domingo, julho 29, 2012

Coleção Zecharia Sitchin Livro 1 / O 12º Planeta - 1ª PARTE

OLÁ MEUS AMIGOS,VOU AGORA RESUMIR UM POUCO QUEM É ZECHARIA SITCHIN ANTES DE COMEÇAR A POSTAR A PRIMEIRA PARTE DO LIVRO 1 ( O 12º PLANETA )
Zecharia Sitchin

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Zecharia Sitchin (Baku, 11 de julho de 1920 - 9 de outubro de 2010)[1] foi um autor de livros defendendo uma versão da teoria dos astronautas antigos para a origem da humanidade. Ele atribui a criação da antiga cultura suméria aos "anunnaki" (ou "nefilim"), uma raça extraterrestre nativa de um planeta chamado Nibiru, que se encontraria nos confins do Sistema Solar. Ele afirma que a mitologia suméria é a evidência disto, embora suas especulações sejam descartadas pela maioria dos cientistas[2], historiadores e arqueólogos convencionais, que discordam de sua tradução dos textos antigos e de sua interpretação da física.[3][4]


Idéias

De acordo com a interpretação que Sitchin faz da cosmologia suméria, haveria um planeta desconhecido de nossa ciência que segue uma órbita elíptica e demorada, passando pelo interior do Sistema Solar a cada 3.600 anos. Este planeta chamaria-se Nibiru (associado ao deus Marduk na cosmologia babilônia). Segundo Sitchin, Nibiru teria colidido catastroficamente com Tiamat, outro planeta hipotético, localizado por Sitchin entre Marte e Júpiter. Esta colisão supostamente teria formado o planeta Terra, o cinturão de asteróides, e os cometas. Tiamat, conforme descrito no Enuma Elish, o épico da Criação mesopotâmico, é uma deusa. De acordo com Sitchin, contudo, Tiamat era o que é agora conhecido como Terra. Quando atingido por uma das duas luas do planeta Nibiru, Tiamat teria partido-se em dois. Numa segunda passagem, o próprio Nibiru teria atingido os fragmentos e metade Tiamat tornaria-se o cinturão de asteróides. A segunda metade, novamente atingida por uma das luas de Nibiru, seria empurrada para uma nova órbita e tornaria-se o atual planeta Terra.

Este cenário é dificil de ser conciliado com a atual pequena excentricidade orbital da Terra de apenas 0,0167. Os defensores de Sitchin mantém que isso explicaria a peculiar geografia antiga da Terra, devido à acomodação após a colisão celeste, entenda-se, continentes sólidos de um lado e um oceano gigantesco do outro. Embora isto seja consistente com a hipótese do impacto gigante que teria originado a Lua, estima-se que esse acontecimento tenha ocorrido 4, 5 bilhões de anos atrás.

O cenário delineado por Sitchin, com Nibiru retornando ao interior do Sistema Solar regularmente a cada 3.600 anos, implica numa órbita com um eixo semi-principal de 235 unidades astronômicas, estendendo-se do cinturão de asteróides até 12 vezes mais distante do Sol que Plutão. "A teoria da perturbação elementar indica que, sob as circunstâncias mais favoráveis de escapar-se de impactos diretos com outros planetas, nenhum corpo com uma órbita tão excêntrica conseguiria manter o mesmo período por duas passagens consecutivas. Dentro de doze órbitas, o objeto seria expulso ou converter-se-ia num corpo de período breve. Portanto, a busca por um planeta transplutoniano por T. C. Van Flandern, do Observatório Naval dos EUA, que Sitchin usa para justificar sua tese, não se sutenta", afirmou C. Leroy Ellenberger, em seu artigo Marduk Unmasked, em Frontiers of Science, de maio-junho de 1981.

De acordo com a teoria de Sitchin, "posto isto, a partir de um começo equilibrado, os nefilim evoluíram em Nibiru 45 milhões de anos à frente do desenvolvimento comparado na Terra, com seu ambiente claramente mais favorável." Ainda segundo Ellenberger em seu artigo, "Tal resultado é improvável, para dizer o mínimo, uma vez que Nibiru passaria 99% de seu período além de Plutão. A explicação de Sitchin que o calor de origem radioativa e uma grossa atmosfera manteriam Nibiru aquecido é absurda e não resolve o problema da escuridão no espaço profundo. Também inexplicado é como os nefilim, que evoluíram muito depois da chegada a Nibiru, sabiam o que aconteceu com o planeta quando entrou pela primeira vez no Sistema Solar."

De acordo com Sitchin, Nibiru era o lar de uma raça extraterrestre humanóide e tecnologicamente avançada chamada de anunnaki no mito sumério, que seriam os chamados nefilim da Bíblia. Ele afirma que eles chegaram à Terra pela primeira vez provavelmente 450.000 anos atrás, em busca de minérios, especialmente ouro, que descobriram e extraíram na África. Esses "deuses" eram os militares e pesquisadores da expedição colonial de Nibiru ao planeta Terra. Sitchin acredita que os annunaki geraram o Homo Sapiens através de engenharia genética para serem escravos e trabalharem nas minas de ouro, através do cruzamento dos genes extraterrestres com os do Homo Erectus. Ele afirma que inscrições antigas relatam que a civilização humana de Sumer na Mesopotâmia foi estabelecida sob a orientação destes "deuses", e a monarquia humana foi instalada a fim de prover intermediários entre a humanidade e os annunaki. Ele crê que a radioatividade oriunda de armas nucleares usadas durante uma guerra entre facções dos extraterrestres seja o "vento maligno" que destruiu Ur por volta de 2000 a.C. (segundo ele, o ano exato seria 2024 a.C.),[5] descrito no Lamento por Ur. Ele afirma que sua pesquisa coincide com muitos textos bíblicos, e estes seriam originários de textos sumérios.

Em agosto de 2002 o Museu Britânico em Londres revelou caixas não abertas encontradas no porão do museu da época de Woolley contendo esqueletos das Tumbas Reais de Ur de uma deusa rainha, depois descoberta como Ninpuabi, filha de NINSUN (anunnaki) + LUGALBANDA (semi-deus anunnaki), sendo Irmã mais nova de Gilgamesh, o mesmo das tábuas sumérias, neta de INANNA, que era NETA DE ANU rei de Nibiru.

Procurando saber se haveria planos para examinar DNA nesses ossos, o Sr. Sitchin entrou em contato com o museu. Educadamente ele foi informado de que não havia planos para tal. Através de petições ao museu, o mesmo desejava fazer o mapeamento genético da deusa e compará-lo ao humano, mostrando assim nosso parentesco extraterrestre. Logo antes de falecer, o Sr. Zecharia Sitchin esteve internado devido a um grave problema abdominal. Quando saiu do hospital, ele expressou seu desejo (último desejo): "Depois de algum repouso espero voltar à plena atividade relacionada ao meu livro mais recente, e ao Projeto Genoma da Deusa de Ur." Porém nunca chegou a finalizar esse projeto.

Críticas

Quando Sitchin escreveu seus livros, apenas os especialistas podiam ler a linguagem suméria, mas agora qualquer um pode conferir suas traduções através de um livro de 2006, o Sumerian Lexicon. As traduções de Sitchin de palavras isoladas e de partes maiores de textos antigos tem sido consideradas equivocadas. [6]

A perspectiva da "colisão planetária" por Sitchin tem ligeira semelhança com uma teoria levada a sério por astrônomos modernos - a teoria do impacto gigante sobre a formação da Lua há cerca de 4,5 bilhões de anos por um corpo chocando-se com a recém-formada Terra. Contudo, a proposta de Sitchin de uma série de colisões planetárias desgarradas difere em detalhes e sincronia. Como na tese anterior de Immanuel Velikovsky em Worlds in Collision, Sitchin afirma ter achado evidências de antigos conhecimentos humanos sobre movimentos celestes desgarrados em diversos relatos míticos. [carece de fontes] No caso de Velikovsky, estas colisões interplanetárias eram passíveis de ocorrerem dentro do período da existência humana, enquanto que para Sitchin estas ocorreram durante os primeiros estágios da formação planetária, mas entraram para o relato mitológico através da raça extraterrestre que supostamente evoluiu em Nibiru após estes choques.

Sitchin baseia seus argumentos em suas interpretações pessoais [carece de fontes] de textos pré-nubianos e sumérios e no selo VA 243. Ele afirma que estas civilizações antigas tinham conhecimento de um décimo-segundo planeta, quando de fato, mesmo somando-se o Sol e a Lua, eles conheciam apenas sete corpos celestes, todos chamados por eles de "planetas".

Centenas de selos e calendários astronômicos sumérios tem sido decodificados e registrados, e a contagem total de planetas verdadeiros em cada selo é de cinco. [carece de fontes] O selo VA 243 tem 12 pontos que Sitchin identifica como sendo planetas. Quando traduzido, o selo VA 243 diz, "Tu é seu servo", o que agora considera-se uma mensagem de um nobre a um servo. De acordo com o semitologista Michael S. Heiser, o suposto Sol no selo VA 243 não é o símbolo sumério para o Sol, mas uma estrela, e os pontos também são estrelas. O símbolo no selo VA 243 não tem semelhança com o mesmo símbolo do Sol em centenas de inscrições sumérias.

Idéias semelhantes foram exploradas por autores como Immanuel Velikovsky, Erich von Däniken, Alan F. Alford e Laurence Gardner. Alford mais tarde reviria suas opiniões e criticaria a interpretação que Sitchin faz dos mitos. [carece de fontes]

Influência

O Raelismo, a religião idolatradora de OVNIs fundada por Claude Vorilhon, tira muitas de suas crenças da obra de Sitchin, bem como a religião Nuwaubiana fundada por Dwight York.

Zetatalk, o culto na internet fundado pela auto-proclamada contatada Nancy Leider, descreve o "Planeta X", um grande objeto que afirmam colidirá com a Terra, como "Nibiru" em referência às teorias de Sitchin.

David Icke e Alex Collier também baseiam-se no trabalho de Sitchin em suas teorias de conspiração.

Bibliografia de Sitchin

  • O 12ºPlaneta
  • A Escada para o Céu
  • O Livro Perdido de Enki
  • Guerra de Deuses e Homens
  • Os Reinos Perdidos
  • Gênesis Revisitado
  • O Começo do Tempo
  • Encontros Divinos
  • O Código Cósmico
  • O Fim dos Dias
  • There Were Giants Upon the Earth - Havia Gigantes sobre a Terra (2010) último livro sem tradução ainda para o português

Referências

  1. Ronald Story, ed., The Encyclopedia of Extraterrestrial Encounters, (New York New American Library, 2001), s.v. "Zecharia Sitchin," pp. 552.
  2. Nibiru e o fim do mundo, Prof. Renato Las Casas, UFMG
  3. Sitchin Zecharia Sitchin. The Skeptic's Dictionary. Página visitada em 2009-09-18.
  4. Falleció Zecharia Sitchin, el hombre que hizo conocido el Planeta X y que ligó nuestro origen a los extraterrestres “Anunnaki” (em espanhol).
  5. Evil Wind web page
  6. Sitchin Is Wrong. Sitchin Is Wrong. Página visitada em 2012-05-01.

Os 223 Genes (de Sitchin)

imagem de quem Adão — o protótipo dos humanos modernos, Homo Sapiens – foi criado?”. É com essa pergunta que Zecharia Sitchin, autor do livro O 12o Planeta, nos introduz a descoberta de genes “enigmáticos”, parte do anúncio feito pelo consórcio internacional do projeto Genoma em fevereiro de 2001.

Em um sumário de suas descobertas preliminares publicado no periódico Nature, no meio de 150 páginas dedicadas ao tema, o projeto internacional apresentava onze importantes achados – entre eles o de que 223 de nossos genes “parecem ter sido transferidos de uma gama de espécies bacterianas”, em uma transferência horizontal na árvore evolutiva.

Em outras palavras, parte de nosso magnífico genoma não seria fruto de uma contínua evolução que foi selecionando de nossos ancestrais mais remotos ao lindo bebê Homo Sapiens à sua frente, mas teria em algum momento de nossa história adentrado direta e clandestinamente de simples bactérias!

Zecharia Sitchin logo entraria clandestinamente nesta história científica, com sua nota intitulada:

“O caso dos genes alienígenas de Adão”
Sitchin defende que nós fomos criados através de engenharia genética por seres extraterrestres, os Anunnaki de Nibiru (o “12o planeta”), e teríamos sido feitos “à sua semelhança” a partir de hominídeos que habitavam este primitivo planeta quando de sua visita.

Na nota, ele encaixa os 223 genes em suas histórias, aparentemente sem muitos problemas. Primeiro, é preciso notar como o cerne desta descoberta seria o de que temos genes em comum com bactérias. E enquanto os cientistas sugeriram que foram justamente inseridos por e elas e delas, também teriam notado que “não está claro se a transferência foi de humanos a bactérias ou de bactérias a humanos”. As bactérias poderiam ter adquirido os genes de nós. Nesse caso então o quê teria inserido esses genes? Ou quem? E de onde?

“Leitores de meus livros devem estar sorrindo agora, pois já sabem a resposta”, escreve Sitchin. Extraterrestres, é claro, os Annunaki. Eles “vieram à Terra há aproximadamente 450.000 anos” em busca de ouro. Depois de 150.000 anos, exaustos, resolveram criar sua mão-de-obra: “Enki — o cientista chefe — iniciou um processo de engenharia genética, adicionando e combinando genes dos Anunnaki com os dos hominídeos já existentes”. E o resultado foi nada menos que nós, Homo sapiens, a mão-de-obra terrestre para os extraterrestres.

“É assim”, ele sugere, “que nós chegamos a possuir estes peculiares genes extras. Foi à imagem dos Anunnaki, não de bactérias, que Adão e Eva foram criados". O Projeto Genoma teria descoberto os “genes alienígenas de Adão”, uma “corroboração pela ciência moderna dos Anunnaki e suas proezas genéticas na Terra”.

Uma busca no Google em março de 2004 mostra que esta nota de Sitchin foi reproduzida por mais de 4.000 sítios on-line. Infelizmente, está errada.

O caso dos genes bacterianos dos vertebrados
O problema com os “genes alienígenas de Adão” é que os genes discutidos e anunciados não seriam originais de “Adão”, isto é, não seriam exclusivos ao homem moderno. Teriam sido inseridos em nossa linhagem evolutiva há centenas de milhões de anos, e não há 300.000 anos, como Sitchin claramente afirma. Seriam genes presentes em todos os vertebrados, possivelmente presentes neles há pelo menos 450 milhões de anos atrás.

O próprio Sitchin cita a informação, embora de forma habilidosa para que não evidencie o problema. Enquanto o anúncio original publicado na Nature diz que:

“uma análise mais detalhada feita por computador indicou que pelo menos 113 desses genes são comuns em bactérias, mas entre eucariontes, parecem estar presentes apenas em vertebrados” (ênfase inserida)

O autor de O 12o Planeta cita o trecho desta forma:

“A equipe do Consórcio Público, conduzindo uma busca detalhada, descobriu que em torno de 113 genes (dos 223) ‘são comuns em bactérias’ — embora estejam completamente ausentes mesmo em invertebrados” (ênfase inserida)

Ao invés de dizer que os genes estão presentes em vertebrados, e não apenas em humanos, diz que estão “ausentes mesmo em invertebrados”. Sitchin exibe suas habilidades literárias.

Nosso talentoso autor também cita várias vezes um artigo publicado no periódico Science. Curiosamente, não cita que no mesmo artigo podemos ler que “alguns pesquisadores suspeitam que o genoma vertebrado antigo recebeu genes bacterianos” (ênfase inserida). Curioso, pois tanto a frase anterior quanto a posterior são citadas.

Os seres vertebrados surgiram há milhões de anos, e nem mesmo Sitchin defende que foram os Anunnaki a criá-los. Segundo ele, os Anunnaki teriam vindo ao nosso planeta há “apenas” 450.000 anos, supostamente criando o ser humano há 300.000. Como tais genes podem ser encontrados também em outros vertebrados, não são “genes de Adão”, muito menos devem ser alienígenas. O anúncio feito pelo Projeto Genoma sempre se referiu aos possíveis genes bacterianos dos vertebrados.

E há mais. Ou menos.

O caso dos genes inexistentes
Tais genes bacterianos transmitidos lateralmente aos vertebrados podem mesmo não existir. Apenas quatro meses depois do anúncio de descobertas preliminares do Projeto Genoma, a mesma Science publicou um artigo do The Institute for Genomic Research que pretendia “corrigir o registro”, segundo Steven Salzberg. O novo estudo, centrado especificamente na questão, reduzia os genes possivelmente adquiridos lateralmente a pouco mais de 40, “tendendo a zero” à medida que mais genomas e mais buscas fossem realizadas.

Mais um mês e a própria Nature também publicaria outro estudo feito pela GlaxoSmithKline que igualmente contrariava a promiscuidade de genes entre bactérias e vertebrados. Analisando parte dos genes em questão, o estudo defendeu que eles “podem ser explicados em termos de herança através de origem comum ao invés de um pulo de bactérias a vertebrados”.

“O relatório publicado na Nature em fevereiro de 2001 tinha o seguinte título geral: ‘Seqüenciamento e análise inicial do genoma humano’. Era um relatório preliminar, que divulgava genericamente o que se tinha aprendido até aquele momento. E se aprendeu muito”, disse o bioquímico Jorge H. Petretski em uma lista de discussão sobre ufologia, a BURN. “Mas alguns meses depois… já se tinha aprendido mais um pouco”, completou.

Mal para Zecharia Sitchin, que pretende revelar a “verdadeira” história não só da humanidade, como de seres extraterrestres, datando de centenas de milhares de anos.

- – -
Com agradecimentos a Jorge H. Petretski pela ajuda na correção desta ‘referência’

Leia mais:
- THE CASE OF ADAM’S ALIEN GENES – O relato original de Zecharia Sitchin sobre os 223 genes
- Got bacterial genes?
- Researchers Challenge Recent Claim That Humans Acquired 223 Bacterial Genes During Evolution
-
Setting the Record Straight

Referências:
- Lander, E.S. et al. Initial sequencing and analysis of the human genome. Nature 409, 860-921 (February 15, 2001). http://www.nature.com/genomics/human/papers/409860a0_r_4.html
- Salzberg, S.L. et al. Microbial genes in the human genome: lateral transfer or gene loss? Science 292, 1903-1906 (June 8, 2001). Published online May 17, 2001.
- Stanhope, M.J. et al. Phylogenetic analyses do not support horizontal gene transfers from bacteria to vertebrates. Nature 411, 940-944 (June 21, 2001).
http://www.nature.com/nature/links/010621/010621-3.html





Zecharia Sitchin

O 12º. PLANETA

Tradução de ANA PAULA CUNHA

EDITORA BEST SELLER

1976 Agradecimentos

O autor deseja expressar sua gratidão aos muitos estudiosos que, ao longo de mais de um século, desenterraram, decifraram, traduziram e explicaram as relíquias textuais e artísticas do antigo Oriente Médio e às muitas instituições e suas equipes por cuja excelência e cortesia ficaram à disposição do autor os textos e provas pictóricas sobre as quais se baseou este livro.

O autor deseja agradecer especialmente à Biblioteca Pública de Nova York e ao seu Departamento Oriental; à Biblioteca de Pesquisa (Sala de Leitura e Sala Oriental de Estudantes) do Museu Britânico, Londres; à Biblioteca de Pesquisa do Seminário Teológico Judeu, Nova York; e, pela assistência iconográfica aos curadores do Museu Britânico e ao conservador das Antiguidades Assírias e Egípcias; ao diretor do Museu Pré-Asiático, Museus Estatais, Berlim Oriental; ao Museu da Universidade de Filadélfia; à Reunião dos Museus Nacionais, França (Museu do Louvre); ao curador e Museu de Antiguidades de Alepo; à Administração do Espaço e Aeronáutica Nacional dos Estados Unidos (NASA).

Nota do Autor

A fonte fundamental dos versos bíblicos citados neste livro é o Antigo Testamento em seu original em hebraico. Dever-se-á ter sempre presente no espírito que todas as traduções consultadas - das quais as principais se encontram listadas no fim do livro - são apenas isso: traduções ou interpretações. Na análise final, o que conta é o que nos diz o original hebraico.

Na versão final citada em O Décimo Segundo Planeta comparei as traduções disponíveis umas com as outras, primeiro; depois, com a fonte hebraica, e, finalmente, com os textos sumérios e acádios para trazer à luz aquela que penso ser a mais precisa tradução.

A tradução de textos sumérios, assírios, babilônicos e hititas tem dado que fazer a uma legião de eruditos desde há mais de um século. A decifração da escrita e da língua foi seguida de transcrições, transliterações é, finalmente, traduções. Em muitas circunstâncias, foi possível escolher entre diferentes traduções ou interpretações apenas pela verificação de transcrições ou transliterações muito anteriores. Noutras circunstâncias, uma aproximação mais tardia de um estudioso contemporâneo pôde lançar nova luz sobre uma tradução mais antiga.

A lista de fontes dos textos do Oriente Médio dada no fim deste livro abrange, assim, desde as mais antigas às mais recentes fontes e é seguida pelas publicações acadêmicas nas quais se encontraram valiosas contribuições para a compreensão dos textos.


Prólogo: “Gênesis”

O Antigo Testamento habita minha vida desde a infância. Quando foi plantada a semente deste livro, há quase cinqüenta anos, eu não tinha nenhum conhecimento dos fervilhantes debates evolução versus Bíblia dessa altura. Mas, como qualquer jovem rapaz de escola, estudando o livro do Gênesis, em seu original hebraico, eu criei uma versão para mim próprio. Um dia, estávamos lendo o capítulo VI, onde se diz que, quando Deus decidiu destruir a humanidade com o Grande Dilúvio, os filhos das deidades que casaram com filhas de homens estavam sobre a Terra. O original hebraico chama-lhes Nefilim; o professor explicou que Nefilim - significava “gigantes” e eu discordei; literalmente não significaria «aqueles que foram lançados», que desceram à Terra? Fui repreendido e disseram-me que aceitasse a interpretação tradicional.

Nos anos que se seguiram, à medida que aprendia a língua, a história e a arqueologia do antigo Oriente Médio, os Nefilim tornaram-se uma obsessão. Os achados arqueológicos e a decifração de textos sumérios, babilônicos, assírios, hititas, cananitas e outros textos antigos e contos épicos foram progressivamente confirmando a precisão das referências bíblicas a reinos, cidades, governantes, praças, templos, rotas de comércio, artefatos, ferramentas e vestuário da Antiguidade. Não será agora, portanto, o tempo de aceitar a palavra desses mesmos antigos registros que encaram os Nefilim como visitantes da Terra vindos dos céus?

O Antigo Testamento afirma repetidamente: «O trono de Javé é no céu», «do céu o Senhor vigia a Terra». O Novo Testamento falava «Nosso Pai que está nos céus». Mas a credibilidade da Bíblia foi enfraquecida pelo advento e aceitação geral da teoria da evolução. Se o homem evoluiu, então, certamente, ele não pode ter sido criado de uma só vez por uma deidade que, premeditando, sugeriu: «Façamos Adão à nossa imagem e semelhança». Todos os povos antigos acreditaram em deuses que desceram à Terra vindos dos céus e que podiam a um desejo flutuar em direção aos céus. Mas nunca se reconheceu credibilidade a estes contos que os eruditos desde os primórdios classificaram como mitos.

Os escritos do antigo Oriente Médio, que incluem uma profusão de textos astronômicos, falam claramente de um planeta de onde esses astronautas ou deuses vieram. No entanto, quando os acadêmicos, há 150 anos decifraram e traduziram as antigas listas de corpos celestiais, os nossos astrônomos não sabiam ainda da existência de Plutão (que apenas foi localizado em 1930). Como se poderia, então, esperar que eles aceitassem a existência de ainda mais um planeta, membro de nosso sistema solar? Mas agora que também nós, como os antigos, sabemos da existência de planetas para além de Saturno, agora, por que não aceitar a evidência antiga da existência do Décimo Segundo Planeta?

Enquanto nós próprios nos aventuramos no espaço, um olhar novo e a aceitação das Antigas Escrituras é mais do que oportuno. Agora que os astronautas aterraram na Lua e missões não tripuladas exploram outros planetas, deixou de ser possível não acreditar que uma civilização de outro planeta mais avançado que o nosso fosse capaz de fazer aterrissar seus astronautas no planeta Terra, algures no passado.

De fato, certo número de escritores populares especularam que os artefatos antigos, tais como as pirâmides e as gigantescas esculturas de pedra, devem ter sido idealizados por avançados visitantes de outro planeta - com certeza, o homem primitivo não possuiu, por ele próprio, a tecnologia requerida? Outro exemplo, como foi possível que a civilização suméria florescesse tão rapidamente há quase 6.000 anos sem um precursor? Mas dado que esses escritores populares falham, normalmente, quando se trata de mostrar quando, como e, sobretudo, de onde vieram esses antigos astronautas, suas intrigantes questões permanecem especulações sem resposta.

Foram precisos trinta anos de pesquisa, de retorno às antigas fontes, de literal aceitação delas, para recriar em meu próprio espírito um cenário contínuo e plausível dos acontecimentos pré-históricos. Assim sendo, O Décimo Segundo Planeta procura fornecer narrativamente ao leitor as respostas às questões específicas: quando, como, por que e de onde. A evidência, as provas que incluo consistem basicamente de textos e até quadros antigos.

Em O Décimo Segundo Planeta, eu procurei decifrar uma sofisticada cosmogonia que explica, talvez tão bem como as modernas teorias científicas, como se pode ter formado o sistema solar, como um planeta invasor foi apanhado na órbita solar e como a Terra e outras partes do sistema solar foram trazidas à luz do dia.

As provas que ofereço incluem mapas celestiais que falam de vôos espaciais para a Terra vindos desse planeta, o Décimo Segundo. Depois, seqüencialmente, segue-se o dramático estabelecimento das primeiras colônias na Terra pelos Nefilim: aos seus dirigentes foram dados nomes; suas relações, amores, ciúmes, conquistas e lutas descritas e a natureza de sua «imortalidade» explicada.

Sobretudo, O Décimo Segundo Planeta tem como objetivo traçar os acontecimentos importantes que levaram à criação do homem e os métodos avançados pelos quais isto foi conseguido.

É depois sugerida a relação confusa entre o homem e seus senhores e surge uma nova luz sobre o significado dos acontecimentos no Jardim do Paraíso, da Torre de Babel e do Grande Dilúvio. Finalmente, o homem, biológica e materialmente dotado pelos seus criadores, acaba por expulsar seus deuses da Terra.

Este livro sugere que não estamos sós em nosso sistema solar. Ainda assim, ele pode intensificar, mais do que diminuir, a fé numa Onipotência universal. Porque, se os Nefilim criaram o homem na Terra, podiam estar apenas cumprindo parte de um plano superior mais amplo.

Nova York, fevereiro de 1977.

O Infindável Começo

De todas as provas que acumulamos para apoiar nossas conclusões, a primeira a ser exibida é o próprio homem. De vários modos, o homem moderno, o Homo sapiens, é um estranho à Terra.

Desde que Charles Darwin chocou os eruditos e os teólogos de seu tempo com a evidência da evolução, a vida na Terra foi ornamentada pelo homem e por primatas, mamíferos e vertebrados, e, recuando no tempo, por formas de vida progressivamente inferiores até atingirmos o ponto, há bilhões de anos, em que se presume que a vida tenha começado.

Mas, chegando a esses primórdios e começando a contemplar as probabilidades de vida em algum outro ponto de nosso sistema solar e mesmo para além dele, os eruditos começaram a sentir-se apreensivos acerca da vida na Terra - de qualquer modo, ela parece não pertencer a este lugar. Se tudo começou através de uma série de reações químicas espontâneas, por que é que a vida na Terra tem uma única fonte e não uma multitude de fontes causais? E por que é que toda a matéria viva na Terra contém tão poucos dos elementos químicos que abundam na Terra e tantos daqueles que são raros em nosso planeta?

Terá, então, a vida sido importada de algum lugar para a Terra?

A posição do homem na cadeia evolucionária compôs o quebra-cabeça. Encontrando um esqueleto partido aqui, um maxilar ali, os eruditos começaram por acreditar que o homem apareceu na Ásia há 500.000 anos. Mas, como foram encontrados fósseis mais antigos, tornou-se evidente que os moinhos da evolução se moveram muito, mas muito mais lentamente. Os macacos antecessores do homem estão agora, desconcertantemente, colocados há 25 milhões de anos. Descobertas na África Oriental revelam uma transição para macacos humanóides (hominídeos) há cerca de 14 milhões de anos. Cerca de 11 milhões de anos mais tarde apareceu lá o primeiro macaco-homem digno de ser classificado como Homo.

O primeiro ser que se considera realmente humanóide - "australopiteco avançado" - existiu há cerca de 2 milhões de anos em algumas partes da África. Levou ainda outro milhão de anos para aparecer o Homo erectus Finalmente, depois de outros 900.000 anos, apareceu o primeiro homem primitivo; a ele se chamou Homem de Neanderthal, segundo o nome do local em que seus vestígios foram primeiramente encontrados.

A despeito da passagem de mais de 2 milhões de anos entre o australopiteco avançado e o Homem de Neanderthal, os instrumentos destes dois grupos - pedras aguçadas - são virtualmente semelhantes; e os próprios grupos (tal como se pensa que eles fossem) são dificilmente distinguíveis.

Depois, súbita e inexplicavelmente, há 35.000 anos, uma nova raça de homens - Homo sapiens ("o homem pensante") - apareceu como que vinda do nada e varreu o Homem de Neanderthal da face da Terra. Estes homens modernos, que receberam o nome de Cro-Magnon, têm um aspecto tão semelhante ao nosso que, se os vestíssemos com nossas roupas atuais, eles se perderiam de vista por entre as multidões de qualquer cidade européia ou americana. Devido à magnificente arte de cavernas que criaram, foram primeiramente chamados os "homens das cavernas". De fato, eles vaguearam pela Terra livremente, uma vez que sabiam como construir abrigos e casas de pedra e de peles de animais para onde quer que fossem.

Por milhões de anos, as ferramentas do homem foram apenas pedras de formas úteis. O Homem do Cro-Magnon, no entanto, fez ferramentas especializadas e armas de madeira e osso. Já não era o "macaco nu", uma vez que usava peles para se vestir. Sua sociedade estava organizada: vivia em clãs com uma hegemonia patriarcal. Seus desenhos em cavernas evidenciam talento artístico e profundidade de sentimento: seus esboços e esculturas revelam uma forma de religião, patente na adoração de uma deusa-mãe que era por vezes representada com o sinal da Lua em quarto crescente. Esse homem enterrava seus mortos e deve, portanto, ter possuído alguma filosofia a respeito da vida, da morte e, talvez mesmo, da vida­ após-morte.

Misterioso e inexplicável como é, o aparecimento do Homem do Cro-Magnon complica ainda mais o quebra-cabeça. Uma vez que outros vestígios do homem moderno foram descobertos (em locais que incluem Swanscombe, Steinheim e Montmaria), torna-se evidente que o Homem do Cro­-Magnon se originou de um Homo sapiens ainda mais precoce que viveu na Ásia Ocidental e África do Norte cerca de 250.000 anos antes do Homem do Cro-Magnon.

O aparecimento do homem moderno a uns meros 700.000 anos antes do Homo erectus e cerca de 200.000 anos antes do Homem de Neanderthal é absolutamente impensável. É também claro que o Homo sapiens representa um ponto de partida tão extremo do lento processo evolucionário que muitas de nossas capacidades, tal como a capacidade de falar, não têm nenhuma conexão com os primatas mais remotos.

Uma eminente autoridade no tema, o prof. Theodosius Dobzhansky (Mankind Evolving) [Humanidade em Evolução], ficou particularmente intrigada pelo fato de este desenvolvimento ter acontecido durante um período em que a Terra passava por uma idade do gelo, período pouco propício a progressos na evolução. Salientando que ao Homo sapiens faltam por completo algumas das peculiaridades dos tipos até aí conhecidos e aparecem algumas que nunca ocorreram, o professor conclui: "O homem moderno tem muitos fósseis, parentes colaterais, mas nenhum progenitor: sua origem, como Homo sapiens, torna-se, assim, um quebra-cabeça".

Como é, então, que os antecessores do homem moderno aparecem há uns 300.000 anos, em vez de aparecerem há 2 milhões ou 3 milhões de anos no futuro, seguindo um ulterior processo evolucionário? Fomos importados para a Terra de algum ponto, ou teremos sido, como atesta o Antigo Testamento e outras fontes antigas, criados por deuses?

Sabemos agora onde começou a evolução e como se desenvolveu, uma vez começada. A pergunta por responder é esta: - Por que, por que é que a civilização aconteceu realmente? Porque agora, tal como a maior parte dos eruditos reconhece, ainda que com frustração, se somarmos todos os dados, vemos que o homem deveria ainda viver sem civilização. Não há razão óbvia para que sejamos nem um pouco mais civilizados do que as tribos primitivas das selvas amazônicas ou das regiões inacessíveis da Nova Guiné.

Mas, dizem-nos, esses homens das tribos vivem ainda como na Idade da Pedra porque foram isolados. Mas isolados de quê? Se eles têm vivido na mesma Terra que nós, por que não adquiriram eles o mesmo conhecimento científico e tecnológico próprio, como nós pressupostamente possuímos?

O verdadeiro quebra-cabeça, no entanto, não é o atraso dos Bushmen, mas o nosso avanço, uma vez que se reconhece agora que, no curso normal da evolução, o homem deveria ainda estar representado pelo tipo dos Bushmen, e não pelo nosso. Foram precisos alguns 2 milhões de anos ao homem para avançar na sua "indústria de ferramentas", desde o uso das pedras tal como as encontrava até a compreensão de que as poderia cinzelar e moldar, de forma a melhor servir seus próprios objetivos. Por que não mais 2 milhões de anos para aprender o uso de outros materiais e outros 10 milhões de anos para dominar as ciências matemáticas, a engenharia e a astronomia? E, no entanto, aqui estamos nós a menos de 50.000 anos de distância do Homem de Neanderthal, pousando astronautas na Lua.

A questão óbvia, então, é esta: será que nós e os nossos antecessores mediterrâneos adquirimos esta avançada civilização, realmente, à nossa custa?

Embora o Homem do Cro-Magnon não construísse arranha-céus nem usasse metais, não há dúvida de que sua civilização foi repentina e revolucionária. Sua mobilidade, sua habilidade para construir abrigos, seu desejo de se vestir, suas ferramentas manufaturadas, sua arte - tudo isto representou uma alta civilização quebrando um infindável começo que se alargou por milhões de anos e avançou lenta e dolorosamente, a passo e passo.

Embora nossos eruditos não possam explicar o aparecimento do Homo sapiens e a civilização do Homem do Cro-Magnon, nesta altura, não há dúvidas referentes ao lugar originário desta civilização, ou seja, o Oriente Médio. Os planaltos e as cadeias montanhosas estendidas em semi-arco desde as montanhas Zagros, a leste (onde hoje o Irã e o Iraque têm uma fronteira comum), através das cadeias Ararat e Tauro ao norte, e depois descendo para o oeste e para o sul, para as terras montanhosas da Síria, Líbano e Israel, estão repletos de cavernas onde se preservaram provas da existência do homem pré-histórico.

Entre estas cavernas, Shanidar está localizada na parte nordeste do semi-­arco de civilização. Hoje em dia, ferozes homens curdos procuram abrigo na área das cavernas para eles próprios e para os rebanhos nos frios meses de inverno. Assim aconteceu, numa noite invernosa há 44.000 anos, quando uma família de sete pessoas (uma das quais era ainda um bebê) procurou abrigo na caverna de Shanidar.



Seus vestígios - evidentemente eles foram mortalmente esmagados por uma avalanche de rochas - foram descobertos em 1957 por um estupefato Ralph Solecki, (O Prof. Solecki disse-me que foram encontrados apenas quatro esqueletos esmagados por avalanche) que partira para aquela área à procura de provas da existência desse homem antigo. Aquilo que ele encontrou foi mais do que poderia ter esperado. À medida que, camada após camada, os destroços iam sendo retirados, tornou-se evidente que a caverna preservava um registro claro de habitação humana na área desde 100.000 até 13.000 anos atrás.

O que este registro mostrou foi tão surpreendente como a descoberta em si. A cultura do homem foi mostrada não como uma progressão, mas como uma regressão. Começando a partir de certo nível, as gerações posteriores evidenciam níveis civilizacionais não superior, mas inferiormente avançados. E depois, cerca do ano 27.000 a.C. até 11.000 a.C., a retrógrada e definhada população alcançou o momento de uma ausência quase completa de habitação. Por razões que supomos ser de ordem climática, o homem estava completamente desaparecido da área há cerca de 16.000 anos.

E, em seguida, cerca do ano 11.000 a.C., o "homem pensante" reapareceu com novo vigor e com um nível de cultura inexplicavelmente superior.

Foi como se um técnico invisível, observando o vacilante jogo humano, tivesse mandado para o campo uma equipe jovem e mais bem treinada para substituir a outra, já exausta.

Ao longo dos muitos milhões de anos do seu infindável começo, o homem teve uma natureza de criança: subsistiu reunindo os alimentos que cresciam selvagens, caçando animais selvagens, capturando aves selvagens e peixes. Mas logo que as colônias humanas começaram a se dizimar, assim que o homem começou a abandonar as estâncias, quando suas conquistas materiais e artísticas desapareceram - logo nessa altura, subitamente, sem razão aparente e sem nenhum período de preparação gradual, conhecido anteriormente -, nessa altura, o homem tornou-se agricultor.

Resumindo os trabalhos de muitas eminentes autoridades no assunto, R.J. Braidwood e B. Howe (Prehistoric Investigations in Iraqi Kurdistan) [Investigações Pré-Históricas no Iraque-Curdistão] concluíram que os estudos genéticos confirmam os achados arqueológicos e não deixam dúvidas de que a agricultura começou exatamente onde o homem pensante tinha anteriormente surgido na sua primeira e crua civilização: no Oriente Médio. Não há dúvida agora de que a agricultura se espalhou pelo mundo afora a partir do arco de montanhas e planaltos do Oriente Médio.

Empregando sofisticados métodos de datação por rádio-carbono e genética botânica, muitos eruditos de vários domínios da ciência concorrem para a conclusão que afirma terem sido o trigo e a cevada os primeiros sucessos agrícolas do homem, provavelmente através da domesticação de uma variedade selvagem de trigo. Supondo que, de qualquer modo, o homem foi submetido a um processo gradual de auto-aprendizagem da domesticação, do plantio e do cultivo de uma planta selvagem, os eruditos continuam aturdidos com a profusão de outras plantas e cereais básicos para a sobrevivência humana e com o avanço que continuou vindo do Oriente Médio. Esses cereais incluíram em rápida sucessão o milho painço, centeio e espelta (trigo) entre os cereais comestíveis; o linho, que fornecia fibras e óleo comestível, e uma variedade de arbustos e árvores frutíferas.

Em qualquer circunstância, a planta foi, indubitavelmente, domesticada no Oriente Médio durante milênios, antes de ter alcançado a Europa. Foi como se o Oriente Médio fosse uma espécie de laboratório genético-­botânico, guiado por mão invisível, produzindo sempre e freqüentemente uma planta recentemente domesticada.

Os eruditos que estudaram as origens da vinha concluíram que seu cultivo começou nas montanhas à volta da Mesopotâmia do Norte e na Síria e Palestina. Não é de admirar. O Antigo Testamento diz-nos que Noé "plantou uma vinha" (e chegou a embriagar-se com seu vinho) depois de sua arca ter parado no monte Ararat, quando as águas do Dilúvio começaram a retroceder. A Bíblia, tal como os eruditos, coloca, assim, o início do cultivo da vinha nas montanhas ao norte da Mesopotâmia.

Maçãs, pêras, azeitonas, figos, amêndoas, pistaches e nozes - todos foram originados no Oriente Médio e daí se espalharam para a Europa e outras regiões do mundo. De fato, não podemos deixar de recordar que o Antigo Testamento precedeu nossos eruditos vários milênios na identificação da mesma área como o primeiro pomar mundial: "E o Senhor Deus plantou um pomar no Jardim do Paraíso, no oriente... E o Senhor Deus fez crescer do solo todas as árvores agradáveis à vista e boas para a alimentação".

A localização geral do "Éden" é certamente conhecida pelas gerações bíblicas. Era no "oriente" - oriente da Terra de Israel. Era num solo irrigado por quatro rios principais, dois dos quais o Tigre e o Eufrates.

Não pode haver dúvida de que o livro do Gênesis localizou o primeiro pomar nos planaltos onde estes rios se originaram, na Mesopotâmia­ nordeste. Bíblia e ciência estão em absoluto acordo.

De fato, se lermos o texto original em hebraico do livro do Gênesis, não como um texto teológico, mas como um texto científico, descobriremos que esse livro também descreve precisamente o processo de domesticação de plantas. A ciência diz-nos que o processo se desenrolou desde as relvas selvagens para cereais selvagens e cereais cultivados, seguido depois de arbustos e árvores frutíferas. Este é exatamente o processo detalhadamente descrito no capítulo I do livro do Gênesis:

E o Senhor disse:

Que a Terra traga para fora ervas; cereais que por sementes produzem sementes; árvores de frutos que criem frutos por espécies, que contêm a semente dentro delas próprias.

E assim se fez:

A Terra trouxe para fora ervas; cereais que por semente produzem semente, por espécies; e árvores que criam frutos que contêm a semente dentro delas próprias, por espécies.

O livro do Gênesis prossegue dizendo-nos que o homem, expulso do pomar do Éden, teve de labutar para fazer crescer seu alimento. "Do suor da tua fronte, comerás o teu pão", disse o Senhor a Adão. Depois disso, "Abel foi o guardião de rebanhos e Caim um lavrador do solo". O homem, diz-nos a Bíblia, fez-se pastor pouco depois de se ter tornado agricultor.

Os eruditos concordam com esta seqüência bíblica de acontecimentos. Analisando as várias teorias referentes à domesticação animal, F.E. Zeuner (Domestication of Animais) [Domesticação de Animais] salienta que o homem não poderia ter "adquirido o hábito de guardar animais em cativeiro ou domesticação antes de ter alcançado o estágio de vivência em unidades sociais de certas proporções". Estas comunidades estabelecidas, um pré-requisito para a domesticação animal, seguiram-se à comutação para a agricultura.

O primeiro animal a ser domesticado foi o cão, e não necessariamente como o melhor amigo do homem, mas, provavelmente, também como fonte de alimentação. Isto ocorreu, acredita-se, cerca do ano 9.500 a.C. Os primeiros vestígios de esqueletos caninos foram encontrados no Irã, Iraque e Israel.

Os carneiros foram domesticados por volta da mesma época: a caverna de Shanidar contém vestígios de carneiros datados de cerca do ano 9.000 a.C., mostrando que todos os anos grande parte dos animais jovens eram mortos para alimentação e peles. As cabras, que forneciam também leite, seguiram-se brevemente; e os porcos, o gado com e sem chifres, foram os seguintes a serem domesticados.

Em qualquer circunstância, a domesticação começou no Oriente Médio.

A mudança abrupta no curso dos acontecimentos humanos que ocorreram cerca do ano 11.000 a.C. no Oriente Médio (e uns 2.000 anos mais tarde na Europa) levou os estudiosos a descreverem esse tempo como o fim nítido da Antiga Idade da Pedra (o Paleolítico) e o começo de uma nova era cultural, a Média Idade da Pedra (o Mesolítico).

O nome é apenas apropriado se considerarmos o principal material bruto do homem, que continuava a ser a pedra. Suas habitações nas áreas montanhosas continuavam a ser construídas com pedra, suas comunidades eram protegidas por paredes de pedra, seu primeiro instrumento agrícola, a foicinha, foi feito em pedra. Ele honrava ou protegia seus mortos cobrindo e adornando suas sepulturas com pedras e usava pedra para fazer imagens de seres supremos, ou deuses, cuja benigna intervenção ele procurava. Uma dessas imagens, descoberta ao norte de Israel e datada do 9º. milênio a.C., mostra a face gravada de um deus protegido por um elmo listrado e vestindo uma espécie de "óculos".

No entanto, de um ponto de vista generalizante, seria mais apropriado chamar à idade que começou cerca do ano 11.000 a.C., não Média Idade da Pedra, mas Idade da Domesticação. Dentro do curto período de tempo de 3.600 anos - o espaço de uma noite em termos de um infindável começo - o homem tornou-se agricultor e as plantas e os animais selvagens foram domesticados. Depois, seguiu-se claramente uma nova idade. Os nossos eruditos chamam-lhe a Nova Idade da Pedra (Neolítico); mas o termo é totalmente inadequado, uma vez que a maior mudança que teve lugar por volta do ano 7.500 a.C. foi o aparecimento da cerâmica.

Por razões que ainda escapam a nossos eruditos - mas que se tornarão claras à medida que formos desenrolando nossa teia de acontecimentos pré-históricos -, a marcha do homem em direção à civilização foi confinada, durante os primeiros milênios subseqüentes ao ano 11.000 a.C., aos planaltos do Oriente Médio. A descoberta dos vários usos a dar à argila foi contemporânea à descida do homem das suas moradias nas montanhas em direção aos vales mais baixos e cheios de barro.



Por volta do 7º. milênio a.C., o arco de civilização do Oriente Médio fervilhava de culturas de cerâmica em argila que produziam grande número de utensílios, ornamentos e estatuetas. Por volta do ano 5.000 a.C., o Oriente Médio produzia objetos de argila e cerâmica de soberba qualidade e desenho fantástico.

Mas, uma vez mais, o progresso se desacelera, e, por volta do ano 4.500 a.C., a evidência arqueológica indica que a regressão vigorava por toda a parte. A cerâmica simplificou-se. Os utensílios de pedra - uma relíquia da Idade da Pedra - tornam-se, de novo, predominantes. Locais antes habitados revelam vestígios cada vez mais raros. Alguns locais que foram centros de indústrias de cerâmica e argila começaram a ser abandonados e a produção característica de argila desapareceu. "Houve um empobrecimento geral da cultura", segundo James Melaart (Earliest Civilizations of the Near East) [As Mais Novas Civilizações do Oriente Médio]; alguns locais revelam claramente as marcas da "nova fase de estrita pobreza".

O homem e sua cultura estavam nitidamente em declínio.

Depois - súbita, inesperada e inexplicavelmente -, o Oriente Médio foi testemunha do florescimento da mais grandiosa civilização imaginável, uma civilização na qual a nossa tem firmes raízes.

Uma mão misteriosa salvou uma vez mais o homem do seu declínio e elevou-o até um nível mais alto de cultura, conhecimento e civilização.

2

A Súbita Civilização

Durante muito tempo, o homem do Ocidente acreditou que sua civilização era dádiva conjunta de Roma e da Grécia. Mas os próprios filósofos gregos escreveram repetidamente que se inspiraram em fontes ainda mais remotas. Mais tarde, os viajantes de regresso à Europa falaram da existência no Egito de imponentes pirâmides e cidades-templos meio enterradas na areia e guardadas por estranhos animais de pedra chamados esfinges. Quando Napoleão chegou ao Egito, em 1799, levou com ele eruditos para estudar e explicar esses antigos monumentos. Um dos seus oficiais, perto de Rosetta, encontrou uma placa de pedra na qual estava gravada a proclamação do ano 196 a.C., escrita na antiga letra pictográfIca egípcia. (hieróglifos), assim como em dois outros escritos.

A decifração dos antigos escritos e língua egípcios e os esforços arqueológicos que se seguiram revelaram ao homem do Ocidente que existira no Egito uma alta civilização bastante anterior ao advento da civilização grega. Os registros egípcios falam de dinastias egípcias que começaram por volta do ano 3.100 a.C. - dois milênios inteiros antes do início da civilização helênica. Alcançando sua maturidade nos séculos 5 e 4 a.C., a Grécia foi mais retardatária do que inovadora.

O Egito foi então a origem da nossa civilização?

Por mais lógica que esta conclusão pudesse ter sido, a verdade é que os fatos falam contra ela. Os eruditos gregos descreveram, realmente, visitas ao Egito, mas as antigas fontes do conhecimento de que eles falam foram encontradas noutro local. As culturas pré-helênicas do mar Egeu­ - a minóica, na ilha de Creta, e a micênica, no continente grego - dão provas de que foi adotada a cultura do Oriente Médio, e não a egípcia. A Síria e a Anatólia, não o Egito, foram as principais avenidas através das quais uma civilização mais remota se colocou à disposição dos gregos.

Notando que a invasão dória da Grécia e a invasão israelita de Canaã, seguindo-se ao êxodo do Egito, ocorreram por volta da mesma época (século 13 a.C.), os eruditos ficaram fascinados por descobrir um número crescente de semelhanças entre as civilizações semita e helênica. O prof. Cyrus H. Gordon (Forgotten Scripts: Evidence for the Minoan Language) [Manuscritos Esquecidos: Evidência da Linguagem Minóica] abriu um novo campo de estudo mostrando como um antigo escrito minóico, chamado "Linear A", representava uma linguagem semita. Ele concluiu que "o padrão (distinto do conteúdo) das civilizações hebraica e minóica é o mesmo até um razoável limite", e salientou que o nome da ilha, Creta, soletrado em minóico, Ke-re-ta, era o mesmo que o designado pela palavra hebraica "Ke-re-et" ("cidade emparedada") e tinha sua correspondente num conto semita de um rei de Keret.

O próprio alfabeto helênico, do qual o latino e os nossos próprios alfabetos derivam, veio do Oriente Médio. Os antigos historiadores gregos escrevem que um fenício chamado Kadmus ("antigo") lhes ofereceu o alfabeto que compreendia o mesmo número de letras e pela mesma ordem que o hebraico; este era o único alfabeto grego quando a Guerra de Tróia teve lugar. O número de letras foi aumentado para 26 pelo poeta Simónides de Ceos no século 5 a.C.

Que a escrita grega e latina e, deste modo, toda a fundação da nossa cultura ocidental foram adotadas do Oriente Médio pode ser facilmente demonstrado pela comparação entre a ordem, os nomes, os sinais e até os valores numéricos do alfabeto original do Oriente Médio com o muito posterior alfabeto grego e o mais recente alfabeto latino.

Os eruditos tinham consciência clara dos contatos gregos com o Oriente Médio no 1º. milênio a.C., culminando com a derrota dos persas por Alexandre da Macedônia em 331 a.C. Os registros gregos contêm muitas informações acerca destes persas e das suas terras (que, grosso modo, se equiparam ao Irã de hoje). A julgar pelos nomes dos seus reis - Ciro, Dario e Xerxes - e das suas deidades, que parecem pertencer ao ramo lingüístico indo-europeu, os eruditos chegaram à conclusão de que eles eram parte do povo ariano (senhorial), que apareceu em algum lugar perto do mar Cáspio, por volta do fim do 2º. milênio a.C., e se espalhou para o oeste, para a Ásia Menor, para leste, em direção à Índia, e para o sul, para aquilo a que o Antigo Testamento chama as "terras de medos e persas".



No entanto, nem tudo foi assim tão simples. A despeito da assumida origem estrangeira destes invasores, o Antigo Testamento trata-os como parte e parcela dos acontecimentos bíblicos. Ciro, por exemplo, foi considerado como sendo "consagrado por Javé" - uma relação bastante invulgar entre o Deus hebreu e um Deus não hebreu. De acordo com o livro bíblico de Esdras, Ciro tomou conhecimento da sua missão de reconstruir o Templo de Jerusalém e afirmou que agia segundo ordens de Javé, a quem ele chamava "o Deus dos Céus".



Ciro e os outros reis da sua dinastia auto-intitularam-se Aquemênidas - título adotado pelo fundador da dinastia, Hacham-Anish. Não era um título ariano, mas um título perfeitamente semita que significava "homem sensato". De modo geral, os eruditos negligenciaram a investigação das várias pistas que podem indicar as semelhanças entre o Deus hebreu Javé e a deidade Aquemênida chamada "O Deus Sensato", que eles representaram flutuando nos céus dentro de um globo alado, tal como é mostrado no selo real de Dario.

Foi agora estabelecido que as raízes culturais, religiosas e históricas destes antigos persas remontam aos antigos impérios da Babilônia e Assíria, cuja expansão e queda estão registradas no Antigo Testamento. Os símbolos que constituem o manuscrito que apareceu nos monumentos e selos aquemênidos foram primeiramente considerados como sendo desenhos decorativos. Engelbert Kampfer, que visitou, em 1686, Persépolis, a velha capital persa, descreveu os sinais como cuneiformes, ou impressões em forma de cunha.

Quando começaram os esforços de decifração das inscrições aquemênidas, tornou-se claro que elas estavam escritas no mesmo tipo de escrita que as inscrições encontradas em antigos artefatos e barras na Mesopotâmia, nas planícies e planaltos que ficam entre os rios Tigre e Eufrates.

Intrigado pelas descobertas dispersas, Paul Emile Botta partiu em 1843 para conduzir a primeira escavação de grande objetivo. Ele escolheu um local na Mesopotâmia do Norte, próximo do atual Mossul, agora chamado Khorsabad.

Botta em pouco tempo conseguiu estabelecer que as inscrições cuneiformes davam o nome ao lugar de Dur Sharru Kin. Eram inscrições semitas, numa língua irmã do hebreu, e o nome significava "cidade emparedada do rei íntegro". Nossos manuais chamam a este rei Sargão II.



Esta capital do rei assírio tinha como centro um magnificente palácio real cujas paredes estavam desenhadas com baixos-relevos esculpidos, que, colocados em fila, se estenderiam por mais de um quilômetro. A comandar a cidade e o conjunto real havia uma pirâmide de degraus chamada zigurate - servia como "escada para os céus" para os deuses.

O plano da cidade e as esculturas revelam-nos um modo de vida de alto nível. Palácios, templos, casas, estábulos, armazéns, paredes, cancelas, colunas, decorações, estátuas, obras de arte, torres, rampas, terraços, jardins - tudo isso foi completado em apenas cinco anos. De acordo com Georges Contenau (La Vie Quotidienne à Babylone et en Assyrie) [A Vida Quotidiana na Babilônia e na Assíria], "a imaginação vacila ante a força potencial de um império que pôde realizar tanto em tão curto período de tempo", há cerca de 3.000 anos.

Para não serem ultrapassados pelos franceses, os ingleses apareceram em cena na pessoa de Sir Arthur Henry Layard, que escolheu como seu local de trabalho um lugar a cerca de 16 quilômetros ao longo do rio Tigre a partir de Khorsabad. Os nativos chamam-lhe Kuyunjike e transformou-­se na capital assíria de Nínive.

Nomes e acontecimentos bíblicos começaram a ganhar vida. Nínive era a capital real da Assíria sob os seus três últimos grandes governantes: Senaqueribe, Asaradão e Assurbanipal. "Agora, no décimo quarto ano do rei Ezequias, Senaqueribe, rei da Assíria, levantou-se contra todas as cidades emparedadas de Judá", relata o Antigo Testamento (II Reis 18: 13), e, quando o anjo do Senhor reuniu o seu exército, "Senaqueribe partiu e regressou e assentou morada em Nínive".

Os morros onde Nínive foi construída por Senaqueribe e Assurbanipal revelam palácios, templos e obras que ultrapassam os de Sargão. A área onde se acredita estar o espólio dos palácios de Asaradão não pode ser escavada porque é agora uma mesquita muçulmana erigida sobre o lugar fúnebre que se pretende fazer passar pelo de Jonas, o Profeta, que se diz ter sido engolido por uma baleia quando se recusou a trazer a mensagem de Javé para Nínive.

Layard lera em antigos registros gregos que um oficial do exército de Alexandre vira "um lugar de pirâmides e vestígios de uma cidade antiga”

- uma cidade que já estava enterrada no tempo de Alexandre. Layard escavou-a e viu-se que era Nimrud, o centro militar assírio. Foi lá que Shalmaneser II fez erigir um obelisco para registrar suas conquistas e expedições militares. Agora em exibição no Museu Britânico, o obelisco lista, entre os reis obrigados a pagar tributo, "Jeú, o filho de Omri, rei de Israel ".

De novo, as inscrições mesopotâmicas e os textos bíblicos se apóiam mutuamente.

Estupefatos por uma corroboração progressivamente mais freqüente das narrativas bíblicas pelos achados arqueológicos, os assiriologistas, como se vieram a chamar estes eruditos, voltaram ao capítulo X do livro do Gênesis. Aí, Nimrod - "um poderoso caçador pela graça de Javé" - é descrito como fundador de todos os reinos da Mesopotâmia.

E o começo do seu reino:

Babel, Erech e Akkad, todas na Terra de Shin'ar

Daquela terra foi emanado Ashur onde Nínive foi construída, uma cidade de largas ruas, e Khalah, e Ressen - a grande cidade entre Nínive e Khalah.

Havia realmente um morro a que os nativos chamavam Calah, situado entre Nínive e Nimrud. Quando as equipes sob as ordens de W. Andreas escavaram a área de 1903 a 1914, desenterraram as ruínas de Ashur, o centro religioso assírio e sua remotíssima capital. De todas as cidades assírias mencionadas na Bíblia, apenas Ressen está por descobrir. O nome significa "o freio do cavalo"; era provavelmente aí que estavam localizados os estábulos reais da Assíria.

Por volta da mesma época, quando Ashur estava sendo escavada, equipes dirigidas por R. Koldewei completavam a escavação da Babilônia ­a Babel bíblica -, um vasto local de palácios, templos, jardins suspensos e o inevitável zigurate. Em breve, os artefatos e inscrições desvendaram a história de dois impérios competidores da Mesopotâmia: a Babilônia e a Assíria, uma centrada ao sul, outra ao norte.

Ascendendo e caindo, lutando e coexistindo, os dois impérios constituíram uma alta civilização que abarcou cerca de 1.500 anos; ambos ascendendo por volta do ano 1.900 a.C. Ashur e Nínive foram, finalmente, capturadas e destruídas pelos babilônios em 614 e 612 a.C., respectivamente. Tal como foi predito pelos profetas bíblicos, a própria Babilônia encontrou um fim inglório quando Ciro, o Aquemênidas, a conquistou em 539 a.C.

Embora fossem rivais ao longo de toda a sua história, só muito dificilmente se poderiam deslindar algumas diferenças significantes entre a Assíria e a Babilônia nos campos cultural e material. Apesar de a Assíria chamar à sua deidade principal Ashur ("o que vê tudo") e a Babilônia aclamar Marduk ("filho do puro morro"), os panteões eram, pelo contrário, virtualmente semelhantes.

Muitos dos museus do mundo contam entre os seus objetos de exposição privilegiados as passagens cerimoniais, touros alados, baixos-relevos, carros de batalha, ferramentas, utensílios, joalheria, estátuas e outros objetos fabricados em todos os materiais concebíveis que foram desenterrados dos morros da Assíria e da Babilônia. Mas os verdadeiros tesouros destes reinos são os seus registros escritos: milhares e milhares de inscrições na escrita cuneiforme, incluindo contos cosmológicos, poemas épicos, histórias de reis, registros de templos, contratos comerciais, registros de casamentos e divórcios, tábuas astronômicas, previsões astrológicas, fórmulas matemáticas, listas geográficas, textos escolares, gramaticais e vocabulares, e, não inferiores aos restantes, textos tratando dos nomes, genealogias, epítetos, feitos, poderes e deveres dos deuses.

A língua comum que formou o elo cultural, histórico e religioso entre a Assíria e a Babilônia foi a acádica. Foi a primeira língua semita conhecida, semelhante, mas precedente da hebraica, da aramaica, da fenícia e da cananita. Mas os assírios e os babilônios não reivindicavam a invenção da língua ou de sua escrita; de fato, muitas de suas barras têm como post scriptum a indicação de que foram copiadas de outros originais mais remotos.

Então, quem inventou a escrita cuneiforme e desenvolveu a língua, a sua precisa gramática e rico vocabulário? Quem escreveu os "remotos originais"? E por que os assírios e babilônios chamavam essa língua de acádica?

A atenção focaliza-se mais uma vez no livro do Gênesis. "E o princípio do seu reino: Babel e Erech e Akkad." Akkad - poderia ter existido realmente uma capital real, precedendo Babilônia e Nínive?

As ruínas da Mesopotâmia forneceram provas concludentes de que outrora existiu realmente um reino com o nome de Akkad estabelecido por governantes muito anteriores que se chamavam a si próprios sharrukin ("o íntegro governante"). Em suas inscrições ele clamava que o seu império se alargara ("pela graça do seu deus Enlil") desde o mar Inferior (golfo Pérsico) até ao mar Superior (que se crê ser o Mediterrâneo). Gabava-se de "que ao desembarcadouro de Akkad ele fizera atracar navios" de muitas terras distantes.

Os eruditos estacaram respeitosos: tinham alcançado um Império Mesopotâmio no 3º. milênio a.C. Havia, no passado, um salto de uns 2.000 anos desde o Sargão assírio de Dur Sharrukin até o Sargão de Akkad. E, no entanto, os morros que foram escavados trouxeram à luz do dia literatura e arte, ciência e política, comércio e comunicações - uma civilização totalmente prestes a voar do ninho, muito antes do aparecimento da Babilônia e da Assíria. E ainda mais, era obviamente o predecessor e a fonte das tardias civilizações mesopotâmicas - a Assíria e a Babilônia eram apenas ramos do tronco acádico.

O mistério de uma civilização mesopotâmica tão remota tornou-se mais profundo à medida que as inscrições registrando as realizações e genealogia de Sargão e de Akkad foram sendo descobertas. Elas testemunham que o título completo de Sargão era "rei de Akkad, rei de Kish"; explicaram que antes de ele ter subido ao trono fora conselheiro dos "governantes de Kish". Haveria, então, perguntaram-se os estudiosos, um reino ainda anterior, o de Kish, que precederia o de Akkad?

Uma vez mais, os versos bíblicos ganham em significação.

E Kush criou Nimrod;

Ele era o primeiro a ser um herói na Terra...

E o início do seu reino:

Babel e Erech e Akkad.

Muitos estudiosos especularam que Sargão de Akkad era o bíblico Nimrod. Se se lesse "Kish" em vez de "Kush" nos versos bíblicos acima transcritos, pareceria que Nimrod fora de fato precedido por Kish, como Sargão clamava. Os estudiosos começaram, então, a aceitar literalmente o resto de suas inscrições: "Ele derrotou Uruk e atirou abaixo o seu muro... foi vitorioso na batalha com os habitantes de Ur... ele derrotou todo o território desde Lagash até alcançar o mar".

Seria o Erech bíblico idêntico ao Uruk das inscrições de Sargão? Como o local agora chamado Warka estava já desenterrado, descobriu-se que era este o caso. E o Ur a que se refere Sargão não era outro senão o bíblico Ur, o local mesopotâmico de nascimento de Abraão.

As descobertas arqueológicas não justifIcaram só os registros bíblicos; pareceu também como certo que devem ter existido reinos e cidades e civilizações na Mesopotâmia mesmo antes do 3º. milênio a.C. A única questão era: até quando teríamos de recuar para descobrir o primeiro reino civilizado?

A chave que solucionaria o quebra-cabeça seria mais uma vez lingüística.

Os eruditos rapidamente concluíram que os nomes tinham significado não só em hebreu e no Antigo Testamento, mas ao longo de todo o antigo Oriente Médio. Todos os nomes acádicos, babilônios e assírios de pessoas e lugares tinham significado. Mas os nomes de governantes que precederam Sargão de Akkad não faziam sentido algum: o rei em cuja corte Sargão fora conselheiro chama-se Urzababa; o rei que reinara em Erech chamava-se Lugalzagesi, e assim por diante.

Realizando uma conferência perante a Real Sociedade Asiática, em 1853, Sir Henry Rawlinson salientou que estes nomes não eram nem semitas nem indo-europeus; de fato, "eles parecem pertencer a um grupo não conhecido de línguas ou povos". Mas, se os nomes tinham um significado, qual era a misteriosa língua que possuíam?

Os eruditos lançaram um novo olhar às inscrições acádias. Basicamente, a escrita cuneiforme acádia era silábica: cada sinal representava uma sílaba inteira (ab, ba, bat etc.). No entanto, a escrita tornou amplo o uso de sinais que não eram sílabas fonéticas, mas convencionavam os significados de "deus" "cidade" "campo " ou "vida", "exaltado" e semelhantes. A única explicação possível para este fenômeno era que eles seriam os vestígios de um método de escrita mais remota que utilizava a pictografia. A língua acádia, então, devia ter sido precedida por uma outra língua que usava um método de escrita semelhante ao dos hieróglifos egípcios.

Tornou-se rapidamente óbvio que estava envolvida não só uma remota forma de escrita, mas também uma remota língua. Os eruditos descobriram que as inscrições e textos acádios faziam grande uso de palavras de empréstimo - palavras emprestadas a uma outra língua, intactas, do mesmo modo que um francês moderno usaria a palavra inglesa week-end. Isto era especialmente verdadeiro quando estava envolvida uma terminologia científica ou técnica, e também em assuntos relativos aos deuses e aos céus.

Uma das maiores descobertas de textos acádios foram as ruínas da biblioteca concentrada em Nínive por Assurbanipal; Layard e seus colegas retiraram do local 25 mil barras, muitas das quais eram descritas pelos antigos escribas como cópias de "velhos textos". Um grupo de 23 barras terminava com a afirmação "23ª. barra: língua de shumer não modificada". Outro texto comporta uma afirmação enigmática do próprio Assurbanipal:

O deus dos escribas fez-me dádiva do conhecimento da sua arte.

Eu fui iniciado nos segredos da escrita.

Eu posso até ler as intricadas barras em shumério;

Eu entendo as palavras enigmáticas nas gravações de pedra dos dias anteriores ao dilúvio.

A pretensão de Assurbanipal de que podia ler intricadas barras em "shumério" e entender as palavras escritas em barras de "dias anteriores ao dilúvio", apenas aumentou o mistério. Mas, em janeiro de 1869, Julles Oppert sugeriu à Sociedade Francesa de Numismática e Arqueologia que devia ser dado reconhecimento da existência de uma língua e de um povo pré-acádios. Salientando que os antigos governantes da Mesopotâmia proclamavam sua legitimidade pela tomada do título "rei da Suméria e Akkad", ele sugeriu que o povo se chamaria "sumério" e ao seu território "Suméria".

À exceção de ter pronunciado mal o nome - era shumer, não sumer -, Oppert estava com a razão. A Suméria não era uma terra misteriosa e distante, mas o antigo nome da Mesopotâmia do Sul, tal como o livro do Gênesis tinha claramente afirmado: "As cidades reais de Babilônia e Akkad e Erech eram na 'Terra de Shin'ar" (Shinar era o nome bíblico de Shumer).

Uma vez aceitas estas conclusões pelos eruditos, abriram-se os diques. As referências acádias aos “textos antigos" revestem-se de significado, e os estudiosos depressa compreenderam que as barras com longas colunas de palavras eram, de fato, léxicos e dicionários acádio-sumérios preparados na Assíria e na Babilônia para seu próprio estudo da primeira linguagem escrita, a suméria.

Sem estes dicionários de há muito tempo, estaríamos ainda longe de ser capazes de ler o sumério. Com sua ajuda, um vasto tesouro literário e cultural se ofereceu aos nossos olhos. Tornou-se também claro que a escrita suméria, originalmente pictográfica e gravada na pedra em colunas verticais, foi depois escrita horizontalmente e, mais tarde, estilizada para a escrita em forma de cunha em barras lisas de argila para se tornar na escrita cuneiforme que foi adotada pelos acádios, babilônios, assírios e outras nações do antigo Oriente Médio.

A decifração da língua e escrita sumérias e a percepção de que os sumérios e sua cultura eram o manancial das realizações acádio-babilônio-assírias estimularam as pesquisas arqueológicas na Mesopotâmia do Sul. Todas as provas concordavam, agora, que o princípio estava ali.

A primeira escavação signifIcativa de um campo sumério começou em 1877 com arqueologistas franceses; e os achados deste único campo foram tão numerosos que outros arqueologistas lá continuaram a escavar até 1933, sem conseguirem completar a tarefa.

Chamado pelos nativos Telloh ("monte"), o campo revelou-se uma antiga cidade suméria, a verdadeira Lagash, de cuja conquista Sargão de Akkad se vangloria. Era realmente uma cidade real, cujos governantes tinham o mesmo título que Sargão adotara, à exceção de ser em linguagem suméria: EN.SI ("o governante íntegro"). Sua dinastia começara cerca do ano 2.900 a.C. e durou aproximadamente 650 anos. Durante este tempo reinaram em Lagash 43 ensi's sem interrupção. Seus nomes, genealogias e duração de reinado estão todos nitidamente gravados.

As inscrições forneceram muita informação útil. Apelos aos deuses "para fazer crescer os rebentos de grão para a colheita... para fazer a planta regada gerar cereal" atestam a existência de agricultura e irrigação. Uma taça inscrita em honra de uma deusa pelo "supervisor do celeiro" indica que os cereais eram armazenados, medidos e comercializados.


Um ensi chamado Eannatum deixou uma inscrição no tijolo de argila que torna claro que estes governantes sumérios podiam assumir o trono apenas com o aval dos deuses. Registra também a conquista de outra cidade, revelando a existência de outras cidades-estados na Suméria no início do 3º. milênio a.C.

O sucessor de Eannatum, Entemena, fala em construir um templo e de o ornamentar com ouro e prata, de nele plantar jardins, alargar paredes lineadas a tijolo. Ele gaba-se de construir uma fortaleza com torres de vigia e facilidades para a atracação de navios.

Um dos mais bem conhecidos governantes de Lagash foi Gudea. Ele fizera um grande número de estatuetas dele próprio, todas mostrando-o em atitude votiva, orando aos seus deuses. Esta atitude não era falsa: Gudea tinha-se realmente devotado à adoração de Ningirsu, sua principal deidade, e à construção e restauração de templos.

Suas muitas inscrições revelam que, na pesquisa de raros e delicados materiais de construção, ele extraiu ouro da África e da Anatólia, prata das montanhas Tauro, cedros do Líbano e outras madeiras raras de Ararat, cobre da cadeia montanhosa de Zagros, diorite do Egito, cornalina da Etiópia e outros materiais até agora não identifIcados pelos eruditos.

Quando Moisés construiu para o Senhor Deus uma residência no deserto, ele o fez de acordo com as detalhadíssimas instruções dadas pelo Senhor. Quando o rei Salomão construiu o primeiro templo em Jerusalém, fê-lo, apenas, depois de o Senhor "lhe ter dado sapiência". Ao profeta Ezequiel foram mostrados planos muito detalhados para o segundo templo "numa visão divina" por "uma pessoa que tinha aparência de bronze e que segurava na mão uma fita de linho e uma vara de medições". Ur-Nammu, governador de Ur, descrevia num milênio anterior como seu deus lhe ordenara que construísse para ele um templo e lhe dera instruções apropriadas, estendendo-lhe a vara de medições e a fita de linho enrolada para a execução da tarefa.



Mil e duzentos anos antes de Moisés, Gudea afIrmou o mesmo. As instruções, registrou ele numa inscrição muito longa, foram-lhe dadas numa visão. "Um homem que brilhava como os céus", ao lado de quem repousava. "um pássaro divino", "ordenou-me que construísse o seu templo". Este "homem" que tinha "uma coroa em sua cabeça" era, obviamente, um deus que foi mais tarde identifIcado como sendo o deus Ningirsu. Com ele estava uma deusa que "segurava uma agulha sagrada", com a qual ela indicava a Gudea "o planeta favorável". Um terceiro homem, também ele um deus, segurava em sua mão uma barra de preciosa pedra; "o plano de um templo estava aí contido". Uma das estatuetas de Gudea mostra-o sentado com esta barra nos joelhos: na barra o desenho divino pode ser claramente visto.



Sábio como era, Gudea ficou perplexo com estas instruções arquitetônicas e procurou o conselho de uma deusa que podia interpretar mensagens divinas. Ela explicou-lhe o significado destas instruções, as medidas do plano e o tamanho e forma dos tijolos a serem usados. Gudea, então, empregou um "advinho, fabricante de decisões", masculino, e uma "pesquisadora de segredos", feminina, para localizarem o lugar, às portas da cidade, onde o deus desejava que seu templo fosse construído. Recrutou depois 216 mil pessoas para o trabalho de construção.

O espanto de Gudea pode ser facilmente compreendido, porque o simples "plano térreo" deu-lhe a quantidade de informações necessárias para construir um complexo zigurate elevando-se por sete andares. Escrevendo em Der Alte Orient (O Velho Oriente), em 1900, A. Billerbeck foi capaz de decifrar pelo menos parte das divinas instruções arquitetônicas. O velho plano, mesmo na estátua parcialmente danificada, é ornado no topo por grupos de linhas verticais, cujo número diminui à medida que o espaço entre elas aumenta. Os arquitetos divinos, parece, eram capazes de fornecer, com um único plano térreo, acompanhado de sete escalas variáveis, as instruções completas de um enorme templo de sete andares.



Alguém disse que a guerra estimula o homem para o progresso científico e material. Na antiga Suméria, ao que parece, a construção de templos incitou o povo e seus governantes para maiores realizações tecnológicas. A capacidade de levar a cabo trabalhos de construção de grande envergadura, de acordo com planos arquitetônicos preparados, de organizar e sustentar uma gigantesca força de trabalho, de aplanar terra e erguer morros, de moldar tijolo e o transportar, de trazer metais raros e outros materiais de longe, de fundir o metal e moldar utensílios e ornamentos - tudo isto fala de uma alta civilização, já em plena maturidade no 3º. milênio a.C.

Magistrais como eram os mais remotos templos sumérios, eles representavam, ainda assim, apenas o topo do iceberg que é a extensão e riqueza das realizações materiais alcançadas pela primeira grande civilização conhecida pelo homem.

Juntando-se à invenção e desenvolvimento da escrita, sem a qual uma tão alta civilização não poderia ter existido, devemos conceder também aos sumérios o crédito de terem inventado a imprensa. Milênios antes de Johann Gutenberg ter "inventado" a imprensa pelo uso de tipos móveis, os escribas sumérios usavam tipos já feitos dos vários signos pictográficos, que utilizavam como nós hoje usamos os carimbos de borracha, para imprimir a seqüência desejada de signos na argila úmida.

Eles inventaram também aquilo que se pode considerar o precursor de nossas prensas rotativas - o selo cilíndrico. Feito de uma pedra excepcionalmente dura, este consistia de um pequeno cilindro no qual a mensagem ou desenho fora, gravado ao contrário; sempre que o selo era rolado na argila úmida, a impressão criava uma cópia "positiva" na argila. O selo dava também a possibilidade de assegurar a autenticidade dos documentos - no mesmo momento, podia ser feita uma nova impressão para ser comparada com a gravada no documento.



Muitos registros escritos sumérios e mesopotâmicos não diziam respeito, necessariamente, com o divino ou com o espiritual. Neles se falava também de tarefas do cotidiano, tais como registro de colheitas, medição de campos e cálculos de preços. Na verdade, nenhuma alta civilização podia ter sido possível sem um avançado sistema de matemáticas paralelo.

O sistema sumério, chamado sexagesimal, combinava um 10 mundano com um 6 "celestial" para obter o número de base 60. Este sistema é, em certos aspectos, superior ao nosso atual; de qualquer modo, ele é, indubitavelmente, superior aos posteriores sistemas grego e romano. Deu aos sumérios a possibilidade de dividir em frações e multiplicar em milhões, para calcular raízes ou elevar números várias vezes. Este foi não só o primeiro sistema matemático conhecido, como também aquele que nos deu o conceito de "posição". Tal como no sistema decimal o 2 pode ser ou 20 ou 200, dependendo do lugar do dígito, assim também no sistema sumério o 2 significa 2 ou 120 (2x60), e por aí adiante, dependendo da "posição".


O círculo de 360°, o pé e suas 12 polegadas e a "dúzia" como uma unidade não são mais do que alguns exemplos dos vestígios das matemáticas sumérias ainda presentes em nossa vida diária. Suas realizações concomitantes em astronomia, o estabelecimento de um calendário e outros feitos matemático-celestiais serão estudados com maior pormenor nos capítulos seguintes.

Tal como o nosso sistema econômico-social - os nossos livros de tribunal e registros de taxas, contratos comerciais e certidões de casamento etc. - depende do papel, a vida na Suméria e Mesopotâmia dependia da argila. Templos, tribunais e casas de comércio tinham os seus escribas prontos com barras de argila úmida na mão, nas quais inscreviam decisões, acordos, cartas ou se calculavam preços, salários, a área de um campo ou o número de tijolos requeridos para uma construção.

A argila era também uma matéria-prima fundamental para a manufatura de objetos de uso diário e recipientes para armazenagem e transporte de gêneros. Era também usada para fazer tijolo - outra invenção suméria -, o que tornou possível erigir casas para o povo, palácios para os reis e imponentes templos para os deuses.

Concede-se aos sumérios o crédito de terem desencadeado dois avanços tecnológicos que tornaram possível combinar leveza com força tênsil para todos os produtos de argila, reforçando e cozendo esse material. Os arquitetos modernos descobriram que o concreto armado reforçado, um material de construção extremamente forte, pode ser criado pela junção de cimento a moldes contendo varas de ferro. Há muito tempo, os sumérios davam grande força aos seus tijolos misturando a argila úmida com pedaços de junco cortados ou palha. Sabiam também que aos produtos de argila podia ser dada força tênsil e durabilidade cozendo-os num forno. Os primeiros arranha-céus e vãos em arco do mundo, assim como os duráveis utensílios de cerâmica, foram possíveis devido a estes avanços tecnológicos.

A invenção do forno - uma fornalha na qual temperaturas intensas, mas controláveis, podiam ser obtidas sem risco de contaminação dos produtos com cinzas - tornou possível um avanço tecnológico ainda maior - a Idade dos Metais.

Concluiu-se que o homem descobriu que podia trabalhar “pedras moles" - pepitas de ouro, cobre e compostos de prata ocorrendo naturalmente - em formas úteis ou agradáveis, em algum lugar por volta do ano 6.000 a.C. Os primeiros artefatos de metal batido foram encontrados nas terras altas dos montes Zagros e Tauros. Todavia, como salientou R. J. Forbes (The Birthplace of Old World Metallurgy) [O Berço da Velha Metalurgia Mundial], "no antigo Oriente Médio, a provisão natural de cobre foi rapidamente esgotada, e os mineiros tiveram de voltar ao minério bruto". Isto requereu conhecimento e capacidade para encontrar e extrair os minérios, esmagá-los e depois fundi-los e refiná-los - processos que não poderiam ter sido levados a bom termo sem os fornos de fundição e uma tecnologia generalizadamente avançada.

A arte da metalurgia depressa englobou a capacidade de ligar o cobre com outros metais inferiores, resultando daí o metal dificilmente fundível, mas maleável, a que chamamos bronze. A Idade do Bronze, nossa primeira idade metalúrgica, foi também uma contribuição mesopotâmica para a civilização moderna. Muito do antigo comércio era dedicado ao tráfico de metais; assim se formou a base de desenvolvimento na Mesopotâmia de bancos e do primeiro dinheiro - o shekel ("lingote de peso") de prata.

As muitas variedades de metais e ligas para os quais foram encontrados nomes sumérios e acádios e a extensa terminologia tecnológica atestam o alto nível que a metalurgia alcançara na Mesopotâmia. Por um momento, isto confundiu os estudiosos, porque a Suméria, como tal, era desprovida de minérios de metal e, no entanto, a metalurgia começou aí, em termos quase definitivos.

A resposta é a energia. A mistura, refinação e liga, assim como a fundição, não podiam ser feitas sem uma ampla provisão de combustíveis para ativar os fornos, cadinhos e fornalhas. À Mesopotâmia podem ter faltado os minérios, mas combustíveis ela os teve em abundância, o que explica o grande número de artes remotas inscrições descrevendo a viagem de minérios de metal vindos de muito longe.

Os combustíveis que tornaram a Suméria suprema, em termos de tecnologia, foram os betumes e os asfaltos, produtos petrolíferos que se infiltraram naturalmente para a superfície em muitos lugares da Mesopotâmia. R. J. Forbes (Bitumen and Petroleum in Antiquity) [Betumes e Petróleo na Antiguidade] mostra que os depósitos de superfície da Mesopotâmia foram as antigas fontes primárias de combustível desde os mais remotos tempos até a era romana. Sua conclusão diz-nos que o uso tecnológico destes produtos começou na Suméria por volta do ano 3.500 a.C.; na verdade, ele mostra que o uso e conhecimento dos combustíveis e suas propriedades são maiores nos tempos da Suméria do que nas civilizações mais tardias.

O uso destes produtos petrolíferos pelos sumérios foi tão amplo - não apenas como combustível, mas também como material de construção de estradas, para impermeabilização, calafetagem, pintura, esmaltagem e moldagem - que, quando os arqueólogos pesquisavam a antiga Ur, encontraram esses produtos enterrados num morro a que os árabes nativos chamam "Morro do Betume". Forbes mostra que a língua suméria tem vocábulos para cada gênero e variedade das substâncias betuminosas encontradas na Mesopotâmia. Na verdade, os nomes dos materiais betuminosos e petrolíferos noutras línguas - acádia, hebraica, egípcia, copta, grega, latina e sânscrita - podem ser decompostos até as origens sumérias; por exemplo, a palavra mais comum para petróleo - nafta - deriva de napatu ("pedras que cintilam").

O uso sumério dos produtos de petróleo era também básico para uma química avançada. Podemos avaliar o alto nível de conhecimento sumério não apenas pela variedade de tintas e corantes usados e processos como a esmaltagem, como também pela notável produção artificial de pedras semi-preciosas, incluindo um substituto do lápis-lazúli.

Os betumes eram também utilizados na medicina suméria, outro campo onde os níveis de progresso foram impressionantemente altos. As centenas de textos acádios encontrados empregam muitas frases e termos médicos sumérios, salientando a origem suméria de toda a medicina mesopotâmica.

A biblioteca de Assurbanipal em Nínive inclui uma seção médica. Os textos estavam divididos em três grupos - bultibu ("terapia"), shipir bel imti ("cirurgia") e urti mashmashshe ("ordens e encantamentos"). Primitivos códigos de leis incluem seções tratando dos salários pagos a cirurgiões por operações bem-sucedidas e penalidades a eles impostas em caso de fracasso: um cirurgião utilizando a lanceta para abrir a fronte de um paciente poderia perder a mão se, ainda que acidentalmente, destruísse a vista do doente.

Alguns esqueletos descobertos nos túmulos mesopotâmicos possuem indesmentíveis marcas de cirurgia craniana. Um texto médico incompleto parcialmente fala da remoção cirúrgica de "uma sombra cobrindo um olho de homem", provavelmente uma catarata; outro texto menciona o uso de um instrumento cortante, afirmando que "se a doença tivesse alcançado o interior do osso, o melhor seria raspar e retirar".

Nos tempos da Suméria, os doentes podiam escolher entre um A.ZU ("médico de água") e um IA.ZU ("médico de óleo"). Uma barra desenterrada em Ur, com quase 5.000 anos, nomeia um praticante de Medicina como "Lulu, o doutor". Havia também veterinários - conhecidos quer como "doutores de bois", quer como "doutores de asnos".

Um par de pinças cirúrgicas está descrito num cilindro muito antigo encontrado em Lagash e pertencendo a "Urlugaledina, o doutor". O selo mostra também a serpente numa árvore - o símbolo da medicina até hoje. Um instrumento que era usado pelas mulheres parteiras para cortar, o cordão umbilical aparece também freqüentemente descrito.



Os textos médicos da Suméria tratam ainda de diagnósticos e receituário. Não deixam dúvidas de que os médicos sumérios não recorriam à magia ou bruxaria. Eles recomendavam limpeza e lavagem; banhos de imersão em água quente e soluções minerais; aplicação de derivados vegetais, massagens com compostos de petróleo.

Os medicamentos eram feitos de compostos de plantas e minerais e eram misturados com líquidos ou solventes apropriados ao método de aplicação. Se tomados oralmente, os pós eram misturados no vinho, cerveja ou mel; se "colocados através do reto" - administrados num clister -, eram ministrados com óleos de plantas ou vegetais. O álcool, que atua de maneira tão importante na desinfecção cirúrgica e como base de muitos medicamentos, alcançou nossas línguas através do arábico kohl e do acádio kuhlu.

Modelos de fígado mostram que a medicina era ensinada em escolas médicas com a ajuda de modelos de órgãos humanos feitos de argila. A anatomia deve ter sido uma avançada ciência, uma vez que os rituais do templo reclamavam elaboradas dissecações ou sacrifícios de animais, o que, se compararmos com nosso conhecimento atual da anatomia humana, significa apenas um mero passo atrás.

Várias descrições em selos cilíndricos ou barras de argila mostram pessoas estendidas numa espécie de mesa cirúrgica rodeadas por equipes de deuses ou pessoas. Sabemos a partir das epopéias e outros textos heróicos que os sumérios e seus sucessores na Mesopotâmia estavam preocupados com assuntos relativos à vida, doença e morte. Homens como Gilgamesh, um rei de Erech, procuraram a "Árvore da Vida", ou então algum mineral ("uma pedra") que pudesse dar a juventude eterna. Havia também referências a esforços para ressuscitar os mortos, especialmente se se tratasse de deuses:

Por sobre o corpo, dependurado do mastro, eles conduziam o pulso e a radiação.

Sessenta vezes a Água da Vida,

Sessenta vezes o Alimento da Vida,

Eles aspergiam por sobre o corpo;

E Inanna ergueu-se.

Seriam conhecidos e usados métodos ultra-modernos, sobre os quais apenas podemos especular, nessas tentativas de retorno à vida? Por uma cena de tratamento clínico descrita num selo cilíndrico datado dos primórdios da civilização suméria podemos pensar que no tratamento de algumas enfermidades eram já conhecidos e usados materiais radioativos. Esse selo mostra, sem sombra de dúvida, um homem deitado num leito especial, sua face está protegida por uma máscara e ele se sujeita a um tipo qualquer de radiação.



Uma das mais remotas realizações materiais sumérias foi o desenvolvimento das indústrias têxteis e de vestuário.

Considera-se que nossa própria Revolução Industrial começou com a introdução de máquinas de fiar e tecer na Inglaterra por volta de 1760. Muitas nações em vias de desenvolvimento aspiram, desde então, a desenvolver uma indústria têxtil como o primeiro passo em direção à industrialização. A evidência mostra que este foi o processo seguido não só desde o século 18, mas desde sempre, desde a primeira grande civilização do homem. O homem não podia ter feito tecidos antes do advento da agricultura que lhe proporcionou o linho e a domesticação de animais, criando uma fonte para a lã. Grace M. Crowfoot (Textiles, Basketry and Mats in Antiquity) [Têxteis, Cestaria e Esteiras na Antiguidade] expressa o consenso escolástico afirmando que a tecelagem têxtil apareceu primeiro na Mesopotâmia, cerca do ano 3.800 a.C.

Todavia, a Suméria foi renovada nos tempos antigos não apenas pelos seus tecidos, como também pelos seus trajes. O livro de Josué (7:21) relata que, durante o assalto a Jericó, certa pessoa não resistiu à tentação de "guardar" um "bom casaco de Shin'ar", que encontrara na cidade, embora a punição para tal delito fosse a morte. Os artigos de vestuário de Shinar (Suméria) eram tidos em tão alta conta que as pessoas se arriscavam a morrer para os possuírem.

Existia já na Suméria uma rica terminologia para descrever tanto o vestuário, como seus fabricantes. A peça da base do vestuário chamava-se TUG - sem dúvida alguma, o precursor tanto no estilo como no nome da toga romana. Estas roupas eram chamadas TUG.TU.SHE., o que significa em sumério "veste que se usa enrolada à volta".



As antigas representações revelam não só uma espantosa variedade e opulência em termos de vestuário, como falam também da elegância para a qual concorriam o bom gosto, a coordenação entre as peças de vestuário, os penteados, os toucados e as jóias.





Outra grande realização da Suméria foi sua agricultura. Num território de chuvas apenas de estação, todos os rios eram usados para regar durante todo o ano as colheitas através de um vasto sistema de canais de irrigação.

A Mesopotâmia - a Terra Entre-os-Rios - era um verdadeiro cesto de comida nesses tempos remotos. O damasqueiro - para o qual a palavra espanhola é damasco ("Árvore de Damasco") - tem o nome latino de armeniaca, uma palavra de empréstimo do termo acádio armanu. A cereja - kerasos em grego, kirsche em alemão - deriva da palavra acádia karshu. Todas as provas sugerem que estes e outros frutos e vegetais chegaram à Europa vindos da Mesopotâmia. O mesmo se passou com muitas sementes e condimentos especiais. A nossa palavra açafrão vem do termo acádio azupiranu; o crocus, de kurkanu (através do grego krokos); cominho vem de kamanu; hissopo, de zupu; mirra, de murru. A lista é longa: em muitas circunstâncias, os gregos forneceram a ponte física e etimológica pela qual estes produtos da terra alcançaram a Europa. Cebolas, lentilhas, feijões, pepinos, couves e alfaces eram ingredientes vulgares no regime alimentar sumério.

O que é igualmente impressionante é a extensão e variedade dos métodos de preparação da comida na antiga Mesopotâmia, ou seja, sua cozinha. Textos e gravuras confirmam que os sumérios sabiam como transformar em farinha os cereais que cultivavam, e dos quais faziam uma série de pães, flocos, pastéis, bolos e biscoitos levedados e não-levedados. A cevada era também fermentada com vista a produzir cerveja. Foram encontrados, entre os textos, manuais técnicos para a produção de cerveja. O vinho era obtido a partir de uvas e tâmaras. O leite estava ao dispor dos sumérios, vindo das ovelhas, cabras e vacas; era usado como bebida, para cozinhar, e convertido em iogurte, manteiga, creme e queijos. O peixe era um elemento comum da dieta. A carne de carneiro era já usada e a carne de porco, animal que os sumérios guardavam em grandes rebanhos, era considerada uma verdadeira delícia. Gansos e patos devem ter sido reservados, talvez, para a mesa dos deuses.

Os antigos textos não deixam dúvidas de que a alta cozinha da antiga Mesopotâmia se desenvolveu nos templos e no serviço aos deuses. Um texto recomenda a oferta aos deuses de "pães de cevada... pães de trigo; uma pasta de mel e creme; tâmaras, pastéis... cerveja, vinho, leite... seiva de cedro, creme". A carne assada era oferecida com libações de "ótima cerveja, vinho e leite". Um corte específico de boi era preparado de acordo com determinado recipiente, exigindo uma "boa farinha... feita em pasta com água, boa cerveja e vinho" e misturada com gorduras animais, "ingredientes aromáticos tirados do coração das plantas", nozes, malte e condimentos. As instruções para "o sacrifício diário aos deuses da cidade de Uruk" exigiam que fossem servidas cinco bebidas diferentes com a refeição e especificavam o que os "moleiros na cozinha" e o "chefe que trabalhava nas massas" deviam fazer.

A nossa admiração pela cozinha suméria aumenta, certamente, à medida que deparamos com poemas que cantam as delícias da boa mesa. Na verdade, o que podemos nós dizer quando lemos num recipiente milenar para o coq au vin (galo no vinho) a seguinte inscrição:

No vinho da bebida,

Na perfumada água,

No óleo da unção,

Foi este pássaro por mim cozinhado e comido.

Esta economia florescente, esta sociedade de tão extensas empresas materiais não se poderiam ter desenvolvido sem um eficiente sistema de transportes. Os sumérios usaram os seus dois grandes rios e a rede artifIcial de canais para o transporte fluvial de pessoas, bens e gado. Algumas das mais antigas representações mostram, indubitavelmente, o que eram os primeiros barcos mundiais.

Sabemos a partir de muitos textos antigos que os sumérios se ocuparam também com viagens no mar alto, usando uma variedade de barcos para alcançar terras longínquas na busca de metais, madeiras raras, pedras e outros materiais impossíveis de obter dentro do espaço físico da Suméria. Descobriu-se num dicionário acádio da língua suméria uma seção de navios onde se listam 105 vocábulos sumérios para vários barcos de acordo com seu tamanho, destino ou objetivo (para carga, para passageiros ou para uso exclusivo de certos bens). Outros 69 termos sumérios relacionados com o equipamento e a construção de navios foram traduzidos para acádio. Só uma longa tradição náutica podia ter produzido navios de tal forma especializados e tal terminologia técnica.

Para o transporte pelo território, foi a Suméria a primeira a usar a roda.

Sua invenção e introdução na vida diária tornou possível uma quantidade de veículos desde carroças a carruagens e concedeu, indubitavelmente, aos sumérios a distinção de terem sido os primeiros a usar tanto a "força do boi" como a "força do cavalo" para a locomoção.


Em 1956, o prof. Samuel N. Kramer, um dos grandes sumeriologistas do nosso tempo, reviu o legado literário encontrado sob os montes da Suméria. O índice do conteúdo do livro (From the Tablets of Summer) [Das Barras da Suméria] é uma autêntica jóia, uma vez que cada um dos 25 capítulos relata uma estréia suméria, incluindo as primeiras escolas, o primeiro congresso com duas assembléias, o primeiro historiador, a primeira farmacopéia, o primeiro "almanaque" do agricultor, a primeira cosmogonia e cosmologia, o primeiro "Jó", os primeiros provérbios e ditos, os primeiros debates literários, o primeiro "Noé", o primeiro catálogo de biblioteca e a primeira Idade Heróica do Homem, seus primeiros códigos de leis e reformas sociais, sua primeira medicina, agricultura e pesquisa para a paz e harmonia universais.

E nada disto é exagero.

As primeiras escolas foram estabelecidas na Suméria como uma conseqüência direta da invenção e introdução da escrita. A evidência (tanto arqueológica, manifesta em reais edifícios escolares, como escrita, manifesta em barras de exercícios) indica a existência de um sistema formal de educação por volta do início do 3º. milênio a.C. Havia literalmente milhares de escribas na Suméria, que englobavam desde escribas júniores a altos escribas, escribas reais, escribas dos templos e escribas que assumiam altos cargos oficiais. Alguns atuavam como professores nas escolas, e ainda hoje podemos ler seus ensaios nas escolas, seus ideais e objetivos, seu currículo e métodos de ensino.

As escolas ensinavam não só a ler e a escrever, mas também as ciências da época - botânica, zoologia, geografia, matemática e teologia. As obras literárias do passado eram estudadas e copiadas e outras novas eram compostas.

As escolas eram dirigidas pelos ummia ("professor perito") e a faculdade, invariavelmente, incluía não só um "homem encarregado do desenho” e um "homem encarregado do sumério", mas também um "homem encarregado do chicote". Aparentemente, a disciplina era estrita; o aluno de uma escola descreveu numa barra de argila o modo como fora açoitado por faltar à escola, por insuficiente asseio, por vadiar, por não estar em silêncio, por mau comportamento e até por não ter uma caligrafia nítida.

Um poema épico tratando da história de Erech diz diretamente respeito à rivalidade entre Erech e a cidade-estado de Kish. O texto épico relata como os enviados de Kish procederam com Erech, oferecendo um acordo pacífico para a sua disputa. Mas o governante de Erech naquele tempo, Gilgamesh, preferiu lutar a negociar. O que é interessante é que ele teve de sujeitar o assunto à votação na Assembléia de Anciões, o "Parlamento" local:

O Senhor Gilgamesh,

Antes que os Anciões de sua cidade colocassem o assunto,

Procurou a decisão:

Não nos submetamos à casa de Kish,

Derrotemo-los pelas armas.

A Assembléia de Anciões era, no entanto, pelas negociações. Intrépido, Gilgamesh levou o assunto à consideração dos mais jovens, a Assembléia dos Homens Lutadores, que votou pela guerra. O significado da narrativa reside na descoberta que um governante sumério tinha de submeter questões de guerra ou de paz ao primeiro Parlamento de duas Assembléias, há cerca de 5.000 anos.

O título de primeiro historiador foi concedido por Kramer a Entemena, rei de Lagash, que gravou em cilindros de argila sua guerra com o vizinho Umma. Enquanto outros textos eram obras literárias ou poemas épicos, cujos temas eram acontecimentos históricos, as inscrições de Entemena eram pura prosa, escrita somente como registro factual de história.

Devido ao fato das inscrições da Assíria e da Babilônia terem sido decifradas muito antes dos registros sumérios, acreditou-se durante muito tempo que o segundo código de leis foi compilado e decretado pelo rei babilônico Hamurabi, cerca do ano 1.900 a.C. Mas como a civilização suméria não fora descoberta, tornou-se claro que as "estréias" no tocante a sistemas de leis, conceitos de ordem social e pura justiça administrativa pertenciam à Suméria.

Bastante antes de Hamurabi, um governante sumério da cidade-estado de Eshnunna (a nordeste da Babilônia) codificou leis que fixam os preços máximos dos alimentos e dos aluguéis de compartimentos e barcos para que os pobres não fossem explorados. Havia também leis tratando das ofensas contra pessoas e propriedades e regulamentos pertencentes à vida familiar e a relações senhor-servidor.

Ainda anteriormente foi promulgado um código por Lipit-Ishtar, um governante de Isin. As 38 leis que continuam legíveis na barra parcialmente preservada (uma cópia do original que foi gravada numa estela de pedra) legislam a compra de propriedades, escravos, trabalho de criados, matrimônios e heranças, aluguel de barcos, aluguel de bois e falta de pagamento de impostos. Como foi feito por Hamurabi, depois dele, Lipit-­Ishtar explicou no prólogo de seu código que agia segundo instruções dos "grandes deuses", que lhe ordenaram que trouxesse "o bem-estar aos sumérios e aos acádios".

No entanto, nem Lipit-Ishtar foi o primeiro codificador de leis. Os fragmentos de barras de argila que foram encontrados contêm cópias de leis codificadas por Urnammu, um governante de Ur, cerca do ano 2.350 a.C. - mais de um milênio e meio antes de Hamurabi. As leis decretadas sobre a autoridade do deus Nannar eram projetadas para parar e punir "os que se apoderavam dos bois, ovelhas e burros dos cidadãos" com o fim "de que os órfãos não caíssem nas garras dos abastados, os fracos não fossem presa fácil dos poderosos, o homem de um shekel não caísse nas mãos do homem de sessenta shekels". Urnammu decretou também "pesos e medidas honestos e constantes".

Mas o sistema legal sumério e o reforço da justiça remontam a tempos ainda mais longínquos.

Por volta do ano 2.600 a.C. já deviam ter tido lugar tantos acontecimentos na Suméria que o ensi Urukagina julgou necessário instituir reformas. Uma longa inscrição sua foi chamada pelos eruditos de registro precioso de uma reforma social humana baseada no sentido da liberdade, igualdade e justiça - uma "Revolução Francesa" imposta por um rei 4.400 anos antes de 14 de julho de 1789.

O decreto-reforma de Urukagina lista primeiro os males de seu tempo e depois as reformas. Os males consistem basicamente no uso injusto de poderes por parte dos supervisores no sentido de guardarem para eles a melhor parte; o abuso de status oficial; a extorsão de altos preços por grupos monopolizantes.

Todas estas injustiças, e muitas mais, foram proibidas por decreto-­reforma. Um oficial já não podia fazer seu próprio preço para "um bom burro ou uma casa". Um "homem grande" não podia exercer coerção num cidadão comum. Os direitos dos cegos, dos pobres, dos viúvos e dos órfãos foram restabelecidos. À mulher divorciada, há quase 5.000 anos, era garantida a proteção da lei.

Durante quanto tempo teria a civilização suméria existido para requerer uma reforma de base? Com certeza, durante muito tempo, uma vez que Urukagina afirmava que fora o seu deus Ningirsu quem o chamara "para restaurar os decretos dos dias de outrora". A implicação é nítida: era preciso um retorno a sistemas ainda mais antigos e a leis ainda mais remotas.

As leis sumérias eram sustentadas por um sistema de tribunais nos quais tanto os processos como os julgamentos ou os contratos eram meticulosamente registrados e preservados. A justiça agia mais com jurados do que com juízes; um tribunal era normalmente constituído por três ou quatro juízes, um dos quais era um "juiz real" profissional e os outros destacados de um júri de 36 homens.

Enquanto os babilônios faziam leis e regulamentos, os sumérios estavam preocupados com a justiça, porque eles acreditavam que os deuses designavam os reis, basicamente, para assegurar o cumprimento da justiça na Terra.

Mais que um paralelo pode ser aqui traçado com os conceitos de justiça e moralidade do Antigo Testamento. Ainda antes de os hebreus terem reis, eram governados por juízes; os reis eram julgados não pelas suas conquistas ou riqueza, mas pelo alcance que obtinham "fazendo aquilo que era justo". Na religião judaica, o ano-novo marca um período de dez dias durante os quais os feitos dos homens eram julgados e avaliados para determinar seu destino no ano vindouro. É, provavelmente, mais que uma coincidência que os sumérios acreditassem que uma deidade chamada Nanshe julgasse anualmente a humanidade da mesma maneira; afinal, o primeiro patriarca hebreu - Abraão - era da cidade suméria de Ur, a cidade de Urnammu e de seu código.

A preocupação suméria com a justiça ou com sua ausência encontrou também expressão naquele a que Kramer chamou o primeiro "Jó". Jogando com fragmentos de barras de argila no Museu de Antiguidades, em Istambul, Kramer foi capaz de ler boa parte de um poema sumério que, tal como o livro bíblico de Jó, trata da queixa de um homem justo que, em vez de ser abençoado pelos deuses, sofria toda a espécie de perdas e desrespeitos. "A minha palavra verdadeira foi tornada numa mentira", grita ele angustiado.

Em sua segunda parte, o anônimo sofredor dirige súplicas ao seu deus de uma maneira semelhante a alguns versos dos salmos hebreus:

Meu deus, tu que és o meu pai, que me criaste - ergue a minha face...

Até quando me negligenciarás...

Me deixarás desprotegido...

E sem orientação?

Segue-se depois um fim feliz. "As palavras justas, as palavras puras proferidas por ele, foram aceitas pelo seu deus... o seu deus retirou a sua mão da malfazeja manifestação." .

Precedendo o livro bíblico do Eclesiastes em cerca de dois milênios, os provérbios sumérios transmitiam muitos dos mesmos conceitos e graças:

Se estamos condenados a morrer - gozemos o tempo.

Se vivermos muito - salvemo-nos.

Quando um homem pobre morre, não o tentes fazer voltar à vida.

Ele que possui tanta prata, pode ser feliz;

Ele que possui tanta cevada, pode ser feliz;

Mas quem não tem nada, pode dormir!

Homem: para o seu prazer: casamento;

Se volta a pensar nisso: divórcio.

Não é o coração que leva à animosidade;

A língua é que leva à aversão.

Numa cidade sem cão de guarda,

A raposa é quem vê tudo.

As realizações materiais e espirituais da civilização suméria foram também acompanhadas por um amplo desenvolvimento do desempenho artístico. Uma equipe de estudiosos da Universidade da Califórnia, em Berkeley, foi notícia em março de 1974, quando anunciou que fora decifrada a mais velha canção do mundo. O que os profs. Richard L. Crocker, Anne D. Kilmer e Robert R. Brown conseguiram foi ler e tocar realmente as notas musicais escritas numa barra cuneiforme de cerca do ano 1.800 a.C. encontrada em Ugarit na costa mediterrânea (Síria).

"Sempre soubemos", explica a equipe de Berkeley, "que havia música nas remotas civilizações assírio-babilônias, mas até à sua decifração não podíamos saber que tinha a mesma escala heptatônica-diatônica, que é característica da música ocidental contemporânea e da música grega do 1º. milênio a.C. Pensou-se até há pouco que a música ocidental tivera suas origens na Grécia; agora foi estabelecido que a nossa música - como tantos elementos mais de nossa civilização ocidental - nasceu na Mesopotâmia. Isto não deve surpreender, uma vez que o erudito Filo tinha já afirmado que os mesopotâmios eram conhecidos por "procurarem a harmonia e o uníssono através dos tons musicais".

Não pode haver dúvida de que música e canções devem também ser reclamadas como "estréias" sumérias. De fato, o prof. Crocker apenas pôde tocar a velha melodia construindo uma lira como as que foram encontradas nas ruínas de Ur. Textos do 2º. milênio a.C. indicam a existência de "números-chave" musicais e de uma coerente teoria musical, e a própria profa. Kilmer escreveu ainda anteriormente (The Strings of Musical Instruments: Their Names, Numbers and Significance) [As Cordas de Instrumentos Musicais: Seus Nomes, Números e Significado] que muitos textos-hinos sumérios tinham "aquilo que parecia ser anotações musicais nas margens". "Os sumérios tinham uma vida muito musical", conclui ela. Não admira, então, que encontremos gravados em selos cilíndricos e barras de argila uma grande variedade de instrumentos musicais, assim como cantores e dançarinas atuando.




Como muitas outras conquistas sumérias, a música e a canção foram também criadas nos templos. Mas, começando a serviço dos deuses, estas artes foram rapidamente levadas para fora dos templos. Empregando o jogo de palavras favorito sumério, um dito popular comenta os salários exigidos pelos cantores: "Um cantor cuja voz não é doce é realmente um 'pobre' cantor".

Foram encontradas muitas canções de amor sumérias; eram indubitavelmente cantadas com acompanhamento musical. Muito comovente, no entanto, é a canção de ninar que uma mãe compôs e cantou para seu filho doente:

Vem sono, vem sono, vem ao meu filho.

Apressa-te para meu filho, sono;

Faz dormir seus olhos que não repousam...

Sofres, meu filho;

E eu estou perturbada; fico muda,

E fito as estrelas.

A nova lua brilha em tua face;

A tua sombra derrama lágrimas para ti.

Repousa, repousa no teu sono...

Possa a deusa da maturidade ser tua aliada;

Possas tu ter um eloqüente guardião no céu;

Possas tu alcançar um reino de dias felizes...

Possa uma mulher ser o teu apoio;

Possa um filho ser a tua futura sorte.

O que há de impressionante nestas músicas e canções não é só a conclusão de que a Suméria foi a fonte da música ocidental em estruturas e composições harmônicas. Não menos significativo é o fato de que, enquanto Ouvimos a música e lemos os poemas, eles não soam estranhos ou diferentes, mesmo em sua profundidade de emoção e em seus sentimentos. De fato, quando contemplamos a grande civilização suméria, descobrimos que não só nossa moral e nosso sentido de justiça, nossas leis e arquitetura, artes e tecnologia têm suas raízes na Suméria, como também as instituições sumérias nos parecem familiares e íntimas. No fundo, parece, somos todos sumérios.

Depois de escavarem em Lagash, as pás dos arqueólogos desvendaram Nippur, o centro religioso tanto da Suméria como de Akkad. Dos 30 mil textos aí encontrados, muitos ainda não foram decifrados. Em Shuruppak, foram desenterrados edifícios escolares datados do 3º. milênio a.C. Em Ur, os eruditos encontraram vasos, jóias, armas, carros, elmos feitos de ouro, prata, cobre e bronze, vestígios de uma fábrica de tecidos, registros de tribunais e um zigurate de torres que ainda hoje domina a paisagem. Em Eshnunna e Adab, os arqueólogos descobriram templos e estatuetas artísticas dos tempos pré-sargônicos. Em Umma foram encontradas inscrições falando dos primitivos impérios, e em Kish foram descobertos edifícios monumentais que datam do ano 3.000 a.C., aproximadamente.

Uruk (Erech) levou os arqueólogos de volta ao 4º. milênio a.C. Aí foram descobertos os primeiros potes coloridos, cozidos em forno, e as provas do uso da primeira roda de oleiro. Um pavimento de blocos de pedra calcária é a mais velha construção de pedra encontrada até hoje. Em Uruk, os arqueólogos encontraram também o primeiro zigurate, um grande morro construído pelo homem, no topo do qual estão situados um templo branco e um templo vermelho. Os primeiros textos inscritos foram também encontrados aí, assim como os primeiros selos cilíndricos. Destes últimos, Jack Finegam (Light from the Ancient Past) [Luz do Passado Antigo] disse: "A qualidade dos selos em sua primeira aparição no período de Uruk é fantástica". Outros locais do período de Uruk dão provas da iminência da Idade do Metal.

Em 1919, H.R. Hall deparou com velhas ruínas numa vila agora chamada El-Ubaid. O local deve seu nome àquilo que os eruditos consideram como sendo a primeira fase da grande civilização suméria. As cidades sumérias daquela época, que se estendem desde a Mesopotâmia do Norte ao sul dos montes Zagros, testemunham o primeiro uso de tijolos de argila, paredes de gesso, mosaicos decorativos, cemitérios de túmulos delineados por tijolos, manufaturas de cerâmica pintada e decorada com desenhos geométricos, espelhos de cobre, contas de turquesa importada, pintura para as pálpebras, machados de guerra com acabamento em cobre, roupas, casas e, acima de tudo, monumentais edifícios de templos.

Mais para o sul, os arqueólogos encontraram Eridu, a primeira cidade suméria, de acordo com textos antigos. À medida que os escavadores cavavam mais fundo, depararam com um templo dedicado a Enki, o Deus da Sabedoria da Suméria, que parece ter sido construído e reconstruído vezes sem conta. Os estratos levaram claramente os eruditos de volta aos inícios da civilização suméria: 2.500 a.C., 2.800 a.C., 3.000 a.C., 3.500 a.C.

Depois, as pás dos arqueólogos encontraram os alicerces do primeiro templo dedicado a Enki. Abaixo dele havia solo virgem: nada ali fora construído antes. Estava-se por volta do ano 3.800 a.C. Foi quando a civilização começou.



Não foi só a primeira civilização, no sentido estrito do termo. Foi uma civilização mais ampla, englobante, e de muitos modos mais avançada que as outras antigas culturas que a seguiram. Indubitavelmente, a nossa civilização se baseou naquela.

Começando a usar pedras como instrumentos há cerca de 2 milhões de anos, o homem alcançou uma civilização sem precedentes na Suméria por volta de 3.800 a.C. E o espantoso de tudo isto é que, até o presente, os eruditos não têm nenhuma suspeita acerca da identidade dos sumérios, de sua procedência e do como e porquê do aparecimento de sua civilização.

Porque seu aparecimento foi repentino, inesperado, vindo do nada.

H. Frankfort (Tell Uqair) diz que o fato é espantoso. Pierre Amiet (Ellam) taxou-o de extraordinário. A. Parrot (Sumer) [A Suméria] descreve-o como "uma chama que saltou repentinamente". Leo Oppenheim (Ancient Mesopotâmia) [A Antiga Mesopotâmia] salienta "o período de tempo espantosamente curto" no qual esta civilização se ergueu. Joseph Campbell (The Masks of God) [As Máscaras de Deus] resume-o deste modo: "Com uma atordoante brusquidão... aparece neste pequeno e barrento jardim sumério... toda a síndrome cultural que constitui desde então a unidade embrionária de todas as grandes civilizações do mundo".



3

Deuses do Céu e da Terra

O que é que, depois de centenas de milhares e mesmo milhões de anos de lento e doloroso desenvolvimento humano, mudou, de maneira repentina, tudo tão completamente e, num golpe de mágica - em aproximadamente 11.000 a.C., 7.400 a.C., 3.800 a.C. -, transformou os caçadores nômades primitivos e os catadores de alimentos em agricultores e fabricantes de cerâmica e, depois, em construtores de cidades, engenheiros, matemáticos, astrônomos, metalúrgicos, comerciantes, músicos, juízes, doutores, escritores, bibliotecários e padres? Pode-se ir ainda mais longe e colocar uma questão mais básica, formulada pelo prof. Robert J. Braidwood (Pre-Historic Men) [Os Homens Pré-Históricos]: "Por que é que todos os seres humanos não vivem ainda como os maglemosianos viviam?".

Os sumérios, povo por meio do qual esta alta civilização encontrou sua existência, tinham uma resposta já pronta. Ela aí está, resumida por uma das dezenas de milhares de antigas inscrições mesopotâmicas que foram desenterradas: "Tudo o que parece belo, nós o criamos pela graça dos deuses”.

Os deuses da Suméria. Quem eram eles?

Os deuses da Suméria eram, como os deuses gregos, representados vivendo numa grande corte, festejando na Grande Ante-câmara de Zeus nos céus - o Olimpo, cujo correspondente na Terra era o pico grego mais alto, o monte Olimpo?

Os gregos descreveram seus deuses como antropomórficos, fisicamente semelhantes aos homens e mulheres mortais, e humanos na personalidade: podiam ficar alegres ou tristes e ciumentos; amavam, discutiam e lutavam; e procriavam como os humanos, trazendo à luz uma descendência numerosa por meio de relações sexuais quer entre si, quer com humanos.

Eram inatingíveis e, no entanto, imiscuíam-se permanentemente nos negócios humanos. Podiam viajar a velocidades enormes, aparecer e desaparecer; possuíam armas de imenso e invulgar poder. Cada um tinha funções específicas e, como resultado, uma atividade humana específica podia sofrer ou beneficiar-se com as atitudes do deus encarregado dessa atividade particular; deste modo, os rituais de adoração e oferendas aos deuses eram considerados como benéficos para a obtenção de seus favores.

A deidade principal dos gregos durante a civilização helênica era Zeus, "o pai dos deuses e dos homens", "senhor do fogo celestial". Sua principal arma e símbolo era o raio. Era um "rei" na Terra que descera dos céus; um tomador de decisões e distribuidor do bem e do mal aos mortais, e, no entanto, alguém cujos domínios originais estavam nos céus.

Não era nem o primeiro deus na terra, nem a primeira divindade a aparecer nos céus. Misturando a teologia com a cosmologia para chegar àquilo que os estudiosos chamam mitologia, veremos que os gregos acreditavam que o primeiro fora o Caos; depois apareceram Gaia (Terra) e seu consorte Urano (Céu). Gaia e Urano deram ao mundo os doze Titãs, seis machos e seis fêmeas. Embora seus feitos legendários acontecessem na Terra, acreditava-se que tinham um equivalente astral.

Cronos, o Titã macho mais jovem, surgiu como a principal figura na mitologia do Olimpo. Alcançou a supremacia entre os Titãs mediante a usurpação, depois de castrar seu pai, Urano. Temendo os outros Titãs, Cronos aprisionou-os e expulsou-os. Por essa ação foi amaldiçoado pela mãe - ele deveria sofrer o mesmo destino que seu pai e seria destronado por um de seus próprios filhos.

Cronos contraiu matrimônio com a própria irmã Réia, que lhe deu três filhos e três filhas: Hades, Poséidon e Zeus; Héstia, Deméter e Hera. Uma vez mais foi decretado que seu filho mais novo seria aquele que deporia o pai, e a maldição de Gaia tornou-se real quando Zeus destronou Cronos, seu Pai.

A destituição, parece, não teria decorrido sem atritos. Por muitos anos se travaram batalhas entre os deuses e uma hoste de seres monstruosos. A batalha decisiva ocorreu entre Zeus e Tífon, uma divindade-serpente. A luta travou-se em largas áreas, na Terra e nos céus. A batalha final deu-­se no monte Cásio, perto da fronteira entre o Egito e a Arábia - aparentemente, em algum lugar na península do Sinai.



Zeus e Tífon

Ao vencer o combate, Zeus foi reconhecido como a principal divindade. Mesmo assim, teve de partilhar o poder com seus irmãos. Por escolha (ou, de acordo com uma versão, por meio de sorteio), foi dado a Zeus o controle dos céus, a Hades, o irmão mais velho, se concedeu o Mundo Inferior, e ao irmão do meio, Poseidon, o domínio dos Mares.

Embora com o tempo Hades e sua região se tornassem sinônimos de Inferno, seu domínio original era um território situado num lugar "longe e abaixo" englobando pântanos, áreas desoladas e terras irrigadas por poderosos rios. Hades era descrito como "o invisível" - indiferente, proibitivo, austero; não demomível por súplicas ou sacrifícios. Poseidon, por outro lado, era freqüentemente visto segurando seu símbolo, o tridente. Embora governasse os mares, era também mestre das artes de metalurgia e escultura, assim como competente mágico e feiticeiro. Enquanto Zeus era representado na tradição e lenda gregas como severo para com a humanidade - tendo até mesmo planejado em determinada época aniquilar o gênero humano -, Poseidon era considerado amigo do homem e um deus que esforçava-se para ganhar o apreço dos mortais.

Os três irmãos e as três irmãs, todos filhos de Cronos e de sua irmã Réia, constituíam os membros mais antigos do Círculo Olímpico, o grupo dos Doze Grandes Deuses. Os outros seis eram prole de Zeus, e as lendas gregas tratavam sobretudo de sua genealogia e relações.

As deidades filhas de Zeus tinham por mãe várias e diferentes deusas. Casando primeiro com uma deusa chamada Métis, Zeus teve dela uma filha, a grande deusa Atena. Ela tinha a seu cargo o senso comum e a habilidade manual e era, deste modo, a Deusa da Sabedoria. Mas como foi a única grande divindade a permanecer com Zeus durante seu combate com Tífon (todos os outros desertaram), Atena adquiriu também qualidades marciais e tornou-se Deusa da Guerra. Era a "perfeita donzela" e não se tornou mulher de ninguém, embora algumas lendas a relacionem com freqüência com seu tio Poseidon que, mesmo mantendo como consorte oficial a divindade que se tornara Deusa do Labirinto da ilha de Creta, teve como amante sua sobrinha Atena.

Zeus casou depois com outras deusas, mas seus filhos não entraram para o Círculo Olímpico. Quando Zeus preocupou-se em arranjar um herdeiro masculino, voltou-se para uma de suas próprias irmãs. A mais velha era Héstia, uma solitária, talvez demasiado velha ou demasiado abatida para ser objeto de atividades matrimoniais. Zeus não precisou de grandes desculpas para voltar suas atenções para Deméter, a irmã do meio, Deusa da Fertilidade. Mas em vez de um filho, ela deu-lhe uma filha, Perséfone, que se tornou mulher de seu tio Hades e compartilhou seu domínio no Mundo Inferior.

Desapontado por não lhe ter nascido um filho, Zeus procurou outra deusa para lhe dar conforto e amor. De Harmonia, teve nove filhas. Depois, Leto concedeu-lhe uma filha e um filho, Ártemis e Apolo, que logo foram destacados para o grupo das deidades principais.

Apolo, como primeiro filho de Zeus, era um dos maiores deuses do panteão helênico. Temido do mesmo modo por homens e deuses, era o intérprete para os mortais da vontade de seu pai, Zeus, e, deste modo, a autoridade em matéria de lei religiosa e adoração nos templos. Representando as leis morais e divinas, personificava a purificação e a perfeição, tanto espiritual como física.

O segundo filho de Zeus nascido da deusa Maia, era Hermes, patrono dos pastores, guardião dos rebanhos e manadas. Menos importante e poderoso que seu irmão Apolo, estava mais próximo dos negócios humanos; qualquer golpe de boa sorte lhe era atribuído. Como Dispensador das Boas Coisas, a seu cargo estava o comércio, e era o patrono de mercadores e viajantes. Mas seu principal papel no mito e na épica era o de arauto de Zeus, mensageiro dos deuses.

Impelido por certas tradições dinásticas, Zeus exigiu ainda um filho de uma das suas irmãs e voltou-se para a mais nova, Hera. Casando com ela nos ritos do sagrado matrimônio, Zeus proclamou-a rainha dos deuses, a Deusa-Mãe. O casamento, abençoado com um filho, Ares, e duas filhas, foi ameaçado por constantes infidelidades por parte de Zeus e por uma faladíssima infidelidade de Hera, que lançou a dúvida sobre a paternidade verdadeira de outro filho, Hefesto.

Ares foi desde logo incorporado no Círculo Olímpico dos Doze Grandes Deuses e foi feito tenente-chefe de Zeus, um Deus da Guerra. Foi representado como o Espírito do Massacre, e, no entanto, estava longe de ser invencível - lutando na Batalha de Tróia, do lado dos troianos, sofreu um ferimento que apenas Zeus podia curar.

Hefesto, por outro lado, teve de abrir seu caminho para alcançar o topo do Olimpo. Deus da Criatividade, a ele se atribuía o fogo da forja e a arte da metalurgia. Era um artífice divino, fabricante tanto de objetos práticos como de objetos mágicos para os homens e para os deuses.

As lendas dizem que nasceu coxo e foi por isso banido com raiva por sua mãe Hera. Outra versão, mais plausível, diz que foi Zeus que expulsou Hefesto, por causa da dúvida que pairava sobre sua paternidade, mas que Hefesto usou seus criativos poderes mágicos para forçar Zeus a dar-lhe assento entre os grandes deuses.

As lendas dizem ainda que Hefesto fabricou, um dia, uma cadeia invisível que se fechava sobre o leito de sua mulher, se fosse aquecida por um amante intrometido. Ele deve ter necessitado dessa proteção uma vez que sua mulher era Afrodite, a Deusa do Amor e da Beleza. Era muito natural que tantos contos de casos amorosos fossem construídos à sua volta; em muito desses contos o sedutor era Ares, irmão de Hefesto (um dos rebentos deste caso de amor ilícito foi Eros, o Deus do Amor).

Afrodite foi incluída no Círculo Olímpico dos doze, e as circunstâncias de sua inclusão lançam luz sobre nosso tema. Ela não era nem irmã de Zeus nem sua fIlha e, no entanto, não a podiam ignorar. Viera das costas asiáticas do Mediterrâneo, em frente à Grécia (de acordo com o poeta grego Hesíodo, chegou vinda de Chipre); e reclamando sua grande antiguidade, fez remontar sua origem aos descendentes de Urano. Deste modo, genealogicamente, ela estava uma geração à frente de Zeus, sendo (por assim dizer) uma irmã do pai dele e a encarnação do castrado pai primitivo dos deuses.

Afrodite, assim, tinha de ser incluída entre os deuses do Olimpo. Mas seu número total, doze, aparentemente, não podia ser excedido. A solução foi engenhosa - juntar um, pondo outro de lado. Uma vez que a Hades fora dado domínio sobre o Mundo Inferior e não permanecera entre os grandes deuses no monte Olimpo, criou-se uma vaga, admiravelmente pronta para nela sentar-se Afrodite, no elitista grupo dos doze.



Parece também que o número doze era uma exigência que funcionava nos dois sentidos, ou seja, assim como não podia haver mais de doze habitantes no Olimpo, também não podia haver menos. Isto torna-se evidente através das circunstâncias que levaram à inclusão de Dioniso no Círculo Olímpico. Ele era um filho de Zeus, nascido quando Zeus engravidou sua própria filha, Sêmele. Dioniso, que teve de ser escondido da cólera de Hera, foi enviado para terras longínquas (chegando a alcançar a Índia), introduzindo o cultivo de vinhas e a fabricação de vinho onde quer que estivesse. Entretanto, ficou disponível uma vaga no Olimpo. Héstia, a irmã mais velha e mais fraca de Zeus, foi completamente esquecida pelo círculo dos deuses. Dioniso regressou então à Grécia e foi-lhe permitido tomar assento no Olimpo. Uma vez mais, havia doze habitantes no Olimpo.

Embora a mitologia grega não seja clara no tocante às origens da humanidade, as lendas e as tradições reivindicavam a ascendência divina para heróis e reis. Estes semi-deuses eram o elo entre o destino humano - suor diário, dependência dos elementos, pragas, doenças e morte - e um passado dourado quando apenas os deuses perambulavam pela Terra. E embora muitos desses deuses tivessem nascido na Terra, o seleto círculo dos doze olimpianos representava o aspecto celestial dos deuses. O Olimpo original era descrito na Odisséia como estando situado “no mais puro ar dos céus". Os genuínos doze grandes deuses eram divindades do céu que desceram à Terra e representavam os doze corpos celestiais na "abóbada celeste".

Os nomes latinos dos grandes deuses, que lhes foram conferidos quando os romanos adotaram o panteão grego, clarificam suas associações astrais: Gaia era a Terra, Hermes, Mercúrio; Afrodite, Vênus; Ares, Marte; Cronos, Saturno; e Zeus, Júpiter. Continuando com a tradição grega, os romanos encararam Júpiter como um deus trovejante cuja arma era a luminosa flecha; tal como os gregos, os romanos associam-no ao touro.



Existe agora um acordo geral sobre a colocação dos alicerces da distinta civilização grega na ilha de Creta, onde a cultura minóica floresceu desde cerca do ano 2.700 a.C. até 1.400 a.C. Na mitologia minóica é proeminente a lenda do Minotauro. Este semi-homem, semi-touro era o rebento de Pasífae, a mulher do rei Minos, e de um touro. Os achados arqueológicos confirmaram a ampla adoração dos minóicos ao touro e alguns selos cilíndricos descrevem o touro como um ser divino acompanhado de uma cruz que simbolizava qualquer planeta ou estrela não identificados. Conjetura-se desde aí, que o touro adorado pelos minóicos não é a criatura terrena comum, mas o Touro Celestial - a constelação de Touro - em comemoração de certos eventos ocorridos quando o equinócio primaveril do Sol apareceu nessa constelação, cerca de 4.000 a.C.



Pela tradição grega, chegou ao continente grego, via Creta, de onde escapara (nadando pelo Mediterrâneo), depois de raptar Europa, a linda filha do rei da cidade fenícia de Tiro. Na verdade, quando o mais remoto escrito minóico foi, finalmente, decifrado por Cyrus H. Gordon, demonstrou-se que se tratava "de um dialeto semita das costas do Mediterrâneo Oriental".

De fato, os gregos nunca disseram que seus deuses olímpicos vieram dos céus diretamente para a Grécia. Zeus chegou depois de atravessar o Mediterrâneo, via Creta. Afrodite, dizia-se, veio por mar do Oriente Médio, via Chipre. Poseidon (Netuno para os romanos) trouxe consigo o cavalo, vindo da Ásia Menor. Atena trouxe “a oliveira, fértil e que se cultiva por si própria" para a Grécia, vinda das terras da Bíblia.

Não há dúvida de que as tradições e religião gregas chegaram ao continente grego vindas do Oriente Médio, via Ásia Menor e ilhas mediterrâneas. Foi lá que seu panteão firmou raízes; é lá que devemos procurar as origens dos deuses gregos e suas relações astrais com o número doze.

O hinduísmo, a antiga religião da Índia, considera os Vedas - conjunto de hinos, fórmulas e sacrifícios e outros ditos pertencentes aos deuses ­- como escrituras sagradas "de origem não humana". Os próprios deuses os compuseram, dizem as tradições hindus, na idade que precedeu a presente. Mas, à medida que o tempo foi passando, mais e mais dos 100 mil versos originais transmitidos oralmente de geração em geração se foram perdendo e misturando. Finalmente, um sábio anotou os versos, que ficaram divididos em quatro livros, e confiou-os a quatro de seus principais discípulos para que cada um preservasse um Veda.

Quando, no século 19, os estudiosos começaram a decifrar e a entender línguas esquecidas e a traçar elos entre elas, compreenderam que os Vedas estavam escritos numa língua indo-européia muito antiga, predecessora da língua de raiz indiana (sânscrito), do grego, do latim e de outras línguas européias. Quando, finalmente, foram capazes de ler e analisar os Vedas, os eruditos se surpreenderam com a misteriosa semelhança entre os contos de deuses védicos e gregos.

Os deuses, dizem os Vedas, eram todos membros de uma família grande, mas não necessariamente pacífica. Por entre os contos de ascensões aos céus e descidas à Terra, batalhas aéreas, armas magníficas, amizades e rivalidades, casamentos e infidelidades, parece existir uma preocupação básica com a preservação dos registros genealógicos - quem foi pai de quem, quem foi o primeiro fIlho de quem. Os deuses na Terra tiveram sua origem nos céus, e as principais divindades, mesmo na Terra, continuaram a representar corpos celestiais.

Em tempos primitivos, os Rishis ("os primevos dimanadores") "fluíam" celestialmente possuídos de irresistíveis poderes. Dentre eles, sete foram os Grandes Progenitores. Os deuses Rahu ("o demônio") e Ketu ("o desligado") constituíram outrora um mesmo corpo celestial que procurou juntar-se aos deuses sem permissão; mas o Deus das Tempestades brandiu sua flamejante arma contra ele, dividindo-o em duas partes - Rahu, “a cabeça do dragão", que incessantemente atravessa os céus à procura da vingança, e Ketu, "a cauda do dragão". Mar-Ishi, o progenitor da Dinastia Solar, fez nascer Kash-Yapa ("ele que é o trono"). Os Vedas descrevem-no como tendo sido bastante prolífero; mas a sucessão dinástica só foi continuada através de seus dez filhos por Prit-Hivi ("celestial mãe") .

Como principal membro da dinastia, Kash-Yapa era também chefe dos Devas ("os brilhantes") e tinha o título de Dyaus-Pitar ("o pai brilhante"). Em conjunto com sua consorte e dez filhos, a divina família constitui os Doze Adityas, deuses a cada um dos quais era associado um signo do zodíaco e um corpo celestial. O corpo celestial de Kash-Yapa era “a estrela brilhante"; Prit-Hivi representava a Terra. Depois, havia os deuses cujos equivalentes celestiais incluíam o Sol, a Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno.

Com o tempo, a chefia do panteão dos doze passou para Varuna, o Deus da Celestial Expansão. Ele era onipotente e tudo via. Um dos hinos a ele cantados soa como um salmo bíblico:

É ele quem faz o Sol brilhar nos céus,

E os ventos que sopram são seu alento.

Ele escavou os canais dos rios;

Eles fluem a uma ordem sua.

Ele fez as profundezas do mar.

Seu reino também encontrou, mais cedo ou mais tarde, um fim. Indra, o deus que assassinou o celestial "Dragão", reivindicou o trono matando seu pai. Ele era o novo Senhor dos Céus e o Deus das Tempestades. Raios e trovões eram suas armas, e seu epíteto era Senhor dos Exércitos. Ele tinha, contudo, de partilhar o domínio com seus dois irmãos. Um deles era Vivashvat, o progenitor de Manu, o primeiro homem. O outro, Agni ("o ígneo"), trouxe o fogo dos céus para a Terra, para que a humanidade o pudesse usar industrialmente.

As semelhanças entre os panteões védico e grego são óbvias. Os contos que dizem respeito às principais deidades, assim como os versos tratando da multitude de divindades inferiores - filhos, esposas, filhas, amantes -, são, nitidamente, duplicados (ou originais?) dos contos gregos. Não há dúvida de que Dyaus veio a querer dizer Zeus; Dyaus-Pitar, Júpiter; Varuna, Urano; e assim por diante. Em ambas as circunstâncias, o Círculo dos Grandes Deuses sempre foi de doze, não importa as mudanças que fossem ocorrendo na divina sucessão.

Como era possível gerar tamanha similitude em duas áreas tão distante uma da outra, tanto geográfica como cronologicamente?

Os estudiosos acreditam que em dada altura, no 2º. milênio a.C., um povo falando uma língua indo-européia e entrando no norte do Irã ou na área do Cáucaso empreendeu grandes migrações. Um grupo partiu para sudeste, para a Índia. Os hindus chamavam-lhes arianos ("os homens nobres"). Trouxeram com eles os Vedas e também contos orais, por volta do ano 1.500 a.C. Outra onda desta migração indo-européia dirigiu-se para oeste, para a Europa. Alguns rodearam o mar Negro e chegaram à Europa, atravessando as estepes da Rússia. Mas a rota principal que permitiu a estes povos e às suas tradições e religião alcançarem a Grécia foi a mais curta - via Ásia Menor.

Mas quem eram estes indo-europeus que escolheram a Anatólia como seu domicílio? O saber ocidental pouco clarificou o assunto.

Mais uma vez se provou que a única fonte imediatamente disponível ­- e de confiança - era o Antigo Testamento. Lá os estudiosos encontraram várias referências aos hititas como o povo habitante das montanhas da Anatólia. Ao contrário da aversão refletida no Antigo Testamento em relação aos cananitas e outros vizinhos cujos costumes eram considerados como uma "abominação", os hititas eram vistos como amigos e aliados de Israel. Bathsheba, que o rei Davi cobiçava, era mulher de Uriah, o Hitita, um oficial do exército do rei Davi. O rei Salomão, que forjou alianças casando com as filhas de reinos distantes, tomou como mulheres as filhas tanto de um faraó egípcio, como de um rei hitita. Noutra época, uma armada invasora Síria fugiu ouvindo um rumor de que “o rei de Israel tinha aliado contra nós o rei dos hititas e o rei dos egípcios". Estas breves alusões aos hititas revelam a alta consideração em que suas forças militares eram tidas pelos outros povos do antigo Oriente Médio.

Com a decifração dos hieróglifos egípcios - e, mais tarde, das inscrições mesopotâmicas -, os estudiosos depararam com numerosas referências a uma "terra de Hatti", grande poderoso reino da Anatólia. Seria possível que um tão importante poder não deixasse traços?

Antecipadamente munidos das respostas fornecidas pelos textos egípcios e mesopotâmicos, os eruditos partiram em escavação a antigos acampamentos nas regiões dos montes da Anatólia. Os esforços foram recompensados: foram desenterradas cidades hititas, palácios, tesouros reais, túmulos reais, templos, objetos religiosos, ferramentas, armas, objetos de arte. Acima de tudo, encontraram muitas inscrições tanto na escrita pictográfica, como na cuneiforme. Os hititas da Bíblia ganhavam vida.

Um monumento único legado em testamento à nossa época pelo Oriente Médio é a gravação numa rocha, fora da antiga capital hitita (o local é hoje chamado Yazilikaya, que em turco significa "rocha inscrita"). Depois de passar por cancelas e santuários, o antigo adorador penetra numa galeria ao ar livre, uma clareira entre um semicírculo de rochas, nos quais todos os deuses dos hititas foram representados em procissão.

Movimentando-se para a esquerda, a longa procissão de deidades basicamente masculinas está nitidamente organizada em "companhias" de doze. Na extrema-esquerda, e deste modo a última a alinhar nesta espantosa parada, vêem-se doze figuras idênticas que parecem iguais em categoria, uma vez que todas carregam a mesma arma.



O grupo do meio de doze caminhantes inclui algumas divindades que parecem mais idosas, algumas transportando armas diversificadas e duas que estão iluminadas por um símbolo divino.



O terceiro grupo de doze (o da frente) é claramente constituído pelas mais relevantes divindades masculinas e femininas. Suas armas e emblemas são mais variados; quatro têm sobre elas o divino símbolo celestial; duas possuem asas. Este grupo inclui também participantes não divinos: dois touros segurando um globo e o rei dos hititas usando um solidéu com o emblema do disco alado.



Marchando da direita, havia dois grupos de divindades femininas; as gravações na rocha, todavia, estão demasiado mutiladas para confirmar seu verdadeiro número. Não estaremos muito errados, talvez, se imaginarmos que, também elas, constituíam duas companhias de doze cada uma.

As duas procissões da esquerda e da direita encontram-se num painel central que representa claramente os grandes deuses, uma vez que todos eles são mostrados elevados no topo de montanhas ou aos ombros de animais, pássaros e mesmo de servidores divinos.


Os eruditos investiram muitos esforços, por exemplo, E. Laroche, (Le Panthéon de Yazilikaya) [O Panteão de Yazilikaya] para determinar a partir das representações e dos símbolos hieroglíficos, assim como dos textos parcialmente legíveis e dos nomes de deuses que estão realmente gravados nas rochas, os nomes, títulos e papéis das deidades presentes na procissão. Mas é evidente que também o panteão hitita era governado pelos “olímpicos" doze. Os deuses menores estavam organizados em grupos de doze e os grandes deuses na Terra estavam associados a doze corpos celestiais.

Podemos certificar-nos de que o panteão era governado pelo "número sagrado" doze com a prova adicional de ainda mais um monumento hitita. Trata-se de um santuário de alvenaria encontrado perto da atual Beit-­Zehir. Aí, o casal divino está claramente representado, tendo à sua volta outros dez deuses, fazendo um total de doze.


Os achados arqueológicos mostram conclusivamente que os hititas adoravam deuses que pertenciam "ao céu e à terra", todos inter-relacionados e arranjados numa hierarquia genealógica. Alguns eram deuses grandes e "velhos", originários dos céus. Seu símbolo - que na escrita pictográfica hitita significa "divino" ou "deus celestial" - lembra pela forma um par de "óculos". Aparece freqüentemente em selos esféricos como parte de um objeto semelhante a um foguete.





Outros deuses estavam realmente presentes não meramente na Terra, mas entre os hititas, agindo como supremos governantes da Terra, nomeando os reis humanos e dando instruções a estes últimos em matéria de guerra, tratados e outros negócios internacionais.

À cabeça dos deuses hititas fisicamente presentes estava a divindade chamada Teshub, que significava o "soprador dos ventos". Ele era aquele a quem os eruditos chamam o Deus da Tempestade, associado a ventos, trovões e relâmpagos. Era também chamado pelo diminutivo Taru ("o touro"). Tal como os gregos, os hititas descreveram a adoração a Taurus; como Júpiter, depois dele, Teshub era descrito como o Deus do Trovão e do Relâmpago, montado em cima de um touro.



Os textos hititas, como mais tarde as lendas gregas, relatam como sua deidade principal foi obrigada a se defrontar com um monstro para consolidar sua supremacia. Um texto a que os estudiosos chamaram "O Mito do Homicídio do Dragão" identifica o adversário de Teshub como sendo o Deus Yanka. Não conseguindo vencê-lo em batalha, Teshub apelou para os outros deuses à procura de ajuda, mas apenas uma deusa lhe veio dar apoio e aniquilou Yanka, embriagando-o durante uma festa.

Reconhecendo nestes contos as origens da lenda de São Jorge e o Dragão, os estudiosos referem-se ao adversário derrotado pelo "bom" deus como o "dragão". Mas o fato é que Yanka significava serpente e os povos antigos simbolizavam assim o "mau" deus, como se pode ver no baixo-­relevo de uma colônia hitita.


Também Zeus, como já mostramos, combateu não com um dragão, mas com um deus-serpente. Como mais adiante demonstraremos, havia um profundo significado ligado a estas antigas tradições de luta entre o Deus dos Ventos e uma deidade­-serpente. Aqui, no entanto, apenas podemos acentuar que as batalhas entre os deuses pelo reino divino eram relatadas nos textos antigos como eventos que tinham indubitavelmente ocorrido.

Um conto épico hitita, longo e bem preservado, intitulado Reino do Céu, versa sobre este mesmo assunto - a origem celestial dos deuses. O contador destes acontecimentos pré-mortais invocou primeiro "doze poderosos e antigos deuses" para escutarem seu conto e serem testemunhas de sua precisão:

Deixem escutar os deuses que estão no céu,

E aqueles que andam sobre a escura terra!

Deixem-nos escutar, eles, os poderosos antigos deuses.

Estabelecendo deste modo, que os deuses de sempre eram tanto do céu, como da terra, a epopéia lista os doze "poderosos e antigos", os predecessores dos deuses; e assegurando-se de sua atenção, o contador prossegue para narrar como foi que o deus que era "o rei do céu" veio para a escura terra:

Antigamente, nos dias de outrora, Alalu era deus no céu;

Ele, Alalu, estava sentado no trono.

O poderoso Anu, o primeiro entre os deuses, estava à sua frente,

E inclinado aos seus pés, colocou a taça em sua mão.

Por nove períodos contados, Alalu foi rei do céu.

No nono período, Anu travou batalha com Alalu

Alalu foi derrotado, e fugiu ante Anu ­ -

Ele desceu à escura terra.

Para baixo, para a escura terra veio ele;

E no trono sentou-se Anu.

A epopéia atribui, assim, a chegada de um "rei do céu" à Terra à usurpação do trono. Um deus chamado Alalu foi deposto de seu trono (em algum lugar nos céus) pela força, fugindo para se salvar, desceu à "escura terra". Mas isto não foi o fim. O texto prossegue, contando como Anu, a seu tempo, foi também deposto por um deus chamado Kumarbi (o próprio irmão de Anu, segundo algumas interpretações).

Não há dúvida de que esta epopéia, escrita 1.000 anos antes da composição das lendas gregas, é a predecessora do conto que relata a destituição de Urano por Cronos e de Cronos por Zeus. Até o detalhe da castração de Cronos por Zeus pode ser encontrado no texto hitita, uma vez que foi exatamente isto que Kumarbi fez a Anu:

Por nove períodos contados Anu foi rei no céu;

No nono período, Anu teve de combater com Kumarbi.

Anu escapuliu-se do alcance de Kumarbi e fugiu ­

Correr, correu ele, subindo ao céu.

Atrás dele se apressou Kumarbi, laçou-o pelo pé;

E arrastou-o dos céus abaixo.

Ele mordeu seus quadris; e a virilidade de Anu,

Combinada com os interiores de Kumarbi fundiu-se como o bronze.

De acordo com esta velha lenda, a batalha não resultou em vitória completa para nenhuma das partes. Embora privado de sua virilidade, Anu conseguiu voar de regresso à sua "residência celestial", deixando Kumarbi controlando a Terra. Entretanto, a "virilidade" de Anu gerou várias deidades nos interiores de Kumarbi, que ele (como Cronos nas lendas gregas) foi forçado a libertar. Uma delas foi Teshub, a principal deidade hitita.

Todavia, mais uma batalha teria de ser travada antes que Teshub pudesse reinar em paz.

Sabendo do aparecimento de um herdeiro para Anu em Kummiya ("residência celestial"), Kumarbi arquitetou um plano para "erguer um rival ao Deus das Tempestades". "Em sua mão ele tomou seu bastão; em seus pés ele colocou os sapatos céleres como os ventos", e partiu de sua cidade de Ur-Kish para a abóbada da Dama da Grande Montanha. Alcançando-a.

O seu desejo cresceu;

Ele dormiu com a Dama da Montanha;

A sua virilidade fluiu para ela.

Cinco vezes ele a tomou...

Dez vezes ele a tomou...

Kumarbi era apenas luxurioso, lascivo? Temos razões para acreditar que algo mais estava envolvido. Nossa suposição é que as leis de sucessão dos deuses eram tais que diziam que um filho de Kumarbi e da Dama da Grande Montanha podia alegar ser ele o herdeiro do trono celestial, e que Kumarbi "tomou" a deusa cinco e dez vezes para ficar seguro de que ela concebera, como realmente aconteceu. Ela deu à luz um filho, a quem Kumarbi simbolicamente chamou de Ulli-Kummi ("supressor de Kummiya", residência de Teshub).

A batalha pela sucessão foi prevista por Kumarbi como algo que imporia a luta nos céus. Destinando seu filho para suprimir os beneficiados de Kummiya, Kumarbi aclamou mais tarde seu filho:

Que ele ascenda aos céus para reinar!

Que ele domine Kummiya, a bela cidade!

Que ele ataque o Deus das Tempestades,

E o rasgue em pedaços como um mortal!

Que ele expulse todos os deuses do céu!

Será que as batalhas particulares travadas por Teshub sobre a terra e nos céus ocorreram quando a Idade de Taurus começou, por volta do ano 4.000 a.C.? Foi por essa razão que ao vencedor se concedia a associação com o Touro? E estariam os acontecimentos de qualquer modo ligados ao início, exatamente na mesma época, da súbita civilização suméria?

Não há dúvida de que o panteão hitita e as lendas dos deuses têm, de fato, suas raízes na Suméria, assim como sua civilização e seus deuses.

O conto do desafio ao trono divino por Ulli-Kummi continua relatando as batalhas heróicas, mas de natureza não decisiva. Em certo sentido, o fracasso de Teshub em derrotar seu adversário levou sua esposa Hebat a tentar o suicídio. Finalmente, foi feito um apelo aos deuses para que moderassem a contenda e foi convocada uma assembléia dos deuses. Ela foi dirigida por um "vetusto deus" chamado Enlil, e outro "vetusto deus" chamado Ea, que foi chamado para fazer "as velhas barras com as palavras do destino" - uns registros antigos que aparentemente podiam decidir a disputa a respeito da sucessão divina.

Quando os registros falharam na tentativa de sanar a disputa, Enlil anunciou outra batalha com o desafiante, mas com a ajuda de algumas armas muito antigas. "Ouçam, vocês, antigos deuses, vocês que conhecem as velhas palavras", disse Enlil a seus seguidores:

Abram vocês os antigos depósitos

De vossos pais e daqueles que viveram antes!

Apresentem à luz a Velha Lança de Bronze

Com a qual o céu foi separado da terra;

E deixem-nos separar os pés a Ulli-Kummi.

Quem eram estes "velhos deuses"? A resposta é óbvia, uma vez que todos eles - Anu, Antu, Enlil, Ninlil, Ea, Ishkur - possuem nomes sumérios. Até o nome de Teshub, assim como o de outros deuses "hititas", eram freqüentemente redigidos na escrita suméria para simbolizar suas identidades. Do mesmo modo, alguns dos locais nomeados na ação eram os de velhas cidades sumérias.

Esclareceu os eruditos o fato de que os hititas adorassem, realmente, um panteão de origem suméria e que a arena dos contos dos “velhos deuses” fosse a Suméria. Isto, no entanto, era apenas parte de uma mais extensa descoberta. Descobriu-se não apenas que a língua hitita se baseava em vários dialetos indo-europeus, como também se percebeu que eles foram objeto de uma substancial influência acádia no discurso e mais ainda na escrita. Desde o momento em que o acádio se tornou a língua internacional do Mundo Antigo no 2º. milênio a.C., sua influência no hitita pôde, de certo modo, ser racionalizada.

Mas houve motivos para um verdadeiro espanto quando os estudiosos descobriram durante o curso da decifração do hitita que este aplicava amplamente signos pictográficos, sílabas e até palavras inteiras do sumério! Ainda mais óbvio se tornou que o sumério era a língua de altos estudos. A língua suméria, nas palavras de O.R. Gurney (The Hitites) [Os Hititas], "era intensivamente estudada em Hattu-Shash [a cidade principal] e lá foram encontrados vocabulários sumério-hititas... Muitas das sílabas associadas com os signos cuneiformes no período hitita são realmente palavras sumérias cujo significado fora esquecido [pelos hititas]... Nos textos hititas os escribas substituíam freqüentemente palavras comuns hititas pela correspondente palavra sumério-babilônica".

Assim, quando os hititas alcançaram a Babilônia algum tempo depois do ano 1.600 a.C., já os sumérios desapareceram há muito da cena do Oriente Médio. Como foi então que sua língua, literatura e religião puderam dominar outro grande reino noutro milênio e noutra parte da Ásia?

Os estudiosos descobriram recentemente que a fonte foi um povo chamado hurrita.

Referidos no Antigo Testamento como os horitas ("povo livre"), eles dominaram a extensa área entre a Suméria e a Acádia, na Mesopotâmia, e o reino hitita, na Anatólia. Ao norte, seus territórios eram as antigas "terras de cedros", das quais países próximos e longínquos obtinham suas melhores madeiras. No leste, seus centros abrangiam os atuais campos petrolíferos do Iraque; só numa cidade, Nuzi, os arqueólogos descobriram não apenas as estruturas comuns e artefatos, como também milhares de documentos legais e sociais de enorme valor. No oeste, o governo e a influência dos hurritas estendiam-se até a costa mediterrânea e abrangiam antigos centros de comércio, indústrias e cultura tão importantes como os de Carchemish e Alalakh.

Mas as rédeas do seu poder, os principais centros das velhas rotas de comércio e os locais dos mais adorados santuários, situavam-se no território central que ficava "entre os dois rios", a bíblica Naharayin. Sua mais antiga capital (ainda não descoberta) estava localizada em algum lugar ao longo do rio Khabur. Seu mais importante centro comercial, junto ao rio Balikh, era a bíblica Haran - a cidade onde a família do patriarca Abraão permaneceu temporariamente em seu caminho de Ur, na Mesopotâmia Sul, até a Terra de Canaã.

Os documentos reais egípcios e mesopotâmicos referem-se ao reino hurrita como Mitanni e tratam-no de igual para igual - um forte poder cuja influência se espalhou para além de suas fronteiras imediatas. Os hititas chamam aos seus vizinhos hurritas, "hurri". Alguns estudiosos salientam, contudo, que a palavra pode também ser lida "har" (tal como G. Conteneau em La Civilisation des Hitites et des Hurrites du Mitanni) [A Civilização dos Hititas e dos Hurritas de Mitanni] e adiantaram a hipótese de que no nome "harri" se possa ver o nome "ary" ou arianos para designar esse povo.

Não há dúvida de que os hurritas eram originalmente arianos ou indo-­europeus. As suas inscrições invocam várias deidades pelos seus nomes védicos "arianos"; seus reis têm nomes indo-europeus e sua terminologia militar e de cavalaria deriva do indo-europeu. B. Hrozny, que nos anos 20 empenhou-se em deslindar os registros hititas e hurritas, foi tão longe que chama aos hurritas "os mais antigos hindus".

Estes hurritas dominaram os hititas cultural e religiosamente. Os textos mitológicos hititas acusam a proveniência hurrita e até os contos épicos de heróis pré-históricos e semi-divinos são de origem hurrita. Não há já lugar para mais dúvidas acerca do fato de os hititas adquirirem sua cosmologia, seus "mitos", seus deuses e seu panteão de doze através dos hurritas.

A tripla ligação - entre origens arianas, adoração hitita e fontes hurritas destas crenças - está notavelmente bem documentada numa súplica religiosa hitita proferida por uma mulher pela salvação de seu marido doente. Endereçando sua oração à deusa Hebat, a esposa de Teshub, ela entoa:

Oh, Deusa do Nascente Disco de Arynna,

Minha Senhora, ama das terras de Hatti,

Rainha dos céus e da terra...

Na região Hatti, é o teu nome

"Deusa do Nascente Disco de Arynna";

Mas na terra que tu dominas,

Na terra dos cedros,

Aí tu tens o nome de "Hebat”.

Com tudo isto, a cultura e a religião adotadas e transmitidas pelos hurritas não podem realmente ser indo-européias. Até sua língua não era verdadeiramente indo-européia. Claro, havia traços acádios na língua, cultura e tradições hurritas. O nome da capital, Washugeni, era uma variante do semita resh-eni ("onde as águas começam"). O rio Tigre chamava-se Aranzakh, que (acreditamos) tem sua raiz etimológica nas palavras acádias para "rio dos puros cedros". Os deuses Shamash e Tashmetum tornaram-se em hurrita Shimiki e Tashimmetish, e por aí adiante.

Mas, uma vez que a cultura e a religião acádias eram simplesmente um desenvolvimento das tradições e crenças originais sumérias, os hurritas absorveram e transmitiram, de fato, a religião da Suméria. Que isto se passou assim, evidencia-se também no freqüente uso dos nomes sumérios originais para deuses, epítetos e signos da escrita.

Os contos épicos, apurou-se, eram os contos da Suméria; os locais de deambulação dos velhos deuses eram as cidades sumérias; a "velha língua" era a língua da Suméria. Até a arte hurrita duplicou a arte suméria - suas formas, seus temas e seus símbolos.

Quando e como aconteceu a "transmutação" dos hurritas pelo "gene" sumério?

As provas sugerem que os hurritas, vizinhos do norte dos sumérios e dos acádios no 2º. milênio a.C., tinham-se, realmente, misturado aos sumérios no milênio anterior. É fato estabelecido que os hurritas estavam presentes e ativos na Suméria no 3º. milênio a.C., que mantinham importantes posições na Suméria desde seu último período de glória, o da terceira dinastia de Ur. Há provas que afirmam que os hurritas dirigiram e equiparam a indústria de vestuário pela qual a Suméria (e especialmente Ur) era conhecida na Antiguidade. Os comerciantes famosos de Ur eram provavelmente hurritas em sua maior parte.

No século 13 a.C., sob a pressão de grandes migrações e invasões (incluindo a fuga israelita do Egito para Canaã), os hurritas recuaram até a posição nordeste do seu reino. Estabelecendo sua nova capital perto de Lake Van, eles chamaram Urartu ("Ararat") ao seu reino. Aí adoraram um panteão chefiado por Tesheba (Teshub), representando-o como um vigoroso deus usando um capacete de chifres, de pé em cima de seu símbolo de culto, o touro. Eles chamaram ao seu principal santuário Bitanu e dedicaram-se a fazer de seu reino "a fortaleza do vale de Anu".

E Anu, como veremos, era o pai sumério dos deuses.




E que foi feito da outra avenida através da qual os contos e a adoração aos deuses alcançaram a Grécia, da costa leste ao Mediterrâneo, via Creta e Chipre?

Os territórios que incluem atualmente Israel, o Líbano e a Síria Meridional e que formavam a região sudoeste do antigo Crescente Fértil eram, então, o habitat de povos que podem ser agrupados sob a designação de cananitas. Uma vez mais, tudo o que se sabia há até pouco tempo sobre eles aparecia em referências (a maior parte das vezes contraditórias) no Antigo Testamento e disperso em inscrições fenícias. Ainda os arqueólogos começavam a compreender os cananitas quando duas descobertas vieram à luz. Uma, foram certos textos egípcios em Luxor e Saggara, e a outra, muito mais importante, foram textos históricos, literários e religiosos desenterrados num centro importante cananita. O local agora chamado Ras Shamra, na costa Síria, era a antiga cidade de Ugarit.

A língua das inscrições de Ugarit, a cananita, era aquela a que os estudiosos chamam semita ocidental, um ramo do grupo de línguas que inclui também o antiqüíssimo acádio e o atual hebreu. Na verdade, quem quer que saiba ler hebraico pode com relativa facilidade compreender as inscrições hititas. A língua, o estilo literário e a terminologia têm reminiscências do Antigo Testamento.

O panteão que se desvenda nos textos cananitas possui muitas semelhanças com o grego posterior. À cabeça do panteão cananita há também uma divindade suprema chamada El, uma palavra que tem, tanto no nome pessoal do deus, como no termo genérico, o sentido de "elevada deidade". Ele era a autoridade final em todos os negócios humanos ou divinos. Ab Adam ("pai dos homens") era seu título, o Generoso, o Misericordioso, seus epítetos. Era o "criador das coisas criadas, e o único que sozinho podia conceder domínio".

Os textos cananitas ("mitos" para a maioria dos eruditos) representam El como uma deidade sábia e idônea que se mantinha afastada dos negócios quotidianos. Sua residência ficava longe, nas "nascentes dos dois rios", o Tigre e o Eufrates. Aí, tomando assento em seu trono, recebia emissários e contemplava os problemas e disputas que os outros deuses traziam à sua presença.

Uma estela encontrada na Palestina descreve uma idônea divindade sentada num trono e a quem é servida uma bebida por uma deidade mais jovem. A divindade que está sentada usa um toucado cônico adornado de chifres, uma marca dos deuses, como vimos, desde os tempos pré­-históricos, e a cena é dominada pelo símbolo de uma estrela alada, o onipresente emblema que iremos encontrar cada vez mais freqüentemente. É aceite, de modo geral, pelos eruditos que este relevo esculpido representa El, a principal deidade cananita.



El, no entanto, nem sempre era um velho senhor. Um de seus epítetos era Tor (significando "touro"), simbolizando (acreditam os estudiosos) sua destreza sexual e seu papel como pai dos deuses. Um poema cananita chamado "O Nascimento dos Graciosos Deuses" coloca El à beira-mar (provavelmente nu) na companhia de duas mulheres encantadíssimas com as proporções de seu pênis. Enquanto um pássaro morria de calor na praia, El teve relações físicas com as duas mulheres, e, deste modo, nasceram os dois deuses, Shahar ("alvorada") e Shalem ("conclusão" ou "crepúsculo").

Estes não foram nem seus únicos filhos nem seus principais filhos varões (aparentemente, ele teve sete). Seu filho mais importante foi Baal ­de novo, o nome pessoal da deidade é também o termo genérico para "senhor". Tal como os gregos fizeram em seus contos, os cananitas falaram dos desafios feitos pelo filho à autoridade e governo do seu pai. Tal como El, seu pai, Baal era aquilo a que os estudiosos chamam um Deus de Tempestades, um Deus de Trovões e Relâmpagos. Um diminutivo de Baal era Hadad ("o astuto"). Suas armas eram o machado de guerra e a lança relampejante; seu animal de culto, como o de El, era o touro, e, como El, era representado usando o toucado cônico adornado com um par de chifres.

Baal tinha também o nome de Elyon ("supremo"), ou seja, o príncipe reconhecido, o herdeiro visível. Mas Baal não conquistara este título sem lutar, primeiro com seu irmão Yam ("príncipe do mar") e depois com Mot, também seu irmão. Um longo e comovente poema, reunido passo à passo através de numerosas barras fragmentadas, começa com a intimação do "Mestre Artesão" à abóbada de El, "às fontes das águas, por entre as nascentes dos dois rios":

Ele vem através dos campos de El

Entra no pavilhão do Pai dos Anos,

Inclina-se aos pés de El, cai,

Prostra-se, prestando homenagem.

Ao Mestre Artesão é ordenado que erija um palácio para Yam como marco de sua subida ao poder. Incentivado por este fato, Yam envia seus mensageiros para a assembléia dos deuses, para exigir de Baal sua rendição. Yam instrui seus emissários no sentido de serem provocadores, e os deuses, reunidos em assembléia, capitulam, de fato. Mesmo El aceita a nova hierarquia entre seus filhos. "Baal é o teu escravo, ó Yam", declara ele.

A supremacia de Yam seria, contudo, de pouca duração. Armado de duas "divinas armas", Baal lutou com ele e derrotou-o apenas para ser desafiado por Mot (o nome significava "assassino"). Nesta contenda, Baal foi rapidamente dominado, mas sua filha Anat recusou-se a aceitar a retirada de Baal como definitiva. "Ela capturou Mot, o filho de El, e cravou-­o com uma espada.”

De acordo com a lenda cananita, a destruição de Mot levou à miraculosa ressurreição de Baal. Os estudiosos tentaram raciocinar sobre o relato, sugerindo que todo o conto era simplesmente alegórico, representando nada mais que uma história da luta anual do Oriente Médio entre os verões quentes e sem chuva que secam a vegetação e a vinda da estação chuvosa no outono, que faz reviver, ou "ressuscitar", a vegetação. Mas não há dúvida de que a lenda cananita não tinha nenhuma pretensão de ser alegórica. Ela relatava, sim, os acontecimentos que se acreditava serem verdadeiros na época, ou seja, como é que os filhos da deidade principal lutaram entre si e como é que um deles, recusando a derrota, reaparece para se tornar o herdeiro aceite, fazendo El rejubilar:

El, o generoso, o misericordioso, rejubila.

Ele assenta seus pés no escabelo.

Ele abre sua garganta e ri;

Aqui me sentarei e tranqüilizarei,

A alma repousará em meu peito;

Porque Baal, o poderoso, está vivo,

Porque o Príncipe da Terra existe!

Assim, Anat, de acordo com as tradições cananitas, manteve-se ao lado de seu irmão, o Senhor (Baal), ao longo de sua luta de vida ou de morte com o diabólico Mot. O paralelo entre isto e a tradição grega que nos fala da deusa Atena permanecendo junto do supremo deus Zeus em sua luta de morte com Tífon, é demasiado óbvio. Atena, como vimos, era chamada a "perfeita donzela", mantendo, no entanto, muitos casos de amor ilícitos. Da mesma forma, as tradições cananitas (que precederam as gregas) empregaram o epíteto "A Donzela Anat", e, a despeito disto, não deixam de proceder ao relato de seus vários casos amorosos, especialmente dos que envolviam seu próprio irmão Baal. Um texto descreve a chegada de Anat à residência de Baal no monte Zafon, e a apressada licença de saída que Baal concede às suas esposas. Depois, ele atira-se aos pés de sua irmã; olham-se nos olhos e roçam-se mutuamente os "chifres":

Ele avalia e toma o colo dela...

Ela avalia e toma suas “pedras”

.. A donzela Anat... concebe e dá à luz.

Não admira que Anat seja freqüentemente representada completamente nua, para salientar seus atributos sexuais - como na impressão de um selo que ilustra um Baal de elmo batalhando com outro deus.



Tal como a religião grega e seus predecessores diretos, o panteão cananita incluía uma deusa-mãe, consorte oficial da deidade reinante. Chamavam-lhe Ashera, e é a correspondente da deusa grega Hera. Astarte (a bíblica Ashtoreth) é o paralelo de Afrodite e seu consorte comum era Athtar, a quem um brilhante planeta estava associado, e cujo paralelo é, provavelmente, Ares, o irmão de Afrodite. Havia outras jovens divindades masculinas e femininas cujos paralelos astrais e gregos podem ser facilmente subentendidos.

Mas, para além destas deidades, havia os "vetustos deuses", indiferentes aos negócios mundanos, mas disponíveis quando os próprios deuses se viam envolvidos em qualquer problema grave. Algumas de suas esculturas, mesmo parcialmente danificadas, mostram-nos com um aspecto autoritário, como seres reconhecíveis pelo seu adorno de chifres.



Pela parte que lhes diz respeito, por onde teriam os cananitas duplicado os modelos de sua cultura e religião?

O Antigo Testamento considera-os parte da família hamítica, de nações cujas raízes se situam nas quentes terras da África (ham significa quente) e, por isso, irmãos dos egípcios. Os artefatos e registros escritos desenterrados pelos arqueólogos confirmam a íntima afinidade entre os dois, assim como as muitas semelhanças entre as deidades cananitas e egípcias o confirmam também.

A quantidade de deuses nacionais e locais, e a quantidade de seus nomes e epítetos, a diversidade de seus papéis, emblemas e mascotes animais começaram por tornar os deuses do Egito uma multidão imprescrutável de atores sobre um estranho palco. Mas um olhar mais atento revelamos que, em essência, eles não eram diferentes daqueles de outras terras no Mundo Antigo.

Os egípcios acreditavam em deuses do céu e da terra, grandes deuses que se distinguiam claramente da multidão de divindades inferiores. G .A. Wainwright (The Sky-Religion in Egypt) [A Religião do Céu no Egito] adiciona todas as provas e conclui que a crença egípcia: em deuses do céu que desceram à terra vindos dos céus “era extremamente antiga". Alguns dos epítetos dos grandes deuses - o Deus Maior, Touro do Céu, Senhor/Dama das Montanhas, soam familiares.

Embora os egípcios contassem pelo sistema decimal, seus negócios religiosos eram governados pelo sistema sexagesimal sumério, sessenta, e os assuntos celestiais estavam sujeitos ao número divino doze. Os céus estavam divididos em três partes, cada uma delas compreendendo doze corpos celestiais. De dia e de noite cada uma delas estava dividida em doze horas. E todas estas divisões tinham seu paralelo em "companhias" de deuses que, por sua vez, eram formadas por doze elementos cada uma.

O chefe do panteão egípcio era Ra ("criador"), que presidia a uma assembléia dos deuses de doze elementos. Ele levava a cabo suas assombrosas obras da criação nos tempos primevos trazendo à luz Geb ("Terra") e Nut ("Céu"). Depois ele fez as plantas crescer na terra, e depois, as criaturas rastejantes e, finalmente, Ra criou o homem. Ra era um deus celestial invisível que se manifestava apenas periodicamente. Sua manifestação era Aten, o Disco Celestial gravado como um globo alado.



De acordo com a tradição egípcia, o aparecimento e as atividades de Ra na terra estavam diretamente relacionados com os reinos no Egito. Segundo essa tradição, os primeiros governantes do Egito não foram homens, mas deuses, e o primeiro deus a governar o Egito foi Ra. Ele dividiu depois o reino, dando o Baixo Egito a seu filho Osíris e o Alto Egito a seu filho Seth. Mas Seth planejou destronar Osíris, e, de fato, afogou-o. Ísis, mulher e irmã de Osíris, recuperou o corpo mutilado do deus e ressuscitou-o. A partir daí, ele passou através "das portas secretas" e juntou-se a Ra na qualidade de celestial. Seu lugar no trono do Egito foi tomado por seu filho Horo, que era, por vezes, representado como uma divindade alada e de chifres.



Embora Ra fosse o mais sublime nos céus, sobre a terra ele era o filho do deus Ptah ("o desenvolvedor", "aquele que imagina as coisas"). Os egípcios acreditavam ter sido realmente Ptah que elevou a terra do Egito acima das águas de inundação com a construção de diques até ao ponto em que o Nilo se ergue. Este grande deus, diziam eles, viera para o Egito de qualquer outro sítio; estabeleceu não só o Egito, como também as "terras de montanha e longínquas terras estrangeiras". De fato, os egípcios reconheceram que todos os "seus deuses vetustos" chegaram do sul em barcos, e foram encontrados muitos desenhos rupestres pré-históricos que nos mostram estes antigos deuses, diferenciados pelo seu toucado de chifres, chegando do Egito de barco.

A única rota marítima que leva ao Egito partindo do sul é a que passa pelo mar Vermelho, e é significativo que seu nome egípcio seja mar de Ur. Hieroglificamente, o signo de Ur queria dizer "longínqua [terra] estrangeira no Oriente". Não pode ser excluída a hipótese de que se trate da cidade suméria de Ur, situada nessa mesma direção.

A palavra egípcia para "ser divino" ou "deus" era NTR, que quer dizer "aquele que chefia". Esse é exatamente o significado do nome sumério "a terra daqueles que vigiam".

A antiga tese de que a civilização poderá ter começado no Egito foi já posta de lado. Há numerosas provas, hoje em dia, que mostram que a sociedade e a civilização organizadas egípcias, que terão começado a meio do 1º. milênio a.C. e, mais ainda, depois da civilização suméria, retiraram sua cultura, arquitetura e tecnologia, arte de escrita e muitos outros aspectos de uma alta civilização da Suméria. O peso da evidência mostra também que os deuses egípcios derivam dos sumérios.

Cultural e biologicamente semelhantes aos egípcios, os cananitas partilharam os mesmos deuses com eles. Mas, situados na faixa de terra que constituía a ponte entre a Ásia e a África desde tempos imemoriais, os cananitas vieram também sob fortes influências, semitas ou mesopotâmicas. Tal como os hititas para o norte, os hurritas para o nordeste, os egípcios para o sul, os cananitas não podiam se orgulhar de possuir um panteão original. Também eles adquiriram sua cosmogonia, deidades e contos lendários em qualquer outra parte. Seus contatos diretos com as fontes sumérias foram os amoritas.

A terra dos amoritas situa-se entre a Mesopotâmia e os territórios mediterrâneos da Ásia Ocidental. Seu nome deriva do termo acádio amurru e do sumério martu ("ocidentais"). Não eram tratados como estranhos, mas como gente relacionada que vagava nas províncias a oeste da Suméria e da Acádia.

Nomes amoritas constam nas listas de funcionários de templos na Suméria. Quando Ur caiu nas mãos dos invasores elamitas, cerca do ano 2.000 a.C., um martu chamado Ishbi-Irra restaurou o reino sumério em Larsa e estabeleceu como sua primeira tarefa a recaptura de Ur e a restauração, aí, do grande santuário do deus Sin. "Chefes de tribos" amoritas estabeleceram a primeira dinastia independente na Assíria por volta do ano 1.900 a.C. E Hamurabi, que trouxe grandeza à Babilônia cerca do ano 1.800 a.C., foi o sexto sucessor da primeira dinastia babilônica, que era amorita.

Nos anos 30, os arqueólogos alcançaram o centro e a cidade principal dos amoritas, conhecida por Mari. Numa curva do Eufrates, onde a fronteira Síria corta atualmente o rio, os escavadores revelaram uma cidade principal cujos edifícios foram erigidos e tornados a erigir, continuamente, entre os anos 3.000 e 2.000 a.C., em alicerces que datam de séculos anteriores. Estes remotos vestígios incluem uma pirâmide de degraus e templos e deidades sumérias Inanna, Ninhursag e Enlil.

Só o palácio de Mari ocupava 2 hectares e incluía uma sala do trono pintada com notáveis murais, tinha três centenas de quartos, câmaras de escrita, e (mais importante para o historiador) muito mais de 20 mil barras em escrita cuneiforme, tratando da economia, comércio, política e vida social daqueles tempos, com assuntos de Estado e militares e, claro, com a religião da terra e de seu povo. Uma das pinturas de parede no grande palácio de Mari descreve a investidura do rei Zimri-Lim pela deusa Inanna (a quem os amoritas chamam Ishtar).



Tal como nos outros panteões, a deidade principal presente entre os amuru era um deus do clima ou da tempestade. Chamavam-lhe Adad - o equivalente ao cananita Baal ("senhor") - e davam-lhe o diminutivo de Hadad. Seu símbolo, como não podia deixar de ser, eram raios em ziguezague.

Nos textos cananitas, Baal é freqüentemente apelidado como o "filho do Dagon". Os textos mari falam também de uma divindade mais idosa chamada Dagan, um "senhor da abundância", que, como El, é representado como uma deidade afastada, que se queixou, em dada ocasião, porque já não era consultada sobre a estratégia de certa guerra.

Os membros do panteão incluíam o Deus da Lua, a quem os cananitas chamavam Yerah, os acádios, Sin, e os sumérios, Nannar; o Deus Sol, comumente chamado Shamash, e outras deidades cujas identidades não deixam dúvidas acerca do fato de Mari ser uma ponte geográfica e cronológica ligando as terras e os povos do Mediterrâneo Oriental com as fontes mesopotâmicas.

Entre os achados em Mari, como em qualquer parte nas terras da Suméria, havia dúzias de estátuas do próprio povo: reis, nobres, padres e cantores. Eles estão invariavelmente representados com as mãos enlaçadas em oração e com o olhar fixo sempre na direção de seus deuses.



Quem eram estes deuses do céu e da terra, divinos e, no entanto, humanos, sempre chefiados por um panteão ou círculo reservado de doze deidades?

Entramos nos templos arianos, nos gregos, nos hititas e nos hurritas, nos cananitas, nos egípcios e nos amoritas. Seguimos rotas que nos levaram através de continentes e mares, e pistas que nos arrastaram ao longo de vários milênios.

E todos os corredores de todos os templos nos levaram a uma mesma fonte: a Suméria.

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A Suméria - Terra de Deuses

Não há dúvida de que as "velhas palavras", que durante milhares de anos constituíram a língua de altos estudos e de escrituras religiosas, eram o idioma da Suméria. Também não há dúvida de que os "velhos deuses" foram o deuses da Suméria; registros, contos e genealogias da Suméria não foram encontrados num local ao acaso.

Quando estes deuses (nas formas sumérias originais ou nas posteriores acádias, babilônicas ou assírias) são nomeados e contados, a lista chega a centenas. Mas, uma vez classificados, torna-se claro que eles não formaram um amálgama de divindades. Elas eram chefiadas por um panteão de grandes deuses, governadas por uma assembléia de deidades e relacionadas umas com as outras. Uma vez excluídas as numerosas deidades inferiores (sobrinhas, sobrinhos, netos e semelhantes), emerge um grupo muito mais reduzido e coerente de divindades, cada uma com um papel a desempenhar, cada uma com certos poderes e responsabilidades.

Havia deuses (acreditavam os sumérios) que "vinham dos céus". Textos tratando do tempo "antes das coisas terem sido criadas" falam destes deuses celestiais pelos nomes de Apsu, Tiamat, Anshar e Kishar. Não há notícia nenhuma que nos diga que deuses desta categoria alguma vez aparecessem sobre a Terra. À medida que nos formos aproximando destes "deuses", que existiram antes que a Terra fosse criada, compreendemos que eles eram os corpos celestiais que constituíam nosso sistema solar. E, como demonstraremos, os assim chamados mitos sumérios referentes a estes deuses são, de fato, precisa e cientificamente, conceitos cosmológicos plausíveis debruçando-se sobre a criação do nosso sistema solar.

Havia também deuses inferiores que eram "da terra". Seus centros de culto eram, em sua maior parte, cidades de província e estes deuses não eram mais que simples deidades locais. Na melhor das hipóteses, estavam incumbidos de missões limitadas - como, por exemplo, a deusa NIN.KA­ SHI ("senhora-cerveja"), que inspecionava a preparação de bebidas. Destes deuses, nenhuma lenda se conta. Não possuíam armas que intimidassem, e os outros deuses não estremeciam sob suas ordens. Fazem lembrar aquele grupo de jovens deuses que marcham no final da procissão gravada nas rochas hititas de Yazilikaya.

Entre os dois grupos de deuses havia os deuses do céu e da terra, chamados "os antigos deuses". Eles eram os "velhos deuses" dos contos épicos, e, na crença suméria, desceram à terra vindos do céu.

Não eram meras deidades locais. Eram deuses nacionais - de fato, internacionais. Alguns deles estavam presentes e ativos na Terra mesmo antes de o primeiro homem aparecer sobre ela. Na verdade, a própria existência do homem foi considerada como sendo o resultado de um empreendimento deliberadamente criativo por parte desses deuses. Eram poderosos, capazes de feitos para além da capacidade e compreensão mortais. E, no entanto, estes deuses não só tinham um aspecto humano, como comiam e bebiam como os humanos e gozavam, virtualmente, de todas as emoções humanas de amor e ódio, lealdade e infidelidade.

Embora os papéis e hierarquias de algumas das principais deidades mudem de posição ao longo dos milênios, certo número deles nunca perdeu sua posição de destaque e sua veneração nacional e internacional. À medida que lançamos um olhar mais atento sobre este grupo central, surge a imagem de uma dinastia de deuses, uma família divina, intimamente relacionada e, no entanto, amargamente dividida.

O chefe desta família de deuses do céu e da terra era AN (ou Anu nos textos assírio-babilônicos). Ele era o Grande Pai dos Deuses, o Rei dos Deuses. O seu domínio era a extensão dos céus e seu símbolo, uma estrela. Na escrita pictográfica suméria, o signo da estrela representava também An, "céus" e "ser divino" ou "deus" (descendente de An). Este desdobramento em quatro do significado do símbolo manteve-se através dos anos, à medida que a escrita passava da pictográfica suméria à cuneiforme acádia, e à estilizada babilônica e assíria.



Desde os mais remotos tempos até ao desaparecimento da escrita cuneiforme - do 4º. milênio a.C. até quase ao tempo de Cristo -, este símbolo precedeu os nomes dos deuses, indicando que o nome escrito no texto não era o de um mortal, mas o de uma deidade de origem celeste.

A residência de Anu e a sede de seu reino estavam nos céus. Para ali se dirigiam os outros deuses do céu e da terra quando precisavam de conselho particulares ou favores, ou quando se reuniam em assembléia para aplacar disputas entre si ou chegar às mais importantes decisões. Numerosos textos descrevem o palácio de Anu (cujos portais eram guardados por um deus da Árvore da Verdade, por um deus da Árvore da Vida), seu trono, o modo como os outros deuses o abordavam e como se sentavam em sua presença.

Os textos sumérios podiam também reproduzir circunstâncias em que era permitida a ascensão à residência de Anu não apenas a outros deuses, como até mesmo a alguns mortais escolhidos, a maior parte das vezes, com o objetivo de fugirem à mortalidade. Um destes contos pertence a Adapa ("modelo de homem"). Ele era tão perfeito e leal ao deus Ea, que o criara, que Ea fez com que ele fosse recebido por Anu. Ea informou, então, aquilo que Adapa deveria esperar:

Adapa, tu vais estar na presença de Anu, o rei;

Vais tomar a estrada do céu.

Quando tiveres subido aos céus,

E te tiveres aproximado da porta de Anu,

O “Possuidor da Vida" e o "Plantador da Verdade”;

Estarás em frente da porta de Anu.

Guiado por seu criador, Adapa "aos céus subiu... ascendeu aos céus e chegou perto da porta de Anu". Mas quando lhe foi oferecida a oportunidade de se tomar imortal, Adapa recusou comer o Pão da Vida, pensando que o irado Anu lhe oferecia comida envenenada. Deste modo, foi remetido para a terra como um sacerdote sagrado, mas sempre mortal.

A afirmação suméria de que não apenas deuses, mas também mortais escolhidos podiam subir à residência divina nos céus, encontra eco nas narrativas do Antigo Testamento sobre as ascensões ao céu de Enoc e do profeta Elias.

Embora Anu vivesse numa residência celestial, os textos sumérios relatam circunstâncias em que ele descia à terra, quer em épocas de grandes crises, quer em visitas cerimoniais (quando sua esposa ANTU o acompanhava), ou (o que aconteceu pelo menos uma vez) para fazer de sua bisneta IN.ANNA sua consorte na terra.

Uma vez que ele não residia permanentemente na terra, aparentemente não havia necessidade de lhe garantir a exclusividade de uma cidade ou centro de culto, e a residência ou "alta casa" erigida para ele estava localizada em Uruk (a Erech bíblica), domínio da deusa Inanna. As ruínas de Uruk incluem, hoje em dia, um gigantesco monte feito pelo homem, no qual os arqueólogos encontraram provas da construção e reconstrução de um grande e alto templo - o templo de Anu; nada menos de dezoito estratos ou fases distintas foram aí descobertas, indicando, assim, a existência de razões obrigatórias para a manutenção do templo naquele local sagrado.

O templo de Anu chamava-se E.ANNA ("casa de An"). Mas este simples nome aplicava-se a uma estrutura que, pelo menos em algumas de suas fases, era digna de ser admirada. Era, de acordo com os textos sumérios, "o sagrado E.Anna, o puro santuário". As tradições defendem que os próprios grandes deuses "idealizaram suas partes". "Sua cornija era como o cobre", "sua grande muralha focava as nuvens" - era um local supremo de domicilio; "era a Casa de encanto irresistível e fascínio infinito". E os textos tornam também claro o objetivo do templo, uma vez que lhe chamam "a casa para descer dos céus".

Uma barra que pertenceu a um arquivo em Uruk esclarece-nos sobre a pompa e o fausto que presidiam à chegada de Anu e de sua esposa numa "visita oficial". Devido à danificação da barra, apenas podemos decifrar as cerimônias a partir de um momento intermédio, quando Anu e Antu se acham já sentados na sala de recepções do templo. Os deuses "exatamente na mesma ordem que anteriormente" formaram depois uma procissão à frente e atrás do possuidor do cetro. O protocolo exigia em seguida:

Depois eles descerão à exaltada corte,

E voltar-se-ão na direção de Anu.

O Sacerdote da Purificação fará as libações ao cetro,

E o possuidor do cetro entrará e se sentará.

As deidades Papsukal, Nusku e Shala

Sentar-se-ão então na corte do rei Anu.

Enquanto isso, as deusas, a "Divina Prole de Anu, As Divinas Filhas de Uruk", carregavam um segundo objeto (cujo nome ou fim não são claros) até ao E.NIR, "A Casa do Leito Dourado e da Deusa Antu". Depois, regressavam em procissão à sala da corte, até o lugar onde Antu estava sentada. Enquanto a refeição da tarde era preparada de acordo com um rígido ritual, um sacerdote especial untava com uma mistura de "bom azeite" e vinho as dobradiças da porta do santuário para o qual Anu e Antu se retirariam à noite - um gesto atencioso com o qual se pretendia (ao que parece) eliminar o rangido das portas durante o sono das duas deidades.

Enquanto uma "refeição da tarde" era servida (várias bebidas e aperitivos), um sacerdote-astrônomo dirigia-se ao "mais elevado piso da torre do templo principal" para perscrutar os céus. Ele estava ali para observar o aparecimento numa específica parte do céu de um planeta chamado Grande Anu do Céu. Ali no topo, ele tinha de recitar as composições intituladas “Aquele que cresce brilhante, o celestial planeta do Senhor Anu" e "A Imagem do Criador ascendeu".

Uma vez descortinado o planeta e recitados os poemas, Anu e Antu lavavam as mãos com água numa tina dourada e começava a primeira parte da festa. Depois, os sete grandes deuses lavavam também as mãos em grandes travessas douradas e dava-se início à segunda parte da festa. O "rito da lavagem da boca" era então cumprido e os sacerdotes recitavam o hino "O Planeta de Anu é o Herói dos Céus". Acendiam-se os archotes, e deuses, sacerdotes, cantores e carregadores de comida organizavam-se em procissão, acompanhando os dois visitantes ao santuário para a noite.

Quatro grandes divindades eram designadas para permanecer na sala da corte montando guarda até o raiar do dia. Outras eram colocadas em vários portões designados. Entretanto, toda a região animava e celebrava a presença dos dois divinos visitantes. A um sinal do templo principal, os sacerdotes de todos os outros templos de Uruk tinham de "usar tochas para acender fogueiras" e os sacerdotes noutras cidades, vendo as fogueiras em Uruk, procediam do mesmo modo. Então:

O povo da terra incendiará fogueiras em seus lares,

E oferecerá banquetes a todos os deuses...

Os guardas das cidades acenderão fogueiras

Nas ruas e nas praças.

A partida dos dois grandes deuses estava também planejada não só até um dia, como até um minuto.

Ao décimo sétimo dia,

Quarenta minutos depois do nascer do Sol,

O portão abrir-se-á perante os deuses Anu e Antu,

Pondo fim à sua estada breve.

A parte final desta barra se quebrou, mas outro texto descreve, com todas as probabilidades, a partida: a refeição da manhã, os encantamentos, os apertos de mão ("a posse das mãos") dos outros deuses. Os grandes deuses eram levados até seu ponto de partida em liteiras semelhantes a tronos aos ombros de funcionários do templo. Uma descrição assíria de uma procissão de deidades (embora de uma época mais tardia) dá-nos, provavelmente, uma boa idéia da maneira como Anu e Antu eram levados durante sua procissão em Uruk.



Eram recitados encantamentos especiais quando a procissão passava através da "Rua dos Deuses", outros salmos e hinos eram cantados à medida que a procissão se aproximava "do cais sagrado" e quando alcançava "o canal do navio de Anu". Proferiam-se então as despedidas e recitavam-se e cantavam-se mais encantamentos "com gestos, erguendo as mãos".

Depois, todos os sacerdotes e funcionários do templo que carregavam os deuses, conduzidos por um grande sacerdote, ofereciam uma oração de partida especial. "Grande Anu, possam céu e terra abençoar-te!", entoavam eles sete vezes. Rezavam então pela bênção dos sete deuses celestiais e invocavam os deuses que estavam no céu e os que andavam por sobre a terra. Por fim, proclamavam o adeus a Anu e Antu deste modo:

Possam os deuses das profundezas

E os deuses da residência divina abençoar-vos!

Possam eles abençoar-vos diariamente ­–

Cada dia de cada mês de cada ano!

Entre milhares e milhares de descrições dos deuses antigos que foram desenterradas, nenhuma parece descrever Anu. E, no entanto, ele examina-­nos de cada estátua e de cada retrato de cada rei que existiu desde a Antiguidade até nossos próprios dias. Anu não era só o Grande Deus, Rei dos Deuses, mas também aquele por cuja graça outros podiam ser coroados reis. Pela tradição suméria, a chefia dimanava de Anu, e o termo exato para "Reino" era Anutu ("Chefia-Anu"). As insígnias de Anu eram a tiara (o toucado divino), o cetro (símbolo de poder) e o bastão (simbolizando a guia dos pastores).

O bastão do pastor, hoje em dia, pode ser mais facilmente encontrado nas mãos de bispos do que nas de reis. Mas a coroa e o cetro são ainda usados não importando sobre que reis e tronos a humanidade tenha se firmado.

A segunda mais poderosa deidade do panteão sumério era EN.LIL. Seu nome significava "Senhor do Espaço" - é o protótipo e pai dos posteriores Deuses de Tempestade que iriam chefiar os panteões do Mundo Antigo.

Ele era o filho mais velho de Anu, nascido na residência celestial paterna. Mas em algum momento dos longínquos tempos, desceu à terra e tornou-se, deste modo, o principal Deus do céu e da terra. Quando os deuses se reuniam em assembléia na residência celestial, Enlil presidia à reunião ao lado de seu pai. Quando os deuses se reuniam em assembléia na terra, encontravam-se na corte de Enlil, no divino recinto de Nippur, a cidade dedicada a Enlil e o local de seu templo principal, o E.KUR ("casa que é como uma montanha").

Não apenas os sumérios, mas também os próprios deuses da Suméria consideravam Enlil supremo. Chamavam-lhe Governante de Todas as Terras e esclareceram que "no céu - ele é o príncipe; na terra - ele é o chefe". Sua "palavra [ordem] lá no alto fez tremer os céus; cá em baixo, fez a terra estremecer":

Enlil,

Cujo comando alcança até longe;

Cuja “palavra" é suprema e sagrada;

Cuja sentença é imutável;

Que decreta destinos ao longo do distante futuro...

Os deuses da terra inclinam-se voluntariamente perante ele;

Os deuses celestiais que estão na terra,

Humilham-se em sua frente;

Aguardam fielmente, de acordo com as ordens.

Enlil, segundo as crenças sumérias, chegou à terra muito antes de esta se ter estabelecido e civilizado. Um hino a Enlil, o "Todo-Beneficente", reconta os vários aspectos da sociedade e civilização que não teriam existido sem as instruções de Enlil para que "suas ordens fossem executadas por toda a parte".

Cidade alguma teria sido construída; nenhuma colônia fundada;

Estábulo algum teria sido construído; nenhum curral erigido;

Rei algum teria subido ao trono; nenhum alto sacerdote nascido.

Os textos sumérios afirmam também que Enlil chegou à terra antes que o "povo de cabeça preta" - a alcunha suméria para a humanidade ­fosse criado. Durante estes tempos pré-humanidade, Enlil erigiu Nippur como seu centro ou "posto de comando", no qual céu e terra estavam ligados através de um qualquer "elo". Os textos sumérios chamam a este elo DUR.AN.KI ("elo céu-terra") e usam linguagem poética para descrever as primeiras ações de Enlil sobre a terra:

Enlil,

Quando tu estabeleceste colônias na terra,

Nippur tu decidiste que seria tua própria cidade.

A Cidade da Terra, a suprema,

O teu puro local cuja água é doce.

Fundaste o Dur-An-Ki

No centro dos quatro cantos do mundo.

Nesses dias do princípio, quando apenas os deuses habitavam Nippur e o homem ainda não fora criado, Enlil encontrou a deusa que se tornaria sua mulher. De acordo com uma versão, Enlil viu sua futura noiva enquanto ela se banhava na corrente de Nippur - nua! Foi amor à primeira vista, mas não necessariamente com fins matrimoniais:

O pastor Enlil, que decreta os destinos,

O de brilhantes-olhos, viu-a.

O Senhor fala-lhe de amor, mas ela não quer.

Enlil fala-lhe de amor, e ela não quer:

Minha vagina é demasiado pequena [diz ela],

Não conhece a cópula;

Meus lábios são demasiado pequenos,

Não conhecem o beijo.

Mas Enlil não aceitou o não como resposta, revelando a seu camareiro Nushku o ardente desejo pela "jovem donzela", cujo nome é SUD ("a enfermeira") e que vive com a mãe em E.RESH ("casa perfumada"). Nushku sugeriu então um passeio pelo rio e trouxe um barco. Enlil persuadiu Sud a ir navegar com ele e, uma vez no barco, violentou-a.

A velha lenda relata, em seguida, que, embora Enlil fosse chefe dos deuses, estes ficaram tão irados que o agarraram e expulsaram para o Mundo Inferior! "Enlil, imoral!" - gritaram-lhe. - "Põe-te fora da cidade!" Esta versão diz ainda que Sud, grávida de Enlil, o seguiu, casando com ele depois. Outra versão descreve o arrependido Enlil à procura da moça e enviando seu camareiro à mãe dela para lhe pedir a mão da filha. De uma forma ou de outra, Sud tornou-se mulher de Enlil e ele concedeu-lhe o titulo de NIN.LIL ("Senhora do Espaço").

Mas ele pouco fez; e os deuses sabiam, quando o baniram, que não fora ele que seduzira Ninlil, mas que as coisas se passaram de forma inversa. A verdade é que Ninlil se banhava nua no rio segundo instruções da própria mãe, na esperança de que Enlil, que normalmente dirigia seus passeios para os lados do rio, reparasse em Ninlil e desejasse “sem demora abraçar-te e beijar-te".

A despeito da maneira como os dois se apaixonaram, Ninlil foi tida na mais elevada estima a partir do momento em que Enlil lhe concedeu “as vestes de soberana". Com uma exceção, que (acreditamos) se prendeu a questões de sucessão dinástica, não se conhecem de Enlil outras fugas à fidelidade.

Uma barra votiva encontrada em Nippur mostra Enlil e Ninlil sendo servidos de comer e de beber em seu templo. A barra fora autorizada por Ur-Enlil, o "Criado de Enlil".



Além de ser chefe dos deuses, Enlil era também considerado como o Senhor Supremo da Suméria (esta última, chamada, por vezes, simplesmente "A Terra") e de seu "povo de cabeça preta". Um salmo sumério fala em veneração ao seu deus do seguinte modo:

Senhor que conhece o destino da Terra,

Digno de confiança em sua chamada;

Enlil que conhece o destino da Suméria;

igno de confiança em sua chamada;

Pai, Enlil,

Senhor de todas as terras;

Pai Enlil,

Senhor do justo comando;

Pai Enlil,

Pastor dos de cabeça preta...

Da montanha da alvorada à montanha do crepúsculo,

Não há outro Senhor na terra;

Tu só és rei.

Os sumérios reverenciavam Enlil tanto por medo, como por gratidão. Ele era quem assegurava que os decretos da assembléia dos deuses se voltassem contra a humanidade; era seu "vento" que soprava obliterando tempestades contra cidades ofensoras. Fora ele que, no tempo do dilúvio, procurara a destruição da humanidade. Mas quando em paz com o gênero humano, era um deus amigável que concedia favores. De acordo com o texto sumério, o conhecimento da agricultura, conjuntamente com o arado e a picareta, foram dádivas de Enlil à humanidade.

Enlil também selecionava os reis que iriam governar a humanidade não como soberanos, mas como servidores do deus incumbido da administração das leis divinas de justiça. Do mesmo modo, os reis sumérios, acádios e babilônios abriram suas inscrições de auto-adoração descrevendo como Enlil os chamara ao poder. Estas "chamadas" - executadas por Enlil em seu próprio interesse e no interesse de seu pai Anu - garantiam legitimidade ao governante e delineavam suas funções. Mesmo Hamurabi, que reconheceu um deus chamado Marduk como o deus nacional da Babilônia, prefaciou seu Código de Leis, afirmando: "Anu e Enlil chamaram-­me para promover o bem-estar do povo... para fazer com que a justiça prevaleça na região".

Deus do Céu e da Terra, Primogênito de Anu, Doador de Poder, Chefe Executivo da Assembléia de Deuses, Pai dos Deuses e dos Homens, Doador da Agricultura, Senhor do Espaço - estes eram alguns dos atributos de Enlil que revelam sua grandeza e poderes. Seu "comando alcançava até longe", suas "sentenças eram imutáveis"; ele "decretava os destinos". Ele possuía o "elo céu-terra" e, da "intimidante cidade de Nippur", podia "levantar os feixes que procuram o coração de todas as terras" - "olhos que podiam esquadrinhar todas as terras".

E, no entanto, ele era tão humano como qualquer jovem homem embevecido por uma beleza nua; estava sujeito a leis morais impostas pela comunidade de deuses, a transgressões puníveis pela expulsão, e nem sequer imune a queixas humanas. Pelo menos numa circunstância conhecida, um rei sumério de Ur queixou-se diretamente à assembléia dos deuses que uma série de problemas que caíram sobre Ur e o seu povo podiam ter origem no fato de triste memória de "Enlil ter dado o poder a um homem inútil... que não era de raiz suméria".

À medida que formos prosseguindo, veremos o papel central que Enlil desempenhou nos negócios divinos e mortais na terra e como é que seus vários filhos se bateram entre si pela sucessão divina, dando origem, indubitavelmente, às posteriores lendas sobre as batalhas entre os deuses.

O terceiro Grande Deus da Suméria era outro filho de Anu; ele tinha dois nomes: E.A. e EN.KI. Tal como seu irmão Enlil, era também um Deus do céu e da Terra, uma deidade original dos céus que descera para a Terra.

Sua chegada à Terra é associada, nos textos sumérios, como a época em que as águas do golfo Pérsico alcançaram o interior muito mais profundamente que hoje em dia, transformando a parte sul da região em pântanos. Ea (o nome literalmente signifIcava "casa-água"), um perito engenheiro, planejou e supervisionou a construção de canais, diques nos rios e a drenagem dos pântanos. Ele adorava navegar nesses canais de água e, especialmente, nos pântanos. As águas, como seu nome denota, eram realmente seu elemento. Ele construiu sua "grande casa" na cidade que fundara numa das extremidades dos pântanos, uma cidade apropriadamente chamada HA.A.KI ("local dos peixes-na-água"), também conhecida por E.RI.DU ("casa de ir longe").

Ea era "Senhor das Águas Salgadas", os mares e os oceanos. Os textos sumérios falam repetidamente de um tempo muito recuado em que os três grandes deuses dividiram os domínios entre si. "Os mares foram dados a Enki, o príncipe da terra", concedendo assim a Enki "o domínio de Apsu" (o "Abismo"). Como Senhor dos Mares, Ea construiu barcos que navegaram para terras longínquas e, em especial, para lugares de onde eram trazidos para a Suméria metais preciosos e pedras semi-preciosas.

Os selos cilíndricos sumérios mais antigos representam Ea como uma divindade rodeada por rios fluindo, onde às vezes se vêem peixes. Os selos associam Ea, como se mostra aqui, à Lua (indicada na sua fase crescente), uma associação enraizada, talvez, no fato de a Lua ser a causadora das marés. Sem dúvida, o epíteto NIN.IGI.KU ("senhor dos olhos brilhantes") de Ea referia-se a esta imagem astral.



Segundo os textos sumérios, incluindo uma autobiografIa de Ea verdadeiramente espantosa, ele nasceu nos céus e desceu à terra antes de haver qualquer colônia ou civilização sobre a terra. "Quando eu me aproximei do território, havia muitas inundações", afirmava ele. Prossegue depois escrevendo a série de medidas que tomou para tornar a terra habitável: encheu o rio Tigre de água fresca e "geradora de vida"; indicou um deus para supervisionar a construção de canais, para fazer o Tigre e o Eufrates navegáveis; desobstruiu os pântanos, enchendo-os de peixe e transformando-os em abrigos para pássaros de todos os gêneros e fazendo crescer aí juncos, que eram um útil material de construção.

Mudando dos mares e rios para a terra seca, Ea pretende ter sido o deus que "dirigiu o arado e a junta... abriu os sagrados sulcos... construiu os estábulos... erigiu os currais". Continuando, o texto autopanegírico (chamado "Enki e a ordem do mundo", pelos eruditos) dá ao deus o crédito de ter sido ele a trazer para a terra as artes da fabricação de tijolos, construção de domicílios e cidades, metalurgia, e assim por diante.

Apresentando esta deidade como o maior benfeitor da humanidade, o deus que ocasionou a civilização, muitos textos descrevem-no também como protagonista-chefe da humanidade nos conselhos de deuses. Os textos diluvianos-acádios e sumérios, nos quais se devem ter baseado os relatos bíblicos, descrevem Ea como o deus que, desafiando a decisão da Assembléia dos deuses, permitiu a um seguidor de confiança (o "Noé" mesopotâmico) escapar ao desastre.

De fato, os textos acádios e sumérios, que (tal como o Antigo Testamento) aderiram à crença de que um deus ou deuses criaram o homem através de um ato consciente e deliberado, atribuem a Ea um papel-chave: como cientista-chefe dos deuses, ele delineou o método e o processo pelo qual o homem seria criado. Com tanta afinidade com a "criação" ou a emergência do homem, não admira que Ea tenha guiado Adapa - o "homem modelo" criado pela "sabedoria" de Ea - para a residência de Anu nos céus, desafiando a determinação dos deuses de negarem a "vida eterna” ao gênero humano.

Estava Ea do lado do homem simplesmente porque participara de sua criação, ou teria Ea outros motivos bem mais subjetivos? À medida que dissecamos o registro, vemos invariavelmente que o desafio de Ea - tanto em assuntos de mortais como em assuntos divinos - tem, a maior parte das vezes, o objetivo de frustrar decisões ou planos emanados de Enlil.

O registro está repleto de indicações de Ea "ardendo" de inveja de seu irmão Enlil. De fato, o outro nome, talvez mesmo o primeiro de Ea, era EN.KI ("senhor da terra"), e os textos tratando da divisão do mundo entre os deuses sugerem que possa ter sido apenas pelo lançamento de sortes que Ea perdeu o domínio da terra a favor de seu irmão Enlil.

Os deuses trocaram apertos de mão,

Lançaram sortes e dividiram.

Anu subiu ao céu;

A terra foi dada a Enlil como incumbência,

Os mares, enlaçados como numa cadeia,

Foram dados a Enki, o Príncipe da Terra.

Por muito amargo que Ea/Enki ficasse com os resultados deste lançamento de sortes, ele parece nutrir um ressentimento muito mais profundo ainda. A razão para isso dá o próprio Enki em sua autobiografia: era ele, e não Enlil, o filho primogênito, clamava Enki; deste modo, era ele, e não Enlil, quem estava no direito de ser o herdeiro efetivo de Anu:

Meu pai, o rei do universo, trouxe-me à luz para o universo...

Eu sou a semente fecunda, engendrada pelo Grande Touro Selvagem;

Eu sou o filho primogênito de Anu.

Eu sou o Grande Irmão dos deuses...

Eu sou o que nasceu como primeiro filho do divino Anu.

Uma vez que os códigos de leis pelos quais os homens viveram no antigo Oriente Médio foram dados pelos deuses, não há razão para que as leis sociais e de família aplicáveis aos homens não fossem cópias das que eram aplicáveis aos deuses. Registros de arte e família encontrados em locais como Mari e Nuzi confirmaram que os costumes e as leis bíblicos com os quais os patriarcas hebreus viveram eram as leis às quais reis e nobres estiveram obrigados ao longo do antigo Oriente Médio. Os problemas de sucessão que os patriarcas enfrentaram são, portanto, instrutivos.

Abraão, privado de ter um filho devido à aparente esterilidade de sua mulher Sara, teve um filho primogênito da servidora de sua mulher. No entanto, seu filho (Ismael) foi excluído da sucessão patriarcal logo que Sara deu a Abraão um filho dela própria, Isaac.

A mulher de Isaac, Rebeca, ficou grávida de dois gêmeos. Esaú, ruivo, peludo e robusto, foi tecnicamente o primogênito. Agarrado ao calcanhar de Esaú nasceu Jacó, mais refinado, e a quem Rebeca encheu de carinhos. Quando o idoso e meio cego Isaac se preparava para proclamar seu testamento, Rebeca serviu-se de um ardil para ter a bênção de saber que a sucessão seria garantida por Jacó, e não por Esaú.

Finalmente, os problemas de sucessão de Jacó resultaram do fato de que, embora tivesse servido Labão durante vinte anos para obter a mão de Raquel em casamento, Labão forçou-o a casar primeiro com a irmã mais velha de Raquel, Lia. Foi Lia quem deu a Jacó seu primeiro filho (Rubens), e ele teve mais filhos e uma filha dela e de duas concubinas. No entanto, quando Raquel, finalmente, lhe deu seu filho primogênito (José), Jacó preferiu-o aos seus irmãos.

Conhecendo estes costumes e leis de sucessão, podemos entender as reivindicações conflituosas entre Enlil e Ea/Enki. Enlil, filho de Anu e de sua consorte oficial Antu em todos os registros, era o primogênito legal. Mas o grito angustiado de Enki: Eu sou a semente fecunda... Eu sou o primogênito filho de Anu, deve ter sido uma exposição de fatos. Teria ele então nascido de Anu, mas de outra deusa que foi apenas uma concubina? O conto de Isaac e Ismael ou a história dos gêmeos Esaú e Jacó podem ter tido um paralelo anterior na residência celestial.

Embora Enki pareça ter aceitado as prerrogativas da sucessão de Enlil, alguns estudiosos vêem provas suficientes para mostrar uma contínua luta de poderes entre os dois deuses. Samuel N. Kramer intitulou um dos textos antigos "Enki e o Seu Complexo de Inferioridade". Como mais tarde veremos, vários contos bíblicos - de Eva e da serpente no Jardim do Éden, ou o conto do dilúvio - envolvem em suas versões originais sumérias momentos de desafio de Enki aos éditos de seu irmão.

Em determinado instante, parece, Enki reconheceu que não fazia sentido lutar pelo trono divino e concentrou seus esforços em fazer um filho seu - de preferência a um filho de Enlil - ser o herdeiro da terceira geração. Procurou alcançar isto, pelo menos a princípio, com a ajuda de sua irmã NIN.HUR.SAG ("senhora do topo da montanha").

Ela era também uma filha de Anu, mas não evidentemente de Antu, e nesse particular residia outra regra de sucessão. Os eruditos perguntaram-­se em anos passados por que razão tanto Abraão como Isaac anunciaram o fato de que suas respectivas esposas eram também suas irmãs - uma afirmação que confunde, tendo em vista a proibição bíblica de relações sexuais entre irmãos. Mas, quando os documentos legais foram desenterrados em Mari e Nuzi, tornou-se claro que um homem podia casar com uma meia-irmã. E ainda mais, considerando-se todas as crianças de todas as mulheres, o filho de uma esposa assim - sendo cinqüenta por cento de mais "pura semente" que um filho de mulher não aparentada - era o herdeiro legal, fosse ou não o filho primogênito. Isto, incidentalmente, levou à prática (em Mari e Nuzi) da adoção de uma "irmã" como esposa preferida visando fazer do filho que ela tivesse o incontestado herdeiro legal.

Foi de uma destas meias-irmãs, Ninhursag, que Enki procurou ter um filho. Também ela era do céu, tendo descido à terra nos tempos mais remotos. Alguns textos afirmam que, quando os deuses dividiam os domínios da terra entre si, a ela foi dada a Terra de Dilmun - "um lugar puro... uma terra pura... um lugar tão brilhante". Um texto chamado pelos eruditos "Enki e Nihursag - Um Mito do Paraíso" trata da viagem de Enki a Dilmun com fins conjugais. Ninhursag, acentua repetidamente o texto, "estava sozinha", descomprometida, solteirona. Embora em tempos posteriores ela seja descrita como uma velha matrona, deve ter sido muito atraente quando jovem, uma vez que o texto informa-nos, sem nenhum pudor, que, quando Enki se aproximou dela, à sua vista "seu pênis fez transbordar os diques de água".

Dando ordem para que ficassem sozinhos, Enki "depositou o sêmen no ventre de Ninhursag. Ela aceitou-o dentro do ventre, ao sêmen de Enki" e, depois, "após os nove meses de feminilidade... ela deu à luz nas margens das águas". Mas a criança era uma menina.

Tendo falhado em obter um herdeiro masculino, Enki resolveu depois fazer amor com sua própria filha. "Ele abraçou-a, ele beijou-a; Enki depositou o sêmen no ventre". Mas também ela lhe deu uma filha. Enki correu então atrás de sua neta e engravidou-a também, mas mais uma vez o resultado desta ligação foi um rebento feminino. Firmemente decidida a parar com estes esforços, Ninhursag amaldiçoou Enki, que, tendo digerido algumas plantas, ficou mortalmente doente. Os outros deuses, no entanto, forçaram Ninhursag a retirar a praga.

Enquanto estes acontecimentos tiveram grande repercussão nos negócios divinos, outros contos referentes a Enki e Ninhursag tiveram enorme influência nos negócios terrenos humanos, uma vez que, segundo os textos sumérios, o homem foi criado por Ninhursag, seguindo processos e fórmulas legadas por Enki. Ela era a enfermeira-chefe, aquela que tinha a seu cargo o equipamento médico: era nesse seu papel que a deusa era chamada NIN.TI ("senhora-vida").



Alguns eruditos vêem em Adapa (o "homem modelo" de Enki) o bíblico Adama ou Adão. O duplo significado do sumério “TI” suscita também paralelos bíblicos. Ti podia significar tanto "vida" como "costela.", e, assim, o nome de Ninti significava não só "senhora de vida" como também “senhora da costela". A Eva bíblica, cujo nome signifIcava "vida", foi criada à partir da costela de Adão, e, portanto, Eva, de certo modo, era também uma "senhora de vida" e "senhora da costela".

Como doador de vida tanto aos deuses, como aos homens, fala-se de Ninhursag como de uma deusa-mãe. Seu diminutivo era "Mammu" ­a palavra predecessora do nosso atual "mamã" - e seu símbolo era o "cortador"- o utensílio usado na Antiguidade pelas parteiras para cortar o cordão umbilical depois do nascimento.

Enlil, irmão e rival de Enki, teve a boa sorte de conseguir um "justo herdeiro" da sua irmã Ninhursag. O mais jovem dos deuses sobre a terra, que nasceu nos céus, tinha o nome de NIN.UR.TA ("senhor que completa a fundação"). Ele era o "heróico filho de Enlil que avançava com cadeias e raios de luz" para se bater por seu pai; "o filho vingador... que desfere flechas de luz".

Sua esposa BA.U era também enfermeira ou médica e seu epíteto era "senhora que os mortos traz à vida'”.

Os desenhos antigos de Ninurta mostram-no empunhando uma arma única, sem dúvida a tal que podia desferir "flechas de luz". Os textos antigos aclamam-no como um poderoso caçador, um deus lutador conhecido por suas capacidades marciais. Mas seu mais proeminente feito heróico não foi executado no interesse de seu pai, mas em seu próprio. Foi uma batalha de grande alcance com um deus maligno chamado Zu (“sensato”) e envolveu nada menos que a chefia dos deuses da terra, uma vez que Zu capturara ilegalmente a insígnia e os objetos que Enlil mantinha como chefe dos deuses.

Os textos descrevendo estes acontecimentos estão quebrados no princípio, e a história só se torna legível no ponto em que Zu chega a E-Kur, o templo de Enlil. Aparentemente, ele é conhecido e tem alguma categoria, uma vez que Enlil lhe dá as boas-vindas, "confiando-lhe a guarda da entrada de seu santuário". Mas o "malvado Zu" retribuiria a confiança com a traição, uma vez que “tramou em seu coração a destituição de Enlil", a apreensão de seus poderes.

Para consegui-lo Zu tinha de entrar na posse de certos objetos, incluindo a mágica Barra dos Destinos. O maligno Zu teve sua oportunidade quando Enlil se despiu ao entrar na piscina para seu banho diário, negligenciando seus adornos.

A entrada do santuário,

Que ele estivera a avistar,

Zu aguarda o início do dia.

Enquanto Enlil se lavava com água pura ­

Tendo retirado sua coroa,

Tendo-a depositado no trono ­

Zu agarrou a Barra dos Destinos em suas mãos,

E destituiu o Reino de Enlil.

Enquanto Zu fugia em sua MU (traduzido "nome", mais indicando uma máquina voadora) para um longínquo esconderijo, as conseqüências de seu ousado ato começavam a surtir efeito.

Suspensas as fórmulas divinas,

A quietude espalhou-se por todo o lado; o silêncio reinou...

O esplendor do santuário desapareceu.

"O Pai Enlil ficou sem fala." "Os deuses da terra foram-se reunindo um a um, à volta das notícias." O assunto era tão grave que até Anu em sua residência celestial foi informado. Ele reviu a situação e concluiu que Zu devia ser capturado para que as "fórmulas" fossem restauradas. Voltando-se "para os deuses, seus filhos", Anu perguntou, "Quem, entre os deuses, matará Zu? Seu nome será o mais glorioso de todos!”

Vários deuses conhecidos por seu valor foram convocados. Mas todos salientaram que, tendo roubado a Barra dos Destinos, Zu possuía agora os mesmos poderes que Enlil, e, assim, aquele "que a ele se opuser tornar-­se-á como a argila". Nesta altura, Ea teve uma grande idéia. "Por que não chamar Ninurta para assumir aquela luta sem esperança?”

Os deuses em reunião não podiam ter deixado de compreender o engenhoso ardil de Ea. Sem dúvida, as chances da sucessão se resolver pelo lado de sua prole aumentariam se Zu fosse derrotado; do mesmo modo, ele se beneficiaria se Ninurta fosse assassinado durante este processo. Para estupefação dos deuses, Ninhursag (chamada neste texto NIN.MAH (­"grande senhora") concordou. Dirigindo-se a seu filho Ninurta, explicou-­lhe que Zu retirara não só Enlil, mas também Ninurta do reino de Enlil. "Dei à luz com gritos de dor", bradou ela, e foi ela quem "tornou certo para meu irmão e para Anu" a continuidade do "Reino dos Céus". Para que suas dores não tivessem sido em vão, ela deu instruções a Ninurta para se retirar e lutar para vencer:

Desfere a tua ofensiva... captura o fugitivo Zu...

Deixa que a aterradora ofensiva se ire contra ele...

Corta sua garganta! Conquista Zu!

Que os sete ventos da doença se dirijam contra ele,

Faz com que todos os furacões o ataquem,

Que a radiação vá contra ele...

Que os ventos levem suas asas até um lugar secreto...

Que a soberania regresse a E-kur;

Que as fórmulas divinas regressem

Ao pai que te gerou.

As várias versões da epopéia fornecem então emocionantes descrições da batalha que se seguiu. Ninurta disparou "flechas" contra Zu, mas as "flechas" não podiam aproximar-se do corpo de Zu... enquanto ele tivesse em suas mãos a Barra dos Destinos dos deuses. Desferidas, as "armas eram paradas a meio" do seu trajeto. Como a inconseqüente batalha começava a fatigar, Ea aconselhou Ninurta a juntar um til-lum às suas armas e dispará-las para dentro das "penas", ou pequenas "rodas-dentadas", das "asas" de Zu. Seguindo este conselho e gritando "Asa a asa", Ninurta disparou o til-lum para as penas de Zu. Atingidas deste modo, as penas começaram a espalhar-se e as "asas" de Zu caíram em espiral. Zu fora derrotado e a Barra dos Destinos voltava à Enlil.

Quem era Zu? Seria ele, como defendem alguns estudiosos, um "pássaro mitológico"?

É evidente que ele podia voar. Mas também qualquer homem hoje em dia o pode fazer se tomar um avião, ou qualquer astronauta que viaje numa nave espacial. Ninurta também podia voar tão habilidosamente como Zu (talvez mesmo melhor). Mas ele próprio não era um pássaro fosse de que tipo fosse, como retratam abundantemente as suas muitas descrições (por ele próprio ou pela sua consorte BA.U, também chamada GU.LA). Muito pelo contrário, ele executava seu vôo com a ajuda de um notável “pássaro", que mantinha guardado em seu recinto sagrado (o GIR.SU) na cidade de Lagash.

Nem sequer Zu era um "pássaro". Aparentemente ele tinha à sua disposição um "pássaro" no qual podia fugir voando até o esconderijo. Foi do interior destes "pássaros" que a batalha do céu entre os dois deuses teve lugar. E não podem restar dúvidas relativas à natureza da arma que finalmente liquidou o "pássaro" de Zu. Chamado TIL em sumério e til­-lum em assírio, e devia querer dizer o que til significa hoje em dia em hebraico: "míssil".

Zu, então, era um deus, um dos deuses que tinha razões para planejar a usurpação dos poderes de Enlil, um deus com quem Ninurta, como legítimo sucessor, tinha todos os motivos para lutar.

Seria ele, talvez, MAR.DUK ("filho do puro morro"), o primogênito de Enki com sua mulher DAM.KI.NA, impaciente o suficiente para tomar por um ardil aquilo que não lhe pertencia legalmente?

Há razões para crer que, não tendo conseguido um filho com sua irmã e produzido deste modo um competidor legal para o reino de Enlil, Enki confiou a tarefa a seu filho Marduk. De fato, quando o antigo Oriente Médio foi tomado por grandes sublevações sociais e militares no início do 2º. milênio a.C., Marduk foi elevado na Babilônia à categoria de deus nacional da Suméria e da Acádia. Marduk foi proclamado rei dos deuses, substituindo Enlil, e aos outros deuses foi exigido que lhe jurassem fidelidade e viessem residir na Babilônia, onde suas atividades podiam ser facilmente supervisionadas.



Esta usurpação do reino de Enlil (muito tempo depois do incidente com Zu) foi acompanhada por um esforço extensivo dos babilônios para falsificar os textos antigos. Os mais importantes textos foram reescritos e alterados de forma a fazer de Marduk o Senhor dos Céus, o Criador, o Benfeitor, o Herói, em lugar de Anu ou Enlil ou até Ninurta. Entre os textos alterados figurava o "Conto de Zu", e, de acordo com a versão babilônica, Marduk (e não Ninurta) lutou com Zu. Nesta versão, Marduk clama: "Mahasti moh il Zu" ("Eu esmaguei o esqueleto do deus Zu"). Como fica evidente, então, Zu não podia ter sido Marduk.

Nem pareceria plausível que Enki, "Deus das Ciências", tivesse ensinado Ninurta tendo em vista a escolha e o uso das armas vitoriosas contra seu próprio filho Marduk. Enki, a julgar por seu comportamento, assim como por sua urgência em dizer a Ninurta para "cortar a garganta de Zu", esperava ganhar algo com a luta, não importa quem fosse o vencido. A única conclusão lógica é que também Zu era, de algum modo, um candidato legal ao reino de Enlil.

Isto sugere apenas um deus: Nanna, o primogênito de Enlil com sua consorte oficial Ninlil, porque, se Ninurta fosse eliminado, Nanna estaria na pista desobstruída da sucessão.

Nanna (diminutivo para NAR.NAR, "o brilhante") chegou até nós, através dos anos, em seu nome acádio (ou "semita") mais conhecido – Sin.

Como primogênito de Enlil, a ele era garantida a soberania sobre a mais famosa cidade-Estado da Suméria, UR ("A Cidade"). Seu templo chamava­-se E.GISH.NU.GAL ("casa da semente do trono"). Dessa residência, Nanna e sua esposa NIN.GAL ("grande senhora") conduziam os negócios da cidade e do seu povo com grande benevolência. O povo de Ur retribuía aos governantes divinos com grande afeição, chamando seu deus de "Pai Nanna" e outros nomes carinhosos.

A prosperidade de Ur foi atribuída pelo seu povo diretamente a Nanna. Shulgi, um governante de Ur (pela graça de deus) no 3º. milênio a.C., descreveu a "casa" de Nanna como "um grande lugar cheio de abundância", um "copioso local de ofertas de pão", onde as ovelhas se multiplicavam e os bois eram abatidos, um local de música doce onde soavam tambores e tamborins.

Sob a administração do deus protetor Nanna, Ur tornou-se o celeiro da Suméria, a fornecedora de cereais e de ovelhas e gado a outros templos por toda a parte. Um "Lamento da Destruição de Ur" informa-nos (pela forma negativa) de como era Ur antes de sua decadência:

Nos celeiros de Nanna não havia cereal.

As refeições da tarde dos deuses foram suprimidas;

Em suas grandes salas de jantar, vinho e mel cessaram...

Em seu supremo forno do templo, já bois e carneiros não são preparados;

O zumbido cessou no grande Lugar de Grilhetas;

Aquela casa onde se gritavam as encomendas de bois ­

Seu silêncio é opressivo...

Seu tormentoso almofariz e pilão estão inertes...

Os barcos de oferendas não trazem oferendas...

Não trazem pão de oferendas a Enlil em Nippur.

O rio de Ur está vazio, nenhuma barcaça aí se move...

Nenhum pé pisa suas margens; longas ervas crescem aí.

Outro lamento, deplorando "os currais que foram entregues ao vento", os estábulos abandonados, os pastores que partiram, é extremamente invulgar: não foi escrito pelo povo de Ur, mas pelo próprio deus Nanna e por sua esposa Ningal. Estes e outros lamentos sobre a queda de Ur revelam o trauma de alguns acontecimentos pouco comuns. Os textos sumérios informaram-nos que Nanna e Ningal deixaram a cidade antes que sua decadência fosse completa. Foi uma partida precipitada, descrita de maneira comovente:

Nanna, que amava sua cidade, partiu da cidade.

Sin, que amava Ur, não mais ficou em sua casa.

Ningal...

Fugindo de sua cidade através de território inimigo, pôs à pressa uma veste,

E partiu de sua casa.

A queda de Ur e o exílio de seus deuses foram descritos nos lamentos como resultado de uma decisão deliberada de Anu e Enlil. Nanna apelou aos dois no sentido de cancelar o castigo.

Possa Anu, o rei dos deuses, proferir: "Basta";

Possa Enlil, o rei das terras, decretar um destino favorável!

Apelando diretamente para Enlil, Sin trouxe seu coração sofredor ao seu pai; fez uma cortesia perante Enlil, o pai que o gerou, e suplicou-lhe:

Ó meu pai que me criaste,

Até quando olharás como inimigo para a minha expiação?

Até quando?..

No oprimido coração que tu fizeste vacilar como uma chama –­

Lança, por favor, uma expressão amigável.

Em nenhum lugar os lamentos revelam as causas da ira de Anu e Enlil. Mas, se Nanna era Zu, a punição seria justificável pelo seu crime de usurpação. Seria ele Zu?

Podia certamente tê-lo sido, porque Zu tinha a posse de um tipo qualquer de máquina voadora - o "pássaro" no qual escapou e do qual lutou com Ninurta. Salmos sumérios falavam, com adoração, do "Barco do Céu".

Pai Nanna, Senhor de Ur...

Cuja glória no sagrado Barco do Céu é...

Senhor, filho primogênito de Enlil.

Quando ao Barco do Céu tu ascendes,

Tu és glorioso

Enlil adornou tua mão

Com um cetro eterno

Quando sobre Ur ao sagrado Barco tu subiste.

Mas há provas adicionais: o outro nome de Nanna, Sin, derivado de SU.EN, que era um modo diferente de pronunciar ZU.EN. O mesmo significado complexo de uma palavra de duas sílabas podia ser obtido colocando as sílabas em qualquer ordem: ZU.EN e EN.ZU eram "espelho" uma da outra. Nana/Sin como ZU.EN não era outro senão EN.ZU ("senhor Zu"). Foi ele, devemos concluir, que tentou tomar o reino de Enlil.

Podemos compreender agora por que é que, a despeito da sugestão de Ea, o senhor Zu (Sin) foi punido, não com a execução, mas com o exílio. Tanto os textos sumérios como as provas arqueológicas indicam que Sin e sua esposa fugiram para Haran, a cidade hurrita protegida por vários rios e terrenos montanhosos. É digno de nota o fato de que, quando o clã de Abraão deixou Ur, conduzido pelo seu pai Terah, dirigiu também sua caravana na direção de Haran, onde ficaram por muitos anos a caminho da Terra Prometida.

Embora Ur permanecesse para todo o sempre uma cidade dedicada a Nanna/Sin, Haran deve ter sido sua residência por um longo período de tempo, uma vez que a fizeram assemelhar-se quase exatamente a Ur, com seus templos, edifícios e ruas. André Parrot (Abraham et son Temps) [Abraão e o seu Tempo] resume as similitudes dizendo que "existem todas as provas de que o culto de Haran não era senão uma réplica exata do de Ur".

Quando o templo de Sin em Haran, construído e reconstruído ao longo dos milênios, foi desenterrado durante escavações que duraram mais de 50 anos, os achados incluíram duas estelas (pilares de pedra de memoriais), nas quais estava inscrito um registro único. Era um registro ditado por Adadguppi, uma alta sacerdotisa de Sin, de como ela rezara e planejara o regresso de Sin, porque em algum momento do passado.

Sin, o rei de todos os deuses,

Enfureceu-se com sua cidade

E seu templo, e subiu ao céu.

Que Sin, desgostoso ou desesperado, tenha "feito as malas" e "subido ao céu" é corroborado por outras inscrições. Estas dizem-nos que o rei assírio Assurbanipal obteve de certos inimigos um sagrado “selo cilíndrico do mais caro jaspe" e melhorou-o "desenhando-lhe uma gravura de Sin". Mais tarde, ele inscreveu na pedra sagrada "um elogio de Sin e dependurou-a à volta do pescoço da imagem de Sin". Aquele selo de pedra de Sin devia ter sido uma relíquia dos velhos tempos, porque mais tarde se afirma que “ele é aquele cuja face foi danificada naqueles dias durante a destruição lavrada pelo inimigo".

Supõe-se que a alta sacerdotisa que nasceu durante o reinado de Assurbanipal fosse ela própria de sangue real. Em seus apelos a Sin, ela propõe um "acordo" prático: a restauração dos poderes de Sin sobre seus adversários em troca da ajuda que prestaria a seu filho Nabunaid para este se tornar governante da Suméria e da Acádia. Registros históricos confirmam que, no ano 555 a.C., Nabunaid, então comandante das armadas babilônicas, foi nomeado pelos seus colegas oficiais para ocupar o trono. Para isto, afirma-se, contribuiu a ajuda direta de Sin. Foi "no primeiro dia do seu aparecimento", informam-nos as inscrições de Nabunaid, que Sin, usando "a arma de Anu", conseguiu "tocar com um feixe de luz" os céus e esmagar os inimigos embaixo na terra.

Nabunaid cumpriu a promessa de sua mãe ao deus. Reconstruiu o templo de Sin, E.HUL.HUL ("casa de grande alegria"), e declarou Sin como Deus Supremo. Foi então que Sin pôde agarrar em suas mãos "o poder do cargo de Anu, empunhou todo o poder do cargo de Enlil, apoderou-se de todo o poder do cargo de Ea - segurando, deste modo, em sua mão todos os celestiais poderes". Derrotando, assim, o usurpador Marduk, capturando mesmo os poderes de Ea, pai de Marduk, Sin assumiu o título de "Crescente Divino" e firmou sua reputação como Deus Lua.

Como conseguiu Sin, que se diz ter voltado aos céus desgostoso, realizar tais feitos de volta à terra?

Nabunaid, confirmando que Sin tinha realmente "esquecido sua zangada disposição... e decidiu regressar ao templo Ehulhul", exigiu um milagre. Um milagre "que não acontecia à terra desde os dias de outrora" tivera lugar. Uma deidade "descera vinda do céu".

Este é o grande milagre de Sin,

Que não acontecia na terra

Desde os dias de outrora;

Que o povo da terra

Não vira nem escrevera

Nas barras de argila, para preservar para sempre:

Que Sin,

Senhor de todos os deuses e de todas as deusas,

Residindo nas alturas,

Desceu vindo dos céus.

Lamentavelmente, não nos são fornecidos mais detalhes acerca do lugar e modo em que Sin aterrissou. Mas sabemos que foi nos campos fora de Haran que Jacó, no seu caminho para Canaã para encontrar uma noiva "na velha região", viu "uma escada fixada no solo e cujo topo se erguia em direção aos céus e havia anjos do Senhor subindo e descendo por ela ".

Ao mesmo tempo que Nabunaid restaurava os poderes e os templos de Nanna/Sin, restaurou também os templos e a adoração dos dois filhos gêmeos de Sin: IN.ANNA ("senhora de Anu") e UTU ("o brilhante").

Os dois nasceram de Sin e sua esposa oficial Ningal, e eram, deste modo, membros por nascimento da dinastia divina. Inanna era tecnicamente a primogênita, mas seu irmão gêmeo Utu era o filho primogênito e assim o herdeiro dinástico legal. Ao contrário da rivalidade que existiu em circunstâncias semelhantes entre Esaú e Jacó, as duas crianças divinas cresceram muito afeiçoadas uma à outra. Partilharam experiências e aventuras, auxiliavam-se mutuamente, e quando Inanna teve de escolher um marido entre dois deuses, voltou-se para seu irmão em busca de conselho.

Inanna e Utu nasceram em tempos imemoriais, quando apenas os deuses habitavam a Terra. A cidade-domínio de Utu - Sippar - estava na lista entre as primeiríssimas cidades estabelecidas pelos deuses na Suméria. Nabunaid relatou numa inscrição quando empreendeu a reconstrução do templo de Utu E.BABBARA ("casa brilhante") em Sippar:

Eu procurei pela sua antiga plataforma-alicerce,

E cavei dezoito cúbitos no interior do solo.

Utu, o Grande Deus de Ebabbara...

Mostrou-me pessoalmente a plataforma-alicerce

De Naram-Sin, filho de Sargão, que desde há 3.200 anos

Nenhum rei antes de mim vira.

Quando floresceu a civilização na Suméria e o homem se juntou aos deuses na "Terra Entre-os-Rios", Utu foi primeiramente associado com a lei e a justiça. Alguns primitivos códigos de leis, além de invocarem Anu e Enlil, eram também apresentados como requisições de aceitamento e aderência porque eram promulgados “em acordo com a verdadeira palavra de Utu". O rei babilônico Hamurabi inscreveu seu código de leis numa estela, no topo da qual se representou o rei recebendo as leis do deus.



Barras desenterradas em Sippar atestam sua reputação nos tempos antigos como um lugar de justas e corretas leis. Alguns textos descrevem o próprio Utu sentado em julgamento de deuses e igualmente de homens. Sippar era, de fato, a sede da "suprema corte" suméria.

A justiça advogada por Utu lembra a do Sermão da Montanha registrada no Novo Testamento. Uma "barra da sabedoria" sugere o seguinte comportamento para agradar a Utu:

Não faças mal ao teu adversário;

Teu malfeitor recompensarás com o bem.

Ao teu inimigo, deixa que seja feita justiça...

Não deixes que teu coração seja induzido para o mal...

Aquele que pede esmola ­

Dá alimento para comer, dá vinho para beber...

Sê útil; faze o bem.

Talvez porque ele assegurava a justiça e prevenia a opressão - e talvez também por outras razões como mais tarde veremos, Utu era considerado o protetor dos viajantes. No entanto, os mais comuns e duradouros epípetos aplicados a Utu fazem referência, sobretudo, ao seu esplendor. Desde os mais remotos tempos ele era chamado Babbar ("o brilhante"). Ele era "Utu, que emana uma larga luz", aquele que "ilumina céus e terra".

Hamurabi, em sua inscrição, chamou o deus pelo seu nome acádio, Shamash, que nas línguas semitas significa "Sol". Julgam os estudiosos, desde aí, que Utu/Shamash era o Deus Sol mesopotâmico. Mostraremos, à medida que avançarmos, que, enquanto a este deus era associado o Sol como seu equivalente celestial, havia outro trecho das inscrições em que se dizia que ele "emana uma brilhante luz" quando realiza as tarefas especiais que lhe são confiadas pelo seu avô Enlil.

Tal como os códigos de leis e os registros de corte são testemunhos humanos da real presença entre os antigos povos da Mesopotâmia de uma deidade chamada Utu/Shamash, assim existem inscrições sem fim, textos, encantamentos, oráculos, orações e descrições atestando a presença física e a existência da deusa Inanna, cujo nome acádio era Ishtar. Um rei mesopotâmico do século 13 a.C. afirma que ele reconstruíra o templo da deusa da cidade de seu irmão - Sippar - em alicerces que no tempo tinham 800 anos de existência. Mas em sua cidade central, Uruk, os contos referentes a Ishtar recuam até mais vetustos tempos.

Conhecida pelos romanos como Vênus, pelos gregos como Afrodite, pelos cananitas e hebreus como Astarte, pelos assírios, babilônios, hititas e outros povos antigos como Ishtar ou Eshdar, pelos acádios e sumérios como Inanna, ou Innin, ou Ninni, ou por outros de seus muitos apelidos, diminutivos e epítetos, ela foi em todos os tempos a Deusa da Arte Guerreira e a Deusa do Amor, uma impetuosa e bela mulher que, embora apenas quatrineta de Anu, gravou para si própria, por si própria, um lugar de destaque entre os grandes deuses do céu e da terra.

Como jovem deusa, aparentemente, foi-lhe concedido um domínio numa região longínqua a leste da Suméria, a Terra de Aratta. Era aí que "a Suprema, Inanna, rainha de toda a terra", tinha sua "casa". Mas Inanna tinha ambições mais altas. Na cidade de Uruk estava o grande templo de Anu, ocupado apenas durante suas ocasionais visitas de Estado à terra; e Inanna dirigiu seus olhares para esta sede do poder.

Listas de reis sumérios confirmam que o primeiro governante não divino de Uruk foi Meshkiaggasher, um filho do deus Utu e de uma mãe humana. A ele sucedeu seu filho Enmerkar, um grande rei sumério. Inanna, então, era a tia-avó de Enmerkar, e encontrou poucas dificuldades em persuadi-lo de que ela devia, realmente, ser a deusa de Uruk, de preferência ao remoto Aratta.

Um longo e fascinante texto chamado "Enmerkar e o Senhor de Aratta" descreve como Enmerkar enviou emissários para Aratta, usando todos os argumentos possíveis numa "guerra de nervos" para forçar Aratta a submeter-se porque "o Senhor Enmerkar, que era servo de Inanna, a fizera rainha da casa de Anu". O fim pouco claro da epopéia sugere um final feliz: enquanto Inanna se mudava para Uruk, ela não "abandonou sua Casa em Aratta". Não é totalmente improvável que ela se tivesse tornado uma "deusa viajora", uma vez que Inanna/Ishtar era conhecida de outros textos como uma aventureira viajante.

Sua ocupação do templo de Anu em Uruk não podia ter acontecido sem seu conhecimento e consentimento, e os textos dão-nos idéias definidas sobre o modo como tal consentimento foi obtido. Em breve Inanna foi conhecida por "Anunitum", um diminutivo significando "amada de Anu". Acontece que Inanna partilhava não só o templo, como o leito de Anu sempre que ele vinha a Uruk, ou nas referidas ocasiões de sua ascensão à residência celestial.

Tendo deste modo aberto seu próprio caminho como deusa de Uruk e senhora do templo de Anu, Ishtar continuou a usar truques para elevar a posição de Uruk e aumentar seus próprios poderes. Muito mais longe, descendo o Eufrates ficava a cidade antiga de Eridu, o centro de Enki. Sabendo de seu grande conhecimento de todas as artes e ciências da civilização, Inanna resolveu pedir, fazer empréstimo ou roubar esses segredos. Pretendendo, obviamente, usar seu "encanto pessoal" sobre Enki (seu tio-avô), Inanna procurou visitá-lo sozinha. O fato não passou despercebido a Enki, que ordenou a seu mordomo para preparar jantar para dois.

Vem, meu mordomo Isimud, ouve minhas instruções;

Dir-te-ei uma palavra; atende às minhas palavras:

A donzela, completamente sozinha, dirigiu seus passos para o Abzu...

Faz a donzela entrar no Abzu de Eridu,

Dá-lhe bolos de cevada com manteiga para comer,

Serve-lhe a fresca água que refresca o coração,

Dá-lhe cerveja para beber...

Feliz e embriagado, Enki estava pronto a fazer o que quer que fosse por Inanna. Quando ela ousadamente lhe pediu as fórmulas divinas, que eram a base de uma alta civilização, Enki concedeu-lhe cerca de cem. Entre estas encontravam-se algumas pertencentes à suprema senhoria, ao reino, às funções sacerdotais, armas, procedimentos legais, profissão-escriba, trabalho em madeira, e até o conhecimento de instrumentos musicais e prostituição do templo. Quando Enki despertou e compreendeu o que fizera, já Inanna estava a caminho de Uruk. Enki ordenou que a perseguissem "intimidantes armas", mas foi em vão, porque Inanna já se apressara para Uruk em seu "Barco dos Céus".

Bastante freqüentemente, Ishtar era representada como uma deusa nua; pavoneando sua beleza, ela era mesmo representada levantando suas saias para revelar as partes inferiores de seu corpo.

Gilgamesh, um governante de Uruk por volta do ano 2.900 a.C., que era também parcialmente divino (tendo nascido de um pai humano e de uma deusa), relatou como Inanna o seduziu, mesmo depois de ela ter já um esposo oficial. Tendo-se lavado depois de uma batalha e envergado "um manto de fímbrias douradas, apertado com uma faixa".

Gloriosa Ishtar ergueu o olhar até a sua beleza.

Vem, Gilgamesh, sê o meu amante!

Vem, concede-me o teu fruto.

Tu serás meu parceiro masculino, eu serei tua mulher.

Mas Gilgamesh conhecia a história. "Qual de teus apaixonados amaste para sempre?", perguntou ele. "Qual de teus pastores te agradou para todo o sempre?" Recitando uma longa lista de seus casos amorosos, ele recusou.

À medida que o tempo passava - à medida que assumia mais altas posições no panteão e com elas a responsabilidade de negócios de Estado -, Innana/Ishtar começou a dispor de mais altas qualidades marciais e foi freqüentemente descrita como uma Deusa de Guerra, armada até os dentes.



As inscrições deixadas pelos reis assírios descrevem o modo como partiram para a guerra por ela e sob seu comando, como ela os aconselhou diretamente a atacar ou a esperar, como ela às vezes marchava à frente das tropas e como, pelo menos numa ocasião, ela concedeu uma teofania e apareceu perante todas as tropas. Em troca de sua lealdade, prometeu aos reis assírios uma longa vida e sucesso. "De uma câmara dourada nos céus eu olharei por vocês", assegurou-lhes.

Ter-se-ia ela tornado uma amarga guerreira porque também passou por tempos difíceis com a subida de Marduk à supremacia? Numa de suas inscrições, Nabunaid disse: "Inanna de Uruk, a princesa exaltada domiciliada numa célula dourada, que cavalgava num carro de batalha ao qual estavam atrelados sete leões - os habitantes de Uruk mudaram seu culto durante o governo do rei Erba-Marduk, retiraram sua célula e desarmaram sua equipe". Inanna, relata Nabunaid, "tinha, pois, deixado E-Anna zangada, e permaneceu, por esta razão, num local inconveniente" (que ele não nomeia).



Procurando talvez combinar amor com poder, a cortejadíssima Inanna escolheu para seu marido DU.MU.ZI, filho mais novo de Enki. Muitos dos antigos textos abordam os amores e as disputas dos dois. Alguns trazem canções de amor de grande beleza e vívida sexualidade. Outros contam como Ishtar, regressando de uma de suas viagens, encontrou Dumuzi celebrando sua ausência. Nessa altura, ela planejou sua captura e desaparecimento no Mundo Inferior, um domínio governado pela sua irmã E.RESH.KI.GAL e seu consorte NER.GAL. Alguns dos mais celebrados textos sumérios e acádios falam da viagem de Ishtar até o Mundo Inferior procurando seu amado expulso.

Dos seis filhos conhecidos de Enki, três deles foram retratados em contos sumérios: o primogênito Marduk, que finalmente usurpou a supremacia; Nergal, que se tornou governante do Mundo Inferior, e Dumuzi, que casou com Inanna/Ishtar.

Também Enlil teve três filhos que representaram papéis-chave tanto nos negócios divinos como nos humanos: Ninurta, que, tendo nascido de Enlil e sua irmã Ninhursag, era o legal sucessor; Nanna/Sin, primogênito da esposa oficial de Enlil, Ninlil; e um filho mais novo de Ninlil, chamado ISH.KUR ("montanhoso", "terra das longínquas montanhas"), que era mais freqüentemente chamado Adad ("amado").

Como irmão de Sin e tio de Utu e Inanna, Adad parece ter-se sentido mais à vontade com eles do que em seu próprio lar. Os textos sumérios agrupam constantemente os quatro. As cerimônias ligadas à visita de Anu a Uruk falam também dos quatro como de um grupo. Um texto, descrevendo a entrada na corte de Anu, afirma que se chegava à sala do trono através do "portão de Sin, Shamash, Adad e Ishtar". Outro texto, publicado primeiramente por V. K. Shileiko (Academia Russa de História de Culturas Materiais), descreveu poeticamente os quatro como retirando-se em conjunto para o descanso noturno.

A maior afinidade parece ter existido entre Adad e Ishtar, e os dois chegam mesmo a ser representados lado a lado, como no relevo mostrando um governante assírio sendo abençoado por Adad (segurando o anel e o raio) e por Ishtar, segurando seu arco. (A terceira deidade está muito mutilada para poder ser identificada.)



Haveria nesta "afinidade" mais do que esta platônica relação, especialmente tendo em vista o "registro" de Ishtar? Será digno de nota que no bíblico Cântico dos Cânticos a jocosa donzela chame ao seu amante dod, palavra que significa simultaneamente "amante" e "tio"? Então, era Ishkur chamado Adad, um derivativo do sumério DA.DA, porque ele era o tio que era o amante?

Mas Ishkur não era só um conquistador, era um deus poderoso, endossado pelo seu pai Enlil com poderes e prerrogativas de um deus da tempestade. E como tal era reverenciado, como o eram o hurrita/hitita Teshub e o urastio Teshubu ("soprador de vento"), o amorita Ramanu ("trovejante"), o cananita Raginu ("o lançador de granizo"), o indo-europeu Buriash ("fazedor de luz"), o semita Meir ("ele que ilumina" os céus).

Uma lista de deuses guardada no Museu Britânico, como é mostrada por Hans Schlobies (Der Akkadische Wíttergott in Mesopotamen) [O Deus do Clima Acádio na Mesopotâmia], esclarece que Ishkur era realmente o divino senhor em terras distantes da Suméria e da Acádia. Como revelam os textos sumérios, isto não aconteceu acidentalmente. Enlil, ao que parece, endossou intencionalmente seu neófito como "deidade residente" nas terras de montanha a norte e a leste da Mesopotâmia.

Por que afastou Enlil seu mais jovem e amado filho para tão longe de Nippur?

Foram encontrados vários textos épicos sumérios abordando discussões e até lutas sangrentas entre os mais jovens deuses. Muitos selos cilíndricos descrevem cenas em que um deus se defronta com um deus.

Parece que a primitiva rivalidade entre Enki e Enlil foi continuada pelos filhos de ambos, acontecendo algumas vezes que irmãos se virassem contra irmãos - um conto divino de Caim e Abel. Algumas destas lutas eram contra uma deidade identificada como Kur, com toda a certeza, Ishkur/Adad. Isto bem pode explicar a razão pela qual Enlil julgou aconselhável garantir ao seu filho mais novo um domínio longínquo, a fim de o manter afastado das perigosas batalhas pela sucessão.

A posição dos filhos de Anu, Enlil e Enki e de suas proles emerge claramente na linhagem dinástica através de um artifício único sumério: a distribuição de uma categoria numérica a certos deuses. A descoberta deste sistema faz também vir à superfície a relação entre os membros do grande círculo dos deuses do céu e da terra quando a civilização suméria floresceu. Veremos que este supremo panteão era constituído por doze deidades.

A primeira pista sugerindo a aplicação aos grandes deuses do sistema numérico criptográfico apareceu com a descoberta de que os nomes dos deuses Sin, Shamash e Ishtar eram freqüentemente substituídos nos textos pelos números 30, 20 e 15, respectivamente. A mais alta unidade do sistema sexagesimal sumério - 60 - era associada a Anu; Enlil "era" o 50; Enki, o 40, e Adad, o 10. O número 10 e seus seis múltiplos dentro do número de base 60 eram deste modo associados a deidades masculinas e parecerá plausível que os números terminados em 5 fossem associados às deidades femininas. A partir daqui, surge a seguinte tábua criptográfica:

MASCULINO FEMININO

60 - Anu 55 - Antu

50 - Enlil 45 - Ninlil

40 - Ea/Enki 35 - Ninki

30 - Nanna/Sin 25 - Ningal

20 - Utu/Shamash 15 – Inanna/Ishtar

10 - Ishkur/Adad 5 - Ninhursag

6 deidades masculinas 6 deidades femininas

A Ninurta (e não nos devemos admirar com o fato), era associado o no. 50, tal como a seu pai. Por outras palavras, sua categoria dinástica foi convencionada numa mensagem criptográfIca: "Se Enlil vai, tu, Ninurta, calçarás seus sapatos; mas, até lá, não és ainda um dos doze, porque a categoria de '50' está ocupada".

Não devemos ficar admirados ao saber que, quando Marduk usurpou o reino de Enlil, ele insistiu em que os deuses o endossaram com “os cinqüenta nomes" para dar a entender que a categoria de "50" se tornara sua.

Houve muitos outros deuses na Suméria - filhos, netos, sobrinhas e sobrinhos dos grandes deuses - e houve também várias centenas de deuses de categoria vulgar, aos quais se chamavam "Anunnaki", e que estavam incumbidos (digamos assim) de "deveres gerais". Mas apenas doze constituíam o grande círculo. Eles, suas relações familiares e suas linhas de sucessão dinástica podem ser mais bem entendidos se observamos o quadro da página seguinte.


5

Os Nefilim - Povo dos Foguetes Faiscantes

Os textos sumérios e acádios não deixam dúvidas de que os povos do antigo Oriente Médio estavam convencidos que os deuses do céu e da terra eram capazes de se erguer da terra e ascender até aos céus, assim como de vaguear à vontade pela atmosfera terrestre.

Um texto aborda a violação de Inanna/Ishtar por uma pessoa não identificada, que justifica deste modo sua ação:

Um dia minha rainha,

Depois de ter cruzado os céus, cruzado a terra –

­Inanna,

Depois de ter cruzado os céus, cruzado a terra

­Depois de ter cruzado Elam e Shubur,

Depois de ter cruzado...

O hieródulo aproximou-se exausto, adormeceu.

Eu vi-a dos limites do meu jardim,

Beijei-a, fiz amor com ela.

Inanna, descrita aqui vagando pelos céus sobre várias terras situadas longe umas das outras - façanhas possíveis apenas voando -, fala, ela própria, numa outra ocasião, de seu vôo. Num texto a que S. Langdon (in Revista de Assiriologia e de Arqueologia Oriental) chamou "Uma Liturgia Clássica para Innini", a deusa lamenta sua expulsão da cidade que lhe pertencia. Agindo sob ordens de Enlil, um emissário, que trouxe "para mim a palavra do céu", entrou na sala do trono, "tocou-me com suas mãos sujas" e, depois de outras indignidades.

A mim, do meu templo, eles me fizeram voar;

Uma rainha, eu sou, a quem da minha cidade,

Tal como um pássaro, me fizeram voar.

Tal capacidade, tanto de Inanna como de outras importantes deidades, era com freqüência indicada pelos artistas antigos ao representarem os deuses, antropomórficos em todos os aspectos, como já vimos, com asas. As asas, como pode ser verificado através de numerosas descrições, não eram naturais, não faziam parte integrante do corpo, mas constituíam antes um acessório decorativo da indumentária dos deuses.




Inanna/Ishtar, cujas longas viagens são mencionadas em muitos textos antigos, alternava-se entre seu distante domínio original em Aratta e sua ambicionada residência em Uruk. Ela visitou Enki em Eridu e Enlil em Nippur, e também seu irmão Utu em seu quartel-general, em Sippar. Mas sua mais celebrada viagem foi ao Mundo Inferior, o domínio de sua irmã Ereshkigal. A viagem serviu de tema para contos épicos, como também de representações artísticas em selos cilíndricos - os mais antigos mostram a deusa com asas para acentuar o fato de ter voado sobre a Suméria até ao Mundo Inferior.



Os textos que relatam certa viagem arriscada mencionam o modo como Inanna colocou nela própria, meticulosamente, sete objetos primordiais para o início da viagem e como teve de ir se desfazendo deles à medida que passava através dos sete portões que conduziam ao domicílio da irmã. Estes objetos são também mencionados noutros textos que tratam das jornadas rumo ao céu de Inanna:

1. O SHU.GAR.RA ela pôs na cabeça.

2. "Brincos de medida" nas orelhas.

3. Correntes de pequenas pedras azuis à volta do pescoço.

4. "Pedras" gêmeas em seus ombros.

5. Um cilindro dourado nas mãos.

6. Fitas segurando seus seios.

7. A veste PALA envolvendo seu corpo.

Embora ainda ninguém tenha sido capaz de explicar a natureza e o significado destes sete objetos, nós sentimos que a resposta está desde há muito disponível. Escavando a capital assíria, Assur, de 1903 a 1914, Walter Andrae e seus colegas encontraram no templo de Ishtar uma estátua quebrada da deusa, que a mostra com vários "dispositivos" ligados ao peito e às costas. Em 1934, os arqueólogos escavando em Mari encontraram enterrada no solo uma estátua similar, mas intacta. Era uma imagem de tamanho natural de uma bela mulher. Seu invulgar toucado estava adornado com chifres, indicando que era uma deusa. Na presença dessa estátua de 4.000 anos, os arqueólogos ficaram emocionados com sua aparência de vida (num instantâneo, mal se pode distinguir entre a estátua e os homens vivos). Chamaram-lhe Deusa com um Vaso, porque ela segura um objeto cilíndrico.






Ao contrário das gravações planas ou baixos-relevos, esta representação tridimensional e em tamanho natural da deusa revela aspectos interessantes de seu traje. Na cabeça, não usa nenhum chapéu da moda, mas um elmo especial, em cujas laterais aparecem, salientes e adaptados às orelhas, uns objetos que fazem lembrar os fones de um piloto. Em seu pescoço e na parte superior do tronco, usa um colar de muitas e pequenas pedras (talvez preciosas); nas mãos segura um objeto cilíndrico que parece demasiado denso e pesado para ser um vaso de guardar água.

Debaixo de uma blusa de tecido transparente, duas fitas paralelas percorrem o peito ligando-se atrás e mantendo no lugar uma invulgar caixa de forma retangular. A caixa é mantida firme de encontro à parte traseira do pescoço da deusa e está firmemente ligada ao elmo por uma fita horizontal. O que quer que a caixa possa ter contido no seu interior era, com certeza, pesado, uma vez que o dispositivo é ainda suportado por duas almofadas largas nos ombros. O peso da caixa é ainda aumentado por um tubo que se liga à sua base por um fecho circular. Todo o complexo de instrumentos, porque se trata realmente de instrumentos, é mantido em posição com a ajuda de dois conjuntos de fitas que se entrecruzam nas costas e no peito da deusa.

O paralelo entre os sete objetos requeridos por Inanna para suas jornadas aéreas e o vestido e os objetos envergados pela estátua de Mari (e provavelmente também pela estátua mutilada encontrada no templo de Ishtar, em Ashur) é facilmente provado. Vemos os "brincos de medida" - os fones - em suas orelhas; as fiadas de "correntes" de pequenas pedras à volta do seu pescoço; as "pedras gêmeas" - as duas almofadas - nos ombros da deusa; o "cilindro circular" em suas mãos, e as fitas de apertar que cruzam seu peito. Ela está realmente vestida com um "traje PALA" ("veste de governante") e na cabeça usa o elmo SHU.GAR.RA, que significa literalmente "aquilo que faz andar longe pelo universo".

Tudo isto nos sugere que a indumentária era a de um aeronauta ou astronauta.

O Antigo Testamento chamava aos "anjos" do senhor malachim - literalmente, "emissários", que transportavam mensagens divinas e executavam ordens divinas. Como revelam tantas circunstâncias, eram homens divinos do ar: Jacó viu-os subindo uma escada para o céu, e foram eles que trouxeram a destruição aérea a Sodoma e Gomorra.

A versão bíblica dos acontecimentos que precedem a destruição das duas cidades pecaminosas ilustra o fato de que estes emissários eram, por um lado, antropomórficos em todos os aspectos e, por outro lado, podiam ser identificados como "anjos" assim que eram avistados. Compreendemos também que seu aparecimento era repentino. Abraão "levantou seus olhos e, ali à vista, estavam três homens a seu lado". Inclinando-se e chamando-lhes "Meus Senhores", ele rogou-lhes "Não passem sobre o vosso servo", e insistiu com eles para lhes lavar os pés e providenciar descanso e alimento.

Tendo agido como lhes pedia Abraão, dois dos anjos (o terceiro "homem" era afinal o Senhor em pessoa) prosseguiram depois viagem para Sodoma. Lot, o sobrinho de Abraão, "estava sentado às portas de Sodoma; e quando os viu, levantou-se ao encontro deles e, inclinando-se até o chão, disse: 'Se agrada aos meus senhores, peço-vos que venham à casa deste vosso servo e aí lavem vossos pés e pernoitem'. Depois, fez para eles uma festa, e eles comeram". Quando a notícia da chegada dos dois se espalhou, "todo o povo da cidade, velhos e novos, rodearam a casa e chamaram Lot para fora, perguntando-lhe: 'Onde estão os dois homens que vieram à tua casa esta noite’”?

Como podiam ser homens, que comiam, bebiam, dormiam e lavavam os pés e, não obstante, eram imediatamente reconhecidos como anjos do Senhor? A única explicação plausível é que aquilo que envergavam - os elmos ou uniformes - ou aquilo que transportavam - suas armas ­tornavam-nos reconhecíveis de imediato.

É certamente possível que transportassem armas características: os dois "homens" em Sodoma, que quase foram linchados pela multidão, "aniquilaram o povo à entrada da casa com a cegueira... e eles foram incapazes de achar o caminho". E outro anjo, aparecendo a Gedeão, quando ele foi escolhido para ser juiz em Israel, deu-lhe um sinal divino tocando uma rocha com seu bastão, fazendo logo saltar chamas da pedra.

A equipe chefiada por Andrae encontrou, no entanto, outra invulgar descrição de Ishtar em seu templo em Ashur. Mais uma escultura de parede do que o habitual relevo, mostra a deusa com um elmo justo decorado com "fones" estendidos como se tivessem suas próprias antenas, e usando ainda uns "óculos" muito evidentes, que faziam parte do elmo.



É inútil dizer que qualquer indivíduo que visse uma pessoa, do sexo masculino ou feminino, assim trajada, compreenderia imediatamente que encontrara um aeronauta divino.

As estatuetas de argila encontradas em colônias sumérias e que se acredita terem 5.500 anos de idade podem perfeitamente tratar-se de grosseiras representações desses malachim segurando armas parecidas com varinhas de condão. Em certos casos, a face é vista através de um visor de elmo. Em outros, o "emissário" usa um inconfundível toucado cônico divino e um uniforme com objetos circulares de função desconhecida.





As viseiras ou "óculos" das estatuetas apresentam um traço muito interessante, porque o Oriente Médio no 4º. milênio a.C. estava literalmente atolado de estatuetas muito finas que representavam, de maneira estilizada, a parte superior das deidades, exagerando sua característica mais marcante: um elmo cônico com visores ou óculos elípticos.



Uma enorme quantidade destas estatuetas foi encontrada em Tell Brak, um sítio pré-­histórico no rio Khabur, o rio em cujas margens Ezequiel viu o carro divino, alguns milênios mais tarde.

Indubitavelmente, não se trata de mera coincidência que os hititas, unidos à Suméria e à Acádia através da área de Khabur, tivessem adotado como signo escrito para "deuses" o símbolo

nitidamente decalcado dos "olhos" das estatuetas. Não admira também que este símbolo ou hieróglifo para "ser divino", expresso em estilos artísticos, tenha dominado a arte não só da Ásia Menor, mas também dos primeiros gregos durante os períodos minóico e micênico.



Os textos antigos indicam que os deuses colocavam esta peça especial não apenas para seus vôos nos céus da terra, mas também quando ascendiam aos distantes céus. Falando de suas visitas ocasionais a Anu em sua residência celestial, Inanna explica que ela própria podia empreender estas jornadas porque "o próprio Enlil cingia a divina peça ME à volta do meu corpo". O texto põe na boca de Enlil as seguintes palavras dirigidas à deusa:

Tu ergueste o ME,

Tu ligaste o ME às tuas mãos,

Tu reuniste o ME,

Tu juntaste o ME ao teu peito...

Ó rainha de todos os ME, ó radiante luz

Que com suas mãos se apodera dos sete ME.

Um antigo governador sumério convidado pelos deuses para ascender aos céus chamava-se EN.ME.DUR.AN.KI, que significava, literalmente, "governante cujo me liga céus e terra". Uma inscrição de Nabucodonosor II, descrevendo a reconstrução de um pavilhão especial para o "carro celestial" de Marduk, afirma que este pavilhão era parte da "casa fortificada dos sete ME do céu e da terra".

Os eruditos referem-se ao ME como "objetos de poder divino". Literalmente o termo tem sua raiz no conceito de "nadar nas águas celestiais". Inanna descreveu-o como parte da "veste celestial" que envergava para suas jornadas no Barco dos Céus. Os me eram, pois, partes da indumentária especial para voar nos céus da terra e também pelo firmamento afora.

A lenda grega de Ícaro situa o herói tentando voar com asas revestidas com penas adaptadas com cera a seu corpo. As provas do antigo Oriente Médio mostram que, embora os deuses possam ter sido representados com asas para indicar suas capacidades voadoras - ou por vezes talvez com uniformes alados como marca de sua posição de homens do ar -, eles nunca tentaram usar asas adaptadas para voar. Muito pelo contrário, usavam veículos para tais viagens.

O Antigo Testamento informa-nos que o patriarca Jacó, passando a norte num campo fora de Harah, viu "uma escada instalada na terra, e cujo topo alcançava os céus", pela qual "anjos do Senhor", laboriosamente, subiam e desciam. O próprio Senhor estava no topo da escada. E o estupefato Jacó "estava receoso e disse":

De fato, um Deus está presente neste lugar,

E eu não o sabia...

Quão intimidante é este lugar!

De fato, esta não é senão a residência do Senhor,

E esta é sua porta de entrada para os céus!

Há também dois pormenores interessantes neste conto. O primeiro, é que os seres divinos, subindo e descendo por esta "porta de entrada para os céus", usavam um equipamento mecânico, uma "escada". O segundo, é que o que Jacó viu o deixou na mais completa surpresa. A "residência do Senhor", a "escada" e os "anjos do Senhor" que usavam essa escada não estavam lá quando Jacó se estendeu para dormir ao relento. Repentinamente, aconteceu a intimidante "visão". E, pela manhã, a "residência", a "escada" e seus ocupantes desapareceram.

Podemos concluir que o equipamento usado pelos seres divinos era uma espécie qualquer de aeroplano que podia aparecer sobre um local, flutuar por um momento e desaparecer de vista outra vez.

O Antigo Testamento relata também que o profeta Elias não morreu na Terra, mas "subiu ao firmamento num furacão". Este não foi um acontecimento repentino ou inesperado. A ascensão de Elias aos céus fora previamente arranjada. Ele foi mandado a Beth-El ("casa do Senhor") num dia específico. Já se espalhara, entretanto, um rumor entre seus discípulos de que ele estava prestes a ser levado para os céus. Quando questionaram seu substituto acerca da veracidade do rumor, ele confirmou que, realmente, o "Senhor levará hoje o mestre". E depois:

Ali apareceu um carro de chamas,

E cavalos de chamas...

E Elias subiu até ao céu num furacão.

Ainda mais celebrado e certamente mais bem descrito foi o carro celestial visto pelo profeta Ezequiel, que habitou entre os deportados judeus nas margens do rio Khabur, na Mesopotâmia do Norte.

Os céus estavam abertos,

E eu vi as aparições do Senhor.

O que Ezequiel viu foi um ser de aparência humana, rodeado de brilho e esplendor, sentado num trono que estava colocado num "firmamento" de metal dentro do carro. O próprio veículo, que podia se mover para qualquer direção sobre rodas-dentro-de-rodas e levantar-se verticalmente do chão, foi descrito pelo profeta como um furacão resplandecente.

E eu vi

Um furacão vindo do norte,

Como uma grande nuvem com reflexos de fogo

E esplendor à sua volta.

E dentro dele, de dentro do fogo,

Havia uma radiação semelhante a um halo cintilante.

Alguns estudiosos da descrição bíblica (tais como Josef F. Blumrich, da NASA, EUA.) concluíram que o "carro", visto por Ezequiel, era um helicóptero consistindo em uma cabina assente em quatro suportes, cada um deles equipados com asas rotativas - um verdadeiro "furacão".

Cerca de dois milênios mais cedo, quando o governante sumério Gudea comemorava a construção do templo para seu deus Ninurta, ele descreveu que lhe aparecera "um homem que brilhava como os céus... pelo elmo em sua cabeça, ele era um deus". Quando Ninurta e dois companheiros divinos apareceram a Gudea, eles estavam por detrás do "divino pássaro preto do vento" de Ninurta. Como se apurou, o objetivo primário da construção do templo era fornecer uma zona de segurança, um recinto fechado dentro dos limites territoriais do templo para este "divino pássaro".

Para a construção deste recinto, relatou Gudea, foram necessárias gigantescas vigas e pedras maciças importadas de longe. Apenas quando o "divino pássaro" foi colocado dentro dos limites do recinto é que se considerou completa a construção do templo. E, uma vez no lugar, o "pássaro divino" "podia estacionar nos céus" e era capaz de "reunir céus e terra". O objeto era tão importante, "sagrado", que estava constantemente guardado e protegido por duas "armas divinas", o "supremo caçador" e o "supremo assassino", armas que emitiam feixes de luz e raios mortíferos.

A similitude das descrições bíblicas e sumérias, tanto nos veículos como nos seres que viajavam dentro deles, é óbvia. A descrição dos veículos como "pássaros", "pássaros de vento" e "furacão" que se podiam erguer em direção ao alto enquanto emitiam um esplendor não deixa dúvidas de que se tratava de um tipo qualquer de máquina voadora.

Enigmáticos murais desenterrados em Tell Ghassul, um local a leste do mar Morto, cujo nome antigo é desconhecido, podem lançar alguma luz no nosso tema. Datados de cerca do ano 3.500 a.C., os murais descrevem um largo "compasso" de oito pontas, a cabeça de uma pessoa de elmo dentro de uma câmara,em forma de sino e dois desenhos de aeroplanos mecânicos que bem podiam ter sido os "furacões" da Antiguidade.

Os textos antigos descrevem ainda alguns veículos usados para erguer aeronautas aos céus. Gudea relata que, enquanto o "pássaro divino" se levantava para rodear as terras, ele "lampejou sobre os tijolos erguidos". O recinto protegido foi descrito como MU.NA.DA.TUR.TUR ("pedra forte, lugar de descanso do MU"). Urukagina, que governava em Lagash, disse a respeito do "divino pássaro de vento": "O MU que ilumina como uma fogueira, eu fiz alto e forte". De igual modo, Lu-Utu, que governou em Umma no 3º. milênio a.C., construiu um local para um mu, "que avança numa fogueira", para o Deus Um, "no local indicado dentro do seu templo".

O rei babilônico Nabucodonosor II, registrando a reconstrução do recinto sagrado de Marduk, disse que, dentro de muros fortificados feitos de tijolo queimado e fulgurante mármore ônix.

Eu ergui a cabeça do barco ID.GE.UL

O carro da nobreza de Marduk.

O barco ZAC.MUKU, cuja abordagem é observada,

O supremo viajante entre céus e terra,

No meio do pavilhão eu o encerrei,

Protegendo bem os seus lados.

ID.GE.UL, o primeiro epíteto empregado para descrever este supremo viajante, ou "carro de Marduk", significa literalmente "alto para o céu, brilhante à noite". ZAG.MU.KU, o segundo epíteto descrevendo o veículo - claramente um "barco" aninhado num pavilhão especial - significa o "brilhante MU que serve para ir longe".

Felizmente, podemos provar que um mu, um objeto cônico terminando em linhas ovais, estava realmente instalado no interior, no sagrado recinto fechado dos templos dos grandes deuses do céu e da terra. Uma moeda antiga, encontrada em Biblos (a Gebal bíblica) na costa mediterrânica do atual Líbano, representa o Grande Templo de Ishtar. Embora mostrado como se pertencesse ao 1º. milênio a.C., a exigência de que fossem construídos e reconstruídos templos sobre o mesmo local e de acordo com o plano original significa, sem dúvida, que vemos os elementos básicos do templo original de Biblos copiados de milênios mais cedo.

A moeda representa um templo composto de duas partes. Numa face da moeda está gravada a estrutura do templo principal, imponente com sua entrada de colunas. Por detrás dela há um pátio interior, ou "área sagrada", escondido e protegido por um alto e maciço muro. É nitidamente uma área elevada, uma vez que só se pode chegar a ela subindo vários lances de escadas.



No centro desta área sagrada está situada uma plataforma especial, cuja trave-mestra lembra a da Torre Eiffel, como que construída para suportar um enorme peso. E na plataforma está o objeto de toda esta segurança e proteção - um objeto que só pode ser um mu.

Tal como a maior parte das palavras silábicas sumérias, mu tinha um significado primário: "aquele que se ergue em linha reta". Suas trinta e tantas gradações de significado englobam "alturas", "fogo", "comando", "período contado", como também (em tempos posteriores) "aquele pelo qual alguém é lembrado". Se remontarmos no tempo à procura do sinal escrito para mu desde suas estilizações cuneiformes assírias e babilônias até a original pictografia suméria, vemos surgir a seguinte prova pictórica:




Vemos nitidamente uma câmara cônica representada separadamente ou com uma estreita seção ligada a ela. "De uma dourada 'câmara-no-céu' eu olharei por vocês", prometeu Inanna ao rei Assírio. Seria este mu a "câmara celestial"?

Um hino a Inanna/Ishtar e às suas jornadas no Barco dos Céus indica claramente que o mu era o veículo no qual os deuses deambulavam alto e longe pelos céus:

Senhora dos céus:

Ela enverga a veste celestial;

E corajosamente ascende até às alturas.

Por sobre todas as terras povoadas

Ela voa no seu MU.

Senhora, que no seu MU

Até às alturas do céu se levanta alegremente.

Sobre todos os locais de descanso ela voa no seu MU.

Há provas que mostram que o povo do Mediterrâneo Oriental avistou realmente tal objeto semelhante a um foguete não apenas no recinto do templo, mas em vôo real. Os glifos hititas, por exemplo, mostram de encontro ao fundo de um céu estrelado mísseis que se cruzam, foguetes montados em plataformas de lançamento e um deus no interior de uma radiante câmara.


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