quinta-feira, agosto 16, 2012

Coleção Zecharia Sitchin Livro 5 / OS REINOS PERDIDOS -2 PARTE


Tudo isto, mais o tratamento desigual e as regalias concedidas aos jogadores, dão à cerimónia do jogo uma conotação político-religiosa intertribal, ou internacional, de grande significação. O número de jogadores (7), a decapitação do perdedor, o uso de uma bola de borracha remetem a uma história mitológica do Popol Vuh sobre um combate entre os deuses Sete-Macau e seus dois filhos contra vários Deuses Celestes, incluindo o Sol, a Lua e Vênus. O filho derrotado Sete-Huanaphu fora executado: "sua cabeça, cortada de seu corpo, rolou para longe, seu coração foi arrancado do peito". Como se tratava de um deus, ele ressuscitou e virou um planeta.A reencenação de eventos divinos torna esse costume tolteca parecido com certas peças religiosas do Oriente Médio. No Egito, a mutilação e ressurreição de Osíris eram encenadas, anualmente, numa peça misteriosa, na qual os atores, incluindo o fiarão, representavam o papel de vários deuses. Na Assíria, um jogo complexo, também anual, reencenava uma batalha entre os deuses, na qual o perdedor era executado somente para que fosse perdoado e ressuscitado por Deus. Na Babilônia, o Enuma elish, épico descrevendo a criação do sistema solar, era lido anualmente como parte das comemorações de Ano Novo. Ele descrevia a coalizão celestial que levara à criação da Terra (o Sétimo Planeta) com o esquartejamento e decapitação do monstruoso Tiamat pelo deus supremo da Babilônia, Marduk.O mito centro-americano e sua encenação, ao repetir os "mitos" do Oriente Médio, parece ter retido os elementos celestiais da história, o simbolismo do número 7 e sua relação com o planeta Terra. É significativo o fato de que, na representação maia-tolteca ao longo das paredes da quadra, alguns jogadores carreguem o símbolo do Disco Solar, enquanto outros carregam uma estrela de sete pontas (fig. 41). Em nossa opinião, trata-se de um símbolo celestial e não de um emblema. Em vários locais de Chichén Itzá uma estrela de quatro pontas representa, muitas vezes em combi­nação com o símbolo "8", o planeta Vênus (fig. 42a), enquanto em outras localidades a noroeste do Yucatán, nas paredes dos templos, encontram-se decorações com estrelas de seis pontas (fig. 42b).




A representação dos planetas como estrelas é tão comum que tendemos a esquecer como surgiu esse costume: a exemplo de todo o resto, foi na Suméria. Baseado no que aprenderam dos nefelim, os sumérios contavam os planetas não como fazemos, do interior para o exterior, mas ao contrário, partindo dos mais afastados. Assim, Plutão era o primeiro planeta, Netuno o se­gundo, Urano o terceiro, Saturno o quarto, Júpiter o quinto, Marte o sexto, a Terra o sétimo e Vénus o oitavo. Na opinião dos es­tudiosos, os maias/toltecas consideravam Vênus o oitavo pla­neta, porque são necessários oito anos (8 x 365 = 2 920 dias) para repetir o alinhamento sinódico com Vénus após cinco órbitas de Vénus (5 x 584 = 2 920 dias). Porém, se assim fosse, Vênus seria o quinto e, a Terra, o oitavo.Em nossa opinião, o método sumério é mais preciso e sugere que as representações maias/toltecas seguem a iconografia do Oriente Médio. Os símbolos encontrados em Chichén Itzá e em todos os outros lugares do Yucatán são quase idênticos às re­presentações de planetas encontradas na Mesopotâmia (fig. 42c).








O emprego de símbolos de estrelas com pontas, à maneira do Oriente Médio, torna-se mais e mais comum à medida que se avança para o noroeste do Yucatán. Uma escultura notável foi encontrada num local chamado Tzekelna e pode ser vista, hoje, num museu da cidade de Mérida: um homem de feições marcantes, possivelmente usando um capacete, foi esculpido num enorme bloco de pedra. Seu corpo está coberto por um traje colante feito de escamas ou placas. Abaixo do braço dobrado, ele segura um objeto que o museu identifica como "a forma geo­métrica de uma estrela de cinco pontas" (fig. 43). Um enigmático dispositivo circular é sustentado por cintos circundando sua bar­riga.Grandes esculturas de divindades, talhadas em blocos maci­ços de pedra, foram descobertas numa localidade chamada Ox-kintok. Pelas suas dimensões, os arqueólogos presumem que ser­viram de apoio estrutural a templos. Uma delas (fig. 44) parece a contrapartida feminina do homem descrito acima. O traje cheio de aparentes escamas aparece também em várias estátuas e es­tatuetas encontradas em Jaina, uma ilha ao largo da costa noroeste do Yucatán, na qual erigiu-se um templo incomum. A ilha servia como necrópole consagrada. Segundo as lendas, era o local do descanso final de Itzamna, o deus dos itzás, um deus antigo que teria vindo do mar e cujo nome significava "Aquele Cujo Lar é a Água".Textos, lendas e crenças religiosas combinam-se para apontar um local, na costa do Yucatán, onde a divindade teria aportado para dar início à colonização e civilização nessa região. Essa poderosa combinação de memórias deve ter sido o motivo que levou os toltecas para esse ponto específico do Yucatán, parti­cularmente, para Chichén Itzá, quando migraram em busca de renascimento e purificação para suas crenças originais. Na ver­dade, era apenas o retorno à localidade onde tudo se iniciara e onde o "Deus Que Volta" aportaria em seu regresso do outro lado do mar.Em Chichén Itzá, o principal local de adoração de Itzamna e Quetzalcoatl — e talvez das memórias de Votan — era o Cenote Sagrado, um enorme poço que emprestou seu nome à cidade. Localizado ao norte da pirâmide principal, e ligado à praça ce­rimonial por uma longa avenida, o poço tem, hoje, uma profundidade de 20 metros, da boca até a superfície da água e, desta, mais 30 metros até o fundo. A boca, de forma oval, mede cerca de 75 metros de comprimento por 50 de largura. Há evidências de que foi artificialmente alargado e que uma escadaria conduzia ao fundo. Ainda existem restos de uma plataforma e de um san­tuário, junto à boca do poço. Ali, escreveu o bispo Landa, se realizavam ritos para o deus da água e das chuvas, que consistiam em atirar donzelas virgens ao fundo, como sacrifício, enquanto os adoradores jogavam oferendas preciosas na água, de prefe­rência, ouro.Em 1885, Edward H. Thompson, que adquirira reputação ao escrever um tratado chamado Atlantis Not a Myth ("A Atlântida Não é um Mito"), foi indicado como cônsul dos Estados Unidos no México. Não demorou muito para ele comprar 260 quilóme­tros de selva, que incluíam as ruínas de Chichén Itzá. Thompson foi morar nas ruínas e organizou, para o museu Peabody da Universidade de Harvard, pesquisas no poço, contratando mer­gulhadores para entrar em suas águas com o objetivo de recu­perar as oferendas sagradas.Foram encontrados quarenta esqueletos humanos e uma vasta gama de objetos. Mais de 3 400 deles eram feitos de jade, pedra semipreciosa muito valorizada pêlos maias e astecas. Os objetos incluíam contas, adornos para o nariz, brincos, botões, anéis, medalhões, globos, discos, efígies e estatuetas. Outros 500 objetos ostentavam esculturas representando animais e pessoas. Entre as figuras humanas, algumas apareciam com barba (figs. 45a e 45b), lembrando as representações humanas nas paredes da qua­dra de jogos (fig. 45c).



Mais significativos, porém, foram os objetos metálicos que os mergulhadores encontraram. Centenas eram de ouro, alguns de prata ou cobre, descobertas reveladoras numa península onde não há metais. Alguns eram feitos de cobre folhado a ouro, ou de ligas de cobre, incluindo bronze, o que indicava um trabalho de metalurgia desconhecido em terras maias. Isso mostrava que os objetos tinham sido trazidos de lugares distantes. O mais intrigante de tudo foi a descoberta de discos de estanho, um metal que não é encontrado em estado mineral puro na natureza. Ele só pode ser obtido através de um complexo refinamento de minérios — minérios que não existem na América Central.Os objetos de metal, sofisticadamente fabricados, incluíam vá­rios tipos de sinos, coisas usadas em cerimonial, como taças, pias, além de anéis, tiaras, máscaras, ornamentos, cetros e objetos cuja finalidade não foi identificada. O mais importante dos acha­dos, porém, foram discos gravados, em baixo ou alto relevo, com cenas de grupos, onde pessoas com diferentes trajes e feições confrontam-se, talvez em combate, na presença de serpentes ter­restres, celestiais ou de deuses. O herói dominante, ou vitorioso, é sempre representado com barba (fig. 46a,b).




É óbvio que não se tratava de deuses, pois os deuses da Serpente ou do Céu eram representados em separado. Figuras semelhantes a essas, e distintas do Deus do Céu barbado e alado (fig. 40), apa­recem em relevos nas paredes e colunas de Chichén Itzá, junto com outros heróis e guerreiros, como o da figura 47, com a barba longa e afilada (fig. 47), apelidado por alguns de "Tio Sam".



A identidade desse povo com barba é um enigma. É certo que não são nativos, pois estes não têm pêlos no rosto. Quem seriam os estrangeiros? As feições "semíticas", ou do leste do Mediterrâneo (mais aparentes em objetos de argila, representan­do faces) levaram vários pesquisadores a identificá-los como fe­nícios, ou "marinheiros judeus". Eles poderiam ter sido desviados de sua rota por correntes do Atlântico, indo parar no litoral do Yucatán, quando o rei Salomão e o rei fenício, Hiram, juntaram forças para enviar expedições marítimas para a África em busca de ouro (por volta de 1000 a.C). Ou até mesmo alguns séculos mais tarde, quando os fenícios, afastados de seus portos no Me­diterrâneo oriental, fundaram Cartago, e velejaram pela África ocidental.




Muitos pesquisadores, porém, descartam essa possibilidade, não aceitando a hipótese de travessias deliberadas. Eles acham que as barbas eram falsas, artificialmente coladas aos queixos dos nativos, ou pertencente a náufragos que por obra do acaso vieram dar na região. A primeira questão que se levanta diante de tal argumento (proposta por estudiosos renomados) é: se os nativos imitavam outras pessoas, quem eram essas pessoas? A possibilidade de náufragos parece válida. As tradições nativas, como na lenda de Votan, falam de várias viagens, uma exploração seguida por colonização (fundação de cidades). As provas arqueológicas comportam a noção de alguns náufragos que chegaram a um ponto da costa. No entanto, os homens com barba, envolvidos em várias atividades e circunstâncias, repre­sentados por toda parte, da costa do golfo do México, ao interior, e até mesmo nos locais situados na costa do Pacífico, não parecem estilizados nem mitificados. Lembram mais retratos de indiví­duos verdadeiros.Alguns exemplos impressionantes de tais representações fo­ram encontrados em Veracruz (figs. 48a e 48b). As figuras pos­suem características idênticas às de dignatários semitas ociden­tais, que foram feitos prisioneiros pelos faraós egípcios durante as campanhas asiáticas, como representadas pelos vitoriosos em suas inscrições comemorativas nas paredes dos templos (fig. 49).



Então, quando e por quê esses navegadores do Mediterrâneo chegaram à América Central? As pistas arqueológicas são impressionantes. Levam a um enigma ainda maior: aos olmecas e sua origem negra, africana. Em muitas representações, como nes­ta, em Alvarado, Veracruz (fig. 50), aparecem os homens com barba e os olmecas, face a face, convivendo no mesmo local.

De todas as civilizações perdidas da América Central, a dos olmecas é a mais antiga e mais intrigante. De acordo com os relatos, ela foi a civilização-mãe, copiada e adaptada por todos. Surgiu ao longo da costa mexicana no início do segundo milênio a.C. Floresceu, ocupando pelo menos quarenta localidades, por volta de 1200 a.C. (alguns sugerem 1500 a.C). Espalhando-se em todas as direções, mas principalmente para o sul, os olmecas deixaram sua marca ao longo do território centro-americano.


A primeira escrita glífica aparece durante o reinado dos ol­mecas; o mesmo acontece com o sistema centro-americano de numeração, com pontos e barras. Foram realizações dos olmecas, também, a primeira inscrição pela contagem longa, com a data enigmática de 3113 a.C.; os primeiros trabalhos esculpidos com um tipo de arte magnífica e monumental; o uso do jade; as pri­meiras representações de armas e utensílios; os primeiros centros cerimoniais; as primeiras orientações de astronomia. Não é de se espantar que com tantos "primeiros", alguns comparem (como J. Soustelle, em The Olmecs - "Os Olmecas") esta civilização aos sumérios na Mesopotâmia, responsáveis, por seu lado, pêlos "pri­meiros" fatos importantes ocorridos no Oriente Médio. Tal como a civilização suméria, os olmecas apareceram de súbito, sem precedentes, ou indicadores de progresso gradual. Em seus textos, os sumérios descrevem sua civilização como um presente dos deuses, visitantes da Terra, que podiam viajar pelos céus, daí serem representados, frequentemente, como seres alados (fig. 51a). Os olmecas expressavam seus "mitos" em arte esculpida, como nessa esteia de Izapa (fig. 51b), representando um deus alado decapitando outro. A história na pedra é notavelmente semelhante a uma representação suméria (fig. 51c).



Quem era o povo que conseguiu tais feitos? Apelidados de ol­mecas ("Povo da Borracha") porque a área da costa do golfo que ocuparam era conhecida por suas seringueiras, sua origem é des­conhecida. Na verdade, é um enigma. Estranhos numa terra estra­nha, vindos do outro lado dos mares, um povo que não apenas pertencia a outras terras, mas a outro continente. Na área pantanosa da costa, onde as rochas são raras, eles criaram e deixaram monu­mentos de pedra que impressionam até hoje. Dessas representações, as mais espantosas são as que mostram os próprios olmecas.Singulares sob todos os aspectos são as cabeças gigantes de pedra, esculpidas com incrível habilidade e com ferramentas des­conhecidas, representando os líderes olmecas. O primeiro a en­contrar uma dessas cabeças gigantes foi J. M. Melgar y Serrano, em Três Zapotes, no estado de Veracruz. Ele descreveu, em 1869, no Bulletin of the Mexican Geographical and Statistical Society ("Boletim da Sociedade Mexicana de Geografia e Estatística") como um "tra­balho de arte", como "uma magnífica escultura que espantosamente representa um etíope". Era acompanhada por desenhos que repro­duziam fielmente as feições negróides da cabeça (fig. 52).



A existência dessas colossais cabeças de pedra só foi confir­mada em 1925, quando uma equipe de arqueólogos da Universidade de Tulane, liderada por Frans Blom, encontrou "a parte superior de uma cabeça colossal, afundada no solo", em La Venta, uma localidade próxima à costa do golfo, no estado de Tabasco. Quando a cabeça foi desenterrada (fig. 53) media cerca de 2,4 metros de altura e 6,4 metros de circunferência, pesando cerca de 24 toneladas. Inquestionavelmente, ela representa um africano negróide usando um capacete. Com o tempo, outras cabeças foram encontradas em La Venta, cada uma retratando um indivíduo diferente com um capacete diferente, porém ostentando as mesmas características raciais.Cinco cabeças gigantescas foram encontradas na década de 40 em San Lorenzo, um local quase 100 quilômetros a sudoeste de La Venta, pela expedição arqueológica chefiada por Matthew Stirling e Philip Drucker. As equipes da Universidade de Yale que vieram a seguir, lideradas por Michael D. Coe, descobriram mais cabeças. Eles realizaram testes com radiocarbono, obtendo a data de 1200 a.C. Isso significa que a matéria orgânica (prin­cipalmente carvão) encontrada nesses locais possui essa idade. Porém, o local e os monumentos podem ser ainda mais antigos. Na verdade, o arqueólogo mexicano Ignácio Bernal, que encontrou outra cabeça em Três Zapotes, considera a data dessas es­culturas como 1500 a.C.


Até agora, dezesseis cabeças foram encontradas, com altura entre 1,5 a 3 metros e peso de 25 toneladas. Quem quer que as tenha esculpido estava a ponto de produzir mais, pois a "matéria-prima" — grandes rochas escavadas e arredondadas até fi­carem esféricas — foi encontrada próxima às estátuas acabadas. As pedras de basalto, trabalhadas e brutas, foram transportadas desde sua origem até um local desprovido desse material, situado a mais de 100 quilómetros, através de pântanos e da selva tropical. Como foram transportados estes blocos colossais e, finalmente, esculpidos e colocados em seu destino, é um mistério. Obvia­mente, os olmecas achavam muito importante homenagear seus líderes dessa forma. Quando se observam algumas dessas cabeças é espantoso verificar que os indivíduos apresentam os mesmos traços negróides, embora conservando personalidade própria e portando capacetes diferentes
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Cenas esculpidas em monólitos de pedra (fig. 55a) e em outros monumentos (fig. 55b) representavam os olmecas como homens altos, com corpos musculosos, realmente "gigantes" aos olhos da população nativa. Contudo, mesmo que estejamos lidando ape­nas com alguns líderes e não com uma verdadeira população negróide, composta de homens, mulheres e crianças, o fato é que os olmecas deixaram para trás, por uma vasta área da Amé­rica Central, do golfo à costa do Pacífico, centenas, ou mesmo milhares, de representações deles mesmos. Encontramos os mes­mos rostos africanos, seja nas esculturas, relevos, estatuetas de pedra, como nas figuras de jade do Cenote Sagrado de Chichén Itzá, nas efígies de ouro e nas numerosas figuras de terracota encontradas desde Jaina (um casal amante) até o centro-norte do México (jogadores nos relevos de El Tajin). A figura 56 mostra alguns deles. Entre as representações dos olmecas em terracota (fig. 57a) e em pedra (fig. 57b) observamos adultos segurando bebês — um gesto que teria um significado especial para eles.



Os sítios onde as cabeças colossais e outras representações dos olmecas foram encontrados também são intrigantes. O ta­manho, a magnitude e as estruturas revelam o trabalho de povos organizados, não de meros náufragos. La Venta, uma ilha situada na costa pantanosa, foi aterrada e construída de acordo com um planejamento prévio. Os edifícios maiores, inclusive uma rara "pirâmide" cónica, as alongadas e circulares estruturas, as qua­dras pavimentadas, altares, monólitos etc. foram construídos com grande precisão geométrica, ao longo do eixo norte-sul por 5 quilômetros. Num lugar sem pedras, este material foi largamente utilizado — cada pedra escolhida por sua característica — nos monumentos, monólitos e estruturas, sendo transportado de grandes distâncias. A pirâmide cónica exigiu a movimentação e estacamento de 28.000 metros cúbicos de terra, além de um tre­mendo esforço físico. Exigiu, ainda, um alto conhecimento de arquitetura e de trabalho em pedra, sem precedente no conti­nente americano. A arte, com certeza, foi aprendida em outro local.





Os extraordinários achados em La Venta incluíam uma área cercada por colunas de basalto (o mesmo material do qual eram feitas as cabeças colossais). Essa área protegia um sarcófago de pedra e uma câmara funerária retangular que também era coberta e ladeada por blocos de basalto. No interior, vários esqueletos jaziam numa plataforma baixa. Essa descoberta, mais o sarcófago, parece ter servido de modelo para a também incomum tumba de Pacal, em Palenque. De qualquer forma, a insistência no uso de grandes blocos de pedra para produzir esculturas comemo­rativas e jazigos pode servir como pista para a origem dos ol-mecas.Não menos surpreendente foi a descoberta de centenas de pequenas esculturas de jade em La Venta, um material que não existe no local. Entre essas peças destacavam-se singulares ma­chados feitos dessa pedra semipreciosa. Para adicionar mais um detalhe misterioso, todas foram enterradas em valas longas e profundas. Essas valas, por sua vez, estavam cheias com camadas de argila, cada uma de tipo e tonalidade diferente, indicando que toneladas de solo foram transportadas de vários lugares dis­tantes. Espantosamente, o fundo dessa vala era pavimentado com milhares de ladrilhos de serpentina, outra pedra semipreciosa verde-azulada. Presumira-se que tais valas teriam servido para guardar os preciosos objetos de jade. Porém, a pavimentação de serpentina sugeria uma construção anterior, destinada a outra finalidade, por exemplo, armazenar objetos preciosos, como os machados raros, para quando a necessidade deles (e das valas) cessasse.Não há dúvidas de que as cidades olmecas foram abandonadas por volta do início da era cristã, quando seu povo procurou enterrar até algumas das enormes cabeças de pedra. Quem quer que tenha ocupado depois as cidades, realizou sua vingança: algumas cabeças foram arrancadas das bases e roladas para os pântanos; outras ostentam marcas de vandalismo.La Venta abriga mais mistérios: foram descobertos, numa das valas, espelhos côncavos de minério de ferro (magnetita e he-matita), esculpidos e polidos até a perfeição. Depois de realizar testes e estudos, os especialistas do Instituto Smithsonian, em Washington D.C., concluíram que os espelhos poderiam ter sido usados para focalizar os raios do sol, para acender fogo, ou para "propósitos rituais" (é a forma simples dos peritos dizerem que não sabem para que serve o objeto).O enigma final é sua própria localização: a orientação é perfeita num eixo norte-sul desviado 8 graus para oeste do norte verda­deiro. Vários estudos demonstraram que se tratava de uma inclinação intencional, para permitir a observação dos astros, pos­sivelmente do topo da "pirâmide" cónica, cujas bordas proemi­nentes podem ter funcionado como orientadoras de direção. Um estudo especial de M. Popenoe-Hatch (Papers on Olmec and Maya Archaeology no. 13, University of Califórnia - "Artigos sobre Arqueo­logia dos Olmecas e Maias") concluiu que "o modelo de obser­vação seguido em La Venta por volta de 1000 a.C. indica que vinha de um conhecimento aprendido um milénio antes". A lo­calização de La Venta e sua arte no ano 1000 a.C., segundo o estudo, "parecem refletir uma tradição baseada principalmente na passagem das estrelas pêlos meridianos, nos solstícios e equi­nócios ocorridos por volta do ano 2000 a.C."Um início em 2000 a.C. faria de La Venta o primeiro "centro sagrado" da América Central, precedendo Teotihuacan, a não ser pela época legendária em que os deuses lá estiveram sozinhos. Pode não ter sido ainda a época da chegada dos olmecas por mar — pois a "contagem longa" inicia-se em 3113 a.C. — mas indica claramente quão avançados eles eram em relação à civilização dos maias e dos astecas.Em Três Zapotes, cuja fase inicial é datada pêlos arqueólogos entre 1500-1200 a.C., existe, de forma esparsa, uma profusão de construções de pedra (embora o material fosse raro lá) formando terraços, escadarias e montes que podem ter sido pirâmides. Pelo menos oito locais foram descobertos num raio de 25 quilómetros ao redor de Três Zapotes, sugerindo um grande centro cercado por vilas-satélites. Além de cabeças colossais e outros monumen­tos esculpidos, ali foram desenterrados vários monólitos. Um deles ("C") ostenta a data, pela "contagem longa", de 7.16.6.16.18, equivalente a 31 a.C., atestando a presença olmeca nessa época e lugar.Em San Lorenzo, as ruínas olmecas consistiam de estruturas, montes e aterros, entremeados de lagos artificiais. A parte central foi construída sobre uma plataforma feita pelo homem com aproximadamente 2,6 quilômetros quadrados, elevada 55 metros aci­ma do terreno circundante — isso implica num deslocamento de terra que supera o de muitos projetos atuais. Os arqueólogos descobriram que os lagos eram interligados por um sistema de canos subterrâneos "cujo significado ainda não foi desvendado".A descrição das ruínas olmecas poderia estender-se continua­mente — até agora quarenta locais foram encontrados. Em todos eles, além de monumentos e construções em pedra, existem dú­zias de aterros e outras evidências de trabalho planejado com movimentação de grande quantidade de terra.Os trabalhos em pedra, terraplenagem, valas, lagos, canos e espelhos possuem um significado que os modernos arqueólogos não conseguem descobrir, devido à ausência de conhecimentos sobre as origens dos olmecas na América Central — a menos que se leve em conta a teoria dos poucos náufragos, com a qual não concordamos. As histórias astecas descrevem o povo que chamaram de olmecas como remanescentes de um antigo povo que não falava nahuatl — não se referem apenas a alguns indi­víduos —, fundadores da civilização mais antiga do México. As provas arqueológicas apoiam essa ideia e demonstram que, de uma base, ou "área metropolitana" adjacente ao golfo do México, onde La Venta, Três Zapotes e San Lorenzo formam um triângulo, a colonização e influência olmeca estendeu-se para o sul, na direção da Guatemala e da costa do Pacífico.



Peritos em terraplenagem, mestres da escultura em pedra, ca­vadores de valas, canalizadores de água, usuários de espelhos côn­cavos — o que um povo dotado como esse estaria fazendo na América Central? Os monólitos os representam emergindo de "al­tares", que simbolizam entradas nas profundezas da terra (fig. 58), ou no interior de cavernas, portando estranhas ferramentas, como nesse, encontrado em La Venta (fig. 59), no qual é possível dis­tinguir enigmáticos espelhos no capacete da figura humana.




Levando em conta a habilidade, os locais e as ferramentas, chegamos a uma conclusão possível: os olmecas eram mineiros, vindos ao Novo Mundo para extrair metais, provavelmente ouro, e talvez minerais raros.

As lendas de Votan, que falam de túneis sob montanhas, apoiam essa conclusão, assim como o fato de que entre os deuses antigos dos olmecas estava o deus Tepeyolloti, significando "Co­ração da Montanha". Era um deus das cavernas com barba. Seu templo precisava ser de pedra, de preferência construído no in­terior de uma montanha. Seu símbolo-glifo era uma montanha partida e sua representação mostra uma figura segurando sua ferramenta (fig, 60a) como um lança-chamas — da mesma forma como vimos em Tuia! Acreditamos que o lança-chamas neste caso (seguro pêlos Atlantes e representado numa coluna), provavelmente foi uti­lizado para cortar a rocha, não apenas para esculpir em pedra, como é sugerido pelo relevo conhecido como Daizu n° 40, en­contrado no vale de Oaxaca. Claramente representa uma pes­soa no interior de uma área confinada, usando o lança-chamas contra uma parede à sua frente (fig. 6()b). O símbolo do "lo­sango" na parede com certeza significa algum mineral, ainda não identificado.




Como tantas representações sugerem, o enigma dos "olmecas" africanos está ligado ao enigma dos Homens Barbados do Me­diterrâneo oriental. Eles aparecem nos monumentos de sítios olmecas, tanto em retratos individuais, como em cenas de encontro de grupos. Significativamente, alguns desses grupos são mostrados no interior de cavernas, como o encontrado em Três Zapotes (fig. 61), que inclui um auxiliar carregando urn dispositivo de iluminação (numa época em que apenas tochas eram utiliza­das). Um monólito não menos surpreendente de Chalcatzingo (fig. 62) mostra uma mulher "caucasiana", operando o que parece ser um equipamento sofisticado, e sua base ostenta o revelador sinal do "losango". Tudo ali indica relação com os minerais.



Será que os Homens Barbados do Mediterrâneo vieram para a América ao mesmo tempo que os olmecas africanos? Eram aliados, ajudando um ao outro, ou competidores que­rendo encontrar os mesmos metais e minerais preciosos? Ninguém sabe ao certo. Acreditamos que os olmecas africa­nos foram os primeiros a chegar e as causas que os levaram a isso podem ser procuradas no misterioso início da "con­tagem longa" — 3113 a.C. Os estudiosos ficaram intrigados porque existem, nos sítios olmecas, sinais de destruição deliberada, não só depredação de monumentos (incluindo as cabeças de pedra) e estruturas, como vandalismo, sugerindo violência e vingança. A destruição não parece ter ocorrido simultaneamente. As cidades olmecas foram abandonadas gradualmente: primeiro, o mais antigo "centro metropolitano", próximo ao golfo, por volta de 300 a.C., depois os locais mais ao sul. Encontramos evidências de datas equivalentes a 31 a.C. em Três Zapotes, mostrando que o processo de aban­dono dos centros olmecas, seguido por destruição violenta, pode ter durado vários séculos, à medida que esse povo desistia das cidades e se retirava para o sul.As representações desse período turbulento e dos territórios mais ao sul mostram os olmecas já como guerreiros, usando más­caras assustadoras de águias ou jÁguares. Uma dessas esculturas em pedra representa três guerreiros olmecas (dois com máscaras de águia), segurando lanças. A cena inclui um homem aprisio­nado, nu e com barba. O que não fica claro é se os guerreiros estão ameaçando o prisioneiro ou tentando salvá-lo. Isso não responde à intrigante pergunta: os negróides olmecas e os Ho­mens Barbados do Mediterrâneo estavam do mesmo lado, quan­do os conflitos dividiram a primeira civilização da América Cen­tral? De qualquer forma, eles parecem ter partilhado o mesmo des­tino.Num local interessante, próximo à costa do Pacífico, chamado Monte Alban — sobre um vasto conjunto de plataformas feitas pelo homem com construções que objetivavam estudos de as­tronomia — podem ser vistos numerosos blocos de pedras, eri­gidos numa parede comemorativa, ostentando as imagens escul­pidas de homens negróides em posições contorcidas (fig.63). Por muito tempo foram apelidados de Danzantes ("dançarinos"). Es­tudos mais recentes, porém, concluíram tratar-se de corpos de olmecas mutilados, possivelmente mortos em algum levante dos nativos. Entre os negróides representados há um homem barbado com um nariz semita, que parece ter partilhado o mesmo destino que os olmecas.



Acredita-se que Monte Alban tenha sido um centro urbano ativo desde 1500 a.C. até 500 a.C. Assim, após alguns séculos de grandeza, seus construtores terminaram como corpos muti­lados representados em pedra, certamente vítimas de tribos a quem tinham transmitido seus conhecimentos.




Com o passar dos milênios, a idade dourada dos estranhos que vieram do outro lado do mar tornou-se apenas uma lenda.

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O REINO DO CETRO DE OURO

A história da civilização andina permanece envolta em mis­tério, aprofundado pela ausência de relatos escritos, ou monólitos com símbolos. Mas seus mitos e lendas encheriam páginas com histórias de deuses, de gigantes, de reis que a influenciaram e dominaram.Os povos que viviam no litoral, em suas tradições, falam de deuses que os guiaram até uma terra prometida e de gigantes que roubaram sua colheita e raptaram suas mulheres. Os povos do planalto, dominados pêlos incas na época da conquista dos espanhóis, falam de orientação divina em suas atividades e artes, seja na agricultura, seja na construção de cidades. Eles contavam histórias sobre princípio de tudo — histórias da criação —, de dias de conflito e do dilúvio. Atribuíam o início de seu reino e seu desenvolvimento à mágica de um cetro de ouro.Os cronistas espanhóis, assim como os nativos que aprenderam castelhano, relataram que o pai dos dois herdeiros incas em litígio na época da conquista, Huayna Capac, era o 12° inca (título que significava "soberano") de uma dinastia que começou em Cuzco, por volta de 1020 d.C. Os incas teriam descido para as áreas costeiras, deixando suas fortalezas nas montanhas, apenas dois séculos antes da Conquista espanhola. Ao estender seu domínio para o norte, até o Equador, e para o sul, até o Chile, deslocan­do-se pela famosa Estrada do Sol, os incas impuseram seu do­mínio e sua administração a outros povos organizados, que ha­bitavam essas regiões há milénios. O último a cair sob o domínio dos incas foi o povo chimu. Sua capital, Chan-Chan, foi uma metrópole com áreas sagradas, pirâmides com degraus e áreas de circulação, que se estendiam por mais de 12 quilómetros qua­drados.Localizada perto da atual cidade de Trujillo, onde o rio Moche desemboca no oceano Pacífico, esta antiga capital lembra a or­ganização das cidades do Egito e da Mesopotâmia. E. G. Squier (Peru Illustrated: Incidents of Travel and Explorations in the Land of the Incas - "Peru: Incidentes de Viagem e Explorações na Terra dos incas"), ao explorar a região, no século 19, encontrou enormes ruínas que o espantaram, mesmo nas péssimas condições de con­servação em que se encontravam. Ele viu "longas linhas de muro sólido, gigantescas pirâmides com câmaras, ou huacas, restos de palácios, praças, aquedutos, reservatórios, celeiros [...] e túmulos, estendendo-se por muitos quilômetros em todas as direções". Na verdade, vistas aéreas do imenso sítio arqueológico mostram uma enorme área, espalhada pela planície costeira, lembrando uma vista aérea de Los Angeles.A planície que se estende entre o oceano Pacífico e os Andes é uma área climaticamente seca. Sua ocupação foi possível porque as águas que fluem das elevadas montanhas para o oceano o fazem na forma de grandes e pequenos rios. Eles atravessam as terras baixas a cada 50, ou 100 quilômetros. Esses rios criam áreas férteis e verdejantes, que separam um trecho desértico do outro. Portanto, as construções surgiram às margens e na foz dos rios. Evidências arqueológicas demonstram que os chimus aumentaram o suprimento de água por meio de aquedutos vin­dos da montanha. Também uniram essas áreas férteis com uma estrada, cuja largura média era de 5 metros, precursora da famosa Estrada do Sol dos incas.Ao lado da área construída, onde termina o vale verdejante e começa o árido deserto, grandes pirâmides se elevam do solo, uma em frente à outra, às margens do rio Moche. Foram cons­truídas de blocos de barro secos ao sol, com formato levemente convexo, lembrando, segundo exploradores como V. W. von Ha-gen (Highway of the Sun - "A Estrada do Sol" e outros livros) as torres dos templos elevados (zigurates) da Mesopotâmia, também construídos de tijolos de barro e com o mesmo formato.Os quatro séculos de civilização chimu, de 1000 a 1400 d.C., foram marcados pelo domínio da ourivesaria, a um ponto jamais atingido pêlos incas, que vieram depois. Os conquistadores es­panhóis descreveram com superlativos as riquezas em ouro que encontraram, na verdade, provenientes de centros chimus, mes­mo sob o reinado inca. O cercado de ouro da cidade chimu Tum-bes, onde plantas e animais foram reproduzidos em ouro, foi copiado integralmente pêlos incas em seu santuário, na cidade de Cuzco. Nos arredores de outra cidade chimu, Tucume, foi encontrada a maior parte dos objetos de ouro tirados do Peru pelos espanhóis nos séculos que se seguiram à Conquista (os objetos foram encontrados nas tumbas). Na verdade, a quanti­dade de ouro que os chimus possuíam espantaram os incas quan­do eles desceram para a costa. E até hoje esses achados intrigam os estudiosos pelo seu volume, uma vez que as minas de ouro no Peru não se encontram no litoral e sim nas montanhas.A cultura-estado dos chimus era, por sua vez, sucessora de outras culturas, ou sociedades organizadas. Ninguém sabe como esses povos se chamavam. Os nomes que serviram para identi­ficá-los — como aos chimus — são, na verdade, denominações dos sítios arqueológicos, onde ruínas de suas cidades foram en­contradas.No litoral centro-norte, habitavam os mochicas — cerca de 400 a.C. São conhecidos por seus trabalhos em cerâmica e por seus belos tecidos. Só não se sabe quando, de quem e como aprenderam essas artes. As decorações nos potes de cerâmica reproduzem deuses alados e gigantes ameaçadores, sugerindo uma religião com um panteão liderado pelo Deus da Lua, cujo símbolo era o crescente, chamado de Si ou Si-An.Os objetos e construções dos mochicas demonstram que, mui­tos séculos antes dos chimus, eles dominavam a arte de trabalhar o ouro, de construir com blocos de lama seca, de projetar grupos de templos com zigurates. Num local chamado Pacatnamu, uma cidade sagrada soterrada com 31 pirâmides foi descoberta pela equipe de um arqueólogo alemão (H. Ubbelohde-Doering, Anf den Koenigsstrassen der Inka ). Os pesquisadores concluíram que muitas das pirâmides menores eram cerca de mil anos mais antigas que as maiores, cujos lados mediam 60 metros e atingiam 12 metros de altura.A fronteira sul do reino chimu era o rio Rimac, de onde os espanhóis retiraram a corruptela Lima para batizar a capital do Peru. Além dessa fronteira, o litoral fora habitado, antes dos incas, pela tribo chincha e os planaltos pêlos povos que falavam a língua aimara. Sabe-se, hoje, que os incas tomaram emprestado, dos primeiros, os seus deuses, e dos segundos as histórias da Criação.A região do rio Rimac era um ponto de atração na antiguidade, como o é agora. Foi ali, ao sul de Lima, que o maior templo peruano foi construído. Ainda podemos ver as ruínas da época em que foi reconstruído e ampliado pêlos incas. Este templo fora dedicado ao Pacha-Camac, que significa "Criador do Mundo", um deus que liderava um panteão com os casais divinos Vis e Mama-Pacha ("Senhor da Terra" e "Mãe-Terra"), Ni e Mama-Cocha ("Se­nhor da Água" e "Mãe Água"), Si (o deus da Lua), IHa-Ra ( o deus do Sol), Kon, ou Con (o deus-herói), também conhecido como Ira-Ya. Estes nomes evocam uma hoste de epítetos divinos do Oriente Médio.O templo de Pachacamac representava uma verdadeira "Meca" para os povos antigos que habitavam aquele litoral, atraindo pe­regrinos de muito longe. O ato da peregrinação era tão valorizado que, mesmo em guerra, as tribos davam passagem aos inimigos que levavam oferendas em ouro para os deuses, pois esse metal a eles pertencia. Apenas sacerdotes selecionados podiam entrar no Santo Sacrário. Nos dias de festa, a imagem do deus fazia profecias, em seguida interpretadas pelos sacerdotes para o povo. O recinto do templo era de tal forma reverenciado que os pere­grinos retiravam as sandálias para entrar, como fora ordenado a Moisés no Sinai, e como os muçulmanos ainda fazem quando entram na mesquita.O ouro acumulado no templo era fabuloso demais para ser ignorado pelos conquistadores espanhóis. Francisco Pizarro en­viou seu irmão Hernandez para verificar. Ele encontrou ouro, prata e pedras preciosas, mas não as riquezas que esperava, pois os sacerdotes tinham escondido os tesouros. Não houve ameaças ou torturas que os fizessem revelar o local (ainda corre o rumor de que o tesouro estaria em algum lugar entre Lima e Lurin). Hernandez, então, fundiu a estátua de ouro do deus para apro­veitar o metal e retirou das paredes os cravos de prata que se­guravam as placas de ouro do templo. Só esses cravos pesaram mais de 900 quilos!As lendas locais atribuem a construção desse templo aos "gi­gantes". O que se sabe ao certo é que os incas, adotando o culto a Pachacamac das tribos dominadas, ampliaram e decoraram o templo. Situado numa encosta de montanha à beira do Pacífico, em cujos pés as ondas vinham quebrar-se, ele se elevava sobre quatro plataformas que apoiavam um terraço de 150 metros aci­ma do nível do solo. Essas quatro plataformas foram erguidas com paredes de contenção, feitas com blocos de pedra. O terraço superior se estende por muitos quilómetros quadrados. As es­truturas finais do complexo, auxiliadas por praças rebaixadas, permitiam uma vista perfeita do santuário contra o oceano.Não eram só os vivos que visitavam o local. Os mortos também eram trazidos ao vale do rio Rimac e às planícies costeiras do sul para passar a eternidade à sombra dos deuses do templo. Havia uma crença de que o Rimac podia ressucitar os mortos ali deixados. Nos locais atualmente conhecidos como Lurin, Pis­co, Nazca, Paracas, Ancon e Iça, os arqueólogos encontraram nas verdadeiras "cidades dos mortos", inúmeras sepulturas e va­las subterrâneas, onde jaziam corpos mumificados de nobres e sacerdotes. As múmias, em posição sentada, com as mãos e pés dobrados, ficavam amarradas no interior de sacos mortuários, porém estavam vestidas com as suas melhores roupas. O clima seco e aquele saco mortuário externo protegeram bem os trajes, xales, turbantes e ponchos finamente tecidos, que, ao serem en­contrados séculos depois apresentavam cores incrivelmente vi­vas. Os panos, cuja trama lembrou aos arqueólogos as melhores tapeçarias Gobelin, eram bordados com símbolos religiosos e astrológicos.A figura central das decorações, tanto nos tecidos como nas cerâmicas, era sempre a de um deus, que os nativos chamavam Rimac, como o rio, segurando um cetro numa das mãos e um raio na outra e ostentando na cabeça uma coroa provida de chifres ou de raios (fig. 65).




Seriam Rimac e Pachacamac a mesma divindade, ou duas en­tidades separadas? Os estudiosos discordam sobre o assunto, pois as evidências não são conclusivas. Há apenas uma concor­dância: a cadeia de montanhas circundante era dedicada exclu­sivamente a Rimac, Este nome significava "O Trovejador", e tanto neste sentido, como foneticamente, é parecido com a alcunha Raman, pela qual Adad era conhecido dos povos semitas — um epíteto derivando da forma verbal "trovejar".Segundo o cronista Garcilaso, era nessas montanhas que um ídolo "na forma de um homem" fora erguido no santuário de­dicado a Rimac. Ele pode ter-se referido a qualquer local nas montanhas ao longo do vale do Rimac. Lá, os arqueólogos en­contraram ruínas que podem ter sido pirâmides com degraus (fig. 66, concepção do artista). Elas dominam o cenário até hoje, dando ao visitante a impressão de que está diante de um zigurate de sete degraus da antiga Mesopotâmia.Seria Rimac o deus chamado "Kon", ou "Ira-Ya", o Viracocha da mitologia inca? Embora ninguém saiba ao certo, o fato é que Viracocha era representado exatamente como a divindade gra­vada na argila — segurando em uma das mãos uma arma pa­recida com um tridente e, na outra, o cetro mágico.E com esse cetro — um cetro de ouro — que todas as lendas andinas sobre a Criação se iniciam, às margens do lago Titicaca, num lugar chamado Tiahuanaco.




Quando os espanhóis chegaram, as terras dos Andes perten­ciam ao império inca, cuja capital era Cuzco. Segundo as narra­tivas incas, Cuzco fora fundada pêlos Filhos do Sol, que haviam sido criados e ensinados no lago Titicaca pelo Deus Criador, Viracocha.Virachocha, segundo uma lenda andina, foi um grande deus que veio para a Terra na antiguidade, escolhendo os Andes para criar o mundo. Como diz um cronista espanhol, padre Cristóval de Molina, "eles dizem que o Criador esteve em Tiahuanaco e lá habitava seu líder. Por esse motivo, os edifícios soberbos, dig­nos de admiração, estão naquele lugar".Um dos primeiros sacerdotes a anotar as lendas andinas sobre a história e pré-história dos nativos foi Blas Valera. Infelizmente, só fragmentos de suas notas foram utilizados por outros cronis­tas, porque o manuscrito original foi queimado no saque de Cádiz pêlos ingleses, em 1587. Ele registrou a lenda inca sobre seu primeiro monarca, Manco Capac, que saiu do lago Titicaca atra­vés de um caminho subterrâneo. Ele era o filho do Sol, de quem recebera um cetro de ouro para encontrar Cuzco. Quando sua mãe entrou em trabalho de parto, o mundo caiu na escuridão. Assim que ele nasceu, soaram trombetas e acenderam as luzes. O deus Pachacamac declarou, então, que "o belo dia de Manco Capac raiou".Blas Valera também registrou outras versões, dizendo que os incas incorporaram a pessoa e a lenda de Manco Capac, mas seus verdadeiros ancestrais tinham vindo de outro lugar, che­gando ao Peru pelo mar. Segundo esse relato, o monarca "Manco Capac" era o filho de um rei chamado Atau, que chegara à costa peruana com duzentos homens e mulheres, tendo desembarcado no Rimac. De lá teria seguido para Iça, e dali partido para o lago Titicaca, o local onde os Filhos do Sol haviam governado a Terra. Manco Capac enviara seus seguidores nas duas direções para encontrar os lendários Filhos do Sol. Ele mesmo vagara por vários dias até chegar a um local que possuía uma caverna sa­grada. A caverna era escavada artificialmente e adornada com ouro e prata. Manco Capac na caverna sagrada se dirigira para uma janela chamada Capac Toco ("Janela Real"). Quando dela se afastara estava trajado com roupas douradas, trajes reais. A partir dali, tornara-se o rei do Peru.Esta e outras crónicas evidenciam que várias versões foram memorizadas pelos povos andinos, lembrando um criativo prin­cípio no lago Titicaca e o início de uma dinastia na caverna sa­grada. Segundo as tradições incas, este teria sido o início de sua dinastia.Outras versões, entretanto, separam os eventos e os pe­ríodos.Uma das versões relativas ao princípio diz que o grande deus, Criador de Tudo, Viracocha, enviou quatro irmãos e quatro irmãs para povoar a terra e trazer civilização a seus povos primitivos. Um desses casais de irmão/irmã começou a reinar em Cuzco. Outra versão diz que o Grande Deus, com sua base no lago Titicaca, criou seu primeiro casal real como seus filhos e lhes deu um objeto feito de ouro. Disse a eles que fossem para o norte e construíssem uma cidade no local onde os objetos de ouro afundassem na terra. O local onde aconteceu o milagre foi Cuzco. Por isso, os reis incas — desde que nascessem num sistema de casamentos entre irmãos da família real — seriam descen­dentes diretos do Deus Sol.Lembranças do Dilúvio existem em quase todas as versões do início. Segundo o padre Molina (Relación de Ias fabulas y ritos de los Yngas - "Relação das fábulas e ritos dos incas"), já na "época de Manco Capac, o primeiro Inca, e o primeiro a ser chamado Filho do Sol [...] eles tinham uma narrativa sobre o Dilúvio, afir­mando que todas as pessoas e todas as coisas criadas pereceram nele, porque as águas subiram acima das montanhas mais altas no mundo. Nenhum ser vivo sobreviveu, a não ser um homem e uma mulher que permaneceram numa caixa. Quando as águas baixaram, o vento os levou para Huanaco, que fica a setenta léguas de Cuzco, mais ou menos. O Criador de Todas as Coisas mandou que eles permanecessem ali como Mitimas e lá em Tiahuanaco começou a criar o povo e as nações que existem naquela região". O repovoamento da Terra começou com o Criador fa­zendo em argila a figura de uma pessoa de cada nação; "então ele deu vida e alma a cada uma, homens e mulheres e os dirigiu para os locais designados na Terra". Aqueles que não obedeceram suas ordens em relação à veneração e ao comportamento foram transformados em pedras.O Criador também tinha com ele, na ilha do Titicaca, a Lua e o Sol, que haviam atendido ao seu chamado. Quando todo o necessário para repovoar a Terra estava pronto, a Lua e o Sol elevaram-se para o céu.Os dois assistentes divinos do Criador foram apresentados como seus dois filhos, em outra versão também relatada por Molina: "Tendo criado as tribos e nações, designando linguagens e vestimentas para eles, o Criador ordenou que seus dois filhos fossem em diferentes direções e apresentassem a civilização". O filho mais velho, Ymaymana Viracocha (o que significa: "Aquele em Cujo Poder Estão Todas as Coisas"), partiu para civilizar os povos das montanhas; o filho mais novo, Topaco Viracocha ("Fa­zedor de Coisas") recebeu ordens para ir às planícies costeiras. Quando os dois irmãos completaram seu trabalho, encontraram-se à beira do mar "de onde subiram para o Céu".Garcilaso de Ia Vega, que nasceu em Cuzco de pai espanhol e mãe inca, registrou, logo depois da conquista, duas lendas. Segundo uma delas, o Grande Deus veio dos céus para a Terra a fim de instruir a humanidade, fornecendo suas leis e preceitos. Ele "colocou seus dois filhos no lago Titicaca", entregou-lhes um "cetro de ouro", recomendando que se estabelecessem onde ele afundasse no chão, o que ocorreu em Cuzco. A outra contava que "depois que as águas do dilúvio se retiraram, um certo ho­mem apareceu em Tiahuanaco, que é ao norte de Cuzco. Esse homem era tão poderoso que dividiu o mundo em quatro partes, entregando-as a quatro homens, aos quais concedeu o título de rei." Um deles, cujo nome era Manco Capac ("rei e senhor" na linguagem quéchua dos incas), começou a dinastia em Cuzco.As várias versões falam de duas fases na criação de Viracocha. Juan de Betanzos (Suma e Narracion de los incas - "Coletânea de Narrativas incas"), registrou uma lenda quéchua onde o Criador, "na primeira fase, fez os céus e a terra"; ele também "criou as pessoas — a Humanidade". Mas "essas pessoas fizeram algum tipo de mal a Viracocha e ele ficou irado...] então, ele converteu aquelas primeiras pessoas e seu chefe em pedra, como castigo". Depois de um período de escuridão, ele fez, em Tiahuanaco, novos homens e mulheres das pedras. Deu a eles tarefas e ha­bilidades, e lhes disse onde ir. Permanecendo apenas com dois auxiliares, enviou um deles para o sul e outro para o norte, en­quanto ele mesmo partiu na direção de Cuzco. Lá, ele fez com que um chefe se adiantasse, iniciando assim uma dinastia em Cuzco. Viracocha continuou sua jornada, "até a costa do Equador, onde seus dois companheiros juntaram-se a ele". Lá, "todos co­meçaram a caminhar juntos nas águas do mar e desapareceram".Algumas das histórias dos povos dos altiplanos, concentra­vam-se em como se iniciara uma cidade em Cuzco e como os deuses ordenaram que esta cidade fosse a capital. Segundo uma das versões, Manco Capac recebeu (para encontrar o local da cidade) um cajado, ou cetro, feito de ouro puro; foi chamado de Tupac-yauri ("cetro esplendoroso"). Ele foi em busca do local de­signado acompanhado de irmãos e irmãs. Chegando a uma certa pedra, seus companheiros ficaram cheios de fraqueza. Quando Manco Capac tocou a pedra com o cetro mágico, o objeto falou e lhe contou sobre sua escolha como governante do reino. Um descendente de um chefe nativo, convertido ao cristianismo no tempo da conquista espanhola, contou que os nativos eram ca­pazes de apontar aquela pedra. "O Inca Manco Capac casou com uma de suas irmãs, chamada Mama Ocllo [...] e eles come­çaram a ditar boas leis para o governo e para seu povo".Essa história, algumas vezes chamada de lenda dos quatro irmãos Ayar, assim como a maior parte das versões sobre a fun­dação de Cuzco, diz que o objeto mágico, pelo qual o monarca e a capital foram designados, era feito de ouro puro. É uma pista que consideramos vital e central para o desenrolar dos enigmas de todas as civilizações americanas.Quando os espanhóis entraram em Cuzco, a capital inca, en­contraram uma metrópole com cerca de 100.000 casas, erguida ao redor de um centro real-religioso com magníficos palácios, templos, jardins, praças e mercados. Situada entre dois rios (o Tullumayo e o Rodadero) numa elevação de 3.500 metros, Cuzco inicia-se ao pé do promontório de Sacsahuaman. A cidade foi dividida em doze terraços — um número que intrigou os espa­nhóis — dispostos em formato oval. O primeiro e mais antigo, apropriadamente chamado de Terraço da Genuflexão, estava lo­calizado na encosta noroeste. Lá, os primeiros incas (e presumi­velmente também o lendário Manco Capac) construíram seus palácios. Todos os terraços apresentavam nomes pitorescos ("O Lugar que Fala", "Terraço das Flores", "Portão Sagrado", e assim por diante), indicando, na verdade, sua característica principal.Um estudioso deste século, Stansbury Hagar (Cuzco, the Ce­lestial City - "Cuzco, a Cidade Celestial"), abalou a crença de que Cuzco fora fundada e construída de acordo com o plano de Man­co Capac, no local sagrado pré-histórico onde a migração dos Fundadores se iniciara, em Tiahuanaco, no lago Titicaca. No sig­nificado de seu nome — "Umbigo da Terra" — e em sua divisão em quatro partes, simulando os quatro cantos da Terra, ele (e outros pesquisadores também), viu a expressão de conceitos pla­netários. Mas em outros aspectos da arquitetura da cidade, en­tretanto, ele distinguiu evidências celestiais (daí o título do livro). Os riachos que corriam pelo centro da cidade fluíam por canais, que imitavam os braços da Via Láctea; os doze terraços simula­vam as doze casas do Zodíaco. Hagar concluiu — foi importante para os próprios estudos dos eventos terrestres de sua época — que o primeiro e mais antigo terraço representava Aries.Squier e outros exploradores do século XX, no entanto, des­crevem Cuzco como cidade em parte hispânica, construída sobre as ruínas de uma cidade inca. Isto significa que, para ter uma visão de Cuzco como foi encontrada pelos espanhóis, é necessário recorrer a cronistas anteriores, corno Pedro de Cieza de León (Crónicas do Peru). Ele descrevia a capital inca, seus edifícios, praças e pontes, com palavras elogiosas, como "uma cidade no­bremente adornada", ligada por quatro estradas reais às diversas partes do Império. Descrevia suas riquezas e sua origem, refe­rindo-se ao costume inca de manter intactos os palácios de an­tigos reis e à lei que exigia um tributo em ouro e prata como oferenda para os deuses, sendo proibido retirar dali esses metais, sob pena de morte. "Cuzco", escreveu ele em seus elogios, "era nobre e imponente e deve ter sido fundada por um povo de grande inteligência", Possuía "belas ruas, apesar de estreitas; as casas eram construídas de pedra sólida, habilidosamente encai­xada, pedras grandes e muito bem cortadas, sendo as demais partes da casa de madeira e palha; não há vestígios de azulejos, tijolos, ou cal".Garcilaso de Ia Vega (que tomou o nome do pai, mas também o título real "Inça" de sua mãe, descendente da dinastia real inca) depois de descrever os doze terraços, narra que, à exceção do palácio do inca no primeiro terraço, na encosta do Sacsahuaman, os demais palácios ficavam agrupados ao redor do templo na parte central da cidade. Os palácios, ainda existentes na época em que escreve, pertenciam ao segundo, sexto, nono, décimo, décimo-primeiro e décimo segundo incas. Alguns deles flanquea­vam a praça principal da capital, chamada Huacay-Pata. Lá, o chefe Inca, sentado num grande trono, ao lado da família e dos sacerdotes, assistia e presidia os festivais e cerimónias religiosas, quatro delas ligadas ao solstícios de inverno e verão e aos equi­nócios da primavera e do outono.Como atestam os primeiros cronistas, a estrutura mais soberba e famosa na Cuzco pré-hispânica era o Cori-Cancha ("Recinto Sagrado"), o templo mais importante da cidade e do império. Os espanhóis o batizaram de Templo do Sol, acreditando que o Sol fosse a divindade suprema dos incas. Aqueles que viram o templo antes de sua destruição e reconstrução pelos espanhóis, disseram que era constituído de várias partes. O templo principal era dedicado a Viracocha; as capelas circundantes, ou auxiliares, eram devotadas à Lua (Quilla), Vênus (Chasca), à uma estrela misteriosa chamada Coyllor, e à Illa-pa, o deus do Trovão e dos Raios. Havia um santuário devotado ao Arco-Íris. Foi lá, no Corícancha, que os espanhóis saquearam as riquezas em ouro.Adjacente ao Coricancha ficavam as dependências do cha­mado AcUa-Huasi — "A Casa da Mulher Escolhida". Consistia de um conjunto, com caminhos entre jardins e pomares, in­cluindo uma escola de fiação, de confecção e de acabamento das roupas reais e dos sacerdotes, funcionando, também, como uma clausura onde as virgens se dedicavam ao Grande Deus encarnado; uma de suas tarefas era preservar o Fogo Eterno atribuído ao deus.Os espanhóis, depois de saquear as riquezas da cidade, resolveram apropriar-se da própria cidade, dividindo-a em lotes, distribuídos entre si. Muitos prédios foram desmontados para aproveitar o material; aqui e ali foi incorporada às novas construções dos conquistadores uma ou outra parede original. Grandes san­tuários foram transformados em igrejas e monastérios. Os do­minicanos, os primeiros a chegar, tomaram posse do Templo do Sol. Eles demoliram sua estrutura externa, mas conservaram a planta original, integrando algumas paredes antigas à sua igreja-monastério. Uma das partes mais interessantes que aprovei­taram, deixando-a intacta, é uma parede externa semicircular do que parecia ser o limite do Grande Altar do Templo do inca (fig. 67). Foi ali que os espanhóis encontraram um grande disco de ouro representando (presumiram) o Sol; essa parte coube ao conquistador Leguizano, que o negociou na noite seguinte. O comprador mandou fundir o objeto, transformando-o em lin­gotes.




Depois dos dominicanos vieram os franciscanos, os agostinianos, os mercenários, os jesuítas. Todos construíram seus templos, incluindo a grande catedral de Cuzco, nos locais onde estavam os santuários incas. Depois dos sacerdotes vieram as freiras; seu convento foi instalado na "Casa da Mulher Escolhida". Gover­nadores e dignatários espanhóis vieram a seguir, construindo suas casas e edifícios administrativos sobre as casas de pedra dos incas, utilizando uma ou outra parede original.Alguns acreditam que Cuzco, palavra que significa "Umbigo", recebeu esse nome porque era a capital, um lugar escolhido para ser o posto de comando. Outra teoria sustenta que o nome sig­nifica "Lugar de Pedras Levantadas". Se assim for, o nome se encaixa perfeitamente ao que virou sua principal atração: suas surpreendentes rochas megalíticas. maior parte das cidades incas foi construída com pedras brutas unidas com argamassa, ou pedras cortadas de forma tosca para simular tijolos ou cantarias. Alguns dos edifícios mais antigos dessa civilização foram construídos com pedras cortadas, trabalhadas e acabadas (cantaria) de forma perfeita, como as encontradas na escadaria semicircular de Coricancha. A beleza desse trabalho e de outros da mesma época surpreendeu e espantou muitos via­jantes. Sir Clemens Markham escreveu: "Ao contemplar esse belo trabalho em pedra, ficamos perdidos em admiração pela extrema beleza de sua formação... e sobretudo pela incansável perseve­rança e habilidade necessárias para dar forma perfeita a cada pedra com tamanha precisão". Squier, falando menos como ar-quiteto e mais como antiquário, ficou impressionado com outras pedras de Cuzco, as que apresentavam um tamanho enorme e formas mais estranhas, e que se encaixavam umas às outras com exatidão milimétrica, sem argamassa. Na sua opinião, essas pe­dras de traquito marrom, Andahuaylillas, devem ter sido selecio-nadas uma a uma, por causa da sua textura, que "sendo áspera, provoca maior adesão entre os blocos do que seria obtido com pedras de outro tipo". Ele confirmou que as pedras poligonais (de muitos lados), como os cronistas espanhóis haviam relatado, eram encaixadas com tal precisão "que seria impossível introduzir a lâmina mais fina entre elas" (fig. 68a). Nestas pedras, situadas num local muito visitado por turistas, encontramos doze lados e ângulos (fig. 68b).




Todos esses blocos pesados, de uma rocha muito dura, foram trazidos a Cuzco e cortados, por artesãos desconhecidos, com aparente facilidade, como se estivessem trabalhando argila. Cada face das pedras foi polida até formar uma superfície uniforme e levemente convexa. Como isso foi conseguido ninguém sabe, pois não existem marcas, riscos ou sinais de marteladas à vista. Também é um mistério a forma como essas pedras pesadas foram trabalhadas e encaixadas umas sobre as outras, em ângulos estranhos, tanto em cima como em baixo. Para completar, todas essas pedras foram unidas sem argamassa, resistindo não só à destruição dos homens, como aos abalos dos frequentes terremotos na área.Há unanimidade, hoje, em torno da época dessas belas pe­dras. Elas representam a fase "clássica" inca. Mas os muros ciclópicos são ainda mais antigos. Por necessidade de respostas claras, os estudiosos simplesmente consideram que são da Ida­de Megalítica.É um enigma que ainda Aguarda solução. Também um mis­tério, que se aprofunda quando alguém sobe ao promontório de Sacsahuaman, é a fortaleza inca ali instalada.O nome do promontório significa o "Lugar do Falcão". Na forma de um triângulo com a base voltada para noroeste, seu pico se eleva cerca de 240 metros acima da cidade. Os lados são formados pelos desfiladeiros que o separam da cadeia monta­nhosa à qual pertence. Ele pode ser dividido em três partes. Sua base larga é dominada por grandes massas de rocha, que alguém cortou e esculpiu em forma de degraus ou plataformas, perfu­radas por túneis, nichos e grotas. O meio do promontório está tomado por uma área achatada de centenas de metros. A borda mais estreita, elevada sobre o resto, contém evidências de estru­turas circulares e retangulares sob as quais existem passagens, túneis e outras aberturas, formando um labirinto insólito, escul­pido na própria rocha natural.Separando ou protegendo essa área "desenvolvida" do restante do promontório existem três muros sólidos e paralelos, que cor­rem em ziguezague (fig. 69).




As três linhas em ziguezague são construídas com grandes pedras e levantam-se uma por trás da outra, cada qual um pouco mais alta do que a que está à sua frente, até uma altura combinada de cerca de 18 metros. O entulho de terra entre as paredes criou terraços que se presume terem servido como seteiras para abrigar defensores. Dos três, o muro mais baixo (o pri­meiro) é construído com rochas colossais, pesando de dez a vinte toneladas. Uma delas, por exemplo, com 8 metros de altura, pesa cerca de 300 toneladas (fig. 70). Muitos blocos possuem 5 metros de altura e de 3 a 5 metros de largura. Como na cidade, as faces dessas rochas foram artificialmente trabalhadas para apresentarem aparência lisa e uniforme. Isso demonstra que não são blocos em estado bruto, encontrados e utilizados conforme a natureza os formou, mas resultantes do trabalho de artífices competentes.



Os grandes blocos de pedra estão uns sobre os outros, algumas vezes separados por algum motivo estrutural desconhecido, por uma lasca fina de pedra. Em todas as partes os blocos são po­ligonais, com ângulos estranhos e formas imprevisíveis, encai­xando-se perfeitamente sem argamassa. O estilo e o período são claramente os mesmos das ruínas da Idade Megalítica, em Cuzco, porém, aqui, ainda mais imponentes.Por todas as áreas planas entre as muralhas encontram-se res­tos de estruturas construídas com as pedras de acordo com o "estilo inca". Como o trabalho no solo e as fotografias aéreas demonstram, existiam várias estruturas no topo do promontório. Tudo ruiu ou foi destruído nas guerras travadas entre incas e espanhóis depois da Conquista. Apenas as muralhas colossais permanecem incólumes, testemunhas mudas de uma idade enig­mática e da obra de arquitetos misteriosos. Todos os estudos mostraram que os gigantescos blocos de pedra foram extraídos a muitos quilômetros, de distância e transportados através de montanhas, vales, desfiladeiros e rios cheios de corredeiras.

Como, por quem... e por quê?

Cronistas espanhóis da época da Conquista, viajantes em sé­culos recentes e pesquisadores contemporâneos, todos chegam à mesma conclusão: não foram os incas, mas antecessores enig­máticos com poderes sobrenaturais... Só que nenhum deles apre­senta uma teoria para explicar o motivo.Garcilaso de Ia Vega escreveu sobre essas fortificações, afir­mando que não havia escolha: era preciso acreditar que elas fo­ram "erigidas por meio de mágica, por demónios e não por ho­mens, por causa do número e tamanho das pedras colocadas nas três paredes [...] que torna impossível acreditar tenham sido cortadas, principalmente levando-se em conta que os nativos não possuíam ferro ou aço para utilizar na extração e na escultura das formas". Repara-se também, segundo ele, "que foram unidas de maneira igualmente prodigiosa, mas os nativos não possuíam carros, bois ou cordas para arrastá-las usando a força bruta, nem eram niveladas as estradas para que pudessem ser transportadas, pelo contrário, era preciso transpor montanhas íngremes e de­clives"."Muitas das pedras, continua Garcilaso de Ia Vega, foram tra­zidas de 10 a 15 léguas [120 a 180 quilómetros], especialmente, a pedra chamada Saycusa ["Pedra Cansada"], trazida, sabe-se, de além do rio Yucay... As pedras obtidas mais perto vieram de Muyna, a 5 léguas [60 quilômetros] de Cuzco. Desafia a imagi­nação conceber como tantas pedras desse porte foram unidas de forma a mal admitir a inserção da ponta de uma faca entre elas. Muitas de fato são tão bem encaixadas que mal se percebe a junta. E tudo isso é mais prodigioso quando se lembra que eles não possuíam praças ou terraços onde apoiar os blocos e asse­gurar-se de que encaixariam... nem tinham guindastes, polias, ou qualquer outro maquinário." Garcilaso prossegue, citando al­guns sacerdotes católicos que disseram: "não se pode conceber como tais blocos de pedra foram cortados, carregados e ajustados em seus lugares... a menos que fosse por arte diabólica".Squier afirmou sobre as pedras das três muralhas: "sem dúvida os maiores espécimes do estilo chamado Ciclópico existente na América". Ele ficou intrigado e espantado com muitos outros aspectos desses colossos de pedra e com outras construções em rocha na área. Um deles era a presença de três portais nas muralhas, um dos quais chamado de Portão de Viracocha. Trata-se de uma maravilha de sofisticação em termos de engenharia: na altura do centro da muralha da frente, os blocos de pedra foram colocados de modo a formar uma abertura retangular de aproximadamente 1,2 metro no muro. Os degraus então conduzem a um terraço entre a primeira e a segunda muralha, de onde se abre uma intrincada passagem para uma muralha transversal em ângulo reto, levando ao segundo terraço. Lá, duas entradas colocadas em ângulo, uma contra a outra, levam até a terceira muralha e através dela.Todos os cronistas afirmam que esse portão central, como os outros dois nos extremos das outras muralhas, poderiam ser fe­chados com blocos especialmente fabricados para as aberturas. Essas portas de pedra e os mecanismos para levantar e abaixar os blocos (a fim de bloquear a passagem) foram removidos há muito tempo, mas os canais e frestas para seu encaixe ainda podem ser vistos. No altiplano próximo, onde as rochas foram esculpidas em formas geométricas perfeitas cujo sentido o visi­tante moderno não consegue identificar (fig. 71a), há um miste­rioso corte na rocha (fig. 71b), indicando que ela pode ter sido esculpida para conter algum dispositivo mecânico. H. Ubbeloh-de-Doering (Kunst im Reiche der inca) afirmou sobre essas enig­máticas rochas: "são como um modelo no qual cada canto possui um significado".Atrás da linha de muralhas, o promontório tornou-se um aglo­merado de estruturas, algumas sem dúvida construídas no tempo dos incas. E provável que tenham sido erguidas sobre os restos de outras estruturas e, com certeza, não tinham nenhuma relação com o labirinto de subterrâneos. Passagens subterrâneas num padrão de labirinto começam e terminam abruptamente. Uma delas leva a uma caverna com doze metros de profundidade; outras terminam na face do rochedo, parecendo degraus que não levam a lugar nenhum.Em frente às paredes ciclópicas, ficam as rochas que ostentam nomes descritivos: o Rodadero ("Escorregador"), cuja parte traseira é usada pelas crianças como escorregador; a Piedra Lisa ("Pedra Lisa"), que Squier descreveu como "cravada na rocha como se fosse espremida ali em estado plástico (ou argila) depois endu­recida no local, com uma superfície suave e brilhante"; a Chingana ("Labirinto"), um rochedo cujas fissuras naturais foram alargadas artificialmente em passagens, corredores baixos, pequenas câma­ras, nichos e espaços ocos. Na verdade, rochas trabalhadas e posicionadas na horizontal, vertical e com faces inclinadas, aber­turas, concavidades e nichos — tudo cortado em formas precisas e geométricas — são encontradas por todos os lugares das cer­canias.O visitante moderno não conseguiria descrever o cenário me­lhor do que Squier o fez no século passado: "As rochas por todo o altiplano atrás da fortaleza, principalmente de calcário, foram cortadas e esculpidas em mil formas. Aqui um nicho, ali uma série deles, acolá uma formação larga, que parece um sofá ou vários assentos menores, adiante um lance de degraus, depois um grupo de pias quadradas, redondas ou octogonais, e longas filas de concavidades, buracos ocasionais para baixo [...] fissuras na pedra, alargadas artificialmente na câmara [...] e todas cortadas com a precisão e acabamento do mais hábil artesão."Que os incas utilizaram o promontório como um último bastião contra os espanhóis é uma questão já registrada na história. Que eles tenham construído estruturas no alto é também evidente pelas ruínas que restaram. Mas que não foram eles os arquitetos originais do local é evidente pela incapacidade de transportar uma rocha megalítica.A tentativa que falhou é registrada por Garcilaso em relação à "Pedra Cansada". Segundo ele, um dos mestres-construtores incas que desejava aumentar sua fama, resolveu arrastar a pedra de onde os construtores a deixaram para usá-la em sua estrutura de defesa. "Mais de 20 000 nativos levantaram a pedra, arras­tando-a com grandes cabos. O progresso foi lento, pois a estrada era ruim, cheia de aclives e declives... Numa dessas subidas, como resultado da falta de cuidado dos que a puxavam de forma desigual, o peso da rocha provou ser grande demais para a força dos que o controlavam, e rolou pela encosta, matando três ou quatro mil nativos".Segundo essa história, a única vez que os incas tentaram le­vantar e colocar no lugar uma pedra desse porte... falharam. Obviamente, não foram eles que construíram, cortaram, escul­piram e encaixaram sem argamassa as centenas de pedras ciclópicas.




Não é de admirar que Erich von Däniken (Viagem a Kiribatí), que popularizou a teoria dos Astronautas Antigos, ao visitar o local em 1980, afirmou que nem a "mãe natureza", ou os incas — mas apenas astronautas antigos — poderiam ter sido os res­ponsáveis por aquelas estruturas monumentais e com formas tão estranhas. Um viajante anterior, W. Bryford Jones (Four Faces of Peru, 1967 - "As Quatro Faces do Peru"), maravilhado com a visão dos blocos escreveu: "Eles só poderiam mover-se, senti, por uma raça de gigantes de outro mundo". Muitos anos antes, Hans Helfritz (Die Alten Kulturen der Neuen Welt) também escre­veu: "Temos a impressão de que eles estão ali desde o começo do mundo". Outro viajante anterior, Hiram Bingham (Across South América - "Através da América do Sul"), registra uma das especulações dos nativos sobre como as incríveis esculturas na pedra e nos muros foram realizadas: "Uma das suas histórias favoritas diz que os incas conheciam uma planta, cujos sucos amoleciam a superfície da pedra, que os encaixes maravilhosos eram feitos esfregando as pedras uma contra a outra por alguns instantes com esse suco mágico da planta". Mas quem iria levantar e se­gurar as enormes rochas para esfregá-las umas contra as outras? Obviamente Bingham não aceitou a explicação dos nativos e o enigma continuou a incomodá-lo. "Visitei Sacsahuaman várias vezes", escreveu ele em inca Land ("Terra dos incas"). "A cada vez, invariavelmente, ela surpreende. Para um nativo supersti­cioso, que vê essas muralhas pela primeira vez, deve parecer terem sido construídas pêlos deuses." Por quê Bingham fez essa afirmação, se não para expressar uma "superstição" abrigada em seu próprio coração? Dessa forma, retornamos em círculo para as lendas andinas. Só elas podem explicar a origem dos construtores megalíticos, afirmando terem existido deuses e gigantes nessas terras, o Velho Império, um reinado que se iniciou com um cetro de ouro.

7

O DIA EM QUE O SOL PAROU

A avidez dos espanhóis pelo ouro e outros tesouros encobriu seu espanto ao encontrar no Peru, numa terra desconhecida no fim do mundo, uma civilização avançada, com cidades e estradas, palácios e templos, reis e sacerdotes... e religiões. A primeira leva de padres que veio com os conquistadores procurou des­truir tudo o que se relacionasse à "idolatria" dos índios. Porém, os sacerdotes espanhóis que vieram depois — na época os es­tudiosos do país — mostraram-se abertos às explicações dos ritos e crenças locais dadas pelos nobres nativos, que haviam se con­vertido ao cristianismo.Sua curiosidade aumentou quando compreenderam que os nativos dos Andes acreditavam num Criador Supremo e que suas lendas registravam um Dilúvio. Como muitos detalhes des­sas lendas eram estranhamente parecidos com as narrativas bí­blicas do Gênese, foi inevitável, entre as primeiras teorias sobre a origem dos "índios" e suas crenças, uma associação com as terras e os povos da Bíblia.Depois de considerar vários povos antigos, a conclusão mais plausível para os primitivos teóricos, como ocorrera no México, era de que os nativos descendiam das Dez Tribos Perdidas de Israel, não só pela semelhança das lendas nativas com as histórias bíblicas, como também por alguns rituais. Os nativos peruanos tinham costumes como o oferecimento dos primeiros frutos — uma Festa da Expiação, que correspondia à natureza e à época do dia judeu da Expiação — o rito da circuncisão, a retirada do sangue do animal que serviria de alimento, a proibição de comer peixes sem escamas, muito parecidos com os dos israelitas. Na Festa das Primeiras Frutas, os nativos cantavam as palavras mís­ticas Yo Meshica, He Meshica, VaMeshica. Para alguns dos teóricos espanhóis a palavra Meshica significava o mesmo que o termo hebreu "Mashi'ach" — o Messias.(Estudiosos modernos agora acreditam que o componente Ira nos nomes divinos andinos, é comparável ao nome mesopotâmico Ira/Illa, do qual deriva a raiz bíblica El; que o nome Malquis com o qual os incas veneravam seu ídolo é equivalente ao da divindade cananita, Molekh (Senhor); e que é provável que o título inca Manco deriva da mesma raiz semítica, significando "rei".)Foi em vista dessas teorias sobre as origens bíblicas dos is­raelitas que os padres católicos do Peru, depois da onda inicial de obliteração/começaram a registrar e preservar a herança na­tiva. Os mestiços, tais como o padre Blas Valera (filho de um espanhol e uma mulher índia), foram encorajados a anotar o que ouviam dos nativos e o que estes faziam. Antes que terminasse o século 16, um esforço concentrado, patrocinado pelo bispo de Quito, foi feito no sentido de compilar as histórias locais, avaliar os sítios antigos e montar uma biblioteca com todos os manuscritos relevantes. Muito do que foi aprendido desde então veio dessa fonte.Intrigado com as teorias e avaliando ele mesmo os manuscritos da coleção, um espanhol chamado Fernando Montesinos chegou ao Peru em 1628 e devotou o resto de sua vida à compilação de fatos compreensíveis, em ordem cronológica, da história e pré-história dos peruanos. Cerca de vinte anos mais tarde ele com­pletou um tratado, Memórias Antiguas Historiales del Peru ("Me­mórias Históricas Antigas do Peru"), e o depositou na biblioteca do convento de San José de Sevilha. Lá permaneceu esquecido por dois séculos, sem ter sido publicado, quando alguns trechos foram incluídos numa história francesa das Américas. O texto completo em espanhol veio à luz apenas em 1882 (uma tradução de P. A. Means para o inglês foi publicada pela Hakluyt Society em Londres, Inglaterra, em 1920).Partindo de um ponto comum entre as narrativas da Bíblia e as andinas, como o episódio do Dilúvio, Montesinos considerou este o seu ponto de partida. Seguindo o registro bíblico, ele seguiu o repovoamento da Terra depois do Dilúvio, a partir do monte Ararat, na Arménia, até uma tabela de nações no capítulo 10 do livro do Génese. Viu no nome Peru, (ou Piru/Pirua na língua dos nativos) uma interpretação fonética do nome bíblico Ophir, o neto de Eber (o portador dos hebreus), ele próprio filho de Shem. Ophir também era o nome da famosa Terra do Ouro, de onde os fenícios trouxeram ouro para o templo de Jerusalém, que o rei Salomão estava construindo. O nome de Ophir na tabela da Bíblia está escrito ao lado de seu irmão Havilah — um nome pelo qual foi chamada a famosa Terra do Ouro na história bíblica dos quatro rios do Paraíso:

E o nome de um era Pishon;

É o rio que acompanha toda

A terra de Havilah, onde o ouro está

Para Montesinos, as pessoas das terras da Bíblia teriam vindo para os Andes muito antes da época do reinado de Judá e Israel, muito antes das Dez Tribos serem exiladas pelos assírios. Por­tanto, concluiu Montesinos, fora o próprio Ophir quem liderara os primeiros colonos ao Peru, quando o homem começou a es­palhar-se pela Terra depois do Dilúvio.As histórias incas que este padre reuniu atestam que muito antes da última dinastia inca existira um império antigo. Depois de um período de crescimento e prosperidade, a terra enchera-se de desastres: cometas apareceram nos céus, o solo estremeceu com os terremotos e irromperam guerras. O rei que governava na época saíra de Cuzco, levando seus súditos para um refúgio seguro nas montanhas, chamado Tampu-Tocco. Apenas alguns sacerdotes permaneceram em Cuzco, para cuidar do santuário. Foi durante essa época calamitosa que se perdeu a arte da escrita.Os séculos passaram. Os reis iam periodicamente de Tampo-Tocco até Cuzco consultar o oráculo divino. Um dia, uma mulher da classe nobre anunciou que seu filho Rocca fora carregado pelo Deus Sol. Dias mais tarde o jovem reapareceu, trajando rou­pas douradas. Ele disse que a época do perdão chegara, mas o povo precisava obedecer certos mandamentos: a sucessão real iria para o filho do rei nascido de uma meio-irmã, mesmo que não fosse o primogênito, e escrever não seria mais permitido. As pessoas concordaram e voltaram a Cuzco com Rocca como novo rei. Ele recebeu o título incasoberano.Concedendo ao primeiro inca o nome Manco Capac, os his­toriadores igualaram-no ao legendário fundador de Cuzco, Man­co Capac dos quatro irmãos Ayar. Montesinos corretamente se­parou e distanciou as dinastias incas, contemporâneas dos espa­nhóis (cujo reinado começara apenas no século 11 d.C.), de seus antecessores. Sua conclusão, de que a dinastia inca consistira de 14 reis, incluindo Huayna Capac, que morreu quando os espa­nhóis chegaram, e seus dois filhos rivais, foi confirmada por todos os estudiosos.Ele concluiu que, de fato, Cuzco fora abandonada em período anterior ao do retorno da dinastia inca à cidade. Segundo seus estudos, antes do retorno a Cuzco, o império inca tivera 28 reis, cujo governo fora exercido na montanha chamada Tampu-Tocco. E antes disso um antigo império governara em Cuzco, conside­rada a capital. Lá, 62 reis sentaram-se no trono; destes, 46 eram reis-sacerdotes e 16 eram governantes semidivinos, filhos do Deus Sol. Antes disso, os próprios deuses reinavam sobre a Terra.Acredita-se que Montesinos encontrou uma cópia do manus­crito de Blas Valera em La Paz e os jesuítas permitiram que o copiasse. Ele também se apoiou nos escritos do padre Miguel Cabello de Balboa, cuja versão diz que o primeiro soberano, Man­co Capac, viera a Cuzco não diretamente do lago Titicaca, mas de um lugar oculto, chamado "Tampo-Tocco" ("Refúgio das Três Janelas"). Foi lá que Manco Capac "abusou de sua irmã Mama Ocllo" e teve um filho com ela.Montesinos, após confirmar tudo isso em outras fontes dis­poníveis, aceitou essa informação como verdadeira. Ele iniciou, portanto, suas crónicas sobre os reinados no Peru com o domínio dos quatro irmãos Ayar e suas quatro irmãs, enviados para en­contrar Cuzco com o auxílio de um objeto de ouro. Porém, ele registrou a versão pela qual o primeiro a ser escolhido como líder foi um irmão, cujo nome era o mesmo do antepassado que trouxera o povo para os Andes, Pirua Manco (originando o nome de Peru). Foi ele quem, tendo chegado ao local, anunciou sua decisão de construir ali uma cidade. Veio acompanhado por es­posas e irmãs (ou esposas-irmãs); uma delas deu à luz um filho, que foi chamado Manco Capac. Foi esse filho quem construiu em Cuzco o Templo ao Grande Deus, Viracocha. Sendo assim, é dessa época o início da contagem das dinastias. Manco Capac foi aclamado como filho do Sol e foi o primeiro de 16 soberanos. Nessa época eram veneradas outras divindades: uma delas era a Mãe Terra; a outra uma divindade cujo nome significava Fogo, representada por uma pedra que fazia profecias.A ciência mais importante da época, escreveu Montesinos, era a astrologia. A arte de escrever em folhas preparadas da bana­neira, ou em pedras, era conhecida. O quinto Capac "renovou o cálculo do tempo" e começou a marcar a passagem do tempo dos reinos de seus ancestrais. Foi ele quem introduziu a contagem de mil anos como um Grande Período, e os séculos e meios séculos, equivalentes ao jubileu bíblico. O Capac que introduziu esse calendário e a cronologia, foi o Inti Capac Yupanqui, que completou o templo e introduziu a veneração ao grande deus Illa Tict Viracocha, cujo nome significa "Iniciador Iluminado, Cria­dor das Águas".No reino do décimo-segundo Capac, chegaram a Cuzco as notícias do desembarque na costa de "alguns homens de grande estatura... gigantes que estavam colonizando a costa" e que, pos­suindo ferramentas de metal, estavam despojando a terra. Depois de algum tempo eles começaram a subir as montanhas; feliz­mente, provocaram a ira do Grande Deus que os destruiu com o fogo do céu.Livre dos perigos, o povo esqueceu os mandamentos e os ritos da adoração. "As leis e costumes bons" foram abandonados, o que não passou desapercebido pelo Criador. Como castigo, ele escondeu o sol da terra: "não houve aurora por vinte horas". Um grande clamor elevou-se do povo, que se apressou em oferecer preces e sacrifícios nos templos, até (depois de vinte horas) o sol reaparecer. Logo a seguir, o rei reintroduziu os ritos de ve­neração e as leis de conduta.O décimo-quarto Capac no trono de Cuzco fundou uma escola para o estudo da astronomia e astrologia, objetivando a deter­minação dos equinócios. Montesinos calculou que o quinto ano de seu reinado foi o 25º. século depois do marco zero, ou o início, considerado como o Dilúvio. Era também o segundo milénio desde que a dinastia se iniciara em Cuzco; em celebração, o rei ganhou um novo título, Pachacuti ("Reformador"). Seus sucessores também promoveram o estudo da astronomia; um deles apre­sentou um ano contendo um dia extra a cada quatro anos e um ano extra a cada quatrocentos.No reinado do 58º. monarca, "quando o Quarto Sol se com­pletou," a contagem era 2900 anos depois do Dilúvio. Montesinos calculou ser o ano em que nasceu Jesus Cristo.Aquele primeiro império de Cuzco, iniciado pelos Filhos do Sol e continuado por reis-sacerdotes, chegou a um final amargo no reinado do 62º. rei. Na sua época, ocorreram "prodígios e mau agouro". A Terra estremeceu com terremotos intermináveis, os céus se encheram de cometas e escutaram-se profecias do final dos tempos. As tribos e as pessoas começaram a vagar sem des­tino, guerreando com seus vizinhos. Os invasores vieram da cos­ta, atravessando os Andes. Grandes batalhas ocorreram; numa delas o rei foi atravessado por uma flecha e seu exército fugiu em pânico; apenas quinhentos guerreiros sobreviveram às bata­lhas."Assim o reinado da monarquia peruana foi perdido e des­truído", escreveu Montesinos, "e o conhecimento das letras foi perdido".Os poucos remanescentes abandonaram Cuzco, deixando ape­nas um punhado de fiéis sacerdotes para tomar conta do templo. Levaram com eles o filho do rei morto, um menino ainda, e refugiaram-se num local seguro e elevado nas montanhas cha­mado Tampu-Tocco. Foi o lugar onde, de uma caverna, o pri­meiro casal semidivino saiu para fundar os reinos andinos. Quan­do o menino cresceu, foi proclamado o primeiro monarca da dinastia de Tampu-Tocco, que durou quase mil anos, desde o início do século 2 até o século 11 d.C.Durante tantos séculos de exílio, a sabedoria se esvaiu e a escrita foi esquecida. No reinado do 78º. monarca, com a marca de 3500 anos desde o Início, uma certa pessoa começou a reviver a arte da escrita. Foi nessa época que o rei recebeu um aviso dos sacerdotes em relação à invenção das letras. Era a sabedoria da escrita, explicava a mensagem, a causa das pestilências e mal­dições que haviam terminado a dinastia de Cuzco. O desejo do deus era que "ninguém usasse as letras, nem ressuscitasse seu uso, pois de seu emprego muitos males viriam (outra vez)". Por­tanto, o rei ordenou "por lei, sob pena de morte, que ninguém deveria andar com quilcas, pergaminhos de folha de bananeira, onde costumavam escrever, nem deveria usar as letras". Ao invés disso ele iniciou o uso de quipos, as fitas de cordas coloridas, que serviam para propósitos cronológicos.No reinado do 90º. monarca, o quarto milénio desde o Ponto Zero completou-se. A essa altura a monarquia em Tampu-Tocco era fraca e ineficaz. As tribos ainda leais estavam sujeitas às in­vasões dos vizinhos. Os chefes tribais deixavam de pagar tributos à autoridade central. Os costumes foram sendo corrompidos e as abominações proliferaram. Em tais circunstâncias, uma prin­cesa descendente direta dos Filhos do Sol, uma certa Mama Ci-boca, anunciou que seu filho menor, tão belo que seus admira­dores o chamavam de inca, estava destinado a reinstalar o reinado na antiga capital, Cuzco. De uma forma milagrosa ele desapa­receu e retornou em trajes dourados, afirmando que o Grande Sol o havia levado para ensinar sua sabedoria secreta e lhe dissera para liderar o povo de volta a Cuzco. Seu nome era Rocca. Ele foi o primeiro da dinastia inca, que teve um final inglório pelas armas dos espanhóis.Tentando ordenar esses eventos, Montesinos afirma, de tem­pos em tempos, que um período chamado "Sol" passara, ou ini­ciara-se. Conquanto não fique claro qual o período de tempo considerado (em anos), ele parecia ter em mente as lendas andinas de vários "Sóis" no passado.Embora os estudiosos sustentem — hoje em dia cada vez me­nos — que não existiu nenhum contato entre as civilizações centro-americanas e as sul-americanas, as últimas apresentam as mesmas noções dos astecas e maias sobre os cinco Sóis. Na verdade, todas as civilizações do Velho Mundo possuem lem­branças de eras passadas, de eras quando os deuses reinavam sozinhos, seguidos pêlos semideuses e heróis, depois pelo reino dos mortais. Um texto sumário chamado Listas do Rei assinala uma linhagem de senhores divinos, seguidos por semideuses, que reinaram durante um total de 432.000 anos, antes do Dilúvio, e também fala de reis que governaram depois, através de tempos agora considerados históricos, cujos dados foram verificados e considerados precisos. A lista de reis egípcios, assim como foi composta pelo pré-historiador Manetho, apresentava uma dinas­tia de doze deuses, que começou cerca de 10.000 anos antes do Dilúvio. Foi seguida de deuses e semideuses até cerca de 3100 a.C., quando os faraós ascenderam ao trono do Egito. Também esses dados, até onde puderam ser verificados, mostraram-se corretos.Montesinos encontrou essas ideias nas histórias peruanas, confirmando os relatos de outros cronistas, de que os incas acredi­tavam estar vivendo a Quinta Era, ou Quinto Sol. A Primeira Era foi a de Viracocha, dos deuses brancos e barbados. A Segunda Era foi a dos gigantes; alguns deles não eram amigáveis e houve conflitos entre deuses e gigantes. A terceira foi a Era do Homem Primitivo, de seres humanos sem cultura. A Quarta Era foi a dos heróis, homens que eram semideuses. Só, então, começou a Quinta Era, a dos reis humanos, de quem os incas eram os últimos da linhagem.Montesinos também comparou a cronologia andina com a européia, relacionando os fatos a um determinado Ponto Zero (ele escolheu o Dilúvio) e — mais claramente — ao nascimento de Cristo. As duas sequências cronológicas, escreveu ele, coincidiram no reinado do 58º. soberano: o 29º. século desde o Ponto Zero foi o "primeiro ano de Jesus Cristo". As monarquias perua­nas começaram 500 anos depois do "Ponto Zero", por exemplo, em 2400 a.C. O problema dos especialistas com a história e a cronologia propostas por Montesinos não é falta de clareza, mas sua conclusão de que a civilização e as dinastias em Cuzco começaram quase 3500 anos antes dos incas. Tal civilização, de acordo com a informação recolhida por Montesinos, e aquelas nas quais ele trabalhou, dominava a escrita, tinha conhecimentos de astrono­mia, entre outras ciências, e utilizava um calendário longo o su­ficiente para promover sua reforma periódica. Tudo isso (e muito mais) era conhecido da civilização sumária, que floresceu por volta de 3800 a.C, e pela egípcia, que se seguiu, aproximada­mente a 3100 a.C. Outro ramo da civilização suméria, a do vale do Indo, viveu por volta de 2900 a.C.Por que não seria possível que esse triplo desenvolvimento ocorresse uma quarta vez, nos Andes? Impossível seria se não houvesse contato entre o Velho e o Novo Mundo. Possível, se os depositários da sabedoria, os deuses, fossem os mesmos, pre­sentes em toda a Terra.Nossa conclusão pode parecer absurda, porém felizmente pode ser comprovada.O primeiro teste sobre a veracidade dos eventos e cronologias compilados por Montesinos já aconteceu.Um elemento-chave na narrativa de Montesinos é a existência de um império antigo, de uma linhagem de reis em Cuzco que foram forçados a abandonar sua capital e procurar refúgio num local chamado Tampu-Tocco. O intervalo demorou uns mil anos; finalmente, um jovem nobre foi escolhido para levar o povo de volta para Cuzco e estabelecer lá uma dinastia inca.Existiria um local chamado Tampu-Tocco, identificável através da descrição dos acidentes, feita por Montesinos? A pergunta intrigou a muitos. Em 1911, procurando cidades incas perdidas, Hiram Bingham, da Universidade de Yale, encontrou este local: Machu Pichu.Bingham não estava procurando pela localização de Tampu-Tocco quando partiu em sua primeira expedição. Porém, depois de voltar outras vezes e realizar escavações por mais de duas décadas concluiu que Machu Pichu foi a capital interior do Velho Império. Suas descrições do local, encontram-se nos livros Machu Picchu, a Citadel of the incas ("Machu-Pichu, a Cidade dos incas) e The Lost City of the Incas ("A Cidade Perdida dos Incas") O principal motivo para se acreditar que Machu Pichu seja a lendária Tampu-Tocco é a pista das três janelas. Montesinos es­creveu que "no local de seu nascimento, o inca Rocca ordenou que fossem executados trabalhos, consistindo de uma parede de alvenaria com três janelas, que são o emblema da casa de seus pais, de quem ele descende". O nome do lugar para o qual a casa real se mudara, ao sair de Cuzco, significa "Refúgio das Três Janelas".Nada tem de surpreendente o lugar ficar conhecido por suas janelas, uma vez que nenhuma casa em Cuzco, desde a mais humilde até a mais luxuosa, apresentava janelas. Mas sim o fato de o local ficar conhecido por um número específico de janelas — três — que só poderia ser resultado de sua singularidade, antiguidade, ou santidade. O que parece verdadeiro com relação a Tampu-Tocco, de acordo com a lenda, é a estrutura com três janelas ter desempenhado um papel importante no surgimento das tribos e no início do antigo império do Peru. Essa estrutura específica se transformara no "emblema da casa de seus pais, de quem ele [Inça Rocca] descendia".A lenda dos irmãos Ayar descrevia o local e falava de seu papel na história. Como afirmou Pedro Sarmiento de Gamboa (Historia General Llamada Yndica), também mencionado por ou­tros cronistas anteriores, os quatro irmãos Ayar e suas quatro irmãs, tendo sido criados pelo deus Viracocha, no lago Titicaca, chegaram, ou foram colocados pelo deus, em Tampu-Tocco, onde "apareceram à janela por ordem de Tici-Viracocha, declarando que Viracocha os criara para serem chefes".O mais velho dos irmãos, Manco Capac, carregava com ele um emblema sagrado ostentando a imagem do falcão, e também trazia o cetro de ouro que o deus lhe entregara para localizar o local correto para a futura capital, Cuzco. A vida dos quatro casais começou pacificamente. Contudo, logo sobrevieram crises de ciúmes. Sob o pretexto de que certos tesouros haviam sido deixados para trás, numa caverna em Tampu-Tocco, o segundo irmão, Ayar Cachi, foi enviado de volta para apanhá-las. Isso era apenas um pretexto dos outros irmãos para aprisioná-lo na caverna, onde foi transformado em pedra.Segundo essas histórias, Tampu-Tocco existira em tempos muito antigos. "O mito dos Ayar", escreveu H. B. Alexander em Latin American Mythology ("Mitologia Latino-Americana") "re­monta à Idade Megalítica e às cosmogonias associadas ao Titicaca". Quando os exilados deixaram Cuzco, foram para um lugar que já existia, um lugar onde uma estrutura com três janelas desempenhara seu papel em acontecimentos anteriores. É com essa compreensão que agora podemos visitar Machu Pichu, pois uma construção com uma parede com três janelas de fato foi encontrada lá e em nenhum outro lugar do Peru.

"Machu Pichu, ou Grande Pichu, é o nome quechua de um pico que se eleva a mais de 3.000 metros sobre o nível do mar e a 1.200 metros sobre as corredeiras do rio Urubamba, perto da ponte de San Miguel, a dois dias de viagem de Cuzco", es­creveu Bingham. "A noroeste de Machu Pichu eleva-se outro belo pico cercado por magníficos precipícios, chamado Huayna Pichu, ou Pichu Menor. Sobre o estreito espaço entre os dois picos encontram-se as ruínas de uma cidade inca, cujo nome perdeu-se nas sombras do passado. E possível que representem duas cidades antigas, Tampu-Tocco, o local de nascimento do primeiro inca, e Vilcabamba Viejo."

Hoje em dia a viagem de Cuzco a Machu Pichu, uma distância de 120 quilômetros em linha reta, não leva os dois dias descritos por Bingham. Um trem subindo as montanhas, passando por túneis e pontes, e acompanhando o trajeto do rio Urubamba, leva apenas quatro horas até chegar ao destino. Mais meia hora de ônibus, a partir da estação de trem, e chega-se à cidade. A vista estonteante é exatamente como Bingham descreveu. No es­paço em forma de sela entre os dois picos, casas, palácios e tem­plos se erguem — todos sem telhados atualmente — cercados de terraços que acompanham a encosta da montanha, prontos para cultivo. O pico de Huayna Pichu eleva-se a noroeste como uma sentinela (fig. 72). Além, e ao redor, enxergam-se picos a perder de vista. Para baixo, o rio Urubamba forma um desfila­deiro em forma de ferradura ao redor da base do pico. Suas águas revoltas cortam caminho através do verde-esmeralda da selva.

Como convém a uma cidade que, acreditamos, serviu no início de modelo para Cuzco e depois imitou-a, Machu Pichu também se compunha de doze terraços, ou grupos de estruturas. O grupo para uso real e religioso encontrava-se no oeste; os grupos para uso residencial e de atividades (ocupado na maior parte pelas Vir­gens e pela hierarquia dos clãs) localizava-se a leste, separado por uma série de terraços largos. O povo que cultivava os terraços elevados vivia fora da cidade e nos campos adjacentes (muitos vi­larejos foram encontrados desde a descoberta inicial, por Bingham).



Alguns estilos de construção, como em Cuzco e outros sítios arqueológicos, sugerem fases diferentes de ocupação. As casas para habitação são construídas em sua maioria de pedras natu­rais, unidas com argamassa. As residências reais são construídas de cantarias em camadas, tão bem trabalhadas quanto as de Cuz­co. Ali existem estruturas onde o trabalho de artesanato é tão perfeito que não possui rival. Existem ainda os blocos poligonais megalíticos. Em muitos casos, os restos do Antigo Império e da Era Megalítica permaneceram como eram; em outros, a constru­ção sobre eles é óbvia.

Enquanto os terraços mais a leste ocupavam cada centímetro quadrado da montanha, e se estendiam desde a parede da cidade, ao sul e ao norte tanto quanto o terreno permitia, e para o leste nos terraços de agricultura e funerários, o grupo oeste de terraços, que também se iniciava nas muralhas, es­tendia-se para o norte apenas até a borda da Praça Sagrada — como se uma linha invisível marcasse o solo sagrado e não pudesse ser transpassada.

Além dessa demarcação não vista, e em frente à grande praça do terraço para o leste, ficam os restos do que Bingham identificou como sendo a Praça Sagrada, principalmente, "porque nos dois lados ficam os maiores templos", um dos quais com as famosas três janelas. Ali, na construção que Bingham denominou de Templo das Três Janelas, na Praça Sagrada, e no Templo Principal, os ciclópicos blocos poli­gonais começaram a ser usados. A forma como foram cor­tados, trabalhados e encaixados sem argamassa os coloca no mesmo tipo de construção que os blocos e estruturas me­galíticas de Sacsahuaman; ultrapassando a poligonalidade de qualquer outro encontrado em Cuzco, um dos blocos pos­sui 32 ângulos.

O Templo das Três Janelas localiza-se na parte oriental da Praça Sagrada; os grandes blocos da parede leste erguem-se bem acima do nível do terraço a oeste (fig. 73), permitindo uma vista para o nascente através das três janelas (fig. 74). Trapezóides na forma, os peitoris foram cortados de pedras enormes, que for­mam a própria parede. Como em Sacsahuaman e Cuzco, esse corte, o formato e o ângulo dos grandes blocos de granito dão a impressão de terem sido trabalhados como argila macia. Tam­bém aqui, os blocos de granito branco foram transportados de grandes distâncias, através de terreno irregular, rios profundos, desfiladeiros e montanhas.



O Templo das Três Janelas só possui três paredes, sendo o lado oeste completamente aberto. Lá, ele fica em frente a um pilar de pedra, com cerca de dois metros de altura (veja fig. 74). Para Birgham, ele deveria sustentar um teto, o qual (ele admite) teria sido "um dispositivo não encontrado em nenhuma outra construção". Acreditamos que o pilar, em conjunto com as três janelas, servia para a observação dos astros.




Em frente à Praça Sagrada ao norte, encontra-se a estrutura que Bingham chamou de Templo Principal. Esse conjunto tam­bém apresenta apenas três paredes, com quase quatro metros de altura. Elas se apoiam, ou são construídas, em blocos enor­mes. A parede oeste, por exemplo, é construída de apenas dois blocos gigantes de pedra, mantidos juntos por uma pedra em forma de T. Um grande monólito, medindo 3 x 1,5 x 1 metro está apoiado na parede norte central, na qual sete nichos imitam (mas não são) janelas trapezóides (fig. 75).




Degraus conduzem da extremidade norte da Praça Sagrada até uma colina, cujo topo foi achatado para servir como plata­forma para a Intihuatana, uma pedra cortada com toda a precisão, destinada à observação do Sol e acompanhamento de seus mo­vimentos (fig. 76). Seu nome significava "A Que Prende o Sol". Presume-se que era utilizada para determinar os solstícios, quan­do o Sol se afasta mais para o norte e para o sul, e sinalizar a época dos ritos para "aprisionar o Sol". A intenção era fazer com que ele voltasse sempre, em vez de ir embora e desaparecer, deixando a Terra imersa numa escuridão como ocorrera antes, segundo as lendas.



Localizado no lado oposto da parte ocidental, real e sagrada de Machu Pichu, ao sul da Clausura Real, eleva-se outro mag­nífico (e incomum) edifício da cidade. Chamado de Torreón por sua forma semicircular, sua construção em cantarias — cortadas, trabalhadas e polidas — é de uma perfeição inigualada, só riva­lizada pelas cantarias da parede que envolve o Santo dos Santos em Cuzco. A parede semicircular, onde se chega por meio de sete degraus (fig. 77), cria seu próprio recinto sagrado, ao centro do qual existe uma rocha cortada, trabalhada e esculpida em linhas de baixo relevo. Bingham encontrou evidências de que a pedra e as paredes foram submetidas a incêndios periódicos e concluiu que o recinto seria usado para sacrifícios e outros rituais ligados à veneração da pedra.




Lembra a rocha sagrada que forma o interior do Templo do Monte, em Jerusalém, e também a Qua'abah, a pedra negra escondida no interior da Mesquita Sagrada, em Meca.)

A veneração à rocha de Machu Pichu não está ligada ao seu topo protuberante, mas ao que se encontra na sua parte inferior. Trata-se de um enorme rochedo, no interior do qual há uma caverna, alargada e esculpida artificialmente em formas geomé­tricas, que lembram (mas não são) escadas, assentos, bancos e postes (fig. 78). Além disso, o interior foi decorado com cantarias de granito branco, da mais pura cor e granulação. Nichos e saliências de pedra aumentam a complexidade interior. Bingham presumiu que a caverna original fora alargada e preparada para receber múmias, trazidas ali porque o local era sagrado. Mas, para começar, por que era sagrado e suficientemente importante para receber os reis mortos?

A pergunta nos leva de volta à lenda dos irmãos Ayar, um dos quais fora aprisionado numa caverna no Refúgio das Três Janelas. Se o Templo das Três Janelas fosse o mesmo da lenda, e a caverna também, então elas confirmariam que o local era a legendária Tampu-Tocco.




Sarmiento, um conquistador espanhol que era também cro­nista, refere-se em sua História dos incas a uma narrativa local sobre o 9º. inca (por volta de 1340 d.C.): "sendo curioso sobre as coisas da Antiguidade e querendo perpetuar seu nome, foi pes­soalmente à montanha de Topu-Tocco ... e lá entrou na caverna que se tem por certo ser o local onde Manco Capac e seus irmãos chegaram quando viajaram para Cuzco pela primeira vez [...] de­pois de fazer uma inspeção completa, ele venerou o local com ritos e sacrifícios e colocou portas de ouro na janela de Capac Tocco, ordenando que dali em diante a localidade fosse venerada por todos, tornando-se um local de oração para a realização de sacrifícios e profecias. Tendo feito isto, retornou a Cuzco."

O personagem desse relato, o 9º. inca, foi chamado de Titu Manco Capac. Ele recebeu o título adicional de Pachacutec ("Re­formador") porque, depois do seu retorno de Tampu-Tocco, re­formou o calendário. Assim, como as Três Janelas e o Intihuatana, a Pedra Sagrada e o Torreão confirmam a existência de Tampu-Tocco, a história dos irmãos Ayar, os reis pré-incaicos durante o Antigo Império, o conhecimento de astronomia e do calendário são elementos-chave na história e cronologia compiladas por Montesinos.

A veracidade dos dados de Montesinos poderia ter sido real­çada se ele tivesse razão com relação à existência da escrita nos tempos do antigo império. Descobrimos que Cieza de León tinha o mesmo ponto de vista, afirmando que "na época que precedeu os imperadores incas existiu a escrita no Peru [...] em folhas, peles, pano e pedras".

Muitos estudiosos sul-americanos agora se juntam aos cronis­tas antigos, acreditando que os nativos daquelas terras tinham uma ou mais formas de escrita na Antiguidade.

Numerosos estudos registram petróglifos ("escritos em pedra") encontrados nessas terras, que mostram, em vários graus, uma escrita pictográfica ou glífica. Rafael Larco Hoyle, por exemplo (La Escritura Peruana Pre-Incana - "A Escrita Peruana Pré-Incaica"), baseado em dramatizações, sugere que os habitantes do litoral, até Paracas, possuíam escrita glífica semelhante à dos maias. Arthur Posnansky, o principal explorador de Tiahuanaco, produziu volumosos estudos, demonstrando que os sinais esculpidos nos monumentos formavam uma escrita pictográfica-ideográfica — etapa anterior à escrita fonética. E a descoberta da Pedra de Calango, agora em exposição no Museu de Lima (fig. 79), sugere uma combinação de escrita pictográfica com fonética, talvez até alfabética.




Um dos primeiros grandes exploradores da América do Sul, Alexander von Humboldt, abordou o assunto em sua obra principal Vues dês Cordilléres et Monumens dês Peuples Indigenes de l'Amerique ("Vista das Cordilheiras e Monumentos das Po­pulações Indígenas da América”), publicada em 1824. "Recen­temente tem se levantado dúvidas sobre se os peruanos, além de quippus, teriam tido conhecimento de uma escrita de sinais. Uma passagem em UOrigin de los índios dei Nuevo Mundo ["A Origem dos índios do Novo Mundo", Valência, 1610], página 91, não deixa dúvidas a esse respeito." Outro cronista, Padre Garcia, depois de falar dos hieróglifos mexicanos, afirma: "no início da Con­quista, os índios do Peru confessavam-se, pintando caracteres que listavam os dez mandamentos e as transgressões cometidas contra eles". E possível concluir, portanto, que os peruanos possuíam o uso de uma escrita pictórica, mas seus símbolos eram menos refinados do que os hieróglifos mexicanos, pois, geralmente, o povo fazia uso do quippus.

Escrevendo em 1855, Ribero e von Tschudi relatam outras descobertas e concluem que, de fato, existia outro método de escrita no Peru, além dos quipos. Falando de suas várias viagens, von Tschudi em Reisen durch Südamerika descreve sua excitação ao observar a fotografia de um pergaminho com sinais hieroglíficos. Ele encontrou o pergaminho original no museu de La Paz, na Bolívia, e fez urna cópia dos sinais pintados sobre ele (figura 80a). "Esses símbolos tiveram sobre mim um efeito surpreenden­te. Eu fiquei em frente a esse pergaminho por horas, tentando decifrar 'o labirinto' dessa escrita". Ele presumiu que a escrita começava pela esquerda, continuava na linha seguinte pela di­reita, para voltar, na terceira linha, pela esquerda outra vez, e assim por diante, como uma cobra coleando. Concluiu, também, que foi escrito na época em que o Sol era adorado. Mas não foi muito além disso.

Traçou a origem da inscrição até as margens do lago Titicaca. O padre da Igreja Missionária da localidade de Copacabana, às margens do lago, confirmou que tais escritos eram conhecidos na área, mas atribuídos a um período posterior à Conquista. A explicação não parecia satisfatória, pois os nativos não possuíam escrita própria, adotando o latim dos espanhóis para se expressar. Mesmo que essa escrita hieroglífica tivesse sido usada depois da Conquista, segundo Jorge Cornejo Bouroncle (La Idolatria en el Antiguo Peru - "A Idolatria no Peru Antigo"), "sua origem deve ter sido muito mais remota".

Arthur Posansky (Guia General Illustrada de Tiahuanacu - "Guia Geral Ilustrado de Tiahuanaco") encontrou inscrições adicionais nas ilhas sagradas do lago Titicaca. Na sua opinião, a escrita lembra algumas inscrições enigmáticas encontradas na ilha de Páscoa (fig. 80b) — uma conclusão com a qual outros estudiosos concordam — parecidas, por sua vez, à escrita dos hititas. Um aspecto comum a todas elas (incluindo as inscrições no lago Ti­ticaca) é seu sistema tipo "boi arando": a escrita na primeira linha começa à esquerda e termina no lado direito; na segunda linha lê-se da direita para a esquerda, e assim por diante.

Sem entrar no mérito sobre como aquela escrita parecida com a dos hititas (figura 80c)chegou ao lago Titicaca, a existência de uma ou mais formas de escrita no Peru antigo foi confirmada. Por esse lado, também, as informações de Montesinos estavam certas.

A despeito de tudo isso, se o leitor ainda acha difícil aceitar a conclusão inevitável de que realmente existiu uma civilização semelhante a do Velho Mundo nos Andes, por volta de 2400 a.C, existem outras provas.




Uma pista válida, e completamente ignorada pelos estudiosos, é a repetição em muitas histórias de que ocorreu nos Andes uma escuridão assustadora em tempos remotos. Ninguém se pergun­tou se era a mesma escuridão — o não nascer do sol em sua hora — mencionada nas lendas mexicanas sobre a história de Teotihuacan e suas pirâmides. Se realmente ocorreu tal fenómeno — o sol não apareceu e a noite foi interminável — ele teria sido observado pelas Américas.

As lembranças mexicanas e as andinas parecem corroborar umas com as outras nesse ponto, assim confirmando as próprias versões, como duas testemunhas distintas do mesmo evento. Porém, se isso ainda não é suficientemente convincente, podemos juntar as provas da Bíblia, tendo como testemunha o próprio Josué.

Segundo Montesinos e outros cronistas, um acontecimento in­sólito ocorreu durante o reinado de Titu Yupanqui Pachacuti II, o 15º. monarca do Antigo Império. Foi no terceiro ano de seu reinado, quando "os bons costumes foram esquecidos e as pessoas se entregaram a todos os tipos de vícios", que "não houve aurora por vinte horas". Em outras palavras, a noite não terminou no horário de sempre e o nascer-do-sol foi adiado durante vinte horas. Depois de grande comoção, confissões de pecados, sacri­fícios e orações, o sol finalmente apareceu.

Esse fenômeno não pode ter sido um eclipse, porque nenhum eclipse dura tanto tempo. Além disso, os peruanos tinham conhecimento de tais eventos periódicos. A história não diz que o sol desapareceu. Apenas afirma que "não houve aurora" por vinte horas.

Foi como se o sol, onde quer que tenha se escondido, tivesse parado.

Se a lembrança andina for verdadeira, então, em algum outro lugar — do lado oposto do mundo — o DIA teria durado duas vezes mais, ou seja, teria se estendido por vinte horas a mais.

Incrivelmente, um acontecimento desse tipo está registrado. E não há lugar melhor do que a própria Bíblia para falar dele. Foram os israelitas, sob a liderança de Josué, quando atravessa­ram o rio Jordão para a sua Terra Prometida e tomaram com êxito as cidades de Jericó e Ai, as testemunhas do fenómeno. Foi então que os reis amoritas formaram uma aliança para opor forças combinadas aos israelitas. Uma grande batalha foi travada no vale de Ajalon, próximo à cidade de Gibeon. Começou com um ataque noturno israelita, que provocou a fuga dos cananitas. Ao alvorecer, quando as forças cananitas se reagruparam, perto de Beth-Horon, o Bom Senhor "atirou grandes pedras do céu contra eles [...] e eles morreram; havia mais mortos pela chuva de pedras do que aqueles abatidos por espadas israelitas."

Então Josué falou com laweh,

No primeiro dia em que laweh entregou os amoritas

Aos Filhos de Israel, dizendo:

Ao aparecerem os israelitas,

Que o Sol se detenha em Gibeon

E a Lua no vale de Ajalon.

E o Sol se deteve, e a Lua parou,

Até que as pessoas se tivessem vingado dos inimigos.

Na verdade, está tudo escrito no Livro de Jashar:

O Sol parou no meio dos céus

E não se apressou a descer

Durante um dia inteiro.

Os peritos lutaram por muitas gerações com essa história do capítulo 10 do Livro de Josué. Alguns descartam a passagem, considerando-a como ficção; outros vêem ali o reflexo de um mito; outros, ainda, tentam explicar como um prolongado eclipse do sol. Mas não existem tais eclipses desconhecidos. E a história não fala do desaparecimento do sol. Pelo contrário, relata um evento durante o qual o sol continuou a ser visto, pendurado nos céus por "cerca de um dia inteiro" — vamos dizer, cerca de vinte horas?

O incidente, cuja singularidade é reconhecida na Bíblia ("Não existiu nenhum dia como esse, antes ou depois."), ocorreu do outro lado da Terra, em relação aos Andes, descrevendo um fenômeno oposto ao que ocorrera no Peru. Em Canaã o sol não se pôs por cerca de vinte horas; nos Andes o sol não se levantou pelo mesmo período de tempo.

O fato de as duas histórias descreverem o mesmo acontecimento, e se originarem em lugares diferentes da Terra, não constituiria uma prova de sua veracidade?

Que acontecimento foi esse, ainda permanece um mistério. A única pista bíblica foi a menção às pedras caindo dos céus. Sa­bemos que as histórias não descrevem uma parada do sol (e da lua), e sim uma perturbação da rotação terrestre em seu eixo. Uma causa possível seria a passagem de um cometa muito pró­ximo à Terra, desintegrando-se no processo. Desde que a órbita de alguns cometas ocorra no sentido horário em relação ao sol, fica em sentido oposto ao da Terra e dos demais planetas. Tal força cinética poderia ter agido por algum tempo na rotação ter­restre, diminuindo-a.

Qualquer que tenha sido a causa de tal fenômeno, o que nos interessa aqui é o tempo. A data geralmente aceita para o Êxodo foi o século XIII a.C. (cerca de 1230 a.C). Os estudiosos que tentaram recuá-la em cerca de dois séculos são minoria. Ainda assim, concluímos em outros livros de nossa autoria (veja As Guerras entre Deuses e Homens) que uma data de 1433 a.C. se encaixaria no acontecimento, como as narrativas dos patriarcas bíblicos, bem conhecidas, e nas cronologias da Mesopotâmia e do Egito. Após a publicação de nossas conclusões (em 1985), dois eminentes pesquisadores e arqueólogos bíblicos, John J. Bimson e David Livingston, chegaram à conclusão depois de um estudo exaustivo (Biblical Archaeology Review, setembro/outubro de 1987), que o Êxodo aconteceu ao redor de 1460 a.C. Além dos próprios achados arqueológicos, uma análise de períodos da Idade do Bronze no longínquo Oriente Médio, dados bíblicos e processos de cálculo empregados foram os mesmos utilizados dois anos antes. (Também explicamos naquela oportunidade por­que escolhêramos reconciliar duas linhas de dados bíblicos ao datar o Êxodo em 1433 em vez de 1460 a.C.).

Desde que os israelitas começaram a vagar nos desertos do Sinai por quarenta anos, a entrada em Canaã ocorreu em 1393 a.C.; portanto, o fenómeno observado por Josué aconteceu depois disso.

Infelizmente, o estado em que os registros de Montesinos che­garam aos estudiosos modernos deixa muitas falhas concernentes a longos períodos de cada monarca. A resposta tem de ser bus­cada por outro caminho. O evento, alerta Montesinos, ocorreu no terceiro ano do reinado de Titu Yupanqui Pachacuti II. Para localizar com precisão essa data, teremos de calcular partindo dos dois lados. Sabemos que os primeiros 1000 anos desde o Ponto Zero foram completados durante o reinado do quarto mo­narca, em 1900 a.C.; que o 32º. monarca reinou passados 2070 anos desde o Ponto Zero, em 830 a.C.

Quando reinou o 15º. monarca? Os dados disponíveis sugerem que os nove reis que separam os reinados mencionados, duraram cerca de 500 anos, colocando Titu Yupanqui Pachacuti II em cerca de 1400 a.C. Calculando para trás e partindo do 32º. rei inca (830 a.C.), chegamos a 564 como o número de anos dos nove sobe­ranos, o que coloca o reinado de Titu Yapanqui Pachacuti II em 1394 a.C.

De qualquer forma, chegamos a uma data para o fenómeno solar nos Andes que coincide com os dados bíblicos e a datação dos acontecimentos em Teotihuacan.

A conclusão chocante é clara:

O DIA EM QUE O SOL PAROU EM CANAÃ FOI A NOITE SEM AURORA NAS AMÉRICAS.

A ocorrência, assim verificada, fornece urna prova irrefutável da veracidade das lembranças andinas sobre um Antigo Império, que se iniciou quando os deuses entregaram ao homem o cetro de ouro, às margens do lago Titicaca.

Novas pesquisas e descobrimentos vem surgindo para uma nova consciência para a humanidade, através dos estudos de Zecharia Sitchin que contribuem para um despertar de consciência. A partir dessas informações e de tantas outras que pudemos reuni-las e verificar um pequeno e importante “quebra-cabeças” que surgiu devido a nossos estudos de muitos anos. A importância dessas informações será compreendida ou não pelo grau de consciência de cada um, pois existe uma reunião de informações entre o velho e o novo mundo, pois essas informações estão por aí à fora e é só reuni-las e chegar a essas conclusões no qual chegamos e como essas informações estão agindo e criando uma nova realidade no planeta e em toda a humanidade.

Essas novas descobertas você poderá analisar melhor no site:

www.adescoberta.pop.com.br

8

OS CAMINHOS DO CÉU

Os céus testemunham a glória do Senhor

E a abóbada dos céus revela sua arte.

Um dia segue-se a outro,

Noite após noite transmite sabedoria —

Sem palavras, sem falar,

Sem que sua voz seja ouvida.

Através da Terra sua linha passa,

Para os confins do mundo vai sua mensagem;

Nela Ele fez o Sol montar sua tenda.

Assim a Bíblia descreve as maravilhas dos céus e o milagre dos dias e noites, seguindo um ao outro, enquanto a Terra gira em seu eixo (a "linha", no salmo bíblico, que atravessa a Terra) e orbita em torno do Sol, que fica no centro de tudo (como um potentado em sua tenda). "O dia é Vosso e a noite também; Vós criastes a Luz e o Sol... Verão e inverno por Vós foram criados."

Durante milênios, desde que o homem formou civilizações, astrônomos-sacerdotes observavam o céu procurando guiá-lo na Terra — desde os zigurates da Suméria e da Babilônia, aos tem­plos do Egito, ao círculo de pedras em Stonehenge, ou ao Ca­racol, em Chichén Itzá. Movimentos complexos dos corpos ce­lestes, de estrelas e planetas, foram observados, calculados, re­gistrados. Para tornar isso possível, os zigurates, templos e ob­servatórios foram alinhados com precisas orientações celestes, e providos de aberturas e outros recursos arquitetônicos que per­mitiam a entrada da luz solar, ou a de uma determinada estrela no equinócio ou solstício.

Por que o homem chegou a tamanhos extremos? Para ver o quê... determinar o quê?

É costume entre os especialistas atribuir ao homem antigo estudos de astronomia adequados às necessidades de sociedades agrícolas para saber quando semear e quando colher. Essa jus­tificativa foi aceita sem críticas durante muito tempo. No entanto, um fazendeiro trabalhando a terra ano após ano tem melhores condições de julgar as estações mais apropriadas para o cultivo e a época das chuvas do que um astrónomo, e ainda conta com o auxílio da marmota nessa tarefa! O fato é que os bolsões de sociedades primitivas, subsistindo com a agricultura, encontra­dos em partes remotas do planeta, sobreviveram por muitas ge­rações sem astrônomos e sem um calendário preciso. É também aceito o fato de que o calendário foi criado por uma sociedade urbana, e não agrícola.

Ora, um simples relógio solar pode fornecer informações diárias e sobre as estações, se não for possível sobreviver sem elas. Ainda assim, os povos antigos estudaram os céus e alinharam seus templos com planetas e estrelas, e ligaram seus calendários e festivais não ao solo, mas aos céus. Por quê? Simplesmente porque o calendário não foi projetado em função da agricultura, mas sim com propósitos religiosos. Não foi para beneficiar a humanidade, mas sim para ve­nerar os deuses. E os deuses, segundo as primeiras reli­giões, e as versões do povo que nos legou o calendário, vieram dos céus.

Devíamos ler e reler a Bíblia para perceber que a observação das maravilhas dos fenómenos celestes não estava relacionada com o cultivo da terra ou a criação de animais, mas com a ve­neração do Senhor. E não existe forma de entender melhor isso do que voltar à Suméria, pois foi lá, cerca de seis mil anos atrás, que a astronomia, o calendário e a religião, ligando o Céu e a Terra, se iniciaram. Essa sabedoria foi dada a eles pêlos anunnaki ("Aquele Que do Céu para a Terra Veio"), o povo nefelim, que viera à Terra de seu planeta, Nibiru. Nibiru, diziam eles, era o 12º. planeta do sistema solar, e por isso a abóbada celestial foi dividida em doze casas e o ano em doze meses. A Terra era o sétimo planeta (contando de fora para dentro); e como 12 era um número sagrado celestial, o número sagrado terrestre era o 7.

Os anunnaki, escreveram os sumérios em várias tábuas de argila, tinham vindo à Terra antes do Dilúvio. Em O 12° Planeta, determinamos que esse fato aconteceu 432 000 anos antes do Dilúvio — um período equivalente a 120 órbitas de Nibiru, ór­bitas essas que para os anunnaki representavam apenas um ano, o equivalente a 3.600 anos terrestres. Eles iam e vinham entre Nibiru e a Terra cada vez que seu planeta se aproximava do Sol (e da Terra), enquanto passava entre Júpiter e Marte. Não há dúvida de que os sumérios começaram a observar o céu, não para saber a época da colheita, mas para ver e celebrar o retorno do Senhor dos céus.

Acreditamos ser esse o motivo do homem ter se tornado um astrónomo. À medida que o tempo passava e Nibiru não podia mais ser observado, o homem começou a procurar sinais e pro­fecias nos fenómenos que podiam ser vistos A astronomia teria gerado a astrologia. E se as orientações da astronomia, os ali­nhamentos e divisões celestiais que se iniciaram na Suméria pu­derem também ser encontrados nos Andes, um elo irrefutável seria encontrado.

Em alguma época durante o quarto milénio a.C., segundo tex­tos sumérios, o líder de Nibiru, Anu, e sua esposa Antu visitaram a Terra. Uma nova área sagrada com uma torre-templo foi cons­truída em sua honra num local que mais tarde seria conhecido como Uruk (a Erech bíblica). Existe um texto, em tábuas de argila, que descreve a noite da recepção. Ela tivera início com um ban­quete, cujo primeiro rito fora a lavagem das mãos como um sinal celestial — o aparecimento de Júpiter, Vénus, Mercúrio, Saturno, Marte e da Lua. Então, a primeira parte da refeição fora servida, seguida de um intervalo. Enquanto um grupo de sacer­dotes cantava o hino Kakkab Anu Etellu Shamame ("O Planeta de Anu se Eleva nos Céus"), um astrônomo-sacerdote, no ponto "mais elevado da torre do templo" Aguardava o aparecimento do planeta de Anu, Nibiru. Quando o planeta foi avistado, todos os sacerdotes entoaram a canção "Para Aquele Que Brilha, o Pla­neta Celestial do Senhor Anu" e o salmo "A Imagem do Criador Surgiu". Uma fogueira então foi acesa para marcar o momento e transmitir a boa nova às cidades vizinhas. Antes que a noite terminasse toda a terra estava iluminada por fogueiras. Pela ma­nhã foram recitadas as preces de agradecimento.

O cuidado e o grande conhecimento de astronomia, necessários à construção de templos na Sumária, ficam evidentes nas inscri­ções do rei sumário Gudea cerca de 2200 a.C. Dizem elas que primeiro apareceu a ele "um homem que brilhava como o céu" e que estava de pé em frente a um "pássaro divino"; este ser "que pela coroa na cabeça, obviamente, tratava-se de um deus", era o deus Ningirsu, acompanhado por uma deusa que "segurava com urna das mãos uma pontinha de sua estrela auspiciosa nos céus e com a outra um estilete sagrado" com o qual apontava para o rei "o planeta favorável"; um terceiro deus, de aparência humana, tinha nas mãos uma tábua de pedra preciosa, na qual a planta do templo estava desenhada. Uma das estátuas de Gudea o representa em posição sentada, com a tábua sobre os joelhos, onde o desenho trazido pelo deus Ningirsu pode ser visto com clareza: é a planta baixa do templo com uma escala para cons­truí-lo em sete estágios, cada um menor do que o outro, à medida que se elevam para os céus. O texto indicava que não era um templo solar, mas um templo estelar e planetário.

O sofisticado conhecimento de astronomia demonstrado pêlos sumérios não estava limitado à construção de templos. Conforme abordamos em outros volumes, foi na Sumária que todos os con­ceitos e princípios da moderna esfera astronómica foram esbo­çados. A lista pode começar com a divisão de um círculo em 360 graus, o conceito de zénite, de horizonte, e de outras termi­nologias da astronomia, terminando com o agrupamento das es­trelas em Constelações, a idealização, terminologia e represen­tações pictóricas do Zodíaco, com suas doze casas, e o reconhe­cimento do fenómeno da Precessão — o retardamento, em cerca de um grau a cada 72 anos, do movimento da Terra ao redor do Sol.

Enquanto o Planeta dos Deuses, Nibiru, apareceu e desapa­receu no curso de seu ano de 3600 anos terrestres, a humanidade, na Terra, pôde contar a passagem do tempo apenas em termos da própria órbita ao redor do Sol. Depois do fenómeno do dia e da noite, o mais fácil de reconhecer era o das estações. Como atestam os abundantes círculos de pedra, não era difícil estabe­lecer referências para marcar os quatro pontos da relação Sol/Ter­ra: o aparente levantar do Sol mais alto nos céus, depois demo­rando mais, quando o inverno dá lugar à primavera; um ponto em que o dia e a noite parecem iguais; depois, o distanciamento gradual do Sol, tornando os dias menores e causando a dimi­nuição da temperatura. O Sol dá a impressão de desaparecer à medida que a escuridão e o frio aumentam. Depois pára, hesita, e dá a impressão de voltar. Então, todo o ciclo é repetido, dando lugar a um novo ano. Assim, eram estabelecidas as quatro ocor­rências do ciclo Terra/Sol: os solstícios de verão e de inverno ("paradas solares"), quando o Sol alcança sua posição máxima ao norte e ao sul, e os equinócios de primavera e outono (quando os dias e noites são iguais).

Para relacionar esse movimento aparente do Sol em relação à Terra, quando na verdade é a Terra que gira ao redor do Sol — um fato conhecido e representado pêlos sumérios — era ne­cessário fornecer a um observador na Terra um ponto celestial de referência. Isto foi conseguido dividindo os céus, o grande círculo formado pela Terra ao redor do Sol, em doze partes — as doze casas do Zodíaco, cada uma com seu próprio grupo de estrelas visíveis (as Constelações). Um ponto foi escolhido — o equinócio da primavera — e a casa do Zodíaco onde o Sol es­tivesse no instante em que foi declarado o primeiro dia do pri­meiro mês do ano novo. Toda a pesquisa, desde os mais antigos registros até agora, estava na casa zodiacal, ou Era de Touro.

Então chegou a Precessão para estragar o sistema. Em virtude da inclinação do eixo terrestre em relação a seu plano orbital ao redor do Sol (23,5 graus atualmente) e gira no topo, o eixo apon­tando para um ponto fixo formaria no céu um grande círculo imaginário que levaria 25 920 anos para se completar. Isso sig­nifica que o "ponto fixo", mudando um grau a cada 72 anos, gira completamente de uma casa do zodíaco para outra a cada 2 160 anos. Cerca de dois milénios depois do início do calendário na Suméria, foi necessário promover uma reforma e selecionar como ponto fixo a casa de Aries. Nossos astrólogos ainda orien­tam seus horóscopos pelo ponto fixo na casa de Aries, embora saibam que estamos há quase dois mil anos na Era de Peixes (e a ponto de ingressar na Era de Aquário).

A divisão da abóbada celeste em doze partes, em honra aos doze membros do sistema solar e ao panteão de doze deuses olímpicos, também trouxe ao ano solar uma estreita correlação com a periodicidade da Lua. Porém, desde que o mês lunar não preenche exatamente doze vezes o ano solar, métodos complexos de intercalação foram inventados para adicionar dias, de vez em quando, para permitir o alinhamento com o ano solar.

Pela contagem babilónica, no segundo milénio a.C, os templos precisavam de um alinhamento triplo: com o novo Zodíaco (Aries), com os quatro pontos solares (na Babilónia, o mais importante era o equinócio de primavera), com o período lunar. O templo principal da Babilónia era devotado ao deus nacional Marduck. Suas ruínas foram encontradas em bom estado de conservação e ali se exem­plificam todos esses princípios de astronomia. Também foram en­contrados textos que descrevem a arquitetura em termos de doze portões e sete estágios, permitindo que os estudiosos os recons­truíssem, recriando sua utilidade como um sofisticado observatório solar, lunar, planetário e estelar (fig. 81).





A astronomia combinada com a arqueologia pode ajudar a datar monumentos, explicar acontecimentos históricos e definir as origens celestiais das crenças religiosas. Tudo isso só foi re­conhecido recentemente. Levou quase um século para que essa compreensão chegasse ao nível de uma disciplina chamada ar-queoastronomia. Foi em 1894 que Sir Norman Lockyer (The Dawn of Astronomy - "A Aurora da Astronomia") demonstrou que em todas as épocas e em quase todos os lugares — desde os san­tuários mais antigos até as maiores catedrais — os templos têm sido orientados pela astronomia. É bom observar que a ideia ocorreu a ele devido a "um acontecimento" fantástico: "na Babi­lónia, desde o começo das coisas, o sinal para Deus era uma estrela"; da mesma forma, no Egito, "nos textos hieroglíficos, três estrelas representavam os deuses plurais". Ele também observou que no panteão hindu os deuses mais venerados nos templos eram Indra ("O Dia Trazido pelo Sol") e Ushas ("Aurora"), deuses relacionados ao Sol.

Concentrando-se no Egito, onde os templos antigos ainda estão intactos, permitindo estudar com detalhes sua arquitetura e orientação, Lockyer reconheceu que os templos da Antiguidade eram orientados pelo Sol ou pelas estrelas. Os do primeiro grupo, eram templos (pelo eixo, ou funções do calendário) alinhados com os solstícios ou equinócios. Os do segundo grupo eram templos não ligados a nenhum dos quatro pontos solares, mas projetados para observar e venerar o surgimento de determinado astro, num dia determinado, num ponto fixo no horizonte. Lockyer achou impressionante o fato de que quanto mais antigos, mais sofisti­cada se apresentava a astronomia. Sendo assim, no início da ci­vilização, os egípcios eram capazes de combinar um aspecto es­telar (a estrela mais brilhante da época, Sirius) com um evento solar (o solstício de verão) e com a enchente anual do Nilo. Loc­kyer calculou que a tripla coincidência ocorre a cada 1.460 anos, e que o Ponto Zero dos egípcios, quando surgiu o calendário, era por volta de 3200 a.C.

Porém, a principal contribuição de Lockyer ao que evoluiu (depois de quase um século!) para a arqueoastronomia foi a com­preensão de que a orientação dos templos antigos podia ser uma pista valiosa para determinar a época de sua construção. Seu maior exemplo era o complexo de templos em Tebas, no Alto Egito (Karnak). Lá, a orientação mais antiga e sofisticada das primeiras cidades sagradas (em relação aos equinócios) dera lu­gar à orientação para os solstícios. Em Karnak, o Grande Templo de Amon-Ra consistia em duas estruturas retangulares, construí­das uma de costas para a outra, num eixo leste-oeste, com uma inclinação para o sul (fig. 82). A orientação era feita com tamanha precisão que, no dia do solstício, um raio de sol atravessaria todo o comprimento do corredor (cerca de 150 metros), passando de uma parte do templo para a outra, entre dois obeliscos. Por alguns minutos, o raio de sol atingia o Santo dos Santos com um reflexo dourado no outro extremo do corredor, assinalando assim o momento em que começava o primeiro dia do primeiro mês, iniciando o Ano Novo.





Como esse momento preciso não era constante, foram cons­truídos outros templos com orientações modificadas. Quando a orientação era baseada nos equinócios, o desvio correspondia à parte da abóbada celeste contra a qual o Sol era visto — o desvio das "eras" zodiacais devido à Precessão. Mas parecia existir outro desvio, ainda mais profundo, afetando os solstícios: o ângulo entre os extremos que o Sol atingia continuava diminuin­do! Com o passar do tempo, os movimentos do Sol pareciam sujeitos a outro fenómeno da relação Terra/Sol. Foi a descoberta dos astrónomos sobre a obliqüidade da Terra, o giro do eixo contra o caminho orbital ao redor do Sol nem sempre foi o atual (um pouco menor que 23,5 graus). A oscilação da Terra muda seu eixo por volta de um grau a cada 7.000 anos aproximada­mente. Rolf Müller aplicou esse fato à arqueologia dos Andes, (Der Himmel über dem Menschen der Steinzeit, e outros estudos). Ele calculou que, se as ruínas arqueológicas foram orientadas para um desvio de 24 graus, significa que foram construídas pelo menos 4.000 anos atrás.

A aplicação deste método de datação, independente e sofisti­cado, é tão importante quanto a datação por radiocarbono. Talvez ainda mais, porque os testes por radiocarbono só podem ser feitos em materiais orgânicos (tais como madeira ou carvão), en­contrados no interior ou próximos à construção, enquanto que a arqueoastronomia pode datar a construção no próprio edifício, descobrindo até mesmo a época em que as várias modificações foram feitas.

O professor Müller, cujo trabalho examinaremos mais detida­mente, concluiu que as cantarias perfeitas em Machu Pichu e Cuzco (distantes das estruturas megalíticas poligonais) possuem cerca de 4.000 anos de idade, confirmando portanto a cronologia de Montesinos. O uso da arqueoastronomia nas ruínas das civi­lizações andinas, como veremos, perturbou muitas noções sobre a idade das antigas civilizações nas Américas.

Os modernos astrónomos demoraram a chegar a Machu Pichu, mas um dia isso acabou acontecendo. Na década de 30, Rolf Müller, um professor de astronomia na Universidade de Potsdam, publicou seus primeiros estudos sobre aspectos ligados à astronomia das ruínas de Tiahuanaco, Cuzco e Machu Pichu. Suas conclusões, estabelecendo a grande antiguidade dessas ruí­nas, especialmente dos monumentos em Tiahuanaco, quase lhe arruinaram a carreira.

Em Machu Pichu, Müller focalizou sua atenção no Intihuatana, no alto da colina a noroeste da cidade e na estrutura sobre a rocha sagrada, pois em ambos os locais ele descobriu aspectos precisos, que lhe permitiram deduzir seus usos e propósitos (Die Intiwatana (Sonnenwarten) im Alten Peru, e outras obras).

Ele percebeu que o Intihuatana ficava no topo do ponto mais elevado da cidade. Dali se podia divisar o horizonte em todas as direções. Porém paredes de cantarias megalíticas conduziam a vista para determinadas direções, as que os construtores que­riam exaltar. O Intihuatana e sua base eram esculpidos de uma única rocha natural, elevando-se um pilar até a altura desejada. Tanto a base quanto o pilar foram esculpidos e orientados de uma forma precisa (veja fig. 76). Müller concluiu que as várias superfícies inclinadas e ângulos tinham sido projetados daquela forma para permitir a determinação do poente no solstício de verão, do nascer do sol no solstício de inverno, e dos equinócios da primavera e do outono.







Antes de suas investigações em Machu Pichu, Müller pesqui­sara extensivamente os aspectos ligados à astronomia de Tia-huanaco e de Cuzco. Uma antiga pirogravura espanhola (fig. 83a) sugeria a ele que o Grande Templo do Sol, em Cuzco, fora construído de forma a que os raios do sol atingissem diretamente o Santo dos Santos no momento da aurora do dia do solstício de inverno. Aplicando as teorias de Lockyer ao Coricancha, Mül­ler foi capaz de calcular e mostrar como as paredes pré-colom-bianas, mais o Santo dos Santos semicircular, serviam ao mesmo propósito que nos templos do Egito (fig. 83b).

O primeiro aspecto que chama a atenção na estrutura cons­truída no topo da rocha sagrada, no alto de Machu Pichu, é sua forma semicircular, como o Santo dos Santos, em Cuzco (já ex­pressamos nossa opinião de que Machu Pichu precede Cuzco). Esse fato sugeriu a Müller uma função semelhante, a de deter­minar o solstício de inverno. Depois de estabelecer que as paredes retas da estrutura tinham sido orientadas pêlos arquitetos de acordo com a localização geográfica e altitude em relação ao nível do mar, ele descobriu que as duas janelas trapezóides na porção circular (fig. 84) permitiam a um observador assistir ao nascer do sol nos solstícios de verão e de inverno — isso tudo há 4.000 anos!






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