nabu em referência a sua "proclamação do planeta do Príncipe da Terra" - presumivelmente Júpiter - aparecendo em "observação ocular que ocorrerá no signo de Áries", os textos foram traduzidos por Brown em um "mapa de estrelas" que mostrava Júpiter em conjunção com a estrela mais brilhante (Lulim, conhecida por seu nome árabe, Hamal) de Áries e ligeiramente deslocada do ponto do equinócio de primavera, quando o caminho zodiacal e o caminho planetário (equador celeste e eclíptica) se cruzam.

Lidando com transições de uma era para outra, conforme registrado nas tábuas da Mesopotâmia, vários assiriólogos (como eram chamados, na época - por exemplo, Franz Xavier Kugler (Im Bannkreis Babels) -, lembram que enquanto, a transição de Gêmeos para Touro foi perceptível com razoável precisão, a de Touro para Áries era menos determinável. Kugler acreditava que o equinócio vernal, que sinalizava o Ano Novo, ainda estava em Touro no ano 2.300 a.C., e observou que os babilônios haviam presumido que o Zeitalter, a nova era zodiacal, aconteceria em 2.151 a.C.

Provavelmente não é coincidência que a mesma data marque uma importante inovação em práticas egípcias para representar os céus. Segundo a obra-prima sobre o assunto de astronomia egípcia, Egyptian Astronomical Texts, de O. Neugebauer e Richard A. Parker, as imagens celestes que incluíam também os 36 decanatos começaram a ser pintadas nas tampas dos sarcófagos por volta de 2.150 a.C. - coincidindo com o caótico Primeiro Período Intermediário, o início do impulso tebano para o norte a fim de suplantar Mênfis e Heliópolis, e a época em que Marduk lê o oráculo a seu favor.

As tampas de sarcófagos, à medida que o tempo passava e a Era do Carneiro não era mais contestada, claramente mostravam a nova Era Celeste, como se pode ver pela ilustração de uma tumba perto de Tebas. O carneiro de quatro cabeças domina os quatro cantos dos céus (e da Terra, também); o Touro do Céu é mostrado com uma flecha ou lança espetada; e as doze constelações do zodíaco, em sua ordem e símbolos sumérios, estão dispostas de forma que a constelação de Áries esteja precisamente no leste, por exemplo, onde o Sol aparece no dia do equinócio.

Se a determinação ou profecia inicial para Marduk/Rá foi a conjunção de Júpiter com o Sol na "casa" de Áries, e se esta ocorreu em 2.142 a.C., como John Landseer sugeriu, então isso mais ou menos coincide com a cifra calculada aritmeticamente (uma vez em cada 2.160 anos) para a mudança zodiacal. Esse dado, entretanto, teria significado que a alegação de mudança para Áries precedeu em cerca de um século e meio a mudança observada no equinócio vernal em Áries, em 2.000 a.C., conforme atestam as duas tábuas. Essa discrepância poderia explicar, pelo menos em parte, o desacordo existente na época em relação ao que as profecias celestes ou as observações estavam realmente predizendo.

Como o texto autobiográfico de Marduk admitia, mesmo a profecia que sinalizava para ele a época de terminar suas peregrinações e vir para a Terra de Hati, na Ásia Menor, onde viviam os hititas, aconteceu 24 anos antes do próximo movimento dele. Porém essa e outras previsões celestes também eram observadas do lado enlilita; embora o Carneiro ainda não tivesse dominado por completo o Ano Novo no equinócio de primavera na época de Ibbi-Sin, o último rei de Ur, os sacerdotes do oráculo interpretaram as previsões como prenúncios de um fim desastroso. No quarto ano do reinado de Ibbi-Sin (2.026 a.C.) os sacerdotes do oráculo lhe disseram que, de acordo com a profecia, "pela segunda vez, ele, que chama a si próprio de Supremo, como aquele cujo peito foi ungido, virá do oeste". Com tais previsões as cidades sumérias, no quinto ano do reinado de Ibbi-Sin, deixaram de entregar os tradicionais animais para o sacrifício no templo de Nanar, em Ur. Naquele mesmo ano os sacerdotes profetizaram que "quando o sexto ano chegar, Ur estará numa armadilha". No ano seguinte, o sexto, os vaticínios de destruição e ruínas se tornaram mais urgentes e a própria Mesopotâmia, o coração da Suméria e da Acádia, foi invadida. As inscrições registram que no sexto ano "guerreiros hostis do oeste entraram na planície, penetraram no interior do país, tomando uma por uma as grandes fortalezas".

No vigésimo quarto ano de sua permanência na Terra dos Hititas, Marduk recebeu outra profecia: "Meus dias [de exílio] estão completos, meus anos [de exílio] foram cumpridos", escreveu ele em suas memórias. "Com saudade de minha cidade, a Babilônia, parti para [reconstruir] meu templo Esagila, restabelecer minha morada eterna". Essa tábua, parcialmente danificada, descreve então a rota de Marduk desde a Anatólia até a Babilônia; as cidades citadas indicam que ele primeiro foi para o sul, para Hama (a Hamat bíblica), depois atravessou o rio Eufrates em Mari; realmente retornou, conforme as previsões anunciavam, vindo de oeste.

O ano era 2.024 a.C.

Em suas memórias autobiográficas, Marduk descreve como imaginara sua triunfante volta à Babilônia, abrindo uma era de bem-estar e prosperidade para seu povo. Imaginou o estabelecimento de uma nova dinastia, e previu como primeira tarefa do rei a reconstrução do Esagil, o templo-zigurate da Babilônia, segundo uma nova "planta da Terra e do Céu" - uma planta de acordo com a nova Era do Carneiro.

Ergui meus calcanhares na direção da Babilônia,

Pelas terras fui para minha cidade;

Um rei da Babilônia para fazer um novo início,

Em seu meio meu templo-montanha elevar aos céus.

O Esagil que parece uma montanha irá renovar,

A planta dos Céus e da Terra irá ele desenhar para o Esagil

Que parece uma montanha, sua altura ele irá alterar,

Sua plataforma ele irá elevar,

Sua cabeça ele irá melhorar.

Em minha cidade, a Babilônia

Em abundância irá residir;

Minha mão ele irá agarrar,

Para minha cidade e para meu templo Esagil

Na eternidade vou entrar.

Sem dúvida imaginando a forma como o templo-zigurate de Ninurta em Lagash foi decorado e embelezado, Marduk divisou seu novo templo, o Esagil ("Casa cuja cabeça é magnífica"), decorado com belos e preciosos metais: "com folhas de metal ele será coberto, os degraus serão feitos de metal moldado, e suas paredes serão cheias de metal importado". E quando tudo estiver completo, astrônomos irão subir os estágios e observar os céus, confirmando sua supremacia:

Conhecedores das profecias, colocados em serviço,

Deverão subir em seu meio;

Esquerda e direita, em lados opostos,

Irão ficar separados.

O rei então irá aproximar-se;

A estrela certa do Esagil

Sobre a terra [ele irá observar].

Quando o Esagil foi realmente construído, foi erigido segundo planos muito detalhados e precisos; sua orientação, altura e vários estágios eram de fato dispostos de forma que sua cabeça apontasse diretamente para a maior estrela da constelação de Áries.

Porém a ambiciosa visão de Marduk não iria realizar-se naquele momento. No mesmo ano em que ele iniciou sua marcha de volta para a Babilônia chefiando uma horda de combatentes aliados do oeste, organizados por Nabu, uma catástrofe espantosa se abateu sobre o Oriente Próximo - uma calamidade que nem a Humanidade nem a Terra já tinham experimentado.

Ele esperava que quando as profecias fossem claras, tanto os deuses quanto os homens iriam considerar suas palavras para aceitar sua supremacia sem resistir mais. "Chamei os deuses, todos eles, para me escutarem", escreveu Marduk em suas memórias. "Chamei o povo em minha marcha: trazei seu tributo para a Babilônia." Ao invés disso, ele encontrou uma política de queimar a terra: os deuses encarregados do gado e dos grãos que sobraram "foram embora para o céu" e o deus encarregado da cerveja "deixou doente o coração da terra". O avanço tornou-se violento e sangrento. "Irmão consumiu irmão, amigos mataram uns ao outros com a espada, corpos de pessoas bloquearam os portões." A terra ficou abandonada, animais selvagens devoravam pessoas, matilhas de cães atacavam as pessoas até a morte.

À medida que os seguidores de Marduk continuavam seu avanço, os templos e santuários de outros deuses começaram a ser profanados. O maior sacrilégio foi a violação do templo de Enlil em Nippur, até então o centro religioso mais venerado de todas as terras e por todas as pessoas. Quando Enlil escutou que até mesmo o Santo dos Santos não fora poupado, que no "santo dos santos até o véu fora rasgado", retornou às pressas para a Mesopotâmia. Emitia um brilho "como o de um raio ao descer" dos céus; "cavalgando em frente a ele havia deuses vestidos de luz". Vendo o que acontecera, "o mal de Enlil contra a Babilônia teve de ser planejado". Ordenou que Nabu fosse apanhado e trazido ao Conselho de Deuses, e Ninurta e Nergal receberam essa missão. Mas descobriram que Nabu escapara de seu templo em Borsipa, na fronteira com o Eufrates, para esconder-se entre seus seguidores em Canaã e nas ilhas do Mediterrâneo.

Encontrando-se em conselho, os líderes anunaques debateram o que fazer, discutindo as alternativas "um dia e uma noite, sem cessar". Apenas Enki falou em defesa do filho: "Agora que o príncipe Marduk se ergueu, agora que o povo pela segunda vez ergue sua imagem", por que continua a oposição? Passou uma reprimenda em Nergal por se opor ao irmão; mas Nergal, "perante ele dia e noite sem cessar", argumentou que os sinais do céu estavam sendo lidos de forma errada. "Deixe Shamash - o deus­-Sol- enxergar os sinais e informar as pessoas", disse ele. "Deixe Nanar - o deus-Lua - ao seu sinal olhar e transmitir isso à terra". Referindo-se à constelação cuja identidade era discutida, disse que "entre as estrelas do céu a Estrela da Raposa estava cintilando para ele". Ele enxergava outros sinais - "estrelas ofuscantes do céu que carregam uma espada" -, cometas riscando o firmamento. Ele queria saber o que esses novos presságios significavam.

À medida que a troca entre Enki e Nergal se tornava mais dura, Nergal, "saindo às pressas", anunciou que seria necessário "ativar aquilo que com um manto de radiação está coberto" e portanto fazer com que as "pessoas más perecessem". Não havia forma de impedir a tomada por Marduk e Nabu, a não ser pelo uso das "sete armas monumentais", cujo esconderijo na África apenas ele conhecia. Eram armas que das terras poderiam fazer uma "massa de poeira", cidades iriam "dissolver-se", os mares iriam "agitar-se, e o que vive neles seria dizimado" e as "pessoas desapareceriam, suas almas transformadas em vapor". A descrição das armas e as conseqüências de seu uso as identificam claramente como armas nucleares.

Fora Inana quem lembrara que o tempo estava diminuindo para eles. "Até que o tempo seja preenchido, a hora terá passado", disse ela aos deuses que discutiam; "prestem atenção, todos vocês", disse ela, avisando-os para continuar suas deliberações em particular, a menos que o plano de ataque fosse divulgado para Marduk (presumivelmente por Enki). "Cubram seus lábios, vão para seus aposentos." Na privacidade do templo Emeslam, Ninurta falou: "O tempo passou, a hora passou. Abram o caminho e deixem que eu torne a estrada", disse ele.

A morte estava lançada.

Das várias fontes que se referem a essa corrente de eventos, a principal e mais intacta é o Erra Epic. Descreve com grande detalhe as discussões, os argumentos pró e contra, os temores de que Marduk e seus seguidores controlassem o espaçoporto e suas instalações. Outros detalhes são adicionados pelos Textos Khedorlaomer e inscrições em várias tábuas, tais como aquelas nas Oxford Editions of Cuneiform Texts. Todos descrevem a terrível e inexorável marcha até seu auge, do qual podemos ouvir falar no Gênesis, capítulos 18 e 19: "a insurreição" de Sodoma e Gomorra, e das "cidades más" da planície, "e todos os habitantes das cidades, e tudo o que cresce sobre o chão".

A insurreição e a destruição das "cidades más" da face da Terra foi apenas um show colateral. O alvo principal da ação era o espaçoporto na península do Sinai. "O que foi construído para ser lançado na direção de Anu", o texto mesopotâmico afirma, dele Ninurta e Nergal "causaram a destruição completa; seu rosto foi removido, o lugar ficou desolado". O ano era 2.024 a.C.; as provas - a imensa cavidade no centro do Sinai e as resultantes linhas de fratura, a vasta área plana coberta com pedras escurecidas, traços de radiação ao sul do mar Morto, o novo leito e a nova forma do mar Morto - ainda estão lá, quatro mil anos depois.

Os efeitos posteriores não foram menos profundos e duradouros. A explosão nuclear e seus brilhos, além do impacto que sacudiu a terra, não foram vistos nem sentidos na Mesopotâmia; mas da forma como as coisas aconteceram, a tentativa de salvar a Suméria, seus deuses e sua cultura, na verdade determinou um final para a Suméria e sua civilização.

O final amargo da Suméria e de seus grandes centros urbanos é descrito em numerosos Textos de Lamentações, longos poemas que descrevem a destruição de Ur, Nippur, Uruk, Eridu e outras cidades, mais e menos famosas. Um exemplo das calamidades que recaíram sobre a terra antigamente próspera e orgulhosas são estas que estão listadas no texto Lamentação sobre a Destruição de Ur, um poema longo, de cujos 440 versos citamos uns poucos:

A cidade em ruínas transformada,

O povo reclama...

Pessoas, não vasos em cacos,

Enchiam suas ravinas...

Seus portões enormes, aonde eles iam

Passear, agora estão cheios de cadáveres.

Onde as festividades do povo ocorriam,

O povo está empilhado...

Os jovens estão nos colos das mães,

Como peixes retirados das águas...

O conselho da terra dissipou-se.

Nos armazéns que abundavam na terra, fogos crepitaram...

O boi em seu estábulo não foi cuidado, seu tratador está morto...

Os carneiros em seu rebanho não foram atendidos, o pastor se foi...

Nos rios da cidade, a poeira acumulou-se, tornou-se uma longa trincheira...

Nos campos da cidade não há grãos, o agricultor se foi...

As palmeiras e vinhas, com mel e vinho,

Foram abandonadas, e agora produzem espinhos da montanha...

Metais preciosos e pedras, lápis-lazúli, foram espalhados...

O templo de Ur cedeu ao vento...

A canção tornou-se um lamento...

Ur entregou-se às lágrimas.

Por muito tempo os estudiosos sustentaram que a visão sobre a qual o texto fala descreve a sucessiva porém separada destruição das cidades sumérias pelos invasores do oeste, do leste e do norte. Porém, em As Guerras de Deuses e Homens, sugerimos que não foi assim que ocorreu; que essas lamentações tratam de uma calamidade apenas, uma catástrofe incomum e um desastre súbito, contra os quais não havia defesa, proteção ou esconderijos. Essa visão, súbita e calamitosa, agora é aceita pelos acadêmicos; o que resta ainda ser aceito é a evidência que apresentamos de que a calamidade estava ligada à "rebelião" das "cidades ruins" e ao espaçoporto a oeste. Foi o desenvolvimento inesperado de um vácuo atmosférico, criando um enorme turbilhão e uma tempestade, que carregou a nuvem radiativa para o leste ­na direção da Suméria.

Os vários textos aceitáveis e não apenas os de lamentação falam com clareza sobre a calamidade, como uma tempestade que não se pode parar, um Vento Mau, claramente identificado com o dia inesquecível em que uma explosão nuclear ocorreu próximo à costa do Mediterrâneo:

Nesse dia,

Quando o céu foi esmagado

E a terra foi atingida,

Seu rosto obliterado pelo rodamoinho...

Quando os céus escureceram e se cobriram com uma sombra...

Nesse dia havia sido criado

Uma grande tempestade do céu...

Uma tempestade destruidora...

Um vento mau, como uma torrente que vem

Uma tempestade de guerra, com um calor insuportável...

De dia a terra foi privada do sol brilhante,

Durante a noite as estrelas não brilharam...

O povo, apavorado, mal podia respirar;

O Vento Mau os agarrou, não lhes concedeu nem mais um dia...

Bocas ficaram manchadas de sangue, cabeças rolaram no sangue...

O rosto ficava pálido com o Vento Mau.

Depois que a nuvem do mal se deslocou, "depois que a tempestade passou, a cidade transformou-se em desolação":

Cidades ficaram desoladas,

Casas ficaram desoladas,

Estábulos ficaram desolados,

Cercados de ovelhas ficaram vazios...

Dos rios da Suméria começou a fluir

Uma água amarga;

Os campos cultivados deram ervas daninhas,

Os pastos produziram ervas doentes.

Foi uma tempestade que trouxe a morte e colocou em perigo até os deuses. As listas de lamentações apresentam todas as cidades importantes da Suméria como lugares onde os deuses abandonaram seus lares, templos e santuários - na maioria dos casos para não voltar mais. Alguns escaparam às pressas da nuvem que se aproximava, "voando como pássaros". Inana, tendo velejado para um porto seguro, mais tarde queixou-se de que teve de deixar para trás jóias e outras posses. A história, porém, não foi a mesma em todos os locais. Em Ur, Nanar e Ningal se recusaram a abandonar seus seguidores e pediram ao grande Enlil que fizesse o possível para evitar o desastre, porém Enlil respondeu que o destino de Ur não podia ser alterado. O casal divino passou uma noite de pesadelos em Ur: "da corrupção da noite eles não fugiram", escondendo-se sob o chão, "como cupins". Porém, pela manhã Ningal percebeu que Nanar/Sin fora afetado e "colocando uma roupa com rapidez" partiu da amada Ur com o companheiro abalado. Em Lagash, onde Bau ficara na Girsu e Ninurta estava fora, a deusa não conseguia encontrar forças para sair. Ficando para trás, "ela chorou amargamente por seu templo e por sua cidade". A demora quase lhe custou a vida: "Naquele dia, a tempestade alcançou-a, a Senhora". (De fato, alguns estudiosos atribuem esses versos de lamentação para indicar que Bau na verdade perdera a vida: "Bau, como se fosse mortal, foi alcançada pela tempestade".)

Passando sobre a Suméria e a Acádia, a nuvem do Vento Mau tocou Eridu, a capital de Enki, ao sul. Enki estava distante do caminho do vento, mas ainda assim próximo o suficiente para retornar tão logo o vento passou. Descobriu a cidade "silenciosa, seus moradores empilhados". Mas aqui e ali havia sobreviventes, e Enki os levou para o sul, para o deserto. Era uma "terra hostil", inabitável; porém, usando suas habilidades científicas, Enki - como Iavé, meio milênio mais tarde no deserto do Sinai - conseguiu miraculosamente providenciar água e comida para "aqueles que foram expulsos de Eridu".

Como que por obra do destino, a Babilônia, situada na margem norte do Vento Mau, foi a menos afetada de todas as cidades da Mesopotâmia. Alertado e avisado por seu pai, Marduk fez com que o povo da cidade saísse e fosse para o norte; em palavras semelhantes ao conselho do anjo para Lot e sua família, que fugiram de Sodoma, Marduk disse aos que fugiam: "Não se virem, nem olhem para trás". Se a fuga não fosse possível, foram avisados para "entrar num quarto sob a terra, na escuridão". Uma vez que o Vento Mau passou, não comeram nem beberam nada da cidade, pois os alimentos poderiam ter sido "tocados pelo fantasma".

Quando finalmente o ar ficou limpo, todo o sul da Mesopotâmia estava arrasado. "A tempestade esmagou a terra, varreu tudo... ninguém anda pelas estradas, ninguém procura o crescimento doentio das plantas... nos pomares e jardins havia um novo tipo de crescimento, que com rapidez foi eliminado... nos estábulos, o gado grande e pequeno tornou-se raro... Os rebanhos de ovelhas foram dizimados pelo vento.”

A vida só recomeçou a fluir ali depois de sete anos. Com o apoio de soldados elamitas e de Gutian, leais a Ninurta, um arremedo de sociedade formou-se nas proximidades dos grandes centros, Isin e Larsa. Foi só depois da passagem de setenta anos - o mesmo intervalo que mais tarde se aplicou à restauração do templo em Jerusalém - que o templo em Nippur foi restaurado. Mas os "deuses que determinam os destinos", Anu e Enlil, não viam propósito em reviver o passado. Como Enlil dissera a Nanar/Sin quando este fora pedir por Ur:

Ur recebeu o reinado...

Não lhe foi garantido um reino eterno.

Marduk vencera. No espaço de poucas décadas, sua visão de um rei na Babilônia que seria guiado por sua mão, que iria reconstruir a cidade, elevar seu zigurate Esagil - se tornara verdadeira. Depois de um início brusco, a Primeira Dinastia da Babilônia conseguiu o poder e a segurança expressos por Hamurabi:

Magnífico Anu, Senhor dos Deuses

Que dos Céus para aTerra vieram,

E Enlil, Senhor do Céu e da Terra,

Que determina os destinos da terra,

Determinou para Marduk, o primogênito de Enki,

As funções de Enlil para a humanidade;

Tornou-o grande entre os deuses que olham e vêem,

Proclamou que o nome da Babilônia fosse exaltado,

Tornou-a suprema no mundo;

E estabeleceu para Marduk um reinado eterno.

No Egito, que não fora afetado pela nuvem nuclear, a transição para a Era do Carneiro começou logo após a vitória tebana e o estabelecimento das dinastias do Médio Império. Quando as comemorações do Ano Novo, coincidindo com a enchente do Nilo, foram ajustadas para a Nova Era, os hinos a Amon-Rá o louvavam:

Ó Brilhante

Que brilha nas águas da enchente.

Ele que ergueu sua mão e ergueu a testa:

Ele do Carneiro, a maior das criaturas celestes.

Sob o Novo Império, as avenidas dos templos foram enfeitadas com imagens do Carneiro; no grande templo de Amon-Rá, em Karnak, num posto secreto de observação que seria aberto no dia do solstício de inverno para deixar que os raios do sol atingissem o Santo dos Santos, as seguintes instruções estavam escritas para os astrônomos-sacerdotes:

Sobe-se pelo corredor chamado Horizonte do Céu.

Sobe-se o Aha, "Lugar solitário da alma majestosa",

A sala elevada para observar o Carneiro que veleja pelos céus.

Na Mesopotâmia, lenta mas inexoravelmente a ascendência da Era do Carneiro foi reconhecida pelas mudanças no calendário e nas listas de estrelas celestes. Tais listas, que costumavam iniciar com o Touro, agora começavam com o Carneiro; e para Nissan, o mês do equinócio de primavera e o Ano Novo, o zodíaco de Áries, ao contrário do de Touro, foi escrito no interior. Um exemplo disso é o astrolábio da Babilônia ("tomador de estrelas") que discutimos anteriormente na conexão com a origem da divisão em 36 segmentos. Está claramente anotada a estrela Iku como o corpo celeste para o primeiro mês de Nissan. Iku era a estrela principal da constelação do Carneiro; ainda é conhecida por seu nome árabe, Ramal, que significa "carneiro".

A Nova Era chegara, nos céus e na Terra.

Devia dominar os dois milênios seguintes e a astronomia que os "caldeus" haviam transmitido aos gregos. Quando, nos anos finais do século IV a.C., Alexandre acreditou que tinha direito ­ como Gilgamesh, 2.500 anos antes - à imortalidade, porque seu pai verdadeiro era o deus egípcio Amon, ele foi até o oráculo no deserto, a oeste do Egito para procurar confirmação. Tendo-a recebido, cunhou moedas de prata com sua imagem, adornada com os chifres do Carneiro.

Alguns séculos mais tarde, o Carneiro se dissolveu e foi substituído pelo signo de Peixes. Porém isso, como se diz, já virou história.

13

Conseqüências

Para estabelecer sua supremacia na Terra, Marduk buscou estabelecer sua supremacia nos céus. Um grande veículo para esse fim foi a importante comemoração anual do Ano Novo, quando a Epopéia da Criação era lida publicamente. Tratava-se de uma tradição cujo propósito era acostumar a população não apenas com a cosmogonia básica, a história da Evolução e a chegada dos anunaques, mas também funcionar como uma forma de afirmar e reinstalar crenças religiosas básicas em relação a deuses e homens.

A Epopéia da Criação era assim um veículo útil e poderoso para doutrinação e recondicionamento religioso; como um de seus primeiros atos, Marduk instituiu uma das maiores falsificações que já existiu: a criação de uma versão babilônica do épico na qual o nome "Marduk" substituía "Nibiru". Assim Marduk, deus celeste, que viera do espaço exterior, combatera Tiamat, criara a "Pulseira Feita a Martelo" (O Cinturão de Asteróides) e a Terra das metades de Tiamat, reorganizara o Sistema Solar e tornara-­se o Grande Deus cujas órbitas circulam e abraçam "como um anel" aquelas de todos os outros deuses celestes (planetas), tornando-os subordinados à majestade de Marduk. Assim, todas as coisas contidas nesse anel, as órbitas, os ciclos e os fenômenos, passaram a ser vistos como a obra-prima de Marduk: era ele quem determinava o Tempo Divino por sua órbita, o Tempo Celeste ao definir as constelações e o tempo terrestre ao dar à Terra sua posição atual e o eixo. Fora também Marduk quem impedira Kingu, o maior satélite de Tiamat, de tornar-se independente, transformando-o no satélite da Terra, a Lua, que diminui e aumenta, marcando os meses.

Reorganizando os céus dessa forma, Marduk não esqueceu de acertar determinadas inimizades pessoais. No passado, Nibiru, como o planeta natal dos anunaques, era a habitação de Anu e assim associado a ele. Tendo-se apropriado de Nibiru como seu, Marduk relegou Anu a um planeta menor - um que agora chamamos de Urano. O pai de Marduk, Enki, estava originalmente associado à Lua; agora, Marduk lhe dava a honra de ser o planeta "número um" - o mais longínquo, que hoje chamamos Netuno. Para ocultar a falsidade e fazê-la aparecer como se sempre fosse assim, a versão babilônica da Epopéia da Criação (chamada de Enuma Elish pelas duas primeiras palavras do texto) empregava a terminologia suméria para designar os planetas, chamando o planeta de NUDIMMUD, o "Artista Criador" ­que era precisamente o que o epíteto egípcio para Enki, Khnum, significava.

Um equivalente celeste foi necessário para o filho de Marduk, Nabu. Para conseguir isso, o planeta que agora chamamos Mercúrio, que estava associado ao filho mais novo de Enlil, Ishkur/Adad, foi desapropriado e redirecionado para Nabu. Sarpanit, a esposa de Marduk, a quem ele devia sua libertação da Grande Pirâmide e a comutação da sentença de ser enterrado vivo para exílio (o primeiro dos dois que ele enfrentou), não foi esquecida. Acertando as contas com Inana/Ishtar, ele a retirou da associação celeste com Vênus e entregou o planeta a Sarpanit. (Na verdade, enquanto a mudança de Adad para Nabu foi parcialmente aceita na astronomia babilônica, a de mudar Ishtar para Sarpanit não funcionou.)

Enlil era onipotente demais para ser deixado de lado. Ao invés de mudar a posição celeste de Enlil (como deus do sétimo planeta, a Terra), Marduk apropriou-se para ele mesmo da associação ao número cinqüenta, que era o número de Enlil, só um ponto abaixo do sessenta de Anu (Enki ficara com o número quarenta). Essa apropriação foi incorporada pelo Enuma Elish ao listar, na sétima e última tábua do épico, os Cinqüenta Nomes de Marduk. Começando com seu próprio nome, "Marduk", e terminando com o novo nome celeste, "Nibiru", sendo a lista acompanhada de extensas explicações do significado de cada nome.

Quando a leitura dos cinqüenta nomes durante a festa de Ano Novo se completava, não havia conquista, obra criativa, benevolência, qualidades e supremacias que tivessem ficado de fora... "Com os Cinqüenta Nomes os Grandes Deuses o proclamaram; com o título Cinqüenta eles o fizeram supremo", afirmam os últimos dois versos do épico. Um epílogo, acrescentado pelo escriba-­sacerdote, tornou obrigatória a leitura dos Cinqüenta Nomes na Babilônia.

Deixe que eles permaneçam na mente,

Deixe que o chefe os explique;

Deixe os sábios e conhecedores discuti-los juntos;

Deixe que o pai os recite e os transmita a seu filho.

A tomada de Marduk da supremacia nos céus foi acompanhada por uma mudança religiosa paralela na Terra. Os outros deuses, os líderes anunaques - até mesmo seus adversários diretos -, não foram punidos ou eliminados. Ao invés disso foram declarados subordinados a Marduk por meio do estratagema de declarar que vários dos seus atributos e poderes haviam sido transferidos para ele. Se Ninurta era conhecido como deus da agricultura, que dera ao homem essa capacidade fazendo represas e canais de irrigação, a função agora pertencia a Marduk. Se Adad era o rei da chuva e tempestade, Marduk passava a ser o "Adad das chuvas". A lista, apenas parcialmente disponível numa tábua babilônica, começa como se segue:

Ninurta = Marduk do cultivo

Nergal = Marduk do ataque

Zababa = Marduk do combate corpo a corpo

Enlil = Marduk do poderio e conselho

Nabium = Marduk dos números e da contagem

Sin = Marduk, o iluminador da noite

Shamash = Marduk da justiça

Adad = Marduk das chuvas

Alguns estudiosos especularam que nessa concentração de poderes divinos em uma única mão, Marduk introduzira o conceito de um deus onipotente - um passo na direção do monoteísmo dos profetas bíblicos. Porém isso apenas confunde a crença em um Deus Todo-Poderoso com uma religião em que um dos deuses é superior aos outros. Nas palavras do Enuma Elish, Marduk tornou-se "o Enlil dos deuses", seu "Senhor".

Não residindo mais no Egito, Marduk/Rá se torna Amen, "O que não é Visto". Apesar disso, os hinos no Egito proclamavam sua supremacia, concordando com a nova teologia de que ele se tornara o "deus dos deuses", "mais poderoso em força que os outros deuses". Num conjunto desses hinos, compostos em Tebas e descobertos no texto que ficou conhecido como os Papiros Leiden, os capítulos iniciam com a descrição sobre como depois de as "ilhas no meio do Mediterrâneo" reconhecerem seu nome como "elevado e poderoso e forte", o povo dos "países nas colinas veio a ti maravilhado; cada país rebelde se encheu de terror". Listando outras terras que mudaram sua obediência para Amen-Rá, o sexto capítulo descreve a chegada do deus na terra dos deuses - da forma que entendemos, a Mesopotâmia - e a construção, lá, do novo templo de Amon - o Esagil, segundo nossa interpretação. O texto se parece com aquele da descrição de Gudea de todos os materiais raros de construção trazidos de terras próximas e longínquas: "As montanhas cedem seus blocos de pedra para ti, a fim de fazer os grandes portões de teu templo; embarcações fizeram-se ao mar, nos portos estão outros navios, carregados e navegados para tua presença". Cada terra, cada povo, enviou ofertas de boa vontade.

Porém não apenas o povo prestava suas homenagens a Amen; os outros deuses, também. Aqui estão alguns versos do papiro que aponta Amen-Rá como rei dos deuses:

A companhia dos deuses que vieram do céu reuniu-se, anunciando:

Grande em sua glória. Senhor dos Senhores... Ele é o Senhor!

Os inimigos do Senhor Universal foram vencidos;

Seus inimigos no Céu e na Terra não existem mais.

És triunfante, Amen-Rá.

És o deus mais forte em poder do que todos os outros deuses.

És o Deus Único.

Deus Universal:

Mais forte do que todas as cidades em tua cidade, Tebas.

Engenhosamente, a política não era eliminar os outros anunaques, mas controlá-los e supervisioná-los. Quando, em seu tempo, o terreno sagrado do Esagil foi construído com a grandeza apropriada, Marduk convidou as outras divindades para ir à Babilônia e ali residir, em santuários especiais, construídos para cada um no terreno. A sexta tábua do épico, em sua versão babilônica, afirma que o próprio templo de Marduk estava completo, e os santuários para outros anunaques foram erigidos. Marduk convidou a todos para um banquete. "Esta é a Babilônia, o lugar que é vossa casa!", disse ele. Concordando com essa afirmação, os outros deuses tornariam o nome Babilônia pleno de significado - Bab-ili, o "Portal dos Deuses".

Segundo essa versão babilônica, os outros deuses sentaram­-se em frente ao magnífico trono que Marduk fizera para si mesmo. Entre eles estavam "os sete deuses do destino". Depois do banquete e de todos os rituais, após verificar que as normas estavam de acordo com todos os presságios".

Enlil ergueu o arco, sua arma,

E a depositou perante os deuses.

Reconhecendo a declaração simbólica de "coexistência pacífica" pelo líder dos enlilitas, Enki falou:

Possa nosso filho, o Vingador, ser exaltado;

Que sua realeza não seja ultrapassada,

Que não tenha rival.

Possa ele pastorear a raça humana até o final dos dias;

Sem esquecer, deixai-o escolher seus caminhos.

Enumerando todos os deveres de adoração que as pessoas deviam realizar em honra a Marduk e aos outros deuses reunidos na Babilônia, Enki disse aos anunaques:

Quanto a nós, pelos nomes pronunciados,

Ele é nosso deus!

Vamos agora proclamar os Cinqüenta Nomes!

Ao proclamar os Cinqüenta Nomes - garantindo a Marduk a posição que fora de Enlil e Ninurta -, Marduk tornou-se o Deus dos Deuses. Não apenas um Deus, mas o deus ao qual todos os outros prestam obediência.

Se a nova religião proclamada na Babilônia era um eco distante de uma teologia monoteísta, os acadêmicos (especialmente na virada do século) perguntaram-se e discutiram calorosamente até que ponto a idéia de uma Trindade se originara na Babilônia. Era reconhecido que a nova religião da Babilônia enfatizava a linhagem Enki-Marduk-Nabu e que a divindade do Sol era obtida de um pai celeste. Ficava claro que Enki referia-se a ele como "nosso filho", e que o próprio nome dele, MAR.DUK significava "Filho do Lugar Puro" (P. Jensen), "Filho da Montanha Cósmica" (B. Meissner), "Filho do Dia Brilhante" (F. J. Delitzsch), "Filho da Luz" (A. Deimel), ou simplesmente "O Filho Verdadeiro" (W. Paulus). O fato de todos esses assiriólogos importantes serem alemães devia-se primariamente ao declarado interesse que a Deutsche Orient-Gesellschaft - uma sociedade arqueológica que também servia os terminais políticos e de reunião de informações da Alemanha - dedicou a uma série de eventos contínuos em escavações na Babilônia desde 1899 até quase o final da Primeira Guerra Mundial, quando o Iraque foi perdido para os britânicos em 1917. A escavação da antiga Babilônia (embora os restos sejam, em sua maioria, aqueles do século 7 a.C) em meio à percepção cada vez maior de que as histórias da criação bíblica eram de origem mesopotâmica, levou a uma série de aquecidos debates sob o tema Babel und Bibel - A Babilônia e a Bíblia, partindo daí para outros, teológicos. Depois da história do aprisionamento de Marduk e de seu subseqüente reaparecimento para tornar-se a divindade dominante, os estudos perguntavam: era Marduk Urtyp Christie? (como dizia o título de um deles, escrito por Witold Paulus).

A questão, jamais resolvida, foi deixada de lado à medida que a Europa pós-Primeira Guerra Mundial, e especialmente a Alemanha, passaram a enfrentar problemas mais urgentes. O que é certo é que a Nova Era que Marduk e a Babilônia introduziram por volta de 2.000 a.C manifestou-se como uma nova religião, um politeísmo no qual um deus dominava todos os outros.

Revendo quatro milênios de religião mesopotâmica, Thorkild Jacobsen (The Treasures of Darkness) identifica como mudança principal no início do segundo milênio a.C. o aparecimento de deuses nacionais em vez dos deuses universais dos dois milênios anteriores. A pluralidade dos poderes divinos, escreve Jacobsen, "requeria a capacidade de distinguir, avaliar e escolher" não apenas entre deuses, mas também entre o bem e o mal. Ao assumir os poderes de todos os outros deuses, Marduk aboliu tais escolhas. Jacobsen escreveu (num estudo intitulado Toward the Image of Tammuz): "O caráter nacional de Marduk criou uma situação na qual religião e política se tornaram intricadamente ligadas", onde os deuses "por meio de sinais e presságios ativamente guiavam as políticas de seus países".

A emergência de líderes políticos e religiosos por "sinais e presságios" foi realmente a maior inovação dessa Nova Era. Não foi um aspecto surpreendente, por causa da importância que os sinais e presságios celestes vinham representando para determinar o verdadeiro início da mudança zodiacal e ao decidir quem se tornaria supremo na Terra. Por muitos milênios, foi a palavra dos Sete que Determinam os Destinos, Anu, Enlil e os outros líderes anunaques, que forjou as decisões que afetavam os anunaques; Enlil, sozinho, era o Senhor do Governo, no que se referia à humanidade. Agora, sinais e profecias celestes guiavam as decisões.

Nos "textos das profecias" (um dos quais acabamos de citar) os deuses principais desempenham seu papel coadjuvante ou dentro do contexto das profecias celestes. Na Nova Era, as profecias celestes - conjunções planetárias, eclipses, halos lunares, campos de estrelas e assim por diante - eram suficientes em si mesmas, não havia intervenção nem participação direta: os céus já narravam os fatos.

Textos babilônicos e aqueles de nações vizinhas no segundo e no primeiro milênios a.C. estão repletos dessas profecias e de suas interpretações. Toda uma ciência, se assim pode ser chamada, desenvolveu-se com o tempo, com sacerdotes beru (a melhor tradução seria "adivinhos") por perto, a fim de interpretar observações de fenômenos celestes. No início as predições, continuando uma tendência que se iniciou na época da Terceira Dinastia de Ur, preocupavam-se com assuntos de Estado - o destino do rei e sua dinastia e a sorte da terra:

Quando um halo cercar a Lua e Júpiter estiver no interior,

Haverá uma invasão do exército de Aharru.

Quando o Sol atingir seu zênite e ficar escuro,

A injustiça da terra desaparecerá.

Quando Vênus aparecer próximo a Escorpião,

Tendências malévolas chegarão à terra.

Quando no monte Shiwan Vênus aparecer em Câncer,

O rei não terá rival.

Quando um halo cercar o Sol e sua abertura apontar para o sul,

Um vento sul soprará.

Se um vento sul soprar no dia em que a Lua desaparecer,

Choverá dos céus.

Quando Júpiter aparecer no começo do ano,

Nesse ano o milho será abundante.

As "entradas" dos planetas nas constelações zodiacais eram de particular importância, assim como os signos de influência sobre o planeta (bom ou mau). As posições dos planetas no interior das constelações zodiacais eram descritas pelo termo Manzallu ("estações"), do qual deriva o plural hebraico Mazzaloth (Reis II, 23:5), e de onde se desenvolveu Mazal ("sorte, fortuna"), capaz de trazer boa ou má sorte.

Tendo em vista que não apenas as constelações e os planetas mas também os meses foram associados a vários deuses - alguns, na época da Babilônia, adversários de Marduk -, o tempo dos fenômenos celestes cresceu em importância. Uma profecia, por exemplo, dizia: "Se a Lua sofrer um eclipse no mês de Ayaru, na terceira vigia" e certos outros planetas estiverem em determinadas posições, "o rei de Elam cairá por sua própria espada... seu filho não ocupará o trono; o trono de Elam ficará vazio".

Um texto babilônico numa grande tábua (VAT-10564) era dividido em doze colunas que continham instruções sobre o que podia ou não ser feito em determinados meses: "Um rei pode construir um templo ou reformar um local sagrado apenas em Shebat e Adar... Uma pessoa deve voltar para sua casa em Nissan". O texto, chamado por S. Langdon (Babylonian Menologies and the Semitic Calendar) de "O Grande Calendário da Igreja da Babilônia", listava então os meses de sorte e de azar, até mesmo dias ou meios-dias, para atividades pessoais (tais como o momento mais favorável para trazer uma nova esposa para a casa).

As profecias, presságios e instruções mais e mais assumiam um caráter pessoal, beirando o horóscopo. Iria determinada pessoa, não necessariamente o rei, se recuperar de uma doença? Será que a mãe grávida iria dar à luz uma criança saudável? Se determinados tempos ou profecias fossem de azar, como poderíamos afastar esse azar? Com o tempo, encantamentos foram criados para esse propósito; um texto, por exemplo, na verdade fornecia os dizeres a serem recitados para prevenir a perda de pêlos da barba, apelando para "a estrela que dava a luz" com fórmulas especiais. Tudo isso era seguido pela apresentação de amuletos nos quais os versos de proteção estavam escritos. O material do amuleto (geralmente era usado com um cordão em volta do pescoço) podia também fazer diferença. Se feito de hematita, "o homem poderia perder aquilo que adquiriu". Por outro lado, um amuleto feito de lápis-lazúli assegurava que "teremos poder".

Na famosa biblioteca do rei assírio Assurbanipal, os arqueólogos encontraram mais de duas mil tábuas de argila com textos de fórmulas mágicas. Embora a maioria tratasse de fenômenos celestes, nem todos eram assim. Alguns tratavam de sonhos proféticos, outros da interpretação dos signos do "óleo e da água" (o padrão determinado pelo óleo ao ser derramado na água), ou mesmo do significado das entranhas de animais, como apareciam no momento do sacrifício. O que costumava ser astronomia tornou-se astrologia, e a astrologia foi seguida por adivinhações, leitura de sorte e feitiçaria. R. Camblell Thompson reuniu provavelmente a maior coleção de textos de profecias em The Reports of the Magicians and Astrologers of Nineveh and Babylon.

Por que a Nova Era trouxe tudo isso à tona? Beatrice Goff (Symbols of Prehistoric Mesopotamia) identificou a causa como a queda do cenário do deus-sacerdote-rei, que mantivera a sociedade funcionando no milênio anterior. "Não havia aristocracia, nem os sacerdotes, nem intelligentsia" para evitar a situação em que "todos os assuntos estavam inextricadamente entrelaçados com essas práticas "mágicas". A astronomia se tornou astrologia, porque, com os Deuses Antigos desaparecidos de seus "centros de culto", as pessoas procuravam pelo menos por sinais e presságios para guiá-las em tempos turbulentos.

Realmente, mesmo a astronomia em si não era mais o que fora durante dois milênios de conquistas sumérias. A despeito da reputação e da alta estima em que a astronomia "caldéia" era tida pelos gregos na segunda metade do primeiro milênio a.C., era uma astronomia estéril e um eco distante daquela praticada na Suméria, onde tantos princípios, métodos e conceitos nos quais a astronomia moderna é fundamentada se originaram. "É difícil existir outro capítulo na história da ciência em que haja uma lacuna profunda entre as descrições geralmente aceitas do período e os resultados que emergiram lentamente de uma investigação detalhada do material de origem", escreveu O. Neugebauer em The Exact Sciences in Antiquity. "É evidente que a teoria matemática desempenhou um papel primordial na astronomia da Babilônia quando comparada com o papel modesto das observações." Essa "teoria matemática", conforme revelaram os estudos das tábuas astronômicas, eram colunas e colunas de números impressos - usamos esse termo de forma proposital - em tábuas de argila como se fossem impressões de computadores!

Não muito diferente dos códices astronômicos dos maias, que continham páginas e páginas de glifos relativos ao planeta Vênus, porém sem nenhuma indicação de que fossem baseados em observações maias, mas seguidos de alguma fonte dos dados, a lista babilônica de posições previstas do Sol, da Lua e dos planetas visíveis era extremamente detalhada e precisa. Na versão babilônica, entretanto, a lista das posições chamadas efemérides era acompanhada dos procedimentos em tábuas relacionadas nos quais as regras para calcular as efemérides eram fornecidas passo a passo; continham instruções sobre como calcular - com até cinqüenta anos de avanço - eclipses lunares, levando em conta dados das colunas que tratavam das velocidades orbitais do Sol e da Lua e outros fatores necessários. Mas, para citar a obra de O. Neugebauer, Astronomical Cuneiform Texts, "esses textos de procedimento infelizmente não contêm muito do que chamamos de 'teoria' para apoiar o método".

Ainda assim, "tal teoria deve ter existido, porque é impossível divisar esquemas de cálculos altamente complicados sem um plano muito elaborado". Fica claro desde o primeiro escrito e na disposição regular das colunas cuidadosamente dispostas, afirma Neugebauer, que essas tábuas babilônicas eram cópias meticulosas feitas de fontes preexistentes, já arranjadas de forma compreensiva. A matemática em que essas séries são baseadas é a de base sexagesimal dos sumérios, e a terminologia usada - de constelações zodiacais, nomes de meses, e mais de cinqüenta termos astronômicos - era puramente suméria. Não deve, portanto, haver dúvida de que a fonte de dados babilônicos foram os sumérios; todos os babilônios sabiam como usá-las, traduzindo para o babilônio os "textos sumérios de procedimento".

Não foi senão no século VIII ou VII a.C. que a astronomia, no que chamamos hoje de período neobabilônico, reassumiu seus aspectos de observação. Esses foram gravados no que os estudiosos (A. J. Sachs e H. Hunger, Astronomical Diaries and Related Texts from Babylonia) chamam de "diários dos astrônomos". Acredita-se que a astronomia e astrologia helenística, persa e hindu derivam desses dados.

O declínio e deterioração manifestos na astronomia eram sintomáticos de um declínio geral e da regressão nas ciências, artes, leis e quadro social.

É difícil citar uma contribuição para a cultura e a civilização da Babilônia que ultrapasse ou mesmo iguale as incontáveis novidades dos sumérios. O sistema sexagesimal e as teorias matemáticas foram aprendidos sem aperfeiçoamentos. A medicina se deteriorou para tornar-se pouco mais do que feitiçaria. Não é de se espantar que tantos acadêmicos, ao estudar esse período, considerem a época em que a Velha Era Suméria do Touro do Céu deu lugar ao Carneiro da Babilônia como uma "época de escuridão".

Os babilônios, assim como os assírios e outros que se seguiram, conservaram - quase até a era dos gregos - a escrita cuneiforme que os sumérios haviam introduzido (baseada, como mostramos em Gênesis Revisitado, em teorias sofisticadas de geometria e matemática). Porém ao invés de receber quaisquer melhoramentos, as velhas tábuas babilônicas eram escritas com sinais menos refinados. As muitas referências sumérias a escolas, professores e lições de casa não existiam nos séculos que se seguiram. Encerrada estava a tradição de criação literária que transmitiu a gerações futuras, incluindo a nossa, textos de "sabedoria", poesia, provérbios, parábolas e não menos importantes "mitos" que proporcionaram dados relativos ao Sistema Solar, Céu e Terra, aos anunaques e à criação do homem. Esses, devemos apontar, são gêneros literários que reaparecem apenas na Bíblia Hebraica, cerca de um milênio depois. Um século e meio de pesquisas sobre textos babilônicos, e inscrições feitas por governantes se vangloriando de conquistas e campanhas militares, de quantos prisioneiros foram feitos, ou de quantas cabeças foram cortadas, ao passo que os reis sumérios (como por exemplo, Gudea) se vangloriavam em seus textos da construção de templos, escavação de canais, da realização de belos trabalhos de arte.

Uma certa rusticidade e vulgaridade substituiu a compaixão e a elegância anteriores. O rei babilônio Hamurabi, o sexto do que chamamos de Primeira Dinastia da Babilônia, ficou conhecido por seu código legal, o famoso "Código de Hamurabi". Entretanto, tratava-se apenas de uma lista de crimes e seus castigos ­ enquanto mil anos antes os reis sumérios haviam promulgado códigos de justiça social, com leis protegendo as viúvas, os órfãos, os fracos, e decretando que "não tirarás o asno de uma viúva", ou "não atrasarás o salário de um trabalhador diário". Mais uma vez, o conceito sumério de lei, voltado diretamente para a conduta humana, ao invés de punir as faltas, reaparece apenas nos Dez Mandamentos bíblicos, cerca de seis séculos depois da queda da Suméria. Os governantes sumérios valorizavam o termo EN.SI - "Pastor Justo". O governante selecionado por Inana para reinar sobre Agade (Acádia), a quem chamamos de Sargão I, ostentava o nome-epíteto de Sarru-kin, "Rei Justo". Os reis babilônios (e os assírios, mais tarde) chamavam a si mesmos de "rei das quatro regiões" e se vangloriavam de ser "rei de reis" ao invés de "pastores" do povo. (Foi muito simbólico que o maior rei hebraico tenha sido um pastor.)

Ficaram faltando na Nova Era palavras de amor e carinho. Isso pode parecer um item insignificante no meio de uma longa lista de mudanças para pior; mas acreditamos que seja a manifestação de uma atitude profunda que vai do alto até embaixo ­do próprio Marduk.

A poesia da Suméria incluía um número substancial de poemas de amor e sobre fazer amor. Alguns, é verdade, estavam relacionados a Inana/Ishtar e ao relacionamento apaixonado com seu noivo, Dumuzi. Outros eram recitados ou cantados por reis para esposas divinas. Outros ainda eram devotados à noiva e ao noivo comuns, ou a maridos e mulheres, ou ao amor e a compaixões maternos e paternos. (Mais uma vez, esse gênero reaparece apenas depois de muitos séculos na Bíblia Hebraica, no Cântico dos Cânticos.) Parece a nós que essa omissão na Babilônia não era acidental, mas parte de um declínio geral no papel das mulheres e de seu status em relação aos tempos sumérios.

O papel notável das mulheres em todos os aspectos da vida na Suméria e na Acádia e sua nítida decadência com a ascensão da Babilônia foram ultimamente revistos e documentados em estudos especiais e em várias conferências internacionais, tais como as "Conferências Convidadas sobre o Oriente Médio na Universidade do Texas, em Austin", publicado em 1976 (The Legacy of Sumer) por Denise Schmandt-Besserat como editora, e os procedimentos do Trigésimo Terceiro Reencontro Assiriológico Internacional, em 1986, cujo tema era "A Mulher no Oriente Próximo Antigo". As evidências reunidas mostram que na Suméria e na Acádia as mulheres não se envolviam apenas em trabalhos caseiros, como fiar, tecer, tirar leite ou cuidar da casa e da família, mas também eram "profissionais produtivos", como médicas, parteiras, enfermeiras, governantas, professoras, esteticistas e cabeleireiras. As evidências textuais em tábuas recentemente descobertas aumentam as representações das mulheres em suas variadas tarefas desde os tempos mais antigos, que as mostram como cantoras e músicas, bailarinas e organizadoras de banquetes.

As mulheres eram também importantes nos negócios e na administração de propriedades. Foram encontrados registros de mulheres administrando as terras da família e supervisionando seu cultivo, depois organizando a comercialização dos produtos resultantes. Isso era especialmente verdadeiro para as "famílias importantes" da corte. Mulheres da corte administravam os templos e as vastas propriedades, e as filhas não serviam apenas como sacerdotisas (das quais existiam três classes) mas até como altas sacerdotisas. Já mencionamos Enheduanna, a filha de Sargão I, que compôs uma série de hinos memoráveis para os grandes tem­plos-zigurates da Suméria. Ela serviu como alta sacerdotisa no templo de Nanar em Ur (sir Leonard Woolley, que realizou escavações em Ur, encontrou uma placa redonda representando Enheduanna realizando uma cerimônia de libação). Sabemos que a mãe de Gudea, Gatumdu, era uma alta sacerdotisa no Girsu de Lagash. Por meio da história suméria, outras mulheres tiveram posições elevadas nos templos e hierarquias sacerdotais. Não existe registro de situações análogas na Babilônia.

A história do papel feminino na corte não era muito diferente. É preciso recorrer a fontes gregas para encontrar menção a uma rainha governante (diferente de uma rainha-consorte) na história da Babilônia - a história da lendária Semíramis, que, de acordo com Heródoto (I, 184), "manteve o trono da Babilônia" nos tempos antigos. Os acadêmicos foram capazes de estabelecer que ela era uma personagem histórica, Shammu-ramat. Ela reinou na Babilônia, mas apenas porque seu marido, o rei assírio Shamshi-Adad, havia capturado a cidade em 811 a.C. Serviu como regente real por cinco anos depois da morte do marido, até que seu filho Adad-Nirari III pudesse assumir o trono. "Essa dama", escreveu H. W. F. Saggs em The Greatness that Was Babylon, "foi obviamente muito importante", porque "excepcionalmente para uma mulher, ela foi mencionada junto com o rei, numa inscrição dedicada".

Rainhas-consortes e rainhas-mães foram mais freqüentes na Suméria, mas a Suméria também podia vangloriar-se da primeira rainha por seu próprio direito, ostentando o título LU.GAL ("Grande Homem") que significava "rei". Seu nome era Ku-Baba; ela foi registrada na Lista de Reis Sumérios como "a que consolidou as fundações do Kish" e dirigiu a Terceira Dinastia de Kish. Podem ter existido outras rainhas como ela durante a época dos sumérios, mas os acadêmicos não têm certeza de seu papel (se foram apenas rainhas-consortes ou regentes para um filho ainda novo).

É digno de nota que mesmo nas representações sumérias mais arcaicas, em que os homens eram mostrados nus, as mulheres estavam vestidas; as exceções eram representações de relações sexuais, nas quais ambos estavam nus.





Com o passar do tempo, os vestidos e adereços das mulheres, assim como seus penteados, se tornaram mais elaborados e elegantes (fig. 163b, 163c), refletindo seu status, educação e origem nobre. Estudiosos que pesquisaram esses aspectos das civilizações do Oriente Médio notaram que, enquanto durante os dois milênios de supremacia suméria as mulheres eram representadas por elas mesmas em desenhos e em artes plásticas – centenas de estátuas e estatuetas que na verdade são como retratos de mulheres foram encontradas -, existe uma ausência quase total de tais representações em períodos pós-sumerianos, no Império Babilônico.

W. G. Lambert intitulou o trabalho que ele apresentou no Reencontro de Assiriologia de "Deusas no Panteão: Um Reflexo da Mulher na Sociedade?" Acreditamos que essa situação pode ter sido o oposto: o lugar da mulher na sociedade reflete a posição das deusas no panteão. No panteão sumério, as deusas anunaques desempenhavam papéis importantes juntamente com os homens desde o início. Se EN.LIL era o "Senhor do Comando", sua esposa era NIN.LIL, "Senhora do Comando"; se EN.KI era "Senhor da Terra", sua esposa era NIN.KI, "Senhora da Terra". Quando Enki criou o Trabalhador Primitivo por meio de engenharia genética, Ninharsag estava lá para ser co-criadora. Basta ler as inscrições de Gudea para perceber quantos papéis importantes as deusas desempenhavam no processo que levava à construção de templos-zigurates. É suficiente lembrar que um dos primeiros atos de Marduk foi transferir para Nabu, seu filho, as funções de Nisaba, como deusa da escrita. Na verdade, todas as deusas que nas funções do panteão sumério possuíam conhecimento específico ou realizavam funções definidas foram relegadas à obscuridade no panteão da Babilônia. Quando as deusas eram mencionadas, eram apenas listadas como consortes dos deuses homens. O mesmo era verdadeiro para o povo que adorava esses deuses: as mulheres eram mencionadas como esposas ou filhas, principalmente quando eram "oferecidas" em casamentos arranjados.

Podemos supor que a situação refletia o que pensava o próprio Marduk. Ninharsag, a "mãe de deuses e homens", afinal de contas, era a mãe do maior adversário pela supremacia na Terra, Ninurta. Inana/Ishtar fora quem causara seu enterro na Grande Pirâmide. As muitas deusas encarregadas das artes e ciências ajudaram a construção do Eninnu, em Lagash, como símbolo de desafio da afirmação de Marduk, dizendo que sua hora chegara. Havia algum motivo para que ele mantivesse a posição elevada e a veneração por essas mulheres? Sua degradação religiosa e em adoração, acreditamos, refletia a desvalorização da posição da mulher na sociedade pós-suméria.

Um aspecto interessante disso era a mudança aparente nas regras de sucessão. A fonte do conflito entre Enki e Enlil foi o fato de que, enquanto Enki era o primogênito de Anu, Enlil era o legítimo herdeiro, pois era filho de Anu com uma mãe que era meia-irmã dele. Na Terra, Enki repetidamente tentou ter um filho com Ninharsag, meia-irmã dele e de Enlil, mas ela só teve filhas. Ninurta era o herdeiro legítimo da Terra porque fora Ninharsag sua mãe, com Enlil. Seguindo essas regras de sucessão, foi Isaac quem nasceu de Abraão e sua meia-irmã Sara, e não o primogênito Ismael (filho da criada, Agar) quem se tornou o legítimo herdeiro do patriarca. Gilgamesh, rei de Erech, era dois terços (não apenas metade) "divino", porque sua mãe era uma deusa; outros reis sumérios procuraram melhorar sua posição afirmando que uma deusa os amamentara. Todas essas imagens matriarcais perderam significado quando Marduk tornou-se supremo. (A linhagem maternal se tornou significativa outra vez para os judeus na época do Segundo Templo.)

Estaria o mundo antigo experimentando no início da Nova Era, século XX a.C., no intervalo de guerras internacionais, do uso de armas nucleares, da dissolução de um grande sistema cultural e político unificado, o deslocamento de uma religião sem fronteiras com um dos deuses nacionais? Nós, ao final do século XX, podemos achar mais fácil visualizar, tendo nós mesmos testemunhado duas guerras mundiais, o uso de armas nucleares, a dissolução de um sistema político e ideológico, o deslocamento de impérios centralmente controlados e sem fronteiras pelo nacionalismo guiado pela religião.

O fenômeno de milhões de refugiados de guerra por um lado, e o rearranjo do mapa populacional por outro, tão sintomáticos nos eventos do século XX d.C. teria tido seu eco no século XX a.C?

Pela primeira vez aparece na Mesopotâmia o termo Munnabtutu, literalmente significando "fugitivos da destruição". À luz de nossas experiências atuais, uma tradução mais precisa seria "pessoas deslocadas" - pessoas que, nas palavras de vários acadêmicos, foram "destribalizadas", pessoas que perderam não apenas seus lares, as posses e as vidas que levavam, mas também os países aos quais haviam pertencido e portanto seriam "refugiados sem pátria", procurando asilo religioso e segurança pessoal nas terras de outros povos.

Quando a própria Suméria se tornou desolada e prostrada, os habitantes que restavam (nas palavras de Hans Baumann, A Terra de Ur) "espalharam-se em todas as direções; médicos e astrônomos sumérios, arquitetos e escultores, cortadores de selo e escribas, se tornaram professores em outras terras".

Além de todas as coisas que os sumérios fizeram "primeiro", eles adicionaram mais uma à medida que a Suméria e sua civilização chegavam a um fim amargo: a primeira Diáspora...

Sua migração, é certo, levou-os até aonde outros grupos haviam ido antes, como Haram, onde a Mesopotâmia se liga com a Anatólia, o lugar para onde Tera e sua família haviam migrado e que já era conhecido como a "Ur fora de Ur". Sem dúvida eles permaneceram (e prosperaram) ali nos séculos seguintes, pois Abraão procurou uma esposa para Isaac seu filho entre os parentes que habitavam lá, e o mesmo fez Jacó, o filho de Isaac. Suas explorações sem dúvida também seguiram o caminho anterior dos "mercadores de Ur", cujas caravanas e navios carregados traçaram caminhos na terra e no mar para locais próximos e distantes. Na verdade, podemos ver onde as "pessoas deslocadas" da Suméria foram examinando as culturas que apareceram, umas depois das outras, em terras estrangeiras - culturas cuja escrita era cuneiforme, cuja linguagem incluía vários estrangeirismos sumérios (especialmente nas ciências), cujo panteão, mesmo que os deuses fossem chamados por seus nomes locais, era o mesmo que o panteão sumério, cujos "mitos" eram os "mitos" sumérios, cujas histórias de heróis (como as de Gilgamesh) eram de heróis sumérios.

Até aonde foram os andarilhos da Suméria?

Sabemos que eles com certeza foram para as terras onde novas nações-estado formaram-se dois ou três séculos depois da queda da Suméria. Enquanto os amurrus (ocidentais), seguidores de Marduk e Nabu, invadiram a Mesopotâmia e forneceram os governantes que fizeram a Primeira Dinastia da Babilônia de Marduk, outras tribos e futuras nações envolvidas em movimentos grandes da população alteraram para sempre o Oriente Médio, a Ásia e a Europa. Foram responsáveis pelo surgimento da Assíria ao norte da Babilônia, do reino hitita a noroeste, os mitanis para o oeste, os reis indo-arianos que se espalharam do Cáucaso até o nordeste da Babilônia e de seus tratados com outros (nos quais era invocado cada um dos deuses nacionais), os grandes deuses da Suméria renunciam ao convite para ir morar no território sagrado da Babilônia; ao invés disso, a maioria tornou-se a divindade nacional em nações antigas ou nas que estavam se formando.

Foram nessas terras que os refugiados sumérios receberam asilo por toda a Mesopotâmia, servindo ao mesmo tempo como catalisadores para a conversão dos países que os receberam em estados modernos e em expansão. Porém alguns devem ter se aventurado a terras mais distantes, emigrando por conta própria ou, com maior probabilidade, acompanhando os próprios deuses.

Para o leste ficavam os espaços sem limites da Ásia. Muitos discutem as ondas migratórias dos arianos (ou indo-arianos, como preferem alguns). Originalmente em algum lugar a sudoeste do mar Cáspio, eles migraram para onde seria a Terceira Região de Ishtar, o vale do Indo, para povoá-la e revigorá-la. As histórias védicas dos deuses e os heróis que eles trouxeram com eles eram novas versões da mitologia suméria; as noções de tempo, suas medidas e ciclos eram de origem suméria. É seguro presumir que nessa migração ariana estavam os refugiados sumérios; dizemos que "é seguro" porque os sumérios precisavam passar por ali para chegar aonde chamamos de Oriente.

É geralmente aceito que no espaço de dois séculos aproximadamente em torno de 2.000 a.C. ocorreu "uma mudança abrupta e misteriosa" (nas palavras de William Watson, China) na China; sem nenhum desenvolvimento paulatino, a terra foi transformada de pequenas cidades primitivas em uma de "cidades muradas, cujos governantes possuíam armas de bronze, carros e o conhecimento da escrita". A causa, todos concordamos que foi a chegada de emigrantes, vindos do oeste - as mesmas "influências civilizadoras" da Suméria que "por fim podem ser traçadas até as migrações culturais que se irradiaram no Oeste a partir do Oriente Próximo" - as migrações que ocorreram na esteira da queda da Suméria.

O surgimento "misteriosamente abrupto" da nova civilização floresceu na China desde 1.800 a.C., segundo a maior parte dos estudiosos. A vastidão do país e a falta de evidências favorecem a possibilidade de disputas acadêmicas, porém a opinião vigente é que a escrita tenha sido introduzida juntamente com os reinados da dinastia Shang; o propósito era significativo por si mesmo: registrar profecias em ossos de animais. Tais profecias estavam mais relacionadas com pedidos para a orientação de ancestrais mais enigmáticos.

A escrita era monossilábica e pictórica (de onde a escrita chinesa evoluiu para uma espécie de escrita "cuneiforme") - ambos traços marcantes da escrita suméria. Observações do século XIX mostram a semelhança entre as escritas chinesa e suméria, num estudo feito por C. J. Ball (Chinese and Sumerian, 1913), publicado sob os auspícios da Universidade de Oxford. Provava conclusivamente a similaridade entre os pictogramas sumérios (de onde evoluiu a escrita cuneiforme) e as formas antigas (Ku Wen) de escrita chinesa.

Ball também atacou o tema se este era uma similaridade proveniente apenas da expectativa de que um homem ou um peixe seria desenhado de forma similar, mesmo em culturas diferentes. O que essa pesquisa mostrou é que não apenas os pictogramas eram parecidos, como (em boa parte dos casos), o nome era pronunciado de forma análoga; isso incluía termos-­chave como An para "céu" e "bem", En para "Senhor" ou "chefe", Ki para "Terra" ou "área", Itu para "mês", Mul para "brilhante" (planeta ou estrela). Além disso, quando uma sílaba suméria tinha mais de um significado, o pictograma chinês correspondente possuía um conjunto similar de variações.

Estudos recentes de lingüística, liderados por acadêmicos da ex-União Soviética, expandiram a conexão suméria para incluir toda a nova família de linguagens sino-tibetanas. Tais ligações formam apenas um aspecto de uma variedade de aspectos "científicos" e "mitológicos" que lembram os da Suméria. Os primeiros são especialmente fortes; tais aspectos como o calendário de doze meses, a contagem do tempo dividindo o dia em horas duplas, a adoção de um dispositivo do zodíaco totalmente arbitrário, e a tradição de observações astronômicas são de origem inteiramente suméria.

As ligações "mitológicas" estão ainda mais espalhadas. Ao longo das estepes e por toda a Índia, China e Japão, as crenças religiosas falam de deuses do Céu e da Terra e de um lugar chamado Sumeru, onde, no umbigo da Terra, havia uma ligação que juntava o Céu e a Terra, como se fossem duas pirâmides, uma delas invertida sobre a outra, ligada por uma ampulheta, com cintura fina. A crença xintoísta dos japoneses segundo a qual o imperador é descendente do filho do Sol se torna plausível se presumirmos que a referência deles não era relativa à estrela ao redor da qual nosso planeta orbita, mas ao "Deus-Sol", Utu/Shamash; pois tendo desaparecido o espaçoporto do Sinai do qual ele estava encarregado, e com o Campo de Pouso no Líbano em mãos de Marduk, ele bem pode ter perambulado com um bando de seguidores até os confins da Ásia.

Como indicam as evidências lingüísticas e outras, a Munnabtutu também fora para algum lugar na Europa, usando duas rotas: uma pelo Cáucaso e ao redor do mar Negro, a outra pela Anatólia. Teorias relativas à rota antiga vêem os sumérios passando pela área que hoje é a Geórgia (onde costumava ser a União Soviética), explicando por que a linguagem pouco comum de seu povo demonstra afinidade com a dos sumérios, depois avançando ao longo do rio Volga, estabelecendo-se em sua cidade principal, chamada Samara (hoje Kuybichev), e - de acordo com alguns pesquisadores - finalmente chegando ao mar Báltico. Isso explicaria a incomum língua finlandesa, que não parece nenhuma outra, a não ser o sumério. (Alguns atribuem também essa origem para a linguagem da Estônia.)

A outra rota, onde algumas evidências arqueológicas apóiam os dados lingüísticos, representa os refugiados sumérios avançando pelo rio Danúbio, portanto corroborando a crença persistente e enraizada entre os húngaros de que sua linguagem única poderia também ter essa origem: os sumérios.

Teriam os sumérios tomado realmente esse caminho? A resposta pode ser encontrada em uma das mais intrigantes relíquias da Antiguidade que pode ser vista onde o Danúbio encontra o mar Negro; ali já foi a província celto-romana da Dácia (agora parte da Romênia). Lá, num local chamado Sarmizegetusa, uma série que os pesquisadores teriam chamado de "templos calendáricos" inclui o que poderia ser descrito como o "Stonehenge do mar Negro".

Construídas em terraços feitos pelo homem, várias estruturas foram projetadas para serem componentes integrados de um maravilhoso Computador de Tempo feito de pedra e madeira. Os arqueólogos identificaram cinco estruturas que na verdade eram fileiras de "lóbulos" de pedras arredondadas para compor cilindros curtos, arrumados cuidadosamente em retângulos formados pelos lados de pequenas pedras cortadas para produzir o desenho com precisão. As duas maiores dessas estruturas retangulares continham sessenta lobos cada, sendo uma (o "grande e velho santuário") em quatro fileiras de quinze, e a outra ("grande e novo santuário"), em seis fileiras de dez.

Três componentes dessa antiga "cidade-calendário" eram arredondados. O menor é um disco de pedra feito de dez segmentos na qual pequenas pedras ficavam embutidas para formar uma circunferência - seis pedras por segmento, perfazendo um total de sessenta. A segunda estrutura arredondada, algumas vezes chamada de "pequeno santuário redondo", consiste num perfeito círculo de pedras, todas idênticas e precisamente arranjadas em onze grupos de oito, um de sete e um de seis; pedras mais largas e diferentemente esculpidas, treze no total, eram colocadas de forma a separar as outras pedras agrupadas. Lá teriam existido outros postes ou pilares no interior do círculo, para observação e contagem; mas nunca se pôde determinar com certeza. Estudos, tais como Il Templo-Calendario Dacico di Sarmizegetusa, por Hadrian Daicoviciu, sugerem que essa estrutura serviu como calendário solar-lunar, permitindo uma série de cálculos e previsões, incluindo a intercalação apropriada entre os anos solar e lunar, por meio da adição periódica de um décimo terceiro mês. Isso, junto com a prevalência do número sessenta, o número básico do sistema sexagesimal, levou os pesquisadores a discernir fortes laços com a antiga Mesopotâmia. Conforme escreveu H. Daicoviciu, "as semelhanças podem não ter sido coincidência nem acidente". Estudos arqueológicos e etnográficos da história e pré-história da área em geral indicam que no início do segundo milênio a.C. uma civilização da Idade do Bronze de "pastores nômades com organização social superior" (Rumania, um guia oficial) chegou à área que até então fora ocupada por uma população de simples agricultores. A época e a descrição se encaixam com emigrantes sumérios.

O mais impressionante e intrigante componente dessa Cidade do Calendário é o terceiro "templo" redondo. Consiste em dois círculos concêntricos cercando uma "ferradura" no meio, ostentando uma semelhança estranha com Stonehenge, na Inglaterra. O círculo exterior, com cerca de 30 metros de diâmetro, é feito de um anel com 104 blocos de andesita que cercam 180 outros blocos oblongos perfeitamente trabalhados, cada um com uma cavilha quadrada no topo, como se ali pudesse ser colocado um marcador móvel. Essas pedras eretas estão reunidas em grupos de seis; os grupos são separados por rochas horizontais perfeitamente cortadas, num total de trinta. Ao todo, então, o círculo exterior de 104 pedras abriga um círculo interno com 210 (180 + 30) pedras.

O segundo círculo, entre o externo e a ferradura, consiste em 68 orifícios para postes - semelhantes aos Orifícios Aubrey em Stonehenge - divididos em quatro grupos separados por blocos horizontais de pedra; três nas posições nordeste e sudeste, dando ao "círculo" seu eixo noroeste/sudeste e a perpendicular nordeste/sudoeste. Esses marcadores dos quatro grupos, é possível reparar, imitam as Pedras das Quatro Estações em Stonehenge.

A semelhança final, e imediatamente óbvia, com Stonehenge é a "ferradura" interna; consiste num arranjo elíptico de 21 orifícios de postes, separados por duas pedras horizontais em cada lado de uma linha de mira de treze orifícios para poste, que se voltam para sudoeste, sem deixar dúvidas de que o principal alvo do observatório era o sol do solstício de inverno. H. Daicoviciu, eliminando alguns dos postes para uma visualização mais simples, ofereceu um desenho de como teria parecido o "templo". Reparando que os postes de madeira eram cobertos com uma "folha" de terracota, Serban Bobaneu e outros pesquisadores na Academia Nacional da Romênia (Calendrul de la Sarmizegetusa Regia) observaram que cada um dos postes "possuía um grande bloco de calcário como fundação, um fato que sem dúvida revela a estrutura numérica do santuário e prova, como na verdade as outras estruturas também fazem, que os construtores queriam que essas estruturas durassem por séculos e milênios" .

Esses últimos pesquisadores concluíram que o "velho templo" originalmente consistia em apenas 52 segmentos (4 x 13 ao invés do arranjo de 4 x 15) e que, com efeito, havia dois sistemas calendáricos encaixados um no outro em Sarmizegetusa: um era um calendário solar-lunar com raízes mesopotâmicas, e outro um "calendário ritual" baseado no 52, semelhante ao ciclo sagrado da América Central, com aspectos estelares, ao invés de lunar­-solar. Eles concluíram que a "era estelar" consistia em quatro períodos de 520 anos cada (o dobro de 260 do Calendário Sagrado da América Central), e que o propósito principal do complexo calendárico era medir uma "era" de 2.080 anos (4 x 520) - a duração aproximada da Era de Áries.

Quem era o gênio matemático-astronômico que engendrara tudo aquilo, e com que propósito?

A resposta, acreditamos, leva também a uma solução dos enigmas de Quetzalcoátl e dos observatórios circulares que ele construiu, o deus que de acordo com as lendas foi embora num determinado momento para atravessar os mares na direção leste (e prometendo voltar). Não foram apenas os deuses enlilitas a guiar e liderar os sumérios errantes, mas também Thot/Ningishzida (aliás Quetzalcoátl), o deus do Jogo do 52, que fora, ele mesmo, expulso de sua terra natal.

O propósito de todas as "Stonehenge" na Suméria, na América do Sul e Central, nas Ilhas Britânicas e também no litoral do mar Negro, não era apenas para ajustar o ano lunar ao ano solar, e calcular o Tempo Terrestre, mas também - e principalmente - para calcular o Tempo Celeste, as Eras do Zodíaco?

Quando os gregos adotaram Thot como seu deus, Hermes, eles o chamaram de Hermes Trimegisto, "Hermes, Três Vezes Grande". Talvez tenham reconhecido que ele guiou três vezes a humanidade na observação do início de uma Nova Era - a mudança para Touro, para Áries e para Peixes.

Pois foi então, para aquelas gerações da Humanidade, quando o Tempo começou.

Fim.


Nenhum comentário: