domingo, agosto 12, 2012

Coleção Zecharia Sitchin Livro 2 / A Escada para o Céu 1º PARTE



Zecharia Sitchin

A ESCADA PARA O CÉU

O Caminho percorrido pelos Povos Antigos para atingir a Imortalidade

Livro II de As Crônicas da Terra

Tradução de EVELYN DE MASSARO

EDITORA BEST SELLER 1980


1

EM BUSCA DO PARAÍSO

Contam as antigas escrituras que houve uma época em que a imortalidade estava ao alcance da humanidade. Era uma idade de ouro, o homem vivia com seu Criador no Jardim do Éden, cuidava do pomar e Deus passeava, gozando a brisa vespertina. "Iahweh Deus fez crescer do solo toda espécie de árvores formosas de ver e boas de comer, e a Árvore da Vida no meio do jardim e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Um rio saía do Éden para regar o jardim e de lá se dividia formando quatro braços. O primeiro chama-se Fison (...); o segundo rio chama-se Geon (...); o terceiro rio chama-se Tigre (...); o quarto rio é o Eufrates.”

Adão e Eva tinham permissão para comer os frutos de todas as árvores, com exceção do fruto da Árvore do Conhecimento. Quando desobedeceram à ordem (tentados pela serpente), Deus ficou preocupado com o assunto da imortalidade:

Depois disse Iahweh Deus:

Se o homem já é como um de nós,

Versado no bem e no mal,

Que agora ele não estenda a mão

E colha também da Árvore da Vida,

E coma e viva para sempre!”

E Iahweh Deus o expulsou do Jardim do Éden

Para cultivar o solo de onde fora tirado.

Ele baniu o homem e colocou,

Diante do Jardim do Éden,

Os querubins e a chama da espada flamejante,

Para guardar o caminho da Árvore da Vida.

Assim, o homem foi expulso do lugar onde a vida eterna esperava por ele. E, embora banido, jamais cessou de recordar, ansiar e tentar atingir a imortalidade.

Desde a expulsão do paraíso, os heróis têm ido aos Confins da Terra em busca da imortalidade. A alguns escolhidos foi dado encontrá-la; gente simples afirmou ter chegado a ela por acaso.

No decorrer dos tempos, a procura do paraíso foi algo que sempre dizia respeito a cada indivíduo. Entretanto, nos meados deste milênio, essa busca tornou-se uma empreitada oficial de poderosos reinos.

Segundo nos levaram a acreditar, o Novo Mundo foi descoberto quando os exploradores procuravam uma rota marítima para a Índia em busca de riquezas. Isso é verdade, mas apenas em parte, pois o que Fernando e Isabel, os reis da Espanha, mais desejavam era encontrar a Fonte da Eterna Juventude, uma fonte de poderes mágicos cujas águas rejuvenesciam os velhos e mantinham as pessoas eternamente jovens, porque brotava de um poço do paraíso.

Nem bem Colombo e seus homens desembarcaram no que pensavam ser as ilhas da Índia (as "Índias Ocidentais"), eles passaram a combinar a exploração das novas terras com a busca pela lendária fonte cujas águas "tornavam os velhos novamente jovens". Os espanhóis interrogaram, sob tortura, os "índios" capturados para que revelassem a localização secreta da mítica fonte.

Quem mais se destacou nessas investigações foi Ponce de León, soldado profissional e aventureiro espanhol, que saiu das fileiras para terminar como governador de parte da ilha de Hispaniola, que atualmente é o Haiti, e de Porto Rico. Em 1511, ele assistiu ao interrogatório de alguns índios aprisionados. Ao descreverem a ilha que habitavam, os nativos falaram de suas pérolas e outras riquezas, e enalteceram as maravilhosas virtudes de suas águas. Existe uma fonte, contaram, onde um ilhéu "gravemente oprimido pela velhice" foi beber. Depois disso "ele recuperou sua força varonil e praticava todos os desempenhos viris, tendo novamente tomado uma esposa e gerado filhos".

Ouvindo com crescente entusiasmo, Ponce de León, ele próprio um homem de mais de 50 anos, convenceu-se de que os índios descreviam a mítica fonte das águas rejuvenescedoras. A observação final dos nativos lhe pareceu a parte mais notável do relato, pois na corte da Espanha, bem como em toda a Europa, abundavam quadros feitos pelos maiores artistas e sempre que eles pintavam cenas de amor ou alegorias sexuais incluíam uma fonte no cenário. Talvez o mais famoso desses quadros seja O Amor Sagrado e o Amor Profano, de Ticiano. Na pintura, a fonte insinua o máximo em matéria de amor - as águas que tornavam possíveis "todos os desempenhos viris" ao longo da eterna juventude.

O relatório de Ponce de León para o rei Fernando aparece nos registros mantidos pelo historiador oficial da corte, Pietro Martire di Anghiera. Como este afirma em seu Decade de Orbe Novo (Décadas do Novo Mundo), os índios vindos das ilhas Lucaias, ou Bahamas, revelaram que "há uma ilha onde existe uma fonte perene de água corrente de tal excelsa virtude que ingerida, quem sabe acompanhada de alguma dieta, torna os velhos novamente jovens". Muitos estudos, como a obra de Leonardo Olschki, Ponce de León's Fountain of Youth: History of a Geographical Myth (A Fonte da Juventude de Ponce de León: História de um Mito Geográfico), estabeleceram que a "Fonte da Juventude era a mais popular e característica expressão das emoções e expectativas que agitaram os conquistadores do Novo Mundo". Sem dúvida, Fernando, rei da Espanha, era um dos que esperavam ansiosamente a confirmação da notícia.

Assim, quando chegou a carta de Ponce de León, o rei não perdeu tempo. Concedeu de imediato ao aventureiro uma patente de descobrimento (com data de 23 de fevereiro de 1512), autorizando a partida de uma expedição da ilha de Hispaniola tomando rumo norte. O Almirantado recebeu ordem de auxiliar Ponce de León e dar-lhe as melhores embarcações e marinheiros, com os quais talvez descobriria sem demora a ilha de "Beininy" (Bimini). O rei deixou bem explícita uma instrução: "Depois de teres atingido a ilha e ficares sabendo o que existe nela, tu me mandarás um relatório".

Em março de 1513, Ponce de Leon partiu para o norte com a intenção de encontrar a ilha de Bimini. A desculpa pública para a expedição era "procurar ouro e outros metais", mas a verdadeira meta era encontrar a Fonte da Eterna Juventude. Os marinheiros logo desconfiaram disso quando viram não apenas uma ilha, mas centenas delas, as Bahamas. Ao ancorarem em uma após outra, os grupos de desembarque receberam instruções de procurarem não ouro, mas uma fonte incomum. Águas de riachos foram testadas e bebidas sem efeitos extraordinários aparentes. No Domingo de Páscoa - Pasca de Flores, em espanhol -, foi avistado um longo litoral e Ponce de León chamou a "ilha" de Flórida. Acompanhando a costa e desembarcando várias vezes, ele e seus homens exploraram as florestas e beberam a água de inúmeras fontes. Todavia, nenhuma delas pareceu realizar o milagre tão almejado.

Contudo, o fracasso da missão não conseguiu abalar a convicção de que existia mesmo a tal fonte no Novo Mundo. Ela só precisava ser descoberta. Mais índios foram interrogados. Alguns aparentavam muito menos idade do que realmente afirmavam ter; outros repetiram lendas que confirmavam a existência da água milagrosa. Urna delas, transcrita em Creation Myths of Primitive America (Mitos da Criação da América Primitiva), de J. Curtin, diz que quando Olelbis, "aquele que está sentado no alto", estava para criar a humanidade, mandou dois emissários à Terra para construírem uma escada que ligaria o Céu e a Terra. A meio caminho, deveriam instalar um local de repouso, onde haveria uma lagoa da mais pura água potável. No topo da escada criariam duas fontes, uma para se beber e outra para banhos.

Disse Olelbis: "Quando um homem ou uma mulher envelhecer, deixem-no subir a esse cume, beber e banhar-se. Com isso, sua juventude será restaurada".

A convicção de que a fonte existia em algum lugar daquelas ilhas era tão forte que em 1514 - um ano depois da malograda expedição de Ponce de León - Pietro Martire escreveu (em sua Segunda Década) ao papa Leão X informando:

A uma distância de 325 léguas de Hispaniola, dizem, existe uma ilha chamada Boyuca, aliás Ananeo, que, segundo aqueles que exploraram seu interior, possui urna fonte extraordinária, cujas águas rejuvenescem os velhos.

Que Sua Santidade não pense que isso esteja sendo dito leviana ou irrefletidamente, pois esse fato é considerado verdadeiro na corte, e de uma maneira tão formal, que todos, mesmo aqueles cuja sabedoria ou fortuna os distinguem das pessoas comuns, o aceitam como verdade.

Ponce de León, sem se deixar desanimar, concluiu, após pesquisas adicionais, que deveria procurar urna fonte ligada a um rio, possivelmente através de um túnel subterrâneo. Então, se a fonte ficava numa ilha qualquer, seu manancial não seria um rio da Flórida?

Em 1521, a Coroa espanhola ordenou que Ponce de León fizesse urna nova expedição, desta vez centralizando as buscas na Flórida. Não existem dúvidas sobre o verdadeiro propósito dessa missão. Poucas décadas depois, o historiador espanhol Antonio de Herrera & Tordesillas afirmou em sua Historia General de Las Indias (História Geral das Índias): "Ele (Ponce de León) saiu em busca daquela fonte sagrada, tão afamada entre os índios, e do rio cujas águas rejuvenesciam os velhos". A intenção era descobrir a fonte na ilha de Bimini e o rio na Flórida, onde, segundo afirmavam os índios de Cuba e Hispaniola, "os velhos que nele se banhavam tornavam-se jovens de novo".

Em vez da juventude eterna, Ponce de León encontrou a morte ao ser atingido por uma flecha dos índios caraíbas. Assim, embora a procura individual por uma poção ou ungüento que consiga adiar o dia final talvez jamais termine, a busca organizada, sob comando real, chegou ao fim.

Teria a busca sido inútil desde o início? Fernando, Isabel, Ponce de León e todos que navegaram e morreram procurando pela Fonte da Juventude seriam apenas tolos que acreditavam em contos de fada primitivos?

Não, no entender deles. As Sagradas Escrituras, crenças pagãs e relatos documentados de grandes viajantes juntavam-se para garantir que realmente existia um lugar cuja água (ou néctar de seus frutos) podia conceder a imortalidade, mantendo a pessoa eternamente jovem.

Antigos contos falando de um local secreto, urna fonte secreta, um fruto ou planta secreta que salvaria seus descobridores da morte eram comuns na península Ibérica, corno um legado dos celtas que habitaram a região num passado distante. Corriam histórias sobre a deusa Idunn, que vivia junto a um riacho sagrado e guardava maçãs mágicas num baú. Quando os deuses envelheciam, iam procurá-la para comerem as frutas e se tornarem novamente jovens. De fato, Idunn significava "jovem de novo" e as maçãs consistiam no "elixir dos deuses".

Seriam esses contos populares um eco da lenda de Héracles (nome grego de Hércules) e seus doze trabalhos? Uma sacerdotisa do deus Apolo, ao prever o que esperava o herói, lhe garantira: "Quando tu os completares, tornar-te-ás um dos mortais". O penúltimo trabalho de Héracles seria colher e trazer as divinas maçãs de ouro das Hespérides. Estas, as "Ninfas do Poente", habitavam as proximidades do monte Atlas, na Mauritânia.

Os gregos, e depois os romanos, nos legaram muitos contos sobre homens imortalizados. Apolo ungiu o corpo de Sarpédon e ele durou várias gerações. Afrodite presenteou Faon com uma poção mágica. Ao ungir-se com ela, Faon transformou-se num belo jovem "que despertou amor no coração de todas as mulheres de Lesbos". O menino Demofonte, ungido com ambrosia pela deusa Deméter, com certeza teria se tornado imortal se sua mãe, ignorando a identidade da deusa, não o houvesse tirado de suas mãos.

Havia também a história de Tântalo, tornado imortal ao se alimentar de néctar e ambrosia que roubara da mesa dos deuses. Quando ele matou o próprio filho para servir sua carne aos deuses, estes o puniram banindo-o para uma terra onde abundavam a água e os frutos, mas que permaneciam eternamente fora de seu alcance. (O deus Hermes ressuscitou o jovem assassinado.) Já Odisseu (nome grego de Ulisses), a quem a ninfa Calipso ofereceu a imortalidade se ele aceitasse ficar em sua companhia para sempre, preferiu arriscar­-se a voltar para o lar e a esposa.

E a história de Glauco, um simples pescador que se transformou num deus do mar? Um dia ele observou que um peixe que pescara, ao entrar em contato com uma determinada erva, voltara à vida e saltara para a água. Comendo a erva, Glauco mergulhou atrás dele e, em conseqüência, os deuses Oceano e Tétis admitiram-no em seu círculo e o transformaram numa deidade.

O ano em que Colombo zarpou da Espanha, 1492, foi também o ano em que terminou a ocupação muçulmana da península Ibérica, com a rendição dos mouros em Granada. Ao longo dos quase oito séculos de contenda árabe-cristã na região, houve uma imensa interação das duas culturas. As histórias do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos, que também falavam sobre o peixe e a fonte da vida, eram conhecidas tanto por mouros como por católicos. O fato do conto em questão ser quase idêntico ao da lenda grega de Glauco, o pescador, era tomado como uma confirmação de sua autenticidade. Ele também foi um dos motivos para a busca da lendária fonte da Índia, a terra que Colombo partiu para alcançar e imaginou ter encontrado.

A parte do Corão que contém a história do peixe é a 18ª. sura, que fala das viagens de Moisés, o herói bíblico do Êxodo do Egito, explorando vários mistérios. Como parte dos preparativos para cumprir seu destino como mensageiro de Deus, ele teria de receber o conhecimento de que ainda carecia de um misterioso "servo de Deus". Acompanhado de apenas um criado, Moisés deveria procurar esse enigmático mestre com a ajuda de uma única pista: levaria consigo um peixe seco e, no lugar onde o peixe saltaria e desapareceria, encontraria o "servo de Deus".

Depois de muita caminhada infrutífera, o criado sugeriu que desistissem da busca. Moisés, porém, insistiu, dizendo que não pararia até alcançar "a junção dos dois rios". E foi lá, sem ser notado pelos viajantes, que o milagre aconteceu:

Mas, quando eles chegaram à junção,

Esqueceram-se do peixe,

Que mergulhou no rio,

Como se entrasse num túnel.

Depois de muito caminhar, Moisés disse ao criado: "Pegue nossa refeição matinal", mas o homem respondeu que o peixe sumira:

Quando chegamos à pedra,

Não viste o que aconteceu?

De fato esqueci-me do peixe.

Satã me fez esquecer de contar-vos.

Ele mergulhou no rio de uma forma maravilhosa.

E Moisés disse:

"Era isso que procurávamos".

A história do Corão sobre o peixe seco que ressuscitou e voltou para o mar através de um túnel ia além do conto grego similar porque falava não de um modesto pescador, mas do venerável Moisés. Ela também não apresentava o incidente como uma descoberta casual, mas como uma ocorrência prevista pelo Senhor, que conhecia exatamente a localização da água da vida, que poderiam ser identificadas pela ressurreição do peixe.

Como católicos devotos, o rei e a rainha da Espanha devem ter aceitado literalmente a visão descrita no Apocalipse: "Mostrou-me depois um rio de Água da Vida, brilhante como cristal, que saía do trono de Deus (...) No meio da praça, de um lado e do outro do rio, há árvores da vida que frutificam doze vezes (...)" Sem dúvida acreditaram nas promessas do livro: "A quem tem sede darei a fonte de água viva" e "conceder-lhe-ei comer da Árvore da Vida que está no paraíso de Deus". Além disso, sem dúvida, estavam a par das palavras do salmista bíblico:

Tu dás-lhes de beber de teu rio da eternidade;

Pois contigo está a fonte da vida.

Portanto, era indubitável a existência da fonte da vida e do rio da eternidade, pois era o que atestavam as Sagradas Escrituras. O único problema era onde e como encontrá-los.

A 18ª. sura do Corão oferece algumas pistas importantes. Ela relata os três paradoxos da vida apresentados a Moisés depois de ele ter localizado o servo de Deus. Em seguida, o mesmo trecho do Corão passa a descrever três episódios: uma visita a uma terra onde o sol se põe, depois para uma terra onde o sol se levanta, ou seja, o leste, e finalmente para uma mais distante, onde o mítico povo de Gog e Magog (os contendores bíblicos do fim dos tempos) vinha causando incontáveis danos à Terra. Para acabar com a desordem, o herói do conto - aqui chamado de Du-al'Karnain (Possuidor de Dois Chifres) - fechou uma passagem entre duas íngremes montanhas com blocos de ferro e em seguida derramou sobre eles chumbo derretido, construindo uma barreira tão impressionante que até os poderosos Gog e Magog não foram capazes de escalá-la. Assim separados, os dois não puderam mais causar prejuízos à Terra.

A palavra Karnain, em árabe ou hebraico, significa tanto "duplos chifres" como" duplos raios". Os três episódios adicionais, que vêm logo depois dos Mistérios de Moisés, parecem, devido ao uso do termo, manter como personagem principal o herói bíblico, que bem poderia ter recebido o apelido de Du-al'Karnain porque seu rosto "tinha raios" - irradiava - depois de ele descer do monte Sinai, onde se encontrara face a face com Deus. Os cristãos medievais, todavia, atribuíam a alcunha e a viagem às três terras a Alexandre, o Grande, rei da Macedônia, que no século IV a.C. conquistara a maior parte do mundo conhecido na época, alcançando até a Índia.

Essa crença popular, intercambiando Moisés e Alexandre, tinha origem nas tradições relacionadas com as conquistas e aventuras do rei da Macedônia, que incluíam não apenas o feito na terra de Gog e Magog como também um episódio sobre um peixe seco que voltara à vida quando Alexandre e seu criado encontraram a fonte da vida!

60. Veja, disse Moisés

Ao seu criado, não

Desistirei até atingir

A junção dos dois Mares ou (até) passar

Anos e anos em viagem.

61. Mas, quando eles chegaram

À junção, esqueceram-se

De seu peixe, que tomou

Seu rumo através do mar,

(Direto) como se num túnel.

62. Quando tinham prosseguido

(Alguma distância), Moisés disse

Ao seu criado: Traga-nos nossa

Refeição matinal; com certeza

Sofremos muita fadiga

Nesta (etapa de) nossa viagem.

63. Ele respondeu: Viste

(o que aconteceu) quando

Chegamos à pedra?

Realmente me esqueci

Do peixe; ninguém senão

Satã me fez esquecer

De te contar;

Ele tomou seu rumo através

Do mar de uma maneira maravilhosa!

64. Moisés disse: Era isso que

Procurávamos.

Assim eles voltaram

Em seus passos, seguindo

(O caminho pelo qual tinham vindo).

Os relatos a respeito de Alexandre que corriam por toda a Europa e Oriente Médio na época medieval baseavam-se nos supostos textos de um historiador grego chamado Calístenes, sobrinho de Aristóteles. Indicado pelo rei para registrar seus feitos, triunfos e aventuras na expedição asiática, morreu na prisão por ter criticado o soberano por adotar costumes orientais; seus escritos desapareceram misteriosamente. Séculos depois, começou a circular na Europa um texto em latim que seria uma tradução das crônicas originais de Calístenes. Os eruditos denominaram esses textos de "pseudo-­Calístenes" .

Por muitos séculos, acreditou-se que as muitas versões das façanhas de Alexandre circulando pela Europa e Oriente Médio originavam-se desses pseudo-Calístenes em latim. Todavia, descobriu-­se mais tarde que existiam textos similares em muitos outros idiomas, inclusive hebraico, persa, siríaco, armênio e etíope, bem como pelo menos três versões em grego. Esses vários textos, alguns com origem na Alexandria do século II a.C., divergem em alguns pontos. Mas suas impressionantes similaridades indicam claramente uma fonte comum - talvez até mesmo as crônicas de Calístenes ou, como muitas vezes se afirma, cópias das cartas de Alexandre para sua mãe, Olímpia, e para seu mestre, Aristóteles.

As extraordinárias aventuras em que estamos interessados começaram depois que Alexandre terminou a conquista do Egito. Os textos não esclarecem que direção o rei tomou, nem há certeza de que os episódios seguem uma ordem cronológica ou geográfica. Entretanto, um dos primeiros contos pode explicar a confusão popular entre Alexandre e Moisés. Aparentemente o rei da Macedônia tentou sair do Egito como o herói bíblico, separando as águas do mar Vermelho e fazendo seus seguidores atravessarem-no a pé.

Ao atingir o mar, Alexandre decidiu dividir as águas construindo no meio dele uma muralha de ferro e chumbo derretida e seus pedreiros "continuaram derramando chumbo e outros materiais derretidos na água até que a estrutura chegou acima da superfície". Em seguida, o rei fez seus homens erigirem sobre a muralha uma torre e um pilar, onde mandou esculpir sua própria figura, ostentando dois chifres na cabeça. Então escreveu no monumento: "Aquele que chegar a este lugar e navegar sobre o mar saiba que eu o fechei".

Tendo assim contido as águas, Alexandre e seus homens começaram a atravessar o mar a pé. Contudo, como medida de precaução, enviaram à frente alguns prisioneiros. Quando estes atingiram a torre no meio do mar, "as ondas derramaram-se sobre eles, o mar os engoliu e todos pereceram (...) Quando o Dois Chifres viu o acontecido, sentiu um poderoso medo do mar" e desistiu da tentativa de imitar Moisés.

Mesmo assim, ainda ansioso por descobrir "as trevas" no outro lado do mar, Alexandre fez vários desvios, durante os quais, segundo os textos, visitou as fontes dos rios Eufrates e Tigre, lá estudando "os segredos do céu, das estrelas e dos planetas".

Deixando suas tropas para trás, Alexandre voltou para o País das Trevas, alcançando uma montanha na margem do deserto chamada Mushas. Depois de vários dias de viagem, avistou um "caminho reto, sem muros, onde não havia nem altos nem baixos". Nesse ponto o rei deixou seus poucos e fiéis companheiros e prosseguiu sozinho. Depois de uma caminhada de doze dias e doze noites, "percebeu o esplendor de um anjo". Entretanto, ao se aproximar, viu que o anjo era uma "fogueira flamejante". Alexandre então convenceu-se de que chegara à "montanha da qual todo o mundo é cercado.”

O anjo ficou tão surpreso quanto Alexandre. "Quem és tu e por que estás aqui; oh, mortal?", perguntou, imaginando como aquele homem conseguira "penetrar nesta escuridão, onde nenhum outro foi capaz de entrar." Alexandre respondeu que o próprio Deus o guiara e dera-lhe forças para "chegar a este lugar, que é o paraíso".

A essa altura, para convencer o leitor de que o paraíso, e não o inferno, era atingível por meio de passagens subterrâneas, o autor do antigo texto relatava um longo diálogo entre Alexandre e o anjo sobre temas relacionados com Deus e o homem. Terminada a conversa, o anjo mandou Alexandre voltar para junto de seus amigos, mas o rei insistiu em ter respostas para os mistérios do Céu e da Terra, Deus e o homem. No final, disse que só partiria se recebesse algo que nenhum outro homem obtivera antes. Concordando, o anjo disse: "Eu te contarei algo que fará com que tu vivas e não morras". "Prossiga", falou o Dois Chifres. E o anjo explicou:

No país da Arábia, Deus colocou o negrume da escuridão total, onde está escondido o tesouro desse conhecimento. Lá também fica a fonte que é a chamada de "Água da Vida". Aquele que beber dela, nem que seja uma única gota, jamais morrerá.

O anjo atribuiu outros poderes mágicos a essa Água da Vida, tal como conceder o dom de um homem voar pelo céu, como os anjos. Não precisando de maiores incentivos, Alexandre indagou, ansioso: "Em que região da Terra está situada essa fonte?" A enigmática resposta do anjo foi: "Pergunte aos homens de lá que são herdeiros do conhecimento". Dito isso, deu a Alexandre um cacho de uvas para com elas alimentar suas tropas.

Voltando para junto de seus companheiros, Alexandre contou-­lhes a aventura e deu a cada um uma uva. Mas, "à medida que arrancava uma, outra crescia em seu lugar". Assim, um único cacho serviu para alimentar todos os soldados e suas montarias.

O jovem soberano então começou a indagar sobre os sábios que poderia encontrar. Perguntava a cada um que lhe indicavam: "Já leste nos livros que Deus tem um lugar de trevas onde está oculto o conhecimento e que lá fica a fonte da vida?" As versões gregas dizem que Alexandre foi até os Confins da Terra para encontrar o sábio. Já os etíopes sugerem que o sábio estava ali mesmo, entre sua tropa. Chamava-se Matun e conhecia as antigas escrituras. O lugar, disse o sábio, "jaz bem perto do sol quando ele se levanta do lado direito" .

Ainda pouco informado depois de tantos enigmas, Alexandre colocou-se nas mãos de seu guia. Novamente foram para um lugar de trevas. Depois de muito caminhar, o rei cansou-se e mandou Matun prosseguir sozinho para encontrar a trilha certa. Para ajudá-lo a enxergar na escuridão, deu-lhe uma pedra que lhe chegara às mãos em circunstâncias milagrosas, como um presente de um antigo rei que agora vivia entre os deuses. Era uma pedra que Adão trouxera do paraíso, mais pesada do que qualquer outra substância da Terra.

Matun, apesar de todos os cuidados, acabou se perdendo. Então, tirou a pedra mágica do bolso e colocou-a no chão. Assim que ela tocou o solo, começou a emitir luz e Matun pôde ver um poço. Ele ainda não tinha consciência de que chegara à fonte da vida. A versão etíope descreve o que se seguiu:

Ora, o homem tinha consigo um peixe seco e, estando muito faminto, foi até a água para lavá-lo e prepará-lo para cozinhar... Mas, assim que o peixe tocou na água, saiu nadando.

"Quando Matun viu isso, despiu-se e entrou na água atrás do peixe, encontrando-o vivo. "Percebendo que aquele era o "poço da Água da Vida", banhou-se e bebeu. Ao sair do poço, não sentia mais fome nem preocupações mundanas, pois se tomara o El-Khidr, "o sempre verde" - aquele que seria eternamente jovem.

Ao voltar para o acampamento, Matun não contou nada sobre sua descoberta a Alexandre (a quem a versão etíope chama de "Aquele de Dois Chifres"). Logo em seguida o rei retomou a busca, tateando na escuridão à procura da trilha certa. De repente avistou a pedra abandonada por Matun "brilhando nas trevas e ela agora tinha dois olhos, que lançavam raios de luz". Percebendo que encontrara o caminho, Alexandre avançou correndo, mas foi contido por uma voz que o censurou pelas suas sempre crescentes ambições e profetizou que em vez de encontrar a vida eterna ele logo morreria. Aterrorizado, Alexandre voltou para junto de seus companheiros, desistindo da busca.

Segundo algumas versões, foi um pássaro com feições humanas que falou com Alexandre e o fez retornar quando "ele chegou a um lugar cravejado de safiras, esmeraldas e jacintos". Na suposta carta do rei a sua mãe, foram dois homens-pássaros que o impediram de prosseguir.

Na versão grega do pseudo-Calístenes, foi André, o cozinheiro de Alexandre, que pegou o peixe seco para lavá-lo numa fonte "cujas águas relampejavam". Quando o peixe tocou na água, reviveu e escapou das mãos do cozinheiro. Percebendo o que encontrara, o homem bebeu a água e depois guardou um pouco numa tigela de prata, mas não contou a ninguém sobre sua descoberta. Quando Alexandre (que nesta versão estava acompanhado de 360 homens), prosseguindo sua busca, chegou a um lugar que brilhava, embora lá não se visse sol, nem a lua e as estrelas, encontrou o caminho bloqueado por dois pássaros com feições humanas.

"Volte", ordenou um deles, "porque o lugar em que estás pisando pertence somente a Deus. Volte, maldito, pois na Terra dos Abençoados tu não podes pôr os pés!" Estremecendo de medo, Alexandre e seus homens recuaram, mas, antes de deixarem o local, pegaram um pouco de terra e pedras no chão como lembrança. Depois de vários dias de marcha saíram do país da noite eterna e, ao chegarem à luz, viram que o "o solo e as pedras" que tinham apanhado eram na realidade pérolas, pedras preciosas e pepitas de ouro.

Só então o cozinheiro contou a Alexandre sobre o peixe que ressuscitara, mas guardou segredo sobre ter bebido e guardado a água. O rei ficou furioso, agrediu o homem e o expulsou do acampamento. O cozinheiro, porém, recusou-se a partir sozinho, pois se apaixonara por uma filha de Alexandre. Assim, revelou o segredo a ela e a fez beber a água. Quando Alexandre descobriu o acontecido, também baniu a jovem: "Tu te transformaste num ser divino, pois te tornaste imortal. Portanto, não podes mais viver entre os homens. Vá para a Terra dos Abençoados". Quanto ao cozinheiro, o rei atirou-o ao mar com uma pedra presa no pescoço. Mas, em vez de se afogar, o cozinheiro transformou-se em Andrêntico, o demônio do mar.

"E assim", somos informados, "termina o conto do cozinheiro e a donzela.”

Para os eruditos conselheiros dos reis e rainhas medievais, a simples existência de inúmeras versões sobre a mesma história servia para confirmar tanto a antiguidade como a autenticidade da lenda de Alexandre e da fonte da vida. Mas onde, onde ficavam essas águas mágicas?

Depois da fronteira do Egito, na península do Sinai, a arena das atividades de Moisés? Ou perto da região onde nascem o Tigre e o Eufrates, em algum lugar ao norte da Síria? Teria Alexandre ido aos Confins da Terra - a Índia - para procurar a fonte ou só se lançara em sua busca depois de voltar de lá?

Enquanto os estudiosos medievais esforçavam-se para decifrar os enigmas, novas obras sobre o tema, com base em fontes cristãs, começaram a moldar um consenso em favor da Índia. Um texto em latim chamado Alexander Magni Inter ad Paradisum, uma homilia de Alexandre escrita em siríaco pelo bispo Jacó de Sarug, e a Recension of Josippon, em armênio - todos com o relato sobre o túnel, os homens-pássaros e a pedra mágica -, situavam o País das Trevas ou Montanha das Trevas nos Confins da Terra. Lá, diziam alguns desses escritos, Alexandre navegou pelo rio Ganges, que não era outro senão o rio Fison, do paraíso. Ali mesmo na Índia (ou numa ilha de seu litoral), o rei alcançara os portões do paraíso.

Enquanto essas conclusões tomavam forma na Europa na Idade Média, uma nova luz foi lançada sobre o assunto, vinda de uma fonte totalmente inesperada. Em 1145, o bispo alemão Otto de Freising registrou em seu Chronicon um relato sobre uma impressionante epístola. O papa, contou, recebera uma carta de um governante cristão da Índia, cuja existência era completamente desconhecida. Esse rei afirmava que o rio do paraíso ficava localizado em seus domínios.

O bispo Otto dava o nome do bispo Hugo de Gebal (uma cidade da costa mediterrânea da Síria) como tendo sido o intermediário que levara a carta ao papa. O autor da epístola, segundo se dizia, chamava-se João, o velho, ou, por ser um sacerdote da Igreja Católica, Preste João. Ele afirmava ser descendente direto de um dos magos que haviam visitado Cristo no seu nascimento. Preste João derrotara os reis muçulmanos da Pérsia e estabelecera um florescente reino cristão na região dos Confins da Terra.

Atualmente alguns estudiosos pensam que todo esse caso foi forjado com objetivos propagandísticos. Outros crêem que os relatórios que chegaram ao papa eram distorções de eventos que realmente estavam acontecendo. Cinqüenta anos antes o mundo cristão lançara a Primeira Cruzada contra o domínio muçulmano no Oriente Médio (inclusive a Terra Santa) e havia pouco, em 1.144, sofrera uma derrota esmagadora na cidade de Edessa. Enquanto isso, nos Confins da Terra, os governantes mongóis tinham começado a sacudir os portões do império muçulmano e haviam derrotado o sultão Sanjar em 1.141. Quando a notícia chegou às cidades costeiras do Mediterrâneo, foi enviada ao papa sob a roupagem de um rei cristão erguendo-se para derrotar os infiéis pela retaguarda.

Se a busca pela Fonte da Juventude não estava entre os motivos para a Primeira Cruzada (1.095), aparentemente fazia parte das subseqüentes, pois logo que o bispo Otto registrou a existência de Preste João e do rio do paraíso em seus domínios, o papa emitiu uma conclamação formal para o reinício das cruzadas. Dois anos depois, em 1.147, o imperador Conrado da Alemanha, acompanhado de muitos outros nobres e governantes, partiu para a Segunda Cruzada.

Enquanto a sorte dos cruzados alternadamente brilhava e se esvanecia, a Europa foi de novo varrida por notícias de Preste João e suas promessas de auxílio. Segundo os cronistas da época, em 1.165 ele enviou uma carta ao imperador de Bizâncio, ao imperador romano e a reis menores, onde declarava sua nítida intenção de ir à Terra Santa com seus exércitos. Mais uma vez ele descrevia seu reino em termos entusiásticos, como convinha a um lugar onde estava situado não apenas o rio do paraíso, mas também os portões do paraíso.

A ajuda prometida jamais chegou. O caminho da Europa para a Índia não foi aberto. Por volta do final do século XIII, as cruzadas haviam deixado de existir, terminando numa derrota final nas mãos dos muçulmanos.

Todavia, mesmo enquanto as cruzadas avançavam e recuavam, a crença fervorosa na existência das águas do paraíso na Índia continuava a crescer e a se disseminar.

Antes do final do século XII, uma nova e popular versão das façanhas de Alexandre, o Grande, começou a espalhar-se nos acampamentos e praças de cidades. Chamada de Romance de Alexandre, era (como se sabe atualmente) obra de dois franceses que basearam esse poético e entusiasmado relato na versão latina do pseudo-­Calístenes e outras "biografias" do rei da Macedônia disponíveis na época. O que menos interessava aos cavaleiros, soldados e cidadãos que freqüentavam as tabernas era a autoria do texto. O importante era que ele criava, numa linguagem que conseguiam entender, imagens vivas das aventuras de Alexandre em terras estranhas.

Entre elas estava o conto das três fontes maravilhosas. Uma rejuvenescia os velhos, a segunda garantia a imortalidade e a terceira ressuscitava os mortos. As três, explicava o Romance, ficavam localizadas em países diferentes, já que procediam do Tigre e Eufrates, na Ásia oriental, do Nilo, no Egito, e do Ganges, na Índia. Eram esses os quatro rios do paraíso. E, apesar de eles correrem em diferentes regiões, todos provinham de uma única fonte: o Jardim do Éden, exatamente como dizia a Bíblia.

O Romance afirmava que Alexandre e seus homens tinham encontrado a fonte do rejuvenescimento e garantia que 56 companheiros idosos do rei "recuperaram a cútis dos 30 (anos) depois de beberem da Fonte da Juventude". À medida que se disseminavam as traduções do Romance, esse evento era descrito cada vez com maiores detalhes. Não apenas a aparência, como também a força e virilidade dos velhos soldados tinham sido restauradas.

Mas, como chegar à fonte, se a rota para a Índia estava bloqueada pelos muçulmanos pagãos?

De tempos em tempos os papas procuravam se comunicar com o enigmático Preste João, "O ilustre e magnífico rei das Índias e filho amado de Cristo". Em 1.245, Inocêncio IV despachou o frei Giovanni da Pian del Carpini via Rússia meridional, com ordens de entrar em contato com o rei mongol, o khan, acreditando que os mongóis eram nestorianos (um ramo da igreja ortodoxa) e o khan o próprio Preste João. Em 1.254, o rei-padre Haithon, da Armênia, viajou incógnito pelo leste da Turquia até alcançar o acampamento de um chefe mongol no sul da Rússia. Os registros dessa viagem cheia de aventuras diziam que a rota o levara a uma passagem estreita às margens do mar Cáspio, chamada de Os Portões de Ferro. A especulação de que esse caminho era muito parecido com o percorrido por Alexandre, o Grande (que derramara ferro derretido para fechar um desfiladeiro), serviu para alimentar a idéia de que os portões do paraíso, nos Confins da Terra, podiam ser alcançados.

Aos emissários de papas e reis, que procuravam o reino de Preste João, logo se juntaram comerciantes aventureiros, como Nicolo e Matteo (Maffeo) Pólo, e posteriormente o filho do primeiro, Marco Pólo (1.260-1.295) e cavaleiros como o alemão Guilherme de Bondensele (1.336).

Enquanto esses relatos atraíam o interesse da Igreja e das cortes européias, coube mais uma vez a uma obra de literatura popular despertar o entusiasmo das massas. Seu autor apresentava-se como: "Eu, John Maundeville, Cavaleiro, nascido na cidade de St. Albans, na Inglaterra, que me fiz ao mar no ano de Nosso Senhor Jesus de 1.322". Escrevendo ao regressar de suas viagens 34 anos depois, Sir John explicava que "dirigi-me para a Terra Santa e Jerusalém, e também para a terra do Grande Khan e do Preste João, para a Índia e diversos outros países, bem como para as muitas e estranhas maravilhas que lá existem".

No Capítulo 27 do livro The Voyages and Travels of Sir John Maundeville, Knight (As Navegações e Viagens de Sir John Maundeville, Cavaleiro), está escrito:

Esse imperador, Preste João, possui um território muito extenso e tem muitas boas e nobres cidades em seus domínios, e muitas grandes ilhas, pois todo o país da Índia é dividido em ilhas por causa das grandes enchentes que vêm do paraíso... E essa terra é muito boa e rica... Nas terras do Preste João existem coisas muito variadas e muitas pedras preciosas, tão enormes que os homens delas fazem travessas, pratos, xícaras etc...

Em seguida, sir John descreve o rio do paraíso:

Nesse país o mar é chamado de mar de Gravelly... a três dias de distância dele ficam grandes montanhas, das quais procede um grande rio que vem do paraíso, e ele é de pedras preciosas, sem nenhum pingo de água. Ele corre pelo deserto e vai formar o mar de Gravelly quando atinge seu ponto final.

Mais além do rio do paraíso, havia uma grande ilha, larga e comprida, chamada Milsterak, que era um paraíso na Terra. Lá ficava "o mais belo jardim que se pode imaginar; dentro dele há árvores dando todos os tipos de frutos, toda espécie de ervas virtuosas e perfumadas". Esse paraíso, afirma sir John, possuía maravilhosos pavilhões e câmaras, obras de um homem rico e demoníaco, cujo propósito era oferecer "os mais variados prazeres sexuais".

Depois de atiçar a imaginação (e cobiça) de seus leitores com relatos sobre pedras preciosas e outras riquezas, o autor passa a brincar com seus desejos sexuais. O lugar, escreve, estava repleto "das mais graciosas donzelas abaixo de 15 anos que se pode encontrar e rapazes dessa mesma idade, todos ricamente vestidos com roupas bordadas a ouro. O homem me disse que eles eram anjos". E esse homem demoníaco...

Ele também mandou construir três belos e nobres poços, cercados de pedras de jaspe e cristal, lavrados com ouro e cravejados de pedras preciosas e grandes pérolas do Oriente. Fez instalar um cano sob a terra, de modo que os três poços, a sua vontade, podem verter um deles leite, o outro vinho e o outro, ainda, mel. Esse lugar ele chamou de paraíso.

Esse proprietário empreendedor atraía para sua ilha "bons cavaleiros, robustos e nobres" e, depois de hospedá-los, os persuadia a matar os inimigos de seu reino, dizendo-lhes que não deveriam temer a morte pois, se perecessem, seriam ressuscitados e rejuvenescidos.

Depois da morte eles voltariam a esse paraíso, passariam a ter a idade das donzelas e poderiam brincar com elas. Posteriormente seriam mandados para um paraíso ainda mais belo, onde veriam o deus da natureza face a face, em toda sua majestade e bem-aventurança.

Todavia, explica John Maundeville, esse ainda não era o verdadeiro paraíso da Bíblia. No Capítulo 30, ele afirma que este ficava muito além das terras que Alexandre, o Grande, tinha percorrido. A rota para alcançá-lo seguia rumo leste, na direção de duas ilhas ricas em minas de ouro e prata, "onde o mar Vermelho se separa do oceano".

E além dessas ilhas e terras, e dos desertos do reino do Preste João, indo direto para o leste, os homens não encontram nada senão montanhas e grandes rochas; e lá fica a região das trevas, onde ninguém consegue enxergar, nem de dia nem de noite... E esse deserto e esse lugar de escuridão vão da costa até o paraíso terrestre onde Adão, nosso primeiro pai, e Eva foram colocados.

Era dali que fluíam as águas do paraíso:

E no ponto mais alto do paraíso, exatamente no meio dele, há um poço do qual saem quatro rios que atravessam diversas regiões, dos quais um é o Fison ou Emtak, ou Ganges, que corre através da Índia e possui muitas pedras preciosas, muito alume e muita areia de ouro.

E o outro rio é o chamado Nilo, ou Geon, que corre pela Etiópia e depois pelo Egito.

E o outro é chamado Tigre, e corre pela Assíria e pela Armênia, a Grande.

E o outro é chamado Eufrates e corre pela Média, Armênia e Pérsia.

Confessando que ele mesmo não atingiu o Jardim do Éden bíblico, sir John Maundeville esclarece: "Nenhum mortal pode se aproximar desse local sem uma graça especial de Deus; por isso, desse lugar não posso falar mais".

Apesar dessa confissão, as muitas versões em muitas línguas que derivaram do original inglês garantiam que o Cavaleiro afirmou: "Eu, John Maundeville, vi a fonte e, por três vezes, junto com meu companheiro, bebi de suas águas e desde então me sinto muito bem!”

O fato de o autor, na versão inglesa, queixar-se de que estava com gota reumática e aproximando-se do fim de seus dias não fez diferença para os que se encantaram com seus relatos maravilhosos.

Atualmente os estudiosos da época acreditam que "sir John Maundeville, Cavaleiro" pode ter sido um médico francês que jamais viajou, mas soube juntar com grande habilidade os relatos de aventureiros que não hesitaram em se arriscar, enfrentando os perigos e desconfortos de viagens para locais tão distantes.

Escrevendo sobre as visões que motivaram a exploração que levou à descoberta da América, Angel Rosenblat (La Primera Visión de América y Otros Estudios; A Primeira Visão da América e Outros Estudos) resumiu: "A crença num paraíso terrestre estava associada a um desejo de natureza messiânica: encontrar a Fonte da Eterna Juventude. Toda a Idade Média sonhou com ela. Nas novas imagens do paraíso perdido, a Árvore da Vida transformara-se na fonte da vida e depois num rio ou Fonte da Juventude". A motivação era a certeza de que "a Fonte da Juventude ficava na Índia... uma fonte que curava todos os males e garantia a imortalidade. O fantástico John Maundeville a encontrara em sua viagem à Índia... no reino cristão do Preste João". Chegar à Índia e às águas que procediam do paraíso tornou-se um "símbolo do desejo humano por prazer, juventude e felicidade".

Com as rotas terrestres fechadas pelos muçulmanos, os reis cristãos da Europa começaram a procurar uma rota marítima para a Índia. Nos meados do século XV, o reino de Portugal, sob Henrique, o Navegador, destacou-se como a principal potência na corrida para se atingir o Oriente navegando em torno da África. Em 1445, o navegador português Dinis Dias chegou à foz do rio Senegal e, atento ao propósito da viagem, escreveu: "Dizem que ele vem do Nilo, sendo um dos mais gloriosos rios da Terra, pois procede do Jardim do Éden e do paraíso terrestre". Outros exploradores se seguiram a ele, avançando cada vez mais na direção do cabo ao sul do Continente Negro. Finalmente, em 1499, Vasco da Gama e sua frota deram a volta em torno da África e atingiram a meta tão desejada: a Índia.

No entanto, os portugueses, que haviam começado a Era do Descobrimento, não conseguiram vencer a corrida. Estudando diligentemente os mapas antigos e todos os relatos dos que tinham se aventurado ao Oriente, um navegador italiano, Cristóvão Colombo, concluiu que, partindo para o oeste, ele conseguiria alcançar a Índia por uma rota muito mais curta do que a procurada pelos portugueses. Em busca de um patrocinador, Colombo chegou à corte de Fernando e Isabel trazendo consigo uma versão comentada do livro de Marco Pólo (que também levou em sua primeira viagem). Para defender suas idéias, apontou até mesmo os textos de John Maundeville, que um século e meio antes explicara que, indo-se ao Oriente mais longínquo, chega-se ao Ocidente" devido à esfericidade da Terra... pois Nosso Senhor fez a Terra redonda".

Em janeiro de 1492, Fernando e Isabel derrotaram os muçulmanos e os expulsaram da península Ibérica. Não seria aquilo um sinal divino, indicando que onde os cruzados tinham malogrado a Espanha conseguiria êxito? Em 3 de agosto do mesmo ano, Colombo zarpou sob a bandeira espanhola com o objetivo de encontrar uma rota marítima ocidental para a Índia. Em 12 de outubro, avistou terra. Até sua morte, em 1506, Colombo continuava certo de que descobrira as ilhas que constituíam grande parte do lendário reino de Preste João.

Vinte anos depois, o rei Fernando concedeu a Ponce de León a patente de descobrimento, instruindo-o a encontrar sem demora as águas rejuvenescedoras.

Os espanhóis pensavam que estavam imitando Alexandre, o Grande. Mal sabiam que seguiam os passos de uma antiguidade muito maior.

2

OS ANTEPASSADOS IMORTAIS

A curta existência de Alexandre da Macedônia - ele morreu aos 33 anos, na Babilônia - foi recheada de conquistas, aventuras, explorações e um ardente desejo de chegar aos Confins da Terra e desvendar os mistérios divinos. Não se pode dizer que essa busca foi em vão.

Filho da rainha Olímpia e presumivelmente de seu marido, o rei Filipe II, Alexandre teve como mestre Aristóteles, que lhe ensinou a sabedoria antiga. Depois de muitas brigas conjugais que resultaram em divórcio, Olímpia fugiu da corte levando seu filho. Veio a reconciliação e em seguida a morte: o assassinato de Filipe, que levou à coroação de Alexandre aos 20 anos de idade. As primeiras expedições militares do jovem rei culminaram com sua ida a Delfos, sede do renomado oráculo, onde ele ouviu a primeira de várias profecias prevendo-lhe fama - mas vida curta.

Sem se deixar abater, Alexandre partiu - como os espanhóis fariam 1.800 anos depois - à procura da Água da Vida. Para isso, precisava abrir caminho para o leste, pois era de lá que tinham vindo os deuses: o grande Zeus (nome grego de Júpiter), que atravessara o Mediterrâneo a nado, saindo da cidade fenícia de Tiro e chegando à ilha de Creta; Afrodite, que também surgira na ilha, vinda do mar; Posêidon, que viera da Ásia Menor, trazendo consigo o cavalo; Atena, que levara à Grécia a oliveira originária da Ásia ocidental. Era na Ásia, também, segundo os historiadores gregos, cujas obras Alexandre tanto estudara, que ficavam as águas que mantinham as pessoas eternamente jovens.

Ele também ouvira contar a história de Cambises, o filho do rei persa, Ciro, que atravessara a Síria, a Palestina e o Sinai para atacar o Egito. Depois de derrotar os egípcios, Cambises tratou-os com crueldade e profanou o templo do deus Amon. Em seguida, resolveu seguir para o sul e atacar "os longevos etíopes". Ao descrever esses eventos - escrevendo um século antes de Alexandre -, Heródoto disse (História, Livro III):

Os espiões (de Cambises) partiram para a Etiópia sob o pretexto de levarem presentes para o rei, mas sua verdadeira missão era anotar tudo o que viam e especialmente observarem se existia mesmo naquele país aquilo que é chamado de "A Mesa do Sol".

Depois de contarem ao rei etíope que "80 anos era o mais longo tempo de vida entre os persas", os espiões/emissários o interrogaram sobre a longevidade de seu povo. Confirmando os rumores.

O rei levou-os a uma fonte onde, depois de se lavarem, notaram que estavam com a pele macia e lustrosa, como se tivessem tomado banho de óleo. E da fonte emanava um perfume como o de violetas.

Voltando a Cambises, os espiões descreveram a água "como tão fraca que nada conseguia flutuar nela, nem madeira ou outras substâncias leves; nela tudo afundava". E Heródoto concluiu:

Se o relato sobre essa fonte é verdadeiro, então seria o uso da água que dela verte que os torna (os etíopes) tão longevos.

A lenda da Fonte da Juventude na Etiópia e a violação do templo de Amon por Cambises têm grande peso nas aventuras de Alexandre. A importância desse segundo evento estava relacionada com os rumores de que o jovem rei não era filho de Filipe, mas fruto de uma união entre sua mãe, Olímpia, e o deus egípcio Amon. As relações tensas entre Filipe e Olímpia contribuíam para reforçar a suspeita.

De acordo com o relatado em várias versões do pseudo-­Calístenes, a corte de Filipe foi visitada por um faraó egípcio chamado pelos gregos de Nectanebo. Ele era um mago, um adivinho, que secretamente seduziu a rainha. Olímpia nada sabia na época, mas foi o deus Amon que a visitou disfarçado de Nectanebo. Por isso, ao parir Alexandre, ela deu à luz um deus, o mesmo cujo templo Cambises profanou.

Depois de derrotar os persas na Ásia Menor, Alexandre voltou­-se para o Egito. Esperando forte oposição dos vice-reis persas que governavam o Egito, surpreendeu-se ao ver aquele grande território cair em suas mãos sem resistência. Um bom presságio, sem dúvida. Sem perder tempo, Alexandre dirigiu-se ao Grande Oásis, sede do oráculo de Amon. Lá o próprio deus (segundo as lendas) confirmou o verdadeiro parentesco do jovem rei. Ouvindo essa afirmação, os sacerdotes egípcios deificaram Alexandre como faraó. Daí em diante, ele será mostrado nas moedas de seu reino como Zeus­-Amon, ostentando dois chifres. Na qualidade de um deus, Alexandre passou a considerar seu desejo de escapar do destino dos mortais não um privilégio, mas um direito.

Saindo do Grande Oásis, Alexandre foi para Karnak, ao sul, o centro da adoração de Amon, numa viagem que tinha mais coisas do que saltava à vista. Grande centro religioso desde 3.000 a.C., Karnak era um conglomerado de templos, santuários e monumentos a Amon construídos por várias gerações de faraós. Uma das mais colossais e impressionantes edificações era o templo mandado erigir pela rainha Hatshepsut mil anos antes da época de Alexandre. Essa soberana também tinha a fama de ser filha de Amon, tendo nascido de uma rainha a quem o deus visitara sob um disfarce!

Não se sabe o que aconteceu em Karnak, mas o fato é que em vez de conduzir suas tropas de volta ao leste, na direção do coração do Império Persa, Alexandre escolheu uma pequena escolta e alguns amigos fiéis para o acompanharem numa expedição ainda mais para o sul. Seus perplexos companheiros foram levados a acreditar que o rei estava saindo numa viagem de recreio, procurando os prazeres do amor.

Esse interlúdio tão pouco característico foi incompreensível tanto para os generais de Alexandre como para os historiadores da época. Tentando racionalizar os que registraram as aventuras do jovem rei descreveram a mulher que ele pretendia visitar como uma femme fatale "cuja beleza nenhum homem vivo conseguiria elogiar de maneira suficiente". Ela era Candace, rainha de um país ao sul do Egito (o atual Sudão). Revertendo o conto sobre Salomão e a rainha de Sabá, desta vez foi o rei que viajou para a terra da rainha. Sem que seus companheiros soubessem, Alexandre procurava não o amor, mas o segredo da imortalidade.

Depois de uma estada agradável, a rainha Candace, como presente de despedida, concordou em revelar a Alexandre o segredo da localização da "maravilhosa caverna onde os deuses se congregam". Seguindo as indicações, o rei encontrou o lugar sagrado.

Ele entrou com alguns poucos soldados e viu uma névoa azulada. Os tetos brilhavam como iluminados por estrelas. As formas externas dos deuses estavam fisicamente manifestadas; uma multidão os servia em silêncio.

De início, ele (Alexandre) ficou surpreso e assustado, mas permaneceu ali para ver o que acontecia, pois avistou algumas figuras reclinadas cujos olhos brilharam como raios de luz.

A visão das "figuras reclinadas" conteve Alexandre. Seriam deuses ou mortais deificados? Então uma voz o assustou ainda mais. Uma das "figuras" tinha falado.

E houve um que disse: "Saudações, Alexandre, sabe quem sou?”

E ele (Alexandre) falou: "Não, meu senhor".

O outro disse: "Sou Sesonchusis, o rei conquistador do mundo que se juntou às fileiras dos deuses".

Alexandre encontrara exatamente a pessoa que procurava. Se ele estava surpreso, os ocupantes da caverna não pareciam muito impressionados. Era como se sua chegada fosse aguardada. Ele foi convidado a entrar para conhecer "o Criador e Supervisor de todo o Universo". Entrou e "viu uma névoa brilhante como fogo e, sentado num trono, o deus que uma vez avistara sendo adorado pelos homens de Rokôtide, o Senhor Serápis". (Na versão grega, foi o deus Dioniso.)

Alexandre aproveitou a oportunidade para tocar no assunto de sua longevidade: "Senhor, quantos anos viverei?!

Não houve resposta. Sesonchusis tentou consolar Alexandre, pois o silêncio do deus falou por si. Contou que, apesar de ter se juntado às fileiras dos deuses, "não tive tanta sorte como você... pois, embora tenha conquistado o mundo inteiro e subjugado tantos povos, ninguém se recorda de meu nome; mas você possuirá grande fama... terá um nome imortal mesmo depois da morte". E terminou confortando Alexandre com as seguintes palavras: "Você viverá ao morrer, e assim não morrerá", querendo dizer que ele seria imortalizado por uma fama duradoura.

Desapontado, Alexandre deixou as cavernas e "continuou a viagem que tinha de fazer" para procurar conselhos de outros sábios na tentativa de escapar do destino de um mortal, de imitar outros que antes dele tinham obtido êxito em se juntarem aos deuses imortais.

Segundo uma versão, entre aqueles que Alexandre partiu para procurar e encontrou foi Henoc, o patriarca bíblico dos tempos antes do dilúvio, o bisavô de Noé. O encontro deu-se num lugar nas montanhas, "onde fica situado o paraíso, a Terra dos Vivos", o 1ocal "onde moram os santos". No alto de uma montanha havia uma estrutura brilhante, de onde se elevava para o céu uma imensa escadaria feita de 2.500 lajes de ouro. Num vasto salão ou caverna, Alexandre viu "estátuas de ouro, cada uma em seu nicho", um altar de ouro e dois imensos "castiçais de ouro" com cerca de 20 metros de altura.

Sobre um divã próximo via-se a forma reclinada de um homem envolto numa colcha bordada com ouro e pedras preciosas, e acima dele estavam os galhos de uma videira feita de ouro, cujos cachos de uva eram formados por jóias.

O homem falou de repente, identificando-se como Henoc. "Não sonde os mistérios de Deus", alertou. Atendendo ao aviso, Alexandre partiu para juntar-se às suas tropas, mas não antes de receber como presente de despedida o cacho de uvas que milagrosamente alimentou todo seu exército.

Numa outra versão, Alexandre não encontrou apenas um, mas dois homens do passado: Henoc e o profeta Elias, que, segundo as tradições bíblicas, jamais morreram. O caso aconteceu quando o rei atravessava um deserto. Subitamente seu cavalo foi tomado por um "espírito" que o transportou, junto com seu cavaleiro, para um cintilante tabernáculo, onde Alexandre viu os dois homens. Seus rostos brilhavam, os dentes eram mais brancos do que leite, os olhos tinham o fulgor da estrela matutina. Tinham "grande estatura e aparência graciosa". Depois de contarem quem eram, eles disseram que "Deus escondeu-os da morte". Falaram também que aquele lugar era a "Cidade do Celeiro da Vida", de onde emanava a "cristalina Água da Vida". Mas, antes de Alexandre descobrir mais ou conseguir beber a água, um "carro de fogo" arrebatou-o dali e ele viu-se de novo com suas tropas.

(Segundo a tradição muçulmana, mil anos depois também o profeta Maomé foi levado para o céu montado em seu cavalo branco.)

O episódio da caverna dos deuses e tantos outros das histórias sobre Alexandre seriam pura ficção, meros mitos? Ou seriam contos embelezados, baseados em fatos históricos?

Existiu mesmo uma rainha Candace, uma cidade real chamada Shamar, um conquistador do mundo inteiro como Sesonchusis? Até bem recentemente, esses nomes pouco significavam para os estudiosos da Antiguidade. Se eram figuras da realeza egípcia ou de uma mítica região da África, estavam tão encobertos pelo passar dos séculos como os monumentos egípcios pela areia. Erguendo-se acima do deserto, as pirâmides e a esfinge só aumentavam o enigma.

Os hieróglifos, indecifráveis, apenas confirmavam a existência de segredos que talvez não devessem ser desvendados. Os relatos da Antiguidade transmitidos por gregos e romanos foram se dissolvendo em lendas c pouco a pouco caindo na obscuridade.

Foi só em 1798, quando Napoleão conquistou o Egito, que a Europa começou a redescobrir a região. Junto com as tropas de Napoleão chegaram pesquisadores sérios que passaram a remover a areia e a levantar a cortina do esquecimento. Então, perto da cidadezinha de Rosetta, foi encontrada uma placa de pedra com a mesma inscrição em três idiomas. Estava ali a chave para decifrar a língua e as inscrições do Egito Antigo, os registros dos feitos dos faraós, a glorificação de seus deuses.

Por volta de 1820, exploradores europeus, que penetraram na direção sul atingindo o Sudão, reportaram a existência de antigos monumentos, inclusive pirâmides de ângulos agudos, num ponto do Nilo chamado Méroe. Uma expedição real da Prússia descobriu impressionantes ruínas em escavações realizadas em 1842-1844. Entre 1912 e 1914, outros arqueólogos encontraram locais sagrados. Os hieróglifos indicaram que um deles era chamado de Templo do Sol - talvez o exato lugar onde os espiões de Cambises tinham visto "A Mesa do Sol". Escavações posteriores somadas aos dados já conhecidos, mais a contínua decifração dos hieróglifos estabeleceram que realmente existiu naquela região, no primeiro milênio a.C., um reino núbio. Era a bíblica Terra de Cuch.

E existiu mesmo uma rainha Candace. As inscrições revelaram que nos primórdios do reino núbio ele era governado por uma sábia e benevolente rainha chamada Candace. Daí em diante, sempre que uma mulher ascendia ao trono - o que não era incomum -, ela adotava o nome como símbolo de grande soberania. E, ao sul de Méroe, dentro do território desse reino, havia uma cidade chamada Sennar - possivelmente a Shamar mencionada nas lendas de Alexandre.

E quanto a Sesonchusis? A versão etíope do pseudo-Calístenes diz que quando Alexandre viajara para o (ou do) Egito, ele e seus homens passaram por um lago cheio de crocodilos. Ali um antigo governante mandara construir um caminho para a travessia do lago. "Havia uma edificação na margem do lago e sobre essa edificação ficava um altar pagão no qual se lia: 'Sou Coch, rei do mundo, o conquistador que atravessou este lago'.”

Seria esse conquistador do mundo um soberano que reinara sobre Cuch ou Núbia? Na versão grega dessa lenda, o homem que fizera o monumento para marcar a travessia do lago - descrito como parte das águas do mar Vermelho - chamava-se Sesonchusis. Assim, Sesonchusis e Coch seriam uma só pessoa, um faraó que reinou sobre o Egito e a Núbia. Os monumentos núbios mostram um governante como esse recebendo o Fruto da Vida, sob a forma de tamareiras, das mãos de um "Deus Brilhante".

Os registros egípcios falam de um grande faraó que, no início do segundo milênio a.C., foi realmente um conquistador do mundo. Seu nome era Senusret e ele também era devoto de Amon. Os historiadores gregos lhe atribuem a conquista da Líbia e da Arábia, e, significativamente, da Etiópia e de todas as ilhas do mar Vermelho, e mais de grandes partes da Ásia, penetrando mais a leste do que mais tarde fizeram os persas. Ele também teria invadido a Europa a partir da Ásia Menor. Heródoto descreveu os grandes feitos desse faraó, a quem chama de Sesóstris, acrescentando que ele erigia pilares comemorativos em todos os lugares por que passava.

"Os pilares que ele erigiu ainda são visíveis", escreveu Heródoto. Assim, quando Alexandre viu o pilar junto ao lago, teve a confirmação do que o historiador grego registrara um século antes.

Sesonchusis realmente existiu. Seu nome egípcio significa: Aqueles cujos nascimentos vivem". E, em virtude de ser um faraó do Egito, ele tinha todo o direito de ir juntar-se às fileiras dos deuses e viver para sempre.

Na procura pela Água da Vida ou eterna juventude, era importante ter-se certeza de que a busca não seria em vão, que outros tinham sido bem-sucedidos no passado. Além disso, se a água procedia de um paraíso perdido, encontrar os que nele haviam estado não seria um meio de descobrir como chegar até ele?

Foi com isso em mente que Alexandre tentou encontrar os Antepassados Imortais. Se realmente esteve com eles não é significativo. O importante é que nos séculos que precederam a era cristã, Alexandre ou seus historiadores (ou ambos) acreditavam que esses ancestrais realmente existiam, que em tempos para eles antigos e distantes os homens podiam se tornar imortais se os deuses assim o desejassem.

Os autores ou redatores das histórias de Alexandre contam vários incidentes onde o jovem rei encontrou-se com Sesonchusis, Elias e Henoc, ou apenas com este último. A identidade do faraó podia apenas ser adivinhada por eles e assim a maneira como Sesonchusis foi transladado para a imortalidade não é descrita. O mesmo não acontece com Elias, o companheiro de Henoc no Templo Brilhante, segundo uma das versões da lenda de Alexandre.

Elias é o profeta bíblico que viveu em Israel no século IX a.C., durante o reinado de Acab e Ocozias. Como indica o nome que adotou (Eliyah - "Meu Deus é Iahweh"), ele era inspirado pelo deus hebreu, cujos fiéis estavam sendo perseguidos pelos seguidores do deus cananeu Baal. Depois de um retiro num local secreto perto do rio Jordão, onde aparentemente foi instruído pelo Senhor, Elias recebeu "um manto tecido de pêlos" e tornou-se capaz de fazer milagres. Morando perto da cidade fenícia de Sídon, o primeiro milagre que ele realizou foi fazer um pouquinho de azeite e uma colher de farinha durarem para o resto da vida de uma viúva que lhe concedera abrigo. Logo em seguida, precisou clamar a Deus para reviver o filho dessa mulher, que acabara de falecer em virtude de "uma forte doença". Elias também podia convocar o Fogo de Deus, que vinha bem a calhar em seus contínuos entreveros com reis e sacerdotes que sucumbiram às tentações pagãs.

As escrituras dizem que Elias não morreu na Terra, pois "subiu ao céu num turbilhão". Segundo as tradições judaicas, Elias continua imortal e até hoje elas mandam que ele seja convidado a visitar os lares judeus na véspera da Páscoa. Sua ascensão ao céu está descrita com grandes detalhes no Velho Testamento. Como contado em II Reis, Capítulo 2, o evento não foi súbito ou inesperado. Ao contrário, tratou-se de uma operação planejada, cujo local e hora foram comunicados a Elias com antecedência.

O lugar marcado ficava no vale do Jordão, na margem esquerda do rio - talvez a mesma área onde Elias fora ordenado como "Homem de Deus". Quando saiu de Gilgal em sua última viagem, Elias encontrou dificuldade em livrar-se de seu dedicado discípulo Eliseu. Durante o caminho, os dois profetas foram repetidamente interpretados por discípulos menores, "os filhos dos profetas", que perguntavam se era verdade que naquele dia Deus levaria Elias para o céu.

Deixemos o narrador bíblico contar a história com suas próprias palavras:

Eis o que aconteceu quando Deus arrebatou Elias ao céu num turbilhão:

Elias e Eliseu partiram de Gilgal.

E Elias disse a Eliseu:

"Fica aqui, pois Iahweh me enviou só até Betel";

Mas Eliseu respondeu:

"Tão certo como Iahweh vive e tu vives, não te deixarei!"

E desceram a Betel.

Os filhos dos profetas que moravam em Betel foram ao encontro de Eliseu e disseram-lhe:

"Sabes que hoje Iahweh vai levar o mestre por sobre tua cabeça?”

Ele respondeu:

"Sei, mas calai-vos".

Desta vez Elias admitiu que seu destino era Jericó, às margens do rio Jordão, e pediu ao seu companheiro para parar ali e deixá-lo seguir sozinho. Novamente Eliseu recusou-se e insistiu em ir com o profeta. "E eles foram a Jericó.”

Os filhos dos profetas que moravam em Jericó aproximaram-se de Eliseu e lhe disseram:

"Sabes que hoje Iahweh vai levar teu mestre por sobre tua cabeça?”

Ele respondeu:

"Sei, mas calai-vos".

Contrariado em seu desejo de prosseguir sozinho, Elias pediu a Eliseu para ficar em Jericó e deixá-lo ir sozinho até a margem do rio, Todavia Eliseu recusou-se a se separar de seu mestre. Encorajados, "cinqüenta homens dos filhos dos profetas foram também, mas ficaram parados a distância enquanto os dois (Elias e Eliseu) se detinham à beira do Jordão".

Então Elias tomou seu manto, enrolou-o e bateu com ele nas águas, que se dividiram de um lado e de outro, de modo que ambos passaram a pé enxuto.

Depois que passaram para a outra margem, Eliseu pediu a Elias que lhe fosse dado o espírito santo, mas antes que pudesse ouvir uma resposta:

E aconteceu que enquanto andavam e conversavam eis que um carro de fogo e cavalos de fogo os separaram um do outro e Elias subiu ao céu no turbilhão.

Eliseu olhava e gritava:

Meu pai! Meu pai!

O carro e a cavalaria de Israel!

Depois não mais o viu...

Atordoado, Eliseu ficou imóvel por alguns instantes. Depois viu o manto que Elias deixara para trás. Isso acontecera por acidente ou fora proposital? Determinado a descobrir, Eliseu pegou o manto e voltou à margem do rio. Invocando o nome de Iahweh, bateu com ele nas águas e eis "que as águas se dividiram de um lado e de outro, e Eliseu atravessou o rio". E os filhos dos profetas, os discípulos que tinham ficado na margem esquerda do rio, na planície de Jericó, "viram-no a distância e disseram: 'O espírito de Elias repousa sobre Eliseu!'; vieram ao seu encontro e prostraram-se diante dele".

Incrédulos, apesar de terem visto com seus próprios olhos, os cinqüenta discípulos duvidaram que Elias fora mesmo levado ao céu para sempre. O turbilhão do Senhor podia tê-lo arrebatado e lançado em algum vale ou montanha. A despeito das objeções de Eliseu, eles o procuraram por três dias. Eliseu então falou: "Não dissera eu que não fôsseis?" Ora, ele sabia muito bem qual era a verdade: O Deus de Israel levara Elias para o céu num carro de fogo.

O relato do encontro de Alexandre com Henoc, que está nas lendas sobre o rei da Macedônia, introduziu na busca pela imortalidade um "antepassado imortal", especificamente mencionado tanto no Velho como no Novo Testamento, cujas lendas são muito anteriores ao aparecimento da Bíblia e já estavam registradas quando esta foi escrita. Segundo a Bíblia, Henoc foi o sétimo patriarca pré-­diluviano da linhagem de Adão através de Set (para distingui-lo da amaldiçoada linhagem proveniente de Caim). Ele era o bisavô de Noé, o herói do dilúvio. O quinto capítulo do Gênesis dá a lista das genealogias desses patriarcas, as idades com que tiveram seus primogênitos e a idade com que morreram. Entretanto, Henoc é uma exceção. Não existe menção sobre sua morte. Explicando que ele "andou com Deus", o Gênesis afirma que, com a idade real ou simbólica de 365 anos (o número de dias do ano solar), Henoc "desapareceu" da Terra, "pois Deus o arrebatou".

Ampliando essa crítica afirmação bíblica, os comentaristas judeus freqüentemente citaram fontes mais antigas que pareciam descrever a real ascensão ao céu de Henoc, onde ele foi transformado em Metatron, o "Príncipe do Semblante" de Deus, que ficava postado atrás de Seu trono.

Segundo essas lendas, como reunidas por I. B. Lavner em seu livro Kol Agadoth Israel (Todas as Lendas de Israel), quando Henoc foi chamado à casa do Senhor, um cavalo de fogo veio buscá-lo. Na época, o patriarca pregava virtude ao povo. Quando o povo viu o cavalo flamejante descendo do céu, pediu uma explicação a Henoc, que falou: "Saibam que chegou a hora de deixá-los e subir aos céus". Mas, quando ele começou a montar o cavalo, o povo recusou-se a deixá-lo partir e o seguiu por todos os lados durante uma semana. "Então, no sétimo dia, um carro de fogo puxado por anjos e cavalos flamejantes desceu e arrebatou Henoc." Enquanto o patriarca subia, os anjos queixaram-se ao Senhor: "Como pode um homem nascido de mulher ascender aos céus?" Deus salientou a piedade e devoção de Henoc e abriu para ele os Portões da Vida e da Sabedoria, e vestiu-o com uma roupa magnífica e uma coroa luminosa.

Como em outros casos, as referências mais críticas nas escrituras muitas vezes sugerem que o antigo redator partia da hipótese de que o leitor conhecia outros textos mais detalhados sobre o tema em questão. Existem até menções específicas a esses escritos - o "Livro da Virtude" ou "O Livro das Guerras de Iahweh" - que devem ter realmente existido, mas perderam-se no tempo. No caso de Henoc, o Novo Testamento amplia uma afirmação crítica de que o patriarca foi "levado" por Deus "a fim de escapar da morte", mencionando um Testemunho de Henoc, escrito ou ditado por ele antes de ser "arrebatado" para a imortalidade. (Hebreus, 11:5.) Considera-se que a Epístola de São Judas, 14, falando das profecias de Henoc, faz referências a textos escritos pelo patriarca.

Vários escritos cristãos ao longo dos séculos também contêm insinuações ou referências similares. De fato, circulam pelo mundo, desde o século II a.C., diferentes versões de um Livro de Henoc. Quando os manuscritos foram estudados no século XIX, os eruditos concluíram que eles provinham basicamente de duas fontes. A primeira, identificada como I Henoc e chamada de O Livro Etíope de Henoc, é a tradução para o grego de um original em hebraico ou aramaico. A outra, chamada II Henoc, é uma tradução eslávica de um original grego cujo título completo era O Livro dos Segredos de Henoc. The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament (Os Apócrifos e Pseudoepígrafes do Velho Testamento), que R. H. Charles começou a publicar em 1913, ainda é a principal tradução dos livros de Henoc e outros escritos primitivos que foram excluídos do Velho e Novo Testamentos canonizados.

Escrito na primeira pessoa, O Livro dos Segredos de Henoc começa numa hora precisa e em local determinado.

No primeiro dia do primeiro mês do 365º. ano eu estava só em minha casa, repousando em meu leito, e adormeci... Então surgiram diante de mim dois homens muito altos, como eu jamais vira na Terra. Tinham o rosto brilhante como o sol, os olhos eram como candeias acesas e fogo saía de seus lábios. As vestes que usavam pareciam de penas, os pés eram roxos. Suas asas eram mais brilhantes do que o ouro e as mãos mais brancas do que a neve. Eles estavam junto à cabeceira e me chamaram pelo nome.

Como Henoc dormia quando esses estranhos chegaram, ele faz questão de registrar que agora estava acordado: "Vi claramente esses homens parados diante de mim". O patriarca saudou-os, tomado pelo medo, mas os dois o tranqüilizaram:

Alegra-te, Henoc, não te assustes.

O Deus Eterno mandou­-nos aqui e hoje tu ascenderás conosco ao céu.

Os dois então disseram a Henoc para acordar sua família e os criados, dando-lhes ordens para não procurá-lo "até o Senhor devolver-te a eles". O patriarca obedeceu, aproveitando a oportunidade para instruir seus filhos sobre o caminho da virtude. Então chegou a hora da partida:

Quando terminei de falar com meus filhos, os dois homens me chamaram, tomaram-me em suas asas e me colocaram nas nuvens; e eis que as nuvens se movimentaram... Subindo mais, vi o ar e, mais alto ainda, o espaço celeste. Inicialmente eles me puseram no Primeiro Céu e mostraram-me um mar imenso maior do que o terrestre.

Ascendendo ao céu em "nuvens que se movimentavam", Henoc foi transportado para o Primeiro Céu, onde "duzentos anjos governam as estrelas", e em seguida para o sombrio Segundo Céu. Daí ele foi para o Terceiro, onde lhe mostraram:

Um jardim agradável à vista, belas e perfumadas árvores e frutos. No meio dele fica uma Árvore da Vida - no lugar onde Deus repousa quando vem ao paraíso.

Impressionado com a magnificência da árvore, Henoc tenta descrever a Árvore da Vida com as seguintes palavras: "Ela é mais bela do que qualquer coisa já criada; em todos os lados parece feita de ouro e carmim, e é transparente como o fogo". Das raízes saíam quatro rios que vertiam mel, leite, vinho e azeite, e eles desciam desse paraíso celeste para o Jardim do Éden fazendo uma volta em torno da Terra. Esse Terceiro Céu e sua Árvore da Vida eram guardados por trezentos anjos "muito gloriosos" e era ali que ficavam situados o Lugar dos Justos e o Lugar Terrível, onde os maus sofriam torturas.

Subindo para o Quarto Céu, Henoc pôde ver os luminares e várias criaturas formidáveis, além da Hoste do Senhor. No Quinto Céu, mais "hostes"; no Sexto, "bandos de anjos que estudam a revolução das estrelas". Atingindo o Sétimo Céu, onde os maiores anjos andavam apressadamente de um lado para o outro, Henoc viu Deus - "de longe" - sentado em seu trono.

Os dois homens alados e sua nuvem movente colocaram o patriarca na fronteira do Sétimo Céu e partiram. Por isso, o Senhor mandou o anjo Gabriel buscá-lo para trazê-lo a Sua Presença.

Durante 33 dias Henoc foi instruído sobre toda a sabedoria e eventos do passado e futuro. Depois desse período, um anjo "com fisionomia muito fria" o devolveu à Terra. No total, Henoc ficou sessenta dias ausente da Terra. Todavia, esse retorno só se deu para ele poder ensinar aos filhos as leis e mandamentos. Trinta dias depois, o patriarca foi novamente levado para o céu - desta vez para sempre.

Escrito tanto na forma de testamento pessoal como na de uma resenha histórica, o Livro Etíope de Henoc, cujo título primitivo provavelmente era Palavras de Henoc, descreve não apenas as viagens para o céu como também uma jornada pelos quatro Cantos da Terra. Enquanto viajava "para os confins norte da Terra", o patriarca avistou "um grande e glorioso artefato", cuja natureza não é descrita, e nesse local, bem como nos confins leste da Terra, viu "três portais do céu dentro do céu", através dos quais sopravam granizo e neve, frio e geada.

"Daí fui para os confins sul da Terra" e lá, pelos portais do céu, saíam o orvalho e a chuva. Em seguida, Henoc foi ver os portais ocidentais, através dos quais passavam as estrelas seguindo seu curso.

No entanto, os principais mistérios e segredos do passado e futuro só foram revelados a Henoc quando ele chegou "ao meio da Terra" e para o leste e oeste desse ponto. O "meio da Terra" era o local do futuro Templo Sagrado de Jerusalém. Em sua viagem para o leste desse lugar, Henoc chegou à Árvore do Conhecimento e, na para o oeste, foi-lhe mostrada a Árvore da Vida.

Na jornada para o leste, Henoc passou por montanhas e desertos, viu cursos de água saindo de picos rochosos cobertos de neve e gelo ("água que não corre") e mais árvores perfumadas. Seguindo cada vez mais para o leste, encontrou-se sobre as montanhas que ladeiam o mar de Eritreu (mar Vermelho e o mar da Arábia) e, prosseguindo, passou por Zotrel, o anjo que guardava a entrada do paraíso, e entrou no Jardim da Virtude. Lá, entre muitas árvores magníficas, avistou a Árvore do Conhecimento. Era alta como um pinheiro, com folhas parecidas com a da alfarrobeira e frutos como os cachos de uma videira. O anjo que acompanhava Henoc confirmou que aquela era exatamente a árvore cujo fruto Adão e Eva tinham comido antes de serem expulsos do Jardim do Éden.

Em sua viagem para oeste, Henoc chegou a "uma cadeia de montanhas de fogo, que ardiam dia e noite". Mais além, chegou a um lugar cercado por seis montanhas separadas por "ravinas íngremes e profundas". Uma sétima montanha elevava-se entre elas "parecendo um trono, toda cercada de árvores aromáticas; entre elas havia uma cujo perfume eu jamais sentira... e seus frutos eram como as tâmaras de uma palmeira".

O anjo que acompanhava Henoc explicou que a montanha do meio era o trono "onde o Grande Santo, o Senhor da Glória, o Rei Eterno irá sentar-se quando vier à Terra". E a respeito da árvore, cujos frutos pareciam tâmaras, disse:

Quanto à árvore perfumada, nenhum mortal tem permissão de tocá-la até o Grande Julgamento...

Seus frutos serão alimento para os eleitos...

Seu aroma estará em seus ossos

E eles terão vida longa na Terra.

Foi durante essas viagens que Henoc viu "os anjos receberem longos cordões, pegarem suas asas e partirem para o norte". Quando perguntou o que estava acontecendo, o anjo acompanhante falou: "Eles partiram para medir... trarão as medidas dos justos para os justos e as cordas dos justos para os justos... todas essas medidas revelarão os segredos da Terra".

Terminada a viagem a todos os locais secretos da Terra, chegou a hora de Henoc partir para o céu. E, como outros depois dele, foi levado para uma "montanha cujo cume alcançava o céu" e para um País das Trevas.

E eles (os anjos) me levaram a um lugar onde os que lá estavam eram como fogo flamejante e, quando desejavam, apareciam como homens.

E eles me levaram para um lugar de trevas e para uma montanha cujo pico chegava ao céu.

E eu vi a câmara dos luminares, os tesouros das estrelas e do trovão nas grandes profundezas, onde havia um arco e flechas flamejantes com sua aljava, uma espada flamejante e todos os raios.

No caso de Alexandre, nessa etapa crucial da jornada a imortalidade escapou de suas mãos porque ele fora procurá-la contrariando seu destino. No entanto, Henoc, como os faraós depois dele, viajava sob a bênção divina. Assim, nesse ponto foi considerado digno de prosseguir e por isso "eles me levaram à Água da Vida".

Continuando em frente, o patriarca chegou à Casa de Fogo:

Entrei até me aproximar de uma parede feita de cristais e cercada de línguas de fogo, o que me causou medo.

Avancei por entre as labaredas e cheguei perto de uma grande casa feita de cristais. As paredes e o assoalho eram um mosaico de cristal. O teto parecia o caminho das estrelas e dos raios, e entre eles pairavam flamejantes querubins e seu céu era como água.

Um fogo resplandecente cercava as paredes e os portais ardiam com fogo.

Entrei nessa casa e ela era quente como o fogo e fria como o gelo...

Olhei para dentro dela e vi um imponente trono. Parecia de cristal e suas rodas eram como o sol brilhante, e houve o aparecimento de querubins.

E, por sob o trono saíam rios de fogo, de modo que não pude olhar além dele.

Depois de atingir o "Rio de Fogo", Henoc foi levado para o alto. Então pôde ver toda a Terra - "as desembocaduras de todos os rios da Terra... todos os marcos de fronteira da Terra... e os ventos carregando as nuvens". Subindo mais, ficou onde os ventos estiram as abóbadas da Terra e têm sua estação entre o céu e a Terra. Vi os ventos do céu que giram e trazem a circunferência do Sol e de todas as estrelas. Seguindo "os caminhos dos anjos", Henoc chegou a um ponto do "firmamento do céu acima", do qual pôde ver "o fim da Terra".

Desse lugar, conseguiu avistar a expansão dos céus e "sete estrelas como grandes montanhas cintilantes", "sete montanhas de magníficas pedras". Do ponto onde observava esses corpos celestiais, "três ficavam para o leste, na região do fogo celeste", e foi ali que o patriarca viu "colunas de fogo" subindo e descendo, erupções "além de qualquer medida, tanto em largura como comprimento". No outro lado, os três corpos celestiais estavam "para o sul" e lá Henoc viu "um abismo, um lugar sem firmamento do céu sobre ele e nenhuma terra firme embaixo... um vácuo, um local assustador". Quando pediu uma explicação ao anjo que o transportava, ouviu: "Lá os céus foram completados... é o fim do céu e da Terra, uma prisão para as estrelas e hostes do céu".

A estrela do meio "chegava ao céu como o trono de Deus". Dava a impressão de ser de alabastro "e a cúpula do trono parecia feita de safira". A estrela era como "um fogo flamejante".

Continuando o relato sobre sua viagem aos céus, Henoc diz: "Prossegui até onde as coisas eram caóticas e lá vi algo terrível". O que o impressionou foram "estrelas do céu amarradas umas às outras". O anjo explicou: "São as estrelas do céu que transgrediram o mandamento do Senhor e estão presas aqui até 10 mil anos se passarem".

O patriarca então conclui sua história: "E eu, Henoc, sozinho vi a visão, o fim de todas as coisas, e nenhum homem os verá como eu". Depois de receber todo tipo de sabedoria no reino celestial, ele foi devolvido à Terra para transmitir esses ensinamentos aos outros homens. Por um período de tempo não especificado, "Henoc permaneceu escondido e nenhum filho de homem sabia onde ele morava ou o que fora feito dele". Porém, quando o dilúvio se aproximava, Henoc escreveu seus ensinamentos e aconselhou seu bisneto Noé a ser virtuoso e digno de salvação.

Cumprida essa obrigação, o patriarca mais uma vez "foi elevado de entre aqueles que habitavam a Terra. Ele foi carregado para o alto na Carruagem dos Espíritos e seu nome desapareceu entre eles".

3

A VIAGEM DO FARAÓ PARA A OUTRA VIDA

As lendas sobre as aventuras de Alexandre e sua busca pela vida eterna que se disseminaram pela Europa da Idade Média continham elementos claramente extraídos dos relatos sobre os antepassados imortais, como cavernas, anjos, fogo subterrâneo, cavalos e carruagens de fogo. Todavia, antes da era cristã, a crença generalizada (também de Alexandre, seus historiadores ou ambos) era que quem desejava atingir a imortalidade precisaria imitar os faraós egípcios.

Foi devido a essa crença que a alegada semi-divindade de Alexandre teve de ser atribuída a um complicado envolvimento com uma deidade egípcia em vez de ele simplesmente alegar uma afinidade qualquer com um deus de sua região. É um fato histórico, não mera lenda, que o rei da Macedônia achou necessário, assim que rompeu as fileiras persas na Ásia Menor, seguir para o Egito - e não perseguir o inimigo -, onde procuraria a confirmação de suas supostas "raízes egípcias", podendo então começar sua busca pela Água da Vida.

Enquanto os hebreus, gregos e outros povos da Antiguidade contavam lendas sobre alguns poucos homens que escaparam do destino dos mortais por terem recebido um convite divino, os antigos egípcios transformaram esse privilégio num direito. E não era um direito universal, nem algo reservado aos excepcionalmente virtuosos, mas um direito restrito ao soberano egípcio pelo simples fato de ele ocupar o trono. O motivo, segundo as tradições do Egito Antigo, era que os primeiros reis daquela terra não tinham sido homens, mas deuses.

Essas tradições egípcias afirmavam que em épocas imemoriais os "Deuses do Céu" chegaram à Terra, vindos do Disco Celestial. Quando o Egito sofreu uma grande inundação, "um grande deus que veio (à Terra) no mais antigo dos tempos" chegou ao país e literalmente ergueu-o de sob as águas e lama, representando o Nilo e fazendo extensas obras de drenagem e contenção. (Era por isso que o Egito tinha o nome de "Terra Elevada".) Esse antigo deus chamava-se Ptah - "O Construtor". Contava-se que ele era um grande cientista, mestre engenheiro e arquiteto, o Principal Artífice dos deuses, que até contribuíra para a criação e formação do homem. Seu cajado freqüentemente era mostrado sob a forma de uma vara graduada, bem parecida com a usada pelos agrônomos modernos na medição de terras .

Segundo as tradições, Ptah retirou-se para o sul, onde pôde controlar as águas do Nilo por intermédio das comportas que instalara numa caverna secreta localizada na primeira catarata do rio (o local da atual represa de Assuã). Todavia, antes de deixar o Egito, Ptah construiu sua primeira cidade sagrada e deu-lhe o nome de An, em honra ao Deus do Céu (a bíblica On, que os gregos chamavam de Heliópolis). Ali instalou como primeiro governante divino do país seu próprio filho, Ra (assim chamado em honra do globo celeste).

Ra, um grande "Deus do Céu e da Terra", mandou construir um santuário especial em An para abrigar o Ben-ben - o "objeto secreto" que transportara à Terra.

Com o passar do tempo, Ra acabou dividindo o reino entre seus dois filhos, Osíris e Set, mas o governo conjunto dos irmãos não deu certo. Set estava sempre tentando derrubar e matar Osíris. Depois de muitas marchas e contramarchas, Set finalmente conseguiu enganar Osíris fazendo-o entrar num ataúde, que logo mandou vedar e afundar. Ísis, irmã e esposa de Osíris, conseguiu encontrar o ataúde, que flutuara, indo chegar às praias do atual Líbano. Esta escondeu o corpo do marido e partiu para pedir ajuda aos outros deuses que poderiam ressuscitar Osíris. Set, porém, descobriu o corpo e cortou-o em pedaços, dispersando-­os pelos quatro cantos da Terra. Auxiliada por sua irmã, Néftis, Ísis conseguiu reunir todos os pedaços (exceto o falo) e, recompondo o corpo mutilado do marido, devolveu-o à vida.

Osíris, ressuscitado, foi viver no Outro Mundo, entre os outros deuses celestiais. Dele as sagradas escrituras egípcias falam:

Ele adentrou os Portões Secretos,

A glória dos Senhores da Eternidade,

Ao lado daquele que brilha no horizonte,

No caminho de Ra.

O lugar de Osíris no trono do Egito foi assumido por seu filho, Hórus. Quando ele nasceu, sua mãe, Ísis, o escondeu entre os juncos do Nilo (exatamente como, segundo a Bíblia, fez a mãe de Moisés) para mantê-lo fora do alcance de Set. O menino, porém, foi picado por um escorpião e morreu. Sem perder tempo, Ísis apelou a Thot, um deus com poderes mágicos, que acorreu em seu socorro. Thot, que estava nos céus, veio à Terra no "Barco dos Anos Astronômicos", de Ra, e ajudou-a a trazer Hórus de volta à vida.

Ao crescer, Hórus desafiou Set pelo trono. A luta estendeu-se por vários territórios, os deuses perseguindo-se pelos céus. Hórus atacou Set de um Nar, termo que no antigo Oriente Médio significava "Pilar Flamejante". As ilustrações do Período Pré-Dinástico do Egito mostram esse carro celestial como um longo objeto cilíndrico com uma cauda parecida com um funil e uma ponta rombuda, da qual saem raios, um tipo de submarino celestial. Na parte dianteira, o Nar tinha dois faróis, ou "olhos", que, de acordo com as lendas egípcias, mudavam de cor, passando do azul para o vermelho.

Houve marchas e contramarchas nas lutas, que duraram vários dias. Do Nar, Hórus disparou um "arpão" especialmente projetado contra Set. Este ficou ferido, perdendo os testículos, o que só serviu para deixá-lo ainda mais furioso. Na batalha final, sobre a península do Sinai, Set disparou um raio de fogo em Hórus e este perdeu um "olho". Os grandes deuses solicitaram uma trégua e reuniram-se em conselho. Depois de muita vacilação e indecisão, o Senhor da Terra decidiu-se em favor de Hórus e concedeu-lhe o Egito, declarando-o legítimo herdeiro da linha de sucessão Ra-Osíris. Depois disso, Hórus passou a ser representado com os atributos do falcão, enquanto Set era mostrado como uma deidade asiática, simbolizado pelo jumento, o animal de carga dos nômades.

A ascensão de Hórus ao trono unido das Duas Terras (Alto e Baixo Egito) manteve-se, ao longo de toda a história egípcia, como o ponto onde a realeza recebeu sua perpétua conexão divina, pois todo Faraó era considerado sucessor de Hórus e ocupante do trono de Osíris.

Por motivos inexplicados, o governo de Hórus foi seguido de um período de caos e declínio. Não se sabe quanto tempo ele durou. Finalmente, por volta de 3.200 a.C., uma "raça dinástica" chegou à região e um homem chamado Menés ascendeu ao trono de um Egito reunificado. Foi então que os deuses concederam ao país a civilização e aquilo que hoje chamamos de religião. O reinado iniciado por Menés continuou por 26 gerações de Faraós até a dominação persa em 525 a.C. e depois atravessou os períodos grego e romano (quando reinou Cleópatra).

Quando Menés, o primeiro faraó, estabeleceu o reino unido, escolheu um ponto médio do Nilo, um pouco ao sul de Heliópolis, para nele instalar a capital dos dois Egitos. Imitando as obras de Ptah, mandou fazer um aterro elevando-se acima das águas do Nilo e nele construiu Mênfis, dedicando seus templos a Ptah. Mênfis perdurou como centro político-religioso do país por mais de mil anos.

A cerca de 2.200 a.C., houve grandes conturbações no Egito, cuja natureza não está clara para os estudiosos. Alguns acham que invasores asiáticos dominaram o país, escravizando o povo e acabando com a adoração dos deuses. Seja o que tenha restado de um simulacro de independência, ele foi mantido no Alto Egito - as regiões menos acessíveis ao sul. Quando a ordem foi restaurada, cerca de 150 anos depois, o poder político-religioso - atributo da realeza ­emanava de Tebas, uma antiga mas não tão imponente cidade do Alto Egito, às margens do Nilo.

O deus de Tebas era chamado Amen - "O Oculto" -, o Amon que Alexandre considerava seu divino pai. Como deidade suprema, ele era adorado como Amen-Ra, "O Ra Oculto", e não está bem claro se era o mesmo antigo Ra, agora de alguma forma invisível ou "oculto", ou uma outra divindade qualquer.

Os gregos chamavam Tebas de Dióspolis, "A Cidade de Zeus", pois igualavam Amon ao supremo deus do Olimpo, fato que tornou mais fácil para Alexandre ligar-se a Amon. Foi para Tebas que ele apressou-se a ir depois de receber a confirmação do oráculo no oásis de Siwa.

Em Tebas e suas redondezas (agora conhecidas como Karnar, Luxor e Deir-el-Bahari), Alexandre encontrou os santuários e templos dedicados a Amon, que continuam impressionantes nos dias de hoje, apesar de estarem em ruínas. Em sua maioria, esses monumentos foram construídos pelos faraós da 12ª. Dinastia, um dos quais provavelmente era "Sesonchusis", que procurara pela Água da Vida 1.500 anos antes do rei da Macedônia. Um dos templos colossais foi erigido pela rainha Hatshepsut, que também tinha a fama de ser filha do deus Amon.

Essas alegações de parentesco divino não eram incomuns. A reivindicação do faraó ao estado de divindade, baseado no simples fato de ocupar o trono de Osíris, às vezes era ampliada por alegações que o governante era filho ou irmão deste ou daquele deus ou deusa. Os estudiosos consideram que essas afirmações só têm significado simbólico, mas alguns faraós, como três reis da 5ª. Dinastia garantiam que eram fisicamente filhos de Ra, por ele gerados através da fecundação da esposa do alto sacerdote de seu templo.

Outros reis atribuíam sua descendência de Ra a meios mais sofisticados. Dizia-se que o deus incorporava-se no faraó reinante e, através desse subterfúgio, podia ter relações sexuais com a rainha. Assim, o herdeiro do trono podia afirmar ser descendente direto de Ra. Mas, além dessas pretensões específicas de uma origem divina, todos os faraós eram teologicamente considerados a encarnação de Hórus e assim, por extensão, filhos de Osíris. Em conseqüência, o faraó tinha direito à vida eterna exatamente da maneira experimentada por Osíris: ressurreição após a morte, uma Outra Vida.

Era a esse círculo de deuses e faraós semi-divinos que Alexandre ansiava se juntar.

A crença era de que Ra e os outros imortais conseguiam viver para sempre porque estavam sempre se rejuvenescendo. Assim, os faraós recebiam nomes significando, por exemplo, "Aquele que Repete Nascimentos" ou "Repetidor de Nascimentos". Os deuses rejuvenesciam ingerindo comida e bebida divinas em seu domicílio. Portanto, para o rei conseguir uma Outra Vida, desta vez eterna, precisaria se juntar aos deuses em sua morada, para também alimentar-se do divino sustento.

Os antigos encantamentos apelavam aos deuses para compartilharem com o faraó sua comida divina: "Levem este rei convosco para que ele possa comer o que comeis, beber o que bebeis, viver onde viveis". E, mais especificamente, como escrito na pirâmide do faraó Pepi:

Dai sustento a este rei Pepi

De vosso eterno sustento,

Vossa eterna bebida.

O falecido faraó esperava encontrar esse sustento no reino celestial de Ra, na "Estrela Imorredoura". Lá, num mítico "Campo das Oferendas" ou "Campo da Vida", crescia a "Planta da Vida". Um texto da pirâmide de Pepi I o descreve passando por guardas com a aparência de "pássaros emplumados", para ser recebido pelos emissários de Hórus. Com eles:

Ele viajou para o Grande Lago,

Junto ao qual descem os Grandes Deuses.

Os Grandes da Estrela Imorredoura

Dão a Pepi a Planta da Vida

Da qual eles vivem,

Para que ele também possa viver.

As representações egípcias mostram o falecido (às vezes com sua esposa) nesse paraíso celestial, bebendo a Água da Vida, da qual nasce a Planta da Vida, sob a forma de tamareira, com seus frutos doadores de vida.

O destino celestial do rei morto era o local de nascimento de Ra, ao qual este voltara depois de sua morte na Terra. Lá o próprio deus era sempre rejuvenescido ou "acordado de novo" porque periodicamente a Deusa dos Quatro Jarros lhe servia um certo elixir. Assim, a esperança do faraó era ser servido do mesmo elixir pela deusa, para "com ele refrescar seu coração para a vida". Quanto a Osíris, ele se rejuvenescia banhando-se na Água da Juventude. Por isso, foi prometido a Pepi I que Hórus "contará para ti uma segunda estação de juventude" e "renovará tua juventude nas águas que têm o nome de Água da Vida".

Depois de ganhar uma nova vida e até ficar rejuvenescido, o faraó levaria uma existência paradisíaca: "Sua provisão é entre os deuses: sua água é vinho, como a de Ra. Quando Ra come, dá a ele; quando Ra bebe, dá a ele". E, com um toque de psicoterapia do século XX, o texto acrescenta: "Ele dorme profundamente todos os dias... passa melhor hoje do que ontem".

O faraó parecia pouco preocupado com o paradoxo de que primeiro teria de morrer para então conseguir a imortalidade. Como surpresa governante das Duas Terras do Egito, ele gozava da melhor vida possível na Terra. Mesmo assim, a ressurreição entre os deuses era uma perspectiva muito atraente. Além disso, somente seu corpo físico seria embalsamado e emparedado, pois os egípcios acreditavam que cada pessoa possuía um Ba, algo semelhante ao que chamamos de "alma", que, como um pássaro, subia aos céus depois da morte, e também um Ka - em geral traduzido por Duplo, Espírito Ancestral, Essência ou Personalidade -, e era sob essas formas que o faraó via-se trasladado para a Outra Vida. Samuel Mercer, em sua introdução para os Textos das Pirâmides, concluiu que Ka significava a personificação mortal de um deus. Em outras palavras, o conceito sugeria a existência de um elemento divino no homem, um duplo celestial ou divino que podia retomar a vida no outro mudo.

Mas, se uma outra vida era possível, não era nada fácil obtê-la. O falecido rei tinha de viajar por uma longa e desafiadora estrada, e submeter-se a longas e elaboradas cerimônias antes de se pôr a caminho.

A deificação do faraó começava com sua purificação e incluía o embalsamento (mumificação) para ele ficar parecido com Osíris, com todos os membros amarrados por ataduras. O corpo embalsamado então era levado numa procissão fúnebre até uma edificação encimada por uma pirâmide, diante da qual havia um pilar oval.

Dentro desse templo funerário, sacerdotes conduziam rituais visando a aceitação do faraó pelos deuses no final da viagem. O rito, chamado nos textos fúnebres egípcios de "Abertura da Boca", era supervisionado por um sacerdote Shem - sempre mostrado vestindo uma pele de leopardo. Os estudiosos acreditam que o ritual era literalmente o que diz seu nome: o sacerdote, usando uma ferramenta curva de cobre ou ferro, abria a boca da múmia ou de uma estátua representando o faraó. No entanto, está claro que o ritual era primariamente simbólico, com o objetivo de abrir para o morto a "boca" ou entrada dos céus.

A essa altura. a múmia estava envolta em muitas camadas de ataduras de linho e coberta pela máscara fúnebre de ouro. Assim, tocar sua boca (ou da estátua) só podia ser um ato simbólico. De fato, o sacerdote não se dirigia ao falecido, mas aos deuses, pedindo-lhes para "abrirem a boca" para o faraó poder ascender à vida eterna. Eram feitos também apelos especiais ao "Olho" de Hórus, perdido na batalha com Set, para ele providenciar a "Abertura da Boca", de modo que fosse aberto "um caminho para o rei entre os Luminosos, para que ele possa se estabelecer entre eles".

A tumba terrestre do faraó (e assim, por conjetura, apenas temporária) - segundo os textos e descobertas arqueológicas - tinha uma porta falsa em seu lado leste, ou seja, a argamassa era assentada de modo a dar impressão da existência de uma porta, mas ali, na verdade, havia uma parede sólida. Purificado, com os membros amarrados e a "boca" aberta, o faraó então era visualizado levantando-se, sacudindo a poeira da Terra e saindo pela porta falsa. Segundo um relato nos Textos das Pirâmides que descreve o processo de ressurreição passo a passo, o faraó não podia atravessar a parede sozinho. "Tu estás diante da porta que contém as pessoas até ele, que é o chefe do departamento" - um mensageiro divino encarregado dessa tarefa -, "vir ao teu encontro. Ele segura-te pelo braço e te leva para o céu, para o teu pai.”

Assim, auxiliado por um mensageiro divino, o faraó saía da tumba lacrada pela porta falsa. E os sacerdotes cantavam: "O rei está a caminho do céu! O rei está a caminho do céu!”

O rei está a caminho do céu

O rei está a caminho do céu

No vento, no vento.

Ele não é impedido;

Não há ninguém para contê-lo.

O rei está só, filho dos deuses.

Seu pão virá do alto, com Ra.

Sua oferenda sairá dos céus.

O rei é aquele "Que Volta de Novo".

Porém, antes de o faraó subir ao céu para comer e beber com os deuses, precisava empreender uma árdua e perigosa viagem. Sua meta era um país chamado Neter-Khert, "A Terra dos Deuses da Montanha". Esse local às vezes era pictoricamente escrito em hieróglifos colocando-se o símbolo para Deus (Neter) sobre uma balsa, pois, de fato, para atingir essa terra o faraó tinha de atravessar um longo e tortuoso lago de Juncos. A área pantanosa seria vencida com a ajuda de um Barqueiro Divino. Todavia, antes de transportar o morto, ele o interpelava sobre suas origens: O que o fazia pensar que tinha o direito de atravessar o lago? Seria mesmo filho de um deus ou deusa?

Depois do lago, de um deserto e uma cadeia de montanhas, passando por deuses guardiães, o rei chegava ao Duat, a mágica "Morada para Subir às Estrelas", cuja localização e nome vêm confundindo os estudiosos há muito tempo. Alguns pensam que se tratava do Outro Mundo, a Morada dos Espíritos, para o qual o rei, tal como Osíris, deveria ir. Outros afirmam que ele era um Mundo Subterrâneo e, de fato, muitas das cenas que o descrevem mostram um labirinto de túneis, cavernas com deuses que não podem ser vistos, poças de água fervente, luzes fantasmagóricas, câmaras guardadas por pássaros e portas que se abrem sozinhas. Essa terra mágica possuía doze divisões e era atravessada em doze horas.

O Duat sempre foi motivo de perplexidade para os eruditos porque, apesar de sua natureza terrestre (era atingido através de uma passagem nas montanhas) e características subterrâneas, em hieróglifos seu nome era escrito com a utilização de uma estrela ou falcão alçando vôo como símbolos determinativos ou simplesmente com uma estrela dentro de um círculo indicando uma associação celestial.

Por mais confusos que sejam, os Textos das Pirâmides, ao seguirem o progresso do faraó ao longo de sua vida, morte, ressurreição e translação para uma Outra Vida, consideravam como o maior problema humano a incapacidade de voar como os deuses. Um deles resume esse problema e sua solução em duas sentenças: "Os homens são enterrados, os deuses voam para o alto. Façam com que este rei voe para o céu (para ficar) entre seus irmãos, os deuses". Um texto da pirâmide do faraó Teti expressava a esperança do faraó e seus apelos aos deuses nas seguintes palavras:

Homens caem,

Eles não têm Nome.

Peguem vosso Teti pelos braços.

Levem o rei Teti para o céu,

Para ele não morrer na Terra entre os homens.

E, assim, cabia ao faraó percorrer os labirintos subterrâneos até conseguir encontrar um deus que carregava a Árvore da Vida e um que era o "Arauto do Céu". Eles abririam as portas secretas e o levariam até o Olho de Hórus, uma escada celestial pela qual entraria num objeto capaz de mudar de cor, passando de azul para vermelho quando "potencializado". Então, ele mesmo transformado no deus-falcão, subiria aos céus para sua Outra Vida na Estrela Imorredoura. Lá, o próprio Ra lhe daria as boas-vindas.

Os Portões do Céu estão abertos para ti;

As portas do Lugar Fresco estão abertas para ti.

Tu encontrarás Ra parado ali, esperando por ti.

Ele tomará tua mão,

Ele te levará para o Duplo Santuário do Céu;

Ele te colocará no trono de Osíris...

Tu ficarás em pé, amparado, equipado como um deus...

Entre os Eternos, na Estrela Imorredoura.

Muito do que atualmente se sabe sobre o tema veio dos Textos das Pirâmides - milhares de versos agrupados em centenas de Elocuções - que foram descobertos gravados ou pintados (na escrita hieroglífica do Egito Antigo) nas paredes, passagens e galerias das pirâmides de cinco faraós - Unas, Teti, Pepi I, Merenra e Pepi II - que reinaram entre 2.350 e 2.180 a.C. Esses textos foram organizados e numerados por Kurt Sethe em sua magnífica obra Die altaegyptischen Pyramidentexte, que até hoje permanece como a mais importante fonte de referência sobre o assunto, junto com sua contrapartida em inglês, The Pyramid Texts, de Samuel A. B. Mercer.

Os milhares de versos que compõem os Textos das Pirâmides parecem ser apenas uma coleção de invocações repetitivas, desliga­ das umas das outras, com súplicas aos deuses e exaltação dos reis. Para obter algum sentido de todo esse material, os eruditos elaboraram teorias sobre uma mudança de teologias no Egito Antigo, com um conflito e posteriormente uma fusão entre uma "religião solar" e uma "religião celeste", entre um culto de Ra e um de Osíris, e assim por diante, salientando que estamos lidando com material que se acumulou ao longo de milênios.

Para os estudiosos que encaram essa massa de versos como expressões de mitologias primitivas, fruto da imaginação de pessoas que estremeciam de pavor ao ouvirem o trovão ou vento rugindo e chamavam esses fenômenos naturais de "deuses", esse versos continuam tão confusos como sempre. Porém, há um ponto sobre o qual não existem dúvidas: todos concordam que esses textos foram extraídos pelos escribas da época de escrituras mais antigas e aparentemente bem organizadas, coerentes e inteligíveis.

Inscrições posteriores em sarcófagos e ataúdes, e também em papiros (estes, em geral, acompanhados de ilustrações), comprovam que os versos, Elocuções e Capítulos - com títulos como "Capítulo daqueles que ascendem" - foram copiados do "Livro dos Mortos", como" Aquele que está no Duat", "O Livro dos Portões" ou "O Livro dos Dois Caminhos". Os peritos acreditam que, por sua vez, esses "livros" eram versões de duas obras básicas anteriores: velhos escritos que tratavam da jornada celestial de Ra e uma fonte qualquer posterior a eles enfatizando a bem­-aventurança na Outra Vida para aqueles que se juntassem a Osíris ressuscitado. Ambas falavam de comida, bebida e prazeres na Morada Celestial. Versos dessas antigas obras costumavam também ser gravados em talismãs para propiciarem ao usuário "união com mulheres noite e dia" ou "desejo de mulheres" o tempo todo.

As teorias acadêmicas, contudo, deixam sem explicação os aspectos mais intrigantes das informações oferecidas por esses textos. O Olho de Hórus, por exemplo, era um objeto que existia independentemente do deus, sendo algo em cujo interior o faraó podia entrar e que mudava de cores, indo do azul para o vermelho, quando era "potencializado". Há também balsas auto-propelidas, portas que se abrem sozinhas, deuses de rostos brilhantes que não podem ser vistos. No Mundo Subterrâneo, supostamente habitado somente por espíritos, são mostrados "cabos de cobre" e "pontes levadiças". E o mais intrigante aspecto de todos: Por que, se a transfiguração do faraó o levava para o Mundo Subterrâneo, os textos afirmam que "o rei está indo para o céu?”

No conjunto, os versos indicam que o rei está seguindo o caminho dos deuses, atravessando um lago da mesma maneira que um deus fez anteriormente, usando um barco como o de Ra e ascendendo "equipado como um deus", tal como Osíris etc. etc. Então nos ocorrem as perguntas: E se esses textos não eram fantasias primitivas, mera mitologia, mas relatos sobre uma viagem simulada, onde o falecido faraó era visualizado imitando o que os deuses realmente tinham feito? Não seriam esses textos cópias (com a substituição do nome dos deuses pelo do rei) de escrituras mais antigas, tratando das viagens de deuses, não de faraós?

Um dos mais famosos egiptólogos do passado, Gaston Maspero (L'Archéologie Égyptienne e outras obras), analisando os Textos das Pirâmides com base na forma gramatical e outros indícios, sugeriu que eles se originaram nos primórdios da civilização egípcia, talvez até mesmo antes do surgimento da escrita com hieróglifos. Mais recentemente, J. H. Breasted, em Development of Religion and Thought in Ancient Egypt (Desenvolvimento da Religião e Pensamento no Egito Antigo), concluiu que não resta dúvida de que existiu um material mais antigo, quer o possuamos ou não. Ele encontrou nos textos informações sobre condições de civilização e eventos que confirmam a veracidade dos textos como transmissores de informações factuais e não meras fantasias. "Para alguém de imaginação ativa", diz Breasted, "eles abundam em quadros de um mundo há muito desaparecido, do qual são apenas um reflexo.”

Vistos em seu todo, os textos e ilustrações posteriores descrevem uma viagem a um reino que começa ao nível do solo, prossegue para o subsolo e termina numa abertura pela qual os deuses - e os reis que os imitavam - eram lançados em direção ao céu. Daí a conotação hieroglífica combinando um local subterrâneo com uma função celestial.

Terão os faraós, saindo de seus sepulcros para a Outra Vida, realmente feito esse caminho para o céu? Os próprios antigos egípcios afirmavam que a viagem não era para ser feita pelo cadáver mumificado, mas pelo Ka (Duplo) do rei. Porém, eles visualizaram esse Duplo reencenando um avanço real por lugares que acreditavam verdadeiramente existir.

Então, se os textos refletem um mundo que existiu mesmo, a viagem do faraó para a imortalidade, embora sendo uma imitação, não estaria seguindo passo a passo viagens verdadeiras feitas em épocas pré-históricas?

Sigamos esses passos; entremos no Caminho dos Deuses.

4

A ESCADA PARA O CÉU

Imaginemo-nos no magnífico templo funerário do faraó. Depois de terem mumificado e preparado o corpo, os sacerdotes Shem agora cantam para os deuses, pedindo-lhes para abrir um caminho e portões. O mensageiro divino já chegou ao outro lado da porta falsa, pronto a ajudar o faraó a passar pela parede de pedra e iniciá-lo em sua viagem.

Ao passar pela porta falsa no lado leste da tumba, o Ka do faraó recebia instruções sobre o rumo que deveria tomar. Para não haver equívocos, ele era explicitamente alertado para não seguir para oeste. "Os que para lá vão, jamais voltam!" Seu destino era o Duat, na Terra dos Deuses da Montanha. Lá, ele entraria na "Grande Casa dos Dois... a Casa de Fogo", onde, durante uma "noite de anos somados", seria transformado num Ser Divino, ascendendo "para o lado leste do céu".

O primeiro obstáculo na rota do faraó era o lago de Juncos, uma grande área pantanosa constituída por um série de lagoas contíguas. Em termos simbólicos, ele tinha a bênção de seu deus guardião, que separaria as águas do lago para facilitar-lhe a travessia. Em termos práticos, a viagem pelos pântanos só seria possível porque no lago havia o Barqueiro Divino que transportava os deuses num barco construído por Khnum, o Divino Artesão. O barqueiro, contudo, ficava estacionado na outra margem do lago e o faraó encontrava grande dificuldade em convencê-lo de que tinha direito de ser apanhado e transportado.

O barqueiro interrogava o faraó sobre suas origens. Era mesmo filho de um deus ou uma deusa? Tinha o nome inscrito no "Registro dos Dois Grandes Deuses"? O rei explicava sua reivindicação de ser de "semente divina" e dava garantias de sua retidão. Em alguns casos, apenas isso era o bastante. Em outros, o faraó precisava apelar a Ra ou Thot para conseguir atravessar o lago, quando então o barco, remos e timão adquiriam vida própria, tomados por forças estranhas, e o rei só tinha de ficar segurando o leme, que era autopropulsionado. Bem, o fato é que, de uma forma ou de outra, o faraó conseguia atravessar o lago e dirigir-se para "Os Dois que Trazem o Céu mais Perto".

Ele desce para o barco, como Ra, nas margens das Águas Meandrantes.

O rei rema no barco Hanbu

Ele pega o leme que o leva

Para a planície de "Os Dois que Trazem o Céu mais Perto",

Na terra que começa depois do lago de Juncos.

O lago de Juncos ficava situado na margem leste dos domínios de Hórus. Além dele, localizavam-se os territórios de seu adversário, Set, as "terras da Ásia". Como seria de se esperar numa fronteira tão delicada, o faraó descobria que a margem leste era patrulhada por quatro "guardas de travessia, aqueles que usam cachos nos lados da cabeça". O penteado desses guardas era, sem dúvida alguma, sua característica mais notável. "Negros como carvão (os cabelos) eram arranjados em cachos em torno da testa, têmporas e nuca, com tranças no meio da cabeça." , Combinando diplomacia com firmeza, o faraó novamente confirmava suas origens divinas, garantindo que fora chamado por "meu pai, Ra". Conta-se que um rei usou de ameaças: "Retardem minha travessia e eu arrancarei seus cachos como se arrancam flores de lótus da lagoa!" Outro clamou aos deuses para virem em seu auxílio. O fato é que, usando um expediente qualquer, o faraó conseguia prosseguir em sua jornada.

O rei agora deixa as terras de Hórus. O lugar ao leste que tenta alcançar, embora ele viaje sob a égide de Ra, fica na "região de Set". Sua meta é uma área montanhosa, as Montanhas do Leste e a rota o leva para uma passagem entre duas montanhas, "as duas montanhas que se atemorizam diante de Set". No entanto, o faraó primeiro precisa atravessar uma região árida e estéril, um tipo de terra de ninguém entre os domínios de Hórus e Set. É nesse ponto que os versos das Elocuções crescem em ritmo e urgência, pois o rei está se aproximando do lugar Oculto, onde ficam localizadas as Portas do Céu, e outros guardas vêm interpelá-lo: "Aonde vais?”

Os protetores do Faraó respondem por ele: "Ele vai para o céu para ter vida e alegria; para poder ver seu pai, para poder ver Ra". Enquanto os guardas analisam o pedido, o próprio faraó suplica: "Abram a fronteira... inclinem a barreira... deixem-me passar como passam os deuses".

Tendo vindo do Egito, das terras de Hórus, o rei e seus protetores reconhecem a necessidade de prudência. Nessa altura, muitos versos e elocuções são empregados para deixar claro que o faraó é uma pessoa neutra na briga entre os deuses. Ele é apresentado tanto como "nascido de Hórus, aquele diante de cujo nome a Terra treme", como "concebido por Set, aquele diante de cujo nome o céu treme". O faraó enfatiza não somente sua afinidade com o deus Ra, pai dos dois, como também declara que viaja "a serviço de Ra", com isso criando um salvo-conduto vindo de uma autoridade mais alta. Com astuciosa eqüidistância, os Textos das Pirâmides fazem ver aos grandes deuses que eles teriam interesse na continuação da viagem, pois Ra sem dúvida apreciaria à ajuda dada a alguém viajando a seu serviço.

Finalmente os guardas da terra de Set permitem que o faraó continue em direção ao desfiladeiro. Seus protetores certificam-se de que ele está consciente da importância do momento:

Tu agora estás a caminho dos lugares altos

Na terra de Set.

Na terra de Set.

Tu serás colocado nos lugares elevados,

Naquela alta Árvore do Céu do Leste

Onde sentam-se os deuses.

O rei chega ao Duat.

O Duat era concebido como um Círculo dos Deuses, em cuja parte superior havia uma abertura para o céu (simbolizado pela deusa Nut), através da qual podia ser alcançada a Estrela Imorredoura (simbolizada pelo Disco Celestial). Algumas fontes insinuam que na verdade essa área era um vale mais oblongo ou oval, cercado de montanhas. No qual havia um rio que se dividia em muitos braços, mas ele era pouco navegável e na maior parte do tempo o barco de Ra tinha de ser puxado ou movimentar-se sozinho, como um "barco de terra", um trenó.

O Duat tinha doze divisões, descritas de maneira variada com campos, planícies, círculos murados, cavernas ou salões, que começavam ao nível do solo e continuavam terra adentro. O falecido rei levava doze horas para atravessar esse impressionante e encantado reino, o que só era possível porque Ra colocava a sua disposição seu barco ou trenó mágico, onde ele viajava auxiliado pelos seus deuses protetores.

Havia sete espaços ou desfiladeiros nas montanhas que circundavam o Duat e dois deles ficavam nas montanhas ao leste do Egito (isto é, nas montanhas do lado oeste do Duat), que eram chamadas de "O Horizonte" ou "O Chifre" do "Lugar Oculto". O desfiladeiro que Ra atravessara tinha 220 atru (cerca de 40 quilômetros) de comprimento e seguia o curso de um rio. O rio, porém, costumava secar e o barco de Ra precisava ser puxado. O desfiladeiro era guardado e tinha fortificações "cujas portas eram fortes".

O faraó, como indicam alguns papiros, tomava a rota que levava para um segundo desfiladeiro, mais curto, com cerca de 22 quilômetros de comprimento. Os desenhos dos papiros o mostram no barco ou trenó de Ra passando entre dois picos de montanhas. Em cada um desses picos está postada uma companhia de doze deuses guardiães. Os textos descrevem também um Lago de Água Fervente próximo dessa área, cujas águas, a despeito de sua natureza flamejante, são frias ao toque. Um fogo queima no subsolo. O local tem um forte cheiro betuminoso ou de "sódio", que afasta os pássaros. No entanto, não muito longe dali, está representado um oásis com arbustos ou árvores baixas.

Uma vez vencido o desfiladeiro, o rei encontra outras companhias de deuses guardiães. "Entre em paz", dizem eles. O faraó chega, assim, à segunda divisão do Duat.

Essa segunda divisão é chamada, devido ao rio que atravessa, de Urnes, nome que alguns estudiosos comparam com Urano, o deus dos céus grego. Com cerca de 22 por 50 quilômetros, essa divisão é habitada por pessoas de cabelos compridos que comem a carne de seus jumentos e dependem dos deuses para água e sustento, pois o lugar é árido e os rios estão sempre secos. Até mesmo a embarcação do próprio Ra precisara se transformar num "barco de terra" para atravessá-la. Essa região está associada ao Deus da Lua e a Hathor, a Deusa da Turquesa.

Auxiliado pelos deuses protetores, o faraó passa em segurança pela segunda divisão e na Terceira Hora atinge Net-Asar, "o rio de Osíris". De tamanho similar à anterior, essa terceira divisão é habitada pelos "Lutadores" e é nela que ficam os quatro deuses encarregados dos quatro pontos cardeais.

As descrições pictóricas que acompanham os textos surpreendentemente mostram o rio de Osíris como um curso de água que corre mansamente por uma área cultivada. Depois de passar por entre uma cadeia de montanhas, ele divide-se em afluentes. Nesse ponto, vigiada pelos lendários pássaros Fênix, fica a "Escada para o Céu", e o Barco Celestial de Ra é representado como estando no alto de uma montanha ou subindo ao céu em rios de fogo.

A essa altura, novamente aumenta o ritmo das orações e Elocuções. O rei invoca seus "protetores mágicos" para que "este homem da Terra possa entrar no Neter-Khert" sem ser incomodado. O faraó aproxima-se do Duat; ele encontra-se perto do Amen-Ta, o "Lugar Oculto".

Foi lá que Osíris subiu para a Vida Eterna. Era lá que "Os Dois que Trazem o Céu mais Perto" ficavam "contra o firmamento", como duas árvores mágicas. O faraó oferece uma prece a Osíris. O título do capítulo no Livro dos Mortos é: "Capítulo de Fazer Seu Nome Garantido no Neter-Khert".

Conceda-me meu Nome na Grande Casa dos Dois;

Que meu Nome seja concedido na Casa de Fogo.

Na noite dos anos somados e da contagem de meses,

Que eu seja um Ser Divino,

Que eu sente no lado leste do céu.

Que o deus me empurre por trás,

Eterno é seu Nome.

O faraó já consegue avistar a "Montanha de Luz".

Ele chegou à Escada para o Céu.

Os Textos das Pirâmides dizem que esse lugar "era a escadaria para se atingir as alturas". Os degraus são descritos como "os degraus para o céu, assentados para o rei, para que ele possa através deles subir aos céus". O hieróglifo para a Escada para o Céu às vezes é uma única escada (que também costumava ser fundida em ouro e usada com talismã) ou mais freqüentemente uma escada dupla como uma pirâmide de degraus. Essa Escada para o Céu fora construída pelos deuses da cidade de An - localização do principal templo de Ra - para que pudessem "unir-se com o Alto".

A meta do rei é a Escada Celestial, uma escada de mão ou Ascensor que o transportará para o alto. Todavia, para chegar a ela, que fica na Casa de Fogo, a Grande Casa dos Dois, ele precisa primeiro entrar no Amen-Ta, a Terra Oculta de Seker, deus dos Territórios Selvagens.

Essa região, chamada de País das Trevas ou Terra da Escuridão, é descrita como um círculo fortificado que só pode ser atingido pela entrada numa montanha e a descida por seus corredores em espiral, protegidos por portas secretas. O faraó precisa ingressar nessa quarta divisão do Duat, mas a entrada na montanha é ladeada por dois muros e a passagem entre eles está tomada por labaredas e protegida por deuses guardiães.

Quando o próprio Ra chegar à parte de acesso ao Lugar Oculto, "ele atenderá aos desígnios" - ou seja, seguirá os procedimentos "dos deuses que ficam lá dentro, usando apenas a voz, sem vê-los". Ora, poderia a voz de um simples faraó resultar na abertura das portas dessa divisão? Os textos lembram ao rei que somente "aquele que conhece a planta dos túneis escondidos que ficam na Terra de Seker" poderá viajar pelo Lugar das Passagens Subterrâneas c comer o pão dos deuses.

Mais uma vez o faraó apresenta suas credenciais: "Sou o Touro, um filho dos ancestrais de Osíris", proclama. Então os deuses protetores pronunciam em seu favor as palavras cruciais que lhe abrirão a entrada:

A admissão não é recusada para ti No portão do Duat;

As portas dobráveis da Montanha de Luz

Estão abertas para ti;

Os ferrolhos, por si mesmos, abrem-se para ti.

Tu pisas o Salão das Duas Verdades;

O deus que lá está saúda-te.

Pronunciada a fórmula ou senha correta, um deus chamado Sa emite uma ordem. A uma palavra sua as chamas se extinguem, os guardas se afastam, portas se abrem automaticamente e o faraó entra no mundo subterrâneo.

"A boca do chão se abre para ti, a porta leste do céu está aberta para ti", anunciam os deuses do Duat para o rei. Eles o tranqüilizam afirmando que, apesar de estar entrando pela boca do chão, aquilo é de fato o Portão para o Céu, a tão ansiada porta leste.

A viagem durante a quarta hora e as seguintes conduz o faraó através de túneis e cavernas onde deuses com variadas funções às vezes são vistos e em outras apenas ouvidos. Nesse lugar há canais subterrâneos, onde deuses navegam de um lado para o outro em barcos silenciosos. Existem também luzes fantasmagóricas, águas fosforescentes, lanternas que iluminam o caminho. Ao mesmo tempo encantado e apavorado, o rei prossegue na direção dos "pilares que alcançam o céu".

Os deuses que ele vê ao longo do caminho estão em sua maioria organizados em grupos de doze e são chamados de "Deuses das Montanhas", "Deuses da Montanha da Terra Oculta" ou "Donos do Tempo na Terra Oculta". Os desenhos que acompanham alguns dos antigos textos fornecem a identificação desses deuses pelos diferentes cetros que carregam, o que usam na cabeça ou então representando suas características animais. Eles têm cabeça de falcão, chacal ou leão. Serpentes também aparecem bastante, representando guardas subterrâneos ou criados dos deuses na Terra Oculta.

Os textos e as antigas ilustrações sugerem que o faraó entrou num complexo circular subterrâneo, dentro do qual corre um grande túnel em espiral, que primeiro desce e depois sobe. As representações, mostrando um corte transversal da área, apresentam um túnel descendente com cerca de 12 metros de altura, teto e piso lisos, ambos feitos de um material sólido, com uma espessura de 50 a 90 centímetros. O túnel está dividido em três níveis e o rei avança pelo corredor do meio. O superior e inferior são ocupados por deuses serpentes e estruturas para uma variedade de funções.

O trenó do rei, puxado por quatro deuses, começa a avançar deslizando silenciosamente pelo corredor do meio; apenas uma luz que sai da proa do veículo ilumina o caminho. Porém, a passagem fica bloqueada por uma divisória em ângulo, o que obriga o faraó a descer e continuar a pé.

Essa divisória, como mostram as representações em seção transversal, é a parede de um poço que corta os três níveis de túneis (que têm uma inclinação de 15 graus) num ângulo bem maior, com aproximadamente 40 graus. Esse poço parece começar acima dos túneis, talvez ao nível do solo, ou mais acima dentro da montanha, e dá a impressão de terminar quando atinge o piso do túnel Inferior. Esse poço é chamado de Ra-Stau - "O Caminho das Portas Ocultas" - e, de fato, no primeiro e segundo níveis há espaços que poderiam ser câmaras de compressão, com fechamento pneumático. Segundo os textos, essas câmaras permitem que Seker e outros "deuses ocultos" passem por esse poço, apesar de a "porta não ter folhas". O faraó, que desceu do trenó, passa misteriosamente pela parede inclinada sob o comando de algum deus, cuja voz ativa a abertura pneumática. No outro lado, ele é recebido por representantes de Hórus e Thot, e passa de um para o outro.

Continuando a descida, o faraó vê "deuses sem rosto" - deuses cujo rosto não pode ser visto. Ofendido ou apenas curioso, ele suplica:

Descobri vossos rostos,

Tirai vossos elmos,

Quando vierdes ao meu encontro.

Pois, olhai, eu [também] sou um deus poderoso,

Vindo para estar entre vós.

Todavia, os deuses não atendem à súplica e os textos explicam que mesmo eles, "esses seres ocultos, não vêem nem encaram" seu próprio chefe, o deus Seker, "quando ele próprio está sob essa forma, quando encontra-se dentro de sua morada no solo".

Prosseguindo sua descida em espiral, o faraó passa por uma porta e vê-se no terceiro nível, o mais profundo. Ele entra numa antecâmara, decorada com o emblema do Disco Celestial, e é saudado pelo deus que nos textos é chamado de "O Mensageiro dos Deuses" e por uma deusa que usa o emblema emplumado de Shu, "Aquele que Repousou no Firmamento sobre a Escada para o Céu". Como indicado no Livro dos Mortos, o faraó proclama:

Salve, dois filhos de Shu!

Salve, filhos do lugar do Horizonte...

Posso subir?

Posso prosseguir viagem como Osíris?

A resposta tem de ser positiva, pois são esses dois deuses que dão passagem ao faraó, abrindo uma porta pesada c permitindo sua entrada nos corredores que só os deuses ocultos podem utilizar.

Na quinta Hora, o faraó alcança as partes subterrâneas mais profundas, os caminhos secretos de Seker. Seguindo corredores que sobem e descem, ele não consegue ver o deus. Os desenhos em seção transversal mostram Seker como uma pessoa com cabeça de falcão, em pé sobre uma serpente e segurando duas asas dentro de uma estrutura oval completamente lacrada, situada na parte mais inferior do túnel, que é guardada por duas esfinges. Apesar de o rei não poder ver essa câmara, ele ouve "um ruído forte, como o ouvido nas alturas do céu quando ele é perturbado por uma tempestade", Da câmara lacrada verte uma lagoa subterrânea cujas "águas são como fogo". Por sua vez, tanto a câmara como a lagoa estão encerradas dentro de uma estrutura em forma de casamata, com uma câmara de compressão compartimentalizada à esquerda e uma enorme porta à direita. Para maior proteção, empilhou-se terra sobre a câmara vedada, Esse monte de terra é encimado por uma deusa, qual se vê apenas a cabeça, projetando-se no corredor pelo qual desce o faraó. O símbolo para escaravelho, que significa "rolar, vir a ser", liga a cabeça da deusa com um objeto ou câmara arredondada que fica na passagem superior, no qual estão empoleirados dois pássaros.

Os textos e símbolos nos informam que, embora Seker estivesse oculto, sua presença podia ser conhecida até mesmo na escuridão por causa de um brilho “que sai da cabeça e dos olhos do grande deus, cuja carne irradia luz". Essa estrutura tripla - deusa, escaravelho (Kheper) e câmara superior - aparentemente servia para permitir que o deus oculto fosse informado do que acontecia fora de sua câmara hermeticamente fechada. O texto ao lado do escaravelho diz: "Vejam Kheper que, assim que ele (o barco?) é puxado para o alto deste círculo, liga-se com os costumes do Duat. Quando este deus fica na cabeça da deusa, ele fala palavras para Seker todos os dias".

A passagem do faraó por sobre a câmara oculta de Seker e a estrutura através da qual era informado do evento era considerada uma fase crucial da viagem. Na Antiguidade, os egípcios não eram os únicos a acreditar que cada falecido enfrentava um momento de julgamento, um determinado instante onde seus feitos e coração eram pesados e avaliados. Dependendo do resultado do julgamento, a lama ou Duplo era condenada às Águas Flamejantes do inferno ou abençoada para gozar das águas frescas e vivificantes do paraíso. Segundo relatos muito antigos, era na passagem pela câmara de Seker que acontecia o momento da verdade para o faraó.

Falando pelo deus do Duat, a deusa, da qual só se via a cabeça, anunciava a decisão favorável: "Venha em paz para o Duat... avança em teu barco na estrada que fica dentro da terra". Denominando-se a si mesma de Ament ("A Oculta"), ela acrescentava "Ament te chama para o firmamento, como o Grande que está no horizonte".

Passando pelo teste, não morrendo uma segunda vez, o rei renascia. Seu caminho agora o leva para uma fileira de deuses, cuja tarefa seria punir os condenados, mas ele prossegue, incólume. Volta ao seu barco ou trenó e é acompanhado por uma procissão de deuses, dos quais um segura o emblema da Árvore da Vida.

O faraó foi considerado digno de uma Outra Vida.

Deixando a zona de Seker, o faraó entra na sexta divisão, que é associada a Osíris. (Em certas versões do Livro dos Portões, era nessa hora que Osíris julgava os mortos). Deuses com cabeça de chacal, que "Abrem Caminhos", convidam o rei a dar um mergulho refrescante na lagoa subterrânea ou lago da Vida, como o próprio Grande Deus fizera ao passar anteriormente por ali. Outros deuses, "que zumbem como abelhas", residem em cubículos cujas portas vão se abrindo sozinhas enquanto o faraó avança. À medida que ele progride, os epítetos dos deuses assumem uma conotação mais técnica. Lá estão doze deles "que seguram a corda no Duat" e doze "que seguram o cordão de medir".

A sexta divisão é ocupada por uma série de câmaras bem próximas umas das outras. Um caminho curvo recebe o nome de "O Caminho Secreto do Lugar Oculto". O barco do faraó é puxado por deuses vestindo peles de leopardo, exatamente como os sacerdotes Shem que conduzem a cerimônia de Abertura da Boca.

Estaria o rei se aproximando da Abertura ou Boca da Montanha? No Livro dos Mortos, nesse ponto os capítulos têm títulos como: "O capítulo de cheirar o ar e conseguir força". O veículo do faraó agora "possui poderes mágicos... ele viaja por onde não existe rio e não há ninguém para puxá-lo; ele realiza isso por meio de palavras de poder", que saem da boca de um deus.

À medida que o faraó vai passando para a sétima divisão, atravessando um portão guardado, os deuses e o ambiente vão perdendo suas características" subterrâneas" e começam a assumir aspectos celestiais. O rei encontra o deus com cabeça de falcão, Heru­-Her-Khent, que usa na cabeça o emblema do Disco Celestial e cujo nome escrito em hieróglifos inclui o símbolo da escada. Sua tarefa é "enviar os deuses-estrela para seu caminho e fazer as deusas-constelação prosseguir em seu caminho". Nas representações, esse grupo de doze deuses e doze deusas era mostrado junto com emblemas de estrelas. Os cânticos para eles eram dirigidos aos "deuses estrelados" ...

Que são divinos em carne, cujos poderes mágicos tomaram vida...

Que se unem dentro de suas estrelas, que se erguem para Ra...

Que suas estrelas guiem as duas mãos de Ra para que ele possa viajar em paz para o Lugar Oculto.

Nessa divisão estão presentes duas companhias de deuses associados com o Ben-Ben, o misterioso objeto de Ra guardado em seu templo na cidade de An (Heliópolis). Eles são "aqueles que possuem o mistério", que montam guarda ao objeto dentro da Het­-Benben (A Casa do Ben-Ben), e oito que guardam o lado de fora, mas que também "entram dentro do Objeto Oculto". Nessa sétima divisão há nove objetos enfileirados, representando o símbolo Shem que, escrito em hieróglifos, significa "Seguidor".

O faraó agora chega às partes do Duat associadas com An, o deus que deu nome à cidade de Heliópolis. Na Nona Hora ele vê o local de repouso dos doze "Divinos Remadores do Barco de Ra", que operam o celestial "Barco dos Milhões de Anos" de Ra. Na Décima Hora, depois de passar por um portão, o faraó entra num lugar fervilhante de atividade. A tarefa dos deuses que lá estão é fornecer Chamas e Fogo para o barco de Ra. Um dos deuses é chamado de "Capitão dos Deuses do Barco". Dois outros são aqueles "Que Ordenam o Curso das Estrelas". Eles e outros deuses são pintados por um, dois ou três símbolos para estrela, como indicando uma patente qualquer relacionada com os céus.

Na passagem da décima para a 11ª. divisão, aumenta rapidamente a afinidade com os céus. Os deuses ostentam emblemas de estrelas ou do Disco Celestial. Há oito deusas com emblemas de estrelas "que vieram da morada de Ra". O faraó vê a "Estrela Dama” e a "Estrela Cavalheiro", e deuses cuja função é fornecer "força para emergir" do Duat ou "fazer o Objeto de Ra avançar para a Casa Oculta nos Céus Superiores".

Aqui também existem deuses e deusas cuja tarefa é equipar o faraó para uma viagem celestial "por sobre o firmamento". Acompanhado de outros deuses, ele é impelido a entrar numa "serpente”, dentro da qual "se libertará da pele", emergindo depois "sob a forma de um Ra rejuvenescido". Alguns dos termos dos Textos das Pirâmides empregados neste trecho ainda não estão decifrados ou compreendidos, mas o processo pode ser claramente entendido: o faraó, tendo entrado vestido como chegara ao Duat, agora emerge como um falcão, "equipado como um deus". Ele põe no chão a veste Mishdt; coloca nas costas o "traje-marca"; tira sua divina veste Shuh e põe o "colar do amado Hórus", que é como "um colar no pescoço de Ra". Feito isso, "o rei estabelece-se como um deus, está igual a eles", e diz ao deus que o acompanha: "Se tu vais para o Céu, o rei também vai para o Céu".

Nessa altura, as ilustrações dos antigos textos mostram um grupo de deuses trajados de maneira incomum, com macacões justos enfeitados por golas redondas.

Esse grupo é conduzido ou dirigido por um deus com o emblema do Disco Celestial sobre a cabeça, que está com os braços estirados entre as asas de uma serpente que tem quatro pernas humanas. Contra um fundo estrelado, deus e serpente olham para uma outra serpente que, embora sem asas, claramente voa enquanto carrega sentado em seu dorso o deus Osíris.

Depois de ter sido adequadamente equipado, o rei é levado para uma abertura no centro de uma parede semicircular. Ele passa pela porta oculta e agora avança por um túnel que tem "1.300 cúbitos (aproximadamente 650 metros) de comprimento", chamado de "Alvorecer no Final". O faraó chega a um vestíbulo; emblemas do Disco Alado são vistos por todos os lados. Ele encontra "deusas que lançam luz sobre o caminho de Ra" e um cetro mágico que representa "Set, o Observador".

Os deuses explicam ao impressionado faraó:

Esta caverna é o amplo salão de Osíris

No qual é trazido o vento;

O vento norte, refrescante,

Te erguerá, oh, rei, como Osíris.

Agora o faraó está na décima segunda divisão, na hora final da viagem. Ela é o "limite máximo da espessa escuridão". O ponto que o rei atingiu é chamado de "Montanha da Ascensão de Ra". Ele olha para cima e se surpreende: o Barco Celestial de Ra paira diante de seus olhos em toda sua impressionante majestade.

O rei agora está junto a um objeto que recebe o nome de "O Ascensor para o Firmamento". Alguns textos sugerem que o próprio Ra preparou o Ascensor para o faraó, "de modo que o rei possa nele subir aos céus"; outros dizem que o Ascensor foi feito ou montado por vários deuses. Ele também é "o Ascensor que transportou Set" na direção dos céus. Como Osíris só conseguiu atingir o firmamento com esse Ascensor, ele também é necessário para que o faraó possa ser trasladado, tal como o grande deus, para a vida eterna.

O Ascensor ou Escada Divina não era uma escadinha qualquer. Dizem os textos que ela era amarrada com cabos de cobre: "seus tendões são como os do Touro do Céu". As "partes em pé nos dois lados" eram cobertas de um tipo de "pele"; os degraus eram talhados em Sesha (significado desconhecido); e uma "grande escora foi colocada sob ele por Aquele que Amarra".

As ilustrações do Livro dos Mortos mostram uma Escada Divina semelhante, às vezes com o sinal Ankh ("Vida") estendendo-se simbolicamente para o Disco Celestial no firmamento, sob a forma de uma torre alta, com uma superestrutura. Estilizada, a torre também aparece nos hieróglifos ("Ded") e significa "Perenidade". Esse símbolo estava especialmente associado a Osíris, pois conta-se que diante de seu templo, em Abidos, havia um par de Ded para lembrar os dois objetos que ficavam na Terra de Seker e possibilitavam a subida do deus ao céu.

Uma longa Elocução dos Textos das Pirâmides é ao mesmo tempo um hino ao Ascensor ou "Escada Divina" e uma prece para que ele seja concedido ao faraó Pepi:

Saudações, divino Ascensor;

Saudações, Ascensor de Set.

Fica em pé, Ascensor de deus;

Fica em pé, Ascensor de Hórus pelo qual Osíris foi para o céu...

Senhor do Ascensor...

Para quem dareis a Escada de deus?

Para quem dareis a Escada de Set,

De modo que Pepi possa por ela subir ao céu e prestar serviço como cortesão de Ra?

Permita que a Escada de deus seja dada a Pepi;

Permita que a Escada de Set seja dada a Pepi para Pepi poder por ela subir ao céu.

O Ascensor era operado por quatro homens-falcão, os "Filhos de Hórus" (o deus-falcão), que eram "os marinheiros do barco de Ra". Esses quatro jovens também recebiam o nome de "Filhos do Firmamento" e eram eles "que vêm do lado leste do firmamento... que preparam duas bóias para o rei, para ele assim poder subir para o horizonte, para Ra". Eram esses quatro moços que "juntavam" ­montavam, preparavam - o Ascensor para o faraó. "Eles trazem o Ascensor... eles preparam o Ascensor... eles levantam o Ascensor para o rei... para o rei poder por ele subir aos céus.”

O faraó faz uma prece:

Que meu "Nome" me seja dado na Grande Casa dos Dois;

Que meu "Nome" me seja chamado na Casa de Fogo, na noite dos Anos Somados.

Algumas ilustrações mostram o faraó recebendo um Ded - a Perenidade. Abençoado por Ísis e Néftis, ele é levado por um deus­-falcão até um Ded semelhante a um foguete, equipado com aletas.

A prece do faraó suplicando a "Perenidade", um "Nome", uma "Escada Divina", foi atendida. Agora ele está para começar sua efetiva subida aos céus.

Embora o faraó tenha pedido uma única Escada Divina, dois Ascensores são erguidos. Tanto o "Olho de Ra" como o "Olho de Hórus" são preparados e colocados em posição, um na" asa de Thot" e o outro na "asa de Set". Os deuses explicam para o perplexo faraó que o segundo barco é para o "filho de Aten", um deus que veio do Disco Alado - talvez o mesmo com o qual o faraó conversou na "câmara de equipamento".

O Olho de Hórus está montado

Sobre a asa de Set.

Os cabos estão amarrados.

Os barcos estão montados.

Que o filho de Aten não fique sem barco.

O rei está, com o filho de Aten;

Ele não está sem barco.

"Equipado como um deus", o faraó é ajudado por duas deusas "que seguram seus cabos" para ele poder subir no olho de Hórus. O termo "Olho" (de Hórus, de Ra), que pouco foi substituindo a palavra Ascensor ou Escada, agora está, cada vez mais sendo deslocado pela palavra "barco". O "olho" ou "barco" onde o faraó entra tem cerca de 770 cúbitos (aproximadamente 350 metros) de comprimento. Um deus encarregado desse barco está sentado na sua proa. Ele recebe a ordem: "Leve este rei contigo na cabine de teu barco".

Enquanto o rei "desce para o poleiro" - um termo que indica um lugar elevado, como o que os pássaros usam para repousar - ele consegue ver o rosto do deus que comanda a cabine "pois o rosto do deus está aberto". O faraó "senta-se no divino barco", entre dois deuses; o banco é chamado "Verdade que torna vivo". "Dois chifres" projetam-se da cabeça (ou capacete) do faraó; "ele prende em si aquilo que saía da cabeça de Hórus". O faraó está conectado, pronto para a ação. Os textos que tratam da viagem de Pepi I para a Outra Vida descrevem esse momento: "Pepi está usando os trajes de Hórus, as vestes de Thot; tem Ísis diante dele e Néftis atrás; Ap-uat, o que Abre Caminhos, abriu uma via para ele; Shu, O que Segura o Firmamento, o levantou; os deuses de An o fazem subir à Escada e o colocam diante do firmamento; Nut, a deusa do firmamento, estende a mão para ele". O momento mágico chegou. Bastam apenas duas portas serem abertas e o faraó - como Ra e Osíris anteriormente - emergirá triunfante do Duat e seu barco navegará nas Águas Celestiais. Ele ora em silêncio: "Oh, Altíssimo... tu, Porta do Céu; o rei veio a ti; faça com que essa porta se abra para ele", Os dois "pilares Ded estão em pé", eretos, imóveis,

Então, subitamente, "as Portas Duplas do céu se abrem!" O texto explode em manifestações de êxtase:

A Porta para o Céu está aberta!

A Porta para o Céu está aberta!

A abertura das janelas celestiais está aberta!

A Escada para o Céu está aberta;

Os Degraus de Luz são revelados...

A Porta Dupla para o Céu está aberta;

A Porta Dupla do Khebhu está aberta para Hórus do leste, ao amanhecer.

Deuses-macaco, simbolizando a lua minguante ("O Amanhecer"), começam a pronunciar "palavras mágicas de poder que farão o esplendor sair do Olho de Hórus". O "esplendor" - que já foi relatado como sendo a característica mais marcante da Montanha de Luz, com seus dois picos - se intensifica:

O deus-firmamento fortaleceu o esplendor para o rei que o rei possa elevar-se ao Céu como o Olho de Ra.

O rei está neste Olho de Hórus, onde é ouvida a ordem dos deuses.

O "Olho de Hórus" começa a mudar de cor, passando do azul para o vermelho. Há muita atividade e agitação por todos os lados:

O Olho de Hórus está vermelho de cólera.

Seu poder ninguém suporta.

Seus mensageiros se apressam, seu corredor aperta o passo.

Eles anunciam àquele que ergue o braço no leste: "deixa este passar".

Que o rei ordene aos pais, os deuses:

"Silenciai... colocai as mãos na boca...parai na porta do horizonte, abri as Portas Duplas (do Céu)".

O silêncio é quebrado. Agora há som e fúria, rugidos e estremecimento:

O Céu fala, a Terra treme;

A Terra treme;

Os dois agrupamentos de deuses gritam;

O chão se abre...

Quando o rei ascende ao Céu quando ele passa por sobre a abóbada (na direção do Céu)...

A Terra ri, o firmamento sorri quando o rei ascende ao Céu.

O Céu grita de alegria por ele;

A Terra estremece por ele.

A tempestade uivante o impele.

Ela ruge como Set.

Os guardiães das partes do Céu

Abrem as portas do Céu para ele.

Então, "as duas montanhas se dividem" e há o lançamento na direção do céu nebuloso do amanhecer, na qual não se vêem mais as estrelas noturnas:

O firmamento está encoberto, as estrelas escureceram.

Os arcos estão agitados, os ossos da Terra tremem.

No meio da agitação, rugidos e estremecimentos, o "Touro do Céu" (" cuja barriga é cheia de mágica") ergue-se da "Ilha da Chama". Então cessa o burburinho e o faraó está no alto - "surgindo como um falcão":

Eles vêm o rei surgir como um falcão, como um deus;

Para viver com seus pais, alimentar-se com suas mães...

O rei está no Touro do Céu... cuja barriga é cheia de mágica da Ilha da Chama.

A Elocução 422 fala com eloqüência desse momento:

Oh, este Pepi!

Tu partiste

Tu és um Glorioso, poderoso como um deus, sentado como Osíris!

Tua alma está dentro de ti;

Teu Poder ("controle”) tens atrás de ti;

Tua cabeça a coroa-Misut está junto de tua mão.

Tu ascendes para tua mãe, a deusa do Céu

Ela segura teu braço, ela te mostra o caminho para o horizonte, para o lugar onde está Ra.

As Portas Duplas do Céu estão abertas para ti.

As Portas Duplas do Céu estão abertas para ti.

Tu sobes, oh, Pepi... equipado como um deus.

(Uma ilustração na tumba de Ramsés IX sugere que as Portas Duplas eram abertas inclinando-as para fora, movimento conseguido com a manipulação de rodas e polias operadas por seis deuses em cada folha. Assim, pela abertura em formato de funil, o gigantesco falcão construído pelas mãos do homem podia emergir).

Com grande satisfação diante dessa façanha do faraó, os textos anunciam aos seus súditos: "Ele, que voa, está voando; este rei Pepi voa para longe de vós, mortais. Ele não é da Terra, ele é do Céu... Este rei Pepi voa como uma nuvem para o firmamento, como um pássaro do alto do mastro; este rei Pepi beija o firmamento como um falcão; ele alcança o firmamento do deus do horizonte". O faraó, continuam os Textos das Pirâmides, agora está “no Carregador do Firmamento, aquele que sustenta as estrelas; no interior da sombra das Paredes de Deus, ele cruza o firmamento".

O faraó não está apenas voando; ele orbita a Terra:

Ele envolve o firmamento como Ra,

Ele volteia pelo firmamento como Thot...

Ele viaja sobre as regiões de Hórus,

Ele viaja sobre as regiões de Set...

Por duas vezes ele rodeou completamente os céus,

Ele girou sobre as duas terras...

O rei é um falcão que ultrapassou os falcões;

Ele é um Grande Falcão.

(Um verso dos textos afirma também que o rei "cruza o firmamento como Sunt, que corta os céus nove vezes numa noite", mas o significado do termo Sunt e, portanto, a comparação, continuam indecifrados.)

Ainda sentado entre "esses dois companheiros que viajam pelo firmamento" o rei voa para o horizonte oriental, bem longe no céu. Seu destino é o Aten, o Disco Alado, que também é chamado de Estrela Imorredoura. As orações, agora, centram-se em fazê-lo chegar em segurança ao Aten: "Aten, deixa-o ascender a ti; envolva-o em teu abraço", entoam os textos, falando em prol do faraó. Como o Aten é a morada de Ra, as preces procuram garantir boas-vindas para o rei, apresentando-o em sua chegada à Morada Celestial como um filho voltando para o pai:

Ra do Aten

Teu filho veio a ti;

Pepi vem a ti;

Permita que ele ascenda para ti;

Envolva-o em teu abraço.

Agora "há um clamor no céu: 'Vemos uma nova coisa', dizem os deuses celestiais, 'um Hórus nos raios de Ra’.” O faraó - "à caminho do Céu, no vento" - "avança no Céu, corta o firmamento", esperando ser bem recebido em seu destino.

A viagem celestial durará oito dias: "Quando a hora da manhã vier, a hora do oitavo dia, o rei será convocado por Ra"; os deuses que guardam a entrada do Aten ou da morada de Ra o deixarão passar, pois o próprio Ra estará esperando na Estrela Imorredoura:

Quando essa hora do amanhã chegar...

Quando o rei estiver lá, na estrela que fica no lado inferior do Céu, ele será considerado um deus, ouvido como um príncipe.

O rei os chamará;

Eles virão, aqueles quatro deuses que ficam em pé nos cetros-Dam do Céu, para que possam dizer o nome do rei para Ra, anunciar seu nome Hórus dos Horizontes:

Ele veio a ti!

O rei veio a ti!

Navegando no "lago que é o céu" o faraó chega perto "das praias do céu". Enquanto vai se aproximando, os deuses da Estrela Imorredoura anunciam como esperado: "Ele chegou... Ra lhe deu seu braço na Escada para o Céu. 'Aquele que Conhece o Lugar' vem, dizem os deuses". Lá nos portões do Palácio Duplo, Ra de fato aguarda o faraó:

Tu encontras Ra parado lá;

Ele te saúde, pega teu braço;

Ele te conduz para o celestial Palácio Duplo;

Ele te coloca no trono de Osíris.

E os textos anunciam: "Ra pegou o rei para si, para o Céu, no lado leste do Céu... o rei está naquela estrela que irradia no Céu".

Agora falta um último detalhe. Na companhia de "Hórus do Duat”, descrito como "o grande e verde divino falcão", o faraó parte para encontrar a Árvore da Vida no centro do lugar das Oferendas. "Este rei Pepi vai para o Campo da Vida, o local de nascimento de Ra nos céus. Vê Kebehet aproximando-se dele com os quatro jarros que usa para refrescar o coração do Grande Deus no dia em que ele acorda. Ela refresca o coração deste rei Pepi e assim o refresca para a vida!”

Missão cumprida, os textos anunciam com júbilo:

Salve este Pepi!

Toda a vida que satisfaz te é dada;

"A eternidade é tua", diz Ra...

Tu não pereces, tu não faleces para sempre e sempre.

O rei subiu à Escada para o Céu; ele chegou à Estrela Imorredoura; seu tempo de vida é a eternidade, seu limite a perenidade.

5

OS DEUSES QUE VIERAM AO PLANETA TERRA

Hoje em dia, os vôos espaciais são coisas corriqueiras. Lemos sobre projetos de estações orbitais sem nem mesmo piscar o olho; o desenvolvimento de um ônibus espacial reutilizável não é encarado com espanto, mas com aprovação pelas suas potencialidades econômicas. Isso tudo acontece, claro, porque vimos com nossos próprios olhos, na imprensa e televisão, astronautas viajarem no espaço e naves não tripuladas,aterrissarem em outros planetas. Aceitamos as viagens espaciais e os contatos interplanetários porque escutamos com nossos próprios ouvidos um mortal chamado Neil Armstrong, o comandante da Apolo 11, comunicar pelo seu rádio - para o mundo todo ouvir - a primeira descida do homem em outro corpo celestial, a Lua:

Houston!

Aqui base da Tranqüilidade.

O Águia pousou!

Águia não era apenas o codinome para módulo lunar, mas também o epíteto da nave Apolo 11 e o orgulhoso apelido pelo qual os três astronautas se identificavam. O Falcão também já viajara pelo espaço e pousara na Lua. No imenso Museu Aéreo e Espacial do Instituto Smithsoniano de Washington, qualquer pessoa pode ver e tocar os artefatos que foram lançados ou utilizados como veículos de apoio no programa espacial americano. Numa seção especial, onde são simulados pousos na Lua com o auxílio do equipamento original, o visitante ainda pode ouvir a mensagem gravada que procede da superfície lunar:

Certo, Houston.

O Falcão está na planície, em Hadley!

Foi depois desse comunicado que o Centro Espacial de Houston anunciou ao mundo: "Esse foi um jubilante Dave Scott comunicando que a Apolo 15 pousou na planície em Hadley".

Até poucas décadas atrás, a noção de que um mortal comum podia vestir algumas roupas especiais, prender-se na parte dianteira de um comprido objeto e depois lançar-se para longe da superfície da Terra parecia absurda. Um ou dois séculos atrás, uma idéia como essa nem teria surgido, pois não havia nada na experiência ou conhecimento humanos para desencadear fantasias desse tipo.

No entanto, como acabamos de ler, os egípcios - há 5 mil anos - conseguiam prontamente visualizar tudo isso acontecendo ao seu faraó: ele viajaria até uma área de lançamento a leste do Egito; entraria num complexo subterrâneo, cheio de túneis e câmaras; passaria em segurança pela usina atômica e câmara de radiação da instalação. Em seguida, vestiria a roupa e o equipamento de um astronauta; entraria na cabine de um Ascensor e se sentaria preso por correias entre dois deuses. Então, quando se abrissem as Portas Duplas, revelando o céu da madrugada, os motores a jato entrariam em ignição e o Ascensor se transformaria numa escada Divina, pela qual o faraó atingiria a Morada dos Deuses no seu "Planeta de Milhões de Anos".

Em que telas de televisão os antigos egípcios podiam ter visto essas coisas acontecerem para acreditar tão firmemente que tudo isso era realmente possível?

Na ausência de aparelhos de televisão em suas casas, a única alternativa seria eles poderem ter ido a um espaço-porto para ver os foguetes subirem e descerem, ou visitarem um "Museu Smithsoniano" com esses artefatos em exposição, acompanhados por guias assistindo a simulações de vôos. Os indícios sugerem que os antigos egípcios vivenciaram exatamente isso: viram o local de lançamento, os equipamentos pesados e os astronautas com seus próprios olhos. Todavia, os astronautas não eram terráqueos indo para um determinado lugar, mas sim criaturas de outros mundos que tinham vindo ao planeta Terra.

Fascinados pela arte, os antigos egípcios pintaram em suas tumbas o que viram ou vivenciaram em sua vida. Os desenhos cheios de detalhes de arquitetura das câmaras e corredores subterrâneos do Duat foram encontrados no túmulo de Seti I. Uma pintura ainda mais surpreendente foi descoberta na tumba de Huy, vice-rei da Núbia e da península do Sinai durante o reinado do famoso Tutancâmon. Decorada com cenas de pessoas, lugares e objetos das duas regiões que Huy governava, a tumba, muito bem preservada até os dias de hoje, mostra em cores vivas um foguete espacial. O corpo está contido num silo subterrâneo e o estágio superior, com o módulo de comando, fica ao nível do solo. O corpo é sub-dividido, como um foguete de vários estágios. Em sua parte inferior, duas pessoas cuidam de mangueiras e alavancas; há uma fileira de mostradores circulares acima delas. O corte transversal do silo mostra que ele é cercado por cavidades tubulares para troca de calor ou outra função qualquer relacionada com energia.

Ao nível do solo, a base hemisférica do estágio superior está claramente pintada como estando queimada, como resultado de uma reentrada na atmosfera terrestre. O módulo de comando­ grande o bastante para abrigar três ou quatro pessoas - tem a forma cônica e nele há "orifícios de inspeção" verticais em torno de sua parte inferior. A cabine está cercada por adoradores, num ambiente que exibe tamareiras e girafas.

A câmara subterrânea é ornamentada com peles de leopardo, o que fornece um vínculo direto com certas fases da viagem do faraó para a imortalidade. A pele de leopardo era a veste característica dos sacerdotes Shem que realizavam a cerimônia de Abertura da Boca e, simbolicamente, reproduzia os trajes dos deuses que puxavam o faraó pelo "Caminho Secreto do Lugar Oculto", do Duat - ­um simbolismo repetido para enfatizar a afinidade entre a viagem do rei e o foguete especial no silo subterrâneo.

Como deixam claro os Textos das Pirâmides, o faraó, em sua translação para a vida eterna, embarcava numa viagem simulando a feita pelos deuses. Ra e Set, Osíris e Hórus, e outros tinham subido aos céus daquela maneira. Todavia, os egípcios também acreditavam que os Grandes Deuses tinham vindo à Terra nesse mesmo Barco Celestial. Na cidade de An (Heliópolis), o mais antigo centro de veneração do Egito, o deus Ptah construiu, uma estrutura especial - uma espécie de Instituto Smithsoniano -, dentro do qual uma cápsula espacial de verdade podia ser vista e reverenciada pelo povo!

Esse objeto secreto, o Ben-Ben, ficava guardado no Het-Benben, o "templo do Ben-Ben". Sabemos, pela escrita em hieróglifos no local, que essa estrutura parecia uma enorme torre de lançamento dentro da qual um foguete mantinha-se apontado para Cima, para o céu.

Segundo os antigos egípcios, o Ben-Ben era um objeto sólido que viera do Disco Celestial, a "Câmara Celestial" dentro do qual o próprio grande Deus Ra aterrissara. O termo ben (literalmente: “Aquele que Flui para Fora") transmite o significado combinado de "brilhar" e "atirar para o céu".

Uma inscrição da estela do faraó Pi-Ankhi (por Brugsch, Dictionnaire Géographique de I'Ancienne Égypte) dizia:

O rei Pi-Ankhi subiu a escada até a grande janela para poder ver o deus Ra dentro do Ben-Ben. O próprio rei, em pé e sozinho, empurrou o ferrolho e abriu as duas folhas da porta. Então ele viu seu pai Ra no esplêndido santuário do Het-Benben. Ele viu o Maad, a Barcaça de Ra; e viu Sektet, a Barcaça do Aten.

O santuário, como sabemos a partir de antigos textos, era guardado e cuidado por dois grupos de deuses. Havia os que "ficam do lado de fora do Het-Benben", mas tinham acesso às partes mais secretas do templo, pois sua tarefa era receber as oferendas dos peregrinos e colocá-las no santuário. Os outros eram primariamente guardiães, não apenas do Ben-Ben, mas de todas "as coisas secretas de Ra que estão no Het-Benben". Tal como os turistas hoje em dia acorrem ao Museu Smithsoniano para ver, admirar e até tocar nos reais veículos que estiveram no espaço, os devotos egípcios faziam viagens a Heliópolis para reverenciar e orar para o Ben-Ben, provavelmente com um fervor religioso semelhante ao dos fiéis muçulmanos que fazem peregrinações a Meca, onde vão rezar na Kaaba (uma pedra negra que, acredita-se, é uma réplica da "Câmara Celestial" de Deus).

No santuário de Heliópolis havia uma fonte ou poço cujas águas eram famosas pelos seus poderes de cura, especialmente em questões de virilidade e fertilidade. O termo ben de fato, com o passar do tempo, adquiriram as conotações de virilidade e reprodução e podem ter dado origem ao significado de "descendência masculina" que a palavra ben tem em hebraico. A água da fonte do santuário também era boa para o rejuvenescimento, o que, por sua vez, deu origem à lenda do pássaro Ben, chamado de Fênix pelos gregos que visitavam o Egito. Segundo essas lendas, Fênix era uma águia com plumagem vermelha e dourada e, a cada quinhentos anos, quando estava para morrer, ia a Heliópolis e de uma maneira qualquer renascia das cinzas de si mesma (ou de seu pai).

Heliópolis e suas águas curativas continuaram sendo veneradas até o início da era cristã. As tradições locais afirmam que, quando Maria e José fugiram para o Egito com o Menino Jesus, descansaram perto do poço do santuário.

As histórias egípcias contam que o santuário foi destruído várias vezes por inimigos invasores. Nada resta dele atualmente; o Ben-Ben também desapareceu. No entanto, ele era representado nos monumentos como uma câmara cônica, dentro da qual se podia ver um deus. Os arqueólogos encontraram um modelo em escala do Ben-Ben, feito de pedra, mostrando um deus fazendo um gesto de boas-vindas em sua porta deslizante. O verdadeiro formato da Câmara Celestial provavelmente foi pintado na tumba de Huy. Sem dúvida, o fato de os modernos módulos de comando - as cápsulas que abrigam os astronautas no alto dos foguetes durante o lançamento - serem tão semelhantes ao Ben-Ben é resultado de uma similaridade de propósito e função.

Na ausência do Ben-Ben em si, existe uma prova física - não simples desenhos ou modelos em escala - vinda do santuário de Heliópolis? Já vimos acima que, segundo os textos egípcios, havia outras coisas secretas de Ra em exibição ou apenas guardadas no templo. No Livro dos Mortos, nove objetos incorporados ao hieróglifo para Shem foram desenhados na divisão relativa ao templo de Heliópolis, o que pode significar que realmente existiam outros nove objetos relacionados com o espaço ou peças de espaçonaves em exibição no santuário.

Os arqueólogos podem ter encontrado uma réplica de um desses objetos menores. Trata-se de uma peça de formato estranho, cheia de curvas e recortes, que tem intrigado os estudiosos desde sua descoberta em 1936. É importante dizer que esse objeto foi encontrado - entre outros "objetos de cobre incomuns" - na tumba do príncipe herdeiro Sabu, filho do rei Adjib da 1ª. Dinastia. Portanto, é certo que ele foi colocado ali por volta de 3.100 a.C., e assim, poderia ser mais antigo, mas certamente não mais recente do que aquela data.

Relatando as descobertas em Sakkarah (um pouco ao sul das Grandes Pirâmides de Gizé), Walter B. Emery (Great Tombs of the First Dynasty) descreveu o objeto como "um recipiente de xisto em forma de tigela" e acrescentou que "não foi apresentada nenhuma explicação satisfatória para o estranho formato dessa peça". O objeto foi feito de um único bloco de xisto - uma rocha muito quebradiça que facilmente se separa em camadas finas e irregulares. Se fosse colocado em uso, o objeto logo teria se quebrado. Assim, essa rocha em particular deve ter sido escolhida por ser o material adequado para se esculpir uma forma muito incomum e delicada, como meio de preservar o formato e não de utilizar a peça. Isso levou outros estudiosos, como Cyril Aldred (Egypt to the End of the Old Kingdom), a concluírem que o objeto de pedra "possivelmente imita uma forma que originalmente era de metal".

Mas que metal poderia ter sido usado no quarto milênio a.C. para produzir esse objeto, que processo de polimento de precisão, que metalúrgicos especializados estariam disponíveis para criar um design tão delicado e complexo em termos estruturais? E, acima de tudo, com que propósito?

Um estudo técnico do formato peculiar do objeto lançou pouca luz sobre seu uso ou origem. A peça redonda, com cerca de 60 centímetros de diâmetro e menos que 10 centímetros em sua parte mais espessa, foi obviamente feita para se ajustar a uma haste e girar em torno de um eixo. Seus três recortes, seguindo uma curva incomum, sugerem uma possível imersão num líquido durante a rotação.

Depois de 1936, nenhum esforço foi feito para se decifrar o enigma. Porém, sua possível função acorreu a minha mente em 1976, quando eu lia uma revista técnica onde eram mostrados os desenhos de um revolucionário tipo de volante desenvolvido na Califórnia e ligado ao programa espacial americano. O volante, preso à haste giratória de uma máquina ou motor, vem sendo usado há menos de dois séculos como um meio de regular a velocidade de maquinaria, bem como para acumular energia para um único arranco, como nos compressores de metal (e, mais recentemente, na aviação).

Via de regra, os volantes têm apresentado as bordas espessas, pois a energia se acumula na circunferência da roda. Contudo, por volta de 1970, os engenheiros da Lockheed Missile & Space Company inventaram um modelo completamente diferente - uma roda de bordas leves -, afirmando que ele é mais adequado para economizar energia em trens de transporte de massa ou para armazená-la em ônibus elétricos. A Airesearch Manufacturing Company continuou as pesquisas e desenvolveu um modelo desse volante - que não chegou a ser aperfeiçoado - hermeticamente lacrado dentro de uma carcaça cheia de lubrificante. O fato de esse volante revolucionário ser muito parecido com o objeto de 5 mil anos descoberto no Egito é impressionante, mas torna-se ainda mais espantoso quando se descobre que essa peça, encontrada numa tumba de 3.100 a.C., é semelhante a uma parte do equipamento ainda em desenvolvimento no ano de 1978!

Onde está o original em metal desse volante de pedra? E os objetos que aparentemente ficavam em exibição no santuário de Heliópolis? E, a propósito, onde está o próprio Ben-Ben? Como tantos outros artefatos, cuja existência na Antiguidade foi sem dúvida documentada pelos povos antigos, eles desapareceram, talvez destruídos por calamidades naturais ou guerras, ou desmontados e levados para outros lugares - como butim ou para serem escondidos em locais há muito esquecidos. É possível que tenham sido transportados de volta aos céus, mas podem ainda estar conosco, sem identificação, perdidos em algum porão de museu. Ou - como a lenda da Fênix que liga Heliópolis à Arábia poderia sugerir - escondidos sob a câmara lacrada da Kaaba em Meca...

Podemos conjeturar, contudo, que a destruição, desaparecimento ou retirada dos objetos sagrados do santuário provavelmente ocorreu durante o chamado Primeiro Período Intermediário do Egito. Nessa época, desfez-se a unificação do Egito e passou a reinar uma total anarquia. Sabemos que os santuários de Heliópolis foram destruídos durante esses anos de desordem. Talvez tenha sido nesse período que Ra deixou seu templo em Heliópolis e tornou-se Amon - "O Deus Oculto".

Quando a ordem começou a ser restaurada, o que primeiro se deu no Alto Egito sob a 11ª. Dinastia, a capital passou a ser Tebas e o deus supremo Amon (ou Amen). O faraó Mentuhotep (Neb-Hepet-Ra) construiu um imenso templo perto de Tebas, dedicou-o a Ra e encimou-o com um enorme pyramidion para homenagear a Câmara Celestial de Ra.

Logo depois de 2.000 a.C., ao iniciar-se o reinado da 12ª. dinastia, houve a reunificação do Egito, a ordem foi restaurada e voltou a existir o acesso a Heliópolis. O primeiro faraó dessa dinastia, Amen-Em-Hat I, logo começou a reconstruir os templos e santuários dessa cidade. Mas, se ele conseguiu devolver os objetos sagrados ou precisou contentar-se com cópias de pedra, não se sabe com certeza. Seu filho, o faraó Sen-Usert (Hjeper-Ka-Ra) - o Sesóstris ou Scsonchusis dos historiadores gregos - erigiu diante do templo duas enormes colunas de granito (com mais de 20 metros de altura), no alto, réplicas da Câmara Celestial de Ra, um pyramidion coberto de ouro ou prata (electro). Um desses obeliscos de granito continua no local onde foi erigido há aproximadamente 4 mil anos. O outro foi destruído no século XII.

Os gregos chamavam esses pilares de obeliscos, significando "cortadores com ponta". Os egípcios lhes davam o nome de Raios dos Deuses. Muitos outros foram erigidos, sempre em pares, diante de entradas de templos, durante a 18ª. e 19ª. dinastias. Posteriormente, alguns foram levados para Nova York, Londres, Paris e Roma. Os faraós afirmavam que erigiam esses obeliscos para "obter (dos deuses) o dom da vida eterna" ou "obter a vida perene", pois eles imitavam em pedra o que os antigos reis tinham visto (e presumivelmente atingido) no Duat, a Montanha Sagrada: os foguetes espaciais dos deuses.

Muitas lápides tumulares atuais, onde está gravado o nome da pessoa falecida, são cópias em pequena escala de obeliscos, um costume que tem raízes na época em que deuses e suas naves espaciais eram uma realidade.

A palavra egípcia para esses Seres Celestiais era NTR - um termo que nas línguas do antigo Oriente Médio significava "Aquele que Observa". Como todos os sinais nessa escrita, ele deve originalmente ter representado um objeto real, visível. As sugestões dos eruditos variam de uma pá com cabo longo até uma flâmula. Margaret A. Murray (The Splendor That Was Egypt) oferece uma visão mais atual. Ao mostrar que a cerâmica do período pré-dinástico mais primitivo era ornamentada com desenhos de barcos carregando um pau com duas bandeirolas, como se fosse uma insígnia, ela conclui que "o mastro com as duas flâmulas tornou-se o hieróglifo para Deus".

O interessante nesses desenhos primitivos é que eles mostravam os barcos chegando de um país estrangeiro. Quando incluíam pessoas, eram remadores sentados comandados por um chefe muito alto, distinguido pelos chifres projetando-se de seu capacete - a marca registrada de um Neter.

Assim, de maneira pictórica, os egípcios afirmaram desde seus primórdios que os deuses tinham vindo de um outro lugar, o que confirma as lendas de como o Egito começou - o deus Ptah, tendo vindo do sul e encontrando a área inundada, executou grandes obras de contenção e represamento, tornando a terra habitável. Na antiga geografia egípcia existia um lugar chamado Ta Neter - "Lugar ou Terra dos Deuses" -, os estreitos na extremidade sul do mar Vermelho, que agora têm o nome de Bab-el-Mandeb. Foi através desse estreito que os navios com a insígnia NTR transportando os deuses de chifre chegaram ao Egito.

O nome egípcio para o mar Vermelho era mar de UR. O termo Ta Ur significava a Terra Estrangeira no Leste. Henri Gauthier, que compilou o Dictionnaire de Noms Géographiques, extraindo todos os nomes de lugares nos textos em hieróglifos, salientou que o sinal para Ta Ur "era um símbolo que designava um elemento náutico... ele significa você tem de ir de barco para o lado esquerdo". Examinando o mapa da região na Antiguidade, vemos que uma curva para a esquerda, para alguém que saía do Egito e passava pelos estreitos de Bab-el-Mandeb, o levaria para a península Arábica, na direção do golfo Pérsico.

Existem outras pistas. Ta Ur significa literalmente A Terra de Ur, e o nome Ur é bem conhecido. Ele foi o local de nascimento de Abraão, o patriarca hebreu. Descendente de Sem (Shem), filho mais velho de Noé, o herói bíblico do dilúvio, ele nasceu na cidade de Ur, na Caldéia, filho de Taré: "Taré tomou seu filho Abraão, seu neto Ló, o filho de Arã e sua nora Sarai. mulher de Abraão. Ele os fez sair de Ur dos caldeus para irem ao país de Canaã.”

No início do século XIX, quando os arqueólogos e lingüistas começaram a decifrar a história e os registros escritos do Egito, a única fonte que citava Ur era o Velho Testamento. A Caldéia, porém, era bem conhecida, pois tratava-se do nome usado pelos gregos para denominar a Babilônia, o antigo reino da Mesopotâmia.

O historiador grego Heródoto, que visitou o Egito e a Babilônia no século XV a.C., descobriu muitas similaridades nos costumes dos dois povos. Descrevendo o recinto sagrado do supremo deus Bel (a quem chamou de Júpiter Belus) e a enorme torre com vários andares onde ele ficava, na cidade da Babilônia, ele escreveu que "na torre superior há um templo espaçoso e dentro dele fica um divã de tamanho incomum, ricamente ornamentado, com uma mesa de ouro ao seu lado. Não existe nenhum tipo de estátua no local e ninguém ocupa a câmara, exceto uma mulher que, segundo os caldeus, sacerdotes desse deus, a deidade mesmo escolhe... Eles também afirmam... que o deus desce em pessoa a essa câmara e dorme no divã. Essa história é parecida com a dos egípcios sobre o que aconteceu na cidade de Tebas, onde uma mulher sempre passa a noite no templo do Júpiter tebano (Amon)".

Quanto mais os estudiosos do século XIX foram aprendendo sobre o Egito e comparando o quadro histórico emergente com os escritos de historiadores gregos e romanos, mais dois fatos foram se salientando: Primeiro, a civilização egípcia e sua grandeza não foram uma flor isolada que desabrochou num deserto cultural, mas parte de um desenvolvimento conjunto que ocorreu em todas as terras antigas. Segundo, os contos bíblicos sobre outras terras e reinos, sobre cidades fortificadas e rotas de comércio, sobre guerras e tratados, migrações e estabelecimento em locais diferentes, não eram apenas verdadeiros, mas também exatos.

Os hititas, conhecidos durante séculos apenas pelas breves citações na Bíblia, surgiram nos registros egípcios como poderosos adversários dos faraós. Uma página totalmente desconhecida da História - uma batalha importantíssima entre o exército egípcio e as legiões hititas, que teve lugar em Cades, na parte norte de Canaã, foi descoberta descrita não apenas em textos, mas também representada em paredes de templos. Nesse evento, houve até um toque de interesse pessoal, pois o faraó terminou casando-se com a filha de um rei hitita num esforço para cimentar a paz entre eles.

Os filisteus, "povos do mar", fenícios, horreus, amorreus - ­povos e reinos até essa época conhecidos através do Velho Testamento - começaram a surgir como realidades históricas à medida que ia progredindo o trabalho arqueológico no Egito. No entanto, pelos relatos, as maiores civilizações de todas pareciam ter sido os antiqüíssimos impérios da Assíria e Babilônia. Mas onde estavam seus magníficos templos e outros restos de sua grandeza? E onde estavam seus registros históricos?

Os viajantes que percorriam a Terra entre os Dois Rios, a vasta planície entre o Tigre e o Eufrates, só relatavam a presença de morros - tells, em árabe e hebraico. Na ausência de rochas, mesmo as mais grandiosas estruturas da Mesopotâmia tinham de ser construídas de tijolos de barro. As guerras, as intempéries e o tempo as haviam reduzido a montes de terra. Em vez de edificações monumentais, as escavações nessas áreas só resultavam na descoberta de pequenos artefatos, entre eles tábulas de argila cozida inscritas com marcas em forma de cunha. Já em 1686, um viajante chamado Engelbert Kampfer visitara Persépolis, a antiga capital dos reis persas que lutaram contra Alexandre e, de monumentos existentes ali copiara sinais e símbolos nessa escrita cuneiforme, como a que está no selo real de Dario. No entanto, ele pensou que eram apenas enfeites. Mais tarde, quando se percebeu que aquilo eram inscrições, não houve meios de se saber de que língua se tratava ou como elas poderiam ser decifradas.

Aconteceu com a escrita cuneiforme o mesmo que houve com os hieróglifos egípcios. A chave para decifrá-la surgiu sob a forma de uma inscrição em três idiomas, encontrada gravada nas rochas das montanhas ameaçadoras situadas numa área da Pérsia chamada Behistun. Em 1835, um major do Exército inglês, Henry Rawlinson, conseguiu copiar a inscrição e daí em diante decifrar a escrita e seus idiomas. Descobriu-se então que o texto estava escrito em persa antigo, elamita e acadiano. O acadiano foi a língua-mãe de todos os idiomas semitas e foi através do conhecimento do hebraico que os estudiosos conseguiram ler e compreender as inscrições sobre os assírios e babilônios da Mesopotâmia.

Impulsionado por essas descobertas, um inglês nascido em Paris chamado Henry Austen Layard viajou a Mossul, um centro de caravanas ao noroeste do Iraque, na época parte do Império Otomano, no ano de 1840. Lá ele foi hóspede de William F. Ainsworth, cuja obra Researches in Assyria, Babylonia and Chaldea (1838) - junto com relatórios anteriores e pequenas descobertas feitas por Claudius J. Rich (Memoir on te Ruins of Babylon) - não apenas incendiou sua imaginação como resultou num apoio científico e monetário por parte do Museu Britânico e da Royal Geographical Society. Versado tanto nas referências bíblicas pertinentes como nos clássicos gregos, Layard recordou-se de que um oficial do exército de Alexandre relatara ter visto na área "um lugar com pirâmides e restos de uma antiga cidade", ou seja, urna cidade cujas ruínas já eram consideradas antigas na época do rei da Macedônia!

Os amigos de Layard lhe mostraram os vários tells existentes na área, indicando que havia antigas cidades enterradas sob eles. Seu entusiasmo atingiu o ponto máximo quando ele chegou a um lugar chamado Birs Nimrud. "Vi pela primeira vez o grande monte cônico de Nimrud elevando-se contra o céu claro do fim da tarde", escreveu Layard mais tarde, em sua autobiografia. "A impressão que ele exerceu sobre mim jamais será esquecida." Não seria aquele o lugar onde o oficial de Alexandre vira a pirâmide meio enterrada? Com toda a certeza, o local estava associado ao bíblico Nemrod, "o valente caçador diante de Iahweh", que fundara os reinos e cidades reais da Mesopotâmia (Gênesis, X).

Os sustentáculos de seu reino foram Babel, Arac e Acad,

Cidades que estão todas no país de Sennar.

Desse país saiu Assur,

Que construiu Nínive, Reobot-Ir, Cale e Resen...

Com o apoio do major Rawlinson, que a essa altura era o cônsul e residente britânico em Bagdá, Layard voltou a Mossul em 1845 para começar as escavações em seu querido tell Nimrud. Mas, apesar do que iria encontrar, a láurea de primeiro arqueólogo moderno da Mesopotâmia não coube a ele. Dois anos antes, Paul-Émile Botta, arqueólogo e cônsul francês em Mossul, amigo de Layard, já tinha iniciado escavações numa colina um pouco ao norte da cidade, na outra margem do rio Tigre. Os nativos chamavam o lugar de Khorsabadi; as inscrições cuneiformes ali encontradas o identificaram como Dur-Sharru-Kin, a antiga capital do bíblico Sargão, rei da Assíria. Elevando-se sobre a vasta cidade, seus palácios e templos, havia realmente uma pirâmide construída em sete andares, chamada de zigurate.

Incentivado pelas descobertas de Botta, Layard começou a cavar em seu morro, onde acreditava descobrir Nínive, a capital assíria citada na Bíblia. Apesar de as escavações revelarem apenas um centro militar assírio chamado Kalhu (a bíblica Cale), os tesouros ali encontrados valeram todos os esforços. Havia entre eles um obelisco erigido pelo rei Salmanasar II, no qual constava, entre os que lhe pagavam tributo, "Jehu, filho de Omri, rei de Israel".

Com isso, as descobertas assírias confirmavam a veracidade histórica do Velho Testamento.

Encorajado, Layard começou a escavar em 1849 uma colina que ficava diretamente em frente a Mossul, na margem leste do Tigre. O lugar, chamado pelos residentes da área de Kuyunjik, provou ser Nínive, a capital fundada por Senaqueribe, o rei assírio cujo exército foi derrotado pelo anjo de Iahweh quando sitiou Jerusalém (Reis II, 18). Depois dele, Nínive serviu corno capital de Asaradão e Assurbanipal. Os tesouros de Nínive levados para o Museu Britânico ainda constituem a mais impressionante porção da ala assíria.

À medida que o ritmo das escavações se acelerava, com outras equipes arqueológicas de várias nações entrando na corrida, todas as cidades mencionadas na Bíblia (com uma única exceção de menor importância) foram sendo descobertas. Mas, enquanto os museus do mundo se enchiam de tesouros antigos, os achados mais valiosos eram as simples tábulas de argila - algumas tão pequenas que se acomodavam na palma da mão do escriba - onde os assírios, babilônios e outros povos na Ásia oriental escreviam contratos comerciais, sentenças de tribunais, registros de casamento e heranças, listas geográficas, informações matemáticas, fórmulas médicas, leis e regulamentos, histórias das famílias reais, de fato, todos os aspectos da vida de sociedades avançadas e altamente civilizadas. Contos épicos, lendas sobre a Criação, provérbios, textos filosóficos, canções de amor e temas semelhantes constituíam uma vasta herança literária. E havia os assuntos celestiais - listas de estrelas e constelações, informações planetárias, tábuas astronômicas; e também listas de deuses, seus relacionamentos familiares, atributos, tarefas e funções - deuses chefiados por doze Grandes Deuses, "Deuses do Céu e da Terra", aos quais estavam associados os doze meses do ano, as doze constelações do zodíaco e os dozes corpos celestes de nosso sistema solar.

Como às vezes as próprias inscrições declaravam, sua linguagem se originava do acadiano. Esses e outros indícios confirmaram a narrativa bíblica de que a Assíria e a Babilônia - que surgiram na cena histórica por volta de 1.900 a.C. - tinham sido precedidas por um reino chamado Acad. Este foi fundado por Sharru-Kin - "O Governante Virtuoso" -, a quem chamamos de Sargão I, que viveu a cerca de 2.400 a.C. Algumas de suas inscrições também foram encontradas e nelas ele se vangloriava de que, por graça de seu deus Enlil, seu império se estendia do golfo Pérsico até o mar Mediterrâneo. Sargão I denominava a si mesmo "Rei de Acad, rei de Kish", e afirmava ter "derrotado Uruk, derrubado sua muralha... ter sido vitorioso na batalha com os habitantes de Ur".

Muitos eruditos acreditam que Sargão I era o bíblico Nemrod, de modo que os versos da Bíblia se aplicam a ele e a uma capital chamada Kish (ou Cuch, segundo a grafia bíblica), onde já existia a realeza mesmo antes de Acad:

Cuch gerou Nemrod,

Que foi o primeiro potentado sobre a terra...

Os sustentáculos de seu reino

Foram Babel, Arac e Acad,

Cidades que estão todas no país de Sennar.

A real cidade de Acad foi descoberta ao sudeste da Babilônia, o mesmo acontecendo com Kish

, encontrada a sudeste de Acad. De fato, quanto mais os arqueólogos desciam pela planície entre o Tigre e o Eufrates, maior era a antiguidade das cidades escavadas. Num local hoje chamado de Warka, a cidade de Uruk, que Sargão afirmava ter derrotado - a bíblica Arac -, foi descoberta e levou os arqueólogos do terceiro milênio a.C. para o quarto milênio a.C! Nesse local eles encontraram a primeira cerâmica cozida em forno; provas do uso da roda de oleiro; um calçamento de blocos de calcário que é o mais antigo de seu tipo; o primeiro zigurate ou pirâmide de degraus; e os primeiros registros escritos da Humanidade: textos e selos cilíndricos gravados em alto-relevo, que, quando rolados sobre argila úmida, deixavam uma impressão permanente.

Ur, o local de nascimento de Abraão, também foi encontrada mais ao sul, onde ficava o litoral do golfo Pérsico na Antiguidade. Tinha sido um grande centro comercial, com um imenso zigurate, e sede de várias dinastias. Seria então a parte mais antiga da Mesopotâmia, a mais meridional, a bíblica Terra de Sennar - o lugar onde aconteceram os eventos da torre de Babel?

Uma das maiores descobertas da Mesopotâmia foi a biblioteca de Assurbanipal, em Nínive, que continha mais de 25 mil tábulas de argila ordenadas por assunto. Um rei de grande cultura, Assurbanipal colecionava todos os textos em que conseguia colocar as mãos e, além disso, mandava seus escribas copiar e traduzir inscrições que de alguma forma ou de outra não estavam disponíveis. Muitas tábulas estavam identificadas pelos escribas como "cópias de velhos textos". Um grupo de 23 tábulas, por exemplo, terminava com um post-scriptum: "23ª. tábula; linguagem de Shumer não modificada". O próprio Assurbanipal declarou numa inscrição:

O deus dos escribas me concedeu a dádiva do conhecimento de sua arte.

Fui iniciado nos segredos da escrita.

Posso até ler as intricadas placas em shumeriano.

Entendendo as enigmáticas palavras gravadas em pedra

Dos dias antes do dilúvio.

Em 1853, Henry Rawlinson sugeriu à Sociedade Asiática Real que possivelmente havia uma língua desconhecida que precedia o acadiano, salientando que os textos assírios e babilônios freqüentemente usavam palavras emprestadas desse idioma, em especial quando se tratava de textos científicos ou religiosos. Em 1869, Jules Oppert propôs num encontro da Sociedade Francesa de Numismática e Arqueologia que fosse reconhecida a existência de uma linguagem assim primitiva e das pessoas que falavam e escreviam. Ele mostrou que os acadianos chamavam seus antecessores de Shumerianos e falavam da Terra de Shumer.

Era essa, de fato, a bíblica Terra de Sennar (Shin'ar), o país cujo nome - Shumer - significava, literalmente, Terra dos Observadores. E era a mesma Ta Neter dos egípcios, a Terra dos Observadores, da qual tinham vindo os deuses para o Egito.

Por mais difícil que tenha sido na época, os estudiosos acabaram aceitando, depois da grandeza e antiguidade do Egito ser desenterrada, que a civilização, como conhecida no Ocidente, não começara em Roma ou na Grécia. Como ficaria a situação agora que estava provado, como os próprios egípcios tinham sugerido, que a civilização e a religião começaram não no Egito, mas no sul da Mesopotâmia?

No século que se seguiu às primeiras descobertas na Mesopotâmia, tornou-se evidente, além de qualquer dúvida, que foi realmente na Suméria (os estudiosos decidiram-se pela grafia Sumer, por acharem-na de pronúncia mais fácil) que começou a civilização moderna. Foi lá, logo depois de 4.000 a.C. - há quase 6 mil anos - que todos os elementos essenciais de uma alta civilização subitamente desabrocharam, como que vindo do nada e sem motivo aparente. Praticamente não existe nenhum aspecto de nossa atual cultura e civilização cujas raízes e precursores não possam ser encontrados na Suméria: cidades, arranha-céus, ruas, mercados, celeiros, docas, escolas, templos; metalurgia, medicina, cirurgia, manufatura de tecidos, arte culinária, agricultura, irrigação; o uso de tijolos, a invenção do forno para cerâmica; a primeira roda conhecida na Humanidade, carros e carroças; embarcações e navegação; comércio internacional; pesos e medidas; o sistema monárquico, leis, tribunais, júris; a escrita e arquivos; música, notas musicais, instrumentos musicais, dança e acrobacia; animais domésticos e zoológicos; a arte da guerra, o artesanato, a prostituição. E, acima de tudo, o estudo e conhecimento dos céus e dos deuses "que vieram do Céu para a Terra".

Que fique bem esclarecido aqui que nem os acadianos nem os sumérios chamavam esses visitantes da Terra de deuses. Só depois, com o paganismo, é que a noção de seres divinos ou deusa infiltrou-­se em nossa linguagem e pensamento. Se emprego o termo aqui é somente devido ao seu uso e aceitação generalizados.

Os acadianos chamavam-nos de Ilu - "Os Altíssimos" -, do qual se origina o bíblico El. Os cananeus e fenícios chamavam-nos de Ba' al - "Senhor". Porém, nos primórdios de todas essas religiões, os sumérios chamavam-nos de DIN.GIR. "Os Virtuosos dos Foguetes Espaciais". Na primitiva escrita pictográfica dos sumérios (que posteriormente foi estilizada para a cuneiforme), os Termos DIN e GIR eram escritos

Quando os dois estão combinados, podemos ver que o "cortador" ou GIR, com forma semelhante a um módulo de comando cênico-piramidal, ajusta-se perfeitamente ao nariz do DIN, mostrado como um foguete de vários estágios. Além disso, quando verticalizamos a palavra-desenho, descobrimos que ela é impressionantemente parecida com o foguete espacial dentro do silo subterrâneo pintado na tumba do egípcio Huy.

A partir de lendas cosmológicas dos sumérios e seus poemas épicos, de textos contando a biografia desses deuses, de listas de suas funções, relacionamentos familiares e cidades, de cronologias e histórias da chamada Lista de Reis, e de uma riqueza de outros textos, inscrições e desenhos, consegui montar um relato coerente sobre o que houve nos tempos pré-históricos e como tudo aconteceu.

Essa história começa em épocas primevas, quando nosso sistema solar ainda era jovem. Um grande planeta surgiu vindo do espaço sideral e foi atraído por ele. Os sumérios chamavam esse invasor de NIBIRU, "O Planeta da Travessia"; os babilônios lhe davam o nome de Marduk. Quando ele estava passando pelos planetas externos de nosso sistema solar, sua trajetória se encurvou devido à força de atração, o que o colocou em curso de colisão com um velho membro do sistema solar - um planeta chamado Tiamat. Quando os dois se aproximaram, os satélites de Marduk cortaram Tiamat ao meio. Sua parte inferior foi esmigalhada em pedaços pequenos e esses restos planetários formaram os cometas e o cinturão de asteróides - o "bracelete celeste" - que orbita entre Júpiter a Marte. A parte superior de Tiamat e o principal satélite desse planeta foram atirados numa nova órbita, tornando-se a Terra e a Lua.

Marduk, intacto, foi capturado numa vasta órbita elíptica em torno do Sol, o que o faz voltar ao local da "batalha celeste", entre Júpiter e Marte, a cada 3.600 anos terrestres. E foi assim que nosso sistema solar ficou com doze corpos celestes - o Sol, a Lua (que os sumérios consideravam um corpo celeste por seu próprio direito), os nove planetas que conhecemos e o 12º.: Marduk.

Quando Marduk invadiu nosso sistema solar, trouxe com ele a semente da vida e, na colisão com Tiamat, um pouco dessa semente passou para sua parte que sobreviveu - o planeta Terra. Ao se desenvolver, essa vida começou a copiar a evolução em Marduk e foi por isso que, quando na terra a espécie humana estava em seus primórdios, em Marduk os seres inteligentes já tinham atingido altos níveis de civilização e tecnologia.

Era do 12º. membro do sistema solar, diziam os sumérios, que os astronautas tinham vindo à Terra - os "Deuses do Céu e da Terra". E foi a partir das crenças dos sumérios que todos os outros povos da Antiguidade adquiriram seus deuses e religiões. Esses deuses, afirmavam os sumérios, tinham criado a Humanidade e posteriormente lhe dado a civilização, ou seja, todo o conhecimento, todas as ciências, inclusive uma parcela incrível de uma astronomia sofisticada.

Esse conhecimento astronômico abrangia o reconhecimento do sol como o corpo central de nosso sistema planetário e a cognição de todos os planetas que conhecemos atualmente, inclusive os externos - Urano, Netuno e Plutão - que são descobertas relativamente recentes da astronomia moderna e não poderiam ter sido observados e identificados a olho nu. E, tanto nas listas e textos planetários, bem como em descrições pictográficas, os sumérios insistiam na existência de mais um planeta - NIBIRU, Marduk ­que no ponto de sua órbita mais próximo da Terra passava entre Marte e Júpiter.

A sofisticação em conhecimento celeste - que os sumérios atribuíam aos astronautas vindos de Marduk - não era limitada à familiaridade com o sistema solar. Havia o universo infinito, cheio de estrelas. Foi na Suméria - e não séculos depois, na Grécia, como se imaginava - que pela primeira vez as estrelas foram identificadas, agrupadas em constelações e localizadas no céu, recebendo nomes. Todas as constelações que atualmente vemos no céu do hemisfério norte e a maioria das do hemisfério sul estão listadas nas tábulas astronômicas dos sumérios - em sua ordem correta e com os nomes que usamos até hoje!

Da maior importância eram as constelações que parecem rodear o plano ou faixa na qual os planetas orbitam o Sol. Chamadas pelos sumérios de UL.HE ("O Rebanho Luminoso") - que os gregos adotaram com o nome de zodiakos kyklos ("O Círculo dos Animais") e nós ainda denominamos de zodíaco - elas foram arranjadas em doze grupos para formar as Casas do Zodíaco. Não apenas os nomes que os sumérios deram a esses grupos - Touro, Gêmeos, Câncer, Leão etc. - como suas descrições pictóricas permaneceram imutáveis ao longo dos milênios. As representações egípcias do zodíaco, muito posteriores, eram quase idênticas às dos sumérios.

Além dos conceitos da astronomia esférica que empregamos até hoje (inclusive as noções do eixo celestial, pólos, eclíptica, equinócios e outras), que já estavam aperfeiçoados na época dos sumérios, havia também uma surpreendente familiaridade com o fenômeno da Precessão. Como sabemos atualmente, há uma ilusão de retardamento na órbita da Terra quando um observador marca a posição do Sol numa data fixada (tal como o primeiro dia da primavera) contra as constelações do zodíaco que funcionam como um pano de fundo no espaço. Causada pelo fato de o eixo da Terra ser inclinado em relação ao plano de sua órbita em torno do Sol, esse retardamento ou precessão é infinitesimal em termos de duração de vida dos seres humanos, pois em 72 anos a mudança no pano de fundo zodiacal é de somente 1 grau do círculo celestial de 360 graus.

Uma vez que o círculo do zodíaco que rodeia a faixa onde a Terra e outros planetas orbitam em torno do Sol foi dividida em doze casas arbitrárias, cada uma ocupa 1/12 do círculo completo ou um espaço celestial de 30 graus. Assim, a Terra leva 2.160 anos (72 x 30) para retardar através do vão completo de uma casa zodiacal. Em outras palavras, se um astrônomo colocado na Terra esteve observando o céu no dia de primavera quando o Sol começou a subir contra a constelação ou casa de Peixes, seus descendentes, 2.160 anos depois, observarão o evento com o Sol contra o pano de fundo da constelação adjacente, a casa de Aquário.

Nenhum homem, talvez nem mesmo uma única nação, poderia ter observado, notado e compreendido esse fenômeno na Antiguidade. Todavia, as provas são irrefutáveis: os sumérios, que começaram sua contagem no tempo na Era de Touro (que se iniciou a cerca de 4.400 a.C.), tinham ciência e registraram em suas listas astronômicas as mudanças precessionais anteriores para Gêmeos (cerca de 6.500 a.C.), Câncer (cerca de 8.700 a.C.) e Leão (cerca de 10.900 a.C.). Nem é preciso dizer que foi reconhecido por volta de 2.200 a.C. que o primeiro dia de primavera - Ano-Novo para os povos da Mesopotâmia - retardou os plenos 30 graus e passou para a constelação ou "Era" de Áries, o Carneiro (KU.MAL em sumérios).

Foi reconhecido por alguns estudiosos do passado, que combinaram seu conhecimento de egiptologia e assiriologia com astronomia, que as descrições escritas e pictóricas empregavam a Era do Zodíaco como um grandioso calendário celeste, pelo qual os eventos da Terra eram relacionados com a escalada maior dos céus. Esse conhecimento tem sido utilizado em tempos mais recentes como um auxílio cronológico pré-histórico e histórico em estudos como o de G. de Santillana e H. von Dechend (Hamlet's Mill). Não há dúvida, por exemplo, de que a esfinge com traços de leão ao sul de Heliópolis e as com aspecto de carneiro, que guardavam os templos de Karnak, mostravam as eras zodiacais em que tinham ocorrido os eventos que elas representavam ou nas quais os deuses ou reis relacionados com eles tinham sido supremos.

O ponto básico desse conhecimento de astronomia e, por conseqüência, de todas as religiões, crenças, eventos e descrições do mundo antigo, era a convicção de que existe mais um planeta em nosso sistema solar, o de maior órbita, um planeta supremo ou "Senhor Celestial" - o que os egípcios chamavam de Estrela Imorredoura ou "O Planeta dos Milhões de Anos" -, a Morada Celestial dos Deuses. Os povos da Antiguidade, sem nenhuma exceção, rendiam homenagem a esse planeta, o de mais vasta e majestosa órbita. No Egito, Mesopotâmia e todos os outros lugares, seu onipresente emblema era o do Disco Alado.

Reconhecendo que o Disco Celestial nas ilustrações egípcias representava a Morada Celestial de Ra, os estudiosos sempre insistiram em referir-se a Ra como um "deus do Sol" e ao Disco Alado como "Disco Solar". Agora já deve estar claro que não era o Sol, mas o 12º. Planeta que assim era representado. De fato, as pinturas egípcias faziam uma distinção nítida entre o Disco Celestial e o Sol. Como pode-se ver, ambos eram mostrados no céu (representado pela forma arqueada da deusa Nut). Então, está claro que não se trata de um corpo celestial, mas de dois. Também pode-se ver perfeitamente que o 12º. Planeta é mostrado corno um globo ou disco celestial, enquanto o Sol é mostrado emitindo seus raios benevolentes.

Então os antigos egípcios, como os sumérios, sabiam, mil anos atrás, que o sol era o centro do sistema solar e que ele era constituído de doze corpos celestes? A prova disso está nos mapas celestiais pintados nos sarcófagos.

Um desses sarcófagos, muito bem conservado, descoberto em 1857 por H. K. Brugsch numa tumba de Tebas, mostra a deusa Nut ("O Céu") no painel central (pintado na parte superior do ataúde), cercada pelas doze constelações do zodíaco. Nas laterais do sarcófago, as fileiras inferiores mostram as doze horas do dia e da noite. Logo em seguida vêm os planetas - os Deuses Celestiais - que são mostrados viajando em suas órbitas predeterminadas, os Barcos Celestiais (os sumérios chamavam as órbitas de "destinos" dos planetas).

Na posição central, vemos o globo do sol, emitindo raios. Perto dele, ao lado da mão esquerda de Nut, vemos dois planetas: Mercúrio e Vênus. (Vênus está corretamente pintado como sendo mulher - ele era o único considerado feminino por todos os povos da Antiguidade). Depois, no painel lateral, à esquerda do corpo da deusa, estão a Terra (seguida do emblema de Hórus), a Lua, Marte e Júpiter como Deuses Celestiais viajando em seus barcos.

No painel lateral à direita do corpo de Nut, localizam-se outros quatro Deuses Celestiais na parte inferior - continuando depois de Júpiter -, sem Barcos Celestiais, pois suas órbitas eram desconhecidas para os egípcios: Saturno, Urano, Netuno e Plutão. A época da mumificação do corpo está marcada pelo Lanceiro apontando sua arma na parte média do Touro.

Assim, encontramos todos os planetas em sua ordem correta, inclusive os externos, que só foram descobertos em tempos bastante recentes. O próprio Brugsch, que encontrou o sarcófago, como outros de sua época, não tinham conhecimento da existência de Plutão.

Os eruditos, que estudaram o conhecimento planetário da Antiguidade, partiam da hipótese de que os povos antigos acreditavam que cinco planetas - entre eles o Sol - giravam em torno da Terra. Qualquer desenho ou referências escritas a outros planetas eram, segundo afirmavam, devido a algum tipo de "confusão". Mas não havia confusão nenhuma. Existia, sim, uma impressionante exatidão: o Sol é o centro do sistema solar, a Terra é um planeta e, além dela, da Lua e dos oito planetas que conhecemos atualmente, há um outro planeta, muito maior. No sarcófago ele está pintado em destaque, acima da cabeça de Nut, como um importante Senhor Celestial em seu enorme Barco Celestial, ou seja, sua órbita.

Há 450 mil anos - segundo nossas fontes sumérias -, os astronautas vindos desse Senhor Celestial desceram no planeta Terra.

6

NOS DIAS ANTES DO DILÚVIO

Entendendo as enigmáticas palavras gravadas em pedra dos dias antes do dilúvio.

Assim afirmou, numa inscrição auto-laudatória, o rei assírio Assurbanipal. De fato, ao longo da diversificada literatura da antiga Mesopotâmia, encontrava-se aqui e ali referência a um dilúvio que varrera a Terra. Quando os eruditos começaram a encontrá-las, ficaram em dúvida - seria o relato bíblico sobre o dilúvio não um mito ou alegoria, mas o registro de um evento verdadeiro e não recordado apenas pelos hebreus?

Além disso, mesmo essa única sentença na inscrição de Assurbanipal estava cheia de dinamite científica. Ela não somente confirmava que existira um dilúvio como também declarava que por ter sido ensinado pelo Deus dos Escribas, o rei era capaz de ler inscrições antediluvianas, "as enigmáticas palavras gravadas em pedra dos dias antes do dilúvio". Ora, isso só podia significar que mesmo antes do dilúvio já havia escribas e talhadores, idiomas e escrita - que existira uma civilização nos remotos antediluvianos!

Já fora bastante traumático os eruditos serem obrigados a reconhecer que as raízes de nossa moderna civilização ocidental não estavam na Grécia ou Judéia do primeiro milênio a.C., na Assíria e Babilônia do segundo milênio a.C. e nem mesmo no Egito do terceiro milênio a.C., mas na Suméria do quarto milênio a.C. Agora a credibilidade científica teria de voltar ainda mais para trás, para uma época que até os sumérios chamavam de "velhos dias" - para uma enigmática era "antes do dilúvio".

No entanto, todas essas revelações chocantes deveriam ser notícia velha para qualquer pessoa que tivesse se dado ao trabalho de ler as palavras do Velho Testamento dentro de seu verdadeiro significado: depois que a Terra e o cinturão de asteróides foram criados (O Rak'ia, ou Céu do Gênesis), a Terra tomou forma, criou-se "o Adão" e o homem foi colocado no Jardim que ficava no Éden. Todavia, por intermédio das maquinações de uma brilhante "serpente" que se atreveu a desafiar Deus, Adão e sua companheira, Eva, adquiriram um certo conhecimento que não deviam possuir. Diante disso, o Senhor, falando a seres cujos nomes não aparecem na Bíblia, preocupou-se com a possibilidade de o homem, "como já é um de nós", poder também se servir da Árvore da Vida e comer e viver para sempre. Assim:

Ele baniu o homem

E colocou diante do Jardim do Éden

Os Querubins e a chama da Espada Fulgurante

Para guardar o caminho da Árvore da Vida.

Dessa forma Adão foi expulso do maravilhoso pomar que o Senhor plantara no Éden, para daí em diante "comer as ervas do campo" e obter seu sustento "com o suor de seu rosto". E Adão "conheceu Eva, sua mulher; ela concebeu e deu à luz Caim... e também deu à luz Abel, irmão de Caim. Abel tornou-se pastor de ovelhas e Caim cultivava o solo".

Assim, a afirmação que a Bíblia faz sobre uma civilização antediluviana segue duas linhas, começando com a de Caim. Depois de assassinar Abel - existe uma insinuação de homossexualidade como a causa -, Caim foi banido para o leste, para a Terra de Nod, a "Terra das Migrações". Lá sua mulher deu à luz Henoc­ um nome que significa "fundação". A Bíblia explica que Caim "tornou-se um construtor de cidade" quando seu filho nasceu" e deu à cidade o nome de seu filho, Henoc". (A aplicação do mesmo nome para uma pessoa e a cidade associada a ele foi um costume que prevaleceu ao longo de toda a história da Antiguidade do Oriente Médio.)

A linha de Caim continuou com Irad, Mavíael, Matusalém e Lamec. O primeiro filho de Lamec foi Jubal - nome que no hebraico original (Yuvat) significa "o tocador de flauta". Como explica o Livro do Gênesis, ele foi "o pai de todos que tocam a lira e charamela".

Um segundo filho de Caim, Tubalcaim, "foi o pai de todos os laminadores em cobre e ferro". O que aconteceu com esse habilidoso povo do leste na terra de Nod não ficamos sabendo, pois o Velho Testamento, considerando maldita a linha de Caim, perde todo o interesse em dar a lista de sua genealogia e seu destino.

O Livro do Gênesis, em seu Capítulo 5, volta a Adão e ao seu terceiro filho, Set. Adão, somos informados, tinha 130 anos quando Set nasceu e viveu mais oitocentos anos, durando portanto, no total, 930 anos. Set, que foi pai de Enós aos 105 anos, viveu até os 912 anos. Enós teve Cainã aos 90 anos e morreu com 905. Cainã viveu 910 anos. Seu filho Malaleel tinha 895 anos quando morreu. E seu filho, Jared, faleceu aos 962 anos.

Sobre todos esses patriarcas antediluvianos, o Livro do Gênesis fornece um mínimo de informações: o nome de seus pais, a idade que tinham por ocasião do nascimento de seus herdeiros masculinos e ("depois de gerarem filhos e filhas") a idade com que morreram. No entanto, o patriarca que se segue a eles recebe um tratamento especial:

Quando Jared completou 162 anos, gerou Henoc...

Quando Henoc completou 65 anos, gerou Matusalém.

Henoc andou com Deus. Depois do nascimento de Matusalém,

Henoc viveu trezentos anos e gerou filhos e filhas.

Toda a duração da vida de Henoc foi de 365 anos.

E aí segue-se a explicação - uma explicação impressionante - ­do por que Henoc foi considerado digno de tanta atenção e detalhes biográficos: Henoc não morreu!

Henoc andou com Deus, depois desapareceu,

Pois Deus o arrebatou.

Matusalém foi o patriarca mais longevo; viveu 969 anos e gerou Lamec. Lamec, que viveu 777 anos, gerou Noé, o herói do dilúvio. Neste ponto do Gênesis existem informações mais detalhadas: Lamec deu esse nome ao seu filho porque a Humanidade estava passando por uma época de grande sofrimento e o solo era estéril e improdutivo. Ao chamar o filho de Noé ("Descanso"), Lamec expressou a esperança de que "este nos trará descanso de nossa luta e frustrações na terra que Deus amaldiçoou".

E assim, ao longo de dez gerações de patriarcas antediluvianos abençoados com o que os eruditos chamam de durações de vida "legendárias", a narrativa bíblica chega aos momentosos eventos do dilúvio.

O dilúvio é apresentado no Livro do Gênesis como uma oportunidade aproveitada por Iahweh para fazer "desaparecer da superfície da Terra os homens que criei". Os antigos autores acharam necessário fornecer uma explicação para uma decisão tão drástica. Segundo somos informados, ela teve a ver com as perversões carnais dos homens, especificamente com as relações sexuais entre "as filhas dos homens" e "os filhos de Deus".

A despeito dos esforços monoteístas dos compiladores e editores do Livro do Gênesis, lutando para proclamar a fé numa única deidade num mundo que na época acreditava em muitos deuses, restam numerosos deslizes em que a narrativa bíblica fala de deuses no plural. O próprio termo para "deidade" (quando o Senhor não é especificamente chamado de Iahweh) não é o singular El, mas o plural Elohim. Quando ocorre a idéia de criar Adão, a narrativa adota o plural: "Deus (Elohim) disse: Façamos o homem a nossa imagem, como nossa semelhança". E, depois do incidente com o fruto do conhecimento, Elohim de novo falou no plural, dirigindo-­se a seres não identificados.

E agora transpira de quatro enigmáticos versos do Livro do Gênesis, Capítulo 6, que preparam a cena para o dilúvio, que não apenas existiam deidades (Elohim) no plural, como elas até tinham filhos (também no plural). Esses filhos aborreceram o Senhor ao fazer sexo com as filhas dos homens, aumentando seu pecado ao gerarem filhos ou semi-deuses a partir dessa cópula ilícita:

Quando os homens começaram a ser numerosos

Sobre a face da Terra e lhes nasceram filhas,

Os filhos de Deus viram

Que as filhas dos homens eram belas

E tomaram como mulheres

Todas as que mais lhes agradavam.

O Velho Testamento explica ainda:

Ora, naquele tempo (e também depois),

Quando os filhos de Deus se uniam às filhas dos homens e estas lhes davam filhos,

Os Nefilim habitavam sobre a Terra;

Estes eram os Poderosos da Eternidade, o Povo do Shem.

Nefilim - tradicionalmente traduzido "gigantes" - significa literalmente "Aqueles que Foram Lançados Sobre" a Terra. Eles eram os "filhos dos deuses" - o povo do Shem, ou seja, o povo dos foguetes espaciais.

Voltamos, então, à Suméria e aos DIN.GIR, "Os Justos dos Foguetes Espaciais".

Peguemos agora os registros sumérios no ponto onde paramos anteriormente - 450 mil anos atrás.

Foi há cerca de 450 mil anos, afirmam os textos sumérios, que astronautas de Marduk chegaram à Terra em busca de ouro. Precisavam dele não para a confecção de jóias, mas para alguma necessidade premente ligada à sobrevivência no 12º. planeta.

O primeiro grupo de desembarque era composto de cinqüenta astronautas; eles eram chamados Anunnaki - "Os do Céu que Estão na Terra". Esse grupo desceu no mar Arábico e daí foi para o alto do golfo Pérsico, lá estabelecendo sua primeira Estação Terrestre, E.RI.DU - "Lar no Longínquo Construído". O comandante era um brilhante cientista e engenheiro que adorava navegar pelos mares, e cujo hobby era pescar. Ele era chamado E.A. - "Aquele Cuja Casa É Água" - e desenhado como o protótipo de Aquário; mas, por ter liderado a aterrissagem, recebeu o título de EN.KI­ - "Senhor Terra”. Como todos os outros deuses sumérios, o aspecto que o distinguia era o toucado com chifres.

O plano original, ao que tudo indica, era extrair ouro da água do mar, mas ele provou ser insatisfatório. A única alternativa que restou foi obtê-lo da maneira mais difícil: extrair o minério do sudeste da África, transportá-lo em embarcações até a Mesopotâmia para ali derretê-lo e refiná-lo. Em seguida, os lingotes de ouro eram enviados para o espaço no ônibus espacial, que os deixava numa nave que orbitava a Terra. Ali eles ficavam esperando a chegada periódica de uma nave-mãe, que levava o precioso metal para o planeta dos astronautas.

Para tornar tudo isso possível, mais Anunnaki tiveram de vir à Terra e logo eles eram seiscentos. Outros trezentos cuidavam do ônibus espacial e da estação orbital. Um espaço-porto foi construído em Sippar ("Cidade dos Pássaros"), na Mesopotâmia, num local alinhado com o marco geográfico mais notável do Oriente Médio - os picos do monte Ararat. Outros povoados com várias funções - como o centro de fundição e refinação de Bad-Tibira, um centro médico chamado Suripak - foram instalados de modo a formar um Corredor de Aterrissagem em forma de flecha. No centro exato, NIBRU.KI - "O Lugar do Cruzamento na Terra" (Nippur em acadiano), estabeleceu-se o Centro de Controle da Missão.

O comandante-geral desse vasto empreendimento no planeta Terra era EN.LIL - "O Senhor do Comando". Na escrita pictográfica primitiva dos sumérios, o nome de Enlil e do seu Centro de Controle da Missão eram desenhados como um complexo de estruturas com antenas altas e grandes telas de radar.

Tanto Ea-Emki como Enlil eram filhos do governante do 12º. Planeta na época, AN (Anu em acadiano), cujo nome significava "Aquele dos Céus" e era escrito pictograficamente como uma estrela *. Apesar de ser o primogênito, Ea não era o herdeiro do trono, pois esse direito cabia a Enlil, por ter nascido de uma outra esposa de Anu que também era sua meia-irmã. Talvez devido ao aumento de abrangência do empreendimento, Enlil foi enviado à Terra e tirou o comando de Ea, o chamado Senhor Terra. A situação complicou-se ainda mais com a chegada do Primeiro Oficial Médico -NIN.HUR.SAG ("Senhora do Pico da Montanha") - meia­-irmã tanto de Ea como de Enlil, o que estimulou os dois a procurar seus favores, pois um filho de um deles com Ninhursag herdaria o trono. O constante ressentimento de Ea contra o irmão, somado à crescente competição entre os dois, acabou derramando-se sobre seus descendentes e foi a causa subjacente dos muitos eventos que se seguiram.

Com a passagem dos milênios na Terra - embora para os Anunnaki cada 3.600 anos terrestres fossem apenas um de seu próprio ciclo de vida -, esses astronautas sem patente começaram a protestar. Caberia mesmo a eles, como homens ligados a missões espaciais, ficarem cavando minério em túneis quentes, escuros e poeirentos? Ea, talvez evitando atritos com o irmão, passava cada vez mais tempo no sudeste da África, longe da Mesopotâmia. Os Anunnaki que lutavam nas minas dirigiam suas queixas para ele e juntos eles conversavam sobre suas insatisfações mútuas.

Então, um dia, quando Enlil chegou à área de mineração numa viagem de inspeção, foi dado o sinal. Houve um motim. Os Anunnaki saíram das minas, atiraram suas ferramentas no fogo, dirigiram-se para a casa onde Enlil estava e cercaram-na, gritando: "Basta!”

Enlil entrou em contato com Anu e ofereceu-se para desistir do comando e voltar ao seu planeta. Anu veio à terra. Montou-se uma corte marcial. Enlil exigiu que o instigador do motim fosse condenado à morte. Os Anunnaki, como um todo, recusaram-se a divulgar sua identidade. Ouvindo os depoimentos, Anu concluiu que, na verdade, o trabalho era duro demais. Mas como interromper a mineração do ouro?

Foi então que Ea ofereceu uma solução. Contou que, no sudeste da África, vagava um ser que poderia ser treinado para executar algumas das tarefas de mineração, desde que a "marca dos Anunnaki" pudesse ser colocada neles. Ea referia-se aos homens e mulheres que tinham evoluído na Terra, mas que ainda estavam num nível de evolução muito distante do atingido pelos habitantes do 12º. Planeta. Depois de muita deliberação, ele recebeu carta branca: "Crie um Lulu, 'um trabalhador primitivo'; que ele suporte o jugo dos Anunnaki".

Ninhursag, na qualidade de Primeiro Oficial Médico, iria ajudá-lo na empreitada. Houve muitas tentativas e erros até se encontrar o procedimento correto. Extraindo o óvulo de uma mulher-macaco, Ea e Ninhursag o fertilizaram com o esperma de um jovem astronauta. Em seguida implantaram esse ovo não no útero da mulher-macaco, mas no de uma astronauta. Finalmente foi conseguido o "Modelo Perfeito" e Ninhursag gritou de alegria: "Eu o criei! Minhas mãos o fizeram!" E levantou para todos verem o primeiro Homo sapiens - o primeiríssimo bebê de proveta da Terra!

Porém, como qualquer outro híbrido, o terráqueo não podia procriar. Para se obter mais trabalhadores primitivos, outros óvulos de mulheres-macacos foram extraídos, fertilizados e reimplantados em úteros de "deusas do nascimento" - catorze de cada vez, das quais sete gerariam homens e sete, mulheres. À medida que os terráqueos começaram a se encarregar do trabalho de mineração no sudeste da África, os Anunnaki que labutavam na Mesopotâmia passaram a invejar seus colegas e começaram a clamar pela ajuda de trabalhadores primitivos. Apesar das objeções de Ea, Enlil apoderou-se de alguns terráqueos e levou-os para E.DIN - "A Morada dos Justos" na Mesopotâmia. O evento está registrado na Bíblia: "Iahweh Deus tomou o homem e o colocou no Jardim do Éden para cultivar e guardar".

Durante esse tempo todo, os astronautas que tinham vindo à Terra preocupavam-se com o problema da longevidade. Seus relógios biológicos estavam ajustados para seu próprio planeta. O tempo que ele levava para fazer uma órbita completa em torno do Sol era para seus habitantes um ano do ciclo de vida. Todavia, num único ano desses, a Terra orbitava o Sol 3.600 vezes, ou seja, 3.600 anos para a vida originária da Terra. Para manter seus ciclos vitais mais longos na Terra mais veloz, os astronautas consumiam um "Alimento da Vida" e uma "Água da Vida", que vinham do seu planeta natal. Nos laboratórios biológicos de Eridu, cujo emblema era o sinal das Serpentes Enlaçadas, Ea tentava desvendar os segredos da vida, reprodução e morte. Por que os filhos nascidos de astronautas na Terra envelheciam tão mais rápido do que seus pais? Por que os homens-macacos tinham vida tão curta? Por que o híbrido Homo sapiens vivia bem mais do que o homem-­macaco, mas tinha uma existência breve quando comparada com a dos visitantes à Terra? Seria devido a fatores ambientais ou a tendências genéticas?

Realizando novas experiências na manipulação genética de híbridos, e usando seu próprio esperma, Ea encontrou um outro "modelo perfeito" de terráqueo. Adapa, como o chamou, tinha uma inteligência maior e, acima de tudo, a capacidade de procriar, mas não possuía a longevidade dos astronautas:

Com amplo entendimento ele o aperfeiçoara...

Para ele dera o Conhecer;

A vida Eterna não lhe concedeu.

Assim Adão e Eva do Livro do Gênesis receberam a dádiva ou fruto não apenas do Conhecimento, mas também do Conhecer - o termo bíblico hebraico para a cópula com a intenção de gerar descendentes. Encontramos esse conto "bíblico" ilustrado num desenho sumério arcaico.

Enlil ficou indignado ao descobrir o que Ea fizera. Jamais se pretendera que o homem fosse capaz de procriar como os deuses. Ficou se perguntando o que viria em seguida. Ea daria ao homem uma vida eterna? No 12º. Planeta, Anu também ficou perturbado. "Levantando-se de seu trono, ordenou: Que tragam Adapa para cá”!

Temendo que seu humano aperfeiçoado fosse destruído na Morada Celestial, Ea instruiu-o para evitar o alimento e a água que lhe seriam oferecidos, pois conteriam veneno. Ele o aconselhou:

Adapa,

Tu estás indo diante de Anu, o Governante.

Tomarás a estrada para o céu.

Quando ao céu tu tiveres subido

E te aproximado do portão de Anu,

Nele encontrarás Tammuz e Gizzida esperando...

Eles falarão com Anu;

Farão com que o rosto benigno de Anu te seja mostrado.

Quando estiveres diante de Anu,

Quando te oferecerem o Pão da Morte,

Tu não o comerás.

Quando te oferecerem a Água da Morte,

Tu não a beberás...

­

"Então ele o fez tomar a estrada para o céu e para o céu Adapa subiu." Quando Anu viu Adapa, ficou impressionado com sua inteligência e o quanto aprendera de Ea sobre "o plano do Céu e da Terra". "O que faremos com ele?", perguntou aos seus conselheiros, já que Ea o "distinguira fazendo um Shem para ele" - permitindo que Adapa viajasse numa nave espacial da Terra para Marduk.

A decisão foi manter Adapa permanentemente em Marduk. Para ele poder sobreviver, "o Pão da Vida lhe foi trazido", bem como a Água da Vida. Porém, alertado por Ea, Adapa recusou-se a comer e a beber. Quando suas falsas razões foram descobertas, já era tarde demais; a oportunidade de obter a vida eterna havia passado.

Adapa foi devolvido à Terra - uma viagem durante a qual viu o "terrificante" espaço, "do horizonte do Céu ao zênite do Céu". Os deuses o ordenaram como Alto Sacerdote de Eridu e Anu lhe prometeu que dessa data em diante a Deusa da Cura trataria também dos males da humanidade. Porém, a meta máxima do mortal - a vida eterna - não seria mais alcançada.

Daí em diante, a raça humana proliferou. Os humanos não eram mais apenas escravos nas minas ou servos nos campos. Eles executavam todas as tarefas, construíam "casas" para os deuses - que chamamos "templos" - e logo aprenderam a cozinhar, dançar e tocar música para eles. Não demorou muito e os jovens Anunnaki, carentes de companhia feminina, começaram a fazer sexo com as filhas dos homens. Uma vez que todos provinham da mesma primeira semente da Vida e o homem era um híbrido criado com a "essência" genética dos Anunnaki, os astronautas e terráqueas descobriram que eram biologicamente compatíveis "e deles nasceram filhos".

Enlil observava esses eventos com crescente apreensão. O propósito original da chegada à Terra, o sentido da missão, de dedicação à tarefa não existiam mais. A principal preocupação dos Anunnaki parecia ser uma boa vida, e pior, na companhia de uma raça de híbridos!

Foi a própria natureza que ofereceu a Enlil a oportunidade de colocar um fim na deterioração dos costumes e ética dos Anunnaki. A Terra estava entrando numa nova Idade do Gelo e o clima agradável sofria mudanças. À medida que ele ia esfriando, também se tornava mais seco. As chuvas tornaram-se menos freqüentes, as águas dos rios mais escassas. As colheitas fracassaram, a fome se espalhou. A Humanidade começou a enfrentar grandes sofrimentos; filhos escondiam alimentos de seus pais, mães comiam suas crianças. A pedido de Enlil, os deuses evitaram ajudar a Humanidade: "Eles que morram de fome, eles que sejam dizimados", decretou Enlil.

No "Grande Abaixo" - na Antártida - a Idade do Gelo também estava causando mudanças. De ano para ano a calota de gelo que cobria o continente no pólo sul tornava-se mais espessa. Sob a crescente pressão de seu peso, houve um aumento do atrito e calor em sua face interior. Logo a imensa calota flutuava numa placa escorregadia de lama. Na estação orbital veio o alerta: a calota de gelo estava entrando em equilíbrio instável; se ela escorregasse do continente para o oceano a imensa onda causada pelo impacto cobriria toda a Terra!

O perigo era iminente. No céu, o 12º. Planeta estava voltado para seu ponto mais próximo da Terra, entre Júpiter e Marte. Como já acontecera em ocasiões anteriores, sua força gravitacional causaria terremotos e instabilidade nos movimentos da Terra. Calculava-se que essa força gravitacional desencadearia o desligamento da calota polar, inundando a Terra com um dilúvio global. Os próprios astronautas não ficariam imunes à catástrofe.

Enquanto iniciavam-se os preparativos para juntar todos os Anunnaki perto do espaço-porto e deixar prontas as naves que os levariam para o espaço antes de a onda chegar, foram empregadas artimanhas para manter em segredo para a Humanidade o desastre iminente. Temendo a invasão do espaço-porto por uma turba desesperada, todos os deuses foram obrigados a jurar que não revelariam o segredo. "Quanto aos homens", disse Enlil, "eles que pereçam; que a semente do terráqueo seja eliminada da face da Terra.”

Em Suripak, a cidade governada por Ninhursag, as relações entre o homem e os deuses tinham atingido seu ponto máximo. Lá, pela primeira vez, um terráqueo atingira a posição de rei. Com o crescimento dos sofrimentos da raça humana, ZI.U.SUD.RA (como os sumérios o chamavam) suplicou o auxílio de Ea. De vez em quando, Ea e seus marinheiros traziam clandestinamente para o rei e seu povo uma carga de peixe. Porém, agora a questão envolvia o próprio destino da Humanidade. Todo o trabalho de Ea e Ninhursag pereceria "e viraria barro" - como Enlil desejava -, ou a semente da Humanidade deveria ser preservada?

Agindo por conta própria, mas atento ao seu voto de guardar segredo, Ea viu em Ziusudra a oportunidade de salvar a raça humana. Assim que o rei voltou para orar e suplicar no templo, Ea começou a sussurrar por trás de uma tela. Fingindo conversar consigo mesmo, deu instruções urgentes a Ziusudra:

Derruba a casa, constrói um barco!

Desiste de tuas posses, procura a vida!

Esquece o que tens, mantém tua alma viva!

Embarca a semente de todas as coisas vivas.

Esse barco construirás

Segundo as medidas.

A embarcação seria uma nave submergível, um "submarino" capaz de suportar a avalanche de água. Os textos sumérios contêm as dimensões e outras instruções estruturais para os vários conveses e compartimentos com tal riqueza de detalhes que é possível desenhar o barco, como o fez Paul Haupt. Ea também forneceu um navegador a Ziusudra, mandando-o dirigir a embarcação para o "Monte da Salvação", o monte Ararat. Sendo a cadeia de montanhas mais alta do Oriente Médio, seus picos seriam os primeiros a emergir da água.

O dilúvio veio como esperado. "Ganhando velocidade enquanto soprava" do sul, "submergindo montanhas, derrubando pessoas como numa batalha." Vendo a catástrofe de cima, enquanto orbitavam a Terra em sua nave, os Anunnaki e seus líderes perceberam o quanto tinham se enamorado da Terra e da Humanidade. "Ninhursag chorou... os deuses choraram com ela pela Terra... Os Anunnaki, tristonhos, sentavam e choravam" amontoados, gelados e famintos, em seu ônibus espacial.

Quando as águas abaixaram e os Anunnaki começaram a aterrissaram no Ararat, ficaram encantados ao descobrir que a semente da Humanidade estava salva. Porém, quando Enlil chegou, enfureceu-­se ao ver que "uma alma viva escapara". Foram necessárias muitas súplicas dos Anunnaki e o poder de persuasão de Ea para fazê-lo entender seu ponto de vista - se a Terra ia ser repovoada, os serviços do homem seriam indispensáveis.

E foi assim que os filhos de Ziusudra e suas famílias foram enviados para povoar as cadeias de montanhas que flanqueavam a planície dos dois rios, esperando a hora quando essa área estivesse suficientemente seca para ser habitada. Quanto a Ziusudra, os Anunnaki:

A vida de um deus lhe deram;

Hálito eterno, como o de um deus, lhe concederam.

Isso foi conseguido através da troca do "Hálito da Terra" de Ziusudra pelo "Hálito do Céu". Então eles levaram Ziusudra, "o preservador da semente da Humanidade", e sua mulher, para "residirem no lugar longínquo".

Na Terra da Travessia,

Na Terra de Tihnun

No lugar onde Utu se eleva,

Eles o fizeram habitar.

Torna-se evidente, portanto, que as lendas sumérias sobre os deuses do Céu e da Terra, da criação do homem e do dilúvio foram a fonte da qual outras nações do antigo Oriente Médio extraíram seu conhecimento, crenças e "mitos". Já vimos como as crenças egípcias combinavam com as sumérias, como sua primeira cidade sagrada recebeu o nome em homenagem a An, como o Ben-Ben se assemelhava ao GIR sumério, e assim por diante.

Também é geralmente aceito nos dias de hoje que os relatos bíblicos sobre a Criação e os eventos que levaram ao dilúvio são versões hebraicas condensadas das tradições sumérias. O herói bíblico do dilúvio, Noé, era o equivalente do Ziusudra sumério (chamado de Utnapishtim nas versões acadianas). Todavia, enquanto os sumérios afirmavam que o herói do dilúvio fora tornado imortal, nada na Bíblia é dito a esse respeito sobre Noé. A imortalização de Henoc também recebe pouca atenção, ao contrário dos contos sumérios sobre Adapa e outros textos tratando da ascensão de escolhidos. Porém, essa abrupta atitude bíblica não foi capaz de impedir a disseminação, ao longo de milênios, de lendas sobre os heróis bíblicos e sua estada no paraíso ou seu retorno a ele.

Segundo lendas muitas antigas, que sobreviveram em várias versões originárias de uma composição com quase 2 mil anos de idade chamada O Livro de Adão e Eva, Adão adoeceu depois de completar 930 anos. Vendo o pai "enfermo e sofrendo dores", seu filho Set ofereceu-se para ir "até o portão do paraíso mais próximo... e lamentar e suplicar a Deus; talvez ele me ouvirá e enviará Seu anjo para me trazer a fruta pela qual tu tanto ansiaste" - o fruto da Árvore da Vida.

Mas Adão, aceitando sua sina de mortal, só desejava alívio para as dores lancinantes. Assim, pediu a Eva, sua mulher, para ir em companhia de Set até "as vizinhanças do paraíso", para lá pedirem não o Fruto da Vida, mas uma única gota do "óleo da vida", que escorria da árvore sagrada, "para ungir-me com ele, de modo que eu possa ter alívio destas dores".

Tendo feito como Adão pediu, Eva e Set chegaram aos portões do paraíso e rogaram ao Senhor. Finalmente, o anjo Miguel apareceu para eles anunciando que a súplica não seria atendida. "O tempo da vida de Adão terminou", disse o anjo; sua morte não devia ser evitada ou adiada. Seis dias depois, Adão morreu.

Até mesmo os historiadores de Alexandre criaram um vínculo direto entre suas aventuras e Adão, o primeiro homem que viveu no paraíso e era prova de sua existência e poderes de conceder vida. Esse vínculo era uma pedra, única de seu tipo, capaz de emitir luz. Dizia-se que ela fora tirada do Jardim do Éden por Adão e daí passada de geração em geração até chegar às mãos de um faraó imortal, que a dera ao rei da Macedônia.

Essa trama de paralelos torna-se mais densa à medida que vamos tomando consciência da existência de outras lendas, como o antigo conto judaico que afirmava que o cajado, com o qual Moisés realizou muitos milagres, inclusive a separação das águas do lago de Juncos, foi trazido por Adão do Jardim do Éden. Adão deu-o a Henoc que por sua vez passou-o para seu bisneto Noé, o herói do dilúvio. Em seguida ele foi repassando-o pela linha de Sem, de geração em geração, até chegar a Abraão (o primeiro patriarca hebreu pós-diluviano). O bisneto de Abraão, José, levou o cajado consigo quando foi ao Egito, onde alcançou a mais alta posição na corte do faraó. Lá o cajado permaneceu entre os tesouros do reino e foi assim que chegou às mãos de Moisés, pois este foi criado na corte e vivia como um príncipe egípcio antes de fugir para a península do Sinai. Numa versão dessa lenda, o cajado era feito de uma única pedra; em outra, de um galho da Árvore da Vida que crescia no Jardim do Éden.

Nesses relacionamentos entrelaçados, voltando aos mais primevos dos tempos, também existiam lendas ligando Moisés a Henoc. Um conto judaico, chamado "A Ascensão de Moisés", fala que quando o Senhor chamou Moisés no monte Sinai e encarregou­-o de levar os israelitas para fora do Egito, este resistiu à missão por vários motivos, entre eles sua fala vagarosa e pouco eloqüente. De­ terminado a acabar com essa humildade, o Senhor decidiu mostrar a Moisés "os anjos", os mistérios do céu e o lugar onde ficava seu trono. Então "Deus ordenou a Metatron, o Anjo da Fisionomia, para conduzir Moisés até as regiões celestiais". Apavorado, Moisés perguntou a Metatron: "Quem és tu?" E o anjo (literalmente: "emissário") respondeu: "Sou Henoc, filho de Jared, seu ancestral". Acompanhado pelo angélico Henoc, Moisés viajou pelos sete céus, viu o inferno e o paraíso e em seguida foi devolvido ao monte Sinai, onde aceitou sua missão.

Um outro livro muito antigo lança mais luz sobre as ocorrências relacionadas com Henoc e sua preocupação com o iminente dilúvio e seu bisneto Noé. Chamado de "Livro dos Jubileus", ele também era conhecido na Antigüidade como o "Apocalipse de Moisés", pois teria sido escrito por este no monte Sinai enquanto um anjo lhe ditava as histórias do passado. (Os eruditos, contudo, acreditam que a obra foi composta no segundo século a.C.)

O relato segue de perto as narrativas bíblicas do Livro do Gênesis, mas fornece mais detalhes, como os nomes das mulheres e filhas dos patriarcas pré-diluvianos, e amplia os eventos experimentados pela Humanidade nessa época distante. A Bíblia nos informa que o pai de Henoc era Jared ("Descida"), mas não por que ele recebeu esse nome. O Livro dos Jubileus nos esclarece a respeito. Diz que os pais de Jared lhe deram esse nome:

Pois em seus dias os anjos do Senhor desceram à Terra –

Aqueles que são chamados de "Os Observadores" –

Para instruir os filhos dos homens

E implantar o julgamento e a retidão na Terra.

Dividindo as eras em "jubileus", o Livro dos Jubileus continua narrando que "no 11º. jubileu, Jared tomou para si uma esposa; Baraka ("Clarão do Raio") filha de Rasujal, uma filha do irmão de seu pai... e ela lhe deu um filho e chamou-o Henoc. Ele foi o primeiro entre os homens nascidos na Terra que aprendeu a escrita, o conhecimento e a sabedoria, e escrevia os sinais do céu de acordo com a ordem de seus meses num livro, para os homens poderem conhecer as estações do ano segundo a ordem de seus meses".

No 12º. jubileu, Henoc tomou por esposa Edni ("Meu Éden"), filha de Dan-el. Ela lhe deu um filho, Matusalém. Depois disso Henoc "esteve com os anjos de Deus por seis jubileus de anos e eles lhe mostraram o que existe nos céus e na Terra... e ele escreveu tudo".

Mas, àquela altura, a situação se complicava. O Gênesis conta que antes do dilúvio "os filhos dos deuses viram que as filhas dos homens eram belas e tomaram como mulheres todas as que mais lhes agradavam... Deus arrependeu-se de ter feito os homens... e Deus disse: farei os homens desaparecerem da face da Terra”.

Segundo o Livro dos Jubileus, Henoc desempenhou algum tipo de papel nessa mudança de atitude do Senhor, pois "testemunhou sobre os Observadores que tinham pecado com as filhas dos homens; ele testemunhou contra todos". E foi para protegê-lo da vingança dos Anjos do Senhor pecadores que "ele foi retirado de entre os filhos do homem e levado ao Jardim do Éden". Especificamente mencionado como um dos quatro lugares de Deus na Terra, o Jardim do Éden foi o lugar onde Henoc se escondeu e escreveu seu Testamento.

Noé, o homem íntegro escolhido para sobreviver ao dilúvio, nasceu depois desses acontecimentos. Seu nascimento, ocorrido em épocas conturbadas, quando os "filhos dos deuses" relacionavam-se sexualmente com as mortais, causou uma crise conjugal na família. Como o Livro de Henoc nos conta, Matusalém "escolheu uma mulher para seu filho, Lamec, e ela engravidou e deu à luz um filho". Porém, quando o bebê - Noé - nasceu, havia algo de incomum:

Seu corpo era branco como a neve e vermelho como o desabrochar de uma rosa; seus cabelos e longos cachos eram brancos como a neve; seus olhos eram belos.

Quando ele abriu os olhos, iluminou a casa toda como o sol e a casa ficou muito brilhante.

Quando a parteira o ergueu, ele abriu a boca e conversou com o Senhor da Justiça.

Chocado, Lamec correu para seu pai, Matusalém, e falou:

Gerei um filho estranho, diferente do homem e parecido com os filhos do Deus do Céu, sua natureza é diversa, ele não é semelhante a nós...

E parece que não se originou de mim, mas dos anjos.

Desconfiando de que sua mulher fora impregnada por um dos anjos, Lamec teve uma idéia: Já que seu avô, Henoc, estava morando entre os filhos dos deuses, por que não lhe pedir para ir ao fundo da questão? Então, dirigindo-se a Matusalém, rogou: "E agora, meu pai, peço-te e imploro que procures Henoc, teu pai, e dele fique sabendo a verdade, pois sua morada é entre os anjos".

Matusalém atendeu ao pedido de Lamec e, ao chegar à Morada Divina, chamou Henoc e contou-lhe sobre o nascimento daquele menino incomum. Depois de fazer algumas indagações, Henoc garantiu a Matusalém que Noé era realmente filho de Lamec e que seu aspecto incomum anunciava que algo estava por vir: "Haverá um grande dilúvio e uma enorme destruição durante um ano, e só esse filho, que deverá receber o nome de Noé ("Descanso"), e sua família serão salvos". Esses acontecimentos do futuro, explicou Henoc ao seu filho, Eu li nas tábulas celestiais.

O termo empregado nessas escrituras antigas, mesmo que ex-­bíblicas, para designar os "filhos dos deuses" envolvidos em bobagens antediluvianas, é Observadores. Trata-se do mesmo termo, Neter, que os egípcios usavam para os deuses e é o significado exato do nome Shumer, o local de sua aterrissagem.

Os vários livros antigos que lançam essa nova luz sobre os dramáticos eventos antediluvianos foram preservados em várias versões que são todas apenas traduções (diretas ou indiretas) de originais hebraicos há muito perdidos. No entanto, sua autenticidade foi confirmada pela famosa descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, acontecida há poucas décadas, pois entre eles havia fragmentos de pergaminhos que sem dúvida eram parte dos originais em hebraico dessas "memórias de patriarcas".

De particular interesse para nós é um fragmento que trata do nascimento de Noé, do qual podemos aprender o termo original hebraico que tem sido traduzido como "Observadores" ou "Gigantes", não apenas em versões antigas, mas até mesmo por eruditos modernos, como T. H. Gaster (The Dead Sea Scriptures) e H. Dupont­-Sommer (The Essene Writings from Qumran). Segundo esses estudiosos, a coluna II desse fragmento começa assim:

Veja, pensei em meu coração que a concepção era de um dos Observadores, um dos Santos, e (que a criança realmente pertencia) aos Gigantes.

E meu coração mudou dentro de mim por causa da criança.

Então eu, Lamec, apressei-me e fui a Bath-Enosh (minha) mulher, e lhe disse:

[Quero que jures] pelo Altíssimo, pelo Senhor Supremo, o rei de todos os mundos,

O governante dos Filhos do Céu, que tu me contarás com verdade se...

No entanto, quando examinamos o original em hebraico, vemos que ele não diz "Observadores", mas Nefilim - o exato termo usado no Livro do Gênesis, Capítulo 6.

Assim, textos e lendas antigas confirmam-se uns aos outros: A época antes do dilúvio foram os dias em que "Os Nefilim estavam sobre a Terra - os Poderosos, o Povo dos Foguetes".

Nas palavras das Listas de Reis Sumérios, o dilúvio "varreu" a Terra 120 shars (120 órbitas de 3.600 anos) depois da primeira aterrissagem dos astronautas, o que o coloca a cerca de 13 mil anos atrás. Foi exatamente a época quando a última Idade do Gelo terminou abruptamente, quando começou a agricultura; 3.600 anos depois veio a Nova Idade da Pedra (como a chamam os eruditos), a idade da cerâmica. Então, 3.600 anos depois, a civilização em seu todo desabrochou na "planície entre os rios", na Suméria.

"Todo o mundo se servia de uma mesma língua e das mesmas palavras", diz o Livro do Gênesis. Porém, logo que o povo se estabeleceu no país de Sennar (Suméria) e construiu casas de adobe, ele conspirou para "construir uma cidade e uma torre cujo ápice penetre nos céus".

Os textos sumérios dos quais foi extraído esse relato bíblico ainda não foram encontrados. No entanto, encontramos alusões ao evento em várias lendas sumérias. O que emerge é um aparente esforço por parte de Ea para conseguir o apoio da humanidade com o objetivo de assumir o controle das instalações espaciais dos Nefilim -­ mais um incidente do feudo entre os dois irmãos, que a essa altura propagara-se para seus descendentes. Como resultado desse evento, segundo nos conta a Bíblia, Deus decidiu dispersar a humanidade e "confundir" suas linguagens, ou seja, dar-lhe civilizações diferentes e separadas.

As deliberações dos deuses na era que se seguiu ao dilúvio são mencionadas em vários textos sumérios. A chamada Epopéia de Etana declara:

Os Grandes Anunnaki que decretam o destino ficaram trocando opiniões a respeito da Terra.

Eles que criaram as quatro regiões, que fundaram as povoações, que supervisionam a Terra, estavam altos demais para a Humanidade.

A decisão de estabelecer quatro regiões separadas na Terra foi combinada com a resolução de instalar intermediários (reis-sacerdotes) entre os deuses e a Humanidade. E assim "novamente a realeza foi descida à Terra, vinda do céu".

No esforço - que provou ser inútil - para pôr um fim ou diminuir as desavenças entre as famílias de Ea e Enlil, os deuses fizeram um sorteio entre elas para determinar quem ficaria com o domínio de cada região. Como resultado, a Ásia e a Europa foram entregues a Enlil e seus descendentes, e Ea recebeu a África.

A primeira região da civilização foi a Mesopotâmia e as terras adjacentes. A área montanhosa onde começou a agricultura e o povoamento, os países que vieram a ser conhecidos como Elam, Pérsia e Assíria, foram concedidos ao filho de Enlil, NIN.UR.TA, seu herdeiro e "Principal Guerreiro". Alguns textos sumérios contam os heróicos esforços desse deus para represar os desfiladeiros e garantir a sobrevivência de seus súditos humanos nos duros tempos que se seguiram ao dilúvio.

Quando as camadas de lama que cobriam a planície entre os dois rios secou o suficiente para permitir o repovoamento, a Suméria e as terras que daí se estendiam para o oeste, até o Mediterrâneo, foram entregues a um outro filho de Enlil, NAN.NAR (Sin em acadiano). Um deus benevolente, ele supervisionou a reconstrução da Suméria, reedificando as cidades antediluvianas em seus locais originais e fundando outras. Entre estas últimas estava sua favorita, Ur, a cidade onde nasceu Abraão. Nannar era sempre desenhado acompanhado pelo símbolo da lua crescente, a sua "contraparte" celestial. Ao filho mais novo de Enlil, ISH.KUR (que os acadianos chamavam de Adad), coube as terras a noroeste, a Ásia Menor e as ilhas do Mediterrâneo, de onde a civilização - "realeza" - acabou espalhando-se para a Grécia. Tal como veio acontecer com Zeus na Grécia, Adad era retratado montando um touro e segurando um feixe de raios.

Ea também dividiu a segunda região, a África, entre seus filhos. Sabe-se que um deles, chamado NER.GAL, reinou sobre as áreas mais meridionais do continente. Um outro filho, GI.BIL, aprendeu com o pai as artes da mineração e metalurgia, e assumiu o controle das minas africanas. Um terceiro filho, o favorito de Ea, recebeu dele o nome de MAR-DUK, em homenagem ao seu planeta natal, e aprendeu com o pai todo o conhecimento das ciências e astronomia. (A cerca de 2.000 a.C., Marduk usurpou a soberania da Terra e foi declarado Deus Supremo da Babilônia e "dos Quatro Cantos da Terra".) E, como já vimos, um quarto filho de Ea, cujo nome egípcio era Ra, presidiu a implantação do núcleo básico dessa região, a civilização do vale do Nilo.

A terceira região, como foi descoberto há apenas cinqüenta anos, ficava no subcontinente da Índia. Lá também uma grande civilização cresceu na Antiguidade, cerca de mil anos depois da Suméria. Ela é chamada de civilização do vale do Indo e seu centro era uma cidade real desenterrada num local chamado Harapa. Seu povo prestava homenagem não a um deus, mas a uma deusa, retratando-a em estatuetas de gesso como uma mulher sedutora, enfeitada com colares e os seios salientados por faixas que cruzavam seu corpo.

Como a escrita da civilização do Indo permanece indecifrada, ninguém sabe por que nome os harapanos chamavam sua deusa ou quem ela era exatamente. Concluo, porém, que ela era a filha de Sin, a quem os sumérios chamavam de IR.NI.NI ("A Dama Forte e Perfumada") e os acadianos de Ishtar. Os textos sumérios falam do domínio dessa deusa sobre um país longínquo chamada Arata, ­uma terra com colheitas de grãos e celeiros, tal como Harapa ­para onde ela fazia viagens aéreas, vestida de piloto.

Foi a necessidade de um espaço-porto que resultou na separação de uma quarta região para uso exclusivo dos Grandes Anunnaki. Todas as instalações espaciais da época em que tinham chegado à Terra - o espaço-porto em Sippar, o Centro de Controle da Missão em Nippur - foram arrastadas pelo dilúvio. A planície da Mesopotâmia ficava numa área de baixa altitude e continuaria lamacenta por milênios, impedindo a reconstrução desses complexos vitais. Um outro lugar, mais elevado porém adequado, afastado porém acessível, tinha de ser encontrado para o espaço-porto e suas instalações auxiliares. Seria uma "zona sagrada" - uma área restrita, na qual só se entraria com permissão especial. Em sumério ela era chamada de TIL.MUN - literalmente, a "Terra dos Mísseis".

Quem ficou à testa desse espaço-porto pós-diluviano foi o filho de Sin, e assim neto de Enlil, um irmão gêmeo de Irnini/Ishtu. Seu nome era UTU ("O Brilhante") - Shamash em acadiano. Foi ele que liderou com sucesso a Operação Dilúvio - a evacuação de Sipar. Sendo o chefe dos homens do espaço baseados na Terra, os "Águias", ele orgulhosamente usava seu uniforme de águia nas ocasiões formais.

Nos dias antes do dilúvio, segundo diziam as tradições, alguns poucos mortais escolhidos tinham conseguido decolar do espaço­-porto: Adapa, que perdeu a oportunidade de se tornar imortal, Enmeduranki, a quem os deuses Shamash e Adad transportaram à Morada Celestial para ser iniciado nos segredos sacerdotais (e depois devolvido à Terra), e também Ziusudra ("Seus Dias de Vida Prolongados"), herói do dilúvio, que, junto com sua mulher, foi levado para viver em Tilmun.

Na época pós-diluviana, diziam os registros sumérios, Etana, um dos primitivos governantes de Kish, foi levado de Shem para a Morada dos Deuses, onde lhe seria concedida a Planta do Rejuvenescimento e Nascimento (mas ele também ficou assustado demais para completar a viagem). E o faraó Tutmés III afirmava em suas inscrições que o deus Ra o levara para o alto, mostrara-lhe os céus e depois o devolvera à terra:

Ele me abriu as portas do Céu.

Abriu para mim os portais de seu horizonte.

Voei para o firmamento como um falcão divino...

Para poder ver seus misteriosos modos no Céu...

Saciei-me com a compreensão dos deuses.

Nas lembranças posteriores da Humanidade, o Shem foi venerado como um obelisco e o foguete espacial saudado por "Águias" deu lugar a uma sagrada "Árvore da Vida". Mas na Suméria, onde os deuses eram uma realidade presente - tal como no Egito, quando reinaram os primeiros faraós -, Tilmun, a "Terra dos Mísseis", era um lugar real, um lugar onde o homem podia encontrar a imortalidade.

E lá, na Suméria, eles registraram a história de um homem que, sem ser convidado pelos deuses, partiu para reverter seu destino, apesar de tudo.

7

GILGAMESH: O Rei que Não Queria Morrer

A lenda suméria sobre a primeira busca da imortalidade de que se tem notícia fala de um governante muito antigo, que suplicou ao seu divino protetor para deixá-lo entrar na "Terra dos Vivos". Os escribas da Antiguidade escreveram muitos relatos épicos sobre esse homem incomum, dizendo:

Coisas secretas ele viu;

O que está escondido do homem ele viu.

Ele até trouxe notícias dos tempos antes do dilúvio;

Ele fez a longa viagem, fatigante e difícil.

Regressou e, numa coluna de pedra, gravou sua labuta.

Desse antiqüíssimo conto sumério, só chegaram a nós menos de duzentas linhas. No entanto, conhecemos toda a história com base nas traduções feitas para todas as línguas de povos que se seguiram aos sumérios no Oriente Médio: assírios, babilônios, hititas e horreus. Todos contaram e recontaram essas lendas. As tábulas de argila onde foram registradas essas versões posteriores, algumas encontradas intactas, outras danificadas e muitas fragmentadas, prejudicando a leitura, depois de estudos que consumiram quase um século de trabalho, conseguem recompor o relato.

O núcleo básico de nosso conhecimento dessa lenda são doze tábulas em acadiano, que faziam parte da biblioteca de Assurbanipal em Nínive. Quem primeiro as trouxe à luz foi George Smith, cujo trabalho no Museu Britânico era selecionar, combinar e classificar os milhares de placas e fragmentos que chegavam ao museu vindos das escavações na Mesopotâmia. Num certo dia, sua atenção foi atraída para um pedaço de inscrição que parecia relatar a história do dilúvio. Estudando-a mais atentamente, Smith viu que não havia dúvidas: os caracteres cuneiformes, vindos da Assíria, contavam a história de um rei que procurara o herói do dilúvio e ouvira dele um relato em primeira pessoa do evento!

Com um entusiasmo bem compreensível, os diretores do museu enviaram George Smith ao sítio arqueológico específico para procurar os fragmentos que faltavam. Contando com uma boa dose de sorte, Smith encontrou-os em número suficiente para reconstruir o texto e adivinhar a seqüência correta das tábulas. Em 1876, ele mostrou, de maneira conclusiva, a seqüência, e publicou um livro sobre o assunto, The Chaldean Account of the Flood. (O Relato Caldeu Sobre o Dilúvio). Pelo estilo dos textos, Smith concluiu que eles tinham sido "compostos na Babilônia a cerca de 2000 a.C.”

De início, George Smith leu o nome do rei que procurou Noé como Izdubur e sugeriu que ele não devia ser outro senão o herói-­rei bíblico Nemrod. Por algum tempo os estudiosos aceitaram essa idéia e referiam-se a esse conjunto de doze tábulas como" A Epopéia de Nemrod". No entanto, novas descobertas e pesquisas posteriores estabeleceram a origem suméria da lenda e o verdadeiro nome do herói da história: GIL.GA.MESH. Confirmou-se a partir de outros textos históricos, inclusive as Listas de Reis Sumérios, que esse homem fora governante de Uruk - a Arac da Bíblia ­por volta de 2.900 a.C. A Epopéia de Gilgamesh, como essa obra literária da Antiguidade atualmente é chamada, nos leva para quase 5 mil anos atrás.

É preciso conhecer a história da cidade de Uruk para captar a abrangência dramática da epopéia. Confirmando as narrativas bíblicas, os registros históricos da Suméria também relatavam que, depois do dilúvio, a realeza - dinastias reais - começou em Kish e daí foi transferida para Uruk em resultado das ambições de Irnini/Ishtar, que não gostava de seus domínios distantes da Suméria.

De início, Uruk era apenas a localização de um recinto sagrado, onde ficava uma Morada (templo) de An, o "Senhor do Céu", construída no alto de um enorme zigurate chamado E.AN.NA ("Casa de An”). Em suas raras visitas à Terra, An acabou desenvolvendo um carinho especial por Irnini e concedeu-lhe o título de IN.AN.NA - a "Amada de An" (mexericos muito antigos insinuam que esse amor não era meramente platônico) -, instalando-a no Eanna, que antes permanecia sempre desocupado.

Mas adiantava para Inanna ter uma cidade sem habitantes, um reino sem súditos? Não muito longe dali, ao sul, nas margens do golfo Pérsico, Ea vivia em semi-isolamento na cidade de Eridu, onde mantinha-se a par dos assuntos humanos, dispensando conhecimento e civilização à Humanidade. Sedutora e perfumada, Inanna fez uma visita a Ea, seu tio-avô. Embriagado e apaixonado, ele atendeu aos desejos da sobrinha: tornar Uruk o novo centro da civilização suméria, a sede da monarquia, em substituição a Kish.

Para levar a cabo seus planos grandiosos, cujo objetivo final era sua entrada no Círculo Interno dos Grandes Doze Deuses, Inanna/ Ishtar procurou o apoio de seu irmão, Utu/Shamash. Enquanto nos dias antes do dilúvio a miscigenação entre os Nefilim e as filhas dos homens causava a ira dos deuses, a prática já não era reprovada.

Tanto é que o alto sacerdote do templo na época era um filho de Shamash com uma humana. Então, Inanna e Shamash o ungiram como rei de Uruk, dando início à primeira dinastia de reis-sacerdotes do mundo. Segundo a Lista de Reis Sumérios, ele reinou por 324 anos. Seu filho, "que construiu Uruk", governou 420 anos. Quando Gilgamesh, o quinto monarca dessa dinastia, subiu ao trono, Uruk já era um centro florescente, que dominava seus vizinhos e comerciava com terras distantes.

Sendo descendente do grande deus Shamash por parte de pai, e filho da deusa NIN.SUN, Gilgamesh era considerado "dois terços deus, um terço humano". Por isso, recebera o privilégio de ter seu nome escrito com o prefixo "divino".

Orgulhoso e autoconfiante, Gilgamesh começou seu reinado como um soberano benevolente e consciencioso, envolvido nas costumeiras tarefas de fortalecer as muralhas da cidade ou embelezar o recinto do templo. Porém, quanto mais aprendia sobre a história dos deuses e homens, mais se tornava pensativo e inquieto. Mesmo durante os momentos de diversão, seus pensamentos se voltavam para a morte. Ele viveria tanto como seus ancestrais semi-divinos em virtude de ser dois terços deus, ou o terço humano prevaleceria, determinando-lhe o tempo de vida de um mortal? Logo Gilgamesh confessou sua ansiedade a Shamash:

Em minha cidade o homem morre; oprimido está meu coração.

O homem perece; pesado está meu coração.

O homem, por mais alto que seja, não pode estender-se até o Céu;

O homem, por mais largo que seja, não pode cobrir a Terra.

"Conseguirei olhar por cima da parede?", perguntou a Shamash. "Será esse também meu destino?”

Evitando dar uma resposta direta - talvez por ele mesmo não sabê-la -, Shamash tentou fazer Gilgamesh aceitar sua sina, fosse qual fosse, e gozar a vida enquanto podia:

Quando os deuses criaram a Humanidade,

A aquinhoaram com a morte.

A vida retiveram para si.

Portanto, prosseguiu:

Que fique cheia tua barriga, Gilgamesh.

Festeja dia e noite!

De cada dia faze uma festa de regozijo.

Dia e noite canta e dança!

Que tuas vestes estejam sempre imaculadas,

Lava a cabeça; banha-te em água.

Dá atenção ao pequeno que pega tua mão,

Deixa tua esposa deliciar-se em teu colo;

Pois este é o destino da Humanidade.

Mas Gilgamesh recusou-se a aceitar sua sina. Afinal, não era dois terços divino e só um terço humano? Por que a parte mortal, menor, e não o elemento divino deveria determinar seu destino? Andando de um lado para o outro durante o dia e inquieto à noite, Gilgamesh tentou manter-se jovem intrometendo-se na vida de recém-casados, insistindo em manter relações sexuais com a noiva antes do marido. Então, uma noite, teve uma visão que sentiu ser um presságio. Correu para a mãe e relatou-lhe o que acontecera, pedindo-lhe que interpretasse a visão:

Minha mãe,

Durante a noite, tendo ficado excitado,

Vaguei de um lado para o outro.

No meio (da noite) surgiram presságios.

Uma estrela tornou-se cada vez maior no céu.

O artesanato de Anu desceu em minha direção!

"O artesanato de Anu" que desceu dos céus caiu na Terra perto de Gilgamesh. Ele continuou a relatar:

Tentei levantá-lo; era pesado demais para mim.

Procurei sacudi-lo;

Não consegui movê-lo ou erguê-lo.

Enquanto tentava soltar o objeto, que deve ter se enterrado profundamente no solo, "o populacho atirou-se sobre ele, os nobres o cercaram". A queda do "artesanato de Anu" aparentemente foi observada por muita gente, pois "toda Uruk juntou-se em torno dele".

Os "heróis" - os homens fortes - ajudaram o rei em seus esforços para deslocar o objeto. "Os heróis o pegaram por baixo e eu puxei-­o pela parte dianteira.”

Embora o objeto não esteja completamente descrito nos textos, com toda a certeza não era um meteoro qualquer, mas um objeto manufaturado, digno de ser chamado de artesanato do grande Anu. Tudo indica que o leitor antigo não necessitava de maiores elaborações por estar familiarizado com o termo ou com o desenho do objeto, talvez algo como está mostrado num antigo selo cilíndrico real.

O texto de Gilgamesh descreve a parte inferior, que foi agarrada pelos heróis, usando um termo que pode ser traduzido por "pernas". Todavia, o objeto tinha também outras partes bem destacadas e podia-se até entrar nele, como fica claro pela continuação do relato de Gilgamesh sobre os eventos daquela noite:

Apertei com força a parte de cima.

Não consegui retirar a tampa nem levantar o Ascensor...

Com um fogo destruidor, no topo eu o rompi e entrei em suas profundezas.

Levantei a parte móvel

Aquela que Puxa para a Frente

E trouxe-a para ti.

Gilgamesh estava certo de que o aparecimento do objeto era um presságio dos deuses sobre seu destino. Sua mãe, a deusa Ninsun, contudo, teve de desapontá-lo. O que desceu do céu como uma estrela, falou, prevê a chegada de "um robusto camarada que salva; um amigo que virá para ti... ele é o mais poderoso da região... jamais te abandonará. Esse é o significado de tua visão".

Ninsun sabia do que estava falando pois, sem o conhecimento do filho e atendendo às súplicas do povo de Uruk para que se fizesse algo capaz de divertir o inquieto rei, os deuses arranjaram um homem selvagem para entrar na cidade e se engalfinhar em lutas com Gilgamesh. Seu nome era ENKI.DU - "A Criatura de Enki" -, um tipo de homem da Idade da Pedra que vivia nos territórios inóspitos, entre os animais. "Ele tinha o hábito de sugar o leite de criaturas selvagens." Esse homem costumava ser retratado nu, barbado e cabeludo, em geral acompanhado de seus amigos animais.

Desejando domesticá-lo, os nobres de Uruk contrataram uma prostituta. Enkidu, que até então só conhecera a companhia de animais, readquiriu seu elemento humano ao fazer amor com a mulher várias vezes. Depois disso, a prostituta levou-o para um acampamento na periferia da cidade, onde lhe foram ensinados a língua, as maneiras de Uruk e hábitos do rei. "Contenha Gilgamesh, seja um adversário a sua altura!", disseram os nobres a Enkidu.

O primeiro encontro entre os dois homens aconteceu à noite, quando Gilgamesh, tendo deixado o palácio, vagava pelas ruas à procura de aventuras sexuais. Enkidu enfrentou-o, barrando seu caminho. "Eles se atracaram, firmes como touros." Paredes estremeceram, batentes desmoronaram, enquanto os dois lutaram. Finalmente, "Gilgamesh dobrou o joelho e a luta terminou. Ele perdeu para o estranho". "Aplacada sua fúria, Gilgamesh virou de costas." Nesse momento, Enkidu dirigiu-se a ele e o rei recordou-se das palavras de sua mãe. Então esse homem era seu novo "amigo robusto". "Eles se beijaram e estabeleceram uma amizade.”

À medida que os dois se tornavam amigos inseparáveis, Gilgamesh revelou a Enkidu seu temor do destino de um mortal.

Ao ouvir isso, "os olhos de Enkidu encheram-se de lágrimas, enfermo ficou seu coração, amargurado suspirou". Depois, disse ao amigo que havia um jeito de ele esquivar-se de sua sina, forçando sua entrada na Morada dos Deuses. Lá, se Shamash e Adad o apoiassem, os deuses poderiam lhe dar a condição de divindade a que tinha direito.

A "Morada dos Deuses", contou Emkidu, ficava na "Montanha dos Cedros". Ele a descobrira por acaso, contou, enquanto vagava pelos territórios inóspitos com seus amigos animais. O local, contudo, era guardado por um terrível monstro chamado Huwawa:

Eu a descobri, meu amigo, nas montanhas,

Enquanto vagava com os animais selvagens.

Por muitas léguas ela se estende na floresta;

Eu entrei nela.

Huwawa (está lá); seu rugido é como uma inundação,

Sua boca é fogo, seu hálito é morte...

O vigia da Floresta de Cedros, o Guerreiro Flamejante,

É poderoso, jamais descansa...

Designou-o Enlil para manter a Floresta de Cedros

Um terror para os mortais.

O fato de a principal tarefa de Huwawa ser impedir os mortais de entrar na Floresta de Cedros só espicaçou a determinação de Gilgamesh de ir àquele lugar. Com toda a certeza era lá que conseguiria se juntar aos deuses e escapar de sua sina de mortal.

Quem, meu amigo, pode escalar o céu?

Só os deuses, indo ao lugar subterrâneo de Shamash.

Os dias da Humanidade são numerados, nada alcançaram senão o vento.

Mesmo tu tens medo da morte, apesar de teu poder heróico.

Portanto, deixe-me ir a tua frente, que tua boca me diga:

"Avança, não tema!”

O plano era este: irem "ao lugar subterrâneo de Shamash", na Montanha dos Cedros, para conseguirem "escalar o céu", como fazem os deuses. Mesmo o mais alto dos homens, como salientava Gilgamesh antes, "não consegue estender-se até o céu". Mas agora ele pelo menos sabia onde ficava o lugar do qual o céu podia ser escalado. Então caiu de joelhos e rezou a Shamash: "Deixe-me ir, oh, Shamash! Minhas mãos estão erguidas em oração... ao Local de Aterrissagem, dê a ordem... Cubra-me com tua proteção!”

Infelizmente, a tábula que contém o texto em questão está quebrada e perderam-se as linhas que contêm a resposta do deus. Todavia, ficamos sabendo que "quando Gilgamesh examinou seu presságio... lágrimas escorreram pelo seu rosto". Aparentemente ele recebeu permissão de ir em frente - mas por sua conta e risco. Gilgamesh decidiu prosseguir e lutar contra Huwawa sem o auxílio do deus. "Se eu fracassar", disse, "o povo se lembrará de mim. Gilgamesh, dirão, tombou lutando com o feroz Huwawa." E continuou: "Mas, se eu tiver êxito, obterei um Shem, "o veículo com o qual se atinge a eternidade".

Enquanto Gilgamesh ordenava a produção de armas especiais para lutar contra Huwawa, os conselheiros de Uruk tentaram dissuadi-lo da empreitada. "Ainda és jovem, Gilgamesh", por que se arriscar a encontrar a morte numa aventura imprevisível, "onde não sabes o que conseguirás?" Reunindo todas as informações disponíveis sobre a Floresta de Cedros e seu guardião, alertaram o rei:

Ouvimos que Huwawa tem uma constituição impressionante.

Quem é capaz de enfrentar suas armas?

Desigual é a luta com a máquina de sitiar, Huwawa.

Mas Gilgamesh só "olhou a sua volta, sorrindo para seu amigo". Os boatos de que Huwawa era um monstro mecânico, "uma máquina de sitiar", só serviram para aumentar sua crença de que ele seria facilmente controlado pelas ordens dos deuses Shamash e Adad. Porém, como não obtivera de Shamash uma clara promessa de auxílio, decidiu recorrer a sua mãe: "De mãos dadas, Gilgamesh e Enkidu foram ao Grande Palácio, à presença de Ninsun, a grande rainha. Gilgamesh adiantou-se ao entrar no palácio: Oh, Ninsun... decidi fazer uma longa viagem ao lugar de Huwawa; uma batalha incerta irei enfrentar; trilhas desconhecidas percorrerei. Oh, mãe, ore a Shamash por mim?“

Atendendo ao pedido, "Ninsun entrou em sua câmara, vestiu o traje que assenta em seu corpo, o adorno que assenta em seu colo... pôs a tiara". Em seguida, ergueu as mãos em prece para Shamash - e colocou todo o ônus da aventura sobre ele: "Por que, tendo me dado Gilgamesh como filho", disse, falando retoricamente, "tu o dotaste de um coração inquieto? E agora tu o influenciaste a empreender uma longa jornada, ao lugar de Huwawa!" Dito isso, Ninsum pediu a proteção do deus para o filho:

Até ele atingir a Floresta de Cedros.

Até ele matar o feroz Huwawa.

Até o dia em que for e voltar.

Quando a população da cidade soube que seu rei iria mesmo ao Local de Aterrissagem, "aproximou-se dele", desejando-lhe sucesso. Os conselheiros foram mais práticos: "Deixa Enkidu entrar a tua frente; ele conhece o caminho... na floresta, que ele penetre nas trilhas de Huwawa... o que vai à frente, salva teu companheiro!" Eles também invocaram as bênçãos de Shamash. "Que Shamash te conceda teu desejo; o que tua boca falou, que ele mostre aos teus olhos; que ele abra para ti o caminho barrado, a estrada revele para teus passos, a montanha descerre para teus pés!”

Ninsun disse algumas palavras de despedida. Virando-se para Enkidu, pediu-lhe para proteger Gilgamesh: "embora não tenhas saído de meu ventre, aqui te adoto pata guardares o rei como teu irmão!" Em seguida, colocou seu emblema no pescoço de Enkidu.

E os dois amigos partiram para sua perigosa aventura.

A quarta tábula da Epopéia de Gilgamesh é dedicada à jornada dos dois amigos pela Floresta de Cedros. Infelizmente ela está tão quebrada que, apesar da descoberta de fragmentos paralelos em língua hitita, é impossível montar-se um relato coerente.

Está claro, todavia, que eles viajaram por muito tempo, dirigindo-se para oeste. De tempos em tempos, Enkidu tentava persuadir Gilgamesh a desistir da empreitada. Huwawa, ele falou, pode ouvir uma vaca caminhando a 60 léguas de distância. Sua "rede" alcança longe; seu rugido reverbera do "Lugar Onde é Feita a Subida" até Nippur. Uma fraqueza se apodera de quem se aproxima dos portões da floresta. "Voltemos", rogou; mas o rei estava irredutível.

À montanha verde os dois chegaram.

Suas palavras foram silenciadas.

Eles se imobilizaram.

Parados, contemplaram a floresta;

Olharam a altura dos cedros,

Olharam a entrada da floresta.

Onde Huwawa costumava se mover, retas eram as pegadas, um canal flamejante.

Eles contemplaram a Montanha dos Cedros,

Morada dos Deuses,

A Encruzilhada de Ishtar.

Impressionados e cansados, os dois deitaram-se para dormir. No meio da noite, acordaram. "Tu me despertaste?", perguntou Gilgamesh a Enkidu, que prontamente negou. Nem bem tinham voltado a dormir quando Gilgamesh de novo acordou o amigo. Vira algo espantoso, afirmou, embora não tivesse certeza se estava dormindo ou desperto:

Em minha visão, meu amigo,

O solo alto desmoronou.

Atirou-me ao chão, prendeu meus pés...

O olhar era dominador!

Um homem surgiu;

O mais belo do país era ele...

Tirou-me de sob o solo desbarrancado.

Deu-me água para beber; meu coração se aquietou.

No chão colocou meus pés.

Quem seria esse "homem" - "o mais belo do país" - que tirou Gilgamesh de sob o solo desbarrancado? O que seria aquele "olhar dominador" que acompanhara o deslizamento do talude? Enkidu não encontrou respostas. Cansado, virou-se e adormeceu. Porém, mais uma vez a tranqüilidade da noite foi perturbada.

No meio da vigília, o sono de Gilgamesh terminou.

Ele levantou-se, dizendo ao amigo:

Amigo, tu me chamaste?

Por que estou desperto?

Não me tocaste?

Por que estou tão assustado?

Algum deus passou por aqui?

Por que tenho a carne entorpecida?

Negando que acordara Gilgamesh, Enkidu deixou-o convencido de que "um deus passara por ali". Intrigados, os dois adormeceram, só para serem novamente acordados. E foi assim que Gilgamesh descreveu o que viu:

A visão que tive foi espantosa!

Os céus gritaram, a terra rugiu.

Embora o alvorecer se aproximasse, veio a escuridão.

Relâmpagos cintilaram, uma chama se ergueu.

As nuvens se avolumaram; choveu morte!

Então o fulgor desapareceu; o fogo apagou.

E tudo o que caíra transformou-se em cinzas.

Gilgamesh deve ter se dado conta de que testemunhara a subida de uma "Câmara Celestial": o solo estremecendo com a ignição e o rugido dos motores; as nuvens de pó e fumaça envolvendo a área, escurecendo o céu da madrugada; o brilho do fogo das turbinas visto através das nuvens espessas; e - enquanto a nave subia - seu fulgor desaparecendo. Sem dúvida nenhuma, "uma visão espantosa"! No entanto ela só serviu para encorajar Gilgamesh a prosseguir, pois confirmava que de fato eles tinham alcançado o Local de Aterrissagem.

Pela manhã, os dois amigos tentaram penetrar na floresta, tomando cuidado para evitar "as árvores-arma que matam". Enkidu encontrou o portão do qual falara. Mas, ao tentar abri-lo, foi atirado para trás por uma força invisível, que o deixou paralisado durante dez dias.

Quando voltou a se mexer e falar, Enkidu rogou a Gilgamesh: "Não entremos no coração da floresta". Este, contudo, tinha boas notícias para o amigo. Enquanto ele dormia, recuperando-se do choque, encontrara um túnel. Pelos sons que ouvira dentro dele, tinha certeza de que estava ligado ao "recinto onde são dadas as palavras de comando". Então disse a Enkidu: "Venha, não fique aí parado, meu amigo, desçamos juntos!”

Gilgamesh devia estar certo, pois os textos sumérios afirmam que:

Penetrando na floresta,

A morada secreta dos Anunnaki ele abriu.

A entrada do túnel estava coberta (ou escondida) pela vegetação e bloqueada com terra e pedras. "Enquanto Gilgamesh cortava as árvores, Enkidu cavava." Porém, mal os dois conseguiram fazer uma pequena abertura, o terror atacou: "Huwawa ouviu o barulho e se encolerizou". O monstro surgiu em cena, procurando os intrusos. Sua aparência "era poderosa, ele tinha os dentes de um dragão; sua cara era de leão; sua chegada foi como uma inundação se aproximando". Mais assustador era seu "raio brilhante", que, emanando da cabeça do monstro, "devorava árvores e mato". De sua força mortal, "ninguém escapava". Um selo cilíndrico sumério nos mostra um rei qualquer, Gilgamesh e Enkidu ao lado de um robô mecânico, sem dúvida o "Monstro com Raios Mortais" da epopéia.

Parece, pelos fragmentos de texto, que Huwawa conseguia se armar com "sete capas". Mas, quando chegou à cena, "só uma ele vestia". Vendo nisso sua oportunidade, os dois amigos tentaram preparar-lhe uma armadilha. Quando o monstro virou-se para enfrentar os intrusos, o raio mortal que lhe saía da cabeça desenhou uma trilha de destruição.

No momento oportuno, chegou socorro dos céus. Vendo a situação em que se encontravam os dois amigos, "dos céus falou o divino Shamash" . Avisando-os para não tentarem fugir, aconselhou: "cheguem bem perto de Huwawa". Então o deus convocou uma hoste de ventos rodopiantes "que bateram nos olhos de Huwawa" c neutralizaram seu raio. Como Shamash pretendia, "os raios desapareceram, o brilho toldou-se. Logo o monstro estava imobilizado: "ele não conseguia ir nem para a frente nem para trás". Foi então que Gilgamesh e Enkidu o atacaram: Enkidu golpeou o guardião, Huwawa, fazendo-o cair ao chão. Os cedros ao longo de uma distância de 2 léguas estremeceram, tão fragorosa foi a queda do monstro. Então Enkidu "matou-o".

Alegres com a vitória, mas exaustos da batalha, os dois camaradas pararam para descansar à beira de um riacho. Gilgamesh despiu-se para se lavar. "Ele atirou longe suas coisas sujas, vestiu as limpas; enrolou no corpo uma túnica franjada, amarrada com uma faixa." Não havia motivo para pressa; o caminho para a "Morada secreta dos Anunnaki" já não estava bloqueado.

Mal sabia Gilgamesh que o desejo de uma mulher logo faria sua vitória desmoronar...

Aquele lugar, como esclarecido anteriormente na epopéia, era "A Encruzilhada de Ishtar"; a deusa costumava usar esse Local de Aterrissagem. Ela, como Shamash, devia ter assistido à batalha­ talvez de sua Câmara Celestial ("alada"), como mostrado num selo hitita. Vendo Gilgamesh despir-se e banhar-se, "Ishtar levantou os olhos para a beleza de Gilgamesh".

Aproximando-se do rei, ela não mediu palavras para expressar o que lhe passava pela mente:

Venha, Gilgamesh, seja meu amante!

Conceda-me o fruto de teu amor.

Tu serás meu homem, Serei tua mulher!

Prometendo carros de ouro, um palácio magnífico, soberania sobre outros reis e príncipes, Ishtar estava certa de que seduzira Gilgamesh. Todavia, ao responder, ele salientou que não tinha nada para oferecer em troca dos favores de uma deusa. E, quanto ao "amor" de Ishtar; qual seria sua duração? Mais cedo ou mais tarde, falou, ela se livraria dele "como um sapato que aperta o pé de seu dono".

Recitando a lista dos homens com quem Ishtar se deitara, Gilgamesh recusou seus favores. Furiosa com a ofensa, a deusa pediu a Anu para mandar o "Touro do Céu" para esmagar o rei.

Atacados pelo Monstro Celeste, Gilgamesh e Enkidu esqueceram-se do objetivo de sua missão e correram para se salvar. Ajudando-os a fugir na direção de Uruk, Shamash permitiu que "cobrissem a distância de um mês e quinze dias em apenas três dias". Porém, na periferia da cidade, à beira do rio Eufrates, o "Touro do Céu" os alcançou. Quando ele "resfolegou", dois fossos abriram-­se no solo, grandes bastante para conter duzentos homens cada. Enkidu caiu num deles, mas conseguiu saltar para fora e matou o monstro.

Não se sabe ao certo o que era o "Touro do Céu". O termo sumério - GUD.AN.NA - também podia significar "o atacante de Anu", ou seja, seu míssil cruzador. Os artistas da Antiguidade, fascinados com o episódio, freqüentemente retratavam Gilgamesh ou Enkidu lutando com um touro de verdade, com Ishtar (e às vezes Adad) assistindo. Mas, a partir do texto da epopéia, fica claro que a arma de Anu era um engenho mecânico, feito de metal e equipado com duas pinças (os "chifres"), que, segundo a descrição, eram "fundidos de trinta minas de lápis-lazúli, cada um deles com um revestimento com dois dedos de espessura". Alguns desenhos mostram um "touro" mecânico desse tipo descendo dos céus.

Derrotado o Touro do Céu, Gilgamesh "chamou os artífices, os armeiros", para ver o monstro mecânico e desmontá-lo. Então, triunfantes, ele e Enkidu foram prestar homenagem a Shamash.

Mas, "Ishtar, em sua morada, emitiu um grito de lamentação". Enquanto, no palácio, Gilgamesh e Enkidu descansavam dos festejos que tinham durado a noite toda, os deuses supremos, na Morada dos Deuses, consideravam as queixas de Ishtar. "E Anu disse a Enlil: como o Touro do Céu eles mataram e Huwawa também mataram, ambos devem morrer." Enlil, porém, contestou: "Enkidu deverá morrer, Gilgamesh não". Então Shamash interveio. Afinal, ele contribuíra para os acontecimentos. Por que "Enkidu, o inocente, deveria morrer?”

Enquanto os deuses deliberavam, Enkidu foi acometido de um coma. Aflito e preocupado, Gilgamesh "andava de um lado para o outro diante do divã" onde seu amigo jazia, imóvel. Lágrimas amargas escorriam-lhe pelas faces. No entanto, apesar da tristeza que sentia pelo companheiro, seus pensamentos só giravam em torno de sua constante ansiedade. Um dia, tal como Enkidu, ele também ficaria à beira da morte? Depois de tantos esforços, teria o fim de um mortal qualquer?

Na assembléia, os deuses chegaram a um consenso. A sentença de morte imposta a Enkidu foi comutada para trabalhos forçados nas minas, onde ele passaria o resto de seus dias. Para executar a sentença, levando-o para seu novo domicílio, dois emissários "vestidos de pássaros, usando asas como traje", viriam procurá-lo. Um deles, "um jovem cujo rosto é escuro e parece um homem-pássaro no semblante", o transportaria à Terra das Minas:

Ele estará vestido como uma águia.

Pelo braço te conduzirá.

"Siga-me" (dirá); ele te levará

À Casa da Escuridão.

À morada acima do solo;

À morada onde os que entram jamais saem.

Uma estrada da qual não existe volta;

Uma casa cujos moradores são privados de luz,

Onde têm poeira na boca

E barro é seu alimento.

Um selo cilíndrico ilustra a cena, mostrando um emissário alado ("anjo") levando Enkidu pelo braço.

Ouvindo a sentença dada ao seu amigo, Gilgamesh teve uma idéia. Não muito longe da Terra das Minas, tinham-lhe informado, ficava a Terra dos Vivos, um lugar para o qual os deuses levavam os humanos que recebiam a dádiva da eterna juventude.

Esse local era a "morada dos antepassados" ungidos pelos deuses com as Águas Purificadoras. Lá, compartilhando da comida e bebida dos deuses, residiam:

Príncipes reais que tinham governado nos tempos de antanho;

Como Anu e Enlil, eles são servidos de carnes temperadas,

De odres, água fresca lhes é servida.

Não seria esse o lugar para onde fora levado o herói do dilúvio - Ziusudra/Utnapishtim -, de onde Etana "ascendera ao céu"?

E assim foi que "o senhor Gilgamesh decidiu partir para a Terra dos Vivos". Anunciando a Enkidu, agora recuperado, que o acompanharia em pelo menos parte da viagem, explicou:

Oh, Enkidu,

Mesmo os poderosos fenecem, encontram o fim fatídico.

(Portanto) nessa terra entrarei,

Montarei meu Shem.

No lugar onde os Shem têm sido erigidos,

Eu um Shem erigirei.

No entanto, passar a Terra das Minas para a Terra dos Vivos não era uma questão para ser resolvida por um mortal. Com palavras fortes, Gilgamesh foi aconselhado pelos anciãos de Uruk e sua mãe, a deusa Ninsun, a primeiro obter a permissão de Utu/Shamash:

Se na terra desejas entrar,

Avisa Utu, avisa Utu, o herói Utu!

Ele é o encarregado da terra;

A terra alinhada com os cedros é governada por Utu.

Avisa Utu!

Assim alertado, Gilgamesh ofereceu um sacrifício a Utu e suplicou seu consentimento e proteção:

Oh, Utu,

Na terra desejo entrar;

Seja meu aliado!

Na terra que se alinha com os frescos cedros

Desejo entrar, seja meu aliado!

Nos lugares onde os Shem foram erigidos,

Que eu erija meu Shem!

De início, Utu/Shamash duvidou se Gilgamesh conseguiria qualificar-se para entrar naquela região. Depois, atendendo a novas preces e súplicas, avisou o rei que ele teria de percorrer uma região seca e desolada: "a poeira das encruzilhadas será teu domicílio, o deserto será tua cama... espinhos e gravetos esfolarão teus pés... a sede assolará tuas bochechas". Tentando fazer seu protegido desistir da empreitada, o deus contou-lhe que "o lugar onde os Shem têm sido erigidos" era cercado por sete montanhas e os desfiladeiros entre elas ficavam guardados por "Poderosos", que podiam lançar "um fogo chamuscante" ou um "raio que não pode ser recuado". Todavia, no final, Utu cedeu: "As lágrimas de Gilgamesh ele aceitou como oferenda; sendo misericordioso, mostrou misericórdia".

No entanto, "o senhor Gilgamesh agiu de maneira frívola". Em vez de tomar o difícil caminho terrestre, resolveu fazer a maior parte da viagem numa confortável embarcação. Quando chegassem ao porto distante, Enkidu iria para a Terra das Minas e ele se dirigiria para a Terra dos Vivos. Então escolheu cinqüenta homens jovens e sem compromissos familiares para o acompanharem e serem os remadores. Sua primeira tarefa foi cortarem e levarem para Uruk as madeiras especiais com as quais seria construído o MA.GAN – uma "galera do Egito". Os ferreiros da cidade fizeram armas poderosas. Quando tudo ficou pronto, os aventureiros partiram.

Segundo os relatos, eles navegaram descendo o golfo Pérsico, sem dúvida pretendendo dar a volta na península Arábica e depois subir pelo mar Vermelho até o Egito. Todavia, a ira de Enlil não demorou a cair sobre eles. Afinal, Enkidu não fora avisado que um homem "anjo" o pegaria pelo braço para conduzi-lo à Terra das Minas? Como então estava navegando com o irrequieto Gilgamesh numa galera real, acompanhado de cinqüenta homens armados?

Ao entardecer, Utu - que deve ter assistido com grande preocupação à partida dos dois amigos - "foi embora de cabeça erguida". As montanhas ao longo da costa distante "tornaram-se escuras, sombras espalharam-se sobre elas". Então, "parado ao lado da montanha", havia alguém que, como Huwawa, podia emitir raios "dos quais nada escapava": "Ele parecia um touro da grande casa da Terra". Tudo indica que se tratava de uma torre de vigia. Esse "touro" ou vigia assustador deve ter interpelado o barco e seus passageiros, pois Enkidu foi tomado pelo medo. Voltemos para Uruk, suplicou. Mas Gilgamesh não lhe deu atenção. Mandou que o barco fosse dirigido para a terra, determinado a lutar com o vigia - "aquele homem, se for um homem, ou deus, se for um deus".

Nesse instante, houve uma calamidade. O "tecido de trama tripla" - a vela - rasgou. Como que empurrada por uma mão invisível, a galera virou e logo afundou. Gilgamesh e Enkidu conseguiram nadar até a praia. Ao olharem para o mar, viram a embarcação naufragada com a tripulação ainda em seus postos, os cinqüenta homens parecendo incrivelmente vivos na morte:

Depois de ele ter afundado, no mar ter afundado,

No fim de tarde em que o barco Magan tinha afundado,

Depois de o barco, cujo destino era Magan, ter afundado,

Dentro dele, como ainda criaturas vivas,

Estavam sentados aqueles nascidos de um ventre.

Os dois amigos passaram a noite na praia desconhecida discutindo sobre que caminho deveriam tomar. Gilgamesh continuava determinado a atingir a "terra". Enkidu achou melhor voltarem à "cidade" - Uruk. Logo, porém, Enkidu foi tomado de fraqueza. Gilgamesh exortou-o a agarrar-se à vida. "Meu querido e débil amigo", chamou-o carinhosamente, "eu o levarei para a terra". No entanto, "a morte, que não faz distinções", não pôde ser evitada.

Gilgamesh lamentou a perda do amigo por sete dias e sete noites, "até que um verme saiu de seu nariz". De início, começou a andar sem rumo: "Por seu amigo, Enkidu, Gilgamesh chora amargamente enquanto vagueia pelo mato... com tristeza na barriga, temendo a morte, vagou pelo mato". De novo o rei preocupava-se com seu destino - "temendo a morte" -, imaginando: "Quando eu morrer, não ficarei como Enkidu?”

Então sua determinação em escapar da sina dos mortais novamente se fortaleceu. "Devo descansar minha cabeça dentro da terra e dormir pelo resto dos anos?", gritou a Shamash. "Permita que meus olhos contemplem o sol, que eu me encha de luz!" Determinando seu curso pelo movimento do sol, "para a Vaca Selvagem, para Utnapishtim, filho de Ubar-Tutu, ele tomou a estrada". Gilgamesh caminhou por trilhas virgens, sem encontrar nenhum homem, procurando comida. "Que montanhas subiu, que rios atravessou, ninguém sabe", registraram tristemente os escribas.

Depois de muito tempo, como relatam as versões da epopéia encontradas em Nínive e sítios arqueológicos hititas, Gilgamesh aproximou-se de habitações. Ele estava chegando a uma região dedicada a Sin, o pai de Shamash. "Quando atingiu um desfiladeiro durante a noite, Gilgamesh viu leões e sentiu medo.”

Ele ergueu a cabeça para Sin e orou:

"Que meus passos sejam dirigidos para o lugar onde os deuses rejuvenescem... Preserva-me!”

"À noite, enquanto dormia, ele acordou de um sonho" que interpretou como um presságio de Sin avisando-o de que iria "regozijar-se na Vida"; encorajado, Gilgamesh "como uma flecha desceu para o meio dos leões". Sua batalha com as feras foi amplamente retratada não apenas na Mesopotâmia como em todos os países da Antiguidade, até mesmo no Egito.

Ao alvorecer, Gilgamesh atravessou um desfiladeiro. Lá embaixo, a distância, avistou uma grande extensão de água, como um enorme lago, "impulsionado por longos ventos". Na planície junto a esse mar interior, avistou uma cidade protegida por uma muralha. Lá ficava o templo de Sin.

No lado de fora da cidade, junto ao "mar na baixada", Gilgamesh viu uma taberna. Aproximando-se dela, encontrou "Siduri, a cervejeira", que segurava "um jarro e uma tigela de mingau dourado". Mas, ao avistar o recém-chegado, a mulher assustou-se com sua aparência. Agindo de maneira bem compreensível, a cervejaria "trancou a porta, barrou o portão". Com grande esforço, Gilgamesh convenceu-a de sua verdadeira identidade e boas intenções, contando-lhe sobre suas aventuras e o propósito de sua viagem.

Depois que Siduri permitiu-lhe descansar, beber e comer, Gilgamesh mostrou-se ansioso por continuar. "Qual é o melhor caminho para a Terra dos Vivos?", quis saber. Seria preciso dar a volta no mar interior para atingir as montanhas ou ele poderia encurtar a jornada, atravessando as águas?

Agora, cervejeira, qual é o caminho...

Quais são seus marcos?

Dê-me, oh, dê-me seus marcos?

Se for adequado, pelo mar eu irei;

Senão, a rota terrestre pegarei.

Acontece que a escolha não era assim tão simples, pois o mar que Gilgamesh tinha diante de si era o "mar da Morte".

A cervejeira disse a ele, Gilgamesh:

É impossível atravessar o mar, Gilgamesh.

Faz muito tempo que ninguém vem do outro lado do mar.

O valente Shamash o atravessou

Mas, não sendo Shamash, quem pode atravessá-lo?

Trabalhosa é a travessia, desolado o caminho;

Estéreis são as Águas da Morte que ele contém.

Como então, Gilgamesh, pretendes atravessar o mar?

Gilgamesh não respondeu e Siduri prosseguiu, revelando-lhe que talvez poderia haver um meio de ele atravessar as Águas da Morte:

Gilgamesh,

Existe Urshanabi, o barqueiro de Utnapishtim.

Com ele estão as coisas que flutuam,

Na mata ele recolhe as coisas que colam.

Vá, deixa-o contemplar teu rosto.

Se for adequado, contigo ele atravessará;

Senão, tu voltarás.

Seguindo as indicações da cervejeira, Gilgamesh encontrou Urshanabi, o barqueiro. Depois de um longo interrogatório, onde o rei teve de dizer quem era, como chegara até ali e aonde pretendia ir, o barqueiro considerou-o digno de seus serviços. Usando varas compridas, os dois impulsionaram a jangada pelo mar. Em três dias, "deixaram para trás o passar de um mês e quinze dias", ou seja, fizeram o trajeto que por terra levaria 45 dias.

Então Gilgamesh chegou a TIL.MUN - "A Terra dos Vivos".

"Que caminho deverei tomar agora?", perguntou Gilgamesh. Urshanabi disse-lhe que ele teria de chegar a uma montanha: "o nome da montanha é Mashu".

As indicações do barqueiro constam nas versões hititas da epopéia, encontradas em fragmentos de tábulas descobertas em Boghazkoy e outros sítios arqueológicos. A partir deles, como reunidos por Johannes Friedrich em Die hethitischen Bruchstükes des Gilgamesh-Epos, ficamos sabendo que o rei foi avisado para encontrar e seguir "um caminho regular" que levava para o "Grande Mar, que fica bem distante". Deveria procurar por duas colunas de pedra, ou "marcos", que, como garantiu Urshanabi, "ao destino sempre me trazem". Ao encontrá-las faria uma curva para alcançar uma cidade chamada Itla, dedicada ao deus que os hititas denominavam de Ullu-Yah ("O das Montanhas"). Só com a bênção desse deus ele poderia prosseguir em sua jornada.

Seguindo as indicações, Gilgamesh chegou a Itla. Teve a impressão de estar avistando o Grande Mar a distância. Nessa cidade, ele comeu, bebeu, lavou-se, tornando-se novamente apresentável, como convém a um rei. Mais uma vez Shamash veio em seu auxílio, aconselhando-o a fazer oferendas a Ulluyah. Levando seu protegido para junto do Grande Deus, Shamash pediu-lhe: Aceite estas oferendas, "conceda-me a vida". No entanto, Kumarbi, um outro deus muito citado nas lendas hititas, foi contra: a imortalidade não pode ser concedida a Gilgamesh, disse ele.

Parece que ao se convencer de que não conseguiria um Shem, Gilgamesh pediu uma compensação. Poderia pelo menos conhecer seu antepassado, Utnapishtim? Enquanto os deuses deliberavam, ele (talvez com a conivência de Shamash?) deixou a cidade e começou a avançar para o monte Mashu, parando diariamente para oferecer sacrifícios a Ulluyah. Depois de seis dias, chegou à montanha que, de fato, era o Lugar dos Shem.

O nome da montanha é Mashu.

À montanha de Mashu ele chegou;

Onde diariamente observava os Shem

Que iam e vinham.

As funções do monte exigiam que ele se conectasse tanto com os céus como com os Confins da Terra:

Lá no alto, à Faixa Celestial

Ele está ligado;

Embaixo, ao Mundo Inferior

Ele está ligado.

Havia um meio de se entrar no monte. No entanto, a entrada, "o portão", estava fortemente guardada.

Homens-foguete guardam seu portão,

Seu terror é espantoso, seu olhar é morte.

Seu temido farol varre as montanhas.

Eles vigiam Shamash enquanto ele sobe e desce.

(Foram encontradas várias representações mostrando seres alados ou homens-touro divinos, operando um aparelho circular ­talvez um holofote - montado num poste. É possível que sejam ilustrações do "temido farol que varre as montanhas").

"Ao contemplar o brilho terrível, Gilgamesh cobriu o rosto; recobrando a compostura, aproximou-se deles." Quando percebeu que o temível raio só afetara momentaneamente o recém-chegado, o homem-foguete gritou para seu companheiro: "O que vem tem o corpo de carne dos deuses!" Parece que os raios podiam atordoar ou matar humanos, mas eram inofensivos para os deuses.

Recebendo permissão de se aproximar, Gilgamesh foi solicitado a se identificar e explicar sua presença na área. Depois de contar sobre sua origem divina, ele disse que viera "à procura da Vida" e acrescentou que desejava conhecer seu antepassado, Utnapishtim.

Por causa de Utnapishtim, meu antepassado,

Eu vim.

A ele que se juntou à congregação dos deuses,

Sobre a vida e a morte desejo perguntar.

"Isso jamais foi conseguido por um mortal", disseram os dois guardas. Sem desanimar, Gilgamesh invocou Shamash e explicou que era dois terços divino. Devido a fraturas na tábula que contém o texto, não se sabe o que aconteceu logo em seguida. O fato é que finalmente os homens-foguete comunicaram a Gilgamesh que a permissão lhe fora concedida: "O portão do monte está aberto para ti!”

(O "Portão do Céu" era um motivo freqüente nos selos cilíndricos, que o mostravam como um portão alado, parecendo uma escada de mão, que levava à Árvore da Vida. Às vezes estava guardado por serpentes).

Gilgamesh entrou, seguindo "o caminho tomado por Shamash". A viagem durou doze beru (horas duplas) e durante a maior parte do percurso "ele não pôde ver nada, nem à frente nem atrás". É possível que estivesse de olhos vendados, pois o texto salienta que "para ele, não havia luz". Na oitava hora dupla, Gilgamesh gritou de medo. Na nona, "sentiu um vento norte batendo-lhe no rosto". "Quando completou onze beru, a aurora surgiu." Finalmente, terminada a 12ª. hora dupla, ele "na luminosidade habitou", Gilgamesh agora podia enxergar e o que viu foi impressionante: um recinto fechado, como o dos deuses onde "crescia" um jardim feito de pedras preciosas! A magnificência do local nos é transmitida por linhas mutiladas dos antigos textos:

Como frutos ostentam cornalinas,

As vinhas belas demais para se contemplar.

A folhagem é de lápis-lazúli;

As uvas, luxuriantes demais para se olhar,

De... pedras são feitas...

Suas... de pedras brancas...

Nas águas, juncos puros... de pedras-sasu;

Como uma Árvore da Vida e uma Árvore de...

Aquela feita de pedras An-Gug.

A descrição continua longamente. Impressionado e tomado de emoção, Gilgamesh caminhou pelo jardim. Estava, sem dúvida, num "Jardim do Éden" simulado!

Até agora não se sabe o que aconteceu em seguida, pois toda uma coluna da nona tábula de argila está fragmentada demais para ser decifrada. Quer seja no jardim artificial ou em algum outro lugar, Gilgamesh finalmente encontrou-se com Utnapishtim. Sua primeira reação ao ver um "homem de antanho" foi reparar o quanto era parecido com ele:

Gilgamesh lhe disse,

A Utnapishtim, "O Longínquo":

Enquanto te contemplo, Utnapishtin,

Tu não és nada diferente;

É como se tu eu fosse...

Então, Gilgamesh foi direto ao assunto:

Diga-me,

Tu te juntaste à congregação dos deuses

Em tua busca pela Vida?

Utnapishtim respondeu: "Eu te revelarei um assunto oculto, Gilgamesh, um segredo dos deuses te contarei". O segredo era o Conto do Dilúvio, relatando como quando Utnapishtim era o governante de Suripak e os deuses resolveram deixar o dilúvio aniquilar a Humanidade, Enki secretamente o instruiu a construir uma embarcação submersível e nela colocar sua família e "a semente de todas as coisas vivas". Um navegador fornecido pelo deus dirigiu o barco para o monte Ararat. Quando a água começou a abaixar, Utnapishtim desembarcou para oferecer sacrifícios em agradecimento. Os deuses e deusas - que orbitavam a Terra em sua nave enquanto ela era inundada - também desceram no monte Ararat e saborearam a carne assada no sacrifício. Quando Enlil também aterrissou, encolerizou-se ao ver que, apesar do voto feito por todos os deuses, Enki permitira a sobrevivência da Humanidade.

Todavia, quando sua raiva diminuiu, Enlil conscientizou-se da vantagem dessa sobrevivência. Foi então, continuou contando Utnapishtim, que o deus lhe concedeu a vida eterna:

Logo em seguida, Enlil entrou no barco.

Segurando-me pela mão, levou-me a bordo.

Ele levou minha mulher a bordo e a fez ajoelhar-se ao meu lado.

Em pé entre nós, nossas testas tocou para nos abençoar:

Até aqui Utnapishtim tem sido humano;

Daqui em diante, ele e sua mulher serão como deuses para nós.

Longe daqui Utnapishtim residirá,

Na foz dos rios.

E foi assim, concluiu Utnapishtim, que ele acabou sendo levado à Morada Longínqua para viver entre os deuses. Mas como Gilgamesh conseguiria obter o mesmo privilégio? "Agora, quem, em teu favor, pedirá para os deuses reunirem-se em assembléia para que encontres a Vida que procuras?”

Ao ouvir o conto e entender que só os deuses reunidos poderiam decretar-lhe a vida eterna, sem o que nada conseguiria, Gilgamesh desmaiou, perdendo a consciência por seis dias e sete noites. Utnapishtim, sarcástico, comentou com a mulher: "Veja só este herói que procura a Vida; com um mero sono, como a névoa ele se dissolve". Todavia, enquanto Gilgamesh dormia, o casal cuidou dele para mantê-lo vivo "para que possa voltar em segurança pelo caminho pelo qual veio, para que pelo portão pelo qual passou possa voltar a sua terra".

Urshanabi, o barqueiro, foi chamado para levar Gilgamesh de volta. No entanto, no último instante, quando o rei já estava para partir, Utnapishtim revelou-lhe mais um segredo: embora ele não pudesse escapar da morte, havia um meio de evitá-la. Para isso, teria de obter a planta secreta que os deuses comiam; assim, se manteria eternamente jovem!

Utnapishtim disse a ele, Gilgamesh:

Para cá viestes, enfrentando labuta e adversidade.

Que posso dar-te na volta a tua terra?

Eu te revelarei, Oh, Gilgamesh, uma coisa secreta;

Um segredo dos deuses te contarei;

Existe uma planta, que tem a raiz parecida com a do morangueiro espinhoso.

Seus espinhos são como os dos galhos da urze-branca.

Tuas mãos eles espetarão.

Se elas obtiverem a planta,

Nova Vida encontrarás.

A planta, ficamos sabendo pelo que aconteceu em seguida, crescia submersa:

Nem bem Gilgamesh ouviu isso, abriu o cano de água.

Amarrou pedras pesadas nos pés;

Elas o puxaram para o fundo;

Então ele viu a planta.

Pegou-a apesar de ela espetar suas mãos.

Cortou as pesadas pedras amarradas aos seus pés;

A segunda o lançou de volta para onde estava.

Enquanto voltava com Urshanabi, o barqueiro, Gilgamesh disse-lhe, triunfante:

Urshanabi,

Esta planta é única entre todas as plantas:

Com ela, um homem pode recuperar o pleno vigor!

Eu a levarei à cidade fortificada de Uruk,

Onde a planta será cortada e comida.

Que ela seja chamada

Homem Torna-se Jovem na Velhice!

Desta planta comerei e a minha juventude voltarei.

Um selo cilíndrico sumério de cerca de 1700 a.C., com cenas dessa epopéia, mostra (à esquerda) Gilgamesh seminu e despenteado, lutando com dois leões; à direita, ele exibe a Urshanabi a planta da eterna juventude. No centro, um deus segura uma estranha arma ou ferramenta em forma de espiral.

O destino, contudo, como aconteceu em tantos casos durante os milênios e séculos que se seguiram, interveio.

Enquanto os viajantes preparavam-se para a noite, Gilgamesh viu "um poço cujas águas eram frescas. Desceu até ele para banhar­-se". Então veio a desgraça: "Uma cobra cheirou o perfume da planta. Chegou e levou a planta embora".

Em seguida, Gilgamesh senta-se e chora,

As lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto.

Ele pega a mão de Urshanabi, o barqueiro.

Para quem minhas mãos trabalharam?

Para quem esgotei o sangue de meu coração?

Para mim não obtive a dádiva;

a uma serpente, a dádiva concedi...

Um outro selo cilíndrico sumério ilustra o trágico final da epopéia: o portão alado ao fundo, Urshanabi conduzindo o barco e Gilgamesh lutando com a serpente. Não tendo encontrado a imortalidade, ele agora é perseguido pelo anjo da morte.

E foi assim que, nas gerações que se sucederam, escribas copiaram e traduziram, poetas recitaram e contadores de história transmitiram o relato sobre a primeira busca infrutífera da imortalidade, a Epopéia de Gilgamesh.

E era assim que ela começava:

Que eu faça todo o país saber

Sobre aquele que viu o Túnel;

Sobre aquele que conhece os mares, que eu conte toda a história.

Ele visitou o... (?) também,

Os escondidos de vista, todas as coisas...

Coisas secretas ele viu, o que está escondido do homem encontrou.

Ele até trouxe notícias dos tempos antes do dilúvio.

Também fez a longa jornada, cansativa e cheia de dificuldades;

Ele voltou e, numa coluna de pedra, toda sua labuta gravou.

E assim, segundo as Listas de Reis Sumérios, foi como tudo terminou:

O divino Gilgamesh, cujo pai era humano, o alto sacerdote do templo, reinou por 126 anos. Ur-lugal, filho de Gilgamesh, reinou depois dele.

8

CAVALEIROS DAS NUVENS

Sem dúvida, a viagem de Gilgamesh em busca da imortalidade foi a fonte original das muitas lendas que surgiram nos milênios subseqüentes sobre deuses, semi-deuses ou heróis de suposta origem divina que, como ele, partiram para encontrar o paraíso terrestre ou a Morada Celestial dos Deuses. Além disso, ninguém discute que a Epopéia de Gilgamesh serviu como um guia para os aventureiros de todas as épocas tentarem encontrar os marcos da Antiguidade que indicariam a localização da Terra dos Vivos e o caminho para atingi-la.

As similaridades entre os marcos geográficos, os túneis feitos pela mão do homem (os deuses), corredores, fechaduras pneumáticas e câmaras de radiação; os seres com aspecto de pássaros, os "Águias", bem como outros detalhes de maior ou menor importância, são numerosos e idênticos demais para serem meras coincidências. Ao mesmo tempo, a Epopéia de Gilgamesh pode explicar a confusão que reinou ao longo de milênios sobre a localização do ansiado alvo. Como vimos pormenorizadamente no capítulo anterior, Gilgamesh não fez apenas uma viagem, mas duas - um fato em geral ignorado pelos estudiosos modernos e talvez também pelos antigos.

O drama do rei que não queria morrer atinge seu clímax na Terra de Tilmun - a Morada dos Deuses e Lugar dos Shem. Foi lá que ele encontrou um ancestral que escapara do destino dos mortais e a planta da eterna juventude. E foi ali também que ocorreram, ao longo de milênios, outros encontros divinos e eventos que afetaram o curso da História da Humanidade. E era lá, acredito, que ficava o Duat - a Escada para o Céu.

No entanto, esse não era o destino da primeira viagem de Gilgamesh, como podemos entender acompanhando seus passos na seqüência correta. Quando ele partiu pela primeira vez em busca da imortalidade, sua idéia não era atingir Tilmun, mas o Local de Aterrissagem, na Montanhas dos Cedros, dentro da grande Floreta de Cedros.

Estudiosos como S. N. Kramer em The Sumerians consideram "crípticas e enigmáticas" as afirmações sumérias de que Shamash podia "erguer-se" não apenas de Tilmun, mas também da Terra dos Cedros. A resposta é que, além do espaço-porto em Tilmun, do qual podia-se atingir os céus mais longínquos, havia um Local de Aterrissagem, de onde os deuses podiam "escalar o firmamento da Terra". Essa resposta é apoiada pela minha conclusão de que os deuses possuíam dois tipos de naves: os GIR, ou foguetes, operados em Tilmun, e os MU, como eram chamadas pelos sumérios as "Câmaras Celestiais". Comprovando o alto nível tecnológico dos Nefilim, a parte superior do GIR, isto é, o Módulo de Comando ­chamado pelos egípcios de Ben-Ben - podia se separar e voar pelo céu terrestre como um MU.

Os povos da Antiguidade viram os GIR em seus silos e até mesmo voando, mas retratavam com maior freqüência as "Câmaras Celestiais" - veículos que atualmente chamaríamos de OVNIs (Objetos Voadores Não Identificados). O que Jacó conheceu em sua visão deve ter sido parecido com a Câmara Celestial de Ishtar. A Roda Voadora do profeta Ezequiel é descrita como tendo uma forma bem semelhante à mostrada nos desenhos assírios de um deus voador percorrendo os céus ao nível das nuvens, dentro de uma "Câmara Celestial" esférica. Uma delas poderia ser também o turbilhão flamejante no qual o profeta Elias foi arrebatado para os céus.

Tal como as "Águias" sumérias, os Deuses Voadores da Antiguidade eram retratados como possuindo asas. Esses Seres Alados são a raiz da aceitação judaico-cristã da existência de querubins e anjos (literalmente: "emissários") do Senhor.

Tilmun, então, era a localização do espaço-porto. Na Montanha dos Cedros ficava o "Local de Aterrissagem", a "Encruzilhada de Ishtar" - o "aeroporto" dos deuses. E foi para esse lugar que Gilgamesh primeiro dirigiu seus passos.

Embora a identificação e a localização de Tilmun sejam uma empreitada bastante difícil, praticamente não existem problemas para se situar a Floresta de Cedros. Com exceção de ocorrências subsidiárias na ilha de Chipre, só existe uma única região com esse tipo de árvore em todo o Oriente Médio: as montanhas do Líbano. Esses magníficos cedros, que chegam a atingir uma altura de 46 metros, foram repetidamente exaltados na Bíblia e sua singularidade era reconhecida por todos os povos da Antiguidade. Como atestam as narrativas bíblicas e de outras regiões do Oriente Médio, os cedros do Líbano eram reservados para a construção e decoração dos templos ("casas dos deuses"), prática pormenorizadamente descrita em Reis I, nos capítulos que tratam da construção do templo de Jerusalém por Salomão (Depois do Deus Iahweh ter se queixado: "Por que não me constróis uma Casa de Cedro?").

O Deus bíblico parecia bem familiarizado com os cedros e freqüentemente os empregava em suas alegorias, comparando governantes e nações com essas árvores: "A Assíria era um cedro do Líbano, com belos galhos, sombra protetora e grande estatura... as águas o nutriam, rios subterrâneos lhe proporcionavam altura" - até que a ira de Iahweh a fez tombar, quebrando-lhe os galhos. Tudo indica que o homem jamais foi capaz de cultivar essas árvores. A Bíblia registra uma tentativa fracassada. Atribuindo-a a um rei da Babilônia (factual ou alegoricamente), conta que "Ele veio ao Líbano e pegou o mais alto galho do cedro", retirando dele a melhor semente, que "plantou num campo fértil, junto a grandes águas". Mas o que cresceu não foi um cedro, mas uma árvore pequena semelhante a um salgueiro, "uma trepadeira de baixa estatura".

O Senhor bíblico, por seu lado, conhecia o segredo do cultivo dos cedros:

Assim disse o Deus Iahweh:

Da crista do cedro, dos galhos mais altos, um broto macio pegarei;

Eu o plantarei numa alta e íngreme montanha...

E ele porá galhos e gerará frutos, e tornar-se-á um poderoso cedro .

Esse conhecimento, aparentemente, derivava do fato de os cedros crescerem no "Pomar dos Deuses", onde nenhuma árvore se igualava a ele, que era "a inveja de todas as árvores que existiam no Éden, o jardim dos deuses". O termo hebraico Gan (pomar, jardim), por derivar da raiz gnn (proteger, guardar), transmite o sentido de uma área guardada e restrita - o mesmo percebido pelo leitor da narrativa de Gilgamesh, que fala numa floresta que se estende "por muitas léguas", vigiada por um Guerreiro Flamejante ("um terror para os mortais"), acessível somente através de um portão que paralisava o intruso que o tocava. Dentro dela ficava a "morada secreta dos Anunnaki". Um túnel levava ao "recinto no qual são emitidas as palavras de comando" - o "lugar subterrâneo de Shamash".

Gilgamesh quase conseguiu chegar ao Local de Aterrissagem, pois tinha a permissão e o apoio de Shamash. Mas a ira de Ishtar, furiosa por ter sido repelida em seus avanços amorosos, mudou completamente o curso dos acontecimentos. Já um outro rei mortal, segundo o Velho Testamento, teve melhor sorte. Esse homem era o soberano de Tiro, uma cidade-Estado na costa do Líbano, a pouca distância da Montanha dos Cedros. A deidade (como contado no Capítulo 28 do Livro de Ezequiel) permitiu-lhe visitar a Montanha Sagrada:

Estiveste em Éden, pedras preciosas eram tua mata...

És um querubim ungido, protegido; coloquei-te na Montanha Sagrada.

Como um deus estavas, movendo-se dentro de pedras flamejantes.

Gilgamesh procurou entrar no Local de Aterrissagem sem ser convidado dos deuses. O rei de Tiro não somente obteve a permissão para visitar o lugar como também foi levado a passear nas "pedras flamejantes", voando como um querubim. Como resultado disso, ele dizia: "sou um deus, na Morada da Deidade sentei, no meio das águas". Ezequiel deveria informá-lo de que, por causa dessa arrogância, ele iria morrer como um pagão nas mãos de estranhos.

Vemos, assim, que tanto os hebreus dos templos bíblicos como seus vizinhos do norte conheciam a localização e natureza do Local de Aterrissagem na Montanha dos Cedros que Gilgamesh tentou penetrar no milênio anterior a eles. Não se trata, portanto, de um lugar "mitológico", mas sim de um local muito real, citado em textos e mostrado em desenhos, confirmando sua existência e funções.

No conto sobre o rei que tentou plantar um cedro, o Velho Testamento relata que ele "carregou um pequeno galho para um país de comércio" e plantou a semente "numa cidade de mercadores". Países e cidades desse tipo não precisam ser procurados muito longe, pois ao longo da costa do Líbano, desde a Anatólia, ao norte, até o sul da Palestina, havia muitas cidades litorâneas cananéias cuja riqueza e poder cresciam com o comércio internacional. As mais conhecidas através dos relatos bíblicos são Tiro e Sídon. Centros de comércio e navegação durante milênios, sua fama atingiu o auge na época em que eram governadas pelos fenícios.

Uma outra cidade, talvez o posto mais avançado dos cananeus junto à fronteira com o Império Hitita, passou milênios soterrada sobre um monte depois de sua destruição por invasores assírios. Suas ruínas foram descobertas por acaso em 1928, quando um lavrador pôs-se a arar um novo campo de cultivo perto do monte chamado Ras Shamra. As extensas escavações que se seguiram revelaram a antiga cidade de Ugarit. Entre as espetaculares descobertas estavam um grande palácio, um templo dedicado ao deus Baal ("O Senhor") e uma variedade de artefatos. Porém, o verdadeiro tesouro eram centenas de tábulas de argila, com inscrições em escrita cuneiforme, em língua "semita ocidental", aparentada com o hebraico bíblico. As tábulas, cujo conteúdo foi sendo apresentado ao longo de vários anos por Charles Virollaud no periódico científico Syria, tiraram de uma relativa obscuridade os cananeus, sua vida, seus costumes e deuses.

No topo do panteão cananeu ficava uma divindade suprema chamada El - uma palavra que no hebraico bíblico era o termo genérico para "deidade", tendo como origem a palavra acadiana Ilu, que significa literalmente "O Altíssimo". Todavia, nos contos cananeus sobre homens e deuses, El era o nome pessoal de uma deidade real, a autoridade final em todas as questões, fossem de natureza divina ou humana. El era tanto o pai dos deuses como o Ab Adam ("pai dos homens") e tinha como epítetos "O Bondoso" e "O Misericordioso". Ele também era "o criador das coisas criadas" e "o único que podia conceder realeza". Uma estela encontrada na Palestina mostra El sentado em seu trono e sendo servido de bebida por uma deidade mais jovem, provavelmente um de seus muitos filhos. Ele usa o toucado cônico, com chifres, a marca registrada dos deuses em todo o Oriente Médio da Antiguidade, e a cena é dominada pelo onipresente Globo Alado, o emblema do Planeta dos Deuses.

Nos "velhos tempos", El era a principal deidade do Céu e da Terra, mas na época em que tiveram lugar os eventos relatados na tábulas cananéias, o deus vivia numa semi-aposentadoria, alheio às questões cotidianas. Sua morada ficava "nas montanhas", junto aos "dois afluentes iniciais", onde se sentava em um pavilhão recebendo emissários, presidindo conselhos dos deuses e tentando resolver as constantes disputas entre os deuses mais jovens. Muitos destes eram seus filhos e alguns textos sugerem que El tinha setenta deles. Destes, trinta eram de sua consorte oficial, Asherah e os outros filhos eram de uma variedade de concubinas divinas e até humanas. Um texto poético conta que duas mulheres viram El nu enquanto passeavam na praia e ficaram encantadas com o tamanho de seu pênis, caso que terminou com cada uma delas gerando um filho do deus. (Esse atributo de El está bem visível numa moeda fenícia, que o mostra como um deus alado).

No entanto, os principais descendentes de El eram três filhos e uma filha: os deuses Yam (“Mar, Oceano"), Baal ("O Senhor") e Mot ("Golpeador, Aniquilador"), e a deusa Anat (“A que respondeu"). Pelos nomes e relacionamento, eles se comparam com os deuses gregos Posêidon (Deus dos Mares), Zeus (Senhor dos Deuses) e Hades (Deus do Mundo Inferior). Baal, como Zeus, estava sempre armado com um raio-míssil e tinha o touro como símbolo de seu culto. Quando Zeus lutou contra Tífon, foi sua irmã, Atena, Deusa do Amor e da Guerra, a única que o apoiou. Nas lendas egípcias, Ísis sozinha ficou ao lado do irmão-marido, Osíris. O mesmo aconteceu quando Baal entrou em luta com seus dois irmãos. Somente sua irmã-amante, Anat, veio em seu auxílio. Como Atena, ela era ao mesmo tempo “A Donzela", muitas vezes exibindo sua beleza nua, e a Deusa da Guerra, tendo um leão como símbolo de sua bravura. (No Velho Testamento ela é chamada de Astarot ou Astarte.)

Os vínculos com as crenças e lembranças dos tempos pré-históricos egípcios são tão óbvios como com os da Grécia. Osíris foi ressuscitado por Ísis depois de ela ter encontrado seus restos na cidade cananéia de Biblos. Da mesma forma, Baal foi trazido de volta à vida depois de golpeado por Mot. Set, o adversário de Osíris, nas escrituras egípcias às vezes era chamado de "Set de Safon". Baal, como vemos, ganhou o título de "Senhor de Zafon". Os monumentos egípcios do Novo Império - que se equipara ao período cananeu - muitas vezes mostravam os deuses cananeus como deidades egípcias, chamando-os de Min, Reshef, Cades e Anthat. Dessa forma, encontramos as mesmas lendas aplicando-se aos mesmos deuses, apesar dos nomes diferentes, em todo o mundo antigo.

Os eruditos salientaram que todas essas lendas eram ecos, senão versões, dos outros sumérios originais e muito mais antigos, falando não apenas sobre a busca da imortalidade, mas também de amor, morte e ressurreição entre os deuses. Em seu conjunto, esses contos estão repletos de episódios, detalhes, epítetos e ensinamentos que também constam do Velho Testamento - evidenciando um local em comum (Canaã), tradições em comum e versões originais em comum.

Um texto desse tipo é a história de Danel (Dan-El - o "juiz de El" - Daniel em hebraico), um chefe virtuoso, que não conseguia ter um herdeiro legítimo. Aflito, Danel rogou aos deuses que lhe dessem um filho, para que, quando ele morresse, esse filho pudesse erigir uma estela em sua memória em Cades. A partir dessa palavra podemos conjeturar que a área dos eventos da lenda era a região onde o Canaã do Sul (o Neguev) mesclava­-se com a península do Sinai, pois era lá que ficava a cidade de Cades ("A Sagrada").

Cades fazia parte do território do patriarca bíblico Abraão e o conto cananeu sobre Danel está repleto de similaridades com a história da Bíblia sobre o nascimento de Isaac, filho de Abraão e Sara, ambos muito idosos. Num relato bem parecido com o que está no Livro do Gênesis, lemos no conto cananeu que Danel, envelhecendo sem ter gerado um herdeiro, viu se apresentar uma oportunidade de conseguir auxílio divino quando dois deuses chegaram à sua casa. "Daí em diante... ele dá oferendas para os deuses comerem, oferendas para os Santos beberem." Os divinos hóspedes, que eram El, "O Administrador da Cura", e Baal, ficam na casa de Danel por uma semana, durante a qual este repete constantemente sua súplica. Afinal, Baal resolve apoiar Danel, "aproximando-se de El com seus apelos". Cedendo às súplicas, El "pela mão toma seu servo" e lhe concede "espírito", pelo qual a virilidade de Danel é restaurada:

Com o hálito da vida Danel é estimulado...

Com o hálito da vida ele é revigorado.

El promete um filho para o descrente Danel. Monta tua cama, diz, beija tua mulher, abraça-a... "pela concepção e gravidez ela dará à luz um filho homem para Danel". E, tal como acontece na narrativa bíblica, a matriarca gera um herdeiro legítimo, o que garante a sucessão. Os pais lhe dão o nome de Aqhat; os deuses o apelidam de Naaman ("O Agradável").

Quando o menino torna-se um rapaz, o Artífice dos Deuses o presenteia com um arco inigualável, o que desperta a inveja de Anat, que deseja possuir essa arma mágica. Para obtê-la, a deusa promete a Aqhat qualquer coisa que ele gostaria de ter - ouro, prata, até mesmo a imortalidade:

Peça a vida, ó Aqhat, o jovem...

Peça a vida e eu ela te darei.

Imortalidade (peça), e eu te concederei.

Com Baal te farei contar os anos;

Com os filhos de El contarás os meses.

Além de viver tanto quanto os deuses, prometeu a deusa, o rapaz também seria convidado a juntar-se a eles na cerimônia de Doação de Vida.

E Baal, quando concede a vida, uma festa oferece;

Um banquete faz para aquele que recebeu vida.

Serve-lhe uma bebida, canta e entoa docemente para ele.

Mas Aqhat não acredita que o homem possa escapar de seu destino e não deseja separar-se do arco:

Não mintas, ó donzela...

Para um herói, tuas mentiras são desprezíveis.

Como pode um mortal adquirir uma outra vida?

Como pode um mortal a eternidade obter?

A morte de todos os homens morrerei;

Sim, com certeza perecerei.

O rapaz também lembra a Anat que o arco foi feito para guerreiros como ele e não para ser usado por mulheres. Insultada, Anat "atravessa a Terra" até a morada de El, pretendendo solicitar permissão para eliminar Aqhat. A resposta enigmática do deus sugere que ele permite um castigo, mas só até certo ponto.

Anat agora começa a tramar sua vingança. "Por sobre mil campos, quatro mil hectares", ela viaja de volta para onde está Aqhat. Fingindo-se desejosa de paz e apaixonada, a deusa ri, alegre. Dirigindo-se ao rapaz como "Aqhat, o jovem", ele declara: "Tu és meu irmão, sou tua irmã". Em seguida, convence-o a acompanhá-la até a cidade do "Pai dos Deuses, o Senhor da Lua". Lá pede para Tafan "matar Aqhat para tirar seu arco" e depois "fazê-lo viver de novo”

ou seja, infligir-lhe uma morte temporária, que a possibilite pegar a arma tão desejada. Tafan, seguindo as instruções da deusa, “golpeia duas vezes Aqhat no crânio, três acima da orelha", e a alma do rapaz "escapa como vapor". Mas, antes que ele possa ser revivido (se era mesmo essa a intenção de Anat), seu corpo é estraçalhado pelos abutres. A notícia terrível é trazida a Danel enquanto ele, "sentado diante do portão, sob uma frondosa árvore, julga a causa da viúva, adjudica a causa do órfão". Com a ajuda de Baal, organiza-se uma busca para procurar os restos de Aqhat, mas tudo em vão. A irmã do rapaz, disfarçada e desejosa de vingança, viaja até a morada de Tafan e, depois de embriagá-lo, tenta matá-lo. (Um possível final feliz, no qual Aqhat terminaria ressuscitado, não foi encontrado até agora.)

A transferência da ação das montanhas do Líbano para a "cidade do deus-Lua" é um elemento também encontrado na história de Gilgamesh. Em todo o Oriente Médio da Antiguidade, a deidade associada à Lua era Sin (Nannar no sumério original). Chamado na cidade de Ugarit de "Pai dos Deuses" ele era, na verdade, o pai de Ishtar e seus três irmãos. A primeira tentativa de Gilgamesh para atingir sua meta, o Local de Aterrissagem na Montanha dos Cedros, foi frustrada por Ishtar, que procurou fazer com que ele fosse morto pelo Touro do Céu por tê-la rejeitado. Em sua segunda viagem, em que pretendia chegar à Terra de Tilmun, Gilgamesh também chegou a uma cidade cercada de muralhas, "cujo templo era dedicado a Sin".

Mas, enquanto Gilgamesh precisou fazer uma longa e perigosa caminhada antes de atingir a região de Sin, Anat - como Ishtar ­ podia ir a todos os lugares com grande rapidez, pois não viajava a pé nem em lombo de asno, mas voando de um ponto para outro. Muitos textos da Mesopotâmia referiam-se às viagens aéreas de Ishtar e sua capacidade de vagar pelo firmamento, "atravessando o céu, atravessando a terra". Uma sua representação no templo a ela dedicado em Assur, uma capital assíria, mostra-a usando óculos, um capacete justo e grandes "fones de ouvido" ou painéis. Nas ruínas de Mari, na margem do rio Eufrates, foi encontrada uma estátua de tamanho natural, equipada com uma "caixa-preta", uma mangueira, um capacete com chifres e "fones de ouvido” embutidos, e mais outros atributos de um aeronauta. Essa capacidade de "voar como um pássaro", atribuída a todas as outras deidades cananéias, aparece em todos os contos épicos encontrados em Ugarit.

Um deles, onde a deusa voa para salvar alguém, é um texto que os eruditos intitularam de "A Lenda do Rei Keret" - onde Keret pode ser interpretado como o nome do rei ou o de sua cidade ("A capital"). O tema do conto é o mesmo da Epopéia de Gilgamesh, ou seja, a luta do homem para encontrar a imortalidade. No entanto, ele começa como a história de Jó, do Velho Testamento, e possui outras similaridades bíblicas.

Jó, como nos conta a Bíblia, era um homem íntegro e puro, de grande fortuna e poder que vivia na Terra de Hus (a "Terra do Conselho"), território sob o domínio dos "Filhos do Leste". Tudo corria às mil maravilhas até que "no dia em que os filhos dos deuses vieram se apresentar a Iahweh, entre eles veio também Satanás". Persuadindo o Senhor a testar Jó, Satanás recebeu permissão de afligi-lo primeiro com a perda dos filhos e de toda sua fortuna, e posteriormente com todo o tipo de enfermidades. Enquanto Jó lamentava e sofria, três de seus amigos vieram consolá-lo. O Livro de Jó foi composto como um registro das discussões dos quatro homens sobre a vida e a morte, e os mistérios do Céu e da Terra.

Queixando-se do transtorno que ocorrera em sua vida, Jó sonhava com os "meses de antanho", quando era honrado e respeitado: "Nos portões da capital, na praça, um assento a mim ficava reservado". Naquele tempo, recordou-se, acreditava que "como a Fênix serão meus dias, com meu Edificador morrerei". Mas agora, sem nada de seu e afligido por enfermidades, sentia vontade de morrer ali mesmo.

O amigo que viera do sul lembrou-lhe de que: "O homem nasce para o trabalho forçado; só o filho de Reshef pode para as alturas voar". Seria como se dissesse: ora, sendo o homem mortal, por que tanta agitação?

Mas Jó respondeu enigmaticamente que a questão não era tão simples assim. "A Essência do Senhor está dentro de mim; seu esplendor alimenta meu espírito." Estaria ele revelando, no verso até hoje incompreendido, que tinha sangue divino? Que, como Gilgamesh, esperava viver tanto como a Fênix, que sempre renascia, e morrer somente quando falecesse seu "Edificador"? Mas agora Jó se dava conta de que: "Eternamente não mais viverei; meus dias são como vapor".

A história de Keret primeiro o descreve como um homem próspero que em pouco tempo perde a mulher e filhos devido a doenças e guerra. "Ele vê seus descendentes arruinados... uma posteridade perecendo em seu todo", e percebe que é o fim de sua dinastia - "seu trono está completamente solapado." O sofrimento e as lamentações crescem a cada dia: "sua cama está ensopada de lágrimas". Diariamente Keret "entra na câmara interior" do templo e chora suplicando a ajuda dos deuses. El acaba "descendo até ele" para descobrir" o que aflige Keret para fazê-lo chorar". É aí que os textos revelam que Keret, por ser filho de El com uma humana, é parte divino.

El aconselha seu "amado rapaz" a parar de se lamentar e a casar-se de novo, pois assim seria abençoado com um novo herdeiro. Manda-o lavar-se e arrumar-se para ir pedir a mão da filha do rei de Udum (possivelmente a bíblica Edom). Keret, acompanhado de suas tropas e carregado de presentes, parte obedecendo às ordens de El. No entanto, o rei de Udum recusa a prata e o ouro. Sabendo que Keret "é carne do Pai dos Homens", isto é, de origem divina, pede um dote singular: que o primogênito de sua filha com Keret também seja semi-divino!

A decisão, claro, não cabe a Keret. El, que o aconselhara a procurar um novo casamento, não está disponível. Assim, o rei dirige seus passos para o santuário de Asherah pretendendo obter o auxílio da deusa. A cena seguinte tem lugar na morada de El, onde a súplica transmitida é apoiada por vários deuses mais jovens:

Então vieram as companhias de deuses,

E o presente Baal falou:

E agora, ó Bondoso, El benigno;

Não abençoarás Keret, o de sangue puro,

Nem agradarás o amado rapaz de El?

Assim incentivado, EI consente em "abençoar Keret" e promete­-lhe que ele terá filhos e várias filhas. O primogênito, anuncia, deverá receber o nome de Yassib ("Permanente"), pois de fato lhe será concedida a permanência. Isso acontecerá porque, quando o menino nascer, não será amamentado pela mãe, mas pelas deusas Asherah e Anat. (O tema do filho de um rei sendo amamentado por uma deusa, dessa forma ganhando a vida eterna, era encontrado nas artes de quase todos os povos do antigo Oriente Médio).

Os deuses mantêm sua promessa, mas Keret, crescendo em poder e riqueza, esquece seus votos. Tal como aconteceu com o rei de Tiro nas profecias de Ezequiel, seu coração tornou-se altivo e ele começou a se vangloriar de suas origens divinas com os filhos. Irritada, Asherah faz cair sobre ele uma doença fatal. Quando ficou evidente que Keret estava à beira da morte, seus filhos, espantados, perguntaram como isso podia estar acontecendo com ele, "um filho de El, rebento do Bondoso, um ser sagrado". Mal podendo acreditar no que viam, interrogam o pai - pois, com toda a certeza, o fracasso de sua imortalidade os afetará também:

Em tua vida, pai, nos regozijávamos

Exaltávamos teu não morrer...

Morrerás então, pai, como os mortais?

O silêncio de Keret fala por si e agora os filhos voltam-se para os deuses:

Como pode ser dito,

Um filho de El é Keret, rebento do Bondoso e um ser sagrado?

Então um deus morrerá?

Um rebento do Bondoso não viverá?

Embaraçado, El dirige-se aos outros deuses: "Quem entre vós é capaz de remover a doença, expulsar os males?" Por sete vezes El repete seu apelo, mas "nenhum dos deuses responde". Desesperado, El apela para o Artífice dos Deuses e seus assistentes, e às deusas dos ofícios que conhecem todas as mágicas. Respondendo, "a mulher que remove doenças", a deusa Shagarat, decola: "Ela sobrevoa cem cidades, sobrevoa uma miríade de povoados..." Chegando à casa de Keret no momento exato, consegue revivê-lo.

(A história, contudo, não tem um final feliz. Como a afirmação de Keret de que era imortal provou ser inútil, seu primogênito o persuadiu a abdicar em seu favor...)

Os vários relatos épicos sobre os próprios deuses são de importância primordial para a compreensão dos eventos da Antiguidade. Neles, a capacidade de voar dos deuses. é aceita como um fato corriqueiro e seu "céu", a "Crista de Zafon", é apresentado como um local de repouso dos aeronautas. As figuras centrais dessas histórias são Baal e Anat, os irmãos-amantes. O epíteto freqüente de Baal é "O Cavaleiro das Nuvens", que o Velho Testamento acabou reivindicando para a deidade hebréia. A capacidade de voar de Anat, que aparecia ocasionalmente nos contos sobre as relações entre deuses e homens, é ainda mais enfatizada nas lendas só sobre os deuses.

Num desses textos, Anat é informada de que Baal foi pescar "na campina de Samakh". A região conserva esse nome até os dias de hoje: trata-se da área do lago de Sumkhi ("lago dos Peixes"), que fica ao norte de Israel, onde o rio Jordão começa a desaguar no mar da Galiléia, e continua afamada pelos seus peixes e vida selvagem. Anat decidiu ir juntar-se a Baal:

Ela alça vôo, a Donzela Anat,

Alça vôo e passeia voando

Até o centro da campina de Samath,

Onde abundam búfalos.

Avistando a deusa, Baal fez-lhe um sinal para que descesse, mas Anat começou a brincar de esconde-esconde. Irritado, Baal perguntou se Anat estava esperando que ele fosse "ungir os chifres dela" - uma expressão relacionada com o ato sexual - "enquanto voava" - Incapaz de encontrá-la, Baal decolou "e subiu para os céus", indo para a sede de seu trono na "Crista de Zafon". Anat, a brincalhona, logo dirigiu-se para lá com a intenção de "sobre Zafon em prazer (estar)".

O encontro idílico, contudo, só pôde ser consumado anos depois, quando a posição de Baal como Príncipe da Terra e governante reconhecido das terras do norte já estava firmemente estabelecida. Antes disso, o deus envolveu-se em lutas de vida ou morte com os outros pretendentes ao trono dividido. O prêmio de todas essas disputas era um lugar conhecido como Zarerath Zafon, em geral traduzido como "monte santo" ou "Picos de Zafon", mas significando exatamente "A Crista Rochosa no Norte".

Essas sangrentas lutas pelo domínio sobre certas fortalezas ou territórios decorriam do posicionamento dos pretendentes na linha de sucessão quando o chefe do panteão envelhecia ou entrava numa semi-aposentadoria. Conforme as tradições de casamento que primeiro foram registradas nos escritos sumérios, a consorte oficial de El, Asherah ("a filha do governante"), era sua meia-irmã, o que fazia do primogênito desta o herdeiro legítimo. Mas, como acontecera antes, a posição desse filho era freqüentemente contestada pelos seus meios-irmãos mais velhos, mas nascidos de outras mulheres. (O fato de Baal, que tinha pelo menos três esposas, não poder se casar com sua amada Anat confirma que ela era sua irmã por parte de pai e mãe, e não apenas meia-irmã.)

Os contos cananeus começam na remota e montanhosa morada de El, onde ele secretamente concede a sucessão ao seu filho Yam. A deusa Shepesh, a "Tocha dos Deuses", vai voando até onde está Baal para lhe dar as más notícias: "El está virando o sistema monárquico pelo avesso!", grita, alarmada.

Baal é aconselhado a apresentar-se diante de El e a levar a disputa para ser julgada pela Assembléia ou Conselho dos Deuses. As irmãs sugerem que ele deve ser desafiador:

Agora vamos, parta, para a Assembléia no centro do monte Lala.

Aos pés de El não caia, não te prostres diante da Assembléia.

Em pé, altivo, faça teu discurso.

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