quarta-feira, agosto 22, 2012

As Digitais Dos Deuses-Graham Hancock / Parte 2



.........CAPÍTULO 23

O Sol, a Lua e o Caminho dos Mortos
Algumas descobertas arqueológicas são saudadas com grandes
fanfarras; outras, por uma série de razões, não. Nesta última categoria
temos de incluir a espessa e extensa camada de lâminas de mica
encontrada espremida entre dois dos níveis superiores da Pirâmide do
Sol, quando sondada em 1906 para fins de restauração. A falta de
interesse com que a descoberta foi recebida, e a ausência de
quaisquer estudos de acompanhamento para determinar sua possível
função, são inteiramente compreensíveis, porque a mica, que tinha um
grande valor comercial, fora retirada e vendida logo que escavada. A
culpa coube, aparentemente, a Leopoldo Bartres, que havia sido
contratado pelo governo mexicano para restaurar a pirâmide corroída
pelo tempo.
Houve uma descoberta muito mais recente de mica em Teotihuacán
(no "Templo da Mica"), mas que passou quase despercebida. Neste
caso, é mais difícil explicar a razão do desinteresse, uma vez que a
mica não foi saqueada e continua no mesmo lugar.
Fazendo parte de um grupo de estruturas, o Templo da Mica situa-se
em um pátio a cerca de 300m da face oeste da Pirâmide do Sol.
Imediatamente abaixo de um piso de pesadas lajes de rocha, as
escavações de arqueólogos financiados pela Viking Foundation
revelaram duas lâminas maciças demica, que haviam sido cuidadosa
e deliberadamente instaladas, em alguma era extraordinariamente
remota, por um povo que deve ter sido hábil em cortar e manipular
esse material. As folhas têm 8,50m2 e formam duas camadas
superpostas.
A mica não é uma substância uniforme e contém traços de diferentes
metais, dependendo do tipo de formação rochosa em que é
encontrada. Costumeiramente, os metais incluem potássio, alumínio e
também, em quantidades variáveis, material ferroso e férrico,
magnésio, lítio, manganês e titânio. Os elementos residuais no Templo
da Mica em Teotihuacán indicam que as lâminas sob o piso
pertencem a um tipo que ocorre apenas no Brasil, a 3.200km de
distância. Evidentemente, por conseguinte, os construtores do Templo
devem ter sentido uma necessidade específica desse tipo particular de
mica e se mostraram dispostos a percorrer grandes distâncias para
obtê-la, pois, de outra maneira, poderiam ter usado, com muito maior
facilidade e simplicidade, a variedade disponível no local.
Ninguém pensa imediatamente em mica como material de piso de
finalidade geral. Seu uso para formar camadas sob pisos e, portanto,
inteiramente ocultas, parece muito esquisito, quando nos lembramos
que nenhuma outra estrutura nas Américas, ou em qualquer outro
lugar no mundo, apresenta uma característica como essas.
É frustrante reconhecer que jamais poderemos determinar a posição
exata, quanto mais a finalidade da grande lâmina que Bartres escavou
e removeu em 1906 da Pirâmide do Sol. As duas camadas intactas no
Templo da Mica, por outro lado, estando em um lugar onde não
tinham qualquer finalidade decorativa, dão a impressão de que foram
instaladas para realizar um determinado trabalho. Vale notar, de
passagem, que a mica possui características que a tornam
especialmente apropriada para uma larga faixa de aplicações
tecnológicas. Na indústria moderna, é usada na fabricação de
capacitores e muito valorizada como isolante térmico e elétrico. É
também opaca a nêutrons rápidos e pode servir como moderador em
reações nucleares.
Apagando Mensagens do Passado
Pirâmide do Sol, Teotihuacán
Tendo subido uma série de lances de degraus de pedra de mais de
60m de altura, cheguei ao cume e olhei para o zênite. Era meio-dia do
dia 19 de maio e o sol estava diretamente acima de mim, como
voltaria a estar no dia 25 de julho. Nessas duas datas, e não por
acaso, a face oeste da pirâmide fica orientada precisamente para a
posição do sol poente.
Um efeito mais curioso, mas igualmente deliberado, podia ser
observado nos equinócios, 20 de março e 22 de setembro. Nesse
caso, a passagem dos raios do sol, da direção sul para o norte,
resultava, ao meio-dia, no apagamento progressivo de uma sombra
perfeitamente reta, que corria ao longo de um dos níveis mais baixos
da fachada oeste. O processo todo, de sombra total para iluminação
completa, leva exatamente 66,6 segundos. O fenômeno se repete sem
falha, um ano após outro, desde que a pirâmide foi construída e
continuará assim até que a estrutura gigantesca se desfaça em pó.
O que isso significa, claro, é que pelo menos uma das muitas funções
da pirâmide tinha sido a de servir como um "relógio perene",
assinalando com precisão os equinócios e, dessa maneira, facilitando
correções do calendário, como e quando necessárias, para indivíduos
aparentemente obcecados, como os maias, com a passagem e a
medição do tempo. Outra implicação é que os mestres-construtores de
Teotihuacán devem ter possuído um conjunto enorme de dados
astronômicos e geodésicos e que os consultaram para erguer a
Pirâmide do Sol na orientação precisa necessária para obter os
desejados efeitos relativos aos equinócios.
Nesse caso, houve planejamento e arquitetura da mais alta ordem. As
pirâmides sobreviveram à passagem de milênios e a todo o trabalho
de remodelamento de grande parte da casca externa, realizada na
primeira década deste século pelo auto nomeado restaurador
Leopoldo Bartres. Além de saquear uma prova insubstituível, que
poderia nos ter ajudado a compreender melhor as finalidades para as
quais havia sido construída a enigmática estrutura, esse repulsivo
lacaio do corrupto ditador do México, Porfirio Diaz, mandou retirar a
camada externa de pedra, argamassa e reboco até uma profundidade
de mais de seis metros das faces norte, leste e sul. Os resultados
foram catastróficos: a superfície subjacente de adobe começou a se
dissolver com as pesadas chuvas e a acusar um deslizamento que
ameaçava destruir toda a estrutura. Embora o deslizamento fosse
detido com apressadas medidas de contenção, nada poderia mudar o
fato de que a Pirâmide do Sol tinha sido privada de quase todos os
seus aspectos externos originais.
De acordo com os modernos padrões arqueológicos, cometeu-se,
dessa maneira, um ato imperdoável de profanação. Por causa dele,
jamais compreenderemos a importância de numerosas esculturas,
inscrições, altos-relevos e artefatos, que foram quase com certeza
eliminados com esses seis metros da casca externa. Mas essa não foi
a única ou mesmo a mais lamentável conseqüência do vandalismo
grotesco de Bartres. Há surpreendentes indicações que sugerem que
os construtores desconhecidos da Pirâmide do Sol poderiam ter
incorporado intencionalmente dados científicos em muitas das
principais dimensões da grande estrutura. Essa indicação foi recolhida
e extrapolada com base na face oeste intacta (que, não por acaso, era
também a face onde os efeitos do equinócio que se pretendia mostrar
ainda podiam ser vistos), mas, graças a Bartres, nenhuma informação
semelhante tem a menor probabilidade de ser colhida nas outras três
faces, devido às alterações arbitrárias que nelas foram feitas. Na
verdade, ao distorcer a forma e tamanho originais de parte tão grande
da pirâmide, o "restaurador" mexicano privou possivelmente a
posteridade de algumas das lições mais importantes que os
teotihuacanos teriam para ensinar.
Números Eternos
O número transcendente pi é fundamental à matemática avançada.
Com um valor ligeiramente superior a 3,14, é a razão entre o diâmetro
de um círculo e sua circunferência. Emoutras palavras, se o diâmetro
de um círculo é de 30cm, a sua circunferência será de 30cm x 3,14 =
94,2cm. De idêntica maneira, desde que o diâmetro de um círculo é
exatamente o dobro do raio, podemos usar pi para calcular, à vista do
raio, a circunferência de qualquer círculo. Neste caso, contudo, a
fórmula é o comprimento do raio multiplicado por 2pi. Como ilustração,
tomemos novamente um círculo de 30 cm de diâmetro. O raio será de
15cm e a circunferência poderá ser obtida da seguinte maneira: 15cm
x 2 x 3,14 = 75,36cm. Analogamente, um círculo com um raio de 24cm
terá uma circunferência de 150,72cm (24cm x 2 x 3,14) e um círculo
com um raio de 17cm terá uma circunferência de 106,76 (17cm x 2 x
3,14).
Essas fórmulas, usando o valor de pi para calcular a circunferência,
baseando-se em diâmetro ou raio, aplicam-se a todos os círculos,
qualquer que seja seu tamanho e, também, claro, a todas as esferas e
hemisférios. Elas parecem relativamente simples - mas só quando
adotamos um olhar retrospectivo. Ainda assim, pensa-se que essa
descoberta, que representou um progresso revolucionário na
matemática, só foi feita relativamente tarde na história humana. A
opinião ortodoxa é que coube a Arquimedes, no século 3 a.C. calcular
pi corretamente, pela primeira vez, com o valor de 3,148.
Pesquisadores não aceitam que qualquer matemático do Novo Mundo
tenha jamais chegado perto do número pi, antes da chegada dos
europeus, no século XVI. Por isso mesmo é de deixar a pessoa tonta
descobrir que a Grande Pirâmide deGizé (construída mais de 2.000
anos antes do nascimento de Arquimedes) e a Pirâmide do Sol, em
Teotihuacán, muito anterior à conquista, incorporam o valor de pi. E,
além do mais, fazem isso em grande parte da mesma maneira, o que
não deixa dúvida de que os construtores antigos de ambos os lados
do Atlântico conheciam perfeitamente esse número transcendente.

Os principais fatores implicados na geometria de qualquer pirâmide
são os seguintes: 1) a altura do ápice sobre o solo e 2) o perímetro do
monumento no nível do chão. No caso da Grande Pirâmide, a razão
entre a altura original (146m) elevado a 9 e o perímetro (921m)
elevado a 10 é a mesma que a razão entre o raio e a circunferência de
um círculo, isto é, 2pi. Dessa maneira, se tomamos a altura da
pirâmide e a multiplicamos por 2pi (como faríamos com o raio de um
círculo para lhe calcular a circunferência), temos uma medida exata do
perímetro do monumento (146m x 3,14 = 921m). Alternativamente, se
viramos a equação pelo avesso e começamos com a circunferência no
nível do chão, obtemos um número igualmente exato da altura do
ápice (921m divididos por 2 dividido por 3,14 = 146m).
Uma vez que é quase inconcebível que uma correlação matemática
tão precisa pudesse ter sido obtida por acaso, somos obrigados a
concluir que os construtores da Grande Pirâmide conheciam bem o pi
e que deliberadamente lhe incorporaram o valor às dimensões do
monumento.
Vejamos agora a Pirâmide do Sol, em Teotihuacán. O ângulo de suas
arestas é de 43,5° (contra os 52° no caso da Grande Pirâmide). O
monumento mexicano tem uma inclinação mais suave porque o
perímetro de sua base, de 893m, não é muito menor do que o de sua
equivalente egípcia, embora seu ápice seja consideravelmente mais
baixo (de aproximadamente 71m, antes da "restauração" feita por
Bartres).
A fórmula de 2pi que funcionou no caso da Grande Pirâmide não
funciona com essas medidas. Com uma fórmula de 4pi isso acontece.
Dessa maneira, se tomamos a altura da Pirâmide do Sol (71m) e a
multiplicamos por 4pi, obtemos mais uma vez uma leitura bem exata
do perímetro: 71m x 4 x 3,14 = 893m.
Esse resultado, claro, não pode ser mais coincidência do que a
relação de pi extrapolada a partir das dimensões do monumento
egípcio. Além do mais, o próprio fato de ambas as estruturas
incorporarem as relações de pi (o que não acontece com qualquer
outra pirâmide em ambos os lados do Atlântico) sugere
convincentemente não só a existência de conhecimento matemático
avançado na antiguidade, mas algum tipo de finalidade comum
subjacente.
Conforme vimos, a desejada razão altura/perímetro da Grande
Pirâmide (2pi) exigia a especificação de um ângulo difícil e peculiar da
inclinação de suas arestas: 52°. De igual maneira, a desejada razão
altura/perímetro da Pirâmide do Sol (4pi) exigia a especificação de um
ângulo igualmente excêntrico da aresta: 43,5°. Se não houvesse um
motivo ulterior, teria sido certamente mais fácil para os antigos
arquitetos egípcios e mexicanos ter optado por 45° (que poderiam ter
obtido facilmente e conferido dividindo em dois um ângulo reto).
Qual poderia ter sido o objetivo comum que levou os construtores, em
ambos os lados do Atlântico, a ter tanto trabalho para estruturar o
valor de pi com tanta precisão nesses dois notáveis monumentos?
Uma vez. que parece não ter havido contato direto entre as
civilizações do México e do Egito nos períodos em que as pirâmides
foram construídas, não será razoável deduzir que, em alguma data
remota, ambas herdaram certas idéias de uma fonte comum?
Será possível que a idéia compartilhada e expressa na Grande
Pirâmide e na Pirâmide do Sol pudesse ter alguma coisa a ver com
esferas, uma vez que estas, tais como as pirâmides, são objetos
tridimensionais (enquanto que círculos, por exemplo, têm apenas duas
dimensões)? O desejo de simbolizar esferas em monumentos
tridimensionais com superfícies planas explicaria por que tanto
trabalho foi investido para assegurar que ambas incorporassem
inconfundíveis relações de pi. Além do mais, parece provável que a
intenção dos construtores dos dois monumentos não foi simbolizar
esferas em geral, mas focalizar atenção em uma única esfera em
particular: o planeta Terra.
Passará ainda muito tempo antes que arqueólogos ortodoxos estejam
prontos para aceitar a idéia de que alguns povos do mundo antigo
foram avançados o suficiente em ciência para ter possuído boas
informações sobre a forma e o tamanho da Terra. Não obstante, de
acordo com os cálculos de Livio Catullo Stecchini, professor
americano de História da Ciência e especialista conhecido em
medições antigas, é irrefutável a prova da existência desses
conhecimentos anômalos na antiguidade. As conclusões de Stecchini,
que se relacionam principalmente com o Egito, são particularmente
impressionantes, porque obtidas de dados matemáticos e
astronômicos que, por consenso, estão além de qualquer dúvida bem
fundamentada. Um exame mais completo dessas conclusões, e da
natureza dos dados em que se apóiam, é apresentada na Parte VII.
Nesta altura, contudo, algumas palavras de Stecchini podem lançar
mais luz sobre o mistério que enfrentamos:
A idéia básica da Grande Pirâmide foi que ela deveria ser uma
representação do hemisfério setentrional da terra, um hemisfério
projetado sobre superfícies planas, como é feito na elaboração de
mapas. (...) A Grande Pirâmide era uma projeção sobre quatro
superfícies triangulares. O ápice representava o pólo e o perímetro
representava o equador. Esta é a razão por que o perímetro está em
uma relação de 2pi com a altura. A Grande Pirâmide representa o
hemisfério setentrional em uma escala de 2:43.200.
Na Parte VII veremos por que motivo foi escolhida essa escala.
A Cidade Matemática
Erguendo-se à frente enquanto eu me dirigia para a extremidade norte
da Rua dos Mortos, a Pirâmide da Lua, por sorte não danificada pelos
restauradores, mantivera a forma original de zigurate em quatro níveis.
A Pirâmide do Sol, igualmente, consistira de quatro andares. Bartres,
porém, havia caprichosamente criado um quinto nível entre o os
originais terceiro e quarto.
Havia, contudo, um aspecto original na Pirâmide do Sol que Bartres
não conseguira desfigurar: uma passagem subterrânea que saía de
uma caverna natural situada sob a face oeste. Após ter sido
descoberta por acaso em 1971, a passagem havia sido
exaustivamente estudada. De 2,10m de altura, descobriu-se que corria
para leste por mais de 70m, até chegar a um ponto próximo do centro
geométrico da pirâmide. Ali desembocava em uma segunda caverna,
de generosas dimensões, que havia sido artificialmente alargada e
recebido uma forma muito semelhante a de um trevo de quatro folhas.
As "folhas" eram câmaras, cada uma delas com cerca de 18m de
circunferência, contendo grande variedade de artefatos, tais como
discos de ardósia belamente entalhadose espelhos altamente polidos.
Havia também um complexo sistema de drenagem, formado por
segmentos interligados de canos abertos na rocha.
Este último aspecto era o mais enigmático, porque não havia dentro
da pirâmide nenhuma fonte conhecida de água. As eclusas, porém,
pouca dúvida deixavam de que água deveria ter estado presente na
antiguidade e, provavelmente, em grande quantidade. Esse fato fazia-nos lembrar a prova de que água correu certa vez pela Rua dos
Mortos, fato confirmado pelas comportas e divisórias que eu vira antes
ao norte da Cidadela e pela teoria de Schlemmer, referente a poços
refletores e previsão de abalos sísmicos.
Na verdade, quanto mais pensava no caso, mais me parecia que a
água devia ter sido um motivo dominante em Teotihuacán. Embora eu
mal tivesse notado naquela manhã, o Templo de Quetzalcoatl fora
decorado não só com efígies da Serpente Emplumada, mas com um
simbolismo aquático inconfundível, notadamente um desenho
ondulante sugestivo de ondas e grande número de belos entalhes de
conchas marinhas. Com essas imagens em mente, cheguei à larga
praça à base da Pirâmide da Lua e a imaginei cheia d'água, como
pode ter acontecido, a uma profundidade de uns 4m. O local teria
parecido magnífico, majestoso, impressionante e sereno.
A Pirâmide Akapana, na distante Tiahuanaco, fora também cercada de
água, que lá havia sido o motivo dominante - como nesse momento eu
descobria que acontecia em Teotihuacán.
Comecei a subir a Pirâmide da Lua. Era menor do que a do Sol, na
verdade, de menos da metade do tamanho e se estimava que tivesse
uma massa de um milhão de toneladas de pedra e terra, contra os
dois milhões e meio no caso da Pirâmide do Sol. Os dois
monumentos, em outras palavras, tinham um peso combinado de três
e meio milhões de toneladas. Era considerado improvável que esse
volume de material pudesse ter sido manipulado por menos de 15.000
homens e se calculava ainda que mesmo tal força de trabalho teria
levado pelo menos 30 anos para completar o enorme trabalho.
Trabalhadores em número suficiente teriam certamente existido nas
vizinhanças: o Projeto de Mapeamento de Teotihuacán havia
demonstrado que a população da cidade, em seu auge, deveria ter
chegado a umas 200.000 almas, tornando-a uma metrópole maior do
que a Roma Imperial dos Césares. O Projeto provara ainda que os
principais monumentos hoje visíveis cobriam apenas uma pequena
parte da área total da antiga Teotihuacán. No seu auge, a cidade
devia ter coberto uma área de mais de 31km2, com aproximadamente
50.000 residências individuais e 200 blocos de apartamentos, 600
pirâmides e templos secundários, e 500 áreas de "fábricas",
especializadas em cerâmica, estatuetas, lapidação, conchas
marinhas, basalto, ardósia e trabalho de moagem de pedra.
Parei no topo da Pirâmide da Lua e virei-me lentamente. Do outro lado
do chão do vale, que descia suavemente na direção sul, toda
Teotihuacán se estendia nesse momento diante de meus olhos - uma
cidade geométrica, projetada e construída por arquitetos
desconhecidos, antes do início do tempo histórico. A leste, a cavaleiro
da Rua dos Mortos, reta como uma flecha, erguia-se, enorme, a
Pirâmide do Sol, "imprimindo" eternamente a mensagem matemática
com que fora programada há longas eras, uma mensagem que
parecia dirigir nossa atenção para a forma da Terra. Tinha-se quase a
impressão de que a civilização responsável pela construção de
Teotihuacán fizera a opção deliberada de codificar informações
complexas em monumentos duradouros e fazer isso usando
linguagem matemática.
Mas por que linguagem matemática?
Talvez porque, pouco importando por que mudanças e transformações
extremas pudesse passar a civilização humana, o raio de um círculo
multiplicado por 2pi (ou metade do raio multiplicada por 4pi) daria
sempre o número correto da circunferência da terra. Em outras
palavras, uma linguagem matemática poderia ter sido escolhida por
motivos práticos: ao contrário de qualquer língua verbal, esse código
poderia ser sempre decifrado, até mesmo por povos de culturas sem
qualquer relação entre si que viessem a existir milhares de anos
depois no futuro.
Não pela primeira vez, senti-me diante da possibilidade vertiginosa de
que um episódio inteiro da história da humanidade pudesse ter sido
esquecido. Na verdade, pareceu-me nessa ocasião, enquanto olhava
do alto da Pirâmide da Lua para a cidade matemática, que nossa
espécie poderia ter padecido de alguma forma terrível de amnésia e
que o período de trevas tão ingênua e displicentemente denominado
de "pré-história” pudesse esconder verdades inimaginadas sobre
nosso passado.
O que é a pré-história, afinal de contas, senão um tempo esquecido -
um tempo sobre o qual faltam-nos registros? O que é a pré-história
senão uma época de obscuridade impenetrável, através da qual
passaram nossos ancestrais, mas sobre a qual não temos lembrança
consciente? E foi como remanescente dessa época de obscuridade,
configurada em um código matemático, de acordo com
princípios astronômicos e geodésicos, que Teotihuacán, com todos os
seus enigmas, chegou até nós. Dessa mesma época vieram as
grandes esculturas olmecas, o calendário inexplicavelmente preciso e
exato que os maias herdaram de seus predecessores, os geoglifos
inescrutáveis de Nazca, a misteriosa cidade andina de TIahuanaco... e
tantas outras maravilhas cujas origens desconhecemos.
Era quase como se tivéssemos despertado para a luz ensolarada da
história após um sono longo e sobressaltado e continuássemos ainda
sobressaltados pelos ecos baixos, mas insistentes de nossos
sonhos...
Parte IV
O Mistério dos Mitos
1. Uma Espécie com Amnésia
CAPÍTULO 24
Ecos de Nossos Sonhos
Em alguns dos mitos mais impressionantes e duradouros que
herdamos dos tempos antigos, parece que nossa espécie reteve uma
recordação confusa, mas persistente, de uma pavorosa catástrofe
global.
De onde vem esses mitos?
Por que, embora procedam de culturas sem relação entre si, seus
temas são tão parecidos? Por que estão imbuídos de um simbolismo
comum? E por que falam, com tanta freqüência, dos mesmos
personagens e enredos padronizados? Se são realmente memórias,
por que não existem registros históricos das catástrofes planetárias a
que parecem aludir?
Poderia acontecer que os próprios mitos sejam registros históricos?
Poderia acontecer que essas histórias interessantes e imortais,
compostas por gênios anônimos, tenham sido o meio usado para
conservar informações desse tipo e transmiti-las ao longo do tempo,
antes que começasse a história documentada?
E a Arca Flutuou sobre a Face das Águas
Houve na antiga Suméria um rei que buscava a vida eterna. Seu nome
era Gilgamesh. Conhecemos suas aventuras através dos mitos e
tradições da Mesopotâmia, que foram gravadas em escrita cuneiforme
em tabuinhas de argila cozidas em forno. Milhares dessas tabuinhas,
algumas datadas do início do terceiro milênio a.C., foram escavadas
nas areias do moderno lraque. Elas contam uma história ímpar
de uma cultura desaparecida e nos lembram que, mesmo naqueles
dias da alta antiguidade, seres humanos preservavam memórias de
tempos ainda mais remotos tempos dos quais estavam separados
pelo intervalo de um grande e terrível dilúvio:
Proclamarei ao mundo as façanhas de Gilgamesh. Ele era o homem
para o qual todas as coisas eram conhecidas; ele era o rei que
conhecia os países do mundo. Ele era sábio, enxergava dentro de
mistérios, conhecia coisas secretas e nos trouxe a história dos dias
anteriores ao dilúvio. Ele partiu em uma longa jornada, ficou cansado,
esgotado pela viagem. Ao voltar, repousou e gravou em uma pedra
toda a história.
A história trazida por Gilgamesh lhe foi contada por um certo
Utnapishtim, um rei que governara seu povo milhares de anos antes,
que sobrevivera ao grande dilúvio e fora premiado com o dom da
imortalidade, porque tinha preservado as sementes da humanidade e
de todas as coisas vivas.
Isso aconteceu há muito, muito tempo, disse Utnapishtim, numa época
em que os deuses viviam na terra: Anu, senhor do firmamento, Enlil, o
executor das decisões divinas, Ishtar, a deusa da guerra e do amor
sexual, e Ea, o senhor das águas, amigo e protetor natural do homem.
Naqueles dias, o mundo fervilhava de atividade, os homens se
multiplicavam, o mundo mugiu como um touro e o grande deus foi
acordado pelo clamor. Enlil ouviuo clamor e disse aos deuses,
reunidos em conselho: "O barulho da humanidade é intolerável e sono
não é mais possível devido à balbúrdia.” Em vista disso, os deuses
concordaram em exterminar a humanidade.
Ea, porém, teve pena de Utnapishtim. Falando através da parede de
caniço da casa do rei, avisou-o da catástrofe iminente e disse-lhe que
construísse um barco, no qual ele e sua família poderiam sobreviver:
Derruba tua casa e constrói um barco, abandona tuas posses e
procura a vida, despreza os bens mundanos e salva tua alma. (...)
Derruba tua casa e constrói um barco com suas dimensões em
proporção - largura e comprimento em harmonia. Põe a bordo do
barco as sementes de todas as coisas vivas.
No momento exato, Utnapishtim construiu o barco, da forma
ordenada. "Carreguei o barco com tudo o que tinha", disse ele,
"carreguei-o com as sementes de todas as coisas vivas":
Embarquei todos os meus parentes, embarquei o gado, os animais
selvagens da natureza, todos os tipos de artesãos. (...) O prazo foi
cumprido. Quando a primeira luz do amanhecer surgiu, uma nuvem
negra surgiu da base do céu e trovejou no lugar onde Adad, o senhor
da tempestade, cavalgava. (...) Um estupor de desespero subiu ao
céu, quando o deus da tempestade transformou a luz do dia em
trevas, quando esmagou a terra como se ela fosse uma taça. (...)
No primeiro dia, a tempestade soprou feroz e trouxe o dilúvio. (...)
Nenhum homem podia ver seu companheiro. Nem os homens podiam
ser diferenciados do céu. Até os deuses ficaram com medo do dilúvio.
Retiraram-se, subiram para o céu de Anu e agacharam-se nas
proximidades. Os deuses acovardaram-se como cães de rua,
enquanto Ishtar chorava, e exclamava em voz alta: "Dei à luz esses
meus próprios filhos apenas para encher o mar com seus cadáveres,
como se eles fossem peixes?"
Enquanto isso, continuou Utnapishtim:
Durante seis dias e noites o vento soprou, e torrente, tempestade e
inundação varreram o mundo, a tempestade e o dilúvio rugiram juntos
como hostes em guerra. Ao raiar o sétimo dia, a tempestade vinda do
sul amainou, o mar ficou calmo, o dilúvio parou. Olhei para a face do
mundo e havia silêncio. A superfície do mar estendia-se tão plana
como um telhado. Toda a humanidade retornara ao pó. (...) Abri uma
escotilha e luz caiu sobre minha face. Em seguida, curvei-me, sentei-me e chorei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto, pois, por todos os
lados, só havia o deserto de água. (...) A quatorze léguas de distância
apareceu uma montanha e nela o barcoencalhou. Na montanha de
Nisir o barco se prendeu fortemente à terra, ficou imóvel e não se
mexeu. (...) Quando o sétimo dia amanheceu, soltei uma pomba no ar.
Ela voou para longe, mas, não achando lugar para pousar, voltou.
Soltei em seguida uma andorinha, ela voou para longe, mas, não
encontrando lugar para pousar, voltou. Soltei um corvo, ele viu que as
águas haviam baixado, comeu, voou em volta, grasnou e não voltou.
Utnapishtim soube que, nesse momento, era seguro desembarcar:
Verti uma libação sobre o cume da montanha. (...) Juntei madeira,
cana, cedro e murta... Quando os deuses sentiram o doce aroma, eles
se reuniram como moscas sobre o sacrifício. (...)
Esses textos não são absolutamente os únicos que chegaram até nós,
com origem na terra antiga da Suméria. Em outras tabuinhas -
algumas delas com quase 5.000 e,outras, menos de 3.000 anos de
idade - a figura "semelhante a Noé" de Utnapishtim era variadamente
conhecida como Zisudra, Xisuthros ou Atrahasis. Ainda assim, ele é
sempre reconhecível como o mesmo personagem patriarcal, avisado
pelo mesmo deus compassivo, que sobrevive ao mesmo dilúvio
universal na arca sacudida pela tempestade e cujos descendentes
repovoaram o mundo.
Há muitas semelhanças óbvias entre o mito do dilúvio mesopotâmico
e a famosa história bíblica de Noé e o dilúvio. Estudiosos discutem
interminavelmente sobre a natureza dessas semelhanças. O
importante, porém, é que, em todas as esferas de influência, a mesma
tradição solene foi preservada para a posteridade - uma tradição que
conta, em linguagem vívida, uma catástrofe global e a aniquilação
quase total da humanidade.
América Central
Mensagem idêntica foi preservada no Vale do México, muito distante
dos montes Ararat e Nisir, ambos situados no outro lado do mundo.
No México, cultural e geograficamente isolado das influências judaico-cristãs, e em longas eras antes da chegada dos espanhóis, eram
contadas também histórias sobre um grande dilúvio. Como o leitor
recordará pelo que dissemos na Parte III, reinava a crença em que o
dilúvio assolara toda a terra, ao fim do Quarto Sol. "A destruição
aconteceu sob a forma de chuvas torrenciais e inundações. As
montanhas desapareceram e os homens foram transformados em
peixes... De acordo com a mitologia asteca, sobreviveram apenas dois
seres humanos: um homem, Coxcoxtli, e a esposa, Xochiquetzal, que
um deus avisara do iminente cataclismo. Os dois escaparam em um
imenso barco que haviam recebido ordens para construir e
desembarcaram no cume de uma alta montanha. Lá desceram e
tiveram muitos filhos, todos mudos, que assim permaneceram até que
uma pomba, no alto de uma árvore, lhes deu o dom das línguas.
Essas línguas diferiam tanto entre sique as crianças não podiam se
entender.
Uma tradição centro-americana semelhante, a de Mechoacanesecs,
apresenta uma semelhança ainda mais notável com a história contada
no Gênesis e por fontes mesopotâmicas. De acordo com essa
tradição, o deus Tezcatilpoca resolveu destruir toda a humanidade
com um dilúvio, salvando apenas um certo Tezpi, que embarcou em
uma espaçosa canoa com a esposa, filhos, e grande número de
animais e aves, bem como suprimentos de cereais e sementes, cuja
preservação era essencial para o sustento futuro da raça humana. A
canoa encalhou no cume de uma montanha, depois de ter
Tezcatilpoca ordenado que as águasdo dilúvio se retirassem.
Desejando saber se era seguro desembarcar nesse momento, Tezpi
soltou um abutre que, alimentando-se das carcaças que cobriam a
terra, não voltou. Ele enviou outras aves, das quais só voltou o beija-flor, com um galho folhudo no bico. Com esse sinal de que a terra
começava a se renovar, Tezpi e família desceram da arca,
multiplicaram-se e repovoaram a terra.
Recordações de uma terrível inundação causada por desagrado divino
foram também preservadas no Popol Vuh. De acordo com esse texto
arcaico, o Grande Deus resolveu criar a humanidade logo depois do
início do tempo. Era um experimento e ele começou com "figuras
feitas de madeira, que pareciam homens e que falavam como
homens". Essas criaturas caíram em desgraça porque "não se
lembravam de seu Criador":
E assim um dilúvio foi desencadeado pelo Coração do Céu, um
grande dilúvio foi formado e caiu sobre a cabeça das criaturas de
madeira. (...) Uma pesada resina caiu do céu. (..,) a face da terra se
tornou escura e uma chuva negra começou a cair, dia e noite. (..,) As
figuras de madeira foram aniquiladas, destruídas, quebradas e mortas.
Nem todos morreram, porém. Tal como os astecas e os
mechoacanesecas, os maias de Yucatán e da Guatemala acreditavam
que uma figura semelhante a Noé e esposa, "o Grande Pai e a Grande
Mãe", sobreviveram ao dilúvio para povoar novamente a Terra,
tornando-se, dessa maneira, os ancestrais de todas as gerações
subseqüentes da humanidade.
América do Sul
Passando à América do Sul, encontramos os chibcas, da região
central da Colômbia. De acordo com seus mitos, eles viveram
inicialmente como selvagens, sem leis, agricultura ou religião. Certo
dia, porém, apareceu entre eles um velho de raça diferente. Ele usava
barba espessa e longa e seu nome era Bochica. Ele ensinou aos
chibcas como construir cabanas e viver juntos em sociedade.
A esposa de Bochica, muito bela, chamada Chia, veio depois dele,
mas era má e gostava de contrariar-lhe os trabalhos altruísticos. Uma
vez que não podia anular diretamente o poder do marido, usou de
meios mágicos para causar um grande dilúvio, no qual morreu a
maioria da população. Profundamente irado, Bochica exilou-a da terra
para o céu, onde ela se tornou a lua e recebeu o trabalho de iluminar
as noites. Ele fez também com que se dissipassem as águas do
dilúvio e trouxe para baixo os poucos sobreviventes que haviam se
refugiado no cume de uma montanha. Em seguida, deu-lhes leis,
ensinou-lhes a cultivar a terra e instituiu a adoração do sol, com
festivais, sacrifícios e peregrinações periódicas. Em seguida, dividiu
entre dois chefes o poder de governar e passou o resto de seus dias
na terra em tranqüila contemplação, como asceta. Quando subiu ao
céu, tornou-se um deus.
Ainda mais ao sul, os canarianos, uma tribo de índios do Equador,
contam uma história antiga de dilúvio, do qual dois irmãos escaparam
por terem subido para o cume de uma montanha. À medida que a
água subia, o mesmo acontecia com a montanha, de modo que os
dois irmãos puderam sobreviver à calamidade.
Ao serem descobertos, os índios tupinambás, do Brasil, veneravam
uma série de heróis civilizadores, ou criadores. O primeiro desses
heróis era Monan (antigo, velho), que eles diziam ter sido o criador da
humanidade, mas que em seguida destruiu o mundo com água e
fogo...
O Peru, como vimos na Parte II, é particularmente rico em lendas
sobre o dilúvio. Uma história típica fala de um índio que foi avisado do
dilúvio por uma lhama. Juntos, homem e lhama fugiram para uma alta
montanha, chamada Vilca-Coto:
Quando chegaram ao alto da montanha, viram que todos os tipos de
aves e animais já haviam se refugiado ali. O mar começou a subir e
cobriu todas as planícies e montanhas, exceto o cume de Vilca-Coto
e, mesmo lá, as ondas batiam tão altas que os animais foram
obrigados a se apertarem numa área estreita. (..,) Cinco dias depois, a
água recuou e o mar voltou a seu leito. Mas todos os seres humanos,
exceto um, morreram afogados e dele descendem todas as nações da
terra.
Os araucnaianos do Chile pré-colombiano preservaram uma tradição
que dizia que houve outrora um dilúvio, do qual poucos índios
escaparam. Os sobreviventes refugiaram-se em uma alta montanha
chamada Thegtheg (a "trovejante" ou "faiscante"), que tinha três picos
e a capacidade de flutuar na água.
Na extremidade sul do continente, uma lenda dos yamanas, da Terra
do Fogo, informa: "A mulher-lua causou o dilúvio. Isso aconteceu no
tempo da grande elevação da superfície da terra. (...) A lua estava
cheia de ódio aos seres humanos. (...) Nessa ocasião, todos morreram
afogados, com exceção dos poucos que conseguiram escapar para
cinco picos de montanhas que a água não cobriu."
Outra tribo da Terra do Fogo, a pehenche, associa o dilúvio a um
prolongado período de escuridão. "O sol e a lua caíram do céu; e o
mundo permaneceu assim, sem luz, até que, finalmente, dois
condores gigantescos levaram de volta o sol e a lua para o céu."
América do Norte
Enquanto isso, no outro lado das Américas, entre os inuítes do Alasca,
havia a tradição de um dilúvio terrível, acompanhado por um
terremoto, que varreu tão rapidamente a face da terra que só uns
poucos homens conseguiram escapar em canoas, petrificados de
terror, ou refugiar-se nos picos das montanhas mais altas.
Os luisenos, da Baixa Califórnia, tinham uma lenda que dizia que uma
inundação cobriu as montanhas e destruiu a maior parte da
humanidade. Salvaram-se apenas unspoucos, porque fugiram para
os mais altos picos e que foram poupados quando a água inundou
todo o mundo. Os sobreviventes ali permaneceram até que passou a
inundação. Mais ao norte, mitos semelhantes foram registrados entre
os hurons. E uma lenda dos montagnais, grupo pertencente à família
algonquina, contava que Michabo, ou a Grande Lebre, com ajuda de
um corvo, uma lontra e um rato almiscarado, recriou o mundo.
O History of the Dakotas, de Lynd, um trabalho respeitado do século
XIX que preservou numerosas tradições indígenas que, de outro
modo, teriam sido perdidas, refere-se ao mito iroquês de que "o mar e
as águas haviam, um dia, invadido a terra, e toda vida humana foi
destruída". Os chickasaws afirmavam que o mundo fora destruído pela
água, "mas que havia sido salva uma família e dois animais de todos
os tipos." Os sioux falavam também de um tempo em que não havia
terra seca e quando todos os homens desapareceram.
Água, Água, por Todos os Lados
Até que distância e com que abrangência as repercussões do grande
dilúvio chegaram às memórias preservadas em mitos?
Até grande distância, sem a menor dúvida. Em todo o mundo são
conhecidas mais de 500 lendas que falam do dilúvio e, em um
levantamento de 86 delas (20 na Ásia, 3 na Europa, 7 na África, 46
nas Américas e 10 na Austrália e no Pacífico), um pesquisador
especializado, o Dr. Richard Andree, concluiu que 62 eram
inteiramente independentes das versões mesopotâmicas e hebraicas.
Antigos estudiosos jesuítas, que figuraram entre os primeiros
europeus a visitar a China, por exemplo, tiveram oportunidade, na
Biblioteca Imperial, de examinar um vasto conjunto de obras,
composto de 4.320 volumes, que se dizia ter sido herdado de tempos
antigos e que continham "todos os conhecimentos". Esse grande livro
incluía certo número de tradições citando as conseqüências que se
seguiram quando a humanidade se rebelou contra os grandes deuses
e o sistema do universo despencou na desordem: "Os planetas
mudaram seus cursos. O céu afundou na direção do norte, o sol, a lua
e as estrelas mudaram seus movimentos. A terra desfez-se em
pedaços e as águas no seu seio jorraram violentas para o alto e
inundaram a terra”.
Na floresta tropical de Chewong, na Malásia, os nativos acreditavam
que, com grande freqüência, o mundo em que viviam, que chamavam
de Terra Sete, virava de cabeça para baixo e tudo era inundado e
destruído. Não obstante, graças à intervenção do Deus Criador Tohan,
a nova superfície plana do que fora antes o lado de baixo da Terra
Sete é moldada e transformada em montanhas, vales e planícies.
Novas árvores são plantadas e nascem novos seres humanos.
Um mito do dilúvio originário do Laos e da região norte da Tailândia
diz que seres chamados thens viviam há muito tempo no alto reino,
enquanto os senhores do baixo mundo eram três grandes homens, Pu
Leng Seung, Khun K'na e Khum K'et. Certo dia, os thens anunciaram
que, antes de tomar qualquer refeição, os homens deveriam lhes dar
uma parte da comida, como sinal de respeito. Os homens recusaram-se a cumprir a ordem e, irados, os thens provocaram um dilúvio que
destruiu toda a terra. Os três grandes homens construíram uma
jangada, no alto da qual fizeram uma pequena casa e embarcaram
com certo número de mulheres e crianças. Dessa maneira, eles e
seus descendentes sobreviveram ao dilúvio.
De forma semelhante, os karens da Birmânia têm tradições de um
dilúvio global, do qual dois irmãos se salvaram em uma jangada. Um
dilúvio do mesmo tipo faz parte da mitologia do Vietnã, na qual se diz
que um irmão e uma irmã sobreviveram dentro de um grande caixão
de madeira, que continha também dois espécimes de todos os tipos
de animais.
Vários povos aborígines australianos, especialmente aqueles cujas
terras tradicionais se situavam ao longo da costa tropical no norte,
atribuem sua origem a uma grande inundação, que acabou com a
terra e a sociedade anteriores. Paralelamente, nos mitos sobre a
origem de certo número de outras tribos, a serpente cósmica
Yurlunggur (associada ao arco-íris) é julgada responsável pelo dilúvio.
Existem também tradições japonesas, de acordo com as quais as ilhas
do Pacífico na Oceania foram formadas depois de baixarem as águas
de um grande dilúvio. Na própria Oceania, um mito dos habitantes
nativos do Havaí conta que o mundo foi destruído por uma inundação
e, mais tarde, recriado por um deus chamado Tangaloa. Os samoanos
acreditam que, no passado, aconteceu uma inundação que destruiu
quase toda a humanidade. Só sobreviveram dois seres humanos, que
se fizeram ao mar em um barco que, finalmente, chegou à terra no
arquipélago samoano.
Grécia, Índia e Egito
No outro lado do mundo, a mitologia grega era também assombrada
por memórias de um dilúvio. Neste caso, porém (como, aliás, na
América Central), a inundação não era vista como um evento isolado,
mas como uma etapa em uma série de destruições e recriações do
mundo. Os astecas e maias falavam em termos de "Sóis", ou épocas
sucessivas (das quais pensavam que a nossa era a quinta e última).
De forma semelhante, as tradições orais da Grécia antiga, compiladas
e redigidas por Hesíodo no século VIII a.C., relatam que, antes da
presente criação, houve quatro raças anteriores de homens. Julgavam
os gregos que cada uma delas fora mais adiantada do que a que a
seguiu. E todas elas, na hora aprazada, haviam sido "engolidas" em
um cataclismo geológico.
A primeira e mais antiga criação fora a "raça de ouro" da humanidade,
que "vivera como os deuses, sem cuidados, sem problemas ou
sofrimentos... Dotados de corpos que não envelheciam, eles se
regalavam em seus banquetes... Quando morriam, era como homens
vencidos pelo sono". Com a passagem do tempo e por ordem de
Zeus, a raça de ouro "mergulhou finalmente nas profundezas da
terra". Foi sucedida pela "raça de prata", suplantada pela "raça de
bronze", substituída por sua vez pela raça dos "heróis" e seguida pela
raça de "ferro" - a nossa -, a quinta e mais recente criação.
O destino da raça de bronze é o que mais nos interessa aqui. Descrita
nos mitos como tendo "a força de gigantes e mãos poderosas em
braços poderosos", esses homens formidáveis foram exterminados
por Zeus, o rei dos deuses, comocastigo pelas más ações de
Prometeu, o titã rebelde que deu o fogo à humanidade. o mecanismo
usado pela vingativa divindade para limpar a terra foi uma inundação
que a tudo cobriu.
Na versão mais conhecida da história, Prometeu engravidou uma
humana. Ela lhe deu um filho, chamado Deucalião, que governou a
Pítia, na Tessália, e tomou como esposa Pirra, "a ruiva", filha de
Epimeto e Pandora. Quando Zeus tomou a terrível decisão de destruir
a raça de bronze, Deucalião, avisado por Prometeu, construiu uma
caixa de madeira, encheu-a de "tudo que era necessário" e entrou
nela com Pirra. O rei dos deuses despejou dos céus chuvas
torrenciais, inundando a maior parte da terra. Toda a humanidade
pereceu no dilúvio, exceto alguns que haviam fugido para as
montanhas mais altas. “Aconteceu também nesse tempo que as
montanhas da Tessália foram fendidas ao meio e toda a região, até o
Istmo e o Peloponeso, tornou-se um único lençol de água.”
Deucalião e Pirra flutuaram nessa caixa durante nove dias e nove
noites e chegaram finalmente ao monte Parnaso. Aí, quando
cessaram as chuvas, desembarcaram e fizeram sacrifício aos deuses.
Em resposta, Zeus enviou Hermes a Deucalião, com permissão para
pedir tudo que quisesse. Ele quis seres humanos. Zeus ordenou-lhe
que pegasse pedras no chão e que as jogasse por cima do ombro. As
pedras jogadas transformaram-se em homens e, as jogadas por Pirra,
em mulheres.
Da mesma forma que os hebreus se lembravam de Noé, os gregos
dos tempos históricos lembravam-se de Deucalião - como ancestral da
nação e fundador de numerosas cidades e templos.
Uma figura semelhante era reverenciada na Índia védica há mais de
3.000 anos. Certo dia (conta a história), quando um sábio chamado
Manu estava fazendo suas abluções, encontrou, na concha da mão,
um peixinho, que lhe implorou que o deixasse viver. Sentindo pena do
peixinho, ele o colocou em um jarro. No dia seguinte, porém, o
peixinho crescera tanto que ele teve que levá-lo para um lago. Logo
depois, o lago ficou pequeno demais. "Jogue-me no mar", pediu o
peixe [que era, na realidade, uma manifestação do deus Vishnu], "e eu
me sentirei mais confortável." Em seguida, ele avisou Manu do dilúvio
que estava por acontecer. Enviou-lhe um grande navio, com ordens
para que o enchesse com duas criaturas vivas de todas as espécies e
sementes de todas as plantas, e que, em seguida, subisse para bordo.
Manu mal havia acabado de cumprir as ordens quando o oceano
subiu e submergiu tudo e nada podia ser visto, exceto Vishnu em sua
forma de peixe - nesse momento uma criatura enorme, de um único
chifre e escamas douradas.
Manu amarrou o navio no chifre do peixe e Vishnu rebocou-o pelas
águas altas até parar no cume da "Montanha do Norte": o peixe disse:
"Eu te salvei, amarra o navio a uma árvore, porque a água pode varrê-lo para longe, enquanto estiveres na montanha e, na proporção em
que as águas descerem, tu também descerás." Manu desceu com as
águas. O Dilúvio havia destruído todas as criaturas e Manu
permaneceu sozinho.
Com ele, e com os animais e plantas que ele salvara da destruição,
começou uma nova era no mundo. Após um ano, das águas emergiu
uma mulher, que se apresentou como "a filha de Manu". Os dois
casaram e tiveram filhos, tornando-se, dessa maneira, os ancestrais
da atual raça da humanidade.
Por último, mas não menos importante, as tradições egípcias referem-se também a uma grande inundação. Um texto funerário descoberto
na tumba do Faraó Seti I, por exemplo, conta a destruição, por um
dilúvio, da humanidade pecadora. As razões da catástrofe estão
expostas no Capítulo CLXXV do Livro dos Mortos, que atribui o
discurso seguinte ao Deus da Lua, Thoth:
Eles lutaram entre si, açularam conflitos, praticaram o mal, criaram
hostilidade, cometeram massacres, causaram problemas e opressão...
[Por conseguinte], vou apagar tudo que fiz. Esta terra entrará em um
abismo aquoso por intermédio de uma inundação furiosa e ela se
tornará vazia como no tempo primevo.
Na Pista de um Mistério
Com as palavras de Thoth fechamos o círculo, que inclui os dilúvios
sumeriano e bíblico. "A terra estava corrompida à vista de Deus, e
cheia de violência", diz o Gênesis:
Viu Deus a Terra e eis que estava corrompida, porque todo ser vivente
havia corrompido seu caminho na terra. Então disse Deus a Noé:
"Resolvi dar cabo de toda a carne, porque a terra está cheia da
violência dos homens; eis que os farei perecer juntamente com a
terra”.
Tal como a inundação de Deucalião, a inundação de Manu, a
inundação que destruiu o "Quarto Sol" dos astecas, o dilúvio bíblico foi
o fim de uma era mundial. Uma nova era sucedeu-a: a nossa,
povoada pelos descendentes de Noé. Desde o próprio início, porém,
era entendido que esta era também acabaria no devido tempo, em um
fim catastrófico. Ou como diz uma velha canção: "Deus deu a Noé o
sinal do arco-íris; não mais água, será o fogo, na próxima vez.”
A fonte escritural dessa profecia de destruição do mundo é encontrada
em 2 Pedro, versículo 3:
Tendo em conta, antes de tudo, que, nos últimos dias, virão
escarnecedores com os seus escárnios, andando segundo as próprias
paixões e dizendo: onde está a promessa de sua vida. Porque, desde
que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o
princípio da criação. Porque, deliberadamente, esquecem que, de
longo tempo, houve céus bem como terra, a qual surgiu da água e
através da água, pela palavra de Deus, pelas quais veio a perecer o
mundo daquele tempo, afogado em água. Ora, os céus que agora
existem, e a terra, pela mesma palavra têm sido entesourados para o
fogo, estando reservados para o dia do juízo e destruição dos homens
ímpios. Há, todavia, uma coisa, amados, que não deveis esquecer:
que, para o Senhor, um dia é como mil anos e mil anos como um dia.
Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam
demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não
querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao
arrependimento. Virá, entretanto, como ladrão, o dia do Senhor, no
qual os céus passarão com estrepitoso estrondo e os elementos se
desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem
serão atingidas.
A Bíblia, por conseguinte, imagina duas eras do mundo, sendo a
nossa a segunda e a última. Em outros locais, em outras culturas, são
registrados diferentes números de criações e destruições. Na China,
por exemplo, as eras desaparecidas são denominadas kis, dez das
quais teriam passado desde o começo dos tempos até Confúcio. Ao
fim de cada ki, "em uma convulsão geral da natureza, o mar sai de seu
leito, montanhas saltam da terra, rios mudam seus cursos, seres
humanos e tudo mais são arruinados, e apagados os traços antigos..."
As escrituras budistas falam dos "Sete Sóis", todos eles levados ao
fim por água, fogo, ou vento. Ao fim do Sétimo Sol, o atual "ciclo
mundial", é esperado que a "terra irrompa em chamas". Tradições
aborígines de Sarawak e Sabah lembram que o céu foi outrora "baixo"
e nos dizem que "seis Sóis pereceram (...) No presente, o mundo é
iluminado pelo sétimo Sol". Analogamente, os Livros Sibilinos falam
em "nove Sóis que são nove eras" e profetizam duas eras ainda por
vir - as do oitavo e do nono Sol".
No outro lado do oceano Atlântico,os índios hopi (que são parentes
distantes dos astecas) mencionam três Sóis anteriores, todos
culminando em uma grande aniquilação, seguida do reaparecimento
gradual da humanidade. Na cosmologia asteca, claro, houve quatro
Sóis antes do nosso. Essas pequenas diferenças sobre o número
exato de destruições e criações mencionadas nesta ou naquela
mitologia não devem nos fazer esquecer a convergência notável das
tradições antigas. Em todo o mundo, essas tradições parecem
rememorar uma série de catástrofes. Em muitos casos, o caráter de
cada cataclismo sucessivo é obscurecido pelo uso de linguagem
poética e o acúmulo de metáforas e símbolos. Com grande freqüência,
além disso, pelo menos dois diferentes tipos de calamidade podem ser
descritos como tendo ocorrido simultaneamente (com mais freqüência,
inundações e terremotos, embora, às vezes, fogo e apavorante
escuridão).
Tudo isso contribui para a criação de um quadro confuso e
atabalhoado. Os mitos dos hopi, porém, destacam-se por sua
franqueza e simplicidade. E o que eles nos dizem é o seguinte:
O primeiro mundo foi destruído, como castigo de más ações
praticadas pelo homem, por um fogo consumidor, que veio de cima e
de baixo. O segundo mundo terminou quando o globo terrestre
inclinou-se para a frente a partir de seu eixo e tudo foi coberto pelo
gelo. O terceiro mundo terminou em um dilúvio universal. O atual
mundo é o quarto. Seu destino dependerá de seus habitantes se
comportarem ou não de acordo com os planos do Criador.
Aqui, estamos na pista de um mistério. E muito embora não possamos
jamais alimentar a esperança de sondar os planos do Criador,
podemos chegar a uma conclusão sobre o enigma de mitos
convergentes de destruição global.
Através desses mitos, os antigos nos falam diretamente. E o que é
que estão tentando nos dizer?
CAPÍTULO 25
As Muitas Máscaras do Apocalipse
Da mesma forma que os índios hopi da América do Norte, os arianos
avésticos do Irã pré-islâmico acreditavam que, antes da nossa, houve
três épocas de criação. Na primeira, o homem era puro e sem pecado,
de alta estatura, longevo, mas, pouco antes de terminar esse tempo, o
Maligno declarou guerra a Ahura Mazela, o deus sagrado, do que se
seguiu um cataclismo pavoroso. Na segunda, o Maligno nenhum
sucesso teve. Na terceira, o bem e o mal estiveram exatamente
equilibrados. Na quarta (a atual época do mundo), o mal triunfou logo
no princípio e manteve a supremacia desde então!.
O fim da quarta época está previsto para breve, mas é o cataclismo
que aconteceu ao fim da primeira que nos interessa aqui. Não foi uma
inundação, mas coincidiu de tantas maneiras com numerosas
tradições globais de dilúvio que não podemos deixar de entrever uma
forte ligação entre elas.
As escrituras avésticas levam-nos de volta a um tempo de paraíso na
terra, quando os ancestrais remotos do antigo povo iraniano viviam na
fabulosa Airyana Vaejo, a primeira e feliz criação de Ahura Mazda,
que floresceu na primeira era do mundo: o berço mítico e lar original
da raça ariana.
Naqueles dias, Airyana Vaejo gozava de um clima suave e produtivo,
com sete meses de verão e cinco de inverno. Rico em vida silvestre e
em colheitas, em prados cortados por rios, esse jardim de delícias foi
convertido em um deserto inabitável, de dez meses de inverno e
apenas dois de verão, como resultado do ataque de Angra Mainyu, o
Maligno:
A primeira das boas terras e países que eu, Ahura Mazela, criei foi
Airyana Vaejo. (...) Em seguida, Angra Mainyu, que é a encarnação da
morte, criou uma oposição a ela, uma poderosa serpente e a neve.
Dez meses de inverno nela existem agora, dois meses de verão, estes
são frios como a água, frios como a terra, frios como as árvores. (...)
Lá, durante o ano todo, cai neve emabundância, que é a pior das
pragas...
O leitor concordará que essas palavras indicam uma súbita e
dramática mudança de clima em Airyana Vaejo. As escrituras
avésticas não nos deixam em dúvida a esse respeito. Antes, elas
descrevem um encontro dos deuses celestiais, convocado por Ahura
Mazda, e nos dizem que o "louro Yima, O deus pastor, de grande
renome em Airyana Vaejo", compareceu a essa reunião em
companhia de todos os seus excelentes mortais.
É nesse ponto que começam a surgir os estranhos paralelos com o
dilúvio bíblico, porque Ahura Mazda aproveita a reunião para alertar
Yima sobre o que vai acontecer, como resultado do uso dos poderes
do Maligno:
E Ahura Mazda falou a Yima, dizendo: "Yima, o louro... Sobre o
mundo material, um inverno fatal está prestes a descer, que trará uma
geada forte e destruidora. Sobre o mundo corpóreo descerá o mal do
inverno e nele a neve cairá com grande abundância.
E todos os três tipos de animais perecerão, os que vivem nas
florestas, os que vivem nos cumes das montanhas e os que vivem nas
profundezas dos vales sob abrigo dos estábulos.
Por isso, faz para ti um var (hipogeu, ou espaço fechado subterrâneo),
com o comprimento, nos quatro lados, de uma pista de corrida de
cavalos. Para lá levarás representantes de todos os tipos de animais,
grandes e pequenos, de gado, de todos os animais de carga, e de
homens, de cães, de aves, e de fogos que queimam vermelhos.
Lá farás água correr. Lá colocarás as aves nas árvores, ao longo da
beira da água, em um verdor que será eterno. Lá colocarás espécimes
de todas as plantas, as mais lindas e mais perfumadas, e de todos os
frutos os mais suculentos. Todos esses tipos de coisas e criaturas não
perecerão enquanto estiverem no var. Mas não põe nele criatura
deformada, ou impotente, ou louca, nem má, nem enganadora, nem
rancorosa, nem ciumenta, nem homem com dentes tortos, nem
leproso...
À parte a escala da operação, só há uma diferença autêntica entre o
var divinamente inspirado de Yima e a arca divinamente inspirada de
Noé: a arca é um meio para sobreviver a uma inundação terrível e
devastadora, que destruirá todas as criaturas vivas ao afogar o mundo
em água; o var é um meio para sobreviver a um terrível e devastador
"inverno", que destruirá todas as criaturas vivas ao cobrir a terra com
um lençol congelante de gelo e neve.
No Bundahish, outra das escrituras zoroastrianas (que se acredita que
contenha material antigo de uma parte perdida do Avesta original),
mais informações são dadas sobre o cataclismo da glaciação que
destruiu Airyana Vaejo. Quando Angra Mainyu enviou a "geada forte e
destruidora”, ele também "atacou e desorganizou o céu". O Bundahish
nos diz que o ataque permitiu ao Maligno "dominar um terço do céu e
cobri-lo de escuridão", à medida que o gelo invasor apertava sua
empunhadura.
Frio, Fogo, Terremotos e Desorganização
Indescritíveis nos Céus
Os arianos avésticos do Irã, que se sabe que emigraram para a Ásia
ocidental vindos de alguma outra terra natal distante, não foram os
únicos possuidores de tradições arcaicas que lembram, de maneiras
que dificilmente seriam coincidências, o ambiente básico do grande
dilúvio. Na verdade, embora essas tradições estejam mais comumente
ligadas ao dilúvio, aos temas conhecidos de aviso divino e de
salvação do resto da humanidade da calamidade universal, elas são
também encontradas em muitas diferentes partes do mundo, ligadas
ao inesperado aparecimento de condições glaciais.
Na América do Sul, por exemplo, os índios toba, da região do Gran
Chaco, que se estende pelas atuais fronteiras do Paraguai, Argentina
e Chile, ainda repetem um mito antigo da chegada do que chamam de
"o Grande Frio". O aviso é dado por um herói semi-divino chamado
Asin:
Asin disse a um homem que juntasse toda madeira que pudesse e
que cobrisse sua cabana com uma grossa camada de palha, porque ia
chegar um tempo de grande frio. Logo que a cabana foi preparada,
Asin e o homem se trancaram dentro dela e esperaram. Quando o
grande frio chegou, pessoas tremendo dos pés à cabeça apareceram
para lhes implorar um pedaço de lenha aceso. Asin era duro de
coração e deu brasas apenas àquelesque haviam sido seus amigos.
Os pedintes estavam congelando e choraram a noite inteira. À meia-noite, todos haviam morrido, jovens e velhos, homens e mulheres...
Esse período de gelo e granizo durou por longo tempo e todos os
fogos foram apagados. A geada era tão grossa quanto couros.
Da mesma forma que nas tradições avésticas, parece que o grande
frio foi acompanhado por grande escuridão. Nas palavras de um
ancião toba, essas aflições haviam sido mandadas "porque, quando
está cheia de gente, a terra tem que mudar. A população tem que ser
dizimada para salvar o mundo... No caso da longa escuridão, o sol
simplesmente desapareceu e o povo passou fome. Acabando o
alimento, os homens começaram a comer os filhos. No fim,
todos morreram...”
O Popol Vuh maia fala em uma inundação com "muito granizo, chuva
negra, nevoeiro e frio indescritível". E diz também que foi um período
"nublado e de penumbra em todo o mundo (...) as faces do sol e da
lua estavam cobertas". Outras fontes maias confirmam que esses
fenômenos estranhos e terríveis foram experimentados pela
humanidade, "no tempo dos anciãos. A terra escureceu... Aconteceu
que o sol ainda estava brilhante e claro. Em seguida, ao meio-dia,
escureceu... A luz do sol só voltou vinte e seis anos depois do dilúvio".
O leitor talvez se lembre de que numerosos mitos sobre dilúvio e
catástrofes contêm referências não só à descida de uma grande
escuridão, mas a outras mudanças no aspecto dos céus. Na Terra do
Fogo, por exemplo, dizia-se que a terra e a lua "caíram do céu" e, na
China, que "os planetas alteraram seus cursos. O sol, a lua e as
estrelas mudaram seus movimentos". Os incas acreditavam que, "nos
tempos antigos, os Andes foram fendidos em dois, quando o céu fez
guerra contra a terra". Os tarahumara do norte do México preservaram
lendas da destruição do mundo baseadas em uma mudança na
trajetória do Sol. Um mito africano do baixo Congo diz que, "há muito
tempo, o sol encontrou a lua e contra ela lançou lama, o que a tornou
menos brilhante. Quando ocorreu esse encontro, houve uma grande
inundação..." Os índios cahto da Califórnia dizem simplesmente que "o
céu caiu". Os antigos mitos greco-romanos contam que o dilúvio de
Deucalião foi imediatamente precedido de pavorosos acontecimentos
no céu. Esses eventos são vividamente simbolizados na história de
Faetonte, filho do sol, que aprestou a carruagem do pai mas não
conseguiu dirigi-Ia pelo curso que ele seguia:
Logo depois, os árdegos cavalos sentiram que as rédeas estavam em
mãos inexperientes. Empinando as patas dianteiras e virando-se para
o lado, seguiram para onde quiseram. Nesse momento, toda a terra
espantou-se ao ver que o glorioso Sol, em vez de manter seu curso
majestoso e benéfico pelo céu, pareciacorrer torto no alto e descer
furioso como se fosse um meteoro.
Este não é o lugar para especular sobre o que pode ter causado as
alarmantes perturbações nos aspectos do céu que aparecem ligadas a
lendas sobre cataclismos em todo o mundo. Para os nossos atuais
objetivos, é suficiente notar que essas tradições parecem referir-se à
mesma "desorganização do céu" que acompanhou o inverno fatal e o
espalhamento dos lençóis de gelo descritos no Avesta iraniano. Mas
ocorrem também outras ligações. O fogo, por exemplo,
freqüentemente precede ou segue a inundação. No caso da aventura
de Faetonte com o Sol, "a grama murchou; as colheitas foram
crestadas; os bosques subiram em fogo e fumaça; e em seguida sob
eles a terra nua rachou e desmoronou e rochas enegrecidas partiram-se violentamente sob efeito do calor".
Vulcanismo e terremotos são freqüentemente mencionados em
conjunto com inundações, especialmente nas Américas. Os
auracanianos do Chile dizem explicitamente que "a inundação foi
resultado de erupções vulcânicas, acompanhadas de violentos
terremotos". Os mam maias, de Santiago Chimaltenango, nas
montanhas da região oeste da Guatemala, conservam memórias de
"uma inundação de breu fervente" que, dizem, foi um dos instrumentos
da destruição do mundo. No Gran Chaco da Argentina, os índios
mataco falam de "uma nuvem negra que veio do sul na época da
inundação e cobriu todo o céu. Raios caíram e trovejou. Mas, as gotas
que caíram não eram iguais às de chuva. Elas eram de fogo...”
Um Monstro Perseguiu o Sol
Há uma cultura antiga que, talvez mais do que qualquer outra,
preserva memórias mais vívidas de seus mitos, a da denominada
cultura das tribos teutônicas da Alemanha e Escandinávia, uma cultura
mais lembrada pelas canções dos bardos e pelos sábios nórdicos. As
histórias contadas por essas canções têm raízes em um passado que
talvez seja muito mais remoto do que os estudiosos imaginam e
combinam imagens conhecidas com estranhos artifícios simbólicos e
linguagem alegórica para relembrar um cataclismo de pavorosa
magnitude:
Em uma distante floresta no leste, uma mulher gigante trouxe ao
mundo uma prole inteira de jovens lobos, cujo pai era Fenrir. Um
desses monstros perseguiu o sol, para dele se apossar. Durante muito
tempo, a perseguição foi vã, mas, a cada estação, o lobo tornava-se
mais forte e, finalmente, alcançou o sol. Seus raios brilhantes foram,
um após outro, apagados. O sol adquiriu uma tonalidade vermelha
sangrenta e, em seguida, desapareceu por completo.
Daí em diante, o mundo foi envolvido por um horrendo inverno.
Tempestades de neve desciam de todos os pontos do horizonte.
Guerras explodiram por toda a terra. Irmão matou irmão, filhos não
mais respeitaram os laços de sangue. Nesse tempo, os homens não
eram melhores do que os lobos, ansiosos como estavam para se
destruírem mutuamente. Antes de muito tempo, o mundo ia mergulhar
no abismo do nada.
Entrementes, o lobo Fenrir, que os deuses muito tempo antes haviam
acorrentado com todo cuidado, soltou-se finalmente e escapou.
Sacudiu-se todo e o mundo tremeu. O freixo Yggdrasil (que se
imaginava fosse o eixo da terra) tremeu das raízes até os mais altos
galhos. Montanhas desmoronaram ou se partiram de cima a baixo. Os
anões que tinham nelas suas moradas subterrâneas procuraram em
desespero e em vão entradas conhecidas há tanto tempo, mas que
nesse momento não existiam mais.
Abandonados pelos deuses, os homens foram expulsos de seus lares
e a raça humana foi varrida da superfície da terra. A própria terra
estava começando a perder sua forma. As estrelas já começavam a
mover-se à deriva pelo céu e a cair no vazio abismal. Elas eram como
andorinhas que, cansadas de uma viagem longa demais, caem e
desaparecem nas ondas.
O gigante Surt ateou fogo a toda a terra e o universo nada mais era do
que uma imensa fornalha. Chamas jorravam de fissuras nas rochas e
em toda parte se ouvia o silvo de vapor. Todas as coisas vivas, toda
vida vegetal, foram destruídas. Restou apenas o solo nu, mas, tal
como o próprio céu, a terra nada mais era do que rachaduras e
fendas.
Nesse instante, todos os rios, todos os mares, subiram e
transbordaram. De todos os lados, ondas se chocavam. Engrossaram
e ferveram lentamente sobre todas as coisas. A terra mergulhou sob o
mar...
Ainda assim, nem todos os homens pereceram na grande catástrofe.
Fechados dentro da madeira do freixo Yggdrasil - que as chamas
devoradoras da conflagração universal não conseguiram consumir - os
ancestrais de uma futura raça de homens escaparam da morte. Nesse
abrigo, eles descobriram que seu único alimento fora o orvalho da
manhã.
E foi assim que, dos destroços de um mundo antigo, um mundo novo
nasceu. Lentamente, a terra emergiu das ondas. Montanhas subiram
novamente e delas escorreram cataratas de águas cantantes.
Esse novo mundo que o mito teutônico anunciava é o nosso. Dispensa
dizer que, tal como o Quinto Sol dos astecas e maias, ele foi criado há
muito tempo e não é mais jovem. Poderia ser uma coincidência que
um dos muitos mitos de dilúvio da América Central sobre a "quarta
época", 4 Atl ("água"), não coloque o casal Noé em uma arca, mas
dentro de uma grande árvore, exatamente igual ao Yggdrasil? O 4 Atl
foi destruído por inundações. As montanhas desapareceram... Duas
pessoas sobreviveram, porque um dos deuses lhes ordenou que
abrissem um buraco no tronco de uma árvore muito grande e
rastejassem para dentro dela quando os céus caíssem. O casal entrou
e sobreviveu. Seus fIlhos repovoaram a terra.
Não é estranho que a mesma linguagem simbólica continue a
reaparecer nas tradições antigas de tantas regiões tão separadas do
mundo? Como explicar esse fato? Estaremos falando sobre alguma
enorme onda subconsciente de telepatia inter-cultural, ou poderiam os
elementos constituintes desses notáveis mitos universais ter sido
concebidos, em tempos imemoriais, por indivíduos inteligentes e com
uma finalidade em vista? Qual dessas hipóteses improváveis tem
maior possibilidade de ser a verdadeira? Ou haverá outras
explicações para o enigma dos mitos?
Voltaremos a essas questões no devido tempo. Enquanto isso, o que
devemos concluir sobre as visões apocalípticas de fogo e gelo,
inundações, vulcanismo e terremotos, presentes em todos os mitos?
Em todos eles identificamos um realismo insistente e conhecido.
Poderia isso acontecer porque eles nos falam de um passado que
suspeitamos ser o nosso, mas que nem podemos lembrar claramente
nem esquecer de todo?
CAPÍTULO 26
Uma Espécie Nascida no Longo Inverno da Terra
Em tudo aquilo que chamamos de "história" - tudo que lembramos
claramente sobre nós mesmos como espécie -, a humanidade nem
uma única vez chegou perto da aniquilação total. Em várias regiões e
em tempos variados ocorreram terríveis calamidades naturais. Mas
não houve uma única ocasião nos últimos 5.000 anos em que se
possa dizer que a humanidade como um todo enfrentou o perigo de
extinção.
Mas foi sempre assim? Ou será possível, se recuarmos bastante no
passado, descobrir uma época em que nossos ancestrais foram quase
riscados da face da terra? São justamente épocas como essas que
parecem constituir o tema principal dos grandes mitos sobre
cataclismos. De modo geral, estudiosos os atribuem a fantasias de
poetas antigos. Mas, e se os pesquisadores estiverem enganados? E
se uma série terrível de catástrofes naturais reduziu efetivamente
nossos ancestrais pré-históricos a um punhado de indivíduos
espalhados por aqui e ali na face da terra, bem separados e sem
contatos entre si?
Estamos à procura de uma época que se ajuste tão bem aos mitos
como o sapatinho ao pé de Cinderela. Nessa busca, contudo,
evidentemente não há razão para investigar qualquer período anterior
ao aparecimento de seres humanos reconhecidamente modernos
neste planeta. Não estamos interessados aqui no Homo habilis, no
Homo erectus ou mesmo no Homo sapiens neanderthalensis.
Interessa-nos apenas o Homo sapiens sapiens, nossa própria espécie,
e a verdade é que não estamos aqui há tanto tempo assim.
Estudiosos do homem primitivo discordam até certo ponto sobre
quanto tempo vivemos na Terra. Alguns pesquisadores, como teremos
oportunidade de ver, alegam que restos humanos parciais de mais de
100.000 anos podem ser "inteiramente modernos". Outros defendem
uma antiguidade reduzida, na faixa de 35.000-40.000 anos, ao passo
que terceiros propõem um número conciliatório de 50.000 anos. Mas
ninguém sabe com certeza. "A origem de seres humanos inteiramente
modernos, denotada pelo nome da subespécie Homo sapiens sapiens
continua a ser um dos grandes enigmas da paleoantropologia",
reconhece uma autoridade.
Cerca de três e meio milhões de anos de evolução mais ou menos
relevante são sugeridos pelo registro fóssil. Para todos os fins
práticos, o registro começa com um pequeno hominídeo bípede
(apelidado de Lucy), cujos restos foram descobertos em 1974 na
seção etíope do Great Rift Valley, na África Oriental. Com uma
capacidade cerebral de 400cc (menos de um terço da média
moderna), Lucy, definitivamente, não era humana. Mas tampouco era
um símio e tinha alguns aspectos notavelmente "parecidos com os
humanos", especialmente o andar ereto, a forma da pelve e os
maxilares. Por essas e outras razões, a espécie de Lucy - classificada
como Australopithecus afarensis - é aceita pela maioria dos
paleoantropologistas como nosso mais antigo ancestral direto.
A cerca de dois milhões de anos, representantes do Homo habilis, os
membros fundadores da linhagem Homo à qual nós mesmos
pertencemos, começaram a deixar crânios e esqueletos fossilizados.
À medida que passava o tempo, essa espécie demonstrava claros
sinais de evolução para uma forma ainda mais "graciosa” e refinada e
para um cérebro maior e mais versátil. O Homo erectus, que coincidiu
com o Homo habilis e o sucedeu, surgiu há cerca de 1,6 milhão de
anos, com uma capacidade cerebral na faixa de 900cc (contra os
700cc do habilis). No milhão de anos, mais ou menos, que se seguiu,
e chegando a 400.000 anos no passado,nenhuma mudança evolutiva
ocorreu - ou nenhuma que tenha comprovação nos fósseis
remanescentes. Em seguida, o Homo erectus cruzou os portais da
extinção e entrou no oásis do hominídeo e, devagar - bem devagar -,
começou a aparecer o que os paleoantropologistas chamam de "o
grau sapiente":
É difícil saber quando começou exatamente a transição para uma
forma mais sapiente. Acreditam alguns estudiosos que a transição,
envolvendo aumento da capacidade do cérebro e redução da
espessura dos ossos cranianos, começou já há 400.000 anos. Por
azar, simplesmente não há fósseis suficientes desse importante
período que nos dêem certeza do que estava acontecendo.
O que, definitivamente, não estava acontecendo há 400.000 anos era
o aparecimento de qualquer coisa identificável como nossa
subespécie Homo sapiens sapiens, contadora de histórias e criadora
de mitos. Há consenso em que "seres humanos sapientes devem ter
evoluído do Homo erectus" e é verdade que certo número de
populações "arcaicas sapientes" de fato surgiu entre os anos 400.000
e 100.000 no passado. Infelizmente, está longe de clara a relação
entre essas espécies de transição e a nossa. Conforme notado antes,
os primeiros candidatos à filiação ao clube exclusivo do Homo sapiens
sapiens foram datados por alguns pesquisadores como pertencentes à
última parte desse período. Mas esses restos são incompletos e de
modo nenhum sua identificação é geralmente aceita. O mais antigo,
parte de uma calota craniana, é um suposto espécime humano
moderno, de cerca de 113.000 anos a.C. Por volta dessa época,
surgiu o Homo sapiens neanderthalensis, uma subespécie bem
distinta e que a maioria de nós conhece como "Homem de
Neandertal".
Alto, com músculos fortemente desenvolvidos, arcadas superciliares
proeminentes e face afocinhada, o Homem de Neandertal tinha um
tamanho médio de cérebro maior do que o dos seres humanos
modernos (1.400cc contra nossos 1.360cc). A posse de um cérebro
tão grande constituía sem dúvida um ativo para essas "criaturas
inteligentes, espiritualmente sensíveis, férteis em recursos" e o
registro fóssil sugere que elas foram a espécie dominante no planeta
desde 100.000 até 40.000 anos no passado. Em algum momento
nesse período longo e pouco compreendido, o Homo sapiens sapiens
estabeleceu-se, deixando para trás restos fósseis de cerca de 40.000
anos de idade que são inequivocamente de seres humanos modernos,
suplantando por completo os Neandertais por volta do ano 35000 a.C.
Em suma, seres humanos como nós, pelos quais poderíamos passar
na rua sem piscar, se eles estivessem barbeados e usando roupas
modernas, foram as criaturas humanas dos últimos 115.000 anos, no
máximo - e, com maior probabilidade, apenas nos últimos 50.000
anos. Segue-se que se os mitos do cataclismo que vimos estudando
refletem uma época de sublevação geológica experimentada pela
humanidade, essas sublevações ocorreram nos últimos 115.000 anos
e, com maior probabilidade, nos últimos 50.000.
O Sapatinho da Cinderela
Constitui uma coincidência estranha da geologia e da
paleoantropologia que o início e o desenvolvimento da última Era
Glacial, e o aparecimento e proliferação do homem moderno,
ocorreram na mesma época. É curioso também que muito pouco se
saiba sobre ambos.
Na América do Norte, a última Era Glacial é conhecida como
Glaciação Wisconsin (nome dado como referência a depósitos
rochosos estudados no estado de Wisconsin) e sua fase mais antiga
foi datada pelos geólogos como tendo ocorrido há 115.000 anos. Após
essa data, ocorreram vários avanços e recuos do lençol de gelo, tendo
a taxa mais rápida de acumulação ocorrido entre 60.000 e 17.000
anos atrás - processo este que culminou no Avanço Tazwell, quando
a glaciação atingiu sua extensão máxima, por volta do ano 15.000 a.C.
No ano. 13000 a.C., porém, milhões de metros quadrados de gelo
haviam derretido, por motivos que nunca foram devidamente
explicados, e, por volta do ano 8000 a.C., a Wisconsin havia se
retirado inteiramente.
A Era Glacial foi um fenômeno global, que afetou tanto o hemisfério
Norte quanto o Sul. Condições climáticas e geológicas semelhantes,
portanto, prevaleceram também em muitas outras partes do mundo
(notadamente, na Ásia oriental, Austrália, Nova Zelândia e América do
Sul). Houve glaciação maciça na Europa, descendo o gelo da
Escandinávia e Escócia para cobrir a maior parte da Grã-Bretanha,
Dinamarca, Polônia, Rússia, grandes regiões da Alemanha, toda a
Suíça e grandes pedaços da Áustria, Itália e França. (Conhecida
tecnicamente como Glaciação Wurm, essa Idade de Gelo européia
começou há uns 70.000 anos, um pouco mais tarde do que sua
contrapartida americana, mas chegou à extensão máxima na mesma
época, 17.000 anos no passado, ocorrendo em seguida a mesma
rápida retirada e compartilhando da mesma data terminal).
Os estágios cruciais da cronologia da Idade de Gelo, portanto,
parecem ter sido os seguintes:
1. Cerca de 60.000 anos atrás, quando a Wurm, a Wisconsin e outras
glaciações já estavam bem adiantadas;
2. Cerca de 17.000 anos atrás, quando os lençóis de gelo atingiram
sua extensão máxima tanto no Velho quanto no Novo Mundo;
3. Os 7.000 anos de degelo que se seguiram.
O aparecimento do Homo sapiens sapiens, portanto, coincidiu com um
longo período de turbulência geológica e climática, um período
assinalado, acima de tudo, por violento congelamento e inundações.
Os muitos milênios durante os quais o gelo avançou implacavelmente
devem ter sido terríveis e apavorantes para nossos ancestrais. Os
7.000 anos finais do fim da glaciação, em especial os episódios de
degelo muito rápido e extenso, devem ter sido os piores.
Não devemos, no entanto, chegar a conclusões apressadas sobre o
estado do desenvolvimento social, religioso, científico ou intelectual
dos seres humanos que sobreviveram ao colapso demorado dessa
tumultuosa época. Talvez seja errado o estereótipo popular de que
todos eles foram habitantes primitivos de cavernas. Na realidade,
pouco se sabe sobre eles e quase que a única coisa que se pode
dizer com certeza é que foram homense mulheres exatamente iguais
a nós em termos fisiológicos e psicológicos.
É possível que, em várias ocasiões, tivessem estado próximos da
extinção total; é possível também que os grandes mitos de cataclismo,
aos quais os estudiosos nenhum valor histórico atribuem, possam
conter registros precisos e relatos de testemunhas oculares de
eventos reais. Conforme veremos no capítulo seguinte, se estamos
procurando uma época que se ajuste tão bem aos mitos como o
sapatinho ao pé de Cinderela, parece que a última Era Glacial é a
candidata mais forte.
CAPÍTULO 27
A Face da Terra Escureceu e Uma Chuva Negra
Começou a Cair
Forças terríveis foram desencadeadas sobre todas as criaturas
viventes durante a última Era Glacial. Podemos deduzir a maneira
como elas afligiram a humanidade pela prova firme de suas
conseqüências para outras grandes espécies. Freqüentemente, essa
prova parece confusa. Ou, como disse Charles Darwin, após visitar a
América do Sul:
Ninguém, acho, pode ter ficado mais atônito com a extinção de
espécies do que eu. Quando encontrei em La Plata [Argentina] o
dente de um cavalo enterrado com os restos de mastodontes,
megatérios, toxodontes e outros monstros extintos, todos os quais
coexistiram em um período geológico muito posterior, fiquei cheio de
espanto. Isso porque, constatando que os cavalos, desde sua
introdução pelos espanhóis na América do Sul, haviam corrido
selvagens por toda a região e aumentado em número a uma taxa sem
paralelo, perguntei a mim mesmo o que poderia ter exterminado, em
data tão recente, o antigo cavalo, em condições de vida
aparentemente tão favoráveis?
A resposta, claro, foi a Idade de Gelo. Foi ela que exterminou os
antigos cavalos das Américas e certo número de outros mamíferos
antes bem-adaptados. A extinção tampouco se limitou ao Novo
Mundo. Muito ao contrário, em diferentes partes da terra (por
diferentes motivos e em ocasiões diferentes), na longa época de
glaciação, ocorreram vários episódios bem distintos de extinção. Em
todas as áreas, a vasta maioria das muitas espécies destruídas
acabou nos sete mil anos finais, por volta dos anos 15000 a 8000
a.C. Nesta fase de nosso estudo, nenhuma necessidade há de
comprovar a natureza específica dos eventos climáticos, sísmicos e
geológicos ligados aos vários avanços e recuos dos lençóis de gelo
que exterminaram os animais. Podemos, com bons fundamentos,
especular que maremotos, terremotos, ciclones gigantescos e a
chegada e desaparecimento súbitos de condições glaciais tiveram um
papel nesse particular. Muito mais importante - quaisquer que tenham
sido as causas -, é a pura realidade física, de que extinção em massa
de animais ocorreu realmente, como resultado da turbulência da
última Era Glacial.
A turbulência, como concluiu Darwin em seuJournal, deve ter
"abalado toda a estrutura do globo". No Novo Mundo, por exemplo,
mais de setenta gêneros de grandes mamíferos desapareceram entre
os anos 15000 e 8000 a.C., incluindo todos os membros norte-americanos de sete famílias e uma ordem completa, a dos
proboscídeos. Essas perdas estonteantes, implicando a obliteração
violenta de mais de quarenta milhões de animais, não ocorreram
uniformemente em todo o período; na verdade, a vasta maioria da
extinção ocorreu em apenas dois mil anos, entre os anos 11000 e
9000 a.C. Ou, para colocar o assunto em perspectiva, nos 300.000
anos anteriores apenas 20 gêneros haviam desaparecido.
O mesmo modelo de extinção recente e maciça repetiu-se em toda a
Europa e Ásia. Nem mesmo a distante Austrália escapou, perdendo
talvez dezenove gêneros de grandes vertebrados, nem todos
mamíferos, em um período de tempo relativamente curto.
Alasca e Sibéria: O Congelamento Súbito
Parece que as regiões do norte do Alasca e Sibéria foram as mais
afetadas pelas sublevações letais ocorridas entre 13.000 e 11.000
anos no passado. Em uma grande faixa de morte, em volta da borda
do Círculo Ártico, os restos de números incontáveis de grandes
animais foram encontrados - incluindo numerosas carcaças com a
carne ainda intacta e quantidades assombrosas de longas presas de
mamute perfeitamente conservadas. Na verdade, em ambas as
regiões, carcaças de mamutes foram descongeladas para alimentar
cães de trenó e bifes da mesma origem eram oferecidos como atração
nos cardápios em Fairbanks. "Centenas de milhares de indivíduos
devem ter sido congelados imediatamente após a morte e assim
permaneceram, pois, de outra maneira, a carne e o marfim teriam
se estragado... Alguma poderosa força geral esteve certamente em
ação para produzir essa catástrofe".
O Dr. Dale Guthrie, do Institute of Arctic Biology, apresentou um
argumento interessante sobre a pura variedade de animais que
floresceram no Alasca no décimo primeiro milênio a.C.:
Constatando a existência dessa exótica mistura de tigres-de-dente-de-sabre, camelos, cavalos, rinocerontes, jumentos, cervos com galhadas
gigantescas, leões, furões etc., não podemos deixar de especular
sobre o mundo em que viveram. Essa grande diversidade de
espécies, tão diferente da que prevalece hoje, provoca uma pergunta
óbvia: não é provável que o resto do ambiente fosse também
diferente?
Os sedimentos onde foram escavados esses restos parecem uma
terra de fina granulação, cinzenta escura. Duras e congeladas no
interior dessa massa, diz o professor Hibben, da Universidade do
Novo México, encontram-se partes emaranhadas de animais e
árvores, misturadas com lâminas de gelo e camadas de turfa e
líquens... Bisões, cavalos, lobos, ursos, leões. (...) Rebanhos inteiros
foram aparentemente mortos na mesma ocasião, vítimas de algum
agente comum. (...) Essas pilhas de corpos de animais ou de homens
simplesmente não ocorrem por ação de qualquer agente natural (...)".
Em alguns níveis, artefatos de pedra foram encontrados "congelados
in situ em grandes profundidades e em associação com fauna da
Idade de Gelo, o que confirma que o homem foi contemporâneo dos
animais extintos no Alasca".
Em todos os tipos de terra do Alasca, foi encontrada também prova de
perturbações atmosféricas de violência sem paralelo. Mamutes e
bisões foram rasgados e desfigurados como se pela mão cósmica de
um deus irado. Em um local, deparamos com as pernas dianteiras e
ombros de um mamute, com partes de carne, unhas e pêlos ainda
presos aos ossos enegrecidos. Perto, vimos o pescoço e o crânio de
um bisão, com as vértebras aindacoladas com tendões e ligamentos,
e intacta a casca quitinizada dos chifres. Não há marca de faca ou de
instrumento de corte [como aconteceria, por exemplo, se caçadores
humanos estivessem envolvidos]. Os animais foram simplesmente
esquartejados e espalhados pela paisagem como outros tantos
bonecos de palha, mesmo que alguns deles pesassem várias
toneladas. Misturadas com pilhas de ossos, encontramos árvores,
também retorcidas e empilhadas em grupos emaranhados, e o
conjunto todo coberto por areia fina, que desde então foi congelada e
tornou-se sólida.
Grande pane da mesma situação foi encontrada na Sibéria, onde
mudanças climáticas catastróficas e sublevações geológicas
ocorreram mais ou menos na mesma época. Nessa região, cemitérios
congelados de mamutes, "minerados" para a retirada de marfim desde
a era dos romanos, continuaram a produzir uns estimados 20.000
pares de presas a cada década nos inícios do século XX.
Repetindo, algum fator misterioso parece ter estado em ação para
ocasionar essa extinção em massa. Com sua pelagem lanuda e pele
grossa, os mamutes eram em geral considerados adaptados ao tempo
frio e não nos surpreendemos em encontrar seus restos na Sibéria.
Mais difícil de explicar é que seres humanos morreram ao lado deles,
bem como numerosos outros animais que, em nenhum sentido, se
poderia considerar como espécies adaptadas ao frio:
As planícies do norte da Sibéria abrigaram imensos números de
rinocerontes, antílopes, cavalos, bisões e outras criaturas herbívoras,
enquanto uma grande variedade de carnívoros, incluindo o tigre-de-dentes-de-sabre, se alimentava deles. (...) Tal como os mamutes,
esses outros animais habitavam zonas que se estendiam do norte da
Sibéria às praias do oceano Ártico e ainda mais ao norte, chegando a
Lyakhov e as Novas Ilhas Siberianas,a apenas curta distância do Pólo
Norte.
Pesquisadores confirmaram que, entre as 34 espécies de animais que
viviam na Sibéria antes das catástrofes do século XI a.C. - incluindo o
mamute Ossip, o cervo gigante, a hiena de caverna e os leões de
caverna -, nada menos de 28 só eram adaptados a condições
temperadas. Nesse contexto, um dos aspectos mais enigmáticos da
extinção, e inteiramente contrário ao que as condições geográficas e
climáticas modernas nos levariam a esperar, é que quanto mais ao
norte se estendiam as pesquisas, maior o número dos mamutes e de
outros animais. Na verdade, algumas das ilhas da Nova Sibéria, bem
dentro do Círculo Ártico, foram descritas por seus primeiros
exploradores como sendo constituídas quase inteiramente de ossos e
longas presas de mamutes. A única conclusão lógica, como disse
Georges Cuvier, zoólogo francês do século XIX, era que "esse frio
eterno não existiu antes nessas partes do mundo, onde os animais
foram congelados, uma vez que eles não poderiam ter sobrevivido
nessas temperaturas. No mesmo instante em que essas criaturas
foram privadas de vida, a região inteira que eles habitavam congelou".
Há grande volume de outras provas a sugerir que um congelamento
súbito ocorreu na Sibéria no século XI a.C. No levantamento que fez
das ilhas Nova Sibéria, o explorador ártico barão Eduard Von Toll
encontrou os restos "de um tigre-de-dentes-de-sabre e de uma árvore
frutífera que tivera 30m de altura. A árvore estava bem preservada no
gelo eterno, conservando ainda raízes e sementes. Folhas verdes e
frutos maduros ainda se encontravam presos a seus ramos...
Atualmente, o único representante de vegetação nas ilhas é um
salgueiro que só cresce até 2,4m de altura”.
Igualmente indicativo da mudança cataclísmica que ocorreu no início
do grande frio na Sibéria foi o alimento que os animais extintos
estavam comendo quando morreram: "Os mamutes morreram de
repente, em meio a frio intenso e em grande número. A morte
aconteceu tão rápida que a vegetação engolida não havia sido sequer
digerida. (...) Folhas de relva, copos-de-leite, junça tenra e feijões
silvestres foram encontrados, ainda identificáveis e intactos, na boca e
estômago desses animais."
Dispensa dizer que essa flora não cresce hoje em nenhum lugar da
Sibéria. Sua presença nessa região no século XI a.C. obriga-nos a
aceitar a hipótese de que a região tinha um clima ameno e produtivo -
temperado ou mesmo quente. O motivo por que o fim da Era Glacial
em outras partes do mundo deveria ter sido o início do inverno fatal
nesse antigo paraíso é uma questão que deixaremos para responder
na Parte VIII. O certo, porém, é que em alguma época entre os 12-13.000 anos no passado, uma temperatura abaixo do ponto de
congelamento desceu com horrível rapidez sobre a Sibéria e nunca
mais afrouxou seu domínio. Em um eco sobrenatural das tradições
avésticas, uma terra que desfrutara antes sete meses de verão foi
convertida, quase que da noite para o dia, em uma terra de gelo e
neve, com dez meses de inverno inclemente e congelamento geral.
Mil Krakatoas, no Mesmo Instante
Numerosos mitos sobre cataclismos falam em frio terrível, céus
escuros e chuva negra, causticante, betuminosa. Durante séculos,
deve ter sido assim durante todoo arco de morte, que abrangeu
trechos imensos da Sibéria, Yukon e Alasca. Nesses locais,
"misturada nas profundezas da terra e, às vezes, com pilhas de ossos
e grandes presas, são encontradas camadas de cinza vulcânica. Não
há dúvida que, coincidindo com a extinção dos animais, houve
erupções vulcânicas de tremendas proporções".
Há um volume notável de prova de grande atividade vulcânica durante
o declínio da calota polar Wisconsin. Muito ao sul das terras
congeladas do Alasca, milhares de animais e plantas pré-históricos
foram, de repente, ilhados nos famosos poços de breu La Brea, na
área de Los Angeles. Entre as criaturas desenterradas foram
encontrados bisões, cavalos, camelos, preguiças, mamutes,
mastodontes e, pelo menos, setecentos tigres-de-dentes-de-sabre. Foi
encontrado também um esqueleto humano desarticulado, inteiramente
coberto de betume, juntamente com os ossos de uma espécie extinta
de abutre. De modo geral, os restos de La Brea ("quebrados,
esmagados, torcidos e misturadosnuma massa a mais heterogênea
possível") falam eloqüentemente de um súbito e pavoroso cataclisma
vulcânico.
Achados semelhantes de aves e mamíferos típicos da Era Glacial
mais recente foram desencavados de asfalto em dois outros locais na
Califórnia (Carpinteria e McKittrick). No San Pedro Valley, foram
descobertos esqueletos de mastodontes ainda em pé, no meio de
grandes montes de cinza vulcânica e areia. Fósseis do glacial lago
Floristan, no Colorado, e da John Day Basin, no Oregon, foram
também desenterrados de tumbas de cinza vulcânica.
Embora as tremendas erupções que criaram essas sepulturas
coletivas possam ter estado no auge durante os últimos dias da
Wisconsin, parece que se repetiram durante grande parte da Idade de
Gelo não só na América do Norte, mas nas Américas Central e do Sul,
no Atlântico Norte, na Ásia continental e no Japão.
É difícil imaginar o que esse vulcanismo geral possa ter significado
para indivíduos que viveram nesses tempos estranhos e terríveis. Mas
os que lembram as nuvens de poeira, fumaça e cinzas em forma de
couve-flor ejetadas na atmosfera superior pela erupção do monte
Saint Helens em 1980 compreenderão que um grande número dessas
explosões (ocorrendo em seqüência, durante um longo período, em
diferentes pontos em volta do globo) não só teria produzido efeitos
locais devastadores, mas causado uma gravíssima deterioração do
clima do mundo.
O monte Saint Helens cuspiu um estimado quilômetro cúbico de rocha
e foi café pequeno em comparação com o vulcanismo típico da Era
Glacial. Uma impressão mais fiel do que aconteceu seria o vulcão
Krakatoa, na Indonésia, que, em 1883, entrou em erupção com tal
violência que matou mais de 36.000 pessoas, tendo o som da
explosão sido ouvido a 4.600km dedistância. Com epicentro
no estreito de Sunda, tsunamis de 35 metros de altura varreram o mar
de Java e o oceano Índico, jogando navios a vapor a quilômetros terra
adentro e causando inundações a uma distância tão grande quanto a
África Oriental e as costas ocidentais das Américas. Dezoito
quilômetros cúbicos de rochas e quantidades imensas de cinzas e
poeira foram lançados na atmosfera superior e o céu em volta do
mundo tornou-se visivelmente mais escuro durante mais de dois anos,
enquanto o pôr-do-sol ficava reconhecidamente mais vermelho. As
temperaturas médias globais caíram durante esse período, fato este
confirmado por medições, porque as partículas vulcânicas de poeira
refletiam os raios do sol de volta ao espaço.
Durante os episódios de intenso vulcanismo que caracterizaram a
Idade de Gelo, temos que imaginar não um só, mas muitos Krakatoas.
O efeito combinado seria, no início, uma grande intensificação das
condições glaciais, à medida que a luz do sol era cortada pelas
nuvens de poeira fervente e temperaturas já baixas caíam ainda mais.
Os vulcões injetaram ainda enormes volumes de dióxido de carbono
na atmosfera. Como o dióxido de carbono é um dos chamados "gases
de estufa", é razoável supor que, quando a poeira começou a assentar
em períodos de calma relativa, teria ocorrido certo grau de
aquecimento global. Numerosas autoridades atribuem os avanços e
recuos repetidos dos grandes lençóis de gelo a essa interação tipo
gangorra entre vulcanismo e clima.
Inundação Global
Geólogos concordam em que, por volta do ano 8000 a.C., os grandes
lençóis de gelo Wisconsin e Wurm haviam recuado. A Era Glacial
tinha acabado. Não obstante, os sete mil anos transcorridos antes
dessa data haviam presenciado turbulências climáticas e geológicas
em uma escala quase inimaginável. Oscilando de cataclismo a
desastre ecológico e de aflições a calamidades, as poucas tribos
dispersas de seres humanos sobreviventes devem ter levado vidas de
terror e confusão constantes: teria havido períodos de calma, quando
poderiam ter esperado que o pior já houvesse passado. Enquanto
continuava o derretimento das geleiras gigantescas, contudo, esses
períodos de tranqüilidade teriam sido marcados repetidamente por
violentas inundações. Além do mais, partes da crosta da terra até
então sepultadas na astenosfera por bilhões de toneladas de gelo
teriam sido liberadas pelo degelo e voltado a subir, às vezes
rapidamente, produzindo terremotos devastadores e enchendo o ar de
um som terrível.
Algumas épocas foram muito piores do que outras. O grosso da
extinção de animais ocorreu entre os anos 11000 a.C. e 9000 a.C.,
quando houve violentas e inexplicáveis variações climáticas. (Nas
palavras do geólogo John Imbrie, "uma revolução climática ocorreu
por volta de 11.000 anos atrás".) Houve também um grande aumento
de taxas de sedimentação e um abrupto aumento de temperatura de 6
a 10 graus centígrados na superfície das águas do oceano
Atlântico. Outro episódio turbulento, novamente acompanhado de
extinção de animais em grande escala, ocorreu entre 15000 a.C. e
13000 a.C. Vimos no capítulo anterior que o Avanço Tazewell levou os
lençóis de gelo à sua extensão máxima há cerca de 17.000 anos e
que daí se seguiu um espetacular e prolongado derretimento,
descongelando milhões de quilômetros quadrados na América do
Norte e Europa em menos de dois mil anos.
Mas ocorreram algumas anomalias: toda a região ocidental do Alasca,
o território do Yukon no Canadá, e a maior parte da Sibéria, incluindo
as Novas Ilhas Siberianas (que hojefiguram entre os lugares mais
frios do mundo), permaneceram intactas até que a Era Glacial
aproximou-se do fim. Elas só adquiriram seu clima atual cerca de
12.000 anos atrás, aparentemente de forma muito brusca, quando
mamutes e outros grandes mamíferos foram mortos de repente.
Em outras partes do mundo, a situação era diferente. A maior parte da
Europa estava sepultada sob uma camada de gelo de 3km de
espessura. O mesmo acontecia com quase toda a América do Norte,
onde o lençol de gelo havia se espalhado de centros nas proximidades
da baía de Hudson para envolver toda a zona leste do Canadá, Nova
Inglaterra e grande parte do Meio-Oeste até o paralelo 37 - bem ao sul
de Cincinnati, no vale do Mississippi, e a mais da metade do caminho
até o equador.
No seu auge há 17.000 anos, calcula-se que o volume total de gelo
que cobria o hemisfério norte situava-se por volta de 4,5 milhões de
metros cúbicos e, claro, houve extensas glaciações no hemisfério Sul,
conforme notado também acima. Os suprimentos extras de água, dos
quais esses numerosos lençóis de gelo eram formados, haviam sido
fornecidos pelos mares e oceanos do mundo que, na ocasião, tinham
um nível 120m mais baixo do que hoje.
E foi nesse momento que o pêndulo do clima mudou violentamente
para a direção oposta. O grande degelo começou com tanta rapidez e
em uma área tão vasta que foi descrito como "um tipo de milagre".
Geólogos chamam-na de a fase da fervura do clima quente na
Europa, e como "Interstadial Brady", na América do Norte. Em ambas
as regiões:
Uma calota glacial que talvez tenha levado 40.000 anos para se
formar desapareceu, na maior parte, em 2.000 anos. Deve ser óbvio
que isso não pode ter sido resultado de fatores climáticos que
atuassem gradualmente, e que são em geral invocados para explicar
as idades de gelo. (...) A rapidez do degelo sugere que algum fator
extraordinário estava afetando o clima. As datas indicam que esse
fator fez-se sentir inicialmente há 16.500 anos, que destruiu a maioria,
talvez três quartos das geleiras uns 2.000 anos depois, e que [o
grosso desses fenômenos dramáticosocorreu] em um milênio ou
menos.
Inevitavelmente, a primeira conseqüência foi uma elevação brusca dos
níveis dos mares, chegando talvez a uns 100m. Ilhas e pontes
continentais desapareceram e vastas extensões de linha costeira
continental baixa ficaram submersas. De vez em quando, grandes
maremotos surgiam para engolfar também terras mais altas.
Recuaram depois, mas, nesse processo, deixaram traços
inconfundíveis de sua presença.
Nos Estados Unidos, "aspectos marinhos da Era Glacial estão
presentes ao longo da costa do golfo, a leste do rio Mississippi, alguns
em altitudes que podem exceder 60m". Em pântanos que cobrem
depósitos glaciais em Michigan foram descobertos os esqueletos de
duas baleias. Na Geórgia, depósitos marinhos são encontrados a uma
altura de 60m. No Texas, bem ao sul do prolongamento mais
meridional da Glaciação Wisconsin, os restos de mamíferos terrestres
da Era Glacial são encontrados em depósitos marinhos. Outro
depósito marinho, contendo leões-marinhos, focas e pelo menos cinco
gêneros de baleias, cobre a costa dos estados do nordeste e da costa
do Ártico do Canadá. Em numerosas áreas ao longo da costa do
Pacífico da América do Norte, depósitos marinhos da Idade de Gelo
"estendem-se por mais de 320km terra adentro". Ossos de uma baleia
foram encontrados ao norte do lago Ontário, a cerca de 130m acima
do nível do mar e, outro, em Vermont, a mais de 150m, bem como um
terceiro na área Montreal-Quebec, a mais de 180m de altura.
Mitos sobre o dilúvio em todo o mundo descrevem, típica e
repetidamente, cenas em que seres humanos e animais fogem das
águas que sobem e se refugiam no topo de montanhas. O registro
fóssil confirma que esse fato realmente aconteceu durante o
derretimento dos lençóis de gelo e que as montanhas nem sempre
eram altas o suficiente para salvar da morte os refugiados. Fissuras
nas rochas no topo de colinas isoladas no centro da França, por
exemplo, estão cheias do que é conhecido como "brechas ossíferas",
que consistem de ossos partidos de mamutes, rinocerontes lanudos e
outros animais. O pico de 435m de altura do monte Genay, na
Barganha, "tem uma brecha que contém restos de mamute, rena,
cavalo e outros animais". Bem ao sul, o mesmo acontece com a
Rocha de Gibraltar, onde um "molar humano e algumas peças de sílex
trabalhadas pelo homem paleolítico foram descobertas entre ossos de
animais".
Restos de hipopótamos, juntamente com ossos de mamutes,
rinocerontes, cavalos, ursos, bisões, lobos e leões foram encontrados
na Inglaterra, nas vizinhanças de Plymouth, à margem do canal da
Mancha. As colinas em volta de Palermo, na Sicília, revelaram uma
"quantidade extraordinária de ossos de hipopótamos - em hecatombes
completas". Com base nessa e em outras provas, Joseph Prestwich,
ex-professor de geologia na Universidade de Oxford, concluiu que a
Europa Central, a Inglaterra e asilhas da Córsega, Sardenha e Sicília
ficaram submersas em várias ocasiões durante o rápido derretimento
dos lençóis de gelo:
Os animais naturalmente se retiraram cada vez mais, à medida que as
águas avançavam, cada vez mais profundamente para as colinas, até
que ficaram ilhados. (...) Aglomeraram-se juntos em enormes
multidões, atropelando-se para entrar nas cavernas mais acessíveis,
até que foram alcançados pelas águas e destruídos. (...) Rocha miúda
e grandes blocos das encostas das colinas foram jogados para baixo
pela força das águas, partindo e esmagando ossos. (...) Algumas
comunidades de homens primitivos devem ter sofrido nessa catástrofe
geral.
É provável que inundações calamitosas desse tipo tenham ocorrido na
China, mais ou menos na mesma época. Em cavernas nas
proximidades de Pequim, ossos de mamutes e búfalos foram
encontrados juntos com restos de esqueletos humanos. Numerosas
autoridades atribuem a mistura, que aparentemente ocorreu de forma
violenta, de carcaças de mamutes com árvores lascadas e partidas na
Sibéria a "um grande maremoto, que arrancou florestas e sepultou a
emaranhada carnificina em um dilúvio de lama. Na região polar, esse
material congelou, endureceu e preservou a prova em gelo eterno até
o presente".
Em toda a América do Sul, igualmente, fósseis da Idade de Gelo
foram desencavados, "entre os quais tipos incongruentes de animais
(carnívoros e herbívoros) aparecem misturados promiscuamente com
ossos humanos. Não menos importante é a associação, em áreas
realmente vastas, de criaturas fossilizadas de terra e mar, sem
nenhuma ordem, mas ainda assim sepultadas no mesmo horizonte
geológico".
A América do Norte foi também duramente castigada por inundações.
Ao derreterem, os grandes lençóis de gelo do período Wisconsin
formaram imensos (embora temporários) lagos, que se encheram com
incrível rapidez, afogando tudo em seu caminho, e sendo em seguida
esvaziados em algumas centenas de anos. O lago Agassiz, por
exemplo, o maior lago glacial no Novo Mundo, ocupou outrora uma
área de trinta mil quilômetros quadrados, cobrindo grandes áreas do
que são hoje Manitoba, Ontário e Saskatchewan, no Canadá, e
Dakota do Norte e Minnesota, nos Estados Unidos. Curiosamente,
esse lago durou menos de um milênio, o que indica um episódio
catastrófico e súbito de derretimento e inundação, seguido de um
período de calma.
Um Símbolo de Boa Fé
Durante muito tempo, acreditou-se que seres humanos só chegaram
ao Novo Mundo há cerca de 11.000 anos. Descobertas recentes,
porém, empurraram cada vez mais para trás esse horizonte.
Implementos de pedra datando do ano 25000 a.C. foram identificados
por pesquisadores canadenses na Old Crow Basin, no território do
Yukon, no Alasca. Na América do Sul (tão ao sul como o Peru e Terra
do Fogo), foram encontrados restos humanos e artefatos seguramente
datados como do ano 12.000 a.C. - bem como outro grupo com datas
de 19000 e 23000 a.C. Levadas em conta essas e outras provas,
"uma conclusão muito razoável sobre o povoamento das Américas é
que o processo começou há pelo menos 35.000 anos, embora possa
ter também incluído ondas de imigrantes em datas posteriores".
Esses novos americanos da Idade de Gelo, chegando da Sibéria em
pequenos grupos através da ponte continental de Bering, teriam
enfrentado as condições mais pavorosas entre os anos 17000 e 10000
a.C. Foi nessa ocasião que as geleiras Wisconsin, todas elas no
mesmo instante, iniciaram o violento derretimento, forçando um
aumento de uns 100m nos níveis globais do mar, em meio a cenas de
turbulência climática e geológica sem precedentes. Durante sete mil
anos de experiência humana, terremotos, erupções vulcânicas e
inundações gigantescas, alternados com surpreendentes períodos de
tranqüilidade, devem ter dominado o dia-a-dia dos homens do Novo
Mundo. Talvez seja por isso que tantos de seus mitos falem com tanta
convicção de fogo e inundações, tempos de escuridão e de criação e
destruição de sóis.
Além do mais, conforme vimos, os mitos do Novo Mundo não estão,
neste particular, isolados daquelesdo Velho Mundo. Em todo o globo,
uma uniformidade notável é encontrada no tocante a questões como o
"grande dilúvio", o "grande frio" e "o tempo do grande levantamento da
superfície da terra". Não acontece apenas que as mesmas
experiências estejam sendo recontadas uma vez após outra, o que,
por si mesmas, seriam inteiramente compreensíveis, já que a Idade de
Gelo e seus efeitos posteriores foram fenômenos globais. Muito mais
curiosa é a maneira como os mesmos motivos simbólicos continuaram
a repetir-se: o homem bom e sua família, o aviso dado por um deus, o
salvamento das sementes de todas as coisas vivas, o barco que
permitiu a sobrevivência, os espaços fechados contra o frio, o tronco
de uma árvore, onde os progenitores da humanidade futura se
esconderam, as aves e outras criaturas soltas após o dilúvio para
encontrar terra... e assim por diante.
Não é também estranho que tantosmitos contenham descrições de
figuras como Quetzalcoatl e Viracocha, que dizem que chegaram no
tempo das trevas, depois do dilúvio, para ensinar arquitetura,
astronomia, ciência e o império da lei a tribos dispersas e
desmoralizadas de sobreviventes?
Quem foram esses heróis civilizadores? Foram criações da
imaginação primitiva? Ou deuses? Ou homens? Se foram homens,
poderiam ter eles manipulado os mitos de alguma maneira,
transformando-os em veículos para transportar conhecimentos através
dos tempos?
Essas idéias parecem fantasiosas. Mas, como veremos na Parte V,
dados astronômicos de uma natureza perturbadoramente exata e
científica reaparecem continuamente em certos mitos, tão antigos no
tempo e tão universais em sua distribuição como os do grande dilúvio.
De onde teria vindo todo esse conteúdo científico?
Parte V
O Mistério dos Mitos
2. O Código da Precessão dos Equinócios
CAPÍTULO 28
A Maquinaria do Céu
Embora não espere que um texto sobre mecânica celeste seja tão fácil
como uma canção de ninar, o leitor moderno insiste em que tem
capacidade de compreender imediatamente "imagens" míticas, porque
só pode respeitar como "científicas" fórmulas de aproximação de uma
página de extensão, e coisas assim.
Ele não pensa na possibilidade de que conhecimentos igualmente
importantes possam ter sido outrora expressos em linguagem do dia-a-dia. Jamais desconfia dessa possibilidade, embora as realizações
visíveis de culturas antigas - bastando mencionar as pirâmides e a
metalurgia - devam ser razões convincentes para que ele conclua que
homens inteligentes e sérios trabalharam atrás do palco, homens que
forçosamente deveriam ter usado linguagem técnica...

os básicos.
A Louca Dança Celeste
A terra faz uma volta completa em torno de seu eixo a cada 24 horas e
tem uma circunferência equatorial de 40.068km. Segue-se, portanto,
que um homem imóvel no equador está, na verdade, em movimento,
revolvendo com o planeta a pouco mais de 1.600km por hora. Vista do
espaço exterior e olhando de cima para baixo e para o pólo Norte, a
direção do movimento é no sentido anti-horário.
Enquanto gira diariamente em torno de seu eixo, a terra descreve
também uma órbita em torno do sol (mais uma vez, em sentido anti-horário), em vez de ser inteiramente circular. Segue essa órbita a uma
velocidade realmente alucinante, viajando em uma hora - 107.159km -
tanto quanto a distância que um motorista típico cobriria em seis anos.
Traduzindo esses cálculos em escala mais modesta, isso significa que
estamos percorrendo o espaço muito mais rápido do que qualquer
bala, à razão de 29km por segundo. No tempo que você, leitor,
precisou para ler este parágrafo, viajamos cerca de 884km na
trajetória da terra em volta do sol.
Sendo necessário um ano para completar o circuito completo, a única
prova que temos da vertiginosa corrida orbital de que participamos é
encontrada na lenta marcha das estações. E, na sucessão das
próprias estações, torna-se possível identificar um maravilhoso e
imparcial mecanismo em funcionamento que distribui eqüitativamente
a primavera, o verão, o outono e o inverno em torno do globo, através
dos hemisférios Norte e Sul, ano após ano, com regularidade
absoluta.
O eixo de rotação da terra é inclinado em relação ao plano de sua
órbita (em 23,5° em relação à vertical). Essa inclinação, responsável
pelas estações, "aponta” o pólo Norte, e todo o hemisfério Norte, para
longe do sol durante seis meses por ano (enquanto o hemisfério Sul
desfruta seu verão) e aponta o pólo Sul e o hemisfério sul para longe
do sol pelos seis meses restantes (enquanto o hemisfério Norte goza
seu verão). As estações são resultado da variação anual no ângulo ao
qual os raios do sol atingem qualquer ponto particular na superfície da
terra, e da variação anual no número de horas de luz solar recebida
por ela em diferentes ocasiões do ano.
A inclinação da terra é denominada,em linguagem técnica, de
"obliqüidade". O plano de sua órbita, estendendo-se para fora para
formar um grande círculo na esfera celeste, é conhecido como a
"eclíptica”. Astrônomos falam também em “equador celeste", que é um
prolongamento do equador da terra na esfera celeste. O equador
celeste está hoje inclinado a cerca de 23,5° em relação à eclíptica,
porque o eixo da terra está inclinado a 23,5° em relação à vertical.
Esse ângulo, denominado de "obliqüidade da eclíptica", nem é fixo
nem imutável todo tempo. Ao contrário (como vimos no Capítulo 22
em relação à datação da cidade andina de Tiahuanaco), está sujeito a
oscilações constantes, embora muito lentas. Elas ocorrem em uma
faixa de ligeiramente menos de 3°, aproximando-se mais da vertical a
22,1º e afastando-se no máximo a 24,5°. Um ciclo completo, de 24,5°
a 22,1°, e de volta a 24,5°, leva aproximadamente 41.000 anos para
ser completado. Nosso frágil planeta, portanto, inclina-se e gira
enquanto percorre em velocidade alucinante sua trajetória orbital. A
órbita leva um ano e, o giro, um dia, ao passo que a inclinação tem um
ciclo de 41.000 anos. Uma louca dança celeste parece estar
ocorrendo, enquanto saltamos, raspamos e mergulhamos na
eternidade e sentimos o puxão de ânsias contraditórias: cair dentro do
sol, por um lado, e soltarmo-nos e partir para a escuridão exterior, por
outro.
Influências Ocultas
Sabe-se agora que o domínio gravitacional do sol, nos círculos
internos dos quais a terra é mantida cativa, estende-se por mais de 24
trilhões de quilômetros, quase que a metade do caminho até a estrela
mais próximas. A atração que o sol exerce sobre nosso planeta,
portanto, é colossal. Somos também afetados pela gravidade dos
demais planetas com os quais compartilhamos o sistema solar. Todos
eles exercem uma atração que tende a puxar a terra para fora de sua
órbita regular em torno do sol. Os planetas são de diferentes
tamanhos, contudo, e giram em torno do sol a velocidades diferentes.
A influência gravitacional que podemexercer, portanto, varia com o
tempo, de formas complexas, ainda que previsíveis, e a órbita muda
de forma constantemente como reação. Uma vez que a órbita é uma
elipse, essas mudanças afetam seu grau de alongamento, conhecido
tecnicamente como "excentricidade". Esta excentricidade varia de um
valor baixo próximo de zero (quando a órbita aproxima-se da forma de
um círculo perfeito) para um valor alto de 6%, quando está em sua
forma mais alongada e elíptica.
Há ainda outras formas de influência planetária. Embora nenhuma
explicação tenha ainda sido dada, sabe-se que as freqüências de
rádio de onda curta são perturbadas quando Júpiter, Saturno e Marte
ficam alinhados. E, neste particular, surgiu também prova de uma
estranha e inesperada correlação entre as posições de Júpiter,
Saturno e Marte, em suas órbitas em torno do Sol, e perturbações
elétricas violentas na atmosfera superior da Terra. Esse fato parece
indicar que os planetas e o Sol fazem parte de um mecanismo
cósmico-elétrico de equilíbrio, que se estende por bilhões de
quilômetros a partir do centro de nossosistema solar. Esse equilíbrio
elétrico não é explicado nas teorias astro-físicas correntes.

O New York Times, do qual foi extraído a notícia acima, não tentou
esclarecer mais o assunto. Seus jornalistas provavelmente não se
davam conta do quanto se pareciam com Berosus, o historiador,
astrônomo e vidente caldeu do século III a.C., que realizou um
profundo estudo dos portentos que, acreditava, pressagiariam a
destruição final do mundo. Concluiu ele: "Eu, Berosus, intérprete de
Bellus, afirmo que toda a terra será condenada às chamas quando os
cinco planetas se reunirem em Câncer, tão organizados em fila que
uma linha reta poderia passar através de suas esferas".
Uma conjunção de cinco planetas, que se pode esperar exerça
profundos efeitos gravitacionais, ocorrerá no dia 5 de maio do ano
2000, quando Netuno, Urano, Vênus, Mercúrio e Marte se alinharão
com a Terra no outro lado do sol, iniciando uma espécie de cabo-de-guerra cósmico. Note-se tambémque astrólogos modernos que
inseriram em seus mapas a data maia para o fim do Quinto Sol [o fim
do mundo, no ano 2012 de nossa era] calculam que, nessa data,
haverá uma configuração muito estranha dos planetas, na verdade,
uma configuração tão estranha "que só pode ocorrer uma vez a cada
45.000 anos... À vista dessa configuração extraordinária, bem que
podemos esperar um efeito extraordinário".

Ninguém em seu juízo perfeito correria para aceitar essa conclusão.
Ainda assim, não se pode negar que influências múltiplas, muitas das
quais não entendemos bem, parecem estar em ação em nosso
sistema solar. Entre essas influências, a de nosso próprio satélite, a
Lua, é especialmente forte. Terremotos, por exemplo, ocorrem com
mais freqüência quando a lua está cheia ou quando a terra se
encontra entre o sol e a lua; quando a lua está na fase de nova ou
entre o sol e a terra; quando ela cruza o meridiano da localidade
afetada e quando está mais perto da terra em sua órbita. Na verdade,
quando ela atinge este último ponto (tecnicamente chamado de
"perigeu"), sua atração gravitacional aumenta em 6%. Esse fato
acontece uma vez a cada 27 dias e um terço. A atração sobre as
marés que ela exerce nessas ocasiões afeta não só os grandes
movimentos de nossos oceanos, mas também os reservatórios de
magma quente, presos dentro da fina crosta da terra (que já foi
descrita como um saco de papel cheio de mel ou melado, viajando a
uma taxa de mais de 1.600 km/hora em rotação equatorial, e a mais
de 106.000 km/h em órbita).
O Bamboleio de um Planeta Deformado
Todo esse movimento circular, claro, gera imensas forças centrífugas
e estas, como sir Isaac Newton demonstrou no século XVII, fazem
com que o "saco de papel" da terra torne-se abaulado no equador. O
corolário disso é o achatamento dos pólos. Em conseqüência, nosso
planeta desvia-se ligeiramente da forma de uma esfera perfeita e pode
ser descrito mais corretamente como um "esferóide oblato". Seu raio
no equador (6.377.068 km) é 22 km mais longo do que o raio polar
(6.355.422 km).
Durante bilhões de anos, os pólos achatados e o equador inchado têm
estado empenhados em uma interação matemática oculta com a
influência oculta da gravidade. "Uma vez que a Terra é achatada",
explica uma autoridade, "a gravidade da Lua tende a inclinar o eixo da
Terra, para que ele se torne perpendicular à órbita da Lua e, em
menor extensão, isso também se aplica no caso do Sol".
Simultaneamente, a inchação equatorial - a massa extra distribuída
em volta do equador - atua como a borda de um giroscópio para
manter a terra firme em seu eixo.
Ano após ano, em escala planetária, é esse efeito giroscópico que
impede que o puxão do sol e da lua altere radicalmente o movimento
de rotação do eixo da terra. A atração que esses dois astros exercem
conjuntamente é, contudo, suficientemente forte para obrigar o eixo a
"precessar", o que significa que ele bamboleia lentamente em direção
horária, oposta ao giro da terra.
Esse importante movimento é a assinatura característica de nosso
planeta no sistema solar. Quem querque já tenha um dia jogado um
pião deve poder compreender esse fato sem muita dificuldade. O pião,
afinal de contas, é simplesmente um outro tipo de giroscópio. Em giro
completo sem interrupção, ele permanece na vertical. Mas, no
momento em que o eixo é desviado da vertical, ele começa a exibir
um segundo tipo de comportamento: um bamboleio lento e obstinado,
invertido, em volta de um grande círculo. Esse bamboleio, que é uma
precessão, muda a direção em que o eixo aponta, enquanto se mostra
constante em um novo ângulo inclinado.
Uma segunda analogia, de enfoque um tanto diferente, pode ajudar a
esclarecer ainda mais o assunto:
1. Imagine a terra, flutuando no espaço, inclinada a aproximadamente
23,5° em relação à vertical e girando em torno de seu eixo a cada 24
horas.
2. Imagine esse eixo como um pivô, ou parafuso central, maciço e
forte, passando pelo centro da terra, saindo pelos pólos Norte e Sul e
daí estendendo-se para fora em ambas as direções.
3. Imagine que você é um gigante, percorrendo o sistema solar com
ordens de realizar um trabalho específico.
4. Imagine-se aproximando-se da terra inclinada (que, por causa de
seu grande tamanho, nesse momento não lhe parece maior do que
uma roda de moinho).
5. Imagine-se estendendo as mãos e agarrando as duas extremidades
do eixo prolongado.
6. E imagine-se começando lentamente a fazer uma inter-rotação, isto
é, empurrando uma extremidade e puxando a outra.
7. A terra já estava girando quando você chegou.
8. Suas ordens, por conseguinte,eram de não se meter em sua
rotação axial, mas transmitir a ela o outro movimento: o bamboleio no
sentido horário denominado precessão.
9. Para cumprir a ordem, você teria que empurrar a ponta do eixo
prolongado para cima e em volta de um grande círculo no hemisfério
celeste norte e, ao mesmo tempo, puxar a ponta sul em volta de um
círculo igualmente grande no hemisfério celeste sul. Esse trabalho
implicaria um lento movimento tipo pedalagem com suas mãos e
ombros.
10. Cuidado, porém. A "roda de moinho" da terra é mais pesada do
que parece, tão mais pesada, na verdade, que você vai precisar de
25.776 anos para girar as duas pontas do eixo através de um ciclo
completo de precessão (ao fim do qual eles estarão apontando para
os mesmos pontos na esfera celeste, como no momento em que você
chegou).
11. Oh, por falar nisso, agora que iniciou o trabalho, podemos lhe dizer
que você jamais vai ter permissão para ir embora. Logo que um ciclo
de precessão acaba, outro tem de começar. E outro... mais outro... e
mais outro... e assim por diante, interminavelmente, para sempre e
todo o sempre.
12. Se quiser, você pode pensar nisso como um dos mecanismos
básicos do sistema solar ou, se preferir, como um dos mandamentos
fundamentais da vontade divina.
No processo, pouco a pouco, enquanto você lentamente passa o eixo
prolongado pelos céus, as duas pontas apontarão para uma estrela
após outra nas latitudes polares do hemisfério celeste sul (e, às vezes,
claro, para o espaço vazio), e para uma estrela após outra nas
latitudes polares do hemisfério celeste norte. Estamos falando aqui
sobre um tipo de dança de cadeiras entre as estrelas circumpolares. E
o que mantém tudo isso em movimento é a precessão axial da terra -
um movimento impulsionado por gigantescas forças gravitacionais e
giroscópicas, um movimento regular, previsível e relativamente fácil de
esclarecer com ajuda de equipamento moderno. Assim, por exemplo,
a estrela polar norte é atualmente Alfa Ursa Menor (que conhecemos
como Estrela Polar). Cálculos de computador, porém, permitem-nos
dizer com certeza que, no ano 3000 a.C., Alfa Draconis (Dragão)
ocupava a posição polar; na época dos gregos, a estrela polar norte
era Beta Ursa Menor; e, no ano 14000 d.C. será Vega.
Um Grande Segredo do Passado
Não nos fará mal algum lembrar alguns dos dados fundamentais sobre
os movimentos da terra e sua orientação no espaço:
. Ela se inclina em cerca de 23,5º emrelação à vertical, ângulo este do
qual pode variar até 1,5º em períodos de 41.000 anos.
. Completa um ciclo completo de precessão de equinócio a cada
25.776 anos.
. Gira em torno do próprio eixo a cada 24 horas.
. Descreve em torno do sol uma órbita completa a cada 365 dias (na
verdade, 365,2422 dias).
. A influência mais importante sobre as estações é o ângulo no qual os
raios do sol atingem-na em vários pontos de sua trajetória orbital.
Notemos também que há quatro momentos astronômicos cruciais no
ano, marcando o início oficial de cada uma das quatro estações.
Esses momentos (ou pontos cardeais), que eram de imensa
importância para os antigos, são os solstícios do inverno e verão e os
equinócios da primavera e outono. No hemisfério Norte, o solstício de
inverno, o dia mais curto, cai no dia 21 de dezembro e, o de verão, o
dia mais longo, em 21 de junho. No hemisfério Sul, por outro lado,
tudo está virtualmente de cabeça para baixo: nele o inverno começa
em 21 de junho e o verão em 21 de dezembro.

Os equinócios, em contraste, são osdois pontos no ano em que noite
e dia têm igual duração em todo o planeta. Mais uma vez, contudo,
como acontece com os solstícios, a data que marca o início da
primavera no hemisfério Norte (20 de março) marca o outono no
hemisfério Sul, e a data do iníciodo outono no hemisfério Norte (22 de
setembro) marca o início da primavera no hemisfério Sul.
Tal como as variações mais sutis das estações, tudo isso é
conseqüência da benevolente obliqüidade do planeta. O solstício de
verão no hemisfério Norte cai nesse ponto da órbita quando o pólo
Norte está apontado da forma mais direta na direção do sol; seis
meses depois, o solstício de inverno marca o ponto em que o pólo
Norte aponta mais diretamente para longe do sol. E, com bastante
lógica, o motivo por que o dia e a noite são de duração absolutamente
igual em todo o planeta nos equinócios de primavera e outono é que
eles assinalam os dois pontos em que o eixo de rotação da terra se
encontra transversal ao sol.
Examinemos agora um estranho e belo fenômeno de mecânica
celeste. Esse fenômeno é conhecido como "precessão de equinócios".
Possui características matemáticas rígidas e repetitivas, que podem
ser analisadas e previstas com exatidão. É, no entanto, de observação
extremamente difícil e ainda mais difícil de medir precisamente, a não
ser com instrumentação sofisticada.
Nesse fenômeno talvez possa existir pista para solucionar um dos
maiores mistérios do passado.
CAPÍTULO 29
A Primeira Tentativa de Decifrar um Antigo Código
O plano orbital da terra, projetado para fora e formando um grande
círculo na esfera celeste, é conhecido como eclíptica. Em volta da
eclíptica, em um cinturão estrelado que se estende aproximadamente
em 7° ao norte e sul, encontramos as doze constelações do zodíaco:
Áries, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem, Libra, Escorpião,
Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes. Essas constelações têm
tamanho, forma e distribuição irregulares. Não obstante (e, supomos,
por acaso!), seu espaçamento em torno da borda da eclíptica é
suficientemente uniforme para conferir um senso de ordem cósmica
ao nascer e ao pôr-do-sol durante o dia.
Para compreender o que está envolvido aqui, faça o seguinte: 1)
marque um ponto no centro de uma folha de papel em branco; 2)
desenhe um círculo em torno do ponto, a mais ou menos centímetro
dele; 3) feche esse círculo dentro de um segundo círculo, mais largo.
O ponto representa o sol. O menor dos dois círculos concêntricos
representa a órbita da terra. O círculo mais largo representa a borda
da eclíptica. Em volta do perímetro desse círculo mais amplo, por
conseguinte, você deve desenharem seguida doze caixas, a uma
distância uniforme uma da outra, para representar as constelações do
zodíaco. Uma vez que há 360° em um círculo, pode-se considerar que
cada constelação ocupa um espaço de 30° ao longo da eclíptica. O
ponto é o sol. O mais interno dos dois círculos concêntricos é a órbita
da terra. Sabemos que a terra percorre essa órbita em direção anti-horária, de oeste para leste, e que em cada 24 horas ela faz também
uma rotação completa em torno de seu eixo (mais uma vez, de oeste
para leste).
Desses dois movimentos, resultam duas ilusões:
1. Todos os dias, enquanto o planeta gira de oeste para leste, o sol
(que, claro, é um ponto fixo) parece "mover-se" pelo céu de leste para
oeste.
2. Aproximadamente a cada trinta dias, enquanto a terra, girando,
viaja ao longo de sua trajetória orbital em torno do sol, o próprio sol
parece "passar" lentamente através de uma ap6s outra das doze
constelações zodiacais (que são também pontos fixos) e, mais uma
vez, dá a impressão de "mover-se" em uma direção leste-oeste.
Em qualquer dia do ano, em outras palavras (correspondendo em
nosso diagrama a qualquer ponto que quisermos escolher em torno do
círculo concêntrico interno que marca a órbita da terra), é óbvio que o
sol se situará entre um observador na terra e uma das doze
constelações zodiacais. Nesse dia, o que o observador verá, enquanto
estiver acordado antes do amanhecer, é o sol erguendo-se no leste,
na parte do céu ocupada por essa constelação particular.
Sob os céus claros e sem poluição do mundo antigo, é fácil
compreender que seres humanos poderiam se sentir tranqüilizados
por movimentos celestes regulares como esses. É igualmente fácil
compreender por que motivo os quatro pontos cardeais do ano - os
equinócios da primavera e outono e os solstícios do inverno e verão -
foram considerados em toda parte como de imensa importância. Maior
importância ainda era atribuída à conjunção desses pontos com as
constelações do zodíaco. Mais importante que tudo, porém, era a
constelação onde se via o sol nascendo na manhã do equinócio de
primavera (ou vernal). Devido à precessão do eixo da terra, os antigos
descobriram que essa constelação não era fixa ou permanente
durante todo tempo, mas que a honra de "abrigar" ou "transportar" o
sol no dia do equinócio vernal circulava - lenta, muito lentamente -
entre todas as constelações do zodíaco.
Nas palavras de Giorgio de Santillana: "A posição do sol entre as
constelações no equinócio vernal era o ponteiro que indicava as
'horas' do ciclo de precessão - horas muito compridas, na verdade,
uma vez que o sol equinocial ocupava cada constelação do zodíaco
durante quase 2.200 anos".

A direção da lenta precessão axial da terra é no sentido horário (isto é,
de leste para oeste) e, dessa maneira, contrária à direção da trajetória
anual do planeta em torno do sol. Em relação às constelações do
zodíaco, fixas no espaço, esse fato faz com que o ponto em que
ocorre o equinócio de primavera "mova-se obstinadamente ao longo
da eclíptica na direção oposta ao curso anual do sol, que ocorre contra
a seqüência "certa" dos signos do zodíaco (Touro - Áries - Peixes -
Aquário, em vez de Aquário - Peixes - Áries - Touro).
Este, resumidamente, é o significado da "precessão de equinócios". E
é isso exatamente o que está implicado na idéia de "alvorecer da Era
de Aquário". O verso famoso do musical Hair refere-se ao fato de que,
todos os anos, nos últimos 2.000 anos, mais ou menos, o sol nasceu
em Peixes no equinócio vernal. A era de Peixes, contudo, aproxima-se
neste momento do fim e o sol vernal, em breve, deixará o setor de
Peixes e começará a nascer contra o novo pano de fundo de Aquário.
O ciclo de 25.776 anos de precessão é o motor que impulsiona esse
majestoso jogo de forças celeste em sua viagem eterna pelos céus.
Vale a pena conhecer também os detalhes de como, exatamente, a
precessão muda os pontos equinociaisde Peixes para Aquário - e daí
para a frente em volta do zodíaco.
Lembre-se de que o equinócio ocorre apenas nas duas únicas
ocasiões do ano em que o eixo inclinado da terra está transversal ao
sol. Isso acontece quando o sol nasce exatamente à leste em todo o
mundo e o dia e a noite têm igual duração. Uma vez que o eixo da
terra está fazendo uma lenta mas ininterrupta precessão em uma
direção oposta à da sua própria órbita, os pontos nos quais está
transversal ao sol têm de ocorrer em uma fração de tempo mais cedo
na órbita, todos os anos. Essas mudanças anuais são tão pequenas
que se tornam quase imperceptíveis (uma mudança de um grau ao
longo da eclíptica - equivalente à largura de nosso dedo mindinho
erguido contra o horizonte - requer aproximadamente 72 anos para se
completar). Não obstante, como observa Santillana, essas mudanças
minúsculas acumulam-se em pouco menos de 2.200 anos em uma
passagem de 30º através de uma casa completa do zodíaco e, em
pouco menos de 26.000 anos, em uma passagem de 360º através de
um ciclo completo de precessão.
Quando teriam Os Antigos Descoberto a Precessão?
Na resposta a essa pergunta há um grande segredo, e mistério, do
passado. Mas, antes de tentar penetrar no mistério e aprender o
segredo, temos que nos familiarizar com a linha "oficial". A
Enciclopédia Britânica, que é um repositório tão bom quanto qualquer
outro da sabedoria histórica convencional, ensina-nos o seguinte
sobre um erudito chamado Hiparco, o suposto descobridor da
precessão:
Hiparco (nascido em Nicéia, Bitínia, e falecido após o ano 127 d.C. em
Rodes), astrônomo e matemático grego que descobriu a precessão
dos equinócios. (...) Essa notável descoberta foi resultado de
exaustivas observações, efetuadas por uma mente aguda. Hiparco
observou as posições das estrelase, em seguida, comparou seus
resultados com os de Timocharis de Alexandria, referentes a um
período anterior em 150 anos e com observações mais antigas
realizadas na Babilônia. Descobriu ele que as longitudes celestes
eram diferentes e que essa diferença era de uma magnitude que
excedia aquela que podia ser atribuída a erros de observação. Ele, em
conseqüência, sugeriu a precessão para explicar a magnitude da
diferença e deu um valor de 45' ou 46' (segundos do arco) às
mudanças anuais. Este resultado aproxima-se muito do número de
50,274 segundos do arco, hoje aceito. (...)
Em primeiro lugar, uma questão de terminologia. Segundos de arco
são as menores subdivisões de um grau do arco. Há 60 segundos de
arco em cada minuto de arco, 60 minutos em um grau e 360 graus no
círculo completo da trajetória da terra em torno do sol. Uma mudança
anual de 50,274 segundos de arco representa uma distância de cerca
de pouco menos de um sexagésimo de grau, de modo que são
necessários aproximadamente 72 anos (uma vida humana inteira)
para que o sol equinocial migre apenas um grau ao longo da eclíptica.
Devido às dificuldades de observação implicadas na detecção dessa
taxa de passo de caracol, o valor achado por Hiparco no século II a.C.
foi considerado pela Britânica como uma descoberta notável.
Mas essa descoberta pareceria tão notável se viesse a ser apurado
que foi uma redescoberta? As realizações matemáticas e
astrônomicas dos gregos brilhariam com tanto fulgor se pudéssemos
provar que o difícil desafio de medir a precessão foi aceito milhares de
anos antes de Hiparco? E que esse ciclo celeste, de quase 26.000
anos de duração, tivesse sido objeto de investigação científica exata,
muito antes do suposto alvorecer do pensamento científico?
Na busca de respostas a essas perguntas, há muita coisa talvez
relevante que jamais seria aceita em qualquer tribunal de justiça como
prova concreta. Tampouco iremos aceitá-Ia. Vimos que Hiparco
propôs o valor de 45 ou 46 segundos de arco para um ano de
movimento de precessão. Evitemos, portanto, desalojar o astrônomo
grego de seu pedestal como descobridor da precessão, a menos que
possamos achar um valor significativamente mais exato, registrado em
uma fonte significativamente mais antiga.
Claro, são muitas as fontes potenciais. Neste ponto, contudo, no
interesse da brevidade, vamos limitar nossa indagação a mitos
universais. Já examinamos em detalhe um deles (as tradições do
dilúvio e cataclismo estudadas na Parte IV) e vimos que eles incluem
uma grande faixa de características intrigantes.
1. Não há a menor dúvida de que eles são imensamente antigos.
Vejamos a história mesopotâmica do dilúvio, versões da qual foram
encontradas inscritas em tabuinhas nos estratos mais antigos da
história sumeriana, ou por volta do ano 3000 a.C. Essas tabuinhas,
que nos chegaram do alvorecer do passado documentado, não
deixam margem à dúvida de que a tradição de uma inundação que
destruiu o mundo já era antiga nessa ocasião e que, portanto, teve
origem muito tempo antes desse alvorecer. Não sabemos quando.
Mas resta o fato de que nenhum erudito jamais pôde estabelecer uma
data para a criação de qualquer mito, quanto mais dessas tradições
veneráveis e gerais. Em um sentido bem real, parece que elas sempre
existiram - como parte da bagagem permanente da cultura humana.
2. Não podemos descartar a possibilidade de que essa aura de
antiguidade remotíssima não seja uma ilusão. Ao contrário, vimos que
muitos dos grandes mitos sobre cataclismo parecem conter descrições
exatas, de testemunhas oculares, das condições reais pelas quais
passou a humanidade na última Era Glacial. Em teoria, por
conseguinte, essas histórias poderiam ter sido concebidas quase na
mesma ocasião do aparecimento de nossa subespécie Homo sapiens
sapiens, talvez há 50.000 anos. A prova geológica, no entanto, sugere
uma origem mais recente e identificamos acima a época de 15.000-8.000 anos a.C. como a mais provável. Só nessa ocasião, no conjunto
da experiência humana, ocorreram rápidas mudanças climáticas na
escala convulsiva que os mitos descrevem com tanta eloqüência.
3. A Era Glacial e seu tumultuoso desaparecimento foram fenômenos
globais. Por isso mesmo, talvez não deva surpreender que as
tradições de cataclismo de tantas culturas diferentes, largamente
espalhadas em volta do globo, sejam caracterizadas por alto grau de
uniformidade e convergência.
4. O que surpreende, contudo, é que os mitos descrevem não só
experiências compartilhadas, mas que o façam no que parece ser uma
linguagem simbólica também comum. Os mesmos "motivos literários"
reaparecem uma vez após outra, os mesmos "macetes" estilísticos, os
mesmos personagens reconhecíveis e os mesmos enredos.
De acordo com o professor Santillana, esse tipo de uniformidade
sugere uma mão orientadora em ação. No Hamlets Mill, uma fecunda
e original tese sobre mitos antigos, escrita em colaboração com
Hertha Von Dechend (professora de história da ciência da
Universidade de Frankfurt), argumenta ele que:
A universalidade é, por si mesma,um teste, quando associada a um
padrão firme, Quando alguma coisa encontrada, digamos, na China,
surge também nos textos astrológicos babilônicos, temos de supor
que ela é importante se revela um complexo de imagens incomuns
que ninguém poderia alegar que surgiram independentemente, por
geração espontânea. Vejamos a origem da música, Orfeu e sua
horrível morte podem ser uma criação poética, nascida em mais do
que um único caso em lugares diferentes. Mas quando personagens
que não tocam lira, mas flautas, são esfolados vivos por várias razões
absurdas, e seu fim idêntico é repetido em vários continentes, então
ficamos com a impressão de que descobrimos alguma coisa, uma vez
que tais histórias não podem ser ligadas por seqüência interna. E
quando o flautista surge tanto no mito alemão de Hamelin quanto no
México antes de Colombo, e está ligado em ambos os lugares a certos
atributos, tal como a cor vermelha, esse fato dificilmente pode ser uma
coincidência. (...) De igual maneira, quando encontramos números
como 108, ou 9 x 13, reaparecendo sob a forma de vários múltiplos
nos Vedas, nos templos de Angkor, na Babilônia, nas sombrias
palavras de Heráclito, e também no Valhalla escandinavo, não lidamos
com um acaso...
Ligando os grandes mitos universais de cataclismo, será possível que
essas coincidências, que não podem ser coincidências, e acasos que
não podem ser acasos, possam denotar a influência global de uma
mão orientadora antiga, embora ainda não identificada? Se assim,
poderia ser ela a mesma mão que, durante e após a Última Era
Glacial, desenhou a série de mapas-múndi altamente precisos e
tecnicamente avançados que estudamos na Parte I? E não poderia a
mesma mão ter deixado suas impressões digitais sobrenaturais em
outro corpo de mitos universais, como os que falam na morte e
ressurreição de deuses, grandes árvores em torno das quais revolvem
a terra e os céus, e vórtices, batedeiras, furadeiras e outros aparelhos
semelhantes para mexer e moer?
Segundo Santillana e Von Dechend, todas essas imagens se referem
a eventos celestes e fazem isso, além do mais, na linguagem técnica
refinada de uma ciência astronômica e matemática arcaica, mas
"imensamente sofisticada", Essa linguagem ignorava crenças e cultos
locais. Concentrava-se em números, movimentos, medidas, marcos
de referência gerais, esquemas - na estrurura dos números, na
geometria.
De onde teria vindo essa linguagem? O Hamlet's Mill é um labirinto de
erudição brilhante, embora deliberadamente evasivo, e não nos dá
uma resposta direta a tal pergunta. Aqui e ali, contudo, quase que com
embaraço, encontramos palpites inconclusivos. A certa altura, por
exemplo, os autores dizem que a linguagem, ou "código" científico,
que acreditam ter identificado, é de "uma antiguidade impressionante".
Em outra ocasião, fixam com mais precisão a profundeza de tal
antiguidade em um período de pelo menos "6.000 anos antes de
Virgílio" - em outras palavras, há 8.000 anos ou mais.
Que civilização conhecida da história poderia ter criado e usado uma
linguagem técnica sofisticada há mais de 8.000 anos? A resposta
honesta a essa pergunta é "nenhuma", seguida pela confissão franca
de que aquilo que está sendo objeto de conjectura é nada menos que
um episódio esquecido de alta cultura tecnológica na pré-história. Mais
uma vez, Santillana e Von Dechend mostram-se vagos, falando
apenas no legado que todos nós devemos a "alguma quase
inacreditável civilização ancestral", a "primeira que ousou
compreender o mundo como criado de acordo com número, medida e
peso".
A herança, claro, tem a ver com pensamento científico e informações
complexas de natureza matemática. Mas como é extremamente
antiga, a passagem do tempo extinguiu-a:
Quando os gregos entraram em cena, a poeira dos séculos já havia
assentado sobre os restos dessa grande construção arcaica, de
âmbito mundial. Ainda assim, alguma coisa sobreviveu em ritos
tradicionais, em mitos e contos de fada que não mais
compreendemos. (...) Estes são os fragmentos instigantes de um todo
perdido. E levam-nos a pensar naquelas "paisagens enevoadas", nas
quais os chineses são mestres, que mostram aqui uma rocha, uma
cumeeira, ali a ponta de uma árvore e deixam o resto à imaginação.
Mesmo nos casos em que o código produziu resultados, quando as
técnicas se tornaram conhecidas, não podemos esperar avaliar o
pensamento desses nossos ancestrais remotos, envolvidos como
estão em seus símbolos, uma vez que desapareceram para sempre
as mentes criativas, organizadoras, que inventaram os símbolos.
O que temos aqui, portanto, são dois ilustres professores de história
da ciência, de universidades renomadas em ambos os lados do
Atlântico, alegando ter descoberto os restos de uma linguagem
científica codificada, muitos milhares de anos mais velha do que as
mais velhas civilizações humanas identificadas pelos estudiosos. Além
do mais, embora se mostrem de modo geral cautelosos, Santillana e
Von Dechend alegam também ter "decifrado parte desse código".
Trata-se de uma declaração extraordinária, tendo sido feita por dois
respeitáveis professores universitários.
CAPÍTULO 30
A Árvore Cósmica e o Moinho dos Deuses
No brilhante e abrangente estudo Hamlet's Mill, os professores
Santillana e Von Dechend apresentam um conjunto formidável de
evidência mítica e iconográfica para demonstrar a existência de um
fenômeno curioso. Por alguma razão inexplicável, e em alguma data
desconhecida, parece que certos mitos arcaicos de todo o mundo
foram "cooptados" (nenhuma outra palavra seria mais apropriada)
para servir como veículos de um conjunto de dados técnicos
complexos relativos à precessão dos equinócios. A importância dessa
espantosa tese, como uma destacada autoridade em medições
antigas observou, foi ter disparado a primeira salva no que talvez
venha a ser "uma revolução copernicana nas concepções correntes
sobre o desenvolvimento da cultura humana".
O Hamlet's Mill foi publicado em 1969, há mais de um quarto de
século, de modo que a revolução demorou muito a acontecer. Durante
esse período, o livro nem foi muito lido pelo público geral nem muito
compreendido por estudiosos do passado remoto. Esse estado de
coisas, note-se, não aconteceu devido a quaisquer problemas ou
fraquezas inerentes ao livro. Em vez disso, nas palavras de Martin
Bernal, professor de estudos governamentais da Universidade Cornell,
aconteceu, sim, porque "poucos arqueólogos, egiptólogos e
historiadores dos tempos antigos reuniam a combinação de tempo,
trabalho e perícia necessários para entender os argumentos
sumamente técnicos de Santillana”.
Esses argumentos tratam predominantemente da transmissão
repetida e recorrente de uma "mensagem sobre a precessão" em uma
grande faixa de mitos antigos. E, curiosamente, muitas das principais
imagens e símbolos que surgem nesses mitos - notadamente as que
dizem respeito a um "enlouquecimento dos céus" - foram encontrados
também inseridos nas tradições antigas de cataclismo, de âmbito
mundial, que passamos em revista nos Capítulos 24 e 25.
Na mitologia escandinava, por exemplo, vimos que o lobo Fenrir, que
os deuses haviam acorrentado com todo cuidado, quebrou finalmente
as correntes e fugiu: "Ele se sacudiu e o mundo tremeu. O freixo
Yggdrasil foi abalado das raizes até os ramos mais altos. Montanhas
desmoronaram ou foram fendidas de cima a baixo. (...) A terra
começou a perder sua forma. As estrelas já começavam a perder o
rumo no céu.”
Na opinião de Santillana e Von Dechend, esse mito mistura o tema
conhecido da catástrofe com o tema inteiramente separado da
precessão. Por um lado, temos um desastre na terra em uma escala
que parece tornar café pequeno até o dilúvio de Noé. Por outro,
ouvimos falar em aziagas mudanças que estão ocorrendo nos céus e
que as estrelas, que perderam o rumo no céu, estão "caindo no
abismo".
Essa imagística celeste, repetida inúmeras vezes, com variações
relativamente pequenas, em mitos originários de muitas diferentes
partes do mundo, pertence a uma categoria classificada no Hamlet’s
Mill como "não um simples ato de contar história, do tipo que ocorre
naturalmente". Além disso, as tradições escandinavas que falam do
monstruoso lobo Fenrir e do abalo sofrido por Iggdrasil relatam
também o apocalipse final, no qual as forças do Valhalla formam no
lado da "ordem" para participar da última e terrível batalha dos deuses
- uma batalha que termina em destruição apocalíptica:
Quinhentas e quarenta portas são
Abertas nas muralhas do Valhalla;
Oitocentos guerreiros por cada porta passam,
E para a guerra contra o Lobo vão.
Com uma leveza de toque quase subliminar, essa estrofe estimulou-nos a contar os guerreiros do Valhalla, obrigando-nos,
momentaneamente, a focalizar a atenção em seu número total (540 x
800 = 432.000). Esse total, como veremos no Capítulo 31, está
matematicamente ligado ao fenômeno da precessão. É improvável
que tenha aberto caminho por acaso para a mitologia escandinava,
especialmente em um contexto que havia antes especificado "uma
loucura nos céus" suficientemente grave para fazer com que as
estrelas perdessem o rumo, deixando suas posições no firmamento.
Para entender o que está acontecendo, é essencial apreender a
imagística básica da antiga "mensagem", que Santillana e Von
Dechend alegam ter descoberto por acaso. Essa imagística
transforma o domo luminoso da esfera celeste em uma enorme e
complicada peça de maquinaria. E, tal como uma roda de monjolo, um
vórtice, uma batedeira, um moinho de mão, essa máquina gira, gira,
gira interminavelmente (com seus movimentos calibrados o tempo
todo pelo sol, que nasce primeiro em uma constelação do zodíaco, em
seguida em outra, e assim por diante, durante todo o ano).
Os quatro pontos principais do ano são os equinócios da primavera e
outono e os solstícios do inverno e verão. Em cada ponto,
naturalmente, vê-se o sol nascer em uma constelação diferente
(assim, se o sol nasce em Peixes no equinócio de primavera, como
acontece no presente, ele terá de nascer em Virgem no equinócio de
outono, em Gêmeos no solstício de inverno e em Sagitário no solstício
de verão). Em cada uma dessas quatro ocasiões, pelo menos nos
últimos 2.000 anos, ou por aí, foi exatamente isso o que o sol andou
fazendo. Conforme vimos antes, contudo, a precessão dos equinócios
significa que o ponto vernal mudará, em futuro não muito distante, de
Peixes para Aquário. Quando isso acontecer, as três outras
constelações que marcam os três pontos principais mudarão também,
de Virgem, Gêmeos e Sagitário para Leão, Touro e Escorpião quase
como se um mecanismo gigantesco do céu tivesse majestosamente
mudado de marcha...
Tal como o eixo de roda de um moinho, explicam Santillana e Von
Dechend, Yggdrasil "representa o eixo do mundo" na linguagem
científica arcaica que identificaram: um eixo que se estende para fora
(para o observador que se encontrano hemisfério Norte) e para o pólo
Norte da esfera celeste:
Isso sugere instintivamente um poste reto, vertical (...) mas seria
simplificar demais. No contexto mítico, é melhor não pensar no eixo
em termos analíticos, em uma linha de cada vez, mas considerá-Io no
marco de referência ao qual está ligado como um todo. (...) Da mesma
maneira que o raio lembra automaticamente o círculo, o eixo, da
mesma maneira, deve invocar os dois grandes círculos determinantes
na superfície da esfera, os coluros equinocial e solisticial.
Esses coluros são os aros imaginários, cruzando-se no pólo Norte
celeste, que ligam os dois pontos equinociais na trajetória da terra em
volta do sol (isto é, o ponto em que ela se encontra nos dias 20 de
março e 22 de setembro) e os dois pontos solsticiais (onde se situa
nos dias 21 de junho e 21 de dezembro). A implicação é que "a
rotação do eixo polar não deve ser separada dos grandes círculos que
mudam juntamente com ele. A estrutura é concebida como idêntica ao
eixo".
Santillana e Von Dechend estão certos de que o que temos aqui não é
uma crença, mas uma alegoria. Insistem em que a idéia de uma
estrutura esférica composta de dois aros que se cortam, suspensa de
um eixo, não deve, em circunsdncia alguma, ser entendida como a
maneira como a antiga ciência concebia o cosmo. Em vez disso, deve
ser considerada como um "instrumental para o pensamento",
destinado a focalizar a mente de pessoas suficientemente inteligentes
para decifrar o código do fato astronômico, difícil de detectar, da
precessão dos equinócios.
É um instrumental para o pensamento que continua a aflorar, em
numerosos disfarces, em todos os mitos do mundo antigo.
No Moinho com Escravos
Um exemplo, desta vez da América Central (que fornece, além disso,
mais uma ilustração das curiosas "permutações" simbólicas entre
mitos de precessão e mitos de catástrofe), foi sumariado no século
XVI por Diego de Landa:
Entre a grande multidão de deuses adorados por esse povo (o maia)
havia quatro conhecidos pelo nome de Bacab. Eles eram, dizem,
quatro irmãos colocados por Deus, quando criou o mundo, nos seus
quatro cantos para sustentar o céu e evitar que ele caísse. Dizem
também que esses Bacabs fugiram quando o mundo foi destruido por
um dilúvio.
Santillana e Von Dechend pensam que os astrônomos-sacerdotes
maias não aceitavam nem por um momento a idéia simplista de que a
terra era plana e que tinha quatro cantos. Em vez disso, dizem nossos
autores, a imagem dos quatro Bacabs foi usada como uma alegoria
técnica, destinada a lançar luz no fenômeno da precessão dos
equinócios. Os Bacabs, em resumo, representavam o sistema de
coordenadas de uma era astroIógica. Ou seja, representavam os
coluros equinociais e solsticiais, ligando as quatro constelações nas
quais o sol continuava a nascer nos equinócios da primavera e outono
e nos soIstícios de inverno e verão durante pouco menos de 2.000
anos.
Claro, era entendido que quando ocorriam mudanças de marcha do
céu, a antiga era desmoronava e uma nova era nascia. Tudo isso, até
agora, é imagística de rotina no caso das precessões. O que
sobressai, no entanto, é a ligação explícita com uma catástrofe terrena
- neste caso, uma inundação - à qual os Bacabs sobrevivem. Talvez
seja também relevante que altos-relevos encontrados em Chichen Itza
representem inconfundivelmente os Bacabs como homens barbudos e
de aparência européia.
Seja o que for, a imagem dos Bacabs (ligados a certo número de
referências malcompreendidas aos "quatro cantos do céu", à "terra
quadrangular", e assim por diante) é apenas uma entre muitas que
parecem ter sido concebidas para servir como instrumental de
pensamento para entender a precessão. Arquetípica entre elas, claro,
há o "moinho" do título do livro de Santillana - Hamlet's Mill.
Descobre-se que o personagem de Shakespeare, "do qual o poeta fez
um de nós, o primeiro intelectual infeliz", esconde um passado, como
ser lendário, suas feições predeterminadas, preformadas por um mito
muito antigo. O Amlodhi original (ou, às vezes, Amleth), o nome que
tinha na lenda islandesa, "demonstra as mesmas características de
melancolia e fino intelecto. Ele também era um filho decidido a vingar
o pai, um expositor de verdades crípticas, mas incontestáveis, um
vetor esquivo do Destino, que sairia de cena tão logo realizada sua
missão...”
Na imagística rude e vívida dos escandinavos, Amlodhi era
apresentado como dono de um famoso moinho, ou azenha, que,
alternadamente, moía ouro, paz e prosperidade. Em muitas das
tradições, duas donzelas gigantes (Fenja e Menja) foram admitidas
para trabalhar por prazo fixo, acionando essa grande engenhoca, que
não podia ser mudada do lugar por nenhuma força humana. Alguma
coisa deu errado e as duas gigantes foram obrigadas a trabalhar dia e
noite, sem descanso:
Para a bancada do moinho foram trazidas,
Para pôr em movimento a cinzenta mó;
Nem descanso nem paz ele lhes dava,
Atento ao rangido do moinho.
O canto delas era um uivo,
Despedaçando o silêncio
“Abaixem a tulha, aliviem as pedras!”
Mas ele as obrigava a moer ainda mais.
Rebeladas e enfurecidas, Fenja e Menja esperaram até que todos
foram dormir e, em seguida, começaram a imprimir ao moinho um giro
louco, até que seus grandes suportes, embora revestidos de ferro, se
quebraram em dois. Imediatamente depois, em um episódio confuso,
o moinho foi roubado por um rei do mar chamado Mysinger e levado
para seu navio, juntamente com as gigantes. Mysinger ordenou à
dupla que voltasse a moer, mas, desta vez, sal. À meia-noite, elas lhe
perguntaram se ele não estava cansado de tanto sal. Ele lhes ordenou
que voltassem a moer. Elas continuaram a trabalhar, mas, pouco
tempo depois, quando afundou o navio:
Os enormes suportes soltaram-se da tulha,
Os rebites de ferro quebraram-se com estrondo,
A árvore do eixo tremeu,
E a tulha mergulhou no mar.
Ao chegar ao fundo do mar, o moinho continuou a girar, mas moía
rocha e areia, criando um imenso vórtice, o Maelstrom.
Essas imagens, afirmam Santillana e Von Dechend, significam a
precessão dos equinócios. O eixo e os "suportes de ferro" do moinho
serviam como um sistema de coordenadas na esfera celeste e
representavam o contexto de uma era do mundo. Na verdade, o
contexto define uma era do mundo. Uma vez que o eixo polar e os
coluros formam um todo invisível, o contexto, no todo, torna-se
defeituoso se uma parte é movida. Quando isso acontece, uma nova
estrela Polar, com seus apropriados coluros, tem que substituir o
aparelho obsoleto.
Além do mais, o vórtice que a tudo engolia pertence à matéria habitual
da fábula antiga. Ela aparece na Odisséia como Caribde no estreito de
Messina, e repetidamente em outras culturas no oceano índico e no
Pacífico. É lá encontrada, curiosamente, como uma alta figueira, a
cujos galhos o herói pode se agarrar enquanto o navio afunda, seja o
Satyavrata na Índia, ou o Kae, em Tonga. (...) A repetição dos
detalhes exclui livre invenção. Essas histórias devem ter pertencido à
literatura cosmográfica desde a antiguidade.
O aparecimento de um sorvedouro na Odisséi, de Homero (que é uma
compilação de mitos gregos já velhos de mais de 3.000 anos) não
deveria nos surpreender, porque o grande Moinho da lenda islandesa
nele aparece, também (o que acontece, além do mais, em
circunstâncias conhecidas). Acontece na última noite antes da
confrontação final. Ulisses, disposto a se vingar, desembarca em Ítaca
e está escondido sob o encantamento mágico da deusa Atena, que o
protege para que não seja reconhecido. Ulisses reza a Deus, pedindo-lhe que lhe envie um sinal encorajador, antes da grande provação:
Imediatamente, Zeus trovejou do altodo refulgente Olimpo (...) e o
puro Ulisses ficou feliz. Além disso, uma mulher, uma trabalhadora do
moinho, pronunciou palavras de augúriodentro de uma casa próxima,
onde ficavam os moinhos do pastor do povo. Nesses três moinhos
manuais, vinte mulheres ao todo trabalhavam, fazendo, de refeições
de cevada e trigo, o tutano dos ossos dos homens. Nesse momento,
todos as outras dormiam, porque haviam moído sua quota de grão,
mas só essa não fora repousar ainda, sendo a mais fraca de todas.
Nesse instante, parou sua rainha e pronunciou a palavra: "Que os
[inimigos de Ulisses] neste dia, pela última vez, banqueteiem-se e se
regozijem em seus agradáveis salões. Eles me amoleceram os joelhos
com o cruel trabalho de lhe moer a refeição de cevada e que agora se
sirvam da última!"
Santillana e Von Dechend argumentam que não é por acaso que a
alegoria do "orbe do céu que gira como uma pedra de moinho e
sempre faz alguma coisa má" também faça seu aparecimento na
tradição bíblica de Sansão, "cego em Gaza, no moinho, com os
escravos". Seus captores implacáveis amarram-no para que "os
divirta" no templo. Em vez disso, com seus últimos restos de força, ele
segura os pilares do meio da grande estrutura e provoca o
desmoronamento de todo edifício, matando todos que ali estão. Como
Fenja e Menja, ele também tira sua vingança.
O tema ressurge no Japão, na América Central, entre os maoris da
Nova Zelândia e nos mitos da Finlândia. Neste último caso, a figura de
Hamlet/Sansão é conhecida como Kullervo e o moinho tem um nome
estranho: o Sampo. Como o moinho de Fenja e Menja, acaba por ser
roubado e posto em um navio. E como o moinho das duas, termina
reduzido a pedaços.
Acontece que a palavra "Sampo" tem suas origens na skambha,
palavra sânscrita que significa "pilar ou mastro". E, no Atharvaveda,
uma das peças mais antigas da literatura do norte da Índia,
encontramos um hino inteiro dedicado a Skambha:
Na terra, na atmosfera de quem, no céu de quem ela se encontra,
onde estão o fogo, a Lua, o Sol, o vento? (...) O Skambha sustenta o
céu e a terra; o Skambha sustenta a larga atmosfera; o Skambha
sustenta as seis largas direções; o Skambha penetra em toda
existência.
Whimey, o tradutor (Atharvaveda, 10:7), comenta com certa
perplexidade: "O Skambha, iluminação, escora, apoio, pilar, é
estranhamente usado neste hino como contexto do universo." Ainda
assim, se compreendemos o complexo de idéias que ligam moinhos
cósmicos, vórtices, árvores do mundo e assim por diante, o arcaico
uso védico não deve parecer tão estranho assim. O que está sendo
sugerido nesse caso, como em todas as demais alegorias, é a
estrutura de uma era mundial - o mesmo mecanismo celeste que gira
há mais de 2.000 anos, com o sol nascendo sempre nos mesmos
quatro pontos cardeais e, em seguida, mudando lentamente essas
coordenadas para quatro novas constelações, onde ficará nos
próximos dois mil anos.
Esse o motivo por que o moinho sempre quebra, porque as imensas
escoras sempre se soltam de uma maneira ou de outra, porque os
rebites de ferro explodem, porque o tronco da árvore treme. A
precessão dos equinócios merece essaimagística porque, a intervalos
muito separados do tempo, ela realmente muda, ou rompe, as
coordenadas estabilizadoras de toda a esfera celeste.
Desbravadores do Caminho
O notável em tudo isso é a maneira como o moinho (que continua a
servir como alegoria de processos cósmicos) continua a afIorar
teimosamente, mesmo nos casos em que o contexto entrou em
desordem ou se perdeu. Na verdade, no argumento de Santillana e
Von Dechend não importa realmente se o contexto se perde. "O mérito
particular da terminologia mítica", dizem, "é que ela pode ser usada
como veículo para transmitir sólidos conhecimentos,
independentemente do grau de insight dos indivíduos que se
encarregam de contar as histórias, fábulas etc." O que importa, em
outras palavras, é que certa fantasia central sobreviva e continue a ser
transmitida todas as vezes em que a história é contada, por mais que
elas possam se afastar da linha narrativa original.
Um exemplo desse desvio (juntamente com a retenção das imagens e
informações essenciais) é encontrado entre os cherokees, cujo nome
para a Via Láctea (nossa galáxia) é "Lugar por onde o cão correu". Em
tempos antigos, de acordo com a tradição dos cherokees, "o povo no
Sul tinha um moinho de milho", do qual farinha era repetidamente
roubada. No devido tempo, os donos descobriram o larápio, um cão,
"que fugiu correndo e ganindo para sua casa no Norte, com a farinha
pingando da boca, enquanto ele corria, deixando atrás uma trilha
branca onde hoje vemos a Via Láctea,que os cherokees até estes
dias chamam de "Lugar por onde o cão correu".
Na América Central, um dos muitos mitos sobre Quetzalcoatl mostra-o
desempenhando um papel decisivo na regeneração da humanidade,
após o dilúvio arrasador que acabou com o Quarto Sol. Juntamente
com seu companheiro de cabeça de cão, Xolotl, ele desceu ao inferno
para recuperar os esqueletos daspessoas mortas no dilúvio.
Consegue fazer isso depois de enganar Miclatechuhtli, o deus da
morte, e os ossos são levados para um lugar chamado Tamoanchan.
Aí, como se fosse milho, os ossos são moídos em uma mó,
transformados em fina farinha. Sobre essa farinha moída, os deuses
vertem em seguida sangue, criando dessa maneira a carne da
presente era de homens.
Santillana e Von Dechend recusam-se a pensar que a presença de um
personagem canino nas duas variantes acima do mito do moinho
cósmico seja acidental. Lembram que Kullervo, o Hamlet finlandês,
tinha também a companhia do "cão negro Musti". De igual maneira,
após voltar às suas propriedades em Ítaca, Ulisses é inicialmente
reconhecido pelo seu fiel cão e, como se lembrarão todos os que
freqüentaram uma escola dominical, Sansão aparece ligado a raposas
(300 delas, para sermos exatos), que são membros da família dos
cães. Na versão dinamarquesa da saga Amleth/Hamlet, "Amleth
prosseguiu em sua viagem e um lobo cruzou seu caminho no meio do
bosque". Por último, mas não menos importante, em uma versão
revista da história de Kullervo, de origem finlandesa, o herói (de forma
muito estranha) é "enviado à Estônia para latir embaixo de uma cerca.
Ele latiu durante um ano (...)".
Santillana e Von Dechend têm certeza de que toda essa "cachorrice" é
intencional, outra peça de um código antigo, ainda não decifrado,
persistentemente digitando sua mensagem de um lugar a outro. Eles
listam esses e numerosos outros símbolos caninos, entre uma série
de "indicadores morfológicos", que identificaram com probabilidade de
sugerir a presença, em mitos antigos, de informações científicas
relativas à precessão dos equinócios. Esses indicadores podem ter
possuído significados próprios ou ter sido criados para alertar a
platéia-alvo de que um conjunto de dadossérios vai surgir na história
que está sendo contada. Com intenção de enganar, podem ter sido
também concebidos para servir como "desbravadores do caminho" -
como conduítes para permitir aos iniciados seguir a trilha da
informação científica de um mito a outro.
Dessa maneira, mesmo que nenhum dos conhecidos moinhos e
vórtices esteja à vista, devemos talvez prestar atenção quando somos
informados de que o Órion, o grande caçador do mito grego, possuía
um cão. Quando ele tentou violentar a deusa virgem Ártemis, ela tirou
da terra um escorpião que o matou e, também, o cão. Órion foi
transportado para o céu, onde se tornou a constelação que hoje tem
seu nome, sendo o cão transformado em Sírius, a estrela Canis.
Exatamente a mesma identificação de Sírius foi feita pelos antigos
egípcios, que ligaram a constelação de Órion especificamente ao deus
Osíris. Foi no Egito antigo, igualmente, que o caráter do fiel cão
celeste recebeu seu mais completo e mais explícito refinamento
mítico, sob a forma de Upuaut, uma divindade com cabeça de chacal,
cujo nome significa "Desbravador de Caminhos". Se seguimos esse
desbravador de caminhos ao Egito,viramos os olhos para a
constelação de Órion e entramos no poderoso mito de Osíris,
descobrimos que estamos envolvidos em uma teia de símbolos
conhecidos.
O leitor deve lembrar-se de que o mito apresenta Osíris como vítima
de uma conspiração. Os conspiradores livraram-se dele fechando-o
dentro de uma caixa e jogando-a à deriva nas águas do Nilo. Neste
particular, não lembra ele Utnapishtim, Noé, Coxcoxtli e todos os
outros heróis do dilúvio em suas arcas (ou caixas, ou cofres) flutuando
nas águas da grande inundação?
Outro elemento conhecido é a imagem clássica da precessão do
mundo-árvore e/ou telhado-pilar (neste caso, combinados). O mito nos
diz que Osíris, ainda preso no interior do caixão, foi levado para o mar
e que deu à praia em Biblos. As ondasdepositaram-no entre os ramos
de uma árvore, uma tamargueira, que cresceu rapidamente e adquiriu
um tamanho majestoso, fechando o caixão no interior do tronco. O rei
do país, que admirava muito as tamargueiras, derruba-a e transforma
a parte que contém Osíris no pilar de sustentação do telhado de seu
palácio. Mais tarde, Ísis, a esposa de Osíris, tira o corpo do marido de
dentro do pilar e leva-o para o Egito, onde ele renascerá.
O mito de Osíris inclui também certos números decisivos. Seja por
acaso ou intenção, esses números permitem acesso a uma espécie
de "ciência” da precessão, conforme veremos no capítulo seguinte.
CAPÍTULO 31
Os Números de Osíris
A árqueo-astrônoma Jane B. Seller, que estudou egiptologia no
Instituto Oriental, da Universidade de Chicago, passa os invernos em
Portland, Maine, e os verões em Ripley Neck, um enclave do século
XIX na "baixa" costa rochosa do Maine. "Nesse lugar", diz ela, "os
céus noturnos podem ser tão claros como no deserto e ninguém se
importa se a gente lê em voz alta, para as gaivotas, os Textos das
Pirâmides..."
Sendo uma das poucas estudiosas sérias a submeter a teste a teoria
proposta por Santillana e Von Dechend no Hamlet’s Mill, Seller vem
sendo elogiada por ter chamado atenção para a necessidade de usar
a astronomia e, de modo especial, a precessão, para o estudo correto
do Egito antigo e de sua religião. Emsuas palavras: "Os arqueólogos,
de modo geral, não compreendem bem a precessão e este fato lhes
afeta as conclusões sobre mitos antigos, deuses antigos e
alinhamentos de templos antigos. (...) Para os astrônomos, a
precessão é um fato sobejamente comprovado. Os que trabalham no
campo de estudo do homem antigo têm a responsabilidade de
compreendê-Ia."
Alega Sellers, de forma eloqüente em seu livro recente, The Death of
Gods in Ancient Egypt, que o mito de Osíris pode ter sido
deliberadamente codificado com um grupo de números-chaves, que
constituem "excesso de bagagem" no que interessa à narrativa, mas
que oferecem um cálculo eterno através do qual valores
surpreendentemente exatos podem ser derivados para se obter o
seguinte:
1. O tempo necessário para que o lento bamboleio do ciclo de
precessão faça com que a posição do nascer do sol no equinócio de
inverno complete uma mudança de um grau ao longo da eclíptica (em
relação ao fundo estelar);
2. O tempo necessário para que o sol passe através de um segmento
zodiacal completo de trinta graus;
3. O tempo necessário para que o sol passe através de dois
segmentos zodiacais completos (totalizando sessenta graus);
4. O tempo necessário para ocasionaro "Grande Retorno", isto é, para
que o sol mude 360 graus ao longo da eclíptica, encerrando um ciclo
completo de precessão ou "Grande Ano".
Computando o Grande Retorno
Os números da precessão destacados por Sellers no mito de Osíris
são 360, 72, 30 e 12. A maioria deles é encontrada em uma seção do
mito que nos fornece detalhes biográficos sobre os vários
personagens. Esses números foram convenientemente resumidos por
E.A Budge, ex-curador das Antiguidades Egípcias, do Museu
Britânico:
A deusa Nut, esposa do deus do sol, Rá, era amada pelo deus Geb.
Ao descobrir a intriga, Rá amaldiçoou a esposa e determinou que ela
não teria filho em qualquer mês doano. Em seguida, o deus Thoth,
que também amava Nut, jogou cartas com a Lua e ganhou dela cinco
dias completos. Ele juntou estes aos 360 dias que, nessa ocasião,
compunham o ano [itálicos nossos]. No primeiro desses cinco dias,
nasceu Osíris e, no momento de seu nascimento, uma voz foi ouvida
proclamando que nascera o senhor da criação.
Em outro trecho, o mito nos informa que o ano de 360 dias consiste
em "12 meses de 30 dias cada". E, de modo geral, observa Sellers,
"são usadas frases que estimulam cálculos mentais simples e atenção
aos números".
Até agora, fornecemos ao leitor trêsdos números de Sellers referentes
à precessão: 360,12 e 30. O quarto número, que aparece mais tarde
no texto, é de longe o mais importante. Conforme vimos no Capítulo 9,
a divindade perversa chamada Set liderou um grupo de conspiradores
na trama para matar Osíris. Eram 72 os conspiradores.
Com este último número, sugere Sellers, estamos em condições de
dar o boot e pôr para rodar um antigo programa de computador:
12 = número das constelações do zodíaco;
30 = número de graus destinados, ao longo da eclíptica, a cada
constelação zodiacal;
72 = número de anos necessários para que o sol equinocial complete
uma mudança de precessão de um grau ao longo da eclíptica;
72 x 30 = 2.160 (número de anos necessários para que o sol complete
uma passagem de 30 graus ao longo da eclíptica, isto é, passe
inteiramente por qualquer uma das 12 constelações do zodíaco);
2.160 x 12 (ou 360 x 72) = 25.920 (número de anos em um ciclo
completo de precessão, o "Grande Ano", e, dessa maneira, o número
total de anos necessários para produzir o "Grande Retorno").
Emergem também outros números e combinações de números, como,
por exemplo:
36, o número de anos necessários para que o sol equinocial complete
uma mudança de precessão, de metade de grau, ao longo da
eclíptica; 4.320, número de anos necessários para que o sol
equinocial complete uma mudança de precessão de 60 graus (isto é,
duas constelações zodiacais).
Estes, acredita Sellers, constituem os componentes básicos de um
código de precessão, que reaparece sempre, com uma estranha
persistência, em mitos antigos e na arquitetura sagrada. Em comum
com grande parte da numerologia esotérica, trata-se de um código
que permite que se mude à vontade casas decimais para a esquerda
ou a direita e que use quase todas as combinações, permutações,
multiplicações, divisões e frações concebíveis dos números essenciais
(todos os quais se relacionam precisamente com a taxa de precessão
dos equinócios).
No código, o principal número é o 72. A ele é freqüentemente
adicionado o número 36, obtendo-se 108, e é permissível multiplicar
108 por 100 para obter 10.800, ou dividi-Io por dois para obter 54, que
poderá ser em seguida multiplicado por 10 e expressado como 540
(ou como 54.000, 540.000, 5.400.000, e assim por diante). De alta
significação é também o número 2.160 (o número de anos necessário
para que o ponto equinocial percorra uma constelação zodiacal), que
é às vezes multiplicado por 10 e por fatores de dez (obtendo-se
216.000, 2.160.000, e assim por diante) e, ocasionalmente, por 2 para
produzir 4.320, ou 43.200, 432.000, ou 4.320.000, ad infinitum.
Melhor do que Hiparco
Se Sellers está correta em sua hipótese, de que o cálculo necessário
para gerar esses números foi deliberadamente codificado no mito de
Osíris, a fim de fornecer informações aos iniciados, encontramos uma
anomalia intrigante. Se eles se referem realmente à precessão, esses
números estão deslocados no tempo. A ciência que contêm é
avançada demais para que tenham sido calculados por qualquer
civilização conhecida da antiguidade.
Não devemos esquecer que eles aparecem em um mito
contemporineo do próprio aparecimento da linguagem escrita no Egito
(na verdade, elementos da históriade Osíris são encontrados nos
Textos da Pirâmide, que datam de cerca de 2450 a.C., em um
contexto que sugere que eram extremamente antigos mesmo nessa
época). Hiparco, o indigitado descobridor da precessão, viveu no
século II a.C. Ele propôs um valor de 45 ou 46 segundos de arco para
um ano do movimento de precessão. Esses números produzem uma
mudança de um grau em 80 anos ao longo da eclíptica (a 45
segundos de arco por ano) e em 78,26 anos (a 46 segundos de arco
por ano). O número exato, calculado pela ciência de nosso século, é
de 71,6 anos. Se a teoria de Sellers está correta, portanto, os
"números de Osíris", que fornecem um valor de 72 anos, são
significativamente mais exatos do que os encontrados por Hiparco. Na
verdade, dentro dos limites óbvios impostos pela estrutura de
narrativa, é difícil entender como o número 72 poderia ter sido
melhorado, mesmo que um número mais exato tivesse sido conhecido
dos antigos criadores de mitos. Dificilmente podemos inserir 71,6
conspiradores em uma história, ao passo que 72 se encaixam
perfeitamente.
Trabalhando com esse número arredondado, o mito de Osíris pode
gerar um valor de 2.160 anos para uma mudança na precessão
através de uma casa completa do zodíaco. O número correto, de
acordo com os cálculos modernos, é de 2.148 anos. Os números de
Hiparco são de 2.400 e 2.347,8 anos, respectivamente. Por último,
Osíris permite-nos calcular 25.920 como o número de anos requeridos
para que se complete um ciclo de precessão através das 12 casas
do zodíaco. Hiparco fornece-nos 28.800 ou 28.173,6 anos. O número
correto, de acordo com as estimativas de hoje, é de 25.776 anos. Os
cálculos de Hiparco para o Grande Retorno, portanto, estão cerca de
3.000 anos errados. Os cálculos de Osíris erram o número certo em
apenas 144 anos e isso pode ter acontecido porque o contexto de
narrativa obrigou a um arredondamento do número-base, do valor
correto de 71,6 para um número mais manipulável de 72.
Tudo isso, contudo, dá como certo que Sellers tenha razão em supor
que os números 360, 72, 30 e 12 não entraram por acaso no mito de
Osíris, mas foram nele deliberadamente inseridos por indivíduos que
compreeendiam - e haviam medido corretamente - a precessão.
Terá Sellers razão?
Tempos de Decadência
O mito de Osíris não é o único que contém o cálculo da precessão. Os
números relevantes continuaram a aflorar sob várias formas, múltiplos
e combinações, em todo o mundo antigo.
A esse respeito demos um exemplo no Capítulo 33 - o mito
escandinavo dos 432.000 guerreiros que saíram do Valhalla para lutar
contra "o Lobo". Um novo exame desse mito mostra que ele contém
várias permutações de "números ligados à precessão".
De idêntica maneira, conforme vimos no Capítulo 24, conta-se que
antigas tradições chinesas, com referências a um cataclismo
universal, foram postas no papel em um grande texto que consistia
exatamente de 4.320 volumes.
A vários milhares de quilômetros de distância, teria sido uma
coincidência que o hinoriador babilônico Berossus (século III a.C.)
tenha atribuído um reinado total de 432.000 anos aos reis míticos que
governaram a terra da Suméria antes do dilúvio? E seria também
coincidência que esse mesmo Berossus atribuísse 2.160.000 anos ao
período "entre a criação e a catástrofe universal"?
Agora uma pergunta: os mitos de antigos povos ameríndios, como o
maia, contêm também ou nos permitem computar números tais como
72, 2.160, 4.320 etc.? Provavelmente,jamais saberemos, graças aos
conquistadores e frades fanáticosque destruíram a herança
tradicional da América Central e nos deixaram com tão pouca coisa
com que trabalhar. O que podemos dizer, contudo, é que os números
relevantes surgem também, em relativa profusão, no Calendário Maia
de Longa Contagem. Os números necessários para calcular a
precessão são encontrados nas fórmulas seguintes: 1 Katun = 7.200
dias; 1 Tun = 360 dias; 2 Tuns = 720 dias; 5 Baktuns = 720.000; 5
Katuns = 36.000; 6 Katuns = 43.200; 6 Tuns = 2.160 dias; 15 Katuns =
2.160 dias.
Tampouco parece que o "código" de Sellers se limite à mitologia. Nas
selvas de Kampuchea, o complexo de templos de Angkor dá a
impressão de que poderia ter sido construído intencionalmente como
uma metáfora da precessão. O complexo, por exemplo, possui cinco
portões, a cada um dos quais chega uma estrada que passa por cima
do fosso, infestado de crocodilos, que cerca todo o sítio. Todas essas
estradas são ladeadas por uma fileira de gigantescas figuras de pedra,
108 por avenida, 54 de cada lado (540 estátuas no total) e cada uma
delas segura uma imensa serpente Naga. Além disso, como destacam
Santillana e Von Dechend no Hamlets Mill, as figuras não "seguram" a
serpente, mas são mostradas "puxando-a", o que indica que essas
540 estátuas estão "batendo o Oceano de Leite". Todo Angkor
"transforma-se, dessa maneira, emum modelo colossal construído
com autêntica fantasia e incongruidade hindus para expressar a idéia
de precessão".
A mesma coisa talvez aconteça no famoso templo de Java, o
Borobudur, com suas 72 stupas em forma de sino e talvez também
nos megálitos de Baalbeck, no Líbano - que se considera como os
maiores blocos de pedra cortada existente no mundo. Muito anteriores
às estruturas romanas e gregas existentes no local, as árvores que
formam a chamada "Trilithion" têm a altura de prédios de cinco
andares e pesam 600 toneladas cada uma. Um quarto megálito tem
quase 24m de comprimento e pesa 1.100 toneladas.
Surpreendentemente, esses blocos gigantescos foram cortados,
modelados com perfeição e, de alguma maneira, transportados para
Baalbeck procedentes de uma pedreira situada a vários quilômetros
de distância. Além disso, foram encaixados habilmente, a uma grande
altura acima do nível do chão, nos muros de arrimo de um templo
magnífico. Esse templo era cercado por 54 colunas de tamanho e
altura imensos.
No subcontinente da Índia (onde a constelação de Órion é conhecida
como Kal-Purush, que significa Tempo-Homem), descobrimos que os
números de Osíris a que se refere Sellers são transmitidos através de
uma larga variedade de meios e istode uma maneira cada vez mais
difícil de atribuir ao acaso. Existem, por exemplo, 10.800 tijolos no
Agnicayana, o altar do fogo indiano. O Rigveda, o mais antigo dos
textos vedas e rico repositório de mitologia indiana, é composto de
10.800 estrofes. Cada estrofe é composta de 40 sílabas, com o
resultado de que a composição, no total, consiste de 432.000
sílabas... nem mais, nem menos. No Rigveda 1:64 (uma estrofe
típica), lemos sobre "a roda de 12 aros, na qual estão estabelecidos
720 filhos de Agni".
Na Cabala hebraica, há 72 anjos através dos quais os Sephiroth
(poderes divinos) podem ser abordadosou invocados por aqueles que
lhes sabem os nomes e números. A tradição Rosacruz fala de ciclos
de 108 anos (72 mais 36), de acordo com os quais a fraternidade
secreta manifesta sua influência. Analogamente, o número 72 e suas
permutações e subdivisões são de grande importância para as
sociedades secretas chinesas, como as Tríades. Um antigo ritual
exige que cada candidato à iniciação pague uma taxa, incluindo "360
cash para 'fazer trajes', 108 cash 'para a bolsa’, 72 cash 'para
instrução' e 36 cash para decapitar o 'sujeito traiçoeiro"'. O "cash" (a
velha moeda de cobre usada em toda a China, com um buraco
quadrado no centro) não está mais, claro, em circulação, embora
tenham sobrevivido os números transmitidos aos pósteros desde
tempos imemoriais. Assim, na moderna Cingapura, candidatos à
filiação numa Tríade pagam uma jóia que é calculada de acordo com
sua situação ftnanceira, mas que deve sempre consistir de múltiplos
de US$ I,80, US$ 3,60, US$ 7,20, US$ 10,80 (e, portanto, de US$ 18,
US$ 36, US$ 72, US$ 108,00, ou US$ 360, US$ 720, US$ 1.080, e
assim por diante).

Entre todas as sociedades secretas, a mais misteriosa e antiga é, de
longe, a Liga Hung, que estudiosos acreditam ser "a depositária da
velha religião dos chineses". Em umritual de iniciação Hung, o neófito
passa por uma sessão de perguntas e respostas mais ou menos
assim:
P. O que foi que você viu em seu passeio?
R. Vi dois vasos com bambu vermelho.
P. Sabe quantas plantas havia neles?
R. Em um vaso havia 36 e, no outro, 72, e juntos, 108.
P. Levou alguns para casa para usar?
R. Levei, levei para casa 108 plantas...
P. De que maneira pode provar isso?
R. Posso provar isso com um verso.
P. Como é esse verso?
R. O bambu vermelho de Cantão é raro no mundo.
Nos bosques há 36 e 72 deles.
Quem é no mundo que conhece o significado disso?
Quando começarmos a trabalhar, saberemos o segredo.
A atmosfera de curiosidade despertada por trechos como esse é
acentuada pelo componamento reticente da própria Liga Hung, uma
organização que lembra a Ordem dos Templários, uma organização
medieval (e os graus mais altos da moderna maçonaria), de muitas
maneiras que não cabe no escopo deste livro descrever. É curioso
ainda que o caractere chinês hung, composto de água e muitas,
significa inundação, isto é, o Dilúvio.
Finalmente, voltando à Índia, vale a pena estudar o conteúdo das
escrituras sagradas conhecidas como Puranas. Falam elas de "quatro
eras da terra, denominadas Yugas, que, juntas, se estenderiam por
12.000 "anos divinos". As respectivas durações dessas épocas, em
"anos divinos", são Krita Yuga = 4.800; Treta Yuga = 3.600; Davpara
Yuga = 2.400 e Kali Yuga = 1.200 anos.
Os Puranas ainda nos dizem que "um ano dosmortais é igual a um
dia dos deuses". Além do mais, e exatamente como no mito de Osíris,
descobrimos que o número de dias nos anos de deuses e mortais foi
estabelecido artificialmente em 360, de modo que um ano dos deuses
equivale a 360 anos dos mortais.
A Kali Yuga, portanto, com 1.200 anos dos deuses, tem uma duração
de 432.000 anos dos mortais. Uma Mahayuga, ou Grande Era
(constituída dos 12.000 anos contidos nas quatro Yugas inferiores),
equivale a 4.320.000 anos dos mortais. Mil dessas Mahayugas (que
constituem um Kalpa, ou Dia de Brahma) estendem-se por
4.320.000.000 anos comuns, fornecendo, mais uma vez, os dígitos
para os cálculos básicos da precessão. Separadamente, seguem-se
os Manvantaras (períodos de Manu), sobre os quais as escrituras
dizem que "cerca de 71 sistemas de quatro Yugas ocorrem durante
cada Manvantara". O leitor deve recordar-se que um grau do
movimento de precessão ao longo da eclíptica requer 71,6 anos para
ser completado, número este que pode ser arredondado para baixo,
"mais ou menos 71" na Índia, com tanta facilidade com que é
arredondado para cima, chegando a 72 no antigo Egito.
A Kali Yuga, com uma duração de 432.000 anos dos mortais, é, por
falar nisso, a era em que vivemos. "Na Era de Kali", dizem as
escrituras, "a decadência aumentará, até que a raça humana se
aproxime da aniquilação."
Cães, Tios e Vingança
E foi um cão que nos trouxe até estes tempos de decadência.
Chegamos aqui passando por Sírius, a estrela Canis, que se encontra
ao leme da gigantesca constelação de Órion, onde ela aparece alta no
céu, acima do Egito. Nessa terra, conforme vimos, Órion é Osíris, o
deus da morte e da ressurreição, cujos números - talvez por acaso -
são 12, 30, 72 e 360. Mas poderá o acaso explicar o fato de que esses
e outros números, que fazem parte do cálculo da precessão,
continuam a aflorar em mitologias originárias de regiões em todas as
partes do mundo, supostamente sem nenhuma relação entre si, e em
veículos duradouros como sistemas de calendário e obras de
arquitetura?
Santillana e Von Dechend, Jane Sellers e um número crescente de
outros pesquisadores excluem a possibilidade de acaso,
argumentando que a persistência dos detalhes indica uma mão
orientadora.
Se estão errados, precisamos encontrar outra explicação para o
motivo por que esses números específicos e inter-relacionados (cuja
única função óbvia consiste em servir para calcular a precessão)
poderiam, por acaso, ter impregnado de maneira tão profunda a
cultura humana.
Mas vamos supor que eles não estejam errados. Suponhamos que
certa mão orientadora esteve realmente por trás das cenas.
Às vezes, quando estudamos o mundo de mito e mistério de
Santillana e Von Dechend, podemos quase sentir a influência dessa
mão... Vejamos o caso do cão... ou do chacal, do lobo, ou da raposa.
A maneira sutil como esse misterioso canino se esgueira de um mito a
outro é peculiar - deixando-nos curiosos, em seguida perplexos, mas
sempre nos puxando para a frente.
Na verdade, foi essa isca que seguimos desde o Moinho de Amlodhi
até o mito de Osíris, no Egito. Ao longo do caminho, de acordo com a
intenção de antigos sábios (se Sellers, Santillana e Von Dechend têm
razão), fomos inicialmente encorajados a formar uma clara imagem
mental da esfera celeste. Em seguida, eles nos forneceram um
modelo mecanicista, de modo a que pudéssemos visualizar as
grandes mudanças que a precessão dos equinócios introduz
periodicamente em todas as coordenadas da esfera. Finalmente,
depois de permitir que Sírius abrisseos caminhos para nós, eles nos
deram os números para calcular a precessão com relativa exatidão.
Sírius, porém, em seu posto eterno ao leme de Órion, não é o único
personagem canino em volta de Osíris. Vimos no Capítulo 11 que Ísis
(simultaneamente esposa e irmã de Osíris) procurou o cadáver do
marido assassinado por Set (que, incidentalmente, era também seu
irmão e de Osíris). Na busca, de acordo com a tradição antiga, ela foi
ajudada por cães (chacais, em algumas versões). De idêntica
maneira, textos mitológicos e religiosos de todos os períodos da
história egípcia afirmam que o deus-chacal Anúbis cuidou do espírito
de Osíris após a morte e que lhe serviu de guia no submundo.
(Vinhetas remanescentes mostram Anúbis com uma aparência
virtualmente idêntica à de Upuaut, o Desbravador de Caminhos.)
Finalmente, mas não de menor importância, acreditava-se que o
próprio Osíris assumiu a forma de lobo quando voltou do submundo
para ajudar o irmão Hórus na batalha final contra Set.
Investigando esse tipo de material, sentimos às vezes a sensação
sobrenatural de que estamos sendo manipulados por uma inteligência
antiga, que descobriu uma maneira de chegar até nós através das
imensidões do tempo e que, por alguma razão, nos propõe para
solucionar um enigma que usa a linguagem do mito.
Os caminhos entre os dois mitos muito diferentes de Osíris e o Moinho
de Amlodhi (embora pareça que ambos contêm dados científicos
exatos sobre a precessão dos equinócios) são mantidos abertos por
outro estranho fator comum. Há relacionamentos familiares em jogo.
Amlodhi/Amleth/Hamlet é sempre um filho que vinga o assassinato do
pai, encurralando e matando o assassino. O assassino, além disso, é
sempre o irmão do pai, isto é, o tio de Hamlet.
Esse é precisamente o cenário do mito de Osíris. Ele e Seth são
irmãos. Seth assassina Osíris. Hórus, filho de Osíris, vinga-se do tio.
Outro desvio é que o personagem Hamlet mantém algum tipo de
relacionamento incestuoso com a irmã. No caso de Kullervo, o Hamlet
finlandês, há uma cena pungente, na qual o herói, voltando para casa
após longa ausência, encontra uma donzela no bosque, colhendo
amoras. Deitam-se juntos. Só depois descobrem que são irmão e
irmã. A moça suicida-se por afogamento. Mais tarde, com o "cão
negro Musti" seguindo-o aos tornozelos, Kullervo entra na floresta e se
joga contra a própria espada.
Não há suicídios no mito egípcio de Osíris, mas há incesto, entre ele e
a irmã, Ísis. Dessa união nasce Hórus, o vingador.
Em vista disso, parece mais uma vez razoável perguntar: o que é que
está acontecendo? Por que todas essas visíveis ligações e conexões?
Por que temos essa "fieira" de mitos, aparentemente sobre assuntos
diferentes, todos os quais são capazes, à sua própria maneira, de
lançar luz sobre o fenômeno da precessão dos equinócios? E por que,
em todos esses mitos, perpassam cães e personagens que parecem
estranhamente propensos ao incesto, ao fratricídio e à vingança? E,
certamente, é levar o ceticismo aos seus limites sugerir que tantos
recursos literários idênticos poderiam continuar a reaparecer apenas
por acaso em tantos contextos diferentes.
Se não por obra do acaso, contudo, quem foi exatamente o
responsável por criar esse modelo complicado e habilmente
interligado? Quem foram os autores e executores desse enigma e que
motivos poderiam ter tido?
Cientistas com Algo a Dizer
Quem quer que tenham sido, não há dúvida de que foram sabidos -
sabidos o suficiente para ter observado o arrastamento infinitesimal do
movimento de precessão ao longo da eclíptica e calculado sua taxa
com um valor extraordinariamente próximo do que é obtido pela
avançada tecnologia de hoje.
Segue-se, portanto, que estamos falando de indivíduos altamente
civilizados. Na verdade, estamos falando de indivíduos que merecem
ser chamados de cientistas. Eles devem, além do mais, ter vivido em
uma antiguidade extremamente remota, porque podemos ter certeza
de que a criação e disseminação da herança comum de mitos sobre a
precessão, em ambos os lados do Atlântico, não ocorreu em tempos
históricos. Ao contrário, a prova sugere que todos esses mitos
"estavam cambaleando de velhice" quando aquilo que chamamos de
história começou, há cerca de 5.000 anos.
O grande poder das histórias antigas era o seguinte: além de estarem
para sempre à disposição de todos e poderem ser adaptadas sem
necessidade de pagamento de direitos autorais, elas, como se fossem
camaleões intelectuais, sutis e ambíguos, tinham capacidade de
mudar de cor para adequar-se ao ambiente. Em ocasiões diferentes,
em continentes diferentes, as histórias antigas podiam ser recontadas
de uma grande variedade de maneiras, mas sempre reter seu
simbolismo básico e continuar a transmitir os dados codificados sobre
a precessão, que desde o início haviam sido codificados para fazer.
Mas com que fim em vista?
Conforme veremos no capítulo seguinte, os longos e lentos ciclos
das precessões não se limitam, em suas conseqüências, a mudar o
aspecto do céu. Esse fenômeno celeste, causado pelo bamboleio do
eixo da terra, produz efeitos diretos sobre a própria terra. Na verdade,
parece que é um dos principais correlatos do aparecimento súbito de
idades de gelo e de sua retirada igualmente súbita e catastrófica.
CAPÍTULO 32
Falando para o Futuro
É compreensível que uma imensa faixa de mitos originários de todo o
mundo antigo descrevam catástrofes geológicas em nítidos detalhes.
A humanidade sobreviveu ao horror da última Era Glacial e a fonte
mais plausível de nossas duradouras tradições de dilúvio e
congelamento, vulcanismo maciço e terremotos devastadores está
nas sublevações tumultuosas desencadeadas durante o grande
degelo dos anos 15.000 a 8.000 a.C. A retirada final dos lençóis de
gelo e a conseqüente elevação de 90m e 120m dos níveis do mar em
todo o globo ocorreram apenas alguns milhares de anos antes do
início do período histórico. Por isso mesmo, não é de surpreender que
todas as primeiras civilizações tenham conservado vívidas memórias
dos imensos cataclismos que apavoraram seus ancestrais.
Muito mais difícil de explicar é a maneira peculiar, mas característica,
como os mitos do cataclismo parecem revelar a marca inteligente de
uma mão orientadora. Na verdade, o grau de convergência entre
essas antigas histórias é, com freqüência, tão notável que desperta a
suspeita de que todas elas devem ter sido "escritas" pelo mesmo
"autor", Poderia esse autor ter alguma coisa a ver com a maravilhosa
divindade, ou super-homem, mencionado em tantos mitos que
estudamos acima, que apareceu imediatamente após ter sido o
mundo despedaçado por uma horripilante catástrofe geológica,
trazendo o consolo e as dádivas da civilização a sobreviventes
chocados e desmoralizados?
Branco e barbudo, Osíris é a manifestação egípcia dessa figura
universal e talvez não tenha sido um acaso que um dos primeiros atos
pelos quais é lembrado no mito tenha sido a abolição do canibalismo
entre os primitivos habitantes do valedo Nilo. Conta-se que Viracocha,
na América do Sul, iniciou sua missão civilizadora imediatamente após
uma grande inundação; Quetzalcoatl, o descobridor do milho, trouxe o
benefício das colheitas, da matemática, da astronomia e de uma
cultura refinada ao México, depois de o Quarto Sol ter sido apagado
por um dilúvio devastador.
Poderiam esses estranhos mitos conter um registro de encontros entre
tribos paleolíticas dispersas, que sobreviveram à última Era Glacial, e
uma civilização avançada, ainda desconhecida que florescia na
mesma época?
E poderiam os mitos ter sido tentativas de comunicação?
Uma Mensagem na Garrafa do Tempo
"Entre todas as outras invenções estupendas", observou certa vez
Galileu, que mente sublime deve ter possuído aquele que concebeu
como comunicar seus pensamentos mais secretos a qualquer outra
pessoa, embora muito distantes no tempo ou lugar, falando com
aqueles que estão nas Índias, falando com aqueles que ainda não
nasceram, nem nascerão pelos próximos mil ou dez mil anos? E sem
maior dificuldade do que os vários arranjos de duas dezenas de
pequenos sinais no papel? Que esta seja a marca característica de
todas as invenções admiráveis do homem.
Se a "mensagem sobre a precessão" identificada por estudiosos como
Santillana, Von Dechend e Jane Sellers foi, na verdade, uma tentativa
deliberada de comunicação por partede alguma civilização perdida da
antiguidade, por que não foi simplesmente escrita e deixada para que
a encontrássemos? Não teria sido mais fácil do que codificá-Ia em
mitos? Talvez.
Não obstante, suponhamos que qualquer mensagem que tivesse sido
escrita fosse destruída ou corroída pelo tempo após muitos milhares
de anos. Ou suponhamos que a língua em que foi escrita tivesse sido
mais tarde inteiramente esquecida (tal como a escrita enigmática do
vale do Indo, que tem sido estudada atentamente há mais de um
século mas que até agora resistiu a todas as tentativas de decodificá-Ia). Deve ser óbvio que, nessas circunstâncias, um legado escrito para
o futuro não teria absolutamente valor, porque ninguém poderia
compreendê-Io.
O que procuraríamos, por conseguinte, seria uma linguagem
universal, o tipo de linguagem que seria compreensível em qualquer
sociedade tecnologicamente avançada,em qualquer época, mesmo a
mil ou dez mil anos no futuro. Essas linguagens são poucas e com
poucas ligações entre si, muito embora a matemática seja uma delas -
e a cidade de Teothuacán talvez seja o cartão de visita de uma
civilização perdida, escrita na linguagem eterna da matemática.
Dados geodésicos, relacionados com o posicionamento exato de
pontos geográficos físicos e com a forma e tamanho da terra
permaneceriam também válidos e reconhecíveis durante dezenas de
milhares de anos e poderiam ser expressados da forma a mais
conveniente por intermédio da cartografia (ou na construção de
monumentos geodésicos gigantescos, como a Grande Pirâmide do
Egito, conforme veremos).
Outra "constante" em nosso sistema solar é a linguagem do tempo: os
intervalos grandes, mas regulares de tempo, calibrados pelo
arrastamento lentíssimo do movimento de precessão. Agora, ou
dentro de dez mil anos no futuro, uma mensagem que forneça
números como 72, 2.160, 4.320 ou 25.920 deve ser imediatamente
inteligível para qualquer civilização que tenha desenvolvido até
mesmo um modesto talento para a matemática e a capacidade de
detectar e medir o bamboleio reverso quase invisível que o sol parece
fazer ao longo da eclíptica, contra o fundo das estrelas fixas (um grau
em 71,6 anos, 30 graus em 2.148 anos, e assim por diante).
A impressão de que existe uma correlação é reforçada por algo mais.
Não tão firme nem tão definida como o número de sílabas no Rigveda.
Não obstante, parece relevante. Através de poderosos laços
estilísticos e simbolismo comum, mitos a respeito de cataclismos
globais e precessão de equinócios freqüentemente se entremisturam.
Uma interligação detalhada existe entre essas duas categorias de
tradição, e ambas, além disso, mostram o que parecem ser as marcas
reconhecíveis de uma concepção consciente. De modo muito natural,
portanto, somos estimulados a descobrir se não poderá haver uma
ligação importante entre a precessão dos equinócios e catástrofes
globais.
O Moinho da Dor
Embora vários diferentes mecanismos de natureza astronômica e
geológica pareçam estar envolvidos, e embora nem todos sejam
inteiramente compreendidos, o fato é que o ciclo de precessão
correlaciona-se real e fortemente com o desencadeamento e o fim das
eras glaciais.
Vários fatores desencadeantes têm de coincidir, o que é o motivo por
que nem todas as mudanças de uma era astronômica para outra estão
implicadas. Não obstante, é um fato aceito hoje que a precessão
produz realmente um impacto sobre a glaciação e o degelo, a
intervalos muito separados. O conhecimento de que isso de fato
acontece só foi provado por nossa própria ciência em fins da década
de 1970. Ainda assim, a prova dos mitos sugere que o mesmo nível
de conhecimento pode ter sido atingido por uma civilização ainda não
identificada, nas profundezas da última Era Glacial. A clara sugestão
que ela queria que compreendêssemos é que os terríveis cataclismos
do dilúvio, do fogo e do gelo descritos pelos mitos eram, de alguma
maneira, provocados pelos majestosos movimentos das coordenadas
celestes através do grande ciclo do zodíaco. Nas palavras de
Santillana e Von Dechend, "Não era idéia estranha aos antigos que os
moinhos dos deuses moíam devagar e que o resultado era geralmente
dor”.
Sabe-se agora que três fatores principais, que já encontramos antes,
estão profundamente implicados no início e no recuo das eras glaciais
(juntamente, claro, com os cataclismos de natureza diferente que se
seguem a congelamentos e a degelos súbitos). Esses fatores estão
ligados a variações na geometria orbital da terra. São eles:
1. A obliqüidade da eclíptica (isto é, o ângulo de inclinação do eixo de
rotação do planeta, que é também o ângulo entre o equador celeste e
a eclíptica). Este, conforme vimos, varia em imensos períodos de
tempo entre 22,1 graus (o ponto mais próximo em que o eixo chega da
vertical) e 24,5 graus (o ponto mais distante em que cai em relação à
vertical);
2. A excentricidade da órbita (isto é, se a trajetória elíptica da terra em
volta do sol é mais ou menos alongada em qualquer dado período);
3. A precessão axial, que faz com que os quatro pontos cardeais na
órbita da terra (os dois equinócios e os solstícios de inverno e verão)
se arrastem muito, muito lentamente para trás, em torno da trajetória
orbital.
Neste particular, estamos pondo o bedelho na seara de uma disciplina
científica especializada - na maior parte fora dos objetivos deste livro.
Leitores interessados em informação detalhada devem consultar o
trabalho multidisciplinar do Projeto CLIMAP, da US National Science
Foundation, e um ensaio de grande importância de autoria dos
professores J.D. Hays e John Imbrie, intitulado "Variations in me
Earth's Orbit: Pacemaker of the Ice Ages".
Resumidamente, o que Hays, Imbrie e outros provaram é que o início
das eras glaciais pode ser previsto quando ocorrem as seguintes
desastrosas e hostis conjunções de ciclos celestes: 1) excentricidade
máxima, que leva a terra para milhões de quilômetros mais longe do
sol no "afélio" (a extremidade de sua órbita) do que o normal; 2)
obliqüidade mínima, o que significa que o eixo da terra e
conseqüentemente os pólos Norte e Sul aproxima-se muito mais da
vertical do que o comum; e 3) a precessão dos equinócios, que, à
medida que continuam os grandes ciclos, faz finalmente com que o
inverno ocorra em um hemisfério quando a terra está no "periélio" (o
ponto mais próximo do sol). Isso, por seu lado, significa que o verão
ocorre no afélio e é, assim, relativamente frio, de modo que o gelo
depositado no inverno não consegue derreter durante o verão
seguinte e ocorre uma implacável acumulação de condições glaciais.
Potencializada pela geometria mutável da órbita, a "insolação global" -
os volumes e intensidade diferentes de luz solar recebida em várias
latitudes em qualquer dada época - pode ser um fator desencadeante
importante das eras glaciais.
Seria possível que os antigos criadores de mitos estivessem tentando
nos avisar do grande perigo quando, com tanto cuidado, ligaram a dor
do cataclismo global ao lento trabalho de trituração do moinho do céu?
A essa questão voltaremos em tempo oportuno. Entrementes, talvez
seja suficiente observar que, ao identificar os efeitos significativos da
geometria orbital sobre o clima e o bem-estar do planeta, e ao
combinar essa informação com medições precisas da taxa do
movimento de precessão, cientistas desconhecidos de uma civilização
não identificada parecem ter encontrado uma maneira de nos
despertar a atenção, de lançar uma ponte entre os abismos das eras e
a comunicar-se diretamente conosco.
Se ou não vamos escutar o que eles têm para nos dizer cabe
inteiramente, claro, a nós mesmos.









Templo dos Guerreiros, em Chichen Itza, Yucatán, México. No
primeiro plano, o ídolo Chacmool, olhando para o oeste, a direção
tradicionalmente ligada à morte. No segundo plano, nos fundos do
templo, atrás do ídolo, pode ser visto o altar sacrificial, montado sobre
pilares baixos. O prato que o ídolo segura nas mãos, de um lado a
outro da barriga, era usado para receber os corações recém-extraídos
das vítimas, sacrificadas devido à crença em que a morte delas
poderia retardar a chegada do fim do mundo.




















ParteVI
Convite a Gizé
Egito I
CAPÍTULO 33
Pontos Cardeais
Gizé, Egito, 16 de março de 1993, 3h30min.
Cruzamos o saguão deserto do hotel e entramos no Fiat branco que
nos esperava. O carro era dirigido por um egípcio magro e nervoso
chamado Ali, que nos devia fazer passar pelos guardas estacionados
na Grande Pirâmide e nos tirar de lá pouco antes do amanhecer. Ele
estava nervoso porque, se as coisas dessem errado, Santha e eu
seríamos deportados do Egito e ele iria mofar na prisão durante seis
meses.
Claro, ninguém esperava que as coisas dessem errado. E esse era o
motivo por que Ali ia nos levar. No dia anterior, derámos a ele 150
dólares americanos, que ele trocara por libras egípcias e distribuíra
entre os guardas apropriados. Eles, por seu lado, tinham concordado
em ignorar nossa presença nas duas horas seguintes.
Fomos de carro até uns 800m da pirâmide e, em seguida, andamos o
resto do caminho - em volta do lado do aterro íngreme que fica a
cavaleiro da aldeia de Nazlet-el-Saman e leva à face norte do
monumento. Nenhum de nós falou muito, enquanto andávamos com
dificuldade pela areia solta, guardando distância das luzes de
segurança. Sentíamo-nos simultaneamente nervosos e apreensivos.
Ali não tinha absolutamente certeza de que o suborno iria funcionar.
Durante algum tempo, permanecemos imóveis nas sombras, olhando
para o volume monstruoso da pirâmide, adentrando a escuridão acima
e bloqueando as estrelas situadas na parte sul do céu. Logo depois,
uma patrulha de três homens armados com espingardas e entolados
em cobertores para proteger-se do frio da noite, apareceu no canto
nordeste, a uns 45m de distância, onde o grupo parou para dividir as
tragadas de um cigarro. Indicando com um gesto que devíamos ficar
calados, Ali saiu para a luz e dirigiu-se aos guardas. Conversou com
eles durante vários minutos, falando, ao que parecia, em tom
acalorado. No fim, chamou-nos com um gesto, indicando que
devíamos ir ao seu encontro.
- Há um problema - explicou. - Um deles, o capitão aqui [indicou um
tipo baixo, barba por fazer, despenteado, com ar aborrecido], está
insitindo em que a gente pague mais trinta dólares, ou então nada
feito. O que é que o senhor vai fazer?
Enfiei a mão no bolso, tirei a carteira, contei trinta dólares e entreguei-os a Ali. Ele dobrou-os e entregou-os ao capitão. Com um ar de
dignidade ofendida, o capitão enfiou o dinheiro no bolso da camisa e,
finalmente, todos nós trocamos apertos de mão.
- Tudo bem - disse Ali. - Vamos.
Precisão Inexplicável
Enquanto os guardas continuavam a ronda na direção oeste, ao longo
da face norte da Grande Pirâmide, demos a volta em torno do canto
norte e seguimos ao longo da base da face leste.
Há muito tempo eu adquirira o hábito de me orientar de acordo com os
lados do monumento. A face norte era alinhada, de modo quase
perfeito, com o norte verdadeiro, a face leste quase perfeitamente com
o leste verdadeiro, a sul com o sul verdadeiro e a oeste com o oeste
verdadeiro. O erro médio era de apenas três minutos de arco (que
caía para menos de dois minutos na face sul) - uma precisão incrível
para qualquer prédio, em qualquer época, e façanha inexplicável,
quase sobrenatural, no Egito há 4.500 anos, quando se supõe que a
pirâmide tenha sido construída.
Um erro de três minutos de arco representa um desvio infinitesimal do
número verdadeiro, de menos de 0,015%. Na opinião de engenheiros
especializados em estrutura, com os quais conversei sobre a Grande
Pirâmide, era impossível compreender a necessidade de tal precisão.
Do ponto de vista deles, como construtores práticos, a despesa,
dificuldades e tempo gasto para conseguir essa precisão não teria
sido justificada pelos resultados aparentes: mesmo que a base do
monumento tivesse se desviado nada menos que dois ou três graus
do verdadeiro (um erro de, digamos, 1 %), a diferença para o olho nu
teria sido pequena demais para ser notada. Por outro lado, a diferença
na magnitude dos trabalhos necessários (para conseguir uma precisão
de três minutos, em contraste com três graus) teria sido imensa.

Obviamente, por conseguinte, os mestres-construtores que ergueram
a pirâmide no próprio alvorecer da civilização humana deviam ter tido
poderosos motivos para querer os alinhamentos em consonância com
a direção dos pontos cardeais. Além disso, uma vez que haviam
atingido esse objetivo com uma precisão espantosa, eles deveriam ter
sido altamente qualificados, gente culta e competente, com acesso a
excelente equipamento de topografia. Essa impressão é confirmada
por muitas das demais características do monumento. Os lados na
base, por exemplo, são quase exatamente do mesmo comprimento,
com uma margem de erro muito menor do que se esperaria que
arquitetos modernos conseguissem hoje na construção de, digamos,
um bloco de escritórios de tamanho médio. Mas não havia ali um
bloco de escritórios, mas a Grande Pirâmide do Egito, uma das
maiores estruturas jamais construídas pelo homem e uma das mais
antigas. Seu lado norte tem 230m e 12cm de comprimento; o lado
oeste, 230,23m; o lado leste, 230,26m; e o lado sul, 233,247m. Isso
significa que há uma diferença de menos de 20cm entre seus lados
mais curto e mais longo, erro este que equivale a uma fração
minúscula de 1 % no comprimento médio dos lados, de 230,75m.
Repetindo, eu sabia que, do ponto de vista de engenharia, os duros
números nenhuma justiça faziam ao imenso cuidado e perícia
requeridos para obtê-Ios. Eu sabia, também, que os estudiosos não
haviam chegado a uma explicação convincente de como exatamente
os construtores da pirâmide mantiveram invariavelmente esses altos
padrões de precisão.
O que realmente me interessava, porém, era um ponto de
interrogação ainda maior no tocante a outra questão: por que
impuseram a si mesmos padrões tão rigorosos? Se tivessem permitido
uma margem de erro de 1 a 2% - em vez de menos de um décimo de
1 % - eles poderiam ter simplificado o trabalho sem nenhuma visível
perda de qualidade. Por que não haviam feito isso? Por que tinham
insistido em tornar as coisas tão difíceis? Por que, em suma, em um
momumento de pedra supostamente "primitivo", construído há mais de
4.500 anos, estávamos vendo essa observância obsessiva de padrões
de precisão da idade da máquina?
Buraco Negro na História
Nosso plano era escalar a Grande Pirâmide - algo que fora
considerado absolutamente ilegal desde 1983, quando quedas
desastrosas de vários turistas temerários obrigara o governo do Egito
a baixar uma proibição. Eu reconhecia que estávamos sendo também
temerários (em especial por tentar a escalada à noite) e não me sentia
lá muito bem em infringir o que era basicamente uma lei sensata. Por
essa altura, contudo, meu interesse profundo pela pirâmide e o desejo
de aprender tudo que pudesse sobre ela haviam superado o bom
senso.
Nesse momento, despedindo-nos da patrulha no canto nordeste do
monumento, continuamos a seguir discretamente, pelo lado leste, na
direção do canto sudeste.
Eram densas as sombras entre as pedras fora de prumo e quebradas
que serviam de pavimento entre a Grande Pirâmide e as três
pirâmides "subsidiárias" muito menores, que se situavam
imediatamente a leste. E havia também três grandes, profundos e
estreitos buracos cortados na rocha que pareciam sepulturas
gigantescas. Eles tinham sido encontrados vazios pelos arqueólogos
que os escavaram, mas eram construídos como se a intenção fosse
usá-Ios para abrigar os cascos de barcos aerodinâmicos, de proa alta.
Mais ou menos a meio caminho ao longo da face oriental da Pirâmide,
encontramos outra patrulha. Dessa vez, ela consistia de dois guardas,
um dos quais devia ter uns oitenta anos de idade. Seu companheiro,
um adolescente com acne pustulenta no rosto, informou-nos que o
dinheiro pago por Ali era insuficiente e que mais cinqüenta libras
egípcias teriam de ser pagas, antes que pudéssemos prosseguir. Eu
já tinha as notas na mão e entreguei-as sem demora ao rapaz. Não
me interessava o quanto isso tudo estava custando. Eu queria
simplesmente escalar a pirâmide, descer e ir embora antes do
amanhecer, sem ser preso.
Continuamos a andar, chegando ao canto sudeste pouco depois de
4h15min da manhã.
Pouquíssimos prédios modernos, até mesmo as casas onde
moramos, têm cantos que consistam de ângulos retos perfeitos de
noventa graus. É muito comum que estejam um ou mais graus longe
do verdadeiro. Estruturalmente, isso não faz qualquer diferença e
ninguém nota erros tão minúsculos. No caso da Grande Pirâmide,
porém, eu sabia que os antigos mestres-construtores haviam
encontrado maneiras de reduzir a margem de erro para quase nada.
Dessa maneira, ficando aquém dos noventa graus perfeitos, o canto
sudeste tinha uns impressionantes 89° 56' 27". O canto nordeste
media 90° 3' 2"; o sudoeste, 90° 0' 33"; e o noroeste apenas dois
segundos de grau fora do verdadeiro, em 89° 59' 58".
Essa precisão era, claro, extraordinária. E tal como quase tudo mais
sobre a Grande Pirâmide, era também extremamente difícil de
explicar. Técnicas de construção apuradas desse tipo - tão exatas
quanto as melhores que temos hoje só podiam ter evoluído depois de
milhares de anos de desenvolvimento e experimentação. Ainda assim,
não havia prova de que qualquer processo desse tipo tivesse algum
dia ocorrido no Egito. A Grande Pirâmide e suas vizinhas em Gizé
pareciam ter saído de um buraco negro da história arquitetônica, um
buraco tão profundo e largo que nemseu fundo nem seus lados
jamais haviam sido identificados.
Navios no Deserto
Guiado por um Ali cada vez mais suarento, que não havia ainda
explicado por que era necessário dar a volta em torno da pirâmide
antes de iniciar a escalada, começamos a andar nesse momento na
direção oeste, ao longo do lado sul do monumento. Aí, também, havia
dois outros buracos com a forma de barco, um dos quais, embora
ainda fechado, fora estudado com câmeras de fibra óptica e se sabia
que continha um barco de proa alta, capaz de navegar no mar, e com
mais de 33m de comprimento. O outro buraco havia sido escavado na
década de 1950. Seu conteúdo - um barco marítimo ainda maior, com
nada menos de 42m de comprimento - fora levado para o chamado
Museu do Barco, uma estrutura moderna feia, montada sobre
palafitas, embaixo da face sul da pirâmide.
Feito de cedro, o belo barco conservado no museu continua em
perfeitas condições, 4.500 anos depois de construído. Com um
deslocamento de cerca de 40 toneladas, tem um projeto
especialmente instigante, incluindo,nas palavras de um especialista,
"todas as propriedades características de um barco marítimo, com
proa e popa altas, mais altas do que em um barco viking, apropriado
para enfrentar ondas e mar grosso, e não para navegar nas pequenas
ondas do Nilo".
Outra autoridade pensava que o projeto cuidadoso e inteligente desse
estranho barco da pirâmide poderia, potencialmente, tê-Io tornado
"mais seguro no mar do que qualquer coisa usada por Colombo".
Além do mais, os especialistas concordavam em que o barco fora
construído de acordo com um modelo que só podia "ser criado por
construtores navais de um povo com longa e sólida tradição de
navegação em alto-mar".
Presentes já no próprio início da história de 3.000 anos do Egito, quem
teriam sido esses construtores navais desconhecidos? Eles não
haviam acumulado essa "longa e sólida tradição de navegação em
alto-mar" enquanto aravam os campos do vale do Nilo, cercado de
terra. Se assim, onde e quando desenvolveram essas perícias
marítimas?
Mas havia outro quebra-cabeça. Eu sabia que os antigos egípcios
tinham sido muito hábeis em fazer modelos em escala e maquetes,
para finalidades simbólicas, de todos os tipos de coisas. Por isso
mesmo, achava difícil compreender porque eles teriam se dado tanto
trabalho para construir, e em seguida enterrar, um barco tão grande e
sofisticado como esse, se sua única função fosse, como alegaram
egiptólogos, servir de símbolo de uma barca espiritual, que levaria
para o céu a alma do falecido rei. Isso poderia ter sido conseguido
com igual eficiência com uma embarcação muito menor, e apenas
uma teria sido necessária, e não várias delas. A lógica, por
conseguinte, sugeria que essas embarcações gigantescas deveriam
ter sido construídas para outro propósito, inteiramente diferente, ou
então revestia-se de uma importância simbólica inteiramente diferente
e ainda não descoberta...
Havíamos chegado mais ou menos à metade da face sul da Grande
Pirâmide quando, finalmente, compreendemos o motivo por que
estávamos sendo levados nesse longo passeio. O objetivo era aliviar-nos de modestas somas de dinheiro em cada um dos quatro pontos
cardeais. A conta era até esse momento de 30 dólares na face norte e
50 libras egípcias na face leste. Nesse momento, desembolsei mais
50 libras para outra patrulha, que Ali deveria ter subornado no dia
anterior.
- Ali - sibilei -, quando é que vamos escalar a pirâmide?
- Imediatamente, Sr. Graham - respondeu nosso guia. Começou a
andar em passos confiantes, gesticulando direto para a frente. Em
seguida, acrescentou: - Vamos subir pela aresta sudoeste...
CAPÍTULO 34
A Mansão da Eternidade
Você já escalou uma pirâmide à noite, com medo de ser preso, com
os nervos à flor da pele?
Trata-se de uma coisa extremamente difícil de fazer, especialmente no
que se refere à Grande Pirâmide. Embora seus últimos 9m não
estejam mais intactos, a plataforma que ora existe no topo ainda se
situa a mais de 135m de altura. A pirâmide consiste, além do mais, de
203 carreiras separadas de blocos de cantaria, cada carreira com
altura média de cerca de 75cm.
Médias não nos dizem coisa alguma, como descobri logo depois de
começar a subir. Verifiquei que ascarreiras são de altura desigual,
algumas mal chegando ao nível do joelho, enquanto outras quase me
tocavam o peito e criavam obstáculos formidáveis. Simultaneamente,
eram muito estreitas as saliências entre cada um dos passos, às
vezes apenas um pouco mais larga do que meu pé e, além disso,
descobri que muitos dos enormes blocos de pedra calcária, que
haviam parecido tão sólidos vistos de baixo, estavam quebrados e se
esfarelando.
Cerca de 30 carreiras acima, Santha e eu começamos a compreender
a enrascada em que havíamos nos metido. Tínhamos os músculos
doloridos e os joelhos e dedos duros e arranhados - ainda que
tivéssemos percorrido apenas um sétimo do caminho até o cume e
houvesse ainda mais de 170 carreiras para escalar. Outra
preocupação era o abismo vertiginoso que se alargava cada vez mais
abaixo de nós. Acompanhando com os olhos os contornos serrilhados
que marcavam a linha da aresta sudoeste, fiquei pasmo ao notar o
quanto já havíamos subido e experimentei um momentâneo e
estonteante pressentimento de como seria fácil para nós despencar
dali, girando cambalhota como Jack e Jill, ricocheteando das imensas
carreiras de pedra e quebrando a cabeça lá embaixo.
Ali nos concedeu uma pausa de alguns minutos para que pudéssemos
recuperar o fôlego. Nesse momento, porém, ele fez um sinal e
recomeçou a subida. Ainda usando a aresta como orientação, ele,
rapidamente, desapareceu na escuridão acima de nós.
Um tanto menos confiantes, Santha e eu o seguimos.
Tempo e Movimento
A 35ª. carreira de pedras foi difícil de vencer, sendo feita de blocos
bem sólidos, muito maiores do que quaisquer outros que havíamos
encontrado até então (excetuados os da própria base). Esse fato
contrariava a lógica da engenharia e do bom senso, ambos os quais
requeriam uma diminuição progressiva do tamanho e peso dos blocos
que tinham de ser transportados para o cume, à medida que a
pirâmide se tornava cada vez mais alta. As carreiras 1-18, que
diminuíam de uma altura de cerca de 1,40m no nível do chão para
pouco mais de 55cm na carreira 17,obedeciam a essa norma. De
repente, porém, na carreira 19, a altura do bloco subiu para quase
90cm. Simultaneamente, as demais dimensões dos blocos
aumentaram também e seu peso passou das relativamente
manobráveis 2-6 toneladas, que era o comum nas primeiras 18
carreiras, para a faixa mais volumosa e difícil de manipular de 10-15
toneladas. Esses, portanto, eram monólitos realmente grandes, que
haviam sido extraídos de pedra calcária sólida e içados mais de 30m
no ar, antes de ser colocados, sem uma falha, nos respectivos
lugares.
Para trabalhar com tanta eficiência, os construtores da pirâmide
deviam ter possuído nervos de aço, a agilidade de cabritos-monteses,
a força de leões e a confiança de limpa-chaminés. Com o frio vento da
manhã açoitando-me as orelhas e ameaçando me lançar em vôo,
tentei imaginar o que teria sido para eles, equilibrados perigosamente
dessa maneira (e em uma altura muito maior), içando, manobrando e
posicionando com exatidão uma linha de produção interminável de
alentados monólitos de pedra calcária - o mais leve dos quais pesava
dois modernos carros tipo família.
Quanto tempo fora necessário para terminar a construção da
pirâmide? Quantos homens haviam nela trabalhado? Reinava ainda
concordância geral de que o projeto de construção não fora obra de
anos inteiros, mas havia sido limitado (na dependência da força de
trabalho disponível) à estação anual de pousio obrigatória, imposta
pela cheia do Nilo.
Enquanto continuava a subir, lembrei-me das implicações de tudo
isso. O motivo da preocupação dos construtores não havia sido
apenas as dezenas de milhares de blocos, cada um deles pesando 15
toneladas ou mais. Um ano após outro, as crises autênticas teriam
sido causadas pelos milhões de blocos de tamanho médio, pesando,
digamos, 2,5 toneladas, que teriam de ser trazidos também ao
canteiro de obras. Estimou-se, com bons fundamentos, que a pirâmide
contém um total de 2,3 milhões blocos de pedra. Supondo que os
pedreiros trabalhassem dez horas por dia, durante 365 dias do ano, o
cálculo matemático indicava que eles teriam de colocar em posição, a
cada hora, 31 blocos (cerca de umbloco a cada dois minutos) para
completar a pirâmide em 20 anos. Supondo que o trabalho de
construção tivesse sido limitado ao pousio anual de três meses, o
problema se agravava: quatro blocos por minuto teriam de ser
assentados, ou cerca de 240 por hora.
Esses cenários, claro, são a matéria-prima dos pesadelos dos
mestres-de-obras. Imagine-se, por exemplo, o grau dificílimo de
coordenação que teria de ser mantido entre os pedreiros e as
pedreiras para assegurar a taxa necessária do fluxo de blocos através
do canteiro de obras. Imagine-se também o caos, se até mesmo um
único bloco de 2,5 toneladas tivesse despencado, digamos, da 175ª.
carreira.
Os obstáculos físicos e administrativos devem ter sido enormes, mas,
além deles, havia o desafio geométrico representado pela própria
pirâmide, que devia terminar com o cume posicionado exatamente
sobre o centro da base. Até mesmo o erro mais leve na base do
ângulo de inclinação de um dos lados teria resultado em um grande
desalinhamento das arestas no cume. Uma precisão incrível, portanto,
tinha de ser mantida durante toda a obra, em cada carreira de blocos,
a dezenas de metros acima do solo, usando-se grandes blocos de
pedra de peso assassino.
Estupidez Rampante
Como havia sido feito esse trabalho?
Segundo a última contagem, circulavam mais de 30 teorias
concorrentes e conflitantes que tentavam responder a essa pergunta.
A maioria dos egiptólogos acadêmicos argumentava que rampas de
algum tipo deviam ter sido usadas. Esta era a opinião, por exemplo,
do professor I.E.S. Edwards, antigo curador de Antiguidades Egípcias
do Museu Britânico, que afirmou categoricamente: "Só havia um
método disponível aos antigos egípcios para erguer grandes blocos,
isto é, através de rampas de tijolos e terra, subindo em ladeira a partir
do nível do chão até qualquer altura desejada."
John Baines, professor de egiptologia da Universidade de Oxford,
concordou com a análise de Baines e levou-a um passo adiante: "À
medida que a pirâmide crescia, o comprimento da rampa e a largura
de sua base foram aumentadas a fim de manter um gradiente
constante (cerca de 1 em 10) e para impedir que ela desmoronasse.
Provavelmente, foram usadas várias rampas, que chegavam à
pirâmide vindas de vários lados".
Levar um plano inclinado ao topo da Grande Pirâmide, com um
gradiente de 1:10, teria exigido uma rampa de cerca de 150m e mais
de três vezes tão maciça quanto a própria estrutura (com um volume
estimado de 8 milhões de metros cúbicos, contra os 2,6 milhões da
pirâmide). Grandes pesos não poderiam, por meios normais, ter sido
rebocados para cima a um gradiente mais íngreme do que esse. Se
um gradiente mais baixo tivesse sido escolhido, a rampa teria que ser
ainda mais absurda e desproporcionalmente grande.
O problema é que rampas de cerca de 1.600m para chegar a uma
altura de cerca de 150m não poderiam ter sido feitas de "tijolos e
terra", como supunham Edwards e outros egiptólogos. Ao contrário,
modernos construtores e arquitetos provaram que essas rampas
teriam cedido sob seu próprio peso, se consistissem de qualquer
material menos dispendioso e menos estável do que as pedras de
rocha calcária da própria pirâmide.
Uma vez que tal solução, obviamente, não fazia sentido (além do
mais, para onde haviam sido levados os 8 milhões de metros cúbicos
excedentes de blocos, depois de completado o trabalho?), outros
egiptólogos propuseram o uso de rampas em espiral, feitas de tijolos
de argila e ligadas aos lados da pirâmide. Essas rampas, sem dúvida,
teriam requerido menos material para construir, mas tampouco teriam
chegado ao cume. Elas teriam criado problemas mortais e talvez
insuperáveis para equipes que tentassem arrastar os grandes blocos
através de seus cantos, em curvas fechadas. E teriam desmoronado
por efeito do uso constante. Mais problemático que tudo, essas
rampas teriam envolvido toda a pirâmide, tornando impossível aos
arquitetos checar a precisão do assentamento dos blocos durante a
construção.
Os construtores, porém, haviam checado a precisão do assentamento
e conseguido com que fosse feito da maneira certa, porque o cume da
pirâmide se encontra exatamente posicionado sobre o centro da base,
com ângulos e arestas corretas, cada bloco no lugar correto e cada
carreira assentada na horizontal - em uma simetria quase perfeita e
em alinhamento quase perfeito com ospontos cardeais. Em seguida,
como se para demonstrar que esses tours-de-force técnicos foram
meras banalidades, os antigos construtores prosseguiram em seu
trabalho para fazer alguns inteligentes jogos matemáticos com as
dimensões do monumento, fornecendo-nos, por exemplo, como vimos
no Capítulo 23, um uso exato do número transcendente pi na razão
entre a altura e o perímetro da base. Por alguma razão, além disso,
dera na cabeça deles posicionar a Grande Pirâmide quase
exatamente no Paralelo 30, à latitude de 29° 58' 51". Esses números,
como observou certa vez um astrônomo real escocês, era "um desvio
sensível de 30°", mas não necessariamente um erro:
Isso porque, se o projetista original tivesse desejado que o homem
visse com o corpo, e não com os olhos mentais, o pólo do céu visto da
base da Grande Pirâmide, a uma altitude de 30°, ele teria que levar
em conta a refração da atmosfera e esse fator teria tornado
necessário que o edifício estivesse posicionado não a 30°, mas a
29°58' 22".
Em comparação com a posição verdadeira de 29° 58' 51", o erro era
de menos da metade de um minuto de arco, sugerindo esse fato, mais
uma vez, que a perícia topográfica e geodésica usada devia ter sido
da mais alta ordem.
Sentindo-nos bastante reverentes, continuamos a escalada, passamos
pelas carreira 44 e 45 da imensa e enigmática estrutura. Na carreira
46, uma voz irada em árabe gritou conosco da praça embaixo.
Olhando para baixo, vimos um homem minúsculo, usando turbante e
cafetá embalonado. A despeito da distância, ele havia tirado a
espingarda do ombro e estava se preparando para atirar em nós.
O Guarda e a Visão
Ele era, claro, o guarda da face oeste da pirâmide, o patrulheiro do
quarto ponto cardeal, e não havia recebido o pagamento extra feita
aos seus colegas das arestas norte, leste e sul.
Pela respiração de Ali, compreendi que estávamos em uma situação
potencialmente complicada. O guarda estava nos ordenando para
descer imediatamente e sermos presos.
- Essa possibilidade, contudo, poderá provavelmente ser evitada com
um pagamento extra - explicou Ali.
- Ofereça a ele cem libras egípcias - rosnei.
- Isso é demais - avisou Ali. - E vai deixar os outros ressentidos.
Vou oferecer cinqüenta.
Foram trocadas mais palavras em árabe. Na verdade, nos poucos
minutos seguintes, Ali e o guarda conseguiram manter uma conversa
bem demorada acima e abaixo da quina sudoeste da pirâmide, às
4h40min da manhã. Em dado momento, ouvimos o som de um apito.
Em seguida, guardas da face sul apareceram por um breve instante e
entraram em conferência com o colega da face oeste, que nesse
momento contava com a companhia de mais dois membros de sua
patrulha.
Justamente quando pareceu que Ali havia perdido qualquer discussão
que estava mantendo por nossa conta,ele sorriu e exalou um suspiro
de alívio. "O senhor vai pagar mais 50 libras quando voltarmos ao
chão", explicou. "Vão deixar que a gente continue, mas disseram que
se um oficial superior aparecer, eles não poderão nos ajudar.”
Nos dez minutos seguintes, mais ou menos, continuamos a nos
arrastar para cima em silêncio até chegarmos à carreira 100 -
aproximadamente a marca de metade do caminho e já a mais de 75m
acima do chão. Olhamos por cima do ombro para o sudoeste, onde
uma visão de beleza estonteante, que só aparece uma vez na vida, se
descortinava para nós. A lua em quarto crescente, que se encontrava
baixa no céu a sudoeste, havia emergido de trás de um banco de
nuvens e projetava sua luz fantasmagórica direto sobre as faces norte
e leste da vizinha Segunda Pirâmide, supostamente construída por
Quéfren, faraó da Quarta Dinastia. Esse espantoso monumento, que
só perde em tamanho e majestade para a Grande Pirâmide (sendo
apenas alguns metros mais baixa e 15m mais estreita), pareceu
iluminado, como se energizado a partir de dentro, por um fogo pálido e
sobrenatural. Atrás dela e à distância, ligeiramente deslocada entre as
sombras escuras do deserto, vimos a pirâmide menor, a de
Miquerinos, medindo 110m de cada lado e com cerca de 65m de
altura.
Durante um momento, contra o pano de fundo cintilante do céu
escuro, senti a ilusão de que estava em movimento, de pé à popa de
algum grande navio dos céus, olhando para trás e para dois outros
navios, que aparentemente vinham em minha esteira, alinhados em
ordem de batalha às minhas costas.
Para onde estava indo esse comboio, esse esquadrão de pirâmides?
E essas prodigiosas estruturas teriam sido apenas obras de faraós
megalomaníacos, como acreditavam os egiptólogos? Ou haviam sido
projetadas por mãos misteriosas para viajar eternamente através do
tempo e do espaço, no rumo de um objetivo ainda não identificado?
Dessa altitude, embora o céu do sul estivesse parcialmente oculto
pelo enorme volume da Pirâmide de Quéfren, eu podia ver todo o céu
do oeste, descendo em arco do pólo Norte celeste em direção à borda
distante do planeta, a revolver em torno do eixo. Poláris, a estrela
Polar, estava muito longe à minha direita, na constelação da Ursa
Menor. Baixa no horizonte, a cerca de dez graus a nordeste, Regulus,
a estrela-âncora da constelação imperial de Leão, preparava-se para
desaparecer.
Sob Céus Egípcios
Pouco acima da fileira 150, Ali silvou para nós, dizendo para
mantermos a cabeça baixa. Um carro de polícia aparecera em volta da
aresta noroeste da Grande Pirâmide e, nesse momento, dirigia-se
para o flanco oeste do monumento, com a luz azul revolvendo
lentamente. Permanecemos imóveis nas sombras até que o carro
passou. Em seguida, recomeçamos a escalada com um renovado
senso de urgência, dirigindo-nos com toda rapidez possível para o
cume, que nesse momento imaginamos que podíamos ver projetando-se acima de nevoeiro que precede o amanhecer.
Durante o que pareceram cinco minutos, subimos sem parar. Quando
ergui a vista, porém, o topo da pirâmide parecia ainda tão longe como
sempre. Voltamos a subir, arquejando e suando, e mais uma vez o
cume recuou diante de nossos olhos como se fosse algum lendário
pico gaulês. Mas em seguida, quando já havíamos nos resignado a
uma sucessão interminável de desapontamentos, chegamos ao topo,
sob um dossel de estrelas de deixar qualquer um sem fôlego, a mais
de 130m acima do platô, na mais extraordinária plataforma de
observação existente em todo o mundo. Ao norte e a leste, de um lado
a outro do largo e inclinado vale dorio Nilo, estendia-se a cidade do
Cairo, uma mistura de arranha-céus e tradicionais telhados planos,
separados por escuros desfiladeiros de ruas estreitas e misturados
com os minaretes finos como agulhas de mil e uma mesquitas. Uma
película de luz de rua refletida tremeluzia sobre toda a cena, fechando
os olhos do Cairenes moderno para as maravilhas das estrelas, mas,
ao mesmo tempo, criando a alucinação de uma terra de contos de
fada, iluminada em verde, vermelho, azul e amarelo sulfuroso.
Achei que tinha sorte em presenciar essa estranha miragem eletrônica
desse ponto de observação tão incrível, na plataforma do cume da
última maravilha sobrevivente do mundo antigo, pairando no céu sobre
o Cairo como Aladim em seu tapete mágico.
Não que a carreira 203 da Grande Pirâmide possa ser descrita como
um tapete! Medindo apenas pouco menos de 9m de cada lado (em
comparação com o perímetro na base que chega a 230m) ela consiste
de várias centenas de blocos de calcário da altura da cintura, cada um
dos quais pesa cerca de cinco toneladas. A carreira não é
inteiramente plana: havia falta de alguns blocos ou estavam
quebrados e, subindo na direção sul, eu podia ver restos substanciais
de quase metade de uma carreira adicional de cantaria. Além do mais,
no centro exato da plataforma, alguém mandara construir um andaime
triangular de madeira, no centro do qual se erguia um poste grosso, de
pouco mais de 9,5m de altura, que marca a verdadeira altura original
do monumento, que era de 146,66m. Embaixo do poste, pichações ali
deixadas no calcário por gerações de turistas.
A escalada total da pirâmide consumira cerca de meia hora e, nesse
momento, passava justamente das 5h da manhã, a hora da adoração
matutina. Quase em uníssono, as vozes de mil e um muezins ecoou
dos terraços dos minaretes do Cairo, chamando os fiéis à oração e
proclamando a grandeza, a indivisibilidade, a clemência e compaixão
de Deus. Às minhas costas, as últimas 22 carreiras da Pirâmide de
Quéfren, ainda vestida com as pedras originais de revestimento,
parecia flutuar como um iceberg em um oceano de luz da lua.
Sabendo que não poderíamos ficar muito tempo nesse lugar
encantado, sentei-me e olhei em volta dos céus. Na direção oeste,
estendiam-se as areias infindáveis do deserto, Regulus mergulhara
sob o horizonte e o resto do corpo do Leão estava prestes a segui-lo.
As constelações de Virgem e Libra desciam também baixas no céu e,
muito distante ao norte, eu podia ver as constelações da Ursa Maior e
Ursa Menor em seu ciclo eterno em torno do pólo celeste.
Olhei para o sudeste, para o outro lado do vale do Nilo, e lá a lua em
quarto crescente ainda espalhava seu brilho espectral da borda da Via
Láctea. Seguindo o curso do rio celeste, olhei diretamente para o sul:
cruzando o meridiano, destacava-se a resplandecente constelação de
Escorpião, dominada por Antares, estrela de primeira magnitude - uma
supergigante vermelha, com um diâmetro 300 vezes maior do que o
do sol. A nordeste, acima do Cairo, navega Cygnus, o cisne, as penas
de sua cauda marcadas por Deneb, a supergigante azul-branca visível
para n6s de uma distância de 1.800 anos-luz de espaço interestelar.
Por último, mas não de menor importância, no céu do norte, vi o
dragão Draco enrodilhado sinuosamente entre as estrelas
circumpolares. Na verdade, há 3.500 anos, quando a Grande Pirâmide
foi supostamente construída para o faraó Quéops, da Quarta Dinastia,
uma das estrelas de Draco estivera perto do pólo norte celeste e havia
servido como estrela Polar. O nome dessa estrela é Alpha Draconis,
também conhecida como Thuban. Com a passagem dos milênios,
contudo, ela fora gradualmente deslocada de sua posição de
implacável moinho celeste da precessão do eixo da terra, de modo
que a estrela Polar de hoje é Poláris, na constelação da Ursa Menor.
Deitei-me de costas, descansei a cabeça nas mãos cruzadas e olhei
diretamente para o zênite do céu. Através das frias e lisas pedras
onde eu descansava, pensei que podia sentir sob mim, como uma
força viva, a estupenda gravidade e massa da pirâmide.
Pensando como Gigantes
Cobrindo cinco hectares e meio na base, a pirâmide pesa cerca de
seis milhões de toneladas - mais do que todos os prédios da Milha
Quadrada da City de Londres, juntos, consistindo, como vimos, de
aproximadamente 2,3 milhões de blocos separados de calcário e
granito. A eles fora outrora acrescentado um revestimento espelhado
de 9 hectares, de cerca de umas calculadas 115.000 pedras altamente
polidas, cada uma delas pesando 10 toneladas e que originariamente
lhe cobrira as quatro faces.
Depois de terem se soltado com o fortíssimo terremoto ocorrido no
ano 1302 d.C., a maioria dos blocos da fachada fora retirada para a
construção do Cairo. Aqui e ali em torno da base, porém, eu sabia que
havia sobrado o suficiente para permitir que o grande arqueólogo do
século XIX, W.M. Flinders Petrie, realizasse um detalhado estudo
desses blocos. Ele ficara atônito ao encontrar tolerâncias de um
centésimo de polegada e juntas cimentadas tão precisas, e alinhadas
com tanto cuidado, que era impossível até enfiar entre os blocos a
lâmina de um canivete. "O simples fato de pôr essas pedras em
contato exato teria exigido trabalho cuidadoso", reconheceu, "mas
fazer isso com cimento em uma junta parece quase impossível. E é
para ser comparado com o trabalho dos melhores óticos, em uma
escala de hectares".
Claro, o rejuntamento das pedras da fachada não foi absolutamente o
aspecto "quase impossível" da Grande Pirâmide. Os alinhamentos
com o norte, o sul, o leste e o oeste verdadeiros foram "quase
impossíveis", como também as arestas de noventa graus quase
perfeitas e a incrível simetria dos quatro enormes lados. E também a
logística de engenharia, de içar milhões de pedras a uma altura de
mais de uma centena de metros.
Quem quer que tenham sido, por conseguinte, os arquitetos,
engenheiros e pedreiros da antiguidade que projetaram e conseguiram
construir esse monumento estupendo devem ter, realmente, "pensado
como homens de 30m de altura", como disse certa vez Jean François-Champollion, o fundador da egiptologia moderna. Ele viu claramente o
que gerações de seus sucessores se recusaram a ver: que os
construtores da pirâmide só podiam ter sido homens de estatura
intelectual gigantesca. Ao lado dos egípcios de antanho, acrescentou
ele, "nós, na Europa, somos liliputianos".
CAPÍTULO 35
Tumbas, e Nada Mais?
Descer da Grande Pirâmide machucou mais os nervos do que subir.
Não estávamos mais lutando contra a força da gravidade, de modo
que era menor o esforço físico. Mas as possibilidades de uma queda
fatal pareciam maiores, nesse momento em que nossa atenção se
dirigia exclusivamente para a terra, e não mais para os céus.
Escolhemos o caminho com um cuidado exagerado até a base da
enorme montanha de pedra, escorregando e deslizando entre os
traiçoeiros blocos de cantaria, sentindo-nos como se tivéssemos sido
reduzidos à condição de formigas.
Ao completar a descida, a noite játinha acabado e a primeira pintura
de luz pálida espalhava-se pelo céu. Pagamos as 50 libras egípcias
prometidas ao guarda da face oeste da pirâmide e em seguida, com
uma enorme sensação de libertação e exultação, afastamo-nos em
passos arrogantes do monumento, em direção à Pirâmide de Quéfren,
situada a algumas centenas de metros a sudoeste.
Khufu, Khafre, Menkaure... Quéops, Quéfren, Miquerinos. Fossem
eles chamados por seus nomes egípcios ou gregos, restava o fato de
que esses três faraós da Quarta Dinastia (2575-2467 a.C.) foram
universalmente aclamados como os construtores das Pirâmides de
Gizé. Tal era a fama deles, pelo menos desde que antigos guias
turísticos egípcios haviam dito ao historiador grego Heródoto que a
Grande Pirâmide tinha sido construída por Quéops. Heródoto incluiu
essa informação na descrição remanescente mais antiga dos
monumentos, e que continuava com as seguintes palavras:
Quéops, disseram eles, reinou durante 50 anos e por ocasião de sua
morte o reino foi assumido pelo irmão, Quéfren. Este construiu
também uma pirâmide... 12m mais baixa do que a do irmão, mas, à
parte isso, da mesma grandeza. (...) Quéfren reinou por 56 anos (...) e
em seguida foi sucedido por Miquerinos, filho de Quéops (...) Esse
homem deixou uma pirâmide muito menor do que a do pai.

Heródoto conheceu os monumentos no século V a.C., mais de 2.000
anos depois de terem sido construídos. Não obstante, foi
principalmente seu testemunho que embasou todo julgamento
subseqüente da história egípcia. Todos os demais comentaristas, até
o presente, continuaram, sem nenhum senso crítico, a seguir nas
pegadas do historiador grego. E, através das eras - embora, no início,
esse conhecimento pouco mais fosse do que boatos -, a atribuição da
Grande Pirâmide a Khufu, a segunda a Khafre e, a terceira, a
Menkaure, assumiu a estatura de fatos inatacáveis.
A Banalização do Mistério
Tendo nos despedido de Ali, Santha e eu continuamos a andar pelo
deserto. ladeando a imensa aresta sudoeste da Segunda Pirâmide,
tivemos os olhos atraídos para o cume. Nele notamos, mais uma vez,
as pedras intactas do revestimento,que ainda cobriam as 22 carreiras
mais altas. Notamos também que as primeiras carreiras acima da
base, cada uma delas com uma "pegada" de cerca de cinco hectares,
eram compostas de blocos de calcário realmente enormes, quase que
altos demais para ser escalados, com cerca de 6m de comprimento
por 1,80m de espessura. Esses extraordinários monólitos, como eu
descobriria mais tarde, pesavam 200 toneladas cada e incluíam-se em
um estilo diferente de cantaria, que seria encontrado em vários locais
diferentes e muito separados na necrópole de Gizé.
Nos lados norte e oeste, a Segunda Pirâmide assentava-se sobre uma
plataforma plana, cortada no leito rochoso circundante e, portanto,
estava fechada dentro de uma larga vala de mais de 4m de
profundidade em alguns lugares. Andando em linha reta para o sul,
paralelamente ao flanco oeste dilapidado do monumento, seguimos a
borda da vala, a caminho da Terceira Pirâmide, muito menor, que
ficava a uns 400m à nossa frente no deserto.
Khufu... Khafre... Menkaure... De acordo com todos os egiptólogos
ortodoxos, as pirâmides haviam sido construídas como tumbas - e só
como tumbas - para esses três faraós. Ainda assim, essas conclusões
enfrentavam algumas dificuldades sérias. A espaçosa câmara
funerária da Pirâmide de Khafre, por exemplo, tinha sido encontrada
vazia quando foi aberta em 1818 pelo explorador europeu Giovanni
Belzoni. Na verdade, mais do que vazia, a câmara era nua e
austeramente despojada. O sarcófago de granito polido engastado no
chão também havia sido encontrado vazio, com a tampa ao lado,
quebrada em dois pedaços. Como explicar esse fato?
Para os egiptólogos, a resposta parecia óbvia. Em alguma antiga data,
provavelmente não muitas centenas de anos após a morte de Khafre,
ladrões de sepulturas haviam penetrado na câmara e levado tudo que
ali havia, incluindo o corpo mumificado do faraó.
Quase a mesma coisa parecia ter acontecido com a Terceira
Pirâmide, a menor, na direção da qual Santha e eu estávamos nos
dirigindo - a pirâmide atribuída a Menkaure. Neste caso, o primeiro
europeu a penetrar no local fora um coronel britânico, Howard Vyse,
que chegara ao interior da câmara mortuária em 1837. Ele encontrou
um sarcófago vazio de basalto, uma tampa de caixão para antropóide,
feita de madeira, e alguns ossos. A suposição natural era de que
aqueles ossos pertencessem a Menkaure. A ciência moderna, porém,
conseguiu provar que os ossos e a tampa do caixão datavam de
começos da era cristã, isto é, de 2.500 anos após a Era das Pirâmides
e, portanto, representavam o "enterro intrusivo" de um indivíduo muito
posterior (costume este muito comum em toda a história do Egito
antigo). Quando ao sarcófago de basalto - bem, poderia ter pertencido
a Menkaure. Infelizmente, ninguém teve oportunidade de examiná-lo,
porque a peça se perdeu no mar quando o navio usado por Vyse para
enviá-Ia à Inglaterra afundou ao largo da costa da Espanha. Desde
que estava registrado que o sarcófago havia sido encontrado por
Vyse, mais uma vez fez-se a suposição de que o corpo do faraó devia
ter sido dali tirado por ladrões de sepultura.
Suposição análoga foi feita sobre o corpo de Khufu, também
desaparecido. Neste caso, o consenso dos estudiosos, expressado
tão bem como por qualquer outra pessoa, por George Hart, do Museu
Britânico, dizia que "não depois de 500 anos após o funeral de Khufu"
ladrões penetraram na Grande Pirâmide para "roubar o tesouro do
sepultamento". A implicação era que o arrombamento devia ter
ocorrido no ano 2000 a.C., ou por aí, uma vez que se acreditava que
Khufu falecera no ano 2528 a.C. Além disso, o professor I.E.S.
Edwards, uma autoridade reconhecida nesses assuntos, supôs que o
tesouro funerário tinha sido retirado do famoso recinto sagrado, ora
conhecido como Câmara do Rei, e que o "sarcófago de granito" que
existia na extremidade oeste do recinto "havia abrigado outrora o
corpo do rei, provavelmente dentro de um caixão interno feito de
madeira".
Tudo isso é erudição ortodoxa, corrente, moderna, aceita
inquestionavelmente como fato histórico e ensinado como tal em
universidades por todo o mundo.
Mas vamos supor que isso não seja verdade.
O Armário estava Vazio
O mistério da múmia desaparecida de Khufu começa com as
anotações do califa Al-Ma’mun, governador muçulmano do Cairo no
século IX d.C., que usou uma equipe de pedreiros para abrir um túnel,
começando no lado norte da pirâmide, e estimulando-os com
promessas de que encontrariam tesouros. Graças a uma série de
felizes acasos, o "Buraco de Ma’mun", como os arqueólogos agora o
chamam, desembocou em uma das várias passagens internas do
monumento, no "corredor descendente", que conduzia a um nível
inferior a partir da porta original oculta na face norte (cuja localização,
embora conhecida nos tempos clássicos, havia sido esquecida à
época de Ma’mun). Devido a outro feliz acaso, as vibrações causadas
pelos árabes com suas marretas e furadeiras desalojaram um bloco
de calcário do teto do corredor descendente. Ao ser examinado o
espaço de onde caíra o bloco, descobriu-se que ocultava a abertura
de outro corredor, desta vez ascendente, que levava às entranhas da
pirâmide.
Havia um problema, contudo. A abertura estava bloqueada por uma
série de enormes cunhas de granitomaciço, evidentemente da mesma
época da construção do monumento, que eram mantidas em seus
lugares pelo estreiramento da extremidade mais baixa do corredor. Os
pedreiros não conseguiram quebrar nem abrir passagem através das
cunhas. Em vista disso, abriram umtúnel no calcário ligeiramente
mais mole que as cercava e, após várias semanas de trabalho
exaustivo, voltaram a estabelecer ligação com o corredor ascendente
mais alto - tendo vencido um obstáculo formidável nunca antes
superado.
As implicações eram óbvias. Uma vez que nenhum caçador de
tesouros anterior havia penetrado tanto assim no monumento, o
interior da pirâmide devia ser ainda território virgem. Os pedreiros
devem ter lambido os beiços em prelibação das imensas quantidades
de ouro e jóias que, nesse momento, esperavam encontrar.
Analogamente - e talvez por motivos diferentes, Ma’mun devia ter
ficado impaciente para ser o primeiro a entrar nas câmaras que seriam
descobertas. Dizia-se que seu principal motivo em dar início a essa
investigação não fora a ambição de aumentar a sua já imensa riqueza
pessoal, mas o desejo de obter acesso a um repositório de sabedoria
e tecnologia antigas que, acreditava, devia estar enterrado no
monumento. Nesse repositório, de acordo com tradição muito antiga,
os construtores da pirâmide haviam depositado "instrumentos de ferro
e armas que não enferrujavam, vidro que podia ser encurvado e não
quebrava, e estranhos sortilégios”.
Ma’mun e seus pedreiros, porém, nada encontraram, nem mesmo
qualquer tesouro comum - e com certeza nada de qualquer plástico
antigo de alta tecnologia ou instrumentos de ferro ou armas à prova de
ferrugem - e tampouco estranhos encantamentos.
A erroneamente denominada "Câmara da Rainha" (que se situava ao
fim de uma longa passagem horizontalque se bifurcava a partir do
corredor ascendente) estava inteiramente vazia - e era apenas um
aposento de aparência severa, geométrico.


Mais decepcionante ainda, a Câmara do Rei (onde os árabes
chegaram depois de subir a imponente Grande Galeria) pouca coisa
de interesse oferecia. O único móvel era um cofre de granito, grande o
suficiente apenas para conter o cadáver de um homem. Mais tarde
identificado, sem fundamentos dos melhores, como o "sarcófago".
Ma’mun e seus homens aproximaram-se cheios de medo da caixa de
pedra, destituída de qualquer decoração. Descobriram que ela não
tinha tampa e que estava vazia, como tudo mais na pirâmide.
Por que, como e quando, exatamente, a Grande Pirâmide fora
esvaziada de seu conteúdo? Quinhentos anos após a morte de Khufu,
como sugeriam egiptólogos? Ou não seria mais provável, como a
prova estava começando a sugerir, que as câmaras interiores haviam
estado sempre vazias, desde o início, isto é, desde o dia em que o
monumento fora inicialmente fechado? Ninguém, afinal de contas,
havia chegado à parte superior do corredor ascendente antes de
Ma'mun e seus pedreiros. E era certo também que ninguém cortara
um caminho através das cunhas de granito que bloqueavam a entrada
desse corredor.
O bom senso eliminava a possibilidade de qualquer penetração
anterior - a menos que houvesse outra maneira de entrar na pirâmide.
Gargalos no Poço da Coluna
Havia outra maneira de entrar.
Mais abaixo no corredor descendente, a mais de 60m além do ponto
onde havia sido encontrada a extremidade fechada com uma cunha,
descobriu-se a entrada oculta para outra passagem secreta, escavada
profundamente no leito rochoso subterrâneo do platô de Gizé. Se
Ma'mun tivesse descoberto essa passagem, poderia ter evitado muitos
problemas, uma vez que fornecia uma rota sob medida em volta das
cunhas que bloqueavam o corredor ascendente. Sua atenção, no
entanto, fora desviada pelo desafio de abrir um túnel através das
cunhas e nenhuma tentativa fez de investigar os espaços mais baixos
do corredor descendente (que ele acabou usando como depósito de
entulho das toneladas de pedra que seus pedreiros removiam do
núcleo da pirâmide).
A plena extensão do corredor descendente, contudo, era bem
conhecida e fora explorada nos tempos clássicos. O geógrafo greco-romano Estrabão deixou uma descrição muito clara de uma grande
câmara subterrânea, na qual o corredor se abria (a uma profundidade
de quase 1,80m abaixo do cume da pirâmide). Riscos (graffitti) do
período da ocupação romana do Egito foram também encontrados no
interior da câmara subterrânea, confirmando o fato de que ela havia
sido habitualmente visitada. Ainda assim, uma vez que fora tão
habilmente ocultada no início, a porta secreta que dava para um dos
lados, situada a cerca de dois terços do caminho descendente da
parede oeste do corredor descendente, permaneceu fechada e
desconhecida até o século XIX.
A passagem levava a uma chaminé estreita, de cerca de 50m de
extensão, que subia quase verticalmente pelo subestrato rochoso e
em seguida, passando por mais de vinte carreiras completas dos
blocos de calcário do coração da pirâmide, ligava-se ao principal
sistema de corredores internos, situados na base da Grande Galeria.
Não há prova indicativa do fim a que poderia ter servido esse estranho
aspecto arquitetônico (embora vários estudiosos tenham arriscado
palpites). Na verdade, a única coisa clara é que foi projetado por
ocasião da construção da pirâmide e não constituiu resultado de
intrusão de ladrões de sepulturas, que teriam cavado túneis. Continua
em aberto, porém, a questão de se esses ladrões não poderiam ter
descoberto a entrada oculta para o poço e a usado para retirar os
tesouros das Câmaras do Rei e da Rainha.
Não se pode ignorar essa possibilidade. Não obstante, um exame do
registro histórico pouco indica em seu favor.
O astrônomo de Oxford, John Graves, por exemplo, conseguiu entrar
na extremidade superior do poço partindo da Grande Galeria. Desceu
até uma profundidade de uns 18m. Em 1765, outro britânico, Namaniel
Davison, chegou a uma profundidade de 45m, mas encontrou o
caminho bloqueado por uma massa impenetrável de areia e pedras.
Mais tarde, em 1830, o capitão G.B. Caviglia, um aventureiro italiano,
desceu à mesma profundidade e encontrou o mesmo obstáculo. Mais
empreendedor de que seus predecessores, ele contratou
trabalhadores árabes para começar a escavar o entulho, na esperança
de que pudesse haver embaixo alguma coisa de interesse. Seguiram-se vários dias de escavação em condições capazes de provocar
claustrofobia, antes que fosse descoberta a ligação com o corredor
descendente.
Será provável que essa chaminé apertada, bloqueada, possa ter sido
uma passagem viável para os tesouros de Khufu, supostamente o
maior faraó da magnífica Quarta Dinastia?
Mesmo que a chaminé não tivesse sido fechada com entulho e tapada
na extremidade inferior, ela não poderia ter sido usada para tirar dali
mais do que uma minúscula fração dos tesouros típicos de uma tumba
real. E isso acontecia porque a chaminé só tinha 90cm de diâmetro e
nela havia várias seções verticais de escalada difícil.
No mínimo, por conseguinte, quando Ma’mun e sua gente abriram
caminho para a Câmara do Rei, por volta do ano 820 d.C., teria sido
de esperar que algumas das peças maiores e mais pesadas do
sepultamento original ainda continuassem ali - como as estátuas e
santuários que ocupavam tanto espaço na tumba muito posterior, e
presumidamente de qualidade inferior, de Tutancâmon. Nada, porém,
foi encontrado dentro da Pirâmide de Khufu, tornando esta e a
alegada pilhagem do monumento de Khafre trabalho dos únicos
ladrões de sepultura na história do Egito a conseguir fazer uma
limpeza completa, sem deixar nenhum vestígio - nem um pedaço de
pano rasgado, nem um caco de louça partida, nem uma estatueta
desprezada, nem uma única esquecida peça de joalheria mas apenas
pisos e paredes nuas e as bocas abertas de sarcófagos vazios.
Diferente das Outras Tumbas
Nesse momento, passava das 6h da manhã e o sol banhava os cumes
das pirâmides de Khufu e Khafre com uma leve tonalidade de luz
pastel-rosada. Uma vez que era cerca de 60m mais baixa do que as
duas outras, a Pirâmide de Menkaure continuava envolvida nas
sombras, enquanto Santha e eu passávamos por sua aresta noroeste
e continuávamos nosso passeio pela areia solta do deserto em volta.
Eu continuava a pensar na teoria de arrombamento e roubo do
conteúdo da tumba. Tanto quanto podia compreender, a única "prova”
autêntica em favor dela era a falta de objetos e múmias que, para
começar, ela havia sido formulada para explicar. Todos os demais
fatos, especialmente no que interessava à Grande Pirâmide, pareciam
argumentar convincentemente contra a ocorrência de qualquer roubo.
A questão não era apenas o espaçoapertado e a inconveniência da
chaminé como rota de retirada para um volumoso tesouro. O outro
aspecto notável da Pirâmide de Khufu era a ausência total, em todos
os lugares, de inscrições ou efeitos decorativos na imensa rede de
galerias, corredores, passagens e câmaras. A mesma coisa acontecia
nas Pirâmides de Khafre e Menkaure. Em nenhum desses espantosos
monumentos palavra alguma fora escrita em louvor dos faraós cujos
corpos elas supostamente abrigavam.
Esse fato era excepcional. Nenhum outro local comprovado de
sepultamento de qualquer monarca egípcio jamais foi encontrado sem
motivos decorativos. O costume em toda a história do Egito era de as
tumbas dos faraós serem extensamente decoradas, pintadas de
maneira bela de cima a baixo (como no Vale dos Reis, em Lúxor, por
exemplo) e com abundantes inscrições de encantamentos e
invocações rituais, destinados a ajudar o morto em sua jornada para a
vida eterna (como nas pirâmides de Saqqara, a apenas 30km de
Gizé).
Por que Khufu, Khafre e Menkaure teriam feito as coisas de maneira
tao diferente? Não teriam eles construído seus monumentos não para
servir absolutamente de tumba, mas para alguma outra finalidade,
mais sutil? Ou seria possível, como sustentavam algumas tradições
árabes e esotéricas, que as pirâmides de Gizé tivessem sido erigidas
muito antes da Quarta Dinastia pelos arquitetos de uma civilização
mais antiga e mais avançada?
Por motivos muito fáceis de entender, nenhuma dessas hipóteses era
muito popular entre os egiptólogos. Além do mais, embora admitindo
que não havia nenhuma inscrição interna na Segunda e Terceira
Pirâmide, tendo sido omitidos até os nomes de Khafre e Menkaure, os
estudiosos citaram certas "marcas de pedreira" em hieróglifos (graffitti
garatujados em blocos de pedra antes de deixarem a pedreira) e que
foram encontrados dentro da Grande Pirâmide e que, de fato,
pareciam trazer o nome de Khufu.
Um Certo Cheiro...
A descoberta das marcas de pedreira coube ao coronel Howard Vyse,
durante as escavações destrutivas que realizou em Gizé no ano de
1837. Prolongando uma passagem existente, ele abriu um túnel para
uma série de cavidades estreitas, denominadas de "câmaras de
descarga", que se situam imediatamente acima da Câmara do Rei. As
marcas de pedreira foram encontradas nas paredes e tetos das quatro
cavidades mais altas e diziam coisas como as seguintes:
A TURMA DOS ARTESÃOS. COMO É PODEROSA A COROA
BRANCA DE KHNUM-KHUFU
KHUFU
KHNUM-KHUFU
ANO DEZESSETE
Tudo aquilo era muito conveniente. Exatamente no fim de uma
onerosa e, sob outros aspectos, infrutífera estação de escavações,
exatamente quando era necessária uma grande descoberta
arqueológica para legitimar as despesas que fizera, Vyse tropeçou por
acaso na descoberta da década - a primeira prova inefutável de que
Khufu havia sido realmente o construtor da até então anônima Grande
Pirâmide.
Caberia pensar que uma descoberta de tal natureza teria eliminado,
de uma vez por todas, quaisquer dúvidas persistentes sobre a
propriedade e finalidade do enigmático monumento. As dúvidas,
porém, continuaram, principalmente porque, desde o início, um "certo
cheiro" pairou sobre a prova de Vyse:
1. Era estranho que as marcas constituíssem os únicos sinais do
nome Khufu jamais encontrados dentro da Grande Pirâmide.
2. Era estranho que tivessem sido encontrados em um canto obscuro
e pouco examinado da imensa estrutura.
3. Era estranho que tivessem sido absolutamente encontradas em um
monumento, sob outros aspectos, inteiramente destituído de
inscrições de qualquer tipo.
4. E era muitíssimo estranho que tivessem sido encontradas apenas
nas quatro cavidades superiores das cinco câmaras de descarga.
Inevitavelmente, mentes desconfiadas começaram a se perguntar se
as "marcas de pedreira" não poderiam ter também aparecido na mais
baixa das cinco câmaras, se ela tivesse sido descoberta por Vyse (e
não por Namaniel Davison, setenta anos antes).
5. Por último, mas não de menor importância, era estranho que vários
hieróglifos nas "marcas de pedreira" tivessem sido pintados de cabeça
para baixo, que alguns fossem irreconhecíveis e que outros tivessem
sido escritos erradamente ou usados com desprezo pelas regras da
gramática.
Teria sido Vyse um falsário?
Conheço um argumento plausível apresentado para sugerir que ele foi
exatamente isso e, embora tudo indique que a prova final jamais será
encontrada, parecia-me falta de cuidado da egiptologia acadêmica ter
aceito, sem fazer perguntas, a autenticidade das marcas de pedreira.
Além do mais, havia prova hieroglífica alternativa, convincente, de
origem mais pura, que parecia indicar que Khufu não poderia ter
construído a Grande Pirâmide. Curiosamente, os mesmos egiptólogos
que atribuíram de imediato importância imensa às marcas de pedreira
de Vyse apressaram-se em minimizar a importância desses outros
hieróglifos em sentido contrário, que constam de uma estela
retangular de pedra calcária, que ora se encontra no Museu do Cairo.
A Estela do Inventário, como é chamada, foi descoberta em Gizé no
século XIX pelo arqueólogo francês Auguste Mariette. A estela foi uma
espécie de bomba, porque seu texto indicava claramente que a
Grande Esfinge e a Grande Pirâmide (bem como várias outras
estruturas encontradas no platô) já existiam muito antes de Khufu
subir ao trono. A inscrição referia-se também a Ísis como a "Senhora
da Pirâmide", implicando essas palavras que o monumento fora
dedicado à deusa da magia e de maneira nenhuma a Khufu.
Finalmente, havia a forte sugestão de que a pirâmide de Khufu
pudesse ter sido uma das três estruturas subsidiárias situadas ao
longo do fIanco leste da Grande Pirâmide.
Tudo isso parecia prova contundente contra a cronologia ortodoxa do
antigo Egito. E contestava também a opinião consensual de que as
pirâmides de Gizé haviam sido construídas como tumbas, e apenas
como isso. Não obstante, em vez de estudar as declarações antigas
constantes da Estela do Inventário, os egiptólogos resolveram
desmoralizá-Ias. Nas palavras do respeitado estudioso americano
James Henry Breasted, "Essas referências seriam da mais alta
importância, se a estela fosse contemporânea de Khufu. As evidêndas
ortográficas de que tem data posterior, porém, são irrefutavelmente
conclusivas...".
Breasted queria dizer com essas palavras que o sistema de escrita
hieroglífica usado na inscrição não era compatível com o usado na
Quarta Dinastia, pertencendo a uma época mais recente. Todos os
egiptólogos concordaram com essa análise e o julgamento final, ainda
aceito hoje, era que a estela havia sido entalhada na 21ª. Dinastia,
cerca de 1.500 anos após o reinado de Khufu e que, por conseguinte,
devia ser considerado como uma obra de ficção histórica.
Dessa maneira, citando evidência ortográfica, uma disciplina
acadêmica inteira descobriu razões para ignorar as implicações
revolucionárias da Estela do Inventário e, em nenhum momento, deu a
devida consideração à possibilidade de que ela tivesse se baseado
em uma inscrição autêntica da Quarta Dinastia (da mesma maneira
que a Nova Bíblia Inglesa baseia-seem um original muito mais
antigo). Exatamente os mesmos estudiosos, contudo, haviam aceitado
a autenticidade de um duvidoso conjunto de "marcas de pedreira” sem
a menor reserva, fechando os olhos para suas peculiaridades
ortográficas e de outra natureza.
Por que essa ambigüidade? Poderia ter sido porque as informações
contidas nas "marcas de pedreira” confirmavam rigorosamente a
opinião ortodoxa, de que a Grande Pirâmide havia sido construída
como tumba para Khufu, ao passo que as informações constantes da
Estela do Inventário a contradiziam?
Visão do Alto
Por volta de sete da manhã, Santha e eu havíamos penetrado
profundamente no deserto a sudoeste das pirâmides de Gizé e
estávamos sentados confortavelmente à sombra de uma imensa duna
de areia que oferecia um panorama desimpedido de todo aquele sítio.
Na data, 16 de março, estávamos a apenas alguns dias do Equinócio
de Primavera, uma das duas ocasiões no ano em que o sol se levanta
exatamente no leste verdadeiro em qualquer lugar no mundo.
Marcando os dias como o ponteiro de um metrônomo gigantesco, o
sol cortou ao meio, nessa manhã, o horizonte em um ponto a uma
distância de um fio de cabelo do leste verdadeiro e já subira o
suficiente no céu para dissipar os nevoeiros do Nilo, que ainda
cobriam como uma mortalha grande parte da cidade do Cairo.
Khufu, Khafre, Menkaure... Quéops, Quéfren. Miquerinos. Sejam eles
chamados por seus nomes egípcios ou gregos, não havia dúvida de
que os três famosos faraós da Quarta Dinastia haviam sido
consagrados pelas estruturas mais esplêndidas, mais honrosas, mais
belas e maiores jamais vistas no mundo. Além do mais, era claro que
esses faraós deviam, na verdade, ter mantido uma estreita ligação
com os monumentos, não só por causa do folclore compilado e
transmitido à posteridade por Heródoto (e que, com certeza, tinha
alguma base nos fatos), mas também porque inscrições e referências
a Khufu, Khafre e Menkaure haviam sido encontradas em volume
moderado fora das três grandes pirâmides, em várias partes diferentes
da necrópole de Gizé. Essas descobertas tinham ocorrido
invariavelmente dentro e em volta das seis pirâmides subsidiárias, três
das quais se situam à leste da Grande Pirâmide e as outras três ao sul
da Pirâmide de Menkaure.
Uma vez que grande parte dessa evidência externa era ambígua e
incerta, eu achava difícil entender por que motivo os egiptólogos se
sentiam tão felizes em continuar a citá-Ia como confirmação da teoria
das "tumbas e apenas isso".
O problema era que, com essa mesma evidência, podia-se dar
respaldo igualmente válido - a um bom número de interpretações
diferentes e mutuamente contraditórias. Para dar apenas um exemplo,
a "estreita ligação" observada entre as três grandes pirâmides e os
três faraós da Quarta Dinastia poderia, na verdade, ter surgido porque
eles as haviam construído como suas tumbas. Mas poderia ter
acontecido também se os monumentos gigantescos do platô de Gizé
houvessem estado lá muito antes do alvorecer da civilização histórica,
conhecida como Egito Dinástico. Nesse caso, bastaria supor que, no
devido tempo, Khufu, Khafre e Menkaure haviam construído certo
número de estruturas subsidiárias em volta das três pirâmides mais
antigas - algo que teriam toda razão para fazer, porque, dessa
maneira, teriam se apropriado do alto prestígio dos monumentos
originais anônimos (e seriam, quase com certeza, considerados pela
posteridade como seus construtores).
Mas havia ainda outras possibilidades. O importante, contudo, era que
a prova relativa a quem, exatamente, construíra a grande pirâmide,
quando e para que fim, era fraca demais para justificar o dogmatismo
da teoria ortodoxa de "tumbas e só isso". Com toda honestidade, não
estava claro quem tinha construído as pirâmides, nem em que época
haviam sido construídas e de maneira nenhuma clara qual havia sido
sua função.
Por todas essas razões, elas estão cercadas por um maravilhoso e
impenetrável véu de mistério e, enquanto eu olhava para elas daquela
altura no deserto, pareceu-me que elas vinham marchando pelas
dunas em minha direção...

CAPÍTULO 36
Anomalias
Visto de nosso ponto de observação elevado no deserto, a sudoeste
da necrópole de Gizé, o plano do sítio arqueológico das três grandes
pirâmides nos pareceu majestoso, mas muito estranho.
A pirâmide de Menkaure era a que ficava mais próxima de nós, tendo
por trás, na direção nordeste, os monumentos de Khafre e Khufu.
Estas duas estavam situadas ao longo de uma diagonal quase perfeita
- uma linha reta ligando as arestas sudoeste e nordeste da pirâmide
de Khafre e, se prolongada para o nordeste, passaria também através
das arestas sudoeste e nordeste da Grande Pirâmide.
Presumivelmente, tal configuração nada tinha de acidental. Do ponto
em que estávamos sentados, porém, era fácil ver que, se a mesma
linha imaginária fosse estendida na direção sudoeste, ela erraria
inteiramente a Terceira Pirâmide, uma vez que toda sua massa estava
deslocada para leste da diagonal principal.
Egiptólogos, porém, recusaram-se a ver nisso qualquer anomalia. E
por que deveriam ver? No que os interessava, não havia em Gizé um
plano do sítio arqueológico. As pirâmides eram tumbas, e nada mais,
construídas para três faraós diferentes em um período de cerca de 75
anos. Fazia sentido presumir que cada governante procurara
expressar sua personalidade e idiossincrasias através de um
monumento e fora por isso, provavelmente, que Menkaure "saíra da
linha".
Os egiptólogos estavam enganados.Embora eu não soubesse desse
fato naquela manhã de março de 1993, uma grande descoberta fora
feita, provando, além de qualquerdúvida, que a necrópole obedecia,
de fato, a um plano geral do sítio que determinava o posicionamento
exato das três pirâmides não só nas relações entre si, mas também
em relação ao rio Nilo, que corria alguns quilômetros a leste do platô
de Gizé. Com sobrenatural fidelidade, esse imenso e ambicioso
projeto reproduzia um fenômeno celeste - o que era talvez o motivo
por que os egiptólogos (que se orgulhavam de olhar exclusivamente
para o chão sob os pés) não o haviam descoberto. Em uma escala
realmente gigantesca, como veremos em outros capítulos, o plano
refletia também a mesma preocupação obsessiva com orientações e
dimensões, demonstradas em cada um dos monumentos.
Uma Opressão Estranha
Gizé, Egito, 16 de março de 1993, 8h da manhã
Com uma altura de pouco mais de 60m (e com comprimento nos lados
da base de 108m), a Terceira Pirâmide tem menos da metade da
altura e bem menos da metade da massa da Grande Pirâmide. Não
obstante, ostenta uma impressionante e imponente majestade própria.
Saindo do sol do deserto e penetrando em sua imensa sombra
geométrica, lembrei-me do que o escritor iraquiano Abdul Latif disse
sobre a estrutura, quando a visitou no século XII: "Ela parece pequena
em comparação com as outras duas. Mas, vista a curta distância e
com exclusão das outras, ela produz na imaginação uma estranha
opressão e não pode ser contemplada sem que afete dolorosamente a
vista...".
As dezesseis carreiras inferiores do monumento ainda estavam
revestidas, como haviam se apresentado desde o início, com blocos
de granito vermelho ("tão duro", nas palavras de Abdul Latif, "que o
ferro precisa de muito tempo e dificuldade para nele deixar uma
marca"). Alguns dos blocos são muito grandes, bem juntos e
habilmente encaixados em um padrão completo de quebra-cabeça
interligado, que lembra muito o trabalho de cantaria ciclópico de
Cuzco, Machu Picchu e outros sítios arqueológicos no longínquo Peru.
Como era o normal, a entrada para a Terceira Pirâmide situava-se na
face norte, bem acima do chão. Daí, em um ângulo de 26° 2', um
corredor descendente caía como uma lança para baixo e para dentro
da escuridão. Orientado diretamente no sentido norte-sul, esse
corredor é constituído de seções retangulares e é tão apertado que
tivemos quase que nos dobrar em dois para conseguir entrar. Nos
locais em que passa através da cantaria do monumento, o teto e
paredes consistem de blocos de granito bem ajustados. E, mais
surpreendentemente ainda, esses blocos continuam por alguma
distância abaixo do nível do chão.
A cerca de 20m a partir da entrada, o corredor se nivela e abre-se
para uma passagem, onde podemos ficar de pé. Esta passagem leva
a uma pequena antecâmara com apainelamento entalhado e sulcos
cortados nas paredes, aparentemente para receber lajes de porta
levadiça (tipo guilhotina). Chegando ao fim dessa câmara, tivemos que
nos agachar novamente para entrar em outro corredor. Dobrados em
dois, continuamos na direção sul por cerca de 12m, antes de chegar à
primeira das três principais câmaras funerárias - se é que foram isso.
Esses cômodos sombrios, onde reina um silêncio sepulcral, haviam
sido abertos na rocha maciça. O aposento onde nos encontrávamos
era retangular e orientado no sentido leste-oeste. Medindo cerca de
9m x 4,5m de largura x 4,5m de altura, possui teto plano e uma
estrutura interna complexa, com um buraco grande e irregular na
parede oeste, que leva a um espaço escuro, semelhante a uma
caverna, situado no outro lado. Há ainda uma abertura perto do centro
do piso, que dá acesso a uma rampa, inclinada na direção oeste, e
que conduz a níveis ainda mais profundos. Descemos a rampa. Ela
termina em uma passagem curta, horizontal, à direita da qual, com
acesso por um umbral estreito, existe uma pequena câmara vazia.
Seis celas, tais como enxergas de monges medievais, haviam sido
abertas nas paredes: quatro no lado leste e dois no lado norte.
Egiptólogos pensam que serviram como "armazéns (...) para guardar
objetos que o rei morto queria perto de seu corpo".
Saindo dessa câmara, viramos novamente para a direita e voltamos à
passagem horizontal, no fim da qual encontramos outra câmara vazia,
com um projeto excepcional entre as pirâmides do Egito. Com cerca
de 3,5m de comprimento por 2,5m de largura e orientada no sentido
norte-sul, suas paredes e piso muito danificados são feitos de um
granito peculiarmente denso, de cor de chocolate, que parecia
absorver ondas de luz e som. O teto consiste de dezoito enormes
placas do mesmo material, nove de cada lado, assentadas em
cumeeiras que dão frente uma para a outra. Uma vez que haviam sido
furadas a partir de baixo para formar uma superfície acentuadamente
côncava, o efeito desses grandes monólitos é de uma abóbada
arqueada perfeita, quase o que poderíamos esperar encontrar na
cripta de uma catedral românica.
Refazendo os passos, deixamos as câmaras mais baixas e subimos a
rampa de volta para a grande sala, de teto plano, cortada na rocha,
que se estende acima. Passando pela abertura irregular da parede
oeste, quando demos por nós, estávamos olhando diretamente para
os lados superiores das dezoito lajes que formam o telhado da câmara
embaixo. Dessa perspectiva, a verdadeira forma dessas lajes, como
cumeeiras pontudas, fica imediatamente visível. O que estava menos
claro, para começar, era como elas haviam sido trazidas para ali,
quanto mais assentadas em uma posição perfeita. Cada uma delas
deve pesar muitas toneladas, e são pesadas o suficiente para tornar
extremamente difícil movê-Ias, em qualquer circunstância. E essas
circunstâncias nada tinham de ordinárias. Como se para tornar
deliberadamente as coisas mais complicadas para si mesmos (ou,
quem sabe, porque achavam fáceis esses trabalhos?), os construtores
da pirâmide não haviam nem pensado em reservar uma área de
trabalho adequada entre as lajes e o leito rochoso acima. Rastejando
para dentro da cavidade, consegui verificar que o vão varia de
aproximadamente 60cm na extremidade sul para apenas alguns
centímetros na extremidade norte. Em um espaço tão restrito assim
não havia possibilidade de que os monólitos pudessem ter sido
arriados na posição que ocupavam. Logicamente, por conseguinte,
deviam ter sido içados a partir do chão da câmara, mas como fizeram
isso? A câmara é tão pequena que apenas uns poucos homens
poderiam ter nela trabalhado em qualquer ocasião - número este
pequeno demais para reunir a força bruta muscular necessária para
içar as lajes. Supostamente, não havia gruas na Era das Pirâmides
(mesmo que houvesse, não existia espaço suficiente para montá-Ias).
Teria sido usado algum sistema desconhecido de alavancas? Ou
poderia haver mais fundamento do que pensavam os estudiosos nas
antigas lendas egípcias, que falavam em pedras imensas que eram
erguidas no ar sem esforço por sacerdotes ou mágicos, quando
pronunciavam "palavras de poder"? Não pela primeira vez, quando
confrontado com os mistérios das pirâmides, eu sabia que olhava,
nesse momento, para uma façanha de engenharia impossível, que,
não obstante, fora levada a cabo de acordo com padrões
impressionantemente altos e precisos. Além do mais, se fôssemos dar
crédito aos egiptólogos, o trabalho de construção ocorrera
supostamente no alvorecer da civilização humana, realizado por um
povo que não acumulara ainda qualquer experiência em maciços
projetos de construção.
Havia aí, claro, um surpreendente paradoxo cultural e para o qual
nenhuma explicação adequada foi dada por um especialista
acadêmico.
O Dedo Móvel Escreve e, Tendo Escrito, Continua a
Mover-se
Deixando as câmaras subterrâneas, que pareciam vibrar no âmago da
Terceira Pirâmide como se fosse o coração convoluto, de
multiválvulas, de algum Leviatã adormecido, seguimos pelo estreito
corredor de entrada e saímos para o ar livre.
Nosso objetivo nesse momento era a Segunda Pirâmide.
Contornamos sua face oeste (de pouco menos de 215m de
comprimento), viramos para a direita e chegamos finalmente ao ponto
em sua face norte, a uns 12m a leste do eixo principal norte-sul, onde
se localizam as principais entradas. Uma delas havia sido escavada
diretamente no subestrato rochoso ao nível do chão, a cerca de 9m
em frente ao monumento; a outra tinha sido aberta na face norte, a
uma altura de pouco menos de 15m. A partir desta última, um corredor
desce em um ângulo de 25° 55'10. Com início no primeiro, pelo qual
entramos nesse momento na pirâmide, outro corredor penetra bem
fundo e, em seguida, se nivela por uma curta distância, dando acesso
a uma câmara subterrânea, sobe em um alto gradiente e por fim volta
a nivelar-se em uma comprida passagem horizontal, que se dirige
diretamente para o sul (no qual desemboca também o corredor
superior que desce da entrada localizada na face norte).

Com altura suficiente para que ficássemos de pé e revestido
inicialmente de granito e depois de pedra calcária bem polida, a
passagem oriental situa-se quase que no nível do chão, isto é, fica
diretamente abaixo da carreira mais baixa de cantaria da pirâmide. É
também muito comprida, seguindo em linha reta por mais 60m, até
desembocar em uma única "câmara funerária” no coração do
monumento.
Como já dissemos acima, nenhuma múmia foi jamais encontrada
nesta última câmara, nem quaisquerinscrições, o que tornava a
chamada Pirâmide de Khafre inteiramente anônima. Aventureiros de
uma época muito posterior, porém, haviam entalhado seus nomes nas
paredes - notadamente o ex-hércules de circo Giovanni Battista
Belzoni (1778-1823), que entrou à força no monumento em 1818. Sua
enorme e pitoresca pichação, garatujada em tinta preta bem alta no
lado sul da câmara, é um lembrete da natureza humana básica: o
desejo que todos sentimos de ser reconhecidos e lembrados. Era
claro que o próprio Khafre esteve longe de ficar imune a essa
ambição, uma vez que referências repetidas à sua pessoa (bem como
um bom número de estátuas lisonjeiras) aparecem no complexo
funerário circundante. Se ele havia realmente construído a pirâmide
como sua tumba, parece inconcebível que um homem desse tipo
tivesse deixado de gravar seu nome e identidade em algum lugar no
interior da estrutura. Mais uma vez, comecei a me perguntar por que
os egiptólogos demonstravam tanta má vontade em considerar a
possibilidade de que o complexo funerário possa ter sido trabalho de
Khafre e a pirâmide de algum outro indivíduo.
Mas quem havia sido esse indivíduo?
De muitas maneiras - e não por causa da ausência de marcas
identificadoras - este era o problema principal. Antes dos reinados de
Khufu, Khafre e Menkaure, não houve qualquer faraó isolado cujo
nome poderia ter sido apresentado como candidato. Acredita-se que o
pai de Khufu, Snefru, o primeiro rei da Quarta Dinastia, construiu as
pirâmides "Vergada" e "Vermelha" de Dhashur, situadas a cerca de
48km de Gizé - uma atribuição em si mesma misteriosa (se as
pirâmides fossem, na verdade, tumbas), porquanto parece estranho
que um faraó precisasse de duas pirâmides para ser sepultado.
Alguns egiptólogos davam também a Snefru o crédito pela construção
da Pirâmide "Desmoronada" de Meidum (embora certo número de
autoridades insista em que esta era a tumba de Huni, o último rei da
Terceira Dinastia). Os únicos outros construtores no Período Arcaico
tinham sido Zóser, o segundo faraó da Terceira Dinastia, a quem se
atribui a construção da "Pirâmide Escalonada de Saqqara", e seu
sucessor, Sekhemkhet, cuja pirâmide se situa também em Saqqara.
Por conseguinte, a despeito da falta de inscrições, supunha-se nesse
momento, como se fosse óbvio, que as três pirâmides de Gizé deviam
ter sido construídas por Khufu, Khafre e Menkaure e forçosamente
para lhes servir como as respectivas tumbas.
Não precisamos repisar aqui as muitas falhas da teoria das "tumbas, e
nada mais". Não obstante, essas falhas não se limitaram às pirâmides
de Gizé, mas também a todas as outras pirâmides da Terceira e
Quarta Dinastias mencionadas acima. Em nenhum desses
monumentos jamais foi encontrado o corpo de qualquer faraó ou
quaisquer sinais de sepultamento real. Algumas delas nem mesmo
sarcófagos continham, como, por exemplo, a Pirâmide Desmoronada
de Meidum. A Pirâmide de Sekhemkhet, em Saqqara (aberta pela
primeira vez pela Organização de Antiguidades Egípcias), possuía, de
fato, um sarcófago - e que certamente permaneceu fechado e intacto
desde sua instalação na "tumba". Ladrões de sepulturas jamais
conseguiram descobrir maneiras de violá-Ia, mas, quando foi aberta,
descobriu-se que o sarcófago estava vazio.
Se assim, o que estava acontecendo? Como explicar que 25 milhões
de toneladas de pedras tivessem sido empilhadas para formar as
pirâmides de Gizé, Dhashur, Meidum e Saqqara, se o único objetivo
desse trabalho todo fora instalarsarcófagos vazios em câmaras
vazias? Mesmo admitindo os excessos hipotéticos de um ou dois
megalomaníacos, parecia improvável que uma série inteira de faraós
tivesse sancionado esse desperdício todo.
Caixa de Pandora
Sepultados sob as cinco milhões de toneladas da Segunda Pirâmide
de Gizé, Santha e eu entramos nesse momento na espaçosa câmara
interna do monumento, que poderia ter sido uma tumba, mas,
também, ter servido para outra finalidade ainda não identificada.
Medindo 14m de comprimento no sentido leste-oeste e 5m de largura
no sentido norte-sul, esse aposento despojado e estéril é coroado por
um teto em cumeeira imensamente forte, que chega a uma altura de
6,5m da base ao ápice. As lajes da cumeeira, todas elas maciços
monólitos de pedra calcária de 20 toneladas de peso, haviam sido
assentados em um ângulo de 53º 7' 28" (que corresponde exatamente
ao ângulo de inclinação dos lados da pirâmide). Aí não havia câmaras
de descarga (como acima da Câmara do Rei, na Grande Pirâmide).
Em vez disso, por mais de 4.000 anos - talvez muito mais -, o teto em
cumeeira vem sustentando o peso imenso da segunda maior estrutura
de pedra do mundo.
Olhei em volta da câmara, que refletia, em minha direção, um brilho
branco-amarelado. Cortado diretamente no subestrato rochoso, as
paredes não têm em absoluto qualquer polimento, como poderia ter
sido esperado, e são visivelmente ásperas e irregulares. O piso é
também de uma construção peculiar, em dois níveis, com um degrau
de cerca de 30cm de altura separando suas metades leste e oeste. O
suposto sarcófago de Khafre está localizado perto da parede oeste,
encravado no chão. Medindo pouco mais de 1,80m de comprimento,
muito raso e de certa maneira estreito demais para ter contido uma
múmia enfaixada e embalsamada de um nobre faraó, seus lados lisos
de granito vermelho chegam mais ou menos à altura do joelho.
Enquanto olhava para seu escuro interior, tive a impressão que ele se
abria como uma porta para outra dimensão.
CAPÍTULO 37
Feito por Algum Deus
Embora tivesse escalado a Grande Pirâmide na noite anterior, ao
aproximar-me dela sob o pleno fulgor do sol de meio-dia não
experimentei nenhuma sensação de triunfo. Pelo contrário, junto à
base no lado norte, senti-me insignificante, como se fosse uma mosca
- uma criatura temporária de carne e osso que se via frente à frente
com o esplendor aterrador da eternidade. Tive a impressão de que a
pirâmide devia ter estado ali desde sempre, "feita por algum deus e
depositada inteira na areia em volta", como comentou o historiador
grego Diodoro de Sicília no primeiroséculo a.C. Mas que deus a
fizera, se não o Rei-Deus Khufu, cujo nome foi ligado a ela por
gerações de egípcios?
Pela segunda vez em 12 horas, comecei a escalar o monumento. Bem
perto a esta luz, indiferente às cronologias humanas e sujeita apenas
às forças corrosivas lentas do tempo geológico, a pirâmide erguia-se
acima de mim como um penhasco intimidador, apavorante. Por sorte,
eu tinha que subir apenas seis carreiras de blocos, ajudado em muitos
lugares por degraus modernos, antes de chegar ao Buraco de
Ma’mun, que é usado atualmente como principal entrada da pirâmide.
A entrada original, ainda bem escondida no século IX, quando Ma’mun
iniciou a abertura do túnel, fica a cerca de dez carreiras mais alta, a
uns 17m acima do nível do chão e a 7,5m a leste do eixo norte-sul.
Protegido por gigantescas cumeeiras de pedra calcária, aí começa o
corredor descendente, que leva para baixo a um ângulo de 26° 31'
23". Estranhamente, embora meça apenas cerca de 1,02m x 1,07m,
este corredor está imprensado entre blocos do teto de 2,55m
de espessura e 3,65m de largura e por uma laje de piso (conhecida
como o "Lençol do Porão") de 45cm de espessura e 10m de largura.
Características estruturais ocultas como essas abundam na Grande
Pirâmide, revelando incrível complexidade e uma falta de propósito
gritante. Ninguém sabe como blocos desse tamanho foram instalados,
nem tampouco como foram postos emalinhamento tão cuidadoso com
outros blocos, ou em ângulos tão precisos (porque, como o leitor deve
ter compreendido, a inclinação de 26° do corredor descendente faz
parte de um padrão deliberado e regular). Ninguém tampouco sabe
por que tais coisas foram feitas.
O Farol
Entrar na pirâmide pelo Buraco de Ma’mun não me pareceu a coisa
certa a fazer. Era como penetrar numa caverna ou grota aberta na
encosta de uma montanha. Falta à coisa um sentido de finalidade
deliberada, geométrica, que teria sido transmitido pelo corredor
descendente original. Pior ainda, o túnel horizontal escuro e hostil dá a
impressão de alguma coisa feia, deformada, e ainda conserva as
marcas de violência nos lugares onde os trabalhadores árabes haviam
alternadamente aquecido e esfriado as pedras com fogo forte e
vinagre frio, antes de atacá-Ias com martelos e talhadeiras, marretas e
perfuradeiras.
Por um lado, esse vandalismo parece grosseiro e irresponsável. Por
outro, uma surpreendente possibilidade tem de ser levada em conta:
não haverá um sentido em que a pirâmide dá a impressão de que foi
projetada para convidar seres humanos dotados de inteligência e
curiosidade a penetrar em seus mistérios? Afinal de contas, se você
fosse um faraó que queria garantir que seu cadáver permaneceria
intacto por toda a eternidade, teria feito mais sentido: a) anunciar para
a sua e todas as gerações futuras o local de seu sepultamento; ou b)
escolher um local secreto e desconhecido, sobre o qual jamais falaria
e onde nunca seria descoberto?
A resposta é óbvia: você preferia sigilo e isolamento, como fez a vasta
maioria dos faraós do antigo Egito.
Por que, então, se tivesse realmente o caráter de tumba real, a
Grande Pir!mide era tão conspícua? Por que ocupava uma área de
mais de cinco hectares? Por que tinha quase 150m de altura? Por
que, em outras palavras, se a intenção fora esconder e proteger o
corpo de Khufu, havia sido projetada de maneira que não poderia
deixar de chamar atenção - em todas as épocas e em todas as
circunstâncias imagináveis - de aventureiros loucos por tesouro ou de
intelectuais xeretas e imaginosos?
Não dava simplesmente para imaginar que os brilhantes arquitetos,
pedreiros, agrimensores e engenheiros que a haviam criado
ignorassem psicologia humana básica. A imensa ambição e beleza
transcendente, o poder e refinamento artístico do trabalho dessa gente
falava em perícias de alta classe, introvisões profundas e completo
entendimento de símbolos e padrões primordiais, através dos quais
pode-se manipular a mente do homem. A lógica, por conseguinte,
sugeria que os construtores da pirâmide deviam ter sabido
exatamente também que tipo de farol estavam erguendo (com uma
precisão incrível) no platô varrido pelos ventos, na margem oeste do
Nilo, naqueles tempos antiqüíssimos.
Deviam, em suma, ter desejado que a notável estrutura exercesse um
fascínio perene: para ser violada por intrusos, para ser medida com
graus crescentes de exatidão, para assombrar a imaginação coletiva
da humanidade como um fantasma teimoso, sugerindo um segredo
profundo e há muito tempo esquecido.
Jogos Mentais dos Construtores da Pirâmide
O ponto em que o Buraco de Ma’mun corta o corredor descendente de
26° estava fechado por uma moderna porta de aço. Do outro lado, na
direção norte, o corredor sobe até chegar às cumeeiras da entrada
original do monumento. Ao sul, conforme vimos, o corredor desce
novamente por quase 106m pelo leito rochoso, antes de desembocar
em uma imensa câmara subterrânea a uns 185m abaixo do cume da
pirâmide. Era espantosa a precisão desse corredor. Do alto até o
fundo, o desvio médio da vertical é de menos de meia polegada nos
lados e de 2/10 no teto.
Cruzando a porta de aço, continuei a percorrer o túnel de Ma’mun,
respirando o ar antigo e acostumando a vista às lâmpadas elétricas de
baixa voltagem que o iluminam. Em seguida, baixando a cabeça,
comecei a subir a seção íngreme e estreita que fora cortada pelos
trabalhadores árabes no esforço febril para ladear a série de cunhas
de granito que bloqueavam a parte inferior do corredor ascendente,
No alto do túnel, podem ser vistas duas das cunhas originais, ainda in
situ, embora parcialmente expostas pelo trabalho de desbastamento.
Egiptólogos supunham que elas haviam deslizado de cima para a
atual posiçãos - numa descida de 40mpelo corredor ascendente, a
partir do piso da Grande Galeria. Construtores e engenheiros, cuja
maneira de pensar é talvez mais prática, observam que é fisicamente
impossível que as cunhas tenham sido instaladas dessa maneira.
Dado o espaço fino como uma folha que as separa das paredes, chão
e teto do corredor, o atrito teria posto a perder qualquer operação de
"deslizamento" em uma questão de centímetros, quanto mais de 30
metros.
A implicação enigmática, portanto, é que o corredor ascendente devia
ter sido fechado enquanto a pirâmide era construída. Mas por que
alguém teria desejado bloquear a entrada principal para o monumento,
em uma fase prematura na construção (embora, ao mesmo tempo,
continuasse a alargar e refinar as câmaras interiores)? Além do mais,
se o objetivo fora impedir a entradade intrusos, não teria sido muito
mais fácil e eficiente fechar o corredor descendente desde a entrada,
na face norte, até um ponto abaixo de sua ligação com o corredor
ascendente? Esta teria sido a maneira mais lógica de fechar a
pirâmide e tornaria desnecessária a instalação de cunhas no corredor
ascendente.
S6ó havia uma certeza: desde o começo da história, o único efeito
conhecido das cunhas de granito de maneira alguma fora impedir o
acesso de intrusos; em vez disso, tal como a porta fechada do Barba-Azul, o obstáculo atraiu a atenção de Ma’mun e lhe inflamou de tal
modo a curiosidade que ele se sentiu obrigado a abrir um túnel
contornando-o, convencido de que alguma coisa de valor inestimável
devia estar no outro lado.
Não teria sido isso o que os construtores da pirâmide quiseram que
sentisse o primeiro intruso que chegasse até essa distância? Seria
prematuro eliminar essa possibilidade estranha e perturbadora. De
qualquer maneira, graças a Ma’mun (e às constantes previsíveis da
natureza humana), consegui me introduzir nesse momento pela seção
aberta do corredor ascendente original. Uma abertura cortada com
esmero, medindo 1,03m de largura x 1,18m de altura (exatamente as
mesmas dimensões do corredor descendente), subia inclinada pela
escuridão a um ângulo de 26° 2' 30" (contra os 26° 31' 23" do corredor
ascendente).
Que interesse meticuloso era esse pelo ângulo de 26° e seria
coincidência que ele equivalesse à metade do ângulo de inclinação
dos lados da pirâmide - 52°?
O leitor talvez se lembre da importância desse ângulo. Ele é um
elemento decisivo da f6rmula sofisticada e avançada através da qual
os construtores conseguiram que o projeto da Grande Pirâmide
correspondesse exatamente à dinâmica da geometria esférica. A
altura original do monumento (146m) e o perímetro da base (921m)
mantinham a mesma razão entre si que o raio de uma esfera com sua
circunferência. Essa razão é de 2pi (2 x 3,14), e para consegui-Ia os
construtores haviam sido obrigados a especificar o difícil e
idiossincrático ângulo de 52° para oslados da pirâmide (uma vez que
uma inclinação maior ou menor teria significado uma razão altura-perímetro diferente).
No Capítulo 23, vimos que a denominada Pirâmide do Sol, em
Teotihuacán, no México, revela também o conhecimento e o uso
deliberado do número transcendente pi. Nesse caso, a altura (71m)
mantinha uma relação de 4pi com o perímetro da base (1.184m).
O ponto crucial, portanto, é que o monumento mais notável do antigo
Egito e o monumento mais notável do antigo México utilizaram as
relações de pi muito antes, e em lugares muito distantes, da
"descoberta" oficial desse número transcendente pelos gregos. Além
do mais, a prova convidava à conclusão de que alguma coisa estava
sendo sugerida com o uso de pi - quase com certeza a mesma coisa
em ambos os casos.
Não pela primeira, nem pela última vez, fui tomado por uma sensação
de contato com uma inteligência antiga, não necessariamente egípcia
ou mexicana, que descobrira uma maneira de cruzar as eras e atrair
pessoas como se fosse um farol. Algumas poderiam procurar
tesouros; outras, cativadas pela maneira enganosamente simples
como os construtores haviam usado o pi para demonstrar o domínio
que possuíam dos segredos dos números transcendentes, poderiam
sentir-se inspiradas a pesquisar mais epifanias matemáticas.
Dobrado quase em dois, as costas raspando o teto de pedra calcária
polida, comecei, com esses pensamentos em mente, a rastejar pelo
gradiente de 26º do corredor ascendente, que parecia penetrar no
imenso volume das seis milhões de toneladas como se fosse um
dispositivo trigonométrico. Depois debater com a cabeça no teto umas
duas vezes, contudo, comecei a me perguntar por que os engenhosos
indivíduos que haviam projetado o corredor não o tinham feito uns 5
ou 8cm mais alto. Se, para começar, podiam construir um monumento
como esse (o que obviamente podiam) e equipá-lo com corredores,
certamente não teria ficado além da capacidade que possuíam tornar
os corredores suficientemente espaçosos para que uma pessoa
pudesse ficar de pé, certo? Mais uma vez, fui tentado a concluir que
aquilo era resultado de decisão deliberada dos construtores: haviam
projetado o corredor ascendente dessa maneira porque queriam que
fosse assim (e não porque essas dimensões lhes tivessem sido
impostas.)
Haveria algum motivo na aparente maluquice desses arcaicos jogos
mentais?
Uma Distância Desconhecida e Sombria
No alto do corredor ascendente, emergi para outro aspecto
inexplicável da pidrâmide, "o mais famoso trabalho arquitetônico
sobrevivente do Velho Reino" - a Grande Galeria. Subindo ao
majestoso ângulo de 26°, que continuava, e quase desaparecendo
inteiramente na escuridão ventilada acima, o espaçoso teto arqueado
em modilhão deixou-me atônito.
Mas eu não tinha, ainda, a intenção de subir a Grande Galeria.
Bifurcando-se diretamente para o sul a partir da base, há uma longa
passagem horizontal, de 1,13m de altura por 38m de comprimento,
que leva à Câmara da Rainha. Eu queria revisitar esse aposento, que
admirara por sua pura beleza desde que havia estado na Grande
Pirâmide vários anos antes. Nesse dia, contudo, para grande irritação
minha, a passagem estava bloqueada a alguns metros da entrada.
A razão, que eu ignorava na ocasião, era que um engenheiro alemão
especializado em robótica, Rudolf Gantenbrink, estava trabalhando ali
dentro, lenta e laboriosamente manobrando um robô, avaliado em
US$ 250,000, que subia a estreita chaminé sul da Câmara da Rainha.
Contratado pela Organização de Antiguidades Egípcias para melhorar
a ventilação da Grande Pirâmide, ele já usara equipamento de alta
tecnologia para retirar o entulho da estreita "chaminé sul" da Câmara
do Rei (que, para começar, egiptólogos acreditavam que havia sido
projetada como um duto de ventilação) e instalara na boca do
equipamento um ventilador elétrico. Em princípios de março de 1993,
dirigiu suas atenções para a Câmara da Rainha, usando Upuaut, um
robô miniaturizado operado por controle remoto para explorar a
chaminé sul desse aposento. No dia 22 de março, cerca de 60m ao
longo da chaminé muito íngreme (que sobe a um ângulo de 39,5° e
tem apenas 20cm de altura x 22cm de largura), o chão e as paredes
tornaram-se inesperadamente bem polidos, enquanto Upuaut
rastejava para dentro de uma seção de fina pedra calcária Tura, o tipo
normalmente usado para revestir áreas sagradas, tais como capelas e
tumbas. Esse fato em si já era muito intrigante, mas, ao fim desse
corredor, e aparentemente levando a uma câmara fechada bem dentro
da cantaria da pirâmide, foi encontrada uma porta de calcário maciço,
com acessórios de metal...
Há muito tempo se sabia que nem a chaminé sul nem sua
contrapartida na parede none da Câmara tinham qualquer saída na
face da Grande Pirâmide. Além disso, e também inexplicavelmente,
nenhuma delas fora cortada na rocha até o fim. Por alguma razão, os
construtores haviam deixado intactos os 12cm finais do último bloco,
onde ficaria a boca de cada uma delas, tornando-as, dessa maneira,
invisíveis e inacessíveis a um intruso casual.
Por quê? Para terem certeza de que elas nunca seriam encontradas?
Ou para terem certeza de que seriam, algum dia, nas circunstâncias
certas?
Afinal de contas, desde o início tinha havido duas chaminés visíveis na
Câmara do Rei, penetrando nas paredes norte e sul. Não teria ficado
além da capacidade mental dos construtores prever que, mais cedo ou
mais tarde, algum curioso sentiria a tentação de procurar chaminés
também na Câmara da Rainha. No caso, ninguém realmente as
procurou durante mais de mil anos, depois de ter o califa Ma’mun
aberto o monumento para o mundo no ano 820 d.C. Em 1872, porém,
um engenheiro inglês chamado Waynman Dixon, um maçom que "foi
levado a suspeitar da existência das chaminés devido à presença
delas na Câmara do Rei, que ficava acima", começou a dar
pancadinhas em torno das paredes da Câmara da Rainha e localizou-as. Abriu inicialmente a chaminé sul, mandando seu "carpinteiro e
pau-pra-toda-obra, Bill Grundy, fazer com martelo e talhadeira de aço
um buraco naquele lugar. O fiel empregado começou a trabalhar, e
com tal disposição que, logo depois, abriu um buraco na pedra mole
(calcário) nesse ponto, ocasião emque, olhem só, após um número
relativamente pequeno de golpes, a ponteira varou alguma coisa”.
Descobriu-se que a "alguma coisa” que a talhadeira de Bill Grundy
havia aberto era um canal tubular, horizontal, retangular, 22,5cm por
16cm de largura e altura, que chega a uma parede a 2,10m de
distância e que em seguida sobe em ângulo para uma distância
desconhecida, escura...
E foi subindo esse ângulo e para dentro da distância "desconhecida,
escura" que, 121 anos depois, Rudolf Gantenbrink enviou seu robô - a
tecnologia de nossa espécie finalmente se emparelhando com nosso
poderoso instinto de xeretar. Esse instinto evidentemente não era
mais fraco em 1872 do que em 1993. Entre muitas coisas
interessantes, a câmera operada por controle remoto conseguiu filmar,
nas chaminés da Câmara da Rainha, as extremidades distantes de
uma longa barra de metal, dividida em seções, de um tipo
característico do século XIX, que Waynman Dixon e seu fiel Bill
Grundy haviam secretamente introduzido no misterioso canal.
Previsivelmente, eles supuseram que, se os construtores da pirâmide
haviam se dado a todo esse trabalhopara abrir e, em seguida, fechar
as chaminés, eles deviam ter escondido lá dentro alguma coisa que
merecia ser vista.
A idéia de que, desde o começo, tenha havido a intenção de estimular
essas investigações pareceria inteiramente implausível, se o resultado
final da descoberta e exploração das chaminés tivesse sido um beco
sem saída. Em vez disso, como vimos acima, foi encontrada uma
porta - uma porta móvel, levadiça (em guilhotina), com curiosos
acessórios de metal e uma convidativa abertUra na base, na qual o
farolete a laser projetado pelo robô de Gantenbrink desapareceu por
completo...
Mais uma vez, parecia haver ali um claro convite para ir mais além, o
último em uma longa série de convites que encorajara o califa Ma’mun
e seus homens a romper caminho para as passagens e câmaras
centrais do monumento, que tinham esperado que Waynman Dixon
submetesse a teste a hipótese de que as paredes da Câmara da
Rainha pudessem conter chaminés ocultas e que continuara a esperar
até despertar a curiosidade de Rudolf Gantenbrink, cujo robô de alta
tecnologia revelou a existência da porta oculta e pôs ao alcance do
homem quaisquer segredos - ou decepções, ou quem sabe, mais
convites - que poderiam existir do outro lado.
A Câmara da Rainha
Em capítulos posteriores, ouviremos falar mais de Rudolf Gantenbrink
e de Upuaut. No dia 16 de março de 1993, porém, nada sabendo a
esse respeito, fiquei frustrado ao descobrir interditada a Câmara da
Rainha e olhei ressentido para a grade de metal que fechava o
corredor de entrada.
Lembrei-me de que a altura desse corredor, 1,13m, não é constante. A
aproximadamente 33m diretamente para o sul do lugar onde eu me
encontrava e a apenas 4,50m da entrada da Câmara, um
rebaixamento inesperado do piso aumenta a altura do corredor para
1,72m. Ninguém até este momento deu uma explicação convincente
desse aspecto peculiar.
A Câmara da Rainha em si - aparentemente vazia desde o dia em que
foi construída - mede 5,22m de norte a sul e 5,72cm de leste para
oeste. Possui um elegante teto em cumeeira, a 7,12m de altura, que
se situa exatamente ao longo do eixo leste-oeste da pirâmide. O piso,
no entanto, é o oposto de elegante e dá a impressão de inacabado.
Sente-se uma constante emanação salgada de suas paredes claras,
de superfície irregular, o que deu origem a um sem-número de
especulações infrutíferas.
Nas paredes norte e sul, ainda conservando a legenda ABERTA EM
1872, ficam as aberturas retangulares encontradas por Waynman
Dixon e que levam para dentro da distância escura das misteriosas
chaminés. A parede oeste é inteiramente despojada. Perturbada a
pouco mais de 60cm de sua linha central, a parede leste é dominada
por um nicho em forma de abóbada sustentada por modilhões, de
4,60m de altura e 1,60m de largura na base. Originariamente de 1m
de profundidade, mais uma cavidade fora aberta, nos tempos
medievais, no fundo do nicho, por caçadores de tesouros árabes que
andavam à procura de câmaras ocultas. Eles nada haviam
encontrado.
Egiptólogos tampouco conseguiram chegar a conclusões convincentes
sobre a função original do nicho ou, por falar nisso, da Câmara da
Rainha como um todo.
Tudo era confusão. Tudo era paradoxo. Tudo era mistério.
Instrumento
A Grande Galeria esconde também seus mistérios. Na verdade, ela
figura entre os mais misteriosos dos aspectos internos da Grande
Pirâmide. Medindo 2,04m de largura no nível do chão, suas paredes
sobem verticalmente a uma altura de 2,28m; acima desse nível, mais
sete carreiras de pedras de cantaria (todas elas se projetando para
dentro cerca de 7,5cm além da carreira imediatamente abaixo), levam
o teto abaulado à sua altura máxima, de 8,53m, e culminam em uma
largura de 1,03m.
O leitor precisa lembrar que, estruturalmente falando, a galeria deveria
suportar, para sempre, o peso de muitos milhões de toneladas dos
três quartos superiores do maior e mais pesado monumento de pedra
jamais construído no planeta Terra. Não era realmente notável que um
grupo de supostos "primitivos tecnológicos" tivessem não só
concebido e projetado tal monumento, mas tendo-o completado com
todo sucesso, cerca de 4.500 anos antes de nossa época?
Mesmo que tivessem construído a Galeria com apenas 7m de
comprimento e pensado em erigi-Ia em nível plano, a tarefa já teria
sido muito difícil - na verdade, dificílima. Mas haviam resolvido erigir
essa espantosa abóbada, sustentada por modilhões, a uma inclinação
de 26° e prolongar-lhe o comprimento para uns impressionantes
46,5m. Além do mais, haviam feito isso com megálitos de pedra
calcária perfeitamente aparelhada - blocos imensos, polidos até
ficarem macios, cortados e transformados em paralelogramas
inclinados e assentados tão juntos e com tanta precisão que as juntas
se tornaram invisíveis a olho nu.
Os construtores haviam ainda incluído nesse trabalho algumas
simetrias interessantes. A largura culminante da galeria no seu ápice,
por exemplo, é de 1,3m, com uma largura no piso de 2,4m. No centro
exato do piso, correndo por todo comprimento da galeria - e
espremido entre rampas de pedras planas de 50cm de largura - há um
canal rebaixado de 30cm de profundidade e 1,3m de largura. Qual
teria sido a finalidade desse entalhe? E por que tinha sido necessário
que correspondesse tão exatamente à largura e forma do teto, que
parecia também um "entalhe" espremido entre as duas carreiras
superiores de cantaria?
Eu sabia que não era o primeiro que, no início da Grande Galeria, fora
tomado pela impressão desorientadora de que "estava dentro de um
instrumento enorme de algum tipo". Quem poderia dizer que essas
intuições estavam inteiramente erradas? Ou, por falar nisso, que
estavam certas? Não havia qualquer registro sobre função, além de
referências místicas e simbólicas em certos textos litúrgicos egípcios
antigos. Esses textos pareciam indicar que as pirâmides haviam sido
consideradas como meios destinados a transformar mortos em seres
imortais, "em escancarar as portas do firmamento e abrir uma
estrada", de modo que o faraó morto pudesse "subir para a companhia
dos deuses".
Eu não tinha dificuldade em aceitar que esse sistema de crenças
pudesse ter estado em ação ali e, obviamente, ele poderia ter
fornecido um motivo para todo aquele trabalho. Não obstante, eu
continuava intrigado com a razão por que mais de seis milhões de
toneladas de aparelhos físicos, complicadamente interligados com
canais e tubos, corredores e câmaras, haviam sido considerados
necessários para atingir um objetivo místico, espiritual e simbólico.
Estar no interior da Grande Galeria dava-me a impressão de me
encontrar dentro de um enorme instrumento. A Galeria produzia um
inegável impacto estético sobre minha pessoa (reconheço, um
impacto pesado e dominador), mas também inteiramente destituído de
aspectos decorativos e de tudo (imagens de divindades, altos-relevos
de textos litúrgicos etc.) que pudessem sugerir adoração ou religião. A
impressão que ela produzia em mim era de funcionalismo e intenção
rigorosos - como se tivesse sido construída para realizar um certo tipo
de trabalho. Simultaneamente, eu me dava conta da concentrada
solenidade de estilo e gravidade demaneiras, que pareciam exigir
nada menos do que uma séria e completa atenção.
Por essa altura, eu havia subido ininterruptamente até cerca de
metade da galeria. À minha frente, e atrás de mim, sombras e luz
faziam brincadeiras entre as imponentes paredes de pedra. Parando,
virei a cabeça e olhei para cima através da escuridão do teto
arqueado, que sustentava o peso esmagador da Grande Pirâmide do
Egito.
De repente, assaltou-me o pensamento obcecante e inquietante de
como ela era velha e como toda minha vida dependia, nesse
momento, da perícia dos antigos construtores. Os grandes blocos que
forravam o teto distante eram exemplos dessa perícia - todos eles
assentados a um gradiente ligeiramente mais íngreme do que o da
galeria. Conforme observou o grande arqueólogo e topógrafo Flinders
Petrie, isso fora feito para quea borda inferior de cada pedra
encaixasse como um dente na engrenagem cortada no alto das
paredes, e daí, nenhuma pedra pode exercer pressão sobre a que
está embaixo, de modo a ocasionar uma pressão cumulativa através
de todo o teto, e cada pedra é separadamente sustentada pelas
paredes laterais que estão à sua frente.
E seria isso trabalho de um povo cuja civilização acabara de emergir
da caça-coleta de alimentos do período neolítico?
Comecei a subir novamente a galeria, usando o entalhe central de
60cm de profundidade. Um revestimento moderno, auxiliado por ripas
convenientes e corrimãos laterais, tornava a subida relativamente fácil.
Na antiguidade, contUudo, o chão fora de pedra calcária bem polida,
lisa, que, a um gradiente de 26°, devia ter sido quase impossível de
subir.
De que maneira fora feito isso? Teria sido feito, de fato?
Alteando-se à frente e no fundo da Grande Galeria, vi a abertura
escura da Câmara do Rei, chamando os peregrinos curiosos para
penetrar no âmago do enigma.
CAPÍTULO 38
Jogo Interativo Tridimensional
Chegando ao fim da Grande Galeria, passei por cima de um grosso
degrau de granito de uns 90cm de altura. Lembrei-me de que aquela
peça se encontrava, exatamente como o telhado da Câmara da
Rainha, ao longo do eixo leste-oeste da Grande Pirâmide, e, por
conseguinte, marcava o ponto de transição entre as metades norte e
sul do monumento. Tendo de certa maneira a aparência de um altar, o
degrau proporciona também uma sólida plataforma horizontal,
imediatamente de frente para o baixo túnel quadrado que serve de
entrada para a Câmara do Rei.
Parando por um momento, voltei a olhar para a galeria, notando, mais
uma vez, a falta de decoração, de iconografia religiosa e de todo e
qualquer simbolismo reconhecível geralmente associado ao sistema
de crenças arcaico dos antigos egípcios. Tudo que ficou gravado em
minha mente, juntamente com todos os 46,63m dessa magnífica
abertura geométrica, foi a regularidade como que casual e sua pura
simplicidade mecânica.
Erguendo a vista, consegui distinguir, ainda que com alguma
dificuldade, a boca de uma abertura escura, cortada no alto da parede
leste, acima de minha cabeça. Ninguém sabia quando ou por quem
esse agourento buraco fora aberto ou até que profundidade penetrara
inicialmente. A abertura leva à primeira das cinco câmaras de
descarga acima da Câmara do Rei e foi prolongada em 1837, ocasião
em que Howard Vyse a usou para abrir caminho para as quatro
restantes. Olhando novamente para baixo, pude distinguir, ainda que
precariamente, o ponto na parte inferior da parede oeste da galeria,
onde a chaminé quase vertical iniciava sua vertiginosa descida de
48m para encontrar-se com o corredor descendente, bem abaixo do
nível do chão.
Por que havia sido necessário todo esse complicado sistema de canos
e passagens? À primeira vista, a coisa não fazia sentido. Mas,
também, nada na Grande Pirâmide fazia muito sentido, a menos que
estivéssemos dispostos a dedicar muita atenção a ela. De maneiras
imprevistas, quando fazíamos isso, ela, uma vez por outra, nos
recompensava.
Se você fosse suficientemente bom em matéria de números, por
exemplo, a pirâmide, conforme vimos acima, responderia a suas
perguntas sobre a altura e perímetro da base, "imprimindo" o valor de
pi. E, se você estivesse disposto a investigar ainda mais, conforme
veremos, ela faria o download de outros úteis fragmentos
matemáticos, cada um deles mais complexo e mais difícil de
compreender que o anterior.
Havia uma sensação programada a respeito de todo esse processo,
como se ele tivesse sido pré-arranjado com o máximo cuidado. Não
pela primeira vez, quando dei por mim estava querendo pensar na
possibilidade de que a pirâmide pudesse ter sido projetada como um
gigantesco desafio ou como uma máquina didática - ou, melhor ainda,
como um quebra-cabeça tridimensional interativo, colocado no deserto
para que a humanidade o solucionasse.
A Antecâmara
Tendo apenas 1,65m de altura, a entrada para a Câmara do Rei exige
que todo ser humano de estatura normal se abaixe. Cerca de 1,20m
adiante, porém, cheguei à "Antecâmara", onde o nível do telhado sobe
inesperadamente para 3,65m acima do chão. As paredes leste e oeste
da Antecâmara são de granito vermelho, no qual haviam sido
entalhados quatro pares opostos de largos sulcos paralelos, que
egiptólogos pensam que sustentaram grossas lajes levadiças (tipo
guilhotina). Três desses pares desulcos desciam até o chão e
estavam vazios. O quarto (o mais ao norte) só havia sido cortado até o
nível do teto da passagem de entrada (isto é, 1,3m acima do nível do
chão) e continha ainda uma grossa folha de granito, talvez de 22cm de
espessura e 1,82m de altura. Há um espaço horizontal de apenas 91
cm entre essa pedra levadiça e a extremidade norte da entrada, pela
qual eu acabava de passar. Notei ainda uma abertura de pouco mais
de 60cm de profundidade entre a parte mais alta da pedra levadiça e o
teto. Qualquer que fosse a função para a qual devia servir, era difícil
concordar com a opinião dos egiptólogos, de que essa estrutura
peculiar fora ali construída para impedir o acesso de ladrões de
sepulturas.
Realmente confuso, passei por baixo dela e me espiguei novamente
na parte sul da Antecâmara, que tinha cerca de 3,48m de
comprimento e mantinha a mesma altura do teto, de 3,65cm. Embora
muito desgastados, os sulcos destinados às três "peças levadiças"
restantes continuavam ainda visíveis nas paredes leste e oeste.
Nenhum sinal havia das próprias lajes e, na verdade, era difícil
compreender como peças tão pesadas de pedra poderiam ter sido
instaladas em um espaço de trabalho tão exíguo.
Lembrei-me que Flinders Petrie, que realizara um levantamento
topográfico sistemático da necrópole de Gizé em fins do século XIX,
fizera comentários sobre um quebra-cabeças semelhante, que
encontrara na Segunda Pirâmide: "As peças levadiças de granito na
passagem inferior mostram grande habilidade na movimentação de
massas, uma vez que seriam necessários de 40 a 60 homens para
erguê-Ias. Ainda assim, elas foram erguidas e colocadas no lugar em
uma passagem estreita, onde apenas uns poucos homens podiam
alcançá-Ias"'. Exatamente as mesmas observações aplicavam-se às
peças levadiças da Grande Pirâmide, se eram lajes levadiças - isto é,
portas capazes de ser erguidas e baixadas.
O problema era que a física de içamento e abaixamento exigia que
elas fossem mais curtas do que toda a altura da Antecâmara, de modo
que pudessem ser puxadas para dentro do espaço do teto, a fim de
permitir a entrada e saída de pessoas habilitadas, antes do
fechamento da tumba. Isso significava, claro, que quando as bordas
da parte inferior das lajes descessem até o chão para bloquear a
Antecâmara nesse nível, um espaço igual e oposto teria sido aberto
entre as bordas superiores das lajes e o teto, através do qual qualquer
ladrão de sepulturas empreendedor teria certamente podido passar.
A Antecâmara qualificava-se, sem a menor dúvida, como outro dos
muitos intrigantes paradoxos da pirâmide, nos quais a complexidade
da estrutura era combinada com uma função aparentemente sem
sentido.
Um túnel de saída, da mesma altura e largura do de entrada e
revestido de granito vermelho maciço, abre-se a partir da parede sul
da Antecâmara (também de granito, mas incorporando uma camada
de pedra calcária de 30cm na parte mais alta). Cerca de 2,70m
adiante, o túnel desemboca na Câmara do Rei, uma sala vermelha
escura, feita inteiramente de granito, que projeta uma atmosfera de
prodigiosa energia e poder.
Enigmas em Pedra
Dirigi-me para o centro da Câmarado Rei, cujo eixo longo está
perfeitamente orientado no sentido leste-oeste e, o mais curto, em
perfeita orientação norte-sul. A Câmara tem exatamente 5,81m de
altura e forma um retângulo exato de dois por um, medindo
exatamente 10,42m de comprimento por 5,21m de largura. Com um
piso formado por 15 maciças pedras de pavimentação e paredes
compostas de 100 gigantescos blocos de granito, cada um deles
pesando 70 toneladas ou mais e assentados em cinco carreiras, com
um teto que se estende por mais nove blocos de granito, cada um
deles pesando aproximadamente 50 toneladas, o efeito é de uma
compressão intensa e esmagadora.
Na extremidade oeste da Câmara, há um objeto que, se fôssemos dar
crédito aos egiptólogos, toda a Grande Pirâmide fora construída para
abrigar. Esse objeto, talhado em uma única peça de granito escuro,
cor de chocolate, contendo grânulos especialmente duros de
feldspato, quartzo e mica, é o caixão sem tampa que se presumia ter
sido o sarcófago de Khufus. No interior, suas medidas são de 1,98m
de comprimento, 86,5cm de profundidade e 68cm de largura. As
medidas externas são de 2,27m de comprimento, 1,04m de altura, e
1,02m de largura, 2,5cm a mais, incidentalmente, para que tivesse
sido trazido através da entrada (nesse momento fechada) do corredor
ascendente.
Alguns jogos matemáticos de rotina haviam sido inseridos nas
dimensões do sarcófago. A peça, por exemplo, tem um volume interno
de 1.166,4 litros e um volume externo de exatamente o dobro, isto é,
2.332 litros. Essa coincidência exata não poderia ter acontecido por
acaso: as paredes da urna funerária haviam sido cortadas com
tolerâncias da idade da máquina, por artesãos de imensa perícia e
experiência. Parecia, além disso, como reconheceu Fliders Petrie com
alguma perplexidade, após completar o exaustivo levantamento das
medidas da Grande Pirâmide, que esses artesãos tiveram acesso a
ferramentas "que nós mesmos só agora reinventamos...”
Petrie examinou com cuidado especial o sarcófago e concluiu que a
peça devia ter sido cortada de seu bloco de granito circundante com
uma serra reta de 2,50m de comprimento ou mais. Uma vez que o
granito em causa era extremamente duro, ele só podia presumir que
as serras deviam ter usado lâminas de bronze (o metal mais duro
supostamente disponível na época) com "pontos de corte" de pedras
preciosas ainda mais duras: "O caráter do trabalho indica certamente
o diamante como tendo sido a pedra preciosa usada no corte e só as
considerações de sua raridade em geral e ausência no Egito é que
interferem nesta conclusão..."
Um mistério ainda mais profundocercava a operação de tornar
côncavo o sarcófago, obviamente umtrabalho muito mais difícil do
que separá-Io de um bloco de rocha. Neste particular, Petrie concluiu
que os egípcios deveriam ter adaptado seus princípios de trabalho de
serralharia e lhes dado uma forma circular, e não mais retilinear,
encurvando a lâmina em volta de um tubo, que abria um orifício
circular através de rotação. Dessa maneira, desgastando os núcleos
de pedra deixados nos sulcos, conseguiam abrir grandes buracos com
um mínimo de trabalho. Essas furadeiras circulares variavam em
diâmetro de 5/4 a 5 polegadas e de 1/30 a 1/5 de espessura...
Claro, como reconheceu Petrie, nenhuma furadeira ou serra com
dentes de diamante jamais foi encontrada pelos egiptólogos. A prova
visível dos tipos de perfuração e trabalho de serralharia que haviam
sido feitos, contudo, levaram-no a inferir que esses instrumentos
deviam ter existido na época. Ele ficou particularmente interessado por
esse assunto e ampliou o estudo para incluir não só o sarcófago da
Câmara do Rei, mas numerosos outros artefatos de granito e "núcleos
de perfuração" que colecionou em Gizé. Quanto mais aprofundava a
pesquisa, contudo, mais misteriosa se tornava a tecnologia de corte
de pedra dos antigos egípcios:
O volume de pressão, demonstrado pela rapidez com que as
furadeiras e serras penetravam nas pedras duras, é motivo de grande
surpresa. Provavelmente, uma carga de uma ou duas toneladas era
aplicada às furadeiras de quatro polegadas que cortavam o granito.
No núcleo de granito número 7, a espiral do corte penetrou uma
polegada na circunferência de 6 polegadas, com uma taxa de
desbastamento espantosa. (...) Esses rápidos sulcos em espiral de
maneira alguma podem ser atribuídos a outra coisa que à descida da
furadeira no granito sob enorme pressão...
Não era estranho que, no suposto início da civilização humana, há
mais de 4.500 anos, os antigos egípcios tivessem adquirido o que
parece ser perfuratrizes da era industrial, com uma pressão de uma
tonelada ou mais e capaz de fatiarpedras duras como uma faca
quente na manteiga?
Petrie nenhuma explicação conseguiu dar para esse enigma.
Tampouco pôde explicar o tipo de instrumento usado para cortar
hieróglifos em certo número de tigelas de diorita, com inscrições da
Quarta Dinastia, que descobriu em Gaza: "Os hieróglifos foram
cortados com ponta livre. Não foram arranhados nem desbastados,
mas abertos na diorita, com bordas nítidas acompanhando as linhas..."
Esse fato incomodou o lógico Petrie, porque ele sabia que a diorita é
uma das pedras mais duras existentes na terra, muito mais dura do
que o ferro. Ainda assim, estava sendo cortada no Egito antigo com
incrível força e precisão por alguma ferramenta de gravação ainda não
identificada:
Uma vez que as linhas têm apenas 1/150 de polegada de largura, é
evidente que a ponta cortante deve ter sido muito mais dura do que o
quartzo e resistente o suficiente para não se partir, quando um gume
tão fino estava sendo usado, provavelmente com largura de apenas
1/200 de polegada. As linhas paralelas foram gravadas a apenas 2/30
de separação de centro para centro.
Em outras palavras, ele imaginava um instrumento com uma ponta
aguçada como agulha, de dureza excepcional, sem precedentes,
capaz de penetrar e abrir sulcos com a maior facilidade na diorita e de
suportar também as enormes pressões necessárias durante toda a
operação. Que tipo de instrumento era esse? Através de que meios a
pressão fora aplicada? Como puderam os egípcios manter a precisão
suficiente para riscar linhas paralelas a intervalos de apenas 1/30 de
polegada?
Pelo menos, era possível evocar uma imagem mental de furadeiras
circulares com dentes de diamante, que Petrie supunha que deveriam
ter sido usadas para se obter a concavidade do sarcófago da Câmara
do Rei. Descobri, contudo, que não era fácil fazer a mesma coisa no
tocante ao instrumento desconhecido capaz de riscar hieróglifos em
diorita no ano 2500 a.C., ou, de qualquer outro modo, sem supor a
existência de um nível de tecnologia muito mais alto do que os
egiptólogos estavam dispostos a aceitar.
Mas o caso não dizia respeito apenas a alguns hieróglifos e tigelas de
diorita. Em minhas primeiras viagens pelo Egito, eu havia examinado
muitos vasos de pedra - datando alguns deles, em alguns casos, dos
tempos pré-dinásticos que haviam sido misteriosamente escavados
em forma côncava em uma grande faixa de material, tais como diorita,
basalto, quartzo, cristal existo metamórfico.
Mais de 30.000 desses vasos, por exemplo, haviam sido encontrados
nas câmaras situadas sob a Pirâmide Escalonada de Zóser, em
Saqqara, da época da Terceira Dinastia. Esse fato significa que os
vasos eram, pelo menos, tão velhos quanto o próprio Zóser (isto é,
cerca de 2.650 anos a.C.). Teoricamente, poderiam ter sido ainda
mais antigos do que isso, uma vez que vasos idênticos tinham sido
descobertos em estratos pré-dinásticos datados de 4.000 anos a.C. e
ainda antes, porque o costume de legar objetos de grande valor de
uma geração a outra estava profundamente enraizado no Egito desde
tempos imemoriais.
Tivessem sido feitos no ano 2500 a.C., no ano 4000 a.C., ou mesmo
antes, os vasos de pedra da Pirâmide Escalonada eram notáveis por
seu fino acabamento artesanal, que, mais uma vez, parecia ter sido
conseguido através de alguma ferramenta sequer imaginada (e, na
verdade, quase inimaginável).
Por que inimaginável? Porque muitos dos vasos eram altos, com
longos, finos e elegantes pescoços e interiores muito abertos, não raro
incluindo asas inteiramente ocas. Nenhum instrumento ainda
inventado era capaz de escavar e de dar a vasos formas como essas,
porque ele teria que ser ainda mais estreito para passar através dos
pescoços e suficientemente forte (e da forma certa) para ter escavado
as asas e o interior redondo. E de que maneira pressão suficiente para
cima e para fora poderia ter sido gerada e aplicada dentro de vasos
para se obter esses resultados?
Os vasos altos não foram absolutamente os únicos de tipo enigmático
desencavados na Pirâmide de Zóser e em certo número de outros
sítios arcaicos. Foram encontradas urnas monolíticas com alças
ornamentais delicadas, deixadas na parte externa pelos artesãos. E
foram descobertas também tigelas, mais uma vez com pescoços
estreitos como os vasos e com interior bem largo, arredondado. E não
faltaram tigelas abertas e frascos quase microscópicos e ocasionais
objetos estranhos em forma de roda, cortados em xisto metamórfico,
com bordas enroladas para dentro tão finas que eram quase
translúcidas. Em todos os casos, o que causava realmente
perplexidade era a precisão com que haviam sido trabalhadas as
partes interna e externa desses vasos para corresponder uma à outra
- curva à curva - em superfícies macias e polidas, sem nenhuma
marca visível de ferramenta.
Não havia, ao que se soubesse, tecnologia disponível na época, com
a qual os antigos egípcios pudessem obter esses resultados. Nem, por
falar nisso, qualquer gravador moderno em pedra poderia ficar à altura
deles, mesmo que trabalhasse com as melhores ferramentas de
carboneto de tungstênio. A implicação, portanto, é que uma tecnologia
desconhecida ou secreta foi usada no antigo Egito.
A Cerimônia do Sarcófago
De pé na Câmara do Rei, virado para o oeste - a direção da morte
entre os antigos egípcios e os maias -, descansei levemente as mãos
sobre a borda granítica áspera do sarcófago que, insistem os
egiptólogos, fora construído para abrigar o corpo de Khufu. Olhei para
sua escura profundidade, para o lugar onde a fraca iluminação elétrica
da tumba parecia ter dificuldade de penetrar e vi partículas de poeira
girando em uma nuvem dourada.
Era simplesmente um efeito de luz e sombra, claro, muito embora a
Câmara do Rei estivesse cheia dessas ilusões. Lembrei-me que
Napoleão Bonaparte passou uma noite sozinho aqui, durante a
conquista do Egito, em fins do século XVIII. Na manhã seguinte,
reapareceu pálido e abalado, tendo experimentado alguma coisa que
o perturbou profundamente, mas sobre a qual jamais disse coisa
alguma.
Teria ele tentado dormir no sarcófago?
Obedecendo a um impulso, entrei no grande caixão de granito e me
deitei, rosto para cima, os pés apontados para o sul e a cabeça para o
norte.
Napoleão era baixote, de modo que deve ter se encaixado
confortavelmente ali. Para mim havia também espaço suficiente. Mas
Khufu estivera também ali?
Relaxei e tentei não me preocupar com a possibilidade de um dos
guardas da pirâmide entrar e me encontrar nessa posição embaraçosa
e, possivelmente, proibida. Na esperança de não ser perturbado
durante alguns minutos, cruzei as mãos sobre o peito e soltei um som
baixo e contínuo - algo que eu havia tentado várias vezes antes em
outros pontos da Câmara do Rei. Nessas ocasiões, no centro do piso,
eu havia notado que as paredes e teto pareciam captar o som, isolá-lo, amplificá-Io e projetá-Io de volta a mim, de tal modo que pude
sentir as vibrações refletidas através dos pés, couro cabeludo e pele.
Nesse momento, dentro do sarcófago, senti mais ou menos o mesmo
efeito, embora aparentemente amplificado e concentrado muitas
vezes. Era como estar na caixa de ressonância de algum gigante, em
um instrumento musical ressonante destinado a emitir para sempre
apenas uma nota reverberante. O som era intenso e profundamente
perturbador. Imaginei-o saindo do sarcófago e refletindo-se das
paredes e teto de granito, subindo com grande rapidez através dos
poços de "ventilação" sul e norte e espalhando-se pelo platô de Gizé
como uma nuvem sônica em forma de cogumelo.
Com essa visão ambiciosa em mente, e com o som de minha nota em
baixo timbre ecoando nos ouvidos e fazendo o sarcófago vibrar ao
meu redor, fechei os olhos. Quando os abri, seis minutos depois, vi um
espetáculo embaraçoso: seis turistas japoneses, de idades e sexos
variados, haviam se reunido em torno do sarcófago - dois deles a
leste, dois a oeste e um em cada uma das faces norte e sul.
Todos eles olharam para mim... atônitos. E também fiquei assim ao
vê-Ios. Devido a ataques recentes de extremistas islâmicos, quase
não havia mais turistas em Gizé e eu esperara ter a Câmara do Rei só
para mim.
O que é que fazemos em uma situação como essa?
Reunindo tanta dignidade quanto pude, sentei-me e comecei a
espanar a roupa. Os japoneses recuaram um passo e saltei do
sarcófago. Adotando um jeitão sério e tranqüilo, como se fizesse
coisas assim o tempo todo, dirigi-me ao ponto, a dois terços do
caminho ao longo da parede norte da Câmara do Rei, onde se localiza
a entrada que os egiptólogos chamam de "poço de ventilação norte", e
comecei a examiná-Io cuidadosamente.
Medindo 20,22cm de largura por 22,86cm de altura, eu sabia que o
túnel tinha mais de 60m de comprimento e que se abria para o ar livre
na carreira 103 da cantaria. Presumivelmente por intenção, e não por
acaso, a boca do túnel aponta para as regiões circumpolares dos céus
do norte, a um ângulo de 32°. Essa orientação, na Era da Pirâmide,
por volta do ano 2500 a.C., teria significado que ela se dirigia para o
zênite de Alfa Draconis, uma estrela importante na constelação do
Dragão.
Para grande alívio meu, os japoneses terminaram rapidamente a visita
à Câmara do Rei e foram embora, encurvando-se, sem um olhar para
trás. Logo que eles saíram, dirigi-me para o outro lado da câmara para
dar uma olhada no poço de ventilação sul. Uma vez que havia estado
ali alguns meses antes, notei que sua aparência mudara
horrivelmente. A boca continha nesse momento uma maciça unidade
elétrica de ar condicionado, instalada por Rudolf Gantenbrink, que
nessa mesma ocasião dirigia a atenção para as negligenciadas
chaminés da Câmara da Rainha.
Alguns egiptólogos estavam convencidos de que as chaminés na
Câmara do Rei haviam sido construídas para fins de ventilação e nada
viam de estranho em usar tecnologia moderna para aumentar a
eficiência dessa função. Ainda assim, túneis horizontais não teriam
sido mais eficientes do que inclinados, se o objetivo principal fosse
ventilar, e mais fáceis de construir? Por isso mesmo, provavelmente
não era por acaso que a chaminé sul da Câmara do Rei estivesse
voltada para os céus do sul a um ângulo de 45°. Durante a Era da
Pirâmide, esta era a localização do trânsito do meridiano de Zeta
Orionis, a mais baixa das três estrelas do Cinturão de Órion - um
alinhamento, como eu descobriria em tempo oportuno, que revelaria
ser da mais alta importância para pesquisas futuras sobre a pirâmide.
O Mestre do Jogo
Nesse momento, eu tinha, mais uma vez, a Câmara só para mim. Fui
até a parede oeste, no lado mais distante do sarcófago, e virei para o
leste.
A imensa câmara tinha uma capacidade interminável de gerar
indicações de jogos matemáticos. Sua altura (5,7m) era exatamente a
metade do comprimento da diagonal do chão (11,41 m). Além disso,
uma vez que a Câmara do Rei forma um retângulo perfeito de 1 x 2,
seria concebível que seus construtores não soubessem que haviam
feito com que ela expressasse e exemplificasse a "seção áurea”?
Conhecido como phi, a seção áurea é outro número irracional, tal
como o pi, que não pode ser encontrado aritmeticamente. Seu valor é
a raiz quadrada de 5 mais 1 dividido por 2, que equivale a 1,6180327.
Descobriu-se que este é o "valor limite da razão entre números
sucessivos na série Fibonacci - a série de números que começa com
0, 1, 2, 3, 5, 8, 13 - na qual cada termo é a soma dos dois termos
anteriores".
Pode-se ainda obter o phi esquematicamente, dividindo uma linha A-B
em um ponto C, isto de tal maneira que toda a linha A-B seja mais
longa do que a primeira parte, A-C, na mesma proporção que a
primeira parte, A-C, seja mais longa do que o resto, C-B. Essa
proporção, que se descobriu ser muito harmoniosa e agradável à
vista, foi supostamente descoberta pelos gregos pitagóricos, que a
incorporaram ao Parthenon, em Atenas. Não há absolutamente
dúvida, porém, que phi foi ilustrado graficamente e obtido pelo menos
2.000 anos antes na Câmara do Rei da Grande Pirâmide de Gizé.
A fim de compreendê-lo, é necessário imaginar o piso retangular da
Câmara como dividido em dois quadrados imaginários de igual
tamanho, dando-se ao comprimento do lado de cada quadrado o valor
de 1. Se um desses dois quadrados for dividido pela metade,
formando, dessa maneira, dois novos retângulos, e se a diagonal do
retângulo mais próximo da linha central da Câmara do Rei fosse
girada para a base, o ponto onde sua ponta tocasse a base seria o
phi, ou 1,618, em relação ao comprimento do lado (isto é, 1) do
quadrado original. (Uma maneira alternativa de obter phi, incluído
também nas dimensões da Câmara do Rei, é mostrada a seguir.)
Desde o próprio início de sua história dinástica, o Egito herdou, de
predecessores desconhecidos, um sistema de medições. Expressado
nessas medidas antigas, as dimensões do piso da Câmara do Rei
(20,36m x 10,25m) são exatamente iguais a 20 x 10 "côvados reais",
enquanto que a altura das paredes laterais até o teto é de exatamente
11,18 côvados reais. A semi-diagonal do piso (A-B) é também,
exatamente, de 11,18 côvados reais e pode ser "girada" para C, a fim
de confirmar a altura da câmara. Phi é definido matematicamente
como a raiz quadrada de 5+1+2, isto é, 1,618. Será uma coincidência
que a distância C-D (isto é, a altura da parede da Câmara do Rei,
mais a metade da largura de seu piso) seja igual a 16,18 côvados
reais, incorporando, dessa maneira, os números essenciais de phi?

CONTINUA.....

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