quinta-feira, agosto 16, 2012

Coleção Zecharia Sitchin Livro 5 / OS REINOS PERDIDOS - 1º PARTE


ZECHARIA SITCHIN
OS REINOS PERDIDOS
Crônicas da Terra 4
Tradução de Luiz fernando martins estevez
Novaspesquisas e descobrimentos vem surgindo para uma nova consciência para a humanidade, através dos estudos de ZechariaSitchin que contribuem para um despertar de consciência. A partir dessasinformações e de tantas outras que pudemos reuni-las e verificar um pequeno eimportante “quebra-cabeças” que surgiu devido a nossos estudos de muitos anos.A importância dessas informações será compreendida ou não pelo grau deconsciência de cada um, pois existe uma reunião de informações entre o velho eo novo mundo, pois essas informações estão por aí à fora e é só reuni-las echegar a essas conclusões no qual chegamos e como essas informações estãoagindo e criando uma nova realidade no planeta e em toda a humanidade.
Essasnovas descobertas você poderá analisar melhor no site:
SUMÁRIO
Prefácio ...
1. Eldorado ..
2. O reino perdido de Caim? ...
3. O reino dos deuses serpentes ...
4. Observadores celestiais na selva ..
5. Estranhos do outro lado dos mares ..
6. O reino do cetro de ouro ....
7. O dia em que o sol parou ...
8. Os caminhos do céu ...
9. Cidades perdidas eencontradas ...
10. "A Baalbek do Novo Mundo" ....
11. Uma terra de onde vêm os lingotes ...
12. Deuses das lágrimas de ouro ...
Fontes ..
PREFÁCIO
Nos anais europeus, a descoberta do NovoMundo aparece como o El Dorado — apermanente busca de ouro. Os conquistadores não perceberam, porém, queestavam apenas repetindo na Terra, e nas novas terras, uma busca iniciadamilhares de anos antes.Transparecia, também, nas crônicasda época, sob os registros e histórias de saque, avareza, destruição desnecessária que as riquezasrecém-descobertas deflagraram, a surpresa dos europeus por encontrarem civilizações tão parecidas com as do Velho Mundo:reinos e cortes, cidades e áreas sagradas, arte e poesia, templos elevados, sacerdotes, além do símbolo dacruz e da crença num Criador de tudo. Falava-se com igual importância delendas sobre deuses brancos e barbados, que haviam partido com a promessa deretornar.
Os mistérios e enigmas dos maias, dosastecas, dos incas, e de seus predecessores, que tanto intrigaram osconquistadores, ainda espantam estudiosos eleigos, cinco séculos depois. Como, quando e de que modo sedesenvolveram civilizações tão importantesno Novo Mundo? Seria mera coincidência que, quanto mais se descobre sobre elas, mais parecemmoldadas nas civili­zações do antigo Oriente Médio?Estas respostas, acreditamos,podem ser encontradas aceitan­do-se o fato — e não o mito — da presença na Terrados anunnaki, "Aqueles Que Vieram do Céu Para a Terra".Esse livro fornece asevidências.
1
ELDORADO
Toledo é hoje uma cidadeprovinciana ao sul de Madri, distante cerca de uma hora de carro. Aindaassim, é impossível imaginar que alguém vá à Espanha e não a visite, pois no interior de suas muralhasse encontram, preservados, monumentos de diversas culturas e lições dehistória. Segundo lendas locais, ela remonta a dois milênios antes da eracristã, tendo sido fundada, dizem, por descendentes de Noé. O nome, muitossustentam, vem do hebreu Toledoth ("História das Gerações"). Suas casas antigas emagníficos templos são tes­temunhas da ascensão e queda dos mouros e dodomínio mu­çulmano, da erradicação daesplêndida herança judaica e da cris­tianizaçãocompleta da Espanha. Para Toledo, para a Espanha e para todas as outrasterras, 1492 foi um marco. Três eventos ocorridos naquele período no território espanhol, geograficamente conhecidocomo Ibéria — a única explicaçãopara o nome está no termo hebraico Ibri (hebreu) pelo qual seus primitivos habitantes ficaramconhecidos —, mu­daram sua história.Os reinos espanhóis, até então divididos e emguerra entre si, depois de terem perdido grande parte da península Ibérica para os muçulmanos, viram sua primeira chance deunião quando Fernando de Aragão casou com Isabel de Castela, em 1469. No espaço de dez anos após este casamento, umagrande ofensiva foi lançada contra os mouros, unindo a Espanha sob abandeira do catolicismo. Em janeiro de 1492,os mouros foram finalmente derrotados com a queda de Granada, e aEspanha, a partir daí, se transformou em território cristão. Dois grande feito, em março, o reiFernando e a rainha Isabel assinaram umédito, determinando a expulsão das terras espanholas de todos os judeus que não se convertessem ao cristianismo até 31 deagosto daquele ano. Enquanto isso, a 3 de agosto de 1492, Cristóvão Colombo — Cristóbal Cólon para osespanhóis — par­tia de Paios, sobbandeira espanhola, decidido a encontrar uma rota ocidental marítimapara as índias.Avistou terra a 12 de outubro de 1492.Retomou à Espanha em janeirode 1493. Como prova de seu sucesso levava consigo quatro "índios" e, como reforço, parajustificar uma nova expedição sob seu comando, ofereceu à rainha badulaques de ouro obtidos dos nativos e uma história fantásticasobre uma cidade do ouro, onde os habitantes usariam braceletes e adornos de ouro, sendo o metal precioso encontrado em uma minapróxima à cidade.Do primeiro estoque de ouro proveniente das novas terras desembarcado na Espanha, Isabel — tão religiosaque foi cha­mada "aCatólica" — ordenou que fosse elaborada uma Custódia (objeto para expor a hóstia consagrada) para aCatedral de To­ledo, depositária,então, da tradicional hierarquia católica espa­nhola. Assim, hoje, um visitante que entrar na Catedral de Toledo paraadmirar seu tesouro — objetos preciosos doados à Igreja através dos séculos e conservados numa sala protegida por gra­desgrossas — pode ver, embora sem tocar, o primeiro ouro levado por Colombo da América.Atualmente, os historiadores admitem que havia muito mais naquela viagem,além da mera busca de uma nova rota para as índias.Há fortes evidências de que Colombo era um judeu que fora forçado a se converter, enquanto seusfinanciadores, apesar de convertidos, estariam interessados, na verdade,em novas terras mais livres. Fernando eIsabel, por seu lado, haviam tido visões da descoberta dos rios doParaíso e das fontes da eterna juventude. Opróprio Colombo alimentava ambições secretas, al­gumas das quais chegoua exprimir em seus diários pessoais. Via asi mesmo como o realizador de antigas profecias, que fa­lavam em uma nova era a se iniciar com adescoberta de novos mundos "naextremidade da Terra".Porém, ele era suficientemente realista para perceber que de todas as informações de sua primeira viagem, aque mais chamara a atenção fora a referente ao ouro. Dizendo que o"Senhor iria mostrar" oenigmático lugar "de onde vinha o ouro", ele persuadiu Fernando e Isabel a lhe fornecer uma frota muitomaior para a sua segunda viagem e, depois, mais uma para a terceira. A essaaltura, no entanto, os monarcasespanhóis enviaram, por sua conta, para as novas terras, vários administradores, conhecidos não como ho­mens de visão, mas como homens de ação, quepassaram a super­visionar e a interferirnas operações e decisões de Colombo. Os conflitos inevitáveis culminaram com oretorno do navegador à Espanha,acorrentado, sob o pretexto de que maltratara alguns de seus homens. Embora o rei e a rainha o libertassemde imediato, oferecendo-lhe dinheirocomo compensação, concordavam com a opiniãode que ele era um bom navegador, mas um mau governador — e claramente do tipo que não conseguiria forçaros indígenas a mostrar a verdadeiralocalização da cidade do ouro.Colombo rebateu a todos, expressando maior confiança nas antigas profecias e citações bíblicas. Reuniutodos os textos num livro — O Livrodas Profecias — que ofereceu de presente ao rei e à rainha. Pretendia, assim, convencê-los de quea Espanha es­tava predestinada areinar sobre Jerusalém e que ele, Colombo, era o escolhido para executaressa tarefa, sendo o primeiro a encontrar o lugar de onde o ouro provinha.Fernando e Isabel concordaram em deixar Colombo navegar mais uma vez, convencidosespecialmente pelo argumento de que a foz do rio por ele descoberto — conhecidoagora por Orenoco — era um dos quatro riosdo Paraíso e, como as Escri­turas afirmavam, um desses rios englobava aterra de Havilah, "de onde veio oouro". Essa última viagem, no entanto, foi fonte de maioresvicissitudes e desavenças do que as outras três.Deformado pela artrite e transformado numespectro do ho­mem que fora, Colombo voltou à Espanha a 7 de novembro de 1504, poucos dias antes do falecimento da rainhaIsabel. O rei Fernando, embora apreciasseColombo, decidiu entregar a outros atarefa de estudar o manuscrito por ele preparado sobre as evi­dências da presença de ouro nas terrasrecém-descobertas.
"Hispaniola suprirá vossas invencíveismajestades com todo o ouro necessário",assegurou Colombo aos financiadores reais, referindo-se à ilha hoje partilhada pelo Haiti e a República Domi­nicana. Lá, colonos espanhóis, utilizandoindígenas como mão-de-obra escrava,foram bem sucedidos na mineração de fabulosas quantidades de ouro. Emmenos de duas décadas o Tesouro da Espanharecebeu ouro de Hispaniola equivalente a 500.000 ducados.
A experiência dosconquistadores em Hispaniola iria se repetir muitas vezes ao longo do imenso continente.As jazidas recém-descobertas, porém, no curto espaço de duas décadas, haviamsido exauridas. Os nativos tinham morrido ou fugido e a euforia dos espanhóistinha se transformado em desapontamento e de­sespero.Por isso, foram ficando cada vez mais audaciosos, aven­turando-se por costas novas e desconhecidas embusca de rique­zas. Um desses pontos de desembarque foi a península doYucatán, no México. Os primeiros espanhóis aconhecer o local foram os sobreviventes de um naufrágio, em 1511. Em 1517 umcomboio de três navios sob o comandode Francisco Hernandez de Córdoba já partia de Cuba para o Yucatán, como propósito de encontrar mão-de-obra escrava. Para seu espanto, os espanhóisdepararam com edifícios de pedra, templos eídolos de deuses; para desgraça doshabitantes (que os espanhóis entenderam chamar-se "Maia") encontraram também "certos objetos de ouro,que tomaram."
O registro da chegada espanhola e daconquista do Yucatán está baseado principalmente no relato de frei Diego deLanda, de 1566, Relación de Ias cosas deYucatán (traduzido por William Gatespara o inglês com o título de Yucatán, Before and After the Concjuest -"Yucatán,Antes e Depois da Conquista"). Hernandez e seus homens, afirmaDiego de Landa, descobriram nessa ex­pedição uma grande pirâmide em degraus,ídolos, estátuas de animais e uma enorme cidade no interior. Entretanto, osíndios que eles tentaram capturar reagiram de forma violeta, não se detendo nem mesmo diante dos canhões dos navios.As grandes baixas — o próprio Hernandez foi gravemente ferido — força­ram-no a retirar-se. Apesar disso, em sua voltapara Cuba, Her­nandez recomendou a realização de novas expedições, pois"aquela terra era boa e rica em virtude do seu ouro".
Um ano mais tarde, outraexpedição partiu de Cuba com destino à península do Yucatán. Os espanhóis aportaram na ilha de Cozumel e descobriram territóriosa que deram o nome de Nova Espanha, Pánuco, Tabasco. Armados com uma grande variedade de bens paranegociar e não apenas com armas, eles encontraram não só índios hostis, mas também amigáveis.Examinaram alguns monumentose edifícios, sentiram a picada das flechas e lanças, cuja ponta ostentavaafiadas lascas de obsidiaria, e manusearam objetos artísticos. Muitos eram feitos depedra comum ou semi-pre­ciosa; outros brilhavam como ouro, mas num exame mais apurado descobriram tratar-se de cobre.Havia, contrariamente à expectativa geral, poucos objetos de ouro e nenhuma mina, ou outra fonte de ouro ou de outros metais, naregião. Nesse caso, onde conseguiam o ouro? No comércio, afirmaram os maias. O metal vinha do No­roeste: na terra dos astecas, eracomum e abundante.A descoberta e conquista do reino dos astecas, no planalto central do México, está ligada historicamente aonome de Hernando Cortez. Em 1519 ele zarpou de Cuba, comandando uma verdadeiraarmada de onze navios, seiscentos homens, e um grande número dos raros evaliosos cavalos. Parando, desem­barcando eembarcando, ele progrediu lentamente pela costa do Yucatán. Na área ondea influência dos maias terminava e co­meçavaa dos astecas, estabeleceu uma base de operações, batizando-a de Veracruz(até hoje a cidade leva este nome). Foi lá que os espanhóis, com grandeespanto, receberam a visita dos emissários do governante asteca, oferecendosaudações e pre­sentes exóticos. Segundo uma testemunha ocular, Bernal Díaz dei Castillo (Historia verdadera de Iaconquista de Ia Nueva Espana - "A Verdadeira História daConquista da Nova Espanha", traduzidopara o inglês por A.P. Maudslay), os presentes incluíam "uma rodacomo o sol, tão grande como a roda de um carro, com muitas gravuras, todas emouro, uma coisa magnífica de se contemplar e muito valiosa"; outra roda,ainda maior, "feita de prata muito brilhante, numa imitação da lua";um chapéu cheio até a borda com grãos de ouro; um cocar feito com as plumas de um pássaro raro, o quetzal (relíquiaque está no museu Völkerkunde deViena).Eram presentes, explicaram os emissários, de seu soberano Montezuma para o divino Quetzalcoatl (a"Serpente Emplumada", deus dos astecas), um grande benfeitorque fora forçado há muitos anos, pelo Deus da Guerra, a deixar a terra dosastecas; com um bando de seguidores rumara para o Yucatán e navegara para oleste, prometendo voltar no ano "l Junco". No calendário asteca, o ciclo de anos se completa a cada 52anos. No calendário cristão corresponderia aos anos 1363, 1415, 1467, 1519,precisa­mente o ano em que Cortez apareceu nas águas do leste, às portas do domínio asteca. Barbado e usandocapacete como Quetzalcoatl (algunssustentavam que o deus tinha pele clara), Cortez parecia encaixar-se nas profecias.Os presentes oferecidos pelo soberano asteca não tinham sido escolhidos ao acaso. Ao contrário, estavamrepletos de simbolismos. A quantidade de ouro em grão fora oferecidaporque o ouro era considerado um metaldivino, pertencente aos deuses. O disco de prata, representando a lua,fora incluído porque a lenda rezava que Quetzalcoatl velejara em direção aoscéus, fazendo da lua a sua casa. O capaceteemplumado e as vestimentas ricamente ador­nadas eram para o "deus" colocar. O disco dourado era umcalen­dário sagrado, representando ociclo de 52 anos e indicando o ano doretorno. Sabemos disso porque descobrimos muitos iguais, feitos depedra, em vez de ouro puro (fig. 1).
Se os espanhóis perceberam ou não o simbolismo, não ficou nos registros.Se perceberam, não o respeitaram. Para eles os objetos significavam a prova da existência de riquezas no reino dos astecas. Esses objetos insubstituíveisestavam entre os tesou­ros de artemexicana que chegaram a Sevilha em 9 de dezembro de 1519, a bordo do primeiro navio com ouro enviado por Cortez. Orei espanhol Carlos I, neto de Fernando e soberano de outras terras europeias como Imperador Carlos V doSagrado Império Romano, estava entãoem Randres e o navio foi enviado a Bru­xelas. O tesouro incluía presentessimbólicos, estatuetas de ani­mais como patos, cachorros, tigres, leões,macacos, um arco e flechas de ouro. Porém,suplantando todas as outras peças estava o "disco do sol", comdois metros de diâmetro, espessura de quatro moedas reais. O grandepintor e artista Albrecht Dürer, que viu otesouro chegado da "Nova Terra do Ouro", referiu-se a ele dizendo: "aquelas coisas eram tãopreciosas que foram ava­liadas em 100 000 florins; eu nunca tinha vistocoisas que ale­grassem tanto o meu coraçãocomo aquelas; eram objetos artís­ticos surpreendentes e maravilhei-mecom a ingenuidade dos homens naquelas terras distantes; na verdade, minhaspalavras não conseguem descrever o que estava na minha frente".Para o rei, porém, qualquer que fosse o valorartístico, religioso, culturalou histórico "daquelas coisas", elas significavam, acima de tudo, ouro — o metal quepoderia financiar suas lutas internas eexternas. Sem perda de tempo, Carlos ordenou que todos os objetos de metaispreciosos fossem derretidos e transformados em lingotes de ouro e prata.No México, Cortez e seus homens adotaram amesma atitude. Avançandolentamente e superando a resistência, fosse pela força superior de armas, ou pela diplomacia e traição, os espanhóis chegaram à capital asteca, Tenochtitlán — hoje Cidadedo México — em novembro de 1519. A cidade, localizada no meio de umlago, só podia ser alcançada por estradas elevadas, facilmente defensáveis. Ainda assim, influenciados pelaspredições do "Deus queretorna", Montezuma e todos os nobres astecas saíram para receber Cortez e sua comitiva. Apenas Montezumausava sandálias; todos os outrosestavam descalços, humilhando-se perante o deus branco. O chefe astecaacolheu os espanhóis em seu magnífico palácio. Havia ouro por todos os lados, atémesmo os talheres eram feitos de ouro. Os astecas mostraram aos espanhóis um depósitocheio de objetos de ouro. Utilizando um estratage­ma, eles pegaram Montezuma e o mantiverampreso em seus aposentos; para libertá-loexigiram um resgate em ouro. Os no­bresastecas enviaram emissários por todo o reino para recolher o resgate; osobjetos de ouro assim conseguidos foram suficientes para encher um galeão, que zarpou para a Espanha (esse navio foi aprisionado pêlos franceses, causando adeflagração de uma guerra.) Obtendo mais ouro através deesperteza, e enfraquecendo os astecas ao semear a dissidência entre eles,Cortez planejava libertar Montezuma e mantê-lo no trono como um marionete. Porém, seusegundo comandante perdeu a paciência e ordenou um massacre de nobres e chefesastecas. Na confusão que se seguiu, Montezuma foi morto e os espanhóis tiveram deenfrentar uma verdadeiraguerra. Com grandes perdas, Cortez retirou-se da cidade. Retornou mais tarde com pesados reforços de Cuba. Depoisde uma campanha prolongada, conseguiu dominá-la em agosto de 1521. Ao entrar na cidade impôs a lei espanhola aos astecas: o ouro foi retirado, saqueado etransformado em lingotes.O México, na época da conquista, representoumesmo uma Nova Terra do Ouro. Porém, depois da retirada de todos os objetos de ouro, acumulados pêlos astecas duranteséculos, talvez milênios, ficou claro que aquela não era a terra bíblica deHavilah e Tenochtitlán não era a lendária cidade do ouro. Como nem aventureiros nem reis estavam dispostos adesistir, a busca continuou,voltando-se para outras partes do Novo Mundo.
Os espanhóis haviamestabelecido uma base no Panamá, na costa atlântica da América e dali enviavam expedições para a América Central e América do Sul. Foi lá queouviram a tentadora lenda do "ElDorado", forma abreviada de el hombre dorado ("o homem dourado"). Este homem teria sido o reide uma cidade tão rica, que todas as manhãs era untado com uma resina,ou óleo, sobre a qual era espalhado ouro empó, cobrindo-o da cabeça aos pés; ànoite ele se banhava num lago para retirar todo o ouro e o óleo. No diaseguinte recomeçava o ritual. Seu reino ficavano meio de um lago, numa ilha de ouro.Segundo a crônica Elejias de Varones Ilustres de índias (Prefe­rências de Ilustres Cidadãos das índias), a primeiramenção con­creta ao Eldorado foi feita a Francisco Pizarro no Panamá porum de seus capitães. Sua versão foi a seguinte: um nativo da Colômbia ouvira falar de "um país rico emesmeraldas e ouro, cujo rei, despido,era levado em uma jangada até o meio do lago para fazer ablações aos deuses; sua forma majestática era asper­gidacom óleo perfumado, desde as solas dos pés até o alto da testa, tornando-o resplandecente como o brilho dosol". O ritual era assistidopor muitos peregrinos, "que faziam ricas oferendas votivas, como amuletos de ouro e esmeraldas rarase outros or­namentos, atirando-os nolago sagrado".Outra versão, sugerindo que o lago sagradoficava em algum lugarao norte da Colômbia, colocava o rei dourado carregando uma "grande quantidade de ouro e esmeraldas" para o centro do lago. Lá, agindo como emissário das multidões,que ficavam gritando e tocandoinstrumentos musicais ao redor do lago, ele atirava o tesouro às águas como oferenda para seu deus. Outra versão,ainda, dava o nome de Manoa à cidade dourada, e si­tuava-a na terra de Biru— Peru para os espanhóis.
Os comentários sobre o Eldorado espalharam-secomo fogo em mato secoentre os espanhóis do Novo Mundo. Com o tempo, chegaram à Europa. Os relatosboca a boca rapidamente se transformaram em panfletos e livros. Eles começaram a circular pela Europa, descrevendo a terra, o lago, a cidade, orei, mesmo se ninguém ainda o tivessevisto, e até mesmo o rito de douração acada manhã .
Enquanto muitos seguiram direção aleatória,como Cortez, que partiuem direção à Califórnia, e outros que viajaram até a Ve­nezuela, Francisco Pizarro e seus tenentes sebasearam, exclusi­vamente,nos relatos dos nativos. Alguns foram para a Colômbia e limitaram suas buscas ao lago Guatavita —esta busca conti­nuou por quatro séculos,rendendo objetos votivos de ouro, o queconvenceu as gerações seguintes de caçadores de tesouros da vantagem de drenar o lago completamente pararecuperar as riquezas do fundo.Outros, como o próprio Pizarro, acreditaramser o Peru a lo­calização correta. Duasexpedições partiram do Panamá para a Américado Sul, seguindo pela costa do Pacífico. A quantidade de objetos de ouro encontrada foi suficiente paraconvencê-los de que valeria a pena uma expedição maior ao Peru. Depois de obterpermissão real para essa empreitada e garantir o título de Capitão Geral eGovernador da terra a ser conquistada, Pizarro zarpou para o Peru, chefiando duzentos homens.O ano era 1530.


Como ele esperava com uma força tão pequena conquistar um grande país, protegido por milhares de súditos leais ao seu senhor supremo, o inca, a quem consideravam a personificação de um deus? O plano de Pizarro era repetir a estratégia empre­gada por Cortez: atrair o rei, prendê-lo, obter ouro como resgate, depois soltá-lo para transformá-lo em títere dos espanhóis.O fato de os incas, como o próprio povo se chamava, estarem envolvidos numa guerra civil quando os espanhóis chegaram, foi uma surpresa inesperada. Os conquistadores descobriram que, após a morte do inca Supremo, seu primogênito por parte de uma "segunda esposa" desafiara a legitimidade da sucessão pelo filho nascido da esposa oficial. Quando a notícia de que os espanhóis avançavam chegou até o filho desafiante — Atahualpa — ele decidiu deixá-los seguir em frente por terra, distanciando-os, assim, dos seus navios e dos possíveis reforços. Enquanto isso, Atahualpa ocupava a capital, Cuzco, Ao encontrar a maior cidade dos Andes na época (Cajamarca) os espanhóis enviaram ao seu chefe, Atahualpa, emissários com presentes, prometendo paz. Sugeriram que os dois líderes se encontrassem na praça da cidade, desarmados e sem escolta militar, como demonstração de boa vontade. Atahualpa concordou. Porém, quando chegou à praça, os espanhóis o atacaram e aprisionaram.Para libertá-lo, pediram um resgate: um aposento grande cheio de ouro até onde pudesse alcançar a mão de um homem esticada na direção do teto. Atahualpa compreendeu que aquilo signifi­cava encher a sala com objetos de ouro e concordou. Sob suas ordens, foram trazidos dos templos e palácios utensílios de ouro — taças, cântaros, bandejas, vasos de todos os tipos e tamanhos — além de ornamentos, entre os quais imitações de animais e plantas, placas que se alinhavam nas paredes dos edifícios públicos. Durante semanas, os tesouros dos incas foram sendo acu­mulados no aposento. Mas os espanhóis reclamaram que o com­binado fora encher a sala com ouro sólido, não na forma de objetos que ocupavam mais espaço. Durante cerca de um mês, os ourives incas trabalharam para derreter e transformar todos os objetos artísticos em lingotes.Como se a história insistisse em se repetir, o destino de Atahualpa foi exatamente o mesmo de Montezuma. Pizarro preten­dia libertá-lo para representar o papel de rei em nome da Espa­nha. Porém, os zelosos oficiais e os representantes da Igreja, num julgamento forjado, condenaram Atahualpa à morte por crime de idolatria e pelo assassinato de seu meio-irmão e rival na luta pelo trono.O resgate obtido pelo inca, segundo uma das crônicas da épo­ca, foi o equivalente a 1.326.539 pesos de oro — cerca de 5.670 quilos — uma riqueza que foi rapidamente dividida entre Pizarro e seus homens, depois de separado o quinto do rei. Contudo, apesar da quantidade de ouro distribuída a cada um estar bem acima dos seus sonhos, não era nada comparada ao que estava para vir.Quando os conquistadores entraram na capital, Cuzco, viram templos e palácios literalmente cobertos e repletos de ouro. No palácio real havia três aposentos cheios de objetos de ouro e cinco com prata, além de 100 000 lingotes do precioso metal, com cerca de 2,2 quilos, Aguardando para serem transformados em objetos de arte. O trono de ouro, com uma banqueta de ouro, projetado de forma a converter-se numa liteira, onde o rei se reclinava, pesava 25.000 pesos (cerca de 110 quilos); até mesmo as hastes eram cobertas de ouro. Por toda a parte havia capelas e câmaras mortuárias para honrar ancestrais, cheias de estatuetas e imagens de pássaros, peixes, pequenos animais, brincos e co­lares. No grande templo (que os espanhóis denominaram Templo do Sol) as paredes eram cobertas com pesadas placas de ouro. O jardim era artificial, e tudo — árvores, arbustos, flores, pás­saros, uma fonte — era feito de ouro. No pátio havia um milharal, onde cada planta era feita de prata, e as espigas de ouro; trata­va-se de uma área com cerca de 300 por 600 pés — 180 000 pés quadrados de milho de ouro! No Peru, os conquistadores espanhóis viram as fáceis vitórias iniciais transformarem-se em rebeliões incas difíceis de controlar e a enorme riqueza dar lugar a uma espécie de inflação. Para os incas, assim como para os astecas, o ouro era um presente, ou propriedade dos deuses, não um meio de troca. Nunca o utilizaram em substituição ao dinheiro. Para os espanhóis, o ouro era uma forma de realizar todos os desejos e sonhos. Cheios de ouro, mas sem as comodidades da terra natal para usufruir, e mesmo sem as coisas básicas para atender as necessidades diárias, logo estavam pagando 60 pesos de ouro por uma garrafa de vinho, 100 por um manto, 10.000 por um cavalo.Porém, ao regressar à Europa carregados de ouro, prata e pe­dras preciosas, aumentavam a cobiça e encorajavam as especu­lações em torno de Eldorado. Não importava quantas riquezas chegassem, permanecia a convicção de que o Eldorado ainda não fora encontrado e que alguém poderia encontrá-lo se tivesse sorte, persistência e interpretasse corretamente as pistas fornecidas pêlos nativos e pêlos mapas enigmáticos. Exploradores alemães estavam convencidos de que a cidade do ouro poderia ser encon­trada nas cabeceiras do rio Orenoco, na Venezuela, ou na Colômbia.Outros acreditavam que o rio deveria ser outro, talvez o Ama­zonas, no Brasil. Provavelmente, o mais romântico de todos tenha sido Sir Walter Raleigh, que velejou de Plymouth em 1595 para encontrar a lendária Manoa e adicionar sua glória em ouro ao tesouro da Rainha Elisabeth.Em sua visão, ele viu Manoa como El Dorado imperial, dos telhados de ouro!

Sombras às quais —

A despeito de todos os choques da mudança,

De todos os acidentes caprichosos —

Os homens se agarram com esperança e desejo

Que não hão de terminar.

Ele, como outros antes e depois dele, ainda viam Eldorado — o rei, a cidade, a terra — como um sonho a ser realizado, "com esperança e desejo que não hão de terminar". Todos os que saíram em busca do Eldorado representaram mais um elo na cadeia iniciada antes dos faraós e que continua em nossos dias, nas alianças de ouro e nas reservas nacionais.Ainda assim, foram esses sonhadores, esses aventureiros, em sua procura pelo ouro, que revelaram ao homem ocidental os povos e civilizações desconhecidos das Américas. Portanto, sem o saber, restabeleceram as ligações que existiram em tempos re­motos.Por que a busca do Eldorado continuou por tanto tempo, mes­mo depois da descoberta dos incríveis tesouros em ouro e prata do México e do Peru, para não mencionar as terras menos saqueadas? A busca constante e intensa pode ser atribuída em grande parte à convicção de que a fonte daquelas riquezas ainda não havia sido encontrada.Os espanhóis interrogaram exaustivamente os nativos sobre a fonte dos tesouros acumulados, seguindo todas as pistas. Logo ficou claro que as ilhas do Caribe e a península do Yucatán não eram produtoras de ouro: os maias diziam que conseguiam o metal no comércio com seus vizinhos do sul e do oeste e que haviam aprendido a arte da ourivesaria com os primeiros habi­tantes da região, identificados pêlos historiadores de hoje como toltecas. Certo, disseram os espanhóis, mas de onde os outros tiravam o ouro? Os deuses o forneciam, responderam os maias. Na língua local, o ouro era chamado teocuitlatl, significando li­teralmente "a excreção" dos deuses, seu suor e lágrimas.Na capital asteca os espanhóis aprenderam que o ouro, de fato, era o metal dos deuses e seu roubo caracterizava uma ofensa mortal. Os astecas também apontaram os toltecas como os pro­fessores da arte da ourivesaria. E quem ensinara aos toltecas? O grande deus Quetzalcoatl, responderam os astecas. Cortez, em seus relatórios para o rei da Espanha, diz que interrogara Montezuma intensamente. Ele revelara que o ouro vinha de três áreas de seu reino: uma na costa do Pacífico, outra às margens do golfo, e outra a Sudoeste, onde ficavam as minas. Cortez enviou homens para investigar os locais apontados. Nos três locais des­cobriu que os nativos, na verdade, obtinham o ouro nos leitos dos rios, ou coletando pepitas onde as chuvas as haviam deixado à flor da terra. No local onde deveriam existir minas, elas pare­ciam ter sido exploradas no passado. Os nativos encontrados pêlos espanhóis não estavam trabalhando nas minas. "Não havia minas ativas", escreveu Cortez em seu relatório. "As pepitas são encontradas na superfície; a fonte principal é a areia dos leitos dos rios; o ouro, guardado em pó em pequenos tubos ou saqui­nhos, depois de derretido em pequenas panelas é transformado em barras". Uma vez trabalhado, era enviado à capital para ser devolvido aos deuses, a quem o ouro sempre pertencera.Embora a maior parte dos especialistas em mineração e me­talurgia tenha acreditado nas conclusões de Cortez, de que os astecas faziam apenas a coleta do ouro (juntando as pepitas e a poeira na superfície) e não a mineração, envolvendo a abertura de poços e túneis nas encostas das montanhas, a questão está longe de ter sido resolvida. Os conquistadores e engenheiros de mineração, através dos séculos, falaram insistentemente na exis­tência de minas pré-históricas em vários locais do México. Parece inconcebível que os primeiros habitantes da região — como os toltecas, vivendo ali desde alguns séculos antes da era cristã — fossem detentores de uma tecnologia avançada de mineração, ou até mais adiantada que a dos astecas. Assim, as pretensas "minas pré-históricas" foram descartadas pêlos pesquisadores como velhos poços abertos e abandonados pelos próprios con­quistadores espanhóis. Expressando a opinião moderna sobre o assunto, Alexander Del Mar (A History of the Precious Metals -"História dos Metais Preciosos") afirma: "em relação à mineração pré-histórica, deve ser lembrado que os astecas não conheciam o ferro, portanto a mineração subterrânea... está praticamente fora de questão; é verdade que exploradores modernos encon­traram no México velhos túneis e evidências de trabalhos de mineração, indicando um cenário de mineração pré-histórica". Embora tais relatórios tenham sido publicados com chancela ofi­cial, Del Mar acreditava que os sítios eram "antigos trabalhos combinados com atividade vulcânica, ou com depósitos de lava e alcatrão, ambos servindo como evidências de grande antigui­dade". "Esta inferência", conclui ele, "dificilmente é garantida".Isso, entretanto, não corresponde aos relatos dos próprios as­tecas. Eles atribuíam a seus antecessores, os toltecas, não só a técnica, como o conhecimento de minas ocultas de ouro e a ha­bilidade de retirá-lo de montanhas de pedra. O manuscrito asteca conhecido como Códice Matritense de Ia Real Academia (vol.8), tra­duzido por Miguel León-Portilla (Aztec Thought and Culture - "O Pensamento e a Cultura dos Astecas") descreve assim os toltecas:"Os toltecas eram um povo engenhoso; todos os seus tra­balhos eram exatos, bem feitos e admiráveis... Pintores, escul­tores, lapidadores de pedras preciosas, artistas com a pena, ceramistas, fiandeiros, tecelões, habilidosos em tudo o que fa­ziam. Descobriram as preciosas pedras verdes, as turquesas; conheciam a turquesa e suas minas. Encontraram essas minas e o esconderijo nas montanhas do ouro e da prata, do cobre, do estanho, e do metal da lua". Os toltecas, como concordam a maior parte dos historiadores, chegaram ao planalto central do México antes da era cristã, pelo menos mil anos, talvez quinhentos anos, antes do surgimento dos astecas. Como era possível que conhecessem mineração, exploração do ouro, de outros metais, extração de pedras preciosas, como as turquesas, em lugares onde os seus seguidores — os astecas — só conseguiram encontrar pepitas na superfície? E quem en­sinara aos toltecas os segredos da mineração?A resposta, como já vimos, era Quetzalcoatl, o deus da Ser­pente Emplumada.O mistério dos tesouros acumulados e da limitada habilidade dos astecas para obtê-los repetiram-se na terra dos incas.No Peru, assim como no México, os nativos conseguiam ouro, coletando grãos e pepitas rolados das montanhas para os leitos dos rios. Porém, a quantidade acumulada através desses métodos não explicava o imenso tesouro encontrado com os incas. A enor­midade deste tesouro fica bem clara nos registros espanhóis man­tidos em Sevilha, o porto oficial de entrada das riquezas do Novo Mundo. Os Arquivos das índias — ainda disponíveis — guardam recibos que indicam que nos cinco anos, entre 1521 e 1525, as riquezas somaram 134.000 pesos de oro. Nos cinco anos seguintes (a pilhagem do México!) subiram para espantosos 1038 000 pesos. De 1531 a 1535, quando os carregamentos do Peru começaram a chegar, a quantidade de ouro aumentou para l 650 000 pesos. Durante o período de 1536 a 1540, época em que o Peru se transformou em fonte principal, já subira para 3 937 000 pesos; e na década iniciada em 1550 chegou a quase 11.000.000 pesos.Um dos cronistas mais importantes da época, Pedro de Cieza de León (Chronides of Peru - "Crônicas do Peru"), relatou que, após a conquista, os espanhóis "extraíram" do império inca, anualmente, 15 000 arrobas de ouro e 50 000 de prata, o equi­valente a cerca de 170 toneladas de ouro e 567 de prata, anual­mente. Embora Cieza de León não mencione quanto tempo durou esta fabulosa "extração" de metais preciosos, seus números mos­tram a enormidade de riquezas que os espanhóis foram capazes de amealhar nas terras dos incas.As crônicas relatam, ainda, que depois do volumoso resgate obtido pela prisão de Atahualpa, da pilhagem das riquezas de Cuzco, do desmanche de um templo sagrado na costa, em Pa-chácamac, os espanhóis se tornaram especialistas em "extrair" ouro das regiões incas. Os palácios e templos dos incas eram ricamente decorados com ouro. Seus túmulos eram cheios de objetos de ouro. Os conquistadores logo perceberam o costume local de fechar a residência dos nobres e governantes, deixando dentro seus corpos mumificados, cercados pêlos objetos preciosos que haviam possuído em vida. Os espanhóis também suspeita­ram, corretamente, que os nativos haviam carregado tesouros para esconderijos; alguns foram colocados em cavernas, outros atirados aos lagos. E lá estavam as huacas, locais venerados e separados para adoração e para uso divino, onde o ouro era empilhado e deixado à disposição de seus donos verdadeiros, os deuses.Histórias de tesouros encontrados, freqüentemente obtidos pela tortura de nativos para que revelassem tais locais, permeiam os re­gistros dos cinqüenta anos seguintes às conquistas e até mesmo dos séculos 17 e 18. Foi dessa forma que Gonzalo Pizarro encontrou o tesouro escondido de um chefe inca de um século antes. Um certo Garcia Gutiérrez de Toledo também encontrou o esconderijo de te­souros sagrados, de onde foram "extraídos" 1000 000 de pesos em ouro, entre 1566 e 1592. Em 1602, Escobar Corchuelo retirou da huaca "La Tosca", objetos avaliados em 60 000 pesos. E quando as águas do rio Moche foram desviadas, um tesouro valendo 600 000 pesos foi encontrado, incluindo, como relatou o cronista, "um grande ídolo de ouro."Relatos de um século e meio atrás — mais perto dos acontecimentos, portanto, do que os atuais — de dois exploradores, M. A. Ribero e J.J. von Tschudi (Peruvian Antiquities - "Antigui­dades Peruanas"), descrevem assim a situação: Na segunda me­tade do século XVI, no curto espaço de vinte e cinco anos, os espanhóis exportaram do Peru para a Espanha mais de quatro milhões de ducados de ouro e prata. Temos certeza de que nove décimos disso era resultante de pilhagem. Nesse cálculo não con­sideramos a quantidade de metais preciosos enterrados pêlos nativos para escondê-los da cobiça dos conquistadores, como a famosa corrente de ouro (segundo relatos, teria 213 metros de comprimento e a grossura do pulso de um homem) que o chefe inca Huayna Capac mandou fazer para comemorar o nascimento de seu filho primogênito, Inti Cusi Huallapa Huáscar, e que, disseram, foi atirada no lago de Urcos. Também não foram in­cluídas as onze mil lhamas carregadas de ouro em pó em vasos do mesmo metal, com as quais o infeliz Atahualpa pretendia comprar sua liberdade e sua vida e que os transportadores incas enterraram no Puna, assim que souberam da nova punição im­posta, traiçoeiramente, ao seu monarca adorado. Não só os re­latos da época confirmam que a enorme quantidade de ouro acumulada pêlos espanhóis resultou do saque das riquezas dos incas, e não de produção contínua, como os próprios registros oficiais o fazem. Depois que os tesouros visíveis e escondidos foram exauridos, os recibos da chegada de ouro em Sevilha registram meras 2,7 a 3,2 toneladas do metal por ano, durante décadas. Foi então que os espanhóis, usando seu férreo poder, começaram a obrigar os nativos a trabalhar nas minas. O trabalho era tão duro que por volta do final do século a população nativa tinha sido drasticamente reduzida, obrigando a corte espanhola a impor limites à exploração da mão-de-obra local. Grandes filões de prata foram descobertos e explorados, como o de Potosi. Mas a quantidade de ouro obtida jamais seria igual, nem explicaria a origem dos vastos tesouros acumulados antes da chegada dos espanhóis.Procurando uma resposta para esse enigma, Ribero e von Tschudi escreveram: "A quantidade de ouro encontrada no Peru, embora para os incas o metal tivesse grande valor, era muito superior a de outros lugares do Novo Mundo. A comparação dessa abundância na época dos incas com a quantidade extraída pêlos espanhóis no espaço de quatro séculos, tanto de minas, como de rios, parece mostrar que os nativos sabiam onde en­contrar ricos veios do precioso metal, informação jamais desco­berta pêlos conquistadores e seus descendentes." (Eles também previram que chegaria o dia em que o Peru retiraria "de seu solo o véu que agora cobre riquezas mais incríveis do que as encontradas atualmente na Califórnia". E quando a corrida ao ouro do final do século 19 reativou nova febre do ouro na Europa, muitos especialistas chegaram a acreditar que a chamada "mãe dos filões", ou seja, a principal fonte de todo o ouro da Terra, seria encontrada no Peru.)A idéia geralmente aceita com relação às terras dos Andes, como com as do México, é que, segundo Del Mar, "o ouro obtido pêlos incas antes da conquista espanhola era resultante da peneiração das areias dos rios". Não foram, segundo ele, encontra­das minas, embora algumas escavações feitas nas encostas das montanhas andinas tenham resultado no afloramento de ouro e de prata. A verdade é que, tanto em relação aos incas dos Andes como aos astecas do México, a questão da mineração pré-histórica extração do metal dos veios das rochas — até hoje não foi estabelecida.A possibilidade de que muito tempo antes dos incas alguém tivesse tido acesso ao ouro de fontes subterrâneas (em locais que os incas não descobriram, ou mesmo nem conheciam), parece explicação plausível para os tesouros acumulados: De fato, se­gundo um dos melhores estudos contemporâneos sobre o as­sunto, de S. K. Lothrop (Inca Treasure as Depicted by Spanish His­toriam - "O Tesouro inca Descrito por Historiadores Espanhóis"), "as modernas minas estão localizadas em locais de extração abo­rígene, tendo sido encontrados antigos túneis, ferramentas pri­mitivas e até corpos de mineradores mortos".O acúmulo de ouro pêlos nativos da América, independente das formas como tenha sido obtido, deixa outra pergunta básica no ar: para quê? Os cronistas e estudiosos contemporâneos, depois de muitos séculos de estudos, concordam que aqueles povos não tinham uso prático para o ouro, exceto para adornar os templos dos deuses e dos governantes. Os astecas literalmente derramaram seu ouro aos pés dos espanhóis, acreditando que eles represen­tavam o retorno de uma divindade. Os incas, que a princípio também viram nos espanhóis a concretização de uma predição sobre retorno de uma divindade pelo mar, mais tarde foram incapazes de entender porque os espanhóis haviam chegado de tão longe e se comportavam tão mal por causa de um metal para o qual o homem não tinha uso prático. Todos os estudiosos concordam que os incas e os astecas não utilizavam o ouro para propósitos monetários, nem o relacionavam com valor comercial.Ainda assim, eles pediam aos povos dominados um tributo em ouro. Por quê? Nas ruínas da cultura pré-incaica de Chimu, na costa peruana, o grande explorador do século 19, Alexander von Humboldt (que era engenheiro de minas) descobriu ouro enterrado junto aos mortos, nas tumbas. A descoberta do metal instigou sua imagi­nação. Por que o ouro, que não tinha para os nativos valor prático, era enterrado com os mortos? De alguma forma eles pareciam acreditar que o metal seria necessário na vida após a morte. Ou que, ao juntar-se aos antepassados, poderiam usar o ouro da mesma forma que seus ancestrais haviam feito.Quem introduzira tais costumes e crenças, e quando? Quem valorizou o ouro a ponto de, talvez, procurar as minas? A única resposta que os espanhóis obtiveram foi: "os deuses".O ouro, segundo os incas, era formado pelas lágrimas dos deuses.E apontando os deuses, eles sem querer ecoaram a afirmação do Senhor, na Bíblia, através do profeta Haggai:

A prata é minha

E o ouro é meu,

Assim declarou o Senhor das Alturas.

É essa afirmação, acreditamos, que contém a chave para a solução dos mistérios, enigmas e segredos dos deuses, homens, e das antigas civilizações das Américas.

2

O REINO PERDIDO DE CAIM?

A capital asteca, Tenochtitlán, era uma metrópole impressio­nante quando os espanhóis chegaram. Eles a descrevem como uma cidade grande, até maior do que muitas cidades européias da época, bem projetada e construída. Situada numa ilha do lago Texcoco, no vale central do planalto, era cercada de água e cor­tada por canais — uma Veneza no Novo Mundo. As longas e largas estradas elevadas que ligavam a cidade à terra firme impressionaram os espanhóis, assim como o grande número de canoas navegando pêlos canais, as ruas lotadas de gente e os mercados com seus mascates negociando produtos de todos os cantos do território asteca. O palácio real tinha muitos telhados, era cheio de riquezas e cercado de jardins, que incluíam um aviário e um zoológico. Uma grande praça, animada de atividades, era o local das paradas militares e das festividades.Porém, o coração da cidade e do império pulsava no vasto centro religioso, uma construção retangular imensa com mais de 90 mil metros quadrados, cercada por uma muralha projetada na forma de serpentes se contorcendo. No interior dessa área sagrada havia vários edifícios: os que mais se destacavam eram o Grande Templo, ladeado por duas torres, e o templo com uma parte circular de Quetzalcoatl. Atualmente, a praça central da capital mexicana e sua imensa catedral, além de ruas e outros edifícios oficiais estão situados sobre esta antiga área sagrada. Escavações feitas na Cidade do México, em 1978, encontraram, por acaso, restos importantes do Grande Templo, que podem ser vistos hoje pelo público. Descobertas mais recentes, feitas na última década, permitiram a realização de uma réplica em escala da área sagrada como foi em seus dias de glória. O Grande Templo tinha a forma de uma pirâmide com degraus, apresentando altura de 49 metros e uma base medindo cerca de 45 x 45 metros. Ele apresenta várias fases de construção. E, como as tradicionais bonecas russas, que trazer uma dentro da outra, a estrutura externa do prédio abrigava em seu interior outras mais antigas. No total, são sete estruturas, uma dentro da outra. Os arqueólogos conseguiram "descascar" as camadas até encontrar o Templo II, construído ao redor de 1400 a.C. Também este, a exemplo do anterior, apresentava duas torres distintas no topo.



As duas torres denotavam uma curiosa adoração dualista: a do norte era um santuário dedicado a Tlaloc, deus das tempes­tades e terremotos (fig. 3a), enquanto a do sul era dedicada à divindade tribal dos astecas, Huitzilopochtli, o deus da guerra. Ele é representado, quase sempre, segurando uma arma mágica chamada Serpente de Fogo (fig. 3b), com a qual teria derrotado quatrocentos deuses menores durante uma rebelião.Duas escadarias monumentais levavam ao alto da pirâmide pelo lado oeste, uma para cada torre-santuário. Sua base era de­corada com duas serpentes esculpidas em pedra, simbolizando os deuses correspondentes: uma a Serpente de Huitzilopochtli e a outra a Serpente da Água, ou de Tlaloc. Na base da pirâmide, os arqueólogos encontraram um grande disco de pedra, escul­pido com a representação do corpo mutilado da deusa Coyol-xauhqui (fig.3). Segundo a mitologia asteca, ela era irmã de Huitzilopochtli e teria sido massacrada pelo próprio irmão du­rante a rebelião dos quatrocentos deuses, na qual se viu envol­vida. O destino trágico dessa deusa seria responsável pela crença asteca de que para apaziguar Huitzlopochtli era necessário ofe­recer-lhe corações humanos em sacrifício.


As torres gêmeas foram realçadas pela construção de duas outras pirâmides, encimadas por torres, uma de cada lado da grande pirâmide, e duas mais recuadas, para oeste. Essas últimas flanqueavam o templo de Quetzalcoatl, também em forma de pirâmide com degraus, mas com uma estrutura circular na parte de trás. Esta estrutura espiralava para tornar-se uma torre com uma cúpula cônica (fig. 4). Muitos acreditam que esse templo servia como observatório solar. A. F. Aveni (Asironomy Ancient Mesoamerica - "Astronomia na América Central Antiga") descobriu em 1974, que o sol nas datas do equinócio (21 de março e 21 de setembro), quando se levanta no leste exatamente sobre o Equador, pode ser visto da torre de Quetzalcoatl, passando exa­tamente entre as duas torres no topo do Grande Templo. Isso só foi possível porque os planejadores da área sagrada erigiram os templos ao longo de um eixo arquitetônico não alinhado exa­tamente com os pontos cardeais, mas desviado de 7,5 graus para sudoeste. Compensaram, desta forma, a posição geográfica de Tenochtitlán (ao norte do Equador), permitindo a visão do sol pelo meio das duas torres precisamente nas datas importantes para os astecas.



Ainda que os espanhóis, aparentemente, não tenham perce­bido esse aspecto sofisticado da área sagrada, os relatos deixam transparecer seu espanto ao encontrar não apenas um povo culto, mas uma civilização parecida com a sua. Ali, do outro lado de um oceano até então interditado e isolado do mundo civilizado, havia um estado governado por um rei e vassalos — como na Europa. Nobres, funcionários e cortesãos circulavam na corte do rei. Emissários iam e vinham. Tributos eram exigidos das tribos dominadas e os cidadãos comuns pagavam impostos. Arquivos reais mantinham registros escritos da história das tribos, das di­nastias e riquezas. Havia um exército com hierarquia de comando e armas aperfeiçoadas. Cultivavam-se as artes, com um artesa­nato desenvolvido, música e dança. Realizavam-se festivais liga­dos às estações do ano e aos dias santos prescritos pela religião, que era estatal como na Europa. E havia uma área sagrada com templos, capelas e residências, rodeada por uma muralha — como o Vaticano em Roma — dirigida por uma hierarquia de sacerdotes. Como na Europa, os sacerdotes não eram só guardiães da fé e intérpretes da vontade divina, mas também guardiães dos conhecimentos científicos: astrologia, astronomia e os mis­térios do calendário estavam entre eles.Alguns cronistas espanhóis, para contrabalançar as embara­çosas impressões positivas de uma civilização que acreditavam ser selvagem, atribuíram a Cortez uma reprimenda a Montezuma por adorar "ídolos que não são deuses, mas demônios com nomes maus". Influência, aliás, que Cortez supostamente apressou-se a corrigir, construindo no topo da pirâmide um santuário com uma cruz "e a imagem de Nossa Senhora" (Bernal Díaz dei Castillo, Historia Verdadera - "A Verdadeira História"). Mas para surpresa dos espanhóis, até mesmo o símbolo da cruz era conhecido dos astecas. Eles atribuíam um significado celestial à cruz, represen­tada como o emblema do escudo de Quetzalcoatl (fig. 5).


Além do mais, através do intrincado panteão de divindades, percebia-se a crença num Ser Supremo, num Criador de tudo. Algumas de suas preces chegavam a soar familiar. Eis os versos de uma oração asteca, traduzida para o espanhol da linguagem nahuatl:

Você habita o céu,

Você elevou as montanhas...

Você está em todos os lugares, eterno.

Você é procurado, Você é desejado.

Sua glória é celebrada.

Apesar das impressionantes semelhanças, havia diferenças perturbadoras com a civilização asteca. Não só com a "idolatria", transformada pêlos zelosos freis e padres católicos num casus belli. Ou com o costume bárbaro de cortar os corações dos pri­sioneiros para oferecê-los em sacrifício a Huitzilopochtli (uma prática aparentemente recente, surgida por volta de 1486, imposta pelo rei que antecedera Montezuma). Mas, sobretudo, com o con­junto dessa civilização. Como se ela fosse o resultado de um processo interrompido no meio do caminho, de uma cobertura grossa para uma cultura mais adiantada, mas delicada, de uma subestrutura sem acabamento.Por exemplo, os edifícios eram impressionantes e engenhosa­mente projetados, porém não tinham acabamento, eram feitos de adobe — pedras em estado bruto unidas com massa simples. O comércio era extensivo, mas todo ele à base de trocas. Os tributos eram em confiança e os impostos pagos com serviços pessoais. Não havia qualquer tipo de dinheiro. Os tecidos eram feitos com teares rudimentares. O algodão era fiado em rocas de argila, como os que foram encontrados no Velho Mundo: nas ruínas de Tróia (segundo milênio a.C.) e em alguns locais da Palestina (terceiro milênio a.C.). Em termos de ferramentas e ar­mas os astecas estavam na idade da pedra. Inexplicavelmente, não possuíam ferramentas de metal, embora soubessem trabalhar o ouro. Para cortar, usavam lascas de obsidiana, uma espécie de rocha vitrificada (um dos objetos remanescentes do tempo dos astecas foi a faca de obsidiaria, usada para tirar o coração dos prisioneiros).Ao contrário de outros povos das Américas, os astecas pos­suíam escrita. Porém, essa escrita não era alfabética nem fonética. Era representada por uma série de figuras, como os desenhos das histórias em quadrinhos (fig. 6a). No antigo Oriente Médio, onde a escrita começou (na Suméria, cerca de 3800 anos a. C, na forma de pictogramas), ao contrário, houve uma evolução rápida, através da estilização, para uma escrita cuneiforme, que avançou para uma escrita fonética com sinais representando sí­labas e chegou, por volta do final do segundo milênio a.C., a um alfabeto completo. A escrita pictórica apareceu no Egito por volta de 3100 a.C., no início das dinastias, e rapidamente evoluiu para um sistema de escrita hieroglífica.Especialistas, como Amélia Hertz (Revue de Synthèse Historique, vol. 35), concluíram que a escrita pictórica dos astecas em 1500 a.C. era semelhante à escrita egípcia que aparece na tábua de pedra do rei Narmer (fig. 6b), considerado por alguns historia­dores como o primeiro rei dinástico do Egito (quatro e meio milênios antes). Hertz descobriu outra curiosa analogia entre os astecas do México e o início das dinastias no Egito: em ambos, a metalurgia do cobre ainda não havia se desenvolvido, mas a ourivesaria estava tão adiantada que os artesãos conseguiam incrustar turquesas (uma pedra semi-preciosa valorizada nas duas culturas) em objetos de ouro.O Museu Nacional de Antropologia, na Cidade do México — certamente um dos melhores do mundo em sua área — apresenta a herança arqueológica do país num edifício em forma de U. Suas secções interligadas, ou corredores, fazem o visitante viajar através do tempo e da distância para o norte, sul, leste e oeste, desde as origens pré-históricas dos astecas. A parte central é dedicada aos astecas. É o coração e o orgulho da arqueologia mexicana. "Asteca" foi um nome dado depois. Chamavam a si mesmos de mexica, daí o nome que escolheram para sua capital (construída no local onde foi a capital asteca Tenochtitlán) e seu país.



O salão "Mexica" é descrito pelo museu como "o mais impor­tante”... Suas dimensões grandiosas foram projetadas para emoldurar amplamente a cultura do povo mexicano. As monu­mentais esculturas de pedra que abriga incluem a famosa pedra do calendário (veja figura 1), pesando 25 toneladas, estátuas enor­mes de vários deuses e deusas, um grande disco de pedra es­culpido, além de uma infinidade de figuras menores de pedra e argila, utensílios de cerâmica, armas, ornamentos de ouro e outros objetos astecas, e um modelo da área sagrada.O contraste entre os objetos primitivos de argila e madeira com grotescas efígies e as fantásticas esculturas de pedra que adornavam a área sagrada é impressionante. E' inexplicável, uma vez que a presença dos astecas no México se fez sentir por menos de quatro séculos. Como se poderia integrar essas duas facetas de civilização? Quando procuramos a resposta na história oficial desse povo ficamos sabendo que os astecas aparecem como uma tribo nômade, de seres rudes, que forçou sua entrada num vale dominado por uma tribo de cultura superior. No início, viveram para servir as tribos estabelecidas, principalmente como merce­nários contratados. Com o tempo, porém, conseguiram sobrepujar seus vizinhos, tomando emprestado não apenas sua cultura, mas também seu artesanato. Sendo os astecas também adeptos de Huit-zilopochtli, acabaram absorvendo, ainda, o culto dos vizinhos ao deus da chuva Tlaloc e ao benevolente Quetzalcoatl, deus das artes, da escrita, da matemática, da astronomia e da passagem do tempo.Porém as lendas nativas, que os estudiosos chamam de "mitos de migração", encaram os eventos sob outro prisma, e chegam a deslocar o início da história desse povo para uma época mais remota. As fontes dessa versão divergente são as tradições verbais e os inúmeros livros chamados códices. Estes, tais como o Codex Boturini, narram que a terra ancestral dos astecas era chamada Azt-lan ("Lugar Branco"). Nela teria nascido o primeiro casal pa­triarcal, Itzac-mixcoatl ("Serpente da Nuvem Branca") e sua esposa Ilan-cue ("Velha Mulher"), de cujos filhos descendem as tribos de linguagem nahuatl. Os toltecas também seriam descendentes de Itzac-mixcoatl, mas de outra mulher e não de Ilan-cue. Dessa forma, eles seriam apenas meio-irmãos dos astecas.Ninguém conhece ao certo a localização de Azt-lan. Entre os numerosos estudos sobre o assunto (que incluem teorias sobre a lendária Atlântida), destaca-se o de Eduard Seler, Wo lag Aztlan, die Heimat der Azteken? O local aparentemente estaria associado ao número sete, tendo sido chamado Aztlan das Sete Cavernas. Em alguns códices é descrito como um lugar reconhecível por seus sete templos: uma grande pirâmide central rodeada por seis santuários menores.Em sua elaborada Historia de Ias Cosas de Ia Nueva Espana ("His­tória dos Acontecimentos da Nova Espanha"), frei Bernardino de Sahagún, usando os textos originais na linguagem nativa na­huatl escritos depois da Conquista, fala em migração de várias tribos de Aztlan. Seriam sete tribos no total, que teriam deixado Aztlan em barcos. Os livros pictóricos chegam a mostrá-los pas­sando por uma marca em terra, cujo pictograma permanece um enigma. Sahagún fornece vários nomes para os caminhos, cha­mando o lugar onde eles aportaram de "Panotlan", que significa apenas "Lugar da Chegada por Mar". Porém, analisando várias pistas, os estudiosos concluíram que esse lugar seria a Guatemala.Acompanhavam essas tribos quatro Sábios, que seriam seus guias e líderes, pois traziam manuscritos, conheciam os segredos do calendário e os rituais. De lá, as tribos teriam seguido para o Lugar da Serpente-Nuvem, aparentemente dispersando-se. Al­gumas, como as dos astecas e toltecas, teriam chegado ao local chamado Teotihuacán, onde foram construídas duas pirâmides, uma para o Sol e outra para a Lua.Muitos reis teriam governado Teotihuacán e teriam sido en­terrados lá, pois ser enterrado naquele local significava unir-se aos deuses após a morte. Quanto tempo se passou até a próxima migração ninguém sabe. Porém, em algum momento, as tribos teriam abandonado aquela cidade sagrada. Os primeiros a partir foram os toltecas, que construíram sua própria cidade, Tollán. Os últimos a partir foram os astecas. Suas andanças os levaram a vários lugares, mas não encontraram sossego. Na época da migração final, o nome do líder era Mexitli, significando "O Un­gido". Seria essa, de acordo com alguns estudiosos (por exemplo, Manuel Orozoco y Berra, Ojeada sobre Cronologia Mexicana - "Aná­lise da cronologia mexicana"), a origem do nome tribal Mexica ("O Povo Ungido").A indicação para a última migração dos astecas — mexica — teria partido do deus Huitzilopochtli, que falara de uma terra onde havia "casas com ouro e prata, algodão multicolorido e cacau de vários matizes". Eles teriam, apenas, de continuar avan­çando na direção indicada até encontrar uma águia pousada num cacto que crescera junto a uma rocha cercada por água. Deveriam estabelecer-se ali e chamar-se de "mexica", uma vez que haviam sido escolhidos para reinar sobre outras tribos.Assim, os astecas teriam chegado, segundo as lendas, ao vale do México. Alcançaram Tollán, também conhecida como "O Lu­gar do Meio", mas não foram bem recebidos pêlos seus habi­tantes, embora fossem seus ancestrais. Por quase dois séculos, os astecas teriam vivido nas margens pantanosas do lago, ga­nhando força e sabedoria, para só, então, construir sua própria cidade, Tenochtitlán.O nome significa "Cidade de Tenoch". Alguns acham que foi chamada assim em homenagem ao líder asteca que construiu a cidade, chamado Tenoch. Porém, como os próprios astecas se consideravam tenochas — descendentes de Tenoch — há versões de que o nome Tenoch referia-se a um ancestral tribal, uma figura lendária e paternal de muitas eras antes.Os historiadores geralmente sustentam que os "mexica" ou "tenochas" chegaram ao vale por volta de 1140 a.C, benefician­do-se, ao longo do tempo, das influências de outras tribos, que dominaram por meio de alianças ou de guerras. Alguns pes­quisadores não acreditam que os astecas tivessem um império. Acham que, quando os espanhóis chegaram, eles eram o povo dominante no México Central, reinando sobre os aliados e ini­migos conquistados, que serviriam apenas para os sacrifícios aos deuses. A conquista espanhola teria, assim, sido facilitada pelas rebeliões contra os opressores astecas.Como os hebreus bíblicos, cujas árvores genealógicas remon­tam aos patriarcas e ao começo da espécie humana, também os astecas, toltecas e outras tribos de língua nahuatl possuem lendas a respeito da Criação, abordando os mesmos temas. Porém, se o Antigo Testamento comprimiu suas fontes sumérias bem de­talhadas, reunindo em uma entidade plural (Elohini) as várias divindades ativas no processo criativo, as histórias nahuatl reti­veram os conceitos egípcios e sumérios de vários seres divinos agindo sozinhos, ou em conjunto, no processo da criação.As crenças das tribos, espalhadas desde o Sudoeste dos Esta­dos Unidos até a Nicarágua, na América Central, sustentavam que, no começo, havia um Deus, criador de todas as coisas, do céu e da Terra, que habitava o ponto mais alto, o décimo-segundo céu. As fontes de Sahagún atribuíam a origem dessa sabedoria aos toltecas:

E os toltecas sabiam

Que muitos são os céus.

Disseram que existem doze divisões superpostas;

Lá habita o Deus verdadeiro e sua consorte.

Ele é o Deus Celestial, Senhor da Dualidade;

Sua consorte é a Senhora da Dualidade, a Senhora Celestial.

Este é o significado:

Ele é rei, ele é o Senhor, sobre os doze céus.

Isso, surpreendentemente, soa como uma versão mesopotâmica das crenças religiosas celestiais, segundo as quais, Anu ("Se­nhor do Céu") era o líder do panteão que, com sua esposa Antu ("Senhora do Céu"), vivia no planeta mais distante, o décimo-segundo de nosso sistema solar. Os sumérios o representavam como um planeta radiante, cujo símbolo era a cruz (fig. 7a). O símbolo foi mais tarde adotado por todos os povos do mundo antigo e evoluiu para o ambíguo emblema do Disco Alado (figs. 7b e 7c). O escudo de Quetzalcoatl (fig. 7d) e símbolos repre­sentados em monumentos mexicanos antigos (fig. 7e) são estranhamente parecidos.









Os deuses antigos de quem os textos nahuatl contam histórias legendárias eram representados como homens barbados (fig. 8), ancestrais do barbado Quetzalcoatl. Assim como nas teogonias da Mesopotâmia e do Egito, também nas histórias nahuatl havia casais divinos e irmãos que esposavam as próprias irmãs. Os astecas tinham interesse principalmente pêlos quatro irmãos di­vinos, Tlatlauhqui, Tezcatlipoca-Yaotl, Quetzalcoatl e Huitzilo-pochtli, em ordem de nascimento. Eles representavam os quatro pontos cardeais e os quatro elementos primários: terra, vento, fogo, água, ou seja, um conceito de "raiz de todas as coisas", conhecido no Velho Mundo. Esses quatro deuses também repre­sentavam as cores vermelho, preto, branco e azul e as quatro raças da espécie humana, por sua vez, representadas (como na primeira página do Codex Ferjervary-Mayer) em cores apropriadas, juntamente com os símbolos de árvores e animais.



Esse reconhecimento de quatro ramos separados da humani­dade talvez seja mais significativo em suas diferenças do ramo tríplice, espelhado no conceito bíblico-mesopotâmico de uma di­visão asiática/africana/européia, derivada de Sam, Sem e Jafé, da linha de Noé. Uma quarta pessoa, de cor vermelha, fora adi­cionada pelas tribos nahuatl, representando os povos da América.Os textos nahuatl falam de conflitos e de guerras entre os deuses. Incluem um incidente — quando Huitzilopochtli derro­tou quatrocentos deuses menores — e uma luta entre Tezcatli­poca-Yaotl e Quetzalcoatl. Tais guerras pelo domínio da Terra, ou de seus recursos, aparecem nas histórias ("mitos") de todos os povos antigos. As narrativas hititas e indo-européias das guer­ras entre Teshub ou Indra com seus irmãos chegaram à Grécia, através da Ásia Menor. Os cananitas semitas e fenícios descreveram as guerras de Baal com seus irmãos, no curso das quais Baal assassinou centenas de "filhos de deuses", ao atraí-los para seu banquete da vitória. Textos egípcios, por sua vez, falam dos conflitos nas terras de Ham (África), relacionados ao rompimento de Osíris e seu irmão Set e da longa e amarga guerra que se seguiu entre Set e Hórus, filho e vingador de Osíris.Seriam os relatos sobre os deuses mexicanos fruto de con­cepção original, ou seriam apenas lembranças, crenças e histórias com raízes no Oriente Médio? A resposta surgirá à medida que examinarmos os aspectos adicionais das narrativas nahuatl sobre a Criação e a pré-história.Encontramos nelas o Criador, para continuar as comparações, como tendo sido um Deus que "dá vida e morte", "a boa e má sorte". O cronista António de Herrera y Tordesillas (Historia Ge­neral - "História Geral") escreveu que os nativos "o invocavam, em suas atribulações, olhando para o céu, onde acreditavam que ele estava". Esse deus criou primeiro o Céu e a Terra; depois fabricou o homem e a mulher de argila. Como eles não duraram, fez outras tentativas até conseguir, das brasas e metais, um casal que teria povoado o mundo. Entretanto, seus descendentes homens e mulheres foram destruídos por uma inundação e salvos por um certo sacerdote e sua esposa que, levando sementes e animais, flutuaram num tronco escavado. O sacerdote acabou descobrindo terra ao soltar pássaros. Segundo outro cronista, frei Gregório Garcia, a inundação durou um ano e um dia, período durante o qual toda a Terra foi coberta de água e o mundo tornou-se um caos.Os eventos pré-históricos que afetaram a Humanidade e os progenitores das tribos nahuatl foram divididos em quatro pe­ríodos, ou quatro "Sóis", em lendas, representações pictóricas e esculturas em pedra, como a Pedra do Calendário. Os astecas consideraram o seu tempo como a quinta e mais recente das cinco eras, a Idade do Quinto Sol. Cada um dos quatro Sóis anteriores terminara em algum tipo de catástrofe — às vezes natural (como um dilúvio), às vezes desencadeada por guerras entre os deuses.O Grande Calendário Asteca de Pedra (foi descoberto no in­terior da área sagrada) é considerado um registro em pedra das cinco eras. Os símbolos que rodeiam o painel central e a repre­sentação central em si foram objeto de muitos estudos. O primeiro círculo interno mostra claramente os vinte signos para os vinte dias do mês asteca. Os quatro painéis regulares que circundam a face central são reconhecidos como representações das quatro eras passadas e das calamidades que acabaram com elas: Água, Vento, Terremotos, Tempestades.A história das quatro eras é valiosa pelas informações que oferece sobre a sua duração e seus eventos principais. Embora as versões variem, sugerindo uma longa tradição oral precedendo os relatos escritos, todas concordam num ponto: a primeira era terminou com o dilúvio, uma grande enchente que cobriu a Terra. A Humanidade sobreviveu por causa de um casal, Nené e sua mulher Tatá, que conseguiu salvar-se num tronco escavado.A segunda, a era dos Gigantes de Cabelos Brancos, ou Segundo Sol, era lembrada como "Tzoncuztique", isto é, Idade do Ouro, que chegou ao fim pela Serpente do Vento. A terceira era, ou Terceiro Sol, ficou conhecida como a Idade dos Ruivos, sendo regida pela Serpente de Fogo. Segundo o cronista Ixtlilxochitl, os astecas eram os sobreviventes do Segundo Sol e haviam che­gado de navio ao Novo Mundo, vindos do leste, e se estabelecido na área que ele chamou de Botonchan. Lá teriam encontrado gigantes que também haviam sobrevivido à segunda era, que os escravizaram. Na quarta era, ou Quarto Sol, conhecida como a Idade do Povo de Cabeça Preta, Quetzalcoatl aparecera no México — alto de estatura, de aspecto vivo, barbado e usando uma longa túnica. Seu cajado, na forma de uma serpente, era pintado de negro, branco e vermelho, incrustado com pedras preciosas e adornado com seis estrelas (não por coincidência, talvez, o ca­jado do bispo Zumárraga, arcebispo do México, fosse seme­lhante ao cajado de Quetzalcoatl). Tollán, a capital tolteca, teria sido erguida nesse período por Quetzalcoatl, senhor da sabe­doria e do conhecimento, que introduzira o aprendizado, as artes, as leis, e a contagem da passagem do tempo, de acordo com o ciclo de 52 anos.Perto do final do Quarto Sol, começaram as guerras entre os deuses. Quetzalcoatl partira, então, para leste, retornando ao lu­gar de onde viera. As guerras entre os deuses trouxeram des­truição e, então, animais selvagens infestaram a Terra. Tollán foi abandonada. Cinco anos mais tarde chegaram as tribos chichi-mec, ou astecas. Começava o Quinto Sol, ou a era Asteca.Por que as eras foram chamadas de "Sóis" e quanto tempo duraram? As respostas não são claras. A duração efetiva das várias eras, ou não é mencionada, ou difere segundo a versão. Uma que parece ordenada, e até surpreendentemente plausível, como demonstraremos, é o Codex Vaticano-Latino 3738. Este relato diz que o Primeiro Sol durou 4 008 anos, o segundo 4 010 anos e o terceiro 4.081 anos. O Quarto Sol "começou há 5 042 anos", descreve, sem mencionar a data do seu término. Seja como for, temos aqui uma história de acontecimentos que remontam a 17.141 anos da época em que foram registrados.Esse é um período apreciável para um povo atrasado lembrar. Os estudiosos, embora aceitem como "elementos" históricos os eventos do Quarto Sol, tendem a desprezar os referentes às idades anteriores, considerando-os como pura mitologia. Como explicar, então, as histórias de Adão e Eva, o dilúvio, a sobrevivência de um casal, episódios nas palavras de H. B. Alexander (Latin-American Mytology- "Mitologias Latino-Americanas"), "espantosa­mente semelhantes à narrativa da Criação no Génese, e à cos­mogonia da Babilônia"? Para alguns estudiosos, os textos em nahuatl refletem narrativas que os nativos teriam ouvido dos espanhóis, pomposos recitadores da Bíblia. Porém, como nem todos os códices são do período pós-Conquista as semelhanças bíblico-mesopotâmicas dos relatos só podem ser explicadas pela hipótese de que as tribos mexicanas possuíam laços ancestrais com a Mesopotâmia.Além disso, o calendário mexica-nahuatl relaciona eventos e eras com tamanha precisão científica e histórica, que faz pensar. Coloca o dilúvio no final do Primeiro Sol, portanto, 13 133 anos antes do seu registro no códice, numa data próxima a 11600 a.C.Em nosso livro O 12° planeta concluímos que um dilúvio real­mente ocorreu, envolvendo a Terra por volta de 11000 a.C. Esta correspondência, não só com a história em si, mas também com a data aproximada, indica que as narrativas astecas podem ser mais do que simples mitos.Ficamos intrigados, também, com a afirmativa de que a quarta era fora a época do "povo de cabeça negra"(as primeiras foram as dos gigantes de cabelos brancos, depois, as dos povos ruivos). E exatamente assim que os sumérios foram chamados em seus textos. Será que as histórias astecas consideram o Quarto Sol como a época em que os sumérios entraram em cena? A civili­zação suméria começou em cerca de 3800 a.C. Não deveríamos nos surpreender, a esta altura, em descobrir que o início da quarta era foi datado pelas narrativas astecas em 5.026 anos antes do próprio tempo, o que se traduz em cerca de 3500 a.C. — espantosamente próximo ao início da Idade do Povo de Cabeça Negra.O argumento do feedback (os astecas estariam narrando aos espanhóis o que teriam ouvido dos próprios espanhóis) não se sustenta com relação aos sumérios. O mundo ocidental descobriu os vestígios da grande civilização suméria quatro séculos depois da conquista do México.As tribos nahuatl teriam ouvido as histórias parecidas com o Gênese das próprias fontes ancestrais? Mas como?A pergunta já intrigara os próprios espanhóis. Impressionados ao descobrir no Novo Mundo não só uma civilização parecida com as da Europa, mas também com "as pessoas de lá," eles sem dúvida ficaram intrigados com os temas bíblicos das nar­rativas astecas. Tentando encontrar uma explicação para o enig­ma concluíram que os astecas seriam descendentes das Dez Tri­bos Perdidas de Israel: exiladas pêlos assírios em 772 a.C., elas desapareceram sem deixar traço (o restante do reinado da Judéia foi preservado pelas duas tribos, Judá e Benjamin).O primeiro a expor essa teoria foi o frei dominicano Diego Durán. Ele foi trazido para a Nova Espanha em 1542 com a idade de cinco anos. Escreveu dois livros, Book of Gods and Rites and the Ancient Calendar ("Livro dos Deuses, Ritos e do Antigo Calendário") e Historia de Ias índias de Nueva Espana ("His­tória das índias da Nova Espanha") traduzido para o inglês por D. Heyden e F. Horcasitas, em que fala das semelhanças entre astecas e histórias bíblicas. Em seu segundo livro Durán enfatiza suas conclusões em relação aos nativos "desse novo mundo": "são o povo judeu e hebreu". Sua teoria era confirmada, dizia, "pela natureza deles". "Esses nativos são parte das Dez Tribos de Israel que Shalmaneser, rei dos assírios, capturou e levou para a Assíria."Em seus relatos de conversas com velhos astecas mostrava que na tradição oral dos nativos havia histórias de "homens com monstruosa estatura que apareceram e tomaram conta do país... e esses gigantes, não tendo encontrado uma maneira de atingir o Sol, resolveram construir uma torre tão alta que seu topo che­garia ao Céu". Este episódio lembra a narrativa bíblica da Torre de Babel, e é tão importante quanto outra história de uma mi­gração como a do Êxodo.Não é de estranhar que, quanto mais numerosos eram os re­latórios, mais aumentava a convicção na teoria das Dez Tribos Perdidas. Ela chegou a tornar-se a versão favorita nos séculos 16 e 17, presumindo que, de alguma maneira, os israelitas, se­guindo em direção ao leste, através dos domínios assírios, e muito além, acabaram chegando na América.A teoria das Dez Tribos Perdidas, apoiada até pelas cortes reais da Europa, foi ridicularizada mais tarde por estudiosos. As teorias atuais sustentam que o homem chegou ao Novo Mundo através da Ásia, atravessando uma ponte de terra gelada no Alas­ca, cerca de 20.000 a 30.000 anos atrás, e dispersando-se, de forma gradual, para o sul. Evidências notáveis — artefatos, lin­guagem, avaliações etnológicas e antropológicas — indicam in­fluências do outro lado do Pacífico, da índia, do Sudeste Asiático, China, Japão, Polinésia. Os especialistas falam em chegada pe­riódica desses povos à América, mas são enfáticos ao afirmar que isso ocorreu durante a Era Cristã, alguns séculos antes da Conquista, mas não antes de Cristo.Entretanto, se os estudiosos tradicionais continuam a ignorar as evidências de contatos pelo oceano Atlântico entre o Velho e o Novo Mundo, eles são condescendentes em aceitar tais contatos via Pacífico para explicar histórias americanas relativamente re­centes parecidas com o Gênese. Na verdade, as lendas sobre um dilúvio global e a criação do homem a partir do barro, ou coisa semelhante, são temas recorrentes em todo o mundo. A rota pos­sível desses temas do Oriente Médio, onde as histórias se origi­naram, para o Novo Mundo poderia ter sido pelo sudoeste da Ásia, ou pelas ilhas do Pacífico.Existem, no entanto, elementos nas versões nahuatl que apon­tam para fontes muito mais antigas que os séculos relativamente recentes antes da Conquista. Um deles é o fato de que a narrativa nahuatl sobre a Criação segue uma versão muito antiga da Mesopotâmia, que não chegou a ser incorporada pelo livro do Gênese!A Bíblia, na verdade, não possui uma, mas duas versões da criação do Homem; ambas baseadas em versões antigas mesopotâmicas. Mas elas ignoram uma terceira versão, talvez a mais antiga, na qual o homem não é feito de barro, mas do sangue de um deus. No texto sumério sobre o qual se baseia essa versão, o deus Ea, com ajuda da deusa Ninti, "preparou um banho de purificação". "Deixe que um deus sangre aqui e nessa carne e sangue deixe Ninti misturar a argila", ordenou ele. Dessa mistura nasceu o homem e a mulher.Achamos significativo o fato de que é essa versão — ausente da Bíblia — a repetida pelo mito asteca. O texto é conhecido como Manuscrito de 1558. Ele relata que após o calamitoso fim do Quarto Sol, os deuses se reuniram em Teotihuacán.E perguntaram:

"Quem irá habitar a Terra?"

O céu já foi constituído

e a Terra foi constituída;

Mas quem, ó deuses, irá viver na Terra?

Os deuses reunidos "ficaram tristes". Mas Quetzalcoatl, o deus da sabedoria e da ciência, teve uma idéia. Foi a Mictlán, a Terra dos Mortos, e anunciou ao casal divino que a guardava: "Vim apanhar os ossos preciosos que vocês mantêm aqui". Superando suas objeções e engenhosidade, Quetzalcoatl conseguiu levar os "ossos preciosos":

Ele reuniu os ossos preciosos;

Os ossos do homem foram colocados juntos a um lado,

Os ossos da mulher foram colocados juntos do outro lado.

Quetzalcoatl tomou-os e fez um embrulho.

Ele carregou os ossos secos para Tamoanchán,

"Lugar de Nossa Origem" ou "Lugar do Qual Descendemos".

Lá, entregou os ossos para Cihuacoatl ("Mulher Serpente"),

A deusa da magia.

Ela moeu os ossos

e colocou-os num tubo de barro fino.

Quetzalcoatl sangrou seu órgão masculino sobre eles.

Enquanto os outros deuses observavam, ela misturou os ossos moídos com o sangue do deus; dessa mistura parecida com argila, os macehuales foram compostos. A humanidade fora criada!Nas histórias sumérias, o responsável pela criação do homem foi o deus Ea ("Cuja Casa É Água"), também conhecido como Enki ("Senhor Terra") — cujos epítetos e símbolos freqüente­mente o mostravam como habilidoso, uma espécie de metalúrgico (todas as palavras com equivalente linguístico no termo "Ser­pente") — com a ajuda de Ninti ("Ela Que Dá Vida"), deusa da medicina (uma ciência cujo símbolo, desde a Antiguidade, é a serpente enrolada). Os sumérios representaram a cena em selos cilíndricos, mostrando as duas divindades num local parecido com um laboratório, com frascos e tudo o mais.É impressionante encontrar esses mesmos elementos nas his­tórias nahuatl: um deus da sabedoria conhecido como Serpente Emplumada; uma deusa de poderes mágicos chamada de Mulher Serpente; uma cuba de argila na qual os elementos terrestres estão misturados com a essência dos deuses (sangue) e o surgi­mento do homem, macho e fêmea, dessa mistura. Ainda mais impressionante é o fato de que o mito foi representado com figuras num códice nahuatl, encontrado na área da tribo mixtec. Mostra um deus e uma deusa misturando um elemento que corre num grande frasco ou cuba, com o sangue de um deus pingando no frasco; da mistura emerge um homem (fig. 9b).



Associando a outros dados e termos usados pelos sumérios, parece que houve conta to numa época muito remota. A prova, ao que parece, também desafia as teorias atuais sobre as primeiras migrações do homem para as Américas. Não estamos nos refe­rindo apenas às sugestões (feitas nesse mesmo século no Con­gresso Internacional de Americanistas) de que a migração não ocorreu pela Ásia, via estreito de Bering, ao norte, mas sim pela rota da Austrália / Nova Zelândia, via Antártica, para a América do Sul — uma idéia revivida recentemente depois da descoberta, no norte do Chile, próximo à fronteira com o Peru, de múmias humanas enterradas 9 000 anos atrás.O problema que enfrentamos com as duas teorias de migração, é que requeriam a realização de uma viagem com homens, mulheres e crianças, por milhares de quilômetros de terreno gelado. Não conseguimos imaginar como isso poderia ter sido feito 20 000 ou 30 000 anos atrás. Também nos perguntamos os motivos que os teriam levado a empreender tal jornada. Por que homens, mu­lheres e crianças viajariam por milhares de quilômetros de terreno gelado, encontrando cada vez mais gelo, se não acreditassem na existência de uma Terra Prometida além do gelo? Porém, como poderiam saber o que estava além do gelo, se não tinham estado lá, ainda, nem ninguém antes deles, pois, por definição, eram eles os primeiros a chegar na América? Na história bíblica do Êxodo do Egito, o Senhor descreve a Terra Prometida como "uma terra de trigo e cevada, de vinha e figueira, de romãzeira, de oliveira e de mel...", "uma terra, cujas pedras são de ferro e de cujas montanhas podeis extrair cobre". O deus asteca descreveu a Terra Prometida como "casas com ouro e prata, algodão multicolorido e cacau de vários matizes". Teriam os primeiros migrantes empreendido a viagem se alguém — o seu deus — não lhes dissesse para ir e o que esperar? E se essa divindade não fosse só uma entidade teológica, mas um ser fisicamente presente na Terra? Não poderia ter auxiliado os viajantes a suportar os rigores da jornada, assim como o Senhor bíblico fez com os israelitas? Foi com tais questionamentos, de como e por que motivos uma viagem impossível foi realizada, que lemos e relemos as histórias nahuatl sobre as Quatro Idades. Se o Primeiro Sol ter­minou com o dilúvio, concluímos que aquela deve ter sido a fase final da última Idade do Gelo. Afirmamos no livro O 12° Planeta que o dilúvio foi causado pelo derretimento da calota antártica de gelo, que deslizou para os oceanos, causando o final da última Idade do Gelo, em cerca de 11.000 anos a.C. Teria sido o legendário local de origem das tribos nahuatl, chamado Aztlán, "O Lugar Branco", uma terra coberta de gelo? Foi por isso que o Primeiro Sol foi considerado a época dos "gigantes de cabelos brancos"? Será que as lembranças históricas dos astecas, retrocedendo ao começo do Primeiro Sol, 17.141 anos antes, se referiam a uma migração para a América em cerca de 15000 anos a.C., quando o gelo formava uma ponte de terra com o Velho Mundo? Seria possível que essa travessia, em lugar de ocorrer pela calota de gelo, não tivesse sido feita pelo oceano Pacífico, como lendas nahuatl narram? Lendas de chegadas por mar e desembarques na costa do Pa­cífico não são exclusivas dos povos mexicanos. Mais ao sul, entre o povo andino, encontramos lembranças semelhantes narradas como lendas. Uma delas, a lenda de Naymlap, fala do primeiro desembarque naquela costa de um povo vindo de outro lugar. Conta a chegada de uma grande frota de jangadas de junco (do tipo usado por Thor Heyerdahl para simular as viagens dos sumérios). Uma pedra verde, que podia transmitir as palavras dos deuses, colocada no barco líder, indicara ao chefe da migração, Naymlap, a praia para o desembarque. A divindade, falando através daquele ídolo verde, instruiu o povo nas artes da agricultura, construção e artesanato.Algumas versões da lenda do ídolo verde apontam o Cabo Santa Helena, no Equador, como o local do desembarque. Ali, o continente sul-americano se projeta na direção do Pacífico. Vá­rios cronistas, entre eles Juan de Velasco, relataram as tradições nativas, assegurando que os primeiros homens a desembarcar nas regiões equatoriais eram gigantes. Eles adoravam doze deu­ses, liderados pelo Sol e pela Lua. No local onde está situada hoje a capital do Equador, segundo Velasco, os recém-chegados construíram dois templos, voltados um para o outro. O templo dedicado ao Sol possuía duas colunas de pedra em frente ao portal e, no átrio, um círculo de doze pilares de pedra.Tendo cumprido sua missão, Naymlap, o chefe, achou que era o momento de partir. Ao contrário de seus sucessores, ele não morreu. Ganhou asas e voou para não mais ser visto, levado para o céu pelo deus da pedra falante.A crença de que as instruções divinas poderiam ser recebidas através de uma pedra falante, alinham os indígenas americanos aos povos antigos do Velho Mundo, que descreveram e acredi­taram em pedras de oráculos. A Arca que os israelitas carregaram durante o Êxodo era encimada pelo Dvir — literalmente, "Fala­dor" — um dispositivo portátil, através do qual Moisés podia ouvir as instruções do Senhor. Os detalhes sobre a partida de Naymlap, sendo levado para os céus, também possui um paralelo bíblico. Podemos ler no capítulo 5 do Gênese que na sétima geração da linhagem de Adão, através de Set, o patriarca era Enoch; depois de ter atingido a idade de 365 anos "ele se foi" da Terra, pois o Senhor o levou na direção do céu.Os estudiosos colocam um problema para aceitar a travessia do oceano há 15 000 ou 20 000 anos: o homem, sustentam, era primitivo demais para construir embarcações que navegassem em alto mar. Isso só teria acontecido na civilização dos sumérios, no começo do quarto milênio antes de Cristo, quando a huma­nidade começou a usar veículos terrestres (carros com rodas) e marítimos (barcos) como meio de transporte à longa distância.Segundo os próprios sumérios, esse foi o curso dos aconteci­mentos após o Dilúvio. Existiu, diziam eles, uma alta civilização na Terra antes do Dilúvio — uma civilização iniciada pêlos que vieram do planeta de Anu e que continuou através de uma li­nhagem de "semideuses", a geração resultante do casamento entre os extraterrestres (os nefelim bíblicos) e as "filhas do Homem." Crônicas egípcias, como os escritos do sacerdote Manetho, se­guiram esse mesmo raciocínio. Também a Bíblia descreve a vida rural (agricultura e pastoreio) e a vida urbana (cidades, meta­lurgia) antes do Dilúvio. Tudo isso, entretanto, segundo a tota­lidade das fontes antigas, foi varrido da face da Terra pelo Dilúvio e teve de ser recomeçado desde o início.O Livro do Gênese começa com as histórias da Criação, que não passam de versões concisas de textos sumérios, muito mais detalhados. Nestes últimos, é mencionado constantemente "o Adão", literalmente "o terrestre". Depois, trocou-se pela genea­logia de um ancestral específico chamado Adão. "Este é o livro das gerações de Adão (Gênese 5:1). Ele tinha dois filhos no início, Caim e Abel. Depois, Caim matou seu irmão, e foi banido por laweh. E Adão conheceu sua mulher outra vez e ela gerou um filho e deu-lhe o nome de Set". É esta linhagem, a linhagem de Set, que a Bíblia segue através da genealogia dos patriarcas até Noé, o herói da história do Dilúvio. A história focaliza o povo asiático-africano-europeu.Mas o que aconteceu com Caim e sua linhagem? Tudo o que temos na Bíblia são doze versos. laweh puniu Caim transfor­mando-o em "um fugitivo e um vagabundo sobre a Terra", ou seja, um nômade.

E Caim afastou-se da presença de laweh

E viveu na terra de Nod, a leste do Éden.

E Caim conheceu sua mulher que concebeu

E deu à luz a Enoch;

E ele construiu uma cidade

E deu à cidade o nome de seu filho, Enoch.

Várias gerações depois, Lamech nasceu. Teve duas esposas. De uma nasceu Jabal, "era o pai dos que habitam em tendas e possuem gado". Da outra, dois filhos nasceram. Um, Jubal, "foi o pai de todos os que tocam a lira e a flauta". O outro, Tubal-Kain, "foi um artífice de ouro, cobre e ferro".Essas parcas informações bíblicas são bastante ampliadas pelo pseudo-epigráfico Livro dos Jubileus, que se acredita ter sido composto no século 2 a.C, baseado em fontes anteriores. Rela­tando os eventos até a passagem dos Jubileus, afirma que "Caim tomou Awan sua irmã por sua esposa e ela pariu Enoch perto do quarto jubileu. E no primeiro ano da primeira semana do quinto jubileu casas foram construídas na Terra e Caim construiu uma cidade e deu o nome à cidade como o nome de seu filho, Enoch".Os estudiosos da Bíblia ficaram intrigados por muito tempo pela coincidência: o nome de um descendente de Adão, através de Set, era "Enoch" e, através de Caim, também "Enoch" (que significa "fundir", "fundição"), além de outras semelhanças nos nomes dos descendentes. Qualquer que seja o motivo, é evidente que as fontes nas quais os editores da Bíblia se apoiaram, atri­buíam a ambos "Enoch" — talvez uma só pessoa pré-histórica — feitos extraordinários. O Livro dos Jubileus afirma que Enoch "foi o primeiro entre os homens nascidos na Terra que aprendeu a escrever a sabedoria e o conhecimento e que anotou os signos dos céus, de acordo com seus meses, num livro". Segundo o Livro de Enoch, esse patriarca aprendeu matemática, conheci­mento dos planetas, o calendário, durante uma viagem celestial, quando lhe foi mostrada a localização das "Sete Montanhas de Metal" na Terra, "no oeste".Os textos sumérios pré-bíblicos, conhecidos como Listas do Rei, também relatam a história de um governante anterior ao Dilúvio, que aprendeu com os deuses todas as formas de sabe­doria. Seu nome-epíteto era EN.ME.DUR.AN.KI — "Senhor da Sabedoria da Criação do Céu e da Terra" — e um provável pro­tótipo dos "Enoch" da Bíblia.As histórias nahuatl falam sobre a perambulação, a chegada a um destino final, estabelecendo-se ao fundar uma cidade; sobre um patriarca com duas esposas e filhos dos quais se originaram as nações tribais; de um que se tornou renomado por sua habi­lidade com metais. Não parecem as histórias bíblicas? Mesmo o uso nahuatl intencional do número sete é refletido nas histórias bíblicas, pois o sétimo descendente, através da linhagem de Caim, Lamech, enigmaticamente proclamou que "Sete vezes Caim será vingado e Lamech, setenta e sete".Estaríamos então encontrando nas tradições das sete tribos nahuatl, os ecos — memórias antigas — da linhagem banida de Caim e de seu filho Enoch? Os astecas chamavam sua capital de Tenochtitlán, a Cidade de Tenoch, batizada com o mesmo nome de seu ancestral. Consi­derando que em seu dialeto, eles apresentam o hábito de prefi­xarem muitas de suas palavras com o som T, Tenoch poderia ter sido originalmente Enoch se retirarmos o T.Um texto babilônico, baseado na opinião dos estudiosos sobre um texto sumério do terceiro milênio a.C., enigmaticamente, re­lata um conflito, que termina em assassinato entre um ceramista e um irmão pastor de ovelhas, exatamente como a história bíblica de Caim e Abel. Condenado a "vagar em tristeza", o agressor, chamado Ka'in, migrou para a terra de Dunnu e lá "construiu uma cidade com duas torres".Torres gêmeas sobre as pirâmides-templo era uma marca re­gistrada da arquitetura asteca. Será que esse fato comemora a construção de uma "cidade com torres gêmeas" por Ka'in? E seria Tenochtitlán, a "Cidade de Tenoch", batizada e construída porque Caim, milênios antes, "construiu uma cidade e a chamou com o nome de seu filho, Enoch"? Teremos encontrados na América Central o reino perdido de Caim, a cidade que recebeu o nome de Enoch? A possibilidade certamente oferece respostas plausíveis ao enigma dos primór­dios do homem nesses domínios.Também pode lançar luz sobre dois enigmas — aquele da "Marca de Caim" e o traço hereditário comum a todos os povos nativos da América, a ausência de pêlos no rosto.De acordo com a narrativa bíblica, depois que o Senhor baniu Caim de suas terras e decretou que ele seria um nômade no Leste, Caim ficou preocupado em ser assassinado pêlos que que­riam vingança. Então o Senhor, para indicar que Caim vagava sob sua proteção, "colocou um sinal sobre Caim, para que qual­quer um que o encontrasse não o atormentasse". Embora nin­guém saiba até hoje que "sinal" distinto seria esse, presumiu-se que poderia ser algum tipo de tatuagem na fronte de Caim. Mas, pela narrativa bíblica, o assunto da vingança, e da proteção contra ela, continuou até a sétima geração e muito mais. A tatuagem na testa não teria durado tanto, nem seria transmitida de geração em geração. Apenas um traço genético, transmitido hereditariamente, poderia encaixar-se nos dados bíblicos.Em virtude desse particular traço genético do ameríndios — a ausência de pêlos no rosto — acredita-se que essa característica seria a "marca de Caim" e seus descendentes. Se nossa suposição estiver correta, a América Central, como ponto focal de onde os ameríndios se espalharam para o norte e para o sul do Novo Mundo, foi mesmo o Reino Perdido de Caim.

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O REINO DOS DEUSES SERPENTES

Quando Tenochtitlán atingiu seu período áureo, a capital tolteca de Tuia já tinha sido lembrada como a lendária Tollán. E quando os toltecas construíram sua cidade, Teotihuacán já estava envolvida em mitos. Seu nome significara "Lugar dos Deuses". Segundo as narrativas astecas, era exatamente isso que o local tinha sido.Diziam elas que, no tempo em que as calamidades se abateram sobre a Terra e a Terra ficou na escuridão porque o Sol não apareceu, apenas em Teotihuacán havia luz, pois uma chama divina permanecia queimando lá. Os deuses, preocupados com o fenômeno, reuniram-se em Teotihuacán, para decidir o que fazer. "Quem governará e dirigirá o mundo?", perguntavam uns aos outros. Para responder, em seguida, "...a menos que possamos fazer o Sol aparecer".Pediram, então, um voluntário entre os deuses para se jogar sobre a chama divina e com esse sacrifício trazer de volta o sol. O deus Tecuciztecatl se ofereceu como voluntário. Envergando seu traje brilhante ele avançou para a chama, mas a cada vez que se aproximava do fogo, recuava, perdendo a coragem. O deus Nanauatzin se ofereceu para tomar seu lugar e sem hesitar saltou sobre a chama. Envergonhado, Tecuciztecatl seguiu atrás, mas caiu apenas na fímbria da chama. Enquanto os deuses eram consumidos pelo fogo, o Sol e a Lua reapareceram no céu.Porém, embora pudessem ser vistas, as duas fontes de luz permaneciam imóveis no céu. Segundo uma das versões, o Sol começou a mover-se depois de uma boa flechada. Outra, no entanto, diz que o astro retomou o movimento quando o Deus do Vento soprou sobre ele. Depois que o Sol terminou seu movi­mento, a Lua também começou a mover-se. Assim, o ciclo do dia e da noite recomeçou e a Terra foi salva.A história está intimamente ligada com os monumentos mais renomados de Teotíhuacán, a Pirâmide do Sol e a Pirâmide da Lua. Uma versão diz que as duas pirâmides foram construídas para homenagear os dois deuses que se sacrificaram; outra versão afirma que as pirâmides já existiam quando o evento aconteceu e que os deuses saltaram para o fogo divino do alto das pirâmides.Qualquer que seja a lenda, o fato é que a Pirâmide do Sol e a Pirâmide da Lua ainda estão lá. O que há poucas décadas eram montes cobertos de vegetação, agora erguem-se majesto­samente a apenas 50 quilômetros ao norte da Cidade do México, transformando-se em atração turística. Estas pirâmides, elevan­do-se num vale cujas montanhas circundantes agem como pano de fundo para um cenário eterno, (fig. 10), forçam os olhos dos visitantes a seguir além. Os monumentos sugerem poder, sabedoria, engenhosidade; revelam uma linha entre a Terra e o Céu. Ninguém fica indiferente, é impossível deixar de perceber o sen­tido de história, a presença de um passado glorioso.


Quanto tempo atrás? Os arqueólogos inicialmente presumiram que Teotíhuacán fora fundada nos primeiros séculos da Era Cris­tã. Porém, a data vem se alterando com o tempo. Alguns estudos feitos no local indicaram que o centro cerimonial da cidade já Ocupava 11,6 quilômetros quadrados por volta de 200 a.C. Na década de 50, um famoso arqueólogo, M. Covarrubias, admitiu com incredulidade que a datação por carbono dava ao local a "quase impossível época de 900 a.C" (Indian Art of México and Central America -"A Arte Indígena do México e da América Cen­tral"). Na verdade, datações mais recentes fornecem uma data de 1474 a.C. (com pequena margem de erro). Atualmente, acei­ta-se a datação de cerca de 1400 a.C. Foi quando os olmecas, que podem ser sido o povo que trabalhou na construção das estruturas monumentais de Teotihuacán, estavam fundando grandes "centros cerimoniais" em outros lugares do México.Teotihuacán passou nitidamente por várias fases de constru­ção. Suas pirâmides revelam evidências de estruturas internas mais antigas. Alguns estudiosos lêem nas ruínas uma história que pode ter começado 6000 anos atrás — no quarto milênio a.C. Isso se encaixa com as lendas astecas que falavam sobre esse "Lugar dos Deuses" como existindo no Quarto Sol. Então, quando o dia da "escuridão" aconteceu, por volta de 1400 a.C., as duas pirâmides foram erguidas até suas dimensões monumentais.A Pirâmide da Lua eleva-se ao norte desse centro cerimonial, flanqueada por estruturas auxiliares, com uma grande praça na frente. De lá, uma avenida larga corre na direção sul até onde a vista alcança. E' ladeada por santuários, templos e outras es­truturas baixas, que se acredita serem túmulos. Por isso, esta avenida recebeu o nome de Avenida dos Mortos. Cerca de 600 metros para o sul, a Avenida dos Mortos chega à Pirâmide do Sol, que se eleva no lado oriental (fig. 11), ao lado de uma série de santuários e outras estruturas.Além da Pirâmide do Sol, mais 900 metros para o sul, chega-se à Ciudadela, um quadrilátero que contém, no lado oriental, a ter­ceira pirâmide de Teotihuacán, chamada a Pirâmide de Quetzalcoatl. Sabe-se hoje que em frente à Ciudadela, do outro lado da Avenida dos Mortos, existia mais um quadrilátero. Ele servia como centro administrativo e comercial. A avenida continua em direção sul. O mapeamento de Teotihuacán encontrou, ao sul da Pirâmide do Sol, uma marca cinzelada nas rochas na forma de uma cruz no interior de dois círculos concêntricos; outra marca similar foi encontrada a três quilômetros para o oeste, na encosta de uma montanha. Uma linha unindo as duas marcas indica precisamente a direção do eixo leste-oeste; os outros braços da cruz recaem na orientação norte-sul. Os pesquisadores concluí­ram que eram as marcas utilizadas pêlos construtores da cidade, mas não ofereceram explicações sobre os instrumentos utilizados na Antiguidade para traçar uma linha entre dois locais tão dis­tantes.


Outros fatos evidenciam que o centro cerimonial foi orientado projetado intencionalmente. O primeiro deles é que o rio Sanffijan, que corre pelo vale de Teotihuacán, teve seu curso desviado deliberadamente no local onde cruza o centro cerimonial. Os canais artificiais que desviaram suas águas para a Ciudadela, ao longo do quadrilátero, seguem paralelos ao eixo leste-oeste e, depois de duas curvas em ângulos retos, voltam-se para a avenida que corre para oeste.O segundo, é que os dois eixos não coincidem diretamente com os pontos cardeais. Eles apresentam um desvio para su­doeste de 15,5 graus (fig. 11). Estudos demonstraram que isso não foi acidente, ou erro de cálculo dos antigos construtores. A. F. Aveni (Astronomy in Ancient Mesoamerica - "Astronomia na América Central Antiga"), chamou de "orientação sagrada" esse desvio. Tanto que centros cerimoniais mais recentes, como o de Tuia, e outros, também mostram essa orientação, ainda que ela não fizesse sentido em seus locais de construção. Sua conclusão é de que ela foi seguida na construção de Teotihuacan para per­mitir observações no céu em determinadas datas importantes do calendário.Zelia Nutal, num documento apresentado ao vigésimo-segundo Congresso Internacional de Americanistas (Roma, 1926), sugeriu que essa orientação fora determinada pela pas­sagem do Sol pelo zênite do observador, fenômeno que ocorre duas vezes por ano, quando o sol parece deslocar-se de norte para sul, depois retorna. Se o propósito das pirâmides fosse a observação astronômica, seu formato — pirâmides com de­graus, equipadas com escadarias, levando a presumíveis templos-observatórios na plataforma do cimo — faria sentido. En­tretanto, como fortes evidências sugerem que o que conhece­mos atualmente são as camadas exteriores, mais recentes, das duas maiores pirâmides (como foram descobertas pêlos arqueólogos) não se pode afirmar, com certeza, que o propósito original dessas pirâmides fosse esse. A possibilidade, e até mesmo a probabilidade, de que as escadarias fossem uma adi­ção posterior pode ser confirmada pelo fato de que o primeiro estágio da grande escadaria da Pirâmide do Sol é inclinado e não alinhado com a orientação da pirâmide (fig. 12).



Das três pirâmides de Teotihuacán, a menor é a de Quetzal-coatl, na Ciudadela. Uma adição posterior foi parcialmente es­cavada para revelar a construção original em degraus. A fachada parcialmente exposta mostra decorações esculpidas, nas quais o símbolo da serpente de Quetzalcoatl se alterna com o rosto es­tilizado de Tlaloc contra um fundo de águas onduladas (fig. 13). Essa pirâmide remonta ao tempo dos toltecas, e é parecida com muitas pirâmides mexicanas.


As duas pirâmides maiores, ao contrário, apresentam ausência total de adornos. São de tamanho e formas diferentes, destacan­do-se pela solidez e antiguidade. Em todos os aspectos lembram as grandes pirâmides de Gize, que também diferem de todas as pirâmides egípcias subsequentes; as últimas foram construídas pêlos faraós, enquanto as de Gize foram construídas pelos "deu­ses". Talvez seja o caso de Teotihuacán, pois as evidências ar­queológicas apóiam as lendas sobre como a Pirâmide do Sol e a Pirâmide da Lua surgiram.Embora as duas grandes pirâmides de Teotihuacán, para per­mitir seu uso como observatório, tenham sido construídas com degraus, encimadas por plataformas e equipadas com escadarias (como os zigurates mesopotâmicos), não há dúvida que seus arquitetos estavam familiarizados com as pirâmides de Gize no Egito. Exceto pelo ajuste da forma exterior, estas construções imitam as pirâmides peculiares de Gize. Há uma semelhança im­pressionante. A Segunda Pirâmide em Gizé, é menor do que a Grande Pirâmide. Mas seus picos se elevam à mesma altura em relação ao nível do mar, porque a Segunda Pirâmide foi construída em terreno mais elevado. O mesmo se dá em Teotihuacán, onde a Pirâmide da Lua, menor, foi construída em terreno cerca de dez metros mais elevado que a Pirâmide do Sol, fazendo com que os picos de ambas estejam na mesma altura em relação ao nível do mar.As semelhanças são mais fortes, ainda, entre as duas pirâmides maiores. Ambas foram construídas sobre plataformas artificiais. Os lados possuem quase a mesma medida: cerca de 230 metros, em Gize, e 227 metros, em Teotihuacán. A última caberia exatamente na primeira (fig. 14).




Embora essas correspondências sugiram uma ligação oculta entre os dois conjuntos de pirâmides, não podemos ignorar, as diferenças consideráveis entre elas. Na Grande Pirâmide de Gizé foram usados grandes blocos de pedra, cuidadosamente traba­lhados e unidos sem argamassa, pesando um total de 7 milhões de toneladas e apresentando um volume de 2 milhões e 604.000 metros cúbicos. A Pirâmide do Sol foi construída com tijolos de argila, adobe, pedregulhos e cascalho, unidos por uma camada de pedras brutas e estuque, apresentando um volume de apenas 280.000 metros cúbicos. A Pirâmide de Gize contém um complexo interno de corredores, galerias e câmeras preciso e delicado. A pirâmide de Teotihuacán não parece apresentar estruturas inter­nas. A pirâmide egípcia eleva-se a uma altura de 146 metros, enquanto a Pirâmide do Sol atinge apenas 76 metros. A Grande Pirâmide possui quatro lados triangulares que se elevam num ângulo difícil de 52 graus. As duas em Teotihuacán, foram cons­truídas em estágios, apoiados um sobre o outro, com lados que se inclinam para dentro, começando com uma inclinação de 43,5 graus.As significativas diferenças refletem os diferentes períodos e propósitos de cada conjunto de pirâmides. Mas na última delas, fato não percebido pêlos pesquisadores anteriores, está a chave para a resolução de alguns enigmas.O ângulo inclinado de 52 graus existe no Egito apenas nas pirâmides de Gize, que não foram construídas por Quéops, ou outro faraó (como ficou provado nos livros anteriores das Cró­nicas Terrestres), mas pêlos deuses do antigo Oriente Médio como faróis de aterrissagem no espaçoporto da península do Sinai. Todas as outras pirâmides egípcias — menores, menos impo­nentes, em ruínas, ou destruídas — foram construídas por faraós, milênios depois, numa imitação da "escadaria para o céu" dos deuses. Porém, nenhuma atingiu o ângulo perfeito de 52 graus e sempre que isso foi tentado, a construção terminou ruindo.A lição foi aprendida quando o faraó Sneferu (cerca de 2650 a.C.) iniciou sua tentativa de glória monumental. Numa análise brilhante desses acontecimentos antigos, K. Mendelssohn (The Riddle of the Pyramids - "O Enigma das Pirâmides") diz que os arquitetos de Sneferu estavam construindo a segunda pirâmide em Dahshur quando a primeira, construída em Maidum, em ân­gulo de 52 graus, desabou. Eles, então, apressadamente, altera­ram o ângulo de inclinação da pirâmide de Dahshur para um patamar mais seguro de 43,5 graus, no meio da construção. Isso resultou num formato estranho, originando o nome Pirâmide Torta (fig. 15a). Ainda determinado a deixar para a posteridade uma verdadeira pirâmide, Sneferu mandou construir uma ter­ceira pirâmide nas cercanias. Ela é agora chamada de Pirâmide Vermelha, pela cor de suas pedras, e eleva-se em ângulo de 43,5 graus (fig. 15b).Mas, nesse recuo para a segurança, os arquitetos de Sneferu voltaram a utilizar uma escolha feita mais de um século antes, cerca de 2700 a.C., pelo faraó Zoser. Sua pirâmide, a mais antiga construída pelos faraós (que pode ser vista ainda hoje em Sakara), era construída em seis degraus (fig. 15c) com ângulo de 43,5 graus.



Seria apenas coincidência que a Pirâmide do Sol e a Grande Pirâmide de Gizé tenham as mesmas medidas na base? Talvez. Seria puro acaso que o ângulo preciso de 43,5 graus, adotado pelo faraó Zoser, e aperfeiçoado em sua pirâmide de degraus, fosse o mesmo em Teotihuacán? Duvidamos. Enquanto um ân­gulo mais inclinado, vamos dizer 45 graus, poderia ter sido obtido por um arquiteto não sofisticado, dividindo em duas partes o ângulo reto, o ângulo de 43,5 graus resultou, no Egito, de um sofisticado cálculo, baseado no fator Pi (3,1416), que é a relação do perímetro de um círculo com seu diâmetro.O ângulo de 52 graus das pirâmides de Gize exigiam fami­liaridade com esse fator; era obtido conferindo à pirâmide uma altura (H) igual à metade do lado (S) dividido por Pi e multi­plicado por quatro (230 dividido por 2 = 115, dividido por 3,14 = 36,5 x 4 = 146 metros de altura). O ângulo de 43,5 graus foi obtido reduzindo-se a altura de um múltiplo de 4 para um múltiplo de 3. Em ambos os casos, seria necessário o conhecimento de Pi. Nada indica que os povos da América Central tinham esse co­nhecimento. Como, então, surgiu o ângulo de 43,5 graus nas estruturas das duas singulares pirâmides de Teotihuacán (na América Central), a não ser através de alguém familiarizado com as pirâmides do Egito? As pirâmides do Egito, com exceção da singular Grande Pirâmide de Gize, estavam equipadas com uma passagem inferior (veja fig. 15), que geralmente se inicia na borda, ou perto da base, e continua sob elas. Alguém atribuiria a uma simples coincidência o fato de que existe tal passagem sob a Pirâmide do Sol? A descoberta acidental foi feita em 1971, depois de chuvas torrenciais. Bem em frente à escadaria central da pirâmide, uma passagem subterrânea aflorou. Continha degraus antigos que conduziam cerca de seis metros para baixo, para a entrada de uma passagem horizontal. Os escavadores concluíram que era uma caverna natural, artificialmente alargada e melhorada, cor­rendo por sobre o leito de pedra onde a pirâmide fora construída. Esses melhoramentos intencionais são evidenciados pelo fato de que o teto é feito de blocos de pedra sólida e que as paredes dos túneis foram uniformizadas com gesso. Em vários pontos, ao longo dessa passagem subterrânea, paredes de adobe dirigem o trajeto em ângulos agudos.A cerca de 50 metros dessa antiga escadaria, o túnel se trans­forma em duas câmaras alongadas, como asas estendidas; é um local situado exatamente sob o primeiro degrau da pirâmide. De lá, a passagem, com aproximadamente dois metros de altura, continua por mais de 60 metros. Nessa parte interna a cons­trução fica mais complexa, com o uso de materiais diversos; o assoalho, disposto em segmentos, era feito pelo homem; canos para drenagem eram dispostos para um propósito desconhecido (talvez ligando-se com algum curso subterrâneo, agora extinto). Finalmente, o túnel termina sob o quarto estágio da pirâmide numa área oca que parece uma folha de trevo, apoiada por co­lunas de adobe e blocos de basalto.Qual seria o propósito dessa estrutura subterrânea? Desde que as paredes de segmentação foram danificadas antes da descoberta em nossos tempos modernos, não é possível dizer se os restos de vasos de cerâmica, lâminas de obsidiana e cinzas de carvão pertencem à fase mais antiga do uso do túnel. Mas o questionamento sobre as finalidades de Teotihuacán, além da observação do céu, foi reforçado com outras descobertas.A Avenida dos Mortos parece estender-se como uma pista homogênea, desde a praça da Pirâmide da Lua até o horizonte sul. Porém, esse curso uniforme é interrompido numa secção situada entre a Pirâmide do Sol e o rio San Juan. A inclinação geral da Pirâmide da Lua para a Pirâmide do Sol é ainda mais acentuada nesse ponto da avenida. Estudos feitos no local mos­traram que essa inclinação foi conseguida com o corte deliberado da rocha original; além do mais, o desnível entre a Pirâmide da Lua até um ponto além da Ciudadela é de cerca de 30 metros. Ali, seis fragmentos foram criados pela adição de muros duplos, perpendiculares à avenida. A cavidade da avenida é mais adiante alinhada com paredes e estruturas mais baixas, resultando em seis compartimentos semi-subterrâneos, abertos para o céu. As paredes perpendiculares são dotadas de comportas ao nível do solo. Tudo indica que todo o complexo servia para canalizar a água, que fluía ao longo da avenida. O fluxo poderia ter sua origem na Pirâmide da Lua (onde um túnel subterrâneo foi en­contrado ao redor da estrutura), ligado de alguma maneira ao túnel subterrâneo da Pirâmide do Sol. A série de compartimentos retinha, e eventualmente liberava, a água de um para o outro até que o fluxo atingisse o canal desviado do rio San Juan.Poderia esse fluxo artificial de águas correntes ter sido o mo­tivo pelo qual a decoração da fachada da pirâmide de Quetzalcoatl fosse como águas onduladas, numa região situada no in­terior, a centenas de quilômetros de qualquer oceano? A associação desse local com a água foi corroborada pela descoberta de uma grande estátua em pedra de Chalchiuhtlicue, a deusa das águas e esposa de Tlaloc, o deus da chuva. A estátua (fig. 16), que pode ser vista agora no Museu Nacional de An­tropologia, na Cidade do México, foi descoberta no centro da praça da Pirâmide da Lua. Em suas representações, a deusa, cujo nome significa "Dama das Águas", geralmente é mostrada usando uma saia de jade decorada com conchas marítimas. Seus adornos eram brincos de turquesa, colar de jade, ou de outras pedras verde-azuladas, de onde pendia um medalhão de ouro. A estátua repete esses trajes e elementos decorativos e parece ter portado um medalhão de ouro, incrustado na cavidade apropriada, que teria sido removido por ladrões. Suas representações frequentemente a mostravam usando uma coroa de serpentes, ou enfeitada com elas, indicando que ela teria sido um dos deuses-serpente dos mexicanos.


Teria sido Teotihuacán construída como um tipo de instalação para distribuir água utilizada em algum processo? Antes de res­ponder a esta pergunta, vamos mencionar outra descoberta in­trigante.Juntamente com o terceiro segmento da Pirâmide do Sol, es­cavações de uma série de câmaras subterrâneas interligadas, re­velaram que alguns dos pisos eram cobertos com camadas gros­sas de mica, um tipo de silício mineral que possui propriedades especiais de resistência à água, calor e correntes elétricas. Tem sido utilizado como isolante em vários processos químicos, elétricos, eletrônicos, e mais recentemente, em tecnologia nuclear e espacial.As propriedades particulares da mica dependem, até certo ponto, do seu conteúdo de outros elementos minerais e, portanto, da sua origem geográfica. Segundo peritos, a mica encontrada em Teotihuacán é de um tipo existente no distante Brasil. Traços dessa mica também foram encontrados em restos removidos da Pirâmide do Sol, quando estava sendo desenterrada no começo do século. Qual seria o uso desse material isolante em Teotihua­cán? Nossa impressão é que tudo ali — a presença do Senhor e da Dama das Águas, juntamente com a divindade principal, Quetzalcoatl; a avenida lamacenta; a série de estruturas, câmaras sub­terrâneas, túneis; o rio desviado; as secções semi-subterrâneas com suas comportas; os compartimentos sob o chão recoberto de mica — fazia parte de um projeto cientificamente concebido para a separação, refinamento, ou purificação, de substâncias minerais.E' possível que alguém que conhecia os segredos da construção de pirâmides, na metade do primeiro milênio a.C, ou mais pro­vavelmente na metade do segundo milênio a.C., tenha chegado ao vale e, igualmente versado nas ciências físicas, tenha utilizado os materiais disponíveis para montar uma instalação sofisticada de processamento. Estaria essa pessoa à procura de ouro, como teria sugerido o medalhão da Dama da Água, ou de algum mi­neral mais raro? E se não foi o homem teriam sido seus deuses, como as lendas a respeito de Teotihuacán e o próprio nome têm sugerido? Quem, além dos deuses, foram os ocupantes originais de Teo­tihuacán? Quem carregou as pedras e a argamassa para elevar as primeiras pirâmides? Quem canalizou a água e operou as comportas? Os que dizem não ser Teotihuacán mais antiga do que alguns séculos antes de Cristo apresentam uma resposta simples: os toltecas. Aqueles que agora se inclinam na direção de um início mais antigo, começam a apontar os olmecas, um povo enigmático, que apareceu no cenário centro-americano na metade do segundo milênio a.C Os próprios olmecas apresentam muitos enigmas, pois parecem ter sido africanos negros, o que constitui um aná­tema para aqueles que não conseguem aceitar travessias pelo Atlântico há vários milênios.Mesmo que a origem de Teotihuacán e de seus construtores esteja envolta em mistério, é quase certo que nos séculos que precederam a era cristã, as tribos toltecas começaram a chegar. A princípio, realizavam tarefas com as mãos; gradualmente, po­rém, aprenderam as habilidades da cidade e adotaram a cultura de seus mestres, incluindo a escrita pictórica, os segredos da ourivesaria, o conhecimento sobre astronomia e calendário, a ado­ração dos deuses. Cerca de 200 d.C., quem quer que tenha do­minado Teotihuacán apanhou o que queria e partiu. A cidade tornou-se tolteca. Durante séculos se destacou por suas ferra­mentas, armas, artefatos feitos de obsidiaria e por sua influência cultural. Então, mil anos depois de terem chegado, os toltecas também partiram. Ninguém sabe os motivos. Mas o êxodo foi total. Teotihuacán tornou-se um lugar desolado, vivendo apenas nas lembranças de um passado dourado.Alguns acreditam que o evento coincidiu com o estabeleci­mento de Tollán como a capital dos toltecas, em cerca de 700 a.C., construída às margens do rio Tuia como uma mini-Teoti-huacán. Os códices e o folclore descrevem Tollán como uma ci­dade legendária, um centro de artes e artesanato, com templos e palácios resplandecentes, cheios de ouro e pedras preciosas. Porém, por muito tempo os estudiosos questionaram a própria existência da cidade. Hoje não há mais dúvidas de que Tollán existiu realmente num local chamado Tuia, a cerca de oitenta quilômetros a noroeste da Cidade do México.A redescoberta de Tollán ocorreu no final do século 19. Tudo começou com a viagem à região da francesa Désiré Charnay (Lês andennes villes du nouveau monde - "As cidades antigas do Novo Mundo"). Um trabalho sério de escavação, no entanto, só come­çou no início dos anos 40, sob a liderança do arqueólogo mexicano Jorge R. Acosta. Os trabalhos de escavação e restauração con­centraram-se no complexo cerimonial mais importante, conhecido como Tuia Grande. Trabalhos posteriores, como o das equipes da Universidade do Mississipi, expandiram a área de escavações.As descobertas confirmaram não apenas a existência da cidade, mas também sua história narrada em vários códices, especial­mente no que ficou conhecido como Andes de Cuauhtitlan. Sabe-se, agora, que Tollán foi governada por uma dinastia de reis-sacerdotes, considerados descendentes do deus Quetzalcoatl; por­tanto, além do próprio nome, eles também usavam o nome divino como patronímico — um costume usual entre os faraós egípcios. Alguns desses reis-sacerdotes eram guerreiros, dedicados a ex­pandir o domínio tolteca. Na segunda metade do século 10 a.C, o governante era Ce Acatl Topiltzin-Quetzalcoatl. Seu nome e sua época foram determinados por meio de um retrato, acom­panhado por uma data equivalente a 968 a.C., que ainda pode ser observado numa pedra junto à cidade.Foi no seu reinado que irrompeu um conflito religioso entre os toltecas. Parece que as divergências diziam respeito à exigência do soberano em introduzir sacrifícios humanos para apaziguar o Deus da Guerra. No ano 987 a.C. Topiltzin-Quetzalcoatl e seus seguidores deixaram Tollán e migraram para o leste, simulando a partida anterior do divino Quetzalcoatl. Estabeleceram-se no Yucatán.Dois séculos mais tarde, calamidades naturais e assassinatos no seio da tribo arrasaram os toltecas. As calamidades eram sinais de cólera divina, prenunciando o fim da cidade. Segundo o cro­nista Sahagún, o rei, que muitos acreditam chamar-se Huemac, mas também usava o patronímico Quetzalcoatl, convenceu os toltecas a abandonar Tollán. "E assim eles partiram sob o seu comando, embora tenham ali vivido muitos anos e construído casas grandes e belas, templos, e palácios [...] Ao final, tiveram de partir deixando os lares, as terras, a cidade e suas riquezas. Como não podiam levar os valores, enterraram muitas coisas e até hoje algumas são desenterradas, não sem admiração por sua be­leza e arte". Assim, foi no ano 1168 a.C., ou por volta dessa data, que Tollán se tornou uma cidade desolada, abandonada para de­sintegrar-se sob os efeitos do tempo. Conta-se que quando o primeiro chefe asteca colocou os olhos nas ruínas da cidade, chorou amargamente. As forças destrutivas da natureza foram ajudadas por invasores, saqueadores e assaltantes, que despiram os templos, destruíram monumentos e danificaram tudo o que estava em seu alcance. Assim, Tollán, arrasada até o solo, e esquecida, tor­nou-se uma lenda.O que se sabe sobre Tollán, oito séculos depois, atesta a tra­dução do nome, que significa "lugar de muitas vizinhanças". Efe-tivamente, ela parece ter sido formada por muitas vizinhanças e áreas sagradas, que ocupavam uma superfície de 18 quilômetros quadrados. Assim como em Teotihuacán (que seus construtores tentaram imitar), o coração de Tollán era uma área sagrada, que se estendia ao longo do eixo norte-sul, flanqueada por centros cerimoniais, construídos com uma orientação perpendicular leste-oeste. Como já observamos, as orientações apresentavam o "desvio sagrado" de Teotihuacán, embora não fizesse mais sen­tido a finalidade de observação astronômica naquele período e localização geográfica.Onde deveria ter sido o limite norte da área sagrada, foram encontradas ruínas de uma estrutura incomum. Sua frente fora construída como uma pirâmide comum, com degraus e uma escadaria, porém a parte traseira do edifício apresentava uma estrutura circular, provavelmente encimada por uma torre. Esta construção pode ter sido utilizada como observatório e, possi­velmente, serviu de modelo para o templo de Quetzalcoatl, em Tenochtitlán, mais recente, e para outras pirâmides com obser­vatórios circulares no México.O conjunto cerimonial principal, cerca de um quilômetro e meio para o sul, foi disposto ao redor de uma enorme praça central, no meio da qual se erguia o Grande Altar. O templo principal localizava-se no alto de uma pirâmide de cinco estágios, na parte oriental da praça. Uma pirâmide menor de cinco estágios serviu como plataforma elevada para outro templo. Ela era flan­queada por construções de vários aposentos, que conservaram evidências de fogo, indicando a possibilidade de ter sido utilizada para algum propósito industrial. Construções alongadas, ou ves­tíbulos, cujos temidos apoiavam-se em fileiras de pilares, ligavam as duas pirâmides e também limitavam a parte sul da área sagrada. Um campo esportivo para a prática do jogo sagrado tlachtli completava a parte oeste da praça (fig. 17, ilustração elaborada com base nos dados do arqueólogo P. Salazar Ortegon).



Entre este conjunto de Tuia Grande e o limite norte da área sagrada, evidentemente existiam outras estruturas e grupos de edifícios; uma nova quadra de jogo foi descoberta. Nos edifícios, porém, foram encontradas poucas estátuas em pedra. Entre elas, incluíam-se algumas imagens de animais, como o familiar coiote, uma espécie desconhecida de tigre, além de um deus reclinado, chamado Chacmool (fig. 18). Os toltecas também esculpiam es­tátuas de seus líderes, representando-os como homens de baixa estatura. Outros, trajados como guerreiros, segurando na^não esquerda o aïl-aíl, um tipo de arma (um lançador curvo de setas ou lanças), foram representados em relevos na face de colunas de secção quadrada, tanto de perfil, quanto de costas (fig 19b).




Quando Jorge R. Acosta começou um trabalho arqueológico metódico e constante, na década de 40, dirigiu sua atenção para a Grande Pirâmide. Localizada em frente ao altar principal, era óbvio o seu uso para astronomia. O que gerou dúvidas, na época, foi o nome dado pelos trabalhadores nativos ao monte desolado que a abrigava: El Tesoro ("O Tesouro"). Porém, quando vários objetos de ouro foram descobertos, após o início das escavações, os trabalhadores nativos, insistindo que a pirâmide se elevava sobre um "campo de ouro", recusaram-se a continuar. "Realidade ou superstição, o resultado é que os trabalhos cessaram e nunca mais foram retomados", escreveu Acosta.As atenções, então, se voltaram para a pirâmide menor, cha­mada, no início, de Pirâmide da Lua, depois de Pirâmide "B" e, ultimamente, de Pirâmide de Quetzalcoatl. Essa designação se originou do longo nome nativo dado ao monte, "Senhor da Estrela da Manhã", presumivelmente, um dos epítetos de Quet­zalcoatl, que poderia ser comprovado, também, pêlos restos de gesso colorido e baixos relevos adornando a pirâmide, cujos motivos principais referiam-se à Serpente Emplumada. Os ar­queólogos, ao encontrar fragmentos de duas colunas circulares, com a imagem da Serpente Emplumada, concluíram também que elas poderiam ter servido como portal de entrada do templo sobre essa pirâmide.O maior tesouro arqueológico, no entanto, foi localizado quando Acosta percebeu que o lado norte da pirâmide fora mexido antes da chegada dos espanhóis. Um agregado em forma de rampa pa­recia correr pelo meio da face, em lugar da inclinação em degraus. Escavando ali, os arqueólogos descobriram que uma vala fora cor­tada naquela face, penetrando no interior da construção. A vala, tão profunda quanto a pirâmide, fora usada para enterrar grande número de esculturas em pedra. Ao serem retiradas e montadas, foram encontrados: fragmentos das colunas circulares do portal, quatro colunas quadradas, que se acredita serem suportes do te­lhado do templo sobre a pirâmide, e quatro estátuas humanas co­lossais, com mais de cinco metros de altura, conhecidas como os Atlantes . Acredita-se que tenham servido como cariátides (esculturas utilizadas como pilastras para segurar o teto ou as suas vigas) e foram reerguidas pêlos arqueólogos sobre a pirâmide quan­do se completou o trabalho de restauração.


Cada um dos Atlantes (como ilustrado na figura 21), apresenta quatro secções esculpidas para se encaixarem. A parte superior formava a cabeça da estátua, representando os gigantes usando um cocar de penas, mantidas juntas por uma faixa decorada com motivos estelares, com dois objetos alongados cobrindo as orelhas. Os traços fisionômicos não foram identificados e até hoje desafiam comparações com quaisquer tipos raciais conhecidos. Porém, em­bora as quatro faces apresentem a mesma expressão distante, um exame mais acurado revela diferenças individuais sutis.O torso é composto por duas secções. A parte superior do tórax apresenta como característica principal um protetor peitoral cuja forma foi comparada com a da borboleta. A parte inferior tem seu aspecto principal nas costas, um disco com um rosto humano no centro, cercado por símbolos não decifrados e, na opinião de alguns, uma grinalda de duas serpentes entrelaçadas. A parte inferior mos­tra as coxas, as pernas e os pés, providos de sandálias amarradas com faixas. Pulseiras nos braços, nos tornozelos, e uma tanga tam­bém podem ser vistos nas vestes elaboradas.



Quem essas estátuas gigantes representam? Seus primeiros descobridores as chamaram de "ídolos", certos de que representavam divindades. Escritores populares utilizaram o nome de Atlantes, o que implica em sentido duplo, como descendentes da deusa Atlatona, "Aquela Que Brilha na Água", ou que eles teriam vindo da lendária Atlântida. Estudiosos menos imaginativos as nomearam simplesmente de guerreiros toltecas, pois levam, na mão direita um atl-atl. Essa interpretação talvez não esteja correta, pois as "flechas" na mão esquerda não são retas, e sim curvas; vimos que a arma na mão esquerda era o atl-atl, mas a arma na mão direita (fig. 22a) não é curva como o atl-atl. Então o que seria? O instrumento parece mais uma pistola em seu coldre, segura por dois dedos. Uma teoria interessante sugere que não se trata de uma arma e sim de uma ferramenta, uma "pistola de plasma", proposta por Gerardo Levet (Mision Fatal - "Missão Fatal"). Ele descobriu que uma das pilastras quadradas, representando chefes toltecas, apresentava uma gravação no canto superior esquerdo (fig. 22b). Esta gravação foi decifrada como sendo a imagem de uma pessoa usando uma mochila e segurando a ferramenta em questão como se fosse um maçarico para dar forma a uma pedra (fig. 22c). A ferramenta, inquestionavelmente, é o mesmo instrumento que os quatro gigantes seguram na mão direita, Levet sugere que se trata de uma "pistola" de alta energia para cortar e esculpir pedras. Ele lembra que, nos tempos modernos, foram utilizadas tochas Thermo-Jet para esculpir os rostos gigantes nas Montanhas Rochosas da Geórgia.



O significado da descoberta de Levet pode ir além da própria teoria proposta por ele. Desde que monólitos e esculturas de pedra foram encontrados por toda a América Central, como produto de seus artistas nativos, não é necessário procurar ferramentas de alta tecnologia para explicar as esculturas na pedra. For outro lado, a ferramenta representada nas estátuas gigantes pode servir para explicar outro aspecto enigmático de Tollán.Enquanto examinavam o subterrâneo da pirâmide, depois de terem removido o solo da rampa, os arqueólogos desco­briram que a contrução externa e visível fora erguida sobre uma pirâmide mais antiga, cujos degraus ficavam a dois me­tros e quarenta centímetros de cada lado da parede interna. Também descobriram restos de paredes verticais, que suge­rem a existência de câmaras interiores e passagens dentro da pirâmide mais antiga (porém não seguiram essas pistas). Encontraram algo extraordinário — um tubo de pedra feito de secções circulares perfeitamente encaixadas (fig. 23) com um diâmetro interno de cerca de 45 centímetros. O longo tubo estava instalado no interior da pirâmide no mesmo ân­gulo da inclinação original e corria do alto até a parte de baixo.Acosta e seus colaboradores presumiram que o tubo servia para drenar a água da chuva. Mas isso poderia ter sido con­seguido sem uma estrutura interna tão elaborada e com tu­bos mais simples de argila, em vez de secções de pedra es­culpida com precisão. A posição e inclinação dessa tubulação incomum, se não única, fazia parte do projeto original da pirâmide e estava integrada ao propósito original da estru­tura. As ruínas de várias câmaras e vários andares sugere que ali se desenvolveu algum tipo de processo industrial. Também o fato de que as águas do rio Tuia foram canali­zadas para fluir através dessas construções indica a possi­bilidade de ter existido, nesse local, assim corno em Teotihuacán, algum processo de purificação ou refinamento numa época muito remota.


O que vem à mente é o seguinte: seria a ferramenta não identificada um tipo de instrumento não para esculpir pedras, mas para retirá-las das jazidas? Seria, em outras palavras, uma sofisticada ferramenta de mineração? E qual seria o minério procurado? Ouro? A posse de ferramentas de alta tecnologia pêlos Atlantes há mais de mil anos no centro do México levanta a questão sobre a identidade deles. A julgar pelas feições do rosto, certamente não são centro-americanos. É provável que sejam "deuses", e não simples mortais, se o tamanho das estátuas for uma indicação de veneração, pois junto a elas havia nas colunas representações dos soberanos toltecas em tamanho normal. O fato de que nos tempos pré-hispânicos as imagens colossais foram desmembra­das e cuidadosamente colocadas nas profundezas da pirâmide para ali serem enterradas, implica uma atitude de veneração. Na verdade, confirma-se o que descreveu Sahagún, que afirma terem os toltecas, ao abandonar Tollán, enterrado "muitas coisas", al­gumas das quais, mesmo na época de Sahagún, "foram trazidas de sob a terra, não sem admiração pela sua beleza e trabalho artístico".Os arqueólogos acreditam que os quatro Atlantes ficavam no topo da pirâmide de Quetzalcoatl, suportando o teto do templo sobre a pirâmide, como se estivessem segurando a Cúpula Ce­lestial. Esse é o papel desempenhado pêlos quatro filhos de Horus, na mitologia egípcia, que seguravam o céu em seus pontos cardeais. Segundo o antigo Livro dos Mortos dos egípcios, eram esses quatro deuses que faziam a ligação entre Céu e Terra e acompanhavam o faraó falecido até uma escadaria sagrada por onde ele poderia subir para a vida eterna. Essa escadaria para o Céu foi representada por meio de hieróglifos como escadas simples ou duplas, essa última representando urna pirâmide com degraus (fig. 24a). Seria apenas coincidência que o símbolo da escadaria decorasse os muros ao redor da pirâmide de Tollán e tivesse se transformado em importante símbolo iconográfico para os astecas (fig. 24b)?No centro de todo o simbolismo e das crenças religiosas dos povos nahuatl estava seu deus-herói, doador de toda a sabedoria, Quetzalcoatl, "A Serpente Emplumada". Porém, o que era uma serpente emplumada, se não uma serpente, que a exemplo dos pássaros, tivesse asas e voasse?


Se isso é verdadeiro, o conceito de Quetzalcoatl como "Serpente Emplumada" remete ao conceito egípcio da "Serpente Alada" (fig. 25), que facilitava a transfiguração do faraó falecido para o reino dos deuses eternos.Além de Quetzalcoatl, os povos nahuatl tinham inúmeras di­vindades associadas a serpentes. Cihuacoatl era a "Serpente Fê­mea". Coatlicue era "Aquela Com a Saia de Serpentes". Chicomecoatl era a "Serpente Sete". Ehecacoamixtli era a "Nuvem de Serpentes do Vento", e assim por diante. O grande deus Tlaloc era freqüentemente representado com a máscara de uma serpente dupla.Embora inaceitável para os estudiosos tradicionais, na verda­de, a mitologia, a arqueologia e o simbolismo levam à conclusão inevitável de que o planalto central do México, e até mesmo toda a América Central, eram o reino dos deuses-serpentes — os deuses do antigo Egito.




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OBSERVADORES CELESTIAIS NA SELVA

Maia. O nome evoca mistério, enigma, aventura. Uma civilização que viveu e desapareceu, embora seu povo tenha permanecido. Cidades incríveis foram abandonadas intactas, engolidas pela sel­va verde e luxuriante: pirâmides que iam até o céu, tentando tocar os deuses; monumentos elaboradamente esculpidos e de­corados, com sua história estabelecida em hieróglifos artísticos cujo significado, em sua maior parte, perdeu-se com o tempo.A mística dos maias despertou a imaginação e a curiosidade dos europeus desde o momento em que os espanhóis pisaram pela primeira vez na península de Yucatán e viram os vestígios das cidades perdidas na selva. Era algo inacreditável, mas estava ali: pirâmides com degraus, templos em plataformas, palácios decorados, pilares de pedra esculpida. Enquanto admiravam as intrigantes ruínas, os espanhóis ouviam dos nativos histórias incríveis sobre antigos monarcas, cidades-estado e glórias passadas. Um dos mais notórios sacerdotes espanhóis, que escreveu sobre a península do Yucatán e sobre os maias antes e depois da Con­quista, frei Diego de Landa (Relacion de Ias Cosas de Yucatán -"Relação das Coisas do Yucatán"), narra que "existem em Yucatán muitos edifícios de grande beleza, sendo essa a mais sensacional descoberta nas índias; eles são feitos de pedra e finamente de­corados, embora não tenha sido encontrado um instrumento para tal corte".Com outros interesses na cabeça, como a procura de riquezas e conversão dos nativos ao cristianismo, os espanhóis levaram quase dois séculos para mostrar interesse por aquelas ruínas. Em 1785, uma comissão real inspecionou as recém-descobertas ruínas de Palenque. Felizmente, uma cópia do relatório ilustrado chegou a Londres. Sua publicação acabou por atrair a atenção de um nobre abastado, Lorde Kingsborough, que decidiu decifrar o enigma dos maias. Acreditando fervorosamente que os habi­tantes da América Central descendiam das Dez Tribos Perdidas de Israel, ele passou o resto da vida e gastou toda a sua fortuna na exploração e descrição dos antigos monumentos e inscrições mexicanas. Seu livro, Antiquities of México ("Antiguidades do Mé­xico", 1830 - 1848), ao lado do Relación de Ias Cosas de Yucatánn de frei Landa (mais tarde bispo), constituem valiosas fontes de dados sobre o passado dos maias.Porém, quem ficou popularmente conhecido por divulgar a descoberta arqueológica da civilização maia foi o americano de Nova Jersey John L. Stephens. Enviado dos Estados Unidos para a Federação Centro-Americana, ele visitou as terras dos maias com seu amigo Frederick Catherwood, um artista renomado. Os dois livros que Stephens escreveu, e Catherwood ilustrou, Incidents of Travei in Central America, Chiapas e Yucatán ("Incidentes de uma Viagem à América Central, Chiapas e Yucatán"), e Incidents of Travel in Yucatán ("Incidentes de uma Viagem a Yucatán”) despertaram interesse pelo assunto. Causa espanto a precisão do trabalho artístico, quando se comparam os desenhos de Cat­herwood com fotografias dos sítios arqueológicos, porém é triste constatar a extensão da erosão ocorrida desde então.Os relatórios são especialmente detalhados em relação aos grandes sítios de Palenque, Uxmal, Chichén Itzá e Copãn (o úl­timo é associado a Stephens, pois para poder investigá-lo sem interferências, ele comprou o local do proprietário por 50 dólares americanos). Ao todo, ele explorou mais de 50 cidades maias. A profusão não apenas estimulava a imaginação, mas também não deixava dúvidas de que a exuberante selva tropical escon­dia não só alguns postos avançados, mas uma civilização in­teira. Grande importância para a compreensão dos fatos foi a data assinalada em alguns monumentos e os hieróglifos es­culpidos, o que possibilitou situar a civilização maia no tempo.Embora a escrita hieroglífica dos maias esteja longe de ser decifrada, os peritos obtiveram sucesso ao comparar as datas inscritas nas pedras com o calendário cristão.Com a extensa literatura deixada pêlos maias — livros pictó­ricos feitos com cascas de árvores e laminados com cal, a fim de criar uma base clara para os glifos desenhados com tinta — poderíamos ter reunido maiores informações sobre essa civiliza­ção. Porém, esses livros, às centenas, foram sistematicamente des­truídos pelos sacerdotes católicos, principalmente, pelo bispo Landa, que acabou reunindo tanta informação "pagã" em seus próprios escritos.Restaram apenas três (se for autêntico, existe um quarto) có­dices, ou livros pictóricos. As partes mais interessantes, segundo os estudiosos, referem-se à astronomia. Dois outros grandes tra­balhos literários foram preservados, seja porque foram reescritos a partir dos livros pictóricos originais, ou porque foram recons­tituídos, porém, em escrita latina, a partir da tradição oral dos nativos.Uma dessas obras é o livro de Chilam Balam, que significa "as profecias" ou "narrações" de Balam, o sacerdote. Muitos nativos em Yucatán possuíam cópias desse livro. Um dos mais bem preservados, depois traduzido, é o Bookof Chilam Balam of Chumayel ("O Livro de Chilam Balam de Chumayel"). Balam, ao que parece, era uma espécie de "Edgar Cayce" * maia. * Paranormal famoso por suas previsões e mediunidade.O livro contém infor­mações relativas ao passado mítico, a profecias sobre o futuro, ritos e rituais, astrologia e conselhos médicos.A palavra balam significa "jÁguar" na língua nativa. Isso causou surpresa entre os estudiosos por não apresentar, aparentemente, relação com profecias. Achamos, no entanto, intrigante o fato de que, no Egito, uma classe de sacerdotes conhecidos como sacerdotes Shem — eles faziam profecias durante certas cerimônias reais, além de recitar fórmulas secretas para "abrir o caminho", a fim de que os faraós falecidos pudessem juntar-se aos deuses na Eternidade — usava peles de leopardo (fig 26a) em suas cerimónias. Foram encontradas representações maias com sacerdotes trajados de forma semelhante (fig. 26b). Como na América não existem leopardos africanos, as peles deviam ser de jÁguar, o que poderia explicar o significado "jAguar" de Balam. Mais uma vez, encontramos na América Central a influência ritual egípcia.Ficamos mais intrigados, ainda, pela semelhança do nome do profeta maia com o do profeta bíblico Balaam. De acordo com a Bíblia, ele foi preso pelo rei de Moab durante o Êxodo por lançar uma maldição sobre os israelitas, mas que teria acabado por se transformar em previsão favorável. Teria sido coincidência?




O outro livro maia é o Popol Vuh, o "Livro do Conselho". Ele relata as origens humanas e divinas, além de descrever as ge­nealogias dos reis. Sua cosmogonia e tradições da criação são basicamente iguais às dos povos nahuatl, indicando uma fonte comum. Em relação à origem dos maias, o Popol Vuh afirma que seus antepassados vieram "do outro lado do mar". Landa escre­veu que os nativos "escutaram de seus ancestrais ter sido essa terra ocupada por uma raça de pessoas que veio do Leste, dirigida por deuses, que abriram doze caminhos através do mar".Tais afirmações estão de acordo com uma lenda maia chamada a Lenda de Votan, relatada por vários cronistas espanhóis, particularmente pelo frei Ramon Ordónez y Aguiar e pelo bispo Nunez de Ia Vega. Mais tarde, ela foi recolhida de várias fontes pelo abade E. C. Brasseur de Bourbourg (Histoire de nations civilisées du Mexicjue - "História das Nações Civilizadas no México).A lenda relata a chegada no Yucatán, por volta de 1000 a.Cv segundo os cálculos do cronista, do "primeiro homem a quem Deus mandou para essa região para povoar e dividir a terra que agora é chamada de América". Seu nome era Votan (significado desconhecido) e seu símbolo, a serpente. "Ele era descendente dos guardiães, da raça de Can. Seu lugar de origem era uma terra chamada Chivim." Teria feito um total de quatro viagens. A primeira vez que aportou, estabeleceu uma colônia próxima à costa. Depois de algum tempo, avançou para o interior, "construindo no afluente de um grande rio uma cidade que foi o berço dessa civilização". Chamou a cidade de Nachan, que significa "Lugar das Serpentes". Na segunda visita, fez um reconhecimento da terra recém-encontrada, examinando as zonas subterrâneas e passagens embai­xo da terra. Uma dessas passagens passaria através de uma mon­tanha próxima a Nachan. Quando ele voltou à América pela quarta vez, encontrou discórdia e rivalidade entre seu povo. Dividiu, então, o reino em quatro regiões, estabelecendo uma cidade para ser a capital de cada uma. Palenque é tida como uma dessas cidades; outra parece ter sido próxima à costa do Pacífico, As outras são desconhecidas.Nunez de Ia Vega estava convencido de que o local de onde partira Votan era próximo à Babilônia. Ordónez concluiu que Chivim era a terra dos Hititas, a quem a Bíblia (Gênese 10) chama de filhos de Canaan, primos dos egípcios. Mais recentemente, Zelia Nuttal, escrevendo no Papers of the Peabody Museum, da Universidade de Harvard, ressaltou que a palavra maia para serpente, Can, era similar à Canaan dos hebreus. Se assim for, a lenda maia, contando que Votan era da raça de Can e atribuin­do-lhe como símbolo a serpente, poderia estar usando um jogo de palavras para afirmar que Votan vinha de Canaan. Isso cer­tamente justificaria nossa conjectura sobre Nachan, o "Lugar das Serpentes", que é virtualmente idêntica à palavra hebraica Na-chash, cujo significado é "serpente".Tais lendas reforçam a teoria dos estudiosos que consideram a costa do Golfo como o local onde se iniciou a civilização no Yucatán, não apenas dos maias, mas também dos antigos olmecas. Sob esse ponto de vista é preciso levar em consideração um local pouco conhecido dos visitantes, que pertence aos pri­mórdios da cultura maia "entre 2000 e 1000 a.C, se não antes, de acordo com os escavadores da Universidade de Tulane-Na-tional Geographic Society. Chamada de Dzibilchaltun, está si­tuada próxima à cidade portuária de Progreso, na costa noroeste do Yucatán, As ruínas, estendendo-se por uma área de 50 qui­lômetros quadrados, revelam que a cidade foi ocupada desde tempos remotos até a época dos espanhóis. Seus edifícios foram construídos, reconstruídos, reformados e suas pedras ornamen­tadas foram arrastadas pêlos espanhóis para serem utilizadas em construções modernas, próximas e distantes. Além de imen­sos templos e pirâmides, sua característica peculiar é a Grande Estrada Branca, urna pista pavimentada com calcário que se es­tende em linha reta por quase dois quilômetros e meio no eixo leste-oeste da cidade.Uma corrente de grandes cidades maias é encontrada ao longo da ponta norte da península de Yucatán. Ostentam nomes co­nhecidos não apenas dos arqueólogos, mas também de milhões de visitantes: Uxmal, Izamal, Mayapan, Chichén Itzá, Tulúm, para mencionar apenas as ruínas mais impressionantes. Cada uma delas desempenhou seu papel na história da civilização maia. Mayapan foi o centro de uma aliança de cidades-estado. Chichén Itzá deveu sua grandeza aos imigrantes toltecas. Cada uma delas poderia ter sido a capital da qual um grande chefe maia do Yucatán, segundo o cronista espanhol Diego Garcia de Palácio, se lançou à conquista dos planaltos do sul e construiu Copán, o centro maia meridional. Garcia afirma que tudo estava escrito num livro que os nativos de Copán mostraram a ele, quando visitou o local.Discordando dessas evidências lendárias e arqueológicas, ou­tra escola de arqueologia acredita que a civilização maia surgiu nos planaltos do sul — atualmente a Guatemala — dali espa­lhando-se para o norte. Estudos da linguagem maia rastrearam suas origens até "uma comunidade proto-maia", que habitou, tal­vez ao redor de 2600 a.C., a região hoje conhecida como Depar­tamento de Huehuetenango, a noroeste da Guatemala (D. S. Morales, The Maya World - "O Mundo Maia"). Porém, onde e como quer que tenha se desenvolvido a civilização maia, os estudiosos concordam em considerar o segundo milênio a.C. como a fase "Pré-clássica" e o ano 200 d.C como o início do período "Clássico" de maior progresso. O reino dos maias, em cerca de 900 d.C., estendia-se desde a costa do Pacífico até o Golfo do México e o Caribe. Durante esses séculos, eles construíram várias cidades, cujas pirâmides, templos, palácios, praças, marcos, esculturas, inscrições, decorações provocam admiração em estudiosos e visitantes por sua profusão, variedade e beleza, sem falar nas proporções e criatividade da arquitetura. Com poucas exceções, as cidades maias eram centros destinados ao cerimonial, cercados por uma população de administradores, artesãos, mercadores, apoiados por uma grande população rural. A esses centros, cada governante adicionava novas estruturas, ou aumentava as anti­gas, construindo edifícios maiores sobre os já existentes, como se colocassem mais uma camada sobre uma cebola.Então, cinco séculos antes da chegada dos espanhóis, por ra­zões desconhecidas, os maias abandonaram suas cidades sagra­das e deixaram que a selva as engolisse.Palenque, uma das cidades mais recentes dos maias, está si­tuada próxima à fronteira do México com a Guatemala. Ela pode ser alcançada pela cidade moderna de Villahermosa. No século 7 a.C. ela foi o marco oeste da expansão maia. Sua existência é conhecida dos europeus desde 1773, quando suas ruínas — templos e palácios — foram descobertas. A partir de 1920, a rica decoração em gesso e as inscrições hieroglíficas começaram á ser estudadas pêlos arqueólogos. Ainda assim, o interesse por Palenque só foi despertado depois da descoberta, em 1949 (por Alberto Ruiz Lhuillier), de uma escadaria secreta interna, na pirâmide com degraus chamada "O Templo das Inscrições". Vários anos de escavações e remoção do solo e do entulho, que escondia a estrutura interna, renderam, ao final, uma descoberta excitante: uma câmara mortuária (fig, 27). Ao final da escadaria em curva, um bloco de pedra triangular escondia uma entrada na parede, ainda guardada pêlos esqueletos de guerreiros maias. Atrás havia uma cripta em arcada, decorada com pinturas murais.No interior, havia um sarcófago coberto por um bloco de pedra, pesando cerca de cinco toneladas e meia e com 3,65 metros de comprimento. Quando essa tampa foi removida, descobriu-se o esqueleto de um homem alto, ainda adornado com pérolas e jóias de jade. Seu rosto estava coberto por uma máscara de jade em mosaico; um pequeno pendente de jade com a imagem de uma divindade ligava-se às contas de um colar.



A descoberta foi considerada sensacional. Até então, nenhuma outra pirâmide ou templo do México havia sido utilizada como tumba. O enigma da tumba e seu ocupante aprofundou-se pela representação gravada na tampa: tratava-se da imagem de um maia descalço sentado sobre um trono flamejante ou cheio de plumas, aparentemente operando dispositivos mecânicos no in­terior de uma câmara elaborada (fig. 28). A Sociedade do Astro­nauta Antigo, e seu patrono, Erich von Daniken, enxergaram nessa representação um astronauta no interior de uma espaço-nave direcionada por jatos flamejantes. Eles sugerem que um extraterrestre teria sido enterrado ali.



Os arqueólogos e estudiosos ridicularizam a idéia. As inscri­ções nas paredes desse edifício mortuário e nas estruturas adja­centes os convenceram de que a pessoa enterrada ali é o líder Pacal ("Escudo")/ que reinou em Palenque de 615 a 683 d.C. Al­guns enxergam na cena uma representação do falecido Pacal sen­do conduzido pelo Dragão do Inferno para o reino dos mortos, considerando o fato de que, no solstício de inverno, o sol se põe exatamente atrás do Templo das Inscrições, o que simbolizaria a partida do rei com o Deus Sol no poente. Outros, levando em conta o fato de que a representação é emoldurada por um Me­ridiano Celeste, urna corrente de glifos que representam corpos celestes e as constelações do Zodíaco, encaram a cena como o rei sendo carregado pela Serpente Celestial para o reino dos deu­ses. O objeto em forma de cruz que o falecido encara, é visto como uma "árvore da vida" estilizada, sugerindo que o rei está sendo transportado para a eternidade.Na verdade, uma tumba semelhante, conhecida como túmulo 116, foi descoberta na Grande Praça de Tikal, ao pé da maior pirâmide. Enterrado a cerca de seis metros abaixo do chão foi encontrado o esqueleto de um homem alto. Seu corpo estava colocado numa plataforma de alvenaria de pedra, ornado com jóias de jade e cercado (como em Palenque) por pérolas, objetos de jade e de cerâmica. Também foram encontradas representações de pessoas carregadas nas presas de ferozes serpentes (que os estudiosos chamam de Deuses Celestes), que aparecem em mui­tos sítios maias, como o de (fig. 29) Chichén Itzá.



Considerando tudo, os arqueólogos admitem que "não é possível deixar de fazer comparações com as criptas dos faraós egípcios". "As semelhanças entre a tumba de Pacal e daqueles que reinaram às margens do Nilo são impressionantes"(H. La Fay, The Maia, Chidren of Time - "Os Maias, Filhos do Tempo" — na revista National Geographic Magazine). De fato, a cena no sarcófago de Pacal repete a mesma imagem do faraó transportado pela Serpente Alada para a vida eterna entre os deuses que vieram do céu. O faraó, que não era astronauta, tornou-se um com sua morte. Esse, sugerimos, seria o significado da cena esculpida para Pacal.Não se descobriram apenas tumbas nas florestas da América Central. Muitas vezes, colinas cobertas de vegetação tropical abrigavam sob a terra uma pirâmide; grupos de pirâmides eram picos de uma cidade perdida. As escavações na localidade de El Mirador, uma área selvagem, próxima à fronteira do México com a Guatemala, começaram em 1978 e revelaram uma grande ci­dade maia. Ela ocupava cerca de 15 quilômetros quadrados e remontava a 400 a.C. Até então, os defensores do sul como ponto de origem dos maias (de acordo com S. G. Morley, The Ancient Maya - "Os Antigos Maias") acreditavam que Tikal fosse a sua maior e mais antiga cidade. Situada na parte noroeste da pro­víncia guatemalteca de Petén, Tikal ainda eleva suas pirâmides além da copa das árvores. É tão grande que suas fronteiras pa­recem constantemente expandir-se, à medida que novas ruínas são encontradas. Só o centro cerimonial principal cobria mais de 1,5 quilômetro quadrado. O espaço para sua construção não só foi roubado à floresta tropical, como foi fisicamente criado, atra­vés do achatamento de uma cordilheira, laboriosamente terra­plenada. Os barrancos circundantes foram convertidos em reser­vatórios, ligados por uma série de estradas elevadas.As pirâmides de Tikal, agrupadas em vários conjuntos, pos­suem linhas belíssimas. Altas e estreitas, são verdadeiros arranha-céus, elevando-se a alturas superiores a 60 metros. Erguen­do-se em degraus íngremes, as pirâmides serviam de suporte para os templos erigidos no topo. Os templos retangulares abri­gavam apenas um par de aposentos estreitos. Estes, por sua, vez eram encimados por sólidas superestruturas decorativas, que aumentavam a altura das pirâmides (fig. 30). O resultado visual dessa arquitetura era suspender o santuário entre a Terra e o Céu, acessível pêlos degraus inclinados, verdadeiro simbolismo da Escadaria para o Céu. No interior de cada templo uma série de portais conduzia ao interior, cada um mais elevado do que o anterior. Os lintéis eram feitos de madeiras raras, exoticamente esculpidas. Como regra geral, havia cinco portais exteriores e sete interiores, num total de doze — um simbolismo numérico cujo significado até então, não havia atraído atenção em particular.



A construção de uma pista de pouso próxima às ruínas de Tikal acelerou sua exploração arqueológica depois de 1950, desenvolvendo-se, desde então, um extenso trabalho de pesquisa, especialmente por equipes do Museu da Universidade da Pensilvânia. Os pesquisadores descobriram que as grandes praças de Tikal serviam como necrópoles, onde eram enterrados governantes e nobres; igualmente, muitas das estruturas menores eram templos funerários, construídos não sobre tumbas, mas próximo a elas, servindo como cenotáfios. Também descobriram 150 mar­cos, blocos de pedra esculpidos, erguidos de forma a ficar com a face voltada para o leste ou para o oeste. Representam, segundo os estudiosos, retratos de reis, ou grandes acontecimentos de suas vidas e de seus reinados. As inscrições hieroglíficas gravadas na superfície da pedra (fig. 31) mostram datas precisas, associadas a esses eventos. Davam o nome do rei (por exemplo, "Crânio de Pata de JÁguar, ano de 488") e identificavam o evento. Os estu­diosos agora têm certeza de que os hieróglifos não eram mera­mente pictóricos ou ideográficos, "mas também escritos foneti­camente em sílabas semelhantes às dos sumérios, babilónios e egípcios" (A. G. Miller, Maya Rulers ofTime - "Os Maias, Senhores do Tempo").



Foi com a ajuda de tais registros que os arqueólogos foram ca­pazes de identificar uma seqüência de quatorze reis em Tikal, desde o ano 317 até 869 d.C. Contudo, é certo que Tikal foi um centro real maia muito antes disso: datações feitas pelo método do isótopo de carbono nos restos de algumas tumbas apontaram 600 a.C.Localizada a 240 quilômetros a sudeste de Tikal está Copán, a cidade que Stephens comprou. Situava-se na periferia sudoeste do reino maia, hoje território de Honduras. Embora não apre­sentasse os característicos degraus inclinados de Tikal, era talvez a mais típica das cidades maias em sua disposição. O vasto centro cerimonial ocupava 30 hectares e consistia de pirâmides-templos agrupadas ao redor de várias praças amplas (fig. 32). As pirâ­mides, de bases largas e com uma média de 20 metros de altura, eram peculiares pelas escadarias monumentais decoradas com esculturas elaboradas e inscrições hieroglíficas. As praças eram dotadas de santuários, altares e — o mais importante para os historiadores — monólitos de pedra esculpida, que representa­vam reis e forneciam datas. Revelavam que a pirâmide principal fora terminada no ano de 756 e que Copán alcançou sua hege­monia no século 9, logo após o colapso da civilização maia.Porém, à medida que as escavações descobriam novos dados, em locais da Guatemala, de Honduras, de Belize, encontravam-se monumentos e monólitos datados desde 600 a.C., revelando um sistema aperfeiçoado de escrita, que deve ter sido precedido de uma fase de maior desenvolvimento, conforme concordam os especialistas.Copán, como logo veremos, desempenhou um papel especial na vida e na cultura maia.



Estudiosos dessa civilização ficaram especialmente impressio­nados pela sua precisão, ingenuidade e diversidade na contagem de tempo, atribuindo o fato à avançada astronomia maia.Os maias possuíam, na verdade, três calendários. Entretanto, um deles — o mais significativo, em nossa opinião — não se relacionava com a astronomia. E a chamada "contagem longa". Localiza uma data, contando o número de dias passados a partir de um determinado dia de referência até o dia do evento registrado no monólito ou monumento. Os especialistas concordam em datar o enigmático "primeiro dia" — uma época e um acontecimento que precederam o surgimento da civili­zação maia — como 13 de agosto de 3113 a.C., segundo o atual calendário cristão.



A "contagem longa", como os outros dois sistemas de contagem de tempo, estava baseada num sistema vigesimal matemático ("ve­zes vinte") dos maias e, como na antiga Suméria, empregava o conceito de "lugar", pelo qual 1 na primeira coluna seria 20 na coluna seguinte, depois 400, e assim por diante. O sistema da "contagem longa", utilizando colunas verticais onde os valores menores eram colocados embaixo, dava nome a esses vários múltiplos e os identificava com glifos (fig. 33). Começando com kin para l, uinal para 20, e assim por diante, os múltiplos alcançam o glifo alau-tun, que corresponde ao fantástico algarismo de 23.040.000.000 dias — um período de 63.080.082 anos!



Porém, como os monumentos deixados nos mostram, os maias retornaram não para a idade dos dinossauros em busca de um determinado dia, e sim para uma data específica, um evento tão importante para eles como ocorreu com a data do nascimento de Cristo para o calendário cristão. Dessa forma, o monólito 29, em Tikal (fig. 34), que ostenta a data mais antiga já encontrada num monumento ali (292 d.C.), teria, pela "contagem longa", a data de 8.12.14.8.15, usando bolinhas para o numeral 1 e barras para o 5.



Dividindo-se os 1.243.615 dias pelo número de dias do ano solar (365,25), a data apontada indica que o evento representado ocorreu 3404 anos e 304 dias depois do misterioso "primeiro dia" — 13 de agosto, 3113 a.C. Portanto, segundo a correlação aceita, a data no monólito 29 corresponde ao ano 292 d. C.(3405 - 3113). Alguns estudiosos opinam que os maias começaram a usar a "contagem longa" na era de Baktun 7, o que equivale ao século 4 a.C. Outros, não descartam a possibilidade de um início mais remoto.Juntamente com esse calendário contínuo existiam dois calen­dários cíclicos. Um era o Haab, ou ano solar de 365 dias, dividido em 18 meses de 20 dias, mais 5 dias adicionais ao final do ano. O outro era o Tzolkin, ou calendário do Ano Sagrado, no qual os 20 dias básicos eram utilizados 13 vezes, resultando num Ano Sagrado de 260 dias. Os dois calendários cíclicos eram mistu­rados, como se fossem engrenagens, urna impulsionada pela outra, para criar o grande Ciclo Sagrado de 52 anos solares, pois a combinação de 13, 20 e 365 só se repete uma vez em 18.980 dias, o que totaliza 52 anos. Esse ciclo do calendário de 52 anos era considerado sagrado por todos os povos da antiga América Central, que o relacionavam com eventos pas­sados e também futuros — como a expectativa messiânica do retorno de Quetzalcoatl.O mais antiga data do Ciclo Sagrado foi encontrada no vale mexicano de Oaxaca e remonta a 500 a.C. Ambos os sistemas de contagem, o contínuo e o Ciclo Sagrado, são muito antigos. Um é histórico, contando a passagem do tempo (dias) de um acontecimento há muito ocorrido, cujo significado e natureza ain­da são um enigma. O outro é cíclico, atrelado a um período de 260 dias. Os especialistas ainda tentam descobrir o que aconteceu no período de 260 dias, para o ciclo ter sido assim estabelecido, se é que algo aconteceu.Alguns acreditam que esse ciclo é puramente matemático: corno cinco ciclos de 52 anos totalizam 260 anos, de alguma forma resolveram ficar com o ciclo mais curto de 260 dias. Porém, essa justificativa apenas transfere a necessidade de explicação para o número 52: por que motivo adotaram o uso de 52? Outros sugerem que o período de 260 dias estava relacionado à agricultura, mais precisamente à duração da estação chuvosa, ou dos intervalos de seca. Tendo em vista o interesse dos maias pela astronomia, alguns tentaram relacionar esse ciclo com os movimentos de Marte e Vênus. A explicação, a nosso ver correta, de Zelia Nuttal, apresentada no 22° Congresso de Americanistas (Roma/ 1926), não teve o reconhecimento devido. Ela destacou que a forma mais fácil para os povos do Novo Mundo relacionarem os movimentos do Sol à sua própria localidade seria de­terminar os dias do zênite, quando o Sol passa exatamente sobre uma vertical superior do lugar ao meio-dia. Isso acontece duas vezes por ano, pois o Sol anda para o norte, depois para o sul, passando acima por duas vezes. Os nativos, sugeriu ela, mediam o intervalo entre os dois dias do zênite, e o número resultante, servia de base para o ciclo do calendário.Esse intervalo corresponde a meio ano solar no Equador e aumenta à medida que nos afastamos para o norte ou para o sul. Aos 15 graus para o norte, por exemplo, corresponde a 263 dias (de 12 de agosto a 1° de maio seguinte). Esta é a estação chuvosa na região até hoje. Os descendentes dos maias, atual-mente, começam seus plantios a 3 de maio (convenientemente festejado, no México, como o dia da Cruz Sagrada). O intervalo delimitado por 260 dias corresponde à latitude de 14° 42' norte a latitude de Copán.A exatidão da explicação de Nuttal para a forma como foi fixado o ciclo de 260 dias deriva do fato de que Copán era con­siderada a capital maia da astronomia. Além da orientação celeste dos edifícios, alguns monólitos foram encontrados alinhados, de forma a indicar datas-chaves para os calendários. Um monólito ("A") que apresenta uma data pela "contagem longa" equivalente a um dia no ano de 733 d.C. traz, também, duas outras datas pela "contagem longa", uma maior em 200 dias, e outra menor em 60 dias (dividindo o ciclo de 260). A. Aveni (Skywatchers of Ancient México - "Observadores Celestes do Antigo México") pre­sume que se tratava de uma tentativa de realinhar a "contagem longa" (que considerava 365,25 dias em um ano) com o calendário cíclico Haab de 365 dias. A necessidade de reajustar ou reformar os calendários pode ter sido o motivo para um conclave de astrônomos ocorrido em Copán em 763 d.C. O evento ficou registrado num monumento sagrado conhecido como Altar Q, no qual aparecem dezesseis astrônomos, alinhados quatro de cada lado (fig. 35). Pode-se notar que um glifo "em forma de gota" à frente dos narizes — como nas representações de Pacal — os identifica como Observadores do Céu. A data esculpida nesse monumento aparece em outras cidades maias, sugerindo que a decisão tomada em Copán foi estendida a todo o reino.



A reputação dos maias como astrônomos capazes cresceu com a divulgação de vários códices, que contêm secções sobre astro­nomia, tratando de eclipses solares, lunares e do planeta Vênus. Um estudo mais acurado revelou, entretanto, que não se tratava do resultado de observações diretas dos astros, mas de almana­ques com cópias de fontes anteriores, fornecendo dados já re­gistrados com os quais os maias poderiam procurar fenômenos aplicáveis ao ciclo de 260 dias. E. Hadingham (Earty Man and the Cosmos - "O Homem Primitivo e o Cosmos"), afirma que tais almanaques apresentavam "uma curiosa mistura de precisão a longo prazo e imprecisão a curto prazo".A principal tarefa dos astrônomos locais parece ter sido a de verificar, ou ajustar, o ano sagrado de 260 dias aos dados mais antigos, que lidavam com os movimentos dos corpos celestes. Na verdade, o mais renomado e ainda ativo observatório no Yucatán, o Caracol, em Chichén Itzá (fig. 36), tem frustrado vários pesquisadores que tentaram, em vão, encontrar em sua orientação e abertura pistas para determinar solstícios ou equinócios. Al­gumas dessas pistas, no entanto, parecem estar relacionadas ao ciclo de Tzolkin (260 dias).




Voltamos à questão do número 260. Por que essa escollha? Apenas porque parece igualar o número de dias entre os zênites em Copán? Por que não, digamos, o número 300, se um local próximo aos 20 graus norte foi escolhido, como Teotihuacán?O número 260 parece ter sido uma escolha arbitrária e deli­berada. A explicação de que resultaria na multiplicação de um número natural, 20 (o número de dedos das mãos e dos pés), por 13 só transfere a pergunta. Por que o 13? A "contagem longa" também contém um número arbitrário, 360: inexplicavelmente ele abandona a progressão vigesimal pura, e depois de kin (1) e uinal (20), introduz o tun (360) ao sistema. O calendário Haab também usa o 360, dividindo esse número em 18 "meses" de 20 dias; depois, arredonda o ano, adicionando 5 "dias ruins" para completar o ciclo solar de 365 dias.Dessa forma, os três calendários usam números não naturais, deliberadamente escolhidos. Demonstraremos que tanto o nú­mero 260 como o 360 chegaram à América Central via Mesopotâmia, passando pelo Egito.Estamos todos familiarizados com o número 360: é o número de graus num círculo. Mas poucos sabem que esse número foi encontrado pêlos sumérios e deriva da base sexagesimal (base 60) do sistema matemático utilizado por eles, O primeiro calen­dário conhecido foi o Nippur, dos sumérios. Ele foi estabelecido dividindo-se o círculo de 360 em 12 partes. Esse número era considerado sagrado, celestial, determinando os 12 meses do ano, as 12 casas do Zodíaco, os 12 deuses do Olimpo, e assim por diante. O problema da sobra de 5,25 dias por ano foi resolvido por intercalação — a adição de um décimo-terceiro, depois da passagem de um certo número de anos.Embora o sistema aritmético egípcio não fosse sexagesimal, eles adotaram o sistema sumérío de 12 x 30 = 360. Porém, inca­pazes de realizar os cálculos complexos envolvidos na interca­lação, simplificaram o assunto arredondando o ano ao adicionar um mês "curto" de cinco dias no final. Esse mesmo sistema foi adotado na América Central. O calendário Haab não era apenas semelhante ao do Egito. Era idêntico. Além do rnais, os povos da América Central possuíam um ritual anual relativo à estrela Sírius e à elevação das águas do Nilo,A influência suméria nos calendários dos egípcios e dos povos centro-americanos não se limitava ao número sexagesimal de 360. Vários estudos, notadamente os de B. P. Reko, nas primeiras edições de El México Antiguo ("O Antigo México") chamam a atenção para um fato: os treze meses do calendário Tzolkin eram, na verdade, um reflexo do sistema de doze meses do calendário sumério, mais o décimo-terceiro mês intercalado, com a diferença de que no Egito (e portanto na América Central) o décimo-terceiro mês encolheu para 5 dias anuais. O termo tun para 360 significa na linguagem maia "celestial", uma estrela ou planeta na faixa zodiacal. E interessante observar que um "aglomerado de estre­las" — constelação — era chamado de Mool pelos maias, virtual­mente o mesmo termo MUL que os sumérios usavam para "corpo celeste".A ligação entre o calendário da América Central com o usado no Velho Mundo fica mais clara quando consideramos o número sagrado, 52, ao qual todos os grandes eventos ocorridos no ter­ritório centro-americano foram associados. As muitas tentativas de explicá-lo (como a afirmação de que se trata de 13 x 4) ignoram sua origem mais óbvia: as 52 semanas do calendário do Oriente Médio (mais tarde do calendário europeu). Esse número de se­manas, entretanto, só pode ser obtido se for adotada uma semana de sete dias. Nem sempre foi assim. A origem da semana de 7 dias foi objeto de estudo por quase dois séculos e a melhor teoria é a que deriva das quatro fases da Lua. O certo é que emergiu como decreto divino nos tempos bíblicos, quando Deus mandou que os israelitas durante o Êxodo do Egito observassem o sétimo dia do Sabbath.Teria o número 52 sido considerado ciclo sagrado porque era o denominador comum dos calendários centro-americanos, ou teria sido 260 adotado (ao invés de 300, por exemplo) por ser um múltiplo de 52 (52 x 5 = 260)? Embora uma divindade cujo epíteto significava "Sete", fosse o principal deus sumério, ele era honrado como um local teofânico (por exemplo, Beer-Sheba - "O Poço do Sete") ou de nomes pessoais (Elisheva - "Meu Deus é Sete"), principalmente na terra de Canaan. O número 7 permeia as histórias da Bíblia, de José a sonhos do faraó e acontecimentos subsequentes no Egito. Como o número 52 deriva do número 7 como base do calendário, demonstraremos que este ciclo, visto como sagrado na América Central, originou-se no Egito.Mais especificamente: 52 era um número mágico, associado ao deus egípcio Thoth, o deus da ciência, da escrita, da mate­mática e do calendário.Uma antiga lenda egípcia conhecida como "As Aventuras de Satni-Khamois Comas Múmias", uma história de magia, mistério e aventura que poderia ser comparada a um moderno filme de açao, emprega a associação do número mágico 52 com Thoth e com os segredos do calendário. Esta lenda aparece num papiro (Cairo 30646), descoberto numa tumba em Tebas, datado do sé­culo 3 a.C. Fragmentos de outros papiros com a mesma lenda também foram encontrados, indicando que era um livro conhe­cido na literatura egípcia, pertencendo ao ciclo de histórias sobre deuses e homens.O herói da história, filho de um faraó, "bem instruído em todas as coisas", estava habituado a vagar pela necrópole de Mênfis, na época a capital, estudando os escritos sagrados nas paredes dos templos e monólitos e pesquisando antigos livros de magia. Com o tempo ele tornou-se "um mágico sem rival na terra do Egito". Um dia, um homem misterioso lhe falou sobre uma tumba "onde havia um livro escrito pelo deus Thoth com as próprias mãos", no qual revelava os mistérios da Terra e do Céu, incluindo a divina sabedoria em relação aos "nasceres do Sol e às aparências da Lua e ao movimento dos deuses (planetas) que estão no ciclo do Sol" — os segredos da astronomia e do calendário.A tumba era a de Nenoferkheptah, filho de um antigo faraó (segundo os estudiosos, reinou por volta de 1250 a.C.). Quando Satni, conforme o esperado, ficou muito interessado e perguntou a localização da tumba, o velho o avisou de que, apesar de mumificado, Nenoferkheptah não estava morto e poderia atacar qualquer uni que ousasse tirar o livro alojado a seus pés. Sem demonstrar temor, Satni foi procurar a tumba, que não podia ser encontrada pois estava embaixo da terra. Porém, chegando ao local, Satni "recitou uma fórmula sobre ele e uma fresta abriu-se no solo; Satni desceu até o local onde estava o livro".No interior da tumba, Satni viu as múmias de Nenoferkheptah, de sua esposa-irmã e do seu filho. O livro estava realmente junto ao faraó e "emitia uma luz como se o sol brilhasse ali". Quando Satni deu um passo na direção do livro desejado, a múmia da esposa falou, advertindo-o para não avançar mais. Ela contou, então, a Satni as aventuras de Nenoferkheptah quando ele tentou obter o livro: Thoth o escondera num lugar secreto, no interior de uma caixa de ouro, que estava no interior de uma caixa de prata, que estava no interior de uma série de outras caixas, sendo a última feita de ferro e bronze. Ignorando todos os avisos e superando todos os obstáculos, Nenoferkheptah encontrou o li­vro e apossou-se dele; por isso foi condenado por Thoth a um estado de letargia permanente; embora vivos, tinham sido en­terrados e apesar de mumificados podiam ver, ouvir e falar. Ela avisou a Satni que a maldição de Thoth recairia sobre ele, se tocasse o livro.Porém, tendo ido tão longe, Satni estava determinado a apa­nhar o livroc Quando deu outro passo, a múmia de Nenoferkheptah falou. Havia uma maneira de possuir o livro sem incorrer na ira de Thoth, disse ele. Bastava jogar e ganhar o Jogo do Cinquenta e Dois, o número sagrado de Thoth.Satni prontamente concordou. Perdeu o primeiro jogo e de repente estava meio enterrado no chão. Perdeu o jogo seguinte, e o seguinte, afundando cada vez mais.A forma como Satni conseguiu escapar com o livro, as cala­midades que recaíram sobre ele por sua ação e como, finalmente, ele o devolveu ao esconderijo, transformam essa história numa versão antiga do filme Cavaleiros da Arca Perdida.A moral da história: nenhum homem, por mais sábio que fosse, poderia aprender os mistérios da Terra, do Sol, da Lua e dos planetas sem permissão divina; sem a autorização de Thoth, o homem não conseguiria ganhar o Jogo do Cinquenta e Dois. E o perderia mesmo se tentasse descobrir os segredos, abrindo as camadas protetoras da Terra de minerais e metais.E nossa convicção de que foi o mesmo Thoth, aliás Quet-zalcoatl, quem ofereceu o Calendário do Cinquenta e Dois e toda a sabedoria para os povos da América Central. No Yu-catán os maias o chamavam de Kukulcan; na costa do Pacífico, na Guatemala e em El Salvador, ele se chamava Xiuhtecuhtli. Todos os nomes têm o mesmo significado; Serpente Emplu­mada ou Alada.A arquitetura, as inscrições, a iconografia e os monumentos das cidades perdidas dos maias permitiram aos estudiosos re­constituir não só a história dos governantes, mas também as alterações dos conceitos religiosos. No início, os templos eram elevados — colocados no alto das pirâmides com degraus para adorar o Deus Serpente — e os céus eram observados para en­contrar a chave dos ciclos celestiais. Mas chegou uma época em que o deus — ou todos os deuses — partiram. Não sendo mais vistos, os fiéis acreditaram que tivessem sido engolidos pelo se­nhor da noite, o jAguar. A imagem do grande deus foi coberta, então, com uma máscara de jÁguar (fig. 37), através da qual as serpentes, símbolos terrestres, ainda emergiam.Mas Quetzalcoatl não prometera retornar?


Cheios de fervor, os observadores do céu na selva consultavam almanaques antigos. Os sacerdotes chegaram a elaborar a hipó­tese de que as divindades desaparecidas retornariam se lhes oferecessem corações pulsantes de vítimas humanas.Porém, em alguma data crucial, por volta do século 9 d.C, um acontecimento profetizado deixou de ocorrer. Todos os ciclos se juntaram e nada resultou. Assim, os centros cerimoniais e as cidades dedicadas aos deuses foram abandonados e a selva estendeu seu manto verde por sobre o domínio dos Deuses Serpente.

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ESTRANHOS DO OUTRO LADO DOS MARES

Quando os toltecas sob a liderança de Topiltzin-Quetzalcoatl, desgostosos com as abominações religiosas, deixaram Tollán em 987 d.C, buscando um novo local para viver como nos velhos dias, se dirigiram para o Yucatán. Eles poderiam ter encontrado um território mais próximo, que não exigisse uma caminhada tão árdua e passagem por regiões com tribos tão hostis. Apesar disso, escolheram percorrer mais de l 600 quilómetros, através de uma terra diferente — plana, sem rios, tropical — daquela em que viviam. E não pararam até atingir Chichén Itzá. Por quê? Que motivos os levariam para aquela cidade abandonada pêlos maias? Para encontrar a resposta só vasculhando as ruínas da antiga cidade.Facilmente acessível através de Mérida, atual capital do Yu­catán, Chichén Itzá já foi comparada a Pompéia (na Itália), que depois da remoção das cinzas vulcânicas sob as quais estava enterrada revelou-se uma cidade romana com suas casas e mu­rais, afrescos e todos os objetos da vida cotidiana. A diferença, no México, é que em lugar de cinzas vulcânicas foi necessário remover a vegetação tropical. O visitante foi, assim, bem re­compensado: pode apreciar hoje não apenas uma cidade do "Ve­lho Império" maia, mas também uma imagem espelhada de Tol­lán, uma vez que os toltecas, quando chegaram, construíram e reconstruíram Chichén Itzá à imagem de sua amada capital.Para os arqueólogos, o local teve grande importância até o primeiro milénio a.C. Mas as crónicas de Chilam Balam atestam que, por volta do ano 450 d.C, era a principal cidade do Yucatán. Foi chamada de Chichén ("A Boca do Poço") porque seu ponto religioso mais importante era o cenote sagrado, ou poço sagrado (um depósito natural de água subterrâneo), que atraía peregrinos vizinhos e distantes. A maior parte das ruínas visíveis do período maia está localizada ao sul da cidade, na "Velha Chichén". É ali que se encontram os edifícios descritos por Stephens e desenha­dos por Catherwood, ostentando nomes românticos como Akab-Dzib ou o "Lugar da Escrita Oculta", o "Refúgio", o "Templo dos Portais", e assim por diante.


Os últimos a ocupar Chichén antes da chegada dos toltecas foram os itzãs, uma tribo aparentada aos toltecas, segundo alguns estudiosos, enquanto outros acham que eram imigran­tes vindos do sul. Foram eles que deram ao local seu nome atual, significando "A Boca do Poço dos Itzás". Eles construí­ram seu próprio centro cerimonial, ao norte das ruínas maias, e os edifícios mais renomados, como a grande pirâmide central ("el Castillo") e o observatório ("el Caracol"), que acabaram servindo de base para a reforma dos toltecas, quando recriaram Tollán em Chichén Itzá.




A descoberta acidental de uma entrada, mantida oculta du­rante séculos, permite ao visitante moderno penetrar no espaço entre a pirâmide dos itzás e a pirâmide tolteca que a envolve, e subir pela escadaria antiga até o santuário itzá, onde os toltecas instalaram uma imagem de Chacmool e de um jÁguar. Do ex­terior é possível ver apenas a estrutura tolteca, uma pirâmide com nove degraus (fig. 38) e altura de 56 metros. Ela foi dedicada ao Deus da Serpente Emplumada — Quetzalcoatl-Kukulcan — o que pode ser comprovado nas decorações com serpentes emplu­madas e na incorporação à estrutura de referências ao calendário: a construção em cada uma das quatro faces do edifício de uma escadaria com 91 degraus, que somados ao "degrau" mais alto, ou plataforma, representam os 365 dias do ano solar (91 x 4 + l = 365). Chamada de Templo dos Guerreiros ela duplica a pirâmide dos Atlantes, de Tollán, por sua localização, orientação, escadaria, decorações com serpentes emplumadas de pedra, ornamentos e esculturas.Como em Tollán, em frente à pirâmide-templo, do outro lado da praça, está a quadra de jogo. Trata-se de uma imensa arena retangular, a maior da América Central, com 166 metros de comprimento. Muros altos estendem-se dos dois lados, apresentando, cada um, a 10 metros do solo, um círculo de pedra decorado com esculturas, representando duas serpentes entrelaçadas. Os que disputavam jogos no local, para vencer, precisavam lançar uma bola de borracha sólida direto nos círculos. Cada equipe era formada por sete jogadores e os que perdiam pagavam um preço alto: seu líder era decapitado. Painéis de pedra, decorados em baixo relevo e instalados ao longo das paredes, mostram as cenas do jogo. O painel central na parede oriental (fig. 39) indica o líder de uma equipe vencedora (à esquerda), carregando a cabeça de um perdedor.As cenas sugerem que não se tratava de um simples jogo para diversão. Em Chichén Itzá, como em Tollán, existiam várias qua­dras, talvez para treinamento ou partidas menos importantes. A quadra principal era a única em seu tamanho e esplendor. Per­cebe-se a importância do que acontecia ali pela existência de três templos ricamente decorados com cenas de guerreiros, en­contros mitológicos, a árvore da vida e uma divindade alada e barbada, com dois chifres (fig. 40).


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