quarta-feira, agosto 22, 2012

As Digitais Dos Deuses-Graham Hancock / Parte 1


AS DIGITAIS DOS DEUSES

Tradução de RUY JUNGMANN
EDITORA RECORD

2001
Para Santha... Por estar lá, Com todo meu amor.
Sumário

Agradecimentos

Parte I
Introdução: O mistério dos mapas
1. Um mapa de lugares ocultos
2. Rios na Antártida
3. Impressões digitais de uma ciência perdida
Parte II
Espuma do Mar: Peru e Bolívia
4. O vôo do condor
5. A trilha inca para o passado
6. Ele veio em uma época de caos
7. Houve, então, gigantes?
8. O lago no topo do mundo
9. O antigo e futuro rei
10. A cidade no Portal do Sol
11. Indicações de antiguidade
12. O fim dos viracochas
Parte III
A Serpente Emplumada: América Central
13. O sangue e o tempo no fim do mundo
14. O povo da serpente
15. Babel mexicana
16. O santuário da serpente
17. O enigma olmeca
18. Estrangeiros bem visíveis
19. Aventuras no mundo subterrâneo, jornadas às estrelas
20. Os filhos dos primeiros homens
21. Um computador para calcular o fim do mundo
22. A cidade dos deuses
23. O sol, a lua e o caminho dos mortos
Parte IV
O Mistério dos Mitos
1. Uma espécie com amnésia
24. Ecos de nossos sonhos
25. As muitas máscaras do Apocalipse
26. Uma espécie nascida no longo inverno da terra
27. A face da terra escureceu e uma chuva negra começou a cair
Parte V
O Mistério dos Mitos
2. O código da precessão dos equinócios
28. A maquinaria do céu
29. A primeira tentativa de decifrar um antigo código
30. A árvore cósmica e o moinho dos deuses
31. Os números de Osíris
32. Falando para o futuro
Parte VI
Convite a Gizé: Egito 1
33. Pontos cardeais
34. A mansão da eternidade
35. Tumbas, e nada mais?
36. Anomalias
37. Feito por algum deus
38. Jogo interativo tridimensional
39. O local do início
Parte VII
O Senhor da Eternidade: Egito 2
40. Há ainda segredos no Egito?
41. A Cidade do Sol, a Câmara do Chacal
42. Eras passadas e enigmas
43. Procurando os Primeiros Tempos
44. Deuses dos Primeiros Tempos
45. Obras de homens e de deuses
46. O undécimo milênio a.C.
47. A Esfinge
48. Medidas da terra
49. O poder da coisa
Parte VIII
Conclusão: Onde está o corpo?
50. Procurando agulha em palheiro
51. O martelo e o pêndulo
52. Como um ladrão na noite
Notas
Bibliografia Selecionada
Índice Remissivo
Agradecimentos
Este livro não poderia ter sido escrito sem o amor generoso, caloroso
e encorajador de minha companheira Santha Faiia - que sempre dá
mais do que recebe e que, com criatividade, bondade e imaginação,
enriquece a vida de todos que com ela convivem. Todas as fotos
incluídas neste livro são de sua autoria.
Sinto-me também grato pelo apoio e estímulo de nossos seis filhos -Gabrielle, Leila, Luke, Ravi, Sean e Shanti -, cuja presença é um
privilégio para mim.
Meus pais, Donald e Muriel Hancock,foram incrivelmente prestativos,
ativos e interessados neste e em numerosos outros tempos e projetos
difíceis. Juntamente com meu tio James Macaulay, eles leram também
pacientemente os esboços do original que, aos poucos, tomava forma,
oferecendo uma grande riqueza de sugestões positivas. Obrigado,
também, a meu mais velho e mais íntimo amigo, Peter Marshall, em
cuja companhia resisti a numerosas tempestades, e a Rob Gardner,
Joseph e Sherry Jahoda, Roel Oostra, Joseph e Laura Schor, Niven
Sinclair, Colin Skinner e Clem Vallance, pelos bons conselhos.
Em 1992, descobri subitamente que tinha um amigo em Lansing,
Michigan. Ed Ponist entrou em contato comigo logo depois da
publicação de meu livro anterior, The Sign and the Seal. Como um
anjo da guarda, Ed se prontificou a dedicar parte considerável de seu
tempo livre para me ajudar em pesquisas, contatos e coleta de fontes
documentais nos Estados Unidos, relevantes para a preparação deste
livro. Ele realizou um trabalho brilhante, enviando-me sempre os livros
certos quando eu deles necessitava e localizando referências que eu
nem sabia que existiam. Revelou-se também muito hábil em avaliar a
qualidade de meu trabalho e aprendi logo a confiar e a respeitar sua
capacidade de julgamento. Finalmente, mas não de menor
importância, quando Santha e eu visitamos o Arizona para conhecer a
nação hopi, Ed nos acompanhou e abriu caminhos...
A carta inicial de Ed fez parte de um imenso dilúvio de
correspondência que recebi de todas as partes do mundo, depois de
publicar The Sign and the Seal. Durante algum tempo, tentei
responder pessoalmente a todas elas. No fim, contudo, fiquei tão
ocupado na preparação deste livro que tive de deixar de lado esse
trabalho. Sinto-me mal a esse respeito e aproveito esta oportunidade
para agradecer a todos os que me escreveram e aos quais não pude
dar resposta. Pretendo ser mais sistemático no futuro, porque atribuo
enorme valor a essa correspondência e aprecio muito as informações
de alta qualidade que ela freqüentemente contém...
Entre outros pesquisadores que me ajudaram na preparação deste
livro, não poderiam ser omitidos os nomes de Martin Slavin, David
Mestecky e Jonathan Derrick. Além disso, gostaria de agradecer aos
meus editores de texto em ambos os lados do Atlântico, Tom Weldon,
na Heinemann, Jim Wade, na Crown, e John Pearce, na Doubleday
Canadá, bem como a meus agentes literários, Bill Hamilton e Sara
Fisher, pelo interesse, solidariedade e sábios e constantes conselhos.
Envio daqui também meus calorosos agradecimentos aos
pesquisadores e colegas que se transformaram em amigos no curso
desta pesquisa: Robert Bauval, na Inglaterra (com quem escreverei
em colaboração dois futuros livros sobre assuntos correlatos), John
Anthony West e Lew Jenkins, nos Estados Unidos, Rand e Rose
Flem-Ath e Paul William Roberts, no Canadá.
Finalmente, rendo homenagens a Ignatius Donnelly, Arthur
Posnansky, R.A. Schwaller de Lubicz, Charles Hapgood e Giorgio de
Santillana - pesquisadores que compreenderam que havia alguma
coisa de profundamente errada na história da humanidade, tiveram
coragem de levantar a voz contra a má vontade intelectual e foram
pioneiros da notável mudança de paradigma ora em andamento.

Parte I

Introdução

O Mistério dos Mapas

CAPÍTULO 1

Um Mapa de Lugares Ocultos
8° ESQUADRÃO DE RECONHECIMENTO TÉCNICO (ERC)
FORÇA AÉREA DOS ESTADOS UNIDOS
Base de Westover da Força Aérea
Massachusetts
6 de julho de 1960
ASSUNTO: Mapa-múndi do almirante Piri Reis
Para: Professor Chartes H. Hapgood.
Keene College
Keene, New Hampshire
Prezado professor Hapgood,
Sua solicitação, no sentido de que fossem avaliados por esta unidade
certos aspectos inusitados do mapa-múndi Piri Reis, datado de 1513,
foi objeto de reexame.
A alegação de que a parte inferior do mapa mostra a costa Princesa
Martha, da Terra da Rainha Maud, na Antártida, e a península Palmer,
é razoável. Julgamos ser essa a interpretação mais lógica e, com toda
probabilidade, correta do mapa.
Os detalhes geográficos mostrados na parte inferior do mapa
concordam, de forma notável, com os resultados do perfil sísmico,
levantado de um lado a outro da calota polar, pela Expedição Sueco-Britânica à Antártida, realizada em 1949.
Os resultados indicam que a linha costeira foi mapeada antes de ser
coberta pela calota polar.
A calota polar nessa região tem atualmente uma espessura de cerca
de 1.600m.
Não temos idéia de como os dados constantes do mapa podem ser
conciliados com o suposto estado dos conhecimentos geográficos em
1513.
HAROLD Z. OHLMEYER
Ten.-Cel., Força Aérea dos EUA
Comandante
A despeito da linguagem destituída de emoção, a carta de Ohlmeyer é
uma bomba. Se a Terra da Rainha Maud foi mapeada antes de ser
coberta pelo gelo, o trabalho original de cartografia deve ter sido feito
em um tempo extraordinariamente remoto.
Há quanto tempo, exatamente?
De acordo com o saber convencional, a calota polar da Antártida, em
sua atual forma e extensão, tem milhões de anos. Um exame mais
atento, porém, revela que essa idéia apresenta graves falhas - tão
graves que não precisamos supor que o mapa desenhado pelo
almirante Piri Reis mostre a Terra da Rainha Maud como era há
milhões de anos. A melhor prova recente sugere que a Terra da
Rainha Maud e as regiões vizinhas mostradas no mapa passaram por
um longo período livres de gelo, período que talvez não tenha
terminado inteiramente até cerca de seis mil anos atrás. Essa prova,
que voltaremos a examinar no capítulo seguinte, evita-nos a tarefa
ingrata de explicar quem (ou o quê) dispunha da tecnologia necessária
para efetuar um levantamento geográfico preciso da Antártida há,
digamos, dois milhões de anos a.C., muito antes de nossa espécie
surgir na Terra. Pela mesma razão, uma vez que a confecção de
mapas é uma atividade complexa e civilizada, obriga-nos a explicar
como uma tarefa dessa natureza poderia ter sido realizada há seis mil
anos, muito antes do aparecimento das primeiras civilizações
autênticas reconhecidas por historiadores.
Fontes Antigas
Ao tentar essa explicação, é importante lembrar os fatos históricos e
geográficos básicos:
1. O mapa de Piri Reis, que é um documento autêntico e não uma
contrafação de qualquer tipo, foi desenhado em Constantinopla no
ano 1513 d.C.
2. O mapa mostra a costa ocidental da África, a costa oriental da
América do Sul e a costa norte da Antártida.
3. Piri Reis não poderia ter obtido, com exploradores da época,
informações sobre esta última região, uma vez que a Antártida
permaneceu desconhecida até 1818, mais de 300 anos depois de ele
ter desenhado o mapa.
4. A costa livre de gelo da Terra da Rainha Maud mostrada no mapa
constitui um quebra-cabeça colossal, uma vez que a prova geológica
confirma que a data mais recente em que poderia ter sido
inspecionada e mapeada, em um estado de ausência de gelo, foi no
ano 4000 a.C.
5. Não é possível fixar exatamente a data mais antiga em que esse
trabalho poderia ter sido feito, embora pareça que o litoral da Terra da
Rainha Maud pode ter permanecido em condições estáveis, sem
glaciação, pelo menos durante 9.000 anos antes que a calota polar em
expansão a engolisse inteiramente.
6. A história não conhece civilização que tivesse capacidade ou
necessidade de efetuar o levantamento topográfico da linha costeira
no período relevante, entre os anos 13000 a.C. e 4000 a.C.
Em outras palavras, o verdadeiroenigma desse mapa de 1513 não
está tanto no fato de ter incluído um continente que só foi descoberto
em 1818, mas em mostrar parte da linha costeira desse mesmo
continente em condições de ausência de gelo, que terminaram há
6.000 anos e que desde então não se repetiram.
De que maneira podem ser explicados esses fatos? Piri Reis,
cortesmente, fornece--nos a resposta em uma série de notas escritas
do próprio punho, no próprio mapa. Confessa ele que não foi o
responsável pelo trabalho inicial de levantamento topográfico e pela
cartografia. Muito ao contrário, admite que seu papel foi simplesmente
o de compilador e copista e que o mapa baseia-se em grande número
de mapas básicos. Alguns deles foram desenhados por exploradores
contemporâneos ou quase contemporâneos (incluindo Cristóvão
Colombo) que, por essa época, haviam chegado à América do Sul e
ao Caribe, embora outros fossem documentos cujas datas retroagiam
ao século IV a.C. ou mesmo antes.
Piei Reis não deixou qualquer sugestão sobre a identidade dos
cartógrafos que haviam produzido os mapas mais antigos. Em 1963,
contudo, o professor Hapgood propôs uma solução nova e instigante
para o problema. Argumentou ele que alguns mapas básicos que o
almirante usara, em especial os que se supunha terem sido
produzidos no século IV a.C., haviam se baseado em fontes
ainda mais antigas, que, por seu lado, teriam se baseado em fontes
básicas de uma época ainda mais recuada na antiguidade. Havia,
afirmou ele, prova irrefutável de que a terra fora extensamente
mapeada, antes do ano 4000 a.C., por uma civilização até então
desconhecida e ainda não descoberta, dotada de alto grau de
progresso tecnológico.





Parece [concluía ele] que informações exatas foram transmitidas de
um povo a outro. Ao que tudo indica, as cartas tiveram forçosamente
origem em um povo desconhecido, tendo sido passadas adiante,
talvez pelos minoanos e os fenícios, famosos, durante mil anos ou
mais, como os maiores navegadores do mundo antigo. Temos prova
de que, reunidos e estudados na grande biblioteca de Alexandria
[Egito], compilações dos mesmos foram feitas por geógrafos que lá
estudaram.
Com início em Alexandria, de acordo com a reconstrução de Hapgood,
c6pias dessas compilações e alguns mapas básicos originais foram
levados para outros centros de saber - notadamente Constantinopla.
Finalmente, quando Constantinopla foi ocupada pelos venezianos
durante a IV Cruzada, em 1204, os mapas começaram a chegar às
mãos de marinheiros e aventureiros europeus:
A maioria desses mapas era do Mediterrâneo e do mar Negro.
Sobreviveram, porém, mapas de outras áreas. Incluíam eles mapas
das Américas e dos oceanos Ártico e Antártico. Torna-se claro que os
antigos exploradores viajavam de umpólo a outro. Inacreditável como
possa parecer, a prova, ainda assim, indica que alguns povos antigos
exploraram a Antártida quando suas costas estavam livres de gelo. É
claro, também, que dispunham de um instrumento de navegação para
determinar acuradamente as longitudes que era imensamente superior
a qualquer coisa possuída pelos povos dos tempos antigos, medieval
ou moderno até a segunda metade do século XVIII.
Essa prova, de que houve uma tecnologia desaparecida, sustenta e
dá credibilidade a numerosas outras hipóteses sobre uma civilização
perdida, em tempos remotos. Estudiosos conseguiram refutar a
maioria das alegadas provas, mostrando que eram apenas mitos, mas
aqui temos prova que não pode ser refutada. A prova requer que
todas as demais provas apresentadas no passado sejam
reexaminadas com mente aberta.
A despeito do respeitado endosso de Albert Einstein (ver a seguir) e
não obstante o reconhecimento posterior de John Wright, presidente
da Sociedade Geográfica Americana, de que Hapgood "formulou
hipóteses que exigem mais exames", nenhuma pesquisa científica
ulterior foi realizada sobre esses antigos e estranhos mapas. Além do
mais, longe de ser aplaudido por dar uma nova e séria contribuição ao
debate sobre a antiguidade da civilização humana, Hapgood, até sua
morte, foi esnobado pela maioria de seus colegas, que vazaram a
discussão a que lhe submeteram a obra no que alguém descreveu,
acuradamente, como "sarcasmo flagrante e injustificado, escolhendo
aspectos banais e fatores não suscetíveis de verificação como bases
para condenação, procurando, dessa maneira, evitar as questões
básicas".
Um Homem à frente de seu Tempo
O falecido Charles Hapgood ensinou história da ciência no Keene
College, New Hampshire, Estados Unidos. Ele não era geólogo nem
historiador da antiguidade. É possível, no entanto, que gerações
futuras lembrem-se dele como o homem que abalou os alicerces da
história mundial - e também de um grande pedaço da geologia.
Albert Einstein foi um dos primeiros a compreender esse fato, quando
deu o passo sem precedentes de contribuir com o prefácio para um
livro de Hapgood escrito em 1953, alguns anos antes de ele iniciar a
investigação do mapa de Piri Reis:
Freqüentemente, recebo comunicações de pessoas que querem me
consultar sobre idéias suas ainda inéditas [escreveu Einstein].
Dispensa dizer que só raramente tais idéias têm validade científica. A
primeira comunicação que recebi do Sr. Hapgood, porém, deixou-me
eletrizado. Sua idéia é original, de grande simplicidade e - se continuar
a ser provado que tem validade - de grande importância para tudo
aquilo que se relaciona com a história da superfície da terra.
A "idéia" expressada no livro de 1953 de Hapgood é uma teoria
geológica global, que explica elegantemente como e por que grandes
regiões da Antártida permaneceram livres de gelo até o ano 4000 a.C.,
juntamente com numerosas outras anomalias encontradas na ciência
da Terra. O argumento, em suma, é o seguinte:
1. A Antártida nem sempre foi coberta de gelo e houve época em que
era muito mais quente do que hoje.
2. E era quente porque, naquele período, não se localizava
fisicamente no pólo Sul. Em vez disso, situava-se a aproximadamente
3.600 quilômetros mais ao norte. Essa situação a teria colocado fora
do Círculo Antártico, em um clima temperado ou frio temperado.
3. O continente passou para sua atual posição, dentro do Círculo
Antártico, devido a um mecanismo conhecido como "deslocamento da
crosta terrestre". Esse mecanismo, que não deve, de forma alguma,
ser confundido com deslocamento de placas tectônicas, ou migração
de continentes, é aquele através do qual a litosfera, isto é, toda a
crosta terrestre, "pode deslocar-se ocasionalmente, movendo-se por
cima do núcleo interno mole, mais ou menos como uma pele de
laranja, se estivesse solta, poderia deslocar-se em uma única peça
por cima da parte interna da fruta".
4. Durante esse suposto movimento da Antártida na direção sul,
ocasionado pelo deslocamento da crosta terrestre, o continente
tornou-se gradualmente mais frio, formando-se uma calota polar que
se expandiu irresistivelmente durantemilhares de anos, até chegar às
atuais dimensões.
Detalhes adicionais da prova que sustenta essas idéias radicais
constam da Parte VIII deste livro. Geólogos ortodoxos, no entanto,
permanecem relutantes em aceitar a teoria de Hapgood (embora
ninguém tenha provado que ela estava errada). E a teoria provoca
numerosas perguntas.
Entre elas, a mais importante é a seguinte: que mecanismo concebível
poderia exercer uma força suficiente sobre a litosfera para precipitar
um fenômeno de tal magnitude, como o deslocamento da crosta?
Ninguém melhor como guia do que Einstein para sumariar as
descobertas de Hapgood:
Nas regiões polares, há uma acumulação constante de gelo, mas não
distribuída simetricamente em torno do pólo. A rotação da terra atua
sobre essas massas assimetricamente depositadas e produz
momento centrífugo, que é transmitido à crosta rígida da terra. O
momento centrífugo, em aumento constante, produzido dessa
maneira, dará origem, quando atingir um certo ponto, a movimento da
crosta da terra por cima do resto do corpo da terra...
O mapa de Piei Reis parece conter prova adicional surpreendente em
apoio da tese de uma glaciação geologicamente recente de partes da
Antártida, em seguida a um súbito deslocamento, na direcão sul, da
crosta terrestre. Além do mais, uma vez que esse mapa só poderia ter
sido desenhado antes do ano 4000 a.C., são notáveis suas
implicações para a história da civilização humana. Supostamente,
antes do ano 4000 a.C. não havia qualquer civilização.
Correndo algum risco de uma simplificação excessiva, o consenso
acadêmico é, em termos gerais, o seguinte:
. A civilização desenvolveu-se inicialmente no Crescente Fértil do
Oriente Médio.
. Esse desenvolvimento começou após o ano 4000 a.C. e culminou no
aparecimento das mais antigas civilizações autênticas (Suméria e
Egito), por volta do ano 3000 a.C., seguido logo depois por outras
civilizações no vale do Indo e na China.
. Cerca de 1.500 anos depois, a civilização decolou espontânea e
independentemente nas Américas.
. Desde o ano 3000 a.C. no Velho Mundo (e mais ou menos no ano
1500 no Novo Mundo), a civilização "evoluiu" ininterruptamente na
direção de formas cada vez mais refinadas, complexas e produtivas.
. Em conseqüência, e especialmente em comparação com a nossa,
todas as civilizações antigas (e todas as suas obras) devem ser
compreendidas como essencialmente primitivas (os astrônomos
sumerianos sentiam pelos céus um respeito anticiendfico e até as
pirâmides do Egito teriam sido construídas por "primitivos com
conhecimentos tecnológicos").
A prova, sob a forma do mapa de Piri Reis, parece desmentir tudo
isso.
Piri Reis e suas Fontes
Nos seus dias, Piri Reis foi figura bem conhecida. Não há a menor
dúvida sobre sua identidade histórica.Almirante na marinha de guerra
dos turcos otomanos, participou, em meados do século XVI, não raro
no lado vencedor, de numerosas batalhas navais. Era, além disso,
considerado especialista nas terras do Mediterrâneo, e escreveu um
livro de navegação famoso, o Kitabi Bahriye, onde constava uma
descrição completa das costas, ancoradouros, correntes, baixios,
pontos de desembarque, baías e estreitos dos mares Egeu e
Mediterrâneo. A despeito de uma carreira ilustre, caiu no desagrado
de seus senhores e foi decapitado no ano 1554 ou 1555 d.C.
Os mapas básicos usados por ele para desenhar o mapa de 1513
estiveram, com toda probabilidade, arquivados inicialmente na
Biblioteca Imperial, em Constantinopla, à qual se sabe que o almirante
tinha acesso privilegiado. Essas fontes (que podem ter sido trazidas
ou copiadas de centros de saber ainda mais antigos) não existem
mais ou, pelo menos, não foram encontradas. Não obstante, foi na
biblioteca do velho Palácio Imperial que, em data tão recente quanto
1929, alguém redescobriu o mapa de Piri Reis, pintado em pele de
gazela e enrolado, em uma empoeirada prateleira.
Legado de uma Civilização Perdida?
Como o confuso Ohlmeyer reconheceu na carta escrita a Hapgood em
1960, o mapa de Piri Reis mostrava a topografia subglacial, o
verdadeiro perfil da Terra da Rainha Maud, na Antártida, por baixo do
gelo. Esse perfil permaneceu inteiramente oculto desde o ano 4000
a.C. (quando foi coberto pelo lençol de gelo em expansão) até ser
revelado, mais uma vez, como resultado de extenso levantamento
sísmico da região, efetuado em 1949 por uma equipe científica de
reconhecimento britânico-sueca.
Se Piri Reis tivesse sido o único cartógrafo com acesso a essas
informações anômalas, seria errôneo dar qualquer grande importância
ao mapa. No máximo, poderíamos dizer: "Talvez ele seja importante,
mas, também, talvez seja apenas uma coincidência”. O almirante
turco, porém, não foi o único a ter acesso a esse conhecimento
geográfico aparentemente impossível e inexplicável. Seria inútil
especular ainda mais do que Hapgood já fez, isto é, se a "corrente
subterrânea" poderia ter conduzido e preservado esse conhecimento
através das idades, transmitindo fragmentos dele de uma cultura a
outra, de uma época a outra. Qualquerque tenha sido o mecanismo, o
fato é que um bom número de outros cartógrafos aparentemente
tomou conhecimento dos mesmos curiosos segredos.
Seria possível que todos esses cartógrafos tivessem compartilhado,
talvez sem saber, do abundante legado científico de uma civilização
desaparecida?
CAPÍTULO 2
Rios na Antártida
Nas férias de Natal de 1959-60, Charles Hapgood procurava dados
sobre a Antártida na Sala de Obras de Referência da Biblioteca do
Congresso, em Washington, D.C. Durante várias semanas
consecutivas, prosseguiu nesse trabalho, absorto na pesquisa,
cercado por literalmente centenas de mapas e cartas medievais.
Descobri [escreveu ele] um sem-número de coisas fascinantes e
inesperadas e várias cartas mostrando o continente antártico. Certo
dia, virei uma página e fiquei paralisado, transfixado. Lançando meus
olhos sobre o hemisfério Sul de um mapa-múndi desenhado por
Oronteus Finaeus em 1531, senti a convicção imediata de que
descobrira nele um mapa inegavelmente autêntico da verdadeira
Antártida.
A forma geral do continente era surpreendentemente parecida com o
esboço encontrado em mapas modernos. A posição do pólo Sul,
quase no centro do continente, parecia mais ou menos correta. As
cordilheiras que seguiam as costas sugeriam as numerosas cadeias
de montanhas descobertas na Antártida em anos recentes. Era óbvio,
também, que esse mapa não constituía uma criação atamancada da
imaginação de alguém. As cadeias de montanhas apareciam bem
individualizadas, algumas claramente costeiras e, outras, não.
Originando-se nelas, rios corriam em direção ao mar, seguindo, em
todos os casos, o que pareciam bacias hidrográficas naturais, muito
convincentes. Esse fato sugeria, claro, que as costas deveriam ter
estado livres de gelo ao ser desenhado o mapa original. O interior
profundo, porém, estava inteiramente livre de rios e montanhas,
sugerindo esse fato que gelo poderia ter estado presente nessa
região.
Um estudo mais profundo do mapa de Oronteus Finaeus, realizado
por Hapgood e pelo Dr. Richard Strachan, do Massachusetts Institute
of Technology, confirmou os fatos seguintes:
1. O mapa havia sido copiado e compilado de mapas primários
anteriores, desenhados de acordo com certo número de projeções
diferentes.
2. O mapa mostrava, de fato, condições não-glaciais nas regiões
costeiras da Antártida, notamente na Terra da Rainha Maud, Terra de
Enderby, Terra de Wilkes, Terra de Vitória (a costa oriental do mar de
Ross) e Terra de Marie Byrd.
3. Tal como no caso do mapa de Piri Reis, o perfil geral do terreno e
os acidentes físicos visíveis correspondiam estreitamente a mapas de
levantamentos sísmicos das superfícies de terras subglaciais da
Antártida.
O mapa de Oronteus Finaeus, concluiu Hapgood, parecia documentar
"a surpreendente sugestão de que a Antártida fora visitada, e talvez
colonizada, numa época em que as condições eram predominante, se
não inteiramente, não-glaciais. Dispensa dizer que o mapa implicava
uma antiguidade muito remota... [Na verdade] o mapa de Oronteus
Finaeus leva a civilização dos homens que desenharam o mapa
original a uma época contemporânea do fim da última Idade Glacial no
hemisfério Norte.”
O Mar de Ross
Prova adicional em apoio dessa idéia é encontrada na maneira como
o mar de Ross foi mostrado por Oronteus Finaeus. Nos locais onde
hoje grandes geleiras, como a Beardmore e a Scott, desembocam no
mar, o mapa de 1531 mostra estuários, extensas baías e indicações
de rios. A implicação inconfundível desses acidentes geográficos é
que não havia gelo no mar de Ross, ou em suas costas, quando foram
desenhados os mapas primários usados por Oronteus Finaeus. "Teria
que haver também uma grande extensão de terra livre de gelo para
alimentar os rios. Atualmente, todas essas costas e as terras que
ficavam mais para trás encontram-se profundamente sepultadas sob
uma calota de gelo, com uma espessura de 1.600m, enquanto que, no
próprio mar de Ross, são encontrados icebergs flutuantes de centenas
de metros de espessura”.
A prova relativa ao mar de Ross implica forte corroboração à idéia de
que a Antártida deve ter sido mapeada por alguma civilização
desconhecida durante o período, muito extenso, em que a região ficou
livre do gelo, e que terminou por volta do ano 4000 a.C. Essa
conclusão é robustecida pelo trabalho das sondas usadas em 1949
para coleta de núcleos-testemunho por uma das expedições do
almirante Byrd à Antártida, com o objetivo de tirar amostras dos
sedimentos do leito do mar de Ross. Os sedimentos revelaram
numerosas camadas de estratificação claramente demarcadas,
refletindo diferentes condições ambientais em diferentes épocas:
"depósitos marinhos glaciais grossos", "depósitos marinhos glaciais
médios", "depósitos marinhos glaciais finos", e assim por diante. A
descoberta mais surpreendente, contudo, foi "que grande número de
camadas era formado de sedimentos variados, de fina granulação, tais
como os que são trazidos para o mar por rios que fluem de terras de
clima temperado (isto é, livres de gelo)...".
Usando o método de datação por iônio, criado pelo de. W.D. Urry (que
utiliza três elementos radioativos diferentes encontrados na água do
mar), pesquisadores do Carnegie Institute, em Washington, D.C.,
conseguiram provar, além de qualquer dúvida razoável, que
caudalosos rios, trazendo sedimentos muito variados de fina
granulação, haviam realmente existido na Antártida há cerca de 6.000
anos, conforme demonstrava o mapa de Oronteus Finaeus. Só depois
dessa data, por volta do ano 4000 a.C., "é que o sedimento de tipo
glacial começou a ser depositado no leito do mar de Ross... Os
núcleos-testemunho indicam que condições quentes prevaleceram
durante um longo período, antes daquela data".
Mercátor e Buache
Os mapas de Piri Reis e de Oronteus Finaeus, portanto,
proporcionam-nos um vislumbre da Antártida que nenhum cartógrafo
dos tempos modernos poderia ter visto, em nenhuma hipótese. Por si
mesmas, claro, essas duas peças de prova não seriam suficientes
para nos convencer de que poderíamos estar olhando para as
impressões digitais de uma civilização perdida. Mas três, quatro, ou
seis mapas desse tipo poderiam ser refutados com igual justificação?
Seria seguro, ou razoável, por exemplo, continuar a ignorar as
implicações históricas de alguns dos mapas elaborados pelo mais
famoso cartógrafo do século XVI, Gerard Kremer, conhecido também
como Mercátor? Mais lembrado pela "projeção de Mercátor", ainda
usada na maioria dos mapas-múndi modernos, esse enigmático
indivíduo (que realizou uma inexplicada visita à Grande Pirâmide do
Egito em 1563), foi, segundo consta de documentos, "infatigável na
busca (...) do saber de épocas remotas", tendo passado muitos anos
acumulando diligentemente uma vasta e eclética biblioteca de obras
de referência de mapas primários antigos.
No que é muito importante, Mercátor incluiu o mapa de Oronteus
Finaeus em seu Atlas de 1569 e mostrou também a Antártida em
vários outros mapas que ele mesmo produziu no mesmo ano. Entre as
partes do continente sul ainda não descobertas na época e constantes
do mapa figuram o cabo Dart e o cabo Herlacher, na Terra de Marie
Byrd, o mar de Amundsen, a ilha Thurston, na Terra de Ellsworth, as
ilhas Fletcher, no mar de Bellinghausen, a ilha Alexander, a península
Antártica (Palmer), o mar de Weddell, o cabo Norvegia, a cordilheira
Regula, na Terra da Rainha Maud (sob a forma de ilhas), as
montanhas Muhlig-Hoffinan (como ilhas), a costa Príncipe Harald, a
geleira Shirase, como estuário, na costa Príncipe Harald, a ilha Padda,
na baía Lutzow-Holm, e a costa Príncipe Olaf, na Terra de Enderby.
"Em alguns casos, esses acidentes geográficos são claramente mais
reconhecíveis do que no mapa de Oronteus Finaeus", observou
Hapgood, "e parece claro, de modo geral, que Mercátor dispunha de
mapas primários, além dos usados por Oronteus Finaeus”.
E não apenas Mercátor.
Philippe Buache, cartógrafo francês do século XVIII, publicou um
mapa da Antártida muito tempo antes de o continente meridional ter
sido "descoberto" oficialmente. O notável no mapa de Buache é que
parece ter se inspirado em um mapa primário desenhado antes, talvez
milhares de anos antes, diferente dos usados por Oronteus Finaeus e
Mercátor. E o que Buache nos mostra em uma representação
sobrenaturalmente precisa é como a Antártida deveria ter parecido
quando não havia lá absolutamente nenhum gelo. O mapa revela a
topografia subglacial de um continente inteiro, do qual nem mesmo
nós tivemos conhecimento completo até 1958, data do Ano Geofísico
Internacional, quando foi realizado um levantamento sísmico completo
da região.
O levantamento simplesmente confirmou o que Buach proclamou em
1737, ao publicar seu mapa da Antártida. Baseando o trabalho
cartográfico em fontes antigas ora perdidas, o acadêmico francês
desenhou uma clara via navegável de um lado a outro do continente,
dividindo-o em duas massas principais de terra, a leste e a oeste da
linha hoje assinalada como montanhas Transantárticas.
Essa via navegável, ligando os mares de Ross, Weddell e
Bellinghausen, teria realmente existido, se a Antártida houvesse
estado livre de gelo. Conforme demonstraram os resultados do Ano
Geofísico Internacional, de 1958, o continente (que nos mapas
modernos aparece como uma massa de terra contínua) consiste de
um arquipélago de grandes ilhas, com gelo compacto de 1.600m de
espessura entre elas, projetando-se acima da superfície do mar.

A Época dos Cartógrafos
Conforme vimos, numerosos geólogos ortodoxos acreditam que há
milhões de anos existiram, pela última vez, vias fluviais nessas bacias
ora cobertas de gelo. Do ponto de vista dos estudiosos, porém, é
igualmente ortodoxo afirmar que nenhum ser humano existia naqueles
tempos remotos, quanto mais seres humanos capazes de mapear
acuradamente as massas continentais da Antártida. O grande
problema levantado pela prova oferecida por Buache/AGI é que essas
massas parecem realmente ter sido mapeadas quando se
encontravam livres de gelo. Esse fato apresenta aos estudiosos duas
proposições mutuamente contraditórias.
Qual delas é a correta?
Se formamos com a facção dos geólogos ortodoxos e aceitamos que
milhões de anos se passaram indubitavelmente desde que a Antártida
esteve, pela última vez, inteiramente livre de gelo, então toda prova de
evolução humana, laboriosamente acumulada por cientistas ilustres
desde o tempo de Darwin, deve carecer de fundamento. E parece
inconcebível que isso tenha acontecido: o registro fóssil deixa
meridianamente claro que há milhões de anos existiam apenas
ancestrais ainda não evoluídos da humanidade - hominídeos de testa
baixa, que se arrastavam pelo chão com as juntas dos dedos tocando
a terra, incapazes de trabalhos sofisticados como a elaboração de
mapas.
Deveríamos, então, supor a intervenção de cartógrafos alienígenas, a
bordo de espaçonaves em órbita, a fim de explicar a existência de
mapas sofisticados de uma Antártida livre de gelo? Ou deveríamos
pensar novamente nas implicações da teoria de Hapgood sobre o
deslocamento da crosta da terra, o que permitiria que o continente sul
houvesse ficado livre de gelo há uns 15.000 anos, da forma mostrada
por Buache?
Seria possível que uma civilização humana, suficientemente
desenvolvida para ter condições de mapear a Antártida, pudesse ter
surgido cerca de 13.000 anos antes de Cristo e, em seguida,
desaparecido? E, se isso aconteceu, quanto tempo depois?
O efeito combinado dos mapas de Piri Reis, Oronteus Finaeus,
Mercátor e Buache é a forte, embora perturbadora, impressão de que
a Antártida deve ter sido continuamente mapeada durante um período
de vários milhares de anos, à medida que a calota de gelo expandia-se gradualmente a partir do interior, aumentando seu alcance a cada
milênio, mas só conseguindo cobrir todas as costas do continente sul
por volta do ano 4000 a.C. As fontes primárias dos mapas de Piri Reis
e Mercátor deveriam, portanto, ter sido preparadas perto do fim desse
período, época em que, na Antártida, só as costas se encontravam
livres de gelo. A fonte usada no mapa de Oronteus Finaeus, por outro
lado, parece ter sido muito anterior, quando a calota de gelo existia
apenas no interior profundo do continente, ao passo que a de Buache
teve origem, aparentemente, em data ainda mais antiga (por volta do
ano 13000 a.C.), quando não havia absolutamente gelo na Antánida.
América do Sul
Teriam sido outras partes do mundo objeto de levantamento
topográfico e mapeadas com precisão a intervalos muito separados
durante a mesma época, ou seja, aproximadamente dos anos 13000 a
4000 a.C.? A resposta talvez se encontre, mais uma vez, no mapa de
Piei Reis, que contém mais mistérios do que apenas a Antártida:
. Desenhado em 1513, o mapa revela um misterioso conhecimento da
América do Sul - não só da costa oriental, mas também dos Andes no
lado ocidental do continente, que, claro, eram desconhecidos na
época. O mapa mostra corretamente o rio Amazonas nascendo
nessas montanhas inexploradas e delas correndo na direção leste.
. Compilado à vista de mais de vinte documentos primários diferentes,
de antiguidade variada, o mapa de Piri Reis mostra o Amazonas não
apenas uma, mas duas vezes (com toda probabilidade, como
resultado de superposição não intencional de dois dos documentos
primários usados pelo almirante turco). Na primeira, o curso do
Amazonas é mostrado descendo até a foz do rio Pará, embora não
conste a importante ilha de Marajó. De acordo com Hapgood, esse
fato sugere que o mapa primário relevante deve ter sido datado de
uma época, talvez há 15.000 anos, quando o rio Pará era a principal
ou única foz do Amazonas e quando a ilha de Marajó fazia parte do
continente, no lado norte do rio. A segunda versão do Amazonas, por
outro lado, mostra a ilha de Marajó (e em detalhes fantasticamente
exatos), a despeito do fato de que essa ilha só foi descoberta em
1543. Mais uma vez, surge a possibilidade de uma civilização
desconhecida, que realizava operações contínuas de levantamento
topográfico e mapeamento da face mutável da terra, ao longo de um
período de muitos milhares de anos,tendo Piri Reis usado não só os
mapas primários mais antigos, mas também os mais recentes
deixados por essa civilização.
. Nem o rio Orinoco nem o seu atual delta são mostrados no mapa de
Piri Reis. Em vez disso, como prova Hapgood, dois estuários, que se
estendiam muito terra adentro (numa distância de 160km), foram
mostrados perto do local onde se encontra o rio atual. A longitude na
quadrícula seria correta para o Orinoco e a latitude também bastante
acurada. Será possível que esses estuários tenham sido soterrados
por sedimentos e o delta se estendido por essa distância toda, desde
que os mapas primários foram desenhados?
. Embora permanecessem desconhecidasaté 1592, as ilhas Falkland
aparecem em sua latitude correta no mapa de 1513.
. A mapoteca de fontes antigas incorporada ao mapa de Piri Reis
poderia explicar também o fato de mostrar convincentemente a
existência de uma grande ilha no oceano Atlântico, a leste da costa da
América do Sul, onde nenhuma ilha existe atualmente. Seria pura
coincidência que essa ilha "imaginária" tenha sido localizada
exatamente acima da cordilheira suboceânica existente no meio do
Atlântico, imediatamente ao norte do equador e a 1.100km a leste
da costa do Brasil, onde os minúsculos rochedos de São Pedro e São
Paulo se projetam acima das ondas? Ou teria sido o mapa primário
relevante desenhado no auge da últimaEra Glacial, quando o nível
dos mares era muito mais baixodo que hoje e uma grande ilha
poderia, realmente, ter ficado exposta nesse ponto?



Níveis do Mar e Eras Glaciais
Outros mapas do século XVI dão também a impressão de que
poderiam ter-se baseado em levantamentos topográficos mundiais,
realizados durante a última Era Glacial. Um deles foi compilado em
1559 por um turco, Hadji Ahmed, cartógrafo, que, como dizia
Hapgood, devia ter tido acesso a alguns mapas primários "de natureza
a mais extraordinária”.
O aspecto mais estranho e que logo impressiona na compilação de
Hadji é que ela mostra, com grande clareza, uma faixa de território, de
quase 1.600km de largura, ligando o Atasca à Sibéria. Essa "ponte
continental", como a chamam os geólogos, efetivamente existiu no
passado (no local onde hoje existe o estreito de Bering), mas foi
coberta pelas ondas quando o nível do mar subiu ao fim da última Era
Glacial.
O aumento do nível do mar foi causado pelo degelo tumultuoso da
calota polar, que recuava celeremente por toda parte no hemisfério
Norte, por volta do ano 10000 a.C. Por isso mesmo, é interessante
que pelo menos um mapa antigo parece mostrar o sul da Suécia
coberto por geleiras remanescentes, do tipo que deve ter sido
realmente predominante nessas latitudes. As geleiras remanescentes
figuram no famoso Mapa do Norte, de Claudius Ptolomeu. Compilado
originariamente no século II d.C., esse trabalho notável do último
grande geógrafo da antiguidade clássica ficou perdido durante
centenas de anos e só foi redescoberto no século XV.
Ptolomeu trabalhava como curador da Biblioteca de Alexandria, onde
era conservada a maior coleção de manuscritos dos tempos antigos, e
foi nela que ele consultou os documentos arcaicos primários que lhe
permitiram compilar seu próprio mapa. A aceitação da possibilidade de
que a versão original de pelo menos uma das cartas a que ele se
referiu teria sido preparada por volta do ano 10000 a.C. contribui para
explicar por que o mapa mostra geleiras, características dessa exata
época, juntamente com "lagos (ou) sugerindo a forma dos lagos e
cursos d'água atuais que lembram muito correntes glaciais (...)
descendo das geleiras para os lagos".
É provavelmente desnecessário acrescentar que ninguém nos tempos
romanos, época em que Ptolomeu elaborou seu mapa, tinha a menor
suspeita de que eras glaciais poderiam ter coberto outrora o norte da
Europa. Nem ninguém no século XV (quando foi redescoberto o
mapa) possuía tal conhecimento. Na verdade, é impossível dizer como
as geleiras remanescentes e outros acidentes geográficos mostrados
no mapa de Ptolomeu poderiam ter sido constatados em
levantamentos, imaginados ou inventados por qualquer civilização
conhecida anterior à nossa.
São óbvias as implicações desse fato. Como também são as de outro
mapa, o "Portolano", de lehudi Ibn Ben Zara, desenhado em 1487.
Essa carta da Europa e norte da África pode ter sido baseada em
fonte ainda mais antiga do que a usada por Ptolomeu, porquanto
aparentemente mostra geleiras muito ao sul da Suécia (na verdade,
aproximadamente na mesma latitude da Inglaterra) e o Mediterrâneo,
o Adriático e o Egeu como devem ter sido antes do derretimento da
calota européia. O nível do mar, claro, teria sido muito mais baixo do
que é hoje. É interessante notar, por exemplo, na seção do Egeu do
mapa, que existiam muito mais ilhasdo que atualmente. À primeira
vista, esse fato parece estranho. Contudo, se dez ou doze mil anos se
passaram desde a era em que foi elaborado o mapa de Ibn Ben Zara,
a discrepância pode ser explicada sem dificuldade: as ilhas perdidas
devem ter sido cobertas pelo nível do mar que subia ao fim da última
Era Glacial.
Mais uma vez, parece que estamos olhando para as impressões
digitais de uma civilização desaparecida - uma civilização capaz de
produzir mapas incrivelmente precisos de partes muito separadas da
terra.
Que tipo de tecnologia e que estado da ciência e da cultura teriam
sido necessários para realizar um trabalho dessa natureza?
CAPÍTULO 3
Impressões Digitais de uma Ciência Perdida
Vimos que o mapa-múndi de Mercátor, datado de 1569, incluía uma
representação precisa das costas da Antártida, como deveriam ter
parecido há milhares de anos, quandoestiveram livres de gelo.
Curiosamente, esse mesmo mapa é muito menos preciso na
representação de outra região, a costa ocidental da América do Sul,
do que um mapa anterior (1538) também elaborado por Mercátor.
A razão desse fato parece ser que o geógrafo do século XVI baseou o
mapa anterior nas fontes antigas que sabemos que tinha à disposição,
ao passo que, no tocante ao mapa mais moderno, confiou em
observações e medições dos primeiros exploradores espanhóis da
região ocidental da América do Sul. Uma vez que eles supostamente
levaram consigo para a Europa as informações mais recentes,
dificilmente poderíamos culpar Mercátor por tê-Ias aceito. Mas, ao
fazer isso, declinou a precisão de seu trabalho: em 1569, não existiam
instrumentos capazes de fixar a longitude, ainda que parecesse que
foram usados para preparar os documentos primários antigos
consultados por ele para produzir o mapa de 1538.
Os Mistérios da Longitude
Vejamos o problema da longitude, definido como a distância em graus
a leste ou oeste do meridiano de referência. O meridiano de referência
atual, internacionalmente aceito, é a curva imaginária traçada do pólo
Norte ao pólo Sul que passa pelo Real Observatório de Greenwich,
em Londres. Greenwich, portanto, representa a longitude 0°, enquanto
que Nova York, por exemplo, situa-se a 74° oeste e Camberra,
Austrália, a aproximadamente 150° leste.
Poderíamos dar uma explicação detalhada da longitude e do que
precisa ser feito para fixá-Ia exatamente no tocante a qualquer dado
ponto na superfície da terra. O que nos interessa aqui, contudo, não é
tanto o detalhe técnico quanto os fatos históricos aceitos sobre o
conhecimento crescente da humanidade no tocante aos mistérios da
longitude. Entre esses fatos, o mais importante é o seguinte: até a
ocorrência de uma invenção inovadora no século XVIII, cartógrafos e
navegantes não conseguiam fixar a longitude com qualquer tipo de
precisão. Limitavam-se a dar palpites, que em geral erravam em
muitas centenas de quilômetros, porque não surgira ainda a tecnologia
necessária para que pudessem fazer corretamente o trabalho.
A latitude ao norte ou sul do equador não criava problema dessa
natureza: a latitude podia ser obtida através de medições angulares do
sol e das estrelas, usando-se instrumentos relativamente simples.
Para fixar a longitude, porém, era necessário equipamento
inteiramente diferente e de calibre superior, que pudesse combinar
medições de posição com medições de tempo. Durante todo o
transcurso da história conhecida,a invenção de equipamento dessa
natureza permaneceu além da capacidade dos cientistas. Em
princípios do século XVIII, porém, com o aumento cada vez maior do
tráfego marítimo, aumentou a sensação de impaciência e urgência
para solução do problema. Ou, nas palavras de uma autoridade do
período: "A busca da longitude era uma sombra sobre a vida de todos
os marinheiros e a segurança de todos os navios e cargas. A medição
precisa parecia ser um sonho impossível e 'descobrir a longitude'
tornou-se uma frase padrão na imprensa, do tipo 'tão fácil quanto um
porco voar’.”
Acima de tudo, precisava-se de um instrumento que controlasse o
tempo (no local de partida) com exatidão perfeita durante as longas
viagens marítimas, a despeito dos movimentos do navio e não
obstante as condições adversas de tempo quente e frio, chuvoso e
seco. "Um Relógio desse tipo", como disse Isaac Newton em 1714 a
membros da Junta de Longitude, umorganismo oficial do governo
britânico, "não foi ainda fabricado”. E, de fato, não havia sido. Os
relógios do século XVII e princípiosdo século XVIII eram dispositivos
grosseiros, que costumeiramente adiantavam ou atrasavam um quarto
de hora por dia. Em contraste, o cronômetro marítimo eficaz só
poderia adiantar ou atrasar essa margem em vários anos.

Só na década de 1720, porém, é que um talentoso relojoeiro inglês,
John Harrison, começou a trabalhar no primeiro de uma série de
modelos, que resultou na fabricação de um cronômetro desse tipo. O
objetivo de Harrison era ganhar o prêmio de 20.000 libras oferecido
pela Junta de Longitude "ao inventor de qualquer meio para
determinar a longitude de um navio, com uma margem de erro de
apenas 48 milhas náuticas ao cabo de uma viagem de seis semanas".
Um cronômetro capaz de atender a esse requisito teria que marcar o
tempo com uma margem de erro de três segundos ao dia. Foram
necessários quase 40 anos, período em que completou e submeteu a
teste vários protótipos, antes que Harrison pudesse adequar-se a tais
padrões. Finalmente, em 1761, o elegante Cronômetro N° 4 deixou a
Grã-Bretanha a bordo do HMS Deptford a caminho da Jamaica,
acompanhado pelo filho de Harrison,William. Nove dias depois de
iniciada a viagem, e na base doscálculos de longitude tornados
possíveis com o cronômetro, William informou ao comandante que
avistariam as ilhas da Madeira na manhã seguinte. O comandante
apostou e deu uma vantagem de cinco a um de que ele estava errado,
mas concordou em manter o curso do navio. William ganhou a aposta.
Dois meses depois, na Jamaica, descobriu-se que o instrumento
atrasara apenas cinco segundos.
Harrison havia superado as condições estabelecidas pela Junta de
Longitude. Devido a entraves burocráticos no governo britânico,
porém, ele só recebeu o prêmio três anos depois e antes de seu
falecimento em 1776. Compreensivelmente, só quando recebeu o
dinheiro é que ele divulgou os segredos de seu projeto. Como
resultado dessa demora, o capitão James Cook não pôde contar com
as vantagens de um cronômetro quando empreendeu sua primeira
viagem de descoberta em 1768. Ao realizar a terceira viagem (1778-9), porém, conseguiu mapear o Pacífico com uma precisão
impressionante, fixando não só as latitudes corretas, mas também a
longitude de todas as ilhas e costas. Daí em diante, "graças aos
cuidados de Cook e ao cronômetro de Harrison (...) nenhum
navegador teria desculpa para deixar de encontrar uma ilha no
Pacífico (...) ou por naufragar em uma costa que aparecia, surgida do
nada”.
Realmente, com as longitudes exatas, os mapas do Pacífico
elaborados por Cook devem ser classificados entre os primeiros
exemplos de cartografia precisa da era moderna. Eles nos lembram,
contudo, que a elaboração de mapas realmente dignos de confiança
exige pelo menos três ingredientes principais: grandes viagens de
descoberta, competência matemática e cartográfica de primeira classe
e cronômetros sofisticados.
Mas só depois de o cronômetro de Harrison tornar-se de uso corrente
na década de 1770 é que foi atendida a terceira das pré-condições. A
brilhante invenção permitiu que cartógrafos fixassem com precisão a
longitude, algo que os sumérios, os antigos egípcios, os gregos e os
romanos e, na verdade, todas as demais civilizações conhecidas
anteriores ao século XVIII, aparentemente não conseguiram fazer. Por
isso mesmo, surpreende e perturba descobrir mapas imensamente
mais antigos que fixam com uma precisão moderna as latitudes e
longitudes.
Instrumentos de Precisão
Essas latitudes e longitudes inexplicavelmente precisas são
encontradas na mesma categoria geral de documentos que contêm os
conhecimentos geográficos avançados que mencionamos
sumariamente acima.
O mapa de Piri Reis de 1513, por exemplo, põe a América do Sul e a
África nas latitudes relativas corretas, o que, teoricamente, teria sido
uma façanha impossível para a ciência da época. Piri Reis, porém,
teve a honestidade de reconhecer que o mapa baseava-se em fontes
mais antigas. Poderia ter ele tirado dessas fontes as longitudes
precisas?
Reveste-se também de grande interesse o denominado "Dulcert
Portolano", do ano 1339 d.C., que mostra a Europa e o Norte da
África. Neste caso, a latitude é perfeita, a despeito das distâncias
imensas, e a longitude total dos mares Mediterrâneo e Negro é dada
com uma margem de erro de apenas meio grau.
O professor Hapgood comenta que o autor da fonte primária, da qual
foi copiado o Dulcert Portolano, havia "alcançado uma precisão
altamente científica, ao encontrar a razão entre latitude e longitude.
Ele só poderia ter feito isso se dispusesse de informações precisas
sobre as longitudes relativas de grande número de lugares espalhados
pelo caminho todo, de Galway, na Irlanda, até a curva oriental do rio
Don, na Rússia”.
O mapa Zeno, do ano 1380 d.C., constitui outro enigma. Cobrindo
uma vasta área do hemisfério norte que chega até a Groenlândia, o
mapa localiza numerosos locais muito separados, em latitudes e
longitudes "espantosamente corretas". É "incrível", declara Hapgood,
"que alguém no século XIV pudesse ter descoberto as latitudes exatas
desses locais, para nada dizer das longitudes precisas".
O mapa-múndi de Oronteus Finaeus merece também atenção: coloca
as costas da Antártida nas latitudes e longitudes relativas corretas e
dá uma área notavelmente exata para o continente como um todo.
Esses resultados refletem um nível de conhecimento geográfico que
só se tornou disponível no século XX.
O Portolano, de Yehudi Ibn Ben Zara, é outro mapa notável por sua
precisão no que concerne a latitudes e longitudes relativas. A
longitude total entre Gibraltar e o mar de Azov é dada com uma
precisão de meio grau, enquanto que, no mapa em geral, os erros
médios de longitude ficam abaixo de um grau.
Esses exemplos representam apenas uma pequena fração do grande
e instigante dossiê de provas apresentado por Hapgood. Camada
após camada, o efeito cumulativo desses trabalhos e análise
detalhada sugerem que estamos nos iludindo quando supomos que
instrumentos precisos para medir longitude só foram inventados no
século XVIII. Muito ao contrário, o mapa de Piri Reis e outros indicam,
com forte credibilidade, que esses instrumentos foram redescobertos
nessas ocasiões, que existiram em incontáveis eras anteriores e que
foram usados por um povo civilizado, ora perdido nas brumas da
história, que havia explorado e mapeado toda a terra. Além do mais,
parece que esse povo era capaz não só de projetar e fabricar
instrumentos mecânicos tecnicamente avançados, mas foram mestres
de uma ciência matemática muito antiga.
Os Matemáticos Perdidos
Se queremos compreender o motivo, devemos inicialmente recordar o
óbvio: a Terra é uma esfera. Quando o assunto é mapeá-Ia, por
conseguinte, o globo é a única forma que pode representá-Ia em
proporção correta. Transferir dados cartográficos de um globo para
folhas lisas de papel implica inevitavelmente distorções e isso só pode
ser feito através de métodos matemáticos mecânicos e complexos,
conhecidos como projeção cartográfica.
Há vários tipos de tal projeção. A de Mercátor, ainda usada hoje em
atlas, é talvez a mais conhecida. Outras são designadas
misteriosamente como azimutal, estereográfica, gnomônica, azimutal
eqüidistante, projeção conforme, e assim por diante, mas é
desnecessário entrar aqui em maiores detalhes sobre o assunto.
Precisamos apenas observar que todas as projeções cartográficas
bem-feitas exigem o uso de técnicas matemáticas sofisticadas, de um
tipo supostamente desconhecido no mundo antigo (particularmente na
antiguidade mais remota, antes do ano 4000 a.C., quando
alegadamente não havia qualquer civilização humana, quanto mais
uma capaz de criar e usar matemática e geometria avançadas).
Charles Hapgood submeteu sua coleção de mapas antigos ao
Massachusetts Institute of Technology, onde foi analisada pelo
professor Richard Strachan. A conclusão geral era óbvia. Ele, no
entanto, queria saber precisamente que nível de matemática teria sido
necessário para desenhar os documentos primários originais. No dia
18 de abril de 1965, Strachan respondeu que um nível muito alto de
matemática teria sido necessário. Alguns dos mapas, por exemplo,
pareciam ser do tipo da projeção de Mercátor, datados de muito antes
do nascimento do próprio Mercátor. A complexidade relativa dessa
projeção (implicando expansão de latitude) implica que um método de
transformação de coordenada trigonométrica teria que ter sido usado.
Outras razões por ele dadas para deduzir que os antigos canógrafos
deveriam ter sido hábeis matemáticos foram as seguintes:
1. A determinação de localizações em continentes exige pelo menos
métodos de triangulação geométrica. No que interessa a grandes
distâncias (da ordem de 1.600km ou mais), correções terão que ser
feitas para levar em conta a curvatura da terra, o que exige alguma
compreensão de trigonometria esférica.
2. A localização de continentes em suas posições relativas recíprocas
requer compreensão da esfericidade da terra e o uso de trigonometria
esférica.
3. Culturas possuidoras desses conhecimentos, além de instrumentos
de precisão para fazer as medições necessárias à determinação da
localização, usariam com toda certeza sua tecnologia matemática para
confeccionar mapas e cartas.
A impressão de Strachan, de que os mapas, através de gerações de
copistas, revelavam o trabalho de uma civilização antiga, misteriosa e
tecnologicamente avançada, foi compartilhada pelos especialistas em
reconhecimento aéreo da Força Aérea americana, aos quais Hapgood
submeteu suas provas. Lorenzo Burroughs, comandante do 8°
Esquadrão de Reconhecimento Técnico, Seção de Cartografia, da
Base Aérea de Westover, realizou um estudo especialmente
cuidadoso do mapa de Oronteus Finaeus. Concluiu ele que algumas
das fontes sobre as quais o mapa se baseou deveriam ter sido
desenhadas com auxílio de uma projeção semelhante à moderna
Projeção Cordiforme. Esse fato, disse Burroughs, sugere o uso de
matemática avançada. Além disso, a forma dada ao continente da
Antártida lembra a possibilidade, senão a probabilidade, de que os
mapas primários originais foram compilados com um tipo
estereográfico ou gnomônico de projeção, implicando o uso de
trigonometria esférica.
Estamos convencidos de que as descobertas realizadas pelo senhor e
por seus colegas são válidas, e que equacionam questões de extrema
importância, que afetam a geologia e a história antiga..."
Hapgood faria ainda mais uma descoberta importante: um mapa
chinês copiado de um original mais antigo e transposto, no ano 1137
d.C., para um pilar de pedra. O mapa inclui exatamente o mesmo tipo
de informações de alta qualidade sobre longitudes que os outros.
Exibe uma quadrícula semelhante e foi desenhado com uso de
trigonometria esférica. Na verdade, examinando-se bem, descobrimos
que compartilha de tantos aspectos de mapas europeus e do Oriente
Próximo que só uma explicação parece aceitável: esse mapa e os
outros devem ter se originado de uma fonte comum.
Parece, mais uma vez, que temos diante de nós um fragmento
remanescente dos conhecimentos científicos de uma civilização
desaparecida. Mais do que isso, parece que essa civilização deve ter
sido, pelo menos em alguns aspectos, tão avançada quanto a nossa,
e que seus cartógrafos "mapearam virtualmente todo o globo com um
nível geral uniforme de tecnologia, com métodos semelhantes, e igual
conhecimento de matemática e, provavelmente, com os mesmos tipos
de instrumentos".
O mapa chinês indica ainda outra coisa: um legado global deve ter
sido transmitido - um legado de valor inestimável, incluindo, com toda
probabilidade, muito mais do que conhecimentos geográficos
sofisticados.
Poderia uma parte desse legado ter sido distribuída no Peru pré-histórico pelos denominados "viracochas", estranhos, misteriosos
indivíduos barbudos que se dizia ter vindo do outro lado do mar, em
uma" época de trevas", para restabelecer a civilização após uma
grande calamidade na terra?
Resolvi ir ao Peru para ver o que poderia descobrir.
Parte II
Espuma do Mar
Peru e Bolívia
CAPÍTULO 4
O Vôo do Condor
Estou no sul do Peru, voando por cima das linhas de Nazca.
Acreditem em mim, depois da baleia e do macaco, o beija-flor
aparece, bate as asas e estende o bico delicado para uma flor
imaginária. Em seguida, fazemos uma volta fechada para a direita,
perseguidos por nossa própria minúscula sombra, enquanto cruzamos
a cicatriz pálida da rodovia Pan-Americana e seguimos a trajetória que
nos leva por cima da fabulosa “Alcatraz" com pescoço de serpente:
uma garça de 270m de comprimento, concebida pela mente de um
mestregeômetra. Descrevemos um círculo, cruzamos a estrada pela
segunda vez, passamos por um arranjo espantoso de peixes e
triângulos desenhados ao lado de um pelicano, viramos para a
esquerda e nos descobrimos pairando acima da imagem sublime de
um condor gigantesco, com as asas estendidas em um vôo estilizado.
Exatamente no momento em que tento recuperar o fôlego, outro
condor, quase perto o suficiente para que pudesse ser tocado,
materializa-se, vindo de ninguém sabe onde, um condor autêntico
desta vez, orgulhoso como um anjo caído, navegando sobre uma
corrente térmica de volta ao céu. Meu piloto solta um arquejo e tenta
segui-lo. Por um momento, tenho umvislumbre de olhos brilhantes e
imparciais que parecem nos avaliar e nos achar aquém do esperado.
Em seguida, como a visão de algum mito antigo, a criatura inclina-se e
flutua desdenhosamente para trás na direção do sol, deixando nosso
monomotor Cessna afundando no ar mais baixo.
Abaixo de nós, vemos um par de linhas paralelas, de quase 3,2km de
comprimento, reta como uma flecha,até desaparecer ao longe. E ali, à
direita, uma série de formas abstratas, em uma escala tão vasta - e
ainda assim executada com tanta precisão - que parece inconcebível
que tenha sido obra de homens.
Pessoas por aqui dizem que elas não foram trabalho de homens, mas
de semideuses, dos Viracochas, que deixaram também suas
impressões digitais em outros lugares na região andina, há milhares
de anos.
O Enigma das Linhas
O platô de Nazca, situado no sul do Peru, é um lugar desolado,
ressequido e hostil, estéril e sem nenhum valor econômico.
Populações humanas jamais viveram aqui, nem o farão no futuro: a
superfície da lua dificilmente parece menos hospitaleira.
Se o leitor for um pintor com projetos grandiosos, porém, esses platôs
altos e misteriosos parecem uma tela muito promissora, com 520km
quadrados de planalto ininterrupto e a certeza de que sua obra-prima
não será apagada pela brisa do deserto ou coberta por areia
transportada pelo vento.
É bem verdade que ventos fortes sopram por aqui, mas, por um feliz
acidente da física, são roubados de seu ferrão ao nível do solo: os
seixos que cobrem o pampa absorvem e retêm o calor do sol,
lançando para o alto um campo de força de ar quente. Além disso, o
solo contém gipso suficiente para colar pequenas pedras à
subsuperfície, adesivo este regularmente renovado pelo efeito
umidificador do orvalho de começos da manhã. Uma vez desenhadas
aqui, portanto, coisas tendem a permanecer desenhadas. Quase não
há chuva. Na verdade, a precipitação não passa de meia hora de
chuvisco fino a cada década. Nazca figura entre os lugares mais
secos da terra.
Se você é pintor, portanto, se tem algo grandioso e importante para
expressar, e se quer ser visível para sempre, estes estranhos e
solitários platôs parecem a resposta às suas orações.
Especialistas deram opiniões sobre a antiguidade de Nazca,
baseando-as em fragmentos de cerâmica encontrados cravados nas
linhas e em resultados de testesde carbono radioativo com vários
restos orgânicos desenterrados aqui. As datas, objeto de conjecturas,
variam entre o ano 350 a.C. e 600 d.C. Realisticamente, eles nada nos
dizem sobre a antiguidade das próprias linhas, que são inerentemente
tão refratárias à datação quanto as pedras removidas para riscá-Ias.
Tudo que podemos dizer com certeza é que as mais recentes têm
pelo menos 1.400 anos de idade. Mas é teoricamente possível que
possam ser muito mais antigas do que isso - pela razão muito simples
de que os artefatos dos quais essas datas são obtidas poderiam ter
sido trazidos a Nazca por povos mais recentes.
A maioria dos desenhos espalha-se por uma área claramente definida
do sul do Peru, limitada pelo rio Ingenio, ao norte, e pelo rio Nazca, ao
sul, formando uma tela aproximadamente quadrada de deserto, de cor
fulva, com 46km da estrada Pan-Americana cortando-a obliquamente
da parte superior central para o canto inferior direito. Aqui, espalhadas
de modo aparentemente aleatório, há literalmente centenas de figuras
diferentes. Algumas delas mostram animais e aves (um total de 18
aves diferentes). Um número muito maior, porém, tem a forma de
figuras geométricas, sob a forma de trapezóides, retângulos,
triângulos e linhas retas. Vistas do alto, estas últimas parecem aos
olhos modernos estradas em ruínas, como se algum engenheiro civil
megalomaníaco tivesse obtido licença para transformar em realidade
suas fantasias mais alucinadas de projeto de um campo de aviação.
Não constitui surpresa, portanto, desde que se supõe que o homem só
conseguiu voar em inícios do século XX, que as linhas de Nazca
tenham sido identificadas por certo número de observadores como
campos de pouso de espaçonaves alienígenas. Trata-se de uma idéia
sedutora, mas Nazca não é provavelmente o melhor lugar para buscar
prova desse fato. É difícil, por exemplo, entender por que
extraterrestres avançados o suficiente para ter cruzado centenas de
anos-luz de espaço interestelar teriam precisado absolutamente de
campos de pouso. Claro que esses seres teriam dominado a
tecnologia do pouso vertical de seus discos voadores, certo?
Além disso, não há realmente a questão de as linhas de Nazca terem
algum dia sido usadas como pistas de pouso - por discos voadores ou
qualquer outro tipo de nave -, embora algumas delas pareçam
exatamente isso quando vistas do alto. Vistas ao nível do chão, elas
pouco mais são do que riscos na superfície, feitos pela remoção de
milhares de toneladas de seixos vulcânicos pretos para expor a base
amarela e parda do deserto. Nenhuma das áreas limpas tem mais do
que alguns centímetros de profundidade e todas elas são moles
demais para ter permitido o pouso de máquinas voadoras dotadas de
rodas. A matemática alemã Maria Reiche, que dedicou meio século ao
estudo das linhas, estava sendo apenas lógica quando, com uma
frase seca, cortou há alguns anos a teoria extraterreste: "Lamento
dizer que os espaçonautas teriam ficado presos na terra.”
Se não foram pistas de pouso para as bigas de "deuses" alienígenas,
o que mais poderiam ser as linhas de Nazca? A verdade é que
ninguém sabe para que foram riscadas, da mesma maneira que
ninguém conhece realmente sua idade. Elas continuam a ser um
autêntico mistério do passado. E quanto mais atentamente as
observamos, mais enigmáticas elas se tornam.

É claro, por exemplo, que os animais e as aves são anteriores à
geometria das "pistas de pouso", porque muitos dos trapezóides,
retângulos e linhas retas cortam em duas (e, portanto, obliteram
parcialmente) as figuras mais complexas. A dedução óbvia é que a
arte final no deserto, como a vemos hoje, deve ter sido produzida em
duas fases. Além do mais, embora este fato pareça contrário às leis
normais do progresso técnico, temos de admitir que a mais antiga das
duas fases era a mais avançada. A execução das figuras zoomórficas
exigia níveis muito mais altos de habilidade e tecnologia do que riscar
linhas retas. Mas que distância separava, no tempo, os artistas mais
recentes e mais modernos?
Os estudiosos não abordam diretamente essa questão. Em vez disso,
reúnem numa só ambas as culturas, dando-lhes o nome de "nazcana”,
e as descrevem como membros primitivos de tribos que,
inexplicavelmente, desenvolveram técnicas sofisticadas de auto-expressão artística e, em seguida, desapareceram do cenário peruano
muitas centenas de anos antes do aparecimento de seus sucessores
mais conhecidos, os incas.
Até que ponto foram sofisticados esses nazcanos "primitivos"? Que
tipo de conhecimento teriam de possuir para deixar suas assinaturas
gigantescas no platô? Para começar, parece que foram astrônomos
observadores muito competentes - pelo menos na opinião da Dra.
Phillis Pitluga, astrônoma do Adler Planetarium, em Chicago. Após
realizar um estudo intensivo, com auxílio de computador, dos
alinhamentos estelares em Nazca, ela concluiu que a famosa figura da
aranha foi criada como um diagrama terrestre da gigantesca
constelação de Órion, e que as linhas retas ligadas à figura parecem
ter sido traçadas para acompanhar através das idades as declinações
mutáveis das três estrelas do Cinturão de Órion.
A importância real da descoberta da Dra. Pitluga tornar-se-á clara no
momento oportuno. Enquanto isso, vale notar que a aranha de Nazca
mostra também acuradamente um membro de um gênero conhecido
de aranha - o Ricinulei. Acontece que este é um dos gêneros de
aranha mais raros no mundo, tão raro, na verdade, que só foi
encontrado em partes remotas e inacessíveis da floresta tropical
amazônicas. De que modo poderiam esses artistas nazcanos,
supostamente primitivos, ter viajado para tão longe da terra natal,
cruzando a formidável barreira dos Andes, para obter um espécime do
inseto? Mais a propósito, por que deveriam eles ter desejado fazer tal
coisa e como puderam duplicar os detalhes minuciosos da anatomia
da Ricinulei, que são normalmente visíveis apenas com auxílio de
microscópio, notadamente o órgão reprodutivo, situado na
extremidade da perna direita mais longa?
Mistérios desse tipo multiplicam-se em Nazca e nenhum dos
desenhos, exceto talvez o do condor, parece realmente estar à
vontade aqui. A baleia e o macaco, afinal de contas, estão tão
deslocados nesse ambiente desértico como a aranha amazônica. Não
se pode dizer que uma figura curiosa de homem, com o braço direito
erguido como se estivesse fazendo uma saudação, calçado com
pesadas botas e com olhos redondos de coruja olhando para a frente
pertença a qualquer era ou cultura. Outros desenhos representando a
forma humana são igualmente peculiares: cabeças envolvidas em
halos de luz parecem realmente pertencer a visitantes de outros
planetas. O puro tamanho dessas figuras é também extravagante e
digno de nota. O beija-Bor tem 50m de comprimento, a aranha, 45m, o
condor se estende por quase 120m do bico às penas da cauda (como
também o pelicano) e um lagarto, no ponto em que a cauda é hoje
cortada pela estrada Pan-Americana, mede 190m de comprimento.
Todos os desenhos foram feitos na mesma escala ciclópica e à
mesma maneira difícil, pelo desenvolvimento cuidadoso de contorno
de uma única linha contínua.
Atenção semelhante ao detalhe é encontrada nos desenhos
geométricos. Alguns deles tomam a forma de linhas retas de mais de
oito quilômetros de comprimento, cruzando o deserto como se fossem
estradas romanas, descendo para leitos secos de rios, passando por
cima de projeções rochosas e nem por um momento desviando-se da
direção certa.
Esse tipo de precisão, embora difícil, não é impossível de explicar em
termos de bom senso convencional. Muito mais enigmáticas são as
figuras zoomórficas. De que modo poderiam ter sido desenhadas com
tanta perfeição quando, sem uma aeronave, seus criadores não
poderiam ter conferido o progresso do trabalho, vendo-o em sua
perspectiva correta? Nenhum dos desenhos é suficientemente
pequeno para ser visto do nível do chão, onde parecem simplesmente
uma série de sulcos informes no deserto, e só mostram sua
verdadeira forma quando vistos de uma altitude de várias centenas de
metros. Não há por perto uma elevação que pudesse ter servido de
ponto de observação.
Riscadores de Linhas, Cartógrafos
Estou voando por cima das linhas, tentando delas extrair algum
sentido.
Meu piloto é Rodolfo Arias, que pertenceu à Força Aérea peruana.
Após uma carreira feita em caças a jato, ele considera o pequeno
Cessna lento e monótono demais e trata-o como se fosse apenas um
táxi com asas. Já voltamos uma vez ao aeroporto de Nazca para
retirar uma janela do aparelho, de modo que minha companheira
Santha pudesse assestar verticalmente suas câmaras para os
misteriosos glifos. Nesse momento, estamos fazendo experimentos,
de altitudes diferentes, de interpretação da paisagem. A algumas
dezenas de metros acima da Ricinulei, a aranha da Amazônia, parece
que ela está se levantando sobre as patas traseiras para nos pegar
com as mandíbulas. A 150m de altura, podemos ver simultaneamente
várias figuras: um cão, uma árvore, um estranhíssimo par de mãos, o
condor e alguns triângulos e trapezóides. Quando subimos para
1.500m, os zoomorfos, até então predominantes, aparecem apenas
como pequenas unidades espalhadas, cercadas por uma garatuja
impressionante de imensas formas geométricas. Essas formas, nesse
momento, parecem-se menos com pistas de pouso e mais com trilhas
abertas por pés de gigantes, trilhas que cruzam o platô no que parece,
à primeira vista, uma desnorteante variedade de formas, ângulos e
tamanhos.
À medida que o solo continua a afastar-se, contudo, na proporção em
que a ampliação da perspectiva das linhas permite uma visão do alto
mais ampla, começo a me perguntar se, afinal de contas, não haveria
algum método nos cortes e riscos cuneiformes espalhados lá embaixo.
Lembro-me de uma observação feita por Maria Reiche, a matemática
que morou em Nazca e estudou as linhas desde 1946. Em sua
opinião:
Os desenhos geométricos dão a impressão de ser uma escrita cifrada,
na qual as mesmas palavras são, às vezes, escritas em letras
gigantescas e, em outras ocasiões, em caracteres minúsculos. Há
arranjos de linhas que aparecem em uma grande variedade de
categorias de tamanho, com formas muito parecidas. Todos os
desenhos são compostos de certo número de elementos básicos...
Enquanto o Cessna se sacode e corcoveia nos céus, lembro-me
também que não constituiu acidente que as linhas de Nazca só
tenham sido devidamente identificadas no século XX, após o início da
era dos vôos pelo homem. Em fins do século XVI, um magistrado
chamado Luis de Monzon tornou-se o primeiro viajante espanhol a
trazer relatos de testemunha ocular a respeito dessas misteriosas
"marcas no deserto" e a compilar as estranhas tradições que as
ligavam aos Viracochas. Até que companhias de aviação comercial
começassem a operar regularmente entre Lima e Arequipa na década
de 1930, porém, aparentemente ninguém havia percebido que a maior
peça de arte gráfica existente no mundo estava ali, no sul do Peru. O
desenvolvimento da aviação fez toda diferença, dando a homens e
mulheres a capacidade divina de subir aos céus e ver coisas belas e
enigmáticas que, até então, lhes haviam sido veladas.
Rodolfo, nesse momento, dirige o Cessna em um círculo suave sobre
a figura do macaco - um macaco enorme preso em um quebra-cabeças de formas geométricas. Não é fácil para mim descrever a
sensação sobrenatural, hipnótica, que esse desenho me produziu: era
algo muito complicado e absorvente para a vista e ligeiramente
sinistro, de uma forma abstrata, indefinível. O corpo do macaco é
definido por uma linha contínua, ininterrupta. E sem jamais ser
interrompida, a mesma linha coleia subindo degraus, passa por cima
de pirâmides, em uma série de ziguezagues, através de um labirinto
em espiral (a cauda), em seguida recuando em certo número de voltas
apertadas em forma de losango. Seria um verdadeiro tour de force
para um desenhista e exibição de perícia artística reproduzir tudo isso
em uma folha de papel, mas o que tínhamos aí era o deserto de
Nazca (onde as coisas foram feitas em escala grandiosa) e o macaco
tem pelo menos 120m de comprimento por 90m de largura...
Teriam os riscadores de linhas sido também cartógrafos?
E por que eram chamados de Viracochas?
CAPÍTULO 5
A Trilha Inca Para o Passado
Nenhum artefato ou monumento, nenhuma cidade ou templo, têm
durado mais, em forma reconhecível, do que as tradições religiosas
mais persistentes. Fossem elas expressas nos Textos das Pirâmides,
do antigo Egito, ou na Bíblia hebraica, essas tradições figuram entre
as mais imperecíveis de todas as criações humanas: poderíamos dizer
que são veículos de conhecimento que viajam através do tempo.
Os últimos guardiães da herança religiosa antiga do Peru, os incas,
tiveram suas crenças e "idolatria" "extirpadas", e seus tesouros foram
pilhados durante os trinta anos terríveis que se seguiram à conquista
espanhola, no ano de 1532. Milagrosamente, contudo, alguns dos
primeiros viajantes espanhóis esforçaram-se para documentar as
tradições antes que elas fossem inteiramente esquecidas.
Embora pouca atenção lhes tenha sido dada na época, algumas
dessas tradições referem-se surpreendentemente a uma grande
civilização que se acredita ter existido muitos milhares de anos antes
no Peru. Memórias duradouras, no entanto, foram preservadas dessa
civilização, que algumas fontes dizem ter sido fundada pelos
Viracochas, os mesmos seres misteriosos a quem se atribui o crédito
pelo traçado das linhas de Nazca.
"Espuma do Mar”
Ao chegarem os conquistadores espanhóis, o Império Inca estendia-se pela costa do Pacífico e altiplanos dos Andes, desde a fronteira
norte do moderno Equador, passando por todo o Peru e prolongando-se tão ao sul quanto o rio Maule, no centro do Chile. Ligando os
cantos muito separados do império havia um vasto e sofisticado
sistema de estradas: duas estradas paralelas que corriam no sentido
norte-sul, por exemplo, uma delas com 3.600km de extensão,
bordejando a costa e, a outra, em distância semelhante, cruzando os
Andes. Ambas as grandes vias eram pavimentadas e contavam com
uma rede de numerosas estradas vicinais. Além disso, exibiam uma
interessante variedade de projetos e obras de engenharia, tais como
pontes pênseis e túneis escavados em rocha bruta. A obra era
trabalho de uma sociedade evoluída, disciplinada e ambiciosa.
Ironicamente, essas obras desempenharam um papel importante na
queda do império: as forças espanholas, sob o comando de Francisco
Pizarro, usaram-nas com grande proveito para acelerar seu avanço
implacável até o coração do império.
O império tinha como capital a cidade de Cuzco, nome que na língua
quíchua significa "umbigo da terra”. Segundo a lenda, Cuzco fora
fundada por Manco Capac e Mama Occlo, dois filhos do sol. No local,
embora os incas adorassem o deus sol, a quem davam o nome de Inti,
outro ser divino, muito diferente, era venerado como o Mais Sagrado
de todos, o Viracocha, cujos homônimos teriam traçado as linhas de
Nazca e cujo nome significa "Espuma do Mar".
Constituiu sem dúvida mera coincidência que a deusa grega Afrodite,
nascida do mar, tenha recebido seu nome numa referência à "espuma
[aphros] da qual fora criada”. Além do mais, Viracocha era sempre
descrito como inconfundivelmente humano pelos povos dos Andes.
Esse fato sobre ele é incontestável. Nenhum historiador, porém, pode
dizer qual a antiguidade do culto a essa divindade, antes de os
espanhóis chegarem para pôr fim a tudo isso. E isso aconteceu
porque o culto parecia ter sempre existido. Na verdade, muito antes de
os incas terem-no incorporado à sua cosmogonia e lhe construído um
templo magnífico em Cuzco, a evidência disponível sugere que o deus
supremo Viracocha fora adorado por todas as civilizações que um dia
existiram na longa história do Peru.
A Cidadela de Viracocha
Poucos dias depois de termos deixado Nazca, Santha e eu chegamos
a Cuzco e fomos conhecer o local onde se erguia o Coricancha, o
grande templo dedicado a Viracocha na era pré-colombiana. O
Coricancha, claro, desaparecera há muito tempo. Ou, para ser mais
exato, em vez de desaparecido fora sepultado por camadas de obras
de arquitetura posterior. Os espanhóis haviam conservado
as soberbas fundações incaicas e as partes baixas de suas paredes
fabulosamente robustas e sobre elas erigido sua própria grandiosa
catedral colonial.
Cruzando a entrada principal da catedral, lembrei-me de que o templo
incaico que ali existira fora recoberto por mais de 700 chapas de ouro
puro (cada chapa pesava dois quilos) e que seu espaçoso pátio
contara com "milharais" de imitação, cujas espigas tinham também
grãos de ouro. Não pude deixar de me lembrar do Templo de Salomão
na distante Jerusalém, que a lenda diz ter sido também adornado com
chapas de ouro e um pomar maravilhoso de árvores também de ouro.
Terremotos em 1650 e, mais uma vez, em 1950 tinham derrubado
quase por completo a Catedral deSanto Domingo, que ocupava o
local onde antes existira o templo de Viracocha, e fora necessário
reconstruí-Ia em ambas as ocasiões. As fundações e as paredes
inferiores, de construção incaica, haviam resistido a ambas as
calamidades graças ao projeto característico usado, que empregava
um engenhoso sistema de blocos poligonais interligados. Esses
blocos, e a disposição geral do local, eram praticamente tudo que
restava da estrutura original, à parte uma plataforma octogonal de
pedra cinzenta, no centro do vasto pátio retangular, que fora em
priscas eras revestido com 55kg de ouro. De cada lado do pátio,
abriam-se antecâmaras, pertencentes também ao templo, ostentando
refinados aspectos arquitetônicos, tais como tetos que se afilavam
para cima e nichos maravilhosamente lavrados e cortados em uma
única peça de granito.
Demos um passeio pelas ruas estreitas e lajeadas de Cuzco. Olhando
em volta, dei-me conta de que não era apenas a catedral que refletia a
prepotência espanhola sobre uma cultura mais antiga: a cidade toda
parecia ligeiramente esquizofrênica. Casas e palácios coloniais,
espaçosos, em tons pastel, avarandados, erguiam-se altos em volta,
mas quase todos assentados sobre fundações incaicas ou
incorporando estruturas completas da mesma origem, do tipo usado
em Coricancha. Em um dos becos, conhecido como Hatunrumiyoc,
parei para examinar um complicado quebra-cabeça sob a forma de
uma muralha construída com incontáveis blocos de pedra, todos
perfeitamente encaixados, todos de diferentes tamanhos e formas,
interligando-se em um desnorteante conjunto de ângulos. O corte dos
blocos individuais e o arranjo a eles dado na complicada estrutura só
poderiam ter sido realizados por mestres-artesãos com alto grau de
habilidade, tendo por trás incontáveis séculos de experimentação
arquitetônica. Em um único bloco, contei doze ângulos e lados em um
único plano e não consegui introduzir nem a ponta de uma folha de
papel fino nas juntas que o ligavam aos blocos em volta.
O Estrangeiro Barbudo
Parecia que, em princípios do século XVI, antes que os espanhóis
começassem a demolir a todo vapor a cultura peruana, uma estátua
de Viracocha estivera à vista no Santuário de Coricancha. Segundo
um texto da época, Relacion anonyma de los costumbres antiquos de
los naturales del Piru, o ídolo era uma estátua de mármore do deus -
uma estátua descrita assim: "nos cabelos, cor, traços fisionômicos,
traje e sandálias exatamente como pintores representavam o apóstolo
São Bartolomeu". Outras descrições apresentavam Viracocha como
parecido com São Tomé. Examinei certo número de manuscritos
eclesiásticos ilustrados, nos quais apareciam os dois santos. Ambos
eram rotineiramente descritos como homens brancos magros,
barbudos, já além da meia-idade, usando sandálias e casacos
compridos e ondulantes. Conforme veremos adiante, os registros
remanescentes confirmam que esta era exatamente a aparência
atribuída a Viracocha pelos que o adoravam. Quem quer que fosse,
portanto, ele não poderia ter sido um índio americano, que tem a pele
relativamente escura e pouca barba. A frondosa barba de Viracocha e
o rosto claro davam-lhe o aspecto de um tipo caucasiano.
No século XVI, os incas pensavam da mesma forma. Na verdade, as
lendas e crenças religiosas haviam-nos convencido tanto da aparência
do deus que, no início, eles confundiram os espanhóis brancos e
barbudos que chegavam às suas praias com a volta de Viracocha e
seus semideuses, fato este profetizado muito tempo antes e que,
segundo todas as lendas, ele prometera fazer. Essa feliz coincidência
deu aos conquistadores de Pizarro a vantagem estratégica e
psicológica decisiva de que precisavam para vencer as forças incas
numericamente superiores nas batalhas que se seguiram.
Quem havia fornecido o modelo para os Viracochas?
CAPÍTULO 6
Ele Veio em uma Época de Caos
Através de todas as lendas antigas dos povos andinos perpassa
misteriosa uma figura alta, barbuda, de pele clara, envolvida em um
manto de segredo. Embora, em muitos diferentes lugares, fosse
conhecido por diferentes nomes, ele era sempre reconhecivelmente a
mesma figura: Viracocha, Espuma do Mar, mestre da ciência e da
magia que manejava armas terríveis e que chegara em uma época de
caos para restabelecer a ordem no mundo.
A mesma história básica era contada com numerosas variantes por
todos os povos da região andina. Tudo começou com a descrição
vívida de um período apavorante, quando a terra fora inundada por
grandes enchentes e mergulhara na escuridão com o
desaparecimento do sol. A sociedade caiu na maior desordem e o
povo enfrentou um sem-número de dificuldades. Mas então
subitamente apareceu, vindo do sul, um homem branco de grande
estatura e postura autoritária. Esse homem tinha tal poder que
transformou colinas em vales e de vales criou grandes colinas e fez
com que água jorrasse de pedra viva...
O historiador espanhol antigo que pôs no papel essa tradição explicou
que ela lhe fora contada por índios que conhecera em jornadas pelos
Andes:
E eles ouviram essas histórias de seus pais, que, por seu lado,
tinham-nas recebido através de velhas canções legadas de uma
geração a outra desde tempos muito antigos... Disseram que esse
homem viajou pela rota do altiplano em direção ao norte, fazendo
maravilhas por onde passava e que nunca mais voltaram a vê-Io...
Contaram que, em muitos lugares, ele deu instruções aos homens
sobre como deveriam viver, falando-lhes com grande amor e bondade
e aconselhando-os a ser bons e não causar danos ou mal uns aos
outros, mas que se amassem e que demonstrassem compaixão para
com todos os seres. Na maioria dos locais, deram-lhe o nome de Ticci
Viracocha...
Entre outros nomes pelos quais era conhecida a mesma figura
contavam-se os de Huaracocha, Con,Con Ticci ou Kon Tiki, Thunupa,
Taapac, Tupaca e Illa. Ele era cientista, arquiteto de superior
qualidade, escultor e engenheiro: "Ele mandou que terraços e campos
fossem construídos em encostas íngremes de ravinas e levantados
muros para sustentá-Ios. E criou também canais de irrigação para que
a água corresse... e viajou em várias direções, organizando muitas
coisas”.
Viracocha foi ainda mestre e curador e ajudava os necessitados.
Dizia-se que, "por onde ele passava, curava todos os que estavam
doentes e restituía a vista aos cegos". Esse samaritano bondoso,
civilizador, "super-humano", porém, tinha um outro lado. Se sua vida
fosse ameaçada, como parece que aconteceu em várias ocasiões, ele
tinha à disposição a arma do fogo dos céus:
Realizando grandes milagres com suas palavras, ele chegou ao
distrito de Canas e aí, perto da aldeia conhecida como Cacha (...) o
povo se levantou contra ele e ameaçou apedrejá-lo. Viram-no cair de
joelhos e erguer as mãos para o céu, como se implorando ajuda
naquele perigo. Os índios contaramque, em seguida, viram fogo
descer do céu, que parecia cercá-Ios por todos os lados.
Aterrorizados, aproximaram-se dele, que antes tencionavam matar, e
imploraram que os perdoasse.
Logo em seguida, viram que o fogo se apagava à sua ordem, embora
pedras tivessem sido consumidas de tal maneira pelo fogo que
grandes blocos podiam ser levantados com a mão, como se fossem
de rolha. Eles contaram ainda que, deixando o local onde havia
acontecido tudo isso, ele se dirigiu para a costa e lá, puxando o manto
para o corpo, entrou nas ondas e não foi mais visto. E quando ele se
foi, deram-lhe o nome de Viracocha, que significa "Espuma do Mar".
As lendas eram unânimes na descrição física de Viracocha. No Suma
y Narracion de los Incas, por exemplo, Juan de Betanzos, um
historiador espanhol do século XVI, afirma que, de acordo com os
índios, ele fora "um homem barbudo de alta estatura, que vestia um
manto branco que lhe chegava aos pés e que usava amarrado com
um cinto".
Outras descrições, recolhidas entre povos andinos muito diferentes e
muito separados entre si, aparentemente identificavam o mesmo
indivíduo enigmático. De acordo com uma dessas fontes, ele era:
Um homem barbudo de estatura mediana, vestido com um manto bem
longo... Já na meia-idade, tinha cabelos grisalhos e era magro.
Andava com um cajado e dirigia-se em termos afetuosos aos nativos,
chamando-os de filhos e filhas. Viajando pela terra, fazia milagres.
Curava os doentes ao tocá-los. Falava todas as línguas melhor do que
os nativos. Os índios chamavam-no de Thunupa ou Tarpaca,
Viracocha-rapacha ou Pachacan...
Outra lenda dizia que Thunupa- Viracocha fora um "homem branco de
grande estatura, cujo ar e porte despertavam grande respeito e
veneração". Em outra, era descrito como "um homem branco de
aparência augusta, olhos azuis, barbudo, sem adereço na cabeça e
que usava uma cusma, uma blusa ou camisa sem mangas que lhe
chegava aos joelhos". Em ainda outra, que aparentemente se referia a
outra fase da vida de Viracocha, ele era reverenciado como "sábio
conselheiro em assuntos de Estado" e descrito como "um velho, com
barba e cabelos longos, que usava uma comprida túnica".
Missão Civilizatória
Acima de tudo, Viracocha era lembrado nas lendas como um mestre.
Antes de sua vinda, diziam as histórias, "os homens viviam em um
estado de desordem, muitos andavam nus como selvagens, não
tinham casas ou outras habitações que não cavernas e delas saíam
para coletar nos campos o que podiam para comer".
Atribuía-se a Viracocha ter mudado tudo isso e dado início a uma
longa era de ouro, que gerações posteriores mencionavam com
nostalgia. Todas as lendas concordavam, além disso, que ele realizara
sua missão civilizatória com grandebondade e, tanto quanto possível,
evitara o uso da força: instruções cuidadosas e exemplo pessoal
haviam sido os métodos principais por ele usados para ensinar ao
povo as técnicas e conhecimentos necessários a uma vida civilizada e
produtiva. Em especial, era lembrado por ter trazido ao Peru
conhecimentos tão variados como os de medicina, metalurgia,
agricultura, criação de animais, a escrita (que, diziam os incas, fora
ensinada por Viracocha, mas posteriormente esquecida) e
conhecimentos sofisticados de princípios da engenharia e arquitetura.
Eu já estava impressionado com a qualidade do trabalho de cantaria
dos incas em Cuzco. Continuando minhas pesquisas na velha cidade,
contudo, fiquei surpreso ao descobrir que o citado trabalho de
construção dos incas não podia ser atribuído, com qualquer grau de
certeza arqueológica, apenas a eles. Era bem verdade que haviam
sido mestres na manipulação de pedras e que numerosos
monumentos em Cuzco foram, sem a menor dúvida, trabalhos deles.
Parecia, no entanto, que algumas das estruturas mais notáveis que
lhes eram rotineiramente atribuídas poderiam ter sido erigidas por
civilizações mais antigas. A prova sugeria que os incas haviam muitas
vezes trabalhado como restauradores dessas estruturas, e não como
seus construtores originais.
O mesmo parecia acontecer com o altamente desenvolvido sistema de
estradas, que ligava partes muito distantes do império. O leitor deve
lembrar-se de que essas obras tinham a forma de estradas paralelas,
que corriam no sentido norte-sul, uma delas ao longo da costa e a
outra cruzando os Andes. No total, mais de 24.000km de estradas
pavimentadas estiveram em uso regular e eficiente ao tempo da
conquista espanhola. Eu havia feito a suposição de que os incas
tinham sido responsáveis pela construção dessa rede viária. Nesse
momento, descobri que era muito mais provável que constituíssem um
sistema herdado. O trabalho que coubera aos incas fora o de
restaurar, manter e unificar a rede pré-existente. Na verdade, embora
este fato não fosse admitido com freqüência, nenhum especialista
podia estimar, com segurança, que idade tinham essas estradas
incríveis e quem as havia construído.
O mistério tornava-se ainda mais profundo dadas as tradições locais,
que afirmavam não só que o sistema de estradas e a arquitetura
sofisticada já "eram antigos no tempo dos incas", mas também que
ambos "eram obra de homens brancos, ruivos" que haviam vivido
milhares de anos antes”.
Uma das lendas descrevia Viracocha como acompanhado de
"mensageiros" de dois tipos, "soldados fiéis" (huaminca) e
"refulgentes" (hayhuaypanti), a quem cabia o papel de levar a
mensagem de seu senhor "a todas as partes do mundo".
Em outras lendas, encontramos frases como "Con Ticci voltou (...)
com certo número de atendentes", "Con Ticci, em seguida, convocou
seus seguidores, que eram chamados de viracochas", "Con Ticci
ordenou a todos, menos a dois viracochas, que seguissem para o
leste...". "De um lago saiu um Senhor chamado Con Ticci Viracocha,
trazendo consigo certo número de homens...". "E, assim, os
viracochas seguiram para os diferentes distritos que Viracocha lhes
designara...".
Obra de Demônios?
A antiga cidadela de Sacsayhuamán situa-se a pouca distância ao
norte de Cuzco. Chegamos ao local em fins da tarde, sob um céu
quase encoberto por pesadas nuvens cor de prata suja. Uma brisa fria
soprava pela tundra de alta altitude, enquanto eu subia as escadarias,
passava por portais com dintéis, construídos para gigantes, e
caminhava ao longo de fileiras gigantescas de muralhas em forma de
Ziguezague.
Espichei o pescoço e levantei a vista para a grande pedra de granito
por baixo da qual passava meu caminho. Medindo 7 m de altura por
2m de largura e pesando muito mais de 100t, era obra de homem, não
da natureza. Fora cortada, modelada e transformada em uma
harmonia sinfônica de ângulos, manipulada com visível facilidade
(como se feita de cera ou massa) e se erguia sobre uma das
extremidades em uma parede formada de outros enormes blocos
poligonais, alguns deles sobre a primeira pedra, outros embaixo,
outros de lado, e todos eles em uma justaposição perfeitamente
equilibrada e organizada.
Uma vez que uma dessas peças espantosas de pedra
cuidadosamente talhada tinha uma altura de 8,5m e cálculos falavam
em um peso de 361 t (aproximadamente, o equivalente a quinhentos
automóveis de grande porte), achei que grande número de perguntas
de importância fundamental clamava por resposta.
De que maneira haviam conseguido os incas, ou seus predecessores,
trabalhar pedras em uma escala tão gargantuesca? Como haviam
cortado e modelado com tal precisão esses calhaus ciclópicos? De
que modo os haviam transportado por dezenas de quilômetros desde
pedreiras distantes? Através de que meios haviam-nas usado para
construir muralhas, movimentando blocos isolados e erguendo-os,
com aparente facilidade, muito altos acima do solo? Supostamente,
esses povos não conheciam nem a roda, quanto mais maquinaria
capaz de erguer e manipular dezenas de blocos de formas diferentes
de 100t de peso e colocá-Ios em quebra-cabeças tridimensionais.
Eu sabia que os historiadores do início do período colonial haviam
ficado tão perplexos como eu com o que tinham visto. O respeitado
Garcilaso de Ia Vega, por exemplo, que visitou o Peru no século XVI,
escrevera, estarrecido, sobre a fortaleza de Sacsayhuamán:
Suas proporções são inconcebíveis para os que não a viram com seus
próprios olhos. E quando a olhamos de perto e a examinamos
atentamente, ela parece ser algo tão extraordinário que dá a
impressão de que algum mágico presidiu à sua construção, que deve
ter sido obra de demônios, e não de seres humanos. É construída de
pedras tão grandes, e em tal número, que nos perguntamos no
mesmo instante como índios poderiam extraí-Ias de pedreiras,
transportá-Ias... e cortá-Ias e colocá-Ias umas sobre as outras com tal
precisão. Isso porque eles não dispunham nem de ferro nem de aço
com que pudessem perfurar a rocha e cortar e polir as pedras. Nem
possuíam carroças nem bois para transportá-Ias e, na verdade, não
existiam nem carroças nem bois em todo o mundo que tivessem sido
suficientes para realizar esse trabalho, tão enormes eram essas
pedras e tão íngremes as trilhas de montanhas através das quais
foram levadas...
Garcilaso escreveu também sobre algo interessante. No Royal
Commentaries of the Incas, ele faz um relato do modo como, nos
tempos históricos, um rei inca tentou imitar as realizações de seus
predecessores, que haviam construído Sacsayhuamán. A tentativa
implicava trazer um único bloco imenso de uma distância de vários
quilômetros para aumentar as fortificações: "Esse calhau foi arrastado
pela montanha por mais de 10.000 índios. subindo e descendo colinas
muito íngremes (...) Em certo ponto, a pedra escapou das mãos que a
seguravam, rolou por um precipício e esmagou mais de 3.000
homens". Em todas as histórias que examinei, este foi o único relato
que descrevia os incas como realmente construindo, ou tentando
construir, alguma coisa com blocos enormes semelhantes aos que
haviam sido usados em Sacsayhuamán. O relato sugere que eles não
possuíam experiência das técnicasenvolvidas e que a tentativa
terminou em tragédia.
Esse fato, claro, nada provava por si mesmo. A história de Garcilaso,
porém, aumentou minhas dúvidas sobre as grandes fortificações que
se alteavam muito acima de mim. Olhando para elas, achei que
podiam, na verdade, ter sido construídas antes da era dos incas e por
uma raça infinitamente mais antiga e tecnicamente mais avançada.
Não pela primeira vez, lembrei-me de como era difícil para
arqueólogos fornecer datas exatas para obras de construção, como
estradas e muralhas de pedra, que não continham compostos
orgânicos. O teste com o rádio-carbono era inútil nessas
circunstâncias, como também a termoluminescência. E embora novos
testes promissores, como a datação de rochas pelo Cloro-36,
estivessem sendo desenvolvidos na ocasião, seu emprego ainda era
coisa para o futuro. Dependendo de progressos ulteriores neste último
campo, por conseguinte, a cronologia dos "especialistas" era ainda, na
maior parte, resultado de formulação de palpites e pressupostos
subjetivos. Uma vez que se sabia que os incas haviam usado
extensivamente a fortaleza de Sacsayhuamán, eu podia facilmente
compreender o motivo da suposição de que eles a tinham construido.
Os incas, com igual probabilidade, poderiam muito bem ter encontrado
as estruturas já de pé e as ocupado.
Se assim, quem tinham sido os construtores originais?
Os Viracochas, diziam os mitos antigos, os estranhos barbudos, de
pele branca, os "refulgentes", os "soldados fiéis".
Enquanto viajávamos, continuei a estudar os relatos de aventureiros
espanhóis e de etnógrafos dos séculos XVI e XVII, que haviam
registrado fielmente as tradições antigas dos índios peruanos antes do
contato com os europeus. O fato particularmente notável nessas
tradições era a ênfase repetida em que a chegada dos Viracochas
estivera ligada a um dilúvio terrível, que havia varrido a terra e
destruido a maior parte da humanidade.
CAPÍTULO 7
Houve, Então, Gigantes?
Pouco depois das 6h da manhã o pequeno trem começou a mover-se
com um tranco e iniciou a lenta subida pelas íngremes encostas do
vale de Cuzco. Os trilhos, de bitola estreita, haviam sido assentados
em uma disposição em forma de Z. Seguimos resfolegando pela linha
horizontal mais baixa do primeiro Z, mudamos de marcha e voltamos
em um curso oblíquo, mudamos de marcha novamente e seguimos
para a frente ao longo da linha superior - e assim por diante, com
numerosas paradas e recomeços, seguindo uma rota que por fim nos
levou para um ponto muito acima da antiga cidade. As muralhas incas
e os palácios coloniais, as ruas estreitas, a catedral de Santo
Domingo, vista como que agachada sobre as ruínas do templo de
Viracocha, tudo aquilo parecia espectral e surrealista à luz pérola-acinzentada do céu matutino. Um rosário de lâmpadas elétricas,
lembrando contos de fada, ainda decorava as ruas, um nevoeiro fino
arrastava-se pelo chão e a fumaça de fogões domésticos subia de
chaminés e se espalhava sobre os telhados de um número incontável
de pequeninas casas.
No fim, o trem deu as costas a Cuzco e continuamos durante algum
tempo em linha reta na direção norte-oeste, a caminho de nosso
destino: Machu Picchu, a cidade perdida dos incas, a cerca de três
horas e 130km à frente. Minha intenção fora ler durante a viagem,
mas, embalado pelo movimento do vagão, em vez disso, ferrei no
sono. Acordei cinqüenta minutos mais tarde e descobri que estava
passando através de uma pintura. O primeiro plano, brilhantemente
iluminado, consistia de prados verdes planos, borrifados de pequenos
trechos de orvalho que derretia, distribuídos de cada lado de um
riacho que cortava um longo e largo vale.
No centro da paisagem, que era pontilhada de arbustos, vi um largo
campo, no qual pastavam vacas malhadas de preto e branco. Próximo
a elas, distingui um povoado e, na frente das casas, índios quíchuas,
de baixa estatura, pele escura, vestidos com ponchos, boinas tipo
ninja e coloridos chapéus de lã. A distância, encostas cobertas com
figueiras e exóticos eucaliptos. Meus olhos seguiram os contornos de
um par de altas montanhas verdes, que, em certa altura, se
separavam para revelar trechos deplatôs que se desdobravam, ainda
mais altos. Atrás deles, alteava-se um horizonte distante, dominado
por uma cordilheira de picos recortados radiantes e coroados de neve.
Incluindo Gigantes no Elenco
Tomado de compreensível relutância, voltei finalmente à leitura
interrompida. Queria examinar com mais atenção algumas das
curiosas ligações que eu pensava ter identificado e que conectava o
aparecimento súbito de Viracocha com as lendas sobre o dilúvio, dos
incas e de outros povos andinos.
Tinha diante dos olhos um trecho do Natural and Moral History of the
Incas, de Frei José de Acosta, no qual o culto sacerdote registrara "o
que os próprios índios pensam de suas origens":
Eles fazem referências abundantes a um dilúvio que aconteceu em
suas terras (...) Dizem que todos os homens morreram afogados no
dilúvio, e afirmam que, do lago Titicaca, saiu um Viracocha, que
permaneceu em Tiahuanaco, onde hoje podem ser vistas ruínas de
antigos e estranhos edifícios, e daí ele veio para Cuzco, e assim a
humanidade começou a multiplicar-se...
Anotando mentalmente para me informar mais sobre o lago Titicaca e
a misteriosa Tiahuanaco, li o trecho seguinte, que resumia a lenda da
área de Cuzco:
Por algum crime não mencionado, o povo que vivia nos tempos mais
antigos foi destruído pelo criador (...) em um dilúvio. Após o dilúvio, o
criador apareceu em forma humana, vindo do lago Titicaca. Em
seguida, ele criou o sol, a lua e as estrelas. Depois disso, renovou a
população humana da terra...
Em outro mito:
O grande Deus Criador, Viracocha, resolveu fazer um mundo onde o
homem pudesse viver. Em primeiro lugar, criou a terra e o céu. Em
seguida, começou a gerar seres humanos para nele viver, esculpindo
grandes estátuas de gigantes de pedra,às quais em seguida deu vida.
No início, tudo correu bem, mas, após algum tempo, os gigantes
começaram a lutar entre si e recusaram-se a trabalhar. Viracocha
resolveu que tinha que destruí-Ios. Transformou alguns novamente em
pedra (...) e destruiu o resto com uma grande inundação.
Idéias muito semelhantes são, claro, encontradas em outras fontes
inteiramente diferentes e sem conexão com esta, tal como o Velho
Testamento judaico. No Capítulo 6 do Livro do Gênesis, por exemplo,
que descreve o desagrado do Deus hebraico com sua criação e a
decisão de destruí-Ia, um dos poucos trechos descritivos da era
anterior ao dilúvio me deixava muito intrigado. De acordo com a
linguagem enigmática do versículo: "Ora, naquele tempo havia
gigantes na terra...” Poderiam os "gigantes" sepultados nas areias
bíblicas do Oriente Médio ter estado ligados de maneira desconhecida
aos "gigantes" costurados no tecido das lendas americanas nativas
pré-colombianas? Tornando o mistério ainda mais insondável, havia o
fato de que as fontes judaica e peruana continuavam, com muitos
detalhes adicionais comuns, a descrever a irada divindade que
desencadeou o dilúvio catastrófico sobre o mundo mau e
desobediente.
Na página seguinte do maço de documentos que eu reunira havia a
descrição abaixo do dilúvio, transcrita por um certo padre Molina em
seu Relacion de las fabulas y ritos de los Yncas:
Na vida de Manco Capac, o primeiro inca, e imitando o qual eles
começaram a bravatear que eram filhos do sol, e do qual herdaram a
adoração idólatra do sol, eles receberam uma descrição detalhada do
dilúvio. Dizem que nele pereceram todas as raças de homens e coisas
criadas, à medida que as águas subiam acima dos mais altos picos
das montanhas do mundo. Nenhum ser vivo sobreviveu, exceto um
homem e uma mulher, que permaneceram em uma caixa e, quando
as águas desceram, o vento levou-os (...) para Tiahuanaco [onde] o
criador começou a criar os homens e as nações que vivem naquela
região...
Garcilaso de Ia Vega, filho de um nobre espanhol e de uma mulher
inca de sangue real, já era conhecido meu através de seu Royal
Commentaries of the Incas. Ele era julgado um dos historiadores mais
idôneos das tradições do povo de sua mãe e realizara esse trabalho
no século XVI, pouco depois da conquista, época em que essas
tradições não haviam sido ainda contaminadas por influências
estrangeiras. Ele, igualmente, confirmou o que obviamente tinha sido
uma crença universal e profundamente gravada na mente do povo:
“Após terem descido as águas do dilúvio, um certo homem apareceu
nas terras de Tiahuanaco..."
Esse homem fora Viracocha. Envolvido em seu casaco, era forte e de
"semblante augusto" e caminhava com confiança inabalável através
das terras mais traiçoeiras. Realizava curas milagrosas e podia
chamar o fogo dos céus. Para os índios, esse fato tinha de significar
que ele se materializara vindo do nada.
Tradições Antigas
Nesse momento, viajávamos há mais de duas horas para Machu
Picchu e o panorama mudara. Enormes montanhas pretas, sobre as
quais nenhum traço de neve permanecera para refletir a luz do sol,
alteavam-se sombrias acima de nós e parecia que estávamos
correndo através de um desfiladeiro rochoso, ao fim de um vale
estreito repleto de sombras escuras. O ar estava frio e, também, os
meus pés. Arrepiei-me todo e voltei a ler.
Um fato era óbvio em meio à confusa teia de lendas que eu
examinava, lendas que se suplementavam entre si, mas que
ocasionalmente se contradiziam. Todos os estudiosos concordavam
em que os incas haviam tomado de empréstimo, absorvido e
transmitido a seus herdeiros as tradições de muitos dos diferentes
povos civilizados sobre os quais haviam estendido seu controle
durante os séculos de expansão do vasto império. Nesse sentido,
qualquer que seja o resultado do debate histórico sobre a antiguidade
dos próprios incas, ninguém poderá contestar-lhes seriamente o papel
de disseminadores de antigos sistemas de crenças de todas as
grandes culturas arcaicas - costeiras e do altiplano, conhecidas e
desconhecidas - que os havia precedido nessa terra.
E quem poderia dizer exatamente que civilizações teriam existido no
Peru nos inexplorados períodos do passado? Todos os anos,
arquéologos anunciam novos achados, que empurram os horizontes
para uma época ainda mais remota no tempo. Neste caso, por que
não poderiam algum dia descobrir prova da penetração nos Andes, na
remota antiguidade, de uma raça de civilizadores que veio do ultramar
e que foi embora após concluir seu trabalho? Isso era o que me
parecia que as lendas sugeriam, lendas que, acima de tudo e com a
maior clareza, haviam imortalizado a memória do homem/deus
Viracocha, percorrendo em passos largos as gargantas varridas pelos
ventos dos Andes e fazendo milagres por onde quer que andasse:
O próprio Viracocha, com seus dois ajudantes, viajou para o norte (...)
Ele mesmo subiu a cordillera, umajudante desceu a costa e o outro
chegou até as bordas das florestas do leste. (...) O Criador prosseguiu
em seu caminho até Urcos, nas proximidades de Cuzco, e daí
continuou para o norte e o Equador. Nessa região, na província
costeira de Manta, ele se despediu de seu povo e, caminhando sobre
as águas, desapareceu no outro lado do oceano.
Havia sempre esse pungente momento de adeus ao fim de todas as
histórias populares, que tinha comopersonagem principal o notável
estrangeiro cujo nome signica “Espuma do Mar”:
Viracocha continuou em seu caminho, criando as raças de homens.
(...) Ao chegar ao distrito de Puerto Viejo, a ele se reuniram os
ajudantes que enviara antes em viagem e, quando se reuniram, ele
entrou no mar em companhia deles, e o povo do local disse que ele e
seus companheiros andavam sobre a água com tanta facilidade como
se andassem sobre terra.
Sempre esse pungente adeus... e, não raro, com uma sugestão de
ciência ou magia.
Cápsula do Tempo
Do lado de fora da janela do trem, coisas estavam acontecendo. À
esquerda, engrossado com água escura, vi o Urubamba, um tributário
do Amazonas e rio sagrado para os incas. A temperatura do ar subira
claramente; havíamos descido para umvale relativamente baixo, com
um microclima tropical próprio. As encostas de montanha que subiam
de cada lado dos trilhos estavam cobertas por florestas verdes
fechadas, e lembrei-me de que esta era, realmente, uma região de
obstáculos vastos e virtualmente insuperáveis. Quem quer que tivesse
se aventurado por todo este caminho, até o centro do nada, para
construir Machu Picchu, devia ter um motivo muito forte para assim
proceder.
Qualquer que tenha sido a razão, a escolha de uma localização tão
remota teve pelo menos um efeito secundário benéfico: Machu Picchu
jamais foi descoberta pelos conquistadores e pelos frades em seus
primeiros dias de zelo destrutivo.Na verdade, só em 1911, quando a
herança fabulosa das raças mais antigas começou a ser tratada com
maior respeito, é que um jovem explorador americano, Hiram
Bingham, desvendou Machu Picchu para o mundo. Imediatamente
se compreendeu que esse local incrível abria uma janela excepcional
para a civilização pré-colombiana. Emconseqüência, as ruínas foram
protegidas contra saqueadores e caçadores de suvenires e foi assim
preservado um pedaço importante do passado enigmático, que
encheria de espanto futuras gerações.
Tendo passado por uma pequenina cidade chamada Agua Caliente
(Água Quente), onde uns poucos restaurantes de terceira classe e
bares ordinários como que olhavam debochados, de ambos os lados
dos trilhos, para os viajantes, chegamos à estação de Puentas Ruinas,
em Machu Picchu, às 9h10m da manhã. Daí, uma viagem de meia
hora de ônibus por uma estrada de terra cheia de voltas e por uma
íngreme e assustadora trilha de montanha levou-nos à própria Machu
Picchu, às ruínas, e a um hotel não muito limpo. Éramos os únicos
hóspedes. Embora anos tivessem se passado desde que o movimento
guerrilheiro local bombardeara pela última vez o trem de Machu
Picchu, poucos eram os estrangeiros que ainda se sentiam
interessados em conhecer essas paragens.
Machu Picchu Sonhando
Eram 2h da tarde. Eu me encontrava em um ponto elevado na ponta
sul do local. Diante de meus olhos, as ruínas estendiam-se na direção
norte, em terraços cobertos de líquens. Grossas nuvens formavam
anéis em torno dos picos das montanhas, mas o sol ainda irrompia
ocasionalmente aqui e ali.
Bem abaixo no vale, o rio sagrado enroscava-se em uma curva
fechada em torno da formação central onde se ergue Machu Picchu,
como um fosso em volta de um castelo gigantesco. Dessa altura, o rio
parecia de um verde profundo, refletindo o verdor das encostas
íngremes da selva. Mas havia também trechos de água clara e
lampejos deslumbrantes de luz.
Olhei para as ruínas, que se estendiam na direção do pico mais alto.
O nome do pico é Huana Picchu e constitui presença obrigatória nos
pôsteres de todas as agências de viagem que mostram o local. Para
meu espanto, notei nesse momento que, por uma centena de metros,
mais ou menos, abaixo do pico, a montanha fora cortada em terraços
e esculpida. Alguém estivera lá em cima e raspara com todo cuidado
os penhascos quase verticais e os transformara em graciosos jardins
suspensos que, em tempos imemoriais, talvez tivessem sido plantados
com flores de cores vivas.
Pareceu-me que todo aquele sítio, juntamente com a moldura que o
cercava, era uma obra monumental de escultura, composta em parte
de montanhas, em parte de rochas, em parte de árvores, em Parte de
pedras - e também em parte de água. Era um local arrebatadoramente
belo e, sem a menor dúvida, um dos mais belos que jamais conheci.
A despeito de seu brilho luminoso, porém, achei que estava olhando
para uma cidade de fantasmas lá embaixo. Lembrava o naufrágio do
Marie Celeste, abandonado e insone. As casas haviam sido dispostas
em longos terraços, todas minúsculas, com um único cômodo, dando
diretamente para a rua estreita, em uma arquitetura sólida e funcional,
mas de modo nenhum refinada. Em contraste, certas áreas
cerimoniais foram construídas segundo um padrão infinitamente
superior e incorporavam blocos gigantescos, semelhantes aos que eu
vira em Sacsayhuamán. Um monólito em forma de polígono fora
lixado até atingir uma perfeição sedosa e tinha 3,65m de comprimento
por 1,5m metro de largura e 1,5m de espessura e não podia ter
pesado menos de 200 toneladas. De que maneira os antigos
construtores haviam conseguido içar a pedra até aquele local?
E havia também dezenas de outros, semelhantes, todos eles
organizados segundo o modelo de paredes com a forma conhecida de
quebra-cabeças, com ângulos que se encaixavam. Em um único
bloco, consegui contar 33 ângulos, todos eles engatando-se de forma
perfeita, com um ângulo correspondente no bloco vizinho. Havia
polígonos maciços e pedras de cantaria perfeitas, com quinas afiadas
como navalhas. E também calhaus naturais, em bruto, integrados no
desenho geral em certo número depontos. E não faltavam também
dispositivos estranhos, como o Intihuatana, o "posto de amarração do
sol". Esse artefato notável consiste de um bloco de rocha cinzento e
cristalino, cortado em uma forma geométrica complexa de curvas e
ângulos, nichos escavados e suportes externos, tendo no centro um
curto espigão vertical.
Quebra-Cabeça
Qual a antiguidade de Machu Picchu? O consenso nos meios
universitários é que a cidade não poderia ter sido construída muito
antes do século XV d.C. Opiniões contrárias, no entanto, têm sido
manifestadas ocasionalmente por certo número de estudiosos
respeitáveis, embora mais ousados. Na década de 1930, por exemplo,
Rolf Muller, professor de Astronomia da Universidade de Potsdam,
encontrou indícios convincentes que sugeriam que os aspectos mais
importantes de Machu Picchu revelavam alinhamentos astronômicos
importantes. A vista desses alinhamentos e com emprego de
computações matemáticas detalhadas sobre as posições das estrelas
no milênio anterior (que gradualmente rebaixam as épocas como
resultado de um fenômeno conhecido como precessão dos
equinócios), Muller concluiu que a disposição original do local só
poderia ter sido realizada na "era de 4000 a.C. a 2000 a.C".
Em termos de história ortodoxa, essa conclusão era uma heresia de
audaciosas proporções. Se Muller tinha razão, Machu Picchu não
tinha apenas uns 500 anos de idade,mas poderia ter nada menos do
que 6.000. Esse número tornaria a cidade muito mais antiga do que a
Grande Pirâmide do Egito (supondo, claro, que aceitemos a datação
ortodoxa da Grande Pirâmide como sendo do ano 2500 a.C.).
Mas houve vozes discordantes no tocante à antiguidade de Machu
Picchu e a maioria, como a de Muller, estava convencida de que
partes do local eram milhares de anos mais antigas do que a data
preferida pelos historiadores ortodoxos.
Tal como os grandes blocos poligonais que constituíam as muralhas,
esta era uma idéia que dava a impressão de que poderia, talvez,
encaixar-se em ourras peças do quebra-cabeça - neste caso, o
quebra-cabeça de um passado que não fazia mais qualquer sentido.
Viracocha era parte do mesmo quebra-cabeça. Todas as lendas
diziam que ele tivera sua capital em Tiahuanaco. As ruínas dessa
grande e antiga cidade situavam-no no ourro lado da fronteira, na
Bolívia, em uma área conhecida como Collao, a 32km do lago
Titicaca.
Poderíamos lá chegar, calculei, em uns dois dias, passando por Lima
e La Paz.
CAPÍTULO 8
O Lago no Topo do Mundo
La Paz, a capital da Bolívia, situada a mais de 3.200m acima do nível
do mar, aninha-se no fundo, de configuração irregular, de um
espetacular buraco no chão. Essa ravina vertical, de milhares de
metros de profundidade, foi cortada em eras primevas por uma
enorme tromba-d'água, que trouxe de cambulhada uma maré de
pedras soltas e cascalho abrasivo.
Contemplada pela natureza com um ambiente apocalíptico desse tipo,
La Paz possui um encanto excepcional, embora um tanto sujo e
malcuidado. Com ruas estreitas, casas de cômodos de paredes
escuras, catedrais imponentes, cinemas espalhafatosos e bares que
vendem hambúrgueres abertos até tarde da noite, a cidade gera uma
atmosfera de intriga peculiar que é esquisitamente embriagante. Andar
por ali é difícil para pedestres, a menos que possuam pulmões
semelhantes a foles, porque toda a zona central foi construída acima e
abaixo de morros extremamente íngremes.
O aeroporto fica a quase 1.500m acima da cidade em si, na borda do
altiplano - as terras altas, onduladas, que constituem o aspecto
topográfico dominante dessa região. Santha e eu chegamos ao
aeroporto depois de meia-noite, em um vôo com atraso procedente de
Lima. No salão de chegada, cheio de correntes de ar, ofereceram-nos
chá de coca em pequenas xícaras de plástico, como profilático contra
a tonteira das alturas. Depois de grande demora e trabalho,
conseguimos tirar a bagagem da alfândega, chamamos um táxi, bem
antigo, de fabricação americana, e seguimos chocalhando e rangendo
para cima e para baixo na direção das luzes amarelas da cidade, bem
abaixo de nós.

Boatos de Cataclismo
Por volta de 4h da tarde seguinte, partimos para o lago Titicaca em um
jipe alugado, lutamos através dos incompreensíveis
congestionamentos permanentes da hora do rush, deixamos em
seguida para trás os arranha-céus e os cortiços e penetramos nos
horizontes claros, desimpedidos, do altiplano.
No início, ainda perto da cidade, o caminho nos levou atavés de uma
zona de subúrbios e favelas enormes, de aspecto sórdido, com
calçadas ocupadas por oficinas de consertos de carros e ferros-velhos. Quanto mais distância cobríamos, afastando-nos de La Paz,
contudo, mais raros se tornavam os povoados, até que cessaram
quase por completo os sinais de habitação humana. As savanas
vazias, destituídas de árvores, ondulantes, eram limitadas à distância
pelos picos cobertos de neve da Cordillera Real, o que criava um
espetáculo inesquecível de beleza e poder natural. Mas nessa zona
percebia-se também uma atmosfera de alguma coisa sobrenatural,
que parecia flutuar acima das nuvens, como um reino encantado.
Embora o destino final da viagem fosse Tiahuanaco, iríamos passar a
noite na cidadezinha de Copacabana, situada em um promontório na
extremidade sul do lago Titicaca. Para chegar ao local, tínhamos que
cruzar em barca de transporte de carros um braço de água no
pequeno lugarejo de Tiquine. Em seguida,caindo já a noite, tomamos
a estrada principal, que nessa altura era pouco mais do que uma trilha
estreita e irregular, subindo e passando por uma série de curvas
fechadas e prosseguindo paralela aos afloramentos da base de uma
montanha. Desse ponto em diante, abria-se um panorama
contrastante: as águas escuras, muito escuras, do lago embaixo
pareciam situar-se à beira de um oceano sem fim, mergulhando em
sombras escuras, embora os picos recortados das montanhas
coroadas de neve à distância ainda estivessem sendo banhadas por
uma luz solar deslumbrante.
Desde o início, o lago Titicaca me pareceu um lugar especial. Eu sabia
que o lago se situava a 3.800m acima do nível do mar, que a fronteira
entre o Peru e a Bolívia lhe cruzava as águas, que tinha uma área de
8.290km2 e se estendia por 222km de comprimento por 115km de
largura. E sabia também que era profundo, atingindo quase 300m em
alguns lugares e que tinha uma história geológica enigmática.
Vejamos alguns de seus mistérios e algumas das soluções que foram
propostas para eles:
1. Embora se situe atualmente a mais de 3.200m acima do nível do
mar, a área em volta do lago está coalhada de milhões e milhões de
conchas marinhas fossilizadas. Esse fato sugere que, em alguma
época, todo o altiplano foi empurrado para cima a partir do nível do
mar, talvez como parte da elevação geral da superfície terrestre que
formou a América do Sul como um todo. No processo, quantidades
enormes de água do mar, juntamente com incontáveis miríades de
criaturas marinhas, foram erguidas e postas entre as montanhas dos
Andes. Acredita-se que esse processo ocorreu a nada menos do que
100 milhões de anos.
2. Paradoxalmente, a despeito da enorme antiguidade do evento, o
lago Titicaca conserva, até os diasatuais, "uma ictiofauna marinha",
ou, em outras palavras, embora nesse momento localizado a centenas
de quilômetros do oceano, seus peixes e crustáceos incluem
numerosos tipos oceânicos (em vez de animais de água doce).
Criaturas surpreendentes trazidas à superfície pelas redes de
pescadores incluem exemplares de Hippocampus (cavalo-marinho).
Além disso, como observou uma autoridade, "as várias espécies de
Allorquestes (hualella inermis etc.) e outros exemplos de fauna
marinha não deixam dúvida de que este lago, em outros períodos, foi
muito mais salgado do que hoje, ou, para ser mais exato, que a água
que o formou era do mar e que foi represada nos Andes quando o
continente emergiu das águas".
3. Mas basta dos eventos que, para começar, talvez tenham criado o
lago Titicaca. Desde sua formação, esse grande "mar mediterrâneo", e
o próprio altiplano, passaram por várias outras mudanças drásticas e
espetaculares. Entre estas, uma das mais notáveis é que o
comprimento do lago parece ter variado imensamente, fato este
indicado pela existência de uma antiga linha terra-água visível em
grande parte do terreno em volta.Estranhamente, essa linha terra-água não é plana, mas se inclina acentuadamente no sentido norte-sul
através de uma grande distância horizontal. No ponto mais meridional
até hoje estudado topograficamente, ela chega até 70m acima do nível
atual do lago. A uns 650 km ao sul, ela está a 65m abaixo do nível
atual do lago. Desta e de provas adicionais, geólogos deduziram que o
altiplano ainda está subindo aos poucos, mas de maneira
desequilibrada, com altitudes maiores na parte norte e menores na
parte sul. Pensam alguns que o processo em ação no local tem menos
a ver com mudanças no nível das próprias águas do Titicaca (embora
tais mudanças certamente tenham ocorrido) do que com mudanças no
nível de todo o terreno onde se situa o lago.
4. Muito mais difícil de explicar nesses termos, contudo, dados os
períodos de tempo supostamente muito longos necessários para que
ocorram transformações geológicas, é a prova irrefutável de que a
cidade de Tiahuanaco foi outrora um porto, completo com grandes
docas, situado exatamente nas margens do lago. O problema é que as
ruínas de Tiahuanaco estão agora encalhadas a 19 km ao sul do lago
e a mais de 30m acima da atual praia. No período transcorrido desde
que foi construída a cidade, portanto, segue-se que uma de
duas coisas devem ter acontecido: ou caiu muito o nível do lago ou
subiu comparativamente o terreno onde está hoje Tiahuanaco.
5. O que quer que tenha acontecido, é óbvio que ocorreram mudanças
físicas maciças e traumáticas. Algumas delas, como a subida do
altiplano à partir do fundo do oceano, certamente ocorreu em idades
geológicas remotas, antes do advento da civilização humana. Outras
não são tão antigas assim e devem ter ocorrido após a construção da
cidade. A dúvida, portanto, é a seguinte: quando foi construída
Tiahuanaco?
A opinião história ortodoxa é que as ruínas não podem datar de muito
antes do ano 500 d.C. Há, contudo, uma cronologia alternativa, que,
embora não aceita pela maioria dos estudiosos, parece mais
congruente com a escala das elevações da superfície, nos tempos
geológicos, que ocorreram nessa região. Com base em cálculos
matemáticos/astronômicos do professor Arthur Posnansky, da
Universidade de La Paz, e do professor Rolf Muller (que contestou a
datação oficial de Machu Picchu), a fase principal da construção de
Tiahuanaco deve ter ocorrido no ano 15000 a.C. Essa cronologia
indica também que a cidade sofreu mais tarde uma destruição imensa,
em uma catástrofe natural fenomenal, por volta do undécimo milênio
a.C. e que daí em diante afastou-se rapidamente das praias do lago.
No Capítulo 11, estudaremos as descobertas de Posnansky e Muller,
resultados estes que sugerem que a grande cidade andina de
Tiahuanaco floresceu durante a última Era Glacial, na meia-noite
escura, sem lua, da pré-história.
CAPÍTULO 9
O Antigo e Futuro Rei
Durante minhas viagens pelos Andes, reli várias vezes uma variante
curiosa da tradição principal do Viracocha. Nessa variante, originária
da área em volta do lago Titicaca conhecida como Collao, o deus
herói-civilizador fora chamado de Thunupa:
Thunupa surgiu no altiplano em tempos antigos, vindo do norte, em
companhia de cinco discípulos. Homem branco de aparência
majestosa, de olhos azuis e barba, ele não bebia, era puritano e fazia
prédicas contra a bebida, a poligamia e a guerra.
Após viajar grandes distâncias através dos Andes, onde fundou um
reino amante da paz e ensinou as artes da civilização, Thunupa foi
atacado e ferido gravemente por um grupo de ciumentos
conspiradores:
Colocaram-lhe o corpo sagrado em um barco de caniços de totora e o
soltaram no lago Titicaca. No lago (...) o barco navegou para longe
com tal velocidade que os que haviam cruelmente tentado matá-Io
foram tomados de grande terror e espanto - porque nesse lago não há
correntes (...) O barco chegou à praia em Cochamarca, onde hoje
existe o rio Desguardero. Diz a tradição índia que o barco bateu na
terra com tanta força que criou o rio Desguardero, que antes disso não
existia. E nas águas assim criadas, o corpo sagrado foi levado por
muitas léguas para a costa marítima, em Arica...
Barcos, Água e Salvação
Há nessa versão curiosos paralelos com a história de Osíris, o antigo
e poderoso deus egípcio da morte e da ressurreição. O relato mais
completo do mito original que descreve essa misteriosa figura coube a
Plutarco e conta que, após trazer as dádivas da civilização ao seu
povo, ensinando-lhe todos os tipos de habilidades úteis, abolindo o
canibalismo e os sacrifícios humanos e lhe dando o primeiro código
legal, Osíris deixou o Egito e viajou pelo mundo para distribuir também
a outras nações os benefícios da civilização. Ele jamais obrigou os
bárbaros que encontrou a aceitar suasleis, preferindo, em vez disso,
conversar com eles e fazer apelos à razão. Está consignado também
que ele lhes passava os ensinamentos através de hinos e canções,
com o acompanhamento de instrumentos musicais.
Em certa ocasião, enquanto se encontrava em viagem, 72 membros
de sua corte, liderados pelo cunhado, Set, conspiraram contra ele. Ao
regressar Osíris, os conspiradores convidaram-no para um banquete,
onde um belíssimo cofre de madeira e ouro foi oferecido como prêmio
a qualquer convidado que nele coubesse perfeitamente. Osíris não
sabia que o cofre fora fabricado exatamente de acordo com as
medidas de seu corpo. Em conseqüência, quando os convidados ali
reunidos tentaram, um após outro, e fracassaram, Osíris deitou-se
confortavelmente dentro do cofre. Mas, antes de ter tempo de
levantar-se, os conspiradores correram para o cofre, fecharam a
tampa com pregos e vedaram mesmo com chumbo derretido as
fissuras na madeira para que não entrasse ar. O cofre foi em seguida
lançado no Nilo. Embora a intenção fosse que o cofre afundasse
rapidamente, na verdade ele flutuou e afastou-se rapidamente,
percorrendo uma grande distância, até chegar à costa.
Nessa altura, a deusa Ísis, esposa de Osíris, resolveu intervir. Usando
de toda magia pela qual era renomada, descobriu o cofre e escondeu-o em lugar secreto. Ainda assim,seu perverso irmão, Set, caçando
nos pântanos, descobriu-o, abriu-o e, em um acesso de loucura
assassina, cortou o cadáver real em 14 partes, que espalhou pela
terra.
Uma vez mais, Ísis partiu para salvar o marido. Construiu um pequeno
bote de junco de papiro, calafetou-o com breu e lançou-se ao Nilo em
busca dos restos mortais do esposo. Ao encontrá-Ios, realizou
poderosos encantamentos para reunir as partes esquartejadas do
corpo e lhe restituir a forma original. Daí em diante, em estado intacto
e perfeito, Osíris passou por um processo de renascimento estelar e
tornou-se o deus dos mortos e rei do mundo suberrâneo - do qual,
segundo a lenda, voltava ocasionalmente à terra disfarçado de mortal.
Embora haja enormes diferenças entre as tradições, é muito estranho
que Osíris, no Egito, e Thunupa-Viracocha, na América do Sul,
tivessem em comum os seguintes pontos:
. Foram grandes civilizadores;
. Foram vítimas de conspirações;
. Foram gravemente feridos;
. Foram postos dentro de um recipiente ou vaso de algum tipo;
. Foram em seguida lançados na água;
. Flutuaram para longe nas águas de um rio
. E chegaram finalmente ao mar.
Deveríamos ignorar esses paralelos, considerando-os como meras
coincidências? Ou poderia haver entre eles alguma conexão
profunda?
Os Barcos de Junco de Suriqui
O ar cortava com um frio alpino. Eu me encontrava sentado na proa
de uma lancha a motor que se deslocava a 20 nós horários pelas
águas geladas do lago Titicaca. O céu azul claro refletia tonalidades
de cores de água-marinha e turquesa da terra distante; o corpo
imenso do lago, brilhando em tons acobreados e prateados, parecia
estender-se à frente por toda eternidade...
Os trechos das lendas que falavam em barcos feitos de junco
precisavam ser estudados com mais atenção, uma vez que eu sabia
que "barcos de caniços de totora” constituíam uma forma tradicional
de transporte no lago. A antiga perícia necessária para construir
barcos desse tipo, porém, desaparecera na maior parte em anos
recentes e, nesse momento, viajávamos para Suriqui, o único local
onde eles ainda eram produzidos da forma correta.
Na ilha de Suriqui, em uma pequena aldeia perto da praia, descobri
dois velhos índios construindo umbarco com molhos de juncos de
totora. A elegante embarcação, que parecia quase completa, media
cerca de 4,5m de comprimento, era larga a meia-nau, mas estreita e
alta na proa e popa.
Sentei-me ali durante algum tempo para observá-Ios. O mais velho
dos dois, coberto por um chapéu de feltro marrom sobre um curioso
gorro de lã com pontas, plantava repetidamente o pé esquerdo
descalço no lado do barco para lhe dar mais apoio, enquanto puxava e
esticava as cordas que mantinham nos devidos lugares os molhos de
juncos. Notei também que, de vez em quando, ele esfregava um
pedaço da corda na testa suada - umedecendo-a dessa maneira para
lhe aumentar a adesão.
O barco, cercado por galinhas que ciscavam por ali e ocasionalmente
investigado por uma alpaca que pastava nas proximidades,
encontrava-se em meio a um lixo de juncos rejeitados, no quintal de
uma casa de fazenda em ruínas. Aquele foi um dos vários barcos que
tive oportunidade de examinar nas horas seguintes e, embora o
ambiente fosse inconfundivelmente andino, repetidamente senti uma
sensação de déjà vu, oriunda de outro tempo e lugar. A razão: os
barcos de totora de Suriqui eram virtualmente idênticos, tanto em
método de construção quanto em aparência final, aos belos botes
feitos com junco de papiro, nos quais faraós haviam navegado no Nilo
milhares de anos antes. Em viagens pelo Egito, eu vira imagens de
muitos desses barcos pintadas nas paredes de tumbas antigas. A
semelhança provocou-me um arrepio pela espinha abaixo, ao vê-Ios
nesse momento trazidos de forma tão colorida à vida em uma obscura
ilha no lago Titicaca - mesmo que a pesquisa que vinha realizando
tivesse me preparado em parte para essa coincidência. Eu sabia que
nenhuma explicação satisfatória jamais fora dada de como essas
semelhanças tão ricamente detalhadas em projetos de barcos
poderiam ocorrer em dois lugares tão distantes um do outro. Não
obstante, repetindo as palavras de uma autoridade em navegação
antiga, que estudara o enigma:
Aqui estava a mesma forma compacta, as pontas elevadas em ambas
as extremidades, com cordas amarrando as peças desde o tombadilho
até o fundo do barco e transformando-o em uma única peça (...) Cada
palha era posta em seu lugar com a máxima precisão para obter
simetria perfeita e elegância aerodinâmica, ao mesmo tempo que os
feixes de juncos eram tão fortemente amarrados que pareciam (...)
troncos dourados torcidos e transformados em um bico, em forma de
tampão, na proa e na popa.
Os barcos de junco do antigo Nilo e os do lago Titicaca (cujo projeto
inicial, insistiam os índios, lhes fora dado pelos "ajudantes de
Viracocha") tinham ainda outros aspectos em comum. Ambos, por
exemplo, eram equipados com velas montadas em fasquias
peculiares, de dois elementos. Ambos haviam sido também usados
para transporte à longa distância de materiais de construção
extremamente pesados: obeliscos e blocos enormes de pedra, usados
nos templos de Gizé, Lúxor e Abidos, por um lado, e os misteriosos
edifícios de Tiahuanaco, por outro.
Nesses tempos remotos, antes de o lago Titicaca tornar-se mais de
50m mais raso, Tiahuanaco situava-se à beira d'água, dando para
uma paisagem de imponente e sagrada beleza. Nesse momento, o
grande porto, a capital do próprio Viracocha, estava perdido entre
colinas corroídas pela erosão e planícies descampadas varridas pelos
ventos.
A Estrada para Tiahuanaco...
Voltando de Suriqui para o continente, seguimos em nosso jipe
alugado pelas colinas, levantando uma nuvem de poeira. A rota levou-nos pelas pequenas cidades de Puccarani e Laha, onde viviam
estóicos índios aymara, que andavam em passos lentos pelas
estreitas ruas lajeadas ou permaneciam sentados tranqüilamente em
pequenas praças batidas pelo sol.
Seriam esses indivíduos descendentes dos construtores de
Tiahuanaco, como insistiam os estudiosos do assunto? Ou estariam
certas as lendas? Teria sido a antiga cidade obra de estrangeiros
dotados de poderes divinos, que ali haviam se estabelecido em um
passado remoto?

CAPÍTULO 10
A Cidade no Portal do Sol
Os primeiros viajantes espanhóis que visitaram a cidade boliviana
arruinada de Tiahuanaco à época da conquista ficaram
impressionados com o tamanho de seus edifícios e com a atmosfera
de mistério que os envolvia. "Perguntei aos nativos se esses edifícios
haviam sido construídos nos tempos dos incas", escreveu o historiador
Pedro Cieza de Leon. "Eles riram ao ouvir a pergunta, declarando que
haviam sido levantados muito tempo antes do reinado inca... e que
tinham ouvido de seus antepassados que tudo o que ali se via
aparecera de repente, no curso de uma única noite..." Outro visitante
espanhol do mesmo período registrou uma tradição que dizia que as
pedras haviam sido levantadas milagrosamente do chão: "Elas foram
levadas pelo ar ao som de uma trombeta".
Não muito depois da conquista, uma descrição detalhada da cidade foi
feita pelo historiador Garcilaso de Ia Vega. Não ocorrera ainda
qualquer pilhagem em busca de tesouros ou de material de
construção e, embora corroído pelos dentes do tempo, o local
continuava magnífico o suficiente para tirar-lhe o fôlego:
Temos que dizer agora alguma coisa sobre os prédios quase
inacreditáveis de Tiahuanaco. Lá existe uma colina artificial, de grande
altura, erigida sobre fundações de pedra, de modo que a terra não
deslizará. Existem figuras gigantescas esculpidas em pedra...
grandemente desgastadas pelas intempéries, o que Ihes demonstra a
grande antiguidade. Há paredes feitas de pedras tão enormes que é
difícil imaginar que força humana poderia tê-Ias assentado. E há
ruínas de edifícios estranhos, sendo os mais notáveis os portais de
pedra, cortados na rocha bruta, repousando em bases que chegam a
ter até 12m de comprimento, por 4,5m de largura e uma espessura de
1,80m, sendo base e portal talhados em uma única peça (...) Como, e
com uso de que ferramentas ou implementos, obras maciças de tal
tamanho poderiam ter sido realizadas são perguntas que não temos
como responder (...) Nem podemos imaginar como pedras tão
enormes poderiam ter sido trazidas para aqui...
Essas palavras foram escritas no século XVI. Mais de 400 anos
depois, em fins do século XX, senti-me tão confuso como Garcilaso.
Espalhados em volta de Tiahuanaco, desafiando saqueadores que
haviam pilhado tanto o local em anos recentes, há ainda monólitos tão
grandes e difíceis de transportar, mas também tão bem talhados, que
quase parecem obra de seres superiores.
O Templo Rebaixado
Tal como um discípulo aos pés do mestre, sentei-me no chão do
templo rebaixado e ergui os olhos para a face enigmática que todos os
estudiosos de Tiahuanaco acreditam ter sido modelada para
representar Viracocha. Há séculos incontáveis, mãos desconhecidas
lhe haviam talhado o semblante em um alto pilar de rocha vermelha.
Embora muito corroído atualmente, é o semblante de um homem em
paz consigo mesmo. E o semblante de um homem poderoso...
Tinha testa alta e grandes olhos redondos, nariz afilado, estreito no
cavalete, mas abrindo-se na direção das narinas. Lábios carnudos. O
aspecto característico, porém, era a barba estilizada e imponente, que
produzia o efeito de tornar-lhe o rosto mais largo no queixo do que nas
têmporas. Olhando com mais atenção, notei que o escultor
representara um homem cuja pele fora raspada em volta de toda a
boca, com o resultado de que o bigode começava alto nas maçãs do
rosto, aproximadamente paralelo à ponta do nariz. Dessa posição,
curvava-se de forma extravagante para baixo, ao lado dos cantos da
boca, formando um cavanhaque exagerado, seguindo depois a linha
do queixo e voltando às orelhas.
Acima e abaixo das orelhas, nos lados da face, haviam sido
esculpidas estranhas representações de animais. Ou talvez fosse
melhor descrevê-Ias como representações de animais estranhos, uma
vez que pareciam grandes e desajeitados mamíferos pré-históricos
com grossas caudas e pés ungulados.
Mas havia outros pontos dignos de interesse. A figura em pedra de
Viracocha, por exemplo, havia sido esculpida com as mãos e os
braços cruzados, um embaixo do outro, sobre um manto longo e
ondulante. Em cada lado do manto aparecia a forma sinuosa de uma
serpente desenroscando-se para cima, do nível do chão até o nível do
ombro. Enquanto olhava para a bela representação (cujo original
talvez tivesse sido bordado em tecido nobre), a imagem que se formou
em minha mente foi a de Viracocha como bruxo ou feiticeiro, uma
figura barbuda, parecida com Merlin, usando trajes estranhos e
maravilhosos, invocando o fogo dos céus.
O "templo" onde se encontra o pilar de Viracocha abre-se para o céu e
consiste em um grande buraco retangular, como se fosse uma piscina,
escavado a 1,80m abaixo do nível do chão. O chão, de cerca de 12m
de comprimento por 9m de largura, é composto de cascalho duro e
liso. Suas fortes paredes verticais são formadas de blocos de pedra de
cantaria de tamanhos variados, fortemente unidos, sem argamassa
nas juntas e entremisturado com estelas altas e de acabamento tosco.
Um conjunto de degraus fora escavado na parede sul e por eles eu
descera para a estrutura.
Dei várias voltas em torno da figura de Viracocha, ocasionalmente
pondo os dedos no pilar de pedra, aquecido pelo sol, tentando
descobrir-lhe a finalidade. O pilar tinha talvez 2,10m de altura e estava
virado para o sul, dando as costas para a velha praia do lago Titicaca
(originalmente a menos de 180m de distância). Alinhados atrás desse
obelisco central, além disso, havia dois outros, de menor estatura,
possivelmente destinados a representar os lendários companheiros de
Viracocha. As três figuras, severa e funcionalmente verticais,
lançavam sombras de contornos nítidos no chão, enquanto eu as
observava, pois o sol já ultrapassara o zênite.
Sentei-me novamente no chão e olhei devagar em volta do templo,
dominado pela figura de Viracocha, como se ele fosse o maestro de
uma orquestra. Ainda assim, seu aspecto mais notável estava em
outro local: forrando as paredes, em pontos e alturas variadas, havia
dezenas e dezenas de cabeças humanas esculpidas em pedra. Eram
cabeças completas, projetando-se tridimensionalmente das paredes.
São várias, diferentes (e contraditórias) as opiniões dos estudiosos
sobre a função a que se destinavam.
Pirâmide
Do chão do templo rebaixado, olhando para o oeste, vi uma imensa
muralha, na qual havia um impressionante portal geométrico feito de
grandes placas de pedra. Aparecendo em silhueta no portal e
iluminado pelo sol de fins da tarde, distingui a figura de um gigante. A
muralha, eu sabia, cercava uma área com as dimensões de um campo
de parada, chamada Kalasasaya (palavra que na língua aymara local
significa simplesmente "Lugar das Grandes Pedras em Pé"). E o
gigante era uma das imensas peças de escultura corroídas pelo tempo
mencionadas por Garcilaso de Ia Vega.
Embora ansioso para examiná-Ia, tive a atenção desviada no
momento para a direção sul e para uma colina artificial, de uns 15m de
algura, que se situava quase diretamente à minha frente, enquanto eu
subia os degraus, deixando o templo rebaixado. A colina, que
Garcilaso mencionara também, era conhecida como Pirâmide de
Akapana. Tal como as pirâmides de Gizé, no Egito, ela estava
orientada com uma precisão surpreendente para os pontos cardeais.
Mas, ao contrário daquelas pirâmides, seu projeto era um tanto
irregular. Ainda assim, ela media aproximadamente 210m de cada
lado, o que lhe dava a característica de uma enorme peça de
arquitetura e a condição de principal edifício de Tiahuanaco.
Caminhei em sua direção e passei algum tempo dando uma volta em
torno dela e passando por cima de seu cume. Originalmente, a
estrutura fora uma pirâmide escalonada de terra, recoberta com
grandes blocos de andesita. Nos séculos transcorridos desde a
conquista, porém, a pirâmide foi explorada como pedreira por
empresas de construção civil situadas tão longe quanto La Paz, com o
resultado de que só sobravam uns 10% dos soberbos blocos do
revestimento.
Que pistas, que provas, esses ladrões anônimos levaram? Galgando
as faces dilapidadas e andando em volta das grandes fossas cobertas
de relva no cume da Akapana, dei-me conta de que, com toda
probabilidade, a verdadeira função da pirâmide jamais seria
conhecida. De certo apenas o fato de que não fora simplesmente
decorativa ou cerimonial. Bem ao contrário, quase parecia que poderia
ter funcionado como algum tipo de "dispositivo" ou máquina arcana.
Bem no fundo de suas entranhas, arqueólogos descobriram uma rede
complexa de dutos de pedra, em ziguezague, revestidos com finas
peças de cantaria. Essas peças haviam sido colocadas em ângulos
precisos e juntadas (com uma tolerância de cinco milímetros), e
servido para trazer para baixo a água de um grande reservatório no
topo da estrutura, através de uma série de níveis descendentes, até
um fosso que cercava todo o local e que tocava a base da pirâmide
em sua face sul.
Tanto cuidado e atenção haviam sido prodigalizados em todo esse
sistema hidráulico, e tantos homens-hora de trabalho altamente
especializado e paciente, que Akapana não fazia sentido, a menos
que tivesse sido construída para uma finalidade importante. Vários
arqueólogos, isso eu sabia, tinham especulado que a finalidade
poderia ter estado ligada a um culto de chuva ou de rio, implicando
veneração primitiva pelos poderes e atributos da água corrente.
Uma sugestão de natureza sinistra, implicando que a "tecnologia"
desconhecida da pirâmide poderia ter servido a uma finalidade letal,
baseava-se no significado das palavras Hake e Apana, na antiga
língua aymara, ainda falada no local: "Hake significa 'povo' ou
'homens'; Apana significa 'morrer' (provavelmente por ação da água).
Akapana, por conseguinte, seria um local onde pessoas morreriam.."
Outro comentarista, depois de fazer uma cuidadosa investigação de
todas as características do sistema hidráulico, propôs uma solução
diferente, isto é, que as calhas tinham sido, com maior probabilidade,
parte de “uma técnica de processamento - de uso de água corrente
para lavagem de minério, talvez?”
Portal do Sol
Deixando a face oeste da enigmática pirâmide, dirigi-me para o canto
sudoeste do espaço fechado conhecido como Kalasasaya. Nesse
momento, compreendi por que o local fora denominado de Lugar de
Pedras em Pé, pois era isso exatamente o que eu via. A intervalos
regulares, em uma muralha construída com volumosos blocos
trapezoidais, imensos monólitos em forma de adaga, de mais de
3,60m de altura, haviam sido plantados na terra vermelha do altiplano.
O efeito era o de uma gigantescada paliçada, de quase 45m2,
erguendo-se cerca de umas duas vezes mais acima do solo quanto o
templo rebaixado fora escavado abaixo.
Teria Kalasasaya sido uma fortaleza? Aparentemente, não. De modo
geral, estudiosos aceitam hoje a idéia de que o local funcionara como
um sofisticado observatório celeste. Em vez de manter inimigos ao
largo, sua finalidade fora a de fixar equinócios e solstícios e de prever,
com precisão matemática, as várias estações do ano. Algumas
estruturas no interior das muralhas (e, na verdade, as próprias
muralhas) pareciam ter sido alinhadas com determinados grupos de
estrelas e projetadas de modo a facilitar a medição da amplitude do
sol no verão, inverno, outono e primavera. Além disso, o famoso
"Portal do Sol", que se situa no canto noroeste do espaço fechado, era
não só uma obra de arte de classe mundial, mas também considerado
pelos que o haviam estudado como um calendário complexo e exato
entalhe em pedra:
Quanto mais estudamos a escultura, maior se torna nossa convicção
de que a disposição peculiar e o pictorialismo desse Calendário não
poderiam ter sido, de forma nenhuma, apenas resultado do capricho,
em última análise insondável, de umartista, mas que seus glifos,
revestidos de profundo sentido, constituem registro eloqüente das
observações e cálculos de um cientista... O Calendário não poderia ter
sido desenhado e esculpido de qualquer outra maneira.
A pesquisa preliminar que realizei deixou-me muito curioso sobre o
Portal do Sol e, na verdade, sobre o Kalasasaya como um todo.
Acontecia isso porque certos alinhamentos astronômicos e solares,
que estudaremos no capítulo seguinte, tornavam possível calcular o
período aproximado em que o Kalasasaya deveria ter sido construido.
Esses alinhamentos sugeriam a controvertida data de 15000 a.C. - ou
cerca de dezessete mil anos passados.
CAPÍTULO 11
Indicações de Antiguidade
Em uma volumosa obra, Tiahunacu: the Cradle of American Man, o
falecido professor Arthur Posnansky (um notável pesquisador
germano-boliviano cujos estudos das ruínas duraram quase 50 anos)
explica os cálculos árqueo-astronômicos que resultaram na nova data
de fundação que ele atribuiu a Tiahuanaco. Esses cálculos, diz ele,
baseavam-se "apenas e exclusivamente na diferença na obliqüidade
da eclíptica no período em que o Kalasasaya foi construido e da que
existe hoje".
O que exatamente é "a obliqüidade da eclíptica" e por que ela dá a
Tiahuanaco uma idade de 17.000 anos?
De acordo com a definição dos dicionários, a eclíptica é "o ângulo
entre o plano da órbita da terra e o do equador celeste, igual a
aproximadamente 23º 27"'.
No intuito de esclarecer essa obscura idéia astronômica, vamos
imaginar a terra como um navio, navegando no vasto oceano dos
céus. Tal como todos as embarcações desse tipo (sejam elas planetas
ou escunas), ela sobe e desce ligeiramente com a onda que passa por
baixo do casco. Imagine-se a bordo dessa embarcação à medida que
ela sobe e desce, de pé no tombadilho, olhando para o mar. Você
sobe na crista de uma onda e seu horizonte visível aumenta, cai em
uma fossa e ele diminui. O processo é regular, matemático, tal como o
tiquetaque de um metrônomo gigantesco: uma inclinação constante,
quase imperceptível, mudando perpetuamente o ângulo entre você e o
horizonte.
Agora, imagine novamente a terra. Flutuando no espaço, como sabe
todo menino de escola, o eixo da rotação diária de nosso belo planeta
azul é ligeiramente inclinado em relação ao vertical em sua órbita em
torno do sol. Dessa situação segue-se que o equador terrestre e, daí,
o "equador celeste" (que é simplesmente um prolongamento
imaginário do equador terrestre na esfera celeste) deve situar-se
também em um ângulo com o plano orbital. Esse ângulo, em qualquer
ocasião, é a obliqüidade da eclíptica. Mas uma vez que a terra é um
barco que ondula, sua obliqüidade muda de uma maneira cíclica em
períodos muito longos. Durante cada ciclo de 41.000 anos, a
obliqüidade varia, com a precisão e previsibilidade de um cronógrafo
suíço, entre 22,1º e 14,5°. A seqüência em que um ângulo segue
outro, bem como a seqüência de todos os ângulos anteriores (em
qualquer período da história), pode ser calculada através de algumas
equações simples. Elas podem ser representadas também como uma
curva em um gráfico (originariamente plotado em Paris no ano de
1911 pela Conferência Internacional de Efemérides) e à vista desse
gráfico é possível comparar, com confiabilidade e precisão, ângulos e
datas históricas precisas.
Posnansky conseguiu fixar a data da construção de Kalasasaya
porque a obliqüidade do ciclo altera gradualmente a posição azimutal
do nascer e pôr-do-sol de um século a outro. Ao estabelecer os
alinhamentos solares de certas estruturas básicas que, nesse
momento, pareciam "estar deslocadas", ele demonstrou
convincentemente que a obliqüidade da eclíptica na época da
construção do Kalasasaya tinha sido de 23° 8' 48". Ao ser o ângulo
plotado no gráfico traçado pela Conferência Internacional de
Efemérides, descobriu-se que correspondia à data de 15000 a.C.
Claro, nenhum historiador ou arqueólogo ortodoxo estava disposto a
aceitar uma origem tão antiga para Tiahuanaco, preferindo, conforme
notado no Capítulo 8, concordar com a estimativa conservadora de
500 d.C. No período de 1927 a 1930, contudo, vários cientistas,
originários de outras disciplinas, estudaram com grande cuidado as
"investigações astronômico-arqueoIógicas" de Posnansky. Esses
cientistas, membros de uma equipe de alto gabarito que estudou
também numerosos outros sítios arqueológicos nos Andes, eram o Dr.
Hans Ludendorff (na ocasião, diretor do Observatório Astronômico de
Potsdam), Dr. Friedrich Becker, do Specula Vaticanica, e dois outros
astrônomos: o professor Dr. Arnold Kohlschutter, da Universidade de
Bonn, e o Dr. Rolf Muller, do Instituto Astrofísico de Potsdam.
Ao fim de três anos de trabalho, os cientistas concluíram que
Posnansky estava basicamente certo. Eles não estavam interessados
nas implicações de suas descobertas para o paradigma em vigor da
história: simplesmente confirmaram os fatos observáveis sobre os
alinhamentos astronômicos das várias estruturas de Tiahuanaco.
Entre estes, o mais importante era que o Kalasasaya fora projetado
para conformar-se a observações do céu feitas há muito, muito tempo
- muito antes dos supostos 500 a.C. O número de Posnansky, de
14000 a.C., foi considerado como bem dentro dos limites das
possibilidades.
Se Tiahuanaco florescera realmente tão antes do alvorecer da história,
que tipos de pessoas haviam-na construido e para que fim?
Figuras em Forma de Peixe
No interior do Kalasasaya há duas peças maciças de estatuária. A
primeira, uma figura apelidada de El Fraile (O Frade), ergue-se no
canto sudoeste; a outra, na direção do centro da extremidade leste do
espaço fechado, era o gigante que eu observara de dentro do templo
rebaixado.
Esculpido em arenito vermelho, desgastado pelo tempo e antigo além
de qualquer palpite, El Fraile tem cerca de 1,80m e representa um ser
humanóide, andrógino, com grandes olhos e lábios. Na mão direita,
ele segura algo parecido com uma faca, com uma lâmina ondulada
que lembra um kris indonésio. Na mão esquerda, tem um objeto que
se assemelha a um livro articulado. Do alto desse "livro", porém,
projeta-se um dispositivo que nele foi inserido como se numa bainha.
Da cintura para baixo, a figura parece vestida com um traje de
escamas de peixe e, como se para confirmar essa impressão, o
escultor havia formado as escamas isoladas com fileiras e mais fileiras
de cabeças de peixe altamente estilizadas. Esse sinal foi
convincentemente interpretado por Posnansky como significando
peixe em gera. Parecia, portanto, que EI Fraile era a representação de
um simbólico ou imaginário "homem-peixe". A figura usa ainda um
cinto esculpido com imagens de vários grandes crustáceos, de modo
que essa idéia parecia ainda mais provável. Qual a intenção da
escultura?
Eu havia tomado conhecimento de uma tradição local que poderia
esclarecer o assunto. Muito antiga,ela falava em "deuses do lago,
com caudas de peixe, chamados de Chullua e Umantua". Na tradição
e nas figuras vestidas como peixes parecia haver um eco
curiosamente dissonante de mitos mesopotâmicos, que se referiam
estranhamente, e em grande extensão, a seres anfíbios, "dotados de
razão", que tinham visitado a terra da Suméria na pré-história remota.
O chefe desses seres era chamado de Oannes (ou Uan). Ou, como
disse o escriba caldeu Berossus:
Todo o corpo (de Oannes) era parecido com o de um peixe e ele tinha,
sob a cabeça de peixe, outra cabeça, e também pés, semelhantes aos
de um homem, apensados à cauda de peixe. Sua voz, também, e a
linguagem, eram articuladas e humanas, e uma representação dele foi
preservada até este dia. (...) Quando o sol se punha, era costume
desse Ser mergulhar novamente no mar e ficar toda a noite nas
profundezas, pois ele era anfíbio.
De acordo com a tradição citada por Berossus, Oannes era, acima de
tudo, um civilizador:
Durante o dia, ele costumava conversar com os homens, mas não se
alimentou naquela estação. E lhes deu um insight de letras e ciências
e de todos os tipos de artes. Ensinou-lhes a construir casas, a erigir
templos, a compilar leis e explicou os princípios do conhecimento
geométrico. Ensinou-lhes a distinguir entre as sementes da terra e
mostrou como coletar frutas. Em suma, instruiu-os em tudo que
poderia contribuir para suavizar maneiras e humanizar a humanidade.
Desse tempo em diante, tão universais foram suas instruções, que
nada foi acrescentado materialmente como melhoramento...
Imagens remanescentes das criaturas Oannes que vi em altos-relevos
babilônicos e assírios representavam claramente homens vestidos
como peixes. Escamas de peixe constituíam os motivos dominantes
em seus trajes, da mesma forma que acontecia com o usado por EI
Fraile. Outra semelhança era que asfiguras babilônicas tinham
objetos não identificados nas mãos. Se a memória me servia bem (e,
mais tarde, confirmei que isso acontecia), esses objetos não eram
absolutamente idênticos aos que EI Fraile segurava. Mas eram
semelhantes o suficiente para merecer atenção.
O outro grande "ídolo" de Kalasasaya estava situado na direção da
extremidade oriental da plataforma, de frente para o grande portal, e
era um monólito imponente de adesita cinzenta, imensamente
espesso e com cerca de 2,70m de altura. A cabeça larga erguia-se
reta dos ombros maciços e o rosto, parecendo uma placa de pedra,
olhava sem expressão para a distância. Usava coroa, ou um tipo de
testeira, com os cabelos penteados em tranças bem dispostas em
longos cachos verticais, mais claramente visíveis nas costas.
A figura era também complicadamente esculpida e decorada na maior
parte de sua superfície, como se fosse tatuada. Tal como El Fraile,
usava abaixo da cintura um traje composto de escamas de peixe e
símbolos do mesmo tipo. E, também como El Fraile, tinha dois objetos
não identificáveis nas mãos. Nesse caso, o objeto na mão esquerda
parecia mais uma bainha do que um livro aniculado e dele se
projetava um cabo bifurcado. Na mão direita, o objeto era mais ou
menos cilíndrico, estreito no centro em que era seguro na mão, mais
largo nos lados e na base, estreitando-se novamente na direção da
parte superior. O objeto parecia ser composto de seções, ou partes
diferentes, encaixadas umas nas outras, mas era impossível dar um
palpite sobre o que poderia representar.
Imagens de Espécies Extintas
Deixando para trás as figuras em trajes de peixe, cheguei finalmente
ao Portal do Sol, localizado no canto noroeste do Kalasasaya.
Verifiquei que era um monólito isolado de andesita cinzento-esverdeada, de cerca de 3,80m de largura, 3m de altura e 45cm de
espessura, pesando umas estimadas 10t. Talvez mais bem
compreendido como uma espécie de Arco do Triunfo, embora em
escala muito menor, a peça parecia, nesse ambiente, uma porta de
ligação entre duas dimensões invisíveis - uma porta entre parte
nenhuma e o nada. O trabalho de cantaria era de qualidade
excepcionalmente alta e autoridades concordavam em que se tratava
de "uma das maravilhas arqueológicas das Américas". Seu aspecto
mais enigmático era o denominado "friso do calendário", esculpido na
face que dava para o leste, ao longo da pane superior do portal.
No centro, em uma posição elevada, o friso era dominado pelo que
estudiosos do assunto julgavam ser outra representação de
Viracocha, embora, dessa vez, em seu aspecto mais terrível, como o
rei divino que podia invocar o fogo doscéus. O lado suave, paternal,
ainda era representado e lágrimas de compaixão escorriam-lhe pela
face. A face, porém, era severa e dura, a tiara régia e imponente e, em
cada mão, segurava um raio. Na interpretação dada por Joseph
Campbell, um dos estudiosos mais conhecidos de mitos neste século,
"O significado é que a graça que se derrama no universo através da
porta do sol é a mesma energia do raio que aniquila e que é em si
indestrutível..."
Virei a cabeça para a direita e a esquerda, estudando sem pressa o
resto do friso. Era uma peça belamente equilibrada de escultura, com
três fileiras de oito figuras, 24 no total, revestindo ambos os lados da
imagem central elevada. Numerosas tentativas, nenhuma delas
especialmente convincente, foram feitas para explicar a suposta
função de calendário dessas figuras. Tudo que se podia dizer com
certeza era que tinham um aspecto peculiar, exangue, com aparência
de cartum, e que havia alguma coisa friamente matemática, quase
mecânica, na maneira como elas pareciam marchar em linhas
organizadas na direção do Viracocha. Algumas, aparentemente,
usavam máscaras de aves, outras tinham nariz bem aguçado e todas
seguravam nas mãos um implemento do mesmo tipo que o deus
principal estava conduzindo.
A base do friso era tomada por um desenho conhecido como
"Meandro" uma série de formas de pirâmides escalonadas gravadas
em linha contínua e arranjadas alternadamente invertidas para baixo e
em posição correta, que se pensava também preencher uma função
de calendário. Na terceira coluna, vista do lado direito (e, de forma
menos clara, na terceira coluna, também, vista do lado esquerdo),
consegui identificar o entalhe claro de uma cabeça, orelhas e presas
compridas de elefante. Era uma descoberta inesperada, uma vez que
não há elefantes em parte alguma do Novo Mundo. Mas tinha havido
em tempos pré-históricos, como pude confirmar muito tempo depois.
Especialmente numerosos na região sul dos Andes, até sua extinção
súbita no ano 10000 a.C., esses animais tinham sido membros de
uma espécie chamada de Cuvieronius, um proboscídeo semelhante
ao elefante, com presas compridas e tromba, e com uma semelhança
sobrenatural com os "elefantes" do Portal do Sol”.
Dei uns poucos passos à frente paraexaminar mais de perto esses
elefantes. Constatei que todos eram compostos das cabeças de dois
condores encimados por cristas, ligados garganta à garganta
(constituindo as cristas as "orelhas" e, a parte superior do pescoço, as
"presas compridas"). As criaturas assim formadas ainda me pareciam
ser elefantes, talvez por um truque visual característico, que os
escultores de Tiahuanaco haviam empregado repetidamente em sua
arte sutil e estranha, de usar uma coisa para representar outra. Dessa
maneira, uma orelha aparentemente humana em um rosto
aparentemente humano poderia ser uma asa de pássaro. De igual
maneira, uma coroa refinada poderia ser composta de cabeças
alternadas de peixes e condores, uma sobrancelha ser feita do
pescoço e cabeça de ave, o dedão de uma sandália da cabeça de um
animal, e assim por diante. Membros da família dos elefantes
formados de cabeças de condores, portanto, não precisavam ser
necessariamente ilusões de ótica. Ao contrário, essas composições
inventivas estariam de perfeito acordo com o caráter artístico geral do
friso.


Entre a abundância de figuras estilizadas de animais talhadas no
Portal do Sol havia ainda certo número de espécies extintas. Eu sabia
por minhas próprias pesquisas que uma delas fora convincentemente
identificada por vários observadores como o Toxodonte - um mamífero
anfíbio triungulado, de cerca de 2,70m de comprimento e 1,50m de
altura nos ombros, lembrando um cruzamento baixo, entroncado,
entre rinoceronte e hipopótamo. Tal como o Cuvieronius, o Toxodonte
florescera na América do Sul em fins do Plioceno (há 1,6 milhão de
anos) e se extinguira ao fim do Pleistoceno, há cerca de 12.000 anos.
Para meus olhos, essas imagens pareciam confirmação notável da
prova astro-arqueológica que situava Tiahuanaco em fins do
Pleistoceno e que solapava ainda mais a cronologia histórica
ortodoxa, que atribuía à cidade apenas 1.500 anos de idade, uma vez
que o Toxodonte, presumivelmente, só poderia ter sido modelado à
vista de um espécime vivo. Era matéria de alguma importância,
portanto, que nada menos de 46 cabeças de Toxodontes tenham sido
talhadas no friso do Portal do Sol. Tampouco era a feia caricatura do
animal limitada apenas ao Portal. Muito ao contrário, o Toxodonte
havia sido identificado em numerosos fragmentos de louça de barro
tiahuanacana. Ainda mais convincente, fora representado em várias
peças de escultura, que o mostravam em plena glória tridimensional.
Além do mais, tinham sido encontradas representações de outros
animais extintos: as espécies incluíam o Shelidoterium, um
quadrúpede de hábitos diurnos, e o Macrauchenia, um animal um
pouco maior do que o cavalo moderno, com pés triungulados bem
claros.
Essas imagens significavam que Tiahuanaco era uma espécie de livro
ilustrado do passado, um registro de animais estranhos, hoje mais
extintos do que o dodo, gravados em pedra para a eternidade.
A confecção do registro, porém, chegara certo dia subitamente ao fim
e a escuridão descera sobre a terra. Esse fato, igualmente, estava
gravado na pedra - o Portal do Sol, essa soberba obra de arte, jamais
fora completado. Alguns aspectos inacabados do friso faziam com que
fosse provável que alguma coisa inesperada e pavorosa tivesse
acontecido, o que levou o escultor, nas palavras de Posnansky, "a
deixar cair para sempre o cinzel" no momento em que "estava dando
os retoques finais em sua obra".CAPÍTULO 12
O Fim dos Viracochas
Vimos no Capitulo 10 que Tiahuanaco foi construída originalmente
como porto nas margens do lago Titicaca, quando o lago era muito
mais largo e mais de 30m mais profundo do que hoje. Enormes
construções portuárias, pieres e diques (e mesmo locais de descarga
de pedra tirada de pedreiras em pontos abaixo da velha linha d'água)
não deixam dúvida que tudo isso deveter existido. De acordo com as
estimativas heterodoxas do professor Posnansky, Tiahuanaco
funcionava como porto muito movimentado em data tão remota como
o ano 15000 a.C., a data que ele sugeriu como a da construção da
Kalasasaya, que continuou a servir como tal por aproximadamente
cinco mil anos e que, durante esse enorme período, sua posição em
relação à praia do lago praticamente não mudou.
Durante toda essa época, o ancoradouro principal da cidade portuária
esteve localizado a centenas de metros a sudoeste da Kalasasaya,
em um sitio ora conhecido como Puma Punku (literalmente, o Portal
do Puma). Nesse local, as escavações de Posnansky revelaram a
existência de duas docas artificialmente abertas em cada lado de um
"autêntico pier, ou cais... onde centenas de embarcações poderiam, a
qualquer tempo, ancorar e descarregar suas pesadas cargas".
Um dos blocos de construção usados na construção do pier ainda se
encontrava no local e pesava umas estimadas 400 toneladas.
Numerosos outros pesavam entre 100 e 150 toneladass. Além do
mais, muitos dos maiores monólitos haviam sido claramente ligados
uns aos outros por grampos de metal em forma de L. Eu sabia que,
em toda a América do Sul, essa técnica de construção só havia sido
encontrada em Tiahuanaco. A última vez em que eu vira as
depressões características, em entalhes que lhe provavam o uso,
tinha sido nas ruínas da ilha de Elefantina, no Nilo, no Alto Egito.
Igualmente intrigante era a existência do símbolo da cruz em muitos
desses antigos blocos. Repetindo-se inúmeras vezes, especialmente
no acesso setentrional ao Puma Punku, o símbolo assumia sempre a
mesma forma: um crucifixo duplo em linhas muito claras,
perfeitamente equilibrado e harmonioso, profundamente rebaixado na
dura pedra cinzenta. Mesmo de acordo com a cronologia ortodoxa,
essas cruzes tinham nada menos de 1.500 anos de idade. Em outras
palavras, haviam sido ali entalhadas por um povo que nenhum
conhecimento tinha do cristianismo, um milênio inteiro antes da
chegada dos primeiros missionários espanhóis ao altiplano.
Onde, por falar nisso, haviam os cristãos obtido a cruz? Não só da
forma da estrutura onde Cristo fora pregado, pensava eu, mas
também de uma origem muito mais antiga. Os antigos egípcios, por
exemplo, não haviam usado um hieróglifo muito parecido com a cruz
(a ankh, ou crux ansata) para simbolizar a vida... o hálito de vida... a
própria vida eterna? Surgira o símbolo no Egito, ou tivera talvez
origem em outro local, e em uma era ainda mais remota?
Com essas idéias se atropelando em minha mente, andei
vagarosamente em torno do Puma Punku. O extenso perímetro, que
formava um retângulo de várias centenas de metros de comprimento,
punha em destaque uma baixa colina de forma piramidal, nesse
momento densamente coberta por relva alta. Dezenas e dezenas de
enormes blocos espalhavam-se em todas as direções, jogados como
se fossem palitos de fósforo, argumentou Posnansky, pela terrível
calamidade natural que se abatera sobre Tiahuanaco no undécimo
milênio a.C.:
Essa catástrofe foi ocasionada por movimentos sísmicos, que
provocaram transbordamento das águas do lago Titicaca e erupções
vulcânicas... É também possível que o aumento temporário do nível do
lago tenha sido causado, em parte, pelo rompimento das barreiras
naturais de alguns lagos mais ao norte e situados em maior altitude
(...) liberando, dessa maneira, a água que desceu na direção do lago
Titicaca em torrentes impetuosas e incontroláveis.
A prova de Posnansky, de que um dilúvio fora a causa da destruição
de Tiahuanaco, incluía o seguinte:
A descoberta de flora lacustre, Paludestrina culminea e Paludestrina
andecola, Ancylus titicacensis, Planorbis titicacensis etc., misturada
em depósitos de aluvião com os esqueletos de seres humanos que
pereceram no cataclismo... e a descoberta de vários esqueletos de
Orestias, um peixe da família dos atuais bogas, no mesmo aluvião que
contém os restos humanos...
Além disso, fragmentos de esqueletos humanos e de animais foram
encontrados em desordem caótica entre pedras trabalhadas,
utensílios, instrumentos e uma variedade interminável de outras
coisas. Tudo isso havia sido movido de um lado para outro, quebrado
e acumulado em uma pilha desordenada. Quem quer que abrisse
nesse local um buraco de dois metros de profundidade não poderia
negar que a força destrutiva da água, em combinação com
movimentos bruscos da terra, deveria ter acumulado esses diferentes
tipos de ossos, misturando-os com louça de barro, jóias, instrumentos
e utensílios (...) Camadas de depósitos de aluvião cobrem todo o
campo das ruínas; areia lacustre, misturada com conchas do Titicaca,
feldspato decomposto e cinzas vulcânicas, acumularam-se nos locais
cercados por muralhas...
Foi realmente terrível a catástrofe que caiu sobre Tiahuanaco. E se
Posnansky tinha razão, isso aconteceu há mais de 12.000 anos. Daí
em diante, embora as águas da inundação tivessem baixado, "a
cultura do altiplano nunca mais atingiu um alto ponto de
desenvolvimento, caindo, em vez disso, em decadência total e
definitiva”.
Luta e Abandono
Esse processo foi acelerado pelo fato de que os terremotos, que
haviam levado o lago Titicaca a cobrir Tiahuanaco, foram apenas os
primeiros de muitas outras sobrelevações na área. Inicialmente, esses
abalos provocaram aumento do nível das águas do lago e inundação
das margens, mas logo em seguida começaram a apresentar o efeito
oposto, reduzindo lentamente a profundidade e a área de superfície do
Titicaca. Passando-se os anos, o lago continuou a diminuir, centímetro
por centímetro, isolando a grande cidade, separando-a
implacavelmente das águas que haviam desempenhado papel tão vital
em sua vida econômica.
Simultaneamente, há prova de que o clima na área de Tiahuanaco
tornou-se mais frio e muito menos favorável à agricultura do que
antes, tão menos favorável que hoje culturas básicas como o milho
não conseguem amadurecer bem e até batatas nascem atrofiadas.
Embora fosse difícil reunir todos os diferentes elementos da
complicada cadeia de fatos ocorridos, parece que "um período de
calma seguiu-se ao momento crítico da perturbação sísmica", que
temporariamente havia inundado Tiahuanaco. Em seguida, lenta, mas
ininterruptamente, "o clima piorou e tornou-se inclemente. Finalmente,
ocorreram emigrações em massa dos povos andinos em direção a
locais onde a luta pela vida fosse menos árdua".
Parece que os habitantes altamente civilizados de Tiahuanaco,
lembrados nas tradições locais como "o povo de Viracocha", não se
entregou sem luta. Há provas enigmáticas em todo o altiplano de que
experimentos agrícolas de natureza avançada e científica foram
realizados, com grande engenhosidade e dedicação, numa tentativa
de compensar a deterioração do clima. Pesquisas recentes, por
exemplo, demonstram que análises surpreendentemente sofisticadas
da composição química de numerosas plantas e tubérculos venenosos
de alta altitude foram, na mais remota antiguidade, realizados por
alguém nessa região. Essas análises, além disso, foram
acompanhadas da invenção de técnicas de desintoxicação, que
tornaram inócuos e próprios para alimentação esses vegetais, sob
outros aspectos nutritivos. Não há ainda "explicação satisfatória do
desenvolvimento desses processos de desintoxicação", reconheceu
David Browman, professor-adjunto de antropologia da Washington
University.
De igual maneira, no mesmo período antigo, alguém ainda não
identificado deu-se a grandes trabalhos para preparar campos
elevados nas terras recém-expostas, que até data bem próxima
estavam cobertas pelas águas do lago - procedimento este que criou
faixas corrugadas características de terreno alto e baixo alternado. Só
na década de 1960 é que foi compreendida a função inicial desses
padrões ondulados de plataformas de terra e canais rasos. Ainda
visíveis hoje, e conhecidos como waru waaru pelos índios, descobriu-se que faziam parte de um projeto agrícola complexo, aperfeiçoado
em tempos pré-históricos, que "superava as técnicas agrícolas
modernas".
Em anos recentes, os campos elevados foram reconstruídos por
arqueólogos e agrônomos. Essas glebas experimentais produziram
invariavelmente três vezes mais batatas do que as glebas
convencionais mais produtivas. De idêntica maneira, durante um
período especialmente frio, uma geada forte "pouquíssimo dano
causou aos campos experimentais". No ano seguinte, as culturas
plantadas nas plataformas elevadas sobreviveram a uma seca
igualmente ruinosa e, em seguida, "desenvolveu-se alta e seca
durante uma inundação que cobriu as terras agrícolas vizinhas". Na
verdade, essa técnica agrícola simples, mas eficaz, inventada por uma
cultura tão antiga que ninguém pode hoje sequer lembrar-lhe o nome,
teve tal sucesso na Bolívia rural que atraiu a atenção de órgãos locais
e internacionais e foi também submetida a provas em várias outras
partes do mundo.
Uma Língua Artificial
Outro possível legado de Tiahuanaco, e dos Viracochas, faz parte da
língua hoje falada pelos índios aymara locais - língua esta considerada
por alguns especialistas como a mais antiga do mundo.
Na década de 1980, Ivan Guzman de Rojas, um cientista boliviano
especializado em computadores, descobriu acidentalmente que a
língua aymara poderia ser não apenas muito antiga, mas, o que é
muito importante, ser uma língua "inventada" - alguma coisa
deliberada e habilmente concebida. De interesse especial é o caráter
aparentemente artificial de sua sintaxe, rigidamente estruturada e
inequívoca a um ponto considerado inconcebível na fala normal
"orgânica". Essa estrutura sintética e altamente organizada implicava
que a língua aymara podia ser transformada, com a maior facilidade,
em algoritmo de computador e ser usada para traduzir uma língua em
outra. "O algoritmo aymara é usado como língua-ponte. A língua de
um documento original é traduzida para a aymara e, em seguida, em
qualquer número de outras línguas".
Seria apenas coincidência que uma língua aparentemente artificial,
estruturada por uma sintaxe com afinidade com computadores, fosse
falada hoje apenas nas imediações de Tiahuanaco? Ou poderia a
língua aymara ser um legado da alta cultura que a lenda atribui aos
Viracochas? Se assim, que outros legados poderão existir? Que
outros fragmentos incompletos de uma sabedoria antiga e esquecida
podem estar espalhados pela terra - fragmentos que talvez tenham
contribuído para a riqueza e diversidade de muitas culturas que
evoluíram nessa região durante os 10.000 anos que antecederam a
conquista? Talvez tenha sido a posse de fragmentos como esses que
tornou possível o traçado das linhas de Nazca e permitiu aos
predecessores dos incas construir asmuralhas de pedra "impossíveis"
de Machu Picchu e Sacsayhuaman?
México
A imagem que eu não conseguia tirar da mente era a da partida do
povo de Viracocha, "andando sobre as águas" do oceano Pacífico, ou
"viajando milagrosamente" pelo mar, como contam tantas lendas.
Para onde teriam ido os navegantes? Qual teriam sido seus objetivos?
E por que, por falar nisso, eles haviam feito um esforço tão obstinado
para permanecer em Tiahuanaco por tanto tempo, antes de
reconhecer a derrota e ir embora? O que haviam tentado realizar ali e
que fora tão importante para eles?
Depois de várias semanas de trabalho no altiplano, em viagens de ida
e volta entre La Paz e Tiahuanaco, tornou-se claro para mim que nem
as ruínas sobrenaturais nem as bibliotecas da capital iriam me
fornecer mais respostas. Na verdade, pelo menos na Bolívia, parecia
que a pista desaparecera.
Só quando cheguei ao México, a 3.200km ao norte, é que lhe
reencontrei os vestígios.
Parte III
A Serpente Emplumada
América Central
CAPÍTULO 13
O Sangue e o Tempo no Fim do Mundo
Chichen Itza, norte de Yucatán, México
Às minhas costas, varando o ar a quase 35m de altura, erguia-se um
zigurate perfeito, o Templo de Kukulkan. Suas quatro escadarias
tinham 91 degraus cada Juntamente com a plataforma superior, que
contava também como mais um degrau, o total chegava a 365
degraus, o que correspondia ao número de dias completos do ano
solar. Além disso, o projeto geométrico e a orientação da antiga
estrutura haviam sido graduados com uma precisão de relógio suíço
para atingir um objetivo tão espetacular quanto esotérico: nos
equinócios da primavera e outono, com a regularidade de um
mecanismo de relógio, padrões triangulares de luz e sombra se
combinavam para criar a ilusão de uma serpente gigantesca,
ondulando na escadaria norte. Em ambas as ocasiões, a ilusão durava
três horas e 22 minutos, exatamente!
Deixei para trás o Templo de Kukulkan e tomei a direção leste. À
minha frente, desmentindo redondamente a falácia freqüentemente
repetida de que os povos da América Central jamais conseguiram usar
a coluna como recurso arquitetônico, erguia-se uma floresta de
colunas de pedra branca que, emalguma ocasião no passado, deviam
ter sustentado um telhado maciço. O sol brilhava forte e quente
através do azul translúcido de um céu sem nuvens e as sombras frias
e profundas da área constituíam um convite tentador. Passei pelo local
e dirigi-me para o pé dos degraus altos que levavam ao Templo dos
Guerreiros, uma estrutura adjacente.

No alto dos degraus, e tornando-se inteiramente visível apenas depois
de eu ter começado a galgá-Ios, destacava-se uma figura gigantesca,
o ídolo de Chacmool, meio deitado, meio sentado, em uma postura
estranhamente dura e expectante joelhos dobrados projetando-se
para a frente, panturrilhas fortes puxadas para trás, tocando as coxas,
calcanhares juntos colados às nádegas, cotovelos plantados no chão,
mãos dobradas sobre o ventre, segurando um prato vazio, e as costas
em um ângulo estranho, como se a figura estivesse justamente pronta
para erguer-se. Se tivesse feito isso, calculei, ela teria cerca de 2,40m
de altura. Mesmo reclinada, enrascada e fortemente comprimida,
parecia transbordar de uma energia feroz e impiedosa. As feições
quadradas tinham lábios finos e implacáveis, tão duros como a pedra
em que haviam sido talhados, os olhos virados para oeste, que era
tradicionalmente a direção das trevas, da morte e da cor preta.
Lugubremente, continuei a subir os degraus do Templo dos
Guerreiros Como se fosse um peso na mente, havia o fato
inesquecível de que rituais de sacrifícios humanos haviam sido
rotineiramente praticados nesse local em tempos pré-colombianos. O
prato vazio que Chacmool segurava junto ao estômago servira em
eras remotas para receber corações recém-extraídos do peito. "Se o
coração de uma vítima ia ser extirpado", escreveu um observador
espanhol do século XVI, ela era conduzida com grande pompa (...) e
colocada sobre a pedra sacrificial. Quatro ajudantes seguravam-lhe os
braços e as pernas, estirando-os. Chegando em seguida o carrasco,
com uma faca de sílex na mão, ele, com grande perícia, fazia uma
incisão entre as costelas do lado esquerdo e abaixo do bico do seio.
Em seguida, enfiava a mão e, como se fosse um tigre faminto,
arrancava o coração vivo, que depositava no prato...
Que tipo de cultura poderia ter cultivado e celebrado esse costume
demoníaco? Ali, em Chichen Itza, entre ruínas com mais de 1.200
anos de idade, tinha havido uma sociedade híbrida, produto do
cruzamento de elementos maias e toltecas. Essa sociedade, porém,
não fora absolutamente excepcional na propensão para cerimônias
cruéis e bárbaras. Muito ao contrário, todas as grandes civilizações
indígenas que se sabe que floresceram no México praticaram o
extermínio ritualizado de seres humanos.
Matadouros
Villahermosa, Província de Tabasco
Nesse momento, eu olhava para o Altar de Sacrifício de Bebês. O
local, criação dos olmecas, a denominada "cultura-matriz" da América
Central, tinha mais de 3.000 anos de idade. Era um bloco de granito
maciço, de cerca de 1,20m de espessura, tendo nos lados, em alto-relevo, quatro homens usando curiosos adereços de cabeça. Todos
tinham nas mãos um bebê sadio, gordinho, esperneando em um pavor
claramente visível. A parte posterior do altar era destituída de
decoração; já na frente, era representada uma figura tendo nos
braços, como uma oferenda, o corpo de uma criança morta.
Os olmecas foram a civilização antiga mais avançada do México
antigo e o sacrifício de seres humanos constituía um de seus
costumes tradicionais. Dois mil e quinhentos anos mais tarde, por
ocasião da conquista espanhola, os astecas eram os últimos (mas não
os menos importantes) dos povos da região que davam
prosseguimento a uma tradição extremamente antiga e
profundamente enraizada.
E praticavam-na com fanático entusiasmo.
Consta dos anais, por exemplo, que Ahuitzod, o oitavo e mais
poderoso imperador da dinastia real asteca, "celebrou a inauguração
do templo de Huitzilopochtli, em Tenochitlán, mandando formar
prisioneiros em quatro fiIas, que marcharam diante de equipes de
sacerdotes que trabalharam durante quatro dias seguidos para dar
cabo de todos eles. Nessa ocasião, nada menos de 80.000 indivíduos
foram sacrificados em um único rito cerimonial".
Os astecas gostavam de se enfeitar com a pele arrancada das vítimas
sacrificiais.
Bernardino de Sahagun, um missionário espanhol, compareceu a uma
dessas cerimônias pouco depois da conquista:
Os celebrantes esfolavam e esquartejavam os cativos. Em seguida,
lubrificavam seus corpos nus com sebo e vestiam a pele. (...)
Escorrendo sangue e gordura, esses homens sinistramente vestidos
corriam através da cidade, apavorando aqueles a quem perseguiam...
O rito do segundo dia incluiu também um banquete de carne humana
para a família de cada guerreiro.
Outro sacrifício em massa foi presenciado por Diego de Durán,
historiador espanhol. Nesse caso, as vítimas foram tão numerosas
que, quando os riachos de sangue,que desciam pelos degraus do
templo, "chegaram ao chão e coagularam, formaram grossos torrões,
o suficiente para apavorar todos que se encontravam ali". No total,
estima-se que o número de vítimas sacrificiais no império asteca como
um todo chegou a cerca de 250.000 ao ano, no início do século XVI.
A que fim servia essa destruição insana de vidas humanas? De
acordo com os próprios astecas, o ritual era praticado para retardar o
fim do mundo.
Os Filhos do Quinto Sol
Tais como os muitos e diferentes povos e culturas que os precederam
no México, os astecas acreditavam que o universo funcionava de
acordo com grandes ciclos. Os sacerdotes afirmavam, como fato
corriqueiro, que quatro desses ciclos, ou "Sóis", já haviam transcorrido
desde a criação da raça humana. Na época da conquista, prevalecia o
Quinto Sol, o mesmo Quinto Sol, ou época, que a humanidade ainda
vive hoje. A explicação seguinte foi extraída de uma coleção rara de
documentos astecas, conhecida como Vaticano-Latin Codex:
Primeiro Sol, Matlacli Atl; duração: 4.008 anos. Os que viveram nesse
tempo comiam milho d'água, chamado atzitzintli. Nessa época, viviam
os gigantes. (...) O Primeiro Sol foi destruido pela água no signo
Matlactli Atl (Dez Águas). Foi chamado de Apachiohualiztli (inundação,
dilúvio), ou a arte da feitiçaria da chuva permanente. Os homens
foram transformados em peixes. Dizem alguns que escapou apenas
um casal, protegido por uma velha árvore que crescia perto da água.
Outros dizem que houve sete casais, que se esconderam em uma
caverna até passar a enchente e baixarem as águas. Eles repovoaram
a terra e foram adorados como deuses em suas nações...
Segundo Sol, Ehecoatl; duração: 4.010 anos. Os que viveram nessa
época comiam frutos silvestres, como o acotzintli. Esse Sol foi
destruído por Ehecoatl (Serpente do Vento) e os homens foram
transformados em macacos. (...) Um homem e uma mulher, no alto de
uma rocha, foram salvos da destruição...
Terceiro Sol. Tleyquiyahuillo; duração: 4.081 anos. Os homens,
descendentes do casal sobrevivente do Segundo Sol, comiam uma
fruta chamada tzincoacoc. Esse Terceiro Sol foi destruído pelo fogo...
Quarto Sol. Tzontlilic; duração: 5.026 anos. Os homens morreram de
fome após um dilúvio de sangue e fogo...
Outro "documento cultural" dos astecas que sobreviveu à destruição
da conquista é a denominada "Pedra do Sol", de Axayacatl, o sexto
imperador da dinastia real. Esse monólito gigantesco, talhado em
basalto maciço por volta do ano 1479 d.C., pesa 24,5t e consiste
numa série de círculos concêntricos com inscrições, todas elas
ostentando intrincadas afirmações simbólicas. Da mesma forma que
no códex, essas afirmações concentram-se na crença em que o
mundo já passou por quatro épocas, ou Sóis. A primeira e mais antiga
delas é representada pelo Ocelotonatiuh, o deus jaguar: "Durante esse
Sol, viveram os gigantes criados pelos deuses, mas eles foram
finalmente atacados e devorados pelos jaguares”. O Segundo Sol é
representado pela cabeça de serpente de Ehecoatl, o deus do ar.
"Durante esse período, a raça humana foi destruída por fortes ventos
e tufões, tendo sido os homens transformados em macacos”. O
símbolo do Terceiro Sol era a nuvem de tempestade e o fogo celestial:
"Nessa época, tudo foi destruído por uma certa chuva de fogo que
caiu do céu e por formação de lava. Todas as casas foram queimadas.
Os homens foram convertidos em aves para sobreviver à catástrofe”.
O Quarto Sol é representado pela cabeça da deusa da água,
Chalchiuhlicue: "A destruição chegou sob a forma de chuvas
torrenciais e de inundações. As montanhas desapareceram e os
homens foram transformados em peixes”.
O símbolo do Quinto Sol, a época atual, é a face de Tonatiuh, o
próprio deus-sol. Sua língua, apropriadamente descrita como uma
faca de obsidiana, projeta-se faminta da boca, sinalizando a
necessidade de alimento sob a forma de sangue e corações humanos.
Suas feições são enrugadas, a fim de indicar idade avançada, e ele
aparece dentro do símbolo Ollin, que significa Movimento.
Por que será o Quinto Sol conhecido como "O Sol do Movimento"?
Porque, "dizem os anciãos: nele haverá um movimento da terra e
disso todos nós morreremos".
E quando acontecerá essa catástrofe? Logo, segundo os sacerdotes
astecas. Acreditavam eles que o Quinto Sol já era muito velho e que
se aproximava do fim de seu ciclo (daí as rugas na face de Tonatiuh).
Tradições antigas da América Central datavam o início dessa época
em um período remoto correspondente ao quarto milênio a.C. de
acordo com o calendário cristão. O método para lhe calcular o fim,
porém, havia sido esquecido ao tempo dos astecas. Na falta dessa
informação essencial, sacrifícios humanos eram aparentemente
realizados na esperança de adiar a catástrofe iminente. Na verdade,
os astecas vieram a considerar-se um povo eleito. Estavam
convencidos de que haviam sido encarregados da missão divina de
fazer guerra e oferecer o sangue dos cativos para alimentar Tonatiuh,
preservando, dessa maneira, a vida do Quinto Sol.
Stuart Fiedel, autoridade na pré-história das Américas, resumiu toda
essa questão nas palavras seguintes: "Os astecas acreditavam que,
para prevenir a destruição do universo, que já ocorrera quatro vezes
no passado, os deuses tinham que ser propiciados com uma dieta
regular de corações e sangue humano." A mesma crença, com um
número notavelmente pequeno de variações, foi compartilhada por
todas as grandes civilizações da América Central. Ao contrário dos
astecas, porém, alguns dos povos mais antigos calcularam
exatamente quando um grande movimento da terra poderia ser
esperado, levando ao fim o Quinto Sol.
O Portador da Luz
Nenhum documento, salvo esculturas sombrias e ameaçadoras,
chegou até nós com origem na era olmeca. Os maias, porém, com
toda razão considerados como a maior civilização antiga surgida no
Novo Mundo, deixaram uma grande riqueza de calendários.
Traduzidos em termos do moderno sistema de datação, essas
inscrições enigmáticas transmitem uma mensagem muito curiosa: o
Quinto Sol, ao que parece, vai chegar ao fim no dia 23 de dezembro
de 2012.
No clima intelectual racional de fins do século XX, é coisa fora de
moda levar a sério profecias sobre o dia do Juízo Final. O consenso é
que elas são produtos de mentes supersticiosas e que podem ser
ignoradas sem perigo. Enquanto viajava pelo México, no entanto, de
vez em quando eu era incomodado pela intuição insistente de que as
vozes dos sábios antigos poderiam merecer, afinal de contas, alguma
atenção. Quero dizer, suponhamos que, por algum acaso maluco, eles
não fossem os selvagens supersticiosos que sempre acreditamos que
tenham sido. Suponhamos que soubessem de alguma coisa que não
sabemos. Mais pertinente que tudo, suponhamos que a data projetada
para o fim do Quinto Sol acabe sendo correta. Suponhamos, em
outras palavras, que alguma catátrofe geológica realmente horrível já
esteja se desenvolvendo, bem no fundo das entranhas da terra, como
previram os sábios maias.
No Peru e na Bolívia, tornei-me consciente do interesse obsessivo
pelos cálculos sobre o tempo demonstrado pelos incas e seus
predecessores. Nesse momento, no México, eu descobria que os
maias, que acreditavam ter descoberto a data do fim do mundo,
haviam sido vítimas da mesma compulsão. Na verdade, para esse
povo, praticamente tudo se resumia em números, na passagem dos
anos e nas manifestações de fatos. A crença era que, se os números
que davam substância às manifestações pudessem ser
compreendidos, seria possível prever com exatidão o momento em
que os próprios fatos aconteceriam. Eu nenhuma inclinação sentia
para ignorar as implicações lógicas das destruições repetidas da
humanidade, descritas de forma tão vívida nas tradições da América
Central. Completas com gigantes e dilúvios, essas tradições eram
sobrenaturalmente semelhantes às da distante região andina.
Além do mais, eu estava muito interessado em seguir outra e correlata
linha de indagação, que dizia respeito a uma divindade barbuda, de
pele branca, chamada Quetzalcoatl, que se acreditava ter, na
antiguidade remota, chegado ao México pelo mar. A ele era dado o
crédito pela criação das avançadas fórmulas matemáticas e relativas à
confecção de calendários que os maias usariam mais tarde para
calcular a data do fim do mundo. Ele exibia também uma semelhança
notável com Viracocha, o deus branco dos Andes, que chegara a
Tiahuanaco "no tempo das trevas", trazendo as dádivas da luz e da
civilização.
CAPÍTULO 14
O Povo da Serpente
Depois de passar tanto tempo mergulhado nas tradições do
Viracocha, o deus barbudo dos Andes distantes, fiquei intrigado ao
descobrir que Quetzalcoatl, a principal divindade do panteão
mexicano, era descrito em termos que me pareciam muito conhecidos.
Um mito pré-colombiano recolhido no México por Juan de
Torquemada, historiador espanhol do século XVI, por exemplo,
afirmava que Quetzalcoatl era "um homem louro e corado, com uma
longa barba". Outro mito referia-se a ele dizendo "era Hombre blanco;
homem alto, de testa larga, olhos enormes, cabelos compridos, e uma
barba espessa e redonda - Ia barba grande y redonda". Outro
descrevia-o ainda como uma pessoa misteriosa (...) um homem
branco de corpo possante, testa larga, olhos grandes e barba
ondulante. Vestia um manto longo e branco que lhe chegava aos pés.
Ele condenou os sacrifícios, exceto de flores e frutos, e era conhecido
como o deus da paz... Conta-se que, quando lhe falaram sobre o
assunto guerra, ele tapou os ouvidos com os dedos.
De acordo com uma tradição particularmente notável da América
Central, esse "sábio instrutor" veio do outro lado do mar em um barco
que se movia por si mesmo, sem remos. Ele era um homem branco,
alto, barbudo, que ensinou o povo a usar o fogo para cozinhar.
Construiu também casas e mostrou a casais que poderiam viver juntos
como marido e mulher e, uma vez que pessoas freqüentemente
brigavam naqueles dias, ele lhes ensinou a viver em par.
O Gêmeo Mexicano de Viracocha
O leitor certamente se lembra que Viracocha, em suas jornadas pelos
Andes, era conhecido por diversos nomes. O mesmo aconteceu com
Quetzalcoatl. Em algumas partes da América Central (notamente entre
os maias quiche) era chamado de Gucumatz. Em outros locais, como,
por exemplo, em Chichen Itza, tinha o nome de Kukulkan. Quando as
duas palavras foram traduzidas para o inglês, descobriu-se que
significavam exatamente a mesma coisa: Serpente Emplumada (ou de
Penas). Este era também o significado da palavra Quetzalcoatl.
Havia outras divindades, especialmente entre os maias, cuja
identidade parecia fundir-se estreitamente com a de Quetzalcoatl.
Uma delas, Votan, um grande civilizador, era descrito também como
de pele clara, barbudo e vestido com um longo manto. Os estudiosos
não conseguiram descobrir uma tradução para seu nome, embora seu
símbolo principal, tal como o de Quetzalcoatl, fosse uma serpente.
Outra figura muito parecida atendia pelo nome de lzamana, o deus
maia da cura, um indivíduo barbudo, vestido com um manto e cujo
símbolo também era a cascavel.
O que emergiu de tudo isso, como concordaram as principais
autoridades nesse particular, foi que as lendas mexicanas compiladas
e passadas adiante pelos historiadores espanhóis à época da
conquista eram, com freqüência, produtos confusos e fundidos de
tradições orais extremamente antigas. Por trás de todas elas, contudo,
parecia que teria que haver alguma sólida realidade histórica. Na
opinião de Sylvanus Griswold Morley, decano dos estudos sobre os
maias:
O grande deus Kukulkan, a Serpente Emplumada, foi a contrapartida
maia do Quetzalcoatl asteca, o deus mexicano da luz, dos
conhecimentos e da cultura. No panteão maia, ele era considerado
como tendo sido o grande organizador, o fundador de cidades, o
elaborador de leis e o criador do calendário. Na verdade, seus
atributos e biografia são tão humanos que não é improvável que ele
possa ter sido um personagem histórico real, algum grande legislador
e organizador, persistindo, após sua morte, as recordações de seus
atos de benemerência, e cuja personalidade acabou por ser
divinizada.
Todas as lendas diziam inequivocamente que
Quetzalcoatl/Kukulkan/Gucumatz/Votan/Izamana chegara à América
Central procedente de algum lugar muito distante (do outro lado do
"Mar Oriental") e que, em meio a grande tristeza, ele viajara
novamente na direção de onde viera. As lendas acrescentavam que
ele prometera solenemente que voltaria um dia - uma clara reedição
da história de Viracocha que seria quase uma maldade atribuir à
coincidência. Além disso, vale a pena lembrar que a partida de
Viracocha através das ondas do oceano Pacífico era descrita nas
tradições andinas como um fato milagroso. A partida de Quetzalcoatl,
ao deixar o México, teve também uma estranha conotação, dizendo as
lendas que ele se fora em "uma jangada feita de serpentes".
Tudo bem pesado, acho que Morley teve razão ao procurar um
ambiente histórico factual subjacente aos mitos maia e mexicano. O
que as tradições pareciam indicar era que o estrangeiro de pele clara
chamado Quetzalcoatl (ou Kukulkan, ou o que quer que fosse) não
fora uma única pessoa, mas provavelmente várias, ali chegadas
procedentes do mesmo lugar e pertencentes a um tipo étnico que
evidentemente nada tinha de índio (barbudo, pele branca, etc.). Esse
faro foi sugerido não só pela existência de uma "família" de deuses
obviamente aparentados, embora ligeiramente diferentes, que
compartilhavam o símbolo da serpente. Quetzalcoatl/
Kukulkan/Izamana era claramente descrito em numerosas histórias
mexicanas e maias como tendo chegado acompanhado de
"atendentes", ou "assistentes".
Alguns mitos mencionados nos textos maias religiosos antigos
conhecidos como Livros de Chilam Balam, por exemplo, diziam que
"os primeiros habitantes de Yucatán constituíam o 'Povo da Serpente',
que chegara em barcos, do outro lado do mar, encabeçados por
Izamana, a 'Serpente do Leste', um curador que podia salvar vidas
com imposição das mãos e ressuscitar os mortos".
"Kukulkan", dizia outra tradição, "chegou com dezenove
companheiros, dois dos quais eram deuses dos peixes, dois outros,
deuses da agricultura, e, um, deus do trovão... Eles permaneceram
dez anos no Yucatán. Kukulkan elaborou leis sábias, fez-se ao mar
em seguida e desapareceu na direção do sol nascente...".
De acordo com Las Casas, historiador espanhol, "os nativos
afirmavam que, nos tempos antigos, chegaram ao México vinte
homens, cujo chefe era chamado Kukulkan (...) Eles usavam mantos
ondulantes e sandálias, tinham longas barbas e cabeças calvas...
Kukulkan instruiu o povo nas artes da paz e foi responsável pela
construção de vários edifícios importantes...".
Entrementes, Juan de Torquemada registrava a tradição seguinte,
muito específica e anterior à conquista, a respeito dos estrangeiros
imponentes que haviam chegado ao México em companhia de
Quetzalcoatl:
Eles eram homens de boa presença, bem vestidos, usavam mantos
de linho preto, abertos no peito, sem pelerine, gola baixa no pescoço,
com mangas curtas que não chegavam aos cotovelos. (...) Esses
seguidores de Quetzalcoatl eram homens de grande saber e artistas
hábeis em todos os tipos de obras finas.
Como se fosse algum gêmeo, há longo tempo perdido, de Viracocha,
a divindade andina branca e barbuda, Quetzalcoatl era descrito como
tendo trazido para o México todas asperícias e ciências necessárias
para criar uma vida civilizada, dando assim início a uma idade áurea.
Acreditava-se, por exemplo, que ele tivesse introduzido a arte da
escrita na América Central, inventado o calendário e sido o mestre-construtor que ensinou ao povo os segredos da cantaria e da
arquitetura. Foi o pai da matemática, da metalurgia, da astronomia e
se dizia que havia "medido a terra". Fundou ainda a agricultura
produtiva e descobriu e introduziu o milho - literalmente a cultura
alimentar básica nessas antigas terras. Grande médico e mestre no
uso de remédios, foi o patrono dos curadores e adivinhos "e revelou
ao povo os mistérios das propriedades das plantas". Além disso, era
reverenciado como legislador, protetor dos artesãos e patrono de
todas as artes.
Como se poderia esperar de indivíduo tão refinado e culto, ele proibiu
o horrendo costume dos sacrifícios humanos durante o período de sua
ascendência no México. Após sua partida, os sanguinolentos rituais
voltaram com redobrada fúria. Não obstante, até os astecas, os
cultores mais ferrenhos de sacrifícios que jamais existiram na longa
história da América Central, lembravam-se "com uma espécie de
nostalgia" dos tempos de Quetzalcoatl. "Ele foi um mestre", lembrava
uma lenda, "que ensinou que nenhuma coisa viva devia ser
prejudicada e que não deviam ser feitos sacrifícios de seres humanos,
mas apenas de aves e borboletas."
Guerra Cósmica
Por que Quetzalcoatl teria ido embora? Qual foi o problema?
As lendas mexicanas forneceriam respostas a essas perguntas?
Diziam elas que o esclarecido e benevolente governo da Serpente
Emplumada foi encerrado por Tezcatilpoca, cujo nome significava
"Espelho Esfumaçado" e cujo culto exigia sacrifícios humanos. Parece
que uma guerra quase cósmica entre as forças da luz e das trevas
ocorreu no México antigo e que estas últimas triunfaram...
Não se acredita que o suposto palco desses acontecimentos, ora
conhecido como Tula, tenha sido muito antigo - teria não muito mais
de 1.000 anos -, muito embora as lendas que os contam estejam
ligadas a uma época infinitamente mais remota. Nesses tempos, à
margem da história, o local era conhecido como Tollan. Todas as
tradições concordam que foi em Tollan que Tezcatilpoca derrotou
Quetzalcoatl e obrigou-o o abandonar o México.
Serpentes de Fogo
Tula, província de Hidalgo
Eu me encontrava nesse momento sentado no cume plano de uma
pirâmide denominada, sem nenhuma imaginação, de Pirâmide B. O
sol de fins da tarde brilhava forte em um claro céu azul. De frente para
o sul, olhei em volta.
Na base da pirâmide, nos lados norte e leste, vi murais mostrando
jaguares e águias, banqueteando-se com corações humanos.
Imediatamente às minhas costas, quatro pilares alinhados e quatro
assustadores ídolos de granito, todos eles com 1,90m de altura. À
minha frente e à esquerda, vi a parcialmente escavada Pirâmide C,
um monte coberto de cacto, de uns 12m de altura, e, mais adiante,
mais montes ainda não estudados por arqueólogos. À direita,
estendia-se uma arena de jogos. Nesse local comprido, em forma de
L, terríveis lutas de gladiadores haviam sido realizadas nos tempos
antigos. Equipes, quando não apenas dois indivíduos, lutavam pela
posse de uma bola de borracha. Os derrotados eram degolados.
Uma aura solene e intimidadora envolvia os ídolos da plataforma, às
minhas costas. Levantei-me e examinei-os com mais atenção. O
escultor lhes dera faces duras, implacáveis, narizes aduncos e olhos
rasos que pareciam destituídos de qualquer simpatia ou emoção. O
que mais me interessava, porém, não era a aparência dos ídolos, mas
o que eles seguravam nas mãos. Arqueólogos, embora
reconhecessem que não sabiam realmente o que eram esses objetos,
ainda assim identificaram-nos provisoriamente. A identificação "pegou"
e hoje é aceita como indiscutível que lançadores de dardos,
conhecidos como atl-atls, eram os objetos que os ídolos seguravam
na mão direita, e "dardos ou flechas e sacolas de incenso", na mão
esquerda. Pouco importava que os objetos em nada se parecessem
com atl-atls, lanças, flechas, ou sacolas de incenso.
As fotografias tiradas por Santha Faiia ajudarão o leitor a formar uma
idéia sobre esses objetos peculiares. Enquanto estudava os objetos
em si, senti a clara impressão de que eles se destinavam a
representar dispositivos que, originalmente, haviam sido feitos de
metal. O dispositivo na mão direita, que parecia sair de uma bainha ou
guarda de mão, tinha forma de um losango com borda inferior curva.
O dispositivo da mão esquerda poderia ter sido um instrumento ou
arma de algum tipo.
Lembrei-me de lendas que diziam que os deuses do antigo México
usavam os xiuhcoatl ou "serpentes de fogo", como armas. Elas,
aparentemente, emitiam raios capazes de queimar, perfurar e
desmembrar corpos humanos. Seriam "serpentes de fogo" os objetos
que os ídolos de Tula tinham nas mãos? O quê, por falar nisso, eram
essas tais serpentes de fogo?
O que quer que fossem, ambos os dispositivos pareciam produtos de
tecnologia. E ambos, de certas maneiras, lembravam os objetos
igualmente misteriosos que os ídolos da Kalasasaya, em Tiahuanaco,
têm nas mãos.
O Santuário da Serpente
Santha e eu tínhamos vindo a Tula/Tollan porque o local estivera
estreitamente associado a Quetzalcoatl e a seu arquiinimigo,
Tezcatilpoca, o Espelho Esfumaçado. Sempre jovem, onipotente,
onipresente e onisciente, Tezcatilpoca aparecia, nas lendas, ligado à
noite, às trevas e ao jaguar sagrado. Ele era "invisível e implacável,
aparecendo algumas vezes ao homem sob a forma de uma
sombra voadora, quando não como monstro pavoroso".
Freqüentemente representado como uma caveira brilhante, diziam as
lendas que fora dono de um objeto misterioso, o Espelho Esfumaçado,
que acabou por lhe dar o nome, e que o usava para observar a
distância as atividades de homens e deuses. Estudiosos supõem, com
lógica irrepreensível, que a tal coisa deve ter sido uma obsidiana,
usada para fins divinatórios: "Aobsidiana revestia-se de uma
santidade toda especial para os mexicanos, como se comprova com
as facas sacrificiais usadas pelos sacerdotes. (...) Segundo Bernal
Dias [historiador espanhol], os nativos davam a essa pedra o nome de
'Tezcat'. Com ela eram feitos também espelhos com finalidades
divinatórias, usados por feiticeiros."
Representando as forças das trevas e da maldade rapace,
Tezcatilpoca, segundo as lendas, esteve envolvido em conflitos com
Quetzalcoatl que se prolongaram durante um número imenso de anos.
Às vezes, um parecia estar vencendo a luta e, em certas ocasiões, o
outro. Finalmente, a guerra cósmica chegou ao fim na ocasião em que
o bem foi derrotado pelo mal, com o resultado de que Quetzalcoad foi
expulso de Tollan. Daí em diante, sob a influência do culto aterrador
de Tezcatilpoca, os sacrifícios humanos reapareceram na América
Central.
Conforme vimos acima, acreditavam os nativos que Quetzalcoatl
fugira para a costa e fora levado para longe em uma jangada feita de
serpentes. Diz uma lenda: "Ele queimou suas casas, feitas de prata e
de conchas, enterrou seu tesouro e viajou pelo Mar do Leste,
precedido por seus acólitos, que haviam sido transformados em aves
de cores brilhantes”.
Pensa-se que esse momento amargo da partida ocorreu em um local
chamado Coatzacoalos, palavra que significa "O Santuário da
Serpente". No lugar, antes de despedir-se, Quetzalcoatl prometeu a
seus seguidores que voltaria umdia para acabar com o culto de
Tezcatilpoca e dar início a uma era em que os deuses voltariam a
aceitar "o sacrifício de flores" e deixariam de clamar por sangue
humano.

CAPÍTULO 15
BabeI Mexicana
Abandonando Tula na direção sudeste, contornamos a Cidade do
México, percorrendo uma série de vias expressas que nos levaram,
arrastando-nos, até as bordas da poluição da capital, que faz os olhos
lacrimejarem e os pulmões arderem. Prosseguindo na viagem,
chegamos às montanhas cobertas de pinheiros, deixando para trás o
cume nevado do Popocatepetl e daí seguindo por pistas orladas de
árvores através de campos e fazendas.
Em fins da tarde, chegamos a Cholula, uma sonolenta cidadezinha de
11.000 habitantes e espaçosa praça central. Após virar para leste
através de ruas estreitas, cruzamos trilhos de estrada de ferro e
paramos à sombra da tlahchiualtepetl, a "montanha feita pelo homem",
que era o objetivo de nossa visita.
Outrora consagrado ao culto pacífico de Quetzalcoatl, mas, nesse
momento, tendo no alto uma ornamentada igreja católica, esse imenso
edifício foi classificado entre os projetos de engenharia mais extensos
e ambiciosos jamais empreendidos em qualquer local no mundo
antigo. Na verdade, com uma área de 18ha e altura de 64m, é três
vezes mais maciço do que a Grande Pirâmide do Egito. Embora com
os contornos tornados indistintos pela idade e os lados cobertos por
relva densa, era ainda possível reconhecer que a construção fora
outrora um zigurate imponente, que subia para os céus em quatro
"degraus" de ângulos bem nítidos. Medindo quase meio quilômetro ao
longo de cada lado da base, a estrutura conseguira, apesar de tudo,
preservar uma beleza digna, ainda que violada.
O passado, embora muitas vezes seco e lacônico, raramente é
estúpido. Ocasionalmente, pode expressar-se em termos
apaixonados. E me pareceu que isso acontecia nesse local, prestando
testemunho da degradação física e psicológica imposta aos povos
nativos do México quando o conquistador espanhol, Hernán Cortés,
quase displicentemente, "decapitou uma cultura, da mesma forma que
um transeunte pode cortar a flor de um girassol". Em Cholula, que fora
outrora um grande centro de peregrinação, com uma população de
cerca de 100.000 almas por ocasião da conquista, a decapitação de
tradições e estilos de vida antigos exigiram que um ato especialmente
humilhante fosse praticado contra a montanha artificial de
Quetzalcoatl. A solução foi achatar e profanar o templo que outrora se
erguera no cume do zigurate e substituí-Io por uma igreja.
Embora Cortés e seus homens fossem poucos e os cholulanos muito
numerosos, ao entrarem na cidade, o conquistador e sua gente
contavam com uma grande vantagem: barbudos e de pele clara,
usando armaduras brilhantes, eles pareciam a realização de uma
profecia - não fora sempre prometido que Quetzalcoatl, a Serpente
Emplumada, voltaria "do mar do Leste" com sua tropa de seguidores?
Devido a tal expectativa, os ingênuos e confiantes cholulanos
permitiram que os conquistadores subissem os degraus do zigurate e
entrassem no grande pátio do templo, onde receberam as boas-vindas
de moças alegremente vestidas, cantando e tocando instrumentos,
enquanto outros nativos andavam de um lado para o outro trazendo
travessas de pão e carnes finas cozidas.
Um dos historiadores espanhóis, testemunha ocular dos
acontecimentos que se seguiram,menciona o povo da cidade, a
adoração nos olhos de pessoas de todas as situações sociais,
"desarmados, de rostos ansiosos e felizes, reunidos ali para ouvir o
que os homens brancos iriam dizer". Compreendendo à vista dessa
inacreditável recepção que seus intuitos sequer eram objeto de
suspeita, os espanhóis cerraram fileiras, colocaram guardas em todas
as entradas, sacaram suas armas de aço e assassinaram seus
anfltriões. Seis mil nativos morreram nesse massacre horripilante,
comparável em selvageria aos rituais mais sanguinolentos dos
astecas. "Os moradores de Cholula foram tomados de surpresa. Sem
armas ou escudos, receberam os espanhóis. Ainda que desarmados,
foram massacrados sem aviso. Foram assassinados em um ato de
pura deslealdade." Era irônico, pensei, que os conquistadores, no
Peru e no México, tivessem tiradoproveito, da mesma maneira, de
lendas locais que profetizavam a volta do deus barbudo, de pele clara.
Se esse deus era realmente um ser humano deificado, como parecia
provável, ele deveria ser originário de uma civilização altamente
evoluída e dotado de um caráter exemplar - ou, com maior
probabilidade ainda, duas pessoas diferentes da mesma origem, o
primeiro trabalhando no México e servindo de modelo para
Quetzalcoatl, e o segundo no Peru, como Viracocha. A semelhança
superficial dos espanhóis com os antigos estrangeiros de pele clara
abriu numerosas portas que, de outra maneira, teriam permanecido
fechadas. Mas, ao contrário de seus sábios e benevolentes
predecessores, Pizarro, nos Andes, e Cortés, na América Central,
eram lobos famintos. Devoraram as terras, os povos e as culturas que
atacaram. Destruíram quase tudo...
Lágrimas pelo Passado
Com os olhos velados pela ignorância, fanatismo religioso e cobiça, os
espanhóis, ao chegarem ao México, apagaram uma herança preciosa
da humanidade. Ao assim proceder, privaram o futuro de qualquer
conhecimento detalhado sobre as civilizações brilhantes e notáveis
que outrora floresceram na América Central.
Qual, por exemplo, a história real do "ídolo" resplandecente que
respousava em um santuário sagrado em Achiotlán, a capital misteca?
Sabemos da existência desse curioso objeto graças a uma
testemunha ocular do século XVI, o padre Burgoa:
O material era de maravilhoso valor, pois era uma esmeralda do
tamanho de um polpudo cacho de pimenta [capsicum], sobre a qual
uma pequena ave fora gravada com a maior habilidade possível e,
com a mesma perícia, uma pequena serpente, enroscada e pronta
para dar o bote. A pedra era tão transparente que brilhava a partir de
dentro com o fulgor de uma chama de vela. Era uma jóia muito antiga
e não há qualquer tradição remanescente sobre a veneração e o culto
que lhe eram propiciados.
O que não aprenderíamos se pudéssemos examinar hoje essa jóia
"antiqüíssima” E qual, realmente, sua antiguidade? Jamais
saberemos, porque frei Benito, o primeiro missionário a chegar a
Achiotlán, tomou-a dos índios. "Ele mandou moê-Ia, embora um
espanhol lhe oferecesse três mil ducados pela pedra, dissolveu o pó
em água, derramou-a na terra e pisou em cima...".
Igualmente característico do desperdício criminoso das riquezas
intelectuais ocultas no passado mexicano foi o destino compartilhado
por dois presentes dados a Cortéspor Montezuma, o imperador
asteca. Foram dois calendários circulares, do tamanho de rodas de
carroça, um de prata maciça e, o outro, de ouro, também maciço,
detalhadamente gravados com belos hieróglifos que podem ter contido
material de grande interesse. Cortés, na hora, mandou derretê-Ios e
transformá-Ios em lingotes.
De forma ainda mais sistemática, em toda a América Central, imensos
repositórios de conhecimentos acumulados desde tempos antigos
foram laboriosamente reunidos, empilhados e queimados por
religiosos fanáticos. Em julho de 1562, por exemplo, na praça principal
de Mani (que se situa imediatamente ao sul da moderna Mérida, na
província de Yucatán), frei Diegode Landa queimou milhares de
códices, histórias ilustradas e hieróglifos maias inscritos em
pergaminhos de pele de cervo. Destruiu também incontáveis "ídolos" e
"altares", todos os quais descreveu como "obras do demônio, criados
por Satanás para enganar os índios e impedir que aceitem o
cristianismo...
Em outro contexto, voltou a discorrer sobre o mesmo tema:
Descobrimos grande número de livros [escritos nos caracteres usados
pelos índios], mas, como eles nada continham, exceto superstições e
falsidades do demônio, queimamos todos, o que os nativos receberam
muito mal e lhes causou grande dor.
Mas não foram apenas os "nativos" que sofreram essa dor, mas todos
- na ocasião como agora - que gostariam de saber a verdade sobre o
passado.
Numerosos outros "homens de Deus", alguns ainda mais
implacavelmente eficientes do que Diego de Landa, participaram da
satânica missão espanhola de apagar os bancos de memória da
América Central. Entre eles, destacou-se Juan de Zumárraga, bispo
do México, que bravateava ter destruído 20.000 ídolos e 500 templos
índios. Em novembro de 1530, condenou à fogueira um aristocrata
asteca cristianizado por ter ele supostamente voltado à adoração do
"deus da chuva", e mais tarde, na praça do mercado em Excoco,
mandou construir uma imensa fogueira de documentos sobre
astronomia, pinturas, manuscritos e textos hieroglíficos que os
conquistadores haviam confiscado dos astecas nos onze anos
precedentes. Enquanto esse tesouro insubstituível de conhecimentos
e história subia nas chamas, a humanidade perdia para sempre uma
oportunidade de sacudir, pelo menos, parte da amnésia coletiva que
ora turva nossa compreensão.
O que resta dos registros dos povos antigos da América Central? A
resposta, graças aos espanhóis, é menos de vinte códices e
pergaminhos originais.
Ouvimos nas lendas que numerosos documentos reduzidos a cinzas
pelos frades continham "registros de passadas eras".
O que diziam esses registros perdidos? Que segredos guardavam?
Gigantes de Desmesurada Estatura
Enquanto continuava a orgia de queima de livros, alguns espanhóis
começaram a compreender que "uma civilização realmente grandiosa
existira no México, antes dos astecas". Estranhamente, um dos
primeiros a agir, ao compreenderesse fato, foi Diego de Landa.
Aparentemente, ele passou por uma "experiência de conversão, do
tipo experimentado por Paulo na estrada para Damasco" após ter
montado seu auto-da-fé em Mani. Anos depois, decidido a salvar o
que pudesse da sabedoria antiga, que tanto fizera para destruir,
tornou-se colecionador apaixonado das tradições e histórias orais dos
povos nativos do Yucatán.
É grande nossa dívida para com Bernardino de Sahagun, frade
franciscano e historiador da época. Consumado lingüista, conta-se
que ele "procurou os nativos mais cultos e, freqüentemente, os mais
velhos, e lhes pediu que, utilizando a escrita pictográfica, contassem
tudo de que pudessem lembrar-se com clareza da história, religião e
lendas astecas". Dessa maneira, Sahagun conseguiu acumular
informações detalhadas sobre a antropologia, a mitologia e a história
social do antigo México, que mais tarde transcreveu em uma culta
obra em doze volumes, obra esta destruída pelas autoridades
espanholas. Por sorte, sobreviveu uma cópia, embora incompleta.
Diego de Durán, colecionador consciencioso e corajoso de tradições
indígenas, foi outro franciscano que lutou para recuperar o
conhecimento perdido do passado. Visitando Cholula no ano 1585, em
uma época de mudança rápida e catastrófica, entrevistou um ancião,
venerado na cidade, que se dizia contar mais de 100 anos de idade, e
que lhe contou a história seguinte sobre a construção do grande
zigurate:
No começo, antes de ser criada a luz dosol, este lugar, Cholula, era
coberto por escuridão e trevas, todo o terreno era plano, sem uma
colina ou elevação, cercado d'água por todos os lados, sem árvores
ou qualquer coisa criada. Imediatamente depois de surgir a luz e subir
o sol no leste, apareceram gigantesde estatura desmesurada, que se
apossaram da terra. Apaixonados pela luz e a beleza do sol,
resolveram construir uma torre tão alta que chegasse ao céu. Tendo
reunido materiais para este fim, descobriram uma argila e betume
fortemente adesivos e começaram a construir rapidamente a torre...
Tendo eles levado a construção à maior altura possível, conseguindo
que ela tocasse o céu, o Senhor dosCéus, enfurecido, disse aos
habitantes do céu: "Observastes como eles da terra construíram uma
alta e arrogante torre para chegar até aqui, tendo ficado apaixonados
pela luz do sol e sua beleza? Vinde e destruam-nos, porque não é
certo que eles da terra, vivendo na carne, devam misturar-se
conosco." Imediatamente, os habitantes do céu atacaram como se
fossem raios, destruíram o edifício e dividiram e espalharam os
construtores por todas as partes da terra.
E foi essa história, parecida mas não idêntica à história bíblica da
Torre de Babel (em si a refundição de uma tradição mesopotâmica
muito mais antiga), que me trouxe a Cholula.
Essas lendas da América Central e do Oriente Médio guardavam,
evidentemente, uma estreita relação. Na verdade, ninguém podia
deixar de notar as semelhanças, mas havia também diferenças
importantes demais para ser ignoradas. Claro, as semelhanças
poderiam ser devidas a contatos pré-colombianos, não registrados em
quaisquer anais, entre culturas do Oriente Médio e do Novo Mundo,
embora houvesse maneira de explicar, em uma única teoria, as
semelhanças e as diferenças. Suponhamos que as duas versões da
lenda evoluíram separadamente durante vários milhares de anos, mas
que, antes disso, ambas provieram do mesmo ancestral muito antigo.
Sobreviventes
Vejamos o que o Livro do Gênesis diz sobre a "torre que chegou ao
céu":
Ora em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma só maneira
de falar. Sucedeu que partindo eles do Oriente, deram com uma
planície na terra de Sinear; e habitaram ali. E disseram uns aos
outros: "Vinde, façamos tijolos e queimemo-Ios bem”. Os tijolos
serviram-Ihes de pedra e, o betume, de argamassa. Disseram: "Vinde,
edifiquemos para nós uma cidade, e uma torre cujo topo chegue até
os céus, e tornemos célebre nosso nome, para que não sejamos
espalhados por toda a terra”.
Então desceu o Senhor [lavé, o Deus hebreu] para ver a cidade e a
torre, que os filhos dos homens edificavam, e disse: "Eis que o povo é
um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora
não haverá restrição para tudo que intentam fazer. Vinde, desçamos,
e confundamos ali sua linguagem, para que um não entenda a
linguagem do outro”. Destarte, o Senhor os dispersou dali pela
superfície da terra.
O versículo que mais me interessava sugeria, com grande clareza,
que os antigos construtores da Torre de Babel queriam construir um
monumento duradouro a si mesmos, de modo que seu nome não
fosse esquecido - mesmo que isso acontecesse com sua civilização e
linguagem. Seria possível que as mesmas considerações se
aplicassem a Cholula?
Segundo os arqueólogos, apenas um punhado de monumentos no
México tem mais de 2.000 anos. Cholula era indiscutivelmente um
deles. Na verdade, ninguém podia dizer com certeza em que época
remota seus contrafortes começaram a ser construídos. Durante
milhares de anos, antes que o desenvolvimento e prolongamento da
estrutura começassem a todo vapor no século 300 a.C., parecia que
alguma outra estrutura, mais antiga, poderia ter existido no local em
que, nesse momento, estava sendo construído o grande zigurate de
Quetzalcoatl.
Um precedente reforçava ainda mais a intrigante possibilidade de que
restos de uma civilização realmente antiga pudessem estar ainda
ocultos na América Central, à espera de descoberta. Imediatamente
ao sul do campus da universidade,na Cidade do México, ao lado da
estrada principal que liga a capital a Cuernavaca, existe uma pirâmide
escalonada circular de grande complexidade (com quatro galerias e
uma escadaria central). Parcialmente escavada, sob um manto de
lava, na década de 1920, geólogos foram chamados ao local para
ajudar a datar a lava e efetuar umexame detalhado do sítio. Para
surpresa geral, concluíram eles que a erupção vulcânica que cobrira
inteiramente três lados da pirâmide (e que se espalhara e cobrira
cerca de 155 quilômetros quadradosdo terreno em volta) deveria ter
ocorrido há pelo menos sete mil anos.
Aparentemente, a prova geológica foi ignorada por historiadores e
arqueólogos, que não acreditam que qualquer civilização capaz de ter
construído uma pirâmide possa ter existido no México em data tão
remota. Vale lembrar, porém, que Byron Cummings, o arqueólogo
americano que inicialmente escavou o sítio por conta da National
Geographical Society, convenceu-se, à vista de estratificação
claramente demarcada de camadas acima e abaixo da pirâmide
(depositadas antes e depois da erupção vulcânica), que aquele era "o
templo mais antigo até agora descoberto no continente americano". E
foi ainda mais longe do que os geólogos, declarando que esse templo
"transformou-se em ruínas há cerca de 8.500 anos".
Pirâmides sobre Pirâmides
Entrar na pirâmide de Cholula dá realmente a impressão de que
penetramos em uma montanha construída pelo homem. Os túneis (e
havia mais de 9,5km deles) não eram antigos, mas deixados ali pelas
equipes de arqueólogos que haviam escavado laboriosamente o local
desde 1931 e até que os recursos financeiros acabassem em 1966.
De alguma maneira, esses corredores estreitos, de teto baixo, haviam
tomado de empréstimo, da vasta estrutura circundante, uma atmosfera
de antiguidade. Úmidos e frios, ofereciam ao visitante uma escuridão
convidativa e misteriosa.
Seguindo o feixe de uma lanterna, penetramos profundamente na
pirâmide. As escavações arqueológicas haviam revelado que a obra
não fora produto de uma única dinastia (como se pensa que
aconteceu com a pirâmide de Gizé, no Egito), mas que prosseguira
durante um período muito longo de tempo - dois mil anos, mais ou
menos, em uma estimativa conservadora. Em outras palavras, a obra
era um projeto coletivo, criado por uma força de trabalho que
englobava gerações, e recrutada em muitas e diferentes culturas, tais
como olmecas, teotihuacanos, toltecas, zapotecas, mistecas,
cholulanos e astecas, que haviam passado por Cholula desde os
primórdios da civilização no México.
Embora não se soubesse quem haviam sido os primeiros
construtores, o imponente edifício mais antigo, tanto quanto foi
possível apurar, existente no sítio fora uma alta pirâmide cônica, com
a forma de um balde invertido, nivelado no topo, onde se construíra
um templo. Muito tempo depois, outra estrutura semelhante foi
construída sobre o cume desse monte inicial, isto é, um segundo
balde invertido de argila e pedra compacta fora construído diretamente
sobre o primeiro, elevando a plataforma do templo para mais de 60m
acima da planície em volta. Daí em diante, durante os 500 anos
seguintes, mais ou menos, umas estimadas quatro ou cinco outras
culturas contribuíram para a aparência final do monumento. Fizeram
isso prolongando-lhe a base, em vários estágios, mas nunca mais
elevando a altura máxima. Dessa maneira, quase como se um plano-diretor estivesse sendo implementado, a montanha artificial de Cholula
ganhou gradualmente suas características de zigurate em quatro
níveis. Atualmente, os lados na base medem quase 450m - cerca de
duas vezes o comprimento dos lados da Grande Pirâmide de Gizé -,
tendo seu volume total sido estimado em uns estonteantes três
milhões de metros cúbicos. Essas proporções, disse sucintamente
uma autoridade no assunto, transformam-na "no maior edifício jamais
erigido na terra".
Por quê?
Por que todo esse trabalho?
Que tipo de nome esses povos da América Central estavam tentando
criar para si mesmos?
Andando pela rede de corredores e passagens, inalando o ar frio e
recendendo a argila, senti-me desagradavelmente consciente do
grande peso e massa da pirâmide acima de mim. Ali estava o maior
edifício do mundo e fora construído nesse local em homenagem a
uma divindade centro-americana sobre a qual quase nada se sabe.
Temos de agradecer aos conquistadores e à Igreja Católica por nos
deixarem em escuridão tão profunda sobre a verdadeira história de
Quetzalcoatl e seus seguidores. A demolição e profanação desse
templo antigo, a destruição de seus ídolos, altares e calendários e as
grandes fogueiras alimentadas com códices, pinturas e pergaminhos
com hieróglifos haviam quase conseguido silenciar as vozes do
passado. As lendas, porém, nos ofereciam uma peça convincente e
vívida de imagística: a recordação dos "gigantes de estatura
desmesurada", que diziam ter sido os primeiros construtores.
CAPÍTULO 16
O Santuário da Serpente
Saindo de Cholula, viajamos para leste, passando pelas prósperas
cidades de Puebla, Orizaba e Córdoba, a caminho de Veracruz e do
golfo do México. Cruzamos os picos cobertos pela névoa da Sierra
Madre Oriental, onde o ar era frio e rarefeito, e descemos em seguida
para o nível do mar e para planícies cobertas de plantações
luxuriantes de palmeiras e bananeiras. Estávamos penetrando no
coração da civilização mais antiga e mais misteriosa do México, a dos
chamados olmecas, cujo nome significa "povo da borracha".
Datando do segundo milênio a.C., os olmecas se extinguiram cerca de
1.500 anos antes da ascensão do império asteca. Os astecas, no
entanto, haviam preservado intrigantes tradições relativas a esse povo
e eram mesmo responsáveis por lhes dar nome, numa referência à
área produtora de borracha da costa do Golfo, onde se acredita que
tivessem vivido. Essa área se situa entre a moderna Veracruz, a
oeste, e Ciudad del Carmen, a leste. Nessa zona, os astecas
encontraram grande número de objetos rituais antigos, produzidos
pelos olmecas e, por motivos desconhecidos, conservaram-nos e
deram-lhes posição de destaque em seus próprios templos.
No mapa que eu usava, a linha azul do rio Coatzecoalcos penetrava
no golfo do México mais ou menos no ponto central da lendária terra
ancestral dos olmecas. Atualmente, no local onde antes havia
seringueiras, prospera a indústria do petróleo, transformando um
paraíso tropical em alguma coisa que lembra o círculo mais baixo do
Inferno de Dante. Desde o grande surto da exploração de petróleo em
1973, a cidade de Coatzecoalcos, outrora agradável e hospitaleira,
embora relativamente pobre, floresceu e transformou-se em centro de
transporte e refino de petróleo, com hotéis dotados de ar condicionado
e uma população de meio milhão de almas. O local se situa perto do
coração negro de uma terra industrializada devastada, na qual
virtualmente tudo de interessearqueológico que escapou das
depredações dos espanhóis no tempo da conquista foi destruído pela
expansão voraz da indústria petrolífera. Não era mais possível,
portanto, na base de prova robusta, confirmar ou negar a sugestão
intrigante aparentemente transmitida pelas lendas: que alguma coisa
de grande importância deve ter acontecido nessa área.
Lembrei-me que Coatzecoalcos significa "Santuário da Serpente".
Aqui, na remota antiguidade, Quetzalcoatl e seus companheiros teriam
desembarcado ao chegar ao México, vindos do outro lado do mar, em
barcos cujos "costados brilhavam como escamas de pele de
serpente". E fora daqui que se acreditava que ele viajou (em uma
jangada de serpentes), quando deixou a América Central. O Santuário
da Serpente, além disso, estava começando a parecer como o nome
da terra olmeca, que incluíra não só Coatzecoalcos, mas vários outros
sítios situados em áreas menos assoladas pelo desenvolvimento
econômico.
Inicialmente em Tres Zapotes, a oeste de Coatzecoalcos, e em
seguida em San Lorenzo e La Venta, a sul e a leste, numerosas peças
de escultura caracteristicamente olmecas haviam sido desenterradas.
Eram, sem exceção, monólitos talhados em basalto ou em materiais
analogamente duráveis. Alguns tinham a forma de cabeças
gigantescas, que pesavam até 30 toneladas. Outras eram estelas
maciças, gravadas com cenas de encontros que envolviam
aparentemente duas raças distintas da humanidade, nenhuma delas
ameríndia.
Quem quer que tivesse produzido essas notáveis obras de arte havia,
obviamente, pertencido a uma civilização refinada, bem organizada,
próspera e tecnologicamente avançada. O problema era que nada
absolutamente restava dela, exceto as obras de arte, das quais se
poderia deduzir o que se quisesse sobre o caráter e origens de tal
civilização. Era claro apenas que "os olmecas" (os arqueólogos
aceitaram contentes a designação que lhes fora dada pelos astecas)
haviam se materializado na América Central por volta do ano 1500
a.C., com uma cultura sofisticada já plenamente desenvolvida.
Santiago Tuxtla
Passamos a noite no porto pesqueiro de Alvarado e continuamos no
dia seguinte a viagem para leste. A estrada serpenteava por colinas e
vales férteis, dando-nos uma visão ocasional do golfo do México,
antes de embicar para o interior. Passamos por prados verdes
pontilhados de arbustos carregados de flores vermelhas e amarelas e
pequenas aldeias aninhadas em depressões cobertas de relva. Aqui e
ali, víamos hortas particulares, onde porcos enormes procuravam
comida entre restos de lixo doméstico. Em seguida, chegamos ao alto
de uma colina, de onde descortinamos uma paisagem vastíssima de
campos e florestas, limitados apenas pelo nevoeiro da manhã e as
silhuetas desmaiadas de montanhas distantes.
Alguns quilômetros à frente, descemos para um buraco, em cujo fundo
se estendia a velha cidade colonial de Santiago Tuxtla.
O local era uma balbúrdia de cores: fachadas espalhafatosas de lojas,
telhados vermelhos, chapéus de palha amarelos, coqueiros,
bananeiras, crianças vestidas com roupas de cores vivas. De várias
lojas e cafés saía música através de alto-falantes. Na Zocalo, a praça
principal, fomos envolvidos por ar denso de umidade e o farfalhar de
asas e canções de aves tropicais de olhos brilhantes. Um pequeno
parque de árvores frondosas ocupava o centro da praça e, no centro
do parque, como se fosse um talismã mágico, vimos um enorme
calhau cinzento, de quase 3m de altura, esculpido na forma de uma
cabeça africana coberta por um capacete. Lábios grossos e nariz
forte, olhos serenamente fechados e mandíbula inferior repousando
solidamente no chão, a cabeça exibia uma sombria e paciente
gravidade.
Ai, então, estava o primeiro mistério dos olmecas: uma peça
monumental de escultura, de mais de 2.000 anos de idade, mostrando
um sujeito de feições inconfundivelmente negróides. Não havia, claro,
negros africanos no Novo Mundohá 1.000 anos e nenhum chegou a
estas paragens até começar o tráfico de escravos, muito depois da
conquista. Há, contudo, prova paleoantropológica robusta de que uma
de muitas migrações diferentes para as Américas, durante a última
Era Glacial, consistiu, de fato, de indivíduos de raça negróide. Essa
migração teria ocorrido por volta do ano 15000 a.C.
Conhecida como a "Cabeça de Cobata", numa referência ao estado
onde foi encontrado, o imenso monólito de Zocalo é a maior de 16
esculturas olmecas semelhantes até agora escavadas no México.
Pensa-se que foi esculpida não muito tempo antes da época de Cristo
e pesa mais de 30 toneladas.
Tres Zapotes
Deixando Santiago Tuxtla, viajamos 25km na direção sudoeste,
passando por campo virgem e luxuriante em direção a Tres Zapotes,
um centro olmeca importante mais recente, que se pensa ter
florescido entre os anos 500 a.C. e 100 d.C. Atualmente reduzido à
condição de uma série de cômoros espalhados através de milharais, o
sítio passou por extensos trabalhos de escavação em 1939-40,
realizados pelo arqueólogo americano Matthew Stirling.
Lembrei-me de que historiadores dogmáticos que estudaram esse
período sustentam tenazmente a opinião de que a civilização maia foi
a mais antiga da América Central. Pode-se afirmar esse fato com
confiança, argumentam eles, porque o sistema maia de calendário,
composto de pontos e barras (e que foi recentemente decodificado)
tomrnu possível a datação precisa de um número imenso de
inscrições cerimoniais. A data mais antiga jamais encontrada em um
sítio maia corresponde ao ano 228 d.C. do calendário cristão. Por isso
mesmo, o status quo acadêmico sofreu um rude choque quando
Stirling desenterrou uma estela em Tres Zapotes que revelava uma
data anterior. Entalhada no código conhecido de pontos e barras do
calendário maia, a peça correspondia ao dia 3 de setembro do ano 32
a.C.
O chocante em tudo isso era que Tres Zapotes não era um sítio maia -
de nenhuma maneira concebível. Era inteira, exclusiva e
inequivocamente olmeca. Esse fato sugeria que os olmecas, e não os
maias, deveriam ter sido os inventores do calendário e que eles, e não
os maias, deveriam ser reconhecidos como a "cultura-mãe" da
América Central. A despeito da oposição ferrenha de gangues de
maianistas furiosos, surgiu gradualmente a verdade que a pá de
Stirling desenterrara em Tres Zapotes. Os olmecas eram muito,
muitíssimo mais antigos do que os maias. Tinham sido um povo
inteligente, civilizado, tecnologicamente avançado e, de fato, pareciam
ter inventado o sistema de pontos e barras da notação do calendário,
com a enigmática data inicial de 13 de agosto do ano 3114 a.C., e que
previa o fim do mundo no ano 2012 de nossa era.
Nas proximidades da estela do calendário, em Tres Zapotes, Stirling
desenterrou também uma cabeça gigantesca. Nesse momento, eu me
encontrava sentado em frente a ela. Datada de cerca do ano 100 a.C.,
a cabeça mede aproximadamente 1,80m de altura, com 5,48m de
circunferência e pesa mais de 10 toneladas. Tal como sua
contrapartida em Santiago Tuxtla, é inconfundivelmente a cabeça de
um africano, usando capacete bem justo, preso por um longo
barbicacho. Os lobos das orelhas são furados e fechados com
enfeites. As feições negróides pronunciadas são cortadas por fundas
rugas em cada lado do nariz e toda a face projeta-se para a frente,
acima de lábios grossos e encurvados para baixo, olhos abertos e
vigilantes, amendoados e frios. Por baixo do curioso capacete, as
sobrancelhas grossas parecem eriçadas e iradas.
Espantado com a descoberta, Stirling comentou-a nas palavras
seguintes:
A cabeça era simplesmente uma cabeça, esculpida em um único
bloco maciço de basalto. Repousava sobre uma fundação preparada
de lajes brutas de pedra. (...) Uma vez retirada a terra em volta, ela
representava um espetáculo digno de admiração. A despeito do
grande tamanho, o trabalho artesanal é delicado e seguro e perfeitas
as proporções. De caráter excepcional entre esculturas nativas
americanas, é notável pelo seu tratamento realístico. As feições são
bem nítidas e espantosamente negróides...
Pouco depois, o arqueólogo americano realizou outra descoberta
perturbadora em Tres Zapotes: brinquedos de criança sob a forma de
pequenos cães com rodas. Esses interessantes artefatos colidiam de
frente com a opinião arqueológica predominante que sustenta que a
roda não foi conhecida na América Central até o tempo da conquista.
Os "cachorromóveis" provaram, no mínimo, que o princípio da roda
era conhecido pelos olmecas, a civilização mais antiga da América
Central. E se um povo tão fértil em recursos como os olmecas havia
descoberto o princípio da roda, parece improvável que a tenha usado
apenas em brinquedos de criança.
CAPÍTULO 17
O Enigma Olmeca
Após Tres Zapotes, nossa parada seguinte seria San Lorenzo, um
sítio olmeca situado a sudoeste de Coatzecoalos, no coração do
"Santuário da Serpente" mencionado nas lendas sobre Quetzalcoad.
Em San Lorenzo, arqueólogos haviam realizado os primeiros testes de
datação com carbono em um sítio olmeca e encontrado a data de
1500 anos a.C. Não obstante, parecia que a cultura olmeca já estava
plenamente desenvolvida nessa época e nenhuma prova havia de que
a evolução tivesse ocorrido nas vizinhanças de San Lorenzo.
Nessa situação havia um mistério.
Os olmecas, afinal de contas, tinham construído uma civilização
importante, capaz de realizar obras prodigiosas de engenharia, e
desenvolvido a capacidade de esculpir e manipular imensos blocos de
pedra (várias cabeças monolíticas, pesando vinte toneladas ou até
mais, haviam sido transportadas por uma distância de até 100km,
depois de extraída a pedra nas montanhas de Tuxtla). Dessa maneira,
onde, senão na antiga San Lorenzo, a perícia tecnológica e a
organização sofisticada dos olmecas haviam sido experimentadas,
desenvolvidas e refinadas?
Curiosamente, a despeito de todos os trabalhos dos arqueólogos, nem
uma única indicação isolada de algo que pudesse ser descrito como a
"fase de desenvolvimento" da sociedade olmeca foi desenterrada em
qualquer parte do México (ou, por falar nisso, em qualquer parte do
Novo Mundo). Esse povo, cuja forma característica de expressão
artística consistia na criação de imensas cabeças negróides, parecia
ter surgido do nada.
San Lorenzo
Chegamos a San Lorenzo em fins da tarde. Nesse local, nos
primórdios da história da América Central, os olmecas haviam
construído um cômoro artificial de mais de 35m de altura, como parte
de uma estrutura imensa de cerca de 1.200m de extensão e 600m de
largura. Escalamos o cômoro que domina o local, neste momento
densamente coberto pela vegetação tropical e, do topo, estendemos a
vista por quilômetros em volta. Grande número de cômoros menores
eram também visíveis e, em volta deles, numerosas valas profundas,
que o arqueólogo Michael Coe abriu quando escavou o sítio em 1966.
A equipe de Coe realizou grande número de descobertas nesse local,
incluindo mais de 20 reservatórios artificiais, ligados por uma rede
altamente sofisticada de canaletas revestidas de basalto. Parte do
sistema foi construída sob a forma de uma barragem, tendo sido
redescoberto que água ainda escorria dali durante chuvas fortes,
como havia acontecido cerca de 3.000 anos antes. A principal linha de
drenagem corria de leste para oeste. Ela recebia, ligadas por
comportas de desenho avançado, as águas de três linhas subsidiárias.
Depois de examinar exaustivamente o sítio, os arqueólogos admitiram
que não podiam compreender a finalidade desse esmerado sistema
de eclusas e obras hidráulicas.
Tampouco encontraram solução para outro enigma: o enterro
deliberado, de acordo com alinhamentos específicos, de cinco das
maciças peças de escultura com feições negróides, agora geralmente
conhecidas como "cabeças olmecas". Nessas sepulturas peculiares e
aparentemente ritualísticas foram encontrados também mais de 60
objetos e artefatos preciosos, incluindo belos instrumentos de jade e
estatuetas primorosamente esculpidas. Algumas delas haviam sido
sistematicamente mutiladas antes do enterro.
A maneira como as esculturas de San Lorenzo foram enterradas
tornou extremamente difícil precisar-lhe a verdadeira idade, embora
fragmentos de carvão vegetal tenham sido encontrados nos mesmos
estratos que alguns objetos ali sepultados. Ao contrário das
esculturas, essas peças de carvão podiam ser submetidas à datação
pelo carbono. Feito isso, obtiveram-se resultados na faixa de 1200
a.C. Esse fato, no entanto, não significava que as esculturas tivessem
sido feitas no ano 1200 a.C. Podiam ter sido. Mas podiam ter origem
em um período centenas ou mesmo milhares de anos antes. Não era
absolutamente impossível que essas grandes obras de arte, com sua
beleza intrínseca e poder numinoso indefinível, pudessem ter sido
preservadas e veneradas por muitas e diferentes culturas, antes de
serem enterradas em San Lorenzo. O carvão vegetal encontrado
juntamente com elas provava apenas que as esculturas eram de pelo
menos 1.200 anos a.C. Mas não estabelecia qualquer limite final à sua
antiguidade.
La Venta
Deixamos San Lorenzo no momento em que o sol se punha. Dirigimo-nos para a cidade de Villahermosa, situada a mais de 150km a leste,
na província de Tabasco. Para chegar ao nosso destino, retomamos a
estrada principal que corre de Acayucán a Villahermosa e passamos
ao largo do porto de Coatzecoalcos, na zona das refinarias de
petróleo, de torres altaneiras e pontes pênseis ultramodernas. A
mudança de ritmo entre a zona rural modorrenta, onde se localiza San
Lorenzo, e a paisagem pontilhada de instalações industriais, como se
fossem marcas de bexiga, em Coatzecoalcos, era quase chocante.
Além do mais, a única razão por que os contornos desgastados pelo
tempo do sítio olmeca podiam ainda ser vistos em San Lorenzo era
que não havia sido ainda encontrado petróleo no local.
Mas fora encontrado em La Venta - para perda eterna da
arqueologia... Nesse momento estávamos passando por La Venta.
Diretamente ao norte, tomando uma estrada vicinal que se bifurca ao
sair da via expressa, essa cidade do petróleo, iluminada por lâmpadas
de vapor de sódio, brilhava no escuro como uma visão de catástrofe
nuclear. Desde a década de 1940, o local fora extensamente
"desenvolvido" pela indústria petrolífera: uma pista de pouso cortava o
sítio onde antes existira uma pirâmide de forma incomum e chaminés
lançavam relâmpagos contra o céu escuro, no mesmo lugar onde
vigilantes celestes olmecas deviam ter outrora procurado localizar o
aparecimento de planetas no firmamento. Lamentavelmente, os
buldôzeres dos exploradores do local haviam nivelado virtualmente
tudo de interesse, antes que as escavações apropriadas pudessem
ser realizadas, com o resultado de que muitas das antigas estruturas
não foram absolutamente estudadas. Jamais saberemos o que
poderiam ter informado sobre os indivíduos que as construíram e
usaram.
Matthew Stirling, que realizou escavações em Tres Zapotes, dirigiu o
grosso do trabalho arqueológico feito em La Venta, antes que o
progresso e o dinheiro do petróleo acabassem com o local. A datação
com carbono sugeria que os olmecas haviam se estabelecido na
região entre os anos 1500 e 1100 a.C. e que continuaram a ocupar o
local - que consistia de uma ilha no meio dos pântanos a leste do rio
Tonala - até mais ou menos o ano 400 a.C. Nessa ocasião, as obras
de construção foram subitamente abandonadas, procedendo-se à
desfiguração cerimonial ou demolição das estruturas, com o enterro
ritual de várias imensas cabeças de pedra e outras peças menores,
em cerimônias peculiares, exatamente como acontecera em San
Lorenzo. As sepulturas de La Venta foram primorosa e
cuidadosamente preparadas, forradas com milhares de minúsculas
telhas azuis e aterradas com camadas de argila multicolorida. Em um
local, cerca de 4.500m3 de terra foram escavados na abertura de um
buraco enorme que, em seguida, teve o fundo revestido com blocos,
depois do que toda terra foi recolocada no local. Foram encontrados
também três pavimentos de mosaico, intencionalmente cobertos por
várias camadas alternadas de argila e adobe.
A principal pirâmide de La Venta situa-se na extremidade sul do local.
Aproximadamente circular no nível do chão, tem a forma de um cone
pregueado, consistindo os lados arredondados em dez arestas
verticais, com depressões entre elas. A pirâmide media 22m de altura,
com um diâmetro de quase 65m e uma massa total que girava em
torno de 8.500m3 - um monumento impressionante sob qualquer
ângulo. O restante do sítio prolongava-se por quase meio quilômetro
ao longo de um eixo que apontava precisamente para 8° a oeste do
norte. Centralizadas nesse eixo, com todas as estruturas alinhadas
impecavelmente, havia várias pirâmides e praças menores,
plataformas e cômoros, cobrindo uma área total de mais de 5,5km2.
La Venta passa a impressão de algo deslocado e estranho, a
sensação de que sua função original não foi devidamente
compreendida. Arqueólogos descrevem o sítio como um "centro
cerimonial" e, com toda probabilidade,ele foi exatamente isso. Mas,
se quisermos ser honestos, temos de reconhecer que poderia ter sido
também várias outras coisas. A verdade é que nada se sabe sobre a
organização social, as cerimônias e os sistemas de crenças dos
olmecas. Desconhecemos a linguagem que falavam ou as tradições
que transmitiam aos filhos. Nem mesmo sabemos a que grupo étnico
pertenciam. As condições de umidade excepcional do golfo do México
impediram que fosse encontrado sequer um único esqueleto olmeca.
Na verdade, a despeito dos nomes que lhes demos e das opiniões
que sobre eles formamos, esses indivíduos, para nós, permanecem na
escuridão.
É mesmo possível que as enigmáticas "esculturas" que deixaram, que
supomos os representassem, não tenham sido absolutamente
trabalho "deles", mas de um povo muito mais antigo e esquecido. Não
pela primeira vez, quando dei por mim, estava me perguntando se
algumas das grandes cabeças e outros artefatos notáveis atribuídos
aos olmecas não poderiam ter sido passados, como uma espécie de
jóias da família, talvez ao longo de vários milênios, às culturas que
finalmente começaram a construir os cômoros e as pirâmides de San
Lorenzo e La Venta.
Se assim, de quem estamos falando quando usamos o termo
"olmeca"? Dos construtores dos cômoros? Ou dos homens poderosos
e imponentes de feições negróides que forneceram os modelos para
as cabeças monolíticas?

Por sorte, cerca de 50 peças da escultura "olmeca" monumental,
incluindo três cabeças gigantescas, foram resgatadas em La Venta
por Carlos Pelicer Camara, um poeta e historiador local que agiu
decisivamente quando descobriu que as perfurações petrolíferas da
PEMEX ameaçavam as ruínas. Pressionando fortemente os políticos
de Tabasco (província que abrange La Venta), ele conseguiu que
descobertas importantes fossem levadas para um parque nos
arredores de Villahermosa, a capital regional.
Tomadas em conjunto, essas descobertas constituem um registro
cultural precioso e insubstituível - ou melhor, uma biblioteca inteira de
registros culturais - deixados por uma civilização desaparecida.





Deus Ex Machina
Villahermosa, provinda de Tabasco
Nesse momento, eu olhava para um alto-relevo de fino acabamento,
denominado "Homem com Serpente" pelos arqueólogos que o haviam
encontrado em La Venta. De acordo com opinião abalizada, a peça
mostrava "um olmeca usando um toucado e segurando uma sacola de
incenso, e envolvido por uma serpente emplumada".
O alto-relevo havia sido talhado em uma laje de granito maciço,
medindo cerca de 1,20m de largura por 1,50m de altura e mostrava
um homem sentado, as pernas estiradas à frente, como se estivesse
estendendo os pés à procura de pedais. Na mão direita, segurava um
objeto pequeno, em forma de balde. O "toucado" que usava era uma
peça estranha e complicada. Em minha opinião, parecia mais
funcional do que cerimonial, embora eu não pudesse imaginar qual
poderia ter sido sua função. Sobre o toucado, ou talvez fosse um
console ou painel acima da cabeça, eram visíveis duas cruzes em
forma de X.
Voltei a atenção para o outro elemento importante na escultura, a
"serpente emplumada". Em um nível, a peça mostrava, de fato,
exatamente isso: uma serpente emplumada, ou de penas, o
antiqüíssimo símbolo de Quetzalcoatl, que os olmecas, por
conseguinte, deviam ter adorado (ou, pelo menos, reconhecido).
Estudiosos do assunto não põem em dúvida essa interpretação. De
modo geral, aceita-se que o culto de Quetzalcoatl era imensamente
antigo, tendo surgido na América Central em tempos pré-históricos e
que daí em diante foi objeto de devoção de numerosas culturas
durante o período histórico.
A serpente emplumada, nessa escultura particular, porém,
apresentava certas características que a colocavam em uma categoria
à parte. Ela parecia ser algo mais do que um mero símbolo religioso.
Na verdade, havia algo rígido e estruturado nela que fazia com que
parecesse mais uma peça de maquinaria.
Sussurros de Antigos Segredos
Mais tarde naquele mesmo dia, abriguei-me sob a sombra gigantesca
lançada por uma das cabeças olmecas que Carlos Pellicer Camara
resgatara de La Venta. Era a cabeça de um velho, de nariz largo e
chato e lábios grossos. Os lábios ligeiramente entreabertos
mostravam dentes fortes, quadrados. A expressão do rosto
sugeria sabedoria antiga, paciente, e os olhos pareciam fitar sem
medo a eternidade, tal como os da Grande Esfinge de Gizé, no baixo
Egito.
Seria provavelmente impossível a um escultor, pensei, inventar todas
as diferentes características combinadas de um autêntico tipo racial. A
representação de uma combinação autêntica de características
raciais, por conseguinte, implicava convincentemente que fora usado
um modelo humano.
Andei umas duas vezes em volta da grande cabeça. Ela mede 6,70m
de circunferência, pesa 19,8t, tem uma altura de quase 2,50m, foi
esculpida em basalto sólido e revela claramente uma "autêntica
combinação de características raciais". Na verdade, exatamente como
no caso de outras peças que eu tinha visto em Santiago Tuxtla e em
Tres Zapotes, ela, inconfundível e inequivocamente, representa um
negro.
O leitor pode formar sua própria opinião, após examinar as fotos
relevantes neste livro. Minha própria opinião é que as cabeças
olmecas nos proporcionam uma imagem fisiologicamente exata de
indivíduos reais, de raça negróide - africanos carismáticos e
poderosos, segundo a explicação dos estudiosos do assunto, mas
cuja presença na América Central ainda não explicaram. Tampouco
há certeza de que as cabeças tenham sido esculpidas nessa época. A
datação, pelo método do carbono, de fragmentos de carvão vegetal
encontrados nos mesmos buracos revelam apenas a idade do carvão.
Calcular a verdadeira antiguidade das próprias cabeças é assunto
muito mais complicado.
Com esses pensamentos, continuei meu lento passeio entre os
estranhos e maravilhosos monumentos de La Venta. Eles contavam
em sussurros segredos antigos - o segredo do homem na máquina... o
segredo das cabeças de negro... e, por último, mas de importância
não menor, os segredos de uma lenda trazida à vida. Isso porque me
pareceu que carne poderia ter recoberto os ossos míticos de
Quetzalcoatl, quando descobri que várias esculturas de La Venta
continham efígies realísticas não só de negros, mas de caucasianos
altos, de feições finas, nariz longo, cabelos lisos e barba cerrada,
usando mantos ondulantes...
CAPÍTULO 18
Estrangeiros bem Visíveis
Matthew Stirling, o arquéologo americano que realizou escavações em
La Venta na década de 1940, fez no local uma série de descobertas
espetaculares. E a mais espetacular foi a Estela do Homem Barbudo.
O plano do antigo sítio olmeca, conforme dissemos acima,
desenvolve-se ao longo de um eixo que aponta para 8° a oeste do
norte. Na extremidade sul do eixo, ergue-se a grande pirâmide em
forma de cone canelado, de 25m de altura. Próximo a ela, no nível do
chão, havia o que parecia um meio-fio de cerca de 30cm de altura,
fechando uma espaçosa área retangular de cerca de um quarto do
tamanho de um quarteirão urbano típico. Ao começar a desencavar o
meio-fio, os arqueólogos, com grande surpresa, descobriram que ele
consistia das partes superiores de um paredão de colunas. Mais
escavações através de camadas intactas de estratificação que haviam
ali se acumulado revelaram que as colunas tinham 3,30m de altura.
Havia mais de 600 delas, construídas tão próximas uma da outra que
formavam uma paliçada quase inexpugnável. Talhadas em basalto
sólido e trazidas para La Venta de pedreiras situadas a mais de
100km de distância, as colunas pesavam aproximadamente duas
toneladas cada.
Por que esse trabalho todo? A paliçada tinha sido construída para
proteger o quê?
Mesmo antes de começar a escavação, a ponta de um bloco maciço
de rocha estivera visível, projetando-se do solo no centro da área
fechada, cerca de 1,20m mais alta do que o suposto "meio-fio" e
inclinando-se fortemente para a frente. O bloco era coberto de
entalhes, que se estendiam para baixo, perdendo-se nas profundezas,
abaixo das camadas de terra que enchiam a antiga paliçada até uma
altura de 9,30m.
Stirling e seu grupo trabalharam durante dois dias para soltar a grande
pedra. Ao ser exposta à vista, verificaram que se tratava de uma
imponente estela de 4,50m de altura, 2,25m de largura e quase 90cm
de espessura. Os entalhes mostravam o encontro entre dois homens
altos, ambos usando mantos complicados e sapatos elegantes, com
as biqueiras voltadas para cima. Erosão ou mutilação deliberada
(praticada com grande freqüência em monumentos olmecas) haviam
causado o desfiguramento completo de uma das figuras. A outra
estava intacta. A peça mostrava com tanta clareza um homem
caucasiano de nariz afilado e barba longa e ondulante que os
confusos arqueólogos imediatamente a batizaram como "Tio Sam".
Andei vagarosamente em torno da estela de 20 toneladas, lembrando
ao mesmo tempo que ela estivera ali enterrada durante mais de 3.000
anos. Apenas durante um curto meio século, mais ou menos, desde
as escavações de Stirling, ela voltara a ver a luz do dia. Qual seria seu
destino nesse momento? Ficaria ali por mais trinta séculos, como
objeto de veneração e esplendor para as gerações futuras olharem
boquiabertas e a reverenciarem? Ou, em um período de tempo tão
dilatado assim, seria possível que as circunstâncias pudessem mudar
tanto que ela fosse, mais uma vez, sepultada e escondida?
Talvez nenhuma das duas coisas acontecesse. Lembrei-me do antigo
sistema de calendário da América Central, inventado pelos olmecas.
Segundo o sistema, e de acordo com seus sucessores mais famosos,
os calendários maias, talvez simplesmente não nos restasse tanto
tempo assim, quanto mais três milênios. Com o Quinto Sol esgotado,
um terremoto terrível estava tomando forma para destruir a
humanidade, dois dias antes do Natal do ano 2012 d.C.
Voltei a atenção para a estela. Duas coisas me pareciam claras: o
encontro mostrado na cena deveria, por alguma razão, ter sido de
imensa importância para os olmecas e daí a grandiosidade da própria
estela e a construção de uma paliçada notável de colunas para
protegê-Ia. E, como acontecia também com as cabeças de negros, era
óbvio que a face do caucasiano barbudo só poderia ter sido esculpida
à vista de um modelo humano. A verossimilhança racial era boa
demais para que um artista a tivesse inventado.
A mesma conclusão aplicava-se a duas outras figuras caucasianas,
que consegui identificar entre os monumentos remanescentes de La
Venta. Uma delas havia sido talhada em baixo-relevo em uma laje
pesada e aproximadamente circularde uns 65cm de diâmetro. Usando
o que pareciam perneiras justas, as feições dessa figura eram de um
anglo-saxão. Ele usava barba cerrada em ponta e tinha na cabeça um
curioso boné de aba mole. Na mão esquerda, mostrava uma bandeira,
ou talvez fosse uma arma de algum tipo. A mão direita, espalmada
sobre o centro do peito, parecia estar vazia. Em volta da cintura fina,
um faixa ondulante amarrada. A outra figura caucasiana, dessa vez
talhada em um lado de um pilar estreito, era também barbuda e se
vestia da mesma maneira.
Quem eram essas figuras tão patentemente estrangeiras? O que
estariam fazendo na América Central? Quando haviam chegado? E
que relacionamento mantinham com os outros estrangeiros que
haviam se estabelecido nessa quente e úmida floresta de seringueiras
- os indivíduos que haviam servido de modelos para as grandes
cabeças de negros?
Alguns pesquisadores radicais, rejeitando o dogma do isolamento do
Novo Mundo antes de 1492, haviam sugerido o que parecia uma
solução viável para o problema: os indivíduos barbudos de feições
finas poderiam ter sido fenícios do Mediterrâneo, que haviam cruzado
os Pilares de Hércules [estreito deGibraltar] e chegado ao outro lado
do Atlântico já no segundo milênio a.C. Defensores dessa teoria foram
ainda mais longe e sugeriram que osnegros mostrados nos mesmos
sítios arqueológicos eram "escravos" dos fenícios, capturados na
costa oeste da África, antes da viagem transatlântica.
Quanto mais pensava no caráter estranho das esculturas de La Venta,
mais insatisfeito eu ficava com essas idéias. Provavelmente, os
fenícios e outros povos do Velho Mundo haviam cruzado o Atlântico
muito antes de Colombo. Havia prova sólida nesse sentido, embora
elas se situem fora do escopo deste livro. O problema era que os
fenícios, que haviam deixado exemplos inconfundíveis de seu
artesanato característico em numerosas partes do mundo antigo, não
haviam feito o mesmo em sítios arqueológicos olmecas na América
Central. Nada nas cabeças de negro, nem nos altos-relevos que
mostravam caucasianos barbudos, continha quaisquer sinais de
qualquer coisa remotamente fenícia em estilo, artesanato ou caráter.
Na verdade, do ponto de vista estilístico, essas impressionantes obras
de arte não pareciam pertencer a qualquer cultura, tradição ou gênero
conhecidos. Aparentemente, não tinham antecedentes nem no Novo
nem no Velho Mundo.
Elas pareciam soltas no ar... e isso, claro, era impossível, porque
todas as formas de expressão artística têm raízes em algum lugar.
Uma Hipotética Terceira Parte
Ocorreu-me que uma explicação plausível poderia ser encontrada em
uma variante da teoria da "hipotética terceira parte", proposta
originalmente por certo número de destacados egiptólogos para
explicar um dos grandes enigmas da história e cronologia egípcias.
A evidência arqueológica sugeria que, em vez de desenvolver-se lenta
e laboriosamente, como é normal nas sociedades humanas, a
civilização do antigo Egito, tal como a dos olmecas, emergiu de
repente e inteiramente desenvolvida. Na verdade, o período de
transição de sociedade primitiva para avançada parece ter sido tão
curto que não faz qualquer tipo de sentido histórico. Perícias
tecnológicas que deviam ter levado centenas ou mesmo milhares de
anos para evoluir foram postas em uso quase que da noite para o dia -
e, aparentemente, sem quaisquer antecedentes.
Restos do período pré-dinástico,por volta do ano 3500 a.C., por
exemplo, nenhum traço mostram de escrita. Pouco depois dessa data,
súbita e inexplicavelmente, os hieróglifos, encontrados em tantas
ruínas do antigo Egito, começaram a aparecer em estado perfeito e
completo. Muito longe de ser meros desenhos de objetos ou ações,
essa linguagem escrita foi, desde o início, complexa e estruturada,
com sinais que representavam exclusivamente sons e um detalhado
sistema de símbolos numéricos. Até mesmo os hieróglifos mais
antigos eram estilizados e seguiam convenções. É claro que uma
escrita cursiva adiantada estava em uso comum quando do
surgimento da Primeira Dinastia.
O notável é que não havia traços de evolução do simples para o
sofisticado e o mesmo acontecia com a matemática, a medicina, a
astronomia, a arquitetura e um sistema espantosamente rico e
complicado religioso-mitológico (até mesmo o conteúdo básico de
obras refinadas, como o Livro dos Mortos, existia já no começo do
período dinástico).
A maioria dos egiptólogos recusa-se a levar em conta as implicações
da antiga sofisticação do Egito. Essas implicações são espantosas, de
acordo com certo número de pensadores mais ousados. John Anthony
West, especialista no início do período dinástico, pergunta:
De que modo uma civilização complexa surge inteiramente
desenvolvida? Vejam o automóvel de 1905 e comparem-no com o
carro de hoje. Não há como negar o processo de "desenvolvimento".
No Egito, porém, não encontramos paralelos. Tudo estava lá, desde o
início.
A solução do mistério é, claro, óbvia. Mas como se choca com o
molde predominante do pensamento moderno, ela raramente é levada
em conta. A civilização egípcia nãofoi um "desenvolvimento", mas um
legado.
West tem sido há muitos anos um espinho na carne do "Sistema"
egiptológico. Outros estudiosos, de opiniões mais tradicionais, porém,
confessaram também sua confusão com a subitaneidade com que
apareceu a civilização egípcia. Walter Emery, o falecido professor da
Cátedra Edwards de Egiptologia, da Universidade de Londres,
resumiu o problema da seguinte maneira:
Em um período de aproximadamente 3.400 anos antes de Cristo uma
grande mudança ocorreu no Egito e o país passou rapidamente de um
estado de cultura neolítica, com um complexo caráter tribal, para outro
de monarquia bem organizada...
Na mesma ocasião, apareceu a arte da escrita, a arquitetura
monumental, as artes e ofícios desenvolveram-se em um grau
impressionante, ao mesmo tempo em que todas as indicações
sugeriam a existência de uma civilização luxuosa. Tudo isso foi
realizado em um período de tempo relativamente curto, pois parece ter
havido poucos ou nenhum antecedente desses progressos básicos na
escrita ou na arquitetura.
Uma explicação poderia simplesmente ser que o Egito recebeu seu
súbito e decisivo empurrão cultural de alguma outra civilização
conhecida do mundo antigo. A Suméria, no baixo Eufrates,
Mesopotâmia, parece o candidato mais provável. A despeito de
numerosas diferenças básicas, uma grande variedade de técnicas de
construção e estilos arquitetônicos comuns sugerem, de fato, um elo
entre as duas regiões. Mas nenhuma dessas semelhanças é
suficientemente forte para justificar a inferência de que a conexão
poderia ter sido de qualquer maneira causal, com uma sociedade
influenciando diretamente a outra. Muito ao contrário, como sugere o
professor Emery:
A impressão que formamos é de uma conexão indireta e, talvez, a
existência de uma terceira parte, cuja influência espalhou-se pelo
Eufrates e pelo Nilo... Estudiosos modernos têm se inclinado a ignorar
a possibilidade de emigração para ambas as regiões, procedente de
alguma área hipotética e até agora não descoberta. Não obstante,
uma terceira parte, cujas realizações culturais tivessem sido
transmitidas independentemente ao Egito e à Mesopotâmia, seria a
melhor explicação para aspectos comuns e diferenças fundamentais
entre as duas civilizações.
Entre outras coisas, essa teoria lança luz sobre o fato misterioso de
que os egípcios e os sumerianos, estes da Mesopotâmia, parecem ter
adorado divindades lunares virtualmente idênticas, que figuraram
entre as mais antigas em seus respectivos panteões. (Thoth, no caso
do Egito, e Sin, no caso dos sumerianos.) De acordo com o eminente
egiptólogo sir E.A. Wallis Budge, "A semelhança entre os dois deuses
é forte demais para que seja acidental. (...) Seria errôneo dizer que os
egípcios tomaram empréstimos aos sumerianos ou que estes fizeram
o mesmo com os egípcios, mas pode-se sugerir que os literati de
ambos os povos tomaram seus sistemas teológicos emprestados de
uma fonte comum, mas extremamente antiga".
A questão, por conseguinte, consiste em saber o seguinte: qual era
essa "fonte comum, mas extremamente antiga", essa "área hipotética
mas ainda não descoberta", essa avançada "terceira parte" a que se
referem Budge e Emery? E se ela deixou um legado de alta cultura no
Egito e na Mesopotâmia, por que não teria feito o mesmo na América
Central?
Não basta argumentar que a civilização "decolou" muito mais tarde no
México do que no Oriente Médio. É possível que o impulso inicial
pudesse ter sido sentido simultaneamente em ambos os lugares, mas
que o resultado subseqüente possa ter sido inteiramente diferente.
De acordo com esse cenário, os civilizadores teriam obtido um
sucesso brilhante no Egito e na Suméria, criando nessas regiões
culturas duradouras e notáveis. No México, por outro lado (como
também parece ter acontecido no Peru), eles sofreram alguns graves
reveses - talvez começando bem, ocasião em que as cabeças de
pedra gigantescas e os altos-relevos de homens barbudos foram
feitos, mas em seguida despencando rapidamente ladeira abaixo. A
luz da civilização jamais teria sido inteiramente perdida, mas talvez as
coisas não se arrumassem novamenteaté por volta do ano 1500 a.C.,
ou no chamado "horizonte olmeca". Por essa altura, as grandes
esculturas já seriam velhíssimas, relíquias antigas de imenso poder
espiritual, com suas origens praticamente esquecidas e envolvidas em
mitos de gigantes e civilizadores barbudos.
Se assim, podemos estar olhando para faces de um passado muito
mais remoto do que imaginamos, quando fitamos os olhos
amendoados de uma das cabeças de negro ou os traços angulosos,
nitidamente cinzelados, de "Tio Sam". Não é absolutamente
impossível que essas grandes obras preservem as imagens de
homens de uma civilização desaparecida que englobava vários
diferentes grupos étnicos.
Essa, em resumo, é a teoria da "hipotética terceira parte", da forma
aplicada à América Central: a civilização do México antigo não
emergiu sem influência externa e tampouco como resultado de
influência do Velho Mundo. Em vez disso, certas culturas do Velho e
do Novo Mundo podem ter recebido um legado de influências e idéias
de uma terceira parte, em uma data extremamente remota.
De Villahermosa a Oaxaca
Antes de deixar Villahermosa, visitei o CICOM, o Centro de
Investigação das Culturas Olmeca e Maia. Eu queria saber com os
estudiosos desse estabelecimento se havia algum outro sítio
arqueológico olmeca importante na região. Para minha surpresa, eles
sugeriram que eu procurasse muito mais longe, em Monte Albán, na
província de Oaxaca, a centenas de quilômetros na direção sudoeste,
onde arqueólogos haviam aparentemente desenterrado artefatos
"olmecóides" e certo número de altos-relevos que se pensava que
representassem os próprios olmecas.
Eu e Santha havíamos pensado em seguir diretamente de
Villahermosa para a península de Yucatán, que fica a nordeste.
Embora a viagem a Monte Albán implicasse uma volta enorme,
resolvemos fazê-la, na esperança de que pudesse lançar mais alguma
luz sobre os olmecas. Além do mais, prometia ser uma viagem
espetacular, através de montanhas imensas e até o coração do vale
escondido onde se situa a cidade de Oaxaca.
Seguimos quase diretamente para oeste, deixando para trás o sítio
arqueológico perdido de La Venta, mais uma vez Coatzecoalcos,
Sayula e Loma Bonita, até o entroncamento ferroviário na cidade de
Tuxtepec. Ao fazer isso, demos gradualmente as costas ao campo
cheio de cicatrizes e enegrecido pela indústria petrolífera, cruzamos
baixas encostas atapetadas de luxuriante relva verde e corremos entre
campos plantados e em plena produção agrícola.
Em Tuxtepec, onde as sierras realmente começam, viramos
bruscamente para o sul, seguindo a Estrada 175 até Oaxaca. No
mapa, parecia pouco mais do que a metade da distância que
havíamos coberto desde Villahermosa. Descobrimos, no entanto, que
a estrada era um ziguezague complicado, de dar nos nervos e cansar
os músculos, de curvas fechadas intermináveis - estreita, tortuosa e
costeando precipícios - e que entrava nas nuvens como uma escada
no céu. Passamos por muitas diferentes camadas de vegetação tipo
alpino, cada uma delas ocupando um nicho climatológico
especializado, até que a estrada nos levou, acima das nuvens, a um
lugar onde plantas conhecidas floresciam em formas gigantescas, tal
como as trífides de John Wyndham, criando uma paisagem surrealista
e extraterrena. Precisamos de 12 horas para cobrir os 700 quilômetros
que separam Villahermosa de Oaxaca. Ao terminar a viagem, eu tinha
as mãos cheias de bolhas, por segurar o volante com força demais,
por tempo longo demais, através de um número grande demais de
curvas fechadas. Sentia os olhos turvos e continuava a ver
retrospectivamente os abismos vertiginosos pelos quais havíamos
passado na Estrada 175, nas montanhas, onde cresciam as trífides.
A cidade de Oaxaca é famosa pelos cogumelos mágicos, pela
maconha e por D.H. Lawrence (que a descreveu e a usou em parte
como cenário de seu romance The Plumed Serpent, publicado na
década de 1920). Persiste no local uma atmosfera boêmia e até tarde
da noite uma corrente de excitação parece ondular entre as multidões
que enchem os bares e os cafés, as ruas lajeadas estreitas, os velhos
prédios e as espaçosas praças.
Tomamos um quarto de frente para um dos três pátios abertos do
Hotel Las Golondrinas. A cama era confortável, estrelas brilhavam no
céu, mas, embora cansado, eu não conseguia dormir.
O que me mantinha acordado era a idéia sobre os civilizadores... os
deuses barbudos e seus companheiros. No México, como no Peru,
eles aparentemente haviam amargado um fracasso. Era isso o que as
lendas insinuavam, e não apenas elas, como descobri quando
chegamos a Monte Albán na manhã seguinte.
CAPÍTULO 19
Aventuras no Mundo Subterrâneo, Jornadas às
Estrelas
A teoria da "hipotética terceira parte" explica as semelhanças e
diferenças fundamentais entre o antigo Egito e a antiga Mesopotâmia,
ao sugerir que ambos receberam, do mesmo ancestral remoto, um
legado comum de civilização. Nenhuma sugestão séria, no entanto, foi
feita sobre o local onde poderia ter existido essa civilização ancestral,
sua natureza, ou quando floresceu. Tal como um buraco negro no
espaço, ela não podia ser vista. Ainda assim, podemos deduzir-lhe a
presença pelos efeitos que produziu sobre coisas que podem ser
vistas - neste caso, as civilizações da Suméria e do Egito.
Seria possível que o mesmo ancestral misterioso, a mesma invisível
fonte de influência, pudesse ter deixado sua marca no México? Se
assim, caberia esperar encontrar certas semelhanças culturais entre
as antigas civilizações do Méxicoe as da Suméria e do Egito. E
também imensas diferenças, resultantes dos longos períodos de
evolução divergente que separaram essas áreas nos tempos
históricos. Mas poderíamos esperar também que as diferenças fossem
menores entre a Suméria e o Egito, que mantiveram contatos
regulares entre si no período histórico, do que entre as duas culturas
do Oriente Médio e as culturas da distante América Central, que, na
melhor das hipóteses, teriam tido apenas contatos ocasionais,
superficiais e intermitentes, antes da "descoberta" do Novo Mundo por
Colombo em 1492.
Devoradores de Mortos, Monstros da Terra, Reis
Estelares, Anões e Outros Parentes
Por alguma curiosa razão que não foi ainda explicada, os antigos
egípcios tinham uma preferência especial e reverência por anões. O
mesmo aconteceu com os povos civilizados da antiga América
Central, retroagindo diretamente ao tempo dos olmecas. Em ambos os
casos, acreditava-se que os anões mantinham contato direto com os
deuses. E ainda em ambos os casos, eram preferidos como
dançarinos e mostrados nesse papel em obras de arte.
Nos primórdios do período dinástico do Egito, há mais de 4.500 anos,
uma "Enéade" de nove divindades onipotentes era objeto de uma
adoração especial dos sacerdotes de Heliópolis. De idêntica maneira,
na América Central, tanto os astecas quanto os maias acreditavam em
um sistema todo-poderoso de nove divindades.
O Popol Vuh, o livro sagrado dos antigos maias quiche do México e da
Guatemala, contém várias passagens que indicam claramente a
crença no "renascimento estelar" - a reencarnação dos mortos como
estrelas. Depois de terem sido mortos, por exemplo, os Gêmeos
Heróicos chamados Hunahpu e Xbalanque "ergueram-se em meio à
luz e, no mesmo instante, foram levados para o céu... Em seguida, o
arco do céu e a face da terra foram iluminados. E eles habitaram o
céu". Na mesma ocasião, subiram também 400 companheiros dos
gêmeos, que haviam sido também mortos, "e assim eles se tornaram
novamente companheiros de Hunahpu e Xbalanque e foram
transformados em estrelas no céu".
A maioria das tradições sobre o deus-rei Quetzalcoatl, como vimos
acima, focaliza-se em suas façanhas e ensinamentos como civilizador.
Seus seguidores no México antigo, porém, acreditavam também que
sua manifestação humana havia experimentado a morte e que, em
seguida, ele havia renascido como estrela.
É pelo menos curioso, para dizer o mínimo, descobrir que no Egito, na
Era das Pirâmides, há mais de 4.000 anos, a religião oficial girava em
torno da crença de que o faraó morto renascia como estrela. Eram
entoados encantamentos que tinham a finalidade de facilitar o rápido
renascimento nos céus do monarca falecido. "Oh, rei, tu és a Grande
estrela, o Companheiro de Órion, que cruza o céu com Órion... sobes
do leste do céu, sendo renovado em tua devida estação e
rejuvenescido em teu devido tempo...". Vale lembrar aqui que já
encontramos a constelação de Órion nas planícies de Nazca e que
iremos reencontrá-la...
Entrementes, estudemos o Antigo Livro Egípcio dos Mortos. Parte de
seu conteúdo é tão antigo quanto a própria civilização do Egito e serve
como uma espécie de Baedecker [guia turístico] para a transmigração
da alma. O livro instrui o morto sobre a maneira de superar os perigos
da vida após a morte, permite-lhe assumir a forma de várias criaturas
míticas e fornece-lhe as senhas necessárias para ter entrada nos
vários estágios, ou níveis, do mundo subterrâneo.
Seria uma coincidência que os povos da antiga América Central
tivessem uma visão paralela dos perigos da vida após a morte?
Reinava a crença geral de que o mundo subterrâneo consistia de nove
estratos, pelos quais os mortos viajariam durante quatro anos,
superando obstáculos e perigos, Os estratos tinham nomes auto-explicativos, tais como "lugar onde as montanhas se chocam", "lugar
onde flechas são disparadas", "montanha das facas", e assim por
diante, Na antiga América Central e no antigo Egito, acreditava-se que
a viagem do morto através do mundo subterrâneo era feito em barco,
acompanhado de "deuses remadores", que o levavam de um estágio a
outro. Descobriu-se que a tumba de "Pente Duplo", governante maia
da cidade de Tikal, no século VIII, continha uma representação dessa
cena. Imagens semelhantes são encontradas em todo o Vale dos
Reis, no Alto Egito, especialmente na tumba de Tutmósis III, um faraó
da VIII Dinastia. Seria uma coincidência que os passageiros da barca
do falecido faraó e a canoa na qual Pente Duplo fez sua viagem final
incluíssem (em ambos os casos) um cão ou divindade com cabeça de
cão, uma ave ou divindade com cabeça de ave, um símio ou divindade
com cabeça de símio?
O sétimo estrato do antigo mundo subterrâneo mexicano era
denominado Teocoyolcualloya, "lugar onde feras devoram corações".
Seria uma coincidência que um dos estágios do submundo do Egito
antigo, "a Galeria do Julgamento", implicasse uma série quase
idêntica de símbolos? Nesse momento crucial, o coração do morto era
pesado em comparação com uma pena. Se estivesse cheio de
pecado, o coração inclinaria a balança em sua direção. O deus Thoth
anotava o julgamento em uma paleta e o coração era imediatamente
devorado por uma terrível fera, parte crocodilo, parte hipopótamo,
parte leão, que era chamada de "a Devoradora de Mortos".
Por último, voltemos ao Egito da Era das Pirâmides e à condição
privilegiada do faraó, que lhe permitia evitar o julgamento no
submundo e renascer como estrela. Encantamentos rituais faziam
parte do processo. Igualmente importante era uma cerimônia
misteriosa, conhecida como "abertura da boca", sempre realizada
após a morte do faraó e que arqueólogos acreditam datar dos tempos
pré-dinásticos. O sumo sacerdote e quatro atendentes participavam do
rito, usando o peshenkhef, um instrumento cerimonial de corte,
empregado para "abrir a boca" do deus-rei falecido, medida esta
julgada necessária para lhe garantira ressurreição nos céus. Altos-relevos e vinhetas remanescentes mostrando a cerimônia não deixam
dúvida de que o cadáver mumificado recebia um duro golpe físico com
o peshenkhef. Além disso, surgiu recentemente prova indicando que
uma das câmaras na Grande Pirâmide de Gizé pode ter servido como
local da cerimônia.
Tudo isso tem uma contrapartida estranha e deturpada no México.
Vimos que eram gerais os sacrifícios humanos nos tempos anteriores
à conquista. Seria uma coincidência que o altar sacrificial fosse uma
pirâmide, que da cerimônia se encarregassem um sumo sacerdote e
quatro atendentes, que um instrumento de corte, a faca sacrificial,
fosse usada para aplicar um forte golpe físico no corpo da vítima, e
que se acreditasse que sua alma subia diretamente para o céu,
evitando os perigos do submundo?
À medida que essas "coincidências"continuam a multiplicar-se, é
razoável perguntar se não pode ter havido entre elas alguma ligação
subjacente. Este é certamente o caso quando aprendemos que o
termo geral para "sacrifício" em toda a América Central antiga era
p'achi, que significava "abrir a boca".
Poderia acontecer, por conseguinte, que os fatos que aqui estudamos,
ocorridos em áreas geográficas tão distantes entre si e em diferentes
períodos da história, não fossem apenas coincidências espantosas,
mas alguma obscura e deturpada memória, com origem na
antiguidade mais distante? Nada indica que a cerimônia egípcia de
abertura da boca tenha influenciado diretamente a cerimônia
mexicana do mesmo nome (ou vice-versa, por falar nisso). As
diferenças fundamentais entre os dois casos eliminam essa
possibilidade. O que de fato parece possível, no entanto, é que suas
semelhanças possam ser resquícios de um legado comum, recebido
de um ancestral comum. Os povos da América Central fizeram uma
coisa com o legado e, os egípcios, outra, embora algum simbolismo e
nomenclatura comum fossem conservados por ambas.
Este não é o lugar para nos alongarmos sobre a minha impressão de
que existiu uma ligação antiga e vaga,que emerge da prova egípcia e
meso-americana. Mas, antes de continuar, importa notar que uma
"conectividade" semelhante liga os sistemas de crença do México pré-colombiano e os da Suméria, na Mesopotâmia. Mais uma vez, a
evidência sugere mais um antigo ancestral comum do que qualquer
influência direta.
Vejamos o caso de Oannes, por exemplo.
"Oannes" é a versão grega do Uan sumeriano, o nome do ser anfíbio
descrito, na Parte lI, que se acreditava que trouxe as artes e as
perícias da civilização à Mesopotâmia. Lendas que datam de pelo
menos 5.000 anos contam que Uan vivia no fundo do mar, emergindo
todas as manhãs das águas do golfo Pérsico para civilizar e ensinar à
humanidade. Será uma coincidência que uaana, na língua maia,
significasse "aquele que mora na água"?
Vejamos também o caso de Tiamat, a deusa sumeriana do oceano e
das forças do caos primitivo, sempre apresentada como um monstro
devorador. Segundo a tradição mesopotâmica, Tiamat voltou-se
contra outras divindades e desencadeou um holocausto de destruição,
antes de ser finalmente destruída por Marduk, o herói celestial:
Ela, Tiamat, abriu a boca para devorá-lo.
Ele liberou o vento maligno, e ela não conseguiu mais fechar os
lábios.
Os ventos terríveis encheram-lhe a pança e o coração foi capturado,
Ela ficou de boca escancarada,
Ele lançou uma flecha, que lhe perfurou a pança,
Suas partes internas ele fendeu, e partiu-lhe em dois o coração,
Tornou-a impotente e destruiu-lhe a vida,
Derrubou-lhe o corpo e em cima dele se pôs de pé.
De que maneira dar prosseguimento a um ato como esse?
Marduk podia fazer isso. Olhando o cadáver monstruoso da
adversária, "concebeu obras de arte" e o grande plano da criação do
mundo começou a tomar forma em sua mente. Seu primeiro ato foi
abrir em dois o crânio de Tiamat e cortar-lhe as artérias. Em seguida,
quebrou-a em duas partes "como se fosse um peixe seco", usando
uma metade para fazer o telhado dos céus e a outra para criar a
superfície da terra. Dos seios deTiamat fez montanhas, do cuspe,
nuvens, e ordenou que os rios Tigre e Eufrates fluíssem de seus
olhos".
Lenda estranha, violenta, e antiquíssima.
As antigas civilizações da América Central tiveram sua própria versão
dessa história. Neste caso, Quetzalcoatl, em sua encarnação de
divindade criadora, assumiu o papel de Marduk, enquanto o de Tiamat
era representado por Cipactli, o "Grande Monstro da Terra".
Quetzalcoatl agarrou as pernas deCipactli "enquanto ela nadava nas
águas primevas e partiu-lhe o corpo em duas metades, uma parte
formando o céu e, a outra, a terra". Usando-lhe os cabelos e a pele,
criou a relva, flores e ervas, "de seus olhos, poços e fontes, e de seus
ombros, montanhas".
Serão esses paralelos peculiares entre os mitos sumeriano e
mexicano apenas pura coincidência ou poderiam ambos ter sido
marcados pelas impressões digitais de uma civilização perdida? Se
assim, as faces dos heróis dessa cultura antiga podem ter sido
realmente talhadas em pedra e transmitidas como heranças através
de milhares de anos, às vezes à vista de todos, em outras ocasiões
sepultadas, até que fossem desenterradas, pela última vez, por
arqueólogos em nossa era e recebido rótulos como "Cabeça Olmeca"
e "Tio Sam".
As faces desses heróis aparecemtambém em Monte Albán, onde,
aparentemente, contam uma triste história.
Monte Albán: A Queda dos Poderosos
Sítio arqueológico que se pensa ter uns 3.000 anos, Monte Albán
situa-se no topo de uma imensa colina artificialmente nivelada, a
cavaleiro de Oaxaca. O sítio consiste de uma enorme área retangular,
a Grande Plaza, cercada por grupos de pirâmides e outros prédios,
dispostos em relações geométricas precisas entre si. A impressão
geral causada pelo local é de harmonia e proporção, emergindo de um
plano bem-estruturado e simétrico.
Seguindo os conselhos dos estudiosos do CICOM, com quem eu
havia conversado antes de deixar Villahermosa, dirigi-me em primeiro
lugar para o canto sudoeste mais distante do sítio. Ali, empilhado
frouxamente contra o lado de uma pirâmide baixa, estavam os objetos
que haviam me levado a fazer toda aquela viagem: várias dezenas de
estelas entalhadas, mostrando negros e caucasianos... iguais na
vida... iguais na morte.
Se uma grande civilização realmente se perdeu nas brumas da
história, e se essas esculturas contam parte de sua história, a
mensagem transmitida é de igualdade racial. Ninguém que tenha visto
o orgulho, ou sentido o carisma, dasgrandes cabeças de negros de
La Venta poderia imaginar realmente que os modelos originais dessas
esculturas magistrais tivessem sido escravos. Nem os homens de
rosto fino e barba cerrada davam a impressão de que tivessem
dobrado os joelhos diante de alguém. Eles, também, exibiam uma
postura aristocrática.
Em Monte Albán, contudo, parecia ter sido talhado na pedra um
registro da queda desses homens poderosos. E nada indicava que
essa decadência pudesse ter sido obra dos mesmos homens que
haviam criado as esculturas de La Venta. O padrão de artesanato era
baixo demais para isso. Mas era inegável - quem quer que tenham
sido e por mais inferior que fosse seu trabalho - que esses artistas
haviam tentado mostrar os mesmos sujeitos negróides e os mesmos
caucasianos barbudos que eu vira em La Venta. Neste último local, as
esculturas haviam refletido força, poder e vitalidade. Ali em Monte
Albán, os estrangeiros notáveis eram cadáveres, todos nus, a maioria
castrada, alguns dobrados em posição fetal, como se para evitar uma
chuva de golpes, enquanto outros pareciam caídos, com as pernas
frouxamente abertas.
Arqueólogos disseram que as esculturas mostravam "cadáveres de
prisioneiros capturados em combate".
Que prisioneiros? De que origem?
O local, afinal de contas, situava-se na América Central, no Novo
Mundo, tinha sido construído milhares de anos antes de Colombo. Por
isso mesmo, não era estranho que essas imagens de baixas no
campo de batalha não mostrassem umúnico americano nativo, mas
apenas e exclusivamente tipos raciais do Velho Mundo?
Por alguma razão, estudiosos ortodoxos nada achavam de enigmático
nessa situação, mesmo que, por seus próprios cálculos, as esculturas
fossem extremamente antigas (datando de alguma época entre os
anos 1000 e 600 a.C.). Como em outros locais, esse marco temporal
fora obtido em testes com matéria orgânica encontrada conjuntamente
com elas, e não nas próprias esculturas, que haviam sido entalhadas
em estelas de granito e que por isso mesmo era difícil de datar
objetivamente.
Legado
Uma inscrição hieroglífica refinada, ainda não decifrada, mas
inteiramente desenvolvida, foi encontrada em Monte Albán, grande
parte na mesma estela que as grosseiras figuras negróide e
caucasiana. Acreditam especialistas que se trata "da escrita mais
antiga conhecida no México". Era claro também que o povo que vivera
nesse local havia sido constituído de construtores talentosos e mais
do que habitualmente preocupados com astronomia. Um observatório,
consistindo de uma estrutura estranha, em forma de ponta de flecha,
orienta-se em um ângulo de 45º em relação ao eixo principal (que foi
deliberadamente desviado em vários graus em relação à linha norte-sul). Penetrando no laboratório, descobri que era um labirinto de
túneis minúsculos, estreitos e de íngremes escadas internas,
proporcionando linhas de visada para diferentes regiões do céu.
O povo de Monte Albán, tal como o de Tres Zapotes, deixou prova
clara de seu conhecimento de matemática, sob a forma de
computações em barras e pontos. Haviam usado também o notável
calendário, criado pelos olmecas e fortemente ligado aos maias, que
surgira depois, e que prevê o fim do mundo no dia 23 de dezembro do
ano 2012 de nossa era.
Se o calendário e a preocupação com o tempo haviam sido partes do
legado de uma civilização antiga e esquecida, os maias devem ser
classificados como seus herdeiros mais fiéis e inspirados. "O tempo",
como disse o arqueólogo Eric Thompson em 1950, "era o mistério
supremo da religião maia, um tema que saturava o pensamento desse
povo em uma extensão sem paralelo na história da humanidade".
Enquanto continuava minhas jornadaspela América Central, eu me
sentia cada vez mais profundamente atraído para os labirintos desse
enigma estranho e intimidador.
CAPÍTULO 20
Os Filhos dos Primeiros Homens
Palenque, província de Chiapas
A noite estava caindo. Sentado exatamente embaixo do canto
nordeste do Templo das Inscrições, de origem maia, olhei para o
norte, por cima da selva que mergulhava na noite e onde a terra caía
na direção da planície de inundação de Usumacinta.
O Templo, composto de três câmaras, repousava no alto de uma
pirâmide de nove níveis, de pouco mais de 30m de altura. As linhas
suaves e harmoniosas da estrutura davam-lhe uma aparência de
delicadeza, mas não de fraqueza. O monumento parecia sólido,
fincado na terra, duradouro - uma criação de pura geometria e
imaginação.
Olhando para a direita, o Palácio, um espaçoso complexo retangular
assentado sobre uma base piramidal, dominado por uma torre estreita
de quatro andares, que se pensa ter sido usada como observatório
astronômico por sacerdotes maias.
Por toda parte em volta, onde papagaios e araras de cores vivas
passavam em vôos rasantes pelo topo das árvores, havia certo
número de outras estruturas espetaculares, meio engolidas pela
floresta que avançava. Entre elas, destacavam-se o Templo da Cruz
Ornamentada com Folhas, o Templo do Sol, o Templo do Conde e o
Templo do Leão - nomes, sem exceção, dados por arqueólogos. Uma
parte enorme daquilo que os maias haviam representado, cultivado,
acreditado e lembrado de passadas eras estava irrecuperavelmente
perdida. Embora tivéssemos há muito tempo aprendido a ler as datas
que eles atribuíam a determinados acontecimentos, estávamos
justamente começando a obter progresso na decifração de seus
complicados hieróglifos.
Levantei-me, subi os últimos degrause entrei na câmara central do
Templo. Encaixada na parede dos fundos, vi duas grandes lajes
cinzentas e nelas, inscritos em linhas organizadas como peças em um
tabuleiro de xadrez, observei 620 glifos maias separados. Tinham a
forma de faces, monstruosas e humanas, juntamente com um
bestiário de criaturas míticas, vistas em contorções.
O que diziam aqueles glifos? Ninguém sabia ao certo, porque as
inscrições, que constituíam uma mistura de escrita pictográfica e
símbolos fonéticos, não haviam sido ainda inteiramente decodificadas.
Era evidente, no entanto, que certo número de glifos referiam-se a
épocas recuadas milhares de anos no passado e que falavam de
homens e deuses que haviam desempenhado algum papel em
eventos pré-históricos.
A Tumba de Pacal
À esquerda dos hieróglifos, aberta nas imensas lajes do piso do
templo, uma escada íngreme descia para um nível que conduzia a
uma câmara, escondida profundamente nas entranhas da pirâmide, a
tumba do Senhor Pacal. Os degraus, de blocos de pedra calcária
altamente polidos, eram estreitos e surpreendentemente
escorregadios e úmidos. Movendo-me de lado como caranguejo,
acendi a lanterna elétrica e desci cauteloso pela escuridão, apoiando-me o tempo todo na parede sul.
Essa escada úmida tinha sido uma passagem secreta desde a data
em que fora fechada, por volta do ano 683 d.C., até junho de 1952,
época em que o arqueólogo mexicano Alberto Ruz levantou as lajes
do chão do templo. Embora uma segunda tumba do mesmo tipo fosse
descoberta em Palenque no ano de 1994, Ruz teve a honra de ser o
primeiro homem a descobrir essa característica no interior de uma
pirâmide do Novo Mundo. A escada fora deliberadamente enchida
com entulho pelos construtores e mais de quatro anos se passaram
antes que os arqueólogos desimpedissem o local e chegassem ao
fundo.
Nesse momento, eles penetraram numa câmara estreita, sustentada
por modilhões. Espalhados no chão, viram os esqueletos bolorentos
de cinco ou, possivelmente, seis jovens vítimas sacrificiais. Uma
imensa laje triangular era visível na extremidade mais distante da
câmara. Ao removê-la, Ruz descobriu uma tumba notável. Descreveu-a mais tarde como "uma enorme sala que dava a impressão de
talhada em gelo, um tipo de caverna, cujas paredes e teto pareciam
ter sido planejados como superfícies perfeitas, ou uma capela
abandonada, com uma cúpula afestonada por cortinas de estalactites
e de cujo chão subiam estalagmites, como gotas de cera de uma
vela".
A sala, com o teto também sustentado por modilhões, media 9m de
comprimento por 7m de altura. Nas paredes em volta, em altos-relevos de estuque, podiam ser vistas as figuras dos Senhores da
Noite, com as pernas abertas - a "Enéade" das nove divindades que
reinavam sobre as horas da escuridão. No centro, e dominadas por
essas figuras, havia um enorme sarcófago monolítico, fechado com
uma laje, pesando cinco toneladas, de pedra caprichosamente
entalhada. No interior do sarcófago foi encontrado o esqueleto de um
homem alto, vestido com um tesouro de ornamentos de jade. Uma
máscara mortuária composta de 200 fragmentos de jade havia sido
afixada à face da caveira. Estes, supostamente, eram os restos
mortais de Pacal, monarca de Palenque no século VII d.C. As
inscrições informavam que o monarca tivera 80 anos à época de sua
morte, embora o esqueleto vestido de jade encontrado pelos
arqueólogos parecesse pertencer a um homem de metade dessa
idade.
Tendo chegado ao pé da escada, a uns 25m abaixo do chão do
templo, cruzei a câmara, onde se espalhavam os restos das vítimas
sacrificiais, e olhei para a tumba de Pacal. O ar ali era úmido,
recendendo a bolor e podridão e surpreendentemente frio. O
sarcófago, encaixado no piso da tumba, tinha uma forma curiosa,
alargando-se estranhamente nos pés, como se fosse um antigo caixão
de múmia egípcia. Os caixões, de madeira, possuíam bases largas,
uma vez que, freqüentemente, eram colocados na vertical. O caixão
de Pacal era de pedra maciça e se encontrava em posição
rigorosamente horizontal. Por que, então, os artesãos maias se deram
a tanto trabalho para alargar sua base, quando deviam ter sabido que
ela não serviria a nenhum fim útil? Poderiam estar eles copiando
mecanicamente o projeto de algum modelo antigo, muito depois de a
raison d'être do projeto ter sido esquecida? Tal como a crença sobre
os perigos da vida após a morte, o sarcófago de Pacal não poderia ser
exemplo de um legado comum que ligava o Egito antigo às culturas
antigas da América Central?
De forma retangular, a pesada tampa de pedra do sarcófago media
25cm de espessura, por 90cm de largura e 3,80m de comprimento. A
tampa, igualmente, parecia ter sido modelada de acordo com o
mesmo original que inspirara os magníficos blocos entalhados que os
antigos egípcios haviam usado para idêntico fim. Na verdade, a tampa
não teria parecido deslocada no Valedos Reis. Mas havia uma grande
diferença. A cena entalhada na parte superior do sarcófago diferia de
tudo que jamais saiu do Egito. Iluminada pelo feixe da lanterna, ela
mostrava um homem de rosto escanhoado, vestido com o que parecia
um traje justo, com mangas e pernas de calça fechadas nos pulsos e
tornozelos com abotoaduras refinadas. O homem estava semi-reclinado em um assento individual de encosto curvo, que dava apoio
à parte baixa das costas e às coxas, com a nuca encostada
confortavelmente em algum tipo de descanso para a cabeça,
enquanto olhava atentamente à frente. As mãos pareciam em
movimento, como se estivesse operando alavancas e controles, os
pés descalços cruzados frouxamente à frente.
Seria ele Pacal, o rei maia?
Em caso afirmativo, por que era mostrado operando algum tipo de
máquina? Ninguém supunha que os maias tivessem possuído
máquinas. Pensava-se que nem mesmo haviam descoberto a roda.
Ainda assim, com painéis laterais, rebites, tubos e outras engenhocas,
a estrutura onde Pacal se encontrava reclinado lembrava muito mais
um dispositivo tecnológico do que "a transição da alma viva de um
homem para o reino dos mortos",como alegou uma autoridade, ou o
rei "caindo nas mandíbulas descarnadas do monstro da terra”, como
argumentou outra.
Lembrei-me do "Homem como Serpente", o alto-relevo olmeca
descrito no Capítulo 17. A imagem também parecia uma
representação ingênua de um artefato tecnológico. Além do mais, o
"Homem como Serpente" fora achado em La Venta, onde estivera
ligado a várias figuras barbudas, aparentemente caucasianas. A
tumba de Pacal era pelo menos mil anos mais recente do que
qualquer um dos tesouros de La Venta. Não obstante, uma minúscula
estatueta de jade encontrada junto do esqueleto, dentro do sarcófago,
parecia ser muito mais antiga do que outros artigos funerários também
colocados no mesmo local. A estatueta representava um caucasiano
idoso, usando manto longo, com barba pontuda em cavanhaque.
A Pirâmide do Mago
Uxmal Yúcatan
Em uma tarde tempestuosa, a 700km ao norte de Palenque, comecei
a subir os degraus de mais uma pirâmide. Era uma estrutura íngreme,
de forma oval e não mais quadrada, com 75m de comprimento na
base e 27,50m de largura, e, além disso, muito alta, erguendo-se a
35m acima da planície em volta.
Desde tempos imemoriais, essa estrutura, que de fato lembrava o
castelo de um necromante, era conhecida como a "Pirâmide do Mago"
e também como a "Casa do Anão". Esses nomes tinham origem numa
lenda maia, que dizia que um anão dotado de poderes sobrenaturais
havia construído toda a estrutura em uma única noite.
Os degraus, à medida que eu os galgava, pareciam cada vez mais
perversamente estreitos. O instinto me dizia para me inclinar para a
frente, me achatar contra o lado da pirâmide, e me agarrar ali com
todas as forças. Em vez disso, levantei a vista para o céu irado e
nublado. Bandos de aves voavam por ali, piando feito loucas, como se
procurando abrigo contra um desastre iminente, e a grossa camada de
nuvens baixas que havia tapado o sol algumas horas antes mostrava-se nesse momento tão agitada por ventos fortes que parecia ferver.
A Pirâmide do Mago não era absolutamente excepcional no sentido de
estar associada a poderes sobrenaturais de anões, cujas perícias
como arquitetos e pedreiros eram renomadas na América Central. "O
trabalho de construção era fácil para eles", declarava uma típica lenda
maia. "Para eles, bastava assoviar e pesadas rochas se encaixavam
em seus lugares."
Uma tradição muito semelhante, como o leitor talvez se lembre, alega
que os gigantescos blocos de pedra da misteriosa cidade andina de
Tiahuanaco haviam sido "transportados pelo ar ao som de uma
trombeta".
Na América Central e nas distantes regiões dos Andes, portanto, sons
estranhos estiveram ligados à levitação miraculosa de rochas
maciças.
O que devia eu deduzir de tudo isso? Talvez, devido a alguma
coincidência, duas "fantasias" quase idênticas tinham sido inventadas
independentemente em áreas geograficamente muito distantes entre
si. Esse fato, porém, não parecia muito provável. Também digna de
consideração era a possibilidade de que recordações comuns de uma
antiga tecnologia de construção pudessem ter sido preservadas em
histórias como essas, uma tecnologia capaz de içar pedras enormes
do chão com "milagrosa" facilidade. Poderia ser relevante neste
particular que memórias de milagres quase idênticos tivessem sido
preservadas no antigo Egito? Nessa região, contava uma tradição
local típica que um mago erguera no ar "um cofre imenso de pedra de
200 côvados de comprimento por 50 de largura"?
Os lados da escada que eu subia eram ricamente decorados com o
que o explorador americano do século XIX, John Lloyd Stephens,
descreveu como "uma espécie de mosaico esculpido". Curiosamente,
embora a Pirâmide do Mago tivesse sido construída muitos séculos
antes da conquista, o símbolo mais mostrado nesses mosaicos era
algo muito parecido com uma cruz cristã. Na verdade, havia dois tipos
diferentes de cruzes "cristãs": a primeira, a croix-patte de braços
largos, preferida pelos templários e outras ordens de cruzados dos
séculos XII e XIII, e, a segunda, a cruz em forma de X de Santo André.
Após subir mais um curto lance de degraus, cheguei ao templo,
situado no próprio topo da Pirâmide do Mago. Consistia a estrutura de
uma câmara com teto sustentado por modilhões, no qual se
penduravam inúmeros morcegos. Tal como as aves e as nuvens, eles
estavam visivelmente perturbados com a sensação de que uma
grande tempestade era iminente. Em uma massa peluda, eles se
mexiam inquietos para cima e para baixo, fechando e abrindo as
pequenas asas coriáceas.
Parei para descansar um pouco na alta plataforma em volta da
câmara. Daí, olhando para baixo, vi muito mais cruzes. Elas estavam
literalmente em todos os lugares nessa bizarra e antiga estrutura.
Lembrei-me da cidade andina de Tiahuanaco e das cruzes nela
gravadas, nos distantes tempos pré-colombianos, em alguns dos
grandes blocos de pedra espalhados em volta do edifício conhecido
como Puma Punku. No "Homem como Serpente", a escultura olmeca
de La Venta, duas cruzes de Santo André já haviam sido gravadas
muito antes do nascimento de Cristo. E nesse momento, na Pirâmide
do Mago, no sítio arqueológico maia de Uxmal, eu as reencontrava.
Homens barbudos...
Serpentes...
Cruzes...
Que probabilidade havia de que fosse mero acaso que símbolos tão
diferentes como esses se repetissem em culturas separadas por
enormes distâncias e em diferentes períodos da história? Por que
eram gravados com tanta freqüência no contexto de obras de arte e
esculturas sofisticadas?
Uma Ciência de Profecia
Não pela primeira vez, desconfiei que pudesse estar olhando para
signos e ícones deixados por algum culto ou sociedade secreta que
tentara manter, acesa na América Central, a luz da civilização (e,
talvez, em outros locais) em longas eras de trevas. Achei notável que
os temas do homem barbudo, da Serpente Emplumada e da cruz
reaparecessem em todas as ocasiões, e em todos os locais, onde
eram encontrados indícios de que uma civilização tecnologicamente
avançada e ainda não identificada poderia, outrora, ter mantido
contato com culturas nativas. E uma atmosfera de grande antiguidade
envolvia esse contato, como se tivesse ocorrido em uma data tão
remota que fora quase esquecida.
Pensei mais uma vez na maneira súbita como os olmecas haviam
surgido, por volta de meados do segundo milênio a.C., emergindo dos
redemoinhos nevoentos de uma pré-história opaca. Toda evidência
arqueológica indicava que, desde o início, eles haviam venerado
enormes cabeças de pedra e estelas com representações de homens
barbudos. Eu me sentia cada vez mais atraído para a possibilidade de
que algumas dessas notáveis peças de escultura pudessem ter sido
parte de uma vasta herança de civilização, transmitida aos povos da
América Central muitos milhares de anos antes do segundo milênio
a.C. e, em seguida, confiada à guarda de um culto de sabedoria
secreta, talvez o culto de Quetzalcoatl.
Muita coisa havia sido perdida. Não obstante, as tribos dessa região -
em especial, os maias, os construtores de Palenque e Uxmal - haviam
preservado algo ainda mais misterioso e maravilhoso do que os
monólitos enigmáticos, algo que se proclamava, com uma insistência
ainda maior, ser o legado de uma civilização mais antiga e mais
adiantada. Veremos no capítulo seguinte que se tratava da ciência
mística de um povo antigo que consultava as estrelas, de uma ciência
do tempo, de medição e de predição - até mesmo uma ciência antiga
de profecia - que os maias preservaram com a maior perfeição.
Juntamente com essa ciência, eles herdaram memórias de uma
inundação terrível e destrutiva da terra e um legado peculiar de
conhecimento empírico, conhecimento este de uma ordem mais alta
que eles, realmente, não podiam ter possuído, conhecimento este que
só recentemente readquirimos.

CAPÍTULO 21
Um Computador para Calcular o Fim do Mundo
Os maias sabiam a origem de seus conhecimentos adiantados. Eles
lhes haviam sido transmitidos, diziam, pelos Primeiros Homens, as
criaturas de Quetzalcoatl, que eram chamados de Balam-Quitz (o
Jaguar do Doce Sorriso), Balam-Acab (o Jaguar da Noite), Mahucutah
(O Nome Ilustre) e Iqui-Balam (o Jaguar da Lua). Segundo o Popol
Vuh, esses antepassados eram dotados de inteligência; viam e
instantaneamente podiam enxergar longe; tinham sucesso em ver o
que queriam; conseguiam saber tudo o que havia no mundo. Sem
precisar se mover inicialmente, viam à distância coisas ocultas...
Grande era a sabedoria deles; sua vista alcançava as florestas, as
rochas, os lagos, os mares, as montanhas e os vales. Na verdade,
eram homens admiráveis... Podiam saber tudo e examinavam os
quatro cantos, os quatro pontos do céu, e a face redonda da terra.
As realizações dessa raça despertaram a inveja de várias das
divindades mais poderosas. "Não é bom que nossas criaturas saibam
tudo", opinaram esses deuses. "Não poderiam eles, talvez, se
tornarem iguais a nós, seus Criadores, que podemos ver longe, que
sabemos tudo e vemos tudo?... Deverão eles, também, ser deuses?“
Evidentemente, não se poderia permitir que continuasse tal estado de
coisas. Após alguma deliberação, foram dadas ordens e tomadas as
medidas apropriadas:
Que a vista deles alcance apenas o que está próximo; que eles vejam
apenas um pouco da face da terra. (...) Em seguida, o Coração do
Céu soprou-lhes nevoeiro nos olhos, como acontece quando se
respira sobre um espelho. Velados os seus olhos, eles só puderam ver
o que estava perto, só o que para eles era claro. (...) Dessa maneira, a
sabedoria e todo conhecimento dos Primeiros Homens foram
destruídos.
Quem quer que conheça bem o Velho Testamento lembrará que a
razão da expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden teve a ver com
preocupações divinas semelhantes. Depois de ter o Primeiro Homem
comido do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, o
Senhor Deus disse: "Vêde, o homem tornou-se igual a nós e conhece
o bem e o mal. Ora, para que ele não estenda a mão e tome também
a árvore da vida, dela coma e viva para sempre, expulsemo-Io do
Jardim do Éden..."
O Popol Vuh é aceito por estudiosos como um grande repositório de
tradição pré-colombiana isenta de contaminação. Por isso mesmo, é
estranho encontrar tais semelhanças entre essas tradições e as que
estão registradas na história do Gênesis. Além do mais, tal como
tantos outros elos entre o Velho Mundo/ Novo Mundo que já
identificamos, o caráter das semelhanças em nada sugere qualquer
tipo de influência direta de uma região sobre outra, mas duas
interpretações diferentes do mesmo conjunto de eventos. Assim, por
exemplo:
. O Jardim do Éden bíblico parece uma metáfora do estado de
conhecimento bem-aventurado, quase "divino", possuído pelos
"Primeiros Homens" do Popol Vuh.
. A essência desse conhecimento era a capacidade de "ver tudo" e
"saber tudo". Não foi essa, exatamente, a capacidade que Adão e Eva
adquiriram quando comeram do fruto proibido, que crescia nos ramos
da "árvore do conhecimento do bem e do mal"?
. Finalmente, exatamente como Adão e Eva foram expulsos do Éden,
o mesmo aconteceu com os quatro Primeiros Homens do Popol Vuh,
que foram privados da capacidade de "ver longe". Daí em diante,
"seus olhos foram velados e eles só puderam ver o que estava
perto...".
O Popol Vuh e o Gênesis, portanto, contam a história da queda da
humanidade. Em ambos os casos, esse estado de graça esteve
estreitamente associado a conhecimento e o leitor não pode ter dúvida
de que o conhecimento em questão era tão notável que conferia
poderes divinos àqueles que o detinham.
A Bíblia, adotando um tom sombrio e abafado, descreve-o como
"conhecimento do bem e do mal" e nada mais tem a acrescentar. O
Popol Vuh é muito mais informativo. Diz que o conhecimento dos
Primeiros Homens consistia na capacidade de "ver coisas ocultas na
distância”, que eles eram astrônomos que "examinavam os quatro
cantos, os quatro pontos do arco do céu", e também que eram
geógrafos que conseguiram "medir a face redonda da terra".
Geografia diz respeito a mapas. Na Parte I, vimos a prova de que
cartógrafos de uma civilização ainda não identificada poderiam ter
mapeado o planeta, com grande minuciosidade, em uma data muito
remota. Poderia o Popol Vuh estar transmitindo alguma memória
deturpada da mesma civilização, quando falava nostalgicamente dos
Primeiros Homens e do conhecimento geográfico milagroso que eles
possuíam?
Geografia diz respeito a mapas e astronomia diz respeito a estrelas.
Com grande freqüência, as duas disciplinas andavam de mãos dadas,
porque estrelas eram essenciais à navegação em longas viagens
marítimas de descobrimento (e essas viagens eram essenciais à
produção de mapas exatos).
Teria sido por acaso que os Primeiros Homens do Popol Vuh fossem
lembrados não só por estudar "a face redonda da terra", mas por
contemplarem o "arco do céu"? E teria sido coincidência que a
realização notável da sociedade maia fosse a astronomia baseada na
observação, com a qual e com auxílio de cálculos matemáticos
avançados foi elaborado um calendário inteligente, complexo,
sofisticado e, sobretudo, exato?
Conhecimento que não se Encaixava
Em 1954, J. Eric Thompson, uma destacada autoridade em
arqueologia da América Central, confessou profunda confusão diante
de certo número de disparidades gritantes, que havia identificado
entre as realizações, em geral banais, dos maias como um todo e o
avançado estado de seus conhecimentos de astros e calendário. "Que
peculiaridade", perguntou ele, "teria levado a intelligentsia maia a
mapear os céus, mas, ainda assim, não conseguir compreender o
princípio da roda; a visualizar a eternidade como nenhum povo semi-civilizado jamais fez, mas ignoraro curto passo do modilhão para o
verdadeiro arco; a contar em milhões, mas nunca ter aprendido a
pesar um saco de milho?".
Talvez a resposta a essas perguntasseja muito mais simples do que
Thompson pensava. Talvez a astronomia, a compreensão profunda do
tempo e os cálculos matemáticos aplicáveis a longo prazo não fossem
"peculiaridades", absolutamente. Talvez fossem partes constituintes
de um corpo de conhecimentos coerentes, mas muito específicos que
os maias herdaram, mais ou menos intacto, de uma civilização mais
antiga e mais sábia. Essa herança explicaria as contradições
observadas por Thompson e nenhuma necessidade há de discutir
esse ponto. Já sabemos que os maias receberam o calendário, sob a
forma de legado, dos olmecas (mil anos antes, os olmecas usavam
exatamente o mesmo sistema). A pergunta pertinente, portanto, deve
ser: onde os olmecas o conseguiram? Que tipo de nível de
desenvolvimento tecnológico e científico era necessário a uma
civilização para elaborar um calendário tão perfeito como esse?
Vejamos o caso do ano solar. Na moderna sociedade ocidental,
usamos ainda o calendário solar adotado na Europa em 1582 e que se
baseia no melhor conhecimento científico então disponível: o famoso
calendário gregoriano. O calendário juliano, que ele substituiu,
computava o período da órbita da terra em torno do sol em 365,25
dias. A reforma do papa Gregório XIII substituiu-o por um cálculo mais
refinado e exato: 365,2425 dias. Graças aos progressos científicos
realizados desde 1582, sabemos agora que a extensão exata do ano
solar é de 365,2422 dias. O calendário gregoriano, por conseguinte,
contém um pequeníssimo erro a mais, apenas 0,0003 de um dia - com
uma precisão impressionante para o século XVI.
Curiosamente, embora sua origem esteja envolvida na névoa de uma
antiguidade muito mais remota do que o século XVI, o calendário maia
revela uma exatidão ainda maior, pois calculava o ano solar em
365,2420 dias, ou um erro para menos de apenas 0,0002 de dia.
Analogamente, os maias conheciam o tempo levado pela lua para
completar uma órbita da terra. Estimavam esse período em 29,528395
dias - resultado este extraordinariamente próximo do número exato de
29,530588 dias, computado pelos métodos modernos mais apurados.
Os sacerdotes maias dispunham também de tabelas muito precisas
para previsão de eclipses solares e lunares e estavam cientes de que
esses fenômenos ocorrem apenas dentro de mais ou menos 18 dias
do nodo (isto é, quando a trajetória da lua cruza a trajetória aparente
do sol). Para finalizar, os maias eram matemáticos de extraordinária
competência. Dominavam uma técnica avançada de cálculo métrico,
usando um dispositivo em forma de tabuleiro de xadrez que só
descobrimos (ou redescobrimos) no século passado. Eles, além disso,
compreendiam perfeitamente e usavamo conceito abstrato do zero, e
estavam por dentro da numeração decimal.
Esses campos são de natureza esotérica. Ou, como observou
Thompson:
A cifra (zero) e os números decimais fazem parte tão integral de nossa
herança cultural e parecem conveniências tão óbvias que é difícil
compreender como sua invenção possa ter demorado tanto. Ainda
assim, nem a antiga Grécia, com seus grandes matemáticos, nem a
antiga Roma, tiveram a menor idéia do zero ou dos números decimais.
Escrever 1848 em numerais romanos exigia onze letras:
MDCCCXLVIII. Os maias, porém, tinham um sistema de notação
decimal muito parecido com o nosso, em uma época em que os
romanos ainda usavam seu desajeitado método.
Não é estranho que essa tribo centro-americano, sob outros aspectos
comum, tivesse topado por acaso, em uma data muito remota, com
uma inovação que Otto Neugebauer, historiador da ciência, descreveu
como "uma das mais férteis invenções da humanidade”.
Ciência de Alguma Outra Civilização?
Estudemos agora a questão de Vênus, um planeta que teve imensa
importância simbólica para todos os povos antigos da América
Central, que o identificavam ineludivelmente com Quetzalcoatl
(Gucumatz ou Kukulkan, como a Serpente Emplumada era conhecida
nos dialetos maias).
Ao contrário dos gregos antigos, mas da mesma forma que os
egípcios antigos, os maias sabiam que Vênus era simultaneamente "a
estrela matutina" e a "estrela vespertina". E compreendiam também
outras coisas. A "revolução sinódica" de um planeta é o período de
tempo que ele leva para voltar a qualquer dado ponto no céu - da
forma como é visto da terra. Vênus faz uma volta completa do sol a
cada 224,7 dias, enquanto a terra segue sua órbita ligeiramente mais
longa. O resultado combinado desses dois movimentos é que Vênus
surge no mesmo lugar no céu da terra a aproximadamente cada 584
dias.
Quem quer que tivesse inventado o sofisticado sistema de calendário
herdado pelos maias sabia desse fato e encontrara maneiras
engenhosas de integrá-lo em outros ciclos interligados. Além disso, é
claro, tendo em vista a matemática que reuniu esses ciclos, que os
antigos mestres do calendário compreendiam que 584 dias eram
apenas uma aproximação e que os movimentos de Vênus não eram
absolutamente regulares. Eles, em conseqüência, computaram o
número exato, estabelecido pela ciência moderna, para a revolução
sinódica média de Vênus durante um longo período de tempo. Esse
número, de 583,92 dias, foi incluído no contexto do calendário maia
através de numerosas, intrincadas e complexas maneiras. A fim de
conciliá-lo com o chamado "ano sagrado" (o tzolkin de 260 dias, que
era dividido em 13 meses de 20 dias cada), o calendário previa uma
correção de quatro dias, a ser feita a cada 61 anos venusianos. Além
disso, durante cada quinto ciclo, uma correção de oito dias era feita ao
fim da 57ª. revolução. Uma vez tomadas essas providências, o tzolkin
e a revolução sinódica de Vênus ficavam entrelaçados tão fortemente
que o grau de erro ao qual a equação estava sujeita - espantosamente
pequeno - era de um dia em 6.000 anos. E o que tornou tudo isso
ainda mais notável foi que uma série posterior de ajustamentos,
calculados precisamente, manteve os ciclos de Vênus e os tzolkins
não só em harmonia entre si, mas em relação exata com o ano solar.
Repetindo, isso foi feito de uma maneira que assegurava que o
calendário era capaz de realizar seu trabalho, virtualmente livre de
erros, durante vastas extensões de tempo.
Por que os "semi-civilizados" maias precisavam desse tipo de precisão
de alta tecnologia? Ou teriam herdado, em bom estado, um calendário
elaborado para atender as necessidades de uma civilização muito
mais antiga e muito mais adiantada?
Vejamos a jóia máxima do calendário maia, a chamada "Contagem à
Longo prazo". Esse sistema de calcular datas expressava também
crenças no passado principalmente, a crença amplamente aceita de
que o tempo operava em Grandes Ciclos, durante os quais ocorriam
repetidas criação e destruição do mundo. De acordo com os maias, o
atual Grande Ciclo começou na escuridão em 4 Ahau 8 Cumku, uma
data correspondente a 13 de agosto de 3114 a.C. em nosso
calendário. Conforme vimos acima,eles acreditavam também que o
ciclo chegaria ao fim, em meio a uma destruição global, no dia 4 Ahau
3 Kankin: ou 23 de dezembro de 2012 em nosso calendário. A função
da Contagem à Longo Prazo consistia em registrar a passagem do
tempo desde o início do atual Grande Ciclo, ou literalmente riscar, um
após outro, os 5.125 anos concedidos à nossa atual criação.
A Contagem à Longo Prazo pode ser talvez mais bem compreendida
como um tipo de máquina de somar celeste, calculando e
recalculando constantemente a escala de nossa dívida crescente com
o universo. Cada último tostão dessa dívida vai ser cobrado quando o
número no mostrador chegar a 5.125.
Ou, pelo menos, era assim que os maias pensavam.
Os cálculos no computador da Contagem à Longo Prazo não eram,
claro, feitos com os nossos algarismos. Os maias usavam uma
notação própria, que receberam dos olmecas, que a receberam...
ninguém sabe de quem. A notação era uma combinação de pontos
(significando um, unidades, ou múltiplos de vinte), barras (significando
cinco, ou múltiplos de cinco vezes vinte) e um glifo em forma de
concha que significava zero. Períodos de tempo eram contados em
dias (kin), períodos de vinte dias (uinal), "anos computados" de 360
dias (tun), períodos de 20 tuns (conhecidos como katun), e períodos
de 20 katuns (conhecidos como bactun). Havia também períodos de
8.000-tun (pictun) e períodos de 160.000-tun (calabtun), para abranger
cálculos ainda mais vastos.
Tudo isso deve deixar claro que, embora acreditassem que estavam
vivendo em um Grande Ciclo que certamente chegaria a um fim
violento, os maias sabiam também que o tempo era infinito e que
continuava com suas misteriosas revoluções, ignorando vidas e
civilizações individuais. Ou, como Thompson resumiu em seu grande
estudo sobre a questão:
No esquema maia, a estrada percorrida pelo tempo estendia-se desde
um passado tão distante que a mente humana não lhe podia
compreender a antiguidade. Ainda assim, os maias, destemidamente,
voltaram a percorrer essa estrada, em busca de seu ponto de partida.
Uma nova visão, levando-os ainda mais para trás, desdobrava-se em
cada estágio, séculos completos fundiam-se em milênios e estes em
dezenas de milhares de anos, enquanto esses incansáveis
buscadores exploravam cada vez mais profundamente a eternidade
do passado. Em uma estela encontrada em Quiriga, na Guatemala,
aparece computada uma data de 90 milhões de anos passados; em
outra, era mostrada outra data, anterior em 300 milhões de anos à
primeira. Elas são computações reais, delas constando corretamente
as posições de dia e mês, e se comparam a cálculos em nosso
calendário que dão as posições de meses em que a Páscoa teria
caído em distâncias equivalentes no passado. O cérebro cambaleia
com esses números astronômicos...
Não será tudo isso um tanto avant-garde para uma civilização que, em
muitos outros aspectos, não se distinguiu? É bem verdade que
podemos considerar boa a arquitetura maia, dentro de limites. Mas
pouquíssimo mais houve que esses índios, habitantes de florestas,
fizessem de modo a sugerir que poderiam ter tido a capacidade (ou a
necessidade) de conceber períodos realmente longos de tempo.
Passaram-se menos de dois séculos desde que a maioria dos
intelectuais do Ocidente abandonou a opinião do bispo Usher, de que
o mundo foi criado no ano 4004 a.C,e aceitou que ele deve ser
infinitamente mais velho. Em palavras simples, isso significa que os
antigos maias tinham uma compreensão muito mais precisa da
verdadeira imensidão do tempo geológico, e da enorme
antiguidade de nosso planeta, do que qualquer pessoa na Grã-Bretanha, Europa e América do Norte,até que Darwin propôs a teoria
da evolução.
Se assim, como foi que os maias se tornaram tão hábeis em lidar com
períodos de centenas de milhões de anos? Seria isso uma aberração
de desenvolvimento cultural? Ou teriam eles herdado as ferramentas
do calendário e da matemática, que facilitaram seu trabalho e os
tornaram capazes de desenvolver essa compreensão sofisticada? Se
houve uma herança, é legítimo perguntar com que finalidade os
inventores originais dos circuitos, semelhantes à fiação de
computadores, do calendário maia os criaram. Para que o haviam
preparado? Teriam-no simplesmente concebido, com toda a sua
complexidade, para criar "um desafio ao intelecto, uma espécie de
gigantesco anagrama”, como alegou uma autoridade?. Ou poderiam
ter visado um objetivo mais pragmático e importante?
Vimos que a preocupação obsessiva da sociedade maia, e, na
verdade, de todas as culturas antigas da América Central, consistia
em calcular - e, se possível, adiar - o fim do mundo. Poderia ser essa
a finalidade para a qual o misterioso calendário fora concebido?
Poderia ter sido um mecanismo para prever alguma terrível catástrofe
cósmica ou geológica?

CAPÍTULO 22
A Cidade dos Deuses
A mensagem, em maioria esmagadora, de grande número de lendas
centro-americanas é que a Quarta Era do mundo acabou muito mal. A
um dilúvio catastrófico seguiu-se um longo período no qual a luz do sol
desapareceu do céu e o ar se encheu de tenebrosa escuridão. Em
seguida:
Os deuses reuniram-se em Teotihuacán ["o lugar dos deuses"] e
perguntaram ansiosos uns aos outros quem devia ser o próximo Sol.
Só o fogo sagrado [a representação material de Huehueteotl, o deus
que, no início, criou a vida] poderia ser visto na escuridão, ainda
presente em seguida ao caos recente. "Alguém vai ter que se
sacrificar, lançar-se ao fogo", exclamaram eles. "e só então haverá um
Sol.”
Seguiu-se um drama, no qual duas divindades (Nanahuatzin e
Tecciztecatl) imolaram-se pelo bem comum. Um deles queimou
rapidamente no centro do fogo sagrado; o outro deixou-se assar
lentamente nas brasas ao lado da fogueira. "Os deuses esperaram
durante longo tempo, até que, finalmente, o céu começou a ficar
vermelho, como no amanhecer. No leste, apareceu a grande esfera do
sol, sustentador de vida e incandescente..."
E foi nesse momento de renascimento cósmico que Quetzalcoatl se
manifestou. Sua missão tinha a ver com a humanidade da Quinta Era.
Por isso mesmo, assumiu a forma de ser humano - de um homem
branco barbudo, exatamente igual a Viracocha.
Nos Andes, a capital de Viracocha foi Tiahuanaco. Na América
Central, a de Quettalcoatl foi o suposto local de nascimento do Quinto
Sol, Teotihuacán, a cidade dos deuses.
A Cidadela, o Templo e o Mapa do Céu
Teotihuacán, 50km a nordeste da Cidade do México
No espaço cercado, batido pelo vento da Cidadela, olhei para o norte,
através da névoa da manhã, e para as Pirâmides do Sol e da Lua.
Aninhados em terreno verde-acizentado coberto de arbustos e
emoldurados por distantes montanhas, esses dois grandes
monumentos representavam seu papel em uma sinfonia de ruínas
enfileiradas ao longo do eixo da denominada "Rua dos Mortos". A
Cidadela situa-se aproximadamente no centro dessa larga avenida,
que corre em linha reta perfeita por mais de quatro quilômetros. A
Pirâmide da Lua ergue-se na extremidade norte e, a do Sol, mais ou
menos a leste.
No contexto de um sítio geométrico dessa natureza, uma orientação
exata norte-sul ou leste-oeste poderia ter sido esperada. Por isso
mesmo, era surpreendente que os arquitetos que haviam planejado
Teotihuacán tivessem resolvido de caso pensado desviar a Rua dos
Mortos a 15º 30' a leste do norte. Há várias teorias sobre o motivo por
que essa orientação excêntrica foi escolhida, embora nenhuma
especialmente convincente. Números crescentes de estudiosos,
contudo, começam a se perguntar se alinhamentos astronômicos não
poderiam estar envolvidos, nesse caso. Um deles, por exemplo,
sugeriu que a Rua dos Mortos poderia ter sido "construída para ficar
de frente para o local onde se punham as Plêiades, na época de sua
construção". Outro, o professor Gerald Hawkins, aventou a hipótese
de que o eixo "Sírius-Plêiades" poderia ter desempenhado também
um papel na escolha da orientação.Stansbury Hagar (secretário do
Departamento de Etnologia, do Brooklyn Institute of the Arts and
Sciences), pensa que a rua poderia representar a Via Láctea.
Na verdade, Hagar foi ainda mais longe, vendo uma representação de
planetas e estrelas específicos em muitas das pirâmides, cômoros e
outras estruturas, que pairavam como satélites fixos em torno do eixo
da Rua dos Mortos. Sua tese completa diz que Teotihuacán foi
projetada como uma espécie de "mapa do céu": "Ela reproduz na terra
um suposto plano celeste do céu-mundo onde residiam as divindades
e o espírito dos mortos".

Nas décadas de 1960 e 1970, asintuições de Hagar foram
submetidas a testes de campo por Hugh Harleston Jr., engenheiro
americano residente no México, que realizou um levantamento
matemático exaustivo em Teotihuacán. Em outubro de 1974, no
Congresso Internacional de Americanistas, Harleston divulgou seus
resultados. O trabalho, rico em idéias ousadas e inovadoras, contém
algumas informações muito curiosas sobre a Cidadela e sobre o
Templo de Quetzalcoatl, localizado na extremidade leste dessa grande
paliçada quadrada.
O templo é considerado pelos estudiosos como um dos monumentos
arqueológicos mais bem preservados da América Central. Isso
aconteceu porque a estrutura original, pré-histórica, foi parcialmente
sepultada sob outro cômoro muito posterior, situado imediatamente à
frente, na direção oeste. Escavações realizadas nesse cômoro
revelaram a elegante pirâmide em seis níveis que eu tinha nesse
momento diante dos olhos, com 22m de altura e uma área de base de
7,615 m2.
Exibindo ainda vestígios da pintura original multicolorida que a
revestira na antiguidade, o templo, nesse momento à vista, constituía
um espetáculo belo e estranho. O motivo escultural predominante é
uma série de imensas cabeças de serpente, projetando-se em três
dimensões dos blocos laterais e revestindo os lados da maciça
escadaria central. As mandíbulas alongadas desses répteis
estranhamente humanóides eram ricamente providas de presas e no
lábio superior podia-se ver uma espécie de bigode, tipo guidom de
bicicleta. O pescoço de todas as serpentes era orlado por um refinado
conjunto de penas - o símbolo inconfundível de Quetzalcoatl.
O que as investigações de Harleston demonstraram foi que uma
relação matemática complexa parecia existir entre as principais
estruturas alinhadas ao longo da Rua dos Mortos (e, na verdade. além
dela). A relação sugeria algo de extraordinário, isto é, que Teotihuacán
poderia ter sido originalmente projetada como um modelo, em escala
precisa, do sistema solar. De qualquer modo, se a linha central do
Templo de Quetzalcoatl fosse aceita como denotando a posição do
sol, marcadores dela, partindo na direção norte e ao longo do eixo da
Rua dos Mortos, pareceriam indicar as distâncias orbitais corretas dos
planetas interiores, do cinturão de asteróides, de Júpiter, de Saturno
(representado pela denominada Pirâmide do "Sol"), de Urano (pela
Pirâmide da "Lua") e Netuno e Plutão por cômoros ainda não
escavados, situados a alguns quilômetros mais ao norte.
Se essas correlações foram mais do que coincidências, então, no
mínimo, elas indicavam a presença em Teotihuacán de uma
astronomia de observação avançada, que só foi ultrapassada pela
ciência moderna em data relativamente recente. A existência de Urano
permaneceu desconhecida de nossos próprios astrônomos até 1787,
Netuno até 1846 e Plutão até 1930. Até mesmo a estimativa mais
conservadora da antiguidade de Teotihuacán, em contraste, sugere
que os principais elementos do plano urbano (incluindo a Cidadela, a
Rua dos Mortos e as Pirâmides do Sol e da Lua) devem datar, de pelo
menos, do tempo de Cristo. Nenhuma civilização conhecida dessa
época, no Velho ou no Novo Mundo, teria supostamente qualquer
conhecimento dos planetas exteriores - quanto mais informações
exatas a respeito das distâncias orbitais que eles mantinham entre si e
em relação ao sol.
Egito e México - Meras Coincidências?
Após completar estudos das pirâmides e avenidas de Teotihuacán,
concluiu Stansbury Hagar: "Não compreendemos ainda a importância,
o refinamento, ou a distribuição geral, em toda a América antiga, do
culto astronômico, do qual o plano celeste era um aspecto e do qual
Teotihuacán foi um dos principais centros."
Mas teria sido simplesmente um "culto" astronômico? Ou foi alguma
coisa que se aproximasse mais daquilo que poderíamos chamar de
ciência? E, fosse culto ou ciência, seria realístico supor que tivera
"distribuição geral" apenas nas Américas, quando existem tantos
indícios ligando-a a outras regiões do mundo antigo?
Árqueo-astrônomos, por exemplo, usando os programas de
computador mais modernos de mapeamento estelar, demonstraram
recentemente que as três mundialmente famosas pirâmides do Egito,
no platô de Gizé, formam um diagrama terrestre exato dos três
cinturões de estrelas da constelação de Órion. Mas esse não foi o
limite do mapa celeste criado pelos sacerdotes do antigo Egito nas
areias da margem oeste do Nilo. Incluído na visão geral, conforme
veremos nas Partes VI e VII deste livro, havia um acidente geográfico
natural - o rio Nilo - que estava exatamente onde devia ter estado, se
tivesse sido criado para representar a Via Láctea.
A incorporação de um "plano celeste" em sítios arqueológicos de
grande importância no Egito e no México não excluía, de maneira
alguma, funções religiosas. Pelo contrário, o que mais quer que tenha
sido sua finalidade, é certo que os monumentos de Teotihuacán, como
os do platô de Gizé, desempenharam importantes papéis religiosos na
vida das comunidades a que serviam.
As tradições centro-americanas, compiladas pelo padre Bernardino de
Sahagun no século XVI, davam expressão eloqüente à crença geral
que Teotihuacán preenchera pelo menos uma função religiosa
específica e importante nos tempos antigos. De acordo com essas
lendas, a Cidade dos Deuses era assim conhecida porque "os
Senhores lá enterrados, não pereceram após sua morte, mas se
transformaram em deuses...". Em outras palavras, Teotihuacán era "o
local onde homens se transformavam em deuses". E era ainda
conhecida como "o lugar daquelesque palmilhavam a estrada dos
deuses" e "o lugar onde deuses eram criados".
Seria uma coincidência, especulei, que esta parecesse ter sido a
finalidade das três pirâmides de Gizé? Os hieróglifos arcaicos dos
Textos das Pirâmides, o conjunto coerente mais antigo de escrita
existente no mundo, pouco espaço deixa para dúvida de que o
objetivo final dos rituais realizados no interior dessas estruturas
colossais era produzir a transfiguração do falecido faraó - "escancarar
as portas do firmamento e abrir uma estrada", de modo que ele
pudesse "ascender para a companhia dos deuses".
A idéia de pirâmides como meios destinados (presumivelmente, em
algum sentido metafísico) a "transformar homens em deuses" era, em
minha opinião, excessivamente estranha e peculiar para ter surgido
independentemente no antigo Egito e no antigo México. O mesmo
acontecia com a idéia de usar a planta arquitetônica dos sítios
sagrados para incorporar um plano celeste.
Além disso, havia outras estranhas semelhanças que mereciam ser
investigadas.
Da mesma forma que em Gizé, três pirâmides principais haviam
sido construídas em Teotihuacán: a Pirâmide/Templo de Quetzalcoatl,
a Pirâmide do Sol e a Pirâmide da Lua. Como em Gizé, o plano do
sítio não era simétrico, como se poderia ter esperado, e envolvia duas
estruturas em alinhamento direto entre si, enquanto que a terceira
parecia ter sido deliberadamente deslocada para um lado. Por último,
em Gizé, os topos da Grande Pirâmide e da Pirâmide de Quéfren
estão no mesmo nível, mesmo que a primeira seja uma estrutura mais
alta do que a segunda. De igual maneira, em Teotihuacán, os topos
das pirâmides do Sol e da Lua estão no mesmo nível, mesmo que a
primeira seja mais alta. A razão era a mesma em ambos os casos: a
Grande Pirâmide havia sido construída em terreno mais baixo do que
a Pirâmide de Quéfren e, a Pirâmide do Sol, em terreno mais baixo do
que a Pirâmide da Lua.
Poderia tudo isso ser coincidência? Não seria mais lógico concluir que
houve uma ligação entre o México e o Egito nos tempos antigos?
Pelas razões que descrevi nos Capítulos 18 e 19, eu duvidava que
tivesse havido um elo direto, causal - de qualquer modo, nos tempos
históricos. Mais uma vez, contudo, como no caso do calendário maia e
dos velhos mapas da Antártida, nãoseria bom manter a mente aberta
para a possibilidade de estarmos lidando com um legado; que as
pirâmides do Egito e as ruínas de Teotihuacán pudessem expressar a
tecnologia, o conhecimento geográfico, a astronomia baseada na
observação (e, talvez, também na religião) de uma civilização
esquecida, que havia outrora, como alega o Popul Vuh, "examinado os
quatro cantos, os quatro pontos do arco do céu e a face redonda da
terra"?
Há acordo geral entre os especialistas sobre a antiguidade das
pirâmides de Gizé, que eles pensam ter cerca de 4.500 anos. Mas
nenhuma unanimidade semelhante existe no tocante a Teotihuacán.
Nem a Rua dos Mortos, nem o Templo de Quetzalcoatl, nem as
pirâmides do Sol e da Lua foram jamais definitivamente datadas. A
maioria dos estudiosos acredita que a cidade floresceu entre os anos
100 a.C. e 600 d.C., embora outros argumentem convincentemente
que elas deviam ter surgido muito mais cedo, entre os anos 1500 e
1000 a.C. Mas há ainda outros que tentam, baseados principalmente
em fundamentos geológicos, empurrar a data da fundação para o ano
4000 a.C., antes da erupção do Xitli, um vulcão próximo.
Em meio a toda incerteza sobre a idade de Teotihuacán, não fiquei
surpreso ao descobrir que ninguém fazia a mais vaga idéia da
identidade dos que tinham realmente construído a maior e mais
notável metrópole que jamais existiu no Novo Mundo pré-colombiano.
Tudo que se podia dizer com certeza era o seguinte: quando os
astecas, em sua marcha para obter o poder imperial, descobriram
acidentalmente, no século XII d.C., a misteriosa cidade, seus edifícios
e avenidas colossais já eram velhos além do que se podia imaginar e
tão densamente cobertos por vegetação que pareciam mais aspectos
naturais do que obra do homem. Ligados a eles, porém, havia um fio
de lenda local, transmitido de uma geração a outra, que dizia que as
estruturas haviam sido construídas por gigantes e que tinham por
finalidade transformar homens em deuses.
Indícios de uma Sabedoria Esquecida
Deixando para trás o Templo de Quetzalcoatl, voltei a cruzar a
Cidadela, tomando a direção oeste.
Não havia evidência arqueológica de que esse enorme espaço
fechado tivesse algum dia servido como cidadela - ou, por falar nisso,
servido a qualquer tipo de função militar ou defensiva. Tal como tantas
coisas mais a respeito de Teotihuacán, as obras tinham sido
planejadas com laborioso cuidado e executadas com um esforço
enorme, embora a cultura moderna não tenha conseguido identificar
sua verdadeira finalidade. Nem mesmo os astecas, os responsáveis
pelos nomes de Pirâmides do Sol e da Lua (nomes que "pegaram",
embora ninguém tenha a menor idéia do nome pelo qual os
construtores as haviam designado), conseguiram inventar um nome
para a Cidadela. Coube aos espanhóis fazer isso - uma vaidade
compreensível, já que o pátio central de 14ha da La Ciudadela era
cercado por um aterro maciço demais de 7 m de altura e 45m de
comprimento de cada lado.
O passeio levou-me nesse momento à extremidade oeste do pátio.
Subi um abrupto lance de degraus, cheguei ao alto do aterro e virei-me para o sul e a Rua dos Mortos. Mais uma vez, tive de lembrar a
mim mesmo que isto não era, quase com certeza, o que os
teotihuacanos (quem quer que tivessem sido) chamaram de a imensa
e impressionante avenida. O nome espanhol, Calle de los Muertos,
era de origem asteca, e baseado aparentemente na especulação de
que os numerosos cômoros de cada lado da rua eram sepulturas (o
que, descobriu-se mais tarde, não eram).
Já consideramos a possibilidade de que o Caminho dos Mortos possa
ter servido como uma contrapartida terrestre da Via Láctea. De
interesse nesse particular foi o trabalho de outro americano, Alfred E.
Schlemmer, que - tal como Hugh Harleston Jr. - era engenheiro. O
campo de estudo de Schlemmer era a previsão tecnológica, com
referência específica à previsão de terremotos31, sobre a qual
apresentou um trabalho na XI Convenção Nacional de Engenheiros
Químicos (realizada na Cidade do México, em outubro de 1971).
O argumento de Schlemmer era que a Rua dos Mortos talvez jamais
tivesse sido uma rua. Em vez disso, poderia ter sido construída
originariamente como uma série de poços refletores interligados,
cheios de água, que descia através da Pirâmide da Lua, situada na
extremidade norte, por intermédio de uma série de eclusas que
terminavam na Cidadela, ao sul.
Andando na direção norte para chegar à ainda distante Pirâmide da
Lua, achei que essa teoria tinha vários pontos em seu favor. Para
começar, a "rua” era bloqueada a intervalos regulares por altos muros
divisórios, aos pés dos quais os restos de eclusas bem-feitas podiam
ser vistos claramente. Além do mais, o tipo do terreno teria facilitado
um fluxo hidráulico norte-sul, uma vez que a base da Pirâmide da Lua
se situava em um terreno aproximadamente 33m mais alto do que a
área em frente à Cidadela. As seções separadas poderiam ter sido
facilmente enchidas com água e, na verdade, ter servido como poços
refletores, criando um espetáculo muito mais dramático do que os
oferecidos pelo Taj Mahal ou os famosos Jardins Shalimar.
Finalmente, o Projeto de Mapeamento Teotihuacáno (financiado pela
Fundação Nacional de Ciências, de Washington, D.C., e dirigido pelo
professor Rene Millon, da Universidade de Rochester) havia
demonstrado conclusivamente que a antiga cidade possuíra
"numerosos canais e sistemas de distribuição de água
cuidadosamente construídos, artificialmente dirigidos para segmentos
retos de um rio, que formava uma rede dentro de Teotihuacán e
seguia na direção do lago Texcoco, neste momento situado a 16km de
distância, embora, talvez, no passado, mais perto".
Era grande a discussão sobre o fim para o qual fora construído esse
enorme sistema hidráulico. O argumento de Schlemmer era que a
rede especial que descobrira tinha sido construída para servir a uma
finalidade pragmática, como "monitor sísmico a longo prazo" - como
"parte de uma ciência antiga, ora desconhecida". Observou ele que
terremotos que ocorrem em locais remotos "podem fazer com que
ondas se formem em uma superfície líquida até no outro lado do
planeta", e sugeriu que os poços refletores cuidadosamente
graduados e espaçados da Rua dos Mortos poderiam ter sido
construídos "para permitir aos teotihuacános interpretar, à vista das
ondas ali formadas, a localização e a força de terremotos em todo o
globo, o que lhes permitiria prever uma ocorrência desse tipo em sua
própria área".
Não havia, claro, prova da teoria de Schlemmer. Não obstante,
quando me lembrei da obsessão com terremotos e inundações, visível
em toda a mitologia mexicana, e da preocupação, igualmente
obsessiva, com a previsão de acontecimentos futuros, evidente no
calendário maia, senti-me menos inclinado a ignorar as conclusões
aparentemente forçadas do engenheiroamericano. Se Schlemmer
tinha razão, se os antigos teotihuacanos haviam realmente
compreendido os princípios da vibração ressonante e os pusera em
prática na previsão de terremotos, a implicação era que dispuseram
de uma ciência avançada. E se indivíduos como Hagar e Harleston
estivessem certos - se, por exemplo,um modelo em escala do sistema
solar havia sido também introduzido na geometria básica de
Teotihuacán -, tudo isso sugeria que a cidade era criação de uma
civilização cientificamente evoluída e ainda não identificada.
Continuei a andar na direção norte ao longo da Rua dos Mortos e virei
para o leste e para a Pirâmide do Sol. Antes de chegar a esse grande
monumento, contudo, parei para examinar o pátio arruinado, cujo
principal aspecto era um antigo "templo", que escondia um enigmático
mistério sob seu chão de rocha.

CONTINUA.....

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