quarta-feira, agosto 22, 2012

As Digitais Dos Deuses-Graham Hancock / Parte 3

Os egiptólogos acharam que tudo isso fora puro acaso. Ainda assim,
os construtores da pirâmide nada haviam feito por acaso. Quem quer
que tenham sido, eu achava difícil imaginar indivíduos possuidores de
uma mente mais sistemática e matemática.
Mas eu já havia tido mais do que o suficiente desses jogos
matemáticos por um dia. Deixando a Câmara do Rei, contudo, não
pude esquecer que ela se localiza na carreira número 50 nas obras de
cantaria da Grande Pirâmide, a uma altura de quase 45m acima do
chão. lsso significa, como havia dito Flinders Petrie com algum
espanto, que os construtores haviam conseguido colocá-la "em um
nível onde a seção vertical da pirâmide é dividida ao meio, onde a
área da seção horizontal é a metade da área da base, onde a diagonal
de uma aresta a outra é igual ao comprimento da base, onde a largura
de uma face é igual à metade da diagonal da base".
Confiantes e eficientemente mexendo com mais de seis milhões de
toneladas de pedra, criando galerias,câmaras, chaminés e corredores
mais ou menos à vontade, obtendo simetria quase perfeita, ângulos
retos quase perfeitos e alinhamentos também quase perfeitos com os
pontos cardeais, os misteriosos construtores da Grande Pirâmide
haviam descoberto tempo para realizar também muitas outras
brincadeiras com as dimensões da enorme estrutura.
Por que a mente dessa gente teria trabalhado dessa maneira? O que
haviam eles tentado dizer ou fazer? E por que, tantos milhares de
anos após sua construção, o monumento continua a exercer uma
influência magnética sobre tantas pessoas, de posições tão diferentes
na vida, que com ela entram em contato?
Havia uma Esfinge nas vizinhanças, de modo que resolvi submeter a
ela esses enigmas...

CAPÍTULO 39
O Local do Início
Gizé, Egito, 16 de março de 1993, 15h30min.
Em meados da tarde, deixei a Grande Pirâmide. Refazendo o caminho
que Santha e eu havíamos seguido na noite anterior, quando
escalamos o monumento, dirigi-me para leste, costeando a face norte,
e para o sul. Acompanhando o flanco da face leste, passei por cima de
montes de entulho e tumbas antigas próximas uma da outra nessa
parte da necrópole e saí para o leito rochoso de calcário, coberto de
areia, do platô de Gizé, que nesse local inclina-se nas direções sul e
leste.
No fundo dessa ladeira longa e suave, a cerca de meio quilômetro da
aresta sudeste da Grande Pirâmide, a Esfinge aparece agachada em
seu fosso aberto na rocha. Medindo mais de 20m de altura por mais
de 73m de comprimento, com uma cabeça de 4,16m de largura, ela é,
por larga margem, a maior peça escultural isolada no mundo - e a
mais famosa:
Uma forma com corpo de leão e cabeça de homem.
Um olhar vazio e implacável como o sol.
Aproximando-me do monumento pelo noroeste, cruzei o antigo
passadiço que liga a Segunda Pirâmide ao denominado Templo do
Vale, de Khafre, uma estrutura muito estranha, localizada a 15,24m
exatamente ao sul da própria Esfinge, na borda leste da planície de
Gizé.
Acredita-se há muito tempo que esse templo é muito mais antigo do
que o período de Khafre. Na verdade, durante a maior parte do século
XIX, o consenso entre os estudiosos era que a estrutura fora
construída na remota pré-história e que nada tinha a ver com a
arquitetura do Egito dinástico. O que mudou tudo isso foi a descoberta
de certo número de estátuas de Khafre, com inscrições, sepultadas no
recinto do templo. Embora a maioria estivesse muito estragada, uma
delas, encontrada de cabeça para baixo em um buraco profundo em
uma antecâmara, fora achada quase intacta. De tamanho natural, e
refinadamente esculpida em diorita preta, uma pedra dura como
diamante, ela representava o faraó da Quarta Dinastia sentado no
trono, olhando para a eternidade com serena indiferença.
Nesse ponto, o raciocínio, afiado como navalha, da egiptologia entrou
em ação e encontrou uma solução de um brilhantismo quase
ofuscante: se as estátuas de Khafre tinham sido encontradas no
Templo do Vale, o templo, portanto, fora por ele construído. O
geralmente sensato Flinders Petrie resumiu a questão da seguinte
maneira: "O fato de os únicos restos suscetíveis de datação
encontrados no Templo terem sido de Khafre demonstra que a
estrutura é de seu período, uma vez ser sumamente improvável que
ele tenha se apropriado de um edifício mais antigo."
Mas por que a idéia era tão improvável assim?
Durante toda história do Egito Dinástico, numerosos faraós
apropriaram-se de edifícios de seuspredecessores, às vezes
removendo deliberadamente os cartuchos dos construtores originais e
substituindo-os pelos seus. Não havia nenhuma boa razão para supor
que Khafre teria se abstido de ligar-se ao Templo do Vale,
particularmente se o mesmo não estivesse associado em sua mente a
qualquer governante anterior registrado na história, mas apenas aos
grandes "deuses", que os antigos egípcios diziam ter trazido a
civilização ao Vale do Nilo, na distante e mítica época que chamavam
de Primeiros Tempos. Em tal local de poder arcaico e misterioso, no
qual não parece que ele tenha interferido de qualquer maneira, Khafre
pode ter pensado que instalar estátuas belas e fiéis de sua pessoa
poderia trazer benefícios eternos. E se, entre os deuses, o Templo do
Vale estivera associado a Osíris (a quem Khafre tinha o objetivo de
reunir-se na vida após a morte), o uso de sua estátua para forjar um
forte elo simbólico teria sido ainda mais compreensível.
O Templo dos Gigantes
Depois de cruzar o passadiço, o caminho que eu escolhera para
chegar ao Templo do Vale levou-me através de entulho a um campo
de "mastabas", no qual figuras menos notáveis da Quarta Dinastia
tinham sido enterradas em tumbas subterrâneas, sob plataformas de
pedra em forma de banco (mastaba é uma palavra árabe moderna
que significa banco, e daí o nome dado a essas tumbas). Segui ao
longo da parede sul do templo, lembrando-me de que esse antigo
prédio estava quase perfeitamente orientado para o sul, como
acontecia com a Grande Pirâmide (com um erro de apenas 12 minutos
de arco).
O templo era quadrado, com 44,80m de cada lado, construído na
ladeira do platô, mais alta no oeste do que no leste.Em conseqüência,
enquanto a parede oeste ficava a apenas pouco mais de 7m de altura,
a leste excedia 12m.
Visto do sul, a impressão era de uma estrutura em forma de cunha,
baixa e transmitindo uma sensação de poder, apoiada firmemente
sobre o leito rochoso. Um exame mais atento revelava que a estrutura
possuía várias características inteiramente estranhas e inexplicáveis
para o olho moderno, que deveriam ter parecido também quase tão
estranhas e inexplicáveis para os antigos egípcios. Para começar, a
ausência total, tanto dentro quanto fora da estrutura, de inscrições e
outras marcas de identificação. Neste particular, como o leitor deve
compreender, o Templo do Vale poderia ser comparado a alguns dos
demais monumentos anônimos e absolutamente infensos à datação
existentes no platô de Gizé, incluindo as grandes pirâmides (e também
uma misteriosa estrutura existente em Abidos, conhecida como
Osireion, que estudaremos em detalhes em um capítulo posterior),
mas, à parte isso, nenhuma semelhança apresentava com os produtos
típicos e bem conhecidos da antiga arte e arquitetura egípcia - todos
eles copiosamente decorados, embelezados e cobertos de inscrições.
Outro aspecto importante e incomum do Templo do Vale é que sua
estrutura central foi construída inteiramente, inteiramente, de
gigantescos megálitos de pedra calcária. A maioria deles mede 5,48m
de comprimento x 3,48m de largura x 2,43m de altura, havendo alguns
que medem 9,14m de comprimento x 3,65m de largura x 3,48m de
altura. Excedendo geralmente um peso de 200 toneladas, todos eles
são mais pesados do que uma moderna locomotiva diesel - e há
centenas desses blocos.
Esse fato seria, de alguma maneira, misterioso?
Aparentemente, os egiptólogos não pensavam assim. Na verdade,
poucos entre eles se deram ao trabalho de comentar o fato, exceto da
maneira a mais superficial possível - seja sobre o tamanho espantoso
desses blocos ou a logística assombrosa que teria sido necessária
para serem postos em seus lugares. Conforme vimos antes, monólitos
de até 70 toneladas, todos eles com um peso de 100 carros tamanho
família, haviam sido içados para o nível da Câmara do Rei na
Grande Pirâmide - mais uma vez, sem provocar muitos comentários
da comunidade de egiptólogos -, de modo que a falta de curiosidade
sobre o Templo do Vale talvez não fosse motivo para surpresa. Não
obstante, o tamanho dos blocos era realmente extraordinário,
parecendo que pertenciam não só a outra época, mas inteiramente a
outra ética - uma ética que refletia preocupações estéticas e
estruturais incompreensíveis e sugeria uma escala de prioridades
inteiramente diferente da nossa. Por que, por exemplo, insistir em usar
esses incômodos monólitos de 200 toneladas, quando poderiam
simplesmente fatiá-los em blocos de 10, 20, 40 ou 80 toneladas,
menores e mais fáceis de mover? Por que tornar as coisas tão difíceis,
quando podiam conseguir praticamente o mesmo efeito visual com
muito menos esforço?
E de que maneira os construtores do Templo do Vale içaram esses
megálitos colossais a uma altura de mais de 12m?
Atualmente, só há no mundo dois guindastes terrestres capazes de
erguer pesos dessa magnitude. Nas próprias fronteiras mais
avançadas da tecnologia de construção, esses guindastes são
máquinas enormes, industrializadas, com lanças que se projetam a
mais de 60m no ar, e que exigem contrapesos, no alto, de mais de
160 toneladas, para impedir que caiam para a frente. O tempo de
preparação para um único içamentoé de cerca de seis semanas e
requer a perícia de equipes especializadas de até 20 indivíduos.
Em outras palavras, construtores modernos, com todas as vantagens
de engenharia de alta tecnologia, mal conseguem içar pesos de 200
toneladas. Não era, portanto, algosurpreendente que os construtores
de Gizé içassem esses pesos quase que em base rotineira?
Aproximando-me mais da imponente parede sul do templo, observei
mais uma coisa nos imensos blocos de pedra calcária: eles não só
eram ridiculamente grandes, mas, como se para complicar ainda mais
uma tarefa impossível, haviam sido cortados e encaixados em um
padrão multiangular, semelhante ao que havia sido empregado nas
ciclópicas estruturas de pedra de Sacsayhuaman e Machu Picchu, no
Peru (ver Parte II).
Outro aspecto que notei é que parece que as paredes do templo foram
construídas em dois estágios. O primeiro, cuja maior parte está intacta
(embora profundamente corroída) consiste do embasamento, forte e
pesado, de blocos de 200 toneladas. Em ambos os lados desses
blocos foi enxertada uma fachada de granito trabalhado que (conforme
teremos oportunidade de ver) está intacto na maior parte no interior do
prédio, mas que desabou quase todo na parte externa. Um exame
mais atento de alguns dos blocos remanescentes do revestimento
externo, nos pontos onde se soltaram do núcleo, revela um fato
curioso. Nos tempos em que foram aqui colocados na antiguidade, a
parte posterior desses blocos foi cortada para encaixar-se e amoldar-se às bases côncavas e reentrâncias profundas das marcas de
intemperismo existentes no bloco. A presença dessas marcas parece
implicar que os blocos do núcleo devem ter estado aqui, expostos à
ação dos elementos, durante um período imenso de tempo, antes de
terem sido revestidos de granito.
O Senhor de Rostau
Dirigi-me nesse momento para a entrada do templo, localizada perto
da extremidade norte da parede leste, que tem 13,10m de altura. Notei
que, aí, o revestimento de granito continua em condições perfeitas e
que consiste de imensas lajes que pesam entre 70 e 80 toneladas, e
que protege os blocos de pedra calcária do embasamento como se
fosse uma armadura. Servido por um corredor alto, estreito e aberto
para o alto, esta escura e imponente entrada orienta-se inicialmente
para oeste, faz em seguida uma volta em ângulo reto para o sul, e
acabou me levando a uma espaçosa antecâmara. Foi neste local que
se descobriu a estátua de diorita em tamanho natural de Khafre, de
cabeça para baixo e, ao que parecia, ritualmente enterrada em um
fundo buraco.
Revestindo todo o interior da antecâmara, observei um majestoso
quebra-cabeças de blocos de granito polidos com perfeição
(encontrados da mesma forma em todo o edifício). Exatamente como
acontece com os blocos de alguns dos maiores e mais estranhos
monumentos pré-incaicos no Peru, estes têm ângulos múltiplos,
finamente entalhados nas juntas e formando um padrão geral
complexo. De interesse especial é a maneira como certos blocos
como que se dobram em torno de arestas e são recebidos por ângulos
reentrantes abertos em outros blocos.
Da antecâmara, passei através de um elegante corredor que segue na
direção oeste e desemboca em um espaçoso salão em forma de T. Na
barra do T, olhei para oeste ao longo de uma avenida imponente de
colunas monolíticas. Com uma altura de quase 5m de altura e
medindo 1,4m de cada lado, as colunas sustentam vigas de granito,
de forma quadrada, todas elas com 1,4m de cada lado. Uma fileira de
mais seis colunas, também sustentando vigas, corre ao longo do eixo
norte-sul do T, produzindo um efeito geral de simplicidade,
impressionante mas refinada.
Para o que havia sido construído esse edifício? De acordo com
egiptólogos que o atribuíam a Khafre, a finalidade era óbvia. Fora
projetado, diziam, como local para certos rituais de purificação e
renascimento, necessários ao funeral do faraó. Os próprios antigos
egípcios, porém, nenhuma inscrição deixaram confirmando essa
conclusão. Ao contrário, a única prova escrita que nos chegou indica
que o Templo do Vale não podia (pelo menos, originariamente) ter
mantido qualquer relação com Khafre, pela razão muito simples de
que foi construído antes de seu reinado. A prova escrita nesse
particular é a Estela do Inventário (mencionada no Capítulo 35), que
indica também uma idade muito maior para a Grande Pirâmide e a
Esfinge.
O que a Estela do Inventário diz sobre o Templo do Vale é que este já
existia durante o reinado do predecessor de Khafre, Khufu, época em
que fora considerado não como prédio recente, mas antiquíssimo.
Além do mais, é claro pelo contexto que não se pensava que tivesse
sido obra de algum faraó anterior. Em vez disso, acreditava-se que era
um monumento dos "Primeiros Tempos" e que tinha sido construído
pelos "deuses" que haviam se estabelecido no Vale do Nilo naquela
época remota. Na estela, o templo era designado de forma bem
explícita como "Casa de Osíris, Senhor do Rostau (Rostau é um nome
antigo da necrópole de Gizé). Como teremos oportunidade de ver na
Parte VII, Osíris foi, em numerosos aspectos, a contrapartida egípcia
de Viracocha e Quetzalcoatl, as divindades civilizatórias dos Andes e
da América Central. Com eles, Osíris compartilhou não só uma missão
comum, mas uma enorme herança de simbolismo comum. Parecia
apropriado, portanto, que a "Casa” (santuário, ou templo) de um
mestre e legislador tão sábio tivesse sido construída em Gizé, à vista
da Grande Pirâmide e na vizinhança imediata da Grande Esfinge.
Vasta, Remota e Fabulosamente Antiga
Seguindo a direção dada pela Estela do Inventário - que declara que a
Esfinge se situa "a noroeste da Casa de Osíris" - fui até a extremidade
norte da parede oeste, que cerca o salão em forma de T do Templo do
Vale. Passei por um portal monolítico e entrei em um longo e inclinado
corredor com chão de alabastro (orientado também na direção
noroeste) e que finalmente se abre para a extremidade mais baixa do
passadiço que leva à Segunda Pirâmide.
Da borda do passadiço eu tinha uma vista desimpedida da Esfinge,
situada imediatamente ao norte. Com o comprimento de um quarteirão
urbano, altura de um prédio de seis andares, a escultura está
perfeitamente orientada diretamente para leste e, dessa maneira, de
frente para o sol nascente nos dois dias equinociais do ano. Com
cabeça de homem, corpo de leão, agachada como se pronta,
finalmente, a mover as pernas após milênios de sono pétreo, a
Esfinge foi esculpida em uma única peça, em uma única corcova de
pedra calcária, em um sítio que deve ter sido milagrosamente pré-selecionado. As características excepcionais desse sítio, bem como a
vista para o Vale do Nilo embaixo, é que sua constituição geológica
contém um cômoro de pedra dura, que se projeta a 9m acima do nível
geral da crista de pedra calcária. Nesse cômoro, foram esculpidas a
cabeça e o pescoço da Esfinge, enquanto abaixo, o vasto retângulo de
pedra calcária que seria transformado no corpo foi isolado do leito
rochoso circundante. Os construtores haviam conseguido isso
escavando uma vala de 5,5m de largura por 75m de profundidade em
volta de toda a peça, criando, dessa maneira, um monólito isolado.
A primeira e duradoura impressão produzida pela Esfinge e pelo
espaço que a cerca é de velhice, de grande antiguidade - não apenas
um mero punhado de milênios, como a Quarta Dinastia de faraós, mas
vasta, remota e fabulosamente antiga. Era dessa maneira que os
antigos egípcios de todos os períodos da história desse povo
consideravam o monumento, que acreditavam guardar "O Lugar
Esplêndido do Começo de Todo o Tempo" e que reverenciavam como
o ponto focal de "um grande poder mágico que se estende por toda
região".
Esta, como já vimos, é a mensagem geral da Estela do Inventário. Ou,
para ser mais específico, é também a mensagem da "Estela da
Esfinge", aí erigida por volta do ano 1400 a.C. por Tutmósis IV; um
faraó da 18ª. Dinastia. Ainda de pé entre as patas da Esfinge, essa
lousa de granito ensina que, antes do reinado de Tutmósis, a Esfinge
esteve enterrada na areia até o pescoço. Turmósis libertou-a,
removendo a areia e mandando confeccionar a estela para
comemorar esse trabalho.
Nos últimos 5.000 anos, não ocorreram mudanças importantes de
clima no platô de Gizé. Segue-se, por conseguinte, que durante todo
esse período o espaço em que se encontra a Esfinge esteve tão
sujeito ao avanço da areia como na época em que Tutmósis mandou
removê-la - e, na verdade, como ainda acontece hoje. A história
recente prova que esse espaço pode se encher rapidamente, se não
for cuidado. Em 1818, o capitão Caviglia mandou retirar a areia para
realizar escavações e, em 1886, quando Gaston Maspero chegou
para reiniciá-las no sítio arqueológico, foi obrigado, mais uma vez, a
mandar remover a areia. Trinta e nove anos depois, em 1925, a areia
voltara com plena força e a Esfinge estava enterrada até o pescoço,
quando o Serviço de Antiguidades do Egito iniciou, mais uma vez, sua
limpeza e restauração.
Será que esse fato sugere que o clima poderia ter sido muito diferente
quando foi aberto na rocha o espaço ora ocupado pela Esfinge? Que
sentido faria erigir essa imensa estátua se seu destino fosse apenas o
de ser engolida pelas areias movediças da região oriental do Saara?
Não obstante, uma vez que o Saara é um deserto jovem, e desde que
a área de Gizé em particular era úmida e relativamente fértil há
11.000-15.000 anos, não valeria a pena estudar um cenário
inteiramente diferente? Não será possível que o espaço da Esfinge
tenha sido escavado na rocha, naqueles distantes milênios verdes,
quando a camada superior [arável] do solo ainda estava presa à
superfície do platô pelas raízes de relva e arbustos e quando o que é
hoje um deserto de areia varrida pelo vento lembrava mais as savanas
onduladas dos modernos Quênia e Tanzânia?
Nessas condições climáticas favoráveis, a construção de um
monumento semi-subterrâneo comoa Esfinge não teria ofendido o
bom senso. Os construtores não teriam razão para prever o lento
ressecamento e desertificação do platô, que acabariam por acontecer.
Ainda assim, será viável imaginar que a Esfinge poderia ter sido
construída quando Gizé ainda estava verde - há muito, muito tempo?
Conforme veremos, embora essas idéias sejam anátema para os
egiptólogos modernos, eles, ainda assim, são obrigados a reconhecer
(para citar o Dr. Mark Lehner, diretor do Projeto de Mapeamento de
Gizé) que "não há maneira direta de datar a própria Esfinge, porque
ela foi esculpida diretamente do material do próprio leito rochoso". Na
ausência de testes mais objetivos, Lehner lembrou que arqueólogos
tinham mesmo era que "datar as coisas pelo contexto". E o contexto
da Esfinge, isto é, da necrópole de Gizé - um sítio arqueológico bem
conhecido da Quarta Dinastia -, tornava óbvio também que a Esfinge
pertencia à Quarta Dinastia.
Tal raciocínio, porém, nada tinha de axiomático para os ilustres
predecessores de Lehner no século XIX, que, em certa ocasião,
estavam convencidos de que a Esfinge era muito anterior à Quarta
Dinastia.
De quem é a Esfinge, afinal de contas?
No Passing of Empires, publicado em 1900, o ilustre egiptólogo
francês Gaston Maspero, que realizou um estudo especial do
conteúdo da Estela da Esfinge, construída por Tutmósis IV; escreveu:
A estela da Esfinge contém, na linha 13, o cartucho de Khafre em
meio a um espaço vazio. (...) Isso, acredito, é uma indicação [de uma
restauração ou limpeza] da Esfinge, realizada no reinado desse
príncipe e, em conseqüência. a prova mais ou menos incontestável de
que a Esfinge já estava coberta pela areia no tempo de Khufu e de
seus predecessores...
O igualmente ilustre Auguste Mariette concordou - o que era muito
natural, uma vez que fora ele o descobridor da Estela do Inventário
(que, como vimos, informa, como coisa natural, que a Esfinge já
existia no platô de Gizé muito antes do tempo de Khufu). De modo
geral, concordaram também com essa opinião estudiosos como
Brugsch (Egypt under the Pharaohs, Londres, 1891), Petrie, Sayce e
numerosos outras figuras eminentes do período. Autores de livros de
viagens, como John Ward, afirmaram que "a Grande Esfinge deve ser
incontáveis anos mais antiga do que as Pirâmides". E em data tão
recente quanto 1904, Wallis Budge, o respeitado curador de
Antiguidades Egípcias do Museu Britânico, não hesitou em fazer a
afirmação inequívoca seguinte:
A mais antiga e melhor estátua de um leão com cabeça humana é a
famosa "Esfinge" de Gizé. Essa peça maravilhosa já existia nos dias
de Khafre, o construtor da Segunda Pirâmide e era, com toda
probabilidade, já muito antiga naquele remoto período... Pensava-se
que a Esfinge estava ligada, de alguma maneira, a estrangeiros ou a
uma religião estrangeira que datava dos tempos pré-dinásticos.
Entre o início e o fim do século XX, contudo, mudaram
espetacularmente as opiniões dos egiptólogos sobre a antiguidade da
Esfinge. Atualmente, não há um único egiptólogo ortodoxo que queira
discutir, quanto mais analisar seriamente, a sugestão maluca e
irresponsável, outrora muito comum, de que a Esfinge pudesse ter
sido construída milhares de anos antes do reinado de Khafre.
De acordo com o Dr. Sahi Hawass, por exemplo, diretor encarregado
de Gizé e Saqqara, da Organização de Antiguidades Egípcias, muitas
foram as teorias propostas, todas as quais "o vento levou", porque
"nós, egiptólogos, temos sólida prova para declarar que a Esfinge data
do tempo de Khafre".
De idêntica maneira, Carol Redmont, arquéologa da Universidade da
Califórnia, campus de Berkeley, mostrou-se incrédula quando lhe foi
sugerido que a Esfinge poderia ser milhares de anos mais antiga do
que Khafre: "Não há simplesmente maneira de isso ser verdade. O
povo daquela região não teria possuído a tecnologia, as instituições de
governo ou mesmo a vontade de construir uma estrutura desse porte,
milhares de anos antes do reinado de Khafre".
Quando comecei a pesquisar esse assunto, pensei, como Hawass
parecia alegar, que alguma nova e incontroversa prova devia ter
surgido e que solucionava a questão da identidade do construtor do
monumento. Mas não se tratava de nada disso. Na verdade, havia
apenas três razões contextuais por que a construção da anônima e
enigmática Esfinge era, nesse momento, atribuída com tanta
confiança a Khafre:
1. Por causa do cartucho de Khafre, na linha 13 da Estela da Esfinge,
mandada erigir por Tutmósis IV: Maspero dava uma explicação
absolutamente perfeita para a presença desse cartucho: Tutmósis fora
o restaurador da Esfinge e prestava homenagem a uma restauração
anterior do monumento - efetuada por Khafre, durante a Quarta
Dinastia. Essa explicação, que encerra a implicação óbvia de que a
Esfinge já devia ser velha no tempo de Khafre, é rejeitada pelos
egiptólogos modernos. Com a habitual concordância mental telepática,
eles concordam agora que Tutmósis colocou o cartucho na estela para
deixar claro que Khafre havia sido o construtor original (e não um
mero restaurador).
Uma vez que só havia esse único cartucho - e desde que haviam
desaparecido os textos de ambos os seus lados ao ser escavada a
estela, não é um tanto prematuro chegar a conclusões tão categóricas
assim? Que ciência é essa que permite que a mera presença do
cartucho de um faraó da Quarta Dinastia (em uma estela erigida por
um faraó da 18ª. Dinastia) determine a identificação irrefutável de um
monumento, à parte esse fato, inteiramente anônimo? Além do mais,
até esse cartucho desapareceu por desgaste e não pôde ser
examinado...
2. Porque o Templo do Vale próximo também é atribuído a Khafre:
Essa atribuição de autoria (baseada em estátuas que podem muito
bem ter sido intrusas) é, para dizer o mínimo, extremamente débil.
Ainda assim, ela recebeu o apoio irrestrito dos egiptólogos, que, nesse
processo, resolveram atribuir também a Khafre a construção da
Esfinge (uma vez que ela e o Templo do Vale estão obviamente
ligados).
3. Porque pensam que a face da Esfinge lembra a estátua intacta de
Khafre encontrada em um buraco no Templo do Vale: O que, claro, é
uma questão de opinião. Eu nunca encontrei a menor semelhança
entre as duas faces. Nem, por falar nisso, artistas do Departamento de
Polícia de Nova York, especialistas em retratos falados, que foram
recentemente trazidos para fazer uma comparação entre a Esfinge e a
estátua (conforme veremos na Parte VII).
Tudo bem pesado, portanto, enquanto eu me encontrava olhando do
alto para a Esfinge, naquele fim de tarde de 16 de março de 1993,
concluí que o júri ainda estava muito longe decerto na questão da
atribuição correta de autoria desse monumento - a Khafre, por um
lado, ou aos arquitetos de uma grande civilização ainda não
identificada da antiguidade pré-histórica, por outro. Pouco importando
qual pudesse ser a moda do mês (ou do século) entre os egiptólogos,
inegavelmente ambos os cenários eram plausíveis. O que se
precisava, por conseguinte, era alguma prova inteiramente sólida e
inequívoca que resolvesse a questão de uma maneira ou de outra.
Parte VII
O Senhor da Eternidade
Egito 2
CAPÍTULO 40
Há Ainda Segredos no Egito?
Em princípios da noite de 26 de novembro de 1922, o arqueólogo
britânico Howard Carter, juntamente com seu patrocinador, lorde
Carnarvon, entrou na tumba de um jovem faraó da 18ª. Dinastia, que
governou o Egito nos anos 1352-43 a.C. O nome desse faraó, que
desde então vem ressoando em volta do mundo, era Tutancâmon.
Duas noites depois, no dia 28 de novembro, o "Tesouro" da tumba foi
aberto. O local era ocupado por um imenso santuário de ouro e dava
acesso a outra câmara, atrás da primeira. De forma bem estranha,
essa câmara, embora empilhada com um número estonteante de
artefatos belos e preciosos, não tinha porta: sua entrada era vigiada
por uma efígie de aparência extraordinariamente viva do deus da
morte, Anúbis, que tem cabeça de chacal. Com as orelhas empinadas,
o deus estava agachado como um cão, as patas dianteiras estendidas
para a frente, sobre a tampa de um caixão dourado de madeira, de
1,20m de comprimento, 90cm de altura e 60cm de largura.
Museu Egípcio, Cairo, dezembro de 1993
Ainda em cima de seu caixão, mas nesse momento guardado em uma
vitrine empoeirada, Anúbis prendeu minha atenção durante um longo
e silencioso momento. A efígie fora esculpida em madeira, revestida
inteiramente de resina preta e em seguida laboriosamente marchetada
de ouro, alabastro, calcita, obsidiana e prata - materiais esses usados
com efeito especial nos olhos, que brilhavam vigilantes, transmitindo
um senso inquietante de inteligência feroz e concentrada.
Simultaneamente, as costelas finamente desenhadas e os músculos
de aparência flexível davam-lhe uma aura de força, energia e graça
controladas.
Capturado pelo campo de força dessa presença misteriosa e
poderosa, lembrei-me vividamente dos mitos universais da precessão
dos equinócios, que eu vinha estudando há um ano. Figuras caninas
entram e saem desses mitos, isso de uma maneira que, as vezes,
parece quase intencional em sentido literário. Eu havia começado a
especular se o simbolismo dos cães, lobos, chacais, e assim por
diante, não poderia ter sido empregado deliberadamente por
construtores de mitos há muito desaparecidos para guiar os iniciados,
através de um labirinto de pistas, até reservatórios secretos de
conhecimentos científicos.
Entre esses reservatórios, eu desconfiava que um deles era o mito de
Osíris. Muito mais do que um mito, ele havia sido dramatizado e
representado todos os anos no antigo Egito, sob a forma de uma peça
de mistério - uma criação literária "artificial", transmitida aos pósteros
como valiosa tradição desde tempos pré-históricos. Essa tradição,
como vimos na Parte V, continha valores relativos à taxa do
movimento de precessão dos equinócios, tão exatos e tão coerentes
que dificilmente se poderia atribuí-los ao mero acaso. Tampouco
parecia um acaso que tivesse sido atribuído ao deus chacal um papel
central no drama, servindo como espírito guia de Osíris em sua
jornada pelo inferno. Era tentador, igualmente, especular se havia
alguma significação no fato de que, nos tempos antigos, Anúbis era
chamado pelos sacerdotes egípcios como o "guardião" do segredo e
dos escritos sagrados. Sob a borda sulcada do caixão dourado, onde
nesse momento se agacha sua efígie, foi encontrada uma inscrição
que dizia: "iniciado nos segredos". Traduções alternativas do mesmo
texto hieroglífico apresentavam as versões seguintes: "aquele que
está prestes a descobrir os segredos" e "guardião dos segredos".
Mas havia ainda algum segredo a desvendar no Egito?
Após mais de um século de intensivas pesquisas arqueológicas,
poderiam as areias dessa terra antiga ainda guardar outras
surpresas?
As Estrelas de Bauval e as Pedras de West
Em 1993, uma nova e notável descoberta sugeriu haver ainda muito
mais coisas a descobrir sobre o antigo Egito. A descoberta, além
disso, não coube a algum arqueólogo com problemas de
astigmatismo, a tentear seu caminho através da poeira das idades,
mas a um estranho ao campo: Robert Bauval, um engenheiro civil
belga com jeito para astronomia, que observou uma correlação nos
céus que os especialistas jamais haviam notado, tal era a fixação
deles na terra sob os pés.
O que Bauval viu foi o seguinte: quando as três estrelas do cinturão da
constelação de Órion cruzavam o meridiano de Gizé, elas não
ocupavam uma linha inteiramente reta, alta no céu do sul. As duas
estrelas mais baixas, Al Nitak e Al Nilam, formavam uma diagonal
perfeita, ao passo que a terceira, Mintaka, aparecia deslocada para a
esquerda do observador, isto é, na direção leste.
De forma muito curiosa (como vimos no Capítulo 36) este é
exatamente o plano do sítio arqueológico das três enigmáticas
pirâmides do platô de Gizé. Bauval compreendeu que uma vista aérea
da necrópole de Gizé mostraria a Grande Pirâmide de Khufu
ocupando a posição de Al Nitak, a Segunda Pirâmide, de Khafre, a
posição de Al Nilam, enquanto a Terceira, a de Menkaure, apareceria
deslocada para leste da diagonal formada pelas duas outras -
completando, dessa maneira, o que parecia inicialmente ser um
imenso diagrama das estrelas.
Seria isso, na verdade, o que as pirâmides de Gizé representavam?
Eu sabia que o trabalho posterior de Bauval, entusiasticamente
endossado por matemáticos e astrônomos, tinha-lhe confirmado o
inspirado palpite. A prova que apresentou (estudada em detalhes no
Capítulo 49) indicava que as três pirâmides constituíam um mapa
terrestre inacreditavelmente exato das três estrelas do cinturão de
Órion, refletindo, com precisão, os ângulos entre cada uma delas e
mesmo (mediante seus respectivos tamanhos) proporcionando
alguma indicação de suas magnitudes individuais. Além do mais, esse
mapa estendia-se nas direções norte e sul para abranger várias outras
estruturas do platô de Gizé mais uma vez, com precisão impecável.
Não obstante, a verdadeira surpresa revelada pelos cálculos
astronômicos de Bauval foi a seguinte: a despeito do fato de que
alguns aspectos da grande Pirâmide relacionam-se, na verdade, com
a Era das Pirâmides, os monumentos de Gizé, como um todo, foram
dispostos para proporcionar um mapa do céu (que muda de aparência
através das idades como resultado da precessão dos equinócios) não
como era ao tempo da Quarta Dinastia, por volta do ano 2500 a.C.,
mas como havia parecido - e apenas como havia parecido - por volta
do ano 10450 a.C.
Eu viera ao Egito para percorrer o sítio arqueológico de Gizé em
companhia de Robert Bauval e para lhe fazer perguntas sobre sua
teoria de correlação estelar. Além disso, queria conhecer-lhe as
opiniões sobre que tipo de sociedade humana, se ela de fato existiu,
poderia ter o know how tecnológico necessário, em época tão remota
no passado, para medir acuradamente as altitudes das estrelas e
traçar um plano tão matemático e ambicioso como o da necrópole de
Gizé.
E viera também encontrar outro pesquisador que contestou a
cronologia ortodoxa do antigo Egito, com a alegação, bem
fundamentada, de ter encontrado prova robusta da existência de uma
civilização avançada no Vale do Nilo no ano 10000 a.C., ou mesmo
antes. Tal como os dados astronômicos de Bauval, a prova estivera à
disposição de todos, mas não conseguira atrair a atenção de
egiptólogos ortodoxos. O homem responsável por colocá-la à vista do
público era um estudioso americano, John Anthony West, que
argumentou que os especialistas a haviam ignorado - não porque não
a tivessem encontrado, mas porque a encontraram mas não
conseguiram interpretá-la corretamente.
A prova de West focalizava certas estruturas importantes,
notadamente a Grande Esfinge e o Templo do Vale, em Gizé, e, muito
distante ao sul, o misterioso Osireion, em Abidos. Argumentou ele que
esses monumentos no deserto apresentam numerosos sinais
cientificamente inconfundíveis de terem sofrido intemperismo de água,
um agente erosivo ao qual poderiam ter sido expostos em quantidades
suficientes apenas durante o período "pluvial" úmido que
acompanhara o fim da última Era Glacial, por volta do undécimo
milênio a.C. A implicação desse padrão peculiar e extraordinariamente
característico de intemperismo por "precipitação induzida" era que o
Osireion, a Esfinge e outras estruturas associadas tinham sido
construídas antes do ano 10000 a.C.
Um jornalista investigativo britânico resumiu o efeito nas seguintes
palavras:
West é, realmente, o pior pesadelo que pode acontecer a um
acadêmico, porque lá vem alguém inteiramente estranho ao campo,
com uma teoria bem-elaborada, bem-apresentada, coerentemente
descrita, cheia de dados que ele não pode refutar e que lhe puxa o
tapete sob os pés. Se assim, como é que ele enfrenta a situação?
Ignora-a. Alimenta a esperança de que ela desapareça... e ela não
desaparece.
A razão por que a nova teoria não desaparecia, em nenhuma
circunstância, a despeito de ter sido repelida por dezenas de
"competentes egiptólogos", era que ela recebera apoio geral de outro
ramo das ciências - a geologia. O Dr. Robert Schoch, professor de
geologia da Universidade de Boston, desempenhou um papel
importante na validação das estimativas de West sobre a verdadeira
idade da Esfinge, tendo suas opiniões sido endossadas por quase 300
de seus colegas na convenção anual de 1992, da Sociedade
Geológica da América.
Desde então, quase sempre travada na penumbra, uma acrimoniosa
discussão começou a queimar entre geólogos e egiptólogos. E
embora poucas pessoas além de John West estivessem dispostas a
dizer isso, o que estava em jogo nessa discussão era uma reviravolta
completa nas idéias aceitas sobre a evolução da civilização humana.
Diz West:
Disseram-nos que a evolução da civilização humana é um processo
linear que ocorreu dos broncos homens das cavernas para nós, os
espertos, com nossas bombas de hidrogênio e pasta de dente listrada.
Mas a prova de que a Esfinge é muitos, muitos milhares de anos mais
velha do que pensam os arqueólogos, que precedeu em muitos
milhares de anos até o Egito dinástico, significa que certamente
existiu, em algum ponto distante da história, uma civilização avançada
e sofisticada - como afirmam todas as lendas.
Minhas próprias viagens e pesquisas nos quatro anos anteriores
haviam aberto meus olhos para a possibilidade eletrizante de que
essas lendas pudessem ser verdadeiras e este era o motivo por que
eu voltava ao Egito para me encontrar com West e Bauval. Eu estava
impressionado com a maneira como suas linhas de pesquisa, até
então muito separadas, haviam convergido de modo tão convincente,
no que pareciam ser as impressões digitais astronômicas e geológicas
de uma civilização perdida, uma civilização que poderia ou não ter
surgido no Vale do Nilo, mas que parecia já ter existido em época tão
remota quando o undécimo milênio a.C.
O Caminho do Chacal
Anúbis, guardião dos segredos, deus da câmara funerária, divindade
de cabeça de chacal, desbravadora dos caminhos dos mortos, guia e
companheiro de Osíris...
Eram 5h da tarde, tempo de encerramento do expediente no Museu
do Cairo, quando Santha disse que estava satisfeita com as fotos que
havia tirado da sinistra efígie negra. No andar inferior, guardas
usavam seus apitos e batiam palmas, enquanto procuravam tanger
para fora dos salões os últimos visitantes, embora, no segundo andar
do prédio de cem anos, onde o antigo Anúbis se agachava em sua
vigilância eterna, tudo estivesse em silêncio, imóvel.
Deixamos o sombrio museu e saímos para a luz do sol, que ainda
banhava a movimentada praça Tahrir, no Cairo.
Anúbis, refleti, compartilhara seus deveres como espírito guia e
guardião dos textos sagrados com outro deus, cujo símbolo e tipo
haviam sido também o chacal e cujo nome, Upuaut, literalmente
significa Desbravador de Caminhos. Ambas as divindades caninas
estiveram ligadas desde tempos imemoriais com a cidade antiga de
Abidos, no alto Egito, cujo deus original, Khenti-Amentiu (o
estranhamente denominado "O Maior dos Ocidentais") havia sido
representado também como membro da família dos cães, geralmente
deitado sobre uma coluna preta.
Haveria alguma importância no reaparecimento constante em Abidos
de todas essas referências míticas e simbólicas a cães, com a
promessa de segredos vitais prestes a ser revelados? Valia a pena
tentar descobrir, uma vez que as extensas ruínas existentes nesse
local incluíam a estrutura conhecida como Osireion, que a pesquisa
geológica de West indicava que poderia ser muito mais antiga do que
pensavam os arqueólogos. Além disso, eu já havia combinado me
encontrar com West dentro de alguns dias na cidade de Lúxor, no alto
Nilo, a menos de 200km ao sul de Abidos. Em vez de voar
diretamente do Cairo para Lúxor, como pensara inicialmente fazer,
compreendi nesse momento que seria inteiramente viável ir por
estrada de rodagem e visitar Abidos e vários outros sítios
arqueológicos ao longo do caminho.
Nosso motorista, Mohamed Walili, esperava-nos em um
estacionamento subterrâneo nas vizinhanças da praça Tahrir. Homem
idoso, grandalhão, alegre, ele era dono de um escalavrado táxi
Peugeot, do tipo que geralmente faz ponto no lado de fora do hotel
Mena House, em Gizé. Nos últimos anos, em nossas freqüentes
viagens de pesquisa ao Cairo, havíamos feito amizade com ele e,
nesse momento, Walili era nosso motorista oficial sempre que
visitávamos o Egito. Pechinchamos durante algum tempo sobre a
diária apropriada para a longa viagemde ida e volta a Abidos e Lúxor.
Numerosas questões precisavam ser levadas em conta, incluindo o
fato de que algumas áreas pelas quais passaríamos haviam sofrido
recentemente ataques terroristas de militantes islâmicos. No fim,
concordamos sobre o preço e combinamos partir bem cedo na manhã
seguinte.
CAPÍTULO 41
A Cidade do Sol, a Câmara do Chacal
Mohamed veio nos buscar no hotel, em Heliópolis, às 6h da manhã,
quando ainda estava meio escuro.
Tomamos pequenas xícaras de café preto em uma barraca à beira da
estrada e, em seguida, partimos para oeste, ao longo de estradas de
terra ainda quase desertas, na direção do rio Nilo. Pedi a Mohamed
que passasse pela praça Maydan al-Massalah, dominada por um
obelisco egípcio intacto que é um dos mais antigos do mundo.
Pesando estimadas 170 toneladas, o obelisco de granito vermelho, de
51m de altura, foi mandado construir pelo faraó Senuseret I (nos anos
1971-1928 a.C.) Originariamente, era parte de um par de obeliscos à
porta do grande Templo do Sol, onde havia um culto a esse astro. Nos
4.000 anos transcorridos, o próprio templo desaparecera por
completo, como também o segundo obelisco. Na verdade, quase toda
a antiga Heliópolis estava nessemomento obliterada, canibalizada
para obtenção de suas belas pedras trabalhadas e de material de
construção, pronto para uso, por incontáveis gerações de moradores
do Cairo.
Heliópolis (Cidade do Sol) mencionada na Bíblia como On, fora
originariamente conhecida na língua egípcia como Innu, ou Innu
Mehret - que significa "o pilar" ou "opilar norte". Trata-se de uma zona
de grande santidade, ligada a um estranho grupo de nove divindades
solares e estelares e já era antiqüíssima quando Senuseret escolheu
aquele local para mandar erigir seu obelisco. Na verdade, juntamente
com Gizé (e a distante cidade meridional de Abidos) acredita-se que
Innu/Heliópolis havia sido parte da primeira terra a emergir das
águas primevas no momento da criação, a terra dos "Primeiros
Tempos", onde os deuses tinham iniciado seu reinado na terra.
A teologia de Heliópolis baseava-se em um mito de criação
caracterizado por certo número de aspectos únicos e curiosos.
Ensinava ele que, no início, o universo era apenas um nada escuro,
aquoso, denominado Nun. Nesse oceano cósmico inerte (descrito
como "informe, escuro com a escuridão da noite mais escura") surgiu
um monte de terra seca, sobre o qualRá, o Deus-Sol, materializou-se
em sua forma auto-criada como Atum (às vezes descrito como um
velho barbado, apoiado em um cajado):
O céu não havia sido criado, a terra não havia sido criada, os filhos da
terra e os répteis não haviam sido formados naquele lugar... Eu, Atum,
criei a mim mesmo... Não existia ninguém para trabalhar comigo...
Consciente de estar sozinho, esse ser santo e imortal deu um jeito de
criar dois filhos divinos, Shu, o deus do ar e da secura, e Tefnut, a
deusa da umidade: "Enfiei meu falo em minha mão fechada. Fiz minha
semente entrar em minha mão. Coloquei-a em minha própria boca.
Evacuei sob a forma de Shu e urinei sob a forma de Tefnut".
A despeito dessas origens aparentemente inauspiciosas, Shu e Tefnut
(sempre descritos como "Gêmeos" e freqüentemente representados
como leões) cresceram e se tornaram adultos, copularam e geraram
uma prole própria: Geb, o deus da terra, e Nut, a deusa do céu. Estes
dois coabitaram também, gerando Osíris e Ísis, Set e Nepthys e,
dessa maneira, completaram a Enéade, o grupo completo dos Nove
Deuses de Heliópolis. Entre os nove,diziam as lendas que Rá, Shu,
Geb e Osíris governaram o Egito como reis, seguidos por Hórus e,
finalmente durante 3.226 anos - pelo deus da sabedoria, Thoth, que
tinha cabeça de íbis.
Quem eram essas pessoas - criaturas, seres ou deuses? Teriam sido
criações da imaginação de sacerdotes, símbolos ou números? As
histórias contadas sobre eles teriam sido recordações míticas vívidas
de fatos reais, que haviam ocorrido milhares de anos antes? Ou teriam
sido, talvez, parte de uma mensagem codificada dos antigos, que fora
se transmitindo por si mesma, repetidamente, ao longo das épocas -
uma mensagem que só agora começa a ser desvendada e
compreendida?
Essas idéias parecem fantasiosas. Ainda assim, eu dificilmente podia
esquecer que dessa mesma tradição surgira o grande mito de Ísis e
Osíris, transmitindo secretamente um cálculo preciso da taxa do
movimento da precessão dos equinócios. Além do mais, os
sacerdotes de Innu, que tinham a responsabilidade de guardar e
alimentar essas tradições, haviam sido famosos em todo o Egito por
sua alta sabedoria e proficiência em profecia, astronomia, matemática,
arquitetura e artes mágicas. E renomados também pela posse de um
objeto poderoso e sagrado conhecido como o Benben.
Os egípcios davam a Heliópolis o nome de Innu, o pilar, porque a
tradição dizia que o Benben havia sido conservado ali nos remotos
tempos pré-dinásticos, onde se equilibrava sobre o alto de um pilar de
pedra toscamente cortada.
Acreditava-se que o Benben tinha caído dos céus. Infelizmente, havia
se perdido há tanto tempo que ninguém se lembrava mais de sua
aparência quando Senuseret subiu ao trono em 1971 a.C. Nesse
período (12ª. Dinastia) tudo de que havia clara lembrança era que o
Benben tivera forma piramidal, fornecendo dessa maneira (juntamente
com o pilar onde se equilibrava) umprotótipo para a forma de todos os
obeliscos futuros. O nome Benben era também aplicado ao
piramidião, ou capitel, geralmente colocado no cume das pirâmides.
Em sentido simbólico, estava também estreita e diretamente
associado a Rá-Atum, sobre o qual diziam textos antigos: "Vieste alto
das alturas; subiste alto, como a pedra Benben na Mansão da Fênix..."
A Mansão da Fênix era o nome do primeiro templo de Heliópolis onde
Benben fora conservado. O nome refletia o fato de que o misterioso
objeto tinha servido também como duradouro símbolo da mítica Fênix,
a divina ave Bennu, cujos surgimentos e desaparecimentos, segundo
se acreditava, estavam ligados a violentos ciclos cósmicos e à
destruição e renascimento das eras no mundo.
Ligações e Similaridades
Rodando pelos subúrbios de Heliópolis por volta de 6h30m da manhã,
fechei os olhos e tentei conjurar um quadro da paisagem, como
deveria ter sido nos Primeiros Tempos míticos, depois que a Ilha da
Criação - o primordial monte de Rá-Atum - surgira do dilúvio de Nun.
Era tentador ver uma ligação entre essa imagística e tradições
andinas que falam do deus civilizador Viracocha emergindo das águas
do lago Titicaca, após um dilúvio que destruiu a terra. Além do mais,
havia a figura de Osíris para levar em conta - uma figura
conspicuamente barbuda, tal como Viracocha e, também, Quetzalcoatl
-, que era lembrado por ter abolido o canibalismo entre os egípcios,
por lhes ter ensinado a agricultura e a criação de animais e lhes dado
os rudimentos de artes tais como a escrita, a arquitetura e a música.
Era difícil deixar de notar as similaridades entre as tradições do Velho
e Novo Mundo, porém, mais difícil ainda, interpretá-las. Era possível
que fossem apenas uma série de coincidências enganosas. Por outro
lado, era também possível que pudessem revelar as impressões
digitais de uma civilização global antiga e não identificada -
impressões digitais que eram essencialmente as mesmas, quer
aparecessem nos mitos da América Central, nos altos Andes, ou no
Egito. Os sacerdotes de Heliópolis, afinal de contas, haviam ensinado
como acontecera a criação, mas quem lhes ensinara isso? Teria o
mito surgido do nada ou seria mais provável que a doutrina que
ensinavam, com todo seu simbolismo complexo, fosse produto de um
longo refinamento de idéias religiosas?
Se assim, quando e onde haviam surgido essas idéias?
Abri os olhos e descobri que havíamos deixado Heliópolis para trás e
que costurávamos nosso caminho através das ruas barulhentas e
congestionadas do centro do Cairo. Chegamos à outra margem do
Nilo, cruzando a ponte Seis de Outubro e, logo em seguida, entramos
em Gizé. Quinze minutos depois, passando pelo volume maciço da
Grande Pirâmide à nossa direita, viramos para o sul e tomamos a
estrada para o alto Egito, uma estrada que segue o curso meridional
do rio mais longo do mundo, através de uma paisagem de palmeiras e
campos verdes, orlada pelas terras áridas invasoras de desertos
implacáveis.
As idéias dos sacerdotes de Heliópolis haviam influenciado todos os
aspectos da vida secular e religiosa do antigo Egito, mas teriam essas
idéias se desenvolvido localmente ou haviam sido introduzidas no
Vale do Nilo procedentes de outras paragens? As tradições egípcias
fornecem uma resposta inequívoca a perguntas como essas. Toda
sabedoria de Heliópolis era uma herança, dizia ela, e essa herança
fora passada à humanidade pelos deuses.
Dádiva dos Deuses?
Cerca de 15km ao sul da Grande Pirâmide, saímos da estrada
principal para visitar a necrópole de Saqqara. Erguendo-se à margem
do deserto, o sítio arqueológico é dominado por um zigurate em seis
camadas, a pirâmide escalonada de Zóser, faraó da Terceira Dinastia.
Esse monumento imponente, de quase 60m de altura, é datado como
tendo sido de aproximadamente 2650 a.C. Situa-se no interior de um
espaço próprio, cercado por uma elegante muralha fechada e é
considerado por arqueólogos como a mais antiga construção maciça
de pedra jamais tentada pela humanidade. Diz a tradição que teve
como arquiteto o lendário Imhotep, "Grande da Magia”, um alto
sacerdote de Heliópolis cujos outros títulos incluíam Sábio, Feiticeiro,
Astrônomo e Médico.
Em um capítulo posterior, teremos mais coisas a dizer sobre a
pirâmide escalonada e seu construtor. Nesta ocasião, porém, eu não
tinha vindo a Saqqara para vê-Ia. Meu único objetivo era passar
alguns momentos na câmara funerária de uma pirâmide próxima, a de
Unas, um faraó da Quinta Dinastia, que reinara de 2356 a 2323 a.C.
As paredes dessa câmara, que eu visitara numerosas vezes antes,
continham inscrições, do chão ao teto, com o mais antigo dos Textos
da Pirâmide, um conjunto de inscrições hieroglíficas dando voz a um
conjunto de idéias notáveis - em agudo contraste com os interiores
mudos e despojados das pirâmides da Quarta Dinastia, em Gizé.
Fenômeno exclusivo da Quinta e Sexta Dinastias (2465-2151 a.C.), os
Textos da Pirâmide são escrituras sagradas, parte das quais pensa-se
que foi escrita por sacerdotes de Heliópolis no terceiro milênio a.C., e
partes que eles teriam recebido de tempos pré-dinásticos e que
passaram aos pósteros. E eram essas partes dos Textos, datando de
uma antiguidade remota e impenetrável, que haviam me despertado a
maior curiosidade quando começara a pesquisá-los alguns meses
antes. Eu havia também achado divertida - e um pouco difícil de
entender - a maneira como parecia que arqueólogos franceses do
século XIX tinham sido quase que dirigidos para a câmara oculta dos
Textos da Pirâmide por um mitológico "desbravador de caminhos". De
acordo com relatos razoavelmente bem documentados, um capataz
egípcio de escavações que vinham sendo feitas em Saqqara, acordou
e levantou-se certa manhã e, quando deu por si, estava junto de uma
pirâmide arruinada, olhando para os brilhantes olhos cor de âmbar de
um chacal do deserto:
Era como se o animal estivesse escarnecendo de seu observador
humano... e convidando o confuso indivíduo a caçá-lo. Lentamente, o
chacal dirigiu-se para a face norte da pirâmide, parando por um
momento antes de desaparecer em um buraco. O confuso árabe
resolveu seguir a indicação. Após esgueirar-se pelo apertado buraco,
descobriu que estava rastejando para as escuras entranhas da
pirâmide. Logo em seguida, emergiu no interior de uma câmara e,
erguendo uma luz, viu que as paredes estavam cobertas de cima a
baixo de inscrições hieroglíficas, que haviam sido cortadas com
refinada arte artesanal na pedra calcária sólida e pintadas em
turquesa e dourado.
Hoje, a câmara forrada de hieróglifos no interior da pirâmide arruinada
de Unas é ainda alcançada através da face norte e da longa
passagem em declive escavada pela equipe francesa, logo depois da
surpreendente descoberta do capataz. A câmara consiste de duas
salas retangulares separadas por uma divisória, na qual há uma porta
baixa. Ambas as salas são cobertas por um teto em cumeeira, pintado
com uma miríade de estrelas. Emergindo encurvado pela passagem
apertada, Santha e eu entramos na primeira das duas salas e
cruzamos a porta de ligação para a segunda. Esta era a câmara da
tumba propriamente dita, com o maciço sarcófago de granito negro de
Unas na extremidade oeste e os estranhos pronunciamentos dos
Textos da Pirâmide fazendo-se ouvir em todas as paredes.
Falando-nos diretamente (e não através de enigmas e fórmulas
mágicas matemáticas, como as paredes despojadas da Grande
Pirâmide), o que era que diziam esses hieróglifos? Eu sabia que a
resposta depende, até certo ponto, da tradução que usamos,
principalmente porque a linguagem dos Textos da Pirâmide contém
tantas formas arcaicas e tantas alusões mitológicas estranhas que os
estudiosos foram obrigados a preencher com palpites os claros em
seus conhecimentos. Não obstante, aceita-se em geral que o falecido
R.O. Faulkner, professor de língua egípcia antiga do University
College, de Londres, produziu a versão mais autorizada.
Faulkner, cuja tradução estudei linha após linha, descreveu os textos
como constituindo "o mais antigo corpus de literatura religiosa e
funerária egípcia ora existente", e acrescentou que "formam a menos
corrompida de todas essas coletâneas e revestem-se de importância
fundamental para o estudante da religião egípcia (...)". A razão porque
os textos são tão importantes (como concordam numerosos
estudiosos) é que constituem o último canal inteiramente aberto,
ligando o período relativamente curto do passado de que a
humanidade se recorda, com o período muito mais longo que foi
esquecido: "Eles nos desvendam vagamente um mundo desaparecido
de pensamento e fala, o último de eras incontáveis, através das quais
o homem pré-histórico passou, até que, finalmente, (...) ingressou na
era histórica".
É difícil discordar de sentimentos como os seguintes: os textos
revelam, de fato, um mundo desaparecido. Mas o que me intrigava
mais a respeito desse mundo era a possibilidade de que pudesse ter
sido habitado não só por selvagens primitivos (o que seria de esperar
na pré-história remota), mas por homens e mulheres de mentes
iluminadas por conhecimento científico do cosmo. O quadro geral, no
entanto, era equívoco: havia elementos autenticamente primitivos nos
Textos da Pirâmide, lado a lado com seqüências mais esclarecidas de
idéias. Não obstante, em todas as ocasiões em que eu me
aprofundava naquilo que os egiptólogos chamam de "esses antigos
sortilégios", ficava impressionado com os estranhos vislumbres que
eles pareciam dar de uma alta inteligência em ação, projetando-se de
trás de níveis de incompreensão, relatando experiências que o
"homem pré-histórico" jamais poderia ter tido e manifestando idéias
que ele jamais teria podido formular. Em suma, o efeito produzido
pelos textos, através de hieróglifos, era semelhante ao efeito obtido
pela Grande Pirâmide através da arquitetura. Em ambos os casos, a
impressão dominante era de grande antiguidade - de processos
tecnológicos avançados, usados ou descritos em um período na
história humana em que supostamente não havia qualquer tipo de
tecnologia...

CAPÍTULO 42
Eras Passadas e Enigmas
Olhei em volta da câmara de paredes cinzentas da pirâmide de Unas,
correndo a vista para cima e para baixo das longas carreiras de
hieróglifos, nas quais haviam sido gravados os Textos da Pirâmide.
Gravados, aliás, em uma língua morta. Não obstante, a afirmação
constante, repetida uma vez após outra nessas composições antigas,
era a de vida - vida eterna - que seria obtida através do renascimento
do faraó, como estrela, na constelação de Órion. Como o leitor deve
recordar-se pelo que leu no Capítulo 19 (onde comparamos as
crenças egípcias com as do México antigo), conhecemos vários
pronunciamentos que manifestavam explicitamente tal aspiração:
Ó, Rei, tu és a Grande Estrela, o Companheiro de Órion, aquele que
cruza os céus com Órion... Subiste do leste do céu, sendo renovado
na devida estação e rejuvenescido no devido tempo...
Embora inegavelmente belos, nada havia de inerentemente
extraordinário nesses sentimentos e não era em absoluto impossível
atribuí-los a um povo considerado pelo arqueólogo francês Gaston
Maspero como tendo "permanecido sempre meio selvagem". Além do
mais, desde que Maspero fora o primeiro egiptólogo a penetrar na
pirâmide de Unas, e havia sido considerado uma grande autoridade
nos textos, dificilmente deveria surpreender que sua opinião tivesse
inspirado todas as reações acadêmicas a tal literatura, desde que ele
começou a publicar traduções da mesma na década de 1880.
Maspero, com a pequena ajuda de um chacal, dera ao mundo os
Textos da Pirâmide. Daí em diante, o domínio de seus preconceitos
sobre o passado funcionou como umfiltro para o conhecimento,
inibindo interpretações diferentes das declarações mais opacas ou
enigmáticas. Para mim, isso foi, para dizer o mínimo, uma infelicidade.
O que isso significava era que, a despeito dos enigmas técnicos e
científicos configurados por monumentos como a Grande Pirâmide de
Gizé, os estudiosos ignoraram as implicações de algumas passagens
notáveis dos textos.
Esses trechos pareciam, suspeitosamente, tentativas de expressar
imagística técnica e científica complexa em uma linguagem
inteiramente imprópria. Talvez fosse coincidência, mas o resultado
lembrava aquilo que poderíamos esperar hoje, se tentássemos
traduzir a Teoria da Relatividade, de Einstein, para o inglês
chauceriano ou descrever um avião supersônico em um vocabulário
derivado da Alta Idade Média alemã.
Imagens Deformadas de uma Tecnologia Perdida?
Vejam, por exemplo, o equipamento e ajudas peculiares que o faraó
deveria usar quando viajasse para seu local de repouso eterno entre
as estrelas:
Os deuses que estão no céu vieram a ti, os deuses que estão na terra
se reuniram por ti, eles colocam as mãos sob teu corpo, fazem uma
escada para ti, para que por ela subas ao céu, as portas do céu se
escancaram para ti, as portas do firmamento estrelado se abrem
inteiramente para ti.
O faraó que subia aos céus era identificado, e freqüentemente
chamado, de "um Osíris". O próprio Osíris, como vimos acima, era
muitas vezes ligado e associado à constelação de Órion. Diziam os
antigos egípcios que Osíris-Órion fora o primeiro a subir a grande
escada construída pelos deuses. E várias frases não deixam dúvida
de que essa escada não se estendia para cima, da terra para o céu,
mas também para baixo, do céu para a terra. Ela era descrita como
uma escada de corda e a crença era de que pendia de um "prato de
ferro" suspenso no céu.
Estaríamos lidando aqui, perguntei a mim mesmo, simplesmente com
os produtos da imaginação de sacerdotes semi-selvagens? Ou
poderia haver alguma explicação para referências como essas?
Na Declaração 261, encontramos: "O rei é uma chama, movendo-se à
frente do vento até os confins do céu e os confins da terra (...) O rei
viaja no ar e cruza a terra (...) A ele foi concedido um meio de subir ao
céu...”
Passando para o diálogo, a Declaração 310 proclama:
"Oh, tu, cuja visão está em tua face e cuja visão está na parte de trás
de tua cabeça, traze isso para mim!”
"Que barca te será trazida?”
"Traze-a para mim: 'Ela voa e pousa."
A Declaração 332, supostamente de autoria do próprio rei,
confidenciava:
"Eu sou aquele que escapou da serpente enroscada, eu ascendi em
uma explosão de fogo, tendo me transformado inteiramente. Os dois
céus vêm a mim."
Na Declaração 669, uma pergunta é feita: "Com que meios pode o rei
ser levado a voar?”
E uma resposta é dada: "A ti será trazido a barca-Hnw [palavra em
itálico, intraduzível] e... [falta de texto] da ave-hn [palavra em itálico,
intraduzível]. Com isso, voarás. Voarás alto e leve."
Outros trechos, ao que parece, mereciam um exame mais cuidadoso
do que o recebido dos estudiosos. Vejamos alguns exemplos:
Ó, meu pai, grande Rei, a fresta da janela do céu está aberta para ti.
A porta do céu no horizonte abre-se para ti, os deuses estão felizes
por te receber...
Que possas sentar nesse trono de ferro que é teu, como o Supremo
que está em Heliópolis.
Ó, Rei, que possas ascender...
O céu cambaleia com tua presença, a terra treme diante de ti, as
Estrelas Imperecíveis te temem.
A ti eu vim, ó ser cujos tronos estão ocultos, que eu possa te abraçar
no céu...
A terra fala, o portão do deus da terra está aberto, as portas de Geb
estão abertas para ti (...)
Que possas subir para o céu em teu trono de ferro.
Ó, meu pai, ó Rei, tal é o teu caminho quando tiveres ido embora
como um deus, viajando como um ser celestial (...)
Tu te levantas nos Conclaves do horizonte (...)
E te sentas neste trono de ferro, ante o qual os deuses se
maravilham...
As referências constantes a ferro, embora fáceis de passar
despercebidas, eram estranhas. O ferro, eu sabia, fora um metal raro
no Egito antigo, sobretudo na Era das Pirâmides, quando,
supostamente, só era encontrado em forma de meteoritos. Ainda
assim, nos Textos da Pirâmide, parecia não haver carência de riqueza
em ferro: pratos de ferro no céu, tronos de ferro e, em outro trecho, um
cetro de ferro (Declaração 665C) e mesmo ossos de ferro para o rei
(Declarações 325,684 e 723).
Na língua do antigo Egito, o ferro era conhecido como bja, palavra que
significa literalmente "metal do céu" ou "metal divino". O conhecimento
do ferro, portanto, era considerado como outra dádiva dos deuses...
Repositórios de uma Ciência Perdida?
Que outras impressões digitais esses deuses poderiam ter deixado
nos Textos da Pirâmide?
Em minhas leituras - aqui e ali entre as mais arcaicas das Declarações
-, eu encontrara várias metáforas que aparentemente se referiam à
passagem de épocas em que haviam ocorrido precessões de
equinócios. Essas metáforas se destacavam no texto porque eram
fraseadas no que se tornara uma terminologia clara e conhecida para
mim: a da linguagem científica arcaica identificada por Santillana e
Von Dechend no Hamlet's Mill.
O leitor talvez se lembre que um "diagrama" cósmico dos quatro
suportes do céu constituía um dos instrumentos de pensamento
padrão empregado na linguagem antiga. Tinha por finalidade facilitar a
visualização de quatro faixas imaginárias, concebidas como
emoldurando, sustentando e definindo uma era mundial precessional.
Sendo o que astrônomos designam hoje como "coluros equinociais e
solsticiais", elas eram vistas como descendo em espiral do pólo Norte
celeste e marcando as quatro constelações contra o pano de fundo
das quais, em períodos de 2.160 anos de cada vez, o sol se levantaria
invariavelmente nos equinócios de primavera e outono e nos solstícios
de inverno e verão.
Aparentemente, os Textos da Pirâmide contêm várias versões desse
diagrama. Além do mais, como freqüentemente acontece com mitos
pré-históricos que transmitem dados astronômicos irrefutáveis, o
simbolismo da precessão é fortemente entrelaçado com imagens
violentas de destruição terrestre - como que para sugerir que a
"quebra do moinho do céu", isto é, a transição a cada 2.160 anos de
uma era zodiacal para outra, poderia, em circunstâncias agourentas,
desencadear influências catastróficas sobre eventos terrestres.
O texto, por exemplo, dizia que Rá-Atun, o deus que criou a si mesmo,
foi inicialmente o rei dos deuses e dos homens. A humanidade, porém,
conspirou contra sua soberania, pois ele começava a envelhecer, seus
ossos se tornavam de prata, sua carne de ouro e seus cabelos
ficavam [como] lápis-Iazúli.
Quando compreendeu o que estava acontecendo, o idoso Deus do Sol
(que lembra tanto Tonatiuh, o sanguinário Quinto Sol dos Astecas),
resolveu que puniria os rebeldes, exterminando a maior parte da raça
humana. O instrumento da calamidade que desencadeou foi
simbolizado, em certas épocas, como uma leoa furiosa, chapinhando
em sangue, e, em outras, como a aterradora deusa Sekhmet, de
cabeça de leão, "que expelia fogo" e acabou com a humanidade em
um êxtase de morticínio.
A destruição terrível prosseguiu sem pausa durante um longo período.
Finalmente, Rá interveio para salvar a vida de um "resto", os
ancestrais da atual humanidade. A intervenção tomou a forma de um
dilúvio, que a leoa, sedenta, bebeu e em seguida caiu no sono. Ao
acordar, não estava mais interessada em continuar com a destruição e
a paz desceu sobre o mundo devastado.
Entrementes, Rá decidiu "retirar-se" do que sobrara de sua criação.
"Enquanto vivo, meu coração está cansado de permanecer com a
Humanidade. Exterminei-a [quase] até o último homem, de modo que
o resto [insignificante] não é assunto meu..."
Em seguida, o Rei Sol subiu para o céu montado nas costas da deusa
Nut que (para as finalidades da metáfora sobre a precessão que
estava por vir) se transformou em uma vaca. Antes de muito tempo -
em uma estreita analogia com "o mancal do eixo" que "tremeu" no
moinho de Amlodhi, que girava furiosamente -, a vaca "ficou tonta e
começou a sacudir-se e a tremer, porque estava muito acima da
terra". Quando se queixou a Rá sobre esse precário estado de coisas,
ele ordenou: "Que meu filho Shu fique embaixo de Nut para montar
guarda por mim, enquanto passo pelos suportes celestes - que
existem no pôr-do-sol. Coloque-a em cima de sua cabeça e
mantenha-a aí." Tão logo Shu tomou seu lugar embaixo da vaca e lhe
equilibrou o corpo, "os céus acima e a terra embaixo foram criados",
No mesmo momento, "as quatro pernas da vaca", como o egiptólogo
Wallis Budge comentou em seu clássico estudo, The Gods of the
Egyptians, "transformaram-se nos quatro suportes do céu, nos quatro
pontos cardeais".
Tal como a maioria dos estudiosos, Budge, compreensivelmente,
supôs que os "pontos cardeais" mencionados nessa antiga tradição
egípcia tinham conotações estritamente terrestres, e que o "céu" nada
mais representava que o céu acima de nossas cabeças. Aceitou como
certo que o objetivo da metáfora era que visualizássemos as quatro
pernas da vaca como posicionadas nos quatro pontos cardeais da
bússola - norte, sul, leste e oeste. Pensou também - e, mesmo hoje,
poucos egiptólogos discordariam dele - que os simplórios sacerdotes
de Heliópolis haviam realmente acreditado que o céu tinha quatro
cantos, que eram sustentados por quatro pernas, e que Shu, "o
sustentador do céu par excellence", permanecera imóvel como uma
pilastra no centro de todo o edifício.
Reinterpretados à luz das descobertas de Santillana e Von Dechend,
contudo, Shu e as quatro pernas da vaca celestial lembram muito mais
os componentes de um símbolo científico arcaico, que descreve as
circunstâncias de uma era mundial precessional - o eixo polar (Shu) e
os coluros (as quatro pernas ou "suportes" que marcam os pontos
cardeais equinociais e solsticiais no giro anual do sol).
Além do mais, é tentador especular sobre qual a era mundial que
estava sendo sugerida neste caso...
Estando envolvida uma vaca, poderia ser a Era de Touro, embora os
egípcios soubessem, como todo mundo, qual a diferença entre touros
e vacas. Mas uma candidata muito mais provável - pelo menos sobre
fundamentos puramente simbólicos - seria a era de Leão, de
aproximadamente 10970 a 8810 a.C. A razão é que Sekhmet, a
responsável pela destruição da Humanidade mencionada no mito,
tinha forma leonina. Que melhor maneira de simbolizar o nascimento
complicado da nova Era de Leão, do que descrever seu arauto como
um leão em fúria, particularmente porque a Era de Leão coincidiu com
o derretimento final e catastrófico da última Era Glacial, durante a qual
números imensos de espécies de animais em toda a terra foram súbita
e violentamente extintas. A humanidade sobreviveu às imensas
inundações, terremotos e rápidas mudanças climáticas que ocorreram
na época, embora, com toda probabilidade, em números muito
reduzidos e em situação material muito pior.
A Comitiva do Sol e o Morador de Sírius
Claro, a capacidade de reconhecer e definir em mitos eras mundiais
ocasionadas pela precessão implica que os antigos egípcios possuíam
uma astronomia de observação mais apurada, e uma compreensão
mais sofisticada da mecânica do sistema solar do que a creditada a
qualquer povo até então. Não há dúvida de que conhecimento desse
calibre, se existiu absolutamente, teria sido levado em alta conta pelos
antigos egípcios, que o transmitiriam, de forma secreta, de uma
geração a outra. Na verdade, teria sido considerado entre os maiores
conhecimentos arcanos confiados à guarda da elite sacerdotal em
Heliópolis e passado adiante principalmente sob a forma de tradição
oral e iniciática. Se, por acaso, tivesse entrado nos Textos da
Pirâmide, não seria provável que sua forma fosse velada em
metáforas e alegorias?
Cruzei lentamente o chão empoeirado da câmara da tumba, da
pirâmide de Unas, notando o ar muito parado, lançando ao mesmo
tempo os olhos para as desmaiadas inscrições em azul e dourado. Em
linguagem codificada, vários milênios antes de Copérnico e Galileu,
algumas das passagens gravadas nessas paredes pareciam oferecer
pistas para a verdadeira natureza heliocêntrica do sistema solar.
Em uma delas, por exemplo, Rá, o Deus Sol, é mostrado sentado no
trono de ferro, cercado por deuses menores, que se moviam
constantemente em volta dele e que ali se diz que formam sua
"comitiva”. De forma parecida, em outro trecho, insiste-se com o faraó
morto que "se ponha de pé à frente de duas metades do céu e pense
bem nas palavras dos deuses, dos anciãos, que revolvem em torno de
Rá".
Se ficasse provado que os "anciãos" e os "deuses circundantes" que
revolviam em torno de Rá eram partes de uma terminologia que se
referia aos planetas de nosso sistema solar, os autores originais dos
Textos da Pirâmide deveriam forçosamente ter tido acesso a alguns
dados astronômicos notavelmente avançados. Eles deviam ter sabido
que a terra e os planetas revolviam em torno do sol, e não o contrário.
O problema criado por essa possibilidade é que nem os antigos
egípcios em nenhum estágio de sua história, nem mesmo seus
sucessores, os gregos e, por falar nisso, tampouco os europeus até a
Renascença, possuíam dados cosmológicos de qualquer coisa que se
aproximasse dessa qualidade. Como, por conseguinte, poderia a
presença desses dados ser explicada em composições escritas que
datavam do alvorecer da civilização egípcia?
Outro mistério (talvez correlato) diz respeito à estrela Sírius, que os
egípcios identificavam com Ísis, a irmã e esposa de Osíris e mãe de
Hórus. Em uma passagem dirigida ao próprio Osíris, declaram os
Textos da Pirâmide:
Tua irmã Ísis vem a ti, rejubilando-se em seu amor por ti. Tu a colocas
sobre ti, teu membro nela penetra e ela torna-se grande com filho,
como a estrela Sept [Sírius, a estrela cão], Hórus-Sept sai de ti sob a
forma de Hórus, que habita em Sept.
Numerosas interpretações dessa passagem são, claro, possíveis. O
que me intrigava, porém, era a clara implicação de que Sírius devia
ser considerado como uma entidade dual, comparável, de alguma
maneira, a uma mulher "grande com filho". Além do mais, após ter
nascido (ou saído) essa criança, o texto toma um cuidado especial em
nos lembrar que Hórus continuou a "habitar em Sept",
presumivelmente sugerindo que ele permaneceu ligado à mãe.
Sírius é uma estrela incomum. Ponto brilhante de luz, especialmente
visível nos meses de inverno nos céus noturnos do hemisfério Norte,
consiste de um sistema estelar binário, ou melhor, ela é, na verdade,
como sugerem os Textos da Pirâmide, uma "entidade dual". A maior
componente da dupla, Sírius-A, é a que vemos. Sírius-B, por outro
lado - a estrela anã que revolve em torno de Sírius A -, é
absolutamente invisível a olho nu. Sua existência só se tornou
conhecida da ciência ocidentalem 1862, quando o astrônomo
americano Alvin Clark observou-a, usando um dos maiores e mais
modernos telescópios da época.De que maneira poderiam os
escribas que gravaram os Textos da Pirâmide ter obtido a informação
de que Sírius era duas estrelas em uma?
Eu sabia que no The Sirius Mistery, um livro importante publicado em
1976, seu autor americano, Robert Temple, dera algumas respostas
extraordinárias a essa pergunta. Seu estudo concentrou-se nas
crenças tradicionais da tribo dogon, na África Ocidental - em crenças
nas quais o caráter binário de Sírius era especificamente descrito e
onde o número de 50 anos era dado para o período da órbita de
Sírius-B em torno de Sírius-A. Temple argumentou convincentemente
que essa informação técnica de alta qualidade fora passada aos
dogon pelos antigos egípcios, através de um processo de difusão
cultural, e que era para eles que deveríamos nos voltar para a solução
do mistério de Sírius. Concluiu ele ainda que os antigos egípcios
deveriam ter recebido a informação de seres inteligentes oriundos da
região de Sírius.
Tal como Temple, eu começara a desconfiar que os elementos mais
avançados e sofisticados da ciência egípcia só faziam sentido se
entendidos como parte de uma herança. Mas, ao contrário de Temple,
não via razão urgente para atribuir a herança a extraterrestres. Na
minha opinião, o conhecimento sobre a estrela anômala que os
sacerdotes de Heliópolis aparentemente possuíam era explicado, de
forma mais plausível, como o legado de uma civilização humana
perdida que, na contramão da história, atingira um alto nível de
avanço tecnológico na antiguidade remota. Parecia-me que a
construção de um instrumento capaz de detectar Sírius-B talvez não
tivesse estado além da engenhosidade dos exploradores e cientistas
desconhecidos que haviam desenhado os notáveis mapas do mundo
pré-histórico discutidos na Parte I. Tampouco isso teria sido difícil para
os astrônomos e calculadores do tempo que legaram aos antigos
maias um calendário de espantosa complexidade, um banco de dados
sobre os movimentos de corpos celestes que só podia ter sido produto
de milhares de anos de observações anotadas com precisão, e uma
facilidade com números muito grandes que pareciam mais apropriados
às necessidades de uma sociedade tecnológica complexa do que às
de um "primitivo" reino na América Central.
Milhões de Anos e Movimentos das Estrelas
Números muito grandes aparecem também nos Textos da Pirâmide,
na simbólica "barca de milhões de anos", por exemplo, nos quais se
diz que o Deus do Sol navegava pelas águas escuras e vastidões
destituídas de ar do espaço interestelar. Thoth, o deus da sabedoria
(aquele que calcula no céu, o contador de estrelas, o que mede a
terra) possuía especificamente o poder de conceder uma vida de
milhões de anos ao faraó mortal. Osíris, "rei da eternidade, senhor do
eterno", é descrito como vivendo milhões de anos. E números como
"dezenas de milhões de anos" (bem como o mais estonteante ainda,
"um milhão de milhões de anos") reaparecem com uma freqüência
suficiente para sugerir que certos elementos, pelo menos da cultura
egípcia, devem ter evoluído, para conveniência de indivíduos de
mente científica, com mais do que uma introvisão esporádica da
imensidão do tempo.
Esse povo, naturalmente, teria necessitado de um excelente
calendário - um calendário que teria facilitado cálculos complexos e
exatos. Não constituiu, portanto, motivo de surpresa descobrir que os
antigos egípcios, tal como os maias, dispunham de um calendário
desse tipo e que a compreensão que tinham de seu funcionamento
aparentemente declinou, em vez de aumentar, à medida que se
sucediam as eras. Era tentador interpretar esse fato como erosão
gradual de um corpus de conhecimento herdado de um tempo
extremamente remoto, impressão esta apoiada pelos próprios antigos
egípcios, que não faziam segredo da crença em que o calendário que
usavam era um legado que haviam recebido "dos deuses".
Estudaremos com mais detalhes, nos capítulos seguintes, a possível
identidade desses deuses. Quem quer que tenham sido, eles devem
ter passado parte muito grande de seu tempo observando as estrelas
e acumulando um fundo de conhecimentos avançados e
especializados sobre a estrela Sírius, em particular. Prova ulterior
dessa conclusão surgiu sob a forma da dádiva, mais útil, de um
calendário que os deuses supostamente deram aos egípcios; o ciclo
Sothico (ou de Sírius).
O ciclo Sothico baseava-se no que é chamado em jargão técnico de
"retorno periódico da ascensão heliacal de Sírius", isto é, o primeiro
aparecimento da estrela após uma ausência sazonal, surgindo ao
amanhecer imediatamente antes de o sol nascer, na parte leste do
céu. No caso de Sírius, o intervalo entre um desses aparecimentos e o
seguinte equivale a exatamente 365,25 dias - um número
matematicamente harmonioso, sem complicação de mais casas
decimais, e que é apenas doze minutos mais longo do que a duração
do ano solar.
O curioso sobre Sírius é que entre umas 2.000 estrelas visíveis a olho
nu, ela é a única a erguer-se heliacalmente nesse intervalo preciso e
belamente redondo de 365 dias e um quarto de dia - um produto único
de "seu movimento próprio" (a velocidade de seu próprio movimento
através do espaço), combinado com os efeitos da precessão dos
equinócios. Além do mais, é sabido que o dia da ascensão heliacal de
Sírius - o Dia do Ano-Novo no calendário egípcio antigo - era
tradicionalmente calculado em Heliópolis, onde foram compilados os
Textos da Pirâmide, e anunciado com antecipação a todos os
principais templos acima e abaixo do Nilo.
Lembrei-me de que Sírius é mencionado diretamente nos Textos da
Pirâmide por "seu nome, do Ano-Novo". Juntamente com outras
declarações relevantes (como, por exemplo, a 669), o fato confirmava
que o calendário sothico era pelo menos tão antigo quando os
próprios Textos e que suas origens retroagiam às brumas da distante
antiguidade. O grande enigma, por conseguinte, é o seguinte: nesse
período tão antigo, quem poderia ter possuído o know how necessário
para observar e anotar a coincidência do período de 365,25 dias com
a ascensão heliacal de Sírius - uma coincidência descrita pelo
matemático francês R.A Schwaller de Lubicz como "um fenômeno
celeste inteiramente excepcional"?
Não podemos deixar de admirar a grandeza de uma ciência capaz de
descobrir tal coincidência. Foi escolhida a estrela binária Sírius porque
é a única que se move na distância necessária e na direção certa,
contra o pano de fundo das outras estrelas. Este fato, conhecido
quatro mil anos antes de nosso tempo e esquecido até nossos dias,
obviamente exige uma observação extraordinária e prolongada do
céu.
E foi dessa herança - construída através de longos séculos de uma
astronomia de observação e científica - que o Egito parece ter se
beneficiado no início do período histórico, e que é descrita nos Textos
da Pirâmide.
Nesse fato existe também um mistério.
Cópias ou Traduções?
Escrevendo em 1934, ano de sua morte, Wallis Budge, ex-curador de
Antiguidades Egípcias, do Museu Britânico, e autor de um respeitado
dicionário de hieróglifos, fez esta franca confissão:
Os Textos da Pirâmide estão cheios de dificuldades de todos os tipos.
São desconhecidos os significadosexatos de grande número de
palavras neles encontradas. (...) A construção das sentenças frustra
constantemente todas as tentativas de traduzi-Ias e, quando elas
contêm palavras inteiramente desconhecidas, o texto se torna um
enigma indecifrável. É apenas razoável supor que esses textos foram
freqüentemente usados para finalidades funerárias, mas é também
muito claro que o período em que foram usados no Egito teve pouco
mais de cem anos. Não há explicação para o motivo por que foram
subitamente postos em uso ao fim da Quinta Dinastia e deixaram de
ser usados ao fim da Sexta.
Poderia a resposta ser que os Textos fossem cópias de uma literatura
mais antiga que Unas, o último faraó da Quinta Dinastia, juntamente
com vários de seus sucessores na Sexta, tentaram gravar para
sempre em pedra nas câmaras funerárias de suas próprias pirâmides?
Era o que pensava Budge, e achavaque a prova sugeria que pelo
menos alguns documentos básicos deveriam ser extremamente
antigos:
Vários trechos contêm prova de que os escribas que desenharam as
cópias, baseadas nas quais os gravadores de inscrições trabalharam,
não compreendiam o que estavam escrevendo. (...) A impressão geral
é que os sacerdotes que desenharam as cópias fizeram extratos de
várias composições de diferentes idades e com conteúdos diferentes...
Tudo isso pressupunha que os documentos básicos, quaisquer que
tenham sido, deveriam ter sido escritos em uma forma arcaica da
língua egípcia. Havia, contudo, uma possibilidade alternativa que
Budge ignorou. Suponhamos que a tarefa dos sacerdotes não tivesse
sido apenas de copiar material, mas de traduzir para hieróglifos textos
originariamente compostos em outra língua inteiramente diferente? Se
essa língua incluía terminologia técnica e referências a artefatos e
idéias para os quais não havia equivalentes no Egito antigo, este fato
daria uma explicação para a estranha impressão provocada por certas
declarações. Além do mais, se o trabalho de cópia e tradução dos
documentos básicos originais tivesse sido completado ao fim da Sexta
Dinastia, era fácil compreender por que nunca mais foram gravados
"Textos da Pirâmide": o projeto teria chegado ao fim quando cumprido
seu objetivo - que teria sido o de criar um registro hieroglífico
permanente de uma literatura sagrada que já vinha cambaleando de
velhice quando Unas assumiu o trono do Egito, no ano 2356 a.C.
Últimos Registros pela Primeira Vez?
Uma vez que queríamos cobrir antes do anoitecer, tanto quanto
possível, a distância até Abidos, Santha e eu decidimos, relutantes,
que era tempo de voltar à estrada. Embora tivéssemos resolvido antes
passar ali apenas alguns minutos, a escuridão sombria e as vozes
antigas da câmara da tumba de Unas nos haviam anestesiado os
sentidos e quase duas horas se haviam passado desde nossa
chegada. Abaixando-nos para sair, deixamos a tumba e subimos a
passagem íngreme até a saída, onde paramos por um instante para
que nossos olhos se acostumassem à forte luz solar de meados da
manhã. Enquanto o fazíamos, aproveitei a oportunidade para
examinar a própria pirâmide, que havia caído em um estado tão
dilapidado que mal se conseguia reconhecer sua forma original. As
obras de cantaria básicas, reduzidas a um estado de pouco mais do
que uma pilha de escombros informes, era evidentemente de
qualidade medíocre e até mesmo os blocos do revestimento - alguns
dos quais ainda se conservavam intactos careciam da finesse e
perícia artesanal exibidas pelas pirâmides mais antigas de Gizé.
Havia aí um fato difícil de explicar em termos históricos convencionais.
Se os processos evolutivos normais que presidem ao desenvolvimento
de perícia e idéias arquitetônicas estiveram em curso no Egito, seria
de esperar que houvesse acontecido o oposto: o projeto, o trabalho de
engenharia e cantaria da Pirâmide de Unas deveriam ter sido
superiores aos do grupo de Gizé que, de acordo com a cronologia
ortodoxa, tinha sido construído cerca de dois séculos antes.
O fato embaraçoso de que isso não acontecia (isto é, que Gizé era
"melhor" do que Unas, e não o contrário) representou espinhosos
desafios para os egiptólogos e inspirou perguntas para as quais
nenhuma resposta satisfatória foi dada. Ou, para repetir o problema
fundamental: tudo nas três espantosas e soberbas pirâmides de
Khufu, Khafre e Menkaure proclamava que elas eram os
produtos finais de centenas, talvez milhares, de anos de experiência
arquitetônica e de engenharia acumulada. Tal fato, porém, não era
confirmado pela prova arqueológica, que nenhuma dúvida deixava de
que elas figuravam entre as primeiras pirâmides jamais construídas no
Egito - em outras palavras, elas não eram produtos da fase madura do
experimento de construção do país, mas, estranhamente, criações de
sua infância.
Outro mistério clamava também por uma solução. Nas três grandes
pirâmides de Gizé, a Quarta Dinastia criara mansões para a
eternidade - obras-primas de pedra sem precedentes e insuperadas,
de mais de cem metros de altura, pesando cada uma delas milhões de
toneladas, e que incluíam um sem-número de aspectos extremamente
avançados. Nenhuma pirâmide de qualidade comparável fora jamais
construída. Mas, apenas pouco tempo depois, embaixo de
superestruturas menores e mais pobres das pirâmides da Quinta e
Sexta Dinastias, uma espécie de Galeria de Registros parecia ter sido
deliberadamente criada: uma exposição permanente de cópias, ou
traduções, de documentos arcaicos que eram, simultaneamente,
obras-primas insuperadas e sem precedentes da arte dos escribas e
da escrita hieroglífica.
Em suma, tal como as pirâmides de Gizé, parecia que os Textos da
Pirâmide haviam explodido em cena sem antecedentes visíveis e
ocupado o centro do palco por aproximadamente cem anos, antes das
"operações terminais", e que nunca mais seriam ultrapassadas.
Poderíamos presumir que os reis e sábios antigos que haviam
organizado essas coisas sabiam o que estavam fazendo? Se assim,
eles forçosamente teriam um plano e a intenção de estabelecer uma
forte conexão visível entre as pirâmides de Gizé, inteiramente
destituídas de inscrições (mas tecnicamente brilhantes), e as
pirâmides dotadas de inscrições brilhantes (mas tecnicamente de
segunda classe) das Quinta e Sexta Dinastias.
Eu desconfiava, também, que pelo menos parte da solução do
problema poderia estar no campo de pirâmides de Dahshur, pelo qual
passamos quinze minutos depois de deixar Saqqara. Era aí que se
localizavam as denominadas pirâmides "Vergada" e "Vermelha".
Atribuídas a Sneferu, pai de Khufu, esses dois monumentos (segundo
todas as opiniões, muito bem preservados) haviam sido fechados ao
público há muitos anos. Uma base militar fora construída em volta
delas e durante muito tempo fora impossível visitá-las - em quaisquer
circunstâncias, jamais...
Continuando nossa jornada para o sul,através das cores brilhantes
daquele dia de dezembro, fui tomado pela sensação irresistível de que
o Vale do Nilo fora palco de eventos importantes para a humanidade,
muito tempo antes de começar a história documentada da
humanidade. Todos os registros e tradições mais antigos do Egito
falam desses fatos e ligam-nos a uma época durante a qual os deuses
reinavam na terra: os fabulosos Primeiros Tempos, que eram
chamados de Zep Tepi. Nos dois capítulos seguintes, iremos examinar
esses registros.
CAPÍTULO 43
Procurando os Primeiros Tempos
Vejamos o que os antigos egípcios tinham a dizer sobre os Primeiros
Tempos, sobre o Zep Tepi, a época em que os deuses reinavam na
terra: diziam que fora uma idade áurea, durante a qual as águas do
abismo recuaram, a escuridão primeva foi banida e a humanidade,
emergindo para a luz, recebeu as dádivas da civilização. Falavam
também de intermediários entre deuses e homens - os Urshus, uma
categoria de divindades menores, cujo título significava "os Vigilantes".
E conservavam recordações especialmente vívidas dos próprios
deuses, os seres poderosos e belosdenominados de Neterus, que
conviviam na terra com a humanidade e exerciam sua soberania em
Heliópolis e outros santuários acima e abaixo do Nilo. Alguns desses
Neterus eram machos e, outros, fêmeas, mas todos possuíam uma
grande faixa de poderes sobrenaturais, que incluíam a capacidade de
aparecer, à vontade, como homens ou mulheres, animais, aves,
répteis, árvores ou plantas. Paradoxalmente, parecia que seus atos e
palavras refletiam paixões e preocupações humanas. De idêntica
maneira, embora fossem descritos como mais fortes e mais
inteligentes do que os seres humanos, os antigos acreditavam que
eles podiam adoecer - ou mesmo morrer, ou ser mortos - em certas
circunstâncias.
Registros da Pré-História
Arqueólogos são inflexíveis na opinião de que a época dos deuses,
que os antigos egípcios chamavam de Primeiros Tempos, nada mais
foi do que um mito. Os antigos egípcios, porém, que podem ter sido
mais bem-informados sobre seu passado do que nós, não
compartilhavam dessa opinião. Os registros históricos que
conservaram em seus templos mais veneráveis incluíam listas
completas de todos os reis do Egito: listas dando o nome de todos os
faraós de todas as dinastias reconhecidas hoje pelos estudiosos.
Algumas dessas listas iam ainda mais longe, retroagindo além do
horizonte histórico da Primeira Dinastia e penetrando nas profundezas
desconhecidas de uma antiguidade remota e abissal.
Duas listas de reis dessa categoria sobreviveram às devastações das
idades e, tendo sido tiradas do Egito, são hoje preservadas em
museus europeus. Estudaremos com mais detalhes essas listas ainda
neste capítulo. Elas são conhecidas respectivamente como Pedra de
Palermo (datando da Quinta Dinastia - ou seja, por volta do século 25
a.C.) e Papiro de Turim, um documento de templo da Décima Nona
Dinastia, escrito na forma cursiva de hieróglifos conhecida como
hierática e que data do século XIII a.C.
Além disso, temos o testemunho de um sacerdote de Heliópolis
chamado Manetho. No século III a.C., ele compilou uma história
abrangente e altamente respeitada do Egito, contendo extensas listas
de reis de todo o período dinástico. Tal como o Papiro de Turim e a
Pedra de Palermo, a história de Manetho retroage ao passado remoto
e fala de uma época distante, quando os reis reinaram no Vale do
Nilo.
O texto completo de Manetho não nos chegou às mãos, embora
pareça que cópias dele circularam em data tão recente quanto o
século IX d.C. Por sorte, contudo, fragmentos do texto foram
preservados nas obras do historiador judeu Josephus (ano 60 d.C.) e
de autores cristãos, como Africanus (ano 300 d.C.), Eusébio (ano 340
d.C.) e George Syncellus (ano 800 d.C.). Esses fragmentos, nas
palavras do falecido professor Michael Hoffman, da Universidade da
Carolina do Sul, proporcionam "o marco para o enfoque moderno do
estudo do passado do Egito".
Essas palavras representam a inteira verdade. Não obstante,
egiptólogos estão dispostos a usar Manetho apenas como fonte para
estudo do período histórico (dinástico) e repudiam os estranhos
insights que ele fornece da pré-história, quando fala sobre a remota
idade áurea dos Primeiros Tempos. Por que deveríamos ser tão
seletivos na confiança depositada em Manetho? Qual a lógica de
aceitar dele trinta dinastias "históricas" e rejeitar tudo o que tem a
dizer sobre épocas anteriores? Além disso, desde que sabemos que
sua cronologia do período histórico foi confirmada pela arqueologia,
não seria um tanto prematuro de nossa parte supor que sua
cronologia pré-dinástica está errada, porque escavações ainda não
produziram prova que a confirme?
Deuses, Semi-deuses e Espíritos dos Mortos
Se queremos deixar que Manetho diga o que tem a dizer, nenhuma
opção nos resta senão estudar os textos em que foram preservados
fragmentos de sua obra. Um dos mais importantes neste particular é a
versão armênia da Chronica, de Eusébio. Começa ela nos informando
que a extraiu "da História Egípcia, de Manetho, que faz seu relato em
três livros. Tratam eles dos Deuses, Semi-deuses, Espíritos dos
Mortos e reis mortais que governaram o Egito..." Citando diretamente
Manetho, Eusébio começa desenrolando uma lista dos deuses, que
consiste, basicamente, da conhecida Enéade de Heliópolis - Rá,
Osíris, Ísis, Hórus, Set, e assim por diante:
Estes foram os primeiros a exercer poder no Egito. Em seguida, a
soberania passou de um a outro, em uma sucessão ininterrupta (...)
durante 13.900 anos. (...) Após os Deuses, os Semi-deuses reinaram
durante 1.255 anos; e, uma vez mais, outra linhagem de reis exerceu
o poder por 1.817 anos; em seguida, vieram mais 30 reis, que
reinaram por 1.790 anos; e, mais uma vez, dez reis que governaram
por 350 anos. Deles se seguiu o reinado dos Espíritos dos Mortos (...)
durante 5.813 anos. (...)
O total de todos esses períodos chega a 24.925 anos e nos leva muito
além da data bíblica da criação do mundo (em alguma ocasião, no
quinto milênio a.C.). Uma vez queo texto em causa sugeria que a
cronologia bíblica estava errada, esse fato causou dificuldades a
Eusébio, um ardoroso comentarista cristão. Após um momento de
pensamento, porém, ele, de forma inspirada, resolveu o problema:
"Acho que o ano é lunar, consistindo, isto é, de 30 dias: o que agora
chamamos de mês, os egípcios usavam antigamente como um ano..."
Claro que eles não faziam nada disso. Através desse golpe de
prestidigitação, porém, Eusébio e outros conseguiram reduzir o
grandioso período pré-dinástico de quase 25.000 anos para um
número higiênico de pouco mais de 2.000 anos, que se encaixa
confortavelmente nos 2.241 anos que a cronologia bíblica ortodoxa
aceita entre Adão e o Dilúvio.
Uma técnica diferente para reduzir a importância das implicações
cronológicas embaraçosas da prova de Manetho foi usada pelo monge
George Syncellus (circa ano 800 d.C.). Esse comentarista, que usava
exclusivamente a invectiva, escreveu: "Manetho, sumo sacerdote dos
amaldiçoados templos do Egito [fala-nos] de deuses que nunca
existiram. Esses deuses, diz ele, reinaram por 11.895 anos..."
Vários outros números curiosos e contraditórios afloram nos
fragmentos. Em particular, dizem repetidamente os comentaristas que
Manetho deu o assombroso número de 36.525 anos para toda
duração da 13ª. (e última) dinastia de reis mortais. Esse número, claro,
inclui os 362,25 dias do ano sothico (o intervalo entre duas ascensões
heliacais consecutivas de Sírius, da forma descrita no último capítulo).
Com maior probabilidade, mais por intenção do que por acaso, o
número representa também 25 ciclos de 1.460 anos sothicos e 25
ciclos de 1.461 anos de calendário (já que o ano civil egípcio era
construído em torno de um "ano vago", de exatamente 365 dias).
O que, se é que alguma coisa, significa tudo isso? É difícil ter certeza.
Na grande massa de números e interpretações, contudo, emerge, em
voz alta e clara, um aspecto da mensagem original de Manetho. A
despeito de tudo que nos ensinaram sobre o desenrolar ordenado da
história, o que ele parece estar dizendo é que seres civilizados
(fossem deuses ou homens) estiveram presentes no Egito durante um
período imensamente longo, antes do surgimento da Primeira
Dinastia, por volta do ano 3100 a.C.
Diodoro de Sicília e Heródoto
Nessa afirmação, Manetho teve grande apoio de autores clássicos.
No primeiro século a.C., o historiador grego Diodoro de Sicília visitou o
Egito. Ele foi corretamente descrito por C.H. Oldfather, seu tradutor
mais recente, como "um compilador imparcial, que utilizou boas fontes
e as reproduziu fielmente". Em palavras simples, o que isso significa é
que Diodoro não tentou impor seus preconceitos e preconcepções ao
material que reuniu. Ele, portanto, é especialmente valioso para nós,
porque seus informantes incluíram sacerdotes egípcios que ele
interrogou sobre o passado misterioso de sua terra. E o que eles lhe
disseram foi o seguinte:
"No início, deuses e heróis governaram o Egito durante pouco menos
de 18.000 anos, tendo sido Hórus, filho de Ísis, o último dos deuses
reinantes. (...) Mortais, dizem eles, foram reis do país por um pouco
menos de 5.000 anos. (...)"
Revisemos "imparcialmente" esses números e vejamos o que eles nos
dizem. Diodoro escreveu no primeiro século a.C. Se retroagimos a
partir dessa data por 5.000 anos, durante as quais "reis mortais"
supostamente governaram, chegamos ao ano 5100 a.C. Se
retroagimos ainda mais, até a era dos "deuses e heróis", descobrimos
que chegamos ao ano 23100 a.C., quando o mundo ainda estava
firmemente nas garras da última Era Glacial.
Muito antes de Diodoro, o Egito foi visitado por outro e mais ilustre
historiador grego: o grande Heródoto, que viveu no século V a.C. Ele
também parece ter mantido contato com sacerdotes e sintonizou com
tradições que falavam em uma altacivilização no Vale do Nilo, em
alguma data não especificada da antiguidade remota. Heródoto
descreve essas tradições de um período pré-histórico imenso da
civilização egípcia no Livro lI, de sua História. No mesmo texto, sem
comentários, ele nos fornece uma curiosa pepita de informação que
colheu entre os sacerdotes de Heliópolis:
Durante esse tempo, disseram eles, houve quatro ocasiões em que o
sol nasceu fora de seu local costumeiro - duas vezes nascendo onde
agora se põe e, duas vezes, pondo-se no lugar onde ora nasce.
O que é que significa isso?
De acordo com o matemático francês Schwaller de Lubicz, o que
Heródoto está nos dizendo (talvez sem saber) é uma referência velada
e deturpada a um período de tempo - isto é, ao tempo que leva para o
amanhecer no equinócio vernal realizar a precessão contra o pano de
fundo estelar, através de um e meio ciclos completos do zodíaco.
Conforme vimos, o sol equinocial passa aproximadamente 2.160 anos
em cada uma das doze constelações do zodíaco. Um ciclo completo
de precessão de equinócios, portanto, leva quase 26.000 anos para
completar (12 x 2.160 anos). Segue-se que um ciclo e meio
corresponde a quase 39.000 anos (18 x 2.160 anos).
No tempo de Heródoto, o sol no equinócio vernal subia exatamente a
leste ao amanhecer, contra o fundo estelar de Áries - momento em
que a constelação de Libra estava "em oposição", exatamente a
oeste, onde o sol iria se pôr 12 horas depois. Se giramos para trás por
meio ciclo o relógio da precessão, contudo seis horas do zodíaco ou
aproximadamente 13.000 anos -, descobrimos que prevalece a
configuração oposta: o sol vernal nasce nesse momento exatamente a
leste, em Libra, enquanto Áries se situa, em oposição, diretamente a
oeste. Mais 13.000 anos para trás, e a situação se inverte mais uma
vez, com o sol vernal nascendo novamente em Áries e com Libra em
oposição.
Esses cálculos nos levam a 26.000 anos antes de Heródoto.
Se recuarmos mais 13.000 anos, isto é, a metade de outro ciclo de
precessão, para 39.000 anos antes de Heródoto, o nascer do sol
vernal volta a Libra e Áries se encontra novamente em oposição.
O importante é o seguinte: com 39.000 anos temos uma extensão de
tempo durante a qual se pode descrever o sol como "nascendo duas
vezes onde agora se põe", isto é, em Libra no tempo de Heródoto (e
novamente a 13.000 e a 39.000 anos antes), e como "pondo-se duas
vezes onde agora nasce", isto é, em Áries no tempo de Heródoto (e,
mais uma vez, 13.000 e 39.000 anos antes). Se a interpretação de
Schwaller está correta - e há todas as razões para supor que está -,
ela sugere que os informantes sacerdotais do historiador grego
deviam ter acesso a registros exatos do movimento de precessão do
sol que retroagiam a pelo menos 39.000 anos antes de nossa era.
O Papiro de Turim e a Pedra de Palermo
O número de 39.000 anos concorda surpreendentemente bem com a
prova testemunhal do Papiro de Turim (uma das duas listas
remanescentes de antigos reis egípcios e que retroage aos tempos
pré-históricos, anteriores à Primeira Dinastia).
Tendo feito parte inicialmente da coleção do rei da Sardenha, o papiro
quebradiço e se desfazendo em pó, de 3.000 anos de idade, foi
enviado em uma caixa, sem forro protetor, para seu atual lar, no
Museu de Turim. Como qualquer estudante poderia ter previsto, o
papiro chegou quebrado em incontáveis fragmentos. Especialistas
foram obrigados a trabalhar durante anos para reunir e extrair sentido
do que restava, e fizeram neste particular um trabalho soberbo. Ainda
assim, verificou-se que foi impossível reconstituir mais da metade do
conteúdo desse precioso registro. O que não poderíamos ter
aprendido sobre os Primeiros Tempos se o Papiro de Turim tivesse
permanecido intacto?
Os fragmentos remanescentes são intrigantes. Em um registro, por
exemplo, lemos os nomes de dez Neterus com cada nome dentro de
um cartucho (um espaço oblongo fechado), segundo um estilo muito
parecido com o adotado em períodos posteriores e relativos a reis
históricos. É também dado o número de anos em que se acreditava
que cada um dos Neterus tivesse reinado, embora a maior parte
desses números esteja faltando nesse documento danificado.
Em outra coluna, vemos a lista de reis mortais que governaram o alto
e baixo Egito depois dos deuses, mas antes da suposta unificação do
reino sob Menés, o primeiro faraó da Primeira Dinastia, no ano 3100
a.C. À vista dos fragmentos que sobraram, é possível verificar que são
mencionadas nove "dinastias" desses faraós pré-dinásticos, entre os
quais os "Veneráveis de Mênfis", "os Veneráveis do Norte" e, por
último, os Shemsu Hor (os Companheiros, ou Seguidores, de Hórus),
que reinaram até o tempo de Menés. As duas últimas linhas da
coluna, que parecem representar um sumário, ou inventário, são
particularmente provocantes. Dizem elas: "... Veneráveis Shemsu-Hor,
13.420 anos; Reinados antes dos Shemsu-Hor, 23.000 anos; Total,
36.620 anos".
A outra lista de reis que trata dos tempos pré-históricos, a Pedra de
Palermo, não nos leva tanto para trás no passado quanto o Papiro de
Turim. Os primeiros de seus registros remanescentes menciona os
reinados de 120 reis que governaram o alto e baixo Egito em fins do
período pré-dinástico: os séculos imediatamente anteriores à
unificação do país no ano 3100 a.C. Mais uma vez, contudo, não
fazemos realmente idéia de quantas outras informações, talvez
relativas a períodos muito anteriores, poderiam ter sido gravadas
nessa enigmática laje de basalto negro porque, essa peça, também,
tampouco nos chegou intacta. Desde 1887, sua maior peça isolada
vem sendo preservada no Museu de Palermo, na Sicília; uma segunda
peça está em exposição no Museu do Cairo; e um terceiro fragmento,
muito menor, faz parte da Coleção Petrie, da Universidade de
Londres". Arqueólogos pensam que ela foi arrancada do centro de um
monólito que deveria ter medido originariamente cerca de 2,13m de
comprimento por 60cm de altura (a pedra repousava sobre o lado
comprido). Além disso, como observou certa autoridade:
É inteiramente possível - mesmo provável - que existam ainda muitas
outras peças desse monumento, de valor incalculável, se apenas
soubermos onde procurá-las. Da forma como estão as coisas, somos
confrontados com um conhecimento irritante e frustrador, de que
existia um registro com o nome de todos os reis do Período Arcaico,
juntamente com o número de anos de seus reinados e principais
eventos ocorridos durante o tempo em que ocuparam o trono. Esses
eventos foram compilados na Quinta Dinastia, apenas cerca de 700
anos após a Unificação, de modo que a margem de erro seria, com
toda probabilidade, muito pequena.
O falecido professor Walter Emery, cujas palavras transcrevemos
acima, estava naturalmente preocupado com a ausência de detalhes
indispensáveis concernentes ao Período Arcaico, dos anos 3200 a.C.
a 1900 a.C, que constituía seu principal interesse como especialista.
Caberia também pensar, contudo, no que uma Pedra de Palermo
intacta poderia nos dizer sobre épocas ainda mais antigas,
notadamente sobre o Zep Tepi - a idade áurea dos deuses.
Quanto mais penetramos nos mitos e memórias do longo passado do
Egito, e quanto mais nos aproximamos dos Primeiros Tempos
fabulosos, mais estranhas se tornam as paisagens em torno de nós...
Como veremos adiante.
CAPÍTULO 44
Deuses dos Primeiros Tempos
De acordo com a teologia de Heliópolis, os nove deuses originais que
apareceram no Egito nos primeiros tempos foram Rá, Shu, Tefnut,
Geb, Nut, Osíris, Ísis, Nepthys e Set. A prole dessas divindades incluía
figuras bem conhecidas, como Hórus e Anúbis. Além disso, eram
reconhecidos outros panteões de deuses, notadamente em Mênfis e
Hermópolis, onde cultos importantes e muito antigos eram prestados a
Ptá e a Thoth. Essas divindades dos Primeiros Tempos foram todas,
em um ou outro sentido, deuses de criação, que haviam dado forma
ao caos, exercendo sua vontade divina. Do caos eles formaram e
povoaram a terra sagrada do Egito e, durante muitos milhares de
anos, reinaram sobre os homens como faraós divinos.
Mas o que era esse "caos"?
Os sacerdotes de Heliópolis que conversaram com o historiador grego
Diodoro de Sicília no primeiro século a.C. fizeram a sugestão
intrigante de que o "caos" foi um dilúvio - identificado por Diodoro
como o dilúvio que destruíra a terra de Deucalião, o Noé grego.
De modo geral, eles disseram que, se no dilúvio que ocorreu na época
de Deucalião foi destruída a maioria das criaturas vivas, é provável
que os moradores do sul do Egito tenham sobrevivido, e não
quaisquer outros... Ou se, como sustentam alguns, a destruição das
criaturas foi completa e a terra em seguida gerou novas formas de
animais, apesar de tudo e até mesmo de acordo com essa suposição,
a primeira geração de criaturas vivas cabe muito bem a este país...
Por que deveria o Egito ter sido tão abençoado? Diodoro foi informado
de que isso teve alguma coisa a ver com a situação geográfica, com a
grande exposição das regiões meridionais ao calor do sol e com o
enorme aumento das chuvas que osmitos dizem que o mundo sofreu
em seguida ao dilúvio universal: "Porque, quando a umidade das
chuvas abundantes que caíram sobre outros povos misturou-se com o
calor intenso que prevalece no próprio Egito (...) o ar tornou-se muito
bem temperado para a primeira geração de todas as criaturas vivas.
(...)"
Curiosamente, como é bem conhecido, o Egito não desfruta uma
situação geográfica especial e as linhas de latitude e longitude que se
cruzam exatamente ao lado da Grande Pirâmide (30º e 31º leste)
passam por mais terras secas do que quaisquer outras. Curiosamente,
ainda, ao fim da última Era Glacial, quando milhões de quilômetros
quadrados de glaciação estavam derretendo no norte da Europa,
quando o nível do mar em elevação inundava áreas costeiras em todo
o globo, e quando o imenso volume de umidade extra, que entrou na
atmosfera através da evaporação das calotas de gelo, desceu sob a
forma de chuva, o Egito beneficiou-se durante vários milhares de anos
com um clima excepcionalmente úmido e favorável à fertilidade das
terras. Não é difícil compreender que esse clima poderia, de fato, ter
sido lembrado como "bem temperado para a primeira geração de
todas as criaturas vivas".
Temos, portanto, que fazer a pergunta seguinte: de onde procedia a
informação sobre o passado, que estamos recebendo de Diodoro? E
será uma coincidência a descrição aparentemente fiel do luxuriante
clima no Egito durante o fim da última Era Glacial ou uma tradição
extremamente antiga, que nos chega hoje uma memória, talvez, dos
Primeiros Tempos?
O Hálito da Serpente Divina
Acreditavam os antigos egípcios que Rá foi o primeiro rei dos
Primeiros Tempos. Velhos mitos dizem que enquanto permaneceu
jovem e vigoroso, ele reinou pacificamente. Os anos, porém,
cobraram-lhe um tributo, e ele é descrito ao fim de seu reinado como
um homem velho, enrugado, trôpego, com a boca trêmula, da qual
saliva escorria ininterruptamente.
Shu sucedeu-o como rei na terra, embora tivesse um reinado
prejudicado por conspirações e conflitos. Embora derrotasse os
inimigos, no fim ele foi tão destruído pela doença que até mesmo seus
mais fiéis seguidores rebelaram-se. "Cansado de reinar, Shu abdicou
em favor do filho Geb e refugiou-se nos céus, após uma tempestade
apavorante que durou nove dias...".
Geb, o terceiro faraó divino, substituiu obedientemente o pai no trono.
Seu reinado foi também agitado e alguns mitos descrevendo o que
aconteceu refletem a velha linguagem dos Textos da Pirâmide, com
imagística científica complexa e técnica. Uma tradição especialmente
notável, por exemplo, fala de uma "caixa dourada", na qual Rá
guardou certo número de objetos - descritos, respectivamente, como
seu "bastão" (ou cajado), um cacho de seu cabelo e sua uraeus (uma
cobra empinada, com o capelo estendido, feita de ouro, que era usada
em seu real adereço de cabeça).
Talismã poderoso e perigoso, a caixa, juntamente com seu estranho
conteúdo, permaneceu fechada em uma fortaleza "na fronteira
oriental" do Egito, até muitos anos depois da subida de Rá ao céu. Ao
assumir o poder, Geb ordenou que ela lhe fosse trazida e aberta em
sua presença. No momento em que a caixa foi aberta, um raio de fogo
(descrito como "o hálito da serpente divina") dela saiu, matou todos os
companheiros de Geb e queimou gravemente o próprio rei.
É tentador especular se aquilo que encontramos nessa descrição não
poderia ser uma versão deturpada de um dispositivo que funcionou
mal, feito pelo homem: uma recordação confusa, cercada de medo, de
um instrumento monstruoso construído por cientistas de uma
civilização perdida. Credibilidade é acrescentada a essas
especulações ousadas quando nos lembramos de que esta não foi
absolutamente a única caixa dourada no mundo antigo que funcionou
como máquina letal e imprevisível. Essa peça apresenta grande
número de semelhanças com a enigmática Arca da Aliança hebraica
(que matou também pessoas inocentes com raios de energia letal, que
era "toda revestida de ouro" e que sedizia que continha não só as
duas tábuas dos Dez Mandamentos, mas também "o pote de ouro que
continha maná, e o cajado de Aarão").
Um estudo correto das implicações de todas essas estranhas e
maravilhosas caixas (e de outros artefatos "tecnológicos" referidos nas
tradições antigas) situa-se além dos objetivos deste livro. Para nossas
finalidades aqui, basta notar que uma atmosfera peculiar de magia
perigosa e quase tecnológica parece ter cercado muitos dos deuses
da Enéade de Heliópolis.
Ísis, por exemplo (esposa e irmã de Osíris e mãe de Hórus),
desprende um forte cheiro de ciência laboratorial. De acordo com o
Papiro Chester Beatty, que se encontra no Museu Britânico, ela era
"uma mulher sabida (...) mais inteligente do que incontáveis
deuses.(...) Nada ignorava do que havia no céu e na terra". Famosa
pelo uso hábil de feitiçaria e magia, era particularmente lembrada
pelos antigos egípcios como "poderosa de língua", isto é, tinha
domínio de palavras de poder "que conhecia, com a pronúncia correta,
e não se detinha em sua fala, era perfeita tanto em dar o comando
como em pronunciar a palavra”. Em suma, acreditava-se que ela,
simplesmente com a voz, era capaz de vergar a realidade e revogar
as leis da física.
Esses mesmos poderes, embora talvez em maior grau, eram
atribuídos à sabedoria do deus Thoth, que embora não fosse membro
da Enéade de Heliópolis, o Papiro de Turim e outros documentos
antigos reconheciam como o sexto (e ocasionalmente o sétimo) faraó
divino do Egito. Freqüentemente representado em paredes de templo
e tumba como um íbis, ou um homem com cabeça de íbis, era
venerado como a força reguladora responsável por todos os cálculos e
anotações celestes, como o senhor e multiplicador do tempo, o
inventor do alfabeto e o patrono da magia. Estava especialmente
ligado à astronomia, matemática, topografia e geometria e era descrito
como "aquele que calcula no céu, o contador de estrelas e o medidor
da terra”. Era também considerado como uma divindade que
compreendia os mistérios "de tudo que está oculto sob a abóbada do
céu" e que tinha a capacidade de conceder sabedoria a indivíduos
escolhidos. Dizia a lenda que ele escrevera seus conhecimentos em
livros secretos e que os escondera na terra, com a intenção de que
fossem procurados por futuras gerações, mas encontrados "apenas
pelos justos" - que deveriam usar suas descobertas em benefício da
humanidade.
O que sobressai com mais clareza a respeito de Thoth, portanto, além
de suas credenciais como antigo cientista, é seu papel como benfeitor
e civilizador. Neste particular, ele lembra muito seu predecessor
Osíris, o deus supremo dos Textos da Pirâmide e o quarto faraó divino
do Egito, "cujo nome se torna Sah (Órion), cuja perna é longa e tem
passada larga, o Presidente da Terra do Sul..."
Osíris e os Senhores da Eternidade
Ocasionalmente mencionado nos textos como o neb tem, ou "senhor
universal", Osíris é descrito como humano, mas também sobre-humano, sofrendo, mas, ao mesmo tempo, imperioso. Além do mais,
ele expressa seu dualismo básico governando no céu (como
constelação de Órion) e na terra como rei entre homens. Tal como
Viracocha, nos Andes, e Quetzalcoatl, na América Central, sua
conduta é sutil e misteriosa. Exatamente igual a eles, é
excepcionalmente alto e sempre descrito como usando a barba curva
da divindade. E, também como eles, embora dispusesse de poderes
sobrenaturais, evitava tanto quanto possível usar de força.
Vimos no Capítulo 16 que, segundo a lenda, Quetzalcoatl, o rei-deus
dos mexicanos, partiu da América Central por mar, viajando em uma
jangada de serpentes. Por isso mesmo, é difícil evitar um senso de
déjà vu quando lemos no Livro dos Mortos egípcio que o lar de Osíris
"repousava sobre a água" e que tinha paredes feitas de "serpentes
vivas". No mínimo, é notável a convergência do simbolismo que liga
dois deuses e regiões muito distantes.
Mas há ainda outros paralelos óbvios.
Os detalhes principais da história de Osíris foram contados em
capítulos anteriores e não precisamos repisá-los aqui. O leitor
certamente não esqueceu que esse deus - mais uma vez, como
Quetzalcoatl e Viracocha - era lembrado principalmente como um
benfeitor da humanidade, como um portador da iluminação e grande
líder civilizatório. Recebia o crédito, por exemplo, por ter acabado com
o canibalismo e conta a lenda que ensinou agricultura aos egípcios -
em especial, o cultivo do trigo e da cevada - e a arte de fabricar
implementos agrícolas. Uma vez que gostava muito de bons vinhos
(os mitos não dizem onde ele adquiriu esse gosto), ele tomou um
cuidado especial em "ensinar à humanidade a cultura da uva, bem
como a maneira de colher os frutos e armazenar o vinho..." Além das
dádivas da boa vida que distribuiu entre seus súditos, Osíris ajudou-os
a livrar-se de "suas maneiras horríveis e bárbaras", ao lhes dar um
código de leis e iniciar o culto dos deuses no Egito.
Depois de pôr a casa em ordem, entregou o controle do reino a Ísis,
deixou o Egito e permaneceu afastado durante muitos anos,
perambulando pelo mundo com a única intenção, disseram os
sacerdotes a Diodoro de Sicília, de visitar toda a terra habitada e
ensinar à raça dos homens como cultivar a uva e semear o trigo e a
cevada, porque supunha que, se os homens renunciassem à sua
selvageria e adotassem um dócil estilo de vida, ele receberia honras
imortais pela magnitude de sua benemerência...
Osíris viajou primeiro para a Etiópia, onde ensinou o cultivo da terra e
a criação de animais aos primitivos caçadores-coletores de alimentos
que encontrou. E iniciou também certo número de obras de
engenharia e hidráulica em grande escala: "Ele construiu canais, com
eclusas e comportas (...) elevou as margens do rio e tomou
precauções para evitar que o Nilo transbordasse. (...)" Mais tarde.
dirigiu-se à Arábia e daí passou para a Índia, onde fundou numerosas
cidades. Transferindo-se para a Trácia, matou um rei bárbaro que se
recusou a adotar seu sistema de governo. Essa conduta não
combinava bem com ele. De modo geral, Osíris era lembrado pelos
egípcios como não tendo forçado homem algum a seguir suas
instruções e através de suave convencimento e apelo à razão
conseguiu induzi-los a praticar o que pregava. Muitos de seus sábios
conselhos foram transmitidos aos seus ouvintes em hinos e canções,
que eram cantados com o acompanhamento de instrumentos
musicais.
Mais uma vez, é difícil evitar o paralelo com Quetzalcoatl e Viracocha.
Durante uma época de trevas e caos - com toda possibilidade ligada a
um dilúvio - um deus, ou homem, barbado, materializou-se no Egito
(ou na Bolívia e no México), possuidor de grande riqueza de
conhecimentos e perícias científicas, do tipo ligado a civilizações
maduras e altamente desenvolvidas, que usou altruisticamente em
benefício da humanidade. Ele era instintivamente bondoso, mas capaz
de grande firmeza quando necessário. Motivado por forte senso de
finalidade, após ter estabelecido sua sede em Heliópolis (ou em
Tiahuanaco ou Teotihuacán), viajou com um grupo seleto de
companheiros para impor a ordem e restabelecer o equilíbrio perdido
do mundo.
Deixando de lado por ora a questão de se ou não estamos lidando
com homens ou deuses, com produtos da imaginação primitiva ou
com seres de carne e osso, resta o fato de que os mitos falam sempre
de um grupo de civilizadores: Viracocha e seus "companheiros", como
acontece também com Quetzalcoatl e Osíris. Às vezes, ocorrem
ferozes conflitos internos dentrodesses grupos e talvez lutas pelo
poder: as lutas entre Seth e Hórus e entre Tezcatilpoca e Quetzalcoatl
constituem exemplos claros neste particular. Além disso, aconteçam
esses fatos míticos na América Central, nos Andes ou no Egito, o
resultado é sempre muito parecido: o civilizador é, no fim, vítima de
conspiração e expulso ou morto.
Os mitos dizem que Quetzalcoatl e Viracocha jamais voltaram
(embora, conforme vimos, a volta deles às Américas fosse esperada
ao tempo da conquista espanhola). Osíris, por outro lado, realmente
voltou. Embora fosse assassinado por Set pouco depois de ter
completado sua missão mundial para levar o homem "a renunciar à
selvageria", ganhou vida eterna com sua ressurreição na constelação
de Órion, como o todo-poderoso deus dos mortos. Daí em diante,
julgando almas e dando um exemplo imortal de conduta real, dominou
a religião (e a cultura) do antigo Egito durante todo o período da
história conhecida dessa terra.
Estabilidade Serena
Quem pode imaginar o que as civilizações dos Andes e do México
poderiam ter realizado se elas também tivessem se beneficiado com
essa poderosa continuidade simbólica? Neste particular, contudo, o
Egito é excepcional. Na verdade, embora os Textos da Pirâmide e
outras fontes arcaicas reconheçam um período de sublevação e
tentativa de usurpação por Set (e seus 72 conspiradores
"precessionais"), elas descrevem também a transição para o reinado
de Hórus, Thoth e os faraós divinos posteriores como tendo sido
relativamente suave e inevitável.
Essa transição foi imitada, através de milhares de anos, por reis
mortais do Egito. Desde o início até o fim, eles se consideraram como
descendentes lineares e representantes vivos de Hórus, o filho de
Osíris. À medida que as gerações sesucediam, era crença geral que
o faraó morto renascia no céu como "um Osíris" e que cada sucessor
ao trono se tornava um "Hórus".
Esse esquema simples, refinado e estável já estava plenamente
evoluído e instalado no inicio da Primeira Dinastia - por volta do ano
3100 a.C. Estudiosos aceitam esse fato. A maioria aceita igualmente
que estamos tratando aqui de uma religião altamente desenvolvida e
sofisticada. Estranhamente, pouquíssimos egiptólogos e arqueólogos
questionam quando e onde essa religião tomou forma.
Não será um desafio à lógica supor que idéias sociais e metafísicas
bem-acabadas, como as do culto de Osíris, surgiram inteiramente
formadas no ano 3100 a.C. ou que poderiam ter assumido essa forma
perfeita nos 300 anos que os egiptólogos, às vezes de má vontade,
lhes concedem para isso? Forçosamente deve ter transcorrido um
período de desenvolvimento muito mais longo do que isso,
estendendo-se por vários milhares e não várias centenas de anos.
Além do mais, conforme vimos, todos os registros remanescentes nos
quais os antigos egípcios nos falam diretamente sobre seu passado
afirmam que essa civilização era um legado "dos deuses", que "foram
os primeiros a governar no Egito".
Os registros são internamente coerentes: alguns atribuem uma
antiguidade muito maior à civilização do Egito do que outros. Todos,
contudo, dirigem clara e firmemente nossa atenção para uma época
distante, muito distante no passado - para alguma coisa de 8.000 a
40.000 anos, antes da fundação da Primeira Dinastia.
Arqueólogos insistem em que nenhum artefato material jamais foi
encontrado no Egito que sugira que uma civilização evoluída existiu
nessas datas tão antigas, mas essa alegação tampouco é
rigorosamente verdadeira. Conforme vimos na Parte VI, existem
alguns objetos e estruturas que não foram ainda conclusivamente
datados por quaisquer meios científicos.
A antiga cidade de Abidos esconde um dos mais extraordinários
desses enigmas indatáveis...
CAPÍTULO 45
Obras de Homens e de Deuses
Entre os inumeráveis templos arruinados do antigo Egito, há um
excepcional não só pelo seu estado maravilhoso de conservação, que
(na verdade, algo muito raro!) inclui um telhado intacto, mas pela fina
qualidade de muitos hectares de belos altos-relevos que lhe decoram
os majestosos muros. Em Abidos, a 144km do curso atual do Nilo,
encontramos o Templo de Seti I, monarca da famosa 19ª. Dinastia,
que reinou de 1306-1290 a.C.
Seti é conhecido principalmente comopai de um filho famoso, Ramsés
II (1290-1224 a.C.), o faraó do Êxodo bíblico. Por mérito próprio,
contudo, ele foi uma grande figura histórica, líder de grandes
campanhas militares além das fronteiras do Egito, inspirador da
construção de vários excelentes edifícios e, cuidadosa e
conscientemente, responsável pela remodelação e reforma de muitos
outros, mais antigos. Seu templo em Abidos, conhecido
evocativamente como "A Casa de Milhões de Anos", foi dedicado a
Osíris, o "Senhor da Eternidade", sobre o qual dizem os Textos da
Pidmide:
Tu foste embora, mas retornarás, tu dormiste, mas despertarás,
morreste, mas viverás. (...) Segue pelo curso d’água, subindo o rio (...)
viaja para Abidos na tua forma espiritual, que os deuses ordenaram
que fosse a tua.
A Coroa de Atef
Eram 8h da manhã, hora ensolarada e fresca nessas latitudes, quando
entrei na escuridão silenciosa do Templo de Seti I. Algumas seções de
suas paredes eram iluminadas na parte inferior por lâmpadas elétricas
fracas. A não ser isso, a única iluminação era a planejada pelos
arquitetos do faraó: alguns isolados raios de luz que penetravam
através de frestas nas pedras de cantaria externa, como se fossem
feixes de radiação divina. Pairando entre os pontos de poeira que
dançavam nesses feixes e infiltrando-se no ar parado e denso entre as
grandes colunas que sustentavam o telhado da Galeria das Colunatas,
era fácil imaginar que a forma espiritual de Osíris ainda poderia estar
ali presente. Na verdade, isso era mais do que apenas imaginação,
porque Osíris estava fisicamente presente na espantosa sinfonia de
altos-relevos que adornavam as paredes - altos-relevos que
descreviam o antigo e futuro rei civilizador em seu papel de deus dos
mortos, entronizado e servido por Ísis, sua bela e misteriosa irmã.
Nessas cenas, Osíris usava grande variedade de diferentes e
refinadas coroas, que estudei com toda atenção, enquanto ia de um
alto-relevo a outro. Coroas semelhantes a essas foram, sob muitos
aspectos, adereços importantes no guarda-roupa dos faraós do Egito
antigo, pelo menos se consideramos como prova disso os altos-relevos que os mostram. Curiosamente, porém, em todos esses anos
de intensas escavações, arqueólogos jamais encontraram um
exemplo sequer de uma coroa real, um fragmento e, ainda menos, um
espécime dos complicados adereços cerimoniais de cabeça ligados
aos deuses dos Primeiros Tempos.
A coroa de Atef revestia-se de uminteresse especial. Incluindo a
uraeus, o símbolo da serpente real (que no México era a cascavel,
mas, no Egito, a cobra-de-capelo pronta para dar o bote), o núcleo
central dessa estranha criação era reconhecível como um exemplo do
hedjet, o capacete de guerra branco, em forma de garrafa, do alto
Egito (mais uma vez, conhecido apenas através de altos-relevos).
Erguendo-se de ambos os lados dessa parte central, havia o que
pareciam duas finas folhas de metal e, na frente, um dispositivo sob a
forma de duas lâminas encurvadas, que os estudiosos descrevem
geralmente como um par de chifres de carneiro.
Em vários altos-relevos do Tempo de Seti I, Osíris é mostrado usando
a coroa de Atef, que parecia ter cerca de 60cm de altura. De acordo
com o Ancient Egyptian Book of the Dead, a coroa lhe fora dada por
Rá: "Mas, no primeiro dia em que a usou, Osíris teve muitas dores de
cabeça e, quando Rá voltou à noite, estava zangado e com a cabeça
inchada devido ao calor da coroa de Atef. Rá, em seguida, fez uma
punção para drenar o pus e o sangue."
Tudo isso era contado de forma simples, embora - quando paramos
para pensar no assunto -, que tipo de coroa era essa que irradiava
calor e fazia a pele verter sangue e romper-se em feridas pustulentas?

Penetrei na escuridão ainda mais profunda e acabei encontrando o
caminho para a Galeria dos Reis. Ela começa na borda oeste da
Galeria das Colunatas, a cerca de 60m da entrada do templo.
Cruzar a galeria era como cruzar o próprio tempo. Em uma parede à
direita, vi uma lista de 120 deusesdo Egito antigo, juntamente com os
nomes dos principais santuários. À direita, cobrindo uma área de
talvez 3m x 1,80m, estendia-se a lista dos 76 faraós que haviam
precedido Seti I no trono. Todos esses nomes eram esculpidos em
hieróglifos dentro de cartuchos ovais.
Esse quadro em pedra era conhecido como "A Lista Real de Abidos".
Brilhando na cor de ouro derretido, devia ser lido da esquerda para a
direita e era dividido em cinco registros verticais e três horizontais. A
lista cobria uma grande extensão de tempo, de quase 1.700 anos,
começando com o ano 3000 a.C., iniciando-se com o reinado de
Menés, o primeiro rei da Primeira Dinastia, e terminando com o
reinado do próprio Seti, por volta do ano 1300 a.C. Na extrema direita,
duas figuras em pé refinadamente entalhadas em alto-relevo: Seti e o
jovem filho, o futuro Ramsés lI.
Hipogeu
Pertencendo à mesma classe de documentos históricos que o Papiro
de Turim e a Pedra de Palermo, a lista falava eloqüentemente da
continuidade da tradição. Parte inerente à tradição era a crença, ou
memória, nos Primeiros Tempos, há muito, muito tempo, quando os
deuses haviam reinado no Egito. O principal entre esses deuses fora
Osíris e era, por conseguinte, apropriado que a Galeria dos Reis
desse acesso a um segundo corredor, levando aos fundos do templo,
onde se localiza um prédio maravilhoso - ligado a Osíris desde o
começo da história documentada do Egito e descrito por Estrabão, o
geógrafo grego (que visitou Abidos no século I a.C.), como "uma
estrutura notável, construída de pedra maciça... [contendo] uma fonte
de grande profundidade, à qual se pode descer através de galerias
com teto abobadado, construídas com monólitos de extraordinário
tamanho e trabalho artesanal. Há um canal que chega até o local,
vindo do grande rio..."
Algumas centenas de anos após a visita de Estrabão, quando a
religião do antigo Egito fora suplantada pelo novo culto do
cristianismo, o lodo do rio e as areias do deserto começaram a entrar
no Osireion, enchendo-o gradualmente, um século após outro, até que
seus monólitos verticais e imensos lintéis foram sepultados e
esquecidos. E assim permaneceram, longe da vista e do
conhecimento de todos, até o começo do século XX, quando os
arqueólogos Flinders Petrie e Margaret Murray iniciaram escavações.
Na etapa de escavação de 1903, eles descobriram partes de um
corredor e passagem, situados no deserto, a uns 60m a sudoeste do
Templo de Seti I e construídos no estilo arquitetônico característico da
19ª. Dinastia. Espremidos entre esses restos e os fundos do Templo,
porém, encontraram ainda sinais inconfundíveis de que havia ali
enterrado um grande prédio. "Esse hipogeu", escreveu Margaret
Murray, "pareceu ao professor Petrie ser o mesmo lugar mencionado
por Estrabão, geralmente conhecido como Poço de Estrabão". Foi um
bom palpite de parte de Petrie e Murray. Falta de dinheiro, porém, fez
com que a teoria de ambos, de um prédio sepultado sob a areia, só
fosse submetida a teste na temporada de escavações de 1912-13.
Nessa ocasião, sob a direção do professor Naville, do Fundo de
Exploração do Egito, foi escavada uma longa câmara transversal, ao
fim da qual, na direção nordeste, os arqueólogos encontraram um
maciço portal de pedra, construído com ciclópicos blocos de granito e
arenito.
Na temporada seguinte, 1913-14, Naville e sua equipe voltaram ao
trabalho com 600 trabalhadores locais e diligentemente limparam todo
o imenso prédio subterrâneo:
O que descobrimos (escreveu Naville) foi uma obra gigantesca, de
cerca de 30m de comprimento por 18m de largura, construída com as
pedras de maior tamanho que podem ser vistas no Egito. Nos quatro
lados dos muros circundantes, encontramos celas, em número de 17,
da altura de um homem e sem ornamentação de qualquer tipo. O
prédio em si é dividido em três naves, com a central mais larga do que
as laterais. A divisão entre elas é obtida por intermédio de duas séries
de colunatas feitas de imensos monólitos de granito, que sustentam
arquitraves de igual tamanho.

Com certo espanto, Naville comentou as dimensões de um bloco, que
mediu no canto da nave norte do prédio, um bloco de mais de 7,5m de
comprimento. Igualmente surpreendente era o fato de que as celas
cortadas nas paredes circundantes não tinham piso, descobrindo-se, à
medida que prosseguiam as escavações, que estavam cheias de areia
cada vez mais úmida:
As celas são ligadas por uma laje estreita de 60cm e 90cm de largura.
Há outra laje, no lado oposto da nave, mas nenhum piso,
absolutamente, e, ao escavar até uma profundidade de 3,5m,
encontramos infiltração de água. Até mesmo embaixo do grande portal
não existe piso e, quando houve água diante dele, as celas eram
provavelmente alcançadas com auxílio de um pequeno bote.
O Mais Antigo Edifício de Pedra do Egito
Água, água por toda parte - esta parecia ser a constante do Osireion,
que se encontra no fundo da imensa cratera que Naville e seus
trabalhadores escavaram em 1914. O prédio se situa a cerca de 15m
abaixo do nível do chão do Templo de Seti I, quase na mesma altura
do lençol freático, e o acesso a ele é feito através de uma escada
moderna, que se curva para baixo na direção sudeste. Tendo descido,
Passei por baixo das lajes do lintel do grande portal descrito por
Naville (e Estrabão)
e cruzei uma estreita ponte de madeira - mais uma vez, moderna - que
me levou a um grande pedestal de arenito.
Medindo 24 x 12m de largura, esse pedestal é feito de enormes blocos
de pavimentação e inteiramente cercado de água. Dois tanques, um
retangular e, o outro, quadrado, foram cortados no pedestal ao longo
do centro de seu eixo longo e, em cada extremidade, escadas levam a
uma profundidade de cerca de 2,60m abaixo do nível da água. O
pedestal sustenta também as duas colunatas maciças que Naville
mencionou em seu relatório, ambas de cinco grossos monólitos de
granito cor-de-rosa de 75cm2 por 3,60m de altura e pesando, em
média, por volta de 100 toneladas. As partes superiores dessas
imensas colunas eram ligadas por lintéis de granito e há prova de que
toda a estrutura teve um telhado constituído de uma série de
monólitos ainda maiores.
Para compreender bem a estrutura do Osireion, achei conveniente
erguer-me, pela imaginação, diretamente sobre ela, de modo a poder
olhar para baixo. Esse exercício foi facilitado pela ausência do telhado
original, o que tornou mais fácil imaginar, em um nível plano, todo o
edifício. Útil também era o fato de que água se infIltrara e enchera
todos os tanques do prédio, celas e canais, até uma profundidade de
algumas polegadas abaixo da borda do pedestal central, como
aparentemente fora a intenção dos projetistas originais.
Olhando para baixo dessa maneira, era claramente visível que o
pedestal formava uma ilha retangular, cercada nos quatro lados por
um fosso cheio de água, de uns 3m de largura. O fosso era delimitado
por um muro enorme, retangular, de nada menos de 6m de espessura,
feito de blocos muito grandes de arenito vermelho, assentados em um
padrão de quebra-cabeça poligonal. Na enorme espessura do muro
haviam sido abertas as 17 celas mencionadas no relatório de Naville.
Havia seis delas a leste, seis a oeste, duas ao sul e três ao norte.
Saindo da cela que ficava no centro das três celas do norte estendia-se uma longa câmara transversal, com cobertura de pedra calcária.
Uma câmara transversal semelhante, também de pedra calcária, mas
sem telhado intacto, começava imediatamente ao sul do grande portal.
Finalmente, toda a estrutura era fechada dentro de um muro externo
de pedra calcária, completando, dessa maneira, uma seqüência de
retângulos que se encaixavam, isto é, da parte externa para dentro,
muro, parede, fosso, pedestal.
Outro aspecto notável e surpreendentemente incomum do Osireion é
que o prédio não se encontra nem mesmo aproximadamente alinhado
com os pontos cardeais. Em vez disso, tal como o Caminho dos
Mortos, em Teotihuacán, no México, é orientado para leste do norte
verdadeiro. Uma vez que o antigo Egito foi uma civilização que podia,
e geralmente conseguia, fazer alinhamentos precisos de seus prédios,
parecia-me improvável que essa orientação, aparentemente torta,
tivesse sido acidental. Além do mais, embora 15m mais alto, o Templo
de Seti I estava orientado exatamente de acordo com o mesmo eixo -
e, mais uma vez, não por acaso. A questão era: qual deles era o
prédio mais antigo? Teria o eixo do Osireion sido predeterminado pelo
eixo do templo, ou vice-versa? Essa dúvida, conforme descobri, foi
outrora objeto de acesa controvérsia, desde então esquecida. Em um
debate que teve muitas semelhanças com o que cerca a Esfinge e o
Templo do Vale, em Gizé, arqueólogos eminentes haviam inicialmente
argumentado que o Osireion era um edifício de uma antiguidade
realmente imensa, opinião esta manifestada pelo professor Naville, no
Times, de Londres, no dia 17 de março de 1914:
Esse monumento sugere várias questões importantes. Quanto à sua
data, a grande semelhança que revela com o Templo da Esfinge
[como o Templo do Vale era então conhecido] demonstra que a
estrutura foi da mesma época, quando prédios eram construídos com
pedras enormes, sem qualquer ornamento. Esse fato é característico
da arquitetura mais antiga do Egito. Eu diria mesmo que poderemos
considerá-lo como o edifício de pedra mais antigo do Egito.
Descrevendo a si mesmo como tomado de profundo respeito pela
"grandiosidade e simplicidade severa" da galeria central do
monumento, com seus notáveis monólitos de granito, e pelo "poder
desses povos antigos, que podiam trazer de lugares distantes e
assentar esses blocos gigantescos", ele fez uma sugestão sobre a
finalidade para a qual o Osireion poderia ter sido originariamente
construído: "Evidentemente, essa imensa construção constituía um
grande reservatório, onde era armazenada água durante a cheia do
Nilo. (...) É curioso que aquilo que poderíamos considerar como o
início da arquitetura nem é um templo nem uma tumba, mas uma
piscina gigantesca, uma obra de hidráulica..."
Curioso realmente e merecedor de mais estudo, algo que Naville tinha
esperança de fazer na temporada seguinte. Infelizmente, estourou a
Primeira Guerra Mundial e nenhum trabalho ulterior de arqueologia
pôde ser feito no Egito durante vários anos. Em conseqüência, só em
1925 é que o Fundo de Exploração do Egito pôde enviar outro grupo,
nessa ocasião não mais dirigido por Naville, mas por um jovem
egiptólogo chamado Henry Frankfort.
Os Fatos de Frankfort
Mais tarde professor de antiguidade pré-clássica da Universidade de
Londres, Frankfort passou várias temporadas procedendo a uma nova
limpeza e escavando exaustivamente o Osireion entre os anos de
1925 e 1930. No curso desse trabalho, ele realizou descobertas que,
no que o interessava, "fixou conclusivamente a data do prédio":
1. Um encaixe de granito em posição no alto do lado sul da principal
entrada do corredor central, gravado com o do cartucho de Seti I.
2. Um encaixe semelhante em posição, no interior da parede leste do
corredor central.
3. Cenas e inscrições astronômicas de autoria de Seti I, entalhadas
em alto-relevo no teto da câmara transversal norte.
4. Restos de cenas semelhantes na câmara transversal sul.
5. Uma ostracon (peça de cerâmica quebrada) encontrada na
passagem da entrada, com a legenda: "Seti é útil a Osíris".
O leitor lembrará o comportamento de lemingue que resultou em uma
mudança espetacular da opinião acadêmica sobre a antiguidade da
Esfinge e do Templo do Vale (devido à descoberta de algumas
estátuas e de um único cartucho que pareciam sugerir algum tipo de
ligação com Khafre). As descobertas de Frankfort em Abidos
causaram uma volte-face semelhante sobre a antiguidade do Osireion.
Em 1914, a estrutura era "o edifício de pedra mais antigo do Egito".
Em 1933, ele havia sido promovido no tempo ao reinado de Seti I - por
volta do ano 1300 a.C. -, que, nesse momento, passou a ser
considerado como o cenotáfio desse faraó.
Dentro de uma década, os textos egiptológicos padrão começaram a
atribuir a Seti I a construção do monumento, como se fosse fato
inquestionável, verificável através de experiência ou observação. Mas
não há nenhum fato desse tipo, apenas a interpretação que Frankfort
deu à prova que encontrou.
Os únicos fatos inegáveis são que certas inscrições e motivos
decorativos deixados por Seti aparecem em uma estrutura, sob outros
aspectos, inteiramente anônima. Uma explicação plausível é que ela
tenha sido construída por Seti, como sugeriu Frankfort. A outra, que as
decorações, cartuchos e inscrições medíocres por ele encontradas
poderiam ter sido colocadas no Osireion como parte de restauração e
reparos iniciados no tempo de Seti (o que implicaria que a estrutura já
era, por essa época, antiga, como Naville e outros pesquisadores
sugeriram):
Quais os méritos dessas proposições mutuamente contraditórias, que
identificam o Osireion como, a) o prédio mais antigo do Egito e b) uma
estrutura relativamente recente do Novo Reino?
A proposição b - o prédio como cenotáfio de Seti - é a única aceita
pelos egiptólogos. Examinando-se bem o assunto, verifica-se que ela
repousa sobre a prova circunstancial dos cartuchos e inscrições, que
nada provam. Na verdade, parte dessa prova parece contradizer o
argumento de Frankfort. A ostracon com a legenda "Seti é útil a Osíris"
parece menos um elogio às obras do construtor original do que o
elogio a um restaurador que talvez tenha acrescentado alguma coisa a
uma estrutura antiga, identificada com o deus Osíris, dos Primeiros
Tempos. Outra pequena questão incômoda foi também ignorada. As
"câmaras transversais" norte e sul, que contêm detalhadas
decorações e inscrições de Seti I, ficam no lado de fora do muro
externo que, de modo tão claro, define o núcleo imenso, sem
decoração alguma, do edifício. Esse fato despertou uma razoável
suspeita na mente de Naville (embora Frankfort tivesse resolvido
ignorá-la), de que as duas câmaras em questão "não eram
contemporâneas do resto do edifício", mas haviam sido acrescentadas
muito depois, durante o reinado de Seti I. "provavelmente quando ele
construiu seu próprio templo".
Para resumir, por conseguinte, tudo a respeito da proposição b
baseia-se, de uma maneira ou de outra, na interpretação não
necessariamente infalível de Frankfort no tocante a vários fragmentos
de evidência possivelmente intrusa.
A proposição a - de que o edifício central doOsireion foi construído
milênios antes do tempo de Seti - repousa sobre a natureza da própria
arquitetura. Conforme observou Naville, a semelhança do Osireion
com o Templo do Vale, em Gizé, "mostra que é da mesma época,
quando as construções eram feitas com pedras enormes". De idêntica
maneira, até o fim da vida, Margaret Murray continuou convencida de
que o Osireion não era absolutamente um cenotáfio (e ainda menos
que tudo, de Seti). Disse ela:
A estrutura foi construída para a celebração dos mistérios de Osíris e
é até agora excepcional entre todos os prédios remanescentes do
Egito. É evidentemente antiga, uma vez que os grandes blocos de que
foi construída são do estilo do Antigo Reino. A simplicidade do prédio
sugere também que ele é de data muito antiga. A decoração foi
acrescentada por Seti I que, dessa maneira, arrogou-se o direito sobre
o prédio, mas, sabendo-se com que freqüência um faraó apropriava-se do trabalho de seus predecessores, a de acrescentando seu nome,
esse fato não tem muito valor probatório. No Egito, é o estilo do
prédio, o tipo de cantaria, o trabalho feito nas pedras, e não o nome de
um rei, que lhe fixam a data.
Havia aí uma advertência à qual Frankfort deveria ter dado mais
atenção, porquanto ele mesmo observou, confuso, a respeito de seu
"cenotáfio": "Temos de admitir que nenhum edifício semelhante é
conhecido na 19ª. Dinastia."
Na verdade, não se trata simplesmente de uma questão da 19ª.
Dinastia. À parte o Templo do Vale e outros edifícios ciclópicos
existentes no platô de Gizé, nenhum outro prédio que lembre mesmo
remotamente o Osireion é conhecido como de qualquer outra época
da longa história do Egito. Esse punhado de estruturas supostamente
do Velho Reino, construídas com megálitos gigantescos. parece
incluir-se em uma categoria sem igual. Lembram umas às outras muito
mais do que lembram qualquer estilo conhecido de arquitetura e, em
todos os casos, há pontos de interrogação sobre sua identidade.
Não seria isso exatamente o que esperaríamos de prédios não
construídos por qualquer faraó do período histórico, mas retroagindo a
tempos pré-históricos? Não confere sentido à maneira misteriosa
como a Esfinge e o Templo do Vale, e agora também o Osireion,
parecem tornar-se vagamente ligados aos nomes de determinados
faraós (Khafre e Seti I), sem jamais produzir uma única indicação que,
clara e inequivocamente, prove que esses faraós construíram a
estrutura em causa? Os laços muito tênues não indicariam muito mais
o trabalho de restauradores, que procuraram ligar seus nomes a
monumentos antigos e veneráveis, do que dos arquitetos originais
desses monumentos - quem quer que possam ter sido e em que
época possam ter vivido?
Navegando por Mares de Areia e de Tempo
Antes de deixar Abidos, havia outro enigma que eu queria investigar.
O enigma estava enterrado no deserto, a cerca de um quilômetro a
noroeste do Osireion, do outro lado de areias ondulantes coalhadas de
cemitérios antigos, atravancados de túmulos.
Entre esses cemitérios, muitos do quais datam de princípios dos
tempos dinásticos e pré-dinásticos, os deuses chacais, Anúbis e
Upuaut, reinaram supremos, segundo a tradição. Desbravadores de
caminhos, guardiães do espírito dos mortos, eu sabia que eles haviam
desempenhado um papel fundamental nos mistérios de Osíris, que
tinham sido encenados todos os anos em Abidos - aparentemente
durante todo o transcurso da antiga história egípcia.
Eu achava que havia um sentido em que eles ainda guardavam os
mistérios. Pois o que era o Osireion senão um enorme mistério sem
solução, que merecia estudo mais atento do que recebera de
estudiosos cujo trabalho consiste em examinar esses assuntos? E o
que significava o sepultamento, no deserto, de doze barcos de proa
alta, com capacidade para navegar no mar, se não um mistério que
clamava por solução?
E era para conhecer o local do sepultamento desses barcos que eu
estava nesse momento cruzando os cemitérios dos deuses chacais:
The Guardian, Londres, 21 de dezembro de 1991: Uma frota de 5.000
anos de idade de barcos reais foi encontrada enterrada a 130km do
Nilo. Arqueólogos americanos e egípcios descobriram em Abidos doze
grandes barcos de madeira. (...) Especialistas disseram que os barcos
- que medem de 15 a 18m de comprimento - têm cerca de 5.000 anos
de idade, o que os torna os barcos reais mais antigos do Egito e os
mais velhos jamais encontrados em qualquer outro local. (...) Dizem
ainda os peritos que os barcos, descobertos em setembro, foram
provavelmente construídos para que fossem enterrados, de modo que
a alma dos faraós pudesse ser neles transportada. "Nunca esperamos
encontrar tal frota, especialmente tão longe do Nilo", disse David
O'Connor, o chefe da expedição e curador da Seção Egípcia do
Museu Universitário da Universidade da Pensilvânia...
Os barcos haviam sido enterrados à sombra de um gigantesco espaço
fechado, construído com tijolos de argila, supostamente o templo
mortuário de um faraó da Segunda Dinastia, chamado Khasekhemwy,
que reinou no Egito no século XXVII a.C. O'Connor, porém, tinha
certeza de que os barcos não estavam ligados diretamente a
Khasekhemwy, mas, sim, a um espaço fechado (na maior parte em
ruínas) "construído para o faraó Djer, em princípios da Primeira
Dinastia. As sepulturas dos barcos não são provavelmente mais
recentes do que esse tempo e podem, na verdade, ter sido
construídas para Djer, embora esse fato precise ainda ser provado".
Uma forte e súbita pancada de vento varreu o deserto, espalhando
lençóis de areia. Refugiei-me por algum tempo à sombra dos muros
imponentes do espaço fechado de Khasekhemwy, perto do ponto
onde os arqueólogos da Universidade da Pensilvânia haviam, por
questões legítimas de segurança, reenterrado os doze misteriosos
barcos que descobriram acidentalmente em 1991. Eles tinham
esperança de voltar em 1992 para recomeçar as escavações. Mas
surgiram vários contratempos e, em 1993, a escavação continuava
ainda adiada.
Durante minha pesquisa, O'Connor me enviara o relatório oficial da
temporada de escavações de 1991, mencionando de passagem que
alguns barcos poderiam ter até 22m de comprimento. Ele observou
ainda que as sepulturas, revestidas de tijolos, em que estavam
fechados os barcos, e que deveriam ter tido uma altura muito acima
do nível do deserto circundante nos primeiros tempos dinásticos,
deviam ter produzido um efeito extraordinário quando recentes:
Todas as sepulturas haviam sido originariamente revestidas com
reboco de barro e cal, de modo que a impressão teria sido de doze (ou
mais) enormes "barcos" ancorados no deserto, brilhando vivamente
sob o sol egípcio. A idéia de que estavam ancorados foi levada tão a
sério que um pequeno calhau de forma irregular foi colocado perto da
"proa" ou da "popa" de várias das sepulturas. Esses calhaus não
poderiam estar ali naturalmente ou por acaso. A colocação deles
parece ter sido deliberada, e não obra do acaso. Podemos pensar
neles como "âncoras" destinadas a ajudar a "amarrar" os barcos.
Tal como o barco oceânico de 140 pés encontrado enterrado ao lado
da Grande Pirâmide de Gizé (ver Capítulo 33), uma coisa ficou
imediatamente clara sobre os barcos de Abidos - eles eram de projeto
avançado, capazes de cruzar as ondas mais altas e agüentar as
piores condições de tempo em mar aberto. De acordo com Cheryl
Haldane, arqueóloga especializada em assuntos náuticos, da Texas A
& M University, eles exibiam "um alto grau de tecnologia, combinada
com elegância". Exatamente como acontecia com o barco da pirâmide
(mas pelo menos 500 anos mais antigos), a esquadra de Abidos
parecia indicar que um povo capaz de usar a experiência acumulada
de uma longa tradição de viagens marítimas estivera presente no
Egito desde o próprio início de sua história de 3.000 anos. Além do
mais, eu sabia que os murais mais antigos encontrados no Vale do
Nilo, datando talvez de 1.500 anos antes do enterro da frota de Abidos
(por volta do ano 4500 a.C.), mostravam os mesmos barcos longos,
esguios, de proa alta.
Poderia uma raça experiente de antigos marinheiros ter mantido
contato com os habitantes nativos do Vale do Nilo, em algum período
indeterminado, antes do início oficial da história do país, por volta do
ano 3000 a.C.? Esse fato explicariaa curiosa e paradoxal obsessão -
mas ainda assim duradoura - do Egito com navios no deserto (e
referências, ao que parecia, a barcos sofisticados nos Textos da
Pirâmide, incluindo um que se dizia ter medido mais de 610m)?
Ao fazer essas conjecturas, eu não tinha dúvida de que existira no
Egito um simbolismo religioso no qual, como observaram
incansavelmente especialistas, barcos eram designados como
veículos para a alma do faraó. Ainda assim, tal simbolismo não
solucionava o problema criado pelo altonível de progresso tecnológico
dos barcos enterrados, uma vez que esses projetos evoluídos e
sofisticados exigiam um longo período de desenvolvimento. Não
valeria a pena estudar a possibilidade - mesmo que fosse apenas para
excluí-Ia - de que os barcos de Gizé e Abidos pudessem ter sido
partes de uma herança cultural e não de um povo agrícola amante da
terra, morador de margem de rio, tal como os egípcios antigos, mas de
uma nação marítima avançada?
Seria de esperar que esses marinheiros fossem navegadores, que
teriam sabido como estabelecer um curso pelas estrelas e que talvez
tivessem desenvolvido as perícias necessárias para desenhar mapas
e cartas exatas dos oceanos que tivessem cruzado.
Poderiam eles ter sido também os arquitetos e os pedreiros cujo
material de construção característico tinha sido blocos megalíticos
poligonais, como os encontrados no Templo do Vale e no Osireion?
E poderiam eles ter sido ligados, de alguma maneira, aos deuses
lendários dos Primeiros Tempos, que as lendas diziam ter trazido para
o Egito não só a civilização, a astronomia, a arquitetura e o
conhecimento da matemática e da escrita, mas também um grande
conjunto de habilidades e dádivas úteis, a mais notável e mais
importante das quais foi a agricultura? Há provas de um período
extraordinariamente antigo de progresso e experimentação agrícola no
Vale do Nilo, mais ou menos ao fim da última Era Glacial no
hemisfério Norte. As características desse grande "salto à frente"
sugerem que ele só poderia ter ocorrido com a chegada de novas
idéias, procedentes de alguma fonte ainda não identificada.
CAPÍTULO 46
O Undécimo Milênio a.C.
Se não existisse a impressionante mitologia de Osíris e se essa
divindade civilizadora, científica, legisladora, não fosse lembrada em
particular por ter introduzido culturas agrícolas úteis ao homem no
Vale do Nilo, na época remota e fabulosa conhecida como os
Primeiros Tempos, provavelmente não seria assunto de grande
interesse que, em algum momento entre os anos 13000 e 10000 a.C.,
o Egito desfrutou um período daquilo que foi descrito como a mais
antiga revolução agrícola no mundo, identificada com certeza pelos
historiadores.
Conforme vimos em capítulos recentes, fontes como a Pedra de
Palermo, Manetho e o Papiro de Turim contêm várias cronologias
diferentes e, às vezes, contraditórias. Todas elas, no entanto,
concordam sobre uma data muito antiga para os Primeiros Tempos de
Osíris: a idade áurea em que os deuses supostamente reinaram no
Egito. Além disso, essas fontes demonstram uma notável
convergência no tocante à importância atribuída ao undécimo milênio
em particular, a Era de Leão, no que interessa à precessão dos
equinócios, quando os grandes lençóis de gelo no hemisfério Norte
estavam passando pelo final e tumultuoso derretimento.
Talvez por coincidência, prova desenterrada desde a década de 1970
por geólogos, arqueólogos e especialistas em pré-história, como
Michael Hoffman, Fekri Hassan e o professor Fred Wendorff confirma
que o undécimo milênio a.C. foi, na verdade, um período importante
na pré-história do Egito, época em que inundações imensas e
devastadoras varreram repetidamente o vale do Nilo. Fekri Hassan
especulou que essa série prolongada de calamidades naturais, que
atingiu o auge por volta ou imediatamente depois do ano 10500 a.C.
(e continuou a se repetir periodicamente) pode ter sido responsável
pelo encerramento de qualquer experimentação agrícola antiga".
De qualquer modo, o experimento chegou realmente ao fim (por
qualquer que tenha sido a razão) e parece que não foi novamente
tentado por, pelo menos, mais 5.000 anos.
Pontapé Inicial
Há algo misterioso na denominada "revolução agrícola paleolítica" do
Egito. Vejamos, em citações extraídas de textos padrão (Egypt before
The Pharaohs, de Hoffman, e Prehistory ofthe Nile Valley, de Wendorff
e Schild), alguns fatos importantes no pouco que se sabe sobre o
grande salto para a frente que ocorreu, de forma inexplicável, perto do
fim da última Era Glacial:
1. Pouco depois do ano 13000 a.C., mós e lâminas lustrosas de foice
(resultado de corte de talos que ficaram colados ao gume das foices)
aparecem na caixa de ferramentas de fins do Paleolítico... É claro que
as mós foram usadas para preparar alimento de origem vegetal.
2. Em numerosos sítios arqueológicos à beira de rios, exatamente
nessa época, o peixe deixou de ser fonte de alimento importante e
tornou-se insignificante, como é comprovado pela ausência de seus
restos. "O declínio da pesca como fonte de alimentos relacionou-se
com o aparecimento de um novo recurso alimentar, os grãos moídos.
O pólen associado nesses casos sugere fortemente que esse cereal
era a cevada e, no que é muito importante, essa grande relva-pólen,
provisoriamente identificada como cevada, faz um aparecimento
súbito nos perfis de pólen exatamente antes de os primeiros povoados
serem estabelecidos nessa área..."
3. "Tão espetacular quanto o aparecimento da proto-agricultura no
Vale do Nilo, em fins do Paleolítico, foi sua rápida decadência.
Ninguém sabe exatamente por que, mas, após o ano 10500 a.C., mais
ou menos, desapareceram as antigas lâminas de foice e as mós, e
foram substituídas em todo o Egito por caça, pesca e coleta de
alimentos por povos epipaleolíticos que usavam instrumentos de
pedra."
Escassa como possa ser a prova, fica claro, em suas implicações
gerais, o seguinte: o Egito desfrutou uma idade áurea de prosperidade
agrícola que começou por volta do ano 13000 a.C. e acabou
abruptamente pelas alturas de meadosdo undécimo milênio a.C. O
pontapé inicial no processo parece ter sido dado pela introdução da
cevada domesticada no Vale do Nilo, seguida imediatamente pela
fundação de certo número de povoados agrícolas, que exploraram o
novo recurso. Os povoados possuíam instrumentos agrícolas e
acessórios simples, mas extremamente eficazes. Após o undécimo
milênio, porém, ocorreu uma prolongada recaída em estilos de vida
mais primitivos.
Nossa imaginação sente a tendência de vaguear livremente sobre
esses dados, em busca de uma explicação - e todas as explicações
desse tipo só poderão mesmo ser palpites. O certo é que nenhuma
prova sugere que a "revolução agrícola" paleolítica no Egito pudesse
ter sido uma iniciativa local. Muito ao contrário, parece, de todas as
maneiras, um transplante. Um transplante aparece de repente, afinal
de contas, e pode ser rejeitado com igual rapidez se mudam as
condições, da mesma maneira que a agricultura praticada por
comunidades com residência fixa parece ter sido rejeitada no Egito
antigo, após as grandes cheias do Nilo no undécimo milênio a.C.
Mudança Climática
Como era o tempo naquela época?
Em capítulos anteriores, observamos que o Saara, um deserto
relativamente jovem, era uma savana verde por volta do décimo
milênio a.C. A savana, pontilhada de lagos, pululava de caça,
estendia-se por parte muito grande do alto Egito. Mais ao norte, a área
do delta era pantanosa, mas com muitas ilhas, grandes e férteis. De
modo geral, o clima era muito mais frio, mais nublado e mais chuvoso
do que hoje, Na verdade, durante os dois ou três mil anos antes e
cerca de mil anos após o ano 10500 a.C., choveu ininterruptamente.
Em seguida, como que assinalando um momento ecológico decisivo,
chegaram as inundações. Ao passar esse período, surgiram
condições cada vez mais áridas. Esse período de ressecamento durou
até aproximadamente 7000 a.C., quando começou o "Neolítico
Subpluvial", acompanhado por cerca de mil anos de pesadas chuvas,
seguidas por 3.000 anos de precipitação moderada que, mais uma
vez, revelou-se ideal para a agricultura: "Durante algum tempo, os
desertos floresceram e sociedades humanas colonizaram áreas que,
desde então, têm sido incapazes de sustentar populações
numerosas."
Por ocasião do início do Egito dinástico, pelos anos 3000 a.C., o clima
deu nova meia-volta e começou um novo período de ressecamento -
que continua até os dias presentes.
Este, então, foi, em termos gerais, o palco ambiental onde se
desenrolaram os dramas de mistério da civilização egípcia: chuva e
inundações entre 13000 e 9500 a.C.; um período seco até o ano 7000
a.C.; chuvas novamente (embora cada vez menos freqüentes) até
mais ou menos o ano 3000 a.C.; e daí em diante um novo e duradouro
período seco.
O período de anos é muito grande, mas, se estamos procurando os
Primeiros Tempos, cujo espaço temporal possa coincidir com a idade
áurea dos deuses, nossos pensamentos voltam-se naturalmente para
a época misteriosa dos começos da experimentação agrícola, que
seguiu de perto as grandes chuvas e inundações entre os anos 13000
e 10500 a.C.
Conexões Ocultas?
Essa época foi de importância crucial não só para os antigos egípcios
mas para numerosos povos de outras áreas. Na verdade. como vimos
na Parte IV ocorreram nesse tempo espetaculares mudanças de
clima, elevação rápida do nível dos mares, sublevações da crosta
terrestre, inundações, erupções vulcânicas, chuvas betuminosas e
céus escuros que constituíram as razões mais prováveis dos muitos
mitos mundiais sobre cataclismo universal.
Mas poderia ter sido essa também uma época em que "deuses"
realmente andaram pela terra, como dizem as lendas?
No altiplano boliviano, esses deuses eram conhecidos como
Viracochas e estiveram ligados à impressionante cidade megalítica de
Tiahuanaco, que pode ter sido anterior às imensas inundações nos
Andes, ocorridas no undécimo milênio a.C. Daí em diante, de acordo
com o professor Arthur Posnansky, embora as águas do dilúvio
baixassem, "a cultura do altiplano não mais voltou a atingir um alto
ponto de desenvolvimento; ao contrário, caiu em uma decadência total
e definitiva".
Claro, as conclusões de Posnansky geram controvérsias e têm de ser
aceitas pelos seus próprios méritos. Não obstante, é interessante que
o altiplano boliviano e o Egito tenham sido devastados por imensas
inundações no undécimo milênio a.C. Em ambas as áreas,
igualmente, há sinais de que experimentos agrícolas em tempos muito
remotos - aparentemente baseados em técnicas introduzidas nessa
época no local - foram feitos e em seguida abandonados. Em
ambas as áreas, surgiram importantes perguntas sobre a datação de
monumentos: Puma Punku e o Kalasasaya, em Tiahuanaco, por
exemplo, que Posnansky argumentou que poderiam ter sido
construídos em dada tão remota quanto o ano 15000 a.C., e, no Egito,
estruturas megaliticas como o Osireion, a Grande Esfinge e o Templo
do Vale de Khafre, em Gizé, que John West e o geólogo Robert
Schoch, da Universidade de Boston, dataram, sobre fundamentos
geológicos, como anteriores ao ano 10000 a.C.
Poderia haver uma conexão oculta entre todos esses belos e
enigmáticos monumentos, os estranhos experimentos agrícolas no
período 13000-10000 a.C., e as lendas de deuses civilizadores, como
Osíris e Viracocha?
"Onde está o Resto dessa Civilização?”
Partindo de Abidos em direção a Lúxor, onde deveríamos nos
encontrar com John West, dei-me conta de que havia um sentido em
que todas as conexões cuidariam de si mesmas, se a questão básica
da antiguidade dos monumentos pudesseser resolvida. Em outras
palavras, se os achados geológicos de West provassem que a Esfinge
tinha mais de 12.000 anos de idade, a história da civilização humana
teria que ser revista. Como parte desse emocionante processo, todas
as demais estranhas, antigas, "impressões digitais de deuses", que
continuavam a aparecer em todo o mundo, e a impressão de que
havia uma corrente subterrânea de antigas conexões ligando
civilizações aparentemente sem ligação entre si, começariam a fazer
sentido.
Ao ser apresentada na reunião anual de 1992, da Associação
Americana pelo Progresso da Ciência, a prova de West fora levada
suficientemente a sério para ser debatida publicamente pelo
egiptólogo Mark Lehner, da Universidade de Chicago, diretor do
Projeto de Mapeamento de Gizé, que - para espanto de quase todos
os presentes - não conseguiu fazer uma refutação convincente.
"Quando o senhor diz que algo tão complexo como a Esfinge data de
9.000 a 10.000 anos a.C.", arrematou Lehner, isso significa, claro, que
houve uma civilização muito adiantada, capaz de construir a Esfinge
naquele período. A pergunta que um egiptólogo tem que fazer,
portanto, é a seguinte: "Se a Esfinge foi construída naquela época,
onde está o resto dessa civilização, onde está o resto dessa
cultura?” Lehner, contudo, não estava compreendendo o ponto
importante.
Se a Esfinge, de fato, data do período de 9.000 a 10.000 anos a.C.,
não cabia a West o ônus de produzir outras provas da existência da
civilização que a construíra, mas aos egiptólogos e arqueólogos
explicar como haviam entendido tão mal as coisas, de forma tão
invariável, e por tanto tempo.
Poderia West provar a antiguidade da Esfinge?
CAPÍTULO 47
A Esfinge
"Os egiptólogos", diz John West, "são as últimas pessoas no mundo a
estudar qualquer anomalia.”
Claro, são numerosas as anomalias no Egito. A anomalia a que West
se referia nessas palavras era a daspirâmides da Quarta Dinastia:
anomalia por causa do que acontecera durante as Terceira, Quinta e
Sexta Dinastias. A Pirâmide Escalonada de Zóser, em Saqqara
(Terceira Dinastia), é uma estrutura imponente, mas foi construída
com blocos relativamente pequenos, fáceis de manusear, que cinco
ou seis homens trabalhando juntos poderiam carregar, e suas
câmaras internas são estruturalmente defeituosas. As pirâmides das
Quinta e Sexta Dinastias (embora adornadas na parte interna com os
belos Textos da Pirâmide) tiveram uma construção medíocre e
desmoronaram de forma tão completa que, hoje, quase todas pouco
mais são do que montes de entulho. As pirâmides da Quarta Dinastia,
em Gizé, porém, foram maravilhosamente bem construídas e vêm
suportando, mais ou menos intactas, a passagem de milhares de
anos.
West achava que os egiptólogos deviam ter dado maior atenção a
essa seqüência de fatos ou, melhor, suas implicações.
- Há uma discrepância no cenário que fala em "construir pirâmides
medíocres, estruturalmente defeituosas, e, de repente, construir
pirâmides absolutamente inacreditáveis, que são, estruturalmente, as
coisas mais incríveis já concebidas pelo homem e, logo em seguida,
voltar a pirâmides estruturalmente medíocres". Isso não faz sentido. O
cenário paralelo na indústria automobilística, digamos, seria inventar e
construir o Ford Modelo-T, e, em seguida, subitamente, inventar
e construir um Porsche 93, fabricar apenas alguns deles e, logo
depois, esquecer como fazer isso e voltar a produzir o Ford Modelo-T.
Civilizações não funcionam dessa maneira.
- O que é que você está querendo dizer com isso? - perguntei. - Está
dizendo que as pirâmides da Quarta Dinastia não foram
absolutamente construídas por ela?
- Minha intuição é que não foram. Elas em nada se parecem com as
mastabas que estão à sua frente.Tampouco parecem com qualquer
outra estrutura da Quarta Dinastia... Elas não parecem se encaixar...
- E também não a Esfinge?
- Também, não. Mas a grande diferença é que não temos de confiar
em nossas intuições no que se refere à Esfinge. Podemos provar que
ela foi construída muito antes da Quarta Dinastia...
John West
Santha e eu nos tornamos fãs de John Anthony West desde que
começamos a viajar pelo Egito. Seu guia, The Traveller's Key, foi uma
introdução brilhante e indispensável aos mistérios dessa terra antiga,
e ainda o levamos para toda parte.Simultaneamente, seus livros
eruditos, notadamente Serpent in the Sky, abriu-nos os olhos para a
possibilidade revolucionária de que a civilização egípcia - com os
múltiplos vislumbres que fornece deuma ciência muito adiantada, que
não poderia existir naquele tempo - talvez não tivesse se desenvolvido
exclusivamente nos confins do Vale do Nilo, mas pudesse ter sido
legado de uma civilização anterior, mais avançada e ainda não
identificada, anterior por milênios ao Egito dinástico e a todas as
demais civilizações conhecidas".
Alto e de porte atlético, West está em princípios da casa dos 60 anos.
Cultivando uma barba branca bem aparada, encontrei-o usando traje
safári e um excêntrico capacete de cortiça tipo século XIX. Tem
maneiras jovens e enérgicas e uma faísca brincalhona nos olhos.
Estávamos nesse momento sentados no convés superior de um barco
de cruzeiro do Nilo, ancorado ao largo de Lúxor, a apenas alguns
metros rio abaixo do Winter Palace Hotel. A oeste, do outro lado do
rio, um enorme sol vermelho, distorcido pela refração atmosférica,
estava justamente se pondo por trás dos penhascos do Vale dos Reis.
A nossa direita estendiam-se as ruínas devastadas mas nobres dos
templos de Lúxor e Karnak. Abaixo de nós, transmitidas através do
casco do barco, sentíamos as pequenas pancadas e o fluxo da água,
rolando em seu curso na direção do distante delta.
West apresentou inicialmente sua tese, sobre uma Esfinge mais antiga
do que se pensava, no Serpent in the Sky, uma exposição exaustiva
do trabalho do matemático francês R. A. Schwaller de Lubicz. As
pesquisas realizadas por Schwaller no Templo de Lúxor entre 1937 e
1952 desencavaram prova matemática, sugerindo que a ciência e
cultura egípcias haviam sido muito mais avançadas do que pensavam
os estudiosos modernos. Não obstante, como observara West, a
prova tinha sido apresentada em linguagem difícil de compreender,
complexa, e sem nenhuma concessão ao leitor... Poucos leitores se
sentiam confortáveis com o Schwaller puro. Era a mesma coisa que
tentar entrar em física de alta energia sem um cuidadoso estudo
preliminar.
Os principais livros de Schwaller, ambos publicados originariamente
em francês, são o maciço Temple de l'Homme, em três volumes, que
se concentra em Lúxor, e o mais geral Roi de la théocratie
Pharoanique. Nesta última obra, traduzida para o inglês com o título
Sacred Science, Schwaller faz, de passagem, referência às imensas
inundações e chuvas que devastaram o Egito no undécimo milênio
a.C. Quase como se fosse um segundo pensamento, ele acrescentou:
Uma grande civilização deve ter precedido as grandes precipitações
pluviométricas sobre o Egito, o que nos leva a supor que a Esfinge já
existia, esculpida na rocha do penhasco oeste de Gizé - uma esfinge
cujo corpo leonino, com exceção da cabeça, demonstra sinais
incontestáveis de erosão pela água.
Enquanto escrevia o Serpent, West ficou impressionado com a
possível significação dessa observação e resolveu aprofundá-la:
- Compreendi que, se pudesse provarempiricamente essa observação
de Schwaller, feita de passagem, teria prova definitiva da existência de
uma alta civilização, ainda não identificada, na distante antiguidade.
- Por quê?
- Uma vez provado que a água foi o agente que corroeu a Esfinge, a
solução é de uma simplicidade quase infantil. Ela poderia ser
explicada a qualquer leitor do National Enquirer ou do News of the
World. Seria de uma simplicidade que até um débil mental poderia
entender... Pensa-se que a Esfinge foi construída por Khafre no ano
2500 a.C., mas, desde o início dos tempos dinásticos, digamos, do
ano 3000 a.C. em diante, simplesmente não houve chuva suficiente no
platô de Gizé para ter causado a erosão, muito extensa, observada
em todo o corpo da Esfinge. Temos realmente que retroagir a antes do
ano 10000 a.C. para encontrar um clima úmido o suficiente no Egito
para explicar intemperismo desse tipo e nessa escala. Daí, portanto, a
Esfinge deve ter sido construída antes do ano 10000 a.C. e, desde
que é uma obra de arte maciça, sofisticada, é lógico também que deve
ter sido construída por uma civilização avançada.
- Mas, John - perguntou Santha -, como é que você pode ter tanta
certeza de que o intemperismo foi causado por água de chuva? Os
ventos do deserto não poderiam ter feito também o mesmo trabalho?
Afinal de contas até egiptólogos ortodoxos admitem que a Esfinge
existe há quase 5.000 anos. Esse período não é suficientemente longo
para que esses efeitos tenham sido causados por erosão eólica?
- Naturalmente, essa foi uma das primeiras possibilidades que tive de
excluir. Só se conseguisse demonstrar que areia abrasiva soprada
pelo vento não poderia, de maneira alguma, ter posto a Esfinge na sua
atual situação, haveria alguma razão para estudar mais a fundo as
implicações da erosão pela água.
A Geologia de Robert Schoch: Solucionando o
Enigma da Esfinge
Descobriu-se que uma questão importante dizia respeito à profunda
vala que cerca o monumento por todos os lados.
- Uma vez que a Esfinge repousa em um lugar raso - prosseguiu West
-, a areia se empilha até a altura de seu pescoço em questão de
algumas décadas, se nada for feito... E ela foi, com grande freqüência,
deixada ao abandono durante os tempos históricos. Na verdade,
graças a uma combinação de referências textuais e extrapolações
históricas, é possível provar que, durante os 4.500 anos transcorridos
desde que teria sido aparentemente construída por Khafre, ela esteve
enterrada até o pescoço por nada menos que 3.300 anos". Isso
significa que, durante todo esse tempo, só houve um total cumulativo
de mil anos, no qual o corpo esteve sujeito à erosão eólica. Durante
todo o resto do tempo, ela esteve protegida dos ventos do deserto por
um enorme lençol de areia. O importante é que, se a Esfinge tivesse
sido realmente construída por Khafre, no Velho Reino, e se a erosão
pelo vento fosse capaz de infligir tal dano em um período de tempo tão
curto, então as demais estruturas do Velho Reino nessa área,
construídas com a mesma pedra calcária, deveriam demonstrar
efeitos semelhantes de intemperismo. Mas nenhuma delas mostra
isso... você sabe, tumbas inconfundivelmente do Velho Reino, cheias
de hieróglifos e inscrições... nenhuma delas exibe o mesmo tipo de
intemperismo que a Esfinge.
Na verdade, nenhuma. O professor Robert Schoch, geólogo da
Universidade de Boston e especialista em erosão de rochas que
desempenhou papel decisivo na validação da prova de West,
convenceu-se da razão desses estragos. O intemperismo exibido pela
Esfinge - e pelas paredes do espaçofechado cortado na rocha - não
foi causado absolutamente pela abrasão do vento, mas por milhares
de anos de chuvas torrenciais, em longas eras antes do
estabelecimento do Velho Reino.
Tendo convencido seus colegas na Convenção da Sociedade
Geológica da América, realizada em 19924, Schoch explicou em
seguida suas descobertas a uma platéia muito mais ampla e eclética
(incluindo egiptólogos), na reunião anual de 1992, da Associação
Americana pelo Progresso da Ciência (AAAS). Começou ele dizendo
aos delegados que "o corpo da Esfinge e as paredes da vala onde ela
se encontra estão profundamente corroídos, com efeitos de
intemperismo... Essa erosão tem alguns metros de largura em alguns
lugares, pelo menos nas paredes. Ela é muito profunda, muito antiga
em minha opinião, e exibe um perfil ondulado e contínuo... ".
Essas ondulações são facilmente reconhecíveis por especialistas em
estratigrafia e paleontologia como tendo sido causadas por
"intemperismo induzido por precipitação pluviométrica". Como indicam
as fotografias da Esfinge e do espaço fechado, feitas por Santha, esse
tipo de intemperismo assume a forma clara de uma combinação de
profundas fissuras verticais e entalhes côncavos ondulantes e
horizontais - "um exemplo de livro de texto escolar", nas palavras de
Schoch, "do que acontece a uma estrutura de pedra calcária se
castigada por chuva durante milhares de anos... Foi claramente a
precipitação de chuva que causou esses aspectos de erosão".
A erosão por vento/areia apresenta um perfil muito diferente de canais
horizontais de bordas nítidas, seletivamente abertos, nas camadas
mais macias da rocha afetada. Em nenhuma circunstância, pode
causar as fissuras verticais, especialmente visíveis no muro do espaço
fechado onde está a Esfinge. Elas só poderiam ser "formadas por
água descendo pelo muro", o resultado de chuva em volume imenso,
caindo em cascata sobre a ladeirado platô de Gizé e penetrando no
espaço fechado da Esfinge embaixo. "A chuva atacou os pontos
fracos da rocha", explicou Schoch, "e neles abriu fissuras de alto a
baixo - prova clara para mim, como geólogo, de que esse aspecto de
erosão foi causado por chuvas."
Embora obscurecido em alguns lugares por blocos instalados por
numerosos restauradores durante milênios, a mesma observação se
aplica às estrias fundas, ondulantes, verticais, que correm por todo o
comprimento do corpo da Esfinge.
Mais uma vez, esses resultados são característicos de intemperismo
causado por chuva, porque apenas longos períodos de chuvas
pesadas, martelando as partes superiores da imensa estrutura (e
descendo em cascata pelos lados) poderiam ter produzido esses
efeitos. A confirmação vem do fato de que a pedra calcária onde foi
esculpida a Esfinge não tem composição uniforme, mas consiste de
uma série de camadas duras e moles, nas quais algumas das rochas
mais duráveis resistem mais do que as menos duráveis. Esse perfil
simplesmente não poderia ter sido produzido por erosão eólica (que
teria cortado seletivamente as camadas mais moles da rocha), mas
seria "inteiramente consistente" com intemperismo induzido por
precipitação pluviométrica, caso em que água, água de chuva, desce
batendo. As rochas localizadas na parte superior do monumento são
mais duráveis, mas se encontram também em profundidade maior do
que as menos duráveis nas seções mais protegidas.
No seu sumário na reunião da AAAS, concluiu Schoch:
É bem sabido que o espaço fechado onde se encontra a Esfinge
enche-se de areia com grande rapidez, em uma questão de décadas,
nas condições desérticas do Saara. E a areia tem de ser removida
periodicamente. E isso vem acontecendo desde tempos antigos. Ainda
assim, observa-se esse perfil dramático ondulado de erosão nos
muros do espaço fechado da Esfinge... Em termos simples, portanto, o
que estou sugerindo é que esse perfil ondulado, esses aspectos vistos
no corpo e na vala da Esfinge, retroagem a um período muito antigo,
quando havia mais precipitação pluviométrica nessa área, mais
umidade, mais chuva no platô de Gizé".
Como ele próprio reconheceu, Schoch não foi o primeiro geólogo a
notar o "anômalo intemperismo induzido por precipitação pluviométrica
no núcleo do corpo da Esfinge". Ele foi, porém, o primeiro a participar
de um debate público sobre as imensas implicações históricas desse
intemperismo. A atitude que adotou foi a de preferir ficar adstrito à
geologia:
Disseram-me um sem-número de vezes que os povos do Egito, tanto
quanto sabemos, nem tinham a tecnologia nem a organização social
necessárias para esculpir o núcleo do corpo da Esfinge nos tempos
pré-dinásticos... Não vejo nisso, porém, nenhum problema para mim
como geólogo. Não estou querendo transferir o ônus para ninguém,
mas cabe realmente aos egiptólogos e arqueólogos descobrir quem a
esculpiu. Se meus fatos estão em conflito com suas teorias sobre o
aparecimento da civilização, então talvez seja oportuno que
eles reavaliem a teoria. Não estou dizendo que a Esfinge foi esculpida
por atlantes, por marcianos, ou poroutros extraterrestres. Estou
simplesmente seguindo a ciência aonde ela me leva, e ela me leva a
concluir que a Esfinge foi construída muito mais cedo do que se
pensava antes...
Civilizações Lendárias
Quanto tempo antes?
John West contou-nos que ele e Schoch estão empenhados em um
debate cordial sobre a idade da Esfinge:
- Schoch situa a data em algum período entre os anos 5000 e 7000
a.C., no mínimo, [a época do período Subpluvial Neolítico],
principalmente por assumir a opinião mais cautelosa permitida pelos
dados de que dispõe. Como professor de geologia de uma grande
universidade, ele é quase obrigado a adotar uma postura
conservadora... e é verdade que houve chuvas entre os anos 7000 e
5000 a.C. Não obstante, por uma grande variedade de razões
intuitivas e acadêmicas, acho que a data é muito, mas muito mais
antiga e que a maior parte do intemperismo sofrido pela Esfinge
ocorreu no período chuvoso anterior, antes do ano 10000 a.C... Para
ser franco, se ocorreu em uma época relativamente recente, como
5000 a 7000 a.C., acho que teríamos provavelmente encontrado
outras provas da civilização que a esculpiu. Um bocado de provas
desse período foi encontrado no Egito. Nelas há algumas anomalias
estranhas, reconheço, mas a maior parte dela... o grosso delas... é
realmente muito rudimentar.
- Nesse caso, quem construiu a Esfinge, se não foram os egípcios pré-dinásticos?
- Minha conjectura é de que todo esse enigma está ligado, de alguma
maneira, àquelas civilizações lendárias mencionadas em todas as
mitologias do mundo. Você sabe quais são: as que dizem que houve
grandes catástrofes, que alguns homens sobreviveram, andaram
vagueando pela terra e que um pouco de conhecimento foi preservado
aqui, outro tanto acolá... Meu palpite é que a esfinge está ligada a tudo
isso. Se fosse desafiado a fazer uma aposta, eu diria que é anterior ao
fim da última Era Glacial e, provavelmente, mais antiga do que 10.000
anos a.C., talvez até mais antiga do que 15.000 anos a.C. Minha
convicção... na verdade, mais do que uma convicção... é de que ela é
imensamente velha.
E era também uma convicção que eu compartilhava cada vez mais - e,
lembrei a mim mesmo, uma que a maioria dos egiptólogos do século
XIX havia também aceitado. Não obstante, a aparência da Esfinge era
um argumento contra essas intuições, porquanto não havia dúvida de
que sua cabeça parecia convencionalmente faraônica.
- Se ela é tão velha quanto você pensa - perguntei nesse momento a
John -, de que modo explica que osescultores a tenham apresentado
usando o adereço nemes de cabeça e a uraeus dos tempos
dinásticos?
- Esse fato não me incomoda. Na verdade, como você sabe,
egiptólogos alegam que a face da Esfinge lembra a face de Khafre... a
única razão por que eles alegam que a estátua foi mandada esculpir
por ele. Schoch e eu estudamos esse assunto com o maior cuidado.
Pensamos, à vista das proporções da cabeça em relação ao resto do
corpo, que ela foi reesculpida durante os tempos dinásticos e é por
esse motivo que ela parece muito dinástica. Mas não pensamos que
houvesse a intenção de representar Khafre. Como parte de nossa
pesquisa em andamento sobre essas questões, pedimos ao tenente
Frank Domingo, artista especializado em retratos falados do
Departamento de Polícia de Nova York, que viesse até aqui e que
fizesse comparações, ponto por ponto, entre a face da Esfinge e a
face da estátua de Khafre conservada no Museu do Cairo. A
conclusão dele foi que de nenhuma maneira houve intenção de que a
Esfinge representasse Khafre. Não se trata apenas de a face ser
diferente... ela é, provavelmente, de uma raça diferente. Trata-se,
portanto, de um monumento muito antigo, que foi reesculpido em data
muito posterior. Originariamente, talvez nem mesmo tivesse uma face
humana. Talvez tenha começado com um focinho de leão, e não só
com o corpo.
Magalhães e o Primeiro Osso de Dinossauro
Após meus próprios estudos em Gizé, eu queria saber se a pesquisa
de West lançara alguma dúvida sobre a datação ortodoxa de qualquer
um dos outros monumentos do platô, em especial o do chamado
Templo do Vale, de Khafre.
- Acho que há muita coisa que talvez seja mais antiga - respondeu ele.
Não apenas o Templo do Vale, mas também o Templo Mortuário, no
alto da colina, têm provavelmente alguma coisa a ver com o complexo
de Menkaure e talvez mesmo com a Pirâmide de Khafre...
- O quê, no complexo de Menkaure?
- Bem, o Templo Mortuário. E na verdade estou apenas usando por
conveniência agora a atribuição convencional de autoria de
construção das pirâmides...
- Tudo bem. De modo que você pensaque é possível também que as
pirâmides sejam tão antigas quanto a Esfinge?
- É difícil dizer. Acho que havia alguma coisa nos locais onde estão
atualmente aquelas pirâmides... por causa da geometria. A Esfinge
era parte de um plano-mestre. E a Pirâmide de Khafre talvez seja a
mais interessante nesse aspecto, porque foi definitivamente
construída em dois estágios. Se olhar para ela... e talvez tenha:
notado... verá que a base consiste de várias carreiras de blocos
gigantescos, semelhantes em estilo aos blocos da cantaria do núcleo
do Templo do Vale. Superposto sobre a base, o resto da pirâmide é
composto de material de menor dimensão, assentado com menos
precisão, do ponto de vista de engenharia. Mas, quando olhamos para
ela, sabendo o que procuramos, verificamos imediatamente que ela foi
construída em duas etapas separadas. Quero dizer, não posso
deixar de pensar que os imensos blocos da base datam de um
período anterior - do tempo em que a Esfinge foi construída... e que a
segunda parte foi acrescentada mais tarde... mas, mesmo nessa
época, não necessariamente por Khafre. Aprofundando-se no assunto,
você descobrirá que, quanto mais aprende, mais complexas se tornam
as coisas. Pode até mesmo ter havido uma civilização intermediária,
por exemplo, que, na verdade, corresponderia aos textos egípcios.
Eles falam sobre dois longos períodos anteriores. No primeiro, o Egito
foi supostamente governado por deuses... os Neterus... e, no
segundo, pelos Shemsu Hor, os "Companheiros de Hórus". É por isso
que digo que os problemas se tornam cada vez mais complicados. Por
sorte, o fundamental permanece simples. O fundamental é que a
Esfinge não foi construída por Khafre. A geologia prova que ela é
muito, mas muito mais antiga...
- Não obstante, os egiptólogos recusam-se a aceitar essa conclusão.
Um dos argumentos que usaram contra você... Mark Lehner fez isso...
é mais ou menos o seguinte: "Se a Esfinge foi construída antes do ano
10000 a.C., então por que não pode nos mostrar o resto da civilização
que a construiu?" Em outras palavras, por que não tem outra prova a
apresentar sobre a presença de sua lendária civilização perdida, à
parte algumas estruturas no platô de Gizé? O que é que me diz disso?
- Em primeiro lugar, há estruturas fora de Gizé... como, por exemplo, o
Osireion, em Abidos, de onde você acaba de vir. Achamos que esse
espantoso edifício pode relacionar-se com nosso trabalho sobre a
Esfinge. Mesmo que o Osireion não existisse, contudo, a falta de
outras provas não me incomodaria. Quero dizer, para dar destaque ao
fato de que prova confirmatória adicional não foi encontrada ainda e
para usar essa circunstância para acabar uma discussão, é a mesma
coisa que dizer a Magalhães: "Onde estão os outros caras que fizeram
a volta do mundo?" Claro, isso não prova nada. Ou, em 1838, quando
foi encontrado o primeiro osso de dinossauro, teriam dito: "Claro, não
há essa tal coisa de um animal gigantesco extinto. Onde está o resto
do esqueleto? Só encontraram um osso." Mas logo que algumas
pessoas começaram a compreender que esse osso só podia ser de
um animal extinto, nos vinte anos seguintes os museus do mundo se
encheram de esqueletos completos de dinossauros. De modo que a
coisa é mais ou menos assim. Ninguém se preocupou em procurar
nos lugares certos. Tenho absoluta certeza de que outras provas
serão encontradas, logo que algumas pessoas começarem a procurar
nos lugares certos... ao longo das margens do antigo Nilo, por
exemplo, que está a quilômetros do Nilo atual, ou mesmo no fundo do
Mediterrâneo, que ficou seco durante a última Era Glacial.
O Problema da Transmissão
Perguntei a John West por que ele pensava que os egiptólogos e os
arqueólogos tinham tanta má vontade em pensar em que a Esfinge
pudesse ser uma pista para a existência de um episódio esquecido na
história humana.
- A razão, acho, é que eles têm uma idéia fixa sobre a evolução linear
da civilização. Acham difícil aceitar a idéia de que possa ter havido
povos, há mais de doze mil anos, que eram mais sofisticados do que
somos hoje... A Esfinge, e a geologia que lhe prova a antiguidade, e o
fato de que a tecnologia requerida para construí-Ia está, de muitas
maneiras, muito além de nossa própria capacidade, desmentem a
crença em que civilização e tecnologia evoluíram de forma direta,
linear... Isso porque, mesmo com a melhor tecnologia moderna,
praticamente não poderíamos realizar as várias tarefas envolvidas no
projeto. A própria Esfinge não é uma façanha assombrosa nesse
particular. Quero dizer, se conseguirmos juntar escultores em número
suficiente para cortar a pedra, eles poderiam esculpir uma estátua de
um quilômetro e meio de comprimento. A tecnologia teve a ver com
escolher as pedras, extrair as pedras das pedreiras, libertar a Esfinge
de seu leito rochoso e, em seguida, usá-las para construir o Templo
do Vale a uns duzentos metros de distância...
Isso era novidade para mim.
- Você quer dizer que os blocos de duzentas toneladas do Templo do
Vale foram extraídos do espaço fechado da Esfinge?
- Isso mesmo, não há a menor dúvida a esse respeito.
Geologicamente, pertencem ao mesmo tipo de rocha. Os blocos foram
extraídos e levados para o local do Templo... só Deus sabe como... e
com eles construídas paredes de doze metros de altura... mais uma
vez, só Deus sabe como. Estou falando dos imensos blocos de pedra
calcária do núcleo, não do revestimento de granito. Acho que o granito
foi acrescentado muito tempo depois, possivelmente por Khafre. Mas
se examinar os blocos de pedra calcária do núcleo, verá que eles têm
as marcas de exatamente o mesmo tipo de intemperismo induzido por
precipitação pluviométrica, tal como as marcas encontradas na
Esfinge. De modo que a Esfinge e a estrutura do núcleo do Templo do
Vale foram feitas na mesma época, pelas mesmas pessoas... quem
quer que possam ter sido.
- E você acha que essas pessoas e os egípcios dinásticos posteriores
foram ligados entre si de alguma maneira? No Serpent in the Sky você
sugere que uma herança deve ter sido passada adiante...
- Isso ainda é uma sugestão. Tudo que sei com certeza, com base em
nosso trabalho sobre a Esfinge,é que uma civilização muito,
muitíssimo sofisticada, capaz de implementar projetos de construção
em escala grandiosa, esteve presente no Egito em passado muito
distante. Em seguida, caiu muita chuva. Milhares de anos depois, no
mesmo lugar, a civilização faraônica surgiu inteiramente formada,
aparentemente saindo do nada, com todos os seus conhecimentos
completos. Disso podemos ter certeza. Mas se ounão o conhecimento
que o Egito antigo possuía era o mesmo que o conhecimento que
produziu a Esfinge, não posso realmente dizer.
- O que é que você acha da seguinte idéia? A civilização que produziu
a Esfinge não teve origem aqui, pelo menos não no início... -
especulei. - Ela não se localizava no Egito. Ela colocou aqui a Esfinge
como uma espécie de marco ou posto avançado...
- Inteiramente possível. Poderia acontecer que a Esfinge, para essa
civilização, fosse igual, digamos, ao que Abu Simbel (na Núbia) foi
para o Egito dinástico.
- Nesse caso, essa civilização chegou ao fim, extingui-se devido a
alguma catástrofe terrível, e foi nessa ocasião que a herança de altos
conhecimentos passou a outras mãos... Uma vez que tinham deixado
aqui a Esfinge, sabiam da existência do Egito, conheciam este lugar,
conheciam este país, tinham uma ligação aqui. Talvez esse povo
tenha sobrevivido ao fim da civilização. Talvez eles tenham vindo para
cá... Isso faz sentido para você?
- Bem, é uma possibilidade. Mais uma vez, voltando às mitologias e
lendas do mundo, muitas delas falam em uma catástrofe como essa e
de poucos sobreviventes... a história de Noé, que se repetiu através
de civilizações incontáveis... que, de uma ou de outra maneira,
conservaram e transmitiram a outros esse conhecimento. O grande
problema com tudo isso, de meu ponto de vista, é o processo de
transmissão da herança: como, exatamente, o conhecimento é
passado de uma mão a outra durante milhares e milhares de anos,
entre a construção da Esfinge e o florescimento do Egito dinástico?
Teoricamente, estamos numa espécie de beco sem saída... você não
está?... no que interessa a esse enorme período em que os
conhecimentos foram transmitidos. Não é fácil descartar essa
conclusão. Por outro lado, sabemos, de fato, que as lendas que
estamos mencionando foram transmitidas, palavra por palavra, ao
longo de incontáveis gerações e, na verdade, a transmissão oral é um
meio muito mais seguro de transmissão do que a escrita, porque a
linguagem pode mudar, mas enquanto quem estiver contando a
história disser que ela é verdadeira, em qualquer que seja a linguagem
do tempo... ela reaparece 5.000 anos depois em sua forma original.
De modo que, talvez haja maneiras... em sociedades secretas e cultos
religiosos, ou através da mitologia, por exemplo, em que os
conhecimentos poderiam ter sido preservados e transmitidos antes de
voltar a florescer. O importante, acho, com problemas tão complexos e
importantes como esses, é simplesmente não descartar quaisquer
possibilidades, por mais absurdas que possam inicialmente parecer,
sem investigá-las profundamente...
Segunda Opinião
John West estava em Lúxor, chefiando um grupo de estudo sobre os
sítios arqueológicos sagrados do Egito. Cedo no dia seguinte, ele e
seus estudantes dirigiram-se para Assuã e Abu Simbel, no sul. Santha
e eu viajamos novamente para o norte,de volta a Gizé e aos mistérios
da Esfinge e das pirâmides. Íamos nos encontrar com o árqueo-astrônomo Robert Bauval. Conformeveremos, suas correlações
estelares proporcionaram surpreendente confirmação, independente
da prova geológica, da imensa antiguidade de Gizé.

CAPÍTULO 48
Medidas da Terra
Siga as instruções abaixo com o máximo cuidado:
Risque verticalmente duas linhas retas paralelas, de cima a baixo de
uma folha de papel, de mais ou menos 18cm de comprimento e um
pouco menos de 7,5cm de distância uma da outra. Trace uma terceira
linha, também vertical e também paralela de igual tamanho,
exatamente no centro das duas. Escreva a letra "S" - significando "Sul"
- na extremidade superior do diagrama (a extremidade mais distante
de você), e a letra "N", significando "Norte", na extremidade inferior.
Acrescente as letras "L", significando "Leste", e "O", significando
"Oeste" em suas posições apropriadas em cada lado do diagrama, o
Leste à esquerda e o Oeste à direita.
O que você está vendo são os contornos de um mapa geométrico do
Egito, usando uma perspectiva muito diferente da nossa (onde o
"Norte" é sempre igual a "No alto"). Este mapa, onde o "No Alto" é o
"Sul", parece ter sido preparado em um tempo imensamente remoto
por cartógrafos que dispunham de conhecimentos científicos sobre a
forma e tamanho de nosso planeta.
A fim de completar o mapa, vocêdeve marcar agora um ponto na
linha central das três paralelas, mais ou menos a 2,5cm, ao sul (o
"alto"), a partir da extremidade norte do diagrama. Em seguida, trace
mais duas linhas diagonais descendo desse ponto, respectivamente
para o nordeste e o noroeste, até que elas alcancem as extremidades
norte das duas paralelas externas. Finalmente, ligue diretamente
essas linhas paralelas a linhas horizontais, correndo de leste para
oeste, nas extremidades norte e sul do diagrama.
A forma obtida é um retângulo ao sul (orientado no sentido norte-sul).
Esse retângulo mede 17,8cm de comprimento por pouco menos de
7,5cm de largura e tem um triângulo demarcado em sua extremidade
norte (inferior). O triângulo representa o delta do Nilo e, o ponto no
ápice do triângulo, o ápice do delta um ponto no solo a 30° 06' norte e
31 ° 14' leste, muito próximo da localização da Grande Pirâmide.

Marco Geodésico
O que mais que ela possa ser, matemáticos e geógrafos sabem há
muito tempo que a Grande Pirâmide serve como um marco geodésico
(geodésia é o ramo da ciência que trata de determinar a posição de
pontos geográficos e a forma e tamanho da terra). A compreensão
desse fato surgiu em fins do século XVIII, quando os exércitos da
França revolucionária, comandados por Napoleão Bonaparte,
invadiram o Egito. Bonaparte, que sentia um profundo interesse pelos
enigmas das pirâmides, trouxe consigo grande número de
pesquisadores, 175 no total, incluindo vários "sábios" reunidos em
várias universidades, que tinham fama de ter adquirido "profundo
conhecimento de antiguidades egípcias"e, no que foi mais útil, um
grupo de matemáticos, cartógrafos e topógrafos.
Um dos trabalhos que os sábios receberam ordens de fazer, depois de
completada a conquista, foi levantar mapas detalhados do Egito. Ao
se lançarem ao trabalho, descobriram que a Grande Pirâmide está
perfeitamente alinhada com o norte verdadeiro - e, claro, com o sul,
leste e oeste, também, como vimos na Parte VI. Isso significa que a
misteriosa estrutura era um excelente ponto de referência e
triangulação, tomando eles a decisão de usar o meridiano que
passava por seu ápice como linha-base para todas as demais
medições e orientações. A equipe, em seguida, começou a produzir os
primeiros mapas exatos do Egito desenhados na era moderna.
Terminado o trabalho, notaram intrigados que o meridiano da Grande
Pirâmide cortava em duas metades iguais a região do delta do Nilo.
Descobriram também que, se diagonais correndo do ápice da pirâmide
para seus cantos nordeste e noroeste fossem prolongadas (formando
linhas no mapa que correriam nos sentidos nordeste e noroeste até
chegar ao Mediterrâneo), o triângulo assim formado conteria
perfeitamente toda a área do delta.
Mas voltemos ao nosso mapa, que inclui também um triângulo que
representa o delta. Seus três outros principais componentes são os
três meridianos paralelos. O meridiano leste está na longitude de 32°
38' leste - a antiga fronteira oficial do antigo Egito desde o início dos
tempos dinásticos. O meridiano oeste está na longitude de 29º 50'
oeste - a fronteira oeste oficial do antigo Egito. O meridiano central
está na longitude de 31º 14' leste, exatamente a meio caminho entre
os dois outros (a 1º 24' de cada um).
O que vemos nesse momento é a representação de uma faixa na
superfície do planeta terra que tem exatamente 2º 48' de largura. Qual
a extensão dessa faixa? As antigas fronteiras "oficiais" norte e sul do
Egito (que não tinham mais relação com padrões de colonização do
que as fronteiras oriental e ocidental) são marcadas pelas linhas
horizontais nas partes superior e inferior do mapa e localizadas
respectivamente a 31 ° 6' norte e 24° 6' norte. A fronteira norte,
situada em 31º 6' norte, liga as duas extremidades externas do
estuário do Nilo. A fronteira sul, em 24° 6' norte, assinala a latitude
exata da ilha de Elefantina, em Assuã (Seyne), onde existiu um
importante observatório astronômico e solar durante toda a história
egípcia conhecida. Parece que essa terra arcaica, sagrada desde o
início dos tempos - criação e habitação dos deuses - foi
originariamente concebida como um constructo geométrico a
exatamente sete graus terrestres de comprimento.
De acordo com esse constructo, parece que a Grande Pirâmide foi
localizada, com todo cuidado, como marco geodésico para o ápice do
delta. Este último, que indicamos em nosso mapa, localiza-se a 30º 6'
norte, 31° 14' leste - um ponto na metade do comprimento do rio Nilo,
situado na borda norte da moderna Cairo. Entrementes, a pirâmide
está na latitude de 30º N (corrigida para levar em conta a refração
atmosférica) e na longitude de 31º 9' leste, ou um erro de apenas
alguns minutos do arco terrestre nas direções sul e oeste. Esse "erro",
contudo, não parece ter sido resultado de relaxamento ou imprecisão
por parte dos construtores da pirâmide. Ao contrário, um exame atento
da topografia da área sugere que a explicação desse fato deve ser
buscada na necessidade de encontrar um local apropriado para todas
as observações astronômicas, que tinham de ser feitas para a
localização exata do sítio arqueológico, com uma estrutura geológica
suficientemente estável sobre a qual assentar, para sempre, um
monumento de seis milhões de toneladas, de quase 150m de altura,
com uma base de mais de cinco hectares.
O platô de Gizé atende a essas especificações em todos os sentidos:
perto do ápice do delta, elevado acima do vale do Nilo e possuidor de
excelentes fundações de sólido leito rochoso de pedra calcária.
Trabalhando em Graus
Estávamos viajando de Lúxor para Gizé na parte traseira do Peugeot
504 de Mohamed Walilli - uma viagem de apenas quatro graus de
longitude, isto é, do paralelo de 25° 42' norte para o 30° paralelo.
Entre Asiut e EI Minya, um corredor de conflitos em meses recentes
entre extremistas islâmicos e forças de segurança egípcias;
recebemos uma escolta armada de soldados, um dos quais usava
trajes civis e que se sentou no assento do passageiro, ao lado de
Mohamed, acariciando uma pistola automática. Os demais, mais ou
menos uma dúzia, armados com fuzis de assalto AK47, distribuíam-se
igualmente entre duas picapes, que nos espremiam pela frente e por
trás.
"Gente perigosa mora por aqui", confidenciou Mohamed pelo canto da
boca, quando fomos detidos em um ponto de inspeção em Asiut e
recebemos ordem de esperar pela escolta. Embora obviamente
irritado por ser obrigado a acompanhar a alta velocidade dos veículos
de escolta, Mohamed parecia apreciar muito a situação de fazer parte
de um comboio impressionante, com luzes relampejando e sirenes
uivando, costurando o caminho por entre o tráfego mais lento na
principal estrada de rodagem entre o alto e o baixo Egito.
Durante algum tempo, olhei pela janela do carro para o espetáculo
imutável do Nilo, para suas margens verdes férteis e para o nevoeiro
vermelho do deserto, a alguns quilômetros de distância, nas direções
leste e oeste. Este era o Egito, o verdadeiro Egito orgânico de ontem e
hoje, que coincidia (mas se espalhava por uma distância muito maior)
com o estranho Egito "oficial" do mapa descrito acima, uma ficção
retangular medindo exatamente sete graus terrestres de comprimento.
No século XIX, o renomado egiptólogo Ludwig Borchardt expressou o
que ainda é a sabedoria convencional de seus colegas, quando
observou: "Temos de excluir absolutamente a possibilidade de que os
antigos possam ter feito medições em graus." Era um julgamento que
parece cada vez mais insustentável. Quem quer que possam ter sido,
é óbvio que os planejadores e arquitetos originais da necrópole de
Gizé pertenceram a uma civilização que sabia que a terra era uma
esfera, conheciam-lhe as dimensões quase tão bem quanto nós
mesmos e a haviam dividido em 360 graus, exatamente como
fazemos hoje.
A prova desse fato reside na criação de um "país" oficial simbólico, de
exatamente sete graus terrestres de comprimento, e na localização e
orientação admiravelmente geodésica com os pontos cardeais da
Grande Pirâmide. Igualmente convincente é o fato, já abordado no
Capítulo 23, de que o perímetro da base da pirâmide mantém uma
relação de 2pi com a altura e que todo o monumento foi
aparentemente concebido para servir como projeção cartográfica - em
uma escala de 1:43.200 - do hemisfério Norte de nosso planeta:
A Grande Pirâmide é uma projeção sobre quatro superfícies
triangulares. O ápice representa o pólo e, o perímetro, o equador. Esta
é a razão por que o perímetro tem uma relação de 2pi com a altura.
A Razão Pirâmide/Terra
Já demonstramos o emprego do pi na pirâmide, e não precisamos
voltar a esse assunto. Além do mais, a existência da relação de pi,
embora interpretada como acidental por estudiosos ortodoxos, não é
contestada por eles. Mas deveríamos também aceitar, com toda
seriedade, que o monumento pode ser também uma representação do
hemisfério Norte da terra, projetada sobre superfícies planas, em uma
escala de 1:43.200? Vamos relembrar esses números.
De acordo com as melhores estimativas modernas, baseadas em
observações de satélite, a circunferência equatorial da terra é de
39.844km, com um raio polar de 6.319km". O perímetro da base da
Grande Pirâmide é de 1.203,73m e sua altura de 921,24m. A redução
à escala, conforme se verifica, não é absolutamente exata, mas está
muito próxima. Além do mais, quando nos lembramos da dilatação do
equador da terra (uma vez que o nosso planeta é um esferóide oblato,
e não uma esfera perfeita), os resultados obtidos pelos construtores
da pirâmide ficam ainda mais próximos de 1:43.200.
Mais perto até que ponto?
Se tomarmos a circunferência equatorial da terra, 39.844km, e a
reduzirmos (dividirmos) por 43.200, obteremos o resultado de 0,5764
de milha. Há 5.280 pés (30,5cm por pé) por milha. O passo seguinte,
portanto, consiste em multiplicar 0,5764 por 5.280, que produz o
número de 3.043,39 pés. A circunferência equatorial da terra, reduzida
em escala de 43.200 vezes, é, portanto, de 3.043,39 pés. Em
comparação, como vimos, o perímetro da Grande Pirâmide é de
3.023,16 pés (92,24m). Isso representa um erro de apenas 6m - ou
cerca de três quartos de 1%. Dada a precisão extraordinária dos
construtores da pirâmide, contudo (que normalmente trabalhavam com
margens de tolerância ainda menores), é menos provável que o erro
tenha resultado de falhas de construção do gigantesco monumento do
que de subestimação da verdadeira circunferência do planeta
por apenas 262km, provavelmente causada por não ter sido levada
em conta a dilatação equatorial.
Vejamos o raio polar da terra, de 3.949,921 milhas (6.319km). Se o
reduzimos a uma escala de 43.200, obtemos 0,0914 de milha, ou
481,59 pés (146,90m). O raio polar da terra reduzido à escala de
1:43.200, portanto, é de 481,59 pés, ou 146,90cm. Em comparação, a
altura da Grande Pirâmide é de 481,3949 pés - apenas um pé a
menos (30,48cm) do número ideal, ou seja, um erro que nem chega a
um quinto de 1%.
Tão perto que não faz diferença, portanto, o perímetro da base da
Grande Pirâmide é, na verdade, de 1:43.200 da circunferência
equatorial da terra. E, mais uma vez, tão próximo que não faz
diferença, a altura acima da base é, na verdade, de 1:43.200 do raio
polar da terra. Em outras palavras, durante todos os séculos de trevas
pelos quais passou a civilização ocidental, quando o conhecimento
das dimensões de nosso planeta se perdeu para nós, tudo que
precisávamos fazer era medir a altura e o perímetro da base da
Grande Pirâmide e multiplicá-los por 43.200!
Qual a probabilidade de tudo isso ser um "acaso"?
A resposta, baseada no bom senso, é "nada provável,
absolutamente", uma vez ser óbvio para qualquer pessoa sensata que
aquilo para o que estamos olhando sópoderia ser resultado de uma
decisão de planejamento deliberada e cuidadosamente calculada. O
bom senso, porém, jamais foi uma faculdade levada em alta conta por
egiptólogos e é, por conseguinte,necessário perguntar se há alguma
coisa mais nos dados que possa confirmar que a razão de 1:43.200
constitui uma manifestação intencionalde inteligência e conhecimento,
e não de algum feliz acaso.
A relação em si parece fornecer a confirmação, pelo motivo muito
simples de que 43.200 não é um número aleatório (como, digamos,
45.000 ou 47.000, 50.500 ou 38.800). Ao contrário, é um de uma série
de números, e múltiplos desses números, que se relacionam com o
fenômeno da precessão dos equinócios e que se enraizaram em mitos
arcaicos encontrados em todo o mundo. Como o leitor pode confirmar
voltando à Parte V, os números básicos da razão Pirâmide/ Terra
afIoram repetidamente nesses mitos, às vezes claramente como
43.200, ou às vezes como 432, 4.320, 432.000, 4.320.000, e assim
por diante.
O que parece é que temos aqui duas proposições notáveis, costas
contra costas, como se destinadas a se reforçarem mutuamente. É na
verdade mais do que notável que a Grande Pirâmide seja capaz de
servir como um modelo em escala exata do hemisfério Norte do
planeta Terra. Mas é ainda mais notável que a escala implícita inclua
números que se relacionam exatamente com um dos principais
mecanismos planetários terrestres. Isto é, a precessão fixa e
aparentemente eterna da rotação de seu eixo em torno do pólo da
eclíptica, fenômeno este que faz com que o ponto vernal emigre em
torno da faixa do zodíaco a uma taxa de um grau a cada 72 anos e 30
graus (uma constelação zodiacal completa) a cada 2.160 anos. A
precessão através de duas constelações do zodíaco, ou 60 graus ao
longo da eclíptica, leva 4.320 anos.
A repetição constante desses númerosligados à precessão em mitos
antigos poderia, talvez, ser coincidência. Considerado isoladamente, o
aparecimento do número 43.200 na razão pirâmide/terra poderia ser
também uma coincidência (embora sejam astronômicas as
probabilidades contra esse fato). Mas quando encontramos números
ligados à precessão em meios de expressão muito diferentes - mitos
antigos e monumentos antigos -, realmente é forçar a credulidade
supor que coincidência é tudo que está em jogo. Além do mais, da
mesma maneira que o mito teutônico das muralhas do Valhalla leva-
nos ao número 43.200, convidando-nos a calcular os guerreiros que
"vão à guerra contra o Lobo" (quinhentos e pouco multiplicados por
800, conforme vimos no Capítulo 33), de idêntica maneira a Grande
Pirâmide leva-nos ao número 43.200 ao demonstrar, através da
relação de pi, que poderia ser um modelo em escala de parte da terra
e, em seguida, convida-nos a calcular essa escala.
Pares das Mesmas Impressões Digitais?
Em EI Minya, os veículos da escolta nos deixaram, embora o soldado
à paisana continuasse no assento dopassageiro ao lado do motorista
até o Cairo. Paramos para um almoço tardio de pão e falafel em uma
aldeia barulhenta e em seguida continuamos a viagem para o norte.
Durante todo esse tempo, meus pensamentos continuaram
focalizados na Grande Pirâmide. Obviamente, não era por acaso que
uma estrutura tão grande e intrigante ocupasse uma localização
geográfica e geodésica da mais alta importância, em uma parte do
mundo que parecia, estranhamente, ter sido concebida e
"geometrizada" como um constructo simbólico, retangular, com um
comprimento exato de sete graus terrestres. Mas era a outra função
da pirâmide, como projeção cartográfica tridimensional do hemisfério
Norte, que mais me interessava, porque sugeria uma "identidade" com
os mapas antigos mais avançados do mundo, descritos na Parte I.
Esses mapas, que usavam trigonometria esférica e uma grande
variedade de projeções sofisticadas, proporcionavam, segundo o
professor Charles Hapgood, prova tangível, documental, de que uma
civilização avançada, com extenso conhecimento do globo terrestre,
deveria forçosamente ter florescido durante a última Era Glacial.
Nesse momento, aí estava a Grande Pirâmide, provando que tinha
uma função cartográfica vis-à-vis o hemisfério Norte e incluindo
também uma projeção sofisticada. Ou, como explicou um especialista:
Todas as faces planas da pirâmide foram projetadas para representar
uma quarta parte curva do hemisfério Norte, ou quadrante esférico de
90 graus. Para projetar corretamente um quadrante esférico sobre um
triângulo plano, o arco, ou base, do quadrante tem que ser do mesmo
comprimento que a base do triângulo, e ambos precisam ter a mesma
altura. Isso acontece apenas com um corte transversal ou bissecção
meridiana da Grande Pirâmide, cujo ângulo de inclinação dá a relação
de pi entre altura e base...
Seria possível que as cópias e compilações remanescentes de antigos
mapas como o mapa de Piri Reis, por exemplo - pudessem, em alguns
casos, retroagir a documentários básicos produzidos pela mesma
cultura que incluiu seu conhecimento sobre o globo terrestre nas
dimensões da Grande Pirâmide (e, na verdade, nas dimensões
cuidadosamente geometrizadas do próprio antigo Egito)?
Eu dificilmente poderia esquecer que Charles Hapgood e sua equipe
haviam passado meses tentando fixar onde fora centralizada a
projeção inicial do mapa de Piri Reis. A resposta que finalmente
obtiveram foi o Egito e, especificamente, Seyne (Assuã) no alto Egito -
onde, conforme vimos acima, houve um importante observatório
astronômico, situado na latitude de 24° 6' norte, a fronteira sul oficial.
Dispensa dizer que observações astronômicas precisas teriam sido
essenciais para cálculos da circunferência da terra e das posições de
latitude. Mas, por quanto tempo antes do período histórico os antigos
egípcios e seus ancestrais estiveram realizando essas observações?
E haviam realmente aprendido essas perícias, como declararam
francamente em suas tradições, com os deuses que, no passado,
conviveram com eles?
Navegantes na Barca de Milhões de Anos
Os antigos egípcios acreditavam que coube ao deus Thoth ensinar os
princípios da astronomia a seus ancestrais: "Ele que calcula no céu, o
contador de estrelas, o enumerador da terra e de tudo que nela existe,
e medidor da terra."
Normalmente descrito como um homem que usava uma máscara de
íbis, Thoth era membro importante do grupo de elite das divindades
dos Primeiros Tempos que dominaram a vida religiosa do antigo Egito
desde o início até o fim dessa civilização. Eles eram os grandes
deuses, os Neterus. Embora os antigos acreditassem, em um sentido,
que eram auto-criados, também reconheciam francamente e
compreendiam que eles mantinham uma conexão especial de algum
tipo com outra terra - um país fabuloso e distante, denominado nos
textos antigos de Ta-Neteru, a "terra dos deuses".
Pensavam ainda que o Ta-Neteru teve uma localização precisa na
terra, em algum lugar muito ao sul do antigo Egito - a mares e
oceanos de distância mais longe ainda que o país das especiarias,
Punt (que provavelmente se situava na costa somali da África
Oriental). Para confundir ainda mais a situação, eles se referiam
também a Punt como a "Terra Divina”, ou "Terra de Deus", e fonte dos
incensos e da mirra de que os deuses tanto gostavam.
Havia ainda outro paraíso mítico ligado aos Neterus - "lar dos santos",
para onde os melhores seres humanos eram às vezes levados - e que
acreditavam que se "situava muito longe, além de uma grande
extensão de água". Conforme observou Wallis Budge em seu
importante estudo, Osiris and the Egyptian Resurrection, "os egípcios
acreditavam que essa terra só podia ser alcançada de barco, ou com
ajuda pessoal dos deuses, que para lá transportavam seus favoritos..."
Os que tinham sorte suficiente para merecer ingresso descobriam que
se encontravam em um jardim mágico, feito de "ilhas, ligadas umas às
outras por canais cheios de água corrente, que faziam com elas
fossem sempre verdes e férteis". Nas ilhas desse jardim, "o trigo
crescia até uma altura de cinco côvados, as espigas tinham dois
côvados e, os talos, três, e a cevada crescia até uma altura de sete
côvados, tendo as espigas três côvados de comprimento e, os talos,
quatro".
Teria sido de uma terra como essa, com irrigação soberba e cultivada
cientificamente, que o introdutor da agricultura, Osíris, cujo título era
"Presidente da Terra do Sul", viajou para o Egito, no alvorecer dos
Primeiros Tempos? E teria sido de uma terra como essa, acessível
apenas por barco, que Thoth, o de máscara de íbis, viajou também,
cruzando mares e oceanos para conceder as dádivas, de valor
inestimável, da astronomia e da medição da terra aos habitantes
primitivos do pré-histórico Vale do Nilo?
Qualquer que fosse a verdade por trásda tradição, os antigos egípcios
lembravam-se de Thoth e o reverenciavam como o inventor da
matemática, da astronomia e da engenharia. "Acreditavam", de acordo
com Wallis Budge, "que era a sua vontade e poder que mantinham em
equilíbrio as forças do céu e da terra. E era a sua grande perícia em
matemática celeste que fazia uso apropriado das leis sobre as quais
repousava a fundação e a manutenção do universo". Atribuía-se ainda
a Thoth o crédito por ter ensinado aos ancestrais dos egípcios as
ciências da geometria e da topografia, medicina e botânica. E também
que havia sido o inventor "dos números, das letras do alfabeto, e das
artes da leitura e escrita”. Ele era o "Grande Senhor da Magia", que
podia mover objetos com o poder da voz, "o autor de todos os
trabalhos, em todos os ramos dos conhecimentos, tanto humanos
quanto divinos".
Aos ensinamentos de Thoth - que eles guardavam zelosamente em
seus templos e diziam que foram transmitidos de uma geração a outra
sob a forma de 42 livros de instrução - eles atribuíam sua sabedoria
mundialmente respeitada e o conhecimento dos céus. Esse
conhecimento foi mencionado quase com reverência pelos
comentaristas clássicos que visitaram o Egito, do século V a.C. em
diante.
Heródoto, o primeiro desses viajantes, observou:
Os egípcios foram os primeiros a descobrir o ano solar e dividir seu
curso em doze partes. (...) E foi a observação do curso das estrelas
que os levou a adotar essa divisão. (...)
Platão (século IV a.C.) deixou consignado que os egípcios haviam
observado as estrelas "por dez mil anos". Mais tarde, no século I a.C.,
Diodoro de Sicília escreveu uma versão ainda mais detalhada desse
fato:
As posições e arranjos das estrelas, bem como seus movimentos,
sempre foram objeto de observação cuidadosa entre os egípcios. (...)
Desde os tempos antigos até hoje, eles preservaram registros a
respeito de cada uma dessas estrelas, durante um número incrível de
anos. (...)
Por que deveriam os egípcios ter cultivado um interesse quase
obsessivo por observações a longo prazo das estrelas e por que, em
especial, deveriam ter mantido registros de seus movimentos "durante
um número incrível de anos"? Essas observações detalhadas seriam
dispensáveis, se seu único interesse, como sugeriram, com toda
seriedade, numerosos estudiosos, fosse de natureza agrícola (a
necessidade de prever as estações, o que qualquer pessoa nascida
no campo pode fazer). Deve ter havido alguma outra finalidade.
Além do mais, para começar, como foi que os antigos egípcios se
iniciaram em astronomia? Não se trata do tipo de hobby que um povo
morador em um vale fechado desenvolveria por iniciativa própria.
Talvez fosse bom levar mais a sério a explicação que eles mesmo
deram: que um deus ensinou seus ancestrais a estudar as estrelas.
Poderíamos também dar mais atenção a numerosas referências de
natureza inegavelmente marítima contidas nos Textos da Pirâmide. E
novas e importantes inferências poderiam ser tiradas da arte religiosa
antiga, na qual os deuses são mostrados viajando em barcos belos,
aerodinâmicos, de proa alta, construídos de acordo com as mesmas
especificações avançadas para navegação oceânica exibidas pelos
barcos da pirâmide, em Gizé, e a misteriosa esquadra ancorada nas
areias do deserto, em Abidos.
De modo geral, indivíduos que vivem em terras longe do mar não se
tornam astrônomos, o que acontece, porém, com povos de
navegadores. Não seria possível que a iconografia marítima dos
antigos egípcios, o projeto de seusbarcos e igualmente, a notável
obsessão com a observação das estrelas pudessem ter sido parte de
uma herança transmitida a seus ancestrais por uma raça de
navegadores, na pré-história remota? Realmente, só uma raça, só
uma civilização marítima esquecida, é que poderia ter deixado suas
impressões digitais sob a forma de mapas que mostravam exatamente
como era o mundo, antes do fim da última Era Glacial. Realmente, só
uma civilização como essa, traçando seu curso pelas estrelas "durante
dezenas de milhares de anos", poderia ter observado e previsto
acuradamente o fenômeno da precessão de equinócios, com a
exatidão atestada por antigos mitos. E, embora hipotética, só essa
civilização poderia ter medido a terra com precisão suficiente para ter
chegado às dimensões reduzidas à escala na Grande Pirâmide.
A Assinatura de uma Data Distante
Era quase meia-noite quando chegamos a Gizé. Hospedamo-nos no
Siag, um hotel com excelente vista da pirâmide, e ficamos sentados
no terraço, observando, enquanto as três estrelas do cinturão de Órion
cruzavam lentamente os céus do sul.
E foi a disposição dessas três estrelas, como demonstrou
recentemente o arqueoastrônomo Robert Bauval, que serviu como
gabarito celeste para o plano do sítio arqueológico das três pirâmides
de Gizé. Esse fato em si constituiu uma descoberta notável, sugerindo
um nível muito mais alto de astronomia de observação e de perícia em
topografia e em projeto, que estudiosos atribuíam aos antigos
egípcios. Ainda mais notável, contudo - e a razão por que combinei
me encontrar com ele em Gizé na manhã seguinte - era a alegação de
Bauval de que o padrão traçado no chão (com quase quinze milhões
de toneladas de pedras perfeitamente aparelhadas) correspondia
exatamente ao modelo do céu durante a época de 10.450 anos a.C.
Se Bauval tinha razão, as pirâmides haviam sido projetadas, usando-se as mudanças que a precessão provoca nas posições das estrelas,
como assinatura arquitetônica permanente do undécimo milênio a.C.
CAPÍTULO 49
O Poder da Coisa
Numa escala de 1:43.200, a Grande Pirâmide serve de modelo, e
projeção cartográfica, do hemisfério Norte da terra. O que exclui por
completo a possibilidade de que isso possa ser uma coincidência é o
fato de que a escala usada está ligada numericamente à taxa de
precessão dos equinócios - um dos mecanismos planetários mais
característicos da terra. É claro, por conseguinte, que temos aqui a
manifestação de uma decisão deliberada de planejamento: tomada
com a intenção de ser reconhecida como tal por qualquer cultura que
tivesse adquirido a) conhecimento preciso das dimensões da terra e b)
conhecimento preciso da taxa do movimento precessional.
Graças ao trabalho de Robert Bauval, podemos ter agora certeza de
que outra decisão deliberada de planejamento foi implementada na
Grande Pirâmide (a qual - como se torna cada vez mais claro - deve
ser entendida como um projeto destinado a preencher muitas
diferentes funções). Neste caso, o plano realmente ambicioso incluiu
também as Segunda e Terceira Pirâmides, numa decisão que mostra
as impressões digitais dos mesmos antigos arquitetos e construtores
que conceberam a Grande Pirâmide como modelo da terra reduzido a
uma dada escala. O sinal característico desses seres parece ter sido a
precessão – talvez porque gostassem de sua regularidade e
previsibilidade matemática - e a usaram para elaborar um plano que
poderia ser corretamente compreendido apenas por culturas
cientificamente avançadas.
Nossa cultura é uma dessas e Robert Bauval foi o primeiro a decifrar
os parâmetros básicos do plano - descoberta esta pela qual recebeu
consagração pública e, no devido tempo, receberá o reconhecimento
científico que merece. Belga de nacionalidade, nascido e criado em
Alexandria, é um homem alto, magro, rosto escanhoado, na casa dos
40 anos. Seu aspecto mais notável é uma mandíbula teimosa, que lhe
caracteriza a personalidade obstinada, curiosa. Fala com um sotaque
híbrido francês-egípcio-inglês e é decididamente oriental em suas
maneiras. Possui uma mente de primeira classe e está sempre
acumulando e analisando incessantemente novos dados relevantes
para seus interesses, descobrindo novas maneiras de focalizar velhos
problemas. Nesse processo, inteiramente por acaso, conseguiu
transformar-se em uma espécie de mago de conhecimentos
esotéricos.
O Mistério de Órion
As origens das descobertas de Bauval retroagem à década de 1960,
quando o egiptólogo e arquiteto Dr. Alexander Badawy e a astrônoma
americana Virginia Trimble demonstraram que a chaminé sul da
Câmara do Rei, na Grande Pirâmide, apontara como um cano de
arma para o cinturão de Órion durante a Era das Pirâmides - cerca de
2600 a 2400 a.C.
Bauval resolveu submeter a teste a chaminé sul da Câmara da
Rainha, que Badawy e Trimble não haviam investigado, e provou que
ela apontara para a estrela Sírius durante a mesma era. A evidência
que provava essa conclusão foi fornecida pelo engenheiro alemão
Rudolf Gantenbrink, como resultado de medições realizadas por seu
robô, Upuaut, em março de 1993. Este robô fez a notável descoberta
de uma porta tipo guilhotina que bloqueava a chaminé a uma distância
de cerca de 60m da Câmara da Rainha. Equipado com um clinômetro
de alta tecnologia, a pequena máquina forneceu a primeira leitura
inteiramente exata do ângulo de inclinação da chaminé: 39° 30'.
Ou, como explica Bauval:
Fiz os cálculos, que provaram que a chaminé estivera apontada para o
meridiano do trânsito de Sírius por volta do ano 2400 a.C. Não podia
haver absolutamente qualquer dúvida a esse respeito. Calculei
também o alinhamento do cinturão de Órion, elaborado por Badawy e
Trimble, com os novos dados queGantenbrink me forneceu sobre a
inclinação da chaminé sul da Câmara do Rei. Ele mediu um ângulo de
exatamente 45°, ao passo que Badawy e Trimble haviam trabalhado
com a medição ligeiramente menos precisa de Flinders Petrie, de 44°
30'. Os novos dados permitiram que eu refinasse a data fornecida por
Badawy e Trimble para o alinhamento. O que descobri foi que a
chaminé apontava diretamente para AINitak, a mais baixa das três
estrelas do cinturão, que cruzou o meridiano à latitude de 45° por volta
do ano 2475 a.C.
Até esse ponto, as conclusões de Bauval se encaixavam bem nos
limites cronológicos estabelecidos por egiptólogos ortodoxos, que
normalmente datavam a construção da Grande Pirâmide por volta do
ano 2520 a.C. No mínimo, os alinhamentos que os arqueoastrônomos
haviam descoberto sugeriam que as chaminés tinham sido
construídas um pouco mais tarde, e não mais cedo, do que o
conhecimento convencional admitia.
Como já sabe o leitor, contudo, Bauval fez também outra descoberta,
de natureza muito mais inquietante. Mais uma vez, ela dizia respeito
às estrelas do cinturão de Órion:
Elas estão inclinadas numa diagonal na direção sudoeste, em
comparação com o eixo da Via Láctea, enquanto que as pirâmides
estão inclinadas ao longo de uma diagonal, também na direção
sudoeste, mas em comparação com o eixo do Nilo. Se olharmos
atentamente em uma noite escura, veremos que a menor das estrelas,
a que fica na parte mais alta, que os árabes chamam de Mintaka, fica
ligeiramente deslocada para leste da principal diagonal formada pelas
outras duas. Esse padrão é reproduzido no chão, onde vemos que a
Pirâmide de Menkaure está deslocada em exatamente o mesmo
volume a leste da principal diagonalformada pela Pirâmide de Khafre
(que representa a estrela do meio, AI Nilam), e a Grande Pirâmide,
que representa AI Nitak. É realmente muito claro que todos esses
monumentos foram projetados de acordo com um plano de sítio
arqueológico unificado, que tomou como modelo, com precisão
extraordinária, essas três estrelas... O que eles fizeram em Gizé foi
construir, no solo, o cinturão de Órion.
Mas havia ainda mais. Usando um programa sofisticado de
computador, capaz de plotar mudanças induzidas pela precessão nas
declinações de todas as três estrelas visíveis no céu em qualquer
parte do mundo, em qualquer época, Bauval descobriu que a
correlação Pirâmides/cinturão de Órion era geral e óbvia em todas as
épocas, mas específica e exata em apenas uma:

No ano 10450 a.C. - e apenas nessa data -, descobrimos que a
disposição das pirâmides no solo constituía um reflexo perfeito da
disposição das estrelas no céu. Quero dizer, havia uma identidade
perfeita - impecável - que não podia ser um acaso, porque todo
arranjo descreve corretamente eventos celestiais muito estranhos que
ocorreram apenas naquele tempo. Em primeiro lugar, e puramente por
acaso, a Via Láctea, como era visível em Gizé no ano 10450 a.C.,
reproduzia exatamente o curso meridional do Vale do Nilo; em
segundo, a oeste da Via Láctea, as três estrelas do cinturão de Órion
estavam na altitude mais baixa do ciclo precessional, com AI Nitak, a
estrela representada pela Grande Pirâmide, cruzando o meridiano a
11º 8'.
O leitor já sabe como a precessâo axial da terra faz com que o nascer
do sol no equinócio vernal migre aolongo da faixa do zodíaco durante
um ciclo de cerca de 26.000 anos. O mesmo fenômeno afeta também
a declinação de todas as estrelas visíveis, produzindo, no caso da
constelação de Órion, mudanças muito lentas, mas importantes em
altitude. Dessa maneira, de seu ponto mais alto no trânsito do
meridiano (58º 11' acima do horizonte Sul, como visto a partir de
Gizé), AI Nitak precisa de 13.000 anos para descer ao ponto baixo,
registrado pela última vez no ano 10450 a.C., isto é, imortalizado em
pedra no platô de Gizé - isto é, 11º 8'. Passando-se mais 13.000 anos,
o cinturão de estrelas sobe lentamente, até que AI Nitak volta a 58º
11'. Em seguida, durante os próximos 13.000 anos, as estrelas cairão
mais uma vez para 11º 8'. Esse ciclo é eterno: 13.000 anos para cima,
13.000 anos para baixo, 13.000 para cima, 13.000 para baixo, para
sempre.
A configuração precisa de 10.450 anos a.C. é o que vemos no platô
de Gizé como se um mestre-arquiteto tivesse chegado aqui naquela
época e resolvido traçar no chãoum mapa imenso, utilizando uma
mistura de aspectos naturais e artificiais. Ele usou o curso meridional
do Vale do Nilo para mostrar a Via Láctea, tal como lhe parecia na
ocasião. Construiu as três pirâmides para representar as três estrelas,
exatamente como elas pareciam nessa época. E colocou-as
exatamente na mesma relação com o Vale do Nilo que as três
guardavam então com a Via Láctea. Foi uma maneira muito
inteligente, muito ambiciosa, muito exata de marcar uma época -
congelar uma determinada data em uma obra de arquitetura, se
quiserem...
Os Primeiros Tempos
Eu achei complicadas e misteriosas as implicações da correlação de
Órion.
Por outro, as chaminés sul da Grande Pirâmide "ligavam
precessionalmente" o monumento a AlNitak e a Sírius no período
2475-2400 a.C., datas estas que coincidiam perfeitamente com a
época em que egiptólogos diziam que ela fora construída.
Por outro lado, a disposição de todas as três pirâmides em relação ao
Vale do Nilo indicava eloqüentemente a data muito mais antiga de
10.450 anos a.C. Este número coincidia com os achados geológicos
controversos de John West e Robert Schoch em Gizé, que sugeriam a
presença de uma civilização muito avançada no Egito no undécimo
milênio a.C. Além do mais, a disposição das pirâmides no terreno não
fora feita por qualquer processo aleatório ou acidental, parecendo ter
sido deliberadamente escolhida, porque marcava um fato precessional
importante: o ponto mais baixo, o início, dos Primeiros Tempos no
ciclo "para cima" de 13.000 anos de Órion.
Eu sabia que Bauval acreditava que esse evento astronômico esteve
ligado simbolicamente aos míticos Primeiros Tempos, de Osíris - os
tempos dos deuses, quando a civilização supostamente chegou ao
vale do Nilo - e que seu raciocínio para chegar a essa conclusão
baseava-se na mitologia do Egito antigo, que liga diretamente Osíris à
constelação de Órion (e Ísis com a de Sírius).
Teriam os arquétipos históricos de Osíris e Ísis chegado aqui nos
Primeiros Tempos, há 12.500 anos? Minha pesquisa sobre as
mitologias da Era Glacial me haviam convencido de que certas idéias
e lembranças podiam perdurar na psique humana durante muitos
milênios, transmitidas de uma geração a outra pela tradição oral. Eu,
portanto, não conseguia ver razões prima facie porque a mitologia de
Osíris, com suas características estranhas e anômalas, não devia ter
tido origem em data tão remota quanto 10450 a.C.

Não obstante, foi a civilização do Egito dinástico que elevou Osíris ao
status de poderoso deus da ressurreição. Essa civilização era uma
daquelas que teve poucas precursoras conhecidas e nenhuma delas,
ao que se sabia, de modo algum na época remota do undécimo
milênio a.C. Se a mitologia de Osíris havia sido transmitida ao longo
de 8.000 anos, portanto, que cultura fora responsável por isso? E teria
sido essa cultura também responsável por ambos os alinhamentos
astronômicos que se provou que as pirâmides representam: 10450
a.C. e 2450 a.C.?
Estas eram algumas das perguntas que eu pensava fazer a Robert
Bauval, à sombra das pirâmides. Santha e eu combinamos encontrá-lo, ao amanhecer, no Templo Mortuário de Khafre, de modo que
pudéssemos os três observar o sol nascer sobre a Esfinge.
A Plataforma
Situado ao lado da face leste da Segunda Pirâmide, o Templo
Mortuário, que se encontra na maior parte em ruínas, era um lugar
fantasmagórico, cinzento e frio a essa hora. E como John West
sugerira durante nossa conversa em Lúxor, pouca dúvida podia haver
de que o templo enquadrava-se no mesmo estilo de arquitetura
severo, imponente, destituído de decoração que o mais conhecido
Templo do Vale. Ali, de qualquer modo, estavam os blocos enormes,
pesando 200 toneladas ou mais cada. E ali estava também a mesma
atmosfera intangível de grande antiguidade e de uma inteligência que
despertava, como se alguma epifania estivesse para acontecer. Até
mesmo em seu estado atual, dilapidada, em escombros, essa
estrutura anônima, que os egiptólogos chamam de Templo Mortuário,
era ainda um local de poder, que parecia extrair sua energia de uma
época muito distante no passado.
Ergui a vista para a enorme massa da face leste da Segunda
Pirâmide, imediatamente atrás de nós, à luz pérola-acinzentada do
amanhecer. Mais uma vez, como observara John West, havia muita
coisa a sugerir que ela pudesse ter sido construída em dois estágios
diferentes. As carreiras mais baixas, até uma altura de talvez 12m,
consistem principalmente de megálitos ciclópicos de pedra calcária,
tais como os encontrados nos templos. Acima dessa altura, contudo, o
restante do gigantesco núcleo da pirâmide é formado de blocos muito
menores, pesando cerca de duas a três toneladas cada (tal como a
maioria dos blocos da Grande Pirâmide).
Teria havido um tempo em que uma plataforma megalítica de seis
hectares e 40m de altura existira ali na "colina de Gizé", a oeste da
Esfinge, cercada apenas por estruturas quadradas e retangulares
anônimas, tais como os Templos do Vale e Mortuário? Em outras
palavras, era possível que as carreiras mais baixas da Segunda
Pirâmide pudessem ter sido assentadas primeiro, antes das outras
pirâmides - talvez muito tempo antes, em uma era muito anterior?
O culto
Essas dúvidas persistiam em minha mente quando chegou Robert
Bauval. Após uma troca de algumas frases banais geladas sobre o
tempo - um vento frio do deserto soprava pelo platô -, perguntei:
- Como é que você explica esse furo de oito mil anos em suas
correlações?
- Furo?
- Isso mesmo, chaminés que parecem alinhadas com o ano 2450 a.C.
e um plano de sítio arqueológico que mapeia as posições de estrelas
no ano 10450 a.C.
- Na verdade, há duas explicações, ambas fazendo algum tipo de
sentido - respondeu Bauval -, e acho que a solução tem que ser uma
ou outra... Ou as pirâmides foram projetadas como um tipo de "relógio
estelar" para assinalar duas épocas especiais, 1450 e 10450 a.C.,
caso em que não podemos dizer realmente quando elas foram
construídas. Ou foram construídas a mais...
- Pare no primeiro ponto - interrompi. - O que é que você quer dizer
com "relógio estelar"? E que não podemos saber quando elas foram
construídas?
- Bem, vamos supor, por um momento, que os construtores da
pirâmide conheciam a precessão. Vamos supor que fossem capazes
de calcular retroativa e antecipadamente a declinação de grupos
estelares particulares, exatamente como podemos fazer hoje com
computadores... Supondo que pudessem fazer isso, pouco importa em
que época tenham vivido, eles teriam sido capazes de construir um
modelo de como seriam os céus sobre Gizé nos anos 10450 e 2450
a.C., exatamente como poderíamos fazer hoje. Em outras palavras, se
construíram as pirâmides no ano 10450 a.C., não teriam dificuldade
em calcular os ângulos corretos de inclinação das chaminés sul, de tal
modo que elas ficariam apontadas para AI Nitak e Sírius por volta do
ano 2450 a.C. De idêntica maneira, se tivessem vivido no ano 2450
a.C., nenhuma dificuldade haveria em calcular o plano correto do sítio
para refletir a posição do cinturão de Órion no ano 10450 a.C.
Concorda?
- Concordo.
- Muito bem. Essa é uma das explicações. A segunda, porém, que é a
que prefiro... e que penso que a prova geológica também confirma... é
que toda a necrópole de Gizé foi projetada e construída em um
período imensamente longo de tempo. Acho mais do que possível que
o local tenha sido originariamente planejado e plotado por volta do ano
10450 a.C., de modo que a geometria refletisse os céus como eram
na época, mas que o trabalho foi completado, e alinhadas as
chaminés da Grande Pirâmide, mais ou menos no ano 2450 a.C.
- De modo que você pode estar dizendo que o plano do local das
pirâmides pode retroagir a 10450 a.C.?
- Acho que foi isso o que aconteceu. E acho que o centro geométrico
do plano localizava-se mais ou menos onde estamos agora, em frente
à Segunda Pirâmide...
Apontei para os grandes blocos das carreiras inferiores da imensa
estrutura.
- Até parece que ela foi construída em dois estágios, por duas culturas
inteiramente diferentes...
Robert Bauval deu de ombros.
- Vamos especular... Talvez não tenham sido duas culturas. Talvez
tenha sido uma única cultura, ou culto... o culto de Osíris, talvez.
Talvez fosse um culto de longuíssima duração, antiqüíssimo, dedicado
a Osíris, que teria estado aqui no ano 10450 a.C. e também no ano
2450 a.C. Aconteceu, talvez, que a maneira como esse culto fazia as
coisas mudou com o tempo. Talvez usassem blocos imensos no ano
10450 a.C. e blocos menores em 2450 a.C... Acho que há muita coisa
aqui que dá sustentação a essa idéia, muita coisa que diz "um culto
muito antigo", um bocado de provas que simplesmente nunca foram
examinadas...
- Por exemplo?
- Bem, obviamente, os alinhamentos astronômicos do local. Fui dos
primeiros a começar a estudar esse assunto a sério. E a geologia: o
trabalho que John West e Robert Schoch fizeram na Esfinge. Temos
aqui duas ciências... ambas práticas, empíricas, buscadoras de
provas... que nunca foram aplicadas antes a esses problemas. Mas
agora que passamos a usá-las, estamos começando a obter uma
leitura inteiramente nova da antiguidade da necrópole. E penso
honestamente que apenas arranhamos a superfície e que, no futuro,
muito mais coisas emergirão da geologia e da astronomia. Além disso,
ninguém realizou ainda um estudo realmente detalhado dos Textos da
Pirâmide, de outra perspectiva que não a denominada "antropológica",
o que significa uma idéia preconcebida de que os sacerdotes de
Heliópolis formavam um bando de feiticeiros semi-civilizados,
que queriam viver para sempre... Na verdade, eles, de fato, queriam
viver para sempre, mas certamente não eram feiticeiros... Eram
altamente civilizados, homens com alta iniciação e, à sua própria
maneira, cientistas, pelo que podemos julgar à vista de seus trabalhos.
Por isso mesmo, sugiro que é como documentos científificos ou, pelo
menos, quase científicos, que os Textos da Pirâmide devem ser lidos,
e não como uma algaravia sem sentido. Já estou convencido de que
eles estão de acordo com a parte da astronomia que trata da
precessão. Mas pode haver também outras ciências em jogo:
matemática, geometria - em especial a geometria... Simbolismo...
Precisamos, na verdade, de um enfoque multidisciplinar para
compreender os Textos da Pirâmide... e compreender as próprias
pirâmides, incluindo astrônomos, matemáticos, geólogos,
engenheiros, arquitetos, até mesmo filósofos para compreender o
simbolismo enfim, todos que possam trazer uma visão nova e novas
perícias para o estudo desses importantes problemas devem ser
encorajados a colaborar.
- Por que é que você acha que os problemas são tão importantes?
- Porque eles terão uma influência colossal sobre nossa compreensão
do passado de nossa própria espécie. O planejamento e escolha do
local, que parecem ter sido feitosaqui no ano 10450 a.C. só poderiam
ter sido trabalho de uma civilização altamente desenvolvida,
provavelmente tecnológica...
- Ao passo que ninguém supõe que uma civilização desse porte tenha
existido em qualquer parte da terra nessa época...
- Exato. Isso foi na Idade da Pedra. Supostamente, a sociedade
humana estava em um estado muito primitivo, nossos ancestrais
cobriam-se com peles de animais, viviam em cavernas, seguiam o
estilo de vida de caçadores, e assim por diante. Por isso mesmo, é
altamente perturbador descobrir que parece ter vivido em Gizé, no ano
10450 a.C., um povo que compreendia muito bem a obscura ciência
da precessão, que tinha capacidade técnica para descobrir que
estavam olhando para o ponto mais baixo do ciclo de precessão de
Órion - e, dessa maneira, o início da jornada ascendente de 13.000
anos da constelação - e que se dispõe a criar um memorial
permanente a esse momento, aqui neste platô. Ao colocar no chão o
cinturão de Órion, da maneira como o fizeram, eles sabiam que
estavam congelando um momento muito específico no tempo.
Ocorreu-me um pensamento maldoso:
- De que maneira podemos ter tanta certeza de que o momento que
estavam congelando era o ano 10450 a.C.? Afinal de contas o
cinturão de Órion assume essa mesma configuração no céu do sul, a
oeste da Via Láctea, a onze e tantos graus acima do horizonte, a cada
26.000 anos. Se assim, por que eles não estavam imortalizando o ano
36450 a.C. ou mesmo o ciclo de precessão que começou 26.000 anos
antes dessa data?
Robert estava evidentemente preparado para a pergunta.
- Alguns registros antigos sugerem realmente que a civilização egípcia
tem raízes que retroagem a quase 40.000 anos - respondeu ele,
pensativo -, como o estranho relato em Heródoto sobre o sol
nascendo onde antes se punha e se pondo onde antes nascia...
- O que é também uma metáfora sobre a precessão...
- Isso mesmo. Mais uma vez, a precessão. É muito estranha a
maneira como ela continua sempre a aflorar... De qualquer modo,
você tem razão, eles poderiam estar marcando o início do ciclo
precessional anterior...
- E você pensa que estavam?
- Não. Acho que 10450 a.C. é a data mais provável. Está mais de
acordo com o que sabemos sobre a evolução do homo sapiens. E
embora deixe ainda um bocado de anos para explicar, antes do
aparecimento do Egito dinástico por volta do ano 3000 a.C., não é um
período tão longo assim...
- Tão longo para o quê?
- É a resposta para sua pergunta sobre o furo de oito mil anos entre o
alinhamento do sítio arqueológico e o alinhamento das chaminés. Oito
mil anos são um bocado de tempo, mas não tão longo para um culto
dedicado, altamente motivado, ter preservado, alimentado e
transmitido fielmente os grandes conhecimentos de um povo que
inventou este lugar no ano 10450 a.C.
A Máquina
Até que ponto era avançado o conhecimento desses inventores pré-históricos?
- Eles conheciam suas épocas - respondeu Bauval - e o relógio que
usaram foi o relógio natural das estrelas. A linguagem de trabalho que
usavam era a astronomia precessional e esses monumentos
expressam essa linguagem de uma maneira clara, inequívoca,
científica. Eles foram também topógrafos altamente competentes...
quero dizer, o povo que originariamente preparou o local e
providenciou as orientações para as pirâmides porque trabalharam
de acordo com uma geometria exata e porque sabiam como alinhar
perfeitamente plataformas base, ou o que quer que construíssem, com
os pontos cardeais.
- Você acha que eles sabiam também que estavam marcando o local
da Grande Pirâmide na latitude trinta graus Norte?
Bauval soltou uma risada e disse:
- Tenho certeza de que sabiam. Acho que conheciam tudo sobre a
forma da terra. Conheciam sua astronomia. Tinham uma boa
compreensão do sistema solar e de mecânica celeste. Eram também
incrivelmente exatos e precisos em tudo que faziam. De modo que,
levado tudo em conta, não acredito que alguma coisa tenha
acontecido aqui por acaso pelo menos não entre os anos 10450
e 2450 a.C. Tenho a impressão que tudo foi planejado, e intencional e
cuidadosamente executado... Na verdade, tenho a impressão de que
eles estavam cumprindo um objetivo à longo prazo... algum tipo de
finalidade, se quiser, e que a levaram à fruição no terceiro milênio
a.C...
- Sob a forma de pirâmides inteiramente construídas, que, em
seguida, ancoraram precessionalmente a AI Nitak e a Sírius ao
completar a obra?
- Sim. E também, acho, sob a forma dos Textos da Pirâmide. Meu
palpite é que os Textos da Pirâmide fazem parte do enigma.
- O software para o hardware das Pirâmides?
- É bem possível. Por que não? De qualquer modo, é certo que existe
uma conexão. Acho que o que isso significa é que, se queremos
decodificar corretamente as pirâmides, vamos ter que usar os textos...
- Qual é o seu palpite? - perguntei. - Na sua opinião, qual pode ter
sido realmente a finalidade dos construtores das pirâmides?
- Eles não fizeram isso porque queriam uma tumba eterna - respondeu
com firmeza Bauval. - Em minha opinião, eles não tinham dúvida
nenhuma de que viveriam eternamente. Eles fizeram isso... quem quer
que o tenha feito... transmitiram o poder de suas idéias através de
algo que, para todos os fins e finalidades, é eterno. Conseguiram criar
uma força que é em si mesma funcional, contanto que a compreenda,
e que essa força são as perguntas que ela desafia você a fazer. Meu
palpite é que eles conheciam com perfeição a mente humana.
Conheciam o jogo do ritual... Certo? Estou falando sério. Eles sabiam
o que estavam fazendo. Sabiam que podiam iniciar pessoas, ainda no
futuro distante, em sua maneira de pensar, mesmo que não pudessem
estar presentes nesse momento. Sabiam que poderiam fazer isso
criando uma máquina eterna, cuja função seria gerar perguntas.
Acho que devo ter dado uma impressão de perplexidade.
- As pirâmides são a máquina! - exclamou Bauval. - Na verdade, o
todo da necrópole de Gizé. E olhe só para nós. O que estamos
fazendo? Estamos fazendo perguntas. Estamos aqui, tremendo de
frio, em uma hora atroz, observando o sol nascer, e estamos fazendo
perguntas, um montão de perguntas, exatamente como fomos
programados para fazer. Estamos nas mãos de verdadeiros magos,
magos que sabiam que, com símbolos... os símbolos certos, com as
perguntas certas... eles poderiam levá-lo a iniciar-se por si mesmo.
Contanto, isto é, que você seja uma pessoa que faça perguntas. E se
é, então, no minuto em que começa a fazer perguntas sobre a
pirâmide, começa também a tropeçar numa série de respostas, que o
levam a outras perguntas, e então a mais respostas, até que,
finalmente, você se inicia a si mesmo...
- Plantar a semente...
- Isso mesmo. Eles estavam plantando a semente. Acredite em mim,
eles foram magos e conheciam o poder das idéias... Sabiam como
fazer as idéias crescerem e desenvolver-se na mente das pessoas. E
se você começa com essas idéias e segue o processo de raciocínio
como eu fiz, você chega a coisas como Órion e ao ano 10450 a.C. Em
suma, trata-se de um processo que se desenvolve por si mesmo.
Quando ele penetra, quando se fixa nosubconsciente, ocorre uma
conversão voluntária. Uma vez penetre, você não pode nem mesmo
resistir...
- Você está falando como se este culto de Gizé, o que quer que tenha
sido, girando em torno da precessão, da geometria, das pirâmides e
dos Textos da Pirâmide, ainda existisse.
- Em certo sentido, ainda existe - respondeu Robert. - Mesmo que o
motorista não esteja mais no volante, a necrópole de Gizé é ainda
uma máquina que foi projetada para provocar perguntas. -
Interrompeu-se e apontou para o ápice da Grande Pirâmide, que
Santha e eu havíamos escalado, nas horas mortas da noite, nove
meses antes. - Olhe para aquele poder - continuou. - Cinco mil anos
depois, ele ainda o captura. Envolve-o, queira você ou não... Força-o a
iniciar um processo de raciocínio... força-o a aprender. No momento
em que faz uma pergunta sobre esse poder, você pergunta também
sobre engenharia, pergunta sobre geometria, pergunta sobre
astronomia. De modo que ele o obriga a aprender alguma coisa sobre
engenharia, geometria e astronomia e, gradualmente, você começa a
compreender como esse poder é sofisticado, como devem ter sido
incrivelmente inteligentes, competentes e cultos seus construtores,
que o obrigam a fazer perguntas sobre a humanidade, sobre a história
humana e, no fim, também sobre você mesmo. Você quer descobrir.
Este é o poder da coisa.
A Segunda Assinatura
Sentados no platô de Gizé naquela manhã fria de dezembro de 1993,
Santha, Robert e eu observamos o sol de inverno, nesse momento
muito próximo do solstício, erguendo-se sobre o ombro direito da
Esfinge, quase tão ao sul do leste como viajaria em sua jornada anual
antes de voltar novamente ao norte.
A Esfinge é um marco equinocial, com o olhar dirigido exatamente
para o ponto em que o sol nasce no equinócio vernal. Faria isso,
também, parte do "plano-mestre" de Gizé?
Lembrei a mim mesmo que, em qualquer época, e em qualquer
período da história ou da pré-história, o olhar da Esfinge, voltado
diretamente para leste, estaria sempre fixado no nascimento
equinocial do sol tanto no equinócio vernal quando no outonal. Como
o leitor certamente se lembrará pelo que leu na Parte V, contudo, o
equinócio vernal era o que o homem antigo considerava como o
marco da era astronômica. Ou, nas palavras de Santillana e Von
Dechend:
A constelação que subia no leste, pouco antes de o sol aparecer,
marcava o "lugar" onde o sol dormia. (...) A constelação era conhecida
como a "transportadora" do sol e o equinócio vernal era reconhecido
como o ponto firme do 'sistema', que determina o primeiro grau do
ciclo anual do sol. (...)
Por que um marco equinocial foi construído com a forma de um
gigantesco leão?
Em nosso próprio tempo, o ano 2000 d.C., uma forma mais
conveniente de tal marco - se alguém quisesse construí-lo - seria a
representação de um peixe. Isso porque o sol, no equinócio vernal,
nasceu contra o fundo estelar de Peixes, como tem feito por
aproximadamente os últimos 2.000 anos. A era astronômica de Peixes
começou por volta do tempo de Cristo. Os leitores terão que julgar por
si mesmos se é uma coincidência que o principal símbolo usado para
Cristo pelos cristãos mais antigos não foi a cruz, mas o peixe.
Na era precedente, que em termos gerais abrange o primeiro e
segundo milênios a.C., cabia à constelação de Áries - o carneiro - a
honra de transportar o sol no equinócio vernal. Mais uma vez, os
leitores têm que julgar se é uma coincidência que a iconografia
religiosa daquela época fosse predominantemente orientada para o
carneiro. Seria uma coincidência, por exemplo, que Iavé, o Deus de
Israel do Velho Testamento, tenha fornecido um carneiro como
substituto de Isaac, o filho que Abraão ofereceu em sacrifício?
(Estudiosos da Bíblia e arqueólogos supõem que Abraão e Isaac
viveram em princípios do segundo milênio a.C.) Seria igualmente
coincidência que carneiros, em um ou outro contexto, sejam
mencionados em quase todos os livros do Velho Testamento
(composto inteiramente durante a Era de Áries), mas em nenhum livro
do Novo Testamento? E seria um acaso que o advento da Era de
Áries, pouco antes do início do segundo milênio a.C., fosse
acompanhado, no Egito antigo, por um recrudescimento da adoração
do deus Amon, cujo símbolo era um carneiro com chifres encurvados?
O trabalho de construção do principal santuário de Amon - o Templo
de Karnak, em Lúxor, no alto Egito - começou por volta do ano 2000
a.C. e, como se lembrarão aqueles que o visitaram, seus principais
ícones são carneiros, longas filas dos quais guardam as entradas.
A predecessora imediata da Era de Áries foi a Era de Taurus - o Touro
-, que cobriu o período entre os anos 4380 e 2200 a.C. E foi durante
essa época precessional, quando o sol no equinócio vernal nascia na
constelação de Touro, que floresceu o culto do Touro na Creta
minóica. Durante essa época, igualmente, a civilização do Egito
dinástico explodiu na cena histórica, inteiramente formada,
aparentemente sem antecedentes. Os leitores têm de julgar se foi uma
coincidência que os egípcios, no próprio início de seu período
dinástico, já estivessem venerando ostouros Ápis e Mnevis - sendo o
primeiro considerado uma teofania do deus Osíris e, o último, o animal
sagrado de Heliópolis, uma teofania do deus Rá.
Por que teria um marco equinocial sido construído na forma de um
leão?
Khafre, o faraó da Quarta Dinastia que os egiptólogos acreditam tenha
mandado esculpir o monumento no leito rochoso, por volta do ano
2500 a.C., foi um monarca da Era de Touro. Durante quase 1.800
anos antes de seu reinado, e mais de 300 anos depois, o sol nasceu
no equinócio vernal, sem o menor desvio, na constelação de Touro.
Segue-se que se um monarca em tal época tivesse resolvido criar um
marco equinocial em Gizé, ele teria todas as razões para mandar
esculpi-lo com a forma de um touro, e nenhuma para fazer isso na
forma de um leão. Na verdade, e é óbvio, só houve uma única época
em que o simbolismo celeste de ummarco equinocial leonino teria
sido apropriado. A época, claro, foi a Era do Leão, de 10.970 a 8.810
anos a.C.
Por que, então, deveria um marco equinocial ter sido construído com a
forma de um leão? Por que foi construído durante a Era do Leão,
quando o sol no equinócio vernal nascia contra o fundo estelar da
constelação do Leão, marcando, dessa maneira, as coordenadas de
uma época precessional que não experimentaria o "Grande Retorno"
antes de mais 26.000 anos?
Por volta do ano 10450 a.C., as trêsestrelas do cinturão de Órion
atingiram o ponto mais baixo em seu ciclo precessional: a oeste da Via
Láctea, 11º 8' acima do horizonte sul no trânsito do meridiano. No
terreno a oeste do Nilo, esse evento foi congelado em arquitetura sob
a forma das três pirâmides de Gizé. A disposição delas no local
formava a assinatura de uma época inconfundível de tempo
precessional.
Mais ou menos no ano 10450 a.C., o sol, no equinócio vernal, nasceu
na constelação do Leão. No chão, em Gizé, esse fato foi congelado
em arquitetura sob a forma da Esfinge, um marco equinocial
gigantesco, leonino, que, tal como a segunda assinatura em um
documento oficial, poderia ser considerado como uma confirmação de
autenticidade.

O undécimo milênio a.C., em outras palavras, logo depois de ter
quebrado o "Moinho do Céu", mudando o nascer do sol no equinócio
de primavera, de Virgem para a constelação do Leão, foi a única
época em que a Esfinge, voltada diretamente para leste, teria
manifestado exatamente o alinhamento simbólico correto, exatamente
no dia certo - observando o sol vernal nascer no céu do amanhecer
contra o pano de fundo de sua própria contrapartida celeste...
Forçando a Questão
- Não pode ser uma coincidência que um alinhamento tão perfeito do
terrestre e do celeste ocorra por volta do ano 10.450 a.C. - disse
Robert. - Na verdade, não acredito que coincidência esteja ainda em
questão. Para mim, a verdadeira pergunta é: por quê? Por que foi feito
isso? Por que eles tiveram tanto trabalho para formular essa enorme
declaração sobre o undécimo milênio a.C.?
- Obviamente, porque era uma ocasião importante para eles - sugeriu
Santha.
- A declaração devia ter sido muito, muitíssimo importante. Ninguém
faz nada assim, ninguém cria uma série de imensos marcos
precessionais como esses, esculpe uma Esfinge, constrói três
pirâmides que pesam 15 milhões de toneladas, a menos que tenha
uma razão imensamente importante. De modo que a pergunta é: que
razão era essa? Eles forçaram a pergunta formulando essa
declaração forte, imperativa, no ano 10450 a.C., mais ou menos.
Realmente, eles forçaram a pergunta. Queriam chamar nossa atenção
para o ano 10450 a.C. e cabe a nós descobrir a razão.
Ficamos calados durante algum tempo, enquanto o sol subia no céu a
sudeste da Grande Esfinge.

Parte VIII
Conclusão
Onde Está o Corpo?
CAPÍTULO 50
Procurando Agulha em Palheiro
Alguns meses após ter iniciado este estudo, meu assistente de
pesquisa me enviou uma carta de quinze páginas, explicando por que
resolvera pedir as contas. Nesse estágio, eu não havia ainda
começado a reunir as peças do quebra-cabeça e trabalhava mais por
palpite do que baseado em prova sólida. Sentia-me atraído por todos
os mistérios, anomalias, anacronismos e enigmas e queria descobrir
tanta coisa quanto pudesse sobre o assunto. Meu pesquisador,
enquanto isso, estivera estudando os processos demorados, lentos,
através dos quais algumas civilizações conhecidas tinham ingressado
na história.
Havia, na opinião dele, certas precondições econômicas, climáticas,
topográficas e geográficas importantes, que tinham de ser atendidas,
antes que uma civilização pudesse emergir:
De modo que, se o senhor está à procura de uma civilização até agora
desconhecida de grandes criadores, que a construíram sozinhos,
separada de todas as demais que já conhecemos, o senhor não está
procurando por agulha em palheiro. Está procurando por alguma coisa
mais parecida como uma cidade dentro do palheiro. O que o senhor
está procurando é uma enorme região que ocupou uma área de terra
de, pelo menos, uns 3.200km de largura. Esta seria uma massa de
terra tão grande quanto o golfo do México, ou duas vezes o tamanho
de Madagáscar. Ela teria possuído grandes cadeias de montanhas,
imensas bacias hidrográficas e um clima, de mediterrâneo para
subtropical, protegido pela latitude contra os efeitos prejudiciais de
esfriamento climático a curto prazo. E ela teria necessitado que esse
clima relativamente estável durasse pelo menos dez mil anos... Em
seguida, a população, de várias centenas de milhares de sofisticados
habitantes, teríamos que acreditar, desapareceu de repente,
juntamente com a terra, deixando pouquíssimos vestígios físicos,
restando apenas alguns sobreviventes, sabidos o suficiente para notar
que o fim estava próximo, eram bastante ricos e se encontravam no
lugar certo, com os recursos de que necessitavam, para poder fazer
alguma coisa que Ihes permitisse escapar do cataclismo.
De modo que, lá estava eu sem pesquisador. Minha proposição era, a
priori, insustentável. Não poderia haver uma civilização perdida
avançada, porque uma massa de terra grande o suficiente para
sustentar tal civilização era grande demais para ser perdida.
Impossibilidades Geofísicas
O problema era grave e continuou a me atanazar a mente através de
todas as minhas pesquisas e viagens. E foi na verdade esse exato
problema, mais do que qualquer outro, que desmoralizou a lenda da
Atlântida, de que falou Platão, como tema sério de estudos. Ou, como
disse um crítico da teoria do continente perdido:
Nunca houve uma ponte continental atlântica desde o aparecimento
do homem no mundo; não há uma massa continental submersa no
Atlântico; o oceano Atlântico deve ter existido, em sua forma atual, por
pelo menos um milhão de anos. Na verdade, é uma impossibilidade
geofísica que a Atlântida de Platão tenha existido no Atlântico...
Esse tom inflexível, dogmático, como eu tinha aprendido muito tempo
antes, era inteiramente justificado. Oceanógrafos modernos
mapearam exaustivamente o leito do oceano Atlântico e,
definitivamente, nenhum continente perdido existe nesse local.
Mas, se a prova que eu estava coletando representa, de fato, as
impressões digitais de uma civilização desaparecida, um continente
devia ter se perdido em algum lugar.
Se assim, onde? Durante algum tempo, usei a hipótese de trabalho
óbvia de que ele poderia estar sob algum outro oceano. O Pacífico era
muito grande, mas o oceano Índico parecia mais promissor, porque se
localizava relativamente próximo do Crescente Fértil do Oriente Médio,
onde haviam emergido várias das civilizações históricas conhecidas
mais antigas, com uma subitaneidade extrema, por volta do ano 3000
a.C. Eu tinha planos de ir verificar a verdade de boatos sobre
pirâmides antigas nas ilhas Maldivas e ao longo da costa somali da
África Oriental, em busca de algumas pistas sobre um paraíso perdido
da antiguidade. Pensei que poderia mesmo incluir uma viagem às
Seychelles.
O problema era, novamente, os oceanógrafos. O leito do oceano
Índico fora também mapeado e nele não havia sido encontrado
quaisquer continentes perdidos. O mesmo se aplicava aos outros
oceanos e a todos os mares. Parecia não haver agora lugar nenhum
sob água, onde uma massa de terra suficientemente grande para ter
abrigado uma civilização avançada pudesse ter desaparecido.
Ainda assim, à medida que prosseguia nas pesquisas, continuavam a
aumentar as provas de que uma civilização desse tipo existira no
passado. Comecei a desconfiar que poderia ter sido uma civilização
marítima: uma nação de navegantes. Em apoio a essa hipótese, entre
outras anomalias, havia os notáveis mapas antigos do mundo, os
"Barcos da Pirâmide", no Egito, os vestígios de conhecimentos
astronômicos avançados no espantoso sistema de calendário dos
maias e as lendas de deuses ligadosao mar, como Quetzalcoatl e
Viracocha.
Uma nação de navegantes, então. E de construtores, também:
construtores de Tiahuanaco, construtores de Teotihuacán,
construtores de pirâmides, construtores da Esfinge, construtores que
podiam, com aparente facilidade, erguer e assentar blocos de 200
toneladas de pedra calcária e alinhar enormes monumentos, com uma
precisão sobrenatural, com os pontos cardeais. Quem quer que
fossem, esses construtores aparentemente deixaram suas impressões
digitais em todo o mundo, sob a forma de ciclópicas obras de cantaria
poligonais, de plotação de sítios arqueológicos que envolviam
alinhamentos astronômicos, enigmas matemáticos e geodésicos, e
mitos sobre deuses em forma humana. Mas uma civilização avançada
o suficiente para construir estruturas desse porte - suficientemente
rica, suficientemente bem organizada e madura para ter explorado e
mapeado o mundo de um pólo a outro, uma civilização
suficientemente inteligente para ter calculado as dimensões da terra -
simplesmente não podia ter evoluído em uma massa de terra
insignificante. A terra natal dessa gente, como observara corretamente
meu pesquisador, devia ter sido abençoada com grandes cadeias de
montanhas, imensas bacias hidrográficas e um clima ameno, além dos
muitos outros pré-requisitosambientais óbvios para o
desenvolvimento de uma economia avançada e próspera: boas terras
agrícolas, recursos minerais, florestas, etc.
Se assim, onde essa massa de terra poderia ter se localizado, se não
sob um dos oceanos do mundo?
Anjos de Biblioteca
Onde ela poderia ter se localizado e quando poderia ter
desaparecido? E se tinha desaparecido (desde que nenhuma outra
explicação serviria), então como, porque e em que circunstâncias?
Falando sério, como é que podemos perder um continente?
O bom senso sugeria que a resposta deveria estar em um cataclismo
de algum tipo, uma calamidade planetária capaz de varrer quase
todos os vestígios físicos de uma grande civilização. Mas, se assim,
por que não havia registros desse cataclismo? Ou, quem sabe, havia?
Enquanto dava prosseguimento às pesquisas, estudei muitos dos
grandes mitos de dilúvio, fogo, terremotos e eras glaciais, passados
de uma geração a outra em todo o mundo. Vimos na Parte IV que era
difícil resistir à conclusão de que os mitos descreviam eventos
geológicos e climáticos reais, com toda possibilidade com efeitos
locais diferentes, em todos os casos, dos mesmos eventos.
Durante a curta história da presença da humanidade neste planeta,
descobri que só havia uma única catástrofe conhecida e documentada
que se encaixava: o derretimento espetacular e letal da última Era
Glacial, entre os anos 15000 e 8000 a.C. Além do mais, como
acontecia de forma mais óbvia nos casos de relíquias arquitetônicas,
como Teotihuacán e as pirâmides do Egito, muitos dos mitos
relevantes pareciam ter sido compostos para servir como veículos de
informação científica codificada, o que era mais uma indicação daquilo
que eu estava começando a considerar como "impressões digitais de
deuses".
Eu tinha me tornado especialmente sensível, embora não
compreendesse devidamente as implicações na época, à
possibilidade de que uma forte ligação pudesse existir entre o caos
destruidor da Era Glacial e o desaparecimento de uma civilização
arcaica, que fora a matéria-prima de lendas durante milênios.
E foi nesse momento que os anjos de biblioteca fizeram seu
aparecimento...
A Peça que Faltava no Quebra-Cabeça
O romancista Arthur Koestler, que sentia um grande interesse por
sincronicidade, cunhou a expressão "anjo de biblioteca" para
descrever a entidade desconhecida responsável por afortunadas
descobertas que pesquisadores fazem, e que fazem exatamente com
que a informação certa lhes caia nas mãos exatamente no momento
certo.
Exatamente no momento certo, uma dessas oportunidades
afortunadas se abriu para mim. Esse momento ocorreu no verão de
1993. Eu me encontrava na fossa, física e espiritualmente, após
meses de viagens difíceis, e a impossibilidade geofísica de perdermos
realmente uma massa de terra do tamanho de um continente estava
começando a minar minha confiança na solidez de minhas
descobertas. Nessa ocasião, recebi uma carta enviada de Nanaimo,
na Colúmbia Britânica, Canadá. A carta referia-se a meu livro anterior,
The Sign and the Seal, no qual mencionei, de passagem, a teoria da
Atlântida e as tradições de heróis civilizadores que haviam sido
"salvos da água”:
19 de julho de 1993.
Prezado Sr. Hancock,
Após 17 anos de pesquisas sobre o destino final da Atlântida, minha
esposa e eu concluímos um livro intitulado When the Sky Fell (O dia
em que o céu caiu). Nossa frustração é que a despeito das respostas
positivas sobre o enfoque usado no livro, dos poucos editores que o
leram, a simples menção da Atlântida fecha a mente das pessoas.
No The Sign and the Seal, o senhor escreve sobre "uma tradição de
sabedoria secreta, iniciada pelos sobreviventes de um dilúvio...".
Nosso trabalho estuda locais ondealguns sobreviventes poderiam ter
se estabelecido. Lagos de alta altitude de água doce constituiriam
bases ideais pós-dilúvio para os sobreviventes da Atlântida. O lago
Titicaca e o lago Tana [na Etiópia, que serviu de cenário à grande
parte do The Sign and the Sea] atendem aos critérios climáticos. O
ambiente estável desses locais proporcionou as matérias-primas para
o reinício da agricultura.
Tomamos a liberdade de anexar à presente um esboço do When the
Sky Fell. Se estiver interessado, teremos prazer em lhe enviar uma
cópia dos originais.
Sinceramente,
Rand Flem-Ath
Examinei o material anexo e nele, nos primeiros parágrafos, encontrei
a peça que faltava do quebra-cabeça que estivera procurando. Ela se
encaixava, perfeita, nos mapas globais antigos que eu estudara - mas
que descreviam acuradamente a topografia subglacial do continente
da Antártida (ver Parte I). A peça conferia sentido a todos os grandes
mitos mundiais sobre cataclismo e calamidade planetárias, com seus
diferentes efeitos climáticos. Explicava o enigma dos números
imensos dos mamutes "subitamente congelados" no norte da Sibéria e
no Alasca, e as árvores frutíferas de 27m de altura encerradas no gelo
eterno, bem dentro do Círculo Ártico, em uma latitude onde agora
nada cresce. Fornecia uma solução para o problema da subitaneidade
extrema com que se derreteu a última Era Glacial no hemisfério Norte,
após o ano 15000 a.C. Solucionava também o mistério da excepcional
atividade vulcânica em todo o mundo que acompanhou o degelo.
Dava também resposta à pergunta "Como se perde um continente?".
E se baseava solidamente na teoria do "deslocamento da crosta
terrestre", de Charles Hapgood - uma hipótese geológica radical, que
eu já conhecia:
A Antártida é o nosso continente menos compreendido [escreveu
Flem-Aths no resumo do livro]. A maioria de nós supõe que essa
imensa ilha foi coberta pelo gelo durante milhões de anos. Novas
descobertas, porém, provam que partes da Antártida estiveram livres
de gelo há milhares de anos, o que é história recente pelo relógio
geológico. A teoria do "deslocamento da crosta terrestre" explica o
misterioso aumento e redução do imenso lençol de gelo da Antártida.
O que os pesquisadores canadenses estavam mencionando era a
sugestão de Hapgood de que, até o fim da última Era Glacial -
digamos, no undécimo milênio a.C. -, a massa terrestre da Antártida
estivera posicionada a cerca de 3.200km mais ao norte (em uma
latitude amena e temperada) e que se deslocara para sua atual
posição, dentro do Círculo Antártico, como resultado de um
deslocamento maciço da crosta da terra. Esse deslocamento,
continuavam os FIem-Aths, havia deixado também outras provas de
sua visita letal em um anel de morte em volta do globo. Todos os
continentes em que ocorreu extinção rápida e maciça de espécies
animais (notadamente nas Américas e na Sibéria) sofreram mudanças
enormes em suas latitudes...
As conseqüências de um deslocamento são monumentais. A crosta
terrestre ondula por cima da parte interna e o mundo é abalado por
incríveis terremotos e inundações. O céu parece cair, enquanto
continentes gemem e mudam de posição. Nas profundezas do
oceano, os terremotos geram enormes maremotos, que se chocam
contra as costas, inundando-as. Algumas terras mudam de posição
para climas mais quentes, enquanto outras, empurradas para as
zonas polares, sofrem os piores invernos. O derretimento das calotas
de gelo eleva cada vez mais o nível dos oceanos. Todas as coisas
vivas têm que se adaptar, migrar ou morrer...
Se o horror do deslocamento da crosta terrestre acontecesse no
mundo interdependente de hoje, o progresso de milhares de anos
seria arrancado de nosso planeta como se fosse uma fina teia de
aranha. Os que vivem próximos de altas montanhas poderiam, talvez,
escapar dos maremotos globais, mas eles seriam obrigados a deixar,
nas terras baixas, os frutos lentamente acumulados da civilização. Só
nas marinhas mercante e de guerra do mundo poderia restar alguma
evidência de civilização. Os cascosque se enferrujavam de navios e
submarinos acabariam finalmente, mas os mapas valiosos que eles
conduziam seriam salvos e conservados pelos sobreviventes, talvez
por centenas ou mesmo milhares de anos, até que a humanidade,
mais uma vez, pudesse navegar pelo oceano mundial em busca de
terras perdidas...
Enquanto lia essas palavras, lembrei-me da descrição de Charles
Hapgood, de como a camada de terra que os geólogos chamam de
litosfera - a crosta externa delgada mas rígida de nosso planeta -
poderia ser às vezes deslocada, movendo-se como uma peça só
"sobre o corpo interior mole, de forma muito parecida como a casa de
uma laranja, se ela se soltasse, poderia deslizar, como uma peça só,
sobre a parte interna da frutas".
Até esse momento, eu me sentia em terreno conhecido, Mas, em
seguida, os pesquisadores canadenses fizeram duas conexões vitais,
que eu não havia percebido.
Influências Gravitacionais
A primeira delas era a possibilidade de que influências gravitacionais
(bem como variações na geometria orbital da terra, discutidas na Parte
V) pudessem, através do mecanismo de deslocamento da crosta,
desempenhar um papel no desencadeamento e declínio das Eras
Glaciais:
Quando, em 1837, o naturalista e geólogo Louis Agassiz apresentou a
idéia de Era Glaciais à comunidade científica, ela foi recebida com
grande ceticismo. Não obstante, à medida que provas se acumulavam
em seu apoio, os céticos foram obrigados a aceitar que a terra havia,
na verdade, caído nas garras de invernos letais. O gatilho dessas Eras
Glaciais paralisantes, porém, permaneceu um enigma. Só em 1976 é
que surgiu prova sólida sobre os períodos em que ocorreram esses
fenômenos. A explicação foi encontrada em várias características
astronômicas da órbita terrestre e na inclinação de seu eixo. Fatores
astronômicos desempenharam claramente um papel importante no
tocante à ocasião em que ocorreram as Eras Glaciais. Mas esse é
apenas parte do problema. De igual importância foi a geografia da
glaciação. E é aqui que a teoria de deslocamento da crosta terrestre
desempenha papel importante na solução do mistério.

Albert Einstein investigou a possibilidade de que o peso dos lençóis de
gelo, que não são simetricamente distribuídos em torno dos pólos,
possa causar tal deslocamento. Escreveu ele: ''A rotação da terra atua
sobre essas massas assimetricamente depositadas e produz impulso
centrífugo, que é transmitido à crosta rígida do planeta. O aumento
constante do impulso centrífugo produzido dessa maneira dará
origem, quando atingir certo ponto, a um movimento da crosta sobre o
corpo interno, que deslocará as regiões polares para a região do
equador.”
Quando Einstein escreveu essas palavras [1953], as causas
astronômicas das Eras Glaciais não eram bem compreendidas.
Quando a forma da órbita da terra se desvia de um círculo perfeito em
mais de 1%, a influência gravitacional do sol aumenta, exercendo mais
atração sobre o planeta e suas maciças calotas de gelo. Esse peso
enorme pressiona a crosta, e essa pressão imensa, combinada com a
maior inclinação do eixo da terra [outro fator mutável da geometria
orbital], força crosta a deslocar-se...
Estaria aí a ligação entre o início e o fim das Eras Glaciais?
Muito claro.
Em um deslocamento, as partes da crosta situadas nos pólos Norte e
Sul (e que estão, por conseguinte, tão cobertas de gelo como
acontece hoje na Antártida) mudam de repente para latitudes mais
quentes e começam a derreter com extraordinária rapidez.
Reciprocamente, terra que estivera até então localizada em latitudes
mais quentes é deslocada com igual rapidez para as zonas polares,
sofrendo uma devastadora mudança de clima, e começa a
desaparecer sob uma calota de gelo que avança rapidamente.
Em outras palavras, quando partes imensas do norte da Europa e da
América do Norte estavam na maior parte cobertas de gelo, no que
consideramos como a última Era Glacial, isso não acontecia por causa
de algum fator climático de ação lenta, mas sim porque essas áreas
de terra estavam na ocasião situadasmuito mais perto do pólo Norte
do que hoje. Analogamente, quando as glaciações Wisconsin e Wurm,
descritas na Parte IV, iniciaram o derretimento por volta do ano 15000
a.C., o fato desencadeante não foi uma mudança global do clima, mas
um deslocamento das calotas de gelo para latitudes mais quentes...
Em outras palavras: uma Era Glacial está acontecendo neste exato
instante - dentro do Círculo Ártico e na Antártida.
O Continente Perdido
A segunda ligação estabelecida pelos Flem-Aths era uma
conseqüência lógica da primeira: se havia um fenômeno geológico
recorrente, cíclico, como o deslocamento da crosta terrestre, e se o
último empurrara a enorme massa de terra que chamamos de
Antártida para fora de latitudes temperadas e para dentro do Círculo
Antártico, é possível que restos substanciais de uma civilização
perdida da antiguidade remota possam estar hoje sob 3,2km de gelo
no pólo Sul.
Tornou-se subitamente claro para mim como uma massa de terra de
dimensões continentais, que fora o lar de uma grande e próspera
sociedade durante milhares de anos, podia perder-se quase sem
deixar vestígios. "É para a gelada Antártida que temos de olhar para
encontrar respostas sobre as próprias raízes da civilização - respostas
que talvez ainda estejam preservadas nas profundezas congeladas da
esquecida ilha-continente.”
Puxei dos arquivos o pedido de demissão de meu pesquisador e
comecei a verificar suas precondições para o aparecimento de uma
civilização adiantada. Ele queria "grandes cadeias de montanhas".
Queria "imensas bacias hidrográficas". Queria uma região vasta que
ocupasse uma região de pelo menos uns 3.200km de largura. E
também um clima estável, ameno, durante milhares de anos, a fim de
dar tempo a uma cultura desenvolvida para evoluir.
A Antártida não é, de maneira nenhuma, uma agulha num palheiro. É
uma gigantesca massa de terra, muito, mas muito maior do que o
golfo do México, cerca de sete vezes maior do que Madagáscar - na
verdade, aproximadamente do tamanho dos Estados Unidos
continentais. Além disso, como levantamentos sísmicos
demonstraram, há grandes cadeias de montanhas na Antártida. E
como vários mapas antigos parecem provar, cartógrafos pré-históricos
desconhecidos, que possuíam compreensão científica de latitude e
longitude, desenharam essas cordilheiras antes que desaparecessem
sob a calota de gelo que as cobre hoje. Esses mesmos antigos mapas
mostram também "imensas bacias hidrográficas" descendo das
montanhas, irrigando extensos vales e planícies e desembocando no
oceano vizinho. E esses rios, como eu já sabia pelos núcleos-testemunhos extraídos do leito do mar de Ross, haviam deixado prova
física de sua presença na composição dos sedimentos do fundo do
oceano.
Por último, mas não de menor importância, notei que a teoria de
deslocamento da crosta terrestre não colidia com os requisitos de
10.000 anos de clima estável. Antes do suposto deslocamento súbito
da crosta, por volta de fins da última Era Glacial no hemisfério Norte, o
clima da Antártida teria sido estável, talvez por um período muito mais
longo do que 10.000 anos. E se a teoria estava certa, ao sugerir que a
latitude da Antártida naquela época era de cerca de 3.200km (30
graus do arco) mais ao norte do que hoje, suas regiões setentrionais
deveriam ter-se situado nas vizinhançasda latitude de 30° sul, e, por
conseguinte, teria desfrutado um clima de mediterrâneo a subtropical.
Teria a crosta terrestre realmente se deslocado? E poderiam as ruínas
de uma civilização perdida estar realmente sob o gelo do continente
sul?
Conforme veremos nos capítulos seguintes, poderiam ter estado... e
ainda estar lá.
CAPÍTULO 51
O Martelo e o Pêndulo
Embora esteja além da intenção deste livro, uma exposição detalhada
da teoria do deslocamento da crosta terrestre pode ser encontrada no
When the Sky Fell, de Rand e Rose Flem-Ath (publicado pela
Stoddart, Canadá, 1995).
Conforme notado antes, essa teoria geológica foi formulada pelo
professor Charles Hapgood e validada por Albert Einstein. Em resumo,
o que ela sugere é um deslizamento completo da litosfera, de cerca de
50km de espessura de nosso planeta, sobre os quase 10.800km do
núcleo central, empurrando grandes regiões do hemisfério ocidental
para o equador e daí para o Círculo Ártico. Esse movimento não é
considerado como tendo acontecido ao longo do meridiano verdadeiro
norte-sul, mas num curso rotativo - girando, por assim dizer, em torno
das planícies centrais do que são hoje os Estados Unidos. O resultado
foi que o seguimento nordeste da América do Norte (no qual se
localizou antes o pólo Norte, precisamente na baía de Hudson) foi
puxado do Círculo Ártico para o sul e para regiões mais temperadas,
ao mesmo tempo que o segmento noroeste (Alasca e Yukon) girava
para o norte e penetrava no Círculo Ártico, juntamente com grandes
regiões do norte da Sibéria.
No hemisfério Sul, o modelo de Hapgood mostra a massa de terra que
hoje denominamos de Antártida - grande parte dela se situara antes
em latitudes temperadas ou mesmo quentes - sendo empurrada
inteiramente para o Círculo Antártico. O movimento geral é
considerado como tendo ocorrido na região de 30 graus
(aproximadamente 3.200km) e se concentrado, quase todo, entre os
anos 14500 a.C. e 12500 a.C. - embora com maciços choques
secundários em escala planetária, que continuaram a intervalos muito
separados até cerca de 9500 anos a.C.
Suponhamos que, antes do deslocamento da crosta, uma grande
civilização tenha se desenvolvido na Antártida, quando grande parte
dela se localizava em latitudes verdes e amenas. Se isso aconteceu,
essa civilização poderia ter sido facilmente destruída pelos efeitos do
deslocamento: maremotos, ventos com força de furacões,
tempestades elétricas, erupções vulcânicas, quando falhas sísmicas
se abriram por todo o planeta, céus escuros e expansão implacável
dos lençóis de gelo. Além do mais, à medida que se sucediam os
milênios, as ruínas deixadas para trás - as cidades, os monumentos,
as grandes bibliotecas e as obras de engenharia da civilização
destruída - teriam sido ainda mais sepultadas sob o manto de gelo.
Pouco motivo de espanto há, portanto,se a teoria do deslocamento da
crosta está certa, que tudo que possa ser encontrado hoje, espalhado
pelo mundo, sejam as impressões digitais desafiadoras dos deuses.
Estas seriam os vestígios, os ecos, de obras e atos, os ensinamentos
muito mal-interpretados e as estruturas geométricas deixadas pelos
poucos sobreviventes da antiga civilização da Antártida, que
conseguiram cruzar os oceanos em grandes navios e se
estabeleceram em terras distantes: no Vale do Nilo, por exemplo (ou
talvez, inicialmente, em volta do lago Tana, nas cabeceiras do Nilo
Azul), no Vale do México e nas proximidades do lago Titicaca, nos
Andes - e, sem dúvida, também em várias outras partes do mundo.
Aqui e ali em volta do globo, em outras palavras, as impressões
digitais de uma civilização perdida continuam obscuramente visíveis.
O corpo está escondido, sepultado sob 3.200km de gelo da Antártida
e quase tão inacessível para o arqueólogo como se estivesse
localizado no lado oculto da lua.
Será isso fato?
Ou ficção?
Possibilidade?
Ou impossibilidade?
Seria uma possibilidade ou impossibilidade geofísica que a Antártida,
o quinto maior continente do mundo (com uma superfície de quase
15,5 milhões de km2), pudesse: a) ter se situado outrora em uma zona
mais temperada e b) ter sido deslocado dessa zona e penetrado no
Círculo Antártico nos últimos 20.000 anos?
A Antártida poderia ser movida?

Um Deserto Polar Destituído de Vida
"Deslizamento continental" e/ou de "placas tectônicas" são expressões
típicas usadas para descrever uma importante teoria geológica que se
tornou cada vez mais compreendida pelo público geral desde a
década de 1950. Não precisamos descer a detalhes aqui sobre os
mecanismos básicos envolvidos. Mas quase todos nós sabemos que
os continentes "flutuam" de alguma maneira, relocalizam-se e mudam
de posição na superfície da terra. O bom senso confirma o fato
seguinte: se olharmos para um mapa da costa oeste da África e da
costa leste da América do Sul, torna-se muito claro que essas duas
massas de terras estiveram outrora ligadas. A escala temporal
segundo a qual opera o deslizamento continental é, contudo, imensa:
pode-se tipicamente esperar que continentes flutuem e se separem
(ou se juntem) a uma taxa de não mais de 3.200km a cada 200
milhões de anos, mais ou menos. Ou, em outras palavras, bem, bem
devagar.
O deslizamento de placas tectônicas e o deslocamento da crosta
terrestre de que fala a teoria de Charles Hapgood não são, em
absoluto, contraditórios. Achava Hapgood que ambos podiam
acontecer: que a crosta da terra realmente exibe sinais de
deslizamento continental, como alegam os geólogos - que ocorre
quase imperceptivelmente, ao longo de centenas de milhões de anos -, mas que experimentou também ocasionalmente deslocamentos
muito rápidos em uma peça só, que não teve efeitos sobre as relações
entre massas de terra separadas, mas que lançaram continentes
inteiros (ou partes deles) para dentro ou para fora das duas zonas
polares fixas do planeta (as regiões perenemente frias e geladas que
cercam os pólos Norte e Sul do eixo de rotação).
Deslizamento continental?
Deslocamento da crosta da terra?
Ambos?
Alguma outra causa?
Honestamente, não sei. Não obstante, os fatos sobre a Antártida são
de fato estranhos e difíceis de explicar, sem invocarmos alguma idéia
de mudança súbita, catastrófica e geologicamente recente.
Antes de revisarmos esses fatos, lembremo-nos que estamos nos
referindo a uma massa de terra hoje orientada pela curvatura da terra,
de tal modo que o sol jamais nasce sobre ela durante os seis meses
de inverno e nunca se põe durante os seis meses de verão (mas, sim,
se visto do pólo, permanece baixo, um pouco acima do horizonte,
parecendo seguir uma trajetória circular em torno do céu durante cada
24 horas de luz).
A Antártida é também, de longe, o continente mais frio do mundo,
onde as temperaturas na planície polar podem cair para 89,2 graus
abaixo de zero. Embora as áreas costeiras sejam ligeiramente mais
quentes (60 graus centígrados abaixo de zero) e abrigue números
imensos de colônias de aves marinhas, não há mamíferos nativos na
região, que conta apenas com uma pequena comunidade de plantas
tolerantes ao frio, capazes de sobreviver aos demorados períodos
invernais de escuridão total ou quase total. Laconicamente, a
Encyclopedia Britannica dá uma lista dessas plantas: "Líquens e
hepáticas, fungos, fermentos, algas e bactérias..."
Em outras palavras, embora maravilhosa de se observar no longo
amanhecer de antípoda, a Antártida é um deserto polar, gelado,
implacável, quase sem vida, como vem acontecendo durante todo o
período "histórico" de 5.000 anos da humanidade.
Mas teria sido sempre assim?
Prova 1
Revista Discover the World of Science, fevereíro de 1993, página 17:
Há cerca de 260 milhões de anos, durante o Período Permiano,
árvores decíduas adaptadas a um clima quente cresciam na Antártida.
Esta é a conclusão a que estão chegando paleo-botânicos, à vista de
um grupo de troncos fossilizados de árvores, descobertos a uma
altitude de cerca de 2.000m, no monte Achernar, nas montanhas
transantárticas. O local se situa a 84° 22' sul, a cerca de 800km ao
norte do pólo Sul.
O interessante na descoberta é que se trata realmente da única
floresta, viva ou fóssil, encontrada a 80 ou 85 graus de latitude", disse
a paleobotânica Edith Taylor, da Ohio State University, que estudou as
árvores fósseis. ''A primeira coisa que nós, paleo-botânicos, fazemos é
procurar alguma coisa nos anais modernos que seja comparável, e
não há hoje floresta que cresça nessa latitude. Podemos ir aos
trópicos e encontrar árvores crescendo em um ambiente quente, mas
não podemos encontrar árvores crescendo em um ambiente quente
com o regime de luz que essas árvores tiveram: 24 horas de luz no
verão e 24 horas de escuridão no inverno."
Prova 2
Geólogos nenhuma prova acharam de qualquer glaciação, em parte
alguma do continente antártico, anterior ao Eoceno (há cerca de 60
milhões de anos). Se recuarmos ainda mais, até o Cambriano (há
cerca de 550 milhões de anos), encontramos prova irrefutável de um
mar quente, que se estendia quase ou inteiramente de um lado a outro
da Antártida, sob a forma de pedras calcárias espessas, ricas em
Archaeocyathidae, seres formadores de recifes: "Milhões de anos
depois, quando essas formações marinhas apareceram acima do nível
do mar, climas quentes geraram uma vegetação luxuriante na
Antártida. Sir Ernest Shackleton, por exemplo, encontrou jazidas de
carvão a 320km do pólo Sul, e, maistarde, durante a expedição Byrd,
em 1935, geólogos fizeram uma rica descoberta de fósseis nas altas
encostas do monte Weaver, na latitude 86° 58' sul, mais ou menos à
mesma distância do pólo Sul, e as uns3.200 metros acima do nível do
mar. Os fósseis incluíam impressões de folhas e talos e madeira
fossilizada. Em 1952, o Dr. Lyman H. Dougherty, da Carnegie
lnstitution, em Washington, completando o estudo desses fósseis,
identificou duas espécies de samambaias, de nome Glossopteris,
outrora comuns nos continentes meridionais (África, América do
Sul, Austrália) e uma gigantesca samambaia de outra espécie.
Prova 3
Comentário do almirante Byrd sobre a importância da descoberta feita
no monte Weaver: "Aqui, na montanha mais ao sul conhecida no
mundo, a pouco mais de 320km do pólo Sul, foi encontrada prova
conclusiva de que o clima da Antártida foi outrora temperado ou
mesmo subtropical".
Prova 4
"Cientistas soviéticos comunicaram ter encontrado prova de flora
tropical na Terra de Graham, outra parte da Antártida, datando de
princípios do Período Terciário (talvez do Paleoceno ou o Eoceno)...
Prova adicional foi fornecida pela descoberta, por geólogos britânicos,
de grandes florestas fósseis na Antártida, do mesmo tipo que crescia
na costa do Pacífico dos Estados Unidos há 20 milhões de anos. Esse
fato demonstra, claro, que após a glaciação mais antiga conhecida da
Antártida, no Eoceno (há 60 milhões de anos), o continente não
permaneceu glacial, mas teve períodos posteriores de clima quente."?
Prova 5
"No dia 25 de dezembro de 1990, os geólogos Barrie McKelvey e
David Harwood estavam trabalhando a 1.830m acima do nível do mar
e 400km do pólo Sul quando descobriram fósseis de uma floresta de
faias decíduas meridionais, datando de dois a três milhões de anos".
Prova 6
Em 1986, a descoberta de madeira e plantas fossilizadas demonstrou
que partes da Antártida podem ter estado livres do gelo até dois
milhões e meio de anos atrás. Outras descobertas demonstraram que
alguns locais no continente estiveram livres de gelo há 100 mil anos.
Prova 7
Conforme vimos na Parte I, núcleos-testemunhos sedimentares
coletados no leito do mar de Ross, por uma das Expedições Byrd à
Antártida, proporcionam prova conclusiva de que "grandes rios,
transportando sedimentos de granulação fina”, fluíram realmente por
essa parte da Antártida até uma data tão recente quanto 4.000 anos
a.C. De acordo com o relatório do Dr. Jack Hough, da Universidade de
Illinois, "O registro do núcleo-testemunho N-5 mostra sedimentos
marinhos glaciais, do presente até 6.000 anos no passado. No período
de 6.000 a 15.000 anos, os sedimentos são de granulação fina, com
exceção de um grânulo de cerca de 12.000 anos. Esse fato sugere
ausência de gelo na área durante esseperíodo, exceto, talvez, por um
iceberg à deriva há 12.000 anos".
Prova 8
O mapa-múndi de Orontaeus Finnaeus, estudado na Parte I, descreve
acuradamente o mar de Ross, como ele teria parecido se estivesse
livre de gelo e, além disso, mostra as altaneiras cordilheiras costeiras
da Antártida, com grandes rios descendo delas, onde hoje são
encontradas apenas geleiras de 1.600m de espessura.
The Path of the Pole, de Charles Hapgood. 1970, p. 111 e ss.: "É raro
que pesquisas geológicas recebam confirmação importante da
arqueologia. Ainda assim, neste caso, parece que a questão da
desglaciação do mar de Ross pode ser confirmada por um velho mapa
que, de alguma maneira, sobreviveu por muitos milhares de anos... O
mapa foi descoberto e publicado em 1531 pelo geógrafo francês
Oronce Fine [Orontaeus Finnaeus] e faz parte de seu mapa-múndi.....
Foi possível provar a autenticidade desse mapa. Em vários anos de
pesquisa, foi descoberta a projeção usada nesse antigo mapa.
Descobriu-se que tinha se inspirado em uma sofisticada projeção
cartográfica, com emprego de trigonometria esférica, e que era tão
científico que mais de 50 locais no continente da Antártida foram
encontrados, com uma precisão só alcançada pela moderna ciência
cartográfica no século XIX. E, claro, quando o mapa foi publicado pela
primeira vez, em 1531, nada, absolutamente, era conhecido sobre a
Antártida. O continente só foi descoberto em tempos modernos, por
volta de 1818, e só foi completamente mapeado após 1920.
Prova 9
O Mapa Buache, estudado também na Parte I, mostra acuradamente
a topografia subglacial da Antártida. Aconteceu isso por acaso ou
poderia o continente ter estado realmente livre de todo gelo em data
suficientemente recente para que cartógrafos de uma civilização
perdida o tivessem mapeado?
Prova 10
O reverso da medalha. Se as terras que se encontram atualmente
dentro do Círculo Antártico foram outrora temperadas ou tropicais, o
que dizer das terras dentro do Círculo Ártico? Teriam sido elas
afetadas pelas mesmas mudanças espetaculares de clima, sugerindo
que algum fator comum pudesse ter estado presente?
. Na ilha de Spitzbergen (Svalbard), folhas de palmeiras de 3m a 3,5m
de comprimento foram fossilizadas, juntamente com crustáceos de um
tipo que não poderia viver em águas tropicais. Esse fato sugere que,
em algum tempo, as temperaturas do oceano Ártico eram
semelhantes às temperaturas ora encontradas na baía de Bengala ou
no mar do Caribe. Spitzbergen fica a meio caminho entre a ponta
norte da Noruega e o pólo Norte, em uma latitude de 80° norte. Hoje,
navios só podem chegar a Spitzbergen através do gelo durante dois
ou, no máximo, três meses durante o ano.
. Há forte prova fóssil de que moitas de ciprestes dos pântanos
floresceram a 800km do pólo no Mioceno (entre 20 milhões e seis
milhões de anos atrás), e que lírios-d'água existiam em Spitzbergen no
mesmo período: "As floras típicas do Mioceno na Terra de Grinnell,
Groenlândia, e Spitzbergen, requeriam, sem exceção, condições
climáticas temperadas, com umidade abundante. Os lírios-d'água de
Spitzbergen teriam requerido água corrente durante a maior parte do
ano. Em conexão com a flora de Spitzbergen, é preciso compreender
que a ilha permanece sob escuridão polar durante metade do ano.
Situa-se no Círculo Ártico, tão ao norte do Labrador quanto o Labrador
fica ao norte das Bermudas.
. Algumas das ilhas do oceano Ártico nunca foram cobertas pelo gelo
durante a última Era Glacial. Na ilha de Baffin, por exemplo, a
1.445km do pólo Norte, restos de amieiro e bétula encontrados em
turfa sugerem um clima muito mais quente do que hoje, há menos de
30.000 anos. Essas condições prevaleceram até 17.000 anos atrás:
Durante a glaciação Wisconsin, houve um refúgio de clima temperado,
em meio do oceano Ártico, para a flora e a fauna que não podiam
sobreviver no Canadá e nos Estados Unidos.
. Cientistas russos concluíram que o oceano Ártico foi quente durante
a maior parte da última Era Glacial. Um relatório dos professores
universitários Saks, Belov e Lapina, cobrindo numerosas fases do
trabalho oceanográfico que realizaram, destaca o período de cerca de
32.000 a 18.000 anos passados como um daqueles em que
prevaleceram condições particularmente quentes.
. Conforme vimos na Parte IV; inúmeras espécies de mamíferos de
sangue quente, adaptados a zonas temperadas, foram
instantaneamente congelados e seus corpos preservados no gelo
eterno através de toda a imensa zona de morte que se estendeu do
Yukon, passou por todo o Alascae penetrou profundamente no norte
da Sibéria. Parece que o grosso dessa destruição ocorreu durante o
undécimo milênio a.C., embora tivesse havido um período anterior de
extinção em larga escala, por volta do ano 13500 a.C.
. Vimos também (Capítulo 27) que a última Era Glacial terminou entre
os anos 15000 e 8000 a.C., mas principalmente entre 14500 e 12500
a.C., com mais uma explosão de atividade extraordinariamente
intensa no undécimo milênio a.C. Durante esse período,
geologicamente curto, glaciação de até 3.200m de espessura,
cobrindo milhões de quilômetros quadrados, e que tinha exigido mais
de 40.000 anos para se formar, derreteu súbita e inexplicavelmente:
Deve ser óbvio que essa situação não poderia ter sido resultado de
fatores climáticos de ação lenta, que são geralmente usados para
explicar as idades de gelo. (...) A rapidez da desglaciação sugere que
algum fator extraordinário estava afetando o clima.
O Carrasco Gelado
Algum fator extraordinário estava afetando o clima...
Teria sido um único deslocamento de 30° da litosfera que acabou
abruptamente com a Era Glacial no hemisfério Norte (ao empurrar as
áreas mais fortemente cobertas de gelo na direção sul, afastando-as
do pólo Norte do eixo de rotação)? Se assim, por que não deveria o
mesmo deslocamento de 30° da litosfera ter girado um hemisfério sul
de 15 milhões de quilômetros quadrados, na maior parte isento de
gelo, de latitudes temperadas para uma posição imediatamente acima
do pólo Sul da rotação do eixo?
Sobre a questão da mobilidade da Antártida, sabemos agora que ela
pode ser movida e, mais a propósito, que ela se moveu, porque lá
houve árvores, e árvores simplesmente não podem crescer em
latitudes que sofrem seis meses de escuridão contínua.
O que não sabemos (e talvez nunca venhamos a saber com certeza) é
se esse movimento foi conseqüência de deslocamento da crosta
terrestre, de deslizamento continental, ou de algum outro fator ainda
não cogitado.
Mas consideremos o caso da Antártida por um momento.
Já vimos que ela é grande. Tem uma área de terra de 15 milhões de
quilômetros quadrados, atualmente coberta por um pouco mais de
onze milhões de quilômetros cúbicos de gelo, pesando uns estimados
19 quatrilhões de toneladas (o número 19 seguido de 15 zeros). O que
preocupa os teóricos da teoria do deslocamento da crosta é que essa
vasta calota de gelo está aumentando implacavelmente em tamanho e
peso, à taxa de 380km3 de gelo por ano - quase tanto quanto se um
lago Ontário fosse congelado anualmente e a ela acrescentado.
O medo é que, quando combinado com os efeitos da precessão, da
obliqüidade, da excentricidade orbital,do próprio movimento centrífugo
da terra e do puxão gravitacional do sol, lua e planetas, a carga
imensa e cada vez maior de glaciação da Antártida forneça o fator
desencadeante final para um deslocamento maciço da crosta:
A crescente calota de gelo do pólo Sul (escreveu em termos vívidos
Hugh Auchincloss Brown em 1967) tornou-se uma força sorrateira.
silenciosa e implacável da natureza - resultado da energia criada pela
rotação excêntrica da terra. A calota de gelo é o perigo rastejante, a
ameaça mortal e o carrasco de nossa civilização.
Teria esse "carrasco" causado o fim da última Era Glacial no
hemisfério Norte, ao pôr em movimento um deslocamento de 7.000
anos da crosta, entre os anos 15000 e 8000 a.C. - um deslocamento
que alcançou sua fase mais rápida, e com efeitos mais devastadores,
entre os anos 14500 e 10000 a.C.? Ou teriam as mudanças
climáticas, súbitas e espetaculares ocorridas no hemisfério Norte
durante esse período sido o resultado de algum outro agente
catastrófico simultaneamente capaz de derreter os milhões de
quilômetros cúbicos de gelo e de deflagrar o aumento mundial de
vulcanismo que acompanhou o degelo?
Os geólogos modernos são contra catástrofes ou, melhor,
catastrofismo, preferindo seguir a doutrina da "uniformidade", isto é,
que "os processos existentes, atuando como no presente, são
suficientes para explicar todas as mudanças geológicas". O
catastrofismo, por outro lado, sustenta que "mudanças na crosta
terrestre foram desencadeadas subitamente por forças físicas". Seria
possível, contudo, que o mecanismo responsável pelas mudanças
traumáticas na terra, que ocorreram ao fim da última Era Glacial,
pudessem ter sido um evento geológico tanto catastrófico quanto
uniforme?
O grande biólogo, sir Thomas Huxley, escreveu no século XIX:
Na minha opinião, não parece haver nenhum tipo de antagonismo
teórico entre Catastrofismo e Uniformidade. Ao contrário, é muito
concebível que catástrofes possam ser partes integrantes da
uniformidade. Mas deixem-me ilustrar essa opinião com uma analogia.
O funcionamento de um relógio é um modelo de ação uniforme. Bom
controle de tempo significa uniformidade de ação. Mas o toque de um
relógio é, basicamente, uma catástrofe. O martelo pode ser levado a
explodir um barril de pólvora ou desencadear um dilúvio e, com o
arranjo apropriado, em vez de marcaras horas, poderia bater em
todos os tipos de intervalos irregulares, jamais dois iguais na força ou
no número das batidas. Não obstante, todas essas catástrofes
irregulares e aparentemente descontroladas seriam o resultado de
uma ação inteiramente uniforme, e poderíamos ter duas escolas de
teóricos do relógio, uma estudando o martelo e, a outra, o pêndulo.
Poderia o deslizamento continental ser o pêndulo?
E o deslocamento da crosta terrestre ser o martelo?
Marte e Terra
Acredita-se que os deslocamentos de crosta aconteceram também em
outros planetas. No número de dezembro de 1985 da Scientific
American, Peter H. Schultz chamou atenção para crateras causadas
por impactos de meteoritos na superfície marciana. Crateras nas
áreas polares deixaram uma "assinatura" característica, porque os
meteoritos caem sobre os espessos depósitos de poeira e gelo que ali
se acumulam. Fora dos atuais círculos polares de Marte, Schultz
encontrou duas outras dessas áreas. "Essas zonas são antípodas,
estão no lado oposto do planeta. Os depósitos exibem muitos dos
processos e características dos pólos atuais, mas se encontram
próximos do equador de hoje...”
O que poderia ter causado esse efeito? A julgar pela prova, Schultz
formulou a teoria de que o mecanismo parecia ter sido "o movimento
de toda a litosfera, a parte externa sólida do planeta, como uma única
placa... [Esse movimento parece ter ocorrido] em rápidos surtos,
seguidos de longas pausas".
Se deslocamentos da crosta podem acontecer em Marte, por que não
na Terra? E se não acontecem na Terra, de que modo explicar o fato,
sob outros aspectos cabuloso, de que nem uma única das calotas de
gelo formadas em volta do mundo durante as prévias Eras Glaciais
parece ter ocorrido nos - ou mesmo estado próximas dos - atuais
pólos? Ao contrário, áreas de terra exibindo marcas de antiga
glaciação são amplamente distribuídas. Se não podemos supor
deslocamentos da crosta, temos que encontrar outra maneira de
explicar o motivo por que as calotas de gelo parecem ter chegado ao
nível do mar nos trópicos de três continentes: Ásia, África e Austrália.
A solução de Charles Hapgood para o problema é simples,
extraordinariamente elegante e, de maneira nenhuma, um insulto ao
bom senso:
A única Era Glacial cabalmente explicada é a atual, na Antártida. E
explicada de maneira excelente. Ela existe, claro, porque a Antártida
se situa no pólo, e por nenhuma outra razão. Nenhuma variação no
calor do sol, nenhuma poeira galáctica, nenhum vulcanismo, nenhuma
corrente subcrostal e nenhum arranjo de sobrelevaçães de terras ou
correntes marítimas explicam o fato. Podemos concluir que a melhor
teoria para explicar uma Era Glacial é que a área em causa se situa
no pólo. Dessa maneira, explicamos os lençóis de gelo na Índia e
África, embora as áreas outrora ocupadas por eles estejam agora nos
trópicos. Explicamos da mesma maneira todos os lençóis de gelo de
tamanho continental.
A lógica é cerrada a ponto de ser quase irrefutável. Ou aceitamos que
a calota da Antártida é o primeiro lençol de gelo de tamanho
continental jamais situado em um pólo - o que parece improvável - ou
somos obrigados a supor que o deslocamento da crosta terrestre, ou
um mecanismo semelhante, deve ter estado em ação.
Memórias do Amanhecer Polar?
Nossos ancestrais podem ter preservado, em suas tradições mais
antigas, memórias de um deslocamento. Vimos algumas delas na
Parte IV: mitos de cataclismos que parecem ser depoimentos de
testemunhas oculares de uma série de calamidades geológicas que
acompanharam o fim da última Era Glacial no hemisfério Norte. Mas
há também outros mitos que talvez nos tenham chegado de uma
época entre 15.000 e 14.000 anos a.C. Entre estes, há vários que
falam de terras de deuses e de antigos paraísos, todos os quais são
descritos como estando no sul (como, por exemplo, o Ta Neteru dos
egípcios) e muitos deles parecem ter passado por condições polares.
O grande poema épico indiano, o Mahabaratha, fala do monte Meru, a
terra dos deuses:
No Meru, o sol e a lua giram da esquerda para a direita, todos os dias,
e o mesmo fazem todas as estrelas. (...) A montanha, por seu brilho,
ofusca de tal modo a escuridão da noite que dificilmente se pode
distinguir a noite do dia. (...) O dia e a noite são, juntos, iguais à um
ano para os residentes no local. (...)
Analogamente, como o leitor recordará pelo que leu no Capítulo 25,
Airyana Vaejo, o paraíso mítico e antiga terra natal dos arianos
avésticos do Irã, parece ter sido tornada inabitável pelo início súbito de
glaciação. Anos mais tarde, era comentada como um lugar no qual "as
estrelas, a lua e o sol são vistos nascer e se pôr apenas uma vez por
ano e um ano parece apenas um dia”.
No Surya Siddhantai, um antigo texto indiano, lemos: "Os deuses
contemplam o sol, após ter ele nascido, durante metade de um ano." A
sétima mandala do Rigveda contém certo número de hinos ao
“Amanhecer". Um deles (VII, 76) diz que o amanhecer desfraldou sua
bandeira no horizonte com seu habitual esplendor, e acrescenta, no
versículo 3, que um período de vários dias passou entre o primeiro
aparecimento do amanhecer e o nascer do sol que o seguiu. Outra
passagem diz que "muitos foram os dias entre os primeiros raios do
amanhecer e o nascer real do sol".
Seriam essas palavras depoimentos de testemunhas oculares de
condições polares?
Embora jamais possamos ter certeza, talvez seja relevante saber que,
na tradição indiana, os Vedas são considerados como textos
revelados, transmitidos desde o tempo dos deuses. Talvez seja
também relevante que ao descrever os processos de transmissão de
herança cultural todas as tradições se refiram a pralayas (cataclismos)
que se abateram sobre o mundo e alegam que, em todos eles, as
escrituras foram fisicamente destruídas. Após cada destruição, porém,
sobrevivem certos Rishis ou "homens sábios" que voltam a promulgar,
no início de cada nova era, o conhecimento por eles herdado, como
responsabilidade sagrada, recebida por seus antepassados na era
precedente... Todas as manvantaras, ou eras, portanto, têm um Veda
próprio, que difere apenas na forma e não no sentido, do Veda
antediluviano.
Uma Época de Tumulto e Trevas
Como sabe todo geógrafo implume, o norte verdadeiro (o pólo Norte)
não é exatamente a mesma coisa que o norte magnético (a direção
para onde apontam os ponteiros da bússola). Na verdade, o pólo norte
magnético se situa atualmente no norte do Canadá, a cerca de 11
graus do verdadeiro pólo Norte. Progressos recentes no estudo do
paleomagnetismo provaram que a polaridade magnética da terra
inverteu-se mais de 170 vezes nos últimos 80 milhões de anos...
O que causa essas inversões de campo?
Enquanto ensinava na Universidade de Cambridge, o geólogo S.K.
Runcorn publicou um artigo na Scientific American, onde apresentou
um argumento pertinente:
Parece não haver dúvida de que o campo magnético da terra está
vinculado de alguma maneira à rotação do planeta. E este fato leva a
uma descoberta notável sobre a própria rotação... [A conclusão
inevitável é que] o eixo de rotação muda também. Em outras palavras,
o planeta rolou sobre si mesmo, mudando a localização dos pólos
geográficos.
Runcorn parece estar imaginando uma mudança de 180 graus dos
pólos, quando a terra literalmente caía - embora interpretações
paleomagnéticas semelhantes resultassem de um deslizamento da
crosta sobre os pólos geográficos. De qualquer maneira, as
conseqüências para a civilização e, na verdade, para toda vida seriam
inimaginavelmente terríveis.
Claro, Runcorn pode estar enganado. Talvez inversões de campo
possam ocorrer na ausência de outras sublevações.
Mas também pode ter razão.
De acordo com artigos publicados nas revistas Nature e New Scientist,
a última inversão geomagnética foi completada há apenas 12.400
anos - durante o undécimo milênio a.C.
Este foi, claro, o próprio milênio em que a antiga civilização de
Tiahuanaco, nos Andes, parece ter sido destruída. O mesmo milênio
caracterizou-se pelos alinhamentos e projetos de construção de
grandes monumentos astronômicos no platô de Gizé, e pelos padrões
de erosão na Esfinge. E foi no undécimo milênio a.C. que fracassou
de repente o "precoce experimento agrícola" do Egito. De igual
maneira, foi nesse milênio que inúmeras espécies de grandes
mamíferos em todo o mundo desapareceram, extintos. E a lista
poderia continuar: elevações abruptas do nível do mar, ventos com
força de furacões, tempestades elétricas, perturbações vulcânicas,
etc.
Cientistas esperam que a próxima inversão dos pólos magnéticos da
terra ocorra por volta do ano 2030 d.C.
Será isso um prenúncio de calamidade planetária? Depois de 12.500
anos de pêndulo, estará o martelo novamente pronto para bater?
Prova 11
Yves Rocard, professor da Faculdade de Ciências de Paris, escreveu:
"Nossos sismógrafos modernos são sensíveis a 'ruído' de agitação
limitada em todos os pontos da terra, mesmo na ausência de qualquer
onda sísmica. Nesse ruído podemos discernir uma vibração criada
pelo homem (como, por exemplo, um trem a quatro quilômetros de
distância, ou uma grande cidade a dez quilômetros) e também um
efeito atmosférico (a pressão mutável do vento sobre o solo) e, às
vezes, registra também os efeitos de grandes tempestades distantes.
Ainda assim, permanece um ruído contínuo de rolamento, de estalidos
na terra, que nada devem a qualquer uma dessas causas..."
Prova 12
"O pólo Norte moveu-se três metros na direção da Groenlândia, ao
longo do meridiano de 45 graus Oeste de longitude, durante o período
de 1900 a 1960 (...) uma taxa de seis centímetros ao ano. [Entre 1900
e 1968, contudo], o pólo moveu-se em cerca de 6m, a uma taxa de
cerca de 10cm ao ano. (...) Se as duas observações foram precisas,
como temos todo direito de esperar, à vista do renome dos cientistas
envolvidos, temos aqui prova de que a litosfera pode estar em
movimento nos tempos presentes [e que está experimentando] uma
aceleração geométrica da taxa de movimento..."
Prova 13
USA Today, quarta-feira, 23 de novembro de 1994, p. 9D:
"INTERATIVO NA ANTÁRTIDA: Estudantes Estabelecem link com
Cientistas no pólo Sul”:
"Uma irradiação ao vivo de longa distância a partir do pólo Sul,
destacando Elizabeth Felton, uma estudante de graduação de 17 anos
de uma escola pública de Chicago, ocorrerá no dia 10 de janeiro.
Felton usará dados do US Geological Survey para reposicionar o
marco de cobre que mostra o pólo Sul geográfico da Terra, a fim de
compensar o deslizamento anual do lençol de gelo."
Será apenas o lençol de gelo que está deslizando ou toda a crosta
terrestre está em movimento? E isso foi apenas um "projeto de
educação interativa diferente", que ocorreu no dia 10 de janeiro de
1995, ou estaria Elizabeth Felton, sem saber, documentando a
aceleração geométrica contínua da taxa de movimento da crosta?
Cientistas não pensam assim. Conforme veremos no último capítulo,
contudo, o próximo século está destinado a presenciar a convergência
notável de antigas profecias e crenças tradicionais, como uma época
de agitação e trevas sem precedentes, na qual a injustiça será
silenciosamente eliminada e o Quinto Sol e o Quarto Mundo chegarão
ao fim...
Prova 14
Kobe, Japão, terça-feira, 17 de janeiro de 1995: ''A subitaneidade com
que o terremoto começou foi quase cruel. Num momento, dormíamos
a sono solto, um instante depois,o chão - todo o prédio - transformou-se em geléia. Mas não um suave movimento ondulatório líquido. Foi
um estremecimento que abalou, revirou as entranhas da gente, de
proporções assombrosas...
Você está na cama, o lugar mais seguro do mundo. Sua cama está no
chão, no que você costumava considerar como chão sólido. E, sem
aviso, o mundo se transforma em uma apavorante corrida numa
montanha-russa e a gente quer descer.
"Possivelmente, a pior parte é o som. Não é o ribombo surdo do
trovão. Este som é ensurdecedor, um rugido, vindo de toda parte e de
parte nenhuma, e parece o fim do mundo." (Depoimento de
testemunha ocular do terremoto de Kobe, reportagem de Dennis
Kessler, Guardian, Londres, 18 de janeiro de 1995. O terremoto durou
20 segundos, atingindo 7,2 na escala Richter, e matou mais de 5.000
pessoas.)
CAPÍTULO 52
Como um Ladrão na Noite
Há no mundo certas estruturas, certas idéias, certos tesouros
intelectuais realmente misteriosos.Estou começando a desconfiar que
a raça humana pode ter se colocado em grave risco ao deixar de
considerar as implicações desses mistérios.
Temos a capacidade, única no reino animal, de aprender com as
experiências de nossos predecessores. Após Hiroshima e Nagasaki,
por exemplo, duas gerações chegaram à vida adulta bem-informadas
da destruição horripilante desencadeada por armas nucleares. Nossos
filhos terão também consciência desse fato, sem tê-los experimentado
diretamente, e passarão esses dados aos filhos. Teoricamente,
portanto, o conhecimento do que bombas atômicas podem fazer
tornou-se parte da herança histórica permanente da humanidade. Se
resolvemos ou não tirar proveito dessa herança é problema nosso.
Não obstante, o conhecimento existe, se quisermos usá-lo, porque foi
preservado e transmitido em registros escritos, em filmes, em pinturas
alegóricas, em memoriais a vítimas da hecatombe, e assim por diante.
Não se atribui a todos os depoimentos oriundos do passado, porém, o
mesmo status concedido a Hiroshima e Nagasaki. Muito ao contrário,
tal como a Bíblia canônica, o corpo de conhecimentos que
denominamos de "História” é um artefato cultural revisto e modificado,
do qual muita coisa ficou de fora. Em particular, referências a
experiências humanas anteriores à invenção da escrita, há cerca de
5.000 anos, foram omitidas em sua totalidade e mito transformou-se
em sinônimo de fantasia.
Mas, e se os mitos não são nada disso?
Suponhamos que um terrível cataclismo se abatesse hoje sobre a
terra, obliterando as realizações de nossa civilização e matando quase
todos nós. Suponhamos, para parafrasear Platão, que fomos forçados
por esse cataclismo a "recomeçar como crianças, em ignorância
completa do que aconteceu antes". Nessas circunstâncias, dentro de
10 ou 12 mil anos a partir de agora (tendo sido destruídos há muito
tempo todos os textos e filmes), que depoimentos poderiam nossos
descendentes ainda preservar, a respeito do que aconteceu nas
cidades de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945 da era cristã?
É fácil imaginar que eles poderiam falar em termos místicos de
explosões que desprenderam "um terrível clarão" e um "imenso calor".
Nem ficaríamos surpresos demais ao descobrir que talvez tivessem
formulado uma versão "mítica" do caso, mais ou menos nos seguintes
termos:
As chamas dos mísseis carregados de Brahmastra misturaram-se
entre si e, cercados por flechas de fogo, cobriram a terra, céu e
espaço e aumentaram a conflagração como se fosse o fogo e o Sol no
fim do mundo... Todos os seres que foram queimados pelos
Brahmastras, e viram o fogo terrível de seus mísseis, pensaram que
era o fogo da Pralaya (o cataclismo) que queimava e destruía o
mundo.
E o que dizer do Enola Gay que transportou a bomba que destruiu
Hiroshima? Como poderiam nossos descendentes lembrar a estranha
aeronave e esquadrões de outras iguais a ela que coalharam os céus
do planeta como se fossem enxames de abelhas durante o século XX.
da era cristã? Não seria possível, provável mesmo, que eles
pudessem preservar tradições de "carros celestes" e "carruagens
celestiais", "grandes máquinas voadoras" e mesmo "cidades aéreas".
Se fizessem isso, eles talvez falassem de tais maravilhas em termos
míticos como os seguintes:
. Oh, tu, Uparicara Vasu, a grande máquina voadora virá a teu
encontro - e tu apenas, entre todos os mortais, sentado nesse veículo,
parecerás uma divindade.
. Visvakarma, o arquiteto dos deuses, construiu veículos aéreos para
eles.
. Oh, tu, descendente dos Kurus, aquele ser perverso chegou naquele
veículo voador, que por toda parte vai, conhecido como Saubhapura,
e me trespassou com armas.
. Ele penetrou no palácio divino favorito de Indra e viu milhares de
veículos voadores destinados aos deuses, que nesse momento
repousavam.
. Os deuses chegaram em seus respectivos veículos voadores para
presenciar a batalha entre Kripacarya e Arjuna. Até Indra, o Senhor do
Céu, veio em um tipo especial de veículo voador, que podia acomodar
33 seres divinos.
Todas essas citações foram tiradas do Bhagavata Purana e do
Mahabaratha, duas gotas no oceano da literatura de sabedoria antiga
do subcontinente indiano. E essas imagens são repetidas em muitas
outras tradições arcaicas. Para dar um único exemplo (conforme
vimos no Capítulo 42), os Textos da Pirâmide estão repletos de
imagens anacrônicas de vôo:
O Rei é uma chama, movendo-se à frente do vento até o fim do céu e
da terra (...) O Rei viaja pelo ar através da terra... A ele foi dada uma
maneira de subir ao céu. (...)
Será possível que as referências constantes nas literaturas arcaicas a
algo como a aviação possam ser depoimentos históricos válidos,
sobre as realizações de uma era tecnológica esquecida e remota?
Jamais saberemos, a menos que tentemos descobrir. E até agora não
tentamos, porque nossa cultura racional, científica, considera mitos e
tradições como "não-históricos" .
Sem a menor dúvida, muitos deles são não-históricos, mas, ao fim da
pesquisa que embasa este livro, tenho certeza de que muitos outros
não são...
Para o Benefício de Futuras Gerações da
Humanidade
Vejamos o cenário seguinte:
Suponhamos que calculamos, na base de prova sólida e além de
qualquer sombra de dúvida, que nossa civilização está prestes a ser
obliterada por um cataclismo geológico de proporções colossais - um
deslocamento de 30° na crosta terrestre, por exemplo, ou uma colisão,
de frente, com um asteróide de ferro-níquel, de uns 16km de diâmetro,
que vem em nossa direção a uma velocidade cósmica.
Claro, no início haveria grande pânicoe desespero. Não obstante - se
houvesse aviso antecipado suficiente -, medidas seriam tomadas para
assegurar que haveria alguns sobreviventes e que parte do que é
mais valioso em nossos altos conhecimentos científicos seria
preservada para o benefício de futuras gerações.
Estranhamente, o historiador judeu Josephus (em obra escrita no
século I d.C.) atribui exatamente esse comportamento aos habitantes
inteligentes e prósperos do mundoantediluviano, que viveram antes
do Dilúvio, "em um estado de felicidade, sem que nenhum infortúnio
os atingisse".
Eles foram também os inventores daquele tipo peculiar de sabedoria
que se interessa pelos corpos celestes e sua ordem. E para que suas
invenções não fossem perdidas - de acordo com a profecia de Adão,
de que o mundo seria destruído uma vez pela força do fogo e em
outra pela violência e quantidade da água - eles construíram dois
pilares, um de tijolo e o outro de pedra: em ambos inscreveram suas
descobertas, de modo que, no caso de o pilar de tijolos ser destruído
pelo Dilúvio, o pilar de pedra poderia continuar intacto e mostrar-lhes
as descobertas à humanidade e também informá-la de que havia outro
pilar de tijolos, também por eles erigido...
De igual maneira, quando John Greaves, astrônomo de Oxford, visitou
o Egito no século XVII, ele compilou tradições locais antigas, que
atribuíam a construção das três pirâmides de Gizé a um mítico rei
antediluviano:
Isso aconteceu porque ele viu em sonho que toda a terra era virada de
cabeça para baixo, com os habitantes estatelados de bruços no chão
e as estrelas caindo e se chocando com um barulho terrível. (...)
Acordou tomado de grande medo e reuniu os principais sacerdotes de
todo o Egito. (...) Contou-lhes o sonho, eles mediram a altitude das
estrelas, fizeram seus prognósticos e previram um dilúvio. O rei
perguntou: o dilúvio atingirá nosso país? Eles responderam que sim e
que o destruiria. Mas restava ainda certo número de anos e ele
ordenou que, nesse espaço de tempo, fossem construídas as
pirâmides... E gravou nelas tudo que era dito pelos sábios, como
também todas as ciências profundas- as ciências da astrologia, da
aritmética, da geometria e da física. Tudo isso poderá ser interpretado
por aquele que reconhecer seus caracteres e linguagem...
Tomada pelo valor aparente, a mensagem desses dois mitos parece
meridianamente clara: certas misteriosas estruturas em torno do
mundo foram construídas para preservar e transmitir os
conhecimentos de uma civilização avançada da antiguidade remota,
que foi destruída por uma terrível calamidade.
Poderia ter isso acontecido? E de que modo devemos interpretar
outras estranhas tradições, que nos chegaram da escuridão da arca
da pré-história?
De que modo devemos interpretar, por exemplo, o Popol Vuh, que fala
em linguagem velada de um grande segredo do passado humano:
uma idade áurea, há muito esquecida, quando tudo era possível - um
tempo mágico de progresso científico e iluminismo, quando os
"Primeiros Homens" ("dotados de inteligência não apenas “mediram a
face redonda da terra”, mas “examinaram os quatro pontos do arco do
céu".
Como os leitores devem lembrar-se, os deuses ficaram ciumentos
com o rápido progresso feito por esses humanos novos-ricos, que
haviam "conseguido ver, conseguido saber, tudo o que há no mundo".
Rapidamente, caiu a vingança divina: "O coração do céu soprou
nevoeiro nos olhos dos homens. (...) Dessa maneira, toda sabedoria e
todo conhecimento da origem deles e de seu início [juntamente com a
recordação que deles tinham] foram destruídos".
O segredo do que aconteceu, porém, nunca se perdeu inteiramente,
porque um registro desses distantes Primeiros Tempos foi preservado,
até a chegada dos espanhóis, nos textos sagrados do Popol Vuh
original. Os abusos cometidos durante a conquista tornaram
necessário que esse documento primordial fosse escondido de todos,
com exceção dos sábios mais altamente iniciados, e substituído por
um texto aguado, escrito "de acordo com a lei do cristianismo": "Não
pode ser mais visto o livro do Popol Vuh, que os reis possuíam nos
tempos antigos. (...) O livro original, escrito há muito tempo, existia -
mas, nesse momento, vê-lo era proibido ao buscador e ao pensador...”
No outro lado do mundo, entre os mitos e tradições do subcontinente
indiano, encontramos outras indicações intrigantes de segredos
ocultos. Na versão Puranica da história universal do dilúvio, lemos
que, pouco antes de começar a inundação, o deus-peixe Vishnu
avisou a seu protegido humano que ele "devia esconder as Escrituras
Sagradas em lugar seguro, a fim de preservar da destruição os
conhecimentos das raças antediluvianas". De idêntica maneira, na
Mesopotâmia, a figura equivalente a Noé, Utnapishtim, recebeu
instruções da deusa Ea para "levar o começo, o meio e o fim de tudo
que foi consignado na escrita e, em seguida, enterrá-los na Cidade do
Sol, em Sippara”. Quando desapareceram as águas, os sobreviventes
receberam instruções para se dirigirem à Cidade do Sol e "procurar os
escritos", que descobririam que continha conhecimentos que seriam
úteis às futuras gerações da humanidade.
Curiosamente, foi a Cidade do Sol no Egito, Innu, conhecida pelos
gregos como Heliópolis, a mesma que veio a ser considerada durante
todo o período dinástico como fonte e centro da alta sabedoria legada
aos mortais pelos fabulosos deuses dos Primeiros Tempos. E foi em
Heliópolis que ocorreu a compilação dos Textos da Pirâmide e coube
aos sacerdotes da cidade - ou melhor, doculto que aí se praticava - a
custódia dos monumentos da necrópole de Gizé.
Mais do que um Simples "Kilroy Esteve Aqui”
Mas voltemos ao nosso cenário:
1. Sabemos que nossa civilização do século XX, pós-industrial, está
prestes a ser destruída por um inescapável cataclismo cósmico ou
geológico;
2. Sabemos - porque nossa ciência é muito competente - que a
destruição vai ser quase total;
3. Mobilizando recursos tecnológicos maciços, pomos nossas
melhores mentes para trabalhar, a fim de garantir que, pelo menos,
um resto de nossa espécie sobreviverá à catástrofe, e que o núcleo de
nossos conhecimentos científicos, médicos, astronômicos,
geográficos, arquitetônicos e matemáticos será preservado;
4. Sabemos bem, claro, que são escassas nossas possibilidades de
ter sucesso em ambas as coisas. Não obstante, galvanizados pela
perspectiva de destruição, fazemos um esforço imenso para construir
as Arcas ou as Vars, ou espaços fechados impregnáveis, nos quais os
sobreviventes escolhidos possam ser protegidos, e concentramos
nossa grande engenhosidade em maneiras de transmitir às futuras
gerações a essência dos conhecimentos que acumulamos durante os
5.000 anos de nossa história documentada.
Começamos a nos preparar para o pior. Damos por certo que haverá
sobreviventes, mas que serão jogados pelo cataclismo de volta à
Idade da Pedra. Compreendendo que serão necessários de dez a
doze mil anos para que uma civilização tão avançada quanto a nossa
ressurja das cinzas, como a Fênix, uma de nossas maiores
prioridades será descobrir uma maneira de nos comunicarmos com
essa suposta futura civilização. Pelo menos, gostaríamos de lhe dizer
KILROY ESTEVE AQUI! e ter a certeza de que ela recebeu a
mensagem, qualquer que seja a língua que fale ou que tendências
éticas, religiosas, ideológicas, metafísicas ou filosóficas sua sociedade
possa exibir.
Tenho certeza de que gostaríamos de dizer mais do que apenas
"Kilroy esteve aqui!". Gostaríamos, por exemplo, de dizer a ela - a
esses nossos distantes netos - quando nós vivemos, em relação a
seus tempos.
De que maneira poderíamos fazer isso? De que maneira diríamos,
digamos, "ano 2012 d.C. da era cristã", em uma linguagem
suficientemente universal para ser decifrada e compreendida dentro
de doze mil anos por uma civilização que nada saberia da era cristã
ou de quaisquer outras eras através das quais expressamos a
cronologia histórica?
Uma solução óbvia seria usar a bela previsibilidade da precessão axial
da terra, que produz o efeito de lenta e regularmente alterar a
declinação de todo o campo estelar, em relação a um observador que
esteja em um ponto fixo e que, com igual lentidão e regularidade,
muda o ponto equinocial em relação àsdoze constelações do zodíaco.
A vista da previsibilidade desse movimento, segue-se que, se
conseguirmos descobrir uma maneira de declarar, NÓS VIVEMOS
QUANDO O EQUINÓCIO VERNAL SE ENCONTRAVA NA
CONSTELAÇÃO DE PEIXES, propiciaremos a eles um meio de
especificar nossa época dentro deum único período de 2.160 anos
em cada grande ciclo precessional de 25.920 anos.
O único problema com esse plano seria se uma civilização equivalente
à nossa não surgisse dentro de 12.000 ou mesmo 20.000 anos após o
cataclismo, mas levasse muito mais tempo -, talvez até 30.000 anos.
Neste caso, um monumento ou criação que servisse de calendário,
declarando "nós vivemos quando o equinócio vernal estava na
constelação de Peixes", não seria mais inequívoco. Se descoberta por
uma cultura adiantada que esteja florescendo no próprio início da
futura Era de Sagitário, por exemplo, a mensagem poderia ser
interpretada como dizendo "nós vivemos 4.320 anos antes do tempo
de vocês" - isto é, dois "meses" precessionais completos antes da Era
de Sagitário (os 2.160 anos - "meses" de Aquário e Capricórnio). Mas
poderia também significar "Nós vivemos há 30.420 anos antes do
tempo de vocês", isto é, aqueles dois "meses" mais todo o ciclo
precessional prévio de 25.920 anos. Os arqueólogos sagitarianos
teriam não só que dar tratos à bola para decifrar o significado da
mensagem (isto é, NÓS VIVEMOS QUANDO O EQUINÓCIO
VERNAL ESTAVA EM PEIXES), mas precisariam decidir, à vista de
outras pistas, em que Era de Peixes tínhamos vivido: a mais recente,
ou seja, a do ciclo precessional prévio, ou talvez até mesmo no ciclo
anterior ao mesmo.
A geologia seria naturalmente útilpara que fossem formados esses
vastos juízos de valor...
Os Civilizadores
Se pudéssemos descobrir uma maneira de dizer NÓS VIVEMOS NA
ERA DE PEIXES, e especificar a altitude acima do horizonte de certas
estrelas identificáveis em nossa própria época (digamos, os bem
visíveis cinturões estelares da constelação de Órion), teríamos como
sinalizar, com maior precisão, nossas datas para futuras gerações.
Alternativamente, quem sabe, agir como os construtores das
pirâmides de Gizé e dispor nossos monumentos em um padrão no
solo que refletisse exatamente o padrão das estrelas em nosso tempo.
Haveria várias outras opções e combinações de opções ao nosso
dispor, dependendo das circunstâncias, do nível de tecnologia
disponível, da extensão do aviso antecipado que recebemos e dos
fatos cronológicos que gostaríamos de transmitir a futuras gerações.
Suponhamos, por exemplo, que não houvesse tempo para fazer os
preparativos necessários antes da catástrofe. Suponhamos que a
calamidade, como o "Dia do Senhor", em 2 Pedro, capítulo 3, se
aproximasse sorrateiro como "um ladrão na noite?". Que perspectiva a
humanidade enfrentaria?
Fosse o resultado do choque de um asteróide, do deslocamento da
crosta terrestre, ou de qualquer outra causa cósmica ou geológica,
vamos supor o seguinte:
1. Devastação maciça em todo o mundo;
2. Sobrevivência de apenas relativamente poucos indivíduos, a
maioria dos quais voltaria rapidamente à barbárie;
3. A presença, entre os sobreviventes, de uma minoria de visionários
bem organizados - incluindo mestres-construtores, cientistas,
engenheiros, cartógrafos, matemáticos, médicos e outros especialistas
- que se dedicassem a salvar o que pudessem e descobrir maneiras
de transmitir seus conhecimentos ao futuro, para benefício dos que
pudessem finalmente compreendê-los.
Chamemos a esses hipotéticos visionários de "os civilizadores".
Reunindo-se eles, no início, para sobreviver e mais tarde para ensinar
e compartilhar idéias - eles poderiam assumir algo parecido com os
sistemas de conduta e crenças de um culto religioso, desenvolvendo
um claro sentido de missão e de identidade comum. Sem dúvida,
usariam poderosos e facilmente reconhecíveis símbolos para reforçar
e expressar esse senso de finalidade comum: os homens poderiam
usar barba característica, por exemplo, raspar a cabeça, ou então
adotar certas imagens arquetípicas como a cruz, a serpente e o cão,
que poderiam ser usadas para ligar entre si os membros do culto,
quando partissem em suas missões civilizatórias para reacender as
lâmpadas do conhecimento em todo o mundo.
Desconfio que, se a situação fosse realmente péssima após o
cataclismo, muitos civilizadoresfracassariam ou teriam apenas
sucesso limitado. Mas vamos supor que um pequeno grupo tinha a
perícia e a dedicação necessárias para criar uma cabeça-de-ponte
duradoura e estável, talvez em uma região que tivesse sofrido
relativamente poucos danos. Vamos supor ainda que alguma outra
calamidade inesperada ocorresse - um choque secundário ou uma
série desses choques, talvez decorrentes da catástrofe inicial - e que a
cabeça-de-ponte fosse quase inteiramente destruída.
O que poderia acontecer em seguida? O que poderia ser salvo dos
escombros de um culto de sabedoria que fora também salvo de um
desastre ainda mais grave?
Transmitindo a Essência
Se certas as circunstâncias, parece possível que a essência do culto
pudesse sobreviver, ser levada adiante por um núcleo de homens e
mulheres decididos. Desconfio também que, com a devida motivação
e técnicas de doutrinação, além de um meio para recrutar novos
membros entre os habitantes locais semi-selvagens, tal culto poderia
perpetuar-se quase que indefinidamente. Mas isso só aconteceria se
seus membros (como os judeus que esperam pelo Messias)
estivessem dispostos a ter paciência, durante milhares e milhares de
anos, até ter certeza de que chegara o momento de se revelarem.
Se fizessem isso, e se seu objetivo sagrado fosse realmente preservar
e transmitir conhecimentos a alguma civilização futura evoluída, é fácil
imaginar que os membros do culto poderiam ser descritos em termos
semelhantes aos que foram usados pelo deus egípcio da sabedoria,
Thoth, que teria conseguido compreender os mistérios dos céus [e os
ter] revelado ao consigná-los em livros sagrados, que em seguida
escondeu aqui na terra, querendo que eles fossem procurados por
gerações futuras, mas encontrados apenas pelos realmente justos.
(...)
O que poderiam ter sido os misteriosos "livros de Thoth"? Seria
necessário crer que todas as informações que eles supostamente
continham teriam que ser transmitidas sob a forma de livro?
Não valeria a pena especular, por exemplo, se os professores de
Santillana e Von Dechend não teriam merecido seu lugar entre os
"realmente justos" quando decodificaram a linguagem científica
avançada encerrada nos grandes mitos universais sobre a precessão?
Ao fazer isso, não seria possível que tivessem tropeçado por acaso
em um dos metafóricos "livros" de Thoth e lido a ciência antiga
gravada em suas páginas?
De igual maneira, o que dizer das descobertas de Posnansky em
Tiahuanaco e dos mapas de Hapgood? E o que dizer ainda da nova
compreensão que está surgindo sobre a antiguidade geológica da
Esfinge de Gizé? O que dizer das perguntas inspiradas pelos blocos
gigantescos usados na construção dos Templos do Vale e do
Mortuário? O que dizer dos segredos que estão sendo extraídos, um
após outro, dos alinhamentos astronômicos, dimensões e câmaras
secretas das pirâmides?
Se essas, também, são leituras dos metafóricos livros de Thoth,
pareceria que os números dos "realmente justos" estão aumentando e
que novas e ainda mais surpreendentes revelações podem estar
prestes a surgir...
Voltando rapidamente, e pela última vez, ao nosso cenário em
evolução:
1. No início do século XXI de nossa Era Cristã, próximo dos momentos
culminantes das Eras de Peixes e de Aquário, a civilização, como a
conhecemos, é destruída;
2. Entre os sobreviventes, algumascentenas ou alguns milhares de
indivíduos se reúnem, a fim de preservar e transmitir os frutos dos
conhecimentos científicos de sua cultura a um futuro distante e
incerto;
3. Esses civilizadores se dividem em pequenos grupos e se espalham
pelo globo;
4. De modo geral, fracassam e morrem. Não obstante, em certas
áreas, alguns conseguem, de fato, deixar uma impressão cultural
duradoura;
5. Após milhares de anos - e, talvez, depois de várias tentativas
infrutíferas -, um ramo do culto de sabedoria inicial influencia o
surgimento de uma civilização plenamente desenvolvida...
Claro, o paralelo desta última categoria seria, mais uma vez,
encontrado no Egito. Sugiro seriamente a hipótese, para ser
submetida a testes ulteriores, de que um culto de sabedoria científico,
constituído de sobreviventes de uma grande civilização marítima
perdida, poderia, talvez, ter se estabelecido no Vale do Nilo em data
tão remota quanto o décimo quarto milênio a.C. O culto, baseado em
Heliópolis, Gizé e Abidos, e talvez também em outros centros, teria
iniciado a antiga revolução agrícola no Egito. Mais tarde, contudo,
assolados pelas imensas inundações e outras perturbações da terra,
que ocorreram no undécimo milênio a.C., o culto teria sido obrigado a
cortar suas perdas e retirar-se, até que o caos da Era Glacial
passasse - jamais sabendo se sua mensagem sobreviveria a
subseqüentes eras de trevas.
Nessas circunstâncias, a hipótese sugere que um enorme e ambicioso
projeto de construção poderia ter sido uma das maneiras através das
quais os membros do culto poderiam preservar e transmitir
informações científicas ao futuro, independentemente de sua
sobrevivência física. Em outras palavras, se as estruturas fossem
suficientemente grandes, capazesde durar através de períodos
imensos de tempo e codificadas extensamente com a mensagem do
culto, haveria esperança de que ela pudesse ser decodificada em
alguma data futura, mesmo que o culto tivesse deixado há muito
tempo de existir.
A hipótese sugere que as enigmáticas estruturas existentes no platô
de Gizé significam o seguinte:
1. Que a Grande Esfinge é, como argumentamos em capítulos
anteriores, um marco equinocial da Era do Leão, indicando uma data,
em nossa cronologia, entre os anos 10970 e 8810 a.C.;
2. Que as três principais pirâmides foram construídas em relação ao
Vale do Nilo, a fim de reproduzir as posições exatas das três estrelas
do cinturão de Órion em relação ao curso da Via Láctea, no ano 10450
a.C.
Usar o fenômeno da precessão, descrito corretamente como "o único
relógio preciso de nosso planeta”, foi uma maneira muito eficaz de
"especificar" a época do undécimo milênio a.C. Estranhamente,
porém, sabemos também que a Grande Pirâmide contém chaminés
estelares "amarradas" no cinturão de Órion e em Sírius, na situação
em que esses corpos celestes estariam no ano 2450 a.C. A hipótese
soluciona a anomalia dos anos perdidos, ao supor que as chaminés
estelares foram simplesmente trabalho posterior do mesmo duradouro
culto, que inicialmente plotara a disposição das estruturas de Gizé no
ano 10450 a.C. Naturalmente, a hipótese sugere também que coube
ao mesmo culto, por volta do fim desses 8.000 anos perdidos, fornecer
a fagulha inicial do aparecimento súbito e "inteiramente formado" da
civilização histórica letrada do Egito dinástico.
O que sobra ainda como objeto de palpites são os motivos dos
construtores das pirâmides, que foram presumivelmente os mesmos
indivíduos que os misteriosos cartógrafos que mapearam o globo em
fins da última Era Glacial no hemisfério Norte. Se assim, poderíamos
também perguntar por que esses arquitetos e navegadores altamente
civilizados e tecnicamente adiantados viviam obcecados em mapear a
glaciação gradual do enigmático continente sul, a Antártida, desde o
décimo quarto milênio a.C. - época em que, segundo cálculos de
Hapgood, foram desenhados os mapas básicos mencionados por
Phillipe Buache - até cerca de fins do quinto milênio a.C.?
Poderiam estar eles fazendo um registro cartográfico permanente da
obliteração lenta de sua terra natal?
E poderia o desejo irresistível deles, de transmitir uma mensagem ao
futuro através de uma grande variedade de meios de expressão -
mitos, mapas, estruturas, sistemas de calendário, harmonias
matemáticas -, estar ligado aos cataclismos e mudanças na terra que
causaram essa perda?
Uma Missão Urgente
O conhecimento e domínio de uma história bem concatenada constitui
uma das faculdades que distingue os seres humanos dos animais. Ao
contrário de ratos, digamos, ou de ovelhas, vacas, ou faisões, temos
um passado separado de nós mesmos. Temos, portanto, a
oportunidade, como disse acima, de aprender com as experiências de
nossos predecessores.
Será que, como somos perversos, mal-orientados ou simplesmente
estúpidos, nós nos recusamos a reconhecer essas experiências, a
menos que elas nos cheguem sob a forma de "registros históricos"
bona fide? E será arrogância ou ignorância que nos levam a traçar
uma linha arbitrária, separando "história" de "pré-história" há cerca de
5.000 anos - definindo os registros da "história" como depoimentos
válidos e, os da "pré-história", como ilusões primitivas?
Neste estágio, em pesquisas contínuas, o instinto me diz que
podemos ter nos colocado em perigo aofechar os ouvidos, por tanto
tempo, para as perturbadoras vozes ancestrais que nos chegam sob a
forma de mitos. Trata-se de um sentimento mais intuitivo do que
racional, mas que não é de modo nenhum irracional. A pesquisa
despertou em mim respeito pelo pensamento lógico, a ciência pura, os
insights psicológicos profundos e o vasto conhecimento cosmográfico
dos gênios antigos que formaram esses mitos e que, estou agora
sinceramente convencido, eram descendentes da mesma civilização
perdida que gerou os cartógrafos, os construtores de pirâmides, os
navegantes, os astrônomos, os medidores da terra, cujas impressões
digitais vimos acompanhando através dos continentes e oceanos da
terra.
Uma vez que aprendi a respeitar esses Newtons, Shakespeares e
Einsteins há longo tempo esquecidos e ainda apenas vagamente
identificados da última Era Glacial,acho que seria tolo ignorar o que
eles parecem estar dizendo. E o que parece que nos dizem é o
seguinte: que destruições cíclicas, recorrentes e quase totais da
humanidade são partes integrantes da vida neste planeta, que essas
destruições ocorreram muitas vezes antes e que certamente voltarão
a ocorrer.
O que, afinal de contas, é o notávelsistema de calendário dos maias,
senão um meio para transmitir exatamente essa mensagem? O que,
senão veículos para o mesmo tipo de más notícias, as tradições dos
quatro "Sóis" anteriores (ou, às vezes, dos três "mundos" anteriores)
passados a seus descendentes nas Américas desde tempos
imemoriais? Pela mesma razão, qual poderia ser a função dos
grandes mitos da precessão, que mencionam não só cataclismos
anteriores, mas cataclismos que virão e que (através da metáfora do
moinho cósmico) ligam essas calamidades terrenas a "perturbações
nos céus"? Por último, mas não de menor importância, que ardente
motivo impeliu os construtores das pirâmides a erigir, com tanto
cuidado, os imponentes e misteriosos edifícios do platô de Gizé?
Sim, eles estavam dizendo: "Kilroy esteve aqui.”
E, sim, eles descobriram uma engenhosa maneira de nos dizer
quando estiveram aqui.
Sobre essas coisas, não tenho a menor dúvida.
Impressionou-me também o enorme esforço que fizeram para nos
fornecer prova convincente de que sua civilização era respeitável e
cientificamente adiantada. E ainda maiso senso de urgência - de uma
missão de importância vital que aparentemente lhes inspirou os atos e
obras.
Recorro novamente à intuição, não à prova.
Meu palpite é que o objetivo básico dessa gente pode ter sido
transmitir um aviso ao futuro e que esse aviso tenha a ver com um
cataclismo global, talvez mesmo uma repetição do mesmo cataclismo
que claramente devastou a humanidade ao fim da última Era Glacial,
quando "Noé viu que a terra tinha se inclinado, que sua destruição
estava próxima e gritou em voz aflita: 'Dize-me o que está sendo feito
à terra, porque a terra está tão aflita e abalada.''' Essas palavras são
extraídas do Livro de Enoque, embora aflições e abalos semelhantes
tenham sido previstos em todas as tradições da América Central, que
falam do fim da atual época do mundo - uma época, como o leitor
deve lembrar-se, na qual "os anciãos dizem [que] haverá um grande
movimento da terra e devido ao qual todos nós pereceremos".
O leitor certamente não esqueceu a data calculada pelo antigo
calendário maia para o fim do mundo:
O dia será 4 Ahau 3 Kakin [correspondente a 23 de dezembro de
2012] e será governado pelo Deus Sol, o nono Senhor da Noite. A lua
terá oito dias de idade e será a terceira lunação em uma série de seis.
(...)
No esquema maia das coisas, já estamos vivendo nos últimos dias da
terra.
No esquema cristão das coisas, acredita-se que os últimos dias
também estão próximos. De acordo com a Watch Tower Bible and
Tract Society, da Pensilvânia, Estados Unidos: "Este mundo perecerá
com tanta certeza quanto o mundo de antes do Dilúvio. (...) Foi
profetizado que numerosas coisas ocorreriam durante os últimos dias,
e todas elas estão sendo cumpridas. Isso significa que o fim do mundo
está próximo. (...)"
Analogamente, o vidente cristão Edgar Cayce profetizou, em 1934,
que por volta do ano 2000 ocorreria o seguinte: "Haverá um
deslocamento na posição dos pólos. Haverá sublevações no Ártico e
na Antártida que provocarão erupção de vulcões nas áreas tórridas.
(...) A Europa setentrional será mudada em um abrir e fechar de olhos.
A terra será fendida na região oeste da América. A maior parte do
Japão mergulhará no mar."
Curiosamente, a época do ano 2000,que figura nessas profecias
cristãs, coincide também com o Último Tempo (ou o ponto mais alto)
no grande ciclo ascendente do cinturão de estrelas da constelação de
Órion, da mesma maneira que a época do undécimo milênio a.C.
coincidiu com o Primeiro Tempo (o ponto mais baixo) desse ciclo.
E ainda curiosamente, conforme vimos no Capítulo 28:
Uma conjunção de cinco planetas, que se pode esperar que exerça
profundos efeitos gravitacionais, ocorrerá no dia 5 de maio do ano
2000, quando Netuno, Urano, Vênus, Mercúrio e Marte ficarão
alinhados com a terra, no outro lado do sol, iniciando uma espécie de
cabo-de-guerra cósmico...
Poderiam as influências ocultas da gravidade, quando combinadas
com o bamboleio precessional de nosso planeta, os efeitos de torção
da rotação axial e a massa e peso, em rápido crescimento, da calota
de gelo da Antártida, ser suficientes para desencadear um
deslocamento em grande escala da crosta?
Talvez nunca saibamos, de qualquer maneira - até que isso aconteça.
Enquanto isso, não acredito que o escriba egípcio Manetho estivesse
sendo menos que literal quando falou de um poder cósmico duro e
mortal em ação no universo:
Da mesma forma que é provável que o ferro seja atraído e rebocado
pela magnetita, mas com freqüência ele se solta e é repelido na
direção oposta, o movimento salutar, bom e racional do mundo
simultaneamente atrai, concilia e pacifica esse áspero poder; em
seguida, mais uma vez, quando este último se recupera, derruba o
outro e o reduz à impotência...
Em suma, desconfio que, através de metáforas e alegorias, os antigos
possam ter tentado descobrir numerosas maneiras de nos dizer
exatamente quando - e por quê - o martelo da destruição global
voltará a bater. Por isso mesmo, acredito que, depois de 12.500 anos
de pêndulo, seria apenas sábio de nossa parte se dedicássemos mais
recursos a estudar os sinais e mensagens que nos chegaram daquele
período escuro e apavorante de amnésia que nossa espécie chama
de pré-história.
Uma aceleração da pesquisa física no platô de Gizé seria também
altamente desejável - não apenas feita por egiptólogos determinados a
resistir a qualquer ameaça ao status quo acadêmico, mas por equipes
ecléticas de pesquisadores, que poderiam aplicar algumas das
ciências mais novas aos desafios desse que é o mais enigmático e
impenetrável dos sítios arqueológicos do mundo. A técnica de datação
de rocha à base de cloro-36, mencionada no Capítulo 6, por exemplo,
parece um meio especialmente promissor para resolver o impasse
sobre a antiguidade das Pirâmides e da Esfinge. De igual maneira, se
houver vontade, uma maneira poderá ser encontrada para descobrir o
que se encontra por trás da pequena porta escondida, a uma altura de
60m na chaminé sul da câmara da Rainha. Os mesmos esforços
sérios poderiam ser empreendidos para pesquisar o conteúdo da
grande cavidade de bordas quadradas, e aparentemente feitas pelo
homem, no leito rochoso, bem abaixo das patas da Esfinge, que foi
descoberta ao ser realizado um levantamento sísmico daquele sítio
em 1993.
Por último, mas não de menor importância, muito longe de Gizé,
desconfio que nosso esforço seria bem recompensado se
realizássemos uma investigação bem-feita das paisagens subglaciais
da Antártida - o continente com maior probabilidade de esconder os
restos de uma civilização perdida. Se pudéssemos descobrir o que
destruiu essa civilização, poderíamos ficar em melhor situação para
nos salvar de um destino catastrófico semelhante.
Ao fazer estas últimas sugestões, claro, estou plenamente consciente
de que muitos receberão com desprezo essas idéias e reiterarão a
opinião uniformista de que "todas as coisas continuarão como sempre
foram desde o início da criação". Mas estou também consciente de
que esses "escarnecedores dos últimos dias" são os mesmos que, por
uma ou outra razão, mantêm-se surdos aos depoimentos de nossos
esquecidos ancestrais. Conforme vimos, esses depoimentos parecem
uma tentativa de nos dizer que uma horripilante calamidade, de fato,
se abate de tempos em tempos sobre a humanidade, e que em todas
as ocasiões ela ocorreu subitamente, sem aviso e sem compaixão,
como um ladrão na noite, e que certamente voltará em algum ponto no
futuro, obrigando-nos - a menos que nos preparemos bem - a
recomeçar como crianças órfãs, em ignorância completa de nossa
verdadeira herança.
Andando nos Últimos Dias
Reserva dos Índios hopi, maio de 1994: De um lado a outro das altas
planícies do Arizona, durante dias seguidos, soprou um vento
assolador. Cruzando essas planícies a caminho da minúscula aldeia
de Shungopovi, revisei mentalmente tudo que vira e fizera nos cinco
anos anteriores: viagens, pesquisas, tentativas infrutíferas e becos
sem saída, golpes de sorte, momentos em que todas as coisas se
encaixaram e outros em que pareceu que todas elas iam desmoronar.
Eu havia percorrido uma longaestrada para chegar até aqui,
compreendi muito mais longa doque a via expressa de 460km de
extensão que nos trouxera de Phoenix, a capital do estado, até essas
terras desoladas. Tampouco esperava voltar com qualquer grande
grau de iluminação.
Ainda assim, fazia essa viagem porque se acredita que a ciência da
profecia continua viva entre os hopi, índios moradores de pueblos,
parentes distantes dos astecas do México, e cujos números foram
reduzidos, por atrito e pobreza, há pouco menos de 10.000 almas. Tal
como os antigos maias, cujos descendentes espalhados por toda a
Yucatán estão convencidos de que o fim do mundo chegará no ano
2000 y pico (e pouco), os hopi acreditam que estamos andando nos
últimos dias, com uma espada de Dâmocles geológica pairando sobre
nossa cabeça. De acordo com os mitos desse povo, conforme vimos
no Capítulo 24:
O primeiro mundo foi destruído, como castigo pela maldade humana,
por um fogo consumidor que veio de cima e de baixo. O segundo
mundo terminou quando o globo terrestre caiu de seu eixo e tudo foi
coberto pelo gelo. O terceiro mundo terminou em um dilúvio universal.
O atual mundo é o quarto. Seu destino final dependerá de se ou não
seus habitantes se comportarão de acordo com os planos do Criador.
(...)"
Eu tinha vindo ao Arizona para descobrir se os hopi acreditavam que
estávamos nos comportando de acordo com os planos do Criador...
O Fim do Mundo
O vento assolador, soprando pelos altos platôs, sacudiam e faziam
com que chocalhassem os lados de nossa casa-reboque. Ao meu
lado, Santha, que estivera em todos os lugares comigo, dividindo os
riscos e as aventuras, compartilhando dos altos e baixos. Sentado à
nossa frente, o amigo Ed Ponist, enfermeiro instrumentista de Lansing,
Michigan. Alguns anos antes, Ed trabalhara na reserva durante algum
tempo e era graças a seus contatos que íamos para lá. À minha
direita, Paul Sifki, um ancião hopi de 96 anos de idade, do clã da
Aranha, e porta-voz importante das tradições de seu povo. Ao lado
dele, a neta, Melza Sifki, uma simpática senhora de meia-idade, que
se oferecera como intérprete.
- Ouvi dizer - comecei - que os hopi acreditam que o fim do
mundo está se aproximando. É verdade isso?
Paul Sifki é um homem baixinho, encolhido, de cor de noz, e na
ocasião usava jeans e camisa de cambraia. Durante toda a conversa,
ele nem uma única vez olhou para mim, fixando a vista à frente, como
se estivesse procurando um rosto conhecido em uma multidão
distante.
Melza repetiu-lhe minha pergunta e, um momento depois, traduziu a
resposta do avô:
- Ele diz: "Por que você quer saber?”
Expliquei que havia muitas razões. A mais importante, que eu sentia
uma sensação de urgência:
- Minhas pesquisas convenceram-mede que houve uma civilização
avançada, há muito, muito tempo, que foi destruída por um terrível
cataclismo. Tenho receio de que nossa própria civilização possa ser
destruída por um cataclismo semelhante...
Seguiu-se uma longa conversa em hopi e, em seguida, a tradução:
- Ele disse que, quando era menino, na década de 1900, houve uma
estrela que explodiu... uma estrela que estava lá em cima há muito
tempo. Ele foi procurar o avô e lhe pediu que explicasse o significado
daquele sinal. O avô respondeu: "É dessa maneira que nosso próprio
mundo vai acabar... envolvido em chamas... Se os homens não
mudarem seus costumes, o espírito que toma conta do mundo ficará
tão frustrado conosco que castigará o mundo com chamas e o mundo
acabará exatamente como aquela estrela acabou." Foi isso o que o
avô lhe disse: que a terra explodiria exatamente como aquela estrela...
- De modo que a impressão é que este mundo acabará pelo fogo... E,
tendo observado o mundo pelos últimos noventa anos, ele acredita
que o comportamento da humanidade melhorou ou piorou?
- Ele diz que não melhorou. Estamos ficando piores.
- De modo que, na opinião dele, o fim está chegando?
- Ele diz que os sinais já estão aípara serem vistos... Ele disse que,
hoje em dia, nada, só o vento sopra, e que tudo que fazemos é
apontar uma arma um para o outro. Isso mostra como nos afastamos
e como nos sentimos hoje um em relação ao outro. Não há mais
valores... nenhum, absolutamente... e as pessoas vivem como
querem, sem moral ou leis. Esses são os sinais de que o tempo
chegou...
Melza interrompeu-se na tradução e, em seguida, acrescentou por
conta própria:
- Este vento terrível. Ele seca tudo. Não traz umidade. Acreditamos
que este tipo de clima é conseqüência da maneira como estamos
vivendo... não apenas nós, mas seu povo também.
Notei que os olhos dela se enchiam de lágrimas, enquanto falava.
- Eu tenho um milharal - continuou ela - que está todo seco. Levanto a
vista para o céu e rezo por chuva, mas não há chuva, nem mesmo
nuvens... Quando estamos assim, nem mesmo sabemos quem
somos.
Passou-se um longo momento de silêncio, enquanto o vento
balançava o trailer, soprando forre e ininterrupto sobre a mesa,
enquanto a noite caía em volta de nós.
Tranqüilamente, voltei a falar:
- Por favor, pergunte a seu avô se ele acha que alguma coisa ainda
pode ser feita agora pelos hopi e pelo resto da humanidade.
- A única coisa que ele sabe - respondeu Melza, após ter ouvido a
resposta - é que enquanto os hopi não abandonarem suas tradições,
eles poderão se ajudar e ajudar os outros. Eles têm de se apegar ao
que acreditaram no passado. Têm de preservar suas memórias. Essas
são as coisas mais importantes... Mas meu avô também quer lhe
dizer, e quer que o senhor compreenda, que esta terra é trabalho de
um ser inteligente, de um espírito... um espírito criativo e inteligente
que projetou tudo para ser como é. Meu avô diz que nada está aqui
apenas por acaso, que nada acontece por acaso seja coisa boa ou
má... e que há uma razão para tudo que acontece...
Na Pedra do Moinho
Quando seres humanos de toda parte em volta do globo, e de muitas
e diferentes culturas, compartilham uma forte e inarredável intuição de
que um cataclismo está a caminho, temos o direito de ignorá-los. E
quando as vozes de nossos distantes ancestrais, descendo até nós
através de mitos e arquitetura sagrada, nos falam sobre a obliteração
física de uma grande civilização na antiguidade remota (e nos diz que
nossa própria situação está em perigo), temos o direito, se quisermos,
de tapar os ouvidos...
E assim foi, diz a Bíblia, no mundo antediluviano: “Assim como foi nos
dias de Noé, será também nos dias do Filho do homem: comiam,
bebiam, casavam e davam-se em casamento, até o dia em que Noé
entrou na arca, e veio o dilúvio e destruiu a todos."
Da mesma maneira, profetizou-se que a próxima destruição global
cairá de repente sobre nós, "em uma hora em que não suspeitamos,
porque assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até no
ocidente. (...) O sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as
estrelas cairão do firmamento e os poderes do céu serão abalados...
Então dois estarão no campo, um será tomado, e deixado o outro;
duas estarão trabalhando num moinho, uma será tomada, e deixada a
outra..."
O que aconteceu antes pode acontecer novamente. O que foi feito
antes poderá ser feito outra vez.
E, talvez, não haja realmente nada de novo sob o sol.

FIM....

Nenhum comentário: