domingo, agosto 12, 2012

Coleção Zecharia Sitchin Livro 2 / A Escada para o Céu 2º PARTE

Ao ficar sabendo da trama, Yam envia seus próprios emissários para a reunião dos deuses com o intuito de exigir que o rebelde Baal seja entregue em suas mãos. "Os deuses estavam sentados para comer, os Santos iam jantar; Baal servia El" quando entram os emissários. No silêncio que se segue, os dois apresentam a exigência de Yam. Para indicar que não estão para brincadeiras, "aos pés de El não caem" e mantêm as mãos nas armas, "olhos como uma espada afiada, cintilando com um fogo que a tudo consome". Os deuses atiram-se ao chão para se proteger. El mostra-se disposto a entregar Baal, mas este pega suas armas e está para saltar sobre os emissários quando sua mãe o contém. Um emissário possui imunidades, lembra ela.

Os emissários acabam voltando de mãos vazias para Yam e fica claro que não existe outro meio de decidir a disputa senão os dois deuses confrontarem-se num campo de batalha. Uma deusa - talvez Anat - conspira com o Artífice dos Deuses para ele fornecer a Baal suas armas divinas, o "perseguidor" e o "atirador", que "mergulha sobre a presa como uma águia". No combate, Baal vence Yam e está para "esmagá-lo" quando ouve a voz da mãe dizendo-lhe: "Poupe Yam!" O vencido escapa da morte, mas é banido para seus domínios marítimos.

Como compensação por ter poupado Yam, Baal pede a Asherah que apóie sua reivindicação de obter a supremacia sobre a Crista de Zafon. A deusa está repousando numa cidade à beira-mar e é com grande relutância que concorda em viajar até a morada de El localizada numa região quente e seca. Chegando "sedenta e ressequida", Asherah coloca o problema diante do marido e pede-lhe para decidir com sabedoria e não emoção. "Tu és mesmo grande e sábio", bajula, "o grisalho de tua barba te instrui... Sabedoria e Vida Perene são tua parte." Pesando a situação, El concorda: que Baal seja o dono da Crista de Zafon; que lá ele construa sua casa.

No entanto, o que Baal tem em mente não é uma residência qualquer. Seus planos exigem os serviços de Kothar-Hasis ("O Habilidoso e Conhecedor"), o Artífice dos Deuses. Não apenas os eruditos modernos, mas até Filos de Biblos, no século 1 a.C. (citando historiadores fenícios anteriores), compara Kothar-Hasis ao divino artesão grego Hefesto, que construiu a residência dos deuses Zeus e Hera. Outros encontram paralelos entre ele e Thot, o deus egípcio das artes, ofícios e magia. De fato, os escritos encontrados em Ugarit afirmam que os emissários de Baal enviados para buscar Kothar­-Hasis foram avisados para procurar por ele na ilha de Creta e no Egito. Tudo indica que, na época, era nesses locais que o Artífice dos Deuses estava empregando suas habilidades.

Quando Kothar-Hasis chegou ao lugar onde Baal o esperava, os dois começaram a estudar os projetos da construção. Baal desejava uma estrutura em duas partes, sendo uma E-Khal ("grande casa") e a outra Behmtam, termo geralmente traduzido por "casa", mas que literalmente significa "uma plataforma elevada". Houve alguma discordância entre os deuses sobre o local onde deveria ficar uma certa janela em forma de funil que se abria e fechava de maneira incomum. "Tu deves prestar atenção às minhas palavras, Ó Baal", insistiu Kothar-Hasis. Terminada a construção da estrutura, Baal mostrou-se preocupado com a segurança de suas mulheres e filhos. Para tranqüilizá-lo, Kothar-Hasis mandou que árvores do Líbano, "de Sirion seus preciosos cedros", fossem empilhadas dentro da estrutura e ateou fogo nelas. Durante uma semana inteira a fogueira ardeu intensamente; ouro e prata colocados nela derreteram, mas a estrutura em si não foi destruída nem abalada.

O silo subterrâneo e a plataforma estavam prontos! Sem perder tempo, Baal resolveu testar a instalação:

Baal abriu o Funil na Plataforma Elevada,

A janela dentro da Grande Casa.

Nas nuvens, Baal abriu fendas.

Seu clamor sagrado Baal emite...

Seu clamor sagrado sacode a Terra.

As montanhas estremecem...

Tremendo estão...

No leste e no oeste, os montes da terra balançam...

Quando Baal começou a subir para o espaço, os divinos mensageiros Gapan e Ugar juntaram-se a ele no vôo: "Os alados, os dois, congregam-se nas nuvens" atrás de Baal; "como pássaros", a dupla sobrevoou os picos nevados de Zafon. Com o término da construção das novas estruturas, a Crista de Zafon passou a ser chamada de "Fortaleza de Zafon", e o monte Líbano ("O Branco", em virtude de seus picos nevados) adquiriu o epíteto Sirion - a Montanha "Armada".

Por ter conseguido o domínio da fortaleza de Zafon, Baal também ganhou o nome de Baal Zafon. Como título, ele significa apenas "Senhor de Zafon", mas a conotação original do termo Zafon não era geográfica, pois significava tanto "o escondido", como "o local de observação". Sem dúvida, essas conotações tiveram um peso importante na nomeação de Baal como "Senhor de Zafon".

Uma vez obtidos esses poderes e prerrogativas, as ambições de Baal cresceram muito em escala. Convidando os "filhos dos deuses" para um banquete, ele exigiu demonstrações de fidelidade e vassalagem. O castigo não demorou para os que se recusaram a atendê-lo: "Baal agarra os filhos de Asherah; Rabbim ele golpeia nas costas, Dokyamm atinge com uma clava". Alguns foram mortos, outros escaparam. Embriagado pelo poder, Baal zombou deles:

Os inimigos de Baal fogem para as matas;

Seus inimigos escondem-se nas faldas da montanha.

O possante Baal grita:

Ó inimigos de Baal, por que tremem?

Por que tremem, por que se escondem?

O Olho de Baal se fende;

Sua mão estendida o cedro racha;

Sua mão direita é poderosa.

Decidido a conseguir o domínio completo, Baal - com a ajuda de Anat - venceu e aniquilou adversários masculinos como “Lothan, a serpente", "Shahat, o dragão de sete cabeças", "Atak, o bezerro" e a deusa Hashat, "a cadela". Sabemos, através do Velho Testamento, que Iahweh, o Deus bíblico, também era um feroz adversário de Baal. Quando a influência deste cresceu muito entre os israelitas em virtude do casamento de seu rei com uma princesa cananéia, o profeta Elias organizou um competição entre Baal e Iahweh no alto do monte Carmelo. Quando Iahweh prevaleceu, os trezentos sacerdotes de Baal foram imediatamente executados. Era por causa desse acontecimento que o Velho Testamento conferia a Iahweh o domínio sobre a Crista de Zafon. Significativamente, as reivindicações foram feitas em linguagem quase idêntica à usada nas histórias sobre Baal, como deixam claro o Salmo 29 e outros versos:

Tributai a Iahweh, ó filhos dos deuses,

Tributai a Iahweh glória e poder.

Tributai a Iahweh a glória de seu Shem;

Adorai a Iahweh em seu esplendor de santidade.

O clamor de Iahweh sobre as águas;

O Deus glorioso troveja,

Ecoa sobre as águas torrenciais.

Seu clamor é poderoso, majestático.

O clamor de Iahweh despedaça os cedros,

Despedaça Iahweh os cedros do Líbano;

Ele faz o Líbano pular qual bezerro

E o Sirion como cria de búfalo.

O clamor de Iahweh lança chispas de fogo...

E em seu templo tudo grita: glória!

Tal como Baal nos textos cananeus, a deidade hebréia também era um "Cavaleiro das Nuvens". O profeta Isaías teve uma visão dele voando na direção sul, para o Egito, "cavalgando agilmente uma nuvem, ele descerá sobre o Egito; os deuses do Egito estremecerão diante dele". Isaías também afirmava ter visto pessoalmente o Senhor e seus atendentes alados:

No ano em que faleceu o rei Ozias, vi o Senhor sentado em um trono alto e elevado. Seus carregadores enchiam o santuário. Os atendentes do fogo pairavam sobre ele, seis asas, seis asas para cada um deles... As vigas dos pórticos estremeceram com o clamor e o templo encheu-se de fumaça.

Os hebreus eram proibidos de adorar, e, portanto, de fazer estátuas ou imagens gravadas. Os cananeus, contudo, que devem ter conhecido Iahweh como os hebreus conheciam Baal, deixaram-nos uma sua imagem como concebida por eles. Uma moeda do século 4 a.C, com a inscrição Yahu ("Iahweh"), mostra uma deidade sentada em um trono com forma de uma roda alada.

Assim, era universalmente aceito no Oriente Médio que o deus que conseguia o domínio sobre Zafon ficava com a supremacia sobre os deuses que podiam voar.

Isso, sem dúvida, era o que Baal esperava. Todavia, sete anos depois do término da construção da fortaleza de Zafon, ele foi desafiado por Mot, o senhor das terras ao sul e do Mundo Inferior. Agora a disputa já não era mais sobre quem seria o dono de Zafon, mas sobre "quem terá o domínio sobre toda a Terra".

Chegaram a Mot informações de que Baal estava envolvido em atividades suspeitas. Ilegal e clandestinamente, ele estava "pondo um lábio na Terra e um no Céu", tentando "esticar sua voz até os planetas". De início, Mot exigiu o direito de inspecionar o que estava acontecendo dentro da Crista de Zafon. Em resposta, Baal enviou-lhe emissários com mensagens de paz. "Quem precisa de guerra?", perguntou, "derramemos paz e amizade no centro da terra". Como Mot continuou insistindo, Baal concluiu que o único modo de impedi-lo de ir a Zafon seria procurá-lo em sua própria casa. Assim, viajou para a "cova" de Mot nas "profundezas da Terra", jurando obediência.

No entanto, o que Baal tinha em mente era algo muito mais sinistro - a derrubada de Mot. Mas, para isso, precisava do auxílio da sempre fiel Anat. Por isso, enquanto ele ia ter com Mot, seus emissários procuraram Anat. Os dois emissários receberam instruções de repetirem palavra por palavra uma enigmática mensagem para a deusa:

Tenho uma palavra secreta para te dizer,

Uma mensagem para te cochichar:

É um aparelho que lança palavras,

Uma Pedra que sussurra.

Suas mensagens os homens não entenderão;

As multidões da Terra não compreenderão.

Devemos ter em mente que em todas as línguas da Antiguidade, o termo "pedra" abrangia todas as substâncias mineradas ou garimpadas, incluindo assim todos os minerais e metais. Portanto, Anat logo compreendeu o que Baal mandara lhe dizer: ele estava montando na Crista de Zafon um sofisticado aparelho que podia enviar ou interceptar mensagens secretas!

Na continuação da mensagem levada pelos emissários, há uma melhor descrição da Pedra do Esplendor.

O Céu com a Terra ela faz conversar, os mares com os planetas.

É uma Pedra do Esplendor;

Para o Céu ainda é desconhecida.

Que tu e eu a erijamos dentro de minha caverna, no altíssimo Zafon.

Este então era o segredo: Baal, sem o conhecimento do "Céu" - o governo do planeta mãe -, estava montando um centro de comunicações clandestino, com o qual poderia falar com todas as partes da Terra e também com as naves no espaço. Esse seria o primeiro passo para ele "ter o domínio sobre toda a Terra". Mas, com isso, Baal entrava em confronto direto com Mot, pois era nos territórios dominados por este que se localizava o "Olho da Terra" oficial.

Tendo recebido e compreendido a mensagem, Anat apressou­-se a partir em auxílio de Baal. Os emissários preocupados receberam sua palavra de que ela chegaria lá a tempo. "Vós sois vagarosos, eu sou ligeira", garantiu, e acrescentou:

No distante lugar do deus penetrarei,

A distante cova dos filhos dos deuses.

Duas aberturas ela tem sob o Olho da terra

E três largos túneis.

Chegando à capital de Mot, Anat não conseguiu encontrar Baal. Exigindo saber sobre seu paradeiro, ameaçou Mot com violência. Finalmente foi informada da verdade: os dois deuses tinham se engalfinhado em combate e "Baal tombara". Furiosa, Anat "com uma espada fendeu Mot". Então, com a ajuda da deusa Shepesh, soberana dos Refaim (os "Curadores"), transportou o corpo sem vida de Baal para o pico de Zafon, colocando-o numa caverna.

Rapidamente as duas deusas convocaram o Artífice dos Deuses, também chamado de El Kessem, "O Deus da Mágica". Tal como Hórus foi revivido por Thot depois de ter sido picado por uma serpente, Baal também ressuscitou milagrosamente. No entanto, não fica bem explicado se ele voltou à vida física na Terra ou ganhou, como Osíris, uma Outra Vida Celestial.

É impossível determinar quando os deuses envolveram-se nesses eventos na Crista de Zafon, mas não restam dúvidas de que a Humanidade tinha conhecimento da existência e atributos singulares do Local de Aterrissagem já nos primórdios da História documentada.

Para começar temos o relato sobre a viagem de Gilgamesh à Montanha dos Cedros, que a epopéia também chama de "Morada dos Deuses, a Encruzilhada de Ishtar". Lá, "penetrando na floresta", ele encontrou um túnel que levava "ao recinto onde são emitidas as palavras de comando". Aprofundando-se na montanha, "a morada secreta dos Anunnaki ele abriu". Foi como se Gilgamesh tivesse invadido as mesmas instalações que Baal construíra em segredo! Versos antes misteriosos da epopéia agora assumem um significado empolgante:

Coisas secretas ele viu,

O que está escondido do homem ele conheceu...

Isso, sabemos, aconteceu no terceiro milênio a.C. - por volta de 2.900 a.C.

Outro elo importante entre as lendas dos deuses e homens é a história do idoso Danel, que não tinha descendentes masculinos e morava em algum lugar perto de Cades. Não é possível determinar a época em que ocorreram esses eventos, mas as similaridades com a história de Abraão - inclusive a aparição de "homens", que depois vem-se a saber que eram o Senhor e seus emissários - sugerem a possibilidade de que estamos lendo duas versões da mesma memória ancestral. Se for esse mesmo o caso, possuímos uma outra data: o início do segundo milênio a.C.

Zafon, a fortaleza dos Deuses, continuava lá, no primeiro milênio a.C. O profeta Isaías (século VIII a.C.) castigou Senaqueribe, o invasor assírio da Judéia, por ele ter insultado o Senhor subindo com seus muitos carros de guerra "às alturas da montanha, à Crista de Zafon". Enfatizando a antiguidade do local, Isaías transmitiu a Senaqueribe a admoestação do Senhor:

Não ouviste?

Já de há muito eu a construí,

Nos tempos antigos eu a criei.

Isaías também castigou o rei da Babilônia por ele ter tentado se divinizar escalando a Crista de Zafon:

Como caíste do céu, ó estrela d'alva, filho da aurora!

Como foste atirado à terra, vencedor das nações!

E, no entanto, dizias em teu coração:

Hei de subir até o céu,

Acima das estrelas de Deus colocarei o meu trono,

Estabelecer-me-ei na Montanha da Assembléia,

Na Crista de Zafon, na Plataforma Elevada,

Um Altíssimo serei.

E, contudo, serás precipitado ao Mundo Inferior,

Nas profundezas do abismo.

Temos aqui não somente a confirmação da existência do local e sua antiguidade, mas também a afirmação de que ele incluía uma "Plataforma Elevada", da qual podia-se subir ao espaço e tornar-se um Altíssimo - um deus.

A ascensão aos céus, sabemos por outros textos bíblicos, era feita por meio de "pedras" (aparelhos mecânicos), que podiam viajar. No século VI a.C., o profeta Ezequiel castigou o rei de Tiro porque seu coração tornou-se orgulhoso depois de ele ter recebido permissão de subir à Crista de Zafon e entrar nas "pedras moventes", experiência após a qual anunciou: "Um deus eu sou".

Uma antiga moeda encontrada em Biblos (a bíblica Gebal), uma das cidades cananéias "fenícias na costa do Mediterrâneo, pode bem ser uma ilustração das estruturas erigidas em Zafon por Kothar-Hasis. Ela mostra uma "grande casa", tendo ao lado uma área elevada, cercada por uma muralha alta e larga. Lá, sobre um pódio sustentado por vigas cruzadas, construídas para suportar um grande peso, está montado um objeto cônico - muito conhecido de tantas outras ilustrações do Oriente Médio da Antiguidade - a "Câmara Celestial" dos deuses, uma "pedra movente".

Esses são os indícios que chegaram até nós atravessando milênios após milênios. Ao longo de toda a Antiguidade os povos do Oriente Médio tinham conhecimento de que dentro da Montanha dos Cedros havia uma enorme plataforma para "pedras moventes", tendo ao lado uma "grande casa", no interior da qual ficava escondida "uma pedra que sussurra".

Agora, se estou correto em minha interpretação dos textos e desenhos da Antiguidade - como foi que esse grandioso e conhecido lugar desapareceu?

9

O LOCAL DE ATERRISSAGEM

As ruínas do maior templo romano de que se tem notícia não estão em Roma, mas nas montanhas do Líbano. Elas incluem um grandioso templo de Júpiter, o mais imponente da Antiguidade dedicado a um único deus. Ao longo de quatro séculos de dominação romana, muitos governantes esforçaram-se para glorificar esse remoto e antigo local, e nele erigiram estruturas monumentais. Generais e imperadores o procuraram em busca de oráculos, tentando descobrir o que lhes reservava o futuro. Os legionários faziam o possível para ficarem acampados em suas imediações. Os devotos e curiosos iam até lá para vê-lo com seus próprios olhos, pois o templo era uma das maravilhas do mundo antigo.

O primeiro europeu a trazer notícias sobre a existência dessas ruínas foi Martin Baumgarten, que chegou a elas em janeiro de 1508, e, daí em diante, ousados viajantes, arriscando até a vida, foram passando mais informações a respeito do local. Em 1751, Robert Wood, um desses aventureiros, e o artista James Dawkins, que o acompanhou na viagem, restauraram parte da antiga fama do lugar quando o descreveram em palavras e esboços. "Quando comparamos as ruínas... com as de muitas cidades que visitamos na Grécia, Egito e outras partes da Ásia, não podemos evitar considerá-las como os restos do mais ousado projeto que já foi tentado na arquitetura." De fato, em certos aspectos, ele era ainda mais ousado do que as grandes pirâmides do Egito. O local ao qual Robert Wood tinha chegado era um panorama onde o topo da montanha, os templos e o céu se combinavam num cenário único.

O local fica nas montanhas do Líbano, onde elas se separam pata formar um vale fértil e plano entre a cadeia do "Líbano" a oeste e a cadeia do "Anti-Líbano" a leste, ponto onde dois rios, conhecidos desde a Antiguidade, o Litani e o Orontes, começam a correr para o Mediterrâneo. Os imponentes templos romanos foram construídos sobre uma vasta plataforma horizontal, artificialmente criada a uma altitude de 1200 metros acima do nível do mar. O recinto sagrado era cercado por uma muralha que servia tanto de muro de arrimo para conter a terra amontoada como para proteger e encobrir o complexo de edificações. A área fechada, num formato mais ou menos quadrado, com lados de cerca de 800 metros, media mais de 465 mil metros quadrados.

Situado de modo a dominar as montanhas a sua volta e os acessos ao vale tanto no norte como no sul, a área sagrada tinha o canto noroeste deliberadamente cortado num ângulo reto, como se nota na vista aérea contemporânea.

Essa parte eliminada criava uma área oblonga, que ampliava a visão de quem estava na área norte, olhando na direção oeste. Era nesse canto especialmente concebido que ficava o mais grandioso templo já construído em honra de Júpiter, com algumas das mais altas (20 metros) e maiores (2,30 metros de diâmetro) colunas da Antiguidade. Essas colunas suportavam uma estrutura elaboradamente decorada (a "arquitrave") com 5 metros de altura, sobre a qual ficava um telhado inclinado, aumentando ainda mais o pináculo de edificação.

O templo em si ocupava apenas a seção mais ocidental (e mais antiga) do santuário constituído de quatro partes, cuja construção, acredita-se, foi iniciada pelos romanos assim que ocuparam a região em 63 a.C.

Arranjados ao longo de um eixo leste-oeste ligeiramente inclinado, ficavam, primeiro, urna entrada monumental (A), compreendendo urna grandiosa escadaria e um pórtico elevado, suportado por doze colunas, com nichos para abrigar as estátuas dos doze deuses do Olimpo. Depois de passarem pela entrada, os devotos entravam num pátio (B) em forma hexagonal, caso único na arquitetura romana. Por ele atingia-se um segundo pátio (C), dominado por um altar de proporções monumentais, com cerca de 18 metros de altura, partindo de urna base quadrada, com 23 metros de lado. A oeste desse pátio ficava a casa do deus propriamente dita (D). De medidas colossais, 91,50 por 53,40 metros, ela se apoiava num pódio, que, por sua vez, elevava-se 5 metros acima do segundo pátio, ficando, portanto, 13 metros acima do nível da plataforma básica. Era devido a essa soma de alturas que as imensas colunas, arquitrave e telhado formavam em seu conjunto um verdadeiro arranha-céu da Antiguidade.

Desde a escadaria monumental na entrada até a última parede na parte oeste do aterro, o santuário tinha mais de 300 metros de comprimento e com esse fabuloso tamanho parecia tornar pequeno um grande templo no seu lado sul (E), dedicado a uma deidade masculina, que alguns afirmam ter sido Baco, mas que, mais provavelmente, seria Mercúrio. Mais a sudeste, havia um pequeno templo redondo (F), onde Vênus era venerada. Urna expedição arqueológica alemã, que explorou a área e estudou sua história por ordem do Kaiser Guilherme II logo depois de ele ter feito uma visita às ruínas em 1897, conseguiu reconstituir a disposição do recinto sagrado, dando-nos uma visão artística de corno pareceria o complexo de templos, escadarias, pórticos, portões, colunas, pátios e altares no tempo dos romanos.

Urna comparação com a famosa Acrópole de Atenas nos dá uma boa idéia da escala de tamanho dessa plataforma libanesa e seus templos. O conjunto grego está situado num terraço em forma de navio com menos de 300 metros de comprimento e cerca de 122 metros no seu ponto mais largo. O impressionante Partenon, o templo de Atena, que ainda domina a área antes sagrada e toda a planície de Atenas, tem cerca de 70 por 30 metros, o que o torna menor ainda do que o templo de Baco/Mercúrio do Líbano.

Tendo visitado as ruínas libanesas, o arqueólogo e arquiteto sir Mortimer Wheeler escreveu, há cerca de vinte anos: "Os templos... não devem nada de sua qualidade a materiais mais modernos como o concreto. Eles apóiam-se passivamente sobre as maiores pedras já vistas no mundo e algumas de suas colunas são as mais altas da Antiguidade... Temos aqui o último grande monumento... do mundo helênico".

Sim, Wheeler só poderia atribuir tanta magnificência ao mundo helênico, pois não existe motivo para qualquer arqueólogo ou historiador acreditar que os romanos construiriam uma obra tão colossal numa região remota de uma província pouco importante. Os romanos só "adaptaram" um lugar sacramentado pelos gregos que os precederam. Os deuses romanos aos quais os templos eram dedicados - Júpiter, Vênus e Mercúrio - eram os deuses gregos Zeus, sua irmã Afrodite e seu filho Hermes (ou Dioniso, no caso de o templo menor ter sido dedicado a Baco).

Os romanos consideravam o local e seu grande templo como o máximo de comprovação da supremacia e poder de Júpiter. Chamando-o de Iove (eco do hebraico Yehovah?), gravaram no templo e em sua principal estátua as iniciais divinas IOMH - de Iove Optimus Maximus Heliopolitanus: O Ótimo e Máximo Júpiter, o Heliopolitano.

Esse título de Júpiter se originava do fato de que, embora o grande templo ser dedicado ao Deus Supremo, o lugar em si era considerado como local de repouso de Hélio, o deus do Sol, que costumava atravessar o firmamento em seu carro flamejante. Essa crença foi transmitida aos romanos pelo gregos, dos quais também adotaram o nome do lugar: Heliópolis. Não se sabe por que os gregos deram esse nome ao local; alguns historiadores sugerem que foi por escolha de Alexandre, o Grande.

No entanto, a veneração do local devia ser ainda mais antiga e fundamentada, pois incentivou os romanos a glorificá-lo com o maior dos seus monumentos e lá procurarem oráculos para saber sobre seu destino. Como, senão assim, explicar o fato de que, "em termos de simples medidas, peso de pedras, dimensão dos blocos e quantidade de entalhes, esse recinto não tinha rivais no mundo greco-romano" (John M. Cook em The Greeks in Ionia and the East).

Na verdade, o lugar e sua associação com certos deuses remetem a tempos muito anteriores. Os arqueólogos acreditam que pelo menos seis outros templos foram construídos sobre a plataforma antes da época dos romanos. E não resta dúvida de que quaisquer que tenham sido os santuários que os gregos erigiram no local, eles - como os romanos que os seguiram - apenas erigiram edificações sobre fundações já existentes, tanto em termos físicos como religiosos. Zeus (Júpiter para os romanos), devemos lembrar, chegou a Creta vindo da Fenícia (o atual Líbano), atravessando o Mediterrâneo a nado depois de ter raptado a bela filha do rei do Tiro. Afrodite também chegou à Grécia vinda da Ásia ocidental. E o inquieto Dioniso, ao qual o segundo templo (ou um outro na região) era dedicado, vindo das mesmas terras da Ásia ocidental, levou para a Grécia a uva e os segredos da fabricação de vinho.

Ciente das raízes muito antigas da veneração do local, o gramático e astrônomo romano Macróbio (Ambrosius Macrobius Theodosius) esclareceu seus compatriotas com as seguintes palavras (Saturnalia I, Capítulo 23):

Os assírios também adoram o Sol sob o nome de Júpiter. Chamam-no de Zeus Helioupolites e conduzem importantes ritos na cidade de Heliópolis...

O fato dessa divindade ser ao mesmo tempo Júpiter e o Sol manifesta-se tanto na natureza de seu ritual como na sua aparência externa...

Para evitar que alguém, tentando argumentar, comece a citar uma lista de divindades, explicarei o que os assírios acreditam sobre o poder do seu deus do Sol. Eles deram o nome de Adad ao deus que veneram como o maior e mais alto...

O poder que o local exerceu sobre as crenças e a imaginação das pessoas ao longo de milênios também se manifestou na história do recinto sagrado depois da veneração romana. Quando Macróbio escreveu o texto acima, por volta do século V, Roma já era cristã e o local fora alvo de uma destruição fanática. Assim que Constantino, o Grande (306-337 d.C.) converteu-se ao cristianismo, mandou parar todas as obras adicionais no santuário e começou a transformá-lo num templo cristão. Em 440, de acordo com um cronista: "Teodósio destruiu os templos dos gregos; transformou numa Igreja Católica o templo de Heliópolis, aquele de Baal­-Helios, o grande Sol-Baal do famoso Trilithon". O imperador Justiniano (527-565) aparentemente levou alguns dos pilares de granito vermelho para Constantinopla, a capital bizantina, para lá construir a Igreja de Santa Sofia. Esses esforços para cristianizar o lugar sagrado encontraram repetidamente uma oposição armada por parte da população local.

Quando os muçulmanos conquistaram a área em 637, converteram os templos romanos e igrejas cristãs erigidos sobre a imensa plataforma num enclave maometano. Onde antes Zeus e Júpiter tinham sido adorados, construiu-se uma mesquita para Alá.

Os estudiosos modernos tentaram lançar mais luz sobre essa milenar adoração do lugar analisando os indícios arqueológicos em suas imediações. O principal desses sítios arqueológicos é Palmira (a bíblica Tadmor), antigo centro de reunião de caravanas na rota entre Damasco e a Mesopotâmia. Como resultado desses estudos, eruditos como Henry Seyrig (La Triade Héliopolitaine) e René Dussaud (Temples et Cultes Héliopolitaines) concluíram que naquela região uma Tríade básica fora adorada ao longo dos milênios, sendo seu membro principal um Deus do Raio e os dois outros, uma Donzela Guerreira e um Condutor do Carro Celestial.

Esses e outros eruditos ajudaram a estabelecer a conclusão agora geralmente aceita de que a tríade greco-romana originou-se de crenças semitas anteriores que, por sua vez, baseavam-se no panteão sumério. A mais antiga tríade de que se tem registro era, tudo indica, chefiada por Adad, que recebeu de Enlil - o principal deus da Suméria - "as montanhas do norte". O membro feminino da trindade era Ishtar. Depois de visitar a área sagrada, Alexandre mandou cunhar uma moeda em honra de Ishtu/Astarte e Adad, onde seu nome (Alexandre) aparece escrito em fenício-hebraico. O terceiro membro da tríade era o Condutor do Carro Celestial, Shamash, o "comandante dos astronautas pré-históricos". Os gregos o honraram sob o nome de Hélio, erigindo uma colossal estátua no alto do templo principal do recinto sagrado, que o mostra conduzindo uma quadriga. Para eles, sua rapidez era demonstrada pelos quatro cavalos que puxavam o carro. Já os autores do Livro de Henoc sabiam melhor das coisas, pois diziam: "O carro de Shamash era impulsionado pelo vento".

Examinando as tradições e crenças gregas e romanas, acabamos voltando à Suméria. Seguindo os passos de Gilgamesh em sua busca da imortalidade, retornamos à Floresta de Cedros, onde ficava a "Encruzilhada de Ishtar". Lembremo-nos de que, embora estivesse em território de Adad, Gilgamesh foi informado de que o lugar também ficava sob a jurisdição de Shamash. Assim temos a tríade original: Adad, Ishtar e Shamash.

Será que descobrimos o Local de Aterrissagem?

Praticamente nenhum estudioso moderno nega que os gregos conheciam as aventuras épicas de Gilgamesh. Em sua "investigação sobre as origens do conhecimento humano e sua transmissão através dos mitos", intitulada Hamlet's Mill, Giorgio de Santillana e Hercha von Deschend salientaram que "Alexandre foi uma verdadeira réplica de Gilgamesh". Porém, antes mesmo do rei da Macedônia, segundo os contos históricos de Homero, Odisseu (Ulisses) já seguira passos similares. Tendo naufragado depois de viajarem até a morada de Hades no Mundo Inferior, ele e seus homens chegaram a um lugar "onde comeram o gado do deus do Sol", e por isso Zeus matou todos os marinheiros. Sozinho, Odisseu vagou pelo mundo até chegar à ilha Ogígia - um lugar remoto, dos tempos antediluvianos. Lá, a deusa Calipso, "que o manteve numa caverna e o alimentava, quis que ele se casasse com ela; se Odisseu aceitasse, Calipso o tornaria imortal para que nunca envelhecesse". No entanto, Odisseu rejeitou essas investidas amorosas, tal como Gilgamesh um dia recusara o amor de Ishtar.

Henry Seyrig, que na qualidade de diretor de Antiguidades da Síria dedicou toda sua vida ao estudo da imensa plataforma e seu significado, descobriu que nela os gregos costumavam realizar "ritos de mistério, onde uma Outra Vida era representada como a imortalidade para os humanos; a identificação com a deidade era obtida pela ascensão da alma". Os gregos, concluiu Seyrig, de fato associavam o lugar com os esforços humanos para alcançar a imortalidade.

Então, seria esse o lugar para onde Gilgamesh dirigiu-se em sua primeira viagem com Enkidu - a Crista de Zafon, de Baal?

Para uma resposta definitiva, analisemos primeiro os aspectos físicos da plataforma. Inicialmente descobrimos que os gregos e romanos construíram seus templos sobre uma área pavimentada que já existia há muito tempo - uma plataforma construída com grandes blocos de pedra, tão ajustados uns aos outros que ninguém, até hoje, foi capaz de entrar nela para estudar suas câmaras, túneis, cavernas e outras subestruturas ocultas.

Os estudiosos afirmam que essas estruturas subterrâneas existem porque outros templos gregos possuíam grutas e adegas secretas sob seus pisos. Além disso, Georg Ebers e Hermann Guthe, em sua obra Palestina in Bil und Wort (em inglês Picturesque Palestine), publicada há um século, relataram que os árabes da região entravam nas ruínas pelo "canto sudeste, através de uma longa passagem abobadada, como um túnel, sob a grande plataforma". "Duas dessas grandes passagens correm paralelas, de leste a oeste, e são ligadas por uma terceira, que corre no sentido norte-sul, e forma ângulos retos com elas:" Assim que os dois autores entraram num túnel, viram-se envoltos por uma total escuridão, só quebrada aqui e ali por luzes estranhas e esverdeadas, que entravam por "janelas trançadas", incomuns. Ao emergirem do túnel de 140 metros, eles perceberam que estavam sob a parede norte do templo do Sol, "que os árabes chamam de Dar-as-saadi" - a Casa da Suprema Bem-Aventurança.

A equipe arqueológica alemã que estudou a plataforma também relatou que ela aparentemente se apoiava sobre gigantescas abóbadas, mas preocupou-se apenas com o mapeamento e restauração da superestrutura. Uma missão arqueológica francesa, liderada por André Parrot, que esteve no local em 1920, confirmou a existência de um labirinto subterrâneo, mas foi incapaz de penetrar nessas partes escondidas. Quando se fez uma perfuração da plataforma, partindo de sua parte superior, encontraram-se provas de estruturas construídas sob ela.

O fato é que os templos foram erigidos sobre uma plataforma artificial que chega a atingir mais de 9 metros da altura, conforme o nível do terreno. Ela foi construída com pedras que medem, a julgar pelas faces nas beiradas, de 1 a 9 metros de comprimento, largura de em geral 1 metro e espessura de 1,83 metro. Ninguém ainda tentou calcular a quantidade de pedras extraídas, cortadas, aparelhadas, transportadas e assentadas camada sobre camada nesse local. Ela, possivelmente, seria imensamente maior do que a da Grande Pirâmide do Egito.

Quem quer que tenha construído essa plataforma, prestou especial atenção ao canto retangular a noroeste, a localização do templo de Júpiter/Zeus. Lá, os mais de 15.250 metros quadrados do templo apoiavam-se sobre um pódio elevado que certamente foi erigido com a intenção de servir de suporte para um peso extremamente grande. Feito de várias camadas de enormes pedras, ele eleva-se 3 metros acima do nível do pátio a sua frente e 13 metros acima do solo em seus lados expostos, a norte e noroeste. No lado sul, onde ainda mantêm-se em pé seis das colunas do templo, pode­-se ver com clareza as camadas de pedra. Entremeadas com pedras de bom tamanho, mas ainda assim relativamente pequenas, há camadas alternadas de blocos medindo até 6,50 metros de comprimento. Embaixo, à esquerda, vêem-se as camadas inferiores do pódio, projetando-se como um terraço sob o templo. Ali os blocos são gigantescos.

Maiores ainda são as pedras no lado oeste do pódio. Como mostrado no desenho esquemático do canto noroeste, feito pela equipe alemã, a base saliente e camadas superiores foram construídas com blocos" ciclópicos", alguns dos quais medem cerca de 10 metros de comprimento, 4 metros de largura e 3,5 metros de espessura. Cada um deles representa, assim, cerca de 140 metros cúbicos de pedra e pesa mais de 500 toneladas.

Apesar de essas pedras serem imensas - as maiores da Grande Pirâmide não passam de 200 toneladas -, elas ainda não foram as máximas em tamanho empregadas pelo construtor da Antiguidade.

A camada central do pódio, situada a cerca de 6 metros de sua base, foi, incrivelmente, feita com pedras maiores do que todas as outras. Pesquisadores modernos têm se referido a elas como "imensas", "gigantescas", "colossais". Os historiadores antigos tinham um nome para designá-las: Trilithon - a Maravilha das Três Pedras, pois lá, expostas à vista no lado oeste do pódio, jazem lado a lado três blocos de pedra sem igual no mundo. Precisamente talhados e com ajuste perfeito, cada um deles mede cerca de 20 metros de comprimento e tem uma largura entre 4 e 5 metros, o que representa 280 metros cúbicos de pedra e um peso de mais de 1 mil toneladas!

As pedras para a construção do pódio foram extraídas perto do local. Wood e Dawkins incluem uma dessas pedreiras num seu desenho panorâmico da área, mostrando alguns enormes blocos espalhados por perto. No entanto, as três pedras gigantescas foram extraídas, cortadas e aparelhadas em uma outra pedreira, situada no vale a cerca de 1 mil quilômetros a sudoeste do recinto sagrado. E é lá que se nos apresenta uma visão ainda mais incrível do que a do Trilithon.

Parcialmente enterrada no chão está uma outra dessas pedras colossais, abandonada in situ pelos canteiros da Antiguidade. Cortada com perfeição, com apenas uma fina linha em sua base ligando-a ao solo pedregoso, ela tem o impressionante comprimento de 21 metros c lados de 5 e 4 metros. Uma pessoa subindo nela parece uma mosca num iceberg... Essa pedra pesa, segundo estimativas conservadoras, mais de 1.200 toneladas!

A maioria dos estudiosos acredita que ela estava ali para ser transportada, como suas três irmãs, até o recinto sagrado para ser utilizada na ampliação de parte do terraço do pódio, no seu lado norte. Ebers e Guthe deixaram registrada em sua obra a teoria de que na fileira sob o Trilithon não há dois blocos menores, mas uma única pedra igual à encontrada na pedreira distante, medindo mais de 20 metros de comprimento, mas danifica da ou entalhada para dar a impressão de dois blocos menores assentados lado a lado.

Seja onde for que se pretendia colocar essa pedra colossal, ela serve como uma testemunha muda da grandiosa singularidade da plataforma e do pódio que ficam nas montanhas do Líbano. O fato mais intrigante é que mesmo nos dias de hoje não existe guindaste, veículo ou mecanismo capaz de levantar um peso de 1 mil a 2 mil toneladas e muito menos de transportar um objeto tão imenso por sobre vales e encostas de montanhas, e colocá-lo numa posição exata e predeterminada, a muitos metros acima do solo. Na região não existem vestígios de estradas, rampas ou outras obras de terra que poderiam, nem que fosse remotamente, sugerir que esses megálitos foram arrastados ou empurrados até o local da obra, no alto do monte.

No entanto, em épocas remotas, alguém, de algum modo, realizou esse feito...

Mas quem? As tradições locais afirmam que o recinto sagrado existe desde o tempo de Adão e seus filhos, pois o primeiro homem foi residir na região depois de sua expulsão do Jardim do Éden. Ele morava, segundo as lendas, na área onde atualmente fica Damasco e faleceu não muito longe dali. Foi Caim, seu filho, que construiu um refúgio na Crista dos Cedros depois de ter matado Abel.

O patriarca maronita do Líbano relatou a seguinte tradição: A fortaleza do monte Líbano é a construção mais antiga do mundo. Caim, o filho de Adão, a erigiu no ano 133 da Criação, durante um ataque de loucura. Ele deu ao local o nome de seu filho, Enos, e o populou com gigantes que foram punidos pela sua iniqüidade através do dilúvio”. Depois da grande inundação, o lugar foi reconstruído pelo Nemrod bíblico, num esforço para subir aos céus. A torre de Babel, segundo essas lendas, não ficava na Babilônia, mas sobre a grande plataforma do Líbano.

D' Arvieux, um viajante do século XVII, escreveu em suas Mémoires (Parte II, Capítulo 26) que tanto os habitantes judeus como os muçulmanos da região afirmavam que um antigo manuscrito encontrado no local revelava que, depois do dilúvio, quando Nemrod reinava sobre o Líbano, ele enviou gigantes para reconstruir a fortaleza de Baalbek que tem esse nome em honra de Baal, o deus dos moabitas, adoradores do deus do Sol”.

A associação do deus Baal com o lugar em épocas pós-diluvianas é um fato marcante. Na verdade, nem bem os gregos e romanos deixaram a região, a população local abandonou o nome helênico, Heliópolis, e voltou a chamar o recinto sagrado pelo seu nome semita, pelo qual ele é conhecido até hoje: Baalbek.

Há opiniões divergentes sobre o exato significado do nome. Muitos acreditam que é “O vale de Baal”. Mas, pela grafia e referências encontradas no Talmude, outros, como eu, crêem que é o "O Pranto de Baal”.

Leiamos os versos de encerramento da epopéia encontrada em Ugarit que descreve a morte de Baal em seu combate com Mot, a descoberta e transporte de seu corpo sem vida e o sepultamento feito por Anat e Shepesh numa caverna na Crista de Zafon:

Elas encontraram Baal caído no chão;

O possante Baal está morto;

O príncipe, senhor da Terra, pareceu...

Anat chora tudo o que pode;

No vale, ela bebe suas lágrimas como vinho.

Bem alto, grita para a Tocha dos Deuses, Shepesh:

“Erga o possante Baal, rogo-te, coloque-o sobre mim”.

Atendendo à súplica, a Tocha dos Deuses, Shepesh,

Pega o possante Baal,

Coloca-o nos ombros de Anat.

Para a fortaleza de Zafon ele o leva,

Lamenta-o, sepulta-o,

Coloca-o nos buracos da terra.

As lendas locais, que como todas as outras do mundo contêm em seu cerne antigas recordações de eventos reais, concordam que Baalbek é de extrema antiguidade. Elas atribuem sua construção a "gigantes” e o vinculam com os acontecimentos que tiveram lugar antes do dilúvio. Também o ligam a Baal e afirmam que sua função era ser uma "torre de Babel” - um lugar de onde se poderia "escalar os céus”.

Quando olhamos para essa vasta plataforma, estudamos sua localização e disposição, ponderamos o propósito do imenso pódio, sem dúvida construído para suportar pesos colossais, o desenho gravado na moeda encontrada em Biblos volta a nossa mente: um grande templo, uma área sagrada murada, um pódio de construção extra-forte e, sobre ele, a Câmara Celestial com forma de foguete.

As palavras e descrições do Lugar Oculto de Gilgamesh ecoam em nossos ouvidos. A muralha invencível, o portão que atordoava quem o tocava, o túnel para "o recinto onde são emitidas as palavras de comando", a "morada secreta dos Anunnaki", o monstruoso guardião com seu "raio flamejante".

Por tudo isso, não resta nenhuma dúvida em minha mente de que em Baalbek encontramos a Crista de Zafon de Baal, o alvo da primeira viagem de Gilgamesh.

A designação de Baalbek como "A Encruzilhada de Ishtar" implica que, como a deusa passeava pelo céu da Terra, ela podia ir e vir daquele "Local de Aterrissagem" para outros pontos similares em diferentes regiões da Terra. Da mesma forma, a tentativa de instalar na Crista de Zafon "um aparelho que emite palavras”, uma "pedra que sussurra"', implica a existência, em outros lugares, de unidades de comunicação similares. "O céu com a Terra ela faz conversar, os mares com os planetas.”

Haveria mesmo outros lugares na Terra que poderiam servir de aeroportos para as naves dos deuses? Haveria, além da existente na Crista de Zafon, outras "pedras que sussurram"?

A primeira pista, e mais óbvia, é o próprio nome "Heliópolis", indicando a crença grega de que Baalbek era, de alguma forma, uma "Cidade do deus do Sol", tal como a Heliópolis do Egito. O Velho Testamento também reconhecia a existência de uma Beth-­Shemesh (Casa/Lar de Shamash) no norte de uma Beth-Shemesh no sul, ou On, o nome bíblico da Heliópolis egípcia. Esta era, como disse o profeta Jeremias, o lugar das "Casas dos Deuses do Egito", a localização dos obeliscos.

A Beth-Shemesh do norte ficava no Líbano, não muito longe de Beth-Anath (Casa/Lar de Anat); o profeta Amós a identificou como a localização dos "palácios de Adad... a Casa daquele que viu El". Na época em que reinou Salomão, seus domínios incluíam grande parte da Síria e Líbano e na lista dos lugares onde ele construiu grandes edificações estão Baalat ("O Lugar de Baal") e Tamar ("O Lugar das Palmeiras"). A maioria dos estudiosos identifica esses locais como Baalbek e Palmira.

Os historiadores gregos e romanos referiram-se exaustivamente aos laços que ligavam as duas Heliópolis. Explicando o panteão dos doze deuses egípcios aos seus compatriotas, Heródoto escreveu sobre um "imortal que os egípcios veneram como Hércules", dando como lugar de origem do culto a Fenícia, "pois ouvi contar que naquele país havia um templo dedicado a Hércules, grandemente venerado por todos". No templo egípcio, Heródoto viu dois pilares: "Um de puro ouro e o outro de esmeralda, brilhando com grande fulgor à noite".

Esses sagrados "Pilares dos Deuses" ou "Pedras dos Deuses" aparecem nas moedas fenícias cunhadas depois da conquista da região por Alexandre. A descrição de Heródoto nos fornece a informação adicional de que as pedras eram interligadas, sendo uma do metal que é o melhor condutor de eletricidade (ouro) e a outra de uma pedra preciosa (esmeralda), atualmente usada nas comunicações a laser, a qual quando emite um raio de alta potência emana uma radiação esverdeada. Não seria esse conjunto algo parecido com o aparelho montado por Baal, que o texto cananeu denominou de pedras do esplendor?

Macróbio, escrevendo explicitamente sobre a vinculação entre a Heliópolis fenícia e sua contraparte egípcia, também mencionou uma pedra sagrada. Segundo ele, "um objeto" de veneração do deus do Sol, Zeus Helioupolites, foi levado da Heliópolis egípcia para a Heliópolis do norte (Baalbek) por sacerdotes egípcios. E acrescentou: "O objeto atualmente é adorado com ritos assírios e não egípcios".

Outros historiadores romanos salientaram que as "pedras sagradas" adoradas pelos "assírios" e egípcios tinham uma forma cônica. Quinto Cúrcio registrou que um deles ficava no templo de Amon no oásis de Siwa. Ele escreveu: "A coisa que lá viu e que é venerada como um deus não tem o formato que os artífices costumam aplicar aos deuses. De fato, sua aparência nos faz lembrar um umbigo e ele é feito de uma esmeralda e pedras preciosas cimentadas juntas".

A informação sobre o objeto cônico adorado em Siwa foi citada por F. L. Griffith em conexão com o anúncio no The Journal of Egyptian Archaeology, de 1916, da descoberta de um "omphalos" na "cidade-pirâmide" de Napata, na Núbia. Esse "singular objeto meroítico" foi encontrado por George A. Reisner, da Universidade de Harvard, no santuário mais recôndito do templo de Amon, o mais ao sul do Egito dedicado a esse deus.

Omphalos significa umbigo e a pedra cônica que tinha esse nome, por motivos que os estudiosos ainda não compreendem, possuía, na Antiguidade, a fama de marcar "o centro da Terra".

É preciso lembrar que o templo de Amon no oásis de Siwa era a localização do oráculo de Amon que Alexandre apressou-se a consultar assim que entrou no Egito. Temos o testemunho tanto de Calístenes, o historiador grego e cronista oficial do rei da Macedônia, como de Quinto Cúrsio que um omphalos feito de pedras preciosas era o "objeto" venerado nesse templo. O templo núbio de Amon, onde Reisner descobriu o omphalos de pedra, ficava em Napata, uma antiga capital nos domínios das soberanas da Núbia. Isso, claro, nos faz recordar da intrigante visita de Alexandre à rainha Candace em sua busca pela imortalidade.

Terá sido por mero acaso que, procurando os segredos da longevidade, Cambises, o rei persa (como relatou Heródoto), enviou seus homens à Núbia, ao templo onde ficava guardada a "Mesa do Sol"? No início do primeiro milênio a.C., uma soberana núbia - a rainha de Sabá - empreendeu uma longa viagem para visitar Salomão em Jerusalém. As lendas que correm em Baalbek garantem que ele mandou embelezar as edificações no Líbano em honra da real visitante. Será que a rainha de Sabá fez uma viagem tão longa e perigosa apenas para ouvir a sabedoria de Salomão ou seria seu verdadeiro propósito consultar o oráculo de Baalbek - a bíblica "Casa de Shemesh"?

Parece haver mais do que coincidências aqui. E a pergunta que nos ocorre é: se em todos esses centros de oráculos existia um omphalos, não seria esse objeto em si a verdadeira fonte dos oráculos?

A construção (ou reconstrução) de um silo de lançamento e uma plataforma de aterrissagem não foi a causa do fatal combate entre Baal e Mot. A discórdia teve como motivo a tentativa de Baal de instalar clandestinamente uma Pedra do Esplendor, um aparelho que podia propiciar a comunicação com os céus e com outros lugares da Terra. Além disso, ele era:

Uma pedra que sussurra;

Os homens suas mensagens não conhecerão,

As multidões da Terra não as compreenderão.

Quando ponderamos sobre a aparente função dupla da Pedra do Esplendor e a mensagem secreta de Baal para Anat, subitamente tudo se esclarece: o aparelho que os deuses usavam para se comunicar era o mesmo do qual emanavam as respostas oraculares para os reis e heróis!

Num estudo completo sobre o assunto, Wilhelm H. Roscher (Omphalos) mostrou que o termo indo-europeu para essas pedras de oráculo - navel em inglês, nabel em alemão etc. - origina-se do sânscrito nabh, que significa "emanar com força". Não é coincidência que nas línguas semitas naboh significa "predizer" e nabih significa "profeta". Sem dúvida, todos esses significados idênticos têm raiz no sumério, onde NA.BA(R) significava "pedra clara e brilhante que esclarece".

À medida que estudamos os textos antigos, emerge uma verdadeira rede de locais com oráculos. Heródoto, que acertadamente relatou a existência do oráculo meroítico de Júpiter-Amon (Livro 11,29), contribuiu para aumentar os vínculos que analisamos ao afirmar que os "fenícios", que implantaram o oráculo de Siwa, também fundaram o mais antigo centro de oráculo da Grécia, o que ficava em Dodona - um local nas montanhas a noroeste do país (perto da atual fronteira com a Albânia).

Heródoto escreveu que, quando se encontrava no Egito, ouviu contar que "uma vez, duas mulheres sagradas foram raptadas de Tebas (no Egito) por fenícios... uma delas foi vendida para a Líbia (Egito ocidental) e outra para a Grécia. Foram elas as fundadoras dos oráculos desses países". Segundo Heródoto, essa história lhe fora contada pelos sacerdotes egípcios de Tebas. Em Dodona, porém, afirmava-se que "duas pombas pretas saíram voando da Tebas egípcia", uma pousou em Siwa e a outra na Grécia. Seja como for, em ambos os lugares estabeleceu-se um oráculo, o de Zeus para os gregos e o de Amon para os egípcios.

O historiador romano Sílio Itálico (século I), ao contar que Aníbal consultara o oráculo egípcio a respeito de suas guerras contra Roma, também atribuiu ao vôo das duas pombas saídas de Tebas a fundação dos oráculos no deserto líbio (Siwa) e na Caônia grega (Dodona). Vários séculos depois, o poeta grego Nono, em sua obra-prima Os Dionisíacos, descreveu os dois santuários como sendo locais gêmeos e afirmou que eles comunicavam-se entre si oralmente.

Eis a recém-encontrada voz de resposta do Zeus líbio!

As areias sedentas uma mensagem oracular

Enviam à pomba de Quapóia [Dodona].

F. L. Griffith, ao deparar-se com o omphalos da Núbia, recordou-se de um outro centro de oráculo da Grécia. A forma cônica do omphalos da Núbia, escreveu, "era exatamente a do omphalos do oráculo de Delfos".

A cidade de Delfos, sede do mais famoso oráculo da Grécia, era dedicada a Apolo ("O da Pedra") e suas ruínas são até hoje uma das principais atrações turísticas do país. Lá, como em Baalbek, o recinto sagrado ficava numa plataforma moldada numa encosta de montanha, também dando para um vale que se abre como um funil na direção do Mediterrâneo.

Tomando como ponto de partida muitos registros históricos, não há dúvida de que a pedra do omphalos de Delfos era o objeto mais sagrado do local. Ela ficava montada numa base especial no interior do templo de Apolo, segundo alguns estudiosos ao lado de uma estátua de ouro do deus, e, de acordo com outros, sozinha num santuário só seu. Numa câmara subterrânea, escondidos dos olhares dos consulentes, as sacerdotisas, em transe, respondiam às perguntas de reis e heróis com palavras enigmáticas - respostas dadas pelo deus, mas emanando do omphalos.

O omphalos sagrado original desapareceu misteriosamente, talvez em decorrência das muitas guerras religiosas e invasões estrangeiras que atingiram a região. Todavia, uma réplica em pedra do objeto, talvez feita na época dos romanos e colocada no exterior do templo, foi descoberta em escavações arqueológicas e atualmente encontra-se em exibição no museu de Delfos.

No Caminho Sagrado que leva ao templo de Apolo, alguém, em época desconhecida, erigiu um omphalos de pedra, mais simples, num esforço para marcar o lugar onde funcionara o primitivo oráculo de Delfos, antes da construção do santuário.

As moedas de Delfos mostravam Apolo sentado nesse omphalos e, depois que os gregos conquistaram a Fenícia, passaram também a retratar o deus sentado num omphalos "assírio". Todavia, era bastante freqüente as pedras do oráculo serem mostradas como cones gêmeos, conectados por uma base comum.

Por que Delfos foi escolhido como um lugar sagrado de oráculo e como a pedra omphalos foi parar lá? As tradições dizem que, quando Zeus quis encontrar o centro da Terra, soltou águias em dois extremos opostos do mundo. Voando umas na direção das outras, elas se encontraram em Delfos e o local foi marcado com a colocação de uma pedra-umbigo, um omphalos. Segundo o historiador grego Estrabão, era por isso que havia estátuas de duas dessas águias pousadas no omphalos de Delfos.

Muitas representações do omphalos foram encontradas na arte grega mostrando os dois pássaros no alto ou ao lado do objeto cônico. Alguns estudiosos dizem que eles não são águias, mas pombos-correios que, por serem aves capazes de retornar a um lugar determinado, poderiam simbolizar a medição das distâncias de um centro da Terra para outro.

Segundo as lendas gregas, Zeus encontrou refúgio em Delfos durante suas batalhas aéreas com Tifon, quando pousou na área parecida com uma plataforma, onde foi construído o templo de Apolo.

O santuário de Amon e Siwa continha não apenas corredores subterrâneos, túneis misteriosos e passagens secretas sob os muros espessos do prédio, como também uma área restrita com cerca de 55 por 51 metros, cercada por uma enorme muralha. Encontramos os mesmos componentes estruturais, inclusive uma plataforma elevada, em todos os locais associados com as "pedras que sussurram"! Devemos concluir então que, como Baalbek, eles eram tanto um Local de Aterrissagem como um Centro de Comunicações?

Já não nos surpreende encontrarmos as Pedras Sagradas gêmeas, acompanhadas pelas duas águias, nos textos sagrados egípcios. Afinal, muitos séculos antes de os gregos começarem a transformar seus centros de oráculos em grandes santuários já existia uma pintura mostrando um omphalos com dois pássaros empoleirados na tumba de um faraó egípcio. Ele era Séti I, que viveu no século XIV a.C., e foi na descrição dos domínios de Seker, o Deus Oculto, descoberto em seu túmulo, que vimos o omphalos mais antigo de que se notícia. Ele era o meio de comunicação através do qual mensagens - "palavras" - "eram ditas a Seker todos os dias".

Em Baalbek, encontramos o destino da primeira viagem de Gilgamesh, o Local de Aterrissagem. Depois, seguindo os fios que ligam as "sussurrantes" Pedras do Esplendor, chegamos ao Duat.

O Duat era o lugar onde os faraós tentavam galgar a Escada para o Céu para atingir uma Outra Vida. E ele era, sugiro, o lugar para onde Gilgamesh, em busca da imortalidade, dirigiu seus passos em sua segunda viagem.

10

TILMUN: A TERRA DOS FOGUETES

Não resta dúvida de que a Epopéia de Gilgamesh foi a fonte original das muitas histórias e lendas sobre reis e heróis que, nos milênios subseqüentes, partiram à procura de eterna juventude. Em algum canto da Terra, afirmavam as memórias mitificadas da Humanidade, existia um lugar onde o homem podia se juntar aos deuses e escapar da indignidade da morte.

Há quase 5 mil anos, Gilgamesh de Uruk rogou a Utu (Shamash):

Em minha cidade, o homem morre; oprimido está meu coração.

O homem perece, pesado está meu coração...

O homem, por mais alto que seja, não pode esticar-se até o céu...

Ó Utu,

Na Terra desejo entrar, seja meu aliado...

No lugar onde os Shem têm sido erigidos,

Que eu erija meu Shem!

Shem, como já demonstrei, embora seja comumente traduzido por "Nome" (aquele pelo qual alguém será lembrado), era, de fato, um foguete espacial. Henoc, quando foi levado para o céu, desapareceu em seu "Nome". Meio milênio depois de Gilgamesh, o rei Téti, faraó do Egito, fez uma súplica quase idêntica:

Os homens caem,

Eles não têm "Nome",

(Ó deus),

Pega Téti pelos braços,

Leva Téti para o firmamento,

Para que ele não morra na Terra entre os homens.

A meta de Gilgamesh era Tilmun, a terra onde os foguetes eram montados. Perguntar para onde ele se dirigiu com o objetivo de alcançar Tilmun é o mesmo que perguntar para onde foi Alexandre, que se considerava um faraó e filho de um deus. E é também perguntar: Afinal, em que lugar do mundo ficava o Duat? Sim, porque era essa a parada final para todos que sonhavam com a imortalidade.

Procurarei demonstrar agora, conclusivamente, que a terra onde eles esperavam encontrar a Escada para o Céu era a península do Sinai. Aceitando a possibilidade de que o Livro dos Mortos faz referências a uma geografia egípcia verdadeira, alguns eruditos sugeriram que a viagem simulada do faraó era feita ao longo do Nilo, dos santuários do Alto Egito para os mais próximos do delta do rio. Os textos antigos, contudo, falavam claramente sobre uma viagem para além das fronteiras do país. Segundo eles, o faraó dirige-se para o leste, não para o norte, e, quando atravessa o lago de Juncos e o deserto depois dele, deixa para trás não apenas o Egito, mas também a África, pois muito se fala dos perigos - reais e "políticos" - em abandonar os domínios de Hórus para se chegar às "Terras de Set", ou seja, a Ásia.

Quando os Textos das Pirâmides foram escritos, a capital do Egito era Mênfis. O centro religioso mais antigo, Heliópolis, ficava a noroeste da capital, não muito distante. Desses centros, uma rota de viagem na direção leste realmente levaria a uma cadeia de lagos cheios de juncos e bambus. Depois deles ficava o deserto, os desfiladeiros e a península do Sinai - área cujos céus serviram como campo da batalha final entre Zeus e Tífon.

A sugestão de que a viagem do faraó realmente o levava para a Outra Vida é apoiada pelo fato de Alexandre ter tentado imitar não apenas os reis do Egito, mas também o êxodo dos judeus sob a liderança de Moisés.

Tal como no relato bíblico, o ponto de partida era o Egito. Em seguida vinha o "mar Vermelho" - a barreira aquosa que se separou para os judeus atravessarem o mar a pé. Nas histórias de Alexandre, essa barreira também foi encontrada e era persistentemente chamada de "mar Vermelho". Alexandre, querendo imitar Moisés, tentou fazer suas tropas o atravessarem a pé, construindo um tipo qualquer de ponte, segundo algumas versões, ou, em outras, "expondo o leito com suas preces". Quer ele tenha tido êxito ou não (depende da versão), os prisioneiros de guerra que mandou à frente foram surpreendidos pela volta das águas e morreram afogados - exatamente como aconteceu com os egípcios que perseguiam os judeus. Depois de atravessarem, estes entraram em luta com os amalecitas. Na versão cristã da história de Alexandre, os prisioneiros inimigos afogados pelas "águas do mar Vermelho que caíram sobre eles" são chamados de "amalecitas".

Uma vez vencida a barreira de água - a tradução literal do termo bíblico Yam Suff é “mar/lago de Juncos" - começava uma viagem pelo deserto, na direção de uma montanha sagrada. Significativamente a montanha especial que Alexandre atingiu tinha o nome de Mushas, a Montanha de Moisés, Moshe em hebraico. Foi lá que Moisés encontrou um anjo que lhe falou por entre o fogo (o arbusto ardente). Um incidente similar é relatado nas lendas de Alexandre.

Os paralelos multiplicam-se à medida que nos recordamos de vários textos, como a história de Moisés e o peixe encontrado no Corão. Segundo ela, a Água da Vida ficava "na junção de dois rios". O faraó atingia a entrada do reino subterrâneo no local onde o rio de Osíris dividia-se em dois afluentes. Nas lendas de Alexandre, o ponto crucial da jornada também aconteceu perto de uma fonte ou curso de água, no lugar onde a "Pedra de Adão" emitiu luz e os seres divinos aconselharam o rei a desistir de sua busca.

Além disso, existia a tradição de igualar Alexandre com Moisés ao chamá-lo de "Aquele com Dois Chifres" - devido à afirmação bíblica, repetida também no Corão, de que Moisés, depois de ter visitado o Senhor no monte Sinai, ficou com o rosto radiado e dele emanava "chifres" (literalmente: raios de luz).

A arena do êxodo bíblico foi a península do Sinai. A conclusão tirada de todas as similaridades é que foi para ela que Moisés, Alexandre e os faraós dirigiram seus passos ao sair do Egito. E esse, mostrarei, também foi o destino de Gilgamesh.

Para atingir Tilmun em sua segunda e decisiva viagem, Gilgamesh zarpou num "Barco de Magan", ou seja, um "Barco do Egito", Por estar partindo da Mesopotâmia, ele só poderia navegar para o sul do golfo Pérsico. Em seguida, dando a volta na península Arábica, entraria no mar Vermelho (que os egípcios chamavam de mar de Ur). Como o nome do barco indica, Gilgamesh teria seguido para o Egito. Todavia, esse não era seu destino final. Gilgamesh queria chegar a Tilmun. Qual então seria sua intenção? Desembarcar na Núbia, na margem ocidental do mar Vermelho? Na margem oriental, na Arábia? Ou seguir em frente, dirigindo-se à península do Sinai?

Felizmente, para nossas investigações, Gilgamesh encontrou o infortúnio. Seu barco foi afundado por um deus guardião pouco depois do início da viagem. Ele não estava muito longe da Suméria, pois Enkidu (cuja presença no barco foi o motivo do afundamento) implorou a Gilgamesh para os dois voltarem a pé para Uruk. Contudo, decidido a atingir Tilmun, o rei começou a caminhar para alcançar seu objetivo. Ora, se o lugar aonde ele pretendia chegar ficasse no mar Vermelho, Gilgamesh teria de atravessar a península Arábica, mas a epopéia narra que ele dirigiu seus passos para o noroeste. Não tenho dúvidas disso porque, depois de atravessar o deserto e vencer montanhas inóspitas, a primeira visão que teve da civilização ficava perto de um "mar na baixada". Havia uma cidade junto dele, com uma taberna em sua periferia. A "cervejeira" o alertou que a extensão de água que ele via era o "Mar das Águas da Morte" .

Tal como os Cedros do Líbano serviram como um ponto especial para fixarmos o marco final da primeira viagem de Gilgamesh, o Mar das Águas da Morte é uma pista inigualável para determinarmos o paradeiro do rei de Uruk em sua segunda viagem. Em todas as terras do mundo antigo, um todo o Oriente Médio, só existe uma extensão de água desse tipo e ela mantêm o nome até hoje: mar Morto. Ele é de fato um "mar de baixada", pois fica numa depressão da costa terrestre (cerca de 300 metros abaixo do nível do mar). Suas águas são tão saturadas de sais e outros minerais que lá não cresce nenhum tipo de vida animal ou vegetal.

Uma muralha cercava a cidade junto ao Mar das Águas da Morte. Seu templo era dedicado a Sin, o deus-Lua. Do lado de fora da muralha havia uma taberna. A estalajadeira acolheu Gilgamesh e forneceu-lhe informações.

As incríveis similaridades com uma história da Bíblia não podem ser ignoradas. Quando os israelitas terminaram seus quarenta anos de perambulação pelo deserto, era chegada a hora de entrarem em Canaã. Vindo da península do Sinai, eles foram progredindo pela margem oriental do mar Morto até chegarem ao lugar onde o rio Jordão deságua. Quando Moisés subiu num morro que dava para a planície, avistou - como Gilgamesh - as águas brilhantes do "mar na baixada". Na planície, na outra margem do rio, ficava uma cidade: Jericó! Como ela bloqueava o avanço dos israelitas sobre Canaã, dois espiões foram enviados para explorar suas defesas. Uma mulher cuja estalagem ficava junto às muralhas forneceu-lhes informações e orientação.

O nome hebraico de Jericó é Yeriho, que significa literalmente "Cidade da Lua" - a cidade dedicada ao deus-Lua, Sin...

Essa, sugiro, foi a mesma cidade à qual Gilgamesh chegou, quinze séculos antes do Êxodo.

Será que Jericó já existia por volta de 2.900 a.C., quando o rei de Uruk empenhava-se em sua busca? Os arqueólogos concordam que o local já era povoado antes de 7.000 a.C. e que desde cerca de 3.500 a.C. havia ali um centro florescente. Então, com toda a certeza, foi a Jericó que Gilgamesh chegou.

Refrescado e fortalecido, o rei de Uruk planejou seguir viagem. Encontrando-se no norte do mar Morto, perguntou à cervejeira se conseguiria atravessá-lo ou teria de circundá-lo por terra. Fazendo o trajeto a pé, ele seguiria a mesma rota dos israelitas muitos séculos depois, só que em sentido inverso. Porém, Gilgamesh conseguiu o auxílio de Urshanabi e desembarcou, acredito, na margem sul do mar Morto - o mais próximo que poderia chegar à península do Sinai por barco.

Dali, segundo as informações que recebeu, ele deveria seguir "um caminho regular", ou seja, uma rota normalmente usada pelas caravanas, "na direção do Grande Mar, que fica distante". Mais uma vez reconhecemos a geografia pela terminologia bíblica, pois na Bíblia o Grande Mar é o Mediterrâneo. Penetrando o Neguev, a seca região meridional de Canaã, Gilgamesh teria de dirigir-se para oeste por algum tempo, até encontrar "dois marcos de pedra", como explicara Urshanabi. Nesse local ele faria uma curva e atingiria a cidade de Itla, localizada a alguma distância do Grande Mar. Depois dela, na Quarta Região dos deuses, ficava a área restrita.

Itla seria uma "Cidade de Deuses" ou uma cidade de homens?

Os eventos ocorridos nesse local, descritos numa versão hitita fragmentada da Epopéia de Gilgamesh, indicam que ela abrigava tanto uns como outros. Era uma "cidade santificada", com vários deuses indo e vindo ou morando perto dela. Mas os homens também podiam entrar lá, pois o caminho era indicado por marcos de estrada. Além disso, Gilgamesh não somente descansou e trocou de roupa em Itla como também foi lá que obteve os cordeiros que ofereceu diariamente aos deuses em sacrifício.

Conhecemos uma cidade assim pelo Velho Testamento. Ela ficava localizada onde o sul de Canaã se mesclava com a península do Sinai e funcionava como entrada para a planície central da península. Sua santidade era denotada pelo nome: Cades ("A Sagrada") e distinguia-se de Cades do norte (situada, significativamente, perto de Baalbek) sendo chamada de Cades-Barnéia (que, originando-se do sumério, poderia significar: Cades dos Pilares de Pedra Brilhante). Na era dos patriarcas, ela fazia parte dos domínios de Abraão, que "viajou ao Neguev e habitou entre Cades e Shin".

Essa cidade, pelo nome e função, já é bem nossa conhecida pelas histórias cananéias sobre deuses, homens e a ânsia pela imortalidade. Danel, lembramo-nos, suplicou a El que lhe desse um herdeiro legítimo para este poder erigir uma estela em sua homenagem em Cades. Por intermédio de um texto ugarítico ficamos sabendo que um filho de El chamado Shibani ("O Sétimo") - a cidade bíblica de Bersabéia, ou Beersheva ("O Poço do Sétimo") pode ter esse nome por causa dele - recebeu instruções de "erigir um pilar comemorativo no deserto de Cades".

De fato, tanto Charles Virolleaud como René Dussaud, pioneiros na tradução e compreensão dos textos ugaríticos, concluíram que o local dos muitos contos épicos era "a região entre o mar Vermelho e o Mediterrâneo", ou seja, a península do Sinai. O deus Baal, que adorava pescar no lago Sumkhi, ia caçar no "deserto de Alus", área associada com a tamareira. Virolleaud e Dussaud salientaram que essa é uma importante pista geográfica ligando o local ugarítico com o registro bíblico sobre o êxodo, pois os israelitas, segundo Números 33, viajaram de Mará (o lugar das águas amargas) e Eloim (o oásis das tamareiras) para Alus.

Outros detalhes, colocando El e os deuses mais jovens na área do êxodo, são encontrados num texto que os eruditos intitularam de "O Nascimento dos Graciosos e Belos Deuses", Os versos de abertura localizam a ação no "deserto de Sufim" - sem dúvida um deserto à margem do Yam Suff ("Mar de Juncos") do Êxodo:

Chamo os graciosos e belos deuses,

Filhos do Príncipe.

Eu os colocarei na Cidade de Ascender e Ir,

No deserto de Sufim.

Os textos cananeus nos fornecem mais uma pista. Constantemente eles se referem ao chefe do panteão como "El" - o supremo, o mais alto dos altíssimos -, usando o termo mais como um título genérico do que como um nome próprio, Todavia, no conto citado acima, El é identificado como Yerah e sua esposa como Nikhal. "Yerah" é o termo semítico para "Lua" - o deus mais conhecido como "Sin" - e "Nikhal" é a forma semítica de NIN.GAL, o nome sumério da esposa do deus-Lua.

Os estudiosos já apresentaram muitas teorias a respeito da origem do nome Sinai. Uma vez, pelo menos, o motivo mais óbvio esteve entre as hipóteses preferidas: Sinai poderia significar "pertencente a Sin".

Podemos ver que a lua crescente era o emblema da deidade em cujas terras ficava localizado o Portão Alado. E um importante ponto de cruzamento de rotas no centro da península do Sinai, um lugar rico em água chamado Nakhl, conserva até hoje o nome da esposa de Sin. Assim, podemos concluir com plena confiança que a "Terra de Tilmun" era a península do Sinai.

Um exame da geografia, topografia, geologia, clima, flora e história da península confirmará minha identificação e esclarecerá o papel do Sinai nas histórias de homens e deuses.

Os textos mesopotâmicos descreviam a localização de Tilmun na "boca" de duas extensões de água. A península, que tem a forma de um triângulo invertido, de fato começa onde o mar Vermelho separa-se em dois braços - o golfo de Suez a oeste e o golfo de Eilat (Ácaba) a leste. As representações egípcias que mostram a Terra de Set, onde ficava o Duat, mostram esquematicamente uma península com as características da do Sinai.

Os textos falam das "montanhas de Tilmun" e, de fato, a península do Sinai é constituída por uma região com grandes montanhas ao sul, um platô central também montanhoso e uma planície ao norte (cercada de montanhas), que vai descendo em colinas arenosas até a costa do Mediterrâneo. Essa faixa litorânea plana tem sido uma "ponte terrestre" entre a Ásia e a África desde épocas imemoriais. Os faraós a usaram para invadir Canaã e a Fenícia, e para desafiar os hititas. Sargão, rei de Acad, afirmou que atingiu o Mediterrâneo, onde "lavou suas armas". "As terras do mar" ­ a região ao longo da costa - "três vezes rodeei; Tilmun minha mão capturou." Sargão II, rei da Assíria no século VIII a.C., vangloriou-se de ter conquistado a área que ia de "Bit-Yahkin, na margem do mar Salgado, até a fronteira de Tilmun". O nome "mar Salgado" sobreviveu até os dias de hoje como a denominação em hebraico do mar Morto - outra confirmação de que Tilmun ficava próximo dele.

Vários reis assírios mencionam o Riacho do Egito como um marco geográfico em suas expedições àquele país. Sargão II fala do Riacho depois de descrever a conquista de Asdod, a cidade filistéia, na costa do Mediterrâneo. Asaradão, que reinou algum tempo depois, vangloriou-se: "Piso em Arza, no Riacho do Egito, ponho Assuili, seu rei, em grilhões... Sobre Qanayah, rei de Tilmun, impus tributos". O nome "Riacho do Egito" é idêntico ao nome bíblico para o grande e extenso wadi (rio raso que se torna torrencial na estação chuvosa) do Sinai que atualmente é conhecido como wadi El-Arish. Assurbanipal, sucessor de Asaradão no trono da Assíria, afirmou que ele colocara o jugo de sua soberania sobre Tiro, que fica no Mar Superior (Mediterrâneo) e até Tilmun, que fica no Mar Inferior (o mar Vermelho).

Em todos esses casos, a geografia e topografia de Tilmun igualam-se perfeitamente às da península do Sinai.

Acredita-se que, salvo variações anuais, o clima da península foi sempre o que é atualmente: uma estação chuvosa irregular que vai de outubro a maio e o resto do ano completamente seco. A pouca densidade pluvial qualifica a região a ser definida como deserto (menos de 30 mm anuais). No entanto, os altos picos de granito ao sul ficam cobertos de neve no inverno e na faixa litorânea o lençol freático é encontrado a pouco mais de 1 metro abaixo da superfície.

Uma característica geográfica típica da península são os wadis. Na região sul, as águas de chuvas curtas e repentinas correm parte para o leste, para o golfo de Eilat, e mais freqüentemente para o oeste, para o golfo de Suez. É nessa região que são encontrados os riachos no fundo de grandes gargantas e oásis exuberantes. Todavia, o grosso das águas pluviais é drenado na direção norte, indo para o Mediterrâneo pelo extenso wadi El-Arish e seus inúmeros afluentes, que, no mapa, em seu conjunto, parecem os vasos sangüíneos de um gigantesco coração. Nessa parte do Sinai, a profundidade dos wadis varia de poucos centímetros até cerca de 1 metro até 2 quilômetros, quando há uma chuva torrencial.

Mesmo na estação chuvosa, o padrão de precipitação é totalmente errático. Aguaceiros súbitos se alternam com longos períodos secos. Assim, pressupor-se a existência de água em relativa abundância nesse período do ano ou logo depois dele pode ser uma idéia muito enganosa. Possivelmente foi o que aconteceu com os israelitas quando deixaram o Egito em meados de abril e entraram no deserto do Sinai algumas semanas depois. Eles encontraram-se sem água e o Senhor teve de intervir duas vezes, mostrando a Moisés que rochas deveria golpear para obtê-la.

Os beduínos, como todos os calejados viajantes que percorrem o Sinai, conseguem repetir esse milagre quando o solo do leito do wadi é do tipo adequado. O segredo é que em muitos lugares a camada rochosa da superfície está sobre uma camada de solo argiloso que captura a água que penetra por entre as pedras. Com conhecimento e sorte, uma pequena escavação num leito de wadi completamente seco revela água em abundância logo abaixo da superfície.

Mas seria essa arte nômade o grande milagre realizado pelo Senhor? Recentes descobertas feitas na península do Sinai lançam uma nova luz sobre o assunto. Hidrólogos israelenses ligados ao Instituto Weizmann de Ciências descobriram que, como acontece em partes do deserto do Saara e em algumas áreas desérticas da Núbia, existe "água fóssil" (restos de lagos pré-históricos de outras era geológicas) nas profundezas da região central do Sinal. O imenso reservatório subterrâneo, com água suficiente, segundo as estimativas, para atender a uma população como a de Israel por quase cem anos, estende-se por cerca de 15.500 quilômetros quadrados num cinturão largo que vai do canal de Suez até o interior do árido deserto de Neguev, em Israel.

Embora esteja em média cerca de 915 metros abaixo do solo pedregoso, a água é sub-artesiana e sobe com sua própria pressão a até 300 metros da superfície. Quando os egípcios fizeram perfurações à procura de petróleo em Nakhl, na planície setentrional, encontraram esse reservatório subterrâneo. Outras sondagens confirmaram o incrível fato: na superfície, um deserto árido; no subsolo, dificilmente acessível por meio dos modernos equipamentos de perfuração e bombeamento, um lago de água pura e cristalina!

Será que os Nefilim, com sua tecnologia de era espacial, tinham conhecimento disso? E mais, seria essa água, e não uma pequena quantidade acumulada sob um wadi seco, a que jorrou depois que Moisés golpeou a pedra, seguindo as instruções do Senhor? "Leva contigo, na mão, a vara com que fizeste os milagres no Egito", disse o Senhor a Moisés. "Tu me verás em pé sobre uma pedra; ferirás a pedra e dela sairá água e o povo beberá." Assim, seria água suficiente para uma multidão e seu gado. Para que a grandeza de Iahweh fosse reconhecida por todos, Moisés deveria levar ao local algumas testemunhas. O milagre aconteceu "na presença dos anciãos de Israel".

Uma história suméria relata um evento bastante parecido. Trata-se de um conto sobre épocas difíceis devido à escassez de água. As plantações murcharam, o gado não tinha o que beber, o povo estava sedento e calado. Ninsikilla, esposa do governante de Tilmun, Enshag, queixou-se ao seu pai, Enki:

A cidade que destes...

Tilmun, a cidade que destes...

Não tem águas de rio...

Não pode banhar-se a donzela;

Nenhuma água cristalina jorra na cidade.

Depois de estudar o problema, Enki concluiu que a única solução seria trazer águas subterrâneas. No entanto, a profundidade a ser atingida certamente não poderia ser alcançada através da perfuração de um poço comum. Assim, Enki elaborou um plano no qual as camadas de rocha seriam perfuradas por um míssil disparado do céu!

Pai Enki respondeu a Ninsikilla, sua filha:

Que o divino Utu se posicione no céu.

Que um míssil preso ao 'peito'

E do alto o dirija para a terra...

Da fonte da qual emergem as águas da Terra,

Que ele traga-te a doce água do solo.

Assim instruído, Utu/Shamash começou a tomar as providências necessárias:

Utu, posicionando-se no céu,

Um míssil firmemente preso ao seu "peito",

Do alto dirigiu-se para a terra...

Soltou o míssil do alto do céu.

De entre as rochas de cristal levantou a água;

Da fonte de onde emergem as águas da Terra,

Trouxe água doce, do solo.

Um míssil lançado do céu poderia perfurar a crosta da Terra, fazer a água potável subir? Antecipando a incredulidade de seus leitores, o escriba acrescentou: "Em verdade, foi assim". O plano, segundo a continuação do texto, funcionou: Tilmun tornou-se uma região de "campos férteis e fazendas que produzem grãos" e a Cidade de Tilmun "tornou-se o porto do país, local de ancoradouros e docas".

Os paralelos entre a península do Sinai e Tilmun estão assim duplamente confirmados. Primeiro, a existência de um reservatório subterrâneo de água, abaixo da superfície rochosa. Segundo, a presença de Utu/Shamash (o comandante do espaço-porto) nas vizinhanças.

A península do Sinai também possui todos os produtos que faziam a fama de Tilmun.

Tilmun era a fonte das pedras preciosas aparentadas com o lápis-lazúli que os sumérios tanto apreciavam. É um fato incontestável que os faraós obtinham tanto a turquesa como a malaquita no sudoeste da península. A mais antiga área de mineração de turquesa de que se tem notícia atualmente tem o nome de wadi Maghara - o "wadi das Cavernas". Nesse local abriam-se túneis na face rochosa do cânion do wadi e os mineiros talhavam as pedras. Mais tarde começou a haver mineração da turquesa também num lugar que hoje é chamado de Serabit-el-Khadim. Inscrições egípcias da 3ª. Dinastia (2.700-2.600 a.C.) foram encontradas em wadi Maghara e acredita-se que foi nessa época que os faraós começaram a instalar postos militares na região para poder haver uma mineração continuada.

Descobertas arqueológicas, além de desenhos e pinturas mostrando os primeiros "nômades asiáticos" capturados pelos faraós, convenceram os estudiosos de que no início os egípcios só saqueavam minas já abertas por tribos do Sinai. De fato, o nome egípcio para turquesa - mafka-t - origina-se do verbo semita "minerar, extrair por corte". Posteriormente, os egípcios passaram a chamar a península do Sinai de "Terra de Mafkat" e atribuíram o domínio dessa área de mineração à deusa Hathor, conhecida tanto como "A Senhora do Sinai" como "A Senhora do Mafkat". Embora fosse uma grande deusa da Antiguidade e estivesse entre os primeiros deuses do céu egípcios, ela era apelidada de "A Vaca" e retratada sempre com os chifres desse animal. Seu nome, Hat-Hor, escrito hieroglificamente pelo desenho de um falcão dentro do recinto fechado, tem sido interpretado pelos eruditos como sendo "Casa de Hórus", mas literalmente ele significa "Casa do Falcão", o que fortalece muita conclusão sobre a localização e função da Terra dos Mísseis.

Segundo a Encyclopaedia Britannica, "a turquesa já era obtida na península do Sinai antes do quarto milênio a.C., numa das primeiras operações de extração de rochas minerais do mundo". Nessa época, a civilização suméria estava nos seus primórdios e a egípcia só iria surgir dali a mil anos. Quem poderia ter organizado as atividades de mineração? Os antigos egípcios atribuíram esse feito a Thot, o deus das ciências.

Ao afirmarem isso e ao atribuírem o domínio da península do Sinai a Hathor, os egípcios estavam emulando as tradições sumérias. Segundo os textos sumérios, o deus que organizou as operações de mineração dos Anunnaki foi Enki, o deus do conhecimento. E Tilmun, nos tempos antes do dilúvio, foi dado a Ninhursag, a irmã de Enki e Enlil. Em sua juventude, ela era uma mulher de extraordinária beleza e enfermeira-chefe dos Nefilim, mas em sua velhice recebeu o apelido de "A Vaca" e, na qualidade de Deusa da Tamareira, era sempre retratada com os chifres desse animal. As similaridades entre Ninhursag e Hathor, as analogias entre seus domínios, são óbvias demais para exigirem elaboração.

A península do Sinai era uma importante fonte de cobre na Antiguidade e prova disso é que os egípcios dependiam basicamente do saque para obtê-lo. Para isso, tinham de penetrar bem longe na região. Um faraó da 12ª. Dinastia (época de Abraão) deixou-nos estes comentários de seus feitos: "Atingindo as fronteiras de países estranhos com seus pés; explorando vales misteriosos, alcançando os limites do desconhecido". Ele também se vangloriou do fato de que seus homens não perderam nenhum caixote do butim.

Recentes explorações feitas no Sinai por cientistas trouxeram à luz muitas provas de que "durante a época do Antigo Império do Egito, no terceiro milênio a.C., a península era densamente habitada por tribos semitas que fundiam cobre e mineravam turquesa, e que resistiram à penetração das expedições faraônicas em seu território" (Beno Rothenberg, Sinai Explorations 1967-1972). "Conseguimos constatar a existência de um empreendimento metalúrgico-industrial bastante grande... Lá há muitas minas de cobre, acampamentos de mineiros e instalações de fundição disseminados desde a região oeste da parte sul do Sinai até Eilat, no alto do golfo de Ácaba.”

Eilat, conhecida na época do Velho Testamento como Etzion-­Gaber, foi realmente a "Pittsburgh da Antiguidade". Cerca de vinte anos atrás, Nelson Glueck descobriu as minas do rei Salomão em Timna, um pouco ao norte de Eilat. Ele constatou que o minério era levado para Etzion-Gaber, fundido e refinado em "um dos maiores, senão o maior, centro metalúrgico existente na Antiguidade" (Rivers in the Desert).

Os indícios arqueológicos mais uma vez combinam com os textos bíblicos e mesopotâmicos. Asaradão, rei da Assíria, vangloriou-­se de que "sobre Qanayah, rei de Tilmun, impus tributo". Os quenitas são mencionados no Velho Testamento como habitantes do sul da península do Sinai e seu nome significa, literalmente, "ferreiros, metalúrgicos". Quando Moisés fugiu do Egito, indo para Madiã, ele casou-se com uma moça da tribo dos quenitas. R. J. Forbes (The Evolution of the Smith) salientou que o termo bíblico qain ("ferreiro") origina-se do sumério KIN ("moldador").

O faraó Ramsés III, que reinou um século depois do êxodo, deixou registrada a invasão desses povoados de artesãos do cobre que ele comandou e o saque ao centro metalúrgico de Timna-Eilat:

Destruí o povo de Seir, as tribos do Shasu; saqueei suas tendas, suas posses e seu gado incontável. Eles foram amarrados e trazidos cativos, como um tributo ao Egito. Dei-os aos deuses, para serem escravos em seus templos.

Mandei meus homens para o País Antigo, para as suas grandes minas de cobre. Uns foram transportados em galeras, outros fizeram a viagem por terra, indo em seus asnos. Nunca se ouviu contar nada como isso, desde que começaram os reinos dos faraós.

As minas tinham cobre em abundância e ele foi colocado aos milhares nas galeras. Sendo enviado para o Egito, chegou em segurança. As barras de cobre, 100 mil delas, da cor de ouro devido à três refinações, mandei empilhar sob o balcão do palácio. Deixei que todo o povo as visse, como se fossem maravilhas.

Lembremo-nos de que os deuses condenaram Enkidu a passar o resto da vida nas minas. Foi por isso que Gilgamesh concebeu o plano de construir um "Barco do Egito" e levar ele mesmo o companheiro, pois a Terra das Minas e a Terra dos Mísseis ficavam no mesmo território. Assim, minha identificação está de acordo com os dados antigos.

Antes de continuarmos a reconstrução dos eventos históricos e pré-históricos, é importante fortalecer à conclusão de que Tilmun era o nome sumério da península do Sinal. Porém, não é isso que os estudiosos pensam. Vamos então analisar seus pontos de vista e mostrar por que estão errados.

Uma persistente escola de pensamento que teve como seus primeiros defensores P. B. Cornvall (On the Location of Tilmun) identifica Tilmun (às vezes escrito "Dilmun") como sendo a ilha de Bahrein, no golfo Pérsico. Esse ponto de vista se apóia numa inscrição de Sargão II da Assíria, onde ele afirmava que entre os reis que lhe pagavam tributo estava "Uperi, rei de Dilmun, cujo reino fica situado como um peixe, a uma distância de trinta horas duplas, no meio do mar onde o sol se levanta". Devido a essa informação, concluiu-­se que Tilmun era uma ilha. Os eruditos que defendem essa teoria identificam "o mar onde o sol se levanta" como o golfo Pérsico. Assim, dão a ilha de Bahrein como resposta.

Há muitas falhas nessa interpretação. Primeiro, é possível que apenas a capital de Tilmun ficasse numa ilha. Os textos não deixam dúvida de que existia uma Terra de Tilmun e uma Cidade de Tilmun. Segundo, outros textos assírios que descrevem cidades como estando localizadas "no meio do mar" referem-se a povoados litorâneos, situados em baías ou promontórios, e não em ilhas, como, por exemplo, Arvad, na costa do Mediterrâneo. Além disso, se o "mar onde o sol se levanta" indica uma extensão de água a leste da Mesopotâmia, o golfo Pérsico não se aplica, pois ele fica ao sul e não a leste da região. E mais, Bahrein está situada perto demais da Mesopotâmia para justificar trinta horas duplas de navegação. A ilha dista cerca de 450 quilômetros dos portos mesopotâmicos e, mesmo navegando-se muito devagar, sessenta horas de viagem cobririam uma distância muitas vezes maior.

Outra importante falha na teoria Bahrein/Tilmun é a relativa aos produtos que faziam a fama de Tilmun. Já nos tempos de Gilgamesh, a área não era restrita em sua totalidade. Havia uma parte dela, como vimos, onde condenados trabalhavam nos escuros e poeirentos túneis das minas extraindo cobre e pedras preciosas. Sempre ligada à Suméria pela cultura e comércio, Tilmun a abastecia com certos tipos especiais de madeira, e de suas áreas cultivadas - tema da história que vimos anteriormente, onde Ninsikilla suplicou ao pai que lhe arranjasse água - saíam as cebolas e tâmaras mais famosas da Antiguidade.

Bahrein nunca teve uma cultura desse tipo e suas tamareiras sempre produziram frutos comuns. Assim, para justificar sua escolha como Tilmun, a escola de pensamento que defende essa teoria sugere que Bahrein era um porto de transbordo (Geoffrey Bibby, em Looking for Dilmun, e outros autores). Ela concorda que as famosas tâmaras vinham de um lugar mais distante, mas afirma que os navios que as transportavam não iam até os portos da Mesopotâmia. Eles ancoravam em Bahrein e os mercadores sumérios transferiam a carga para outras embarcações, que então faziam a etapa final até seu país. Era por isso que, quando os escribas registravam o local de onde precedia a carga, escreviam "Dilmun", querendo referir-se a Bahrein.

Ora, por que navios que tinham navegado tão grandes distâncias deixariam de fazer o curto percurso até o destino final da carga na Mesopotâmia? Por que tanto trabalho de carga e descarga que só serviria para aumentar o custo? Essa teoria também vai contra as afirmações de governantes da Suméria e Acad de que os navios de Tilmun, bem como os de outros países, ancoravam em seus portos. Ur-Nanshe, rei de Lagash dois séculos depois que Gilgamesh governou Uruk, afirmou que "os navios de Tilmun... trouxeram-me madeira como tributo". Reconhecemos o nome "Tilmun" nessa inscrição pelo pictógrafo para "míssil". Sargão, o primeiro governante de Acad, vangloriou-se de que "no cais de Acad ele fez aportar os navios de Meluhha, navios de Magan e navios de Tilmun".

É bastante provável, portanto, que os navios de Tilmun levavam os produtos diretamente para os portos da Mesopotâmia, como seria de se esperar dentro de todos os parâmetros da lógica e economia. Os textos antigos também falam de exportações de mercadorias da Mesopotâmia para Tilmun. Uma inscrição registra o envio de um carregamento de trigo, queijo e cevada descascada de Lagash para Tilmun (cerca de 2.500 a.C.) sem nenhuma menção de transbordo de carga numa ilha qualquer.

Um dos principais oponentes da teoria Bahrein/Tilmun, Samuel N. Kramer (Dilmun, the "Land of the Living"), salientou o fato de que os textos mesopotâmicos descreviam Tilmun como "um país distante", que se atingia à custa de risco e aventura. Essas afirmações não combinam com uma ilha próxima à qual se chega depois de poucas horas de navegação nas águas tranqüilas do golfo Pérsico. Ele também enfatizou a importância do fato de vários textos mesopotâmicos colocarem Tilmun perto de duas extensões de água, e não dentro ou perto de apenas uma. Os textos acadianos diziam: "Tilmun ina pi narati" - "Tilmun, na boca das duas águas correntes" -, isto é, onde se iniciam duas extensões de água.

Guiado por uma outra declaração, que dizia que Tilmun era a terra "onde o sol se levanta", Kruner concluiu, primeiro, que Tilmun situava-se em terra firme e não numa ilha, e segundo, que devia ficar a leste da Suméria, pois é no leste que o sol se levanta. Procurando no mapa um lugar a oriente da Mesopotâmia onde duas extensões de água se encontram, ele só conseguiu descobrir um ponto a sudeste, onde o golfo Pérsico encontra-se com o oceano Índico. Assim, com alguma hesitação, Kramer sugeriu: Tilmun ficava no Baluquistão ou em algum lugar perto do rio Indo.

A hesitação de Kramer derivou do fato bem conhecido de que numerosos textos sumérios e acadianos, que dão listas de países e povos, não colocam Tilmun entre as terras do leste como Elam e Aratra. Em vez disso, juntam como terras próximas umas das outras Meluhha (Núbia, Etiópia), Magan (Egito) e Tilmun. A proximidade entre o Egito e Tilmun fica bem clara no final do texto "Enki e Ninhursag", onde fala-se da designação de Nintulla como Senhor de Magan e Enshag como Senhor de Tihnun, que recebem as bênçãos dos dois grandes deuses. Essa proximidade também fica evidente a partir de um notável texto escrito como uma autobiografia de Enki, que descreve suas atividades depois do dilúvio, quando ficou ajudando a humanidade e estabelecendo suas civilizações. Mais uma vez, Tilmun é listada junto com Magan e Meluhha:

As terras de Magan e Tilmun

Levantaram os olhos para mim.

Eu, Enki, ancorei o barco Tilmun na costa,

Carreguei até o alto o barco Magan.

O alegre barco de Meluhha

Transporta ouro e prata.

Em vista da proximidade de Tilmun com o Egito, o que devemos pensar das afirmações de que Tilmun ficava "onde o sol se levanta", significando, como dizem os estudiosos, um país a leste da Suméria e não a oeste, como a península do Sinai?

A resposta, e bem simples, é que os textos não afirmam nada disso. Eles não falam "onde o sol se levanta", mas sim" onde Shamash ascende" - e é aí que está toda a diferença. Tilmun não ficava a leste da Mesopotâmia e com toda a certeza era o lugar onde Utu/ Shamash - que não era o Sol, apenas usava como símbolo - ascendia aos céus em seus foguetes. As palavras da Epopéia de Gilgamesh são bem claras:

À montanha de Mashu ele chegou,

Onde durante o dia os Shem ele observou

Enquanto iam e vinham...

Homens-foguete guardam seu portão...

Eles vigiam Shamash

Enquanto ele ascende e descende.

E aquele era o lugar para onde Ziusudra fora levado depois do dilúvio:

Na Terra da Travessia,

Na montanhosa Tilmun

- O lugar onde Shamash ascende -

Eles o fizeram residir.

E foi assim que Gilgamesh - que teve negada a permissão de montar um Shem e acabou contentando-se apenas em conversar com seu ancestral - partiu a sua procura, dirigindo seus passos para o monte Mashu em Tilmun - o monte de Moshe (Moisés), na península do Sinai.

Os botânicos modernos têm se surpreendido com a variedade da flora da península, pois lá foram encontradas mais de mil espécies de plantas, muitas que só dão ali, variando de árvores a pequeninos arbustos. Onde existe água, como no oásis, nas dunas litorâneas e leitos dos wadis, essa vegetação cresce com impressionante persistência por ter se adaptado ao clima e hidrografia únicos da península do Sinai. As regiões a nordeste da península podem ter sido a fonte das apreciadas cebolas. O nome inglês para a variedade com caule longo e verde - scallion - lembra o porto de onde esse petisco era exportado para a Europa: Ascalon, na costa do Mediterrâneo, logo no norte do Riacho do Egito.

Uma das árvores que se adaptaram às singulares características do Sinai é a acácia, que acomoda sua alta taxa de transpiração crescendo apenas nos leitos dos wadis, onde explora a umidade subterrânea com um eficiente sistema de longas raízes. Como resultado disso, a acácia pode viver quase dez anos sem chuva. Essa árvore tem uma madeira muito apreciada e, segundo o Velho Testamento, a arca e outros componentes do Tabernáculo eram feitos dela. Ela bem poderia ser a madeira especial que os reis da Suméria importavam para a construção de seus templos.

Uma visão sempre presente na península do Sinai são as tamargueiras, pequenas árvores que acompanham o curso dos wadis o ano inteiro, pois suas raízes também descem até a umidade abaixo da superfície e elas conseguem sobreviver mesmo onde a água é salobra ou salina. Depois de invernos particularmente chuvosos, os bosques de tamargueiras ficam cheios de uma substância doce e granulosa, que é a excreção de pequenos insetos que vivem de seus frutos. Os beduínos ainda hoje a chamam pelo seu nome bíblico - maná.

Todavia, a árvore mais associada a Tilmun na Antiguidade era a tamareira, que continua sendo a principal planta do Sinai em termos econômicos. Pedindo um mínimo de cultivo, ela atende a todas as necessidades básicas dos beduínos. Seus frutos constituem um alimento saboroso e nutritivo, cascas e caroços são dados aos camelos e cabras, o tronco é usado na construção e como combustível, as folhas servem para fazer telhados e as fibras para a confecção de cordas e também são empregadas na tecelagem.

Sabemos, através dos registros mesopotâmicos, que as tâmaras eram um importante produto de exportação de Tilmun. Os frutos vindos dessa região, por serem grandes e saborosos, ganhavam lugar de destaque nas receitas culinárias. Um texto de Uruk, a cidade de Gilgamesh, falando dos alimentos que deviam ser dados aos deuses, especificava: "todos os dias do ano, para as quatro refeições diárias, 108 medidas de tâmaras comuns e tâmaras da Terra de Tilmun, e também figos e passas... deverão ser oferecidos às divindades". A cidade mais próxima da antiga rota terrestre entre a península do Sinai e a Mesopotâmia era Jericó, na Bíblia chamada de "Jericó, a cidade das tâmaras".

A tamareira, como já vimos extensivamente, foi adotada como um símbolo sagrado em todas as religiões do antigo Oriente Médio. O salmista bíblico prometeu que "os justos, como a tamareira, florescerão". O profeta Ezequiel teve uma visão do templo de Jerusalém reconstruído, ornamentado com "querubins e tamareiras” alternados. Residindo entre os judeus que tinham sido levados à força para a Babilônia, Ezequiel estava bem familiarizado com o tema artístico dos Seres Alados e a Tamareira.

Junto com o Disco Alado (o emblema do 12° Planeta), o símbolo mais constante em todos os países da Antiguidade era o da Árvore da Vida. Escrevendo em Der Alte Orient, Felix von Luschau mostrou em 1912, época da publicação do artigo, que os capitéis das colunas jônicas e egípcias eram, de fato, estilizações da Árvore da Vida sob a forma de uma tamareira, e confirmou sugestões anteriores de que o Fruto da Vida tão decantado nas lendas e contos épicos era uma variedade especial de tâmara. Encontramos o tema da tamareira como o símbolo da Vida avançando até o Egito muçulmano, como se pode ver nas ornamentações da grande mesquita do Cairo.

Importantes estudos, como De Boom des Levens en Schrift en Historie de Henrik Bergema e The King and the Tree of Life in Ancient Eastern Religion, de Geo. Widengren, mostram que o conceito de uma Árvore da Vida, crescendo numa Morada dos Deuses, espalhou-se do Oriente Médio para o mundo todo e tornou-se um princípio básico de todas as religiões da Terra.

A fonte de todos esses desenhos e crenças foram os registros sumérios falando da Terra dos Vivos.

Tilmun,

Onde a mulher velha não diz "Sou uma velha",

Onde o homem velho não diz "Sou um velho".

Os sumérios, mestres em jogos de palavras, chamavam a Terra dos Mísseis de TIL.MUN. Todavia, o termo também podia significar "Terra dos Vivos", pois TIL também era "Vida". A Árvore da Vida em sumério era GISH.TIL, mas GISH também era o nome para um objeto manufaturado, algo feito pela mão do homem. Assim, GISH.TIL também podia ser "O Veículo para a Vida" - um foguete espacial. Na arte também encontramos os homens-águia saudando às vezes um foguete e em outras uma tamareira.

Os laços se apertam ainda mais quando descobrimos que na arte religiosa grega o omphalo era associado com a tamareira. Uma antiga pintura de Delfos mostra que a réplica do omphalos erigida no lado de fora do templo de Apolo ficava perto de uma tamareira. Já que esse tipo de árvore não cresce na Grécia, os eruditos acreditam que a tamareira era feita de bronze. A associação de omphalos com a tamareira deve ter sido uma questão de simbolismo básico, pois desenhos desse tipo repetiam-se em outros centros de oráculos gregos.

Vimos anteriormente que o omphalos é um vínculo entre os centros de oráculo da Grécia, Egito, Núbia e Canaã, e o Duat. Agora encontramos essa Pedra do Esplendor ligada à tamareira - a Árvore da Terra dos Vivos.

De fato, os textos sumérios que acompanhavam os desenhos dos querubins e a Árvore da Vida incluíam a seguinte invocação:

A árvore de Enki, marrom-escura, seguro em minha mão;

A árvore que faz a contagem, a grande arma voltada para os céus,

Seguro em minha mão;

A palmeira, a grande árvore de oráculos, seguro em minha mão.

Um desenho da Mesopotâmia mostra um deus segurando essa "palmeira, grande árvore de oráculos". Ele concede o Fruto da Vida a um rei no lugar dos "quatro deuses". Já tivemos a oportunidade de conhecê-los nos textos e desenhos egípcios: eles eram os deuses dos quatro pontos cardeais que apareciam perto da Escada para o Céu no Duat. Vimos também, nos desenhos sumérios, que o Portão para o Céu era marcado por uma tamareira.

Com tudo isso, não resta dúvida de que o alvo das antigas buscas pela imortalidade era um espaço-porto localizado em alguma parte da península do Sinai.

11

MONTE ENGANADOR

Em algum lugar da península do Sinai, os Nefilim instalaram seu espaço-porto pós-diluviano e alguns poucos e escolhidos mortais, com as bênçãos de seus deuses, podiam se aproximar de uma determinada montanha. Foi lá que Alexandre, o Grande, recebeu a ordem do homem-pássaro que montava guarda: "Volta! Volta, pois a terra em que estás pisando é solo sagrado!" Também foi lá que homens-águia atacaram Gilgamesh com seus raios atordoadores, quando então perceberam que ele não era um simples mortal.

Os sumérios chamavam essa montanha de MA.SHU - o Monte do Supremo Barco. As lendas de Alexandre referem-se a ele como o monte Mushas - a montanha de Moisés. A natureza, as funções idênticas e o mesmo nome sugerem que em todos os casos ele era um marco geográfico indicando aos aventureiros o destino final de sua longa jornada. Assim, parece que a resposta à pergunta: "Em que lugar da península ficava o portão do espaço-porto?", está bem próxima. Afinal, a montanha do Êxodo, o "monte Sinai", claramente marcada nos mapas da região, é o mais alto entre os grandes maciços de granito do sul da península.

Há 33 séculos os judeus comemoram sua Páscoa, ocasião em que relembram o êxodo do Egito. Os registros históricos e religiosos estão cheios de referências a esse evento, às perambulações pelo deserto e a aliança com Deus feita no monte Sinai. O povo judeu é constantemente lembrado da Teofania, quando toda a nação de Israel viu o Senhor Iahweh resplandecendo em toda sua glória no monte sagrado. No entanto, os registros sempre procuraram não colocar ênfase excessiva sobre a localização exata dessa montanha, de modo a não estimular a transformação do lugar num centro de culto. Não existe nenhuma menção na Bíblia sobre alguém que tenha ao menos tentado voltar ao monte Sinai para uma vista, com exceção do profeta Elias. Cerca de quatro séculos depois do êxodo, ele fugiu para salvar sua pele depois de ter matado os sacerdotes de Baal no monte Carmelo. Tentando atingir o monte, Elias perdeu-se no deserto. Foi um anjo do Senhor que o fez recobrar a consciência e que o abrigou numa caverna da montanha.

Atualmente, pelo menos à primeira vista, ninguém precisa de um anjo protetor para encontrar o monte Sinai. O peregrino moderno, como tantos outros no passado, dirige seu rumo para o mosteiro de Santa Catarina, que tem esse nome em homenagem à Catarina do Egito, santa e mártir, cujo corpo foi levado para a montanha mais alta da península pelos anjos. O peregrino, depois de passar a noite no mosteiro, começa a subir o djebel Musa ("monte Moisés", em árabe) logo ao nascer do dia. Esse é o pico mais meridional de um maciço de 3 quilômetros que se eleva ao sul do mosteiro e trata-se do monte Sinai "tradicional", ao qual estão associados a Teofania e a entrega das Tábuas da Lei.

A subida até esse monte é uma empreitada longa e penosa, pois ele tem 760 metros de altura. Um dos meios é se utilizar uma escada com 4 mil degraus construída pelos monges na encosta oeste do maciço. O caminho mais fácil, mas que consome várias horas de caminhada, começa no vale, entre o maciço e uma montanha que apropriadamente tem o nome de Jetro, o sogro de Moisés, e vai subindo pela encosta leste até atingir os últimos 750 degraus da primeira trilha. Foi nessa interseção, segundo as tradições dos monges, que Elias encontrou-se com o Senhor.

Uma capela cristã e um santuário muçulmano, ambos pequenos e de construção modesta, marcam o local onde as Tábuas da Lei foram entregues a Moisés. Uma caverna próxima é venerada como sendo a "fenda na rocha", onde Deus mandou Moisés se esconder durante sua passagem, como relatado em Êxodo 33:22. Um poço que fica na trilha de descida é identificado como o local para onde Moisés levava o rebanho de seu sogro para beber água. Em toda a região do djebel Musa e seus arredores existem marcos definidos pelas tradições dos monges para todos os eventos associados com a montanha sagrada.

Do djebel Musa, pode-se avistar os outros picos do maciço de granito e, surpreendentemente, nota-se que ele parece ser mais baixo que muitos de seus vizinhos.

De fato, para fortalecerem a lenda de Santa Catarina, os monges afixaram no mosteiro uma placa que diz:

ALTITUDE 1.527 metros

MONTE MOISÉS 2.305 metros

MONTE STA. CATARINA 2.615 metros

Dessa forma, o visitante é levado a acreditar que o monte Santa Catarina é mesmo o mais alto da península e por isso teria sido escolhido pelos anjos para abrigar o corpo da santa. Ao mesmo tempo, o peregrino também fica um tanto decepcionado ao constatar que, ao contrário das crenças, Deus, ao levar os filhos de Israel para aquela região, com a intenção de impressioná-los com seu poder e impor suas leis, não escolheu para isso a montanha mais alta.

Teria Deus se enganado na escolha do monte?

Em 1809, o erudito suíço Johann Ludwig Burckhardt chegou ao Oriente Médio sob o patrocínio da Associação Britânica para a Promoção de Descobertas no Interior da África. Depois de estudar os costumes muçulmanos e árabes, ele vestiu uma túnica, colocou um turbante e assumiu um novo nome, passando a chamar­-se Ibrahim Ibn Abd Allah - Abraão, o Filho do Servo de Alá -, e assim conseguiu viajar por áreas até então proibidas aos infiéis. Nessas viagens, ele descobriu, entre muitas coisas, os templos egípcios de Abu Simbel e Petra, a cidade de pedra dos nabateus, na Transjordânia.

Em 15 de abril de 1816, Burckhardt partiu de Suez, em lombo de camelo, decidido a seguir a rota do êxodo, pretendendo estabelecer a verdadeira localização do monte Sinai. Seguindo o caminho presumível dos israelitas, ele viajou rumo sul, acompanhando o litoral oeste da península. Nessa região, o terreno montanhoso começa a cerca de 15 ou 20 quilômetros da costa, formando-se assim uma desolada planície litorânea cortada aqui e ali por wadis e algumas fontes de águas quentes, inclusive uma que costumava ser freqüentada pelos faraós.

Enquanto descia pelo platô de calcário da península, Burckhardt ia anotando a geografia, topografia e distância da região, comparando os marcos, condições e nomes de lugares com as descrições das várias etapas do êxodo registradas na Bíblia. Quando termina esse platô calcário, inicia-se uma faixa de areia, que o separa de um cinturão de arenito núbio. Essa faixa de terreno arenoso é uma dádiva da natureza para o viajante que pretende atingir o interior da península, pois ela funciona como uma avenida que corta o Sinai de leste a oeste. Foi por meio dela que Burckhardt penetrou no interior da península. Depois de algum tempo de viagem, ele tomou rumo sul, entrando na área das montanhas de granito, e acabou atingindo o mosteiro de Santa Catarina pelo norte (como faz atualmente o peregrino que chega de avião).

Algumas de suas observações continuam sendo de grande valia para os estudiosos. A região, como ele registrou, produzia excelentes tâmaras; os monges, por tradição, costumavam enviar grandes caixas de frutas ao sultão de Constantinopla como um tributo anual. Tendo feito amizade com os beduínos da área, Burckhardt acabou sendo convidado para a festa anual de "São Jorge", que os árabes chamavam de "El Kadir" - o "sempre verde"!

O explorador suíço subiu aos montes Musa e Santa Catarina, e estudou minuciosamente seus arredores, tendo ficado especialmente fascinado com o monte Umm Shumar - apenas 55 metros mais baixo que o Santa Catarina -, que se eleva um pouco a sudoeste do grupo Musa-Santa Catarina. Visto de longe, seu pico cintila ao sol "com uma brancura incrível", devido a uma quantidade incomum de mica na rocha, formando um "impressionante contraste com a superfície escura da ardósia e do granito vermelho" da parte mais baixa da montanha e suas adjacências. O pico também era o único que proporcionava uma visão mais livre do golfo de Suez ("o porto de El-Tor estava claramente visível") e do golfo de Ácaba. Examinando os documentos arquivados no convento, Burckhardt descobriu a informação de que antes o monte Umm Shumar era a principal localização dos povoados monásticos. No século XV, "caravanas de asnos carregados de milho e outras provisões passaram regularmente por esse lugar, vindos de El-Tor, pois este é o caminho mais próximo do porto".

O pesquisador suíço voltou via wadi Feiran e seu oásis, o maior da península sinaítica. No ponto onde o wadi deixa as montanhas e atinge a faixa litorânea, ele encontrou e escalou uma montanha magnífica, o monte Serbal, com 2.074 metros de altitude, um dos mais altos da península, onde encontrou restos de santuários e inscrições de peregrinos. Depois de pesquisas adicionais, Burckhardt determinou que o principal centro monástico da região fora, durante muitos séculos, essa área do Feiran com sua imponente montanha.

Quando Burckhardt publicou suas descobertas (Travels in Syria and the Holy Land), houve uma comoção nos meios bíblicos e acadêmicos, pois, segundo ele, o verdadeiro monte Sinai não era o monte Musa, mas o Serbal!

Inspirado pelas propostas de Burckhardt, o conde francês Léon de Laborde viajou pela península sinaítica em 1826 e 1828. A principal contribuição que deixou para o conhecimento da região foram seus excelentes mapas e desenhos (em Commentaire sur L'Exode). Em 1839, o artista escocês David Roberts seguiu o mesmo roteiro.

Seus magníficos e cuidadosos desenhos, embelezados com uma pitada de imaginação, despertaram grande interesse naquela época em que ainda não existia a fotografia.

Uma outra viagem importante pela região foi a realizada por Edward Robinson e Eli Smith, dois americanos. Tal como Burckhardt, eles partiram de Suez em camelos, levando consigo o livro do suíço e os mapas de Laborde, e levaram treze dias para chegar ao Santa Catarina. No mosteiro, Robinson estudou minuciosamente as lendas do lugar e descobriu que existira mesmo em Feiran uma comunidade monástica superior, às vezes liderada por bispos, à qual o Santa Catarina e outros mosteiros eram subordinados. Ele constatou também que os santuários de Santa Catarina e Musa não tinham tido grande importância nos primeiros séculos da era cristã e que a supremacia do primeiro só começara a se estabelecer no século XVII, quando as outras comunidades caíram nas mãos de invasores e salteadores. Estudando as tradições árabes, Robinson descobriu também que os nomes bíblicos "Sinai" e "Horeb" eram totalmente desconhecidos para os beduínos e que foram os monges de Santa Catarina que os aplicaram a certas montanhas.

Então Burckhardt estava certo? Robinson, segundo seu livro Biblical Researches in Palestine, Mount Sinai and Arabia Petraea, não concordou com a rota que o suíço determinara como aquela usada pelos israelitas para atingir Serbal e por isso absteve-se de endossar a nova teoria. Todavia, deixou claro que tinha dúvidas a respeito do monte Musa e indicou uma montanha próxima como a melhor escolha.

A possibilidade de que a antiga tradição identificando o monte Musa como o Sinai da Bíblia podia estar errada foi encarada como um desafio pelo grande egiptólogo e fundador da arqueologia científica, Karl Richard Lepsius. Ele atravessou o golfo de Suez de barco e foi até El-Tor ("o touro"), porto onde os peregrinos cristãos que se dirigiam ao Musa e Santa Catarina costumavam desembarcar, já muito antes de os muçulmanos transformarem a cidade num importante ponto de parada e centro de descontaminação na rota entre o Egito e Meca. Perto dele eleva-se o majestoso monte Umm Shumar, que Lepsius classificou como um possível "candidato" ao Sinai, junto com o Musa e o Serbal. Todavia, depois de extensas pesquisas e muitas andanças pela região, ele descartou essa possibilidade e concentrou-se nos dois últimos.

Suas descobertas foram publicadas em Discoveries in Egypt, Ethiopia and the Peninsula of Sinai 1842-1845 e em Letters from Egtypt, Ethiopia and Sinai, este último incluindo o texto completo (em tradução do alemão) de seus relatórios ao rei da Prússia, que patrocinava suas expedições. Este Lepsius deu voz a suas dúvidas sobre o monte Musa: "O isolamento do distrito, sua distância das estrelas e posição naquela cadeia de montanhas tão alta... o tornariam adequado apenas para eremitas e, pelo mesmo motivo, pouco apropriado para reunir uma grande quantidade de pessoas. Lepsius estava certo de que as centenas de milhares de israelitas do êxodo não poderiam ter subsistido na região montanhosa em torno do Musa durante o período de quase um ano em que permaneceram na península. As tradições dos monges começavam a partir do século VI e, portanto, não podiam servir de guia para o pesquisador.

O monte Sinai, enfatizou Lepsius, tinha de ficar numa planície desértica, pois nas Escrituras ele era chamado de monte Horeb, o monte da Secura. Musa ficava entre outras montanhas e a área não era desértica. A planície costeira diante do monte Serbal ajustava-se melhor a esses parâmetros. Era grande o suficiente para acomodar as multidões de israelitas que assistiram à Teofania e o wadi Feitan adjacente era o único na região que poderia tê-las sustentado, e ao seu gado, durante um ano. Além disso, somente a posse sobre esse vale "único e fértil" poderia justificar o ataque amalecita (segundo a Bíblia, em Refidim, um desfiladeiro perto do monte Sinai). Na região em torno do Musa não existia uma área fértil, digna de ser alvo de disputa. Moisés chegou ao Sinai pela primeira vez quando procurava pasto para o rebanho do sogro, algo que poderia encontrar em Feitan, mas jamais no desolado Musa.

Mas, se o monte Musa não era o Sinai da Bíblia, o que dizer do monte Serbal? Além da sua localização "correta" em wadi Feiran, Lepsius encontrou algumas evidências concretas. Descrevendo o Serbal em termos entusiasmados, ele relatou ter encontrado em seu topo "uma profunda depressão, em torno da qual os cinco picos da montanha se juntam num meio círculo e formam uma imponente coroa". No meio da depressão ele descobriu as ruínas de um antigo convento. Em sua opinião, fora nesse local que a "Glória de Deus" descera diante dos olhos dos israelitas, que a tudo assistiam reunidos na planície a oeste da montanha. Quanto à falha que Robinson encontrara na rota do êxodo determinada por Burckhardt, e que não se encaixaria com o monte Serbal, Lepsius tinha uma teoria que poderia representar a solução do problema.

Quando as conclusões do respeitado arqueólogo foram publicadas, elas sacudiram as tradições estabelecidas, pois ele enfaticamente negava que o monte Musa era o Sinai, escolhendo para isso o Serbal, e contestava a rota do êxodo, antes aceita como plenamente estabelecida.

O acalorado debate que se seguiu à publicação de seus livros durou quase um quarto de século e gerou longas explanações de outros pesquisadores, como Charles Foster (The Historical Geography of Arabia: Israel in the Wilderness) e William H. Bartlett (Forty Days in the Desert on the Track of the Israelites), que acrescentaram novas sugestões, afirmações e dúvidas. Em 1868, o governo britânico juntou-se ao Fundo de Exploração da Palestina no envio de uma grande expedição à península sinaítica, cuja missão era fazer um extenso trabalho geodésico e de mapeamento, e estabelecer de uma vez por todas a rota do êxodo e a localização exata do monte Sinai da Bíblia. O grupo era liderado pelos capitães Charles W. Wilson e Henry Spencer Palmer, dos Royal Engineers, e incluía o professor Edward Henry Palmer, famoso especialista em assuntos árabes e orientais. O relatório oficial da expedição (Ordnance Survey of the Peninsula of Sinai) foi ampliado pelos dois Palmer em obras separadas.

Os outros pesquisadores que haviam escrito sobre a região tinham visitado o Sinai na primavera e passado pouco tempo lá. A expedição Wilson-Palmer partiu de Suez em 11 de novembro de 1868 e retornou em 24 de abril de 1869, permanecendo, portanto, na península desde o começo do inverno até a primavera seguinte. Por isso, uma de suas primeiras descobertas foi que fazia muito frio no sul montanhoso durante o inverno e lá nevava muito, tornando quase impossível a passagem pela área. Os picos mais altos, como o Musa e o Santa Catarina, permaneciam cobertos de neve por vários meses. Os israelitas, que nunca tinham visto neve no Egito, supostamente haviam passado um ano nessa região. Todavia, na Bíblia não existe nenhuma menção à neve ou mesmo a clima frio.

Enquanto o livro do capitão Palmer (Sinai: Ancient History from the Monuments) oferece dados sobre os indícios arqueológicos e históricos descobertos pela expedição - povoados antigos, presença egípcia, inscrições com o primeiro alfabeto conhecido -, o do professor Edward Palmer (The Desert of the Exodus) apresenta as conclusões da expedição sobre a rota dos israelitas e o monte Sinai da Bíblia.

Apesar das dúvidas que se mantiveram, o grupo vetou o Serbal e escolheu o Musa como o Sinai da Bíblia. No entanto, como diante do Musa não existia um vale onde os israelitas pudessem ter acampado, e assistido à Teofania, o professor Palmer apresentou uma solução: o monte Sina i da Bíblia não era o pico sul do maciço (o djebel Musa), mas o pico norte, o Ras-Sufsafeh, que dá para "a espaçosa planície de Er-Rahah, onde nada mais nada menos que 2 milhões de israelitas poderiam acampar". E ele concluiu: "Apesar das antigas tradições, sentimo-nos obrigados a rejeitar o djebel Musa como a montanha onde foram entregues as Tábuas da Lei".

As teorias do professor Palmer logo foram criticadas, apoiadas ou modificadas por outros eruditos; pouco tempo depois uma variedade de picos e rotas foi apresentada ao público como sendo a citada na Bíblia.

Mas o único local da península a ser pesquisado seria mesmo o sul? Em abril de 1860, o Journal of Sacred Literature publicou uma sugestão revolucionária: a montanha sagrada não ficava no sul da península; ela deveria ser procurada no platô central. O articulista anônimo salientava que o nome desse platô - Badiyeth el-Tih­ - era muito significativo, pois queria dizer "o deserto da caminhada" e, segundo os beduínos locais, era por lá que os filhos de Israel tinham vagado. O artigo também sugeria que um certo pico do El-Tih era o monte Sinai bíblico.

Em 1873, um geógrafo e lingüista chamado Charles T. Beke, que já explorara e mapeara a nascente do Nilo, partiu à procura do "verdadeiro monte Sinai". Depois de várias pesquisas, Beke determinou que o monte Musa não tinha esse nome por causa de Moisés, mas sim em homenagem a um monge do século IV, famoso pela sua piedade e milagres, e que ele só passara a ser considerado a montanha de Deus por volta do ano 550. Ele também salientou que Flávio Josefo, o judeu que registrou a história de seu povo para os romanos depois da queda de Jerusalém no ano 70, descreveu o monte Sinai como sendo o mais alto da península, o que deixava de fora o Musa e o Serbal.

Beke também indagou: como os israelitas poderiam ter descido ao sul da península sem serem impedidos pela guarnições egípcias que patrulhavam as áreas de mineração? Essa pergunta ficou sem resposta e somou-se a muitas outras objeções que jamais foram contestadas.

Apesar de seus estudos, Charles Beke nunca será lembrado como o homem que descobriu o verdadeiro Sinai, pois ele terminou concluindo que a montanha sagrada era um vulcão que ficava em algum lugar a sudoeste do mar Morto, como está em seu livro Discoveries of Sinai in Arabia and Midian. No entanto, ele levantou muitas dúvidas que abriram caminho para um novo modo de pensar sobre a localização do monte e a rota do êxodo.

A procura pelo monte Sinai na região meridional da península estava ligada à noção de uma "travessia pelo sul" ou uma "rota sul" do êxodo. Ela afirmava que os filhos de Israel tinham atravessado o mar Vermelho no alto do golfo de Suez e em seguida, encontrando-se na faixa litorânea a oeste da península, tinham descido para o sul e, a uma certa altura, penetrado no interior, fazendo talvez o caminho seguido por Burckhardt.

A travessia no sul era uma tradição antiga e muito enraizada, bastante plausível e respaldada por várias lendas. Segundo fontes gregas, Alexandre, o Grande, tentou imitar os israelitas atravessando o mar Vermelho no alto do golfo de Suez. Outro imperador que pretendeu realizar o mesmo feito foi Napoleão, em 1799. Seus engenheiros descobriram que no local onde o golfo forma como que uma "língua" que avança terra adentro, perto da cidade de Suez, existe um espinhaço de montanha submerso, com cerca de 180 metros de largura, que atravessa o golfo de costa a costa. Nativos ousados sempre usaram essa passagem na maré vazante, caminhando com água até a altura dos ombros. Além disso, quando sopra um vento leste muito forte, essa parte do leito do mar fica quase toda exposta.

Os engenheiros de Napoleão calcularam o local e a hora exatos para seu imperador imitar os filhos de Israel, mas uma mudança inesperada na direção do vento causou um súbito avanço da maré, que cobriu o banco rochoso com mais de 2 metros de água em poucos minutos. O grande Napoleão escapou por pouco.

Essas experiências, embora fracassadas, convenceram os estudiosos do século XIX de que a travessia se dera mesmo no alto do golfo de Suez, pois o vento realmente podia criar uma passagem enxuta e sua mudança brusca fazia as águas voltarem rapidamente, podendo afogar todo um exército. Além disso, na margem oposta do golfo, já na península, havia um monte, o djebel Mur ("a montanha amarga") e perto dele um lugar chamado Bin Mur ("o poço amargo"), que se ajustavam à bíblica Mará, o local das águas amargas, que os israelitas encontraram logo após a travessia. Um pouco mais ao sul ficava o oásis de Ayun Musa - "a fonte de Moisés". Não seria essa etapa seguinte do êxodo, Elim, lembrada na Bíblia pelas suas belas fontes e numerosas tamareiras? A travessia no alto do golfo de Suez, portanto, se ajustava bem à teoria de que dali os israelitas tinham feito uma rota para o sul, não importando qual fora o caminho tomado posteriormente para atingirem o interior da península.

A travessia no sul também concordava com os estudos mais recentes sobre o Egito Antigo e a servidão dos israelitas. O coração histórico do Egito era o centro Heliópolis-Mênfis e sempre partira-­se da hipótese de que os filhos de Israel tinham trabalhado como escravos na reconstrução das pirâmides de Gizé. Dessa região saía uma rota natural para o leste, que levava o viajante quase diretamente para o alto do golfo de Suez.

No entanto, quando as descobertas arqueológicas começaram a preencher as lacunas históricas e a fornecer uma cronologia adequada, ficou estabelecido que as grandes pirâmides tinham sido construídas cerca de quinze séculos antes do êxodo, ou seja, mais de mil anos antes até mesmo de os hebreus chegarem ao Egito. Os israelitas, concluíram então os estudiosos, deviam ter trabalhado na construção da nova capital que Ramsés II mandara erigir por volta de 1.260 a.C. chamada Tânis, e que ficava a nordeste do delta do Nilo. O local habitado pelos israelitas - a Terra de Gessem, da Bíblia -, conseqüentemente, teria de ficar muito mais a nordeste do que antes se imaginava.

A construção do canal de Suez (1859-1869), que foi acompanhada de uma enorme acumulação de dados topográficos, geológicos, climáticos e outros, confirmou a existência de uma fenda geológica que em eras primitivas unia o mar Mediterrâneo com o mar Vermelho através de um canal natural. Por vários motivos essa fenda foi encolhendo ao longo dos milênios, resultando numa sucessão de lagoas pantanosas, como os lagos Menzaleh, Ballah e Timsah, e mais dois lagos unidos, o Grande Amargo e o Pequeno Amargo, conhecidos pelo nome genérico de lagos Amargos. Todos eles deviam ser bem maiores na época em que o alto do golfo de Suez também estendia-se mais para o interior do continente.

Estudos arqueológicos que completaram os dados de engenharia estabeleceram que na Antiguidade havia dois "canais" na região, um que ligava o centro mais populoso do Egito com o Mediterrâneo e outro que fazia a mesma ligação com o golfo de Suez. Acompanhando os leitos naturais dos wadis ou afluentes secos do Nilo, eles transportavam água doce para a irrigação e consumo, e eram navegáveis. As descobertas confirmaram também que em tempos antigos existia uma barreira quase contínua de água que funcionava como a fronteira leste do Egito com a península do Sinai.

Em 1867, os engenheiros do canal de Suez elaboraram um diagrama mostrando uma seção transversal da região entre o Mediterrâneo e o golfo, mostrando as quatro ocorrências de terreno elevado submerso que na Antiguidade (como até nos tempos de hoje) serviam de passagens naturais, verdadeiros portais, para se entrar e sair do Egito vencendo a barreira aquosa.

(A) Entre as lagoas pantanosas de Mezaleh e lago Ballah; a cidade moderna que fica nesse local de travessia é El-Qantara ("O vão").

(B) Entre o lago Ballah e o lago Timsah; a cidade no local é Ismaília.

(C) Entre o lago Timsah e o Grande Lago Amargo - a elevação conhecida na era greco-romana como Serapeu.

(D) Entre o Grande Lago Amargo e o alto do golfo de Suez, onde existe uma verdadeira "ponte terrestre", conhecida como o Shalouf.

Por meio dessas passagens, várias rotas ligavam o Egito com a Ásia pela península do Sinai. Deve-se ter em mente que a travessia do mar Vermelho (mar/lago de Juncos) não foi um evento premeditado; ela só aconteceu depois que o faraó mudou de idéia sobre deixar os israelitas partirem. Foi então que o Senhor ordenou-os a voltar da margem do deserto, que já tinham atingido, e a "acampar junto ao mar". Portanto, originalmente, eles saíram do Egito por uma das passagens naturais. Mas qual delas?

DeLesseps, o principal construtor do canal de Suez, era de opinião que eles tinham usado o portal "C", ao sul do lago Timsah. Outros, como Olivier Ritter (Histoire de L'Isthme de Suez), concluíram, com base nos mesmos dados de engenharia, que foi pelo portal "D". Em 1874, o egiptólogo Heinrich Karl Brugsch, falando no Congresso Internacional de Orientalistas, identificou os marcos ligados à escravidão israelita e o êxodo na área a noroeste do Egito; portanto, a passagem mais lógica seria a "A".

A idéia da travessia pelo norte já tinha quase um século de idade quando Brugsch lançou sua teoria, pois fora apresentada no Hamelneld's Biblical Geography em 1796, e por vários outros pesquisadores. Todavia, Brugsch, como até seus adversários reconheceram, apresentou sua idéia com "real brilhantismo e uma impressionante quantidade de indícios comprobatórios extraídos dos monumentos egípcios". Seu trabalho foi publicado sob o título: L 'Exode et les Monuments Egyptiens.

Em 1883, Edouard H. Naville (The Store City of Pithom and the Route of the Exodus) identificou Pitom, a cidade do trabalho escravo dos israelitas, como um local a oeste do lago Timsah. Essas e outras identificações e indícios apresentados por outros eruditos, como Georg Ebers em Durch Gosen Zum Sinai, estabeleceram que o local de habitação dos israelitas ia do lago Timsah para oeste e não dali para o norte, como se imaginava. Gessem não ficava no extremo noroeste do Egito, mas sim nas cercanias da barreira aquosa.

H. Clay Trumbull (Kadesh-Barna) apresentou então a identificação que até hoje é aceita para Sucot, o ponto de partida do êxodo: tratava-se de um local de reunião de caravanas a oeste do lago Timsah e, portanto, a passagem "B" era a mais próxima. No entanto, ela não fornecia explicação para o trecho do Livro do Êxodo, 13:17-18, que diz: "Ora, quando faraó deixou o povo partir, Deus não o fez ir pelo caminho do país dos filisteus, apesar de ser mais perto... Deus, então, fez o povo dar volta pelo caminho do deserto do mar dos Juncos [Yam Suff]". Trumbull então sugeriu que os israelitas, perseguidos pelo faraó, desceram mais para o sul e terminaram na passagem "D", atravessando as águas no alto do golfo de Suez.

À medida que o século XIX se aproximava de seu fim, os eruditos se apressavam a dar a palavra final sobre o assunto da rota do êxodo. Os pontos de vista dos "sulistas" foram enfaticamente resumidos por Samuel C. Bartlett em The Veracity of the Hexateuch: a travessia se dera no sul, a rota fora para o sul e o monte Sinai ficava no sul da península (em Ras-Sufsafeh, área do djebel Musa). Com igual ênfase, eruditos como Rudolf Kittel (Geschichte der Hebrãer), Julius Wellhausen (Israel und Judah) e Anton Jerku (Geschichte des Volkes Israel) apresentaram a teoria de que a travessia se dera no norte, o que significava um monte Sinai situado no norte da península.

Um dos argumentos mais fortes dos "nortistas" e que atualmente é aceito como um fato por todos os estudiosos era que Cades-­Barnéia, local onde os israelitas permaneceram durante a maior parte de seus quarenta anos na península, não foi uma parada ao acaso, mas o destino premeditado do êxodo. A Cades-Barnéia da Bíblia foi firmemente identificada como sendo a fértil região dos oásis de Ain-Kadeis ("fonte de Cades") e Ain Qudeirat, situada no noroeste da península. Segundo o Deuteronômio 1:2, Cades-Barnéia ficava a "onze dias" do monte SinaL Kittel, Jerku e outros autores afirmaram, com base nessa afirmação, que o verdadeiro monte Sinai tinha de ficar nessa região.

No último ano do século XIX, H. Holzinger (Exodus) apresentou uma teoria que ficava no meio-termo: a travessia foi em "c" e a rota seguiu para o sul. Contudo, os israelitas penetraram no interior da península bem antes de atingirem as áreas de mineração egípcia protegidas por guarnições militares. Entraram no platô El-­Tih, "o deserto da caminhada", e então rumaram para o norte pela planície central, indo para um monte Sinai situado ao norte.

Quando começou o século XX, a questão central dos debates deixou de ser o local da travessia e todas as atenções se voltaram para a pergunta: Qual das rotas tradicionais que atravessam a península, ligando o Egito à Ásia, usadas desde tempos imemoriais, foi a seguida pelos israelitas em seu êxodo?

A antiga rota litorânea, chamada pelos romanos de Via Maris - ­"O Caminho do Mar" - começava em El Qantara ("A", no mapa) e, apesar de atravessar dunas de areia em constante mutação, era abençoada com poços de água em todo o trajeto e abundância de tamareiras, que forneciam frutos doces e nutritivos na estação adequada e sombra bem-vinda o ano inteiro.

A segunda rota, começando em Ismaília ("B"), corria quase paralela à primeira, mas a cerca de 30 ou 40 quilômetros mais para o interior, atravessando colinas ondulantes e uma ou outra montanha de baixa altitude. Nela, os poços naturais eram raros e o nível do lençol freático está muito abaixo da superfície, o que exige uma escavação de vários metros para se encontrar água num poço artificial. Mesmo o viajante moderno, que faz esse caminho de automóvel, pois as estradas da atualidade seguem as trilhas antigas, logo se dá conta de que está atravessando um deserto de verdade.

Desde as épocas mais primitivas, o caminho do mar era o preferido pelos exércitos que tinham apoio naval. A rota interna, mais árdua, era escolhida pelos que não queriam ser vistos pelas patrulhas litorâneas no Mediterrâneo.

A travessia da barreira aquosa no ponto "C" podia levar tanto para essa segunda rota como para as outras duas que, saindo da passagem "D", seguiam para uma cadeia de montanhas na planície central da península. O solo duro e plano da região não favorece o aparecimento de leitos de wadis profundos e, durante as chuvas de inverno, alguns desses rios intermitentes dão a impressão de serem pequenos lagos - lagos em pleno deserto! As águas logo escorrem, mas alguma quantidade se infiltra por entre a argila e o cascalho, e é nessa área que basta uma pequena escavação para se extrair água do subsolo.

Dessas duas rotas, a mais ao norte, que saía da passagem "D", levava o viajante para o desfiladeiro de Giddi, daí para a borda montanhosa da planície central e em seguida para Beersheva, Hebron e Jerusalém. A rota mais ao sul, que entra no desfiladeiro de Mida, tem o nome árabe de Darb El Hajj - "o caminho dos peregrinos" - e foi o primeiro caminho seguido pelos muçulmanos que saíam do Egito na direção de Meca, na Arábia. Começando a viagem perto da cidade de Suez, eles atravessavam uma faixa de deserto e penetravam na área montanhosa pelo desfiladeiro de Mitla. Atravessavam a planície central até o oásis de Nakhl, onde encontravam um forte para sua proteção, poços de água e estalagens. De Nakhl rumavam para o sudeste, atingiam a cidade de Ácaba, no alto do Golfo do mesmo nome, de onde desciam a costa da península Arábica até Meca.

Então, qual dessas quatro rotas fora a seguida pelos israelitas? Depois que Brugsch apresentou a teoria da travessia no norte, muito começou a se falar sobre a afirmação bíblica relacionada com o "caminho do país dos filisteus", que não fora tomado pelos israelitas "apesar de ser mais perto". A Bíblia explica que essa rota não foi usada "porque Deus achava que, diante dos combates, o povo poderia se arrepender e voltar para o Egito". A partir dessas palavras, os eruditos imaginaram que "o caminho do país dos filisteus" era a rota que acompanhava o litoral do Mediterrâneo (começando na passagem "A"), o caminho preferido pelos faraós para suas expedições comerciais e militares, e que, por esse motivo, estava cheia de fortes e guarnições egípcias.

Na virada do século, A. E. Haynes, capitão dos Royal Engineers, estudou as antigas rotas e recursos hídricos da península sinaítica sob o patrocínio do Fundo de Exploração da Palestina. Em seu relatório, publicado sob o título The Route of the Exodus, ele revelou uma impressionante familiaridade com as escrituras bíblicas e trabalhos de outros pesquisadores, inclusive do reverendo E. W. Holland, que esteve cinco vezes na península, e do major-general sir C. Warren, um estudioso dos recursos hídricos no "deserto da caminhada" na planície central. .

O capitão Haynes debruçou-se sobre o problema do "caminho que não foi tomado". Ora, se ele não era um meio fácil de atingir o destino final dos israelitas, por que fora mencionado como sendo uma alternativa viável? Haynes também salientou que Cades-­Barnéia - àquela altura já aceita como a meta preestabelecida do êxodo - ficava bem próxima da rota litorânea e, portanto, o monte Sinai, que, segundo a Bíblia, situava-se no caminho para Cades, também tinha de ficar perto dela.

Impedido de usar a rota litorânea, concluiu Haynes, Moisés provavelmente pretendeu fazer os israelitas seguirem para Cades ­- quando passaram pelo monte Sinai - usando a rota paralela, mais para o interior. Todavia, a perseguição dos egípcios e conseqüente travessia do mar Vermelho no ponto "D" podem ter forçado a escolha das rotas meridionais. Então a planície central era mesmo "o deserto da caminhada" e Nakhl seria uma importante estação intermediária, em cujas vizinhanças ficaria o monte Sinai da Bíblia. O monte em si deveria estar localizado a cerca de 150 quilômetros de Cades-Barnéia, o que igualaria, em seus cálculos, a distância bíblica de "onze dias". Seu candidato para ser o Sinai da Bíblia era o monte Yiallaq, uma montanha de calcário "de dimensões impressionantes, parecendo uma enorme craca" grudada na borda norte da planície central, "exatamente a meio caminho entre Ismaília e Cades". Haynes, escrevendo o nome desse monte Yalek, afirmou que ele aproxima-se bastante do antigo termo Amalek, onde o prefixo Am indica "país de".

Nos anos que se seguiram, a possibilidade de uma viagem dos filhos de Israel através da planície central ganhou vários defensores. Alguns, como Raymond Weill, em Le Séjour des lsraélites au Désert du Sinai, aceitaram bem a teoria de "um monte perto de Cades". Outros, como Hugo Gressmann, em Mose und seine Zeit, pensavam que os israelitas, ao saírem de Nakhl, não tinham ido para o nordeste, mas sim para o sudeste, tomando o rumo do golfo de Ácaba. Outros ainda - como Black, Bühl, Cheyne, Dillmann, Gardiner, Grãtz, Guthe, Meyer, Musil, Petrie, Sayce, Stade - concordavam ou discordavam total ou parcialmente dessas idéias. Mas, como todos os argumentos bíblicos e geográficos já estavam esgotados, a impressão era de que somente um teste de campo poderia resolver a questão de uma vez por todas. Porém, o maior problema era: como duplicar o êxodo, com o deslocamento de centenas de milhares de pessoas?

A resposta veio com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), pois a península do Sinai logo se transformou na arena de um importante conflito entre os ingleses e os turcos, estes apoiados pelos seus aliados alemães, tendo como objetivo a posse do canal de Suez.

Os turcos não perderam tempo em entrar na península, e os ingleses recuaram rapidamente, abandonando seus principais centros administrativo-militares em El-Arish e Nakhl. Como os turcos não podiam avançar pelo "caminho do mar" mais fácil, devido ao mesmo e antigo motivo de o Mediterrâneo estar sendo controlado pela Marinha inimiga, eles reuniram um rebanho de 20 mil camelos para transportar água e suprimentos, e puseram suas tropas em marcha para atingir o canal pela rota mais interna, que atingira o canal em Ismaília ("B"). Em suas memórias, o comandante turco Djemal Paxá (Memories of a Turkish Statesman, 1913-1919) contou que "o grande problema, do qual dependem todas as difíceis operações militares no deserto do Sinai, é a questão da água. Em qualquer outra estação que não a chuvosa seria impossível atravessar essa área desolada com uma força expedicionária de aproximadamente 25 mil homens". O ataque turco foi repelido pelos britânicos.

Depois do fracasso dos turcos, seus aliados alemães assumiram a empreitada. Eles preferiram usar a planície central para o avanço na direção do canal devido ao solo duro e pedregoso, melhor para seu equipamento motorizado. Com o auxílio de engenheiro especializado em recursos hídricos, eles descobriram a água subterrânea e cavaram uma rede de poços ao longo de suas linhas de comunicação e avanço. Porém, seu ataque, feito em 1916, também fracassou.

Quando os britânicos desencadearam sua ofensiva, o que aconteceu em 1917, eles avançaram pela rota litorânea, a mais natural, atingindo a antiga linha de demarcação em Rafah em fevereiro de 1917 e poucos meses depois capturaram Jerusalém.

As memórias sobre as batalhas na península sinaítica escritas pelo general A. P. Wavell (The Palestine Campaigns) são de especial interesse para quem estuda a região na Antiguidade porque nelas ele afirma que o Alto Comando britânico estimava que o inimigo não conseguiria encontrar água na planície central para 5 mil homens e 2.500 camelos.

A campanha do Sinai vista pelo lado alemão é contada em Sinai, de Theodoro Wiegand e F. Kress von Kressenstein, o general comandante das tropas. No livro, a descrição dos esforços militares vem acompanhada de uma minuciosa análise sobre o terreno, clima, história e fontes naturais de água, e mostra a impressionante familiaridade dos autores com todas as pesquisas anteriores realizadas na região. Suas conclusões são semelhantes às dos ingleses: colunas em marcha, multidões de soldados e animais não poderiam jamais ter atravessado o sul da península sinaítica. Dedicando um capítulo especial à questão do êxodo, Wiegand e Von Kressenstein garantiram que "a região do djebel Musa não pode ser considerada como a do monte Sinai da Bíblia" e afirmaram que ele só poderia ser "o monumental djebel Yallek" - dessa forma concordando com o capitão Haynes. Uma outra opção, acrescentaram os autores, talvez fosse a sugerida por Guthe e outros estudiosos alemães, o djebcl Maghara, na margem norte da rota "B".

Um militar britânico, C. S. Jarvis, que depois do fim da guerra foi nomeado governador do Sinai, tornou-se talvez a maior autoridade sobre a península devido aos estudos que fez durante sua longa estada na região. Escrevendo em Yesterday and Today in Sinai, ele também garantiu que de forma nenhuma multidões de israelitas (mesmo que seu número não passasse de 600 mil, como sugerido por W. M. F. Petrie) e seus rebanhos poderiam viajar pela "massa de puro granito" do sul da península, e muito menos permanecerem lá por mais de um ano.

Jarvis acrescentou novas dúvidas às já existentes. O maná, que servira de pão para os israelitas, era o depósito resinoso, comestível, em forma de bagas, deixado por pequenos insetos que se alimentam das tamargueiras. Ora, existem poucas tamargueiras no sul da península, mas elas são abundantes no norte. Em seguida vem o caso das codornizes, que foram a fonte de carne para os israelitas. Essas aves migram da Rússia meridional, Romênia e Hungria, de onde são nativas, para passar o inverno no Sudão, de onde voltam para o norte na primavera. Até hoje os beduínos apanham com facilidade as codornizes cansadas quando elas descem nas margens do Mediterrâneo para repousar depois de seus longos vôos. As codornizes não chegam ao sul da península, e mesmo que a alcançassem por acaso, não seriam capazes de voar acima dos altos picos da região.

Todo o drama do êxodo, afirmou Jarvis, teve como cenário o norte da península. O "mar dos Juncos" era o pequeno mar Serbônico (Sbkhet El Bardawil, em árabe) e depois de atravessá-lo os israelitas tinham tomado rumo sudeste. O monte Sinai era o djebel Hallal, "um maciço de calcário de grande imponência, com mais de 600 metros de altura, que se eleva sozinho numa grande planície aluvial". O nome árabe do monte significa "o que está de acordo com as leis", bem adequado ao local onde teriam sido entregues as Tábuas da Lei.

Nos anos que se seguiram, a pesquisa mais abrangente sobre o tema foi a realizada pela Universidade Hebraica de Jerusalém e outras instituições de estudos superiores da então Palestina. Combinando seu conhecimento profundo da Bíblia e outras escrituras com extensas investigações na região, os pesquisadores não encontraram base firme para a tradição que localizava o monte Sinai ao sul da península.

Haim Bar-Deroma (Hana gev e Vze Gvul Ha'aretz) aceitou uma travessia no norte do Egito, mas acreditava que os israelitas tinham descido para o sul, atravessando a planície central até chegar a um "monte Sinai" vulcânico, situado na Transjordânia. Três outros eruditos - F. A. Theithaber, J. Szapiro e Benjamim Maisler (The Graphic Historical Atlas of Palestine: Israel in Biblical Times) defenderam a travessia no norte, nos baixios do mar Serbônico, e afirmaram que El Arish era o verdejante oásis de Elim e o monte Hallal. Zev Vilnay, um estudioso da Bíblia que percorreu a Palestina e a península de norte a sul viajando a pé, optou pela mesma rota em seu livro Ha'aretz Bamikra. Já Yohanan Aharoni, em The Land of Israel in Biblical Times, embora aceitando uma travessia no norte, acredita que os israelitas vieram até Nakhl, na planície central, continuando depois até um monte Sinai ao sul.

Enquanto os círculos bíblicos e acadêmicos continuavam envolvidos em grandes debates, tornou-se aparente que a questão básica não resolvida era a seguinte: apesar de uma travessia no norte do Egito ser lógica, o peso das evidências negava a existência de uma extensão de água como a citada no Êxodo na região norte; no entanto, essas mesmas evidências iam contra a localização do monte Sinai no sul da península. Incapazes de resolver o impasse, os estudiosos voltaram sua atenção para o ponto em que todos concordavam: a viagem pela planície central.

Na década de 40, M. D. Cassuto (Commentary on the Book of Exodus e outras obras) facilitou a aceitação da idéia de uma rota central ao demonstrar que "o caminho não tomado" (o do país dos Filisteus) não era a rota litorânea, como antes se afirmava, mas a rota saindo de "B", mais ao interior. Assim; uma travessia no ponto "C" e em seguida a descida na direção sudeste até a planície central estava de pleno acordo com a narrativa bíblica, sem exigir a continuação da viagem até o sul da península.

A longa ocupação da península do Sinai por Israel, depois da guerra com o Egito em 1967, abriu a região para estudos e pesquisas numa escala sem precedentes. Arqueólogos, historiadores, geógrafos, topógrafos, geólogos e engenheiros a examinaram minuciosamente de alto a baixo. De particular interesse foram as explorações lideradas por Beno Rothenberg (Sinai Explorations, 1967­ 1972 e outros relatórios) e patrocinadas pela Universidade de Telavive demonstrando que na área litorânea ao norte a existência de muitos sítios arqueolíticos comprovaram o uso daquela rota como se fosse uma ponte terrestre entre o Egito e a Ásia. Na planície central, porém, não foram encontrados indícios de residência permanente, só evidências de acampamentos, mostrando que aquela fora sempre uma área de simples trânsito. Quando esses locais de acampamento foram mapeados, eles formaram "uma linha bem nítida indo do Neguev para o Egito e portanto essa deve ser considerada a direção normal dos movimentos pré-históricos no 'deserto da caminhada' (o El-Tih)".

Foi com base nessa nova compreensão da península sinaítica na Antiguidade que um geógrafo bíblico da Universidade Hebraica, Menashe Har-El, apresentou uma nova teoria (Massa'ei Sinai). Revendo todos os argumentos anteriores, ele salientou que o espinhaço submerso que se eleva entre os dois lagos Amargos, o Grande e o Pequeno, está bastante próximo da superfície da água para permitir que eles sejam atravessados a pé quando sopra um vento forte. Portanto, fora lá que se dera a travessia dos israelitas para a península. Depois eles tinham seguido a rota tradicional para o sul, passando por Bir Murrah (Mara) e Ayun Mussa (Elim), daí atingindo a margem do mar Vermelho, onde acamparam.

É neste ponto que Har-El nos oferece sua grande novidade: apesar de viajarem ao longo do litoral do golfo de Suez, os israelitas não continuaram até o sul. Depois de avançarem uns 30 quilômetros, eles chegaram à foz do wadi Sudr e usaram o vale desse rio para penetrar na planície central e irem até Cades-Barnéia. O monte Sinai seria o monte Sinn-Bishr, que se eleva cerca de 600 metros logo na entrada do wadi. Har-El sugeriu que a batalha com os amalecitas teve lugar no litoral do golfo de Suez, mas essa idéia foi rejeitada pelos especialistas militares israelenses, familiarizados com o terreno e história dos combates na península.

Bem, depois de tudo isso, ainda estamos em dúvida. Afinal, onde ficava o verdadeiro monte Sinai? Mais uma vez temos de recorrer às evidências da Antiguidade.

O faraó, em sua viagem para a Outra Vida, dirigia-se para o leste. Depois de atravessar a barreira aquosa, rumava para um desfiladeiro, atingindo então o Duat, um vale de forma oval, cercado de montanhas. A "Montanha da Luz" ficava num local onde o rio de Osíris dividia-se em afluentes.

As descrições pictóricas mostravam o rio de Osíris correndo em meandros por uma área cultivada, pois vêem-se os homens arando a terra.

Encontramos desenhos similares na Assíria. Os reis assírios, deve ser lembrado, chegavam à península vindos da direção oposta, entrando pelo nordeste, via Canaã. Um deles, Asaradão, gravou numa estela o que serve como um mapa para sua própria procura pela "Vida". O desenho mostra a tamareira - o emblema-código para a península do Sinai -, uma área de cultivo, simbolizada pelo arado, e um "monte sagrado". Na parte superior da estela vemos Asaradão no santuário da suprema divindade, perto da Árvore da Vida. A seu lado está a figura de um touro, a mesma imagem (o "bezerro de ouro") que os israelitas esculpiram quando estavam aos pés do monte Sinai.

Essas descrições não nos transmitem a idéia dos estéreis picos de granito no sul da península. Na verdade, elas nos trazem à mente o norte fértil e o grande wadi que domina a área, o El-Arish, cujo nome significa "o rio do agricultor". E era num vale assim, formado por um rio e seus afluentes, cercado de montanhas, que ficava o Duat.

Só existe um único lugar que reúne essas condições em toda a península. A geografia, topografia, textos históricos, descrições pictográficas, tudo aponta para a planície central que fica na região norte.

Mesmo E. H. Palmer, que chegou a ponto de inventar o desvio Ras-Sufsafeh para fortalecer a idéia da localização de um monte Sinai ao sul, sabia no fundo do coração que o local da Teofania e andanças dos israelitas não podia ser um verdadeiro mar de montanhas de granito, mas tinha de ficar numa área mais plana, capaz de receber e sustentar milhares de pessoas e animais.

"O conceito popular do monte Sinai", ele escreveu em The Desert of the Exodus, "mesmo modernamente, parece ser o de uma única montanha isolada, capaz de ser atingida de qualquer lado, elevando-se numa ilimitada extensão de areia. A própria Bíblia, quando a lemos sem usarmos as luzes das descobertas contemporâneas, favorece essa idéia... O monte Sinai é sempre mencionado nela como elevando-se sozinho e inconfundível numa planície desértica bem nivelada.”

De fato, existe uma "planície desértica nivelada" na península do Sinai, admitiu Palmer, mas ela não é coberta de areia. "Mesmo nas áreas da península que mais se aproximam de nossa concepção do que deve ser um deserto - um oceano sólido, limitado apenas pelo horizonte ou uma barreira de montanhas distantes -, a areia é uma exceção e o solo mais parece uma penosa estrada coberta de cascalho do que uma praia convidativa.”

Palmer descrevia a planície central. Para ele, a ausência de areia prejudicava a idéia de "deserto" transmitida pela Bíblia. Para nós, o solo duro e pedregoso significa que a área era extremamente adequada para o espaço-porto dos Nefilim. E, se o monte Mashu marcava a entrada para o espaço-porto, ele só podia ficar nas redondezas da instalação.

Quer dizer então que gerações de peregrinos viajaram para o sul da península em vão? A veneração dos picos no maciço de granito só começou mesmo com o cristianismo? Não é o que atestam as descobertas feitas por arqueólogos nesses montes cheios de santuários, altares e outros sinais de antiga adoração na Antiguidade. As inscrições e gravações nas rochas (inclusive o candelabro judeu), feitas ao longo de milênios por peregrinos de muitas crenças, falam de uma adoração que vem desde que a Humanidade tomou conhecimento da existência da península.

A essa altura, quando estamos quase desejando que haja dois "monte Sinai", de modo a serem satisfeitas tanto as tradições como os fatos, é bom saber que essa idéia não é nova. Mesmo antes desses dois séculos de esforços concentrados para identificar qual seria o verdadeiro monte Sinai, já se imaginava se os vários nomes da Bíblia para a montanha sagrada não eram um indício de que existia não apenas uma, mas duas delas. As narrativas falam em "monte Sinai" (a montanha do Sinai ou no Sinai), onde foram entregues as Tábuas da Lei; o "monte Horeb", a montanha da secura ou na secura; o "monte Param" que o Deuteronômio dá como sendo o local onde Iahweh apareceu aos israelitas; e a "montanha de Deus", onde pela primeira vez o Senhor revelou-se a Moisés.

A localização geográfica de dois desses montes é decifrável. Param era o deserto perto de Cades-Barnéia, possivelmente o nome bíblico para a planície central. Assim, o "monte Param" só podia ficar situado nessa região. Já o monte onde Moisés teve seu primeiro encontro com o Senhor, "a montanha de Deus" ou "dos deuses", não podia ficar muito longe do País de Madiã, pois "pastoreava Moisés o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã. Ele conduziu as ovelhas para além do deserto e chegou à montanha de Deus, a Horeb". Os madianitas habitavam o sul da península sinaítica, compreendendo o golfo de Ácaba e cercanias das áreas de mineração de cobre. Assim, a "montanha de Deus" só podia ficar em algum lugar do deserto adjacente - portanto, no sul.

Foram encontrados selos cilíndricos descrevendo pictograficamente o aparecimento de uma deidade a um pastor. Um deles mostra o deus surgindo entre duas montanhas, com uma árvore em forma de foguete atrás dele - talvez o Sneh, a "sarça ardente" da narrativa bíblica. A introdução da figura de dois picos na ilustração está bem de acordo com a freqüente referência ao senhor como El-Shaddai, o Deus dos Dois Picos. Isso nos traz uma outra distinção entre o monte onde foram entregues as Tábuas da Lei e a montanha de Deus. O primeiro era uma elevação solitária, numa planície desértica, e o segundo devia ser uma combinação de dois montes ou uma montanha com dois picos.

Os textos ugaríticos falam também de uma "montanha dos jovens deuses" nas cercanias de Cades e dois picos, um pertencente a El e o outro a Asherah - o Shad Elim e o Shad Asherath u Rahim ­ ambos situados no sul da península. Foi para essa área, na região mebokh naharam ("onde começam as duas extensões de água"), kerev apheq tehomtam ("perto da abertura dos dois mares") que El retirou-­se em sua velhice. Os textos, acredito, descrevem a ponta sul da península do Sinai. A partir de tudo isso, concluo que existia um monte que marcava a entrada do espaço-porto situado na planície central e que havia dois picos na ponta sul da península que desempenhavam um papel importante nas idas e vindas dos Nefilim. Eram dois picos que sinalizavam, ou "mediam", a subida para o norte.

12

AS PIRÂMIDES DE DEUSES E REIS

Em algum lugar nos depósitos do Museu Britânico está guardada uma tábula de argila encontrada em Sippar, o "centro de culto" de Shamash na Mesopotâmia. O desenho mostra Shamash sentado num trono, sob um dossel cujo pilar tem a forma de uma tamareira. Um rei e seu filho estão sendo apresentados a ele por um outra deidade. Diante de Shamash há um pedestal encimado por um grande emblema de um planeta que emite raios. As inscrições invocam o deus Sin (pai de Shamash), o próprio Shamash e Ishtar, sua irmã.

O tema encenado - a apresentação de reis e sacerdotes a uma deidade importante - é bastante comum e não requer grandes interpretações. O singular e intrigante nessa cena são os dois deuses quase sobrepostos que, em algum lugar afastado do local onde está acontecendo a apresentação, seguram dois cordões que levam ao emblema celestial.

Quem são os divinos portadores dos cordões? Qual seria sua função? Ambos estão num mesmo local? Se estão, por que seguram ou puxam dois cordões e não apenas um? Qual a ligação deles com Shamash?

Sippar, como os estudiosos bem sabem, era a sede do Supremo Tribunal da Suméria. Por conseqüência, Shamash era o supremo legislador. Hamurabi, o rei babilônio famoso pelo seu código, fez­-se retratar recebendo as leis de Shamash entronizado. A cena onde aparecem os Divinos Portadores também estaria ligada a uma entrega de legislação? Apesar de muitas especulações, até hoje ninguém conseguiu dar uma explicação completa para essa tábula.

A solução, acredito, está disponível há muito tempo no próprio Museu Britânico, mas ela não se encontra entre as peças "assírias", mas sim no departamento egípcio. Num salão especial encontra-se uma coleção de papiros com inscrições do Livro dos Mortos. E é lá que está, para todos verem, a resposta que procuramos.

Trata-se de uma página dos "Papiros da Rainha Nejmet" e o desenho ilustra a etapa final da viagem do faraó para o Duat. Os doze deuses que puxam seu barco pelos túneis subterrâneos o transportam até o último corredor, o Lugar da Ascensão, onde o "Olho Vermelho de Hórus" o aguarda. Ali, depois de despir suas vestes terrenas, o faraó irá subir aos céus. Essa translação está expressa pelo hieróglifo do escaravelho ("renascimento"). Vários deuses, em pé, divididos em dois grupos, rezam pela chegada bem-sucedida do faraó na Estrela Imorredoura.

E nesse desenho egípcio, inconfundíveis, estão dois Divinos Portadores do Cordão!

Sem o excesso de figuras da descrição encontrada em Sippar, a do Livro dos Mortos mostra as deidades que seguram o cordão colocadas em extremidades opostas. Eles estão fora do corredor subterrâneo e nos locais onde se encontram existem omphalos sobre uma plataforma. E, como nos transmite a ação do quadro, os dois ajudantes divinos não apenas seguram os cordões como estão empenhados em medir.

Essa descoberta não deve ser surpresa para nós. Afinal os versos do Livro dos Mortos descrevem claramente como o faraó encontra os deuses que seguram a corda no Duat e os que "seguram o cordão de medir".

Lembremo-nos agora de uma passagem do livro de Henoc, onde se conta que, quando ele estava sendo levado por um anjo para visitar o paraíso terrestre no leste, "viu naqueles dias dois longos cordões serem entregues a anjos que tomaram asas e partiram para o norte". Respondendo às indagações do patriarca, o anjo-guia explicou: "Eles partiram para medir... trarão as medidas dos justos para os justos... todas essas medidas revelarão os segredos da terra".

Seres alados indo para o norte com a incumbência de medir... Medidas que revelarão os segredos da Terra... Subitamente, as palavras do profeta Habacuc ressoam em nossos ouvidos - palavras que descrevem o aparecimento do Senhor que, vindo do sul, dirige-se para o norte:

O Senhor do sul virá,

O Santo do Monte Param.

Os céus estão cobertos pelo seu halo,

Seu esplendor envolve a Terra;

Seu brilho é como luz.

Seus raios emanam de onde seu poder se esconde.

A Voz vai diante dele, centelhas emanam da parte inferior.

Ele faz uma pausa para medir a Terra;

Ele é visto e as nações estremecem.

Estariam a medição da Terra e seus segredos relacionados com os vôos dos deuses no firmamento de nosso planeta? Os textos ugaríticos nos dão uma pista adicional quando contam que, do pico de Zafon, Baal "estende um cordão forte e flexível para os céus, até a sede de Cades".

Sempre que esses textos contam sobre mensagens de um deus para outro, o verso inicia-se com a palavra Hut. Os especialistas acreditam que ela devia ser um prefixo de invocação, algo como "você está pronto para me ouvir?" Todavia, nas línguas semitas, Hut significava "cordão, corda". Em egípcio, o que é bastante significativo, o termo traduz-se por" estender, esticar". Heinrich Brugsch, comentando um texto egípcio que relata as batalhas de Hórus (Die Sage von der geflügten Sonnensche ibe) salientou que Hut também era o nome de locais geográficos - tanto da morada dos Medidores Alados como da montanha onde Set aprisionou Hórus.

Na representação egípcia, vemos que existem omphalos ou "pedras de oráculo" no local onde estão postados os Divinos Medidores. Em Baalbek também havia um omphalos, uma Pedra do Esplendor, que executava as funções de Hut. Em Heliópolis, cidade gêmea de Baalbek, também existia uma dessas pedras. Lembremo-nos de que Baalbek era a Plataforma de Aterrissagem dos deuses. Os cordões egípcios levavam ao local de Ascensão do faraó situado no Duat. O Deus bíblico, chamado de El por Habacuc, media a Terra enquanto voava do sul para o norte. Tudo isso será apenas uma série de coincidências ou várias peças de um mesmo quebra­-cabeça?

Agora voltemos ao desenho de Sippar. Ele deixa de ser um mistério quando nos lembramos de que em épocas pré-diluvianas, quando a Suméria era a Terra dos Deuses, Sippar era o espaço-porto dos Anunnaki e Shamash, o comandante da instalação. Visto sob esse prisma, o papel desempenhado pelos Divinos Medidores fica esclarecido: seus cordões mediam o caminho até o espaço-porto!

Será útil recordar agora como Sippar foi fundada, como se determinou a localização do primeiro espaço-porto da Terra há cerca de 400 mil anos.

Quando Enlil e seus filhos receberam a incumbência de construir um espaço-porto na planície entre os Dois Rios, na Mesopotâmia, eles partiram de um plano diretor, abrangendo a escolha de um local adequado para o espaço-porto em si, a determinação do corredor de vôo e o posicionamento das instalações de orientação e controle da missão. O plano usou como referência básica o acidente geográfico mais conspícuo do Oriente Médio, o monte Ararat, que foi cortado por um meridiano, uma linha imaginária norte-sul. A trajetória de vôo, começando sobre o golfo Pérsico, bem distante das cadeias de montanhas do continente, ficou demarcada no ângulo fácil e preciso de 45 graus em relação ao meridiano. O espaço-­porto - Sippar ("A cidade dos pássaros") - ficaria no ponto onde as duas linhas se cruzavam, nas margens do rio Eufrates.

Cinco cidades, eqüidistantes entre si, foram colocadas sobre a linha diagonal, com a inclinação de 45 graus. A do meio - Nippur ("O lugar da travessia") - serviria como Centro de Controle da Missão. Dois outros povoados determinariam a formação de um corredor em forma de flecha. Todas as linhas imaginárias passando por essas cidades convergiriam em Sippar.

No entanto, todo o complexo do espaço-porto e cidades auxiliares foi arrasado pelo dilúvio, há cerca de 13 mil anos. Depois da catástrofe, das instalações dos Nefilim só restou a Plataforma de Aterrissagem de Baalbek e, enquanto não se construía um novo espaço-porto, todos os pousos de decolagens dos ônibus espaciais tinham de ser feitos naquele local. Não seria correto imaginarmos que os Anunnaki se contentariam em atingir essa plataforma enfiada entre duas cadeias de montanhas confiando unicamente em sua perícia como pilotos. O mais provável é que, assim que foi possível, eles demarcaram um outro corredor de aterrissagem em forma de flecha apontando para Baalbek.

Com a auxílio de fotos da Terra tiradas por veículos espaciais ela NASA, podemos visualizar o Oriente Médio como os Anunnaki o viam de suas naves. Lá, num pontinho bem ao norte, estava Baalbek. Que marcos naturais eles poderiam utilizar com balizas, determinando um corredor de aterrissagem triangular? Bem perto, a sudeste, elevava-se o maciço de granito do sul da península do Sinai. Entre a massa de rochas, erguia-se o pico mais alto (atualmente chamado de monte Santa Catarina), que poderia servir como uma baliza natural, formando a linha sudeste. Mas, qual seria o marco a noroeste, que junto com Baalbek formaria a outra linha do triângulo?

A bordo da nave, o Topógrafo - o "Divino Medidor" - lançou um olhar para o panorama terrestre a sua frente e depois estudou novamente os mapas. A distância, além de Baalbek, erguia-se o Ararat com seus dois picos. Ele traçou uma linha reta unindo o Ararat e Baalbek, e prolongando-se até o Egito.

Em seguida, o Topógrafo pegou um compasso. Colocando a ponta seca em Baalbek, para usá-la como foco, desenhou um arco passando pelo pico mais alto da península do Sinai. No ponto onde o arco cortou a linha Baalbek-Ararat, ele fez uma marca qualquer, por exemplo, uma cruz dentro de um círculo. Então desenhou duas linhas de igual comprimento, uma ligando Baalbek com o pico do Sinai e a outra ligando Baalbek com o ponto marcado pela cruz.

- Esse será o corredor de aterrissagem que nos levará direto para a plataforma - disse o Topógrafo.

- Mas, senhor - protestou alguém a bordo -, não existe nada nesse lugar onde o senhor desenhou a cruz, nenhum marco natural que possa servir de baliza para orientar nossos pilotos!

- Então teremos de construir uma montanha artificial, uma pirâmide, naquele local.

E eles partiram para comunicar a decisão aos seus superiores.

Será que houve mesmo uma conversa como essa dentro de uma das naves dos Anunnaki? Claro que jamais poderemos ter certeza, a não ser que um dia se encontre uma tábula de argila onde tenha sido registrado o evento. Eu somente dramatizei alguns fatos impressionantes e inegáveis!

. A plataforma de Baalbek, inigualável, está desde tempos imemoriais e continua intacta em sua imensidade enigmática;

. O monte Santa Catarina, o pico mais alto da península do Sinai, é considerado um local sagrado desde a Antiguidade (junto com seu vizinho, o monte Musa) e sempre esteve envolvido em lendas sobre deuses e anjos;

. A Grande Pirâmide de Gizé, junto com suas duas companheiras e a Esfinge são monumentos sem similar no mundo e estão situados exatamente sobre o prolongamento da linha Ararat-Baalbek;

. A distância entre Baalbek e o monte Santa Catarina e entre Baalbek e a Grande Pirâmide são exatamente iguais.

Esses quatro itens são apenas parte de impressionante grelha de orientação elaborada pelos Anunnaki em conexão com seu espaço-porto pós-diluviano. Portanto, quer aquela conversa a bordo da nave tenha ou não acontecido, estou convicto de que foi assim que surgiram as pirâmides do Egito.

Existem muitas pirâmides e estruturas piramidais no Egito, que salpicam toda a região que vai desde o delta do Nilo, ao norte, até o sul (penetrando inclusive na Núbia). Mas, quando alguém fala em pirâmides, todas as cópias, variações e "mini-pirâmides" de épocas mais recentes são desconsideradas e tanto eruditos como leigos focam sua atenção nas vinte e poucas pirâmides que, segundo se diz, foram construídas por faraós do Antigo Império (cerca de 2.700-­2.180 a.C.). Esses monumentos, por sua vez, estão divididos em dois grupos distintos: as claramente identificadas com governantes da 5ª. e 6ª. dinastias (como Unas, Teti, Pepi etc.), elaboradamente decoradas, e onde se encontram inscritos os famosos Textos das Pirâmides, e as mais antigas, atribuídas a reis da 3ª. e 4ª. dinastias. São estas, as primeiras pirâmides de que se tem notícia, que mais nos intrigam. Muito mais grandiosas, mais sólidas, mais exatas e mais perfeitas do que todas que vieram depois, elas também são as mais misteriosas, pois não fornecem nem ao menos uma única pista para revelar os segredos de sua construção. Quem as erigiu, como, por que e até mesmo quando, ninguém sabe ao certo. Existem apenas teorias e suposições acadêmicas.

Os livros escolares nos contam que a primeira delas foi construída por um rei chamado Djoser, o segundo faraó da 3ª. Dinastia (cerca de 2.650 a.C. pela maioria das contagens). Escolhendo um lugar a oeste de Mênfis, no platô que servia de necrópole (cidade dos mortos) daquela antiga capital ele deu ordens para seu brilhante cientista e arquiteto, Imhotep, para erigir uma tumba que superasse todas as outras já existentes. Até aquela época, o costume reinante era escavar um túmulo no solo pedregoso, enterrar o rei e depois cobrir a sepultura com uma grande lápide horizontal, chamada mastaba, que com o tempo foi assumindo proporções muito substanciais. O engenhoso Imhotep, segundo alguns eruditos, cobriu a mastaba original da tumba de Djoser com várias camadas de pedras menores, assentadas em duas fases de construção, obtendo assim uma pirâmide em degraus. Ao lado dela, dentro de um grande pátio retangular, foi erigida uma grande variedade de prédios funcionais e decorativos, capelas, templos funerários, depósitos, alojamento de criados etc. Em seguida, cercou-se toda a área com uma magnífica muralha. A pirâmide e as ruínas de alguns desses prédios ainda podem ser vistos em Sakkarah - nome que parece ter sido dado ao local em honra a Seker, o "deus oculto".

Os reis que se seguiram a Djoser, continuam a nos contar os livros escolares, gostaram muito do que viram e tentaram imitar seu antecessor. Parece ter sido Sekhemkhet, que ascendeu ao trono logo depois de Djoser, que começou a construir a segunda pirâmide em degraus, também em Sakkarah. Por motivos ignorados, ela nunca chegou a ser terminada. É possível que o ingrediente que faltou tenha sido o gênio de Imhotep, mestre da ciência e engenharia. Uma terceira pirâmide em degraus - na verdade, apenas um monte de entulho contendo as ruínas de seus alicerces - foi descoberta entre Sakkarah e Gizé, ao norte. Menor que as anteriores, ela é logicamente atribuída ao faraó que veio depois dos dois anteriores, chamado Khaba. Certos especialistas acreditam que houve uma ou duas tentativas posteriores, por parte de faraós não identificados da 3ª. Dinastia, de construírem pirâmides, mas elas fracassaram.

Agora temos de ir a uns 45 quilômetros ao sul de Sakkarah, a um lugar chamado Meidum, para visitar a pirâmide que, cronologicamente, é considerada a quarta na fila. Na ausência de indícios consistentes, presume-se que ela tenha sido construída pelo faraó que se seguiu aos anteriores, chamados Huni. Por meio de evidências circunstanciais, afirma-se que ele apenas iniciou a obra e que a tentativa de terminar a pirâmide coube a seu sucessor, Snefru, o primeiro rei da 4ª. Dinastia.

Ela começou, como as anteriores, sob a forma de uma pirâmide em degraus, mas, por motivos totalmente ignorados, para os quais não existem nem mesmo teorias, seus construtores resolveram fazer uma pirâmide "de verdade", ou seja, com lados planos. Isso significava que uma camada de revestimento, constituída de pedras polidas, deveria ser assentada num ângulo bastante agudo. Também por motivos desconhecidos, escolheu-se um ângulo de 52 graus. Todavia, aquilo que, segundo os livros, seria a primeira pirâmide verdadeira, terminou em triste fracasso. A camada externa, os enchimentos de pedras menores e parte do próprio núcleo desabaram sob o peso das pedras colocadas umas em cima das outras nesse ângulo precário. Tudo o que resta dessa tentativa é parte do núcleo sólido, cercado de um monte de entulho.

Alguns estudiosos, como Kurt Mendelssohn, em The Riddle of the Pyramids, sugerem que Snefru, quando essa pirâmide ruiu, estava construindo uma outra um pouco ao norte de Meidum. Apressadamente, seus arquitetos modificaram o ângulo de construção, que, sendo menor (43 graus), garantiu maior estabilidade e reduziu a altura e massa da pirâmide. Foi uma decisão sábia, como comprova o fato de esse monumento, apropriadamente chamado de pirâmide Torta, ainda permanecer em pé.

Incentivado pelo seu sucesso, Snefru ordenou a construção de uma outra pirâmide verdadeira perto da torta. Ela é chamada de pirâmide Vermelha, devido à cor de suas pedras. Supostamente ela representa a realização do impossível: uma forma triangular erguendo-se a partir de uma base quadrada, com lados de 200 metros de comprimento, tendo uma altura de 100 metros. O triunfo, contudo, não foi obtido sem um pouquinho de trapaça: em vez da inclinação perfeita, com 52 graus, as faces dessa "primeira pirâmide clássica" elevam-se num ângulo muito mais seguro de 44 graus...

E assim chegamos, como querem os eruditos, ao máximo em construção das pirâmides egípcias.

Snefru foi o pai de Khufu, a quem os historiadores gregos chamavam de Quéops. Imagina-se que o filho, seguindo os passos do pai, construiu a segunda verdadeira pirâmide, só que muito maior e grandiosa, a Grande Pirâmide de Gizé. Ela ergue-se há milênios nesse local, em companhia de duas outras, atribuídas aos sucessos de Quéops - Chefra (Quéfren) e Men-ka-ra (Miquerinos) - e as três estão cercadas de templos, mastabas, tumbas e a única e singular Esfinge. Embora atribuídas a faraós diferentes, elas obviamente foram planejadas e executadas como um grupo coeso, perfeitamente alinhadas com os pontos cardeais e também entre si. De fato, as triangulações que começam nesses monumentos podem ser ampliadas para medir todo o Egito - e, para ser exato, toda a Terra. Os que primeiro se deram conta disso em tempos modernos foram os engenheiros de Napoleão, escolhendo o ápice da Grande Pirâmide como o ponto focal a partir do qual triangularam e mapearam todo o Baixo Egito.

A tarefa ficou bem mais fácil quando se descobriu que o complexo de Gizé está situado bem sobre o paralelo 30 norte. Ele foi construído na borda leste do platô Líbio, que começa na Líbia, a oeste, e estende-se até as margens do Nilo. Embora eleve-se apenas 45 metros acima do vale do rio, Gizé oferece uma visão abrangente e não obstruída dos quatro cantos do horizonte. A Grande Pirâmide fica na borda nordeste de uma protuberância do platô e a poucas dezenas de metros ao norte e leste tem início um terreno arenoso e lamacento, onde seria impossível erigir estruturas tão imensas. Um dos primeiros cientistas a fazer medições precisas, Charles Piazzi Smyth (Our Inheritance in the Great Pyramid) estabeleceu que o centro da Grande Pirâmide fica na latitude norte 29° 58' 55" - a um mero 1/6 de grau do paralelo 30. O centro da Segunda Pirâmide fica apenas a 13 segundos (13/3 600 de grau) ao sul do paralelo.

O alinhamento com os quatro pontos cardeais; a inclinação dos lados num ângulo de 52 graus e alguns minutos - no qual a altura da pirâmide em relação à circunferência que circunscreve sua base é a mesma de um raio de círculo em relação com sua circunferência; as bases quadradas, montadas em plataformas perfeitamente niveladas; todos esses parâmetros denunciam um alto nível de conhecimento de matemática, astronomia, geometria, geografia e, claro, arquitetura e construção, bem como uma enorme habilidade administrativa para mobilizar a mão-de-obra e planejar e executar projetos tão imensos e de longo prazo. O espanto aumenta ainda mais quando se percebem as complexidades interiores, a precisão das galerias, corredores, câmaras, dutos e aberturas dentro das pirâmides, suas entradas ocultas (sempre na face norte), os sistemas de fechamento e encaixe - todos invisíveis para quem está do lado de fora, todos perfeitamente alinhados uns com os outros, todos executados no interior dessas montanhas artificiais enquanto elas iam sendo construídas camada após camada de pedras.

Embora a Segunda Pirâmide (Quéfren) seja apenas um pouco menor que a Grande Pirâmide (alturas: 143,35 e 146,4 metros; lados da base: 215,64 e 230,58 metros) foi sempre esta que despertou o interesse e a imaginação de estudiosos e leigos desde que os homens puseram os olhos nesses monumentos. Ela foi e continua sendo a maior construção em pedra do mundo, possuindo entre 2,3 e 2,5 milhões de blocos de calcário amarelo (núcleo), calcário branco (revestimento polido) e granito (laterais e teto de câmaras e galerias interiores etc.). A massa total, estimada em aproximadamente 2,6 milhões de metros cúbicos, pesando 7 milhões de toneladas, segundo os cálculos, excede a de todas as catedrais, igrejas e capelas somadas, construídas na Inglaterra desde o início do cristianismo.

A Grande Pirâmide está assentada sobre solo artificialmente nivelado e eleva-se a partir de uma fina plataforma, cujos cantos são marcados por conexões de função desconhecida. Apesar da passagem dos milênios, descolocamentos continentais, o balanço da Terra em torno de seu próprio eixo, terremotos e o imenso peso da própria pirâmide, a plataforma de base, relativamente fina (menos de 7 metros de espessura), continua intacta e perfeitamente nivelada. O erro ou variação em seu alinhamento horizontal é de menos de 3 centímetros ao longo dos 231 metros de comprimento dos lados da plataforma.

A distância, as três pirâmides de Gizé parecem ter faces lisas, mas quem se aproxima delas vê que elas são um tipo de pirâmide em degraus, construídas camada após camada (os especialistas as chamam de "cursos") de pedras, cada uma menor que a anterior. De fato, estudos modernos sugerem que a Grande Pirâmide é em degraus em seu núcleo, cuja estrutura foi calculada para suportar grandes esforços verticais. O que a fazia ter faces lisas era a camada de revestimento. Essas placas foram removidas na época da dominação árabe e usadas na construção da cidade do Cairo, mas algumas delas ainda podem ser vistas em sua posição original no alto da Segunda Pirâmide e umas poucas foram descobertas na base da Grande Pirâmide. Essas placas de revestimento determinavam o ângulo da pirâmide e constituem as pedras mais pesadas empregadas na construção. As seis faces de cada bloco foram cortadas e polidas com uma exatidão que só se encaixa dentro de padrões ópticos, pois se ajustavam não somente às pedras do núcleo que cobriam, mas também a suas vizinhas nos quatro lados, formando em seu conjunto uma área de precisão de 8,5 hectares de blocos de calcário.

Atualmente as pirâmides de Gizé não têm mais o ápice ou espigão, também em forma piramidal (os pyramidions), que deviam ser de metal ou revestidos dele, exatamente como as pontas dos obeliscos. Quem os retirou de tão grande altura, quando e por quê, não se sabe. O que se tem conhecimento contudo, é de que em pirâmides de épocas posteriores, essas pedras de ápice, parecidas com o Ben-Ben de Heliópolis, eram feitas de granito especial e possuíam muitas inscrições. A da pirâmide de Amen-em-khet, em Dachur, encontrada enterrada a alguma distância dela tinha o emblema do Disco Alado e a inscrição:

O rosto do rei Amen-em-khet está aberto,

Para ele poder contemplar o Senhor da Montanha da Luz

Quando ele veleja pelo firmamento.

Heródoto visitou Gizé no século V, época em que as pirâmides ainda mantinham as placas de revestimento, mas ele não menciona a presença de ápices. Como tantos outros antes e depois dele, o historiador grego ficou imaginando como esses monumentos - considerados como uma das Sete Maravilhas do mundo antigo - podiam ter sido construídos. Seus guias o informaram que tinham sido necessários 100 mil homens, substituídos a cada três meses, e "dez anos de opressão do povo", apenas para se construir a rampa até o local da obra, para possibilitar o transporte dos blocos de pedra. "A pirâmide em si exigiu vinte anos de construção." Heródoto nos transmitiu a informação de que foi o faraó Quéops (Khufu) que ordenou a construção da Grande Pirâmide, mas não explicita como nem por quê. Ele também atribuiu a Quéfren (Chefra) a construção da Segunda Pirâmide, "com as mesmas dimensões da primeira, só que 12 metros mais baixa" e disse que Miquerinos (Menkara) "também deixou uma pirâmide, mas muito inferior em tamanho do que a construída pelo seu pai", deixando implícito que se tratava da Terceira Pirâmide Gizé.

No século I, o geógrafo e historiador grego Estrabão registrou não apenas sua visita às pirâmides, mas também sua entrada na Grande Pirâmide por uma abertura na face norte, escondida por uma pedra articulada. Depois de descer um corredor longo e estreito, ele atingiu um buraco cavado no leito rochoso sob a plataforma, como tantos outros turistas gregos e romanos já haviam feito antes dele.

A localização dessa entrada acabou sendo esquecida nos séculos que se seguiram e, quando o califa Al-Mamun tentou entrar na Grande Pirâmide no ano de 820, precisou empregar um verdadeiro exército de engenheiros, ferreiros e pedreiros para perfurar as pedras, abrindo um túnel até o núcleo. O que o incentivou a empreender essa obra foi o interesse científico aliado à cobiça, pois o califa estava a par das antigas lendas que afirmavam a existência, no interior da pirâmide, de uma câmara secreta onde na Antiguidade haviam sido escondidos mapas celestes e terrestres, inclusive globos, bem como "armas que não enferrujam" e "vidro que pode ser dobrado sem quebrar" .

Rachando os blocos de pedra com a aplicação de calor e frio alternados, arrebentando-os com martelos e picaretas, os homens de Al-Mamun avançaram centímetro por centímetro. Estavam a ponto de desistir quando ouviram o barulho de uma pedra caindo, indicando que perto dali havia alguma cavidade. Com renovado vigor, eles continuaram quebrando as pedras e acabaram por atingir o Corredor Descendente. Subindo-o, chegaram à entrada original, que não tinham visto do lado de fora. Descendo, encontraram a cavidade subterrânea descrita por Estrabão. Um túnel que dela saía não levava a lugar nenhum.

No que dizia respeito aos aventureiros, todos seus esforços tinham sido em vão. As outras pirâmides fora de Gizé, que tinham sido demolidas ou penetradas, possuíam a mesma estrutura interna: um Corredor Descendente, levando a uma ou mais câmaras. Todavia, na Grande Pirâmide elas não existiam. Não havia mais segredos a serem descobertos...

O destino, porém, interveio. Fora o som de uma pedra caindo no vazio que estimulara os homens de Al-Mamun a continuar o trabalho, Quando estavam para desistir mais uma vez, viram uma pedra caída no corredor. Ela era triangular, um formato bastante estranho. Examinando o teto, os trabalhadores descobriram que ela servira para esconder de vista um grande bloco de granito posicionado em ângulo em relação à passagem. Esse bloco esconderia o cantinho para uma câmara realmente secreta - jamais penetrada antes?

Como não tinham meios de mover ou quebrar o bloco de granito, os homens do califa continuaram aprofundando o túnel que tinham escavado nas pedras de calcário, para dar a volta em torno dele. Descobriram então que aquele bloco era o primeiro de uma série de pedras de granito e calcário que obstruíam um Corredor Ascendente, posicionado num ângulo de 26 graus, o mesmo do Corredor Descendente (e exatamente metade do ângulo de inclinação das faces da pirâmide). No alto do corredor, um passagem horizontal levava para um cômodo meio quadrado, com teto inclinado em V invertido, com um nicho incomum em sua parede leste. Ele estava totalmente vazio e não tinha nem mesmo decoração. Mais tarde descobriu-se que essa câmara fica exatamente no meio do eixo norte-sul da pirâmide - fato cujo significado ainda não foi decifrado. Esse cômodo tornou-se conhecido como a câmara da Rainha, mas o nome é baseado em idéias românticas, pois não existe o menor sinal de evidências para corroborar essa designação.

A partir do final do Corredor Ascendente foi encontrada uma Grande Galeria, mantendo o mesmo ângulo de 26 graus e estendendo-se por 46 metros de construção intricada e precisa. O piso rebaixado é flanqueado por duas rampas que acompanham toda a extensão da galeria e em cada uma delas há orifícios retangulares, igualmente espaçados. As paredes têm mais de 5,5 metros de altura e a largura da galeria vai se estreitando progressivamente, de modo que, no seu ponto mais alto, o teto tem a mesma largura do piso rebaixado. A galeria termina numa plataforma formada por um enorme bloco de pedra. Dali, uma passagem, curta e estreita (apenas 1 metro de altura) leva a uma antecâmara de construção complexa, equipada para abaixar com uma manobra simples (talvez um puxar de cordas) três placas de granito sólido que podiam descer na vertical, obstruindo a passagem e impedindo o avanço.

Uma outra pequena passagem, com altura e largura similares à anterior, leva para um cômodo de teto muito alto, feito de granito vermelho polido - a chamada câmara do Rei. Ela foi encontrada vazia, exceto por um bloco de granito, lavrado de modo a sugerir o formato de um ataúde sem tampa. Seu preciso acabamento inclui sulcos para a instalação de uma tampa ou cobertura e suas medidas, como já bem determinado, demonstram um profundo conhecimento de complexas fórmulas matemáticas. Na câmara também não havia qualquer tipo de decoração.

Os homens do califa Al-Mamun certamente pensaram o que todos têm pensado desde então. Toda essa montanha de blocos de pedra foi erigida somente para esconder um "baú" dentro de uma câmara secreta? As marcas de fuligem deixadas por tochas e as palavras do historiador Estrabão atestam que o Corredor Descendente foi bastante visitado na Antiguidade. No entanto, o Ascendente estava perfeitamente lacrado ao ser descoberto pelos trabalhadores de Al-Mamun no século IX. As teorias sempre afirmaram que as pirâmides eram tumbas reais construídas para protegerem as múmias dos faraós e os tesouros com elas enterrados de ladrões ou profanadores que poderiam perturbar a paz eterna do falecido. Sendo assim, o bloqueio dos corredores deveria ter sido executado logo depois da colocação do sarcófago na câmara. No entanto, o que se encontrou foi uma passagem obstruída com perfeição e, atrás dela, absolutamente nada, exceto um ataúde de pedra.

Com o passar do tempo, outros governantes, cientistas e aventureiros entraram na Grande Pirâmide e fizeram túneis e orifícios, descobrindo outros aspectos de sua estrutura interior, inclusive dois conjuntos de dutos que alguns acreditam ser entradas de ar (para quem?) e outros garantem que serviam para observações astronômicas (por quem?). Embora os especialistas insistam em se referir ao baú de granito como "sarcófago" ou "ataúde" (pelo tamanho, ele poderia mesmo acomodar um corpo humano), o fato é que não existe nada, absolutamente nada para apoiar a afirmação de que a Grande Pirâmide era uma tumba de faraó.

Na verdade, nunca houve indícios concretos de que as pirâmides de Gizé foram construídas para serem túmulos reais.

A pirâmide que na cronologia dos livros escolares é a primeira, a de Djoser, possui duas câmaras cobertas pela mastaba inicial. Quando elas foram visitadas pela primeira vez por H. M. von Minutoli, em 1821, ele afirmou ter encontrado em seu interior partes de uma múmia e inscrições com o nome do faraó. Em 1837, o coronel Howard Vyse reescavou mais minuciosamente o interior da pirâmide e relatou ter descoberto "um monte de múmias" (foram contadas oitenta delas posteriormente) e ter atingido uma câmara "com o nome do rei Djoser pintado com tinta vermelha". Um século depois, arqueólogos comunicaram a descoberta de um fragmento de crânio e indícios de que "um sarcófago de madeira poderia ter estado dentro da câmara de granito vermelho". Em 1933, J. E. Quibell e J. P. Lauer descobriram outras galerias dentro da pirâmide, em cujo interior encontraram dois sarcófagos vazios.

Hoje em dia é geralmente aceito que todas essas múmias e ataúdes representam sepultamentos intrusos, ou seja, o sepultamento de mortos de outras épocas, bem posteriores à da construção das pirâmides, aproveitando suas galerias e câmaras. Mas o rei Djoser teria sido mesmo enterrado na pirâmide, isto é, houve mesmo um "sepultamento original"?

A maioria dos arqueólogos duvida de que Djoser foi mesmo sepultado dentro da pirâmide que tem seu nome. Tudo indica que ele foi enterrado numa magnífica tumba descoberta em 1928, ao sul da pirâmide. Essa "Tumba Sul", como se tornou conhecida, era atingida por uma galeria cujo teto de pedra imitava palmeiras, levando a uma abertura imitando uma porta semi-aberta que se abria para um grande salão. Outras galerias conduziam a uma câmara subterrânea feita de blocos de granito e, em uma de suas paredes, três portas falsas tinham gravados nelas a imagem, nome e títulos de Djoser.

Atualmente, muitos eminentes egiptólogos acreditam que a pirâmide era apenas um túmulo simbólico de Djoser e que seu corpo na verdade foi sepultado na Tumba Sul, encimada por uma grande superestrutura retangular, que continha a capela - um estilo de sepulcro mostrado em alguns desenhos egípcios.

A pirâmide em degraus provavelmente iniciada pelo sucessor de Djoser, Sekhemkhet, também continha uma "câmara mortuária", que ao ser descoberta abrigava um "sarcófago" de alabastro. Os livros contam que o arqueólogo que a encontrou, Zakaria Goneim, concluiu que a câmara fora invadida por ladrões, que tinham roubado a múmia e todo o conteúdo do compartimento. Todavia, isso não é totalmente verdadeiro. De fato, o sr. Goneim encontrou a porta deslizante vertical do baú de alabastro fechada e vedada com gesso e restos de uma coroa de flores ainda permaneciam sobre a rampa do ataúde. Como ele mesmo contou, ao ver isso, suas "esperanças atingiram o ponto máximo; no entanto, quando o sarcófago foi aberto, vimos que ele estava vazio e parecia jamais ter sido usado". Teria o corpo de algum rei um dia repousado ali? Enquanto alguns ainda afirmam que sim, outros estão convencidos de que a pirâmide de Sekhemkhet (tampas de jarros onde estão gravados seu nome comprovam a identificação) era apenas um cenotáfio, isto é, uma tumba simbólica.

A terceira pirâmide em degraus, atribuída a Khaba, também continha uma "câmara mortuária", encontrada vazia, sem múmia ou mesmo o ataúde de pedra. Os arqueólogos identificaram na área vizinha as ruínas de uma outra pirâmide, não terminada, que imaginam ter sido iniciada pelo sucessor de Khaba. A subestrutura de granito continha um "sarcófago" oval, de formato incomum, embutido no piso, como se fosse uma banheira moderna. A tampa estava no lugar, lacrada com cimento; não havia nada em seu interior.

Os arqueólogos descobriram restos de três outras pirâmides pequenas, atribuídas a governantes da 3ª. Dinastia. Numa delas, não foi possível examinar a subestrutura; em outra, não existia nenhum tipo de câmara mortuária; na terceira, havia a câmara, mas nenhum indício de sepultamento.

A exploração da pirâmide desmoronada de Meidum não revelou a existência de câmara mortuária ou sarcófago. Flinders Petrie, que a examinou minuciosamente, encontrou nela apenas fragmentos de um ataúde de madeira, que anunciou como sendo os restos do caixão de Snefru. Atualmente, todos os especialistas acreditam que esses fragmentos provinham de um enterro muito mais posterior, um sepultamento intruso. A pirâmide é cercada por numerosas mastabas da 3ª. e 4ª. dinastias, pois ali eram enterrados os membros da família real e outras personalidades da época. O recinto da pirâmide ligava-se a uma estrutura mais baixa, o chamado "templo funerário", que atualmente está submerso no Nilo. É possível que tenha sido nesse lugar, cercado e protegido pelas águas sagradas do rio, que foi colocado o corpo do faraó.

As duas outras pirâmides, de acordo com a cronologia dos livros, são ainda mais embaraçosas para aqueles que defendem a teoria de que elas são tumbas. As duas pirâmides de Dachur (a Torta e a Vermelha) foram construídas por Snefru. A primeira possui duas "câmaras mortuárias", e a segunda, três. Se os faraós mandavam construir pirâmides para abrigar sua múmia depois da morte, por que Snefru construiu duas delas, com três câmaras? Acho que nem preciso dizer que os compartimentos foram encontrados vazios, sem sarcófagos. Depois de extensas escavações, feitas pelo Serviço de Antiguidades Egípcio em 1947 e novamente em 1953, que se concentraram em especial na pirâmide Vermelha, ficou constatado, como registra o relatório oficial, "que não se encontrou lá nenhum vestígio de uma tumba real".

A teoria "uma pirâmide por faraó" afirma que a pirâmide seguinte, em ordem cronológica, foi construída por Khufu (Quéops), o filho de Snefru e, segundo Heródoto e os historiadores romanos que se basearam em suas obras, ela seria a Grande Pirâmide de Gizé. Como vemos, suas câmaras e compartimentos descobertos em tempos modernos, encontrados inviolados, estavam vazios. Isso, aliás, não deveria ser grande surpresa para os estudiosos, pois o próprio Heródoto escreveu (História, vol. II, pág. 127): "A água do Nilo, levada por um canal artificial, cerca uma ilha onde, segundo se afirma, repousa o corpo de Quéops". Ficaria a verdadeira tumba do faraó no vale próximo das pirâmides, mais perto do rio? Até hoje não se sabe.

Chefra (Quéfren), a quem é atribuída a Segunda Pirâmide de Gizé, não foi o sucessor imediato de Khufu. Entre eles houve um faraó chamado Radedef, cujo reinado durou oito anos. Por motivos, que os estudiosos não conseguem explicar, ele escolheu erigir sua pirâmide num local um pouco distante de Gizé. Possuindo cerca de metade do tamanho da Grande Pirâmide, ela continha a costumeira "câmara mortuária" que, ao ser visitada, revelou-se vazia.

A Segunda Pirâmide de Gizé apresenta duas entradas em lugar da habitual passagem pela face norte. A primeira começa fora dela, o que também é incomum, e leva para uma câmara inacabada. Quando Giovanni Belzoni a explorou em 1818, o sarcófago de granito foi encontrado vazio e a tampa caída no chão, quebrada. Uma inscrição em árabe denunciou a visitação da câmara vários séculos antes. O que os árabes encontraram, se é que encontraram alguma coisa, não está registrado em nenhum lugar.

A Terceira Pirâmide de Gizé, embora muito menor do que as outras, possui características singulares. Na construção do núcleo, foram empregados os maiores blocos de pedra encontrados em todas as três. Os dezesseis cursos inferiores não eram revestidos de calcário, mas de granito. Ela primeiro foi erigida como uma pirâmide menor e depois teve seu tamanho dobrado. Como resultado disso, existem duas entradas utilizáveis e uma terceira inacabada, talvez uma "tentativa" não aprovada pelos construtores. Nela, há várias câmaras e aquela que é considerada a principal, a "câmara mortuária", foi explorada em 1837 por Howard Vyse e John Perring, que encontraram um magnífico sarcófago de basalto, vazio, como de hábito. No entanto, perto dele, Vyse e Perrig acharam um pedaço de um caixão de madeira com o nome "Men-ka-ra" e os restos de uma múmia "possivelmente de Menkara", uma confirmação direta da afirmação de Heródoto de que a Terceira Pirâmide "pertencia a Miquerinos". Todavia, um reexame dessas peças em tempos atuais, onde foi empregado o método de datação com isótopos de carbono, estabeleceu que o caixão de madeira "sem duvida é do período saítico", não anterior a 660 a.C. (K. Michalowsky, Art of Ancient Egypt) e que a múmia encontrada era do início da era cristã. Portanto, nenhuma das duas peças poderia fazer parte de um sepultamento original.

Apesar de não terem certeza de que Men-ka-ra foi o sucessor imediato de Chefra, os especialistas sabem que depois dele veio Shepsekaf. Qual das várias pirâmides jamais terminadas (ou cuja construção foi tão rudimentar que nada delas restou) teria pertencido a ele, ninguém pode dizer. Todavia, todos são unânimes em afirmar que nenhuma delas lhe serviu de túmulo, pois Shepsekaf foi enterrado sob uma monumental mastaba, cuja câmara mortuária continha um sarcófago de granito preto. Quando os arqueólogos a descobriram, constataram que ela tinha sido saqueada por ladrões de túmulos da Antiguidade, que esvaziaram a câmara e o sarcófago.

A 5ª. Dinastia começou com Userkaf, que construiu sua pirâmide em Sakkarah, perto do complexo de Djoser. Ela foi violada tanto por ladrões como por sepultamentos intrusos. O sucessor do faraó, Sahura, construiu sua pirâmide ao norte de Sakkarah (atual Abusir) e, embora ela seja uma das mais conservadas, nada se encontrou em sua "câmara mortuária" retangular. No entanto, a magnificência dos templos que a cercam, estendendo-se até o vale do Nilo, e o fato de os salões do templo mais próximo do rio terem sido ornamentados com colunas imitando tamareiras podem indicar que a verdadeira tumba de Sahura ficava nas imediações de sua pirâmide. .

Neferirkara, que ascendeu ao trono depois de Sahura, construiu seu complexo funerário num local não muito distante do escolhido pelo seu antecessor. A câmara que existia dentro de sua pirâmide não terminada (ou devastada) foi encontrada também vazia. Até hoje não se descobriram monumentos que teriam pertencido a Neferirkara. No entanto, o próximo faraó construiu sua pirâmide usando mais madeira e tijolos de argila do que pedras e por isso só restam dela umas poucas ruínas. Neuserra, o faraó seguinte, construiu sua pirâmide perto da dos seus antecessores. Ela continha duas câmaras, encontradas vazias, sem o menor vestígio de sepultamento. No entanto, Neuserra é mais conhecido pelo seu templo funerário, construído no formato de um obelisco curto e grosso, assenta­ do sobre uma pirâmide truncada. O obelisco tinha 36 metros de altura e seu ápice, ou pyramidion, era revestido com chapas de cobre.

A pirâmide do faraó que sucedeu a Neuserra não foi encontrada e é possível que tenha se transformado num monte de entulho coberto pelas areias cambiantes do deserto. A de seu sucessor só foi identificada em 1945 e continha a habitual câmara, também encontrada vazia e sem nenhum tipo de decoração.

A pirâmide de Unas - o ultimo faraó da 5ª. Dinastia, ou, como preferem alguns, o primeiro da 6ª. - marca uma importante mudança de costumes. Foi lá que, em 1880, Gaston Maspero encontrou os primeiros Textos das Pirâmides, escritos nas paredes de câmaras e corredores. As quatro pirâmides dos faraós da 6ª. Dinastia, que se seguiram a Unas - Teti, Pepi I, Mernera e Pepi II -, apresentavam complexos funerários imitando o de Unas, com a inclusão dos textos nas paredes. Todos os sarcófagos de basalto ou granito encontrados nas "câmaras mortuárias" estavam vazios, com exceção do existente na pirâmide de Mernera, onde havia uma múmia. Logo, porém, ficou estabelecido que ela não era a do rei, mas representava um sepultamento intruso posterior.

E onde foram sepultados esses faraós da 6ª. Dinastia? Os túmulos dessa dinastia e das anteriores ficavam todos no sul do Egito, em Abidos. Esse indício, e muitos outros, há muito já deviam ter afastado totalmente a idéia de que as tumbas reais eram cenotáfios e as pirâmides os verdadeiros locais de sepultamento. Todavia, velhas crenças custam a morrer.

Todos os fatos demonstram o contrário. As pirâmides do Velho Império nunca abrigaram o corpo de um faraó porque não foram erigidas com esse objetivo. Fazendo parte da viagem simulada do faraó para a Outra Vida, quando ele partia na direção do horizonte, elas eram marcos para guiarem seu Ka até a Escada para o Céu ­função exatamente igual às das pirâmides originalmente construídas pelos deuses, que lhes serviam de balizas quando eles "velejavam pelo firmamento".

O que os faraós tentaram copiar, uns após os outros, sugiro, não foi a pirâmide de Djoser, corno dizem os livros, mas as Pirâmides dos Deuses: as pirâmides de Gizé.

13

FALSIFICANDO O NOME DO FARAÓ

A falsificação como meio de se alcançar fama e fortuna não é um fato incomum no comércio e nas artes, ciência e relíquias da Antiguidade. Quando descoberta, a falsificação pode redundar em perdas e vergonha. Quando sancionada, ela pode alterar os registros da História.

Um caso de falsificação, acredito, aconteceu com a Grande Pirâmide e seu suposto construtor, o faraó chamado Khufu.

O reexame arqueológico sistemático e disciplinado dos sítios na área de Gizé, que foram apressadamente escavados há um século e meio, muitas vezes por simples caçadores de tesouros, vem levantando inúmeras questões relacionadas com algumas das conclusões anteriormente aceitas. Afirma-se que a Era das Pirâmides começou com a pirâmide em degraus de Djoser e daí houve uma progressão sucessiva até se chegar, finalmente, a urna pirâmide "verdadeira". Mas, por que seria tão importante a conquista de uma pirâmide de faces lisas? Se a arte das pirâmides foi se aprimorando com o passar do tempo, por que as posteriores às de Gizé eram inferiores, e não melhores, do que elas?

A pirâmide de Djoser teria sido o modelo para as outras ou era uma cópia de algo já existente? Os estudiosos acreditam que a primeira pirâmide em degraus que Imhotep construiu sobre a mastaba "tinha um revestimento de belas pedras de calcário branco", como escreve Ahmed Fakhry em The Pyramids, acrescentando: "No entanto, antes de o revestimento ficar terminado, Imhotep planejou urna nova alteração, a superposição de uma pirâmide maior". Mas, como sugerem novos indícios, mesmo essa segunda pirâmide era também revestida para ficar "verdadeira", ou seja, de faces lisas. Uma missão arqueológica da Universidade de Harvard, chefiada por George Reisner, descobriu que esse revestimento era de tijolos de argila, que, é claro, logo se desmancharam com as intempéries, deixando a impressão de que Imhotep construiu uma pirâmide em degraus. Além disso, outras equipes arqueológicas descobriram que o revestimento era caiado para imitar o calcário branco.

Quem Djoser tentava imitar? Onde ele vira uma pirâmide verdadeira já erigida e completa, com as faces lisas e o revestimento polido? E se, como diz a atual teoria, as tentativas de se construir uma pirâmide lisa, com faces inclinadas em 52 graus, fracassaram e Snefru teve de "trapacear", diminuindo o ângulo para 43 graus, com o qual aquela que é considerada a primeira pirâmide verdadeira, porque seu filho, Khufu/Quéops, teve a idéia de erigir uma pirâmide com o difícil ângulo de 52 graus, o que supostamente conseguiu sem maiores problemas?

Se as pirâmides de Gizé foram apenas pirâmides "comuns" na cadeia "uma para cada faraó", por que o filho de Khufu, Radedef, não construiu a sua próxima da pirâmide do pai? Recordemo-nos de que supostamente as outras duas não estavam lá, de modo que Radedef tinha um grande espaço livre para sua obra. E, se os engenheiros e arquitetos de seu pai já tinham dominado a arte da construção de pirâmides, pois haviam feito a Grande Pirâmide de Gizé, por que não o ajudaram a construir uma tão imponente como a de Khufu, em vez de erigirem a pirâmide bem inferior, que leva seu nome, e que logo se deteriorou?

É importante salientar que só a Grande Pirâmide possui um Corredor Ascendente, a passagem que foi encontrada bloqueada com perfeição e permaneceu escondida até o ano de 820. O fato de todas as outras pirâmides construídas fora de Gizé não terem essa passagem não significaria que todos que tentaram copiar a Grande Pirâmide desconheciam a existência do Corredor Ascendente?

A ausência de inscrições hieroglíficas nas três pirâmides de Gizé também tem motivado especulações. Há um século, em Pyramids, Facts and Fancies, James Bonwick já indagava: "Quem pode se convencer de que os egípcios deixariam tão soberbos monumentos sem pelo menos alguns hieróglifos - eles, que apreciavam uma profusão de inscrições em todos os tipos de construções?" Só existem duas explicações para essa ausência: as pirâmides foram construí­ das antes do surgimento da escrita hieroglífica ou não foram construídas pelos egípcios.

Esses são alguns dos pontos que fortalecem minha crença de que quando Djoser e seus sucessores iniciaram o costume da construção de pirâmides, eles tentavam copiar as já existentes, as pirâmides de Gizé. Estas não foram um resultado do aprimoramento dos esforços iniciados por Djoser, mas protótipos que ele e os faraós seguintes tentaram imitar.

Alguns estudiosos do passado sugeriram que as pequenas pirâmides satélites que se encontram em Gizé eram na verdade modelos em escala (1:5), usados pelos antigos da mesma forma que os arquitetos de hoje utilizam modelos em escala para avaliação e orientação. Atualmente sabe-se que elas foram adições posteriores. No entanto, creio que houve mesmo um modelo experimental, em tamanho menor, e que ele era a Terceira Pirâmide, com seus óbvios experimentos estruturais. Em seguida, foram construídas as duas maiores, reafirmo, para servir de marcos de orientação para os Anunnaki.

E quanto a Menkara, Chefra e Khufu, que, segundo nos relata Heródoto, foram os construtores dessas três pirâmides?

Bem, os templos e o caminho elevado que vai até a Terceira Pirâmide fornecem indícios de que foram construídos por Menkara, tal como as inscrições com seu nome e as várias estátuas incomuns, mostrando-o abraçado por Hathor e outras deusas. Porém, tudo o que eles atestam é que Menkara mandou erigir essas estruturas secundárias que o associam com a pirâmide. Nada indica que ele as construiu. Os Anunnaki, é lógico presumir, precisavam apenas das montanhas artificiais e não construiriam templos para adorarem a si mesmos. Só faraós precisavam de templos funerários e outras estruturas relacionadas com sua viagem até a morada dos deuses.

Dentro da Terceira Pirâmide propriamente dita não existe nenhuma inscrição, estátua ou pintura mural. Nela só se depara com austeridade e precisão. A única evidência encontrada em seu interior de que ela teria sido construída como um túmulo para Menkara provou ser falsa. Os fragmentos de um ataúde de madeira onde estava escrito o nome do faraó, testados com métodos modernos de datação, mostram que eles são de uma época 2 mil anos posterior à do reinado de Menkara. A múmia que o "acompanhava" é do início da era cristã. Portanto, não existe a menor indicação de que Menkara, ou qualquer outro faraó, teve algo a ver com a criação e construção da Terceira Pirâmide.

A Segunda Pirâmide também é completamente austera. As estátuas com o cartucho de Chefra (a estrutura oval indicando o nome de um faraó) foram encontradas apenas nos templos próximos a ela e não existe nenhum indício de que ele foi o construtor da pirâmide.

E quanto a Khufu?

Com uma única exceção, que logo em seguida denunciarei como sendo uma provável falsificação, o único indício de que ele construiu a Grande Pirâmide é a afirmação de Heródoto (e de um historiador romano, que se baseou em sua obra). Heródoto descreve Khufu corno um faraó que escravizou seu povo por trinta anos para construir o caminho elevado e a pirâmide. No entanto, por meio de outros cálculos, esse faraó reinou apenas 28 anos. E mais, se ele era um construtor tão grandioso, abençoado com o auxílio dos maiores arquitetos, engenheiros e pedreiros, onde estão seus outros monumentos extraordinários, onde estão suas estátuas?

Não existe nada parecido e a ausência de qualquer tipo de ruínas de obras desse tipo só demonstra que Khufu era um construtor comum, igual a tantos outros do Antigo Império. Creio, porém, que ele teve uma idéia brilhante. Ao ver os revestimentos de tijolos das pirâmides em degraus desfeitos, a pirâmide desmoronada em Meidum, a inclinação apressada da pirâmide de Snefru, o ângulo inadequado da segunda construída por esse faraó, Khufu teve a grande idéia. Lá, em Gizé, estavam as pirâmides perfeitas e inigualáveis. Por que não pedir aos deuses permissão para associar a urna delas os templos funerários necessários para sua viagem para uma Outra Vida? Não haveria nenhuma intromissão na santidade da pirâmide em si. Todos os templos construídos por Khufu, inclusive o do vale, onde ele provavelmente foi enterrado, ficavam do lado de fora da Grande Pirâmide, próximos dela, mas sem tocá-la. E é por causa deles que a construção da Grande Pirâmide é atribuída a Khufu.

Tendo sido testemunha do fracasso da pirâmide de seu antecessor, Radedef, Chefra preferiu usar a solução encontrada por Khufu. Quando chegou sua hora de precisar de urna pirâmide, ele não viu nenhum mal em se apropriar da Segunda Pirâmide, já feita, e cercou-a com seus templos e pirâmides-satélites. Menkara, seu sucessor, imitou-o, ligando-se à última pirâmide disponível, a Terceira.

Como as pirâmides já prontas haviam sido tornadas, os faraós seguintes viram-se obrigados a conseguir as suas pelo modo mais difícil, ou seja, tentando construí-las... Tal corno aconteceu com seus antecessores que tentaram essa empreitada antes (Djoser, Snefru, Radedef), seus esforços terminaram em cópias inferiores das três pirâmides perfeitas originais.

À primeira vista, minha afirmação de que Khufu (como Chefra e Menkara) não teve nada a ver com a construção da pirâmide ligada ao seu nome pode parecer absurda. Mas não é. A questão sobre Khufu corno construtor da Grande Pirâmide começou a preocupar os egiptólogos sérios há mais de um século, quando foi descoberto o único objeto que menciona diretamente esse faraó como estando ligado à Grande Pirâmide. O mais intrigante é que a inscrição nele existente afirma que Khufu não construiu a pirâmide, que ela já existia na época de seu reinado!

Essa prova contundente é urna estela de pedra calcária, descoberta por Auguste Mariette por volta de 1850, nas ruínas do templo de Ísis, perto da Grande Pirâmide. A inscrição identifica essa estela como um monumento auto-laudatório, que Khufu mandou erigir para comemorar a reforma do templo de Ísis e restauração das imagens e emblemas dos deuses nele existentes, obra feita sob suas ordens. Os versos de abertura o identificam claramente pelo seu cartucho:

Ankh Hor Mezdau Viva Hórus Mezdau;

Suten-bat (ao) Rei (do) Alto e Baixo Egito

Khufu tu ankh Khufu, é dada vida!

Essa abertura comum, invocando o deus Hórus e pedindo longa vida para o rei, é seguida das declarações explosivas:

Ele fundou a casa de Ísis,

Dona da Pirâmide

Ao lado da casa da Esfinge

Segundo a inscrição da estela que se encontra no Museu do Cairo, a Grande Pirâmide já existia quando Khufu entrou em cena e ela pertencia à deusa Ísis, e não ao faraó. Além disso, a Esfinge (que tem sido atribuída a Chefra, que a teria construído junto com a Segunda Pirâmide) também já estava em sua atual localização. A continuação da inscrição descreve a posição da Esfinge com grande exatidão e registra que ela foi danificada por um raio - evento perceptível até os dias de hoje.

Khufu prossegue dizendo que construiu uma pirâmide para a princesa Henutsen "ao lado do templo da deusa". Os arqueólogos encontraram provas independentes dessa estela de que uma das três pequenas pirâmides situadas ao lado da Grande, a mais ao sul delas, era de fato dedicada a Henutsen, uma esposa de Khufu. Assim, tudo o que está gravado na estela combina com os fatos conhecidos e fica bem claro que nela o faraó afirma apenas que construiu a pirâmide pequena. A Grande Pirâmide e a Esfinge (e, por inferência, as outras duas) já estavam lá.

O apoio a minhas teorias se fortalece quando lemos em outra parte da estela a inscrição que diz que a Grande Pirâmide também era chamada de "A montanha Ocidental de Hathor".

Viva Hórus Mezdau;

Ao rei do Alto e Baixo Egito, Khufu,

É dada a vida.

Para sua mãe Ísis, a Divina Mãe,

Dona da montanha Ocidental de Hathor,

Ele fez esta inscrição. .

Ele lhe fez uma nova oferenda sagrada.

Construiu-lhe uma casa [templo] de pedra,

Renovou os deuses encontrados em seu [antigo] templo.

Hathor, devemos nos lembrar, era a senhora da península do Sinai. Assim, se a Grande Pirâmide era a montanha Ocidental de Hathor, tinha de existir uma montanha Oriental - o pico mais alto da península - e ambas funcionavam como balizas do corredor de Aterrissagem dos deuses.

Essa "Estela do Inventário", como ela veio a ser conhecida, tem todos os sinais de autenticidade. No entanto, os estudiosos da época de sua descoberta e muitos outros desde então mostraram-se incapazes de se ajustar às inevitáveis conclusões que devem ser extraídas dela. Não desejando balançar toda a estrutura do estudo das pirâmides, eles a proclamaram como sendo uma falsificação, uma inscrição feita "muito depois da morte de Khufu" (para citar Selim Hassan em Excavations at Giza), invocando seu nome "para apoiar alguma afirmação fictícia dos sacerdotes locais".

James H. Breasted, cuja obra Ancient Records of Egypt é o trabalho padrão sobre as antigas inscrições, escreveu em 1906 que "as referências à Esfinge e ao templo situado ao lado dela, na época de Khufu, tornaram esse monumento (a estela), desde o início, objeto de grande interesse. Elas seriam de máxima importância se o monumento fosse contemporâneo de Khufu; todavia, as provas ortográficas que a situam numa data posterior são inteiramente conclusivas". Breasted discordava de Gaston Maspero, o mais afamado egiptólogo da época, que afirmara que a estela, embora tivesse mesmo uma ortografia posterior à usada no tempo de Khufu, era cópia de um original mais antigo e autêntico. Apesar de suas dúvidas, Breasted incluiu a estela entre os registros da 4ª. Dinastia. Maspero, quando escreveu sua abrangente obra The Dawn of Civilization, em 1920, aceitou o conteúdo da estela como um dado factual sobre a vida e as atividades de Khufu.

Mas, por que tanta relutância em aceitar essa peça como autêntica? A Estela do Inventário foi condenada como sendo uma falsificação porque apenas uma década e pouco antes de seu descobrimento a identificação de Khufu como construtor da Grande Pirâmide parecia ter sido inequivocamente estabelecida. Essas provas, aceitas como conclusivas, eram inscrições feitas em tinta vermelha, encontradas em pequenos compartimentos descobertos sobre a câmara do Rei, que foram interpretadas como sendo marcas feitas nas pedreiras, durante a extração dos blocos, ou pelos pedreiros, durante a construção da obra, no 182 ano do reino de Khufu. Como esses compartimentos estavam hermeticamente fechados, jamais tendo sido penetrados até sua descoberta em 1837, as 324 marcas só poderiam ser autênticas e, portanto, a Estela do Inventário tinha de ser uma falsificação.

Todavia, quando analisamos minuciosamente as circunstâncias em que apareceram as marcas em tinta vermelha e quem foram seus descobridores - uma investigação que nunca ninguém se preocupou em fazer -, a conclusão que emerge é a seguinte: se houve uma falsificação, ela não aconteceu na Antiguidade, mas no ano de 1837. E os falsificadores não foram "alguns sacerdotes locais", mas dois (ou três) ingleses inescrupulosos.

A história começa em 29 de dezembro de 1835, com a chegada ao Egito do coronel Richard Howard Vyse, a "ovelha-negra" de uma aristocrática família britânica. Na época, outros oficiais do exército de Sua Majestade já tinham se destacado como "antiquários", como eram chamados os arqueólogos da época, apresentando relatórios diante das mais afamadas sociedades científicas e recebendo a devida aclamação pública. Quer Vyse tenha ou não ido ao Egito à procura de fama, o fato é que ao visitar as pirâmides de Gizé ele foi imediatamente tomado pela febre de descobertas diárias que atacava leigos e acadêmicos. Vyse empolgou-se em especial com as histórias e teorias de um certo Giovanni Battista Caviglia, que estivera procurando uma câmara secreta dentro da Grande Pirâmide.

Poucos dias depois do encontro entre os dois homens, Vyse ofereceu-se para financiar Caviglia em suas investigações, desde que fosse citado como co-descobridor. Caviglia rejeitou a proposta no mesmo instante e Vyse, ofendido, partiu para Beirute no final de fevereiro de 1836, com o objetivo de visitar a Síria e a Ásia Menor.

No entanto, a longa viagem não foi capaz de aplacar a ânsia que crescera dentro dele. Em vez de voltar para a Inglaterra, Vyse desembarcou novamente no Egito em outubro de 1836. Em sua estada anterior, ele fizera amizade com um ardiloso intermediário chamado J. R. Hill, na época superintendente de uma metalúrgica. Nessa segunda visita, Hill o apresentou a um certo "sr. Sloane", que lhe confidenciou existirem meios de se obter um firmã - um alvará - do governo egípcio, dando ao seu possuidor direitos exclusivos de escavação em Gizé. Assim orientado, Vyse procurou o cônsul britânico, o coronel Campbell, para ajudá-lo na entrada da documentação necessária. Todavia, ao receber o firmã, ele levou um choque ao ver que ele nomeava Sloane e Campbell como "co-licenciados" e designava Caviglia como supervisor das obras de escavação. Em 2 de novembro de 1836, Vyse, desapontado, pagou a Caviglia "minha primeira parcela de 200 dólares", como escreveu ele em suas crônicas, e partiu desgostoso numa visita ao Alto Egito.

Como relatado pelo próprio Vyse em seu livro Operations Carried on at the Pyramids of Gizeh, ele voltou a Gizé em 24 de janeiro de 1837 "ansioso para ver que progressos haviam sido feitos". Todavia, constatou que Caviglia e seus homens dedicavam-se apenas a escavar as tumbas em torno da pirâmide para retirar as múmias. A fúria do coronel só diminuiu quando o italiano garantiu-lhe que tinha algo de importância para lhe mostrar: inscrições feitas pelos construtores das pirâmides!

As escavações nas tumbas mostraram que os antigos canteiros, os trabalhadores que cortavam os blocos de rocha nas pedreiras, às vezes os marcavam com tinta vermelha. Caviglia afirmou que as tinha encontrado na base da Segunda Pirâmide. No entanto, quando levou Vyse para vê-las e os dois as examinaram mais atentamente, viram que a "tinta vermelha" não passava de manchas naturais nas pedras.

E quanto à Grande Pirâmide? Caviglia, que trabalhava em seu interior com a intenção de descobrir até aonde iam os "dutos de ar" que saíam da câmara do Rei, convencia-se cada vez mais de que existiam outros compartimentos secretos além do descoberto por Nathaniel Davison logo acima da câmara do Rei em 1765, que eram atingidos por uma passagem muito estreita. Vyse exigiu que os trabalhos fossem concentrados ali, mas ficou bastante aborrecido quando percebeu que Caviglia e Campbell estavam mais interessados em desenterrar múmias e outros objetos desejados por todos os museus do mundo, e que a amizade entre os dois era tanta que o italiano dera a uma grande tumba que descobrira o nome de "tumba de Campbell".

Decidido a ser a estrela do espetáculo que estava financiando, Vyse deixou o Cairo, mudando-se para um local próximo das pirâmides. "Naturalmente eu desejava fazer algumas descobertas antes de voltar à Inglaterra", confessou ele em seu diário, no dia 27 de janeiro de 1837. Afinal, estava distante de casa e dando grandes despesas a sua família havia mais de um ano.

Nas semanas seguintes, o desentendimento e as acusações contra Caviglia foram aumentando. Em 11 de fevereiro de 1837, os dois tiveram uma discussão violenta. No dia seguinte, Caviglia fez importantes descobertas na tumba de Campbell: um sarcófago com hieróglifos e marcas em tinta vermelha nas paredes do sepulcro. No dia 13, Vyse demitiu Caviglia e mandou-o deixar imediatamente o local das escavações. Este só retornou uma única vez, no dia 25, para pegar seus pertences. Nos anos que se seguiram, Caviglia fez várias "acusações desabonadoras" a Vyse, segundo as palavras do próprio coronel, mas cuja natureza ele evita detalhar.

Teria a briga sido um desentendimento legítimo ou Vyse criou uma situação insustentável para poder tirar Caviglia do local das escavações?

Acontece que Vyse visitou em segredo a Grande Pirâmide na noite de 12 de fevereiro, acompanhado por John Perring, um engenheiro do Departamento de Obras Públicas do Egito e diletante em egiptologia, a quem ficara conhecendo através do esperto sr. Hill. Os dois examinaram uma fenda intrigante que surgira num bloco de granito do teto da câmara de Davison. Quando enfiaram uma vareta de salgueiro no orifício, ela passou livre, sem dobrar. Obviamente havia um espaço livre acima do teto.

Que tramas eles dois elaboraram durante aquela visita noturna? Podemos adivinhar pelos eventos que se seguiram. O fato é que Vyse despediu Caviglia na manhã seguinte e colocou Perring em sua folha de pagamento. Em seu diário, o coronel confessou: "Estou decidido a fazer escavações acima do teto da câmara (de Davison) onde espero encontrar um apartamento sepulcral". Enquanto ele derramava mais dinheiro e homens em sua empreitada, membros da realeza e outros dignitários chegavam a Gizé para admirar as descobertas feitas na tumba de Campbell, pois havia muito pouco a ver dentro da pirâmide. Vyse, frustrado, mandou seus trabalhadores perfurar o ombro da Esfinge, esperando pelo menos encontrar marcas de pedreira nela. Não obtendo sucesso, voltou novamente sua atenção para a câmara escondida.

Por volta de meados de março, Vyse viu-se diante de um novo problema: seus homens estavam sendo atraídos para projetos mais produtivos. Ele ofereceu-se, então, a dobrar seus salários, desde que trabalhassem dia e noite, pois o tempo estava escasseando e logo o alvará de escavação iria expirar. Desesperado, Vyse esqueceu-se da cautela e ordenou o uso de explosivos para arrebentar as pedras que bloqueavam seu avanço.

Em 27 de março, os trabalhadores conseguiram abrir um buraco num bloco de granito. Numa atitude irracional, Vyse demitiu seu capataz, um certo Paulo. No dia seguinte, escreveu em seu diário: "Prendi uma vela na ponta de uma vara e a passei pelo pequeno buraco no teto da câmara de Davison; tive o desgosto de descobrir que o compartimento superior era igual ao primeiro em construção". Ele encontrara a "câmara sepulcral".

Usando pólvora para ampliar o orifício, Vyse entrou na câmara recém-descoberta em 30 de março, acompanhado pelo sr. Hill, e os dois a examinaram minuciosamente. Ela era hermeticamente fechada, sem nenhum tipo de entrada, o piso formado pelo lado áspero dos blocos de granito que constituíam o teto da câmara de Davison. "Um sedimento preto distribuía-se por igual sobre todo o piso, mostrando cada uma de nossas pegadas." (A natureza desse pó preto "acumulado com alguma profundidade" jamais foi determinada.) O teto era "finamente polido" e tinha encaixes de excelente qualidade. Não havia dúvidas de que a câmara nunca fora visitada antes, mas ela não continha nem sarcófago nem tesouros. Estava completamente vazia e com as paredes nuas.

Vyse ordenou para que o buraco fosse aumentado ainda mais e enviou uma mensagem ao cônsul britânico comunicando que dera ao compartimento recém-descoberto o nome de "câmara de Wellington". Vejamos agora o que o coronel fala na continuação de sua entrada no diário daquele dia: "À noite, quando chegaram o sr. Perring e o sr. Mash, entramos na câmara de Wellington e começamos a medi-la. Enquanto fazíamos as medições, encontramos as marcas feitas na pedreira!" Que súbito e extraordinário golpe de sorte!

Esses sinais eram similares às marcas de pedreira escritas em tinta vermelha encontradas nas tumbas do lado de fora da pirâmide. É estranho Vyse e o sr. Hill não as terem visto na noite anterior, quando examinaram minuciosamente a câmara. A singular descoberta só aconteceu na presença de duas testemunhas, o sr. Perring e o sr. Mash, um engenheiro que estava visitando a câmara a seu convite.

O fato de a câmara de Wellington ser quase idêntica à de Davison levou Vyse a desconfiar que poderia existir um outro compartimento acima delas. Por motivos ignorados, em 4 de abril, ele despediu o outro capataz, um homem chamado Giachino. Em 14 de abril, o cônsul britânico e o cônsul austríaco visitaram o local das escavações e solicitaram cópias das marcas feitas na pedreira. Vyse então mandou Perring e Mash incumbirem-se desse trabalho, mas instruiu-os a copiar primeiro as marcas descobertas na tumba de Campbell, deixando para depois as da Grande Pirâmide.

Com a liberação do uso da pólvora, o compartimento acima da câmara de Wellington, que Vyse batizou de "câmara de Nelson" em honra do almirante, foi aberto em 25 de abril. Estava tão vazio como os outros e apresentava a mesma misteriosa poeira preta. Vyse relatou ter encontrado "várias marcas de pedreira escritas em tinta vermelha nos blocos de granito, em especial na parede oeste". Durante todo esse tempo, o sr. Hill entrava e saía das câmaras recém­-descobertas, ostensivamente, para escrever nelas os nomes de Wellington e Nelson. No dia 27, o mesmo sr. Hill- não Perring ou Mash - copiou as marcas de pedreira encontradas nelas. Vyse reproduziu as da câmara de Nelson em seu livro.

Em 7 de maio, foi aberto o caminho para mais um compartimento que Vyse batizou de "câmara de lady Arbuthnot". Em seu diário, ele não registra o encontro de marcas de pedreira, embora mais tarde elas existissem ali em profusão. O surpreendente nessas novas marcas era que elas incluíam um grande número de cartuchos, que só podiam significar nomes de reis. Teria Vyse encontrado uma prova incontestável, o nome do faraó que construíra a pirâmide?

Em 18 de maio, um certo dr. Walni "solicitou cópias dos caracteres encontrados na Grande Pirâmide para enviá-las ao sr. Rosellini", sendo este um eminente egiptólogo especializado na decifração de nomes reais. Vyse recusou-se terminantemente a atender ao pedido.

No dia seguinte, acompanhado de lord Arbuthnot, o sr. Brethel e o sr. Raven, Vyse entrou na câmara de lady Arbuthnot e os quatro compararam "os desenhos do sr. Hill com as marcas de pedreira da Grande Pirâmide; em seguida, assinamos um testemunho de sua exatidão". Pouco tempo depois, a última câmara foi aberta e mais marcas, inclusive um cartucho, foram descobertas. Vyse então partiu para o Cairo, onde apresentou as cópias autenticadas das inscrições à Embaixada britânica, para serem oficialmente enviadas a Londres.

Vyse considerava seu trabalho na Grande Pirâmide como terminado. Ele descobrira quatro compartimentos até então desconhecidos e provara a identidade do construtor do monumento, pois dentro dos cartuchos estava escrito o nome Kh-u-f-u.

E é nessa descoberta que os livros vêm se baseando até os dias de hoje.

O impacto das descobertas de Vyse foi enorme e em pouco tempo ele conseguiu uma confirmação dos peritos do Museu Britânico, o que garantiu a sua aceitação.

Não se sabe ao certo quando as cópias feitas pelo sr. Hill chegaram ao museu e quando Vyse recebeu o resultado da análise dos peritos, mas em sua crônica de 27 de maio de 1837 ele transcreveu a opinião do Museu Britânico (dada pelo especialista em hieróglifos Samuel Birch), que confirmava suas expectativas: os nomes nos cartuchos podiam ser lidos como Khufu ou variações dele. Como dissera Heródoto, Quéops fora o construtor da Grande Pirâmide.

Todavia, na empolgação que se seguiu, pouca atenção foi dada aos muitos "se" e "mas" do relatório do museu. Além disso, ele continha a pista que me levou a acreditar numa contrafação: um erro grosseiro do falsário.

Para começar, o sr. Birch não se entusiasmou muito com a ortografia e o texto de muitas marcas. "Os símbolos e hieróglifos pintados em vermelho pelo escultor ou pedreiro nos blocos das câmaras da Grande Pirâmide são aparentemente marcas feitas em pedreira", escreveu ele no parágrafo de abertura, e prosseguiu: "Embora não muito legível, por terem sido escritas em caracteres semi-hieráticos ou linear-hieroglíficos, elas possuem pontos de considerável interesse...”

O que intrigou o sr. Birch foi que as marcas de pedreira do início da 4ª. Dinastia estavam claramente feitas numa escrita que só começara a aparecer séculos depois. Tendo se originado da pictografia - escrita com figuras -, a escrita hieroglífica exigia grande habilidade e muito tempo de treinamento. Assim, com o passar do tempo, começou a entrar em uso, especialmente em transações comerciais, uma escrita mais simples e rápida, mais linear, que é chamada de Hierática pelos especialistas. Então, os símbolos encontrados por Vyse eram de um outro período. O sr. Birch também encontrou grande dificuldade em lê-los. Vários deles lhe pareceram "escritos em caracteres quase hieráticos", portanto de um período muito posterior ao surgimento dos semi-hieráticos. Alguns símbolos eram incomuns, nunca tendo sido vistos antes em qualquer outra inscrição do Egito: "O cartucho de Sufis (Quéops) é seguido por um hieróglifo para o qual seria difícil encontrar um paralelo". Outros símbolos eram "igualmente de difícil solução".

O perito também ficou muito intrigado com "uma curiosa seqüência de símbolos" da câmara mais superior, com teto em V invertido, que Vyse batizara como "câmara de Campbell". Nela, o sinal para o "bom, bondoso" estava usado como um numeral ­algo jamais visto antes. Esses numerais escritos de maneira incomum supostamente significariam "18º. ano" (do reino de Khufu).

Os sinais que vinham depois do cartucho real (escritos "na mesma caligrafia linear") também causaram espécie ao perito. Birch partiu da hipótese de que eles deviam expressar um título qualquer, algo como "Poderoso no Alto e Baixo Egito", mas a única similaridade que pôde encontrar com essa fileira de símbolos foi uma que soletrava "um título que existe no ataúde da rainha de Amasis", do período saítico. Birch não viu necessidade de acrescentar que o faraó Amasis reinou no século VI a.C. - portanto, mais de 2 mil anos depois de Khufu!

Seja quem for o autor das marcas supostamente descobertas por Vyse, ele empregou um método de caligrafia (linear), escritas (semi­-hierático e hierático) e títulos de períodos variados - e nenhum da época de Khufu ou antes dele. O autor também não era muito letrado, pois grande parte dos hieróglifos estavam incompletos, fora de lugar, pouco claros ou então eram completamente desconhecidos.

(Analisando essas inscrições um ano depois, o mais famoso egiptólogo alemão da época, Karl Richard Lepsius, também mostrou-se intrigado com o fato de elas "terem sido feitas com pincel e tinta vermelha numa escrita cursiva, de tal forma que se parecem com os sinais hieráticos". Ele afirmou também que alguns dos hieróglifos que vinham depois do cartucho lhe eram completamente desconhecidos e "sou incapaz de explicá-los".)

Voltando à principal questão sobre a qual fora solicitado a dar uma opinião - a identidade do faraó nomeado nas inscrições -, Birch lançou uma bomba: havia dois nomes reais dentro da pirâmide!

Seria possível dois faraós terem construído a mesma pirâmide? Se fora isso o que acontecera, quem eram eles?

Segundo Birch, os dois nomes não eram desconhecidos, pois "já foram encontrados em tumbas de funcionários empregados pelos monarcas dessa dinastia" referindo-se à 4ª. Dinastia, a cujos faraós eram atribuídas as pirâmides de Gizé. Um dos cartuchos foi lido como Saufou ou Shoufou; o outro, por incluir o carneiro, símbolo do deus Khnum, como Senekhuf ou Seneshoufou.

Tentando analisar o significado do nome com o símbolo do carneiro, Birch salientou que "um cartucho similar ao primeiro encontrado na câmara de Wellington foi publicado pelo sr. Wilkinson e o sr. Rosellini, que lêem nos elementos fonéticos que o compõem 'Seneshufo', que o sr. Wilkinson supõe significar 'o irmão de Sufis'''.

Um faraó poder terminar uma pirâmide começada pelo seu predecessor é uma teoria bem aceita pelos egiptólogos (como no caso da pirâmide de Meidum). Ela não explicaria a presença de dois nomes reais numa mesma pirâmide? Talvez, mas certamente não serviria para explicar o caso que estamos analisando.

Na Grande Pirâmide isso é impossível devido à localização dos vários cartuchos. O de Quéops/Khufu foi encontrado somente no compartimento superior, o com o teto em V invertido, que Vyse batizou de câmara de Campbell. Os vários cartuchos com o segundo nome (atualmente tido como Khnem-Khuf) estavam na câmara de Wellington e na de lady Arbuthnot (na de Nelson não havia cartuchos). Em outras palavras, os compartimentos inferiores tinham o nome de um faraó que viveu e reinou depois de Quéops/Khufu. Como não existe um outro meio de se construir uma pirâmide que não seja de baixo para cima, a localização dos cartuchos significava que Quéops terminara a pirâmide iniciada por um faraó que viveu e reinou depois dele. O que, claro, é impossível.

Aceitando que os dois nomes encontrados na pirâmide poderiam ser de faraós que na antiga Lista de Reis eram chamados de Sufis I (Quéops) e Sufis II (Quéfren), Birch tentou resolver o enigma imaginando se os dois, de alguma forma, pertenciam a Quéops, sendo um seu nome verdadeiro e o outro "um prenome". No entanto, sua conclusão final foi que "a presença de um segundo nome das marcas de pedreira da Grande Pirâmide é um embaraço adicional". Mais um entre tantos outros aspectos embaraçosos encontrados nas inscrições.

O "problema do segundo nome" continuava sem solução quando o mais notável egiptólogo inglês, Flinders Petrie, cinqüenta anos depois da descoberta de Vyse, passou vários meses fazendo medições nas pirâmides. "A teoria mais falha sobre esse rei (Khnem-­Khuf) é a que afirma que ele e Khufu são a mesma pessoa." Em The Pyramids and Temples of Gizeh, ele dá os muitos motivos apresentados por outros egiptólogos contra essa idéia e mostra que os nomes pertenciam a dois reis diferentes. Então, como explicar as localizações dos cartuchos na Grande Pirâmide? Para Petrie, a única explicação plausível seria que Quéops e Quéfren tinham sido co-regentes, reinando juntos.

Como não se encontrou nenhum indício que pudesse apoiar a teoria de Petrie, Gaston Maspero, quase um século depois da descoberta de Vyse, escreveu que a existência dos cartuchos Khufu e Khnem-Khuf num mesmo monumento causou grandes embaraços para os egiptólogos (The Dawn of Civilization). E o enigma, apesar de todas as teorias sugeridas, continua sendo embaraçoso para eles.

Eu, no entanto, acredito que existe uma solução definitiva, desde que deixemos de atribuir as inscrições aos pedreiros da Antiguidade e comecemos a encarar os fatos.

As pirâmides de Gizé são singulares, entre outras coisas, devido à ausência de qualquer tipo de ornamento ou inscrição - com exceção das encontradas por Vyse. Se os pedreiros não tiveram o menor remorso em pincelar com tinta vermelha os blocos escondidos nos compartimentos acima da câmara do Rei, por que nenhuma inscrição foi feita no primeiro deles, o compartimento descoberto por Davison em 1765?

Além das inscrições supostamente descobertas por Vyse, existem nos compartimentos verdadeiras marcas de pedreiros - setas, linhas de posicionamento e pequenos sinais. Todas desenhadas na horizontal, como seria de se esperar, pois, quando foram feitas, as pequenas câmaras ainda não estavam cobertas e podia-se ficar em pé, andar de um lado para o outro e pintar as marcas sem entraves. Todavia, as inscrições - pintadas por cima ou em torno das marcas verdadeiras - estão de cabeça para baixo ou na vertical, como se quem as desenhou precisasse se inclinar ou agachar dentro dos compartimentos baixos (a altura varia de 0,40 a 1,34 metro na câmara de lady Arbuthnot e de 0,67 a 1,10 metro na de Wellington).

Os cartuchos e títulos reais pintados nas paredes dos compartimentos eram imprecisos, grosseiros e excessivamente grandes.

A maioria dos cartuchos tinha de 80 a 90 centímetros de comprimento e cerca de 30 centímetros de largura, às vezes ocupando a maior parte do bloco de pedra - como se o escriba precisasse de todo o espaço disponível. Eles contrastam fortemente com a precisão, delicadeza e perfeito senso de proporção dos hieróglifos egípcios, evidentes nas verdadeiras marcas encontradas nesses compartimentos.

Salvo algumas marcas no canto da parede leste da câmara de Wellington e algumas linhas sem sentido e o contorno parcial de um pássaro na parede leste da câmara de Campbell, Vyse não encontrou nenhuma inscrição nas paredes leste dos compartimentos.

Isso é bastante estranho, em especial quando se considera que foi escavando uma passagem no lado leste que Vyse conseguiu penetrar nos compartimentos. Será que os pedreiros da Antiguidade anteciparam que um dia um inglês iria entrar por esse lado e fizeram a gentileza de não escreverem nelas para que as inscrições não fossem danificadas? Ou será que a pessoa que as desenhou preferiu usar as paredes intactas, esquecendo as destruídas?

Em outras palavras: não é fato que todos os enigmas se mostram de fácil solução quando partimos da hipótese de que as inscrições não foram feitas na Antiguidade, quando a pirâmide estava sendo construída, mas somente depois que Vyse explodiu uma passagem para atingir os compartimentos?

A atmosfera que cercava as operações de Vyse naqueles dias frenéticos está bem descrita em seus relatos. Descobertas importantes eram feitas diariamente nos sítios em torno das pirâmides, mas dentro delas nada se encontrava. A tumba de Campbell, descoberta pelo detestado Caviglia, gerava não apenas as peças tão desejadas pelos museus de todo o mundo como as marcas de pedreira e hieróglifos que despertavam grande interesse por parte dos egiptólogos. Vyse estava ficando desesperado, não via a hora de se destacar, fazendo sua própria descoberta. Finalmente ele conseguiu penetrar nas câmaras até então desconhecidas, mas descobriu que eram exatamente iguais à primeira, encontrada por Davison, e que elas estavam vazias, sem qualquer tipo de ornamento nas paredes. O que tinha para exibir ao mundo depois de tantos esforços e despesas?

Sabemos, a partir das crônicas em seu diário, que durante o dia Vyse mandou o sr. Hill escrever nas câmaras os nomes do duque de Wellington e do almirante Nelson, heróis das vitórias sobre Napoleão. À noite, desconfio, o sr. Hill voltou aos compartimentos para "batizar" a Grande Pirâmide com os cartuchos de seu suposto construtor.

Como Samuel Birch salientou, "os dois nomes reais já foram encontrados em tumbas de funcionários empregados pelos monarcas dessa dinastia". Sem dúvida, os artesãos dos faraós conheciam o nome correto de seu rei. Não era esse o caso dos arqueólogos do início do século passado, pois por volta de 1830 a egiptologia ainda estava em sua infância e ninguém sabia ao certo qual seria o desenho hieroglífico correto para o faraó que Heródoto chamara de "Quéops" .

Com isso em mente, vamos agora ao que suspeito ter acontecido logo após a entrada nas câmaras. O sr. Hill, na calada da noite, provavelmente sozinho, entrou nos compartimentos. Usando a tinta vermelha obrigatória, à luz de velas, agachando-se no espaço restrito, empenhou-se em copiar símbolos hieroglíficos vindos de outros locais. Pintou nas paredes intactas as marcas que lhe pareceram ser as apropriadas. E terminou escrevendo, tanto na câmara de Wellington como na de lady Arbuthnot, o nome errado.

Com tantas inscrições de nomes da 4ª. Dinastia saltando diariamente das tumbas em torno das pirâmides, qual cartucho o sr. Hill deveria reproduzir? Pouco familiarizado com a escrita hieroglífica, ele deve ter levado consigo algum livro escrito por um especialista no assunto, do qual copiaria os símbolos tão intricados. A única obra desse teor mencionada com freqüência nas crônicas de Vyse é Materia Hieroglyphica, de sir John Gardner Wilkinson. Como declarava o autor no frontispício, a meta do livro era informar o leitor sobre o "panteão e sucessão dos faraós desde os tempos mais primitivos até a conquista de Alexandre". Publicada em 1828 - nove anos antes do assalto de Vyse às pirâmides -, a obra era considerada básica para os ingleses interessados em egiptologia.

Lembremo-nos de que Samuel Birch afirmou em seu relatório que "um cartucho da câmara de Wellington foi publicado pelo sr. Wilkinson em Materia Hieroglyphica". Portanto, temos uma clara indicação da provável fonte do cartucho escrito por Hill no primeiro compartimento encontrado por Vyse. (Ver figo 146b).

Ao consultar o livro de Wilkinson, senti até uma certa pena de Vyse e Hill. Além da completa desorganização na apresentação e no texto, as ilustrações que reproduzem os cartuchos são pequenas e mal impressas. O autor parecia ter dúvidas não apenas no que dizia respeito à leitura dos nomes mas também sobre a maneira correta de transcrever os hieróglifos entalhados em pedra. O problema mais sério era o relacionamento com o sinal do Disco, que nos monumentos aparecia como um círculo sólido ou uma esfera vazia e na escrita a mão era um círculo com um pontinho no meio. No livro, ele às vezes transcreve o sinal encontrado nos cartuchos dos monumentos como um disco sólido e em outros como um círculo com o ponto no meio.

Hill deve ter copiado o livro de Wilkinson, mas todos os cartuchos nele mostrados são da variedade Khnum, os que contêm o símbolo do carneiro. Isso explica o fato de, por volta de 7 de maio de 1837, só terem sido encontrados nos compartimentos os cartuchos desse tipo. No entanto, em 27 de março, quando penetrou-se na última câmara, a de Campbell, surgiu o cartucho vital e conclusivo, soletrando Kh-u-f-u. Como explicar esse acontecimento?

Uma pista está escondida num segmento bastante suspeito das crônicas de Vyse, onde ele fala sobre as pedras da camada de revestimento da Grande Pirâmide, "que não mostram o menor vestígio de inscrições ou ornamentos, exatamente como todas as outras pertencentes à pirâmide" (com exceção das marcas de pedreira supostamente descobertas por ele). Mas, segundo Vyse, havia uma outra exceção: "parte de um cartucho de Sufis, gravado numa pedra marrom de 10 por 20 centímetros. O fragmento foi desenterrado em 2 de junho, no lado norte".

Como o coronel poderia saber nesse dia - muito antes do cocumicado oficial do Museu Britânico - que aquilo era "parte de um cartucho de Sufis"? O fato é que ele desejava que os seus leitores acreditassem nisso porque uma semana antes (27 de maio) tinha sido encontrado o cartucho completo na câmara de Campbell.

Mas agora vem a parte ainda mais suspeita. Vyse afirma que a pedra com parte do nome de Sufis ou Khufu foi encontrada em 2 de junho. No entanto, sua crônica tem data de 9 de maio! Obviamente ele escreveu com a intenção de levar seus leitores a acreditar que o pedaço de cartucho encontrado fora da pirâmide corroborava a descoberta do nome completo encontrado no interior dela alguns dias antes. Todavia, as datas sugerem que o que aconteceu foi o contrário: Em 9 de maio, dezoito dias antes da descoberta das marcas na câmara de Campbell, ele já sabia como deveria ser escrito o cartucho vital. De alguma forma, por volta de 9 de maio, Vyse e Hill se deram conta de que tinham escrito errado o nome de Quéops.

Essa descoberta talvez explique as freqüentes idas e vindas ao Cairo logo depois da descoberta da câmara de lady Arbuthnot, que Vyse relata em seu diário. Parece muito estranho ele e Hill viajarem quando eram tão necessários nas pirâmides e as crônicas não explicam o motivo de toda essa movimentação. Creio que a "bomba" que caiu sobre eles foi um novo livro de Wilkinson, uma obra em três volumes, intitulada Manners and Customs of the Ancient Egyptians. Publicado em Londres em 1837, o livro deve ter chegado ao Cairo durante aqueles dias tensos e dramáticos. E nele, agora nítido e bem impresso, estavam reproduzidos, num capítulo comentando esculturas anteriormente descobertas, tanto o cartucho com o carneiro que a dupla copiara como um outro, que Wilkinson lia como "Shufu ou Sufis".

Essa nova publicação do grande especialista deve ter sido um choque e tanto para Vyse e Hill, porque ele mudara de idéia sobre o cartucho do carneiro (no. 2 na ilustração do livro). Agora ele lia "Numba-Khufu ou Chembes", em vez de "Sen-Sufis". Esses nomes, acrescentava o autor, tinham sido encontrados em tumbas nas vizinhanças da Grande Pirâmide e era no cartucho "1a" da ilustração que "percebemos Sufis ou, como escrito em hieróglifos, Shufu ou Khufu, nomes facilmente convertidos em Sufis ou Quéops". Então era assim que tinha de ser o cartucho, devem ter pensado Vyse e Hill.

1. Nome de Shufu ou Sufis

1. a, b. Nome de Shufu ou Sufis

2. Numba-khufu ou Chembes

3. Assekaf ou Shepsekaf

4. Shafra, Khafra ou Quéfren

5. 6. Nome de ou Mênfis

7. 8. (Mênfis ou) Ptah-el, a morada de Ptah

Das tumbas próximas das pirâmides

Mas, de quem seria o cartucho com o carneiro, que eles tinham colocado nas câmaras? Explicando as dificuldades de interpretação, Wilkinson confessava não ser capaz de decidir "se os dois primeiros nomes aqui apresentados são ambos de Sufis ou se o segundo é o do fundador da outra pirâmide".

O que Vyse e Hill poderiam fazer diante dessa notícia perturbadora? O próprio livro de Wilkinson lhes dava uma saída, que eles se apressaram a aproveitar. Segundo o especialista, os dois nomes "ocorrem de novo no monte Sinai".

De maneira pouco exata - falha comum em suas obras -, Wilkinson se referia a inscrições encontradas não no monte Sinai, mas nas minas de turquesa da península. Esses hieróglifos tinham chegado ao conhecimento do público através do livro Voyage de l'Arabie Pétrée, de Léon de Laborde et Linat, publicado em 1832, com desenhos extraordinários mostrando os monumentos e reproduzindo as inscrições encontradas no wadi Maghara, que levava às áreas de mineração. Nesse local, os faraós mandaram entalhar nas paredes rochosas do cânion lembranças de seus feitos contra asiáticos saqueadores. É numa dessas ilustrações que estão os dois cartuchos mencionados por Wilkinson.

Vyse e Hill não devem ter tido dificuldade em encontrar um exemplar do livro de Laborde no Cairo, pois a língua mais falada lá era o francês. E aquele desenho em especial parecia responder à dúvida de Wilkinson, porque indicava que o faraó tinha mesmo dois nomes, um com o símbolo do carneiro e o outro que se soletrava Ku-u-f-u. Por isso é que por volta de 9 de maio, o trio Vyse, Hill e Perring já sabia que se fazia necessário mais um cartucho e como ele deveria ser escrito.

Quando da visitação da câmara de Campbell em 27 de maio, os três viram sua oportunidade de consertar o erro cometido antes. Foi assim que o último e conclusivo cartucho apareceu na parte superior do compartimento recém-descoberto. A fama estava garantida para Vyse. O sr. Hill, como veremos, não saiu da empreitada de mãos vazias.

Como posso me mostrar tão certo de minhas acusações um século e meio depois do acontecido?

A resposta é fácil. Como a maioria dos falsários, o sr. Hill cometeu uma série de erros. E, entre eles, um que nenhum escriba da Antiguidade teria cometido.

Acontece que os dois livros em que a dupla Vyse-Hill se baseou continham erros de ortografia. Ambos, sem desconfiarem disso, os reproduziram nas paredes das câmaras.

O próprio Samuel Birch, em seu relatório, salientou que o hieróglifo para Kh (a primeira consoante do nome Kh-u-f-u), representa pictoricamente uma peneira, "aparece na obra do sr. Wilkinson sem distinção do símbolo do Disco Solar". Ora, o hieróglifo Kh do nome Khnem-kh-u-f teria de estar escrito em todos os cartuchos das câmaras inferiores (cujas cópias foram enviadas ao Museu Britânico para análise). No entanto, o símbolo da peneira, que seria o correto, não foi empregado em nenhum deles. Em todos, o Kh estava representado pelo símbolo do Disco Solar. Portanto, quem escreveu esses nomes repetiu o mesmo erro cometido por Wilkinson...

A ilustração que Vyse e Hill encontraram no livro de Laborde só serviu para aumentar seus equívocos. Ela reproduzia a inscrição encontrada gravada nas rochas e tinha o cartucho de Khufu à direita e o de Khnum-kh-u-f à esquerda. Em ambos os casos, Laborde, que sempre confessou sua ignorância em hieróglifos e não fez qualquer tentativa de ler os símbolos, copiou o sinal Kh como uma circunferência vazia. Contudo, como verificado pelas mais afamadas autoridades (Lepsius em Denkmaler, Kurt Sethe em Urkunden des Alten Reich e A. H. Gardiner e T. E. Peet em The Inscriptions of Sinai) no original a consoante está escrita corretamente com o símbolo da peneira. O francês também não foi totalmente exato ao copiar a figura: ele a desenhou como sendo a inscrição de um único faraó com dois nomes o que de fato eram duas inscrições vizinhas, separadas por uma fenda e gravadas em escritas diferentes, de dois faraós.

Vyse e Hill, com base nesse desenho, decidiram colocar o cartucho crucial com o nome de Khufu na última câmara que fora descoberta e o escreveram, copiando Laborde, com o símbolo do Disco Solar. Mas, ao fazer isso, o escritor estava empregando o símbolo hieroglífico e som fonético para RA, o deus supremo do Egito!

Inadvertidamente, a pessoa que pintou os cartuchos nas câmaras escreveu Khnem-Rauf e não Khnem-Khuf, e Raufu em vez de Khufu, ou seja, usou o nome do grande deus de forma incorreta e em vão: uma blasfêmia no Egito Antigo.

Um erro assim seria inconcebível para um escriba do tempo dos faraós. Como se pode ver em todos os monumentos e inscrições da época, o símbolo para Ra e o para Kh eram sempre corretamente empregados, tanto em inscrições diferentes como nas feitas por um mesmo escriba.

Reafirmo, portanto, que a substituição de Kh por Ra é um erro que não poderia ter sido feito na época de Khufu ou qualquer outro faraó. Só quem não conhecia hieróglifos, não conhecia Khufu e a força da adoração de Ra poderia cometer tal heresia.

Acrescentado a todos os aspectos estranhos e inexplicados da descoberta comunicada por Vyse, esse erro final, em minha opinião, estabelece conclusivamente que o coronel e seus ajudantes, e não os construtores da Grande Pirâmide, escreveram as marcas e cartuchos encontrados nas câmaras.

Mas, alguém poderia perguntar, não haveria o risco de os visitantes - como os cônsules britânico e austríaco ou lord e lady Arbuthnot - notarem que as inscrições tinham um aspecto muito mais fresco do que as verdadeiras marcas de pedreira? Essa pergunta foi respondida por um dos próprios envolvidos, o sr. Perring, em seu livro The Pyramids of Gizeh. Segundo ele, a tinta usada para as inscrições era "um composto de ocre vermelho chamado moghrah, que continua em uso". Então, não somente a mesma tinta vermelha dos originais estava disponível como era - citando as palavras do autor - "tal o estado de conservação das inscrições que é difícil distinguir uma marca feita ontem de uma feita há 3 mil anos".

Os falsários, portanto, não tinham dúvidas sobre sua tinta.

Seriam Vyse e Hill - possivelmente com a conivência de Perring - moralmente capazes de fazer uma tal falsificação? As circunstâncias do início da aventura de Vyse, o modo como tratou Caviglia, a cronologia dos eventos, sua determinação em conseguir uma descoberta importante numa ocasião em que tempo e dinheiro estavam escasseando - denunciam um caráter capaz de tal feito. Quanto ao sr. Hill- a quem Vyse agradece profusamente no prefácio de seu livro -, o fato é que, sendo empregado de uma metalúrgica de cobre na ocasião em que ficou conhecendo o coronel, ele acabou comprando o Luxuoso Cairo Hotel pouco antes da partida definitiva de Vyse do Egito. No que diz respeito ao sr. Perring - um engenheiro civil que virou egiptólogo -, os eventos subseqüentes falam por si. Pois, encorajados com o sucesso da falsificação eles fizeram mais uma e talvez outra...

Enquanto trabalhava na Grande Pirâmide, Vyse, sem grande entusiasmo, continuou as escavações iniciadas por Caviglia em torno das duas outras. Todavia, depois da descoberta das inscrições, incentivado pela fama recém-adquirida, ele resolveu adiar sua volta à Inglaterra e envolveu-se nos esforços concentrados para descobrir os segredos da Segunda e Terceira Pirâmides.

Com exceção de algumas marcas em tinta vermelha encontradas em pedras soltas, que peritos do Cairo determinaram como sendo provenientes das tumbas ou de outras estruturas fora da pirâmide, nada de importante foi descoberto na Segunda. Contudo, dentro da Terceira os esforços de Vyse mostraram-se produtivos. No final de julho de 1837 - como já mencionei anteriormente -, seus trabalhadores conseguiram penetrar na "câmara sepulcral", encontrando lá um "sarcófago" com belíssimos entalhes, mas vazio. Inscrições em árabe nas paredes e "o piso de câmaras e corredores gastos pela passagem constante de grande número de pessoas" deixaram claro que "a pirâmide vem sendo muito freqüentada".

Mesmo nessa "pirâmide freqüentada" e apesar do ataúde de pedra vazio, Vyse conseguiu encontrar provas de quem fora seu construtor - um feito equivalente ao realizado dentro da Grande Pirâmide.

Numa outra câmara retangular, que Vyse chamou de "o grande apartamento", foi encontrada uma grande quantidade de lixo, juntamente com os graffiti em árabe. O coronel concluiu que a câmara "era provavelmente usada em cerimônias fúnebres, como as outras existentes em Abu Simbel, Tebas etc." Quando se retirou o lixo:

Encontramos quebrada a parte maior da tampa do sarcófago... perto dela, sobre um bloco de pedra, descobrimos fragmentos de uma tampa de caixão de múmia (inscrita em hieróglifos, entre eles o cartucho de Menkara) junto com partes de um esqueleto, consistindo em vértebras e costelas, e ossos de pernas e pés envoltos num tecido de lã grosseiro, de cor amarelada...

Mais pedaços de madeira e tecido foram retirados do lixo.

Assim, a impressão é de que, como o sarcófago não pôde ser removido, o caixão de madeira contendo a múmia foi levado ao grande apartamento para ser examinado.

Vejamos então o cenário esboçado por Vyse: Séculos antes os árabes entraram na câmara, encontraram o sarcófago e abriram a tampa. Dentro dele estava a múmia em seu caixão de madeira - o corpo do construtor da Segunda Pirâmide. Os invasores levaram o caixão com a múmia para o grande apartamento com a intenção de examiná-lo à procura de tesouros, quebrando-o durante o transporte. Agora ele encontrara os restos desse roubo e, por sorte, justamente o pedaço da tampa do caixão onde estava gravado o cartucho onde se lia Men-ka-ra - nada mais nada menos que o próprio Miquerinos de Heródoto. Com isso, Vyse comprovava a identidade de mais um construtor das pirâmides de Gizé!

O sarcófago perdeu-se no mar por ocasião do naufrágio do navio que o transportava para a Inglaterra, mas o pedaço de caixão e os restos de múmia chegaram intactos ao Museu Britânico e Samuel Birch pôde ler as próprias inscrições e não apenas cópias delas, como no caso das câmaras da Grande Pirâmide. Ele logo expressou suas dúvidas, dizendo que "o caixão de Miquerinos mostra uma considerável diferença de estilo quando comparado com monumentos da 4ª. Dinastia". Wilkinson, porém, aceitou o fragmento como prova autêntica da identidade do construtor da Terceira Pirâmide, mas ficou em dúvida sobre a múmia porque o tecido que a envolvia não lhe pareceu ser da antiguidade alegada. Em 1883, Gaston Maspero concluiu que "a tampa de madeira do rei Menchere não é da época da 4ª. Dinastia". Em 1892, Kurt Sethe resumiu a opinião da maioria dos egiptólogos de seu tempo dizendo que a tampa "só poderia ter sido feita depois da 20ª. Dinastia".

Como atualmente está cientificamente provado, tanto o caixão como os ossos não são restos de um enterro original. Nas palavras de L E. S. Edwards (The Pyramids of Egypt):

Na câmara do sepultamento original, o coronel Vyse descobriu alguns ossos humanos e a tampa de um ataúde de madeira onde estava escrito o nome de Miquerinos. Essa tampa, que atualmente se encontra no Museu Britânico, não pode ter sido feita na época desse faraó, pois é de um modelo não usado antes do período saítico. Os testes com rádio-carbono mostraram que os ossos são do início da era cristã.

Essa afirmação nega a autenticidade do achado mas não vai ao âmago da questão. Se os restos não eram do sepultamento original, só podiam ser de um enterro intruso. Mas então, múmia e caixão teriam de ser do mesmo período. Como não era este o caso, só existe uma única explicação: alguém colocou dentro da Terceira Pirâmide uma múmia e um caixão desenterrados em lugares diferentes. E a conclusão inevitável é que essa descoberta foi uma fraude arqueológica deliberada.

A falta de combinação entre as duas peças teria sido uma coincidência, sendo elas restos de dois enterros intrusos? Deve-se duvidar dessa hipótese em vista de o pedaço de caixão ter inscrito o nome de Men-ka-ra. Esse cartucho foi encontrado em estátuas e templos em torno da Grande Pirâmide e é provável que o ataúde ou parte dele tenha vindo dessa área. A atribuição do caixão a períodos posteriores tem origem não somente em seu modelo como também na escolha de palavras da inscrição: trata-se de uma prece a Osíris tirada do Livro dos Mortos, portanto, do tempo do Novo Império e sua presença num caixão da 4ª. Dinastia pareceu esquisito até para o ingênuo (embora erudito) Samuel Birch (Ancient History from the Monuments). Quanto ao ataúde em si, ele não precisaria ser "uma restauração" feita na 26ª. Dinastia, como sugeriram alguns especialistas, tentando explicar o cartucho, pois sabemos, a partir da Lista de Reis do túmulo de Séti I, encontrada em Abidos, que o oitavo faraó da 6ª. Dinastia (cujos reis eram enterrados nas adjacências das pirâmides de Gizé) também se chamava Men-ka-ra e seu nome, apesar da mudança da escrita com o passar dos tempos, era soletrado de modo similar.

Está claro então que alguém descobriu o pedaço de caixão nas vizinhanças das pirâmides e Vyse, sem dúvida, logo se deu conta da importância do achado. Como contam suas crônicas, cerca de um mês da descoberta na Terceira Pirâmide, ele encontrara o nome Men-ka-ra (Miquerinos) escrito em tinta vermelha no teto de uma das três pirâmides pequenas situadas ao sul da Terceira. Deve ter sido a soma dos dois fatos que lhe deu a idéia de criar um importante achado arqueológico dentro da própria pirâmide...

Vyse e Perring ficaram com o crédito pela descoberta. Como podem ter perpetrado a fraude - com ou sem a ajuda do esperto sr. Hill?

Mais uma vez, as crônicas de Vyse insinuam a verdade: "Não estando presente quando as relíquias foram encontradas, solicitei ao sr. Raven, quando se encontrasse na Inglaterra, que escrevesse um relato sobre a descoberta". Essa "testemunha independente", que de alguma forma foi convidada a estar presente no momento certo, é um sr. H. Raven, que, dirigindo-se ao coronel como "Sir" e assinando seu depoimento "seu criado obedientíssimo", atestou o seguinte:

Na retirada do lixo do grande salão de entrada, depois dos homens terem ficado trabalhando ali por vários dias e terem avançado alguma distância na direção do canto sudeste, foram encontrados alguns ossos sob a pilha de lixo; logo em seguida foram descobertos os ossos restantes e partes do ataúde. Nada mais deles foi achado no salão.

Por isso, mandei que todo o lixo já retirado fosse cuidadosamente reexaminado, quando então foram achados vários pedaços do ataúde e do tecido que envolvia a múmia; mas em nenhum outro lugar da pirâmide foram encontrados outros restos, embora tudo tenha sido minuciosamente examinado para tornar o ataúde o mais completo possível.

Agora temos uma idéia melhor do que aconteceu. Por vários dias os homens trabalharam retirando o lixo do Grande Apartamento e empilhando-o em algum lugar próximo. Embora o lixo tenha sido examinado, não se encontrou nada de diferente. Então, no último dia, quando só faltava limpar o canto sudeste do salão, foram descobertos os ossos e pedaços de ataúde. "Nada mais deles foi encontrado" no interior da pirâmide. Então alguém sugeriu que o lixo colocado do lado de fora - uma pilha de 1 metro de altura ­fosse "cuidadosamente reexaminado", o que significa que ele já fora examinado antes, e eis que surgem mais ossos e principalmente o pedaço do ataúde com o cartucho!

Onde estariam o resto do esqueleto e ataúde? "Embora tudo tenha sido minuciosamente examinado para tornar o ataúde o mais completo possível", nada mais foi encontrado no interior da pirâmide. Portanto, a não ser que acreditemos que ossos e pedaços de ataúde tenham sido levados como souvenirs no passado, só podemos imaginar que a pessoa que colocou os restos na pirâmide levou apenas os fragmentos necessários para criar a descoberta. Uma múmia completa ou um ataúde inteiro não estavam disponíveis, ou seria incômodo contrabandeá-los para o grande salão.

Aclamado por essa segunda descoberta, o coronel Vyse, que logo seria promovido a general, e o sr. Perring partiram para produzirem no sítio arqueológico da pirâmide de Djoser, uma pedra com o nome desse faraó escrito em tinta vermelha. Não existem detalhes suficientes nas crônicas de Vyse para se determinar se lá também houve uma falsificação, mas é incrível ter sido novamente a mesma equipe que conseguiu desenterrar provas da identidade de um outro construtor de pirâmides.

(Enquanto a maioria dos egiptólogos aceitou sem maiores investigações a afirmação de que o nome de Khufu estava escrito na Grande Pirâmide, as obras do célebre sir Alan Gardiner sugerem que ele tinha dúvidas sobre o assunto. Em seu livro, Egypt of the Pharaohs, estão reproduzidos os cartuchos reais com uma clara distinção entre os hieróglifos para Ra e Kh. Falando do nome de Quéops, ele escreveu que "o cartucho é encontrado em várias pedreiras, nas tumbas de seus parentes e nobres da corte, e em alguns escritos de datas posteriores". É muito significativa a ausência da inscrição encontrada na Grande Pirâmide nessa lista... Em suas obras, Sir Alan também não faz qualquer menção às descobertas de Vyse e nem mesmo cita seu nome.)

Diante da destruição das provas da construção das pirâmides por faraós, não existem mais motivos para desconfiarmos da autenticidade da estela do Inventário, onde se afirma que as pirâmides e a Esfinge já estavam lá quando Khufu aparece em cena reformando o templo de Ísis e homenageando Osíris.

Não resta nada para contradizer minha afirmação de que as três pirâmides de Gizé foram construídas por "deuses". Nelas não existe nada que indique que tenham sido concebidas por homens para serem utilizadas por homens.

Mostrarei agora que esses monumentos faziam parte da Grade de Orientação que servia para facilitar as operações de aterrissagem no espaço-porto dos Nefilim.

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O OLHAR DA ESFINGE

Com o passar do tempo, as pirâmides de Gizé tornaram-se parte da Rede de Orientação de Aterrissagem que tinha como ponto focal os picos do monte Ararat e abrangia Jerusalém na condição de Centro de Controle da Missão, servindo para guiar os veículos espaciais em direção ao espaço-porto situado na península do Sinai. Contudo, logo depois de sua construção, quando a plataforma de Baalbek era usada como espaço-porto provisório, as próprias pirâmides serviam como marcos de orientação devido a sua localização, alinhamento e formato. Todas elas, como já vimos, são pirâmides em degraus, ou seja, iguais aos zigurates da Mesopotâmia. No entanto, quando os "deuses que vieram do céu" fizeram testes com seu modelo em escala (a Terceira Pirâmide), devem ter constatado que a sombra projetada por uma pirâmide em degraus nas rochas ondulantes e areias sempre em mutação era pouco nítida e imprecisa para servir como um direcionador confiável. Revestindo o núcleo em degraus, obtendo uma pirâmide de faces lisas e empregando nessa camada externa o calcário branco, refletor de luz, eles conseguiram um perfeito jogo de luz e sombra, capaz de proporcionar uma clara orientação.

Em 1882, enquanto contemplava as pirâmides de Gizé da janela de um trem em movimento, Robert Ballard percebeu que podia determinar sua própria localização e rumo através da aparente variação no alinhamento entre elas. Ampliando essa observação em seu livro The Solution of the Pyramid Problem, Ballard mostrou também que elas estão alinhadas dentro de triângulos pitagóricos, cujos lados mantêm sempre a proporção 3:4:5. Outros estudiosos de pirâmides demonstraram que elas podem servir como um gigantesco relógio de sol, pois através da sombra que lançam é possível se determinar a hora diária e anual.

Mais importante ainda é como as silhuetas e sombras das três pirâmides aparecem para um observador localizado no céu. Como mostra a foto aérea, elas lançam sombras em forma de flecha, servindo como inconfundíveis pontos direcionais.

Quando chegou o momento de os Anunnaki instalarem o novo espaço-porto, tornou-se necessária a determinação de um Corredor de Aterrissagem muito maior do que aquele que vinha servindo a Baalbek. Para o corredor do primeiro espaço-porto terrestre - o localizado na Mesopotâmia -, os Nefilim da Bíblia tinham escolhido como ponto focal a montanha mais notável do Oriente Médio, o monte Ararat. Por isso, não é de surpreender que resolvessem mantê-la como o ponto focal do novo corredor.

Da mesma forma que quanto mais se estuda a construção e alinhamento das três pirâmides mais se descobre "coincidências" de triangulação e perfeição geométrica, encontramos intermináveis "coincidências" de triangulação e alinhamento à medida que vamos descobrindo a Rede de Aterrissagem projetada pelos Anunnaki.

Uma vez escolhido o ponto focal do novo corredor, passou-se à determinação de locais para servirem de ponto de ancoragem para as linhas noroeste e sudeste do perímetro, que convergiriam no Ararat. Qual seria a baliza de entrada na península do Sinai?

O monte Santa Catarina fica no meio de uma massa de granito onde há muitos picos parecidos com ele, embora um pouco mais baixos. Quando a missão inglesa chefiada pelos irmãos Palmer, encarregada de fazer o levantamento topográfico da região, começou seu trabalho, logo foi constatado que esse monte, apesar de ser o de maior altitude, não se destacava o suficiente para funcionar como marco geodésico. Para isso, escolheu-se então o monte Umm Shumar que tem 2.608 metros, sendo portanto quase de mesma altura do Santa Catarina. De fato, até o levantamento oficial, muitos acreditavam que ele era o pico mais alto da península. O Umm Shumar eleva-se sozinho no maciço, distinto e inconfundível. Dele pode-se avistar facilmente os dois golfos e tem-se uma visão livre em todas as direções. Foi devido a essas características que os ingleses o escolheram sem hesitação para ser o ponto focal da medição e levantamento topográfico da península.

O monte Santa Catarina era adequado para um Corredor de Aterrissagem curto, com foco em Baalbek; mas, com a mudança do ponto focal para o Ararat - muito mais distante -, fazia-se necessária uma baliza de entrada mais nítida e inconfundível. Acredito que pelos motivos dos Palmer, os Anunnaki decidiram usar o Umm Shumar para ancorarem a linha sudeste do perímetro do novo Corredor de Aterrissagem.

Existem muitos aspectos intrigantes nesse monte e em sua localização. Para começar, seu nome, estranho ou bastante significativo, quer dizer: "Mãe da Suméria", um título usado na cidade de Ur para Ningal, a esposa de Sin...

Ao contrário do Santa Catarina, que fica no centro do maciço de granito e assim é atingido com dificuldade, o Umm Shumar está localizado na borda da massa de rochas. As praias arenosas no lado do maciço que dá para o golfo de Suez possuem várias fontes naturais de água quente. Seria ali que Asherah passava seus invernos, quando "residia à beira-mar"? Essa parte da costa está mesmo a apenas "uma viagem em lombo de asno" do Umm Shumar - um trajeto vivamente descrito nos textos ugaríticos que relatam a visita de Asherah à morada de El, situada numa montanha.

Alguns quilômetros ao sul das fontes termais, localiza-se o porto mais importante desse litoral - a cidade de El-Tor. O nome­ outra coincidência? - significa "O touro" que, como já vimos, também era um epíteto de El. Os textos ugaríticos referem-se a ele como "Touro El" El-Tor vem se mantendo como principal porto da península desde os tempos mais primitivos, o que nos faz imaginar se ele não seria a Cidade de Tilmun (diferente da Terra de Tilmun) mencionada nos textos sumérios. Talvez fosse ele que Gilgamesh pretendia alcançar viajando de navio com Enkidu. Sua intenção era deixar o amigo próximo das minas, onde ele iria cumprir pena pelo resto da vida, e em seguida dirigir-se até o "Local de Aterrissagem onde se erguem os Shem".

Os picos do maciço do granito que dão para o golfo de Suez têm nomes que nos fazem parar para pensar. Um deles é o "monte da Mãe Abençoada"; outro, o mais próximo do Umm Shumar, é o "monte Telman" ("monte do sul"). O nome nos traz à mente as palavras do profeta Habacuc: "El virá de Telman... Cobrindo os céus com seu halo; seu esplendor espalha-se sobre a Terra; A Voz vai diante dele; centelhas emanam da parte inferior. Ele faz uma pausa para medir a Terra”...

Estaria Habacuc referindo-se ao monte que ainda é chamado de Telman, o vizinho do Umm Shumar situado ao sul? Como não existe na região nenhuma montanha com um nome parecido, a identificação parece mais do que plausível.

O monte Umm Shumar ajusta-se à Rede de Orientação e rede de local sagrados fundada pelos Anunnaki?

Minha teoria é que esse monte substituiu o Santa Catarina quando foi determinado o Corredor de Aterrissagem definitivo, com foco nos picos do Ararat. Assim sendo, onde ficava o ponto de ancoragem para a linha noroeste do perímetro?

Acredito que não foi por acaso que fundaram Heliópolis no local que ela ocupava. Ela fica na linha Ararat-Baalbek-Gizé e está localizada de tal forma que a distância dela a Ararat é exatamente igual à que separa o Ararat do monte Umm Shumar! Sugiro então que sua posição foi determinada quando se mediu a distância em linha reta que separa o Ararat e o Umm Shumar, dois marcos naturais, e em seguida locou-se um ponto eqüidistante na linha Ararat-Baalbek­-Gizé.

À medida que se descobre o impressionante conjunto de montanhas naturais e artificiais que foram incorporadas à rede de orientação e comunicações dos Anunnaki, imagina-se se elas serviam de balizas somente devido à sua altura e formato. Não seria lógico pensar que todos também estavam equipados com algum tipo de instrumentos de direcionamento?

Quando se descobriram pares de condutos estreitos saindo das duas câmaras da Grande Pirâmide e abrindo-se para o exterior, imaginou-se que eles serviam como escoadouros de alimentos para os atendentes do faraó que presumivelmente tinham sido emparedados junto ao corpo de seu amo. Como a câmara do Rei encheu-se de ar fresco assim que a equipe do coronel Vyse desobstruiu o conduto norte, essas passagens passaram a ser chamadas de "dutos de ar". Em 1964, essa designação foi contestada por respeitados arqueólogos numa publicação conceituada, o Mitteilungen des Instituts für Orientforschung der Deutschen Akademie der Wissenschaften zu Berlin, o que é surpreendente, pois o establishment acadêmico sempre evitou divergir da teoria "pirâmide são tumbas". Escrevendo em vários boletins daquele ano, Virginia Trimble e Alexander Badawy apresentaram sua conclusão de que os "dutos de ar" tinham funções astronômicas, "pois estão incontestavelmente inclinados na direção das estrelas circumpolares, com uma margem de erro de apenas 1 grau".

Mesmo certificadas de que a direção e inclinação dos dutos foram premeditadas, é interessante notar que assim que o ar penetrou na câmara do Rei, a temperatura em seu interior manteve-se constante em 20 graus centígrados, fosse qual fosse o clima. Essas descobertas parecem confirmar as conclusões de E. F. Jomard, membro da equipe de cientistas de Napoleão que pensava que a câmara do Rei e seu "sarcófago" não tinham sido feitos para sepultamentos, mas para guardar padrões de peso e medidas que, como se sabe, devem ser mantidos em ambientes com temperatura e umidade estáveis.

Claro que em 1824 Jomard falava em termos de unidades como o metro e o quilograma, e não podia imaginar os delicados instrumentos de orientação que são usados na atualidade. Nós, contudo, estamos familiarizados com eles.

Muitos estudiosos que ponderaram sobre o propósito da intricada superestrutura da câmara do Rei, com seus cinco compartimentos hermeticamente lacrados, acreditam que ela foi construída para aliviar a pressão da massa de blocos de pedra. Todavia, a câmara da Rainha, que está bem abaixo e suporta uma pressão muito maior, não possui essas tais "cavidades de alívio". Quando Vyse e seus homens entraram nos compartimentos, surpreenderam-se em ouvir com clareza cada palavra que era falada em outras partes da pirâmide. Flinders Petrie (The Pyramids and the Temple of Gizeh) examinou minuciosamente a câmara do Rei e o "ataúde" de pedra e descobriu que ambos foram construídos de acordo com as dimensões de triângulos pitagóricos. Ele também calculou que para cortar o ataúde de um bloco de pedra fora necessário o uso de uma serra com lâminas de 2,75 metros de comprimento, com dentes de ponta de diamantes. E mais, só uma furadeira com ponta de diamante, aplicada com uma pressão de 2 toneladas, conseguiria escavar a pedra para formar o interior do ataúde. Petrie confessou-se incapaz de explicar como isso poderia ter acontecido na Antiguidade. O arqueólogo mandou levantar o ataúde de pedra para verificar se ele continha algum tipo de abertura. Não encontrou nada. Petrie constatou também que, quando se batia no ataúde, ele emitia o som de um sino, que ressoava por toda a pirâmide, característica que já fora relatada por investigadores do início do século XIX. Então vem a pergunta: Será que a câmara do Rei e seu "caixão" foram construídos para servir como emissores de sons ou câmaras de eco?

Na atualidade, os equipamentos de orientação e aterrissagem dos aeroportos emitem sinais eletrônicos que os instrumentos de urna aeronave em aproximação traduzem num zumbido agradável quando ela mantém o curso correto. Se a aeronave sai do curso, o zumbido transforma-se num bip alarmante. Com base nisso, podemos supor com segurança que assim que foi possível, depois da destruição causada pelo dilúvio, novos equipamentos de orientação foram trazidos à Terra. O desenho egípcio que mostra os Divinos Portadores do Cordão indica que havia Pedras do Esplendor instaladas nos dois pontos de ancoragem do Corredor de Aterrissagem. Minha teoria é que as câmaras no interior das pirâmides serviam para abrigar esses instrumentos de orientação e comunicação.

E Shad El - a "montanha de El" - seria igualmente equipada?

Os textos ugaríticos invariavelmente empregam a frase "penetrar em Shad El" ao descreverem a vinda de outros deuses à presença de El, que se encontrava "dentro de suas sete câmaras". Isso indica que essas câmaras ficavam no interior da montanha, tal como acontecia na Grande Pirâmide, urna montanha artificial.

Os historiadores dos primeiros séculos da era cristã contaram que o povo que habitava o Sinai e áreas adjacentes, como a Palestina e o norte da Arábia, adorava o deus Dushara ("Senhor das Montanhas") e sua esposa, Allat, "a Mãe dos Deuses". Trata-se, claro, de El e Elat, o feminino de El, ou seja, sua mulher, Asherah. Por sorte, o objeto sagrado de Dushara, sua relíquia adorada pelos fiéis, era retratado numa moeda mandada cunhar pelo governador romano daquelas províncias. Curiosamente, ele se parece bastante com a enigmática câmara do Rei da Grande Pirâmide: uma escada inclinada (um Corredor Ascendente), conduzindo para uma câmara entre enormes blocos de pedra. Sobre ela, urna pilha de pedras que nos faz lembrar dos "compartimentos de alívio".

Uma vez que as passagens ascendentes da Grande Pirâmide ­ algo que só existe nela - estavam perfeitamente bloqueadas quando os homens de Al-Mamun as descobriram, a pergunta é: Quem, na Antiguidade, conhecia e copiou, como vemos na moeda, a construção do interior da pirâmide? A resposta só pode ser: os arquitetos e construtores da Grande Pirâmide. Só eles seriam capazes de reproduzir essas estruturas, tanto em Baalbek cormo no interior da montanha de El.

E foi assim que, apesar de o monte do Êxodo ficar situado na metade norte da península do Sinai, os habitantes da região sul transmitiram de geração a geração a lembrança de montes sagrados no maciço de granito. Eles eram as montanhas que, simplesmente por causa de sua altura e localização, mais os instrumentos dentro delas, serviam de balizas de orientação para os "Cavaleiros das Nuvens".

Quando foi instalado o primeiro espaço-porto terrestre, que ficava na Mesopotâmia, a trajetória de vôo era uma linha central que dividia exatamente ao meio o corredor de aterrissagem em forma de flecha. As balizas de entrada, com seus faróis de aproximação, piscavam suas luzes e emitiam sinais acompanhando as duas linhas de perímetro da flecha. O centro de controle das operações ficava situado sobre a linha da trajetória de vôo e era lá que estavam todos os equipamentos que geravam sinais de orientação e comunicação, e onde se armazenavam todas as informações sobre órbitas planetárias e vôos espaciais.

Quando os Anunnaki aterrissaram em nosso planeta e decidiram construir na Mesopotâmia seu espaço-porto e instalações auxiliares, o Centro de Controle da Missão era Nippur ("O Local da Travessia"). O recinto "sagrado", ou restrito, de Nippur estava sob o absoluto controle de Enlil e chamava-se KI.UR ("Cidade da Terra"). Na parte central desse recinto, no alto de uma plataforma elevada, artificial, ficava o DUR.AN.KI "O Vínculo entre o Céu e a Terra". Como contam os textos sumérios, ele era "um alto pilar atingindo o firmamento, voltado para o céu". Assentado sobre "uma plataforma que não pode tombar", o pilar era usado por Enlil para "pronunciar a palavra" na direção do céu.

Podemos entender que todos esses termos eram tentativas sumérias de descrever antenas e instrumentos de comunicação sofisticados quando olhamos para o nome de Enlil "soletrado" em escrita pictográfica: um sistema de grandes antenas, radares e uma estrutura de comunicações.

Dentro dessa "altíssima casa" de Enlil estava escondida uma câmara misteriosa chamada DIR.GA, termo que significa, em tradução literal, "câmara escura em forma de coroa". O nome descritivo logo nos traz à lembrança a câmara do Rei, também oculta e misteriosa. Na DIR.GA, Enlil e seus assistentes guardavam as "Tábulas do Destino", onde estavam escritas as informações sobre vôos espaciais e orbitais. Quando um deus que podia voar como um pássaro roubou essa tábula:

Suspensas ficaram as Divinas Fórmulas.

A imobilidade se espalhou.

O silêncio prevaleceu...

O brilho do santuário foi roubado.

Na DIR.GA eram guardadas também as cartas celestes e o deus e seus ajudantes "executavam com perfeição" o ME, termo que tem ligações com a informática e a astronáutica. Essa câmara escondida era:

Tão misteriosa quanto os éteres longínquos

Como o zênite celestial.

Entre seus emblemas... os emblemas das estrelas;

O ME ele executa com perfeição.

Suas palavras são sussurros...

Suas palavras são veículos graciosos.

Um Centro de Controle da Missão, similar ao que ficava na linha de trajetória de vôo na Mesopotâmia antediluviana, precisava ser instalado para servir o novo espaço-porto na península do Sinai. Onde?

Minha resposta é: em Jerusalém.

Igualmente sagrada para judeus, muçulmanos e cristãos, Jerusalém, cuja atmosfera parece carregada de algum mistério inexplicável, já era uma cidade santa antes de o rei Davi nela estabelecer sua capital e de Salomão construir a Morada do Senhor. Quando Abraão chegou aos seus portões, Jerusalém era um centro de culto bem estabelecido de "El, o Supremo, o justo do Céu e da Terra". O nome mais antigo da cidade é Ur-Shalem, a "Cidade de Shalem" ou, traduzindo o nome próprio, a "Cidade do Ciclo Completado", que sugere uma associação com o Deus das órbitas ou com assuntos orbitais. Quanto a quem poderia ter sido Shalem, os estudiosos propõem várias teorias. Uns, como Benjamim Mazer, no artigo "Jerusalém before the David Kingship", dizem que se trata de Shamash, o neto de Enlil. Outros preferem identificá-lo com Ninib, o filho de Enlil. Contudo, em todas as teorias não existe contestação da ligação das raízes de Jerusalém com o panteão mesopotâmico.

A cidade de Jerusalém, desde seus primórdios, abrange três picos de montanha. De norte a sul eles são: monte Zofim, monte Moriá e monte Sião. Os nomes denunciam suas antigas funções. O mais ao norte é o "Monte dos Observadores" (atualmente chamado de monte Scopus); o central "Monte do Direcionamento"; o mais ao sul "Monte do Sinal". Eles mantêm essas denominações apesar da passagem dos milênios.

Os vales de Jerusalém também têm nomes e epítetos intrigantes. Um deles é chamado por Isaías de Hizaion, "O vale da Visão". O de Kidron era conhecido como "O vale do Fogo". No Hinnom (o Geena do Novo Testamento), segundo lendas milenares, havia uma entrada para o mundo subterrâneo, marcada por uma coluna de fumaça que se erguia entre duas palmeiras. Já o vale Repha'im tinha esse nome porque nele residiam os Divinos Curadores que, como contam as lendas ugaríticas, trabalhavam sob as ordens da deusa Shepesh. Nas traduções para o aramaico do Velho Testamento, esses curadores são chamados de "Heróis"; a primeira tradução grega chamou o lugar habitado por eles de "vale dos Titãs".

Dos três montes de Jerusalém, o Moriá foi sempre o mais sagrado. O Livro do Gênesis afirma explicitamente que Deus mandou Abraão ir para lá em companhia de seu filho Isaac na ocasião em que quis testar a fidelidade do patriarca. As lendas hebraicas contam que Abraão reconheceu o monte Moriá a distância porque viu sobre ele "um pilar de fogo indo da terra até o céu e uma nuvem pesada onde se via a Glória de Deus". Essa linguagem é quase idêntica à usada na descrição bíblica sobre a descida de Deus no monte Sinai.

A grande plataforma no alto do monte Moriá, que em sua constituição básica nos faz lembrar de Baalbek, embora seja muito menor, há muito é chamada de "O monte do Templo", pois era o local onde ficava o templo de Jerusalém da época de Salomão.

Atualmente ele é ocupado por vários santuários muçulmanos, dos quais o mais famoso é o Domo da Rocha. Essa cúpula foi trazida de Baalbek pelo califa Abd-al-Malik no século VII e no Líbano ela encimava uma igreja bizantina. O califa a mandou instalar como cobertura de um prédio octogonal que ele erigira para abrigar a Rocha Sagrada, uma enorme pedra à qual, desde tempos imemoriais, eram atribuídas qualidades mágicas e divinas.

Os muçulmanos acreditam que foi da Rocha Sagrada que Maomé partiu para visitar o Céu. Segundo o Corão, o anjo Gabriel transportou o profeta de Meca a Jerusalém, com uma rápida parada no monte Sinai. Para subir ao Céu em companhia do anjo, Maomé usou uma "escada de luz". Depois de passar pelos Sete Céus, ele finalmente viu-se na presença de Deus. Recebeu as instruções divinas e, em seguida, voltou à Terra pelo mesmo raio de luz, pousando de novo na rocha. Dali retornou a Meca, com uma outra parada rápida no monte Sinai, montado no cavalo alado do anjo.

Os viajantes da Idade Média pensavam que a Rocha Sagrada era um enorme bloco de pedra artificialmente cortado, em forma de cubo, cujos cantos apontavam para os quatro pontos cardeais. No entanto, como apenas a parte superior da rocha é visível, a idéia de que ela tem a forma cúbica deve ter se originado da tradição muçulmana que afirma que a Grande Pedra Sagrada de Meca, a Kaaba, é uma réplica (feita por ordem divina) da Rocha Sagrada de Jerusalém.

A partir da parte visível, fica evidente que a Rocha Sagrada foi cortada de diferentes maneiras na face superior e lados, perfurados para formação de dois funis tubulares e escavada para se criar um túnel subterrâneo e câmaras secretas. Ninguém sabe o propósito dessas obras, quem as projetou e executou.

No entanto, sabemos que Salomão construiu o Primeiro Templo no monte Moriá seguindo instruções precisas dadas pelo Senhor. O Santo dos Santos foi erigido sobre a Rocha Sagrada. A câmara mais interna desse santuário, toda revestida de ouro, era ocupada por dois querubins, esculpidos em ouro, com as asas tocando as paredes e umas às outras. Entre eles ficava a Arca da Aliança, do interior da qual Deus falou a Moisés no deserto. Embora estivesse completamente isolado do exterior, o Santo dos Santos é chamado no Velho Testamento de Dvir, cuja tradução literal é "O Falador".

A sugestão de que Jerusalém era um centro de comunicações "divino", um lugar onde havia uma Pedra do Esplendor oculta, pela qual a Voz de Deus era irradiada para as áreas mais remotas, não é tão absurda como pode parecer. De fato, na Bíblia isso é louvado como prova da supremacia de Iahweh e da própria Jerusalém.

"Responderei ao Céu e eles responderão à Terra", garantiu o Senhor ao profeta Oséias. Amós profetizou que "de Sião, Iahweh rugirá, de Jerusalém sua voz emanará". E o salmista afirmou que quando Deus falasse de Sião seus pronunciamentos seriam ouvidos em todos os confins da Terra e no Céu também:

Aos deuses Iahweh falará

E à Terra Ele clamará do Oriente ao Ocidente...

Aos céus ele clamará e à Terra também.

Baal, o senhor do complexo de Baalbek, vangloriava-se de que sua voz podia ser ouvida em Cades, a cidade portal do recinto dos deuses no centro da península do Sinai. O Salmo 29, dando a lista de alguns lugares da Terra que podiam ser atingidos pela voz do Senhor de Sião, incluiu nela tanto Cades como o Líbano, onde fica Baalbek.

A voz de Iahweh cobre as águas...

A voz de Iahweh despedaça os cedros...

A voz de Iahweh ressoa no deserto.

Iahweh sacode o deserto de Cades.

As capacidades adquiridas por Baal quando instalou as Pedras do Esplendor em Baalbek estão descritas nos textos ugaríticos como a possibilidade de colocar "um lábio na Terra, um lábio no Céu". O símbolo para esses aparelhos de comunicação, como vimos, eram as duas pombas. Tanto a terminologia como o simbolismo estão incorporados nos versos do Salmo 68, que descrevem a chegada do Senhor, que se aproxima voando:

O Senhor da Palavra dará uma ordem,

O oráculo de um exército numeroso.

Os reis de exércitos correm e fogem;

Morada e lar tu dividirás como despojos

Mesmo que estiverem entre os dois Lábios

E a Pomba de asas cobertas de prata,

Cujas penas são de ouro esverdeado...

O carro de Deus é poderoso,

Tem milhares e milhares de anos;

Dentro dele o Senhor veio do sagrado Sinai.

A Pedra do Esplendor de Jerusalém - a "Pedra do Testamento" ou "Pedra da Investigação" dos profetas - estava escondida numa câmara subterrânea. Sabemos disso por meio de uma Lamentação sobre a desolação de Jerusalém depois que a ira do Senhor caiu sobre seu povo:

O palácio foi abandonado pelos habitantes;

Esquecido está o cume do monte Sião (e)

O "sondador que testemunha”

A Caverna do Eterno Testemunho

É lugar de brincadeira de asnos selvagens,

Pasto para rebanhos.

Depois da restauração do templo de Jerusalém, prometeram os profetas, "a palavra de Iahweh de Jerusalém emanará". A cidade voltaria a ser um centro mundial, procurado por todas as nações.

Transmitindo a promessa do Senhor, Isaías garantiu ao povo que não apenas a "Pedra do Testemunho" como também as "funções de mediação" lhe seriam devolvidas.

Vejam,

Assentarei bem firme uma pedra em Sião,

Uma pedra do Testemunho,

Uma rara e altíssima Pedra Angular,

Com alicerces profundamente fundamentados.

Aquele que tem fé não ficará sem resposta.

A justiça será meu Cordão;

A integridade minha Medida.

Para poder servir como Centro de Controle da Missão, Jerusalém - tal como Nippur - tinha de ficar localizada na linha que dividia o Corredor de Aterrissagem ao meio. Suas tradições confirmam essa posição de importância e sugerem que era a Rocha Sagrada que marcava o centro geodésico da cidade.

Segundo as tradições judaicas, Jerusalém era o "umbigo da Terra". O profeta Ezequiel referia-se ao povo de Israel como "habitantes do umbigo da Terra". O Livro dos Juízes relata um incidente onde o povo descia das montanhas vindo do "umbigo da Terra". Esse termo, como vimos anteriormente, indica Jerusalém como sendo um ponto focal, um centro de comunicações, do qual saíam" cordões" (uma linha contínua de sinais) na direção de outros pontos da Rede de Orientação. Por isso, não é mera coincidência a designação para a rocha em antigo hebraico ser Eben Sheti'yah, que os sábios judeus sempre afirmaram poder ser traduzida como "pedra da qual o mundo é tecido". A palavra sheti é de fato um termo da arte da tecelagem, que designa os cordões compridos e horizontais que são colocados no tear para, junto com os verticais, mais curtos, formarem a trama básica. Portanto, o nome era bem adequado para uma pedra que marcava o ponto exato de onde saíam os Cordões Divinos que cobriam a Terra como uma teia.

Mas, por mais sugestivos que sejam todos esses termos e lendas, a pergunta decisiva é: Jerusalém de fato ficava na linha que dividia igualmente o Corredor de Aterrissagem, o ângulo formado pelo monte Ararat, as pirâmides de Gizé e o monte Umm Shumar?

A resposta incontestável é: Sim, Jerusalém fica exatamente nessa linha!

Tal como vimos antes, no caso das Pirâmides, à medida que vamos estudando a posição de Jerusalém, mais alinhamentos e triangulações impressionantes vão surgindo.

Jerusalém, descobrimos, fica no local exato onde a linha Baalbek­-Santa Catarina corta a linha de trajetória de vôo com foco no Ararat.

A distância entre Heliópolis e Jerusalém é exatamente igual à que separa Umm Shumar de Jerusalém.

As linhas que unem Jerusalém a Heliópolis e Jerusalém ao Umm Shumar formam um ângulo preciso de 45 graus!

Esses vínculos entre Jerusalém, Baalbek (a Crista de Zafon) e Gizé (Mênfis) eram conhecidos e louvados em tempos bíblicos:

Grande é Iahweh e grandemente louvada

É a cidade do Senhor.

Seu monte sagrado

Em Mênfis é embelezado.

A alegria de toda a Terra,

Do Monte Sião, da Crista de Zafon.

Jerusalém, segundo o Livro dos Jubileus, era um dos quatro "Lugares do Senhor" na Terra, sendo os outros o "Jardim da Eternidade", na Montanha dos Cedros (Líbano), a "montanha do leste", o monte Ararat, e o monte Sinai. Três deles ficavam nas "terras de Sem" (ou Shem), filho de Noé do qual descendiam os patriarcas da Bíblia. E esses locais eram interligados:

O Jardim da Eternidade, o mais sagrado,

É a montanha do Senhor;

E o monte Sinai, no centro do deserto;

E o monte Sião, no meio do umbigo da Terra.

Os três foram criados como lugares sagrados.

Olhando uns para os outros.

O espaço-porto tinha de ficar em algum lugar da "linha de Jerusalém", a central de vôo ancorada no monte Ararat. E, junto dele, precisava estar instalado o farol de localização final. Ele ficava no monte Sinai, no centro do deserto.

É aqui que a linha imaginária que atualmente chamamos de paralelo 30 norte entra em cena.

Sabemos, pelos textos astronômicos sumérios, que o firmamento da Terra foi dividido em três setores ou "vias": uma faixa norte (a via de Enlil), uma faixa sul (a via de Ea) e a faixa central (a via de Anu). Nada mais lógico supor que na Terra também existiam linhas imaginárias separando os territórios dos irmãos rivais, cuja tradição se manteve mesmo depois do dilúvio, quando a Terra já extensamente colonizada foi dividida em quatro regiões. E tudo indica que essas linhas eram os paralelos 30 norte e sul.

As cidades sagradas das quatro regiões citadas pelos textos sumérios ficavam no paralelo 30. Essa localização é mera coincidência ou resultado de um acordo entre Ea e Enlil ou seus descendentes, em constante disputa?

Os textos sumérios contam que, "quando a monarquia desceu do Céu", depois do dilúvio, "ela ficava em Eridu". Ora, Eridu ficava no paralelo 30 norte, o mais próximo dele permitido pela área pantanosa do alto do golfo Pérsico. E apesar do centro administrativo-secular da Suméria ter mudado de cidade de tempos em tempos, Eridu continuou sendo sempre uma cidade sagrada.

A capital secular da segunda região (a área do Nilo) variou de lugar, mas Heliópolis sempre se manteve como uma cidade sagrada. Os Textos das Pirâmides reconhecem seus vínculos com outros locais santos e chamam os antigos deuses de "Senhores dos Santuários Duplos". Esses santuários tinham os nomes intrigantes e possivelmente pré-egípcios de Per-Neter ("Lugar da Chegada dos Guardiões") e Per-Ur ("Lugar de Chegada dos Antigos") e suas descrições hieroglíficas transmitem uma impressão de grande antiguidade.

Esses santuários duplos desempenhavam um papel de grande importância na sucessão dos faraós. Durante esses rituais, liderados pelo sacerdote Shem, a coroação do novo rei e sua admissão ao "Lugar dos Guardiões", em Heliópolis, coincidiam com a partida do espírito do rei falecido pela Porta Falsa, situada no lado leste, na direção do "Lugar de Chegada dos Antigos".

Heliópolis também ficava situada no paralelo 30, o mais próximo dele permitido pela área pantanosa do delta do Nilo.

A Terceira Região, a que compreende a civilização do vale do Indo, tinha sua capital secular situada no litoral do oceano índico. Todavia, a cidade sagrada, Harapa, ficava a centenas de quilômetros ao norte - bem sobre o paralelo 30.

A obrigatoriedade do paralelo 30 parece ter continuado ao longo dos milênios. Por volta de 600 a.C., os reis persas resolveram construir uma cidade "sagrada a todas as nações" e escolheram para sua localização uma área remota e desabitada. Lá, no meio do nada, foi construída uma imensa plataforma horizontal, sobre a qual foram erigidos palácios, magníficas escadarias, santuários e estruturas auxiliares - tudo em honra do Disco Alado. Os gregos chamavam esse lugar de Persépolis (Cidade dos Persas). As ruínas dessa cidade sagrada ainda hoje causam grande admiração. No entanto, ninguém morava lá. O rei e seu séquito só iam a esse lugar especial para comemorar a entrada do Ano-Novo, no dia do equinócio de primavera. E essa cidade sagrada ficava situada no paralelo 30.

Ninguém sabe ao certo quando foi fundada Lhasa, a cidade sagrada do budismo, situada no Tibete. Todavia, é um fato incontestável que ela, como Eridu, Heliópolis, Harapa e Persépolis, localizava-se no paralelo 30.

O destaque do paralelo 30 remonta às origens da Rede Sagrada, quando os Divinos Medidores, ou topógrafos Anunnaki, determinaram a localização das pirâmides de Gizé, nele situadas. Teriam os deuses levado em conta a "santidade", ou neutralidade, dessa linha quando escolheram o local para sua instalação mais vital - o espaço-porto -, que ficava na Quarta Região, a península do Sinai?

Agora devemos procurar a pista final na parte restante do enigma de Gizé - a Grande Esfinge. Ela tem o corpo de um leão sentado e a cabeça de um homem usando o toucado real. Quem a construiu? Quando? Com que propósito? Quem ela retrata? E por que está naquele local, sozinha e única no mundo?

As perguntas sempre foram muitas e as respostas, poucas. Uma coisa, porém, é certa: a Esfinge olha para o leste e a linha de seu olhar acompanha o paralelo 30.

Na Antiguidade, esse preciso alinhamento com o Divino Paralelo foi enfatizado pela construção de uma série de estruturas que, saindo da Esfinge, estendiam-se na direção do Oriente, assentadas num eixo leste-oeste.

Quando Napoleão e seus homens chegaram à Esfinge no início do século XVIII, ela estava praticamente coberta de areia e só se via a cabeça e parte dos ombros. Os artistas a retrataram nesse estado e por muitas décadas o público só a conheceu assim. Foram necessárias repetidas e sistemáticas escavações para o monumento se revelar em toda sua grandiosidade (73 metros de comprimento, 20 metros de altura) e forma completa, confirmando o que os historiadores gregos descreveram: uma escultura colossal, feita de um único bloco de pedra natural. E foi nosso conhecido capitão Caviglia, que mais tarde seria expulso de Gizé pelo coronel Vyse, que, em 1816-1818, chefiou as obras que revelaram não somente o resto do corpo da Esfinge, como também os templos, santuários, altares e estelas erigidos diante dela.

Ao limpar a área diante do monumento, Caviglia descobriu uma plataforma com uma largura praticamente igual à da Esfinge, mas que parecia ter o lado maior apontando para o leste. Escavando 30 metros nessa direção, ele chegou a uma espetacular escadaria de trinta degraus terminando num patamar sobre o qual havia ruínas que lembravam um púlpito. Com o prosseguimento da obra, foi descoberta no final do patamar, a uns 12 metros da primeira escadaria, uma outra, com treze degraus, elevando assim o nível da estrutura completa a mesma altura da cabeça da Esfinge.

Na parte mais alta desse conjunto, havia uma estrutura cuja função era suportar duas colunas, situadas em tal posição que o olhar da Esfinge passava exatamente entre elas.

Os arqueólogos acreditam que essas ruínas são da época romana. No entanto, como é bem sabido e vimos no caso de Baalbek, gregos e romanos tinham o hábito de embelezar monumentos de outras eras e construir templos em locais considerados sagrados pelas populações das regiões que dominavam. Atualmente está estabelecido que conquistadores gregos e imperadores romanos deram continuidade às tradições dos faraós de visitarem a Esfinge para lhe prestar homenagem, deixando atrás de si inscrições apropriadas. Essas inscrições confirmam a crença, que continuou até a época do domínio árabe, de que a Esfinge era obra dos próprios deuses, sendo considerada o arauto de uma futura era de paz messiânica. Uma inscrição do imperador Nero a chama de “Armaquis, Supervisor e Salvador".

Como a Esfinge fica situada perto do caminho elevado que conduz à Segunda Pirâmide, os estudiosos logo pensaram que ela fora construída por Chefra e, portanto, devia retratá-lo. Essa teoria não tem a menor base factual, mas continua presente nos livros sobre o assunto. Todavia, já em 1904, E. A. Wallis Budge, na época curador das Antiguidades egípcias e assírias do Museu Britânico, concluiu inequivocamente (The Gods of the Egyptians) que "esse maravilhoso objeto já existia no tempo de Kha-f-ra ou Quéfren; é possível que seja muito anterior ao seu reinado e date do final do período arcaico".

Como atesta a Estela do Inventário, a Esfinge já estava em Gizé na época de Khufu, antecessor de Chefra. Na inscrição, Khufu diz que mandou remover a areia que invadia a Esfinge - uma afirmação que se repete nas inscrições de outros faraós. Assim, é justo deduzirmos que ela já era um monumento muito antigo na época desse rei. Então, quem foi o faraó, muito anterior a ele, que a esculpiu, dando-lhe ao rosto sua própria imagem?

A resposta é que o rosto não é o de um faraó qualquer, mas de um deus. E mais, tudo indica que foram deuses, e não mortais, que esculpiram a Esfinge.

De fato, só ignorando o que dizem as antigas inscrições é que alguém poderia imaginar uma origem diferente. Uma inscrição romana, chamando a Esfinge de "Guia Sagrado", diz: "Tua forma magnífica é obra dos deuses imortais". Um trecho de um poema grego afirma:

Tua forma magnífica,

Aqui os deuses imortais moldaram...

Junto às pirâmides o colocaram...

Um monarca celestial que seus inimigos desafia...

Guia Sagrado da Terra do Egito.

Na Estela do Inventário, Khufu chamou a Esfinge de "Guardião do Éter, que guia os ventos com seu olhar" e deixa bem claro que ela era a imagem de um deus:

Esta figura do deus

Durará até a eternidade;

Tendo sempre seu rosto voltado para o leste.

Khufu fala também de um velho sicômoro que crescia ao lado da Esfinge e foi danificado "quando o Senhor do Céu desceu no Lugar de Hor-em-Akhet" (o deus-falcão do horizonte). Esse, na verdade, era o nome mais freqüente da Esfinge nas inscrições dos faraós, sendo seus epítetos, entre outros, ruti (" o leão") e hul ("o eterno").

Os escavadores do início do século XIX que trabalharam na área da Esfinge, conforme atestam os documentos da época, estavam instigados pelas lendas árabes que afirmavam existir dentro do monumento ou sob ele câmaras secretas cheias de tesouros ou objetos mágicos. Quando o coronel Vyse chegou a Gizé, Caviglia trabalhava ativamente no interior da Grande Pirâmide à procura de "câmaras ocultas". Parece que ele voltou-se para essa empreitada depois de fracassar em descobrir algo parecido na Esfinge. Perring também tentou encontrar alguma câmara oculta, fazendo um buraco profundo nas costas da Esfinge.

Mesmo pesquisadores mais responsáveis, como Auguste Mariette, em 1853, compartilhavam da opinião generalizada de que existia um compartimento secreto no interior do monumento ou sob ele, motivada pelos livros do historiador romano Plínio, que escreveu que a Esfinge continha a tumba de um governante chamado "Harmaquis" e pelo fato de todos os antigos desenhos a mostrarem assentada sobre uma grande estrutura de pedra. Era justo pensar que as mesmas areias que tinham coberto praticamente toda a Esfinge, acumulando-se ao longo de milênios, escondiam também a sua parte inferior.

As inscrições mais antigas parecem sugerir que existiam duas câmaras secretas, talvez acessíveis por uma entrada escondida sob as patas da escultura. Além disso, um hino da época da 18ª. Dinastia revela que as duas "cavernas" permitiam que ela funcionasse como um centro de comunicações.

Segundo esse cântico, o deus Amen, assumindo as funções do celestial Hor-Akhti, obtém "percepção no coração, comando nos lábios... quando entra nas duas cavernas que ficam sob seus pés". Então:

Uma mensagem é enviada do céu;

Ela é ouvida em Heliópolis,

E repetida em Mênfis pelo Belo de Rosto.

Ela faz parte de um despacho na caligrafia de Thot,

Que trata da cidade de Amen (Tebas)...

O assunto é respondido em Amen,

Uma declaração é emitida... uma mensagem enviada.

Os deuses estão agindo de acordo com as ordens.

No tempo dos faraós, acreditava-se que a Esfinge, apesar de ser esculpida em pedra, era capaz de ouvir e falar. Numa longa inscrição gravada numa estela erigida entre as patas do monumento por Tutmés IV e dedicada ao Disco Alado, o rei conta que a Esfinge falou com ele e lhe prometeu um longo e próspero reinado se mandasse retirar a areia que lhe cobria as patas. Um dia, continua o faraó, ele estava caçando fora de Mênfis e encontrou-se na "sagrada estrada dos deuses" que ia de Heliópolis a Gizé. Cansado, deitou-se para repousar à sombra da Esfinge. Aquele local, como revela a inscrição, era chamado de "Lugar Esplêndido do Início dos Tempos". Quando Tutmés IV adormeceu junto a "essa grande estátua do Criador", ela - aquela "majestade do reverenciado Deus" - começou a falar, apresentando-se como "Sou teu ancestral Horem-Akhet, aquele criado de Ra-Aten".

Muitas "tábulas de ouvido" - objetos bastante incomuns - e desenhos das Duas Pombas, o símbolo associado aos locais do oráculo, foram descobertas nos templos em torno da Esfinge. Como as antigas inscrições, eles também contribuem para a crença de que o monumento, de alguma forma, transmitia mensagens divinas. Embora os esforços para se empreender escavações sob a Esfinge até agora não tenham sido bem-sucedidos, não se pode descartar a possibilidade da existência de câmaras subterrâneas onde os deuses entravam com "comandos nos lábios" e de que um dia talvez elas venham a ser descobertas.

Está claro a partir de numerosos textos funerários que a Esfinge era considerada o Guia Sagrado que orientava os falecidos do "ontem" para o "amanhã". Encantamentos descobertos no interior de ataúdes, servindo para facilitar a viagem do morto ao longo da "Trilha das Portas Escondidas", indicam que esta começava perto da Esfinge. Invocando-a, esses encantamentos afirmam que "O Senhor da Terra ordenou, a Dupla Esfinge repetiu". A jornada do falecido só se iniciava quando Hor-em-Akhet (a Esfinge) dizia: "Pode passar!" Os desenhos do Livro dos Dois Caminhos, que ilustram essa viagem, mostram que havia dois caminhos que, saindo de perto da Esfinge, levavam ao Duat.

Na condição de Guia Sagrado, a Esfinge freqüentemente era mostrada guiando o Barco Celestial. Às vezes, como na estela de Tutmés, ela aparecia como uma Esfinge dupla, guiando o Barco Celestial do "ontem" para o "amanhã". Nesse papel, ela era associada ao Deus Oculto, do reino subterrâneo. E é assim, devemos lembrar, que ela aparece guardando a câmara hermeticamente fechada do deus Seker, no Duat.

De fato, os Textos das Pirâmides referem-se à Esfinge como "o grande deus que abre os portões da Terra" - frase que pode sugerir que além da de Gizé, que "mostrava o caminho", existia uma outra Esfinge, perto da Escada para o Céu, que "abria os portões da Terra". Essa possibilidade pode ser a explicação (a única, na ausência de qualquer outra até agora), para um desenho muito arcaico descrevendo a viagem do faraó para a Outra Vida. Ele começa com o falcão de Hórus olhando para o País das Tamareiras e um navio incomum, com coisas parecidas com gruas ou guindastes, e sobre ele uma estrutura que nos faz lembrar o desenho sumério para o nome EN.LIL, representando um centro de comunicações. São vistos também um deus saudando o faraó, um touro e um Pássaro da Imortalidade, seguidos de fortificações e uma série de símbolos. Finalmente vem o sinal para "luas" (uma cruz inclinada dentro de um círculo), colocado entre o desenho da escada e o de uma Esfinge de costas para a chegada do faraó, portanto olhando para o outro lado.

Uma estela erigida por um certo Pa-Ra-Emheb, que dirigiu obras de restauração na área da Esfinge em épocas faraônicas, contém palavras denunciadoras no trecho com versos sobre a adoração da escultura. A similaridade com os salmos bíblicos é impressionante. A inscrição fala em estender cordões "para o plano", em fabricação de "coisas secretas" no reino subterrâneo, "cruzar o firmamento" num Barco Celestial e de um "lugar protegido" no "deserto sagrado". Ela inclusive usa o termo Sheti.ta para designar o "Lugar do Nome Oculto", no "deserto sagrado".

Salve, rei dos deuses,

Aten, Criador...

Tu estendes o cordão para o plano, tu formaste os países...

Tornaste secreto o mundo subterrâneo...

A Terra está sob teu comando;

Fizeste alto o firmamento...

Tu construíste para ti um lugar protegido

No deserto sagrado, com um nome oculto.

Durante o dia,

Tu te elevas perto dele.

Sobes maravilhosamente...

Estás cruzando o firmamento com bom vento...

Atravessas o firmamento em teu barco...

O firmamento se rejubila,

A Terra grita de alegria.

A tripulação de Ra louva todos os dias;

Ele vem em triunfo.

Para os profetas hebreus, o Sheti era a Linha Divina, a direção que devia sempre ser contemplada "pois dentro dela o Senhor veio do sagrado Sinai". Era, portanto, a linha central do Corredor de Aterrissagem, a trajetória de vôo que passava por Jerusalém.

Para os egípcios, contudo, como diz a inscrição acima, Sheti.ta era o "Lugar do Nome Oculto", que ficava no "deserto sagrado", que é exatamente o que significa o termo bíblico "deserto de Cades". E os "cordões do plano" estendiam-se da Esfinge até ele. Nesse lugar, Paraemheb viu o "rei dos deuses" subindo durante o dia. As palavras são quase idênticas às de Gilgamesh quando chegou ao monte Mashu, "onde diariamente os Shem ele observava, enquanto iam e vinham... vigiados por Shamash enquanto ascende e descende" .

Aquele era o Lugar Protegido, o Local de Ascensão. Os que queriam atingi-lo eram guiados pela Esfinge, pois seu olhar ficava voltado para o leste, acompanhando com exatidão o paralelo 30.

Minha teoria é de que os Portões do Céu e da Terra - o espaço­-porto dos "deuses" - ficava no local onde a Linha de Jerusalém cortava o paralelo 30.

Essa interseção fica no interior da planície central da península do Sinai. Tal como o Duat pintado no Livro dos Mortos, ela é mesmo um terreno plano, oval, cercado de montanhas. Essas montanhas são separadas por sete desfiladeiros - como descrito no Livro de Henoc. Sendo uma vasta área com superfície rochosa natural, dura, ela fornecia pistas já prontas para os ônibus espaciais dos Anunnaki.

Nippur, como já vimos, era o foco, o ponto central, dos círculos concêntricos que uniam locais eqüidistantes do espaço-porto situado em Sippar e outras instalações vitais. Encontramos isso repetido em Jerusalém:

. O espaço-porto (SP) e o Local de Aterrissagem em Baalbek (BK) ficam no perímetro de um círculo interno, unindo um conjunto vital de instalações eqüidistantes do Centro de Controle em Jerusalém (JM);

. O marco geodésico de Umm Shumar (US) e a baliza de entrada de Heliópolis (HL) ficam no perímetro do círculo externo, sendo portanto eqüidistantes de Jerusalém.

Conforme vamos completando nosso gráfico, o magistral plano dos Anunnaki vai se revelando diante de nossos olhos e nos impressiona com sua precisão, beleza e habilidosa combinação entre a geometria básica e os marcos naturais fornecidos pela natureza:

. As linhas Baalbek-Santa Catarina e Jerusalém-Heliópolis cortam-se num ângulo básico e preciso de 45 graus; a trajetória de vôo, central, divide esse ângulo exatamente ao meio, o que resulta em dois ângulos de 22 e 1/2 graus; o grande corredor de vôo, por sua vez, tem a metade exata desse ângulo, ou seja, 11 e 1/4 graus.

. O espaço-porto, situado na interseção da trajetória de vôo e o paralelo 30, é eqüidistante de Heliópolis e Umm Shumar.

Seria um mero acidente de geografia Delfos (DL) estar eqüidistante do Centro de Controle da Missão em Jerusalém e do espaço-porto na planície central do Sinai? Será simples coincidência o ângulo criado por essas linhas (também um corredor de vôo?) ter 11 e 1/4 graus? E o outro, ligando Delfos a Baalbek, também com 11 e 1/4 graus?

Será por mero acaso que as linhas que ligam Delfos, Jerusalém e o oásis de Siwa (SW) - centro do oráculo de Amon, que Alexandre apressou-se a consultar - formam de novo o ângulo de 45 graus?

Será que as outras cidades e centros de oráculo do Egito, como Tebas e Edfu, foram fundados em aprazíveis curvas do Nilo apenas atendendo aos caprichos de um faraó qualquer, ou devido a posições determinadas pela Rede de Orientação?

Na verdade, se nos dispuséssemos a estudar a posição de todos esses marcos naturais, centros de oráculo e antigas cidades, conseguiríamos demarcar toda a Terra. Mas não era isso que Baal já sabia quando instalou seu equipamento clandestino em Baalbek? Sua meta, como bem nos recordamos, era se comunicar não apenas com os territórios mais próximos, mas também com toda a Terra, para assim dominá-la.

O Deus da Bíblia também sabia dessa demarcação, pois quando Jó tentou deslindar “as maravilhas de El", o Senhor "falando do meio de um redemoinho”: respondeu às perguntas com perguntas:

Perguntar-te-ei e responde-me:

Onde estavas tu quando eu

Lançava os fundamentos da Terra?

Dize-mo, se é que tens inteligência:

Quem deu as medidas para ela,

Se é que o sabes?

Ou quem sobre ela estendeu o cordel?

Quem erigiu suas plataformas?

Quem assentou a Pedra Angular?

Então Iahweh respondeu a suas próprias perguntas. Todos esses atos de medição da Terra, de instalação de plataformas, o assentamento da Pedra Angular foram feitos, disse Ele:

Quando as estrelas da manhã se rejubilavam,

E todos os filhos dos deuses gritavam de alegria.

O homem, por mais sábio que possa ter sido, não teve nada a ver com isso. Baalbek, as pirâmides de Gizé, o espaço-porto, todos foram construídos apenas para os deuses.

O homem, porém, buscando a imortalidade, jamais deixou de seguir o olhar da Esfinge.


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